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Solidão em idosos do meio rural do concelho de Bragança

Hélder Jaime Fernandes

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Mestrado em Psicologia do Idoso SOLIDÃO EM IDOSOS DO MEIO RURAL DO CONCELHO DE BRAGANÇA Helder Jaime Fernandes Porto, 2007 U. PORTO Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação Mestrado em Psicologia do Idoso SOLIDÃO EM IDOSOS DO MEIO RURAL DO CONCELHO DE BRAGANÇA Helder Jaime Fernandes Dissertação apresentada à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação para obtenção do grau de Mestre em Psicologia com especialização em Psicologia do Idoso, sob a orientação do Professor Doutor Félix Neto. Porto, 2007 U. PORTO Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação RESUMO Após o enquadramento teórico onde se exploram os conceitos sobre o envelhecimento e a solidão, e também sobre a situação de saúde, inicia-se a parte prática no sentido de procurar encontrar os níveis de solidão subjectiva que os idosos reconhecem neles próprios. Objectivo: Trata-se de um estudo exploratório e descritivo, utilizando dois instrumentos de medida, um deles, a escala SELSA, concebida por DiTommaso, Brannen e Best (2004); e outro, a escala UCLA, traduzida e validada para a população Portuguesa por Neto (1989). Metodologia: A amostra inclui 179 idosos, 56 da aldeia de Rio de Onor e 123 da aldeia de Parada, com idades compreendidas entre os 60 e os 92 anos. A variabilidade dos itens e as componentes de solidão associadas à diferença entre as características da amostra foi testada através do teste ANOVA e X 2 . Na análise factorial realizada para os itens da escala SELSA, (DiTommaso, Brannen e Best, 2004) foi aceite o nível de saturação de valores iguais ou superiores a 0.4 e a consistência interna dos itens de cada componente foi testada através do alpha de Cronbach, tendo sido aceite a consistência interna a partir de valores iguais ou superiores a 0.7. Posteriormente foram feitas análises de variância (ANOVA) dos níveis de solidão por variáveis de caracterização. Resultados: Foi encontrado que as variáveis sociodemográficas, de saúde e antropométricas influenciam o nível de percepção subjectiva de solidão. Conclusão: Foi confirmada a Hipótese central do estudo: existe uma correlação positiva entre a maioria dos itens da escala SELSA de DiTommaso, Brannen e Best (2004) e os valores relativos à percepção subjectiva de solidão sentida pelos idosos. Foi confirmado que existem diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de percepção subjectiva de solidão sentida por idosos na dimensão social. Verificaram-se relações entre a percepção subjectiva de solidão, as variáveis de caracterização sócio-demográfica e as variáveis de caracterização do estado de saúde. Palavras-chave: Percepção; Solidão; Comunitarismo; Idosos; envelhecimento SUMMARY After the theoretical framing where if they explore the concepts on the aging and the loneliness, and also on the health situation, initiates it part practical in the direction to look for to find the levels of subjective loneliness that the aged ones recognize in proper them. Objective: Is a exploratory and descriptive study, using two instruments of measure, one of them, scale SELSA, conceived for DiTommaso, Brannen and Best (2004); and another one, the scale UCLA, translated and validated for the Portuguese population for Neto (1989). Methodology: The sample includes 179 aged ones, 56 of the village of Rio de Onor and 123 of the village of Parada, with ages understood between the 60 and 92 years. The variability of the item and the components of loneliness associates to the difference enter the characteristics of the sample were tested through test ANOVA and X 2 . In the carried through factorial analysis for the items’ of scale SELSA, (DiTommaso, Brannen and Best, 2004) has accepted the level of saturation of equal values or superior the 0,4 and internal consistency of the items’ of each component was tested through alpha of Cronbach, having been it has accepted the internal consistency from equal or superior values the 0.7. Later analyses of variance (ANOVA) of the levels of loneliness for characterization variable had been made. Results: It was found that the sociodemographics variables, health and anthropometrics, influence the level of subjective perception of loneliness. Conclusion: The central hypothesis of the study was confirmed: a positive correlation exists enters the relative majority of the item of scale SELSA of DiTommaso, Brannen e Best (2004) and values to the subjective perception of loneliness felt for the aged ones. It was confirmed that significant differences between the levels of subjective perception of loneliness felt for aged exist statistical in the social dimension. Relations between the subjective perception of loneliness, the variable of sociodemographic characterization and the variable of characterization of the health state had been verified. Word-key: Perception; Loneliness; Communitarian; Aged; Aging RÉSUMÉ Après l'encadrement théorique où s'explorent les concepts sur le vieillissement et la solitude, et aussi sur la situation de santé, s'initie la partie pratique dans le but de chercher à trouver les niveaux de solitude subjective que les personnes âgées reconnaissent dans elles-mêmes. Objectif : S'agissent d'une étude exploratoire et description, en utilisant deux instruments de mesure, un d'eux, l'échelle SELSA, conçue par DiTommaso, Brannen e Best (2004); et autre, l'échelle UCLA, traduite et validée pour la population Portugaise par Petit-fils (1989). Méthodologie : L'échantillon inclut 179 personnes âgées, 56 du village de Rio de Onor et 123 du village de Parada, avec des âges compris entre les 60 et 92 années. La variabilité des items et les composantes de solitude associées à la différence entre les caractéristiques de l'échantillon a été expérimentée à travers l'essai ANOVA et X 2 . Dans l'analyse factorielle réalisée pour les items de l'échelle SELSA, (DiTommaso, Brannen et Best, 2004) a été accepté le niveau de saturation de valeurs égales ou supérieurs à 0,4 et à consistance interne des items de chaque composante il a été expérimenté à travers l'alpha de Cronbach, en ayant été accepté la consistance interne à partir de valeurs égales ou supérieures à 0.7. Ultérieurement ont été faites des analyses de variance (ANOVA) des niveaux de solitude par des variables de caractérisation. Résultats : Il a été trouvé que les variables socio démographiques, de santé et anthropométriques influencent le niveau de perception subjective de solitude. Conclusion : A été confirmée l'Hypothèse centrale de l'étude: existe une corrélation positive entre à la majorité des items de l'échelle SELSA de DiTommaso, Brannen et Best (2004) et des valeurs relatifs à la perception subjective de solitude sentie par les personnes âgées. Il a été confirmé qui existent des différences statistiquement significatives entre les niveaux de perception subjective de solitude sentie par des personnes âgées dans la dimension sociale. Se sont vérifiées des relations entre la perception subjective de solitude, les variables de caractérisation socio-démographique et les variables de caractérisation de l'état de santé. Mot-clé : Perception; Solitude; Communautarisme; Personnes âgées; vieillissement Pensamento “Há uma idade na vida em que os anos passam demasiado depressa e os dias são uma eternidade” Virginia Wolf Agradecimentos Agradeço a todas as pessoas que partilharam os momentos de reflexão e de aprendizagem que obtive no decorrer desta investigação. Em especial: - À Teresa - Aos meus pais e irmãos - Ao Sr. António Zenha - À Prof. Augusta Mata - À Prof. Dr.ª Augusta Veiga Branco - Ao Prof. Dr. Fernando Pereira - À Prof. Dr.ª Emília Eduarda Magalhães - Ao Prof. Carlos Magalhães - Aos meus alunos Índice de Figuras Pag. Figura 1 – Pirâmide de Idades de Portugal 1960 -2000 9 Figura 2 – Relação entre saúde e doença 27 Figura 3 – Modelo de relação entre saúde e doença 28 Figura 4 – Distribuição dos valores da mostra segundo a idade 99 Figura 5 – Distribuição dos valores da amostra: número de horas de sono 117 Índice de Tabelas Pag. Tabela 1 – Sentimentos associados à solidão 38 Tabela 2 – Distribuição dos valores da amostra segundo a localidade 98 Tabela 3 – Distribuição dos valores absolutos da distribuição da variável da amostra: escalões etários 99 Tabela 4 – Distribuição dos valores absolutos e percentuais da variável localidade da amostra e género 100 Tabela 5 – Distribuição dos valores absolutos e percentuais da variável da amostra segundo a localidade e as habilitações literárias 100 Tabela 6 – Distribuição dos valores absolutos e percentuais da variável da amostra segundo a localidade e o estado civil 101 Tabela 7 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: rendimento mensal familiar 107 Tabela 8 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: rendimento 108 Tabela 9 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: rendimento chega ao fim do mês 108 Tabela 10 - Distribuição dos valores absolutos das variáveis da amostra: a localidade e a reforma 108 Tabela 11 - Distribuição cruzada dos valores absolutos da variável da amostra: razão de reforma, por cada aldeia 109 Tabela 12Distribuição cruzada dos valores absolutos da variável da amostra: idade de reforma em cada uma das aldeias 109 Tabela 13 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: “Que Ocupação ou ócio” em cada uma das aldeias 110 Tabela 14 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: “Que Ocupação ou ócio” em cada uma das aldeias 110 Tabela 15 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: “Que Ocupação ou ócio” em cada uma das aldeias 111 Tabela 16 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: “Que Ocupação ou ócio” em cada uma das aldeias 111 Tabela 17 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: “Que Ocupação ou ócio” em cada uma das aldeias 111 Tabela 18 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: “Que Ocupação ou ócio” em cada uma das aldeias 112 Tabela 19 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: “Que Ocupação ou ócio” em cada uma das aldeias 112 Tabela 20 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: Consumo de álcool 113 Tabela 21 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: quantidade de consumo de álcool por dia 114 Mestrado em Psicologia do Idoso 4 FPCE – U. Porto 5 1ª PARTE – ABORDAGEM TEÓRICA Mestrado em Psicologia do Idoso 6 FPCE – U. Porto 7 1 – ENVELHECIMENTO PSICOSSOCIAL A pessoa comporta diferentes dimensões, entre elas a biológica, psicológica, sociológica, cultural e espiritual, e interage com o ambiente que o rodeia. Nesta concepção, a pessoa idosa resulta, normalmente, da fixação de uma idade cronológica que são os 60 ou 65 anos, a qual tem vindo a perder algum sentido social, uma vez que a longevidade e a qualidade de vida destas pessoas se vai alterando, Moniz (2003), criando uma nova percepção deste fenómeno, o envelhecimento. Partindo do pressuposto da dimensão psicológica do “envelhecer”, assume-se também a natureza subjectiva e portanto a unicidade na percepção implícita ao processo de envelhecimento. O que se questiona na verdade neste estudo? No fundo pretende-se perscrutar a consciência que as pessoas têm acerca do seu próprio envelhecimento. Recuperando a ideia de Damásio (2000, pag. 32) “a consciência é um fenómeno inteiramente privado, relativo à unicidade do ser, e portanto na primeira pessoa, que ocorre no interior de um outro processo privado, e portanto na primeira pessoa a que chamamos mente”. Porém a consciência e a mente estão intimamente relacionados com os comportamentos externos, razão pela qual cada um de nós ao observar-se comportamentalmente passa a ter acesso a esses fenómenos privados e deles passa a ter consciência. Podemos assim aceder à percepção subjectiva de alguém através dos comportamentos que vai expondo ao longo do seu percurso de vida, e à consciência que tem deles. Uma percepção traduz só por si a natureza subjectiva do que a humanidade percepciona de mundo, no contexto do mundo em que vive. Uma percepção não é uma imagem passiva da realidade, mas sim uma construção mental estruturada sobre informações captadas do exterior. Acerca deste mesmo fenómeno humano, percepção, importa reter a noção que Damásio (2000) explicita quando diz que o processo de percepcionar é um processo que demora tempo. Acontece muitas vezes que logo após a estimulação sensorial, o indivíduo não descodifica a mensagem, mas será capaz de fazê-lo um ou dois segundos depois. Esta noção é importante ser aqui relembrada porque determina a diferença entre a experiência e a consciência da experiência. Aceder a um conjunto de factos vividos, para perscrutar a “solidão” tem que, necessariamente, passar pela análise dos sentimentos que os sujeitos foram construindo a partir das percepções das experiências vividas e que ao longo dos tempos foram ficando retidas em memória. Dito de outra forma, só é possível aceder à percepção de solidão depois de aceder à construção mental que o sujeito faz ao nível da consciência, a partir dos sentimentos Mestrado em Psicologia do Idoso 8 emocionais que construiu, baseado nas percepções que foi tendo do mundo, tal como e onde o experiênciou. Se o idadismo entrou no vocabulário europeu, e português também, é porque este termo corresponde a uma realidade social nova, que é percepcionada pelos indivíduos que o expressam. Em vez das discriminações raciais e sexistas, tem-se reflectido agora sobre a discriminação da idade. Sempre que se abordam estes temas abordam-se três questões essenciais, como afirma Puijalon e Trincaz (2000): os idosos são muito numerosos, causam elevados custos, os seus valores são obsoletos. Faz sentido acerca desta realidade abordar a subjectividade, uma vez que esta descrição dos idosos e do envelhecimento não é unânime, nem pode, e é fortemente discutível. Subjectivo, (in Dicionário Houaiss, 2003), refere-se a algo que não tem objectividade nem parcialidade, que é tendencioso, emocional e passional, que é independente do que é concreto ao objectivo, pertencente à substância ou ao sujeito essencial, o que explica claramente a noção de unicidade para um determinado pensamento ou juízo de valor. Todavia, e como lembra Damásio (2000, pag. 350), “a ideia de como as experiências subjectivas não são acessíveis do ponto de vista científico é absurda. (…) O conhecimento obtido a partir das observações subjectivas, por exemplo, o conhecimento proveniente de introspecção, pode inspirar a experiências objectivas e, é bem evidente, as experiências subjectivas podem ser explicadas em função dos conhecimentos científicos actualmente disponíveis”, razão pela qual se acede ao pensamento subjectivo dos idosos questionando-os, para através do discurso directo, poderem expressar a sua percepção subjectiva, colocando assim através dos fonemas a materialização da ideia e dando objectividade às experiências vivênciadas. Este fenómeno do aumento do número de idosos tem preocupado os governantes e as entidades mundiais, europeias e nacionais. Assim sendo, e dada a importância deste assunto, será abordado seguidamente a demografia do envelhecimento, as teorias do envelhecimento, e, finalmente, o tema em estudo nesta pesquisa, a solidão. 1.1 - DEMOGRAFIA DO ENVELHECIMENTO O envelhecimento assenta principalmente na maior longevidade dos indivíduos, apesar de haver outros factores que também contribuem, este parece ser o principal, o aumento da esperança de vida, como afirma o INE (2002). FPCE – U. Porto 9 O envelhecimento demográfico define-se assim como o aumento da proporção de idosos na população total. Esse aumento consegue-se em detrimento da população jovem, e/ou em detrimento da população activa. Paralelamente ao envelhecimento demográfico surge o envelhecimento biológico, que se traduz na alteração progressiva das capacidades de adaptação do corpo nos seus vários sistemas, verificando-se consequentemente, um aumento gradual das probabilidades de morrer devido a determinadas doenças que podem precipitar o fim da vida (INE, 2002). Acontece também associado a este fenómeno o envelhecimento psicológico, onde se verificam alteração a nível psicológico. É também sabido e aceite pela comunidade científica que as pessoas idosas estão sujeitas a determinadas doenças e determinantes externos que podem provocar perturbações mentais ou de comportamento. Em Portugal, as alterações na estrutura demográfica estão bem patentes na comparação das pirâmides de idade de 1960 e 2000. Este é um fenómeno que se verifica na maioria dos países desenvolvidos e também em alguns países em desenvolvimento. Ao analisar estas duas pirâmides verifica-se um estreitamento da base, que se traduz na diminuição da natalidade e consequente diminuição do grupo de jovens, e um alargamento do topo da pirâmide, que se refere ao aumento da longevidade, da esperança de vida. Estas alterações notórias em Portugal não aconteceram uniformemente em todas as regiões do mundo. O mesmo acontece ao nível do nosso país, sendo que as dinâmicas regionais têm um peso significativo na distribuição do envelhecimento pelas diferentes regiões de Portugal. Segundo o INE (2002), numa repartição por unidade territoriais para fins estatísticos (NUTS), verificou-se que o Norte detinha a mais baixa percentagem de idosos do continente, assim como a faixa litoral, sendo que a maior importância pertencia ao Alentejo, Algarve e Interior. Segundo uma notícia publicada no Jornal de Noticias a 31 de Outubro de 2006, Portugal será o quarto país da União Europeia com maior número de idosos em 2050, Figura 1 – Pirâmide de Idades de Portugal 1960 -2000 Mestrado em Psicologia do Idoso 10 ano em que a faixa etária dos 60-79 anos representará um quarto da população europeia, de acordo com números analisados no Fórum sobre o Futuro Demográfico da Europa que decorreu em Bruxelas em Outubro de 2006. De acordo com as estatísticas que serviram de suporte às discussões deste Fórum da iniciativa da Comissão Europeia e se nada for feito para contrariar as tendências actuais em matéria de envelhecimento da população, será nos países do Sul que este fenómeno assumirá maior gravidade em meados do século, embora ele afecte todos os estados-membros da União. Portugal registará, então, 58,1% de idosos (contra 24,9% em 2004), a Grécia 58,8, a Espanha 67,5 e a Itália 66%. O crescimento natural (diferença entre o número de nascimentos e o de óbitos) da população portuguesa evoluirá de um saldo positivo de 7 em 2004 para um saldo negativo de -1326 em 2050. A população irá diminuir de 10,5 para 10 milhões. E nem a imigração, que sobe de 42 para 808 milhares, evitará a mais que duplicação do número de idosos. Entre 2004-2050, o índice de fertilidade irá aumentar de 1,5 para 1,6 tanto em Portugal como na UE. A esperança de vida das portuguesas sobe de 81,0 para 86,6 anos e a dos portugueses de 74,2 para 80,4 anos. Estes cenários deixam antever mudanças no mercado de trabalho, nos cuidados de saúde, nos regimes de pensões, nos sistemas educativos e nas infraestruturas habitacionais e urbanas. Por exemplo, a parte da despesa pública com reformas no índice de riqueza (PIB) de Portugal aumenta de 11,1% em 2004 para 16% em 2030 e 20,8% em 2050 (contra 10,6, 11,9 e 12,8 na UE). O envelhecimento populacional é hoje um fenómeno mundial. O aumento da perspectiva de vida não é mais um privilégio dos países desenvolvidos. Entretanto, somente nas últimas décadas, é que voltaram a sua atenção para as questões científicas, politicas, económicas, culturais, sociais e de saúde provocadas por esse fenómeno, em grande escala. Desde a década de 80, observa-se que, a maioria dos idosos vive em países do terceiro mundo, facto que se opõe à crença de que a longevidade esta associada somente aos países mais desenvolvidos como ocorre na Europa ou na América do Norte (Veras, et al. (2000), citado por Gaioli (2004)). O aumento do número de idosos, bem como a maior longevidade do ser humano, não devem ser considerados um problema, pois são conquistas decorrentes do processo de envelhecimento social. Cabe, pois, à sociedade criar condições para que o homem, ao viver mais tempo, possa usufruir de melhores condições de vida, considerando as alterações normais do processo de envelhecimento. No entanto, são muitas as dificuldades enfrentadas pelos idosos no decorrer da velhice, sendo que varias delas são decorrentes da fragilidade e vulnerabilidade próprias do estado FPCE – U. Porto 11 fisiológico. Tais estados podem torná-los, potenciais vítimas da crescente violência social observada nos nossos dias (Gaioli, 2004). Esta presença e permanência afirmadas dos idosos na sociedade portuguesa têm como adjuvante os grandes avanços científicos nas ciências da saúde. Estes avanços além de permitirem uma melhor saúde aos idosos, têm influência nas estruturas sociais que apoiam este estrato etário, que também são reforçadas pela solidariedade humana ou ausência dela. Costa (2005, pag.39) refere que “Portugal, em termos de morbilidade, a elevada prevalência de determinadas patologias da população idosa determina que um terço dos internamentos seja por reumatismos, doenças cardiovasculares, doenças pulmonares crónicas, diabetes e doenças mentais”. Assim, a problemática do envelhecimento não se compreende verdadeiramente se não se analisar as mudanças sociais e individuais sobre a idade avançada. Assim, será necessário não só compreender este fenómeno do envelhecimento como um fenómeno colectivo, mas também um fenómeno individual. A nível individual há imensas mudanças que afectam os idosos, desde a nível biológico, psicológico, social entre outros, Lefrançois (2004). Será então descrito seguidamente as teorias que foram encontradas para explicar e caracterizar essas mudanças. Mestrado em Psicologia do Idoso 12 FPCE – U. Porto 13 1.2 - TEORIAS DO ENVELHECIMENTO Para o conhecimento do significado de uma palavra, há que procurar a sua origem etimológica. Velhice deriva de velho, que procede do latim veclus, vetulusm definidos como «pessoa de muita idade», segundo Fernández-Bellasteros (2000) citado por Magalhães (2004). Costa (2002, pag.37) define o envelhecimento como “processo experencial subjectivo, que pode definir-se como a auto-regulação exercida através de decisões e escolhas para a adaptação ao processo de senescência.” Costa (2002, pag.37) adiciona um novo conceito na definição de envelhecimento: a senescência. Segundo o mesmo autor “o envelhecimento é um processo segundo o qual, o organismo biológico, tal como o corpo humano, existe no tempo e muda fisicamente, sendo que da senescência resulta um aumento da vulnerabilidade e a probabilidade de morte”. Embora não exista ainda uma base fisiológica, psicológica, ou social que permita marcar o seu início, o envelhecimento traduz-se por uma diminuição das capacidades de adaptação ao meio e às agressões da vida, refere Costa (2002). As diferenças de envelhecimento entre os seres humanos permitem dizer “envelhecimentos” em vez de “envelhecimento”, porque cada indivíduo, portador de uma carga genética única, adquire um envelhecimento diferente, consoante influências substanciais da nutrição, estilos de vida e ambiente. Birren e Renner (1985) referem envelhecer como “mudanças regulares, que ocorrem em organismos geneticamente maduros, que vivem em condições ambientais específicas, à medida que a idade cronológica avança”. Segundo Paúl e Fonseca (2005, pag. 28) o envelhecimento “com base na teoria do caos, pode ser definido como um processo de aumento de entropia com a idade, da qual pode surgir a ordem ou a desordem, a dinâmica do envelhecimento (gerodinâmica) trata da série finita de mudanças em direcção a uma maior desordem e estruturas ordenadas de maior diferenciação (ser único)”. Já Yates (1993) citado pelos autores anteriores, considera o envelhecimento como um processo termodinâmico de quebra de energia, que é geneticamente determinado e condicionado ambientalmente, deixando resíduos que progressivamente aumentam a probabilidade de ocorrência de muitas doenças, de acidentes e de instabilidades dinâmicas, que por fim resultam na morte, e este também se manifesta por “declínio Mestrado em Psicologia do Idoso 20 1.2.3. Alterações associadas ao processo de envelhecimento Reportar sobre as principais alterações no processo de envelhecimento não implica apenas falar sobre as principais doenças que afectam este estádio do desenvolvimento, tanto que os grandes problemas não se limitam às doenças. As doenças talvez sejam o menor dos problemas que afectam os idosos dado que o conhecimento científico tem apresentado uma manifesta coincidência entre a esperança de vida e esperança de saúde, como enuncia Costa (2005). O mesmo autor, defende que “situações como a solidão, o sentido de perda dos contactos familiares e sociais, a carência de recursos económicos ou de suporte social e a perda de autonomia (condicionante da sua incapacidade e dependência) são os novos e os velhos motivos que continuam a perturbar o sistema global de cuidados que opera com os idosos, ao mesmo tempo que estes são os alvos mais directos”. Além disso “a idade não se revela uma medida adequada para determinar o estado de saúde das pessoas”, segundo Costa (2005). As alterações decorrentes do envelhecimento não afectam ao mesmo tempo todos os idosos nem os afectam da mesma maneira. Por isso, não podemos afirmar que existe só um tipo de idade, existem vários: idade cronológica, idade biológica, idade psicológica, idade emocional e idade social, entre outras, que variam segundo os patamares da nossa perspectiva de avaliação. Quando falamos de idade cronológica falamos no número exacto de anos que o indivíduo possui naquele momento. A idade cronológica não se apresenta como um bom critério para entender as alterações consequentes do envelhecimento de um indivíduo porque o número de anos não fornece informação completa sobre a sua saúde, estado psicológico, papel social e qualidade de vida. Outro tipo de idade que se deve ter em conta no estudo das alterações associadas ao envelhecimento é a idade biológica que se encontra relacionada com a evolução/envelhecimento do organismo. Para Sachie (1992) citado por Paúl e Fonseca (2005) “o declínio de natureza diferencial não atinge todas as funções nem todos os indivíduos de modo uniforme, nem mesmo depois dos 80 anos. As pessoas mantêm selectivamente algumas capacidades, enquanto outras se deterioram, provavelmente em função das doenças cardiovasculares, da educação e do nível ocupacional”. Já por si, idade psicológica e idade social são variâncias do envelhecimento também afectadas por vários factores. Na idade psicológica, há o intuito de se reportar sobre a maturidade mental da pessoa, das suas capacidades cognitivas. O evoluir da idade psicológica é afectado pelo modo que o indivíduo vê a sua vida e como age em FPCE – U. Porto 21 função do seu pensar. Na idade social, o indivíduo está à mercê das dinâmicas sociais. A sociedade em torno do indivíduo é que classifica o seu envelhecimento. Segundo Paúl e Fonseca (2005), existe “uma ideia fundamental ao iniciarmos o estudo sobre o processo de envelhecimento: a variabilidade interindividual dos idosos é superior à verificada noutros grupos etários”. O estado de vulnerabilidade e fragilidade próprias do envelhecimento podem transformar os idosos em vítimas potenciais da violência por parte do cuidador. Os factores principais que influenciam as alterações associadas ao processo de envelhecimento tendo em conta as ideias referidas por Costa (2005), são:  Biologia humana (capacidades funcionais, físicas, mentais e sociais e respectiva capacidade de adaptação);  Ambiente;  Hábitos diários de vida;  Informação a que se tem acesso ao nível da educação para a saúde;  Cuidados recebidos;  Capacidade de sociabilização e sociedade onde está inserido Porém, gostaríamos de salientar que as pessoas intimamente próximas a cada idoso desempenham um papel importantíssimo. A presença/ausência e a relação/não relação entre outros binómios, são co-factores que levam a família e/ou os amigos do idoso a catalizar o seu processo de envelhecimento e respectivas alterações. Podemos resumir as alterações associadas ao processo de envelhecimento, da seguinte maneira: - perda progressiva das capacidades do corpo; - não renovação das capacidades perdidas; - transformação dos processos sensoriais, perceptivos, cognitivos e afectivos; - mudança no auto-conceito; - alteração do seu papel social; - perda progressiva da autonomia. Desta forma os idosos apresenta uma complexa natureza de necessidades. As necessidades dos idosos decorrentes do processo de velhice são várias e entre os autores consultados existe uma linha mais ou menos orientadora que cai sobre as seguintes distinções: necessidades sociais e familiares, necessidades físicas e psicossociais e necessidades socio-económicas. Mestrado em Psicologia do Idoso 22 Em numerosos estudos, Veja (1990) citado por Sánchez e Ulacia (2005), afirma que os próprios idosos consideram que os seus problemas principais são, pela seguinte ordem, os económicos, médicos, de solidão e exclusão familiar. Ainda que estes resultados dependam da forma como as perguntas são feitas e as características da população estudada, são bastante significativos. Demonstram que o que podia ser uma etapa da vida livre de preocupações económicas e cheia de actividades lúdicas, como é para apenas alguns idosos, converte-se em bastantes casos num período de escassez, problemas de saúde e solidão. Os problemas de solidão e relacionamento familiar e social ocupam um lugar destacado, como os próprios idosos reconhecem. As pessoas idosas têm basicamente as mesmas necessidades afectivas interpessoais que as crianças, os jovens e os adultos (Sánchez e Ulacia, 2005), mas têm-nas frequentemente menos satisfeitas. A mesma conclusão se chega tendo em conta os diferentes tipos de apoio social que estes necessitam: apoio instrumental, que se refere a aspectos materiais como ajuda económica; apoio informal, que se refere a informações, ajuda para pensar ou encontrar alternativas; e apoio emocional, que é o sentimento de pertença a alguém, que se é valorizado, cuidado, desejado e querido. Neste contexto deve ser estudada a sexualidade na velhice, porque na maior parte dos casos é o parceiro que satisfaz esta necessidade e oferece ainda outros apoios. Não se trata de impor um modelo jovem de sexualidade às pessoas idosas, mas oferecer-lhes a possibilidade de que se toquem, se atraiam, enamorem e vinculem. Sobre tudo, a possibilidade de compartir a intimidade com outra pessoa. Em tudo isto a actividade sexual pode ter um lugar implícito e destacado, não entendendo esta como actividade orientada para o acto de coitar, mas sim num sentido mais amplo, que pode incluir o coito se este for possível e desejado. Trata-se de um conceito de sexualidade muito mais rico em relação ao que normalmente consideramos, pois trata-se de desfrutar do prazer do contacto corporal global e da comunicação, assim como a segurança emocional que dá o sentir-se querido. O vínculo afectivo é dos mais importantes ao longo do ciclo da vida. É o vínculo que estabelecem as crianças com os pais e mantêm até que estes morram. É também frequente que se formem vínculos de apego com os irmãos e com o parceiro sexual, se as relações são satisfatórias e existe um compromisso estável. O sistema familiar durante a última parte da vida é muito variável, pois junto com a diversidade própria dos adultos, acresce todas as situações em que os membros do casal ficam em casa com os filhos adultos, realidade muito frequente hoje em dia, ou ficam viúvos, ou passam a viver numa residência. A maior parte das FPCE – U. Porto 23 diferenças que se encontram em torno desta realidade é devida a situações de necessidade que não depende da vontade das pessoas. A sexualidade na velhice é assim um tema importante a ter em conta nesta investigação, pois o ser humano necessita de uma relação íntima para não se sentir só, sendo este um aspecto importante, uma dimensão da solidão. Mestrado em Psicologia do Idoso 24 FPCE – U. Porto 25 1.3. SITUAÇÃO DE SAÚDE “Saúde” é uma palavra que se diz em todo o lado. Utiliza-se com frequência no nosso quotidiano, sobretudo quando somos nós que estamos em causa. É uma palavra que não nos abandona mais, mesmo quando o corpo se arrasta e desfalece. Se se faz esquecer, é apenas momentaneamente. Segundo Amado (1990), no início da Humanidade, a Saúde era vista como uma luta pela sobrevivência, na medida em que existia uma fuga essencialmente aos perigos humanos, dos animais e do ambiente. Neste sentido, situava-se na linha do instinto de conservação da espécie e não pelo padrão da mentalidade que possuíam. Com o sedentarismo, o Homem perspectiva melhor bem-estar e estabilidade, de forma a satisfazer as necessidades humanas básicas que o nómada não possuía. Por sua vez, com o aparecimento das civilizações, começa-se a associar o estado de saúde-doença a fontes divinas, recorrendo-se muitas vezes aos sacerdotes e feiticeiros. Estes oravam e faziam sacrifícios aos deuses com o intuito de atendê-los e proteger os povos dos males que os afligiam. Posteriormente, a Saúde foi vista consoante a robustez física do Homem. Assim ser forte e bem constituído era sinónimo de ser saudável. Esta concepção acerca dos aspectos constitucionais perdurou até cerca do séc. XVI. A palavra saúde deriva da raiz latina sanus que sigifica são. O Petit Larousse define saúde como o estado daquele que está bem, que se sente bem. Sendo pois, um estado positivo no que respeita à saúde física, ao equilíbrio mental e à vida social de um indivíduo. Cobre ainda uma outra noção de bem-estar e de desenvolvimento pessoal, bem como valores de identidade, liberdade, participação e utilidade (Berger, 1994). Para a Organização Mundial de Saúde (OMS) (1946) citado por Berger (1994), saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade. Esta definição, largamente difundida está longe de obter unanimidade. Uma das noções mais recentes é de Brody e Sobel, citados por Ribeiro (2005, p.15), que consideram a Saúde como “capacidade de um sistema (p. ex., célula, organismo, família, sociedade) para responder de um modo ajustado a uma grande variedade de desafios postos pelo ambiente (p. ex., físico, químico, infeccioso, psicológico, social) ”. A anterior definição de saúde da OMS conceptualizava a saúde como um estado normativo, como um ideal que poderia ser abordado mas nunca atingido, ou porque o conceito ambíguo de Saúde foi substituído pelo conceito ambíguo de bem- Mestrado em Psicologia do Idoso 26 estar e, bem-estar completo é difícil de medir. Outras críticas salientavam que a Saúde não era um objectivo mas sim uma tarefa, um meio para atingir um fim, e não um fim em si. O conceito de saúde modificou-se nos últimos trinta anos e, hoje em dia, estar com saúde não significa apenas não estar doente. Insiste-se mais nos aspectos positivos de um corpo e de um espírito libertos, a par de um desenvolvimento pessoal. Sabe-se que é um factor essencial da vida humana e um valor que supera todos os outros ao longo da existência de cada indivíduo na criação de bem-estar, de capacidade de trabalho e de felicidade pessoal. Os diversos modelos instalaram-se progressivamente, não se verificando saltos de um modelo para o outro. No entanto, poderíamos referirmo-nos a um modelo dominante numa determinada época ou cultura. Myers e Benson, citados por Ribeiro (1998), referem que, em meados do séc. XIX, o modelo dominante na Europa era o modelo interactivo, que defendia o estado da saúde individual como resultado da interacção de factores ambientais, biológicos e de personalidade na perspectiva de um modelo ecológico, típico dos modelos que antecederam o modelo biomédico. Só no final do séc. XIX, é que o modelo biomédico se tornou dominante devido, essencialmente, à crescente investigação em fisiologia experimental. Não só no séc. XIX os diversos modelos coexistiram no mesmo tempo, pois também esta convivência temporal pode ser observada em acontecimentos contemporâneos, e aceita-se que eles coexistem e mesmo se interligam. A promoção e educação para a saúde da comunidade é uma demanda urgente de planeamento, administração, gestão e controlo de acções neste âmbito. A saúde é um processo dinâmico que ocorre ao longo da vida. Vai para além do bem-estar físico, psicológico e emocional. Traduz-se numa representação mental sobre a condição individual de saúde. Du Gás (1978) afirma que houve uma grande evolução nos serviços de saúde e na assistência médica, que se nota principalmente no século XX, que é também responsável em parte pelo aumento da longevidade e diminuição da morbilidade. A Saúde é o estado, e simultaneamente, a representação mental sobre a condição individual o controlo do sofrimento, o bem-estar físico e o conforto, emocional e espiritual. Na medida em que se trata de uma representação mental, trata-se de um estado subjectivo; portanto, não podendo ser tido como conceito oposto ao conceito de doença. A representação mental da condição individual e do bem-estar, é variável no tempo; ou seja, cada pessoa procura o equilíbrio em cada momento de acordo com os desafios que cada situação lhe coloca. Neste contexto, a saúde é o FPCE – U. Porto 27 reflexo de um processo dinâmico e contínuo; toda a pessoa deseja atingir o estado de equilíbrio que se traduz no controlo do sofrimento, no bem-estar físico e no conforto, emocional, espiritual e cultural. Segundo Andersson (1998) tem havido uma crescente consciencialização, tanto por parte dos políticos, como por parte dos técnicos no terreno, da importância das relações sociais tanto para a saúde mental como para o bem-estar psicológico. Du Gás (1978) expõe que "todas as pessoas têm seus próprios padrões para medir o seu estado de saúde". Bauman, citado por Du Gás (1978) encontrou num estudo três critérios para avaliar o estado de saúde das pessoas. São a presença ou ausência de sintomas, o sentir-se bem ou não, e a capacidade para desenvolver as tarefas diárias. O ambiente no qual as pessoas vivem e se desenvolvem, é constituído por elementos: humanos, físicos, políticos, económicos, culturais e organizacionais, que condicionam e influenciam os estilos de vida e que se repercutem no conceito de saúde. A relação entre saúde e doença, permanece em evolução com o progresso dos conhecimentos acerca do funcionamento do organismo humano e dos factores intrínsecos ou extrínsecos que o afectam. Hettler (1982), O’Donnel (1986) e Terris (1975), citados por Ribeiro (2005), propõem um modelo conceptual, que se trata de um contínuo entre saúde óptima e doença grave ou morte, representando dois pólos imaginários. Figura 2 – Relação entre saúde e doença Fonte: RIBEIRO (1998) Antonovsky citado por Ribeiro (1998, p.95), considera que “…a saúde não pode ser entendida a partir da perspectiva patogénica privilegiada pelo modelo médico tradicional, em que predominam as doenças”. Como crítica ao modelo tradicional, Downie, Fyfe e Tannahill (1990), citado por Ribeiro (2005) sugerem um modelo em que se considera um sistema de referência definido por dois eixos e quatro quadrantes. O eixo horizontal representa um contínuo Saúde versus Doença, sendo este cruzado por um eixo vertical que representa o contínuo Bem-estar elevado versus mal-estar. Doença grave ou morte Bem-estar completo Mestrado em Psicologia do Idoso 28 Relativamente aos quadrantes, um indivíduo que se encontrasse no quadrante 1, seria um indivíduo sem nenhuma doença e bem-estar elevado. O que se encontrasse no quadrante 2 teria uma doença grave e um nível correspondente de mal-estar. No quadrante 3 o indivíduo teria ausência de doença, no entanto por qualquer razão sentir-se-ia mal. Por último, o indivíduo que se encontrasse no quadrante 4, apresentaria um elevado nível de bem-estar coexistindo com uma doença grave. Alguns estudos recentes encontraram correlação entre a situação de saúde, a tendência para o aparecimento de doenças e o nível de solidão experimentado. Assim sendo, torna-se importante avaliar o estado de saúde dos idosos para despistar possíveis associações aos níveis de solidão neste estudo. Figura 3 – Modelo de relação entre saúde e doença Fonte: RIBEIRO (1998). Neste modelo, a dimensão saúde/ doença é independente da dimensão bemestar/ mal-estar, ampliando a complexidade das relações do universo saúde – doença. As pessoas comuns têm a sua própria concepção de saúde, não pensando nela em termos científicos. Blaxter (1995), citada por Ribeiro (2005, p.25), refere que “é curioso verificar que o homem comum considera a Saúde de uma maneira complexa, subtil e sofisticada”. Baumann, citado por Du Gas (1978), num estudo para determinar as diferentes atitudes das pessoas em relação à saúde e à doença, identificou três formas diferentes, onde as pessoas estabeleceram critérios para julgar o seu estado de saúde. O primeiro critério diz respeito à presença ou ausência de sinais e sintomas. Como exemplo mais frequente, a dor é considerada um dos sintomas mais comuns ao Mal-estar Bem-estar elevado Doença grave 4 2 1 3 Ausência de doença FPCE – U. Porto 29 qual os indivíduos julgam o seu estado de saúde. Se o indivíduo apresenta uma dor severa e persistente, geralmente considera-se doente. A percepção individual da saúde, constitui o segundo critério, em que a saúde é vista como um modo de se sentir. Frequentemente, as pessoas referem que se “sentem bem”, “no topo do mundo”, “não se sentem bem”, “sentem-se mal”, e segundo Selye, citada por Du Gas (1978), as pessoas simplesmente se sentem “doentes”. O terceiro critério de estabelecer o estado de saúde de uma pessoa relacionase com a capacidade desta executar as suas actividades de vida diárias. Neste sentido, uma pessoa pode sentir-se com saúde se é capaz de executar as suas tarefas ao longo do dia, enquanto outra sente-se doente quando revela cansaço, após a execução de uma simples actividade de vida diária. O modo pelo qual a pessoa vê o seu estado de saúde tende a alterar-se com numerosos factores, entre os quais, factores sociais, culturais, religiosos, socioeconómicos, entre outros. Mestrado em Psicologia do Idoso 36 Solidão procura solidão e, quanto mais uma pessoa se isola, à medida que o tempo vai passando, mais isolada quer estar. Quando as pessoas se apercebem que a solidão é a sua companhia, o rosto entristece, a alma desvanece, um forte pesar parece invadir o pensamento. O cenário torna-se deprimente. O futuro é sem esperança. O número de pessoas que vivem sozinhas, sem família ou companheiro(a) é cada vez maior nas grandes cidades da Europa e da América. Segundo alguns psicólogos, este grupo está mais exposto a sofrer de doenças físicas e psíquicas, o seu sistema imunológico mostra-se menos estável, menos forte e mais propício a contrair doenças crónicas. Os homens divorciados contraem três vezes mais doenças do que os casados e o índice de mortalidade masculina depois da viuvez regista um aumento de 40 por cento, segundo revela a revista austríaca Medizin Populaer, sendo o enfarte a causa mais comum. Entre as viúvas, a principal causa de morte é o cancro e muitas morrem no ano seguinte ao falecimento do conjugue. O extremo stress que representa a perda do conjugue faz com que muitos percam a alegria de viver. Além disso, muitas pessoas deprimidas alimentam-se mal e algumas, em especial os homens, procuram consolo no consumo excessivo de álcool. De acordo com Georg Gaul, da Sociedade Austríaca de Cardiologia, citado pela agência EFE, “... O risco de morte das pessoas que vivem sozinhas é o dobro das que permanecem acompanhadas. Perante o seu isolamento, muitos acomodam-se e acabam por adoecer com frequência, vitimados por úlcera no estômago, problemas no fígado e no aparelho digestivo, associados a uma crónica dor de cabeça.” Hans Joachim Fuchs, especialista austríaco em clínica geral, diz que “... vê diariamente pacientes vítimas de síndromes de solidão e de problemas de convivência, entre cujas causas está o prolongado período que viveram «debaixo das saias da mãe», o que os leva a uma maior dependência emocional dos seus pais e a uma maior dificuldade em se atirarem para o mundo de uma forma mais independente.” Quando uma pessoa se sente sozinha, experiencia sentimentos de angústia, insatisfação e exclusão. Tal não significa que sintamos a solidão sempre do mesmo modo, pois diferentes pessoas, perante situações diferentes, podem experienciar diferentes sentimentos de solidão. Um estudo realizado por Lopata, (1969), citado por Neto (2000), com pessoas viúvas, permitiu ilustrar a abundância de sentimentos que acompanham a experiência da solidão. Para estas pessoas a solidão significava um ou mais dos seguintes sentimentos: FPCE – U. Porto 37  Desejar estar com o marido;  Querer ser amada por alguém;  Querer amar e tratar de alguém;  Querer partilhar experiências quotidianas com alguém;  Querer ter alguém em casa;  Precisar de alguém para partilhar o trabalho;  Desejo de uma forma prévia de vida;  Experienciar falta de estatuto;  Experienciar falta de outras pessoas, como consequência de ter perdido o marido;  Temer a sua incapacidade para fazer novos amigos. A solidão inclui desejo do passado, frustração com o presente e medos acerca do futuro. Mesmo em pessoas que não tiveram a perda do cônjuge, a solidão pode aparecer associada a muitos sentimentos juntos. Certas pessoas são mais susceptíveis de experienciarem a solidão de modo mais intenso e duradouro do que outras. Todavia, uma predisposição para a solidão não causará necessariamente a experiência de solidão num momento particular, mas fará com que as pessoas sejam mais vulneráveis a factores situacionais. A solidão pode levar ao desenvolvimento de certas características pessoais o que faz com que seja difícil conhecer a ligação exacta entre características pessoais e a solidão. Seja qual for a relação causal, a investigação tem posto em evidência que as pessoas que dizem ser solitárias descrevem-se e agem de modo diferente das que não o dizem. Rubenstein e Shaver (1982), citada por Neto (2000), através de um inquérito realizado na população em geral, encontraram quatro conjuntos de sentimentos que as pessoas diziam ter quando estão sós: desespero, depressão, aborrecimento impaciente e autodepreciação. Esses diferentes sentimentos podem ser observados no quadro 1. Através do quadro podemos dar-nos conta da complexidade da solidão, pois encontramos um vasto número de sentimentos susceptíveis de a ela se associarem. Mestrado em Psicologia do Idoso 38 Tabela 1 – Sentimentos associados à solidão Desespero Depressão Aborrecimento Impaciente Autodepreciação Desespero Triste Impaciente Pouco atractivo Aterrorizado Deprimido Aborrecido Severo consigo Desamparado Vazio Desejo de estar em outro local Estúpido Assustado Isolado Inquieto Envergonhado Sem esperança Pesaroso Zangado Inseguro Abandonado Melancólico Incapaz de se concentrar Vulnerável Alienado Fonte: Neto (2000). Baseados na investigação descrita é possível traçar um quadro das pessoas solitárias. São pessoas com uma visão pessimista delas próprias e das outras pessoas, tímidas, caladas, com um facies triste, isolam-se e não interagem socialmente. Muitas destas características constituem uma dificuldade para que a pessoa se envolva em relações íntimas e por essa razão podem conduzir à solidão. “Quem são as pessoas sós?” Investigadores fizeram esta questão e analisaram-na através de dados obtidos em inquéritos realizados. Relativamente à idade existe na nossa cultura o estereótipo que as pessoas idosas são pessoas solitárias. Segundo investigações recentes, a tendência geral que se encontra é para a solidão diminuir com a idade, obtendo as pessoas mais idosas as pontuações mais baixas de solidão (Neto, 2000). Se a partir de dados de inquérito há uma convergência em assinalar-se que a solidão é menos frequente nas pessoas mais idosas, não é todavia de se excluir a ideia de que em idades muito avançadas a solidão já possa ser mais comum. Pode acontecer os jovens quererem falar mais dos seus sentimentos, pois encontram muitas transições sociais, tais como deixar a casa dos pais e viver na sua própria casa, entrada na faculdade, obtenção de um primeiro emprego, todas elas podendo causar a solidão. À medida que as pessoas vão avançando na idade, as suas vidas sociais podem tornar-se mais estáveis. A idade pode também acarretar maiores habilidades sociais e expectativas mais realistas acerca das relações sociais. Relativamente ao sexo, é frequentemente assumido – do ponto de vista do senso comum - que as mulheres, comparativamente aos homens, são mais emotivas FPCE – U. Porto 39 e apresentam maiores taxas de certas doenças mentais, registando-se consequencialmente, a tendência geral para reacções emocionais negativas mais frequentes. Contudo, os estudos efectuados sobre a solidão não são concludentes sobre as diferenças sexuais na solidão. Globalmente os estudos que utilizam a escala de UCLA não encontraram as diferenças (Neto, 2000) que o senso comum lhes atribui. Esta escala não questiona directamente os indivíduos sobre se se sentem sós, mas procura avaliar a solidão indirectamente. A natureza indirecta desta escala permite constatar que os homens expressam muito presumivelmente a sua solidão subjacente de modo mais conciso, que em estudos de inquérito em que se recorre a questões directas (Borys and Perlman, 1985). Quando estes autores recorreram à avaliação directa, como é o caso das asserções em inquéritos, diferenças segundo o sexo tendem a emergir, as mulheres assinalando mais frequentemente a solidão que os homens. A reticência dos homens em assinalarem a solidão directamente está em consonância com os estereótipos sexuais. Segundo estes estereótipos não se espera que os homens exprimam as suas fraquezas emocionais. Relativamente ao estado civil, segundo Weiss citado por (Neto, 2000) afirma que as pessoas que não estão casadas sofrem mais de solidão que as casadas. Segundo um estudo recente, a solidão nas mulheres não casadas era maior nas pessoas viúvas e divorciadas que nas solteiras. A solidão parece, pois, ser determinada mais pela perda de uma relação conjugal que pela sua ausência. (Neto, 2000). Relativamente a outras características, segundo Weiss, 1982 citado por (Neto, 2000), a solidão é mais comum entre as pessoas pobres que entre as ricas. Boas relações podem manter-se mais facilmente quando as pessoas têm tempo e dinheiro para actividades de lazer. Não aparecem diferenças na solidão entre pessoas que residiam em zonas rurais e as que residiam em zonas urbanas. Gikovate (2006) apresenta no seu livro intitulado “Ensaio Sobre o Amor e a Solidão” um visão diferente deste fenómeno, descrevendo um capítulo sobre “Solidão é bom”. Esta visão positivista da solidão está contextualizada nas novas formas que a sociedade actual tem. Vem de encontro à afirmação que todos temos necessidade de estar sozinho, sendo um pouco mais arrojado e chegando a afirmar que é comum nos dias de hoje as pessoas optarem por uma vida solitária, havendo cada vez mais indivíduos solteiros. Apresenta a conotação negativa que o termo solidão tem a um estereótipo social que foi criado, e aos sentimentos vividos no início de uma etapa em que se fica só. Depois de criar mecanismos de adaptação a essa nova etapa, as pessoas aprendem a viver com a solidão, e há até quem passe a gostar de viver dessa forma. Actualmente, pela força das circunstâncias sociais actuais, as pessoas Mestrado em Psicologia do Idoso 40 adaptaram-se a viver sós. Apesar de estar e ser só ainda ser um motivo de vergonha, este aspecto vem de características culturais, que estão em mudança. A solidão não corresponde então a um estado agudo e doloroso. Pode iniciarse a partir daí e só esse estágio inicial estar associado à sensação dramática de desamparo. Como se pode compreender então, a solidão apresenta várias dimensões complexas, que tornam este tema de difícil estudo. Irei, assim, seguidamente, descrever algumas destas dimensões, que se apresenta, como mais importantes para a investigação em causa. 2.1. SOLIDÃO SOCIAL E SOLIDÃO EMOCIONAL Existem várias abordagens e várias dimensões em que a solidão pode ser estudada. Alguns autores preferem estudar e analisar a solidão numa vertente unidimensional, tendo em conta a solidão como um todo. Por outro lado, a solidão pode ser dissecada em várias dimensões, que ajudam a compreender este termo e esta realidade tão subjectiva. Weiss (1973), citado por Neto (2000), distingue solidão social de solidão emocional. A solidão social é uma determinada situação em que o indivíduo se sente insatisfeito e só por causa da falta de uma rede de amigos ou pessoas conhecidas. A solidão emocional, segundo este autor, está relacionada com a insatisfação causada por uma relação pessoal, íntima. Assim sendo será tratado neste capitulo de forma independente estas duas formas de solidão. Existem na literatura outras formas de solidão, mas sendo estas duas as mais referenciadas. Esta forma de divisão dos tipos ou formas de solidão poderá ajudar a entendermos factores que estão na génese da solidão, assim como a forma da prevenção e intervenção. Será então feita uma breve abordagem à solidão social, e posteriormente outra abordagem à solidão emocional. É sempre difícil abordá-las de forma independente, pois apresentam uma forte ligação, e nalguns estudos forte correlação. Andersson (1998) refere que a OMS no documento intitulado “Psychogeriatric care in the community” afirma que nos diferentes três níveis de prevenção o isolamento e a solidão social é apresentada como importante e fundamental para se atingir o bem-estar. Vários autores tem descrito intervenções e atitudes para prevenir e intervir em situações de isolamento social e solidão social. Grande parte dessas intervenções tem como eixo principal as redes sociais. FPCE – U. Porto 41 O conceito de redes sociais surge inicialmente da antropologia e da sociologia, como afirma Andersson (1998). A definição mais comum de redes sociais é a de relações de ligação similares entre indivíduos que estão ligados uns aos outros. No entanto, Neto (2000) afirma que poucos estudos investigaram se diferentes défices relacionais produzem diferentes espécies de solidão. Russel et al.. (1984), citado por Neto (2000), demonstrou que medidas de solidão social e emocional estavam ligadas, respectivamente, à falta de amizade e de relações íntimas. A solidão social e emocional partilhavam nesse estudo um núcleo comum de mal-estar, mas tinham também elementos únicos de experiência subjectiva. 2.2. SOLIDÃO NOS IDOSOS As estatísticas publicadas recentemente sobre esta temática apresentam a solidão como um grave problema nos idosos. Neto (1992) afirma que uma pessoa que se sente sozinha experiencia angústia, insatisfação e exclusão. Neto (2000) refere que existe na nossa cultura o estereótipo que as pessoas idosas são pessoas solitárias. No entanto este estereótipo não se confirma quando as pessoas revelam a sua própria experiência de solidão. Gutek, Nakamure, Gehart, Handschumacher, e Russel (1980), citados por Neto (2000), apresentam dados em que a tendência geral é para a solidão diminuir com a idade, obtendo as pessoas idosas níveis mais baixos de solidão, apesar da razão para a sua diminuição ao longo do ciclo da vida ainda não estar compreendida, necessitando talvez este aspecto de ser mais investigado. Segundo Walker (1996), citado por Ussel (2001), entre 10 a 14% dos idosos confessa sentir solidão, enquanto que uma percentagem um pouco mais elevada, cerca de uma terça parte dos idosos, declaram sentir solidão de forma ocasional. Analisando os dados do Instituto Nacional de Estatística, a partir do resultados definitivos do recenseamento geral da população e habitação, efectuado em 2001, verificamos que no grupo etário com 65 anos ou mais, nas famílias constituídas apenas por uma pessoa, deparamo-nos com 321054 famílias, ou seja, 321054 indivíduos. Isto representa 19,0% da população total com 65 anos ou mais, uma vez que o total de idosos a residir em Portugal, em 2001, é de 1693493. Mas se analisarmos a realidade da região de Bragança, verificamos que no concelho a taxa de pessoas idosas a viver sozinhas é de 19,1%, variando positivamente apenas 0,1% da realidade nacional. Mestrado em Psicologia do Idoso 42 Pode-se assim concluir que na generalidade dos idosos portugueses um em cada cinco famílias é constituída apenas por um elemento (o idoso), ou seja, vive sozinho. Apesar do isolamento social não significar necessariamente solidão, é um factor predisponente que se deve ter em conta. Russel (2004) afirma que a solidão é uma das queixas mais frequentes entre a população idosa. Isto resulta da saída dos filhos para o mercado de trabalho, com deslocação para uma cidade diferente, com a chegada da reforma e com a viuvez. Para resolver algumas das causas que se acredita empiricamente estarem na origem da solidão e do mal-estar dos idosos, por vezes é decidido o internamento num lar de idosos, mas nem sempre com sucesso, pois nem sempre uma instituição, com apoio formal supostamente suficiente, reduz o sentimento de solidão emocional do idoso. Segundo Melo e Neto (2003), o lar de idosos não é solução para quem quer ter um final de vida tranquilo, pois muitas vezes o idoso tem dificuldade em partilhar um espaço que deveria ser só seu e que sente ser invadido por estranhos, vendo-se obrigado a partilhar o quarto com outras pessoas. Afirma ainda que, para o idoso, sentir-se envelhecer, sentir-se menos útil e deixar a sua vida activa, “já é um grande fardo”. 2.3. VIUVEZ E SOLIDÃO Para Berger e Mailloux-Poireier (1995) é evidente a tendência para se associar a velhice à morte, o que é errado, pois a morte deve-se essencialmente às doenças crónicas e não à velhice. Para estes autores a morte, seja relativa a nós ou aos outros, constitui uma realidade de difícil aceitação, pois lembra-nos constantemente o carácter limitado da vida. Em termos biológicos, a morte “marca a paragem de funcionamento de todos os processos vitais, e é muitas vezes determinada pelo cessar dos batimentos cardíacos” (pag.510). Os sentimentos que experimentamos acerca da nossa própria morte e à dos nossos entes queridos, constitui o aspecto psicológico da morte. Em termos sociais, a morte representa a quebra das nossas relações humanas. Morte e morrer, segundo Zimerman (2000), são duas palavras que as pessoas costumam evitar dizer e duas questões sobre as quais a maioria procura não pensar. Este autor defende que a morte é erroneamente vista como uma ruptura, pois deveria ser encarada como uma continuidade, um momento esperado no processo contínuo que é a vida. A morte do cônjuge representa para qualquer pessoa um dos momentos mais trágicos que o destino pode trazer. Se esta acontecer na idade avançada as suas FPCE – U. Porto 43 consequências revestem-se de características muito particulares, uma vez que se põe fim, na maioria dos casos, a décadas de matrimónio. Segundo Fontaine (2000), o luto é um processo complexo não desprovido de sentimentos paradoxais. Ussel (2001) apresenta no seu estudo uma forte relação entre a viuvez e a solidão em pessoas idosas. No entanto, é difícil definir se o sentimento de solidão foi causado pela morte do cônjuge ou foi apenas reforçado por este factor, pois muitas vezes o sentimento de solidão já existe sendo apenas potencializado. As mudanças que a viuvez traz são várias, entre as quais a nível pessoal, familiar, social, sendo difíceis de assimilar no momento dado o seu carácter cumulativo. Surge assim a necessidade de adaptar-se a uma nova realidade, que é totalmente nova, sendo necessário um empreendimento por parte do idoso viúvo num processo de adaptação e compensação. Por isso, para muitos idosos a solidão que sucede à viuvez é mais uma ameaça e muitas vezes o ponto de partida para optar pelo internamento num lar de idosos. Em Portugal, tendo como base, os Censos 2001 (INE, 2002), a viuvez afecta sobretudo as mulheres: por cada 100 pessoas viúvas, 82 são mulheres e 18 são homens. Izal e Montorio (1999) referem-nos que a morte do cônjuge é extremamente complexa, podendo assumir várias formas, tais como: os sentimentos de ira, a negação, o alívio e a culpa. Nos idosos, frequentemente a viuvez é responsável pelo aparecimento de sintomatologia depressiva, encontrando-se também associada ao desenvolvimento de processos mórbidos graves e inclusivamente pode levar à morte. A perda do parceiro com quem compartilhou seu amor, experiência de vida, alegrias e tristezas pode ser intolerável. A adaptação a essa perda significativa é somada à necessidade de aprender uma nova tarefa: viver só. Segundo Martin-Matthews (1987), “… a viuvez é um estado mais frequente à medida que a idade avança. Supõe um câmbio importante no decurso vital e trás consigo profundas modificações e percas, tanto a nível objectivo e subjectivo.” (citado por Veja e Bueno, 2000). O censo de viúvos/viúvas existentes no mundo assinala um número consideravelmente maior de viúvas do que viúvos. Segundo o FNUAP, a proporção de viúvos entre os homens idosos de 60 anos é inferior a um quinto na maioria dos países. Em contrapartida, entre 40% e os 60% das mulheres idosas de 60 anos podem ter enviuvado. As taxas mais altas de viúvos ocorrem nos países de África, nos Estados árabes de África e na Ásia ocidental. Mestrado em Psicologia do Idoso 44 Nos países mais desenvolvidos da Europa, as mulheres idosas de 80 anos (muitas delas, viúvas) representarão uma proporção cada vez maior do total da população já neste século. Nos países mais desenvolvidos, segundo o FNUAP, o grupo de mulheres de idade mais avançada constituirá, até ao ano 2050, os 10% do total de mulheres. (Carajo,1999). Entre as razões por que há mais viúvos que viúvas no mundo, o informe assinala as seguintes: - Maior esperança de vida das mulheres; - A tendência que existe entre os homens em contrair matrimónio com mulheres muito mais jovens; - O costume que existe nas uniões poligâmicas de ir agregando esposas mais jovens; - Existem maiores probabilidades de um homem voltar a contrair matrimónio e estabelecer relações não oficializadas pouco tempo depois de enviuvar; As mulheres, por contrário, podem ficar viúvas a qualquer idade e a tendência é que sigam sós durante mais tempo que os homens. Para Lopata (1973) citado por Neto (2000), a experiência da viuvez passa por 4 estádios diferentes que são o reconhecimento oficial do que aconteceu, a desvinculação temporária dos laços de comunicação, o esquecimento e o reencontro ou a volta. O primeiro estádio começa com os funerais e inclui o período de dor. Enfrentar a perca do cônjuge e elaborar a dor leva tempo e pode implicar um afastamento temporal das actividades e responsabilidades sociais prévias. A volta pode começar com as perguntas de onde estou e donde vou. Esta volta não é o final dos problemas da viuvez, pode ser simplesmente o princípio. O problema mais sério que enfrentam as viúvas é a solidão e perda económica. Nem sempre a perda do seu cônjuge e suas implicações emocionais não é a componente mais negativa da viuvez, pois, em alguns casos, pode constituir uma libertação. Os efeitos negativos da viuvez parecem vir da diminuição de oportunidades e o impacto na auto imagem. Em geral, a solidão aparece sempre como um problema importante na velhice. A morte de um cônjuge afecta mais as mulheres que os homens, porque a maioria dos homens mais velhos é casado, e a maioria das mulheres mais velhas tornar-se viúva, uma situação que é esperada crescer ainda mais no futuro com o aumento da esperança média de vida. Hoje, muitas mulheres têm maior independência em função da sua carreira e mudaram as rotinas; porém, a maioria das mulheres idosas actuais dirigiu a família, FPCE – U. Porto 45 orientando a suas vidas, além de ser dependente dos seus maridos. A idade, a escolaridade limitada, a falta de habilidades e o longo período desempregada cuidando da sua família são obstáculos num mercado de trabalho competitivo. Segundo o mesmo autor a maioria das viúvas, depois do sofrimento inicial pela morte do marido, adapta-se bem à nova condição. O grande número de mulheres idosas viúvas propicia, especialmente em áreas urbanas, novas amizades ao compartilhar dos mesmos problemas e ter estilos de vida semelhantes. Velhas amizades podem ser reavivadas e se tornam fontes de actividade e prazer. Algumas viúvas podem descobrir que a perda de certas responsabilidades associadas com a morte de seu companheiro como cozinhar, lavar e limpar, traz uma nova e agradável liberdade. Ao assumir outras funções, ter rendimento suficiente e poder escolher o estilo de vida faz muitas mulheres adaptarem-se bem à viuvez. Os termos mais comummente utilizados na literatura para fazer referência ao processo que se desencadeia depois de perder um ser querido, são os de dor e aflição, sentimentos estes, negativos. Dos dois termos, talvez o mais problemático seja a dor, na medida em que tem uma ampla gama de aceitações e de conotações teóricas. O termo dor efectivamente foi utilizado amplamente dentro da psicanálise e do mundo clínico desde que se traduziu a obra de Freud a aflição e a melancolia. No seu sentido mais restritivo utiliza se para fazer referência ao estabelecido pelo próprio Freud: todo um conjunto de processos que se põe em marcha depois de uma situação de perda e que tem uma finalidade concreta: que o sobrevivente consiga apartar toda a esperança e recordação do falecido. Outro dos termos utilizados na literatura sobre este terreno é o de aflição e utiliza-se, de maneira intercambiada com o de dor, para descrever o estado de uma pessoa que experimenta dor perante uma perda e fá-lo de uma maneira mais ou menos manifesta (Bowldy, 1980). Izal e Montorio (1999) referem que a morte do cônjuge constitui um acontecimento da vida que obriga a uma reestruturação do padrão de funcionamento quotidiano. A reacção emocional face à morte do cônjuge é extremamente complexa, podendo assumir várias formas, tais como: os sentimentos de ira, a negação, o alívio e a culpa. Nos idosos, frequentemente a viuvez é responsável pelo aparecimento de sintomatologia depressiva, encontrando-se também associada ao desenvolvimento de processos mórbidos graves e inclusivamente pode levar à morte (Magalhães, 2003). Paúl (1991) refere-nos que a viuvez é frequentemente associada à solidão, tal se deve essencialmente à perda de uma relação íntima muito particular. Ainda Mestrado em Psicologia do Idoso 52 Já a rede de suporte – é diferente da rede social porque visa uma ajuda concreta às pessoas. Deste modo, podemos dividir as redes sociais de apoio à pessoa idosa em dois grupos principais: as redes de apoio formal e as redes de apoio informal. O apoio que estas duas redes prestam é basicamente de dois tipos, como já foi referido anteriormente: apoio psicológico, ligado ao bem-estar psicológico, e apoio instrumental, que consiste na ajuda física em situações de diminuição das capacidades funcionais dos idosos. No grupo constituído pelas redes de apoio formal, incluem-se serviços estatais de segurança social e os organizados pelo poder local tais como: Lares para a Terceira Idade, Serviços de Apoio Domiciliário, Centros de Dia (Nogueira, 1996). Neste conjunto destacam-se as instituições privadas de solidariedade social, a maioria delas ligadas, directa ou indirectamente, à Igreja Católica, sendo outras do tipo associações profissionais, todas beneficiando de algum apoio do Estado. Ultimamente têm surgido também algumas instituições privadas com fins lucrativos, muitas das quais de qualidade duvidosa, que existem graças à generalizada falta de estruturas formais de apoio ao idoso no nosso pais. Nas redes de apoio informal, estão incluídos por um lado as famílias do próprio idoso e por outro, os amigos e os vizinhos. O papel da família constitui o apoio necessário aos indivíduos na última fase da sua vida, quando as suas capacidades funcionais diminuem e a autonomia não é mais possível. Com a evolução da sociedade, o papel da família tem vindo a reduzir-se e a tornar-se mais difícil, a que não é alheio, entre outros aspectos, o trabalho feminino e a própria exiguidade das habitações. A família tem ainda um papel muito importante no apoio instrumental ao idoso e também no seu bem-estar psicológico. Quanto ao apoio informal prestado pelos amigos e vizinhos, parece desempenhar também um papel preponderante no apoio à velhice, principalmente no ponto de vista emocional e também na ajuda instrumental, verificando-se esta última mais em situações de ausência de familiares. O apoio informal é pluralístico, no sentido de dar e receber apoio, formando um sistema ecológico com pessoas desempenhando um papel interrelacionado ou complementar. A combinação entre o apoio formal/informal não é tarefa fácil, mas o equilíbrio entre estas duas formas de apoio, seria desejável, muitas das vezes. As redes sociais de apoio não têm carácter estático, pelo contrário, à medida que as pessoas seguem o curso do ciclo de vida, passando por estádios, como o ser FPCE – U. Porto 53 solteiro, casado, ser pai/mãe, ficar com a casa vazia (empty nest), ser viúvo, a família, as amizades e outras ligações mudam (Mauser, 1983 citado por Paúl, 1991). O curso de vida pode incluir muitas redes de apoio diferentes, cujos membros podem mudar com o estádio de vida da pessoa, não estando centrado num tempo específico. As interacções dentro deste conjunto complexo e evolutivo de redes de apoio, incluem o dar e receber apoio, que pode ser instrumental ou aconselhamento, que pode variar ao longo do tempo. A existência de relações sociais é benéfica porque contribui para a integração social, ou evita o isolamento. Uma mudança na existência de uma relação quer dizer que se formou ou rompeu um laço entre duas pessoas, mas pode haver mudanças no funcionamento e as relações permanecem intactas. A questão é saber se as mudanças no apoio social, relacionadas com a idade, são atribuíveis em primeiro lugar à perda de relações importantes (nomeadamente devido à mobilidade ou à morte) ou a mudanças, ao longo do tempo, no funcionamento das relações. Fazer a distinção entre o tipo de pessoas envolvidas na relação (filhos, irmãos, amigos) é muito importante, pois o tipo de apoio está associado, de forma única a cada relação. Distinguir o tipo de relações torna possível examinar se as perdas num dado tipo estão associadas a mudanças no apoio trocado noutros tipos de relações, e facilita ainda a comparação das relações em termos de verificar se as mudanças, ligadas à idade, são atribuíveis mais à sua existência ou ao seu funcionamento (Depner e Ingersoll-Dayton, 1988 citado por Paúl, 1991). Com a idade ocorrem mudanças quanto à existência e quanto ao funcionamento das redes de apoio. Sendo assim vão ocorrer perdas relativas à existência (relações de pares, irmãos, amigos. Quanto ao funcionamento a idade traz alterações dada a mudança nos papeis sociais ou mobilidade, que podem diminuir as oportunidades de interagir e, por consequência, o apoio (condições de saúde ligadas ao envelhecimento). A diferença entre a ajuda recebida e prestada é importante para se perceber a evolução das relações ao longo da vida, a quantidade de apoio recebido e prestado irá se alterar. É de esperar que o idoso tenha a necessidade de receber mais apoio do que aquele que dá aos outros. O apoio emocional varia com a idade, devido à perda da relação entre irmãos e ainda na medida em que os idosos dão menos apoio emocional aos seus filhos. O apoio prestado na saúde diminui com a idade, enquanto que o apoio recebido aumenta. O respeito e afirmação têm poucas variações com a idade, verificando-se apenas que os idosos fornecem afirmação a um número mais restrito de amigos. É também importante salientar que o indivíduo que não está satisfeito com a quantidade de apoio social que lhe dão pode sofrer perturbações psicológicas. Mestrado em Psicologia do Idoso 54 O sexo das pessoas introduz diferenças nas redes de apoio, principalmente na categoria de amigos. Os idosos parecem ter mais conhecidos, enquanto que as idosas têm mais confidentes, o que também tem implicações em termos de apoio recebido, esperando-se que as mulheres tenham mais apoio emotivo, habitualmente associado aos amigos, e ainda, que dêem mais apoio na área da saúde do que os homens. Considerando simultaneamente a idade e o sexo, sabemos que a idade acarreta uma redução na extensão das relações e que, por outro lado, as mulheres têm redes de apoio mais amplas, esperando-se então que isso constitua uma vantagem para esse sexo (Paúl, 1991). Dentro dos idosos, as mulheres parecem, apesar de tudo, mais isoladas (Silverstone, 1985 citado por Paúl, 1991), mas que é contrário aos resultados obtidos por diversos estudos, que dão precisamente vantagem às mulheres no que diz respeito ao apoio social. As redes sociais de apoio dos idosos estão relacionadas com a história de vida de cada indivíduo e o contexto socio-económico onde se inserem, pelo que dificilmente se chegaria a um consenso relativamente a esta questão. Relativamente ao estado civil dos indivíduos, ainda não houve consenso nos aspectos diferenciais das redes de apoio social. Paúl (1991), relativamente à situação dos solteiros, em termos de saúde, interacção social, lar e estrutura familiar, verificou que comparados com os viúvos, os casados e separados, os solteiros são socialmente activos, não são isolados e podem não estar em maior risco de institucionalização. Os casados e os que nunca casaram é mais provável que tenham uma certa continuidade em muitos dos seus domínios sociais, como os ambientes residenciais e relacionamento interpessoal. Uma ameaça maior pode pairar sobre os divorciados e os viúvos que tiveram grandes mudanças de vida. FPCE – U. Porto 55 2.5. SOLIDÃO E SAÚDE Após as abordagens dos construtos de Solidão e Saúde, suas conceptualizações e contextos, bem como as problemáticas que lhe estão subjacentes e lhes são consequenciais, torna-se pertinente abordá-los de forma mais relacional e correlacionada. Assim, apresenta-se agora uma imagem biopsicossocial destas variáveis, que por serem essenciais ao estudo, se devem conhecer na sua inter relação. Partindo dos pressupostos defendidos pelos autores já abordados, toma-se aqui a solidão como uma experiência subjectiva e psicologicamente desagradável para o indivíduo, e assume-se assim, que esta poderá ter um papel preponderante na determinação do estado de saúde, como percepção subjectiva. A implicação que o maior ou menor nível de solidão subjectiva tem sobre a percepção do estado de saúde (também subjectivo) por parte do próprio individuo, foi já estudada anteriormente por alguns autores, que a seguir se expõem. Pretende-se assim ao longo deste capítulo, apresentar e tecer algumas considerações acerca dos resultados bem como das conclusões que esses estudos nos trouxeram, e que para a actual pesquisa são determinantes. Assim, e corroborando o anteriormente apresentado ao longo dos capítulos anteriores, foi comprovado que a solidão diminui a qualidade de vida, e amplia um pior prognóstico na idade avançada (Victor et al. (2000), in Savikko et al.(2005)). O mesmo autor diz-nos que existe uma forte relação entre sintomas depressivos e solidão, e que a solidão prediz a institucionalização, além de que, e segundo os estudos por ele concluídos, a solidão predita declínio cognitivo e um aumento da utilização dos serviços de saúde, sendo conhecido que as pessoas solitárias têm aumentado o risco de mortalidade. Outro subsídio particularmente interessante para esta pesquisa em solidão de idosos, emerge do estudo de Savikko et al. (2005) em 2002, na Finlândia, por ter sido levado a cabo numa amostra de 3915 indivíduos idosos, com idade igual ou superior a 75 anos, em que fez a observação da prevalência e das atribuições causais da solidão. Os dados encontrados neste estudo demonstraram que 39% da amostra reportava sentimentos de solidão, sendo que 5% sofria de solidão frequentemente ou sempre, e que esta sensação subjectiva de solidão, era mais comummente sentida entre os idosos mais velhos que viviam em zonas rurais, do que os que viviam nos grandes centros urbanos. Também neste estudo, os factores considerados potencializadores de solidão, foram: o fraco estado físico a nível funcional, a viuvez e baixos rendimentos. As Mestrado em Psicologia do Idoso 56 causas subjectivas mais comuns para sofrer de solidão são as próprias doenças, a morte do companheiro e falta dos amigos. A relevância destes resultados, situa-se em três pormenores metodológicos: Primeiramente, pelo facto de terem emergido, a partir de uma amostra grande e suficientemente diversificada, para se considerar representativa de uma população de idosos muito mais abrangente, em segundo lugar, pelo facto do estudo ter um poder estatístico suficientemente elevado para esclarecer alguma inconsistência dos resultados dos estudos precedentes, e finalmente, porque os respectivos resultados podem ser generalizados, para cobrir a população idosa na Finlândia, já que a taxa de resposta elevada (71.8%) suporta a fiabilidade dos resultados encontrados. Além destes pormenores, resta acentuar que esta é a primeira pesquisa a relatar as causas para o sentimento de solidão quando avaliado pelas próprias pessoas idosas. No entanto, e porque os sentimentos de solidão dependem também do contexto cultural, não devem estes resultados e conclusões generalizar-se para todas as populações, ao nível mundial. Curiosamente, e do ponto de vista das variáveis que importa considerar no construto de solidão subjectiva, também o estudo dá sustentação ao argumento que as mulheres sofrem de solidão mais frequentemente do que homens. Entre as várias razões, parece terem sido encontradas três consideradas determinantes: - em primeiro lugar, é que às mulheres pode ser permitido expressar mais abertamente os seus sentimentos do que homens; - em segundo, as mulheres podem avaliar os relacionamentos humanos melhor do que homens (Berg et al.., 1981); - em terceiro lugar, as mulheres vivem mais tempo que as expõe mais à viuvez e a outras perdas, argumento também defendido por Tijhuis et al. (1999) citado pelo mesmo autor. Outra perspectiva abordada, é que a solidão parece diminuir com instrução ou com melhores rendimentos. Savikko et al. (2005) refere que a mesma tendência tem sido encontrada em alguns estudos precedentes (Chang e Yang, 1999; Dykstra e De Jong Gierveld, 1999), e pensa-se que aqueles indivíduos com instrução mais elevada e melhores rendimentos, assumem que têm uma rede social mais larga. Ainda neste estudo, encontraram resultados que indicam, que a perda da saúde ou do status funcional como a visão ou a audição estão relacionados com sentimentos aumentados de solidão, tendo esta relação já sido encontrada em estudos precedentes (Holme´n et al. ,1993; Dugan e Kivett, 1994; Holme´n 1994; Mullins et al. , 1996; Kim, 1999; Camionete Baarsen et al.., 1999; Tilvis et al.., 2000; e Kramer et al.. , 2002). A razão óbvia apresentada poderá ser que os contactos sociais FPCE – U. Porto 57 tendem a diminuir quando a saúde se deteriora ou existe uma diminuição da capacidade física dos indivíduos. Em resumo, neste estudo o autor afirma que a solidão pode ser ligado a acontecimentos de vida naturais, como a viuvez, e factores ligados ao envelhecimento, como por exemplo a diminuição da saúde e da capacidade física funcional. Por outro lado pode estar associado a mudanças sociais das pessoas idosas, como a diminuição dos rendimentos e o isolamento social. Acerca da diferença da percepção subjectiva de solidão por género, Cramer e Neyedley (1998) numa amostra de estudantes universitários com 256 sujeitos, utilizando a escala UCLA, verificaram que os homens parecem estar mais renitentes a admitir os seus sentimentos de solidão que as mulheres. Este autor, citando Borys e Perlman (1985), sugere que a pressão social pode influenciar a admissão de sentimentos ligados a percepção subjectiva de solidão, pois estes sintomas podem ser encarados mais negativamente nos homens que nas mulheres. Os homens ao não referirem estes sintomas estão a salvaguardar-se da repercussão social que estes têm. Refere ainda que se o construto de solidão for avaliado directamente, questionando os indivíduos acerca de quanta solidão sentem, ou com que frequências sentem solidão, as mulheres referem mais sentimentos de solidão; no entanto se o construto for questionado numa escala, indirectamente, os homens apresentam-se tipicamente com maior solidão. Apesar de ter encontrado estes dados, conclui o estudo dizendo que a experiência da solidão é influenciada por muitos mais factores do que o género. Numa outra investigação, e abordando algumas variáveis que se inserem directa e ou indirectamente em contextos de saúde Cacioppo et al. (2002) referem num estudo intitulado “Solidão e saúde: potenciais mecanismos” algumas questões relacionadas com a relação entre o sono e a solidão. Neste estudo os autores recrutaram vinte e cinco participantes adultos com idades entre os 53 e 78 anos, que referiam ser na generalidade saudáveis, não sofrerem de diabetes ou cancro, e não tomarem beta-bloqueadores ou anti depressivos. Utilizaram a escala UCLA para avaliar os níveis de solidão, criando depois dois grupos, caracterizados por terem pouca solidão ou muita solidão. Verificou que entre os estes dois grupos não existiam diferenças significativas relativas ao índice de massa corporal, consumo de álcool, tabaco e café. Relativamente a outra variável considerada pertinente para avaliar a percepção subjectiva de saúde e bem estar: o sono, verificaram estes autores, que os sujeitos com maiores níveis de solidão apresentavam valores mais elevados, estatisticamente significativos, na escala PSQI (Pittsburgh Sleep Quality Index), que Mestrado em Psicologia do Idoso 58 avalia a qualidade do sono; donde se inferiu, que valores mais elevados de solidão indicam pior qualidade do sono. No entanto, relativamente à duração do sono, este autor não encontrou diferenças significativas entre os que apresentaram maior solidão e menor solidão. Ou seja, parece haver uma variável de atribuição qualitativa para o sono, que parece determinar de forma mais significativa a percepção de solidão. Não parece importar tanto o quanto se dorme, mas sim, se o sono é ou não sentido como reparador. Se os sujeitos se sentem bem após as horas de sono, independentemente do período em que se dormiu, e se esse acordar é sentido como reparador e repousante, a percepção subjectiva de solidão não é sentida. Concluindo, os mesmos autores afirmam, que a solidão parece ser um traço individual estável, corroborando a ideia de outros autores. Relativamente aos comportamentos de saúde tanto a amostra de jovens como a de adultos idosos apresentam diferenças triviais entre os que sentem mais solidão e os que sentem menos solidão, sugerindo que os comportamentos de saúde poderão não ser uma causa importante para a morbilidade mortalidade entre os indivíduos que sentem menos ou mais solidão. Ainda em torno da mesma problemática, Mcnnis e White (2001) referem que os idosos estão especialmente vulneráveis a sentimentos e estados de solidão, devido ao seu declínio da sua saúde física, que os força ao isolamento social. Além destas, também a perda de familiares próximos e a proximidade da morte, contribuem para esta vulnerabilidade (Shearer e Davidhizar (1993; 1994) citados por Mcnnis e White (2001)). DeFillipi et al. (1993), Wood e Macintyre (1999), Haggerty e Williams (1979) e Zack (1991), citados por esta autora, afirmam que a solidão já foi relacionada com diversos problemas de saúde emocional e física, nomeadamente o alcoolismo, ansiedade e depressão. Para explorar este fenómeno a autora realizou um estudo com vinte indivíduos com idades com mais de 75 anos, encontrando cinco grandes temáticas que descrevem a experiência da solidão. Assim, descreve que: - a solidão acontece quando os idosos experienciam a perda ou ausência de um relacionamento importante como resultado da morte ou separação; - acontece quando vivem um estado como resposta à dor, escuridão e desolação acompanhada da percepção do fim de um relacionamento amoroso, e com a resistência a convites por parte da comunidade onde vivem; - a solidão é evitada ou eliminada usando estratégias de coping, que podem ou não resultar como mecanismos compensatórios; FPCE – U. Porto 59 - a solidão é um estado de ansiedade, medo e tristeza influenciado pelo actual estado de dependência ou medo dele, e o decréscimo das capacidades funcionais; - a solidão é um estado de sofrimento silencioso onde a pessoa está relutante ou incapaz de verbalizar a sua própria solidão. Todavia, e porque esta temática importa ser compreendida e analisada, serão abordadas no presente estudo, as relações entre algumas variáveis comportamentais e atitudinais inerentes à percepção de saúde e a sua relação com a percepção subjectiva de solidão, num conjunto de duas sub amostras em contextos rurais. Os contornos da problemática que se pretende estudar, bem como o racional metodológico e estatístico seleccionados para a elaboração empírica do estudo, será a seguir apresentado. Mestrado em Psicologia do Idoso 60 FPCE – U. Porto 61 2ª PARTE – ESTUDO EMPÍRICO Mestrado em Psicologia do Idoso 68 uns escassos passos, separada apenas pelo rio, que não chega a constituir obstáculo, pois e vencido por uma ponte medieval. Os primeiros documentos históricos relativos a Rio de Onor em Portugal datam do século XIII. A aldeia estava formada por dois bairros, um deles, propriedade de Pedro Garcia Escudero, o outro de Padrem de Uclés, monges residentes em León. A fronteira foi criada depois da separação de Portugal do Reino de León no século XII. A barreira foi traçada sobre o curso natural do regato Regaçores. No entanto, monges da Ordem do Templo," que viviam em León tinham vinhas e casas no termo (território) português. Estes mesmos monges tinham-se apoderado da velha povoação de Guadramil. Também os Freires de Uclés tinham propriedades, num sítio do termo chamado Couto. Nos princípios do século XVII, quando se fizeram as Inquirições, toda a parte Portuguesa passou a pertencer a Casa de Bragança, juntamente com Guadramil. Rio de Onor foi um lugar de refúgio durante a perseguição dos judeus em 1492 em Espanha, e em 1496 em Portugal. Também foi uma aldeia chave na Segunda Guerra Mundial que refugiou pessoas perseguidas de nacionalidade Francesa, Polaca, Alemã, e Inglesa. Embora não existam documentos mais antigos que as Inquirições, segundo Jorge Dias (1981), tudo leva a crer que Rio de Onor seja anterior a nacionalidade pelo facto da aldeia estar dividida ao meio. Esta divisão da aldeia cm duas metades ainda hoje se mantêm. Segundo Dias (1981), o conselho rionorês é a organização de todos os participantes na propriedade colectiva integral. O conselho tinha uma organização social com o intuito ajudar todos os habitantes desta aldeia a ultrapassar os problemas da economia. Estes habitantes exploravam o melhor possível as terras que possuíam colectivamente, para cultivar os alimentos que necessitavam e para as pastagens do gado. Todas as famílias tinham um participante no conselho. Existiam assim regras e leis; os direitos e deveres de cada senhor estavam bem definidos e havia também um sistema de coimas, para que este tipo de organização funcionasse a cem por cento. O conselho regulava as actividades quotidianas e tradicionais. Os coutos eram a maior riqueza da terra usufruída colectivamente. Assim, criou-se uma condição para a participação no conselho, cada família não podia colocar nos pastos mais do que três cabeças de gado. Os gados eram indispensáveis para as lavouras e estrumes. Os membros do conselho elegiam todos os anos, dois mordomos. De acordo com Dias (1981), todos os vizinhos (nome que se atribuía aos habitantes de um fogo) FPCE – U. Porto 69 eram obrigados a desempenhar o cargo de mordomo, sempre que chegasse a sua vez (rotação cíclica). Os mordomos eram nomeados no dia do Ano Novo; competia-lhes dirigir os interesses da povoação, "conduzir o povo". Os mordomos que passado um ano terminassem o cargo tinham que prestar contas aos precedentes e a todo o conselho. "A escrituração de todas as despesas publicas correntes esta gravada em talas." (Dias, 1981, pag. 84). Rio de Onor raramente tinha que recorrer a justiça, já que os mordomos geralmente resolviam os casos que surgiam, como por exemplo, questões de gado, prejuízos causados na propriedade de cada um, e roubos. Quando os membros do conselho faltavam às reuniões também era aplicada uma multa. O preço desta multa era estabelecido todos os anos na ocasião da tomada de posse dos mordomos. Quando alguém praticava um delito que não era corrente, os mordomos convocavam o conselho e juntos resolviam o caso. O conselho tinha também uma espécie de policia que percorria todos os dias as propriedades para avaliar os prejuízos que os gados ou qualquer pessoa que pudessem ter causado. Existia também uma vara, como símbolo de autoridade. O seguro mútuo existia para socorrer os membros do conselho em caso de desgraça. Ou seja, quando um membro do conselho tivesse um desastre grave a comunidade era obrigada a suportar os prejuízos e assim o vizinho não tinha tantas perdas. A economia típica e Rio de Onor era essencialmente de subsistência. O que interessava a este povo comunitário não era mais do que o cultivo e a criação para consumo próprio; a base da economia deste povo assentou outrora principalmente na agricultura e na criação de gado. Hoje estas actividades continuam a exercer-se mas não como forma única de subsistência. As pessoas que habitam nesta freguesia pertencem a uma faixa etária avançada, vivem de reformas estatais, cultivam e criam gado como complemento. O fabrico de carvão foi em tempos uma fonte de rendimentos, pois a fábrica de moagem de Bragança gastava este combustível e era facilmente vendido nesta cidade. Com o passar dos anos a rede eléctrica foi criada e o consumo de carvão foi sendo cada vez mais reduzido, a pouco e pouco foram deixando de vender o produto, na actualidade esta venda já não se realiza. Actividades como a caça e a pesca são limitadas já que Rio de Onor se encontra no Parque Natural de Montesinho. Antigamente também vendiam linho e vinho, os negociantes de Zamora preferiam o vinho de Casta que pertencia a Rio de Onor (português), o que lhes proferia um bom negocio. Mestrado em Psicologia do Idoso 70 Actualmente o gado dá um rendimento variável, o dinheiro que dele provem (bem como o da venda de trigo) serve para comprar adubos, alguns utensílios domésticos e géneros de mercearia. Em Rio de Onor a economia agrícola e pastoril equilibram-se perfeitamente. Contudo, é a vida pastoril com as suas características tão peculiares que confere coesão a vida social rionoresa. A curiosidade dos pastos comuns, extensos e diversos, determinaram a variedade de rebanhos e tipo de pastoreio que ali existem. Dentre estes pastos comuns atrás referidos os que têm maior importância são os Coutos. Os Coutos são lameiros de quilómetros de extensão, que se desenvolvem ao longo do rio e que por isso têm agua todo o ano. Estes lameiros são muito férteis, e embora outrora herdados por entidades privadas, hoje funcionam como propriedade colectiva, dividida igualmente por todos os vizinhos. Os Coutos são o grande orgulho dos Rionoreses, já que são a maior riqueza que possuem e por isso lhes merecem todos os cuidados. É importante referir que era nestes pastos que antigamente pastava a boiada. Os elementos da boiada (animais bovinos) pertenciam aos membros do conselho e formavam uma manada colectiva, guardada, à vez, pelos vizinhos do lugar. Hoje os pastores de Rio de Onor quase não tem gado bovino, possuem apenas um rebanho com cerca de 100 cabeças de gado embora o pasto continue a realizar-se da mesma forma. Cada pastor, por cada 4 cabeças de gado, leva todas as ovelhas a pastar um dia por mês. Os pastores que vigiam o rebanho são responsáveis por todos os danos que eventualmente sejam causados pelos animais, por falta de zelo. O estrume que resta após o pasto, e apanhado comummente num dia determinado e distribuído para estrumar as culturas. A agricultura tem um papel importante na vida das pessoas desta freguesia. A cultura do centeio é uma forte fonte alimentar (o pão) e desde tempos remotos vem fazendo concorrência à castanha. Em Rio de Onor também é comum ver-se plantação de batatas, hortaliças e vários legumes, trigo e diferentes frutos. A Viticultura desempenha também um papel importante não tanto na economia mas sim na vida social rionoresa. O vinho e o grande animador de todos os trabalhos do conselho, bem como, de algumas festas da freguesia. Este papel já foi muito mais importante do que, actualmente. Hoje em dia as culturas de vinho quase não se fazem, o vinho para consumo próprio é comprado em comércios. Toda a vida pastoril e agrícola esta submetida a organização colectiva. Nesta freguesia a faixa etária predominante, como já foi dito, é a de 65 e mais anos; como tal FPCE – U. Porto 71 quase todas as pessoas tiveram outrora actividade laboral mas já não a exercem, estão reformadas. A pequenez e o isolamento de Rio de Onor não permitem o desenvolvimento de grandes superfícies comerciais. Como e óbvio, tal problema impede que hajam profissões muito específicas já que os serviços poucas vezes seriam requisitados. Por estas razões grande parte das mercadorias e dos serviços especializados vem de fora, de terras próximas ou mesmo de longe, trazidas por vendedores ambulantes. Existe em Rio de Onor uma cervejaria que funciona como pequeno comércio onde os habitantes podem comprar alguns géneros de mercearia, no entanto, em dias de feira na capital de distrito (Bragança), os habitantes dirigem-se à cidade e aproveitam para fazer as suas grandes compras. Também se deslocam a freguesia, o padeiro, peixeiro e um vendedor ambulante de outras mercadorias (como peixes e carnes congeladas). Na vizinha e homónima aldeia espanhola a escassos metros, também existe um pequeno comercio que antes era mais usado pelos vizinhos Portugueses, pois era mais barato e compensava. Agora, com a entrada do euro como moeda europeia, estas desigualdades de preços já não se verificam e os habitantes de Rio de Onor quase não vão a esse pequeno comercio. Esta freguesia tem uma importante actividade turística, devido as suas características sociais tão peculiares e ao facto de pertencer ao Parque Natural de Montesinho. Curiosos de todo o pais e não só, visitam a freguesia e constatam que realmente Rio de Onor e um caso curioso de comunitarismo. Os Homens envelhecem muito mais rápido que os elementos naturais mas deixam marcas da sua técnica e da sua arte. A nossa terra também tem marcas da presença humana que os nossos antepassados lhe deixaram. Assim, o nosso património deve ser considerado não só como um pilar que sustenta a nossa identidade assumida, mas também como um recurso essencial para o nosso próprio desenvolvimento. O património de uma terra representa a expressão e os sentimentos que nela se vivem ou viveram; e um conjunto de lugares e de espaços que são memória de uma época e que nada a pode substituir. Cumpre-nos na actualidade compreender toda a riqueza dessa linguagem de simbolismos do passado. Rio de Onor vive fora do tempo, já que ainda hoje se vê uma freguesia em termos arquitectónicos muito semelhante à do passado. A casa é o mais consagrado micro espaço familiar onde se desenvolvem e fortalecem os mais fortes laços que unem a família. A casa tradicional de Rio de Onor persiste ainda na actualidade nesta aldeia, A casa típica constitui-se de dois andares, o rés-do-chão, destinado aos animais e a adega, e o primeiro andar destinado a Mestrado em Psicologia do Idoso 72 habitação familiar. Exteriormente recobrem-se de xisto (matéria construtiva que abunda neste local); os telhados formam-se de recortes de lousas (o que confere grande consistência) e possuem na sua estrutura madeiras rijas de carvalho e castanho. Para se aceder ao andar superior existe uma escada exterior, que liga o espaço público da rua a uma varanda aberta e coberta, na qual abre uma porta de entrada que, em geral, é a divisão onde se passa mais tempo e onde a família come: a cozinha. Durante o passar dos anos algumas modificações surgiram na casa tradicional, nomeadamente a criação de uma sala no piso superior. É aqui onde são dispostos os adereços mais vistosos e os melhores móveis, onde se recebem os amigos. Outra inovação foi a construção de uma pequena divisão para a casa de banho com espaço para sanita, lavatórios e banheira, equipamentos que, todavia, só a partir de começou dos anos 80 começaram a ser efectivamente instalados na maioria das casas. Na freguesia de Rio de Onor, segundo os dados do INE (2001), existem 107 habitações, das quais 59 possuem instalação eléctrica. Com água canalizada existem 57 casas, e 36 tem esgotos ligados a rede pública. O património colectivo de uma freguesia diz respeito as estruturas físicas comuns, das quais toda a população pode usufruir e que muitas vezes são a base turística de um determinado local. Em Rio de Onor existem varias construções comuns das quais os habitantes muito se orgulham, e que passamos a referir: Os pequenos ou grandes templos, que a fé do povo ou a instituição eclesiástica foi semeando pelo território nacional, são fruto de fé crista que, na sua expressão religiosa, tende a criar formas que unifiquem os sentimentos de modo a manifestar numa realidade mais ou menos concreta daquilo em que acredita. Esta realidade traduz, de algum modo, o dinamismo espiritual profundo, decorrente do diálogo entre a pessoa humana e o transcendente. Os pequenos gestos do povo foram criando a devoção; esta por sua vez criou espaços, lugares e formas, os Santos e os Anjos que ajudam o ser humano a viver enfermidades e a encontrar algum sentido quando a vida não o tem. Na freguesia de Rio de Onor existem duas igrejas: uma em Rio de Onor e outra em Guadramil. Estas duas entidades têm uma importância muito grande na vida social desta freguesia. O homem sempre se viu confrontado com a mais radical das situações limite, o enigma por excelência da existência humana que é a morte (PORTUGUES, 2002). A morte e um evento único e irrepetível na vida de cada pessoa e reveste-se de uma estrutura antropológica configuradora da existência humana. Para proporcionar descanso aos entes queridos, e com a finalidade de evitar epidemias, passaram a FPCE – U. Porto 73 enterrar os mortos. Consequentemente, com a religião católica, surgiram os cemitérios. Na freguesia de Rio de Onor existem dois cemitérios, um pertence a aldeia de Guadramil e outro à de Rio de Onor. Em Rio de Onor existem dois moinhos, um a montante do rio (junto a linha de demarcação da fronteira que delimita os terrenos das duas aldeias) e outro a saída da povoação. Apesar dos moinhos na actualidade não terem grande utilidade, o primeiro de que falamos ainda é por vezes utilizado, embora escassa vezes. Noutros tempos existiu na freguesia um touro que era usado na procriação, este era albergado numa casa e por isso lhe deu nome. O edifício da casa do Povo e utilizado actualmente para festas comunitárias. Existe na aldeia de Rio de Onor mas serve a freguesia. O parque de campismo está situado a entrada da aldeia de Rio de Onor. Além de ser importante para que os visitantes se possam albergar, este ainda traz lucro para a freguesia, uma vez que e explorado por pessoas que não residem na freguesia e que pagam uma cota anual pela sua exploração. Em Rio de Onor existem duas pontes, uma delas foi reconstruída e permite agora fazer travessia do rio de automóvel o que antes era impossível já que era apenas pedonal. No Centro de Artesanato encontram-se a venda produtos típicos da região, entre outros; sendo um local de interesse para os visitantes. O lavadouro ainda hoje e utilizada por alguns habitantes da freguesia, especialmente nos meses de Verão em que o frio não e impedimento. A forja e também propriedade comunal. E constituída por uma fornalha, fole e bigorna que se serviam os ferreiros para trabalhar no metal. Actualmente não e utilizada, mas é um importante foco cultural visitado pelos curiosos. Outro exemplo de edifício comunal, construído pelos habitantes da aldeia de Rio de Onor é a escola. Este primeiro edifício foi substituído, na década de 60, por outro espaço polivalente onde funciona o posto médico, com um salão para reuniões e realização de todo o tipo de festas. Em Guadramil também existe uma escola que agora não esta em funcionamento mas actualmente a freguesia não tem crianças que a frequentem, motivo pelo qual a escola foi fechada. A ferramenta agrícola usada outrora em Rio de Onor era quase toda de tipo tradicional e na sua maioria feita pelos habitantes do lugar, sozinhos ou com ajuda do ferreiro. Actualmente, existem ferramentas vindas de fora e as pessoas optam por comprá-las pois iriam gastar mais dinheiro se as fizessem manualmente. Mestrado em Psicologia do Idoso 74 Descrevem-se de seguida os instrumentos agrícolas mais usados em Rio de Onor antigamente: - O arado é um instrumento que se usa para lavrar as terras. O arado característico desta freguesia e do tipo radial e muito arcaico. Todas as culturas lavradas eram feitas com eles, tanto no termo espanhol como no português. - Os agrades eram instrumentos muito utilizados, serviam para agradar as terras. O rionorês só costumava agradar as terras de pão mais planas e mais fortes com a finalidade de desterroar. As terras onde se colocavam produtos de horta eram sempre agradadas, pois eram culturas mais delicadas que exigiam mais cuidados. Se a terra a gradar tivesse muitas ervas estas eram arrancadas antes de se agradar a terra com a ajuda de uma agrade de gantchas; a agrade também servia para trilhar palha para o gado, que se faz ainda na actualidade. - Para cavar as terras e fazer trabalhos mais minuciosos usavam enxadas (a que chamavam guintchas e sadanchas) e pequenos satchos que permitiam fazer trabalhos com mais pormenor. Actualmente alguns destes utensílios ainda se utilizam, com a diferença de serem comprados e não construídos pelos habitantes da freguesia, como referimos anteriormente. Antigamente não existiam veículos movidos a combustível, o carro utilizado para as deslocações era o "carro de bois". O carro típico de Rio de Onor era de eixo móvel, feito para vencer grandes distâncias, que separavam as pequenas povoações perdidas na espessura de densos matagais. Actualmente o transporte das pessoas e das mercadorias tem uma realidade muito diferente. Quem não tem carro próprio, utiliza os transportes públicos para as deslocações. A câmara municipal põe a disposição dos habitantes desta freguesia autocarros diários que trazem o transporte de Rio de Onor a Bragança e vice-versa. A freguesia de Rio de Onor e possuidora de um património cultural abundante, com costumes, crenças e um cunho religioso que lhe conferem uma mais valia e uma especificidade peculiar. No que se refere ao património cultural, podemos analisar as crenças populares. Segundo Dias (1981), os habitantes de Rio de Onor são considerados crentes e bons cristãos, possuem temperamento extrovertido e exuberante, que os eleva mais a manifestações de culto do que as orações recolhidas ou exaltação mística. Pela sua localização geográfica, estes habitantes tem uma vida isolada, longe de "maus exemplos", ambições desenfreadas e isso conservou-lhes uma ingenuidade rara nos dias que correm. FPCE – U. Porto 75 Para alem das suas crenças religiosas, os habitantes desta freguesia, como a maior parte da gente do campo, foram durante anos, supersticiosos e capazes de acreditar em forças misteriosas, espíritos malignos sob a forma de bruxas, mausolhados, etc., capazes de praticar actos sobrenaturais. É de frisar que a freguesia de Rio do Onor foi durante anos uma população perdida nos planaltos transmontanos, longe de todo o tipo de convívio, em que o pároco apenas a visitava 2 vezes no mês, comportamento que ainda se mantêm nos dias de hoje. A mentalidade desta população não é de fantasiar com monstros, mas tem uma forma alegre e particular de ver o Além e um Deus bondoso e benevolente, sempre pronto a perdoar. Possuem assim, uma cultura, cuja religião é extremamente extrovertida. A religião está intimamente ligada com as festas cíclicas e ritos de passagem. Nesta freguesia nada é espontâneo ou individual, a organização tradicional prevê tudo e todos que se submetem as suas disposições. Antigamente, o conselho escolhia todos os anos um rapaz para mordomo da igreja; ficava com a função de tocar o sino às horas habituais, anunciando o culto, ajudar na missa aos domingos e dias santos. Actualmente, é escolhido um rapaz da Comissão Fabriqueira (que zela pelos bens da igreja), que fica encarregue por tocar ao sino. No dia de S. Pedro ficava alguém destinado para o cargo de lampadário, encarregue de manter a lâmpada sempre fornecida de azeite. Além disso competia-lhe tocar as almas (Ave-Marias) todas as tardes. Actualmente, a lâmpada passa todos os meses por uma família, que fica encarregue de a tratar. No dia de S. João eram nomeadas duas moças para mordomas, a escolha era feita por aquelas que abandonavam o cargo nesse dia; ficavam encarregues de lavar os panos da igreja e enfeitar os altares da igreja. Actualmente são nomeados 8 mordomos (4 mulheres e 4 homens) para todas as festas, segundo as casas da aldeia. A limpeza da igreja, normalmente era feita ao domingo e era destinada a todos os habitantes da aldeia. Existia uma cruz especialmente destinada a lembrar a cada um a sua obrigação. Quando um vizinho acabava de varrer a igreja, levava a cruz ao vizinho que a tinha de varrer no domingo a seguir. Actualmente, esta função e destinada as mordomas. Os mordomos escolhidos ficam encarregues por todos os santos; o peditório e feito no dia de Todos-os-Santos. O S. João (padroeiro do lugar) recebe esmolas em dinheiro e o S. Sebastião recebe fumeiro. A igreja possui várias propriedades, cujo rendimento serve para as reparações da igreja e para dar resposta as necessidades das despesas das festas. E a comissão Mestrado em Psicologia do Idoso 76 fabriqueira, eleita lodos os anos pelo pároco da freguesia, que zela pelos bens da igreja. As propriedades da igreja são essencialmente rústicas. O dinheiro das esmolas é gasto também em benefício dos santos, em prendas e missas. As maiores festas realizadas em Rio de Onor Baixo são a de S. João, a de Nossa Senhora de Fátima, Reis e S. Sebastião. De todas as festas destaca-se, pelo brilho invulgar, a de S. João. A missa e cantada por 2 padres e a procissão da a volta a aldeia; esta e feita com toda a solenidade e respeito. A frente vai a bandeira levada por um mordomo. Tanto as festas religiosas como as profanas estão a cargo dos mordomos. Esta freguesia tem também uma história peculiar no que se refere ao tratamento de doenças. Nesta freguesia transmontana, as doenças foram durante anos, tratadas por processos tradicionais com alguma base empírica, outras com uma simples fórmula mágica. A doença é agora encarada como uma entidade natural. Só visitam o médico em casos excepcionais, até porque estão a grande distância de quaisquer posto médico. O médico visita a aldeia de Guadramil uma vez por mês, hábito que se perdeu na aldeia de Rio de Onor. Desde há muitos anos atrás, segundo Dias (1981, pag. 173). "... também aparecem casos de febre malta. A própria tuberculosa já lá entrou...”,"…são raros casos que não cedem ante as mezinhas caseiras." Hoje em dia utilizam essencialmente ervas como mezinhas. Os chamados rituais ou cerimónias de passagem são aqueles que acompanham as mudanças de lugar, estado, situação social e idade. Este povo isolado e fechado ao convívio moderno, mantêm cerimonias tradicionais destinadas a celebrar os maiores acontecimentos da vida humana, desde que se nasce ate que se morre. É um período breve que vai desde o berço até ao túmulo. "Breve para quem o encara na sua dimensão histórica, mas tão cheio de vicissitudes para aquele que o percorre na plena posse das suas faculdades" (Dias, 1981). De todas as festas, o rionorês dá maior importância ao casamento. Durante muitos anos havia um rito da puberdade, a chamada festa dos rapazes, que nos dias que correm já não existe. Há alguns anos atrás, segundo Dias (1981), quando uma mulher estava prestes a dar à luz, a família chamava as mulheres encarregues de fazer os partos. Embora não tivessem nenhuma preparação especial, tinham conhecimentos pela prática. Depois de nascer a criança, lavava-se, vestia-se e entregava-se aos cuidados da leiteira. Esta mulher estaria a amamentar algum filho e dava de mamar ao recémnascido, caso a mãe não tivesse leite suficiente. O baptizado realizava-se poucos dias após o nascimento, mas caso a criança estivesse débil apressava-se para não morrer por baptizar. Actualmente nenhum destes comportamentos se mantêm. FPCE – U. Porto 77 O dia do baptizado é um dia feliz e, para além dos convidados, junta-se sempre gente a assistir, pois a cerimónia costuma realizar-se ao domingo durante a missa. Os convidados são os familiares e amigos. Realizava-se todos os anos no dia de Reis. Participavam todos os moços desde que tenham completados os 16 anos e enquanto forem solteiros. Era assim considerado um rito de puberdade. Em conjunto angariavam fundos e conforme o que juntam, compravam uma vitela. O animal era preparado pelas moças na véspera de Reis. No dia da festa, de manhã cedo, saíam para a aldeia com o gaiteiro, tambor e cânticos. Ao terminarem a ronda, dirigiam-se para uma casa previamente cedida, cozinhavam o almoço e comiam. Vestiam-se de maneira bizarra e com máscaras pintadas: outros dois rapazes vestiam-se de mulheres e punham uns panos na cara para não serem reconhecidos, eram chamados as madamas. Um outro vestia-se de mulher a fiar e tomava ares de figura burlesca, era a chamada filandorra. Quando estavam todos prontos, saíam para a rua; percorriam as casas todas e não saíam sem receber o seu tributo, quer fosse chouriço ou dinheiro. Tudo o que recebiam era metido num saco que um deles levava as Costas. Ao jantar, tiravam as mascaras e as roupas, comiam e bebiam todos juntos. Depois da refeição chegavam as moças e o baile começava com o gaiteiro e o tambor ao ar livre, a não ser que o tempo os brigasse a ir para o curral. A noite havia ceia e depois continuava o baile, quando este terminava, iam pelas portas cantar os Reis. A cerimónia do casamento é das mais importante de início à sociedade. Os casamentos são ainda muito tradicionais, mas pouco frequentes; o noivo vai a casa da noiva pedir a mão da filha em casamento. Em Rio de Onor, povoações essencialmente tradicionais, os funerais revestiram durante anos um carácter de primitividade frisante. Alem da caridade de pão, adicionada muitas vezes de vinho e sardinhas, os convidados, parentes e amigos, bem como as suas famílias, desde as crianças aos velhos, eram ajantarados em abundância. Parece bárbaro, mas não é, pois não se tratava de festança, mas sim de rituais arcaicos, piedosos no conceito dos maiores génios da humanidade - Homero e Virgílio. Actualmente este acontecimento já não decorre (Alves, 2000). São chamadas festas cíclicas a todas as festas que correspondem a certos períodos do ano relacionados com os trabalhos do campo. A maior parte destas festas são de carácter religioso, sendo as outras meramente populares. O homem do campo não se importa com o calendário, mas segue ansioso as épocas de chuva, trovoadas, práticas supersticiosas, em que são nítidos os vestígios de rituais mágicos. Na freguesia de Rio de Onor, os meses não são reconhecidos pelos nomes oficiais. Habitualmente são reconhecidos “pelas sementeiras, pelas cegadas, ...". Mestrado em Psicologia do Idoso 84 Quanto à significação destas esculturas, diz-nos o Abade de Baçal que as opiniões divergem. Para uns são monumentos funerários e para outros divindades tutelares e guardas de túmulos. A capela de São Roque localiza-se no extremo leste de Parada e evidencia-se por ter sob a porta principal uma legenda de grande valor histórico, uma vez que recorda a peste que assolou Bragança, nos inícios do século XVI: “SENDO OPRIMIDOS DUMA GRANDE PESTE OS MORADORES DE PARADA FIZERAM VOTO O S. ROQUE NO ANO DE MDIX” A ponte de Parada veio facilitar as deslocações da população e minimizar o isolamento, que a acidentada topografia teimava dificultar. A construção desta ponte deverá ter acontecido em substituição de outra ponte de menor estrutura e mais vulnerável às cheias, por decisão da Câmara de Bragança em 1556. Esta ponte representava uma importante travessia sob o rio, nomeadamente entre Parada e Outeiro, visto tratarem-se de dois conselhos na época, e era por esta ponte que se efectuavam todas as trocas comercias entre estas localidades. Há referência de uma grande cheia por volta de 1804, provocando grandes estragos na ponte, que permaneceram cerca de trinta anos. Esta ligação começa a perder importância a partir de 1835–1836, data em que se verifica a extinção dos concelhos de Outeiro e Parada. As relações preferenciais passam a fazer-se com a cidade de Bragança. No início do ano de 1995 fez-se uma vistoria em que se detectou que a ponte se apresentava de um modo geral em estado de degradação significativo. Assim no período de Agosto a Outubro do mesmo ano foram realizados trabalhos de conservação. Em 1855, foi criada pela primeira vez em Parada de Infanções uma escola primária. Mais tarde este edifício foi substituído por outro em 1875. O campo escolar de Parada é composto por um infantário, onde as crianças permanecem enquanto os pais trabalham, e por uma Escola do Primeiro Ciclo do Ensino Básico. Os alunos que pretendam prosseguir os seus estudos terão de deslocar-se até Bragança. A cultura é o produto do pensamento do Homem. Assim reveste-se de alguma importância fazer uma breve abordagem ao património cultural desta aldeia. O homem adapta-se assim ao meio em que vive produzindo conhecimentos e comportamentos padronizados, que são apreendidos e transformados por cada geração. Assim, podemos dizer que é tudo o que os antepassados nos deixam de herança. FPCE – U. Porto 85 As festas e romarias, tão caras à alma do nosso povo, crente e folgazão, têm uma função simultaneamente religiosa e social. São um traço típico da cultura popular e tradicional do nosso povo. Estas manifestações, extremamente numerosas e variadas, fazem parte das tradições e memórias de um povo que luta para manter actual a cultura secular que lhe confere uma identidade muito própria. Esta freguesia tem as romarias anuais em honra de Santa Cruz (3 de Maio), S. Lourenço (10 de Agosto), N. Sra do Carmo (15 de Agosto), S. Roque (16 de Agosto) e S. Genésio (17 de Agosto) O Inverno é a estação das festas. Tiza (2004, pag. 87), diz-nos que “Chega Novembro, chegam os Santos e os Fieis. Chega o S. Martinho, chegam as castanhas e o vinho novo. Chegam o frio e as geadas, chegam as matanças. (…) Chegam também as festas e para nós festas são as do Natal.” Isto porque no Inverno as festas são o relembrar da tradição, o que cada um tem em sua casa e o que existe na aldeia. No espaço de uma semana, isto é, entre o Natal e o Ano Novo ocorrem diversas festividades. No dia 24 de Dezembro iniciam-se as celebrações do Nascimento, acendendo a grande fogueira. O gaiteiro faz-se ouvir por toda a aldeia, esta música Celta estabelece a ligação com o passado como nos diz Tiza (2004). Na missa do Galo recitam-se as loas ao Menino. No dia 26 de Dezembro comemora-se a festa dos homens, em honra de Santo Estêvão. No dia 27, a festa de S. João Evangelista e a 28 homenageiam-se os Meninos Santos Inocentes. Ao longo do ano são também organizadas a Festa do Ramo, Festa da Rosca, a Festa do Carro, o Cantar dos Reis, o Entrudo, e o Serrar das Velhas. Na véspera do Natal celebra-se a festa do ramo. Este ritual é organizado por quatro mordomos jovens e solteiros, dois rapazes e duas raparigas. Promovem o arranjo do “charolo”, que é um autêntico andor em forma de paralelepípedo rectangular, encimado por uma pirâmide. Todo ele está coberto de roscas e de pão, em cada canto coloca-se um bolo e outro no cimo da pirâmide. Do orifício central dos bolos sai um ramo de oliveira, adornado com frutas, chocolates, guloseimas e uma garrafa de vinho do Porto. Cada mordomo tem no “charolo” o seu próprio ramo, o quinto ramo pertence ao grupo da mordomia. Mestrado em Psicologia do Idoso 86 O “charolo” dá entrada na igreja, em procissão, antes do início da missa do Galo, aos ombros dos mordomos. Durante o percurso são cantadas as loas ao Menino, a seguir tem lugar a Missa do Galo que termina com o Beijar do Menino. Na manhã do dia seguinte, após uma missa, os mordomos trazem o “charolo” para a rua, e procedem à sua arrematação. Os compradores voltam a ofertar as roscas aos mordomos de S. Estêvão, que terão de organizar a corrida da rosca, a galhofa e os bailes da rosca. Cada ramo justifica um dia de festa e uma noite de baile. Este é um ritual comunitário em que o povo se reúne, bem como as freguesias vizinhas. Na quadra Natalícia, valoriza-se a reunião da família, daí que esta festa, a 26 de Dezembro, seja colectiva. No passado, “parece ter sido costume tomarem assento na mesa apenas os homens bons, quer mordomos, quer autoridades, enquanto o restante povo comia de pé as sardinhas assadas em redor da mesa. (…) Na verdade, a mesa das autoridades mantém-se (…). Mas há também a mesa do povo.” (Tiza, 2004, pag. 90) A comida é servida pelos mordomos que não se sentam e executam este trabalho vestidos a rigor. Mas no final, sobressaem os rapazes, pois são eles que tiram os mordomos da mesa e os levam em ombros para o carro e daí para a casa de cada um, onde terão de oferecer vinho, castanhas e tremoços. É justamente no final da refeição da festa dos Rapazes ou Homens Bons, que surge o carro de bois, que chia fortemente. Os rapazes de Parada agarram-se aos jugos, ou ajudam a empurrar, na parte traseira do carro, tendo como objectivo chegar á casa dos mordomos, sem parar mostrando a força e agilidade dos rapazes. Ao longo do percurso, os rapazes podem encontrar dificuldades e talanqueiras preparadas pelas raparigas para testar as capacidades físicas dos rapazes. Todos os obstáculos têm de ser vencidos, porque o carro não deve parar. A frente do carro vai o gaiteiro, o homem idoso, e o careto, que procuram guiar e prever a localização das talanqueiras. Na casa dos mordomos tudo está preparado para receber a rapaziada e premia-la na sua valentia, os familiares oferecem o vinho simples ou fortificado com alguns condimentos, misturando açúcar e ovos batidos, para comer, bolos e doces deste tempo festivo. FPCE – U. Porto 87 O dia 28 de Dezembro é desde à muito tempo dedicado à realização de provas de resistência física. A missa matinal em honra dos Santos Inocentes, é o primeiro acto festivo, seguindo-se uma volta pela povoação para dar as boas festas e tirar a esmola para o S. Estêvão. A esmola deve incluir a rosca que foi arrematada anteriormente. Nesta volta destacam-se os gaiteiros e os caretos com as sacudidelas dos chocalhos. Durante a tarde faz-se a corrida da rosca, que “consiste numa corrida de duas ou três mãos de cerca de 100 metros entre dois rapazes, descalços ou em meias e em cuecas ou ceroulas, agora calções. (…) Um dos mordomos está no fundo a dar a partida ”. (Tiza, 2004, pag. 94) O outro mordomo está no cimo segurando a corda que assinala a meta, e a rosca que o corredor tem que tocar, e apanhar na última mão. Mas ambos correram, ambos mostraram ser velozes. Este ritual será o que resta da luta greco-romana nestas paragens. À noite, reúne-se um grupo de homens num curral, convenientemente atapetado com palha seca no chão. Disputa-se uma luta corpo a corpo, que cada atleta tenta derrubar o adversário ou imobiliza-lo de Costas no chão. Só quando isto acontece é que se reconhece a vitória. Segundo a tradição as mulheres são interditas de assistir. Durante a luta bebe-se vinho e comem-se as “mamotas”, que são castanhas cozidas. No final faz-se uma boa refeição, onde estão presentes os mordomos. No mês de Janeiro, é habitual cantarem-se os reis, o que, actualmente, esta tradição só se mantém devido à força de vontade de alguns jovens. Entre o dia de Reis e o dia 20 de Janeiro era tradição ir cantar os reis à família e aos amigos. Era costume ser o avô a ensaiar o grupo, que fazia uma adaptação dos versos tradicionais à família. No final do dia partiam ruma à casa das famílias. Ao longo dos tempos foram-se perdendo algumas tradições características do Entrudo. No entanto, houve outras que permaneceram, das quais se destaca as “caqueiradas” e as “papeladas”. “As caqueiradas consistiam em penicos ou cântaros velhos cheios de cinza e bogalhos que eram atirados para dentro de portas, ou derramados no chão da cozinha. Esta mistura barulhenta e “poluidora” do ambiente era, por vezes, enriquecida com nozes, amêndoas, castanhas, rebuçados e chocolates para pessoa de mais respeito, aliando assim a brincadeira a deferência, como forma de suplantar o atrevimento e o despeito das brincadeiras de Carnaval”. (Gabinete de Protecção e Divulgação das Culturas de Portugal, 2001) Mestrado em Psicologia do Idoso 88 As papeladas procuravam destacar, pelo ridículo, as pessoas e os acontecimentos mais marcantes do ano, com a presença de um burro. A papelada terminava quando alguém dizia: “E tu, que estás aí, / Por que te estás a envergonhar?! / Se alguém ficou chateado / Que nos dê à noite de jantar Aqui, queridos amigos, / Eu vos desengano, / Acenando-vos com a mão / Adeus até para o ano.” (Gabinete de Protecção e Divulgação das Culturas de Portugal, 2001) Esta é uma tradição muito antiga do Entrudo, que nos foi contada pela sr.ª Ana Afonso. É feita uma procissão em que um homem vai com as varilhas aos ombros, tapado com um lençol, a fazer de morto. O resto dos homens vão à volta dele com “fachucos” e a chorar. Um dos homens vai vestido de padre. Esta procissão dá a volta à aldeia para mostrar o morto. Esta tradição antiga realiza-se na quarta-feira da terceira semana da Quaresma e destina-se às mulheres que foram avós pela primeira vez. O cortejo é formado por “padres”, homens casados ou solteiros da freguesia, e “acólitos”, jovens. À noite dirigem-se à casa da primeira avó a ser serrada. Os “padres” levam os livros, a partir dos quais cantam os ofícios, em coro ou em diálogo, de acordo com o estatuto da avó a serrar. “Se é rica e tem dinheiro / Faz-se ofício por inteiro / Se é pobre e não tem nada / Arma-se-lhe uma gargalhada.” (Gabinete de Protecção e Divulgação das Culturas de Portugal, 2001) Os acólitos fazem as exéquias características do ritual, serram os paus, tocam os chocalhos e choram as lágrimas dos netos desamparados. O cortejo termina com vinho, bolos e doces. E partem para a próxima casa, onde outra avó espera pela sua vez de ser serrada. A diminuição de avós nessas condições tem levado a que se serrem mais do que uma vez e lá cantam agora "Olha lá, minha avozinha, / muito nos fazes pensar. / Nós vamos pedir a Deus/ para bem anos te serrar." (Gabinete de Protecção e Divulgação das Culturas de Portugal, 2001) A matança do porco é um ritual de Inverno transmontano. Como nos diz Genésio (2001, pag. 91): FPCE – U. Porto 89 “ são cerimónias ligadas à origem, às raízes da vida colectiva onde cada individuo pertencente a uma comunidade, (…), traz até nós essa vivência comum, o fluir de um tempo outro que reconhecemos como nosso.” “O matador enterra a faca com precisa e meticulosa habilidade, elevendo os guinchos do animal. O sangue solta-se a jorros. (…) A mulher está presente, em silêncio, efectuando a tarefa que lhe cabe: aparar o sangue da vítima para o alguidar – operação de muita habilidade e técnica já que, do seu sucesso, depende a confecção ou não de parte do fumeiro.” (Genésio, 2001, pag. 93) Mais ao lado, a palha vai sendo escolhida para lumieiras que tostarão a pele já morta. Hoje, o maçarico a gás vai substituindo a palha. Lavam-no, e retiram-lhe as tripas que são entregues às mulheres que as lavam no rio ou ribeira. Içam-no a pulso, dependurando-o na loja numa boa trave. Segundo o mesmo autor (pag. 94), “é nesta altura que as mulheres chamam a elas o ritual, pois se no acto de matar o porco, o homem está presente, a partir de agora ele é afastado e todos os actos pertencem e são da exclusiva responsabilidade das mulheres.” Quando as mulheres chegam de lavar as tripas, todas as pessoas bebem vinho quente adoçado com mel ou açúcar. Também é costume assar o “picho” do porco, e estufar a “muleja”. Na cozinha está preparado o manjar para todos os que ajudaram na matança, este é também um momento de convívio da comunidade. Da parte de tarde as mulheres fazem as chouriças pretas, e os homens vão com a cria para o campo. Nos tempos livres, os habitantes de Parada jogam futebol, o fito e a raiola. O fito joga-se com duas pedras e dois marcos (duas pequenas pedras colocadas em pé e distantes uns 10 a 20 metros). Dois ou quatro jogadores iniciam o jogo, tentando derubar o fito: o marco de pedra ou, pelo menos, conseguir que a sua pedra fique o mais próxima possível dele. O derrube do marco vale quatro pontos, enquanto que conseguir colocar a malha mais próxima que o adversário vale dois pontos. Vence o jogo aquele que conseguir chegar primeiro aos quarenta pontos. A raiola joga-se com dois, quatro ou seis participantes, conforme os pares. O objectivo deste jogo tradicional é colocar a moeda o mais próximo possível das raias. Outro aspecto cultural que é importante relembrar são os chás, e as mezinhas caseiras. Parada como outras aldeias transmontanas, também usa esta sabedoria popular para a cura de doenças e outras afecções. Mestrado em Psicologia do Idoso 90 “O uso das plantas como remédio caseiro fundamenta-se na tradição e também numa necessidade económica. Lavradores que trabalham de sol a sol, adoecem no campo, e desejam curar, é lógico que usem produtos do mesmo campo” (Maçaira, 1981). Alguma desta medicina caseira, encontra-se descrita na revista Brigantia por Maçaira (1981). Esta freguesia conta com diversas associações para preservar e divulgar as tradições, a cultura e o património local, são exemplo disso o Grupo Desportivo de Parada, a Associação de Caçadores de Parada e a Associação Desportiva de Paredes. Nesta freguesia acolhedora, as delícias gastronómicas são muito parecidas às da restante terra fria transmontana. Assentam essencialmente no fumeiro, derivados da matança do porco. Dos pratos típicos que podem ser saboreados na freguesia de Parada destacam-se o butelo com cascas, e o folar da Páscoa. Em termos culturais, Parada e Paredes contam com artesanato característico, do qual se destacam a ferraria, tecelagem, calçado, tamancaria e alfaiataria. Mas com o passar dos anos, a produção artesanal foi-se extinguindo, actualmente só há um sapateiro que continua a manter viva a sua tradição, evitando, que desta forma, que ela caía no esquecimento dos mais novos. Como os provérbios e adivinhas são característicos de uma região, foi necessário uma recolha junto da população da freguesia. Após uma conversa com a Sr.ª Ana Afonso recolhemos o seguinte provérbio referente a esta freguesia: “Em Parada te vejo eu minha filha, mas não sem merenda”. As actividades económicas das gentes de Parada continuam centralizadas no sector primário, nomeadamente nas culturas de cereal, da castanha e da batata, na produção de vinho e de azeite, assim como na criação de gado. No domínio do sector secundário, destacam-se as indústrias de panificação, de marcenaria e de produção de azeite. O sector terciário encontra-se representado por vários estabelecimentos comerciais, onde se pode adquirir os bens de primeira necessidade. No dia 11 de cada mês, tem lugar em Parada uma feira, onde os habitantes se abastecem dos bens de maior necessidade. Relativamente aos recursos de saúde, a freguesia de Parada é abrangida pelo Centro de Saúde de Bragança e Centro Hospitalar do Nordeste, unidade de Bragança. FPCE – U. Porto 91 Contudo, sempre que necessário, a população dispõe de equipas de saúde constituídas por um enfermeiro e por um médico que se deslocam ao domicílio. Todas as terças-feiras, está um médico e um enfermeiro na casa do povo para prestar todos os cuidados de saúde necessários. No que diz respeito aos recursos ambientais, estes englobam essencialmente o solo, o clima, a recolha e tratamento dos resíduos sólidos, e as águas e o saneamento. Trás-os-Montes é uma região de clima duro, no seu interior, as terras montanhosas vão-se alongando por vastos planaltos cortados por fendas tectónicas, que se estendem da terra fria até à terra quente. “A organização do espaço faz-se em unidades dispersas de aglomerados populacionais – as aldeias. As características físicas destas paisagens agrestes e escarpadas, de calores extremos e frios excessivos, condicionam o viver, o comer e o vestir quotidioano.” (Ribas, 2004, pag.56) O seu clima é bem apresentado no refrão popular, de “nove meses de Inverno e três de inferno. O tratamento dos resíduos sólidos nesta freguesia é efectuado pela empresa Focsa, após a recolha da Resin. Esta freguesia dispõe de vários contentores distribuídos por alguns pontos estratégicos, tem um ecoponto na entrada da aldeia de Parada. Quanto às águas e saneamento, todas as habitações da freguesia têm abastecimento de água de rede pública, bem como saneamento. Antigamente não existiam veículos movidos a combustível, o carro utilizado para as deslocações era o “carro de bois”. Actualmente o transporte de pessoas e das mercadorias tem uma realidade muito diferente. Quem não tem carro próprio, utiliza os transportes públicos para as deslocações. 3.3. HIPÓTESES DE INVESTIGAÇÃO Uma hipótese é uma expectativa sobre acontecimentos, baseada em generalizações de uma relação que se assume como tal, entre determinadas variáveis. As hipóteses são abstractas e estão relacionadas com as teorias e os conceitos, enquanto as observações, que se utilizam para testar essas hipóteses, são específicas e baseadas em factos, como afirma Tuckman (2000). Mestrado em Psicologia do Idoso 92 Recuperando as questões de investigação já enunciadas colocam-se agora as hipóteses de trabalho, que se assumem com o estatuto de hipóteses gerais, segundo a caracterização de Tuckman (2000). Este autor defende que devem que se devem elaborar as hipóteses gerais que darão resposta directa às questões de investigação, podendo depois ser criadas hipóteses específicas, de forma a explicar melhor a realidade encontrada. Assim, estas hipóteses específicas funcionaram como observações antecipadas, que viram em prosseguimento das hipóteses gerais, e que serão descritas posteriormente. Depois do exposto, consideram-se hipóteses para este trabalho de investigação as seguintes: H 1 – A escala SELSA de DiTommaso, Brannen e Best (2004) apresenta características psicométricas satisfatórias nos idosos da amostra. Com esta hipótese pretende-se verificar o reagrupamento que os itens desta escala têm quando submetida à análise factorial para as três dimensões de solidão, para confirmar o exposto pelo autor da escala, e posteriormente analisar a consistência interna de cada factor. H 2 – Existem diferenças estatisticamente significativas entre o nível de Percepção subjectiva de Solidão global (UCLA; Neto, 2000) sentida pelos idosos a habitar numa aldeia comunitária e noutra aldeia não comunitária, do concelho de Bragança. Segundo o exposto no construto teórico deste estudo, e tendo em conta especificamente a caracterização das aldeias que constituem esta amostra, pretendese verificar se apresentam diferenças. H 3 – Existem diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de percepção subjectiva de solidão sentida por idosos na dimensão social (sub-Escala Social SELSA de DiTommaso, Brannen e Best, 2004) a habitar numa aldeia comunitária e noutra aldeia não comunitária, do concelho de Bragança. H 4 – Existem diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de percepção subjectiva de solidão sentida por idosos na dimensão familiar (sub-Escala Social SELSA de DiTommaso, Brannen e Best, 2004) a habitar numa aldeia comunitária e noutra aldeia não comunitária, do concelho de Bragança. FPCE – U. Porto 93 H 5 – Existem diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de percepção subjectiva de solidão sentida por idosos na dimensão romântica (subEscala Social SELSA de DiTommaso, Brannen e Best, 2004) a habitar numa aldeia comunitária e noutra aldeia não comunitária, do concelho de Bragança. Com estas hipóteses pretende-se dar resposta às questões de investigação desta pesquisa. Para o estudo destas hipóteses será utilizado uma metodologia estatística especifica, de modo a reconhecer o nível de influência e a sua significância. Para melhor organizar estas hipóteses, eles serão apresentadas em dois grupos, sendo um deles constituídos pelas hipóteses referentes às variáveis sociodemográficas, e o outro constituído pelas hipóteses referentes às variáveis de caracterização do estado de saúde. H6 – As variáveis sociodemográficas (género, idade, habilitações literárias, estado civil, rendimento familiar, reforma e ocupação de tempos livres) influenciam o nível de percepção subjectiva de solidão (Escala UCLA de Neto, 2000) e pelas subescalas SELSA (DiTommaso, Brannen e Best, 2004): - A Idade influência o nível de solidão sentida - O género influencia o nível de solidão sentida - As habilitações literárias influência o nível de solidão sentida - O estado civil influência o nível de solidão sentida - O rendimento familiar mensal influência o nível de solidão sentida - O dinheiro chegar ao fim do mês influência o nível de solidão sentida - Estar reformado influência o nível de solidão sentida - As razões da reforma influenciam o nível de solidão sentida - A idade da reforma influência o nível de solidão sentida - O tipo de ocupação dos tempos livres, entre os reformados, influência o nível de solidão sentida Estas variáveis foram consideradas importantes para este estudo, pois já foram estudados por outros autores. A influência da idade na solidão já foi estudada, segundo Neto (2000), por Rubenstein e Shaver (1982), Gutek, Nakamure, Gehart, Handschumacher e Russel (1980), Rubenstein, Shaver e Paplau (1979), entre outros. Faz assim sentido rever estes dados nesta nova amostra, colocando da hipótese anterior descrita. O género, o estado civil e os rendimentos também estão referidos em Mestrado em Psicologia do Idoso 100 É uma amostra populacional que se divide em dois grupos, um de idosos a habitar no meio rural do concelho de Bragança, e outro de idosos em meio rural numa aldeia comunitária do concelho de Bragança. Foram excluídos os idosos que apresentavam evidentes estados demências, ou que não consigam responder com autonomia à totalidade das questões. Os idosos solicitados a participar nesta investigação serão informados dos objectivos desta investigação, assim como do total sigilo dos dados recolhidos. Para a concretização deste trabalho foram seleccionadas duas aldeias do concelho de Bragança. A primeira, Rio de Onor, foi seleccionada por apresentar características especificas, nomeadamente ser uma aldeia comunitária, situação que foi descrita na caracterização da aldeia, e que de certa forma merecia uma atenção especial na temática deste estudo. A segunda foi seleccionada aleatoriamente, apenas tendo em conta ser uma aldeia de uma zona oposta à cidade de Bragança, tendo em conta a localização de Rio o Onor, e tendo o perfil de aldeia típica transmontana. Assim sendo a escolha recaiu sobre Parada. Para Fortin (1999) “uma população é uma colecção de elementos ou de sujeitos que partilham características comuns, definidas por um conjunto de critérios.” Ainda segundo a mesma autora, os elementos que constituem a população devem satisfazer os critérios de selecção definidos antecipadamente, para os quais o investigador pretende fazer generalizações. Neste estudo a amostra terá dois momentos de apresentação: um primeiro, que a seguir s expõe, e diz respeito a variáveis consideradas “demográficas gerais” e o de apresentação propriamente dita, aquando da apresentação dos resultados. Neste primeiro momento, veremos aspectos de distribuição amostral, nomeadamente – porque neste estudo se considera essencial conhecer – no que diz respeito às localidades em que moram estes idosos, ao género, à idade, ao estado civil, e também no que diz respeito ao estado civil e à reforma. Assim (Tabela 2) pode verificar-se que, a maioria da amostra inquirida (68,7 %) vive na freguesia de Parada e 31,3% vive da freguesia/ aldeia comunitária de Rio de Onor. Tabela 2 - Distribuição dos valores da amostra segundo a localidade N % Rio de Onor 56 31,3 Parada 123 68,7 Total 179 100,0 FPCE – U. Porto 101 No gráfico seguinte podemos observar a distribuição da variável anos de idade, verificando-se que a idade mínima é 60 anos e a idade máxima 92. A média das idades é de 72,45 com um desvio padrão de 7,67. Existem duas modas que são as idades 75 e 79, com 11 indivíduos cada. Figura 4 – Distribuição dos valores da mostra segundo a idade 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 85 87 88 89 92 Idade N Tal como atrás foi explicado, e no sentido de melhor estudar esta variável, tendo em conta a distribuição, e nomeadamente dos valores relativos acumulados de distribuição da variável, foram formados três grupos etários conforme a seguir se expõe: a variável deixou de ser contínua e apresenta-se agora em 3 escalões etários. Conforme se verifica na Tabela 3, a amostra distribui-se maioritariamente – 66 pessoas - no escalão etário entre os 76 e 92 anos, e minoritariamente – 58 pessoas no escalão entre os 60 e 67 anos, não sendo todavia esta distribuição significativamente diferente, quer entre grupos de aldeias, quer entre escalões etários. Tabela 3 – Distribuição dos valores absolutos da distribuição da variável da amostra: escalões etários Grupos Etários 60 - 67 68 - 75 76 - 92 Total Rio de Onor 16 16 24 56 Localidade Parada 42 39 42 123 Total 58 55 66 179 p = ,526 Mestrado em Psicologia do Idoso 102 A Tabela 4 demonstra a distribuição da amostra segundo o género, evidenciado o maior número de elementos do género feminino (N=103), respectivamente 57,5 %. Quando analisada a distribuição do género por localidade, verifica-se que em Rio de Onor existe o mesmo número de homens e mulheres, havendo em Parada mais mulheres que homens, respectivamente 75 e 48. No entanto, esta diferença não é significativa, p = .168. Tabela 4 – Distribuição dos valores absolutos e percentuais da variável localidade da amostra e género Genero Masculino Feminino Total Rio de Onor 28 28 56 Localidade Parada 48 75 123 Total 76 103 179 p = .168 A análise da Tabela 5 demonstra o evidente predomínio de níveis de habilitação literária menor que a 4ª classe, sendo que a grande maioria da amostra se enquadra nos grupos de habilitações literárias até ao primeiro ciclo do ensino básico, estando neste grupo - o mais representativo - 43,6% dos indivíduos da amostra. Os grupos de habilitações literárias menos representado nesta amostra são Ensino Secundário e Ensino Superior, ambos com N=1, representando 0,6% da amostra. Tabela 5 – Distribuição dos valores absolutos e percentuais da variável da amostra segundo a localidade e as habilitações literárias Habilitações literárias Menor 4º classe 4ª classe e mais Total Rio de Onor 35 21 56 Localidade Parada 58 65 123 Total 93 86 179 p = .057 A amostra (Tabela 6), apresenta uma predominância, - 65,4% dos indivíduos - no estado civil de Casado/União de Facto, e onde se encontram menos indivíduos é Solteiro (N=16). Esta diferença de distribuição não tem significado estatístico. FPCE – U. Porto 103 Tabela 6 - Distribuição dos valores absolutos e percentuais da variável da amostra segundo a localidade e o estado civil Estado civil Viúvo ou solteiro Casado Total Rio de Onor 17 39 56 Localidade Parada 44 78 122 Total 61 117 178 p = .456 Mestrado em Psicologia do Idoso 104 4.2. INSTRUMENTO DE COLHEITA DE DADOS Na opinião de Fortin (1999) o instrumento de colheita de dados é usado no processo de observação, de medida e de tratamento de dados, visando recolher informação sobre as variáveis junto dos sujeitos que participam numa investigação. Para a autora supra citada, um investigador ao escolher um instrumento de colheita de dados a utilizar deve ter em consideração o objectivo do estudo, as questões de investigação colocadas ou as hipóteses formuladas, para tal deve ter um amplo conhecimento de todos os instrumentos de colheita de dados existentes, assim como as vantagens e inconvenientes de cada um. No presente trabalho, tendo em consideração as características da população em estudo, optou-se por utilizar o formulário, como instrumento de colheita de dados. Segundo Gil (1991), o formulário “pode ser definido como a técnica de colecta de dados em que o pesquisador formula questões previamente elaboradas e anota as respostas”. Ainda segundo o mesmo autor, o formulário situa-se entre o questionário e a entrevista, reunindo assim, vantagens e desvantagens de ambas as técnicas. O formulário não garante o anonimato do entrevistado, no entanto revela-se um meio rápido e barato, e aplicável a um grande número de pessoas, inclusive às não alfabetizadas. Possibilita ainda, a obtenção de dados facilmente calculáveis e quantificáveis, e permite a análise do comportamento não verbal. Uma vez que o nível de escolaridade dos idosos em questão é considerado baixo, utilizou-se o inquérito como instrumento de recolha de dados, constituído por três partes. A primeira parte diz respeito a questões de caracterização sóciodemográfica. Na segunda será abordada a situação de saúde dos idosos da amostra. Na terceira parte será avaliado o nível de solidão. Quando um conceito é colocado em acção numa investigação ele toma o nome de variável. As variáveis são qualidades, propriedades ou características de objectos, de pessoas ou de situações que são estudadas numa investigação. Fortin (1999). Segundo Kerlinger (1973), citado por Fortin (1999), uma variável pode tomar diferentes valores para exprimir graus, quantidades, diferenças. É um parâmetro ao qual valores numéricos são atribuídos. De acordo com Fortin (1999), as variáveis podem ser classificadas de diferentes maneiras, segundo a sua utilização numa investigação. Algumas podem ser manipuladas, outras controladas. Os tipos de variáveis mais correntemente apresentadas nas obras metodológicas são as variáveis dependentes e as variáveis independentes. A mesma autora refere que a variável independente é que o FPCE – U. Porto 105 investigador manipula num estudo experimental para medir o seu efeito na variável dependente. A variável dependente é aquela que sofre o efeito esperado da variável independente: é o comportamento, a resposta ou o resultado observado. Para a caracterização sócio-demográfica foram abordadas as seguintes variáveis: - Identificação individual - Localidade - Género - Idade - Estado civil - Habilitações literárias - Situação de reforma Para caracterizar a situação de saúde dos idosos da amostra foram abordadas as seguintes variáveis: - Consumo de Tabaco - Consumo de Álcool - Hábitos de higiene - Hábitos de sono - Avaliação subjectiva de saúde - Dados antropométricos Na avaliação da solidão utilizam-se várias as escalas, mas no presente estudo foram apenas usadas as escalas de UCLA (Neto, 1989) e SELSA (DiTommaso, Brannen e Best, 2004). Segundo (Neto, 2000) a escala de UCLA é encarada enquanto estado psicológico e apreendida de modo unidimensional. Os autores pretendiam com esta escala criar um instrumento psicometricamente adequado, de fácil administração que pudesse servir de estímulo à investigação empírica sobre a solidão. Foi desenvolvida uma Escala de Solidão da UCLA que inclui 10 itens redigidos de modo positivo e 10 de modo negativo. Esta escala revista é relativamente curta, fácil de administrar, altamente fidedigna, e mostra ser válida quer na avaliação da solidão quer na discriminação entre solidão e outros construtos relacionados. Adaptouse esta escala para a população portuguesa pois era pertinente. Os vinte itens são avaliados numa escala de escolha múltipla com quatro alternativas: nunca, raramente, algumas vezes, muitas vezes. A versão portuguesa reduziu os vinte itens em 18 itens. (escala de UCLA – quadro em anexo I) Mestrado em Psicologia do Idoso 106 Os sujeitos com pontuações altas na escala da solidão descrevem-se como sentindo-se mais sós que as outras pessoas. Os valores totais oscilam entre 18 e 72, sendo o valor médio 45. Apesar da escala de solidão da UCLA ser um instrumento adequado também levanta diversos problemas potenciais. Um primeiro problema é a possibilidade de enviesamento nas respostas já que todos os itens foram redigidos na mesma direcção, as pontuações elevadas reflectindo sentimentos de insatisfação social. Um segundo problema refere-se à desejabilidade social, isto é, se um certo estigma está ligado à solidão, os sujeitos podem distorcer as respostas subvalorizando a sua experiência de solidão. Um outro problema diz respeito à validade discriminante. A SELSA (Social and emotional loneliness scale for adults) de DiTommaso, Brannen e Best (2004) é a escala de solidão social e emocional, que surgiu a partir da escala de DiTommaso na tentativa de criar uma versão curta, trata-se de um instrumento multidimensional, psicologicamente credível e viável, que avalia o nível de solidão social e emocional (familiar e romântica) do idoso. Esta escala é constituída por 15 itens, resultante da abreviatura da escala original de SELSA (constituída por 37 itens, demasiadamente exaustiva e pouco atractiva para a maioria dos estudos). As opções de resposta variam entre o “ totalmente em desacordo” e o “ totalmente de acordo”, havendo uma opção de resposta neutra “ indiferente”. Quanto mais alta for a pontuação obtida na escala, menor será a solidão do idoso inquirido. Os valores totais oscilam entre os 15 e os 105, sendo o valor médio 60. (DiTommaso, Brannen e Best, 2004) Esta escala é constituída por três sub-escalas (DiTommaso, Brannen e Best, 2004), a romântica, a sub-escala de relações com a família e a de relações com os amigos. Com a sub-escala social (de relações com os amigos) pretende-se saber se o idoso tem um grupo de amigos no qual se sente inserido, por quem é compreendido, partilhando pontos de vista e do qual obtém e aceita a ajuda. A sub-escala relações com a família, pretende avaliar o modo como o idoso está inserido na família, o seu grau de proximidade com os elementos familiares, a percepção que este tem relativamente ao apoio recebido pela família, nomeadamente, preocupação consigo, companheirismo, apoio e encorajamento a todos os níveis. Por fim, a sub-escala romântica remete-nos a um conhecimento mais aprofundado do relacionamento do idoso com o respectivo cônjuge (partilha de pensamentos e sentimentos, apoio e encorajamento necessários, grau de satisfação com a relação e contributo na felicidade no outro). Permitindo-nos também conhecer a necessidade sentida pelo idoso de um/a parceiro/a romântico/a ou matrimonial. (escala de SELSA - quadro em anexo). FPCE – U. Porto 107 4.3. PROCEDIMENTOS Preparação dos auxiliares de aplicação Os dados foram recolhidos por alunos finalistas do curso de enfermagem, da Escola Superior de Saúde de Bragança do Instituto Politécnico de Bragança, tendo sido feita uma prévia preparação 1 teórica e prática. A operacionalização da variável dependente, a solidão subjectiva, foi baseada no resultado obtido nas escalas UCLA e SELSA. Marcação cronológica Os dados foram recolhidos entre Novembro de 2005 e Maio de 2006. Para a recolha de dados foram contactados os párocos e os presidentes das Juntas de Freguesia das aldeias em causa. Foi assim agendado a data oportuna para efectuar a recolha de dados assim como os locais disponíveis e funcionais onde esta seria feita. Aplicação dos instrumentos de recolha de dados A aplicação dos instrumentos de recolha de dados foi efectuada com a colaboração de alunos do curso de licenciatura em enfermagem, previamente preparados e instruídas para o efeito. Para uma melhor compreensão dos valores obtidos, serão apresentados gráficos e tabelas, simultaneamente com a análise dos dados. Para cumprir o desenho exploratório e correlacional proposto, foram seleccionados diferentes procedimentos estatísticos, em tempos sequentes. 1º Momento de Estudo de variáveis Para as vaiáveis que inserem a primeira parte do Questionário (Anexo I), foi usada a estatística descritiva, com medidas de tendência central e de dispersão, para tratar as variáveis de caracterização da amostra. Na segunda parte do questionário, as duas escalas utilizadas para medir as Solidão, foram analisadas com procedimentos estatísticos diferentes. Para o tratamento dos dados recolhidos foi utilizado o programa informático SPSS. 1 Esta preparação destes “auxiliares de investigação”, decorreu com a colaboração da Professora Adjunta Maria Augusta Mata, Mestre em Saúde Pública e professora da disciplina de Saúde Comunitária, que desenvolve anualmente um trabalho de Diagnóstico de Situação de saúde comunitária com os estudantes de Enfermagem. Mestrado em Psicologia do Idoso 108 Inicialmente serão utilizados testes estatísticos que se refém à estatística descritiva, a fim de obter as frequências absolutas e relativas com que os factos estudados acontecem, e também de encontras algumas medidas de tendência central. Será utilizado o teste ANOVA e X 2 para verificar se existem diferenças entre as características da amostra, para depois se podem constituir grupos passíveis de serem comparados no que se refere a avaliação de solidão. A avaliação dos níveis de solidão será apresentada analisando a média e o desvio padrão que cada item das escalas obteve. Depois será feita a análise dos factores que constituem a escala, a fim de se verificar a aplicabilidade desta teoria descrita ao longo deste trabalho a esta realidade. Assim, o conjunto de itens que integra cada escala, será submetido a Análise Factorial com rotação varimax, para transformar as expressões em dados agrupáveis ou Factores de agregação. FPCE – U. Porto 109 5. RESULTADOS Tendo em conta o racional metodológico e o racional estatístico que acaba de ser exposto, para dar cumprimento ao desenho do estudo, serão agora apresentados os resultados, conforme foram sendo explicados nas análises estatísticas seleccionadas. Serão apresentados inicialmente as principais características da amostra, e de seguida as características referentes aos comportamentos relacionados com a situação de saúde. Finalmente serão apresentados os resultados referentes à avaliação de solidão subjectiva, tanta na avaliação global de solidão assim como na avaliação tridimensional de solidão. 5.1. OUTRAS CARATERISTICAS DA AMOSTRA Para além das características sócio demográficas da amostra, anteriormente apresentadas a fim de melhor a caracterizar, serão agora apresentada de forma mais detalhada para se compreender melhor a população em estudo. Para isso foram questionadas algumas variáveis de caracterização: rendimento mensal familiar. Quando questionados acerca do rendimento mensal familiar, 34,1% dos indivíduos afirmou não saber ou não querer responder. Dos que responderam a esta questão, o maior grupo situa-se no rendimento mensal familiar entre os 200€ e os 450€, representado 38,5% da amostra. Há ainda um grupo, com 10,6%, de indivíduos que afirmou ter rendimento mensal familiar maior que 950€. Tabela 7 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: rendimento mensal familiar N % Sem resposta 61 34,1 <200 8 4,5 200-450 69 38,5 450-700 17 9,5 700-950 5 2,8 >950 19 10,6 Total 179 100,0 Mestrado em Psicologia do Idoso 116 Tabela 21 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: quantidade de consumo de álcool por dia N % Meio copo 8 4,5 Um copo 21 11,7 Dois copos 32 17,9 Três copos 13 7,3 Quatro copos 7 3,9 Mais de quatro copos 8 4,5 Total 89 49,7 A observação desta variável recodificada, tendo em conta a distribuição relativa acumulada, vem revelar que dos idosos que bebem, independentemente da aldeia (p = ,041), há 32 idosos assumem consumir até um copo por dia. Mas a maioria (Não=60) dos idosos bebe mais do que um copo de vinho por dia, facto que de algum modo corrobora não só os hábitos sociais e culturais como torna pertinente a atenção destas populações idosas relativamente aos comportamentos prescritores da sua saúde em geral. Tabela 22 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: consumo de álcool por dia Quantidade de álcool por dia Até 1 copo / dia Mais de 1 copo / dia Total Rio de Onor 7 26 33 Localidade Parada 25 34 59 Total 32 60 92 p = ,041 A partir dos dados anteriores, houve necessidade de conhecer, como se vê na Tabela 23, que tipo de álcool era consumido. Assim, e sem diferenças significativas entre as aldeias ( p = ,259) , a maioria da amostra bebe vinho, o que de facto é culturalmente mais vulgar no Nordeste Transmontano. Curiosamente todos em Rio de Onor preferem o vinho a qualquer outro tipo de álcool, e em Parada há 3 idosos que dizem que bebem álcool, mas não é o vinho que consomem. Tabela 23 - Distribuição dos valores absolutos da variável da amostra: consumo de álcool Vinho Sim Não Total Rio de Onor 33 0 33 Localidade Parada 56 3 59 Total 89 3 92 Fisher's Exact Test p = ,259 FPCE – U. Porto 117 Verifica-se agora, através da observação da Tabela 24, que a amostra, independentemente da aldeia (p = ,490), consome cerveja: em Rio de Onor há 3 idosos que o assumem e em Parada há 7, todavia e corroborando os hábitos culturais deste escalão etário e o contexto laboral e cultural, ao tempo em que se mantinham activos, a grande maioria (Não=85) não assume preferir a cerveja, em detrimento do vinho, fenómeno que é característico da região. Tabela 24 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: consumo de cervejal Cerveja Sim Não Total Rio de Onor 3 30 33 Localidade Parada 4 55 59 Total 7 85 92 Fisher's Exact Test p = ,490 No que respeita ao consumo de aguardente, também reconhecida como alvo de consumo neste contexto cultural rural, verifica-se na Tabela 25 que independentemente da aldeia (p = ,244), a grande maioria (N=87) não a consome, havendo só 5 idosos que a mantêm integrada nos seus consumos de álcool: 3 pessoas em Rio de Honor e 2 pessoas em Parada. Tabela 25 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: consumo de álcool Aguardente Sim Não Total Rio de Onor 3 30 33 Localidade Parada 2 57 59 Total 5 87 92 Fisher's Exact Test p = ,244 Nesta amostra encontramos 108 pessoas que afirmaram não consumir café, representado 60,3% da amostra, e independentemente da aldeia (p = ,086), e conforme se observa na Tabela 26, há 71 idosos que têm o hábito de beber café, mas destes, a maioria Não=54) é da aldeia de Parada. Tabela 26 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: consumo de café Consumo de café Sim Não Total Rio de Onor 17 39 56 Localidade Parada 54 69 123 Total 71 108 179 p = ,086 Mestrado em Psicologia do Idoso 118 Tabela 27 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: quantidade de café consumido Quantidade de café consumido Localidade N M DP GL F p Rio de Onor 17 1,18 ,393 Parada 54 1,46 ,693 Total 71 1,39 ,643 1 2,625 ,110 Relativamente ao consumo de tabaco, hábito fixado no género masculino neste contexto etário e cultural, a maioria da amostra (N=154) e sem diferenças estatisticamente significativas entre as duas aldeias (p=,190), corroborando esta noção, assume que não fuma nem fumou, mas há 25 pessoas, e destes a maioria (N=20) da aldeia de Parada, fumou e mantém este hábito actualmente. Curiosamente, de entre a população de Rio de Onor, só 5 idosos do total de 56 é assumem ter hábitos tabágicos. Tabela 28 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: consumo de tabaco Consumo de tabaco Sim, ou no passado Não Total Rio de Onor 5 51 56 Localidade Parada 20 103 123 Total 25 154 179 p = ,190 Outra variável considerada interessante para o estudo em causa, foi o sentido de cuidados prestados a si próprio e nomeadamente ao corpo, e aqui fez sentido estudar a higienização, também para perscrutar a noção da amostra acerca da sua própria postura em contextos intra e inter relacionais. Quando inquiridos acerca da frequência do banho geral, este cuidado é significativamente diferente para cada uma das aldeias (p=,009): Na aldeia comunitária de Rio de Onor a maioria (N=34) das pessoas toma banho menos de duas vezes por semana, contrariamente, na aldeia de Parada a maioria (N=74), toma banho 2 vezes ou mais. Tabela 29 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: Frequência de banho geral por semana Frq. do banho geral por semana 2 vezes ou mais menos de 2 vezes Total Rio de Onor 22 34 56 Localidade Parada 74 49 123 Total 96 83 179 p = ,009 FPCE – U. Porto 119 Relativamente às horas de sono por dia, pode observar-se na Figura 5,que o número de horas mais frequente é 8 horas por dia, sendo esta a resposta de 33,5% dos indivíduos inquiridos (N=60). Figura 5 - Distribuição dos valores da amostra: número de horas de sono 126 13 19 16 60 32 19 56 0 10 20 30 40 50 60 70 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Horas de sono por dia N Esta mesma variável recodificada, tendo em conta os valores relativos acumulados, revela que em geral são as pessoas de Rio de Onor que dormem mais, e com diferença significativa de horas entre estas aldeias, já que os idosos em Parada dormem menos horas Tabela 30 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: rendimento Localidade M DP GL F p Rio de Onor 8,36 1,678 Parada 7,64 1,947 Total 7,87 1,891 1 5,640 ,019 No sentido de melhor compreender as relações entre as variáveis comportamentais de saúde e a percepção de solidão, a amostra foi submetida também a questões relativas à sua própria percepção de saúde. Quando inquiridos acerca do primeiro critério de Baumann, nomeadamente à questão “Considera que actualmente existem alterações Mestrado em Psicologia do Idoso 120 na sua saúde?”, mais de metade dos indivíduos (N=93) respondeu afirmativamente (53,6%) e um total de 83 idosos afirmam que não sentem alterações na sua saúde, e não há significado estatístico para as diferenças desta percepção dos idosos entre as aldeias (p = ,738). Estes valores são aqui esperáveis – tendo em conta os encontrados para a variável: “razão de reforma” – já que há nesta amostra 88 idosos inválidos, razão pela qual estão reformados. Tabela 31 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: Alterações na Saúde Alterações na sua saúde Sim Não Total Rio de Onor 29 27 56 Localidade Parada 67 56 123 Total 96 83 179 p = ,738 Ainda neste contexto, mas com diferenças estatisticamente significativas entre as duas aldeias (p=,006), quando inquiridos acerca do segundo critério de Baumann, nomeadamente à questão “Considera-se saudável?”, verifica-se o seguinte: no global, mais de metade dos indivíduos respondeu afirmativamente (52,5%), mas em Rio de Onor há mais idosos (N=38) que se consideram saudáveis do que em Parada, relativamente ao total amostral. Tabela 32 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: Percepção de saúde Considera-se saudável Sim Não Total Rio de Onor 38 18 56 Localidade Parada 56 67 123 Total 94 85 179 p = ,006 No sentido de ser percebida a capacidade de auto-cuidado, ou seja de bastarse a si próprio, a amostra foi solicitada para a resposta ao terceiro critério de Baumann, em que era questionado aos indivíduos acerca do desempenho das actividades e auto cuidado sem auxílio, e desta, verifica-se que, e independentemente das aldeias (p=,093), uma grande maioria da amostra, conforme Tabela 31, afirmou positivamente, sendo que só 43 idosos assumem necessitar de ajuda para as suas necessidades auto-cuidativas. FPCE – U. Porto 121 Tabela 33 - Distribuição dos valores relativos e absolutos da variável da amostra: desempenho das actividades e cuidar de si próprio sem auxílio Diariamente desempenha as suas actividades e cuida de si próprio sem auxilio Sim Não Total Rio de Onor 47 9 56 Localidade Parada 89 34 123 Total 136 43 179 p = ,093 Para aceder à compreensão contextual destes idosos no seu universo geocultural, foram pesquisadas as diferenças para algumas variáveis de carácter antropométrico das populações das duas aldeias, e se estas diferenças eram significativas. Todavia e como pode verificar-se na Tabela 34, nem o peso, a estatura, nem perímetro abdominal e nem mesmo o IMC é significativamente diferente. Nas suas diferenças, a população das duas aldeias apresenta uma similitude geocultural global mais evidente, que a torna mais idêntica do que diferenciada. Tabela 34 – Apresentação da ANOVA para os valores de significância estatística das variáveis de caracterização da amostra e as duas aldeias em estudo Localidade N M DP GL F p Rio de Onor 56 70,18 13,458 Parada 114 71,16 12,880 Peso Total 170 70,84 13,042 1 ,211 ,647 Rio de Onor 55 159,49 8,472 Parada 114 157,88 8,502 Estatura Total 169 158,40 8,501 1 1,340 ,249 Rio de Onor 56 99,98 10,647 Parada 114 99,46 13,664 Perímetro abdominal Total 170 99,64 12,719 1 ,062 ,804 Rio de Onor 55 27,3196 4,56956 Parada 114 28,5688 4,42539 Índice de Massa Corporal Total 169 28,1622 4,49765 1 2,894 ,091 Esta noção vem corroborar a maioria das variáveis estudadas, as características da amostra apresenta mais semelhanças do que diferenças e nas diferenças encontradas só as variáveis “frequência de associações recreativas”; “conversar com amigos”; “ver televisão e ouvir rádio”; frequência do banho”; “horas de sono” e “percepção de sentir-se saudável”; é que assumem significado estatístico. Em suma, o que se assume e reconhece significativamente diferente é que em Rio de Onor os idosos conversam e passeiam mais com os amigos e com a família, ouvem mais rádio e vêem mais televisão, dormem mais horas e consideram-se mais Mestrado em Psicologia do Idoso 122 saudáveis do que os idosos em Parada, variáveis estas que poderão ser de alguma forma influentes na sua percepção subjectiva de solidão. O que os idosos de Parada assumem, é que tomam banho com mais frequência do que os outros. Todas as outras variáveis indicam mais uma distribuição de identificação uniformizante com a região. FPCE – U. Porto 123 5.2. SOLIDÃO Após análise da informação recolhida junto da amostra, através da aplicação do instrumento de colheita de dados, foram obtidos os resultados abaixo descritos, o que permitiu analisar a situação de solidão social e psicológica subjectiva dos indivíduos. Assim, o conjunto de itens que integra cada escala, será submetido a Análise Factorial com rotação varimax, para transformar as expressões em dados agrupáveis ou Factores de agregação. A utilização da Análise Factorial, tem como finalidade, além de agrupar os itens em conjuntos homogéneos, identificar a relação entre os itens e servir de validação a cada uma dessas escalas como construto (Ribeiro, 1999). Para medir o grau de consistência interna entre os itens, e assim poder assumir-se o nível de fidelidade de cada escala, será determinado o coeficiente alfa de Cronbach. Tabela 35 – Distribuição das médias e desvios-padrão relativos à Percepção subjectiva de Solidão segundo os itens enunciados na Escala de SELSA Itens Média d.p. Sinto-me só quando estou com a minha família. 1,78 1,66 Sinto que faço parte de um grupo de amigos. 2,23 1,76 Tenho um/a parceiro/a com quem partilho os meus pensamentos e sentimentos mais íntimos. 3,14 2,53 Não há ninguém na minha família de quem eu possa depender para me apoiar e encorajar, mas gostaria de ter. 2,23 1,85 Os meus amigos compreendem os meus motivos e razões. 2,23 1,42 Eu tenho um/a parceiro/a romântico/a ou matrimonial que me dá apoio e encorajamento que necessito. 3,58 2,61 Eu não tenho amigos que partilhem os meus pontos de vista, mas gostaria de ter. 2,90 2,09 Sinto-me próximo da minha família. 1,84 1,51 Sou capaz de depender da ajuda dos meus amigos. 3,08 1,76 Quem me dera ter uma relação romântica mais satisfatória. 2,76 2,13 Sinto-me parte da minha família.* 1,59 1,26 A minha família realmente preocupa-se comigo.* 1,56 1,21 Não tenho nenhum amigo que me compreenda, mas gostaria de ter. 2,32 1,84 Eu tenho um/a parceiro/a romântico/a para cuja felicidade eu contribuo.* 3,54 2,61 Tenho uma necessidade oculta de uma relação romântica próxima. 1,96 1,75 * Itens invertidos No que se refere a avaliação da solidão com a escala SELSA, em que as respostas eram dadas numa escala de Likert com 7 valores de concordância, que vai desde o totalmente em desacordo até ao totalmente de acordo, o item com que a amostra mais concordou foi “Eu tenho um/a parceiro/a romântico/a ou matrimonial que me dá apoio e encorajamento que necessito, com uma média de 3,58 e desvio padrão de 2,61, que corresponderá entre o pouco desacordo e indiferente, e o que apresentou menor grau de concordância foi “A minha família realmente preocupa-se comigo.”, Mestrado em Psicologia do Idoso 124 com uma média de 1,56 e desvio padrão de 1,21, situando-se entre as afirmações totalmente desacordo e muito desacordo. Relativamente à avaliação da solidão com a escala UCLA, em que as respostas eram dadas numa escala de Likert com 4 valores de frequência, que vai desde o nunca ao muitas vezes, o item com que a amostra considerou mais frequente foi “Os meus interesses e ideias não são partilhados por aqueles que me rodeiam.”, com uma média de 2,34 e desvio padrão de 1,03, que corresponderá ao raramente, e o que apresentou menor frequência de ocorrência foi “Há pessoas a quem posso recorrer.”, com uma média de 1,32 e desvio padrão de 0,58, situando-se na frequência de ocorrência assinalada como nunca. Tabela 36 – Distribuição das médias e desvios-padrão relativos à Percepção subjectiva de Solidão segundo os itens enunciados na Escala de UCLA Item da Escala UCLA Média d.p. Sinto-me em sintonia com as pessoas que estão à minha volta 1,34 0,55 Sinto falta de camaradagem 2,04 1,08 Não há ninguém a quem possa recorrer 1,84 1,09 Sinto que faço parte de um grupo de amigos 1,60 0,82 Tenho muito em comum com as pessoas que me rodeiam 1,63 0,72 Já não sinto mais intimidade com ninguém 2,14 1,10 Os meus interesses e ideias não são partilhados por aqueles que me rodeiam 2,34 1,03 Sou uma pessoa voltada para fora 1,94 0,97 Há pessoas a quem me sinto chegado 1,42 0,61 Sinto-me excluído 1,39 0,76 Ninguém me conhece realmente bem 1,96 1,08 Sinto-me isolado dos outros 1,67 0,98 Consigo encontrar camaradagem quando quero 1,61 0,75 Há pessoas que me compreendem realmente 1,41 0,59 Sou infeliz por ser tão retraído 1,53 0,91 As pessoas estão á minha volta mas não estão comigo 1,82 0,87 Há pessoas com quem consigo falar 1,39 0,62 Há pessoas a quem posso recorrer 1,32 0,58 De entre as técnicas factoriais da análise de dados foi usada a análise em componentes principais. A análise em componentes principais foi a primeira que, historicamente, se baseou num tratamento matemático rigoroso (principio dos anos 30). Do facto, após trabalhos de diferentes investigadores no domínio da psicologia quantitativa (em que se pretendia encontrar os factores latentes tais como inteligência, imaginação, criatividade subjacentes aos resultados de uma bateria de testes incidindo sobre um conjunto de indivíduos), Hotteling formulou a solução do problema, a partir de uma matriz de similitude ou de distância que relaciona entre si os resultados dos diferentes testes. FPCE – U. Porto 125 Para ajudar a interpretar os factores obtidos e comum usar-se métodos que procedem a rotação dos eixos seleccionados. Vários métodos têm sido propostos para este propósito, um dos métodos convenientes e o varimax; foi este o método escolhido neste estudo. Os factores sofrem rotação de forma a maximizar a soma do quadrado das variâncias das quantidades no interior de cada coluna da matriz de rotação. O propósito e o de produzir valores grandes ou pequenos e evitar valores intermédios (Kendall, 1980). Sobre as respostas obtidas ao questionário, relativamente a escala SELSA, aplicado à totalidade da amostra respondente, foi efectuada uma Análise Factorial, em componentes principais com rotação varimax relativamente a cada uma das três subescalas (dimensões da solidão). Para a construção dos Factores, foi utilizado como ponto de saturação igual ou superior a .40, determinando o número de itens a incluir em cada Factor. Tabela 37 – Análise de Componentes Principais Inicial relativa à Percepção Subjectiva de Solidão Componentes Itens da Escala SELSA Social Romântica Familiar 1. Sinto-me só quando estou com a minha família. ,397 ,182 ,281 2. Sinto que faço parte de um grupo de amigos.* ,752 ,028 -,087 3. Tenho um/a parceiro/a com quem partilho os meus pensamentos e sentimentos mais íntimos.* ,073 ,880 -,008 4. Não há ninguém na minha família de quem eu possa depender para me apoiar e encorajar, mas gostaria de ter. ,412 ,116 ,423 5. Os meus amigos compreendem os meus motivos e razões.* ,827 ,106 -,004 6. Eu tenho um/a parceiro/a romântico/a ou matrimonial que me dá apoio e encorajamento que necessito.* ,033 ,929 ,132 7. Eu não tenho amigos que partilhem os meus pontos de vista, mas gostaria de ter. ,611 -,144 ,297 8. Sinto-me próximo da minha família.* ,378 ,206 ,542 9. Sou capaz de depender da ajuda dos meus amigos.* ,554 ,057 -,033 10. Quem me dera ter uma relação romântica mais satisfatória. -,206 -,100 ,736 11. Sinto-me parte da minha família.* ,286 ,212 ,538 12. A minha família realmente preocupa-se comigo.* ,436 ,293 ,502 13. Não tenho nenhum amigo que me compreenda, mas gostaria de ter. ,412 -,040 ,329 14. Eu tenho um/a parceiro/a romântico/a para cuja felicidade eu contribuo.* ,034 ,926 ,030 15. Tenho uma necessidade oculta de uma relação romântica próxima. -,067 -,055 ,689 Através deste, dos 15 itens do questionário, foram excluídos 3 por não constituírem agrupamento específico, ou não obterem níveis de saturação Mestrado em Psicologia do Idoso 132 e a ver televisão e ouvir rádio, o consumo de álcool, a frequência de banho por semana, e a percepção subjectiva de saúde. Todavia não foram encontradas diferenças estatisticamente diferenciadoras (ANEXO II, Tabelas 41 - 69) para as variáveis “O rendimento familiar chega até ao fim do mês?”, a reforma, a razão para a reforma, a idade da reforma, a ocupação de tempo livre a jogar cartas, xadrez, damas, e a fazer renda, a ocupação de tempo livre na frequência de associações recreativas, a ocupação de tempo livre a conversar, o passear com os amigos e familiares, a ocupação de tempo livre a ler livros, revistas e jornais, a ocupação de tempo livre em trabalhos domésticos e cuidados familiares. Tão pouco se encontraram diferenças significativas em variáveis de consumos tal como: a quantidade de álcool, o consumo de vinho, de cerveja, de aguardente, bem como o consumo de café, nem com a quantidade de café consumido; além de que o mesmo se passa para o consumo de tabaco, e as horas de sono. Também não foram estatisticamente diferenciadoras as percepções de saúde “Considera que actualmente existem alterações na sua saúde?”, e a percepção de (in)dependência, “Diariamente desempenha as suas actividades e cuida de si próprio sem auxílio?”. Na seguinte tabela podem observar-se as correlações (p Pearson) da avaliação subjectiva de solidão com as variáveis de saúde antrpométricas, respectivamente o peso, estatura, perímetro abdominal e índice de massa corporal, sendo que só se verifica existir correlação entre estas variáveis independentes e a avaliação de solidão da sub-Escala SELSA romântica. Tabela 41 - Distribuição dos valores da variável dependente “solidão” relativamente à variável independente “avaliações antropometricas” da amostra ULCA SELSA subescala social SELSA subescala familiar SELSA subescala romântica r -,105 ,014 ,037 -,313** p ,172 ,856 ,631 ,000 Peso N 170 170 170 170 r -,130 -,071 -,065 -,257** p ,091 ,357 ,403 ,001 Estatura N 169 169 169 169 r -,057 ,037 ,003 -,226** p ,460 ,636 ,973 ,003 Perímet abdom. N 170 170 170 170 r -,067 ,050 ,095 -,197* p ,384 ,520 ,221 ,010 IMC N 169 169 169 169 ** Correlation is significant at the 0.01 level (2-tailed). * Correlation is significant at the 0.05 level (2-tailed). FPCE – U. Porto 133 O peso, a estatura, o perímetro abdominal e o índice de massa corporal geram uma correlação baixa e negativa, estatisticamente significativa com a percepção subjectiva de solidão. Após esta apresentação dos resultados, será dado início à discussão e análise, onde se farão as comparações com os resultados obtidos por autores das pesquisas já apresentadas em construto, e que fundamentam as variáveis em estudo. Mestrado em Psicologia do Idoso 134 FPCE – U. Porto 135 6. DISCUSSÃO Ao longo do percurso deste estudo, pretendeu-se explorar e reconhecer um modelo de solidão tridimensional, para dar consecução à finalidade enunciada, ou seja, conhecer um perfil da percepção subjectiva do idoso. Assim, após a abordagem do objecto de estudo em construto, e aceder a alguns resultados de estudos efectuados em torno do mesmo objecto, pode partir-se para a componente empírica, e aceder a um perfil de Percepção Subjectiva de Solidão (geral), através da aplicação da Escala UCLA (Neto, 2000) e as diferentes dimensões desta, tal como se defendeu no construto teórico, e também através da Escala SELSA (Cramer, 2000), avaliando respectivamente a Percepção Subjectiva de Solidão ao nível Social, Familiar e Romântico. Este modelo de percepção subjectiva de solidão obtido, através da amostra respondente, serve agora de base, para iniciar a Discussão dos resultados, não só porque apresentam algumas diferenças relativas às características das amostras em estudo, mas também porque essas diferenças influenciam de algum modo o tipo de percepção, tal como se explicitou em construto, que estas pessoas têm do seu contexto de quotidianos e este por sua vez influência de forma directa o perfil que se obtém de solidão percepcionada. O que agora se pretende recuperar, é a visão global e específica da solidão, da percepção da mesma e de como e quanto as varáveis da amostra têm aqui um estatuto diferenciador. Numa primeira Hipótese de trabalho estabeleceu-se como meta que a escala SELSA de DiTommaso, Brannen e Best (2004) apresenta características psicométricas satisfatórias nos idosos da amostra. Comprovou-se de facto estas características da escala, mas não na sua totalidade, já que só a maioria dos itens insere o perfil de percepção subjectiva de solidão. Este estudo obteve como resultado, um perfil de solidão, formado por um sub-conjunto de três perfis: a Percepção de Solidão Social, Familiar e Romântica. A Percepção Subjectiva de Solidão Social faz-se representar por um perfil de sentimentos positivos, em torno da noção de interacção social, em que os amigos representam compreensão e núcleo grupal de pertença e identificação, e não parece haver no global de respostas da amostra sentimentos de necessidades de dependência. Todavia, a localidade parece aqui ser evidente que a localidade altera este perfil: um pouco como se verificou em Savikko et al. (2005), ao ser defendido que a solidão era mais comummente sentida entre os idosos mais velhos que viviam em Mestrado em Psicologia do Idoso 136 zonas rurais, do que os que viviam nos grandes centros urbanos, também aqui os idosos que vivem numa aldeia comunitária, com características de maior interacção social e dinâmica cultural, ou seja, os habitantes de Rio de Onor sentem menos solidão social que os de Parada, resultados que parecem poder corroborar o defendido por Russel et al.. (1984), citado por Neto (2000), quando demonstraram que medidas de solidão social e emocional estavam ligadas, respectivamente, à falta de amizade e de relações íntimas, factos sociais menos frequentes nos quotidianos dos idosos de Parada. A aquisição de conceitos ao longo da vida subjacentes à noção de grupo de pertença familiar e a interacção com os pares parece desempenhar neste estudo uma função essencial. A noção de Solidão Social apresenta um perfil de concordância com aspectos de interacção grupal, de envolvimento com os pares já que os níveis de concordância se enquadram em torno destes itens da Escala de SELSA. Este facto sugere que é a concordância com a interacção e envolvimento e a discordância com o distanciamento e com a dependência, independentemente de ser física ou cognitiva ou mesmo financeira, mas sobretudo com a ideia de dependência, dos demais que os cercam. No global, parece ser o reconhecimento pessoal como entidades de envolvimento e o não reconhecimento de pessoas com dependência, que marca definitivamente o perfil de Percepção de Solidão Social da amostra. A mesma noção, já defendida por Jones, Cavert, Snider e Bruce (1985), quando assumiram que os determinantes externos de solidão incluiriam “…menos contactos sociais, menos actividades sociais e mais tempo passado só…”; bem como o defendido por Pedrozo e Portela (2003), quando afirmam que para enfrentar a solidão é premente “…o exercício de solidariedade e a participação em grupos de idosos”, concluindo os mesmos autores que “o idoso passa a reinventar a realidade do envelhecer e recria relacionamentos saudáveis”, facto com o qual estes idosos parecem estar de acordo. Assim, também estes idosos corroboram o defendido por DiTommaso, Brannen e Best (2004) ao inserir na Escala estes itens de alusão “aos amigos que compreendem os motivos e razões” e “fazer parte de um grupo…”, fenómenos de interacção que neste estudo parecem assumir importância substancial. Os sentimentos subjectivos de Solidão Familiar enquanto solidão propriamente dita, estão aqui pouco presentes. Ou seja, não parece haver aqui a presença de desamparo, dependência, de rejeição ou de “ser só”. Segundo as respostas das amostras, este perfil desenha-se, na perspectiva deste grupo de idosos, em torno do seu núcleo familiar, como uma estrutura sólida na qual os idosos têm a percepção de FPCE – U. Porto 137 ancoragem e reforço positivo. O facto é que estão de acordo com os discursos que fazem uma apreciação positiva de solidão e refutam por discordância os itens que induzem à construção de uma percepção negativa de solidão. O facto da amostra ter excluído o item “Sinto-me só quando estou com a minha família”, na Análise de componentes principais, vem também corroborar a ideia central deste perfil: as subamostras não reconhecem o sentido e significado deste apontamento discursivo, para eles, estar só e família não faz sentido. Não significa só por esta abordagem proporcionada por esta aplicação deste instrumento de recolha de dados, que de facto não estejam sós e que não sintam ausência da família. Este pormenor não pode ser comprovado. Mas pode ser percepcionado que a construção cognitiva que têm de núcleo familiar e de interacção nesse núcleo está intacta. Os idosos de Rio de Onor sentem mais solidão familiar de que os de Parada, mas sem diferença estatisticamente significativa, o que determina de algum modo alguma homogeneidade amostral. A Percepção Subjectiva de Solidão Romântica, remete a um tipo de perfil que fortalece a interacção familiar em detrimento das relações românticas. Aspectos relativos à partilha de intimidade e romantismo não parecem inserir a percepção destes idosos. Apesar de não ter significado estatístico, os idosos que vivem os seus quotidianos nos contextos socioculturais de Rio de Onor sentem mais solidão romântica, de que os de Parada. Mas não ficaram aqui comprovadas quaisquer outros argumentos, para poder compreender este fenómeno. Não podemos ficar alheios ao facto de que estão em análise sub-amostras populacionais que construíram a sua noção de romantismo entre os anos 20 e 40 do século passado, e que portanto terão absorvido uma imagem de recato e de intimidade “nunca transmissível”, nomeadamente pelo género feminino, facto que aqui pode ter sido determinante. Não parecem aqui ter atribuição de relevância, nem mesmo pela componente “solitária” da amostra a ideia defendida por Izal & Montorio (1999) a propósito da referência à complexidade inerente à morte do cônjuge, com sentimentos tais como: a ira, a negação, o alívio e a culpa. Os mesmos autores também assumem que nos idosos, a viuvez é frequentemente responsável pelo aparecimento de sintomatologia depressiva, e associada ao desenvolvimento de processos mórbidos graves. Estes sentimentos poderiam aqui ter sido representados pela saudade ou pela expectativa de ter alguém para partilhar (se) ou acompanhar (se). Todavia esses itens, não são percepcionados pela amostra como construtos de romantismo, ou companheirismo, quiçá perdido e com ânsia latente de ser reencontrado. Apenas esses itens são remetidos para o âmbito da família e ocultando assim a componente intimista que o Mestrado em Psicologia do Idoso 138 conceito de romântico transportou até eles, ao tempo em que o mesmo se construiu no seu imaginário e nas suas vivências de quotidianos. Mas ainda na análise desta construção tão “clara” de solidão, faz sentido pensar no que Eeliopoulos (2001), admite para a viuvez, como sendo “um evento que altera a vida familiar dos idosos. A perda do parceiro com quem compartilhou seu amor, experiência de vida, alegrias e tristezas pode ser intolerável. A adaptação a essa perda significativa é somada à necessidade de aprender uma nova tarefa: viver só”. E talvez seja aqui, no experienciar desta nova aprendizagem que faça sentido a supressão dessa noção de sentimentos românticos, e se anule essa expectativa que querer, ou pensar em querer de novo a vivência com um(a) companheiro(a). O facto é que e curiosamente, as atribuições de significado dos discursos inerentes às expectativas de “Quem me dera ter uma relação romântica mais satisfatória” e de “Tenho uma necessidade oculta de uma relação romântica próxima”, são remetidos para o factor que contempla a componente de solidão familiar. Justamente por isto, parece emergir a noção de que estes aspectos românticos, nestes espaços geoculturais do Nordeste transmontano, perdem sentido, facto que não corrobora os resultados de DeFillipi et al. (1993), Wood e Macintyre (1999), Haggerty e Williams (1979) e Zack (1991), citados por esta autora, que afirmaram que a solidão já teria sido relacionada com problemas de saúde emocional e considerou que a solidão acontece quando os idosos experienciam a perda ou ausência de um relacionamento importante como resultado da morte ou separação. Apesar de ter sido comprovada a diferença de sentimentos de solidão entre viúvos e casados, o facto é que a componente romântica de solidão, é de todas as componentes aquela que resulta com apreciação mais redutora. Que Percepção de Solidão? Partindo do objectivo inicial, pôde de facto aceder-se a um perfil/ nível de solidão subjectiva global, sentida pelos idosos em meio rural do concelho de Bragança, que segundo as respostas destas sub-amostras poderia delimitar-se como um perfil pouco acentuado do ponto de vista de que em construto se assume como solidão em idosos. Aqui não foram observadas evidências de “solitariedade” acentuada, já que a maioria refere interacção social, nomeadamente a nível comunitário; o facto de não ser uma amostra “modal” muito idosa, e de apesar de ser maioritariamente do sexo feminino, e de estas mulheres não terem dominantemente características de FPCE – U. Porto 139 isolamento, de haver na amostra global habilitações literárias, superiores à quarta classe, de haver uma componente substancial de idosos acompanhados/casados, de estes idosos poderem auferir mais de 450 euros por mês de rendimento mensal familiar. Também se considera apaziguador neste “perfil sumário” o facto de ainda poderem praticar agricultura nos tempos livres, de poderem ver televisão e ouvir rádio nos tempos livres, de alguns deles ainda poderem interagir socialmente com os pares e até poder ainda consumir bebidas alcoólicas, de manterem a noção de higienização pessoal, tomando banho pelo menos duas vezes por semana, de ainda apresentarem uma percepção de saúde positiva. Por último, parece fortalecedor para esta percepção de menor solidão, o facto de terem uma constituição antropomórfica do tipo estatura média de não apresentarem obesidade, o que seria mais incapacitante e detiorante, e com um Indece de Massa Corporal normal o que revela alguma compatibilidade com as necessidades de vida diárias, ao nível do seu corpo e do seu contexto de interacção doméstico e social. Todavia para melhor compreender este Perfil sumário, importa observar a análise que se apresenta, a partir das hipóteses desenhadas para este estudo. A segunda Hipótese partiu do pressuposto de que existiriam diferenças estatisticamente significativas entre o nível de solidão subjectiva sentida pelos idosos a habitar numa aldeia comunitária e noutra aldeia não comunitária, do concelho de Bragança, mas só foram encontradas diferenças com significado, na dimensão social de solidão, e não foi encontrada qualquer diferença a nível da percepção subjectiva de solidão geral, solidão romântica ou familiar. Conhecer se existem diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de solidão subjectiva sentida por idosos na dimensão social a habitar numa aldeia comunitária e noutra aldeia não comunitária, do concelho de Bragança, era a proposta para a terceira hipótese do estudo. E nesta componente foram encontradas diferenças estatisticamente significativas para as variáveis: localidade e a percepção subjectiva de saúde. Assim, os idosos de Rio de Onor sentiam menos solidão social que os seus congéneres de Parada e os que assumiram maior percepção positiva de saúde sentiam menos solidão social do que os que tinham uma percepção negativa de saúde. A quarta hipótese, procurou determinar se existem diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de solidão subjectiva sentida por idosos na dimensão familiar a habitar numa aldeia comunitária e noutra aldeia não comunitária, do concelho de Bragança. Os resultados revelaram que os idosos com maior nível de habilitações literárias assumiu menor percepção de solidão do que os menos letrados, Mestrado em Psicologia do Idoso 140 e o estado civil diferenciou a percepção de solidão familiar do seguinte modo: os solteiros ou viúvos apresentaram maior percepção nesta dimensão de solidão do que os casados. Finalmente a quinta hipótese confirmou que não existem diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de solidão subjectiva sentida por idosos na dimensão romântica a habitar numa aldeia comunitária e noutra aldeia não comunitária, do concelho de Bragança. Mas cabe aqui analisar que nesta perspectiva, foi a sub-escala SELSA que foi mais reduzida e portanto mais “mutilada” do ponto de vista do que pretendia ser avaliado: a retirada de três itens, torna redutores os resultados, razão porque se remete este conjunto de questões para futuros estudos em outras populações. Com estas hipóteses pretendeu dar-se resposta às questões de investigação deste trabalho. Mas para o estudo destas hipóteses foi utilizado uma metodologia estatística específica, de modo a reconhecer as diferenças, ou o nível de influência e a sua significância. Na tentativa de descrever e explicar melhor a realidade encontrada, do ponto de vista metodológico, descrever-se-ão as variáveis sociodemográficas, e as referentes ao estado de saúde, bem como as suas influências em cada um dos componentes da variável dependente. Assim sendo, a sexta hipótese foi parcialmente confirmada: há algumas variáveis sociodemográficas que influenciam o nível subjectivo de solidão dos idosos. Foi confirmada a relação entre o sexo e o nível de solidão global sentida, bem como ao nível da percepção de solidão romântica, já que as idosas assumem sentir mais solidão que os idosos, resultados que refutam os estudos não concludentes sobre as diferenças sexuais na solidão, utilizando a escala de UCLA e em que não foram encontradas diferenças (Neto, 2000), a partir dos quais se defendeu que as mulheres, porque é considerado que têm redes de apoio mais amplas, esperando que isso constitua uma vantagem para esse sexo (Paúl, 1991), poderiam ter neste aspecto algumas vantagens, mas que aqui não pareceu poder ser verificável. Esta noção, vem ao encontro do defendido por (Silverstone, 1985 citado por Paúl, 1991) quando afirma que dentro dos idosos, as mulheres parecem, apesar de tudo, mais isoladas, mas que, e como o autor comenta, é contrário aos resultados obtidos por diversos estudos, que dão precisamente vantagem às mulheres no que diz respeito ao apoio social. A Idade influência o nível de percepção subjectiva de solidão romântica sentida, os mais velhos sentem mais solidão, o que contraria em parte o defendido por Gutek, Nakamure, Gehart, Handschumacher, e Russel (1980), citados por Neto FPCE – U. Porto 141 (2000), quando apresentam dados em que a tendência geral é para a solidão diminuir com a idade, obtendo as pessoas idosas níveis mais baixos de solidão. O estado civil influência o nível de percepção de solidão global, familiar e romântica sentidas. Já em Weiss citado por (Neto, 2000) foi defendido que as pessoas que não estão casadas sofrem mais de solidão que as casadas. Segundo um estudo recente, a solidão nas mulheres não casadas era maior nas pessoas viúvas e divorciadas que nas solteiras. Neste estudo, os viúvos e os solteiros sentem-se global, familiar e romanticamente mais sós do que os idosos casados. O facto de as diferenças serem maiores ao nível da componente romântica vem corroborar o defendido por Neto (2000) quando afirma que “a solidão parece, pois, ser determinada mais pela perda de uma relação conjugal que pela sua ausência”. O rendimento familiar influencia o nível de solidão romântica sentida, já que os mais pobres sentem mais solidão, o que corporiza os baixos rendimentos como factores (entre outros) considerados potencializadores de solidão, em Savikko et al. (2005), e vem corroborar os resultados de Weiss, 1982 citado por (Neto, 2000), ao anunciar que a solidão é mais comum entre as pessoas pobres que entre as ricas. As habilitações literárias influência o nível de percepção subjectiva de solidão familiar e romântica sentidas. Curiosamente já foi demonstrado que a solidão parece diminuir com instrução ou com melhores rendimentos. Savikko et al. (2005) referiram que a mesma tendência tem sido encontrada em alguns estudos precedentes (Chang e Yang, 1999; Dykstra e De Jong Gierveld, 1999), e pensa-se que aqueles indivíduos com instrução mais elevada e melhores rendimentos, assumem que têm uma rede social mais larga. Neste estudo foi confirmada esta noção: os idosos menos literatos têm percepção subjectiva de maior solidão familiar e romântica. O facto de estar reformado, não apresentou influência o nível de percepção subjectiva de solidão sentida. Na verdade, não foi encontrada na literatura disponível qualquer estudo que pudesse orientar este nível de influência. Todavia, Russel (2004) afirma que a solidão é uma das queixas mais frequentes entre a população idosa. Mais defende que isto resulta da saída dos filhos para o mercado de trabalho, com deslocação para uma cidade diferente, com a chegada da reforma e com a viuvez. Mas tais efeitos não puderam aqui obter confirmação. Também serão aqui analisadas as variáveis que de algum modo estão subjacentes ao estado de saúde: Na última hipótese veio confirmar-se que alguns dos comportamentos /variáveis do estado de saúde (consumos de álcool, tabaco, horas de sono, influenciam o nível subjectivo de solidão. O consumo de álcool influência o nível de solidão romântica sentida, o que refuta os resultados encontrados em Cacioppo et al. (2002) ao ter verificado que não