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(Con) Viver com o Inimigo - A Atividade Submarina Alemã durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918 - Interações na Costa Esposende

Miguel Castro Brandão

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(Con)Viver com o Inimigo – A Atividade Submarina Alemã Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) – Interações na Costa de Esposende Miguel Castro Brandão Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em História e Património Mediação Patrimonial orientada pela Professora Doutora Paula Cristina Menino Duarte Homem e coorientada pela Professora Doutora Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva Membros do Júri Professor Doutora Paula Cristina Menino Duarte Homem Faculdade de Letras da Universidade do Porto Professora Doutora Maria Helena Cardoso Osswald Faculdade de Letras da Universidade do Porto Professor Doutor Augusto Alves Salgado Centro de Investigação Naval Classificação obtida: 17 valores 2 3 4 Índice Agradecimentos…………………………………………………………………….….................6 Resumo e palavraschave…………………………………………………………………………………………..….7 Abstract and keywords…………………………………………………….…………………………………....8 Índice de Ilustrações…………………………………………………………..………………………….…9 Índice de Tabelas………………………………………………………………………………..10 Abreviaturas e siglas…………………………………………………………………………….11 Introdução……………………………………………………………………………………….12 Capítulo 1 – A emergência da guerra submarina na Primeira Guerra Mundial.…………..……………………………………………………………………………..24 1.1 - O submarino alemão: abastecimento, tática e eficácia…………………………………………………………………………………………..24 Capítulo 2 – Impactes da atividade submarina alemã na costa portuguesa (1916-1918) …...…44 2.1 – 1916 - O choque. Portugal e a emergência da guerra submarina alemã ………...48 2.2 – 1917 - O ano crítico. Portugal e o auge da guerra submarina……………..……..56 2.3 – 1918 – O longo percurso para a paz……………………………………………...63 2.4 - Números e reflexões………………………………………………………………68 2.4.1 – 1916…………………………………………………………………………68 2.4.2 – 1917…………………………………………………………………………71 2.4.3 – 1918…………………………………………………………………………75 5 Capítulo 3 - A atividade submarina alemã na costa de Esposende …………….……………………………………………………………….………..78 3.1 – Interações particulares…………………………………………………………...78 3.2 – Perspetivas a reter...................................................................................................83 Capítulo 4 – Evidências históricas e patrimoniais da atividade submarina. Salvaguarda e fruição………………………………………………………………………………………...…92 4.1 - Instrumentos e estratégias……………………………………………………...…92 4.2 - Georreferenciação e mapeamento dos naufrágios da Primeira Guerra Mundial. Modelos e empreendimentos internacionais e projetos nacionais ………………….....99 4.2.1 - O “Projeto U-35”, do CINAV ………………………………………..103 4.2.2 - Georreferenciação e mapeamento dos naufrágios da Primeira Guerra Mundial em águas nacionais. Uma proposta ………………………………...105 Capítulo 5 – Proposta de Mediação para o Museu Municipal de Esposende – Exposição: Esposende e a guerra submarina na Primeira Guerra Mundial – 1914-1918………………….109 5.1 - Área temática - Os submarinos alemães na Primeira Guerra Mundial………….110 5.2 - Área temática - A guerra submarina alemã e Portugal (1916-1918) ……………112 5.3 - Área temática - Esposende, guerra submarina alemã e os seus impactes……….118 5.4 - Área temática - A guerra submarina alemã e Portugal (1916-1918) – Dina mização………………………………………………………………………………..123 Considerações finais…………………………………………………………………………...124 Referências…………………………………………………………………………………….127 Anexos…………………………………………………………………………………………139 Apêndices……………………………………………………………………………………...141 Apêndice 1 - Impactes da atividade submarina alemã na costa portuguesa (1916-1918). Reflexos na frente marítima portuguesa. Impactes socioeconómicos……………………141 6 Apêndice 2 - Impactes da atividade submarina alemã na costa portuguesa (1916-1918). Reflexos na frente marítima portuguesa. Base de dados…………………………………161 7 Agradecimentos A progressão desta dissertação de mestrado só foi possível graças ao apoio e cooperação de várias pessoas, tanto ligadas à temática da guerra submarina como sensíveis às minhas concretizações pessoais e académicas. Assim, queremos agradecer: À Ana Rita Pontes Santos, pelo apoio proporcionado ao longo deste percurso; À família, pelo apoio incondicional, proporcionando o melhor que a vida tem para oferecer, recorrendo sempre a sábios e reconfortantes conselhos. Agradecemos por sua vez à família Braz, que nos recebeu em sua casa, em Lisboa, permitindo assim a visita à Torre do Tombo, Museu Nacional da Marinha e Biblioteca Nacional de Portugal. Às orientadoras, às Professoras Doutoras Paula Cristina Menino Duarte Homem e Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva, que desde cedo aceitaram orientar esta dissertação, proporcionando os meios necessários a tornar esta dissertação possível. Gostaria de agradecer a ambas todo apoio, disponibilidade e dedicação a esta causa. Ao investigador Paulo Nuno Costa pelo auxílio de um modo bastante singular, com uma prestabilidade simplesmente incomum. Recebeu-nos na sua loja de banda desenhada na rua das Flores, em Lisboa, conhecida como BdMania, onde nos proporcionou muita bibliografia relacionada com o tema da guerra submarina. Por seu intermédio, recebemos o apoio dos investigadores Augusto Salgado e Jorge Russo, do Centro de Investigação Naval (CINAV), que disponibilizaram várias ferramentas para a concretização desta dissertação; Ao investigador Reinaldo Delgado pela partilha de informação e dados relevantes sobre os naufrágios provocados por submarinos alemães; Ao Peter Monte, gestor e administrador do Deutsches Uboot Museum Archive, Cuxhaven-Altenbruch, na Alemanha, pela disponibilização dos diários microfilmados dos submarinos alemães requisitados; Ao professor Miguel Nogueira, da MAPoteca da Faculdade de Letras do Porto, por ternos proporcionado os mapas para esta dissertação; A todos os elementos integrantes da Tuna de Letras do Porto, aos inesquecíveis colegas de curso que nos acompanham desde a licenciatura, e aos amigos de longa data, que tanto estimamos e prezamos. 8 Resumo Partindo do contexto geral da Primeira Guerra Mundial, esta dissertação foca-se na compreensão da atividade submarina alemã entre 9 de março de 1916 a 11 de novembro de 1918, em águas portuguesas, com especial interesse pela costa de Esposende. Após uma análise do pano de fundo nacional, aglutinando as dimensões sociais, económicas, militares e políticas consequentes do impacte da guerra submarina alemã, visa-se potenciar as demais estratégias de mediação. Com o recurso aos diários de guerra dos submarinos alemães, a uma georreferenciação dos naufrágios consistente e a uma análise exaustiva das fontes periódicas e documentais, pretende-se traçar um perfil global, tentando por sua vez auxiliar futuras investigações ou projetos relacionados com esta temática. Num segundo momento é apresentado uma proposta de organização de uma exposição no Museu Municipal de Esposende, que explora as conexões entre Esposende e a atividade submarina alemã, em águas portuguesas, considerando o facto de ter sido palco de um dos acontecimentos mais singulares, no que toca ao abastecimento e contrabando de géneros alimentares a submarinos alemães, cooperação civil com o inimigo. Este episódio por sua vez espelha as dificuldades socioeconómicas de uma comunidade costeira, que está intrinsecamente ligada ao mar, à construção naval e aos seus fluxos comerciais. Palavras-chave: Primeira Guerra Mundial, Esposende, Submarinos, Contrabando, Patrimónios 9 Abstract From the general context of the First World War, this dissertation focuses on understanding the german submarine activity between 9 th of march of 1916, to 11th of November 1918, in portuguese waters, with special interest in the coast of Esposende. After an analysis of national context, bringing together the social, economic, military and political impact of the german submarine warfare, we pretend to explore mediation strategies connected with this theme. With the use of submarine war diaries, georeferencing shipwrecks and a thorough analysis of periodic and documentary sources, we intend to draw a global profile, trying to turn assist future investigations or projects relating to this topic. Secondly we expose a proposal to organize an exhibition at the Museu Municipal de Esposende, who explores the connections between Esposende and the german submarine activity in Portuguese waters, considering the fact that this location was the testimony of one of the most singular events, were civilians supplied german submarines by smuggling food products.This episode in turn mirrors the socio-economic difficulties of a coastal community, which is intrinsically linked to the sea, shipbuilding and its trade flows. Keywords: German Submarines, Esposende, World War One, Submarine War. 16 dos naufrágios georreferenciados, breves descrições textuais e uma cronologia pretendemos expor o impacto da guerra submarina a nível nacional; e por último a área temática Esposende, Guerra Submarina Alemã e os seus Impactos, onde será apresentado o episódio histórico ocorrido em Esposende nos inícios de maio de 1917, com o recurso a notícias dos periódicos da época, e a uma cronologia, centrando assim Esposende no contexto da guerra submarina. No âmbito desta exposição, pretendemos também enumerar os demais projetos vigentes relacionados com a temática dos naufrágios ou da guerra submarina, a nível turístico, arqueológico, e historiográfico, no âmbito nacional. Não podemos esquecer o papel do Museu Marítimo de Esposende, que alia a compreensão dos artefactos resgatados do fundo do mar, presentes na sua unidade museológica, com ações de mergulho em torno dos naufrágios ao largo de Esposende. Ao acedermos a uma realidade mais generalista, compreendendo as dimensões da guerra submarina alemã na Primeira Guerra Mundial e os seus impactes na costa portuguesa, podemos perspetivar mais sustentadamente sobre a realidade esposendense aquando o conflito mundial. Este afunilamento analítico permite-nos dar uma visão mais transcendente sobre a guerra submarina, pelo que pertendemos rentabilizar na exposição a que nos propomos. Fontes e Metodologia O interesse sobre esta temática em particular proveio da participação na conferência A Grande Guerra (1914-1918): Problemáticas e Representações, realizada na Faculdade de Letras do Porto, entre 9 a 10 de outubro de 2014, com a comunicação A atividade marítima alemã durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), na costa portuguesa 7 . No entanto, a nível nacional e internacional, o tema “guerra submarina na Primeira Guerra Mundial” teve direito a alguma representatividade nos últimos anos, sobretudo a partir da celebração do centenário do começo oficial da Grande Guerra. Mais recentemente, a nível nacional, destacamos a conferência International Conference – Tourism, Leisure and War, realizada em Lisboa, entre 25 a 27 de junho de 2015, onde o CINAV, com os oradores Augusto Salgado e Jorge Russo, proferiu a seguinte comunicação: Pode um Submarino Imperial Alemão, na Primeira Guerra Mundial, produzir matéria turística em Portugal, no século XXI? 8 . A nível internacional realçamos a Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War 7 Programa A Grande Guerra (1914-1918): Problemáticas e Representações, Disponível em file:///C:/Users/Miguel%20Brand%C3%A3o/Downloads/_PROGRAMA_- _DIVULGACAO_FINAL%20(1).pdf, consultado a 15/04/2015. 8 SALGADO, Augusto; RUSSO, Jorge – Pode um Submarino Imperial Alemão, na Primeira Guerra Mundial, produzir matéria turística em Portugal, no século XXI? In BOOK OF ABSTRACTS. INTERNATIONAL CONFERENCE – TOURISM, LEISURE AND WAR. LISBOA, 2015 – Panel IV – War Tourism.Lisboa: CINAV, 2015. p. 60-61. 17 One 9 , realizada nos dias 26 e 28 de junho de 2014, em Bruges na Bélgica, que aquando da celebração do começo oficial da conflagração mundial em questão, abriu novas oportunidades a projetos ligados ao estudo e salvaguarda do património subaquático comportado na cronologia da Primeira Guerra Mundial. Apesar de o tema ganhar cada vez mais representatividade nos círculos académicos e institucionais afetos à causa, é notório, sobretudo a nível nacional, a falta de estudos inerentes à especificidade da guerra submarina alemã. Vejamos quais os principais contributos bibliográficos neste sentido, tanto no seio da historiografia nacional como internacional, que por sua vez auxiliaram a fundamentação das nossas conclusões. No que toca ao estado da arte remetente à atividade submarina alemã da Primeira Guerra Mundial, destacamos algumas obras de primeira importância. Dispomos de algumas obras de carácter generalista e englobante que dedicam capítulos, ou apenas alguns parágrafos inerentes à temática da guerra submarina, como verificamos nas seguintes obras: A Primeira Guerra Mundial, de Martin Gilbert 10 ; História da Alemanha de Jacques Droz 11 ; A Grande Guerra 1914-1918 de Marc Ferro 12 ; e História Universal – O Mundo Contemporâneo, de Jacques Néré 13 . A obra de Martin Gilbert, muito devido ao modo como o autor expõe os seus conteúdos textuais, permitiu-nos compreender várias abrangências da guerra submarina ao longo do conflito, de acordo com o desenrolar das operações militares, tanto em terra como no mar. Esta transcendência de Gilbert permitiu-nos contextualizar a guerra submarina alemã, estabelecendo um elo de ligação entre os focos de incidência submarina e o esforço de guerra entre as duas forças que se contrapuseram. As obras A Grande Guerra 1914-1918 e História Universal – O Mundo Contemporâneo alia os impactos da guerra submarina alemã à asfixia das rotas mercantis dos Aliados, sobretudo a nível logístico e da articulação das forças militares, dando-nos ferramentas para compreender as várias anemias mercantis e comerciais marítimas vividas neste período. A obra História da Alemanha de Jacques Droz expõe factos sensíveis à perspetiva alemã em torno da Primeira Guerra Mundial, o que nos viabilizou compreender a importância dos submarinos alemães no esforço de guerra germânico. No que toca à bibliografia específica que efetivamente aborda a temática da guerra submarina alemã, ela provém sobretudo da historiografia anglo-saxónica, como iremos destacar a seguir. Dispomos de muito poucas obras de carácter específico, em língua portuguesa, que destaquem verdadeiramente a atividade submarina alemã na Primeira Guerra Mundial, daí o recurso a bibliografia estrangeira. Uma obra essencial para a compreensão da guerra submarina 9 Underwater Cultural Heritage From World War I – Proceedings of the Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War I. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/culture/underwater/world-warI.pdf, consultado a 15/04/2015. 10 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994. 11 DROZ, Jacques – História da Alemanha. Sintra: Publicações Europa-América, 1999. 12 FERRO, Marc – A Grande Guerra 1914-1918. Lisboa: Edições 70, 1990. 13 NÉRÉ, Jacques – História Universal – O Mundo Contemporâneo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1977. 18 será a obra German Submarine War (1914-1918) 14 dos autores R.H. Gibson e Maurice Prendergast. Apesar de esta obra ter sido publicada pela primeira vez em 1931, ela foi publicada novamente em 2003. Exibe um estudo bastante completo, que compreende a guerra submarina alemã em diferentes fases e diferentes contextos regionais, fatiando-os por capítulos e subcapítulos. Este aspeto permitiu-nos, tal como a obra de Martin Gilbert, assimilar a guerra submarina alemã como um todo, aglutinando as assimetrias temporais e regionais. A obra destes dois autores evidencia igualmente os demais naufrágios, ataques costeiros e perdas de submarinos ao longo do período 1914-1918, assim como executa várias menções a operações submarinas alemãs em águas de jurisdição portuguesa, fazendo um elo de ligação entre frente marítima nacional e o conflito mundial. A obra apresenta também importantes dados estatísticos em torno das perdas materiais e humanas a nível mundial, apesar de mais próximos à perspetiva britânica, a monografia apresenta dados sobre vários países envolvidos no conflito. A obra U-boats of the Kaiser’s Navy 15 de Gordon Wiliamson apresenta vários aspetos remetentes à progressão dos submarinos alemães a nível tecnológico e evolutivo, antes e durante a guerra. Gordon Wiliamson, tal como Prenderghast, Gibson e Gilbert, expõe um quadro que esquematiza e resume a atividade submarina germânica nos demais palcos de guerra da Primeira Guerra Mundial. Esta obra foi bastante importante para o conhecimento da funcionalidade, dos empreendimentos tecnológicos e humanos que mobilizava, da versatilidade, e das táticas militares utilizadas dos submarinos em questão. Para termos comparativos entre a frente marítima portuguesa e outros palcos de guerra naval, consultamos algumas obras que nos permitem abordar deste modo. A obra Mediterranean Submarines – Submarine Warfare in World War One 16 foi preponderante neste aspeto, porque permitiu analisar e comparar o modo como os submarinos alemães atuavam no Mediterrâneo e nas imediações do estreito de Gibraltar. Para este efeito, e transpondo a mesma metodologia para outros palcos de guerra, selecionamos as obras German Submarine Warfare 1914-1918 in the eyes of the British Intelligence 17 e German U-boats of the English Channel & Western Approaches: History,& Impacts 18 . A comparação entre o modo com os submarinos atuavam nestas diferentes frentes marítimas fez-nos perspetivar o modo como atuavam ao largo da costa portuguesa. Este exercício permitiu-nos verificar várias semelhanças entre as ações 14 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003. 15 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002. 16 WILSON, Michael; KEMP, Paul – Mediterranean Submarines – Submarine Warfare in World War One. Manchester: Crécy Publishing Ltd, 1998. 17 KOEVER, Hans Joachim – German Submarine Warfare 1914-1918 in the Eyes of the British Intelligence, 2010. 18 DOBSON, Neil Cunningham – German U-Boats of the English Channel & Western Aproches: History, Site Formation & Impacts. Tampa: Odyssey Marine Exploration, 2014. 19 submarinas averiguadas no Mediterrâneo, e as verificadas ao largo da costa nacional, muito devido às condições climatéricas e aos escassos empreendimentos defensivos. Do ponto de vista aliado sobre a guerra submarina optámos pelas seguintes obras: Business in Great Waters – The U-Boat Wars, 1916-1945, de John Terraine 19 ; e Sea Killers in Diguise – The Story of the Q-ships and Decoy Ships in The First World War, de Tony Bridgland 20 . A partir da análise destas obras pudemos aceder a algumas das estratégias defensivas empreendidas pelos aliados contra a guerra submarina alemão, como o recurso a barcos-chamarizes ou Q-Ships. A obra de John Terraine apresenta dados estatísticos bastantes significativos sobre as perdas materiais e humanas vividas em ambas as guerras mundiais, avaliando os seus impactes socioeconómicos e logísticos na máquina de guerra aliada. No âmbito nacional, a bibliografia inerente à guerra submarina apresenta-se bastante escassa e com menções bastante curtas. A historiografia nacional ignorou durante muito tempo a frente marítima portuguesa. No entanto, mais recentemente, autores como António José Telo, Rui Cardoso, Paulo Nuno Costa e Saturnino Monteiro fundamentaram alguns estudos neste sentido. Como ponto de partida optámos por analisar a obra Marinha Portuguesa na Grande Guerra do autor Jaime Correia do Inso, que se trata de uma compilação de artigos, publicados entre 1937 e 1939 nos Anais do Clube Militar Naval, da autoria do próprio. A Comissão Cultural da Marinha, aquando da comemoração do 90º aniversário da entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, reeditou a obra em 2006 21 . Esta obra relata os demais avistamentos e confrontos entre a marinha portuguesa e submarinos alemães durante o conflito, incluindo várias listagens de perdas materiais e humanas registadas. É sem dúvida uma obra incontornável, se efetivamente pretendemos estudar a guerra submarina do ponto de vista português. O autor António José Telo possui duas obras importantes, sobre a atividade submarina germânica do ponto de vista da marinha portuguesa: Os Açores e o Controlo do Atlântico (1898/1948) 22 ; e Homens, Doutrinas e Organização: 1824-1974 23 . Na primeira obra, centra-se no papel estratégico que o arquipélago açoriano obteve no período da Primeira Guerra Mundial, face à guerra submarina alemã. A segunda monografia resume, de um modo consistente, os principais ataques alemães com destaque para os ataques ao Funchal pelo U-38, a 3 de dezembro de 1916, e o ataque a Ponta Delgada pelo U-155 a 4 de julho, de 1917. Destacamos 19 TERRAINE, John – Business in Great Waters – The U-Boat Wars, 1916-1945. Barnsley: Wordsworth Editions, 1993. 20 BRIDGLAND, Tony– Sea Killers in Disguise- The Story of the Q-ships and Decoy Ships in The First Word War. Barmsley: Leo Cooper, 1999. 21 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p.9. 22 TELO, António José – Os Açores e o Controlo do Atlântico (1898/1948).Lisboa: Edições Asa, 1993. 23 TELO, António José - Homens, Doutrinas e Organização: 1824-1974. In Telo, António José, coord. - Homens, Doutrinas e Organização: 1824-1974. Lisboa: Academia de Marinha, 1999. 20 igualmente as seguintes obras, que mencionam e descrevem a atividade marítima alemã do ponto de vista da marinha portuguesa, que apresentam descrições bastantes concisas: Marinha Portuguesa. Nove Séculos de História, de José António Pereira 24 ; Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, de Saturnino Monteiro 25 ; obra Portugal e a Grande Guerra, direção dos autores Afonso Aniceto e Carlos Matos Gomes; e a obra A Primeira Guerra Mundial. Livro Extra sobre a Participação de Portugal 26 ; dos autores Rui Cardoso, Margarida Magalhães Ramalho e Ricardo Marques 27 . Estas obras forneceram um bom pano de fundo, para assim estruturarmos cronologicamente a contextualização histórica a que nos propormos. Do ponto de vista alemão em torno dos ataques submarinos empreendidos ao largo da costa portuguesa, analisámos duas obras. A obra La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous- Marin 1914-1918 28 , do comandante alemão Max Valentiner, apresenta as memórias vividas pelo próprio durante o seu período de serviço militar, durante a Primeira Guerra Mundial. Valentiner fala-nos do ataque ao Funchal a 3 de dezembro de 1916 a bordo do U-38, e algumas operações efetuadas ao largo dos Açores e Madeira na sua obra. Outra obra estudada, intitulada O combate do caça-minas “Augusto de Castilho” com o submarino Alemão “U.139” visto através do relatório do 1º oficial encarregado de artilharia, capitão-tenente Kurt von Pistor, do autor Alberto Cutileiro, encontramos uma análise do relatório do capitão tenente Kurt von Pistor 29 , que ia a bordo do submarino alemão U-139, aquando o ataque ao caça-minas português NRP Augusto de Castilho, a 14 de outubro de 1918. O resultado destas leituras sublinhou a necessidade de consultar informação primária, em particular fontes manuscritas documentais e de periódicos. Procurou-se um cruzamento de forma sistemática, aproximando-nos assim da verosimilhança crítica das menções bibliográficas e documentais, nomeadamente à ação dos submarinos e o registo dos naufrágios, assim como a questão do abastecimento e contrabando civil ligado à atividade submarina alemã em Esposende. Os periódicos O Comércio do Porto 30 , O Século 31 , O Primeiro de Janeiro 32 , Diário 24 PEREIRA, José António Rodrigues – Marinha Portuguesa. Nove Séculos de História. Lisboa: Comissão Cultural de Marinha, 2010. 25 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1997, vol.7. 26 ANICETO, Afonso; GOMES, Carlos de Matos - Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. O Fim da Guerra. Vila do Conde: Verso da História, 2014. 27 CARDOSO, Rui; RAMALHO, Margarida Magalhães; MARQUES, Ricardo - A Primeira Guerra Mundial. Livro Extra sobre a Participação de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2014. vol. 7. 28 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931. 29 CUTILEIRO, Alberto – O combate do caça-minas “Augusto de Castilho” com o submarino Alemão “U.139” visto através do relatório do 1º oficial encarregado de artilharia, capitão-tenente Kurt von Pistor. Lisboa: Centro de Estudos de Marinha, 1976. 30 Consultámos as seguintes edições: 4 de novembro de 1916; 5 de novembro de 1916; 9 de novembro de 1916; 4 de dezembro de 1916; 5 de dezembro de 1916; 6 de dezembro de 1916; 10 de dezembro de 1916; 12 de dezembro de 1916; 4 de janeiro de 1917; 20 de março de 1917; 4 de maio de 1917; e 5 de maio de 1917. 31 Consultámos as seguintes edições: 1 de maio de 1917; e 3 de maio de 1917. 21 de Notícias 33 e o suplemento A Ilustração Portuguesa 34 foram essenciais para a análise da atividade submarina alemã no âmbito nacional, além de proporcionarem pistas bastante concisas no que toca à localização e calendarização dos naufrágios. Já a nível local, os periódicos Gazeta de Braga 35 , O Comércio do Minho 36 , O Esposendense 37 e O Cávado 38 , que espelham a realidade esposendense, ou do Norte, no decorrer do conflito. No que toca à inventariação efetiva dos naufrágios fez-se recurso não só aos periódicos da época, como foi anteriormente referido, assim como a bibliografia específica que aporta algumas listagens destes mesmos naufrágios. Destacamos algumas obras que proporcionaram algumas listagens consistentes em torno das embarcações portuguesas perdidas, fruto da guerra submarina alemã: a obra A Marinha Portuguesa na Grande Guerra, de Jaime Correia do Inso 39 ; o artigo Jornadas do Mar 2014. Mar: Uma Onda de Progresso – As Perdas da Frota Mercante Portuguesa durante a Primeira Grande Guerra 40 , de Paulo Nuno Costa; e a obra Marinha Portuguesa. Nove Séculos de História 41 , de José António Rodrigues Pereira. Destacamos especialmente o mais recente contributo de Paulo Nuno Costa, que analisou duas listas que comportavam as perdas da marinha mercante portuguesa, apresentadas pela delegação portuguesa à Conferência de Paz de 1919, em Paris. A delegação portuguesa pretendia com ambas as listas exigir uma indeminização financeira às nações derrotadas, dadas as perdas portuguesas no mar. Segundo Nuno Costa, numa avaliação datada de 25 de fevereiro de 1919, a rubrica relativa aos navios apresenta um total de 2.476.500 libras esterlinas em indemnizações 42 . A historiografia nacional dá muito pouca atenção aos navios estrangeiros afundados em águas nacionais, salvo raras menções. Os sites uboat.net e wrecksite.eu foram cruciais para esta pesquisa, por corresponderem, afinal, a bases de dados. O primeiro site uboat.net, (dos autores Gudmundur Helgason, Rainer Kolbicz, Brian Corijn, Brian Viglietti, Yves Dufeil e Michael Lowrey) comporta uma plataforma digital bastante satisfatória, onde o utilizador pode aceder a 32 Consultámos as seguintes edições: 1 de maio de 1917; 2 de maio de 1917; 6 de maio de 1917. 33 Consultámos as seguintes edições: 1 de maio de 1917. 34 Consultámos as seguintes edições: 6 de março de 1916; 24 de abril de 1916; 11 de dezembro de 1916; 18 de dezembro de 1916; 5 de maio de 1917; 20 de agosto de 1917; 3 de dezembro de 1917; e 28 de outubro de 1918. 35 Consultámos as seguintes edições: 13 de maio de 1917. 36 Consultámos as seguintes edições: 8 de maio de 1917. 37 Consultámos as seguintes edições: 18 de janeiro de 1917; 1 de março de 1917; 26 de abril de 1917; 3 de maio de 1917; 10 de maio de 1917; 24 de maio de 1917; 12 de julho de 1917; 11 de outubro de 1917. 38 Consultámos as seguintes edições: 29 de julho de 1917; e 14 de outubro de 1917. 39 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006. 40 COSTA, Paulo Nuno – As Perdas da Frota Mercante Portuguesa durante a Primeira Grande Guerra. In Jornadas do Mar – 2014, Lisboa, 2014 – Jornadas do Mar – 2014. Mar: uma onda de Progresso. Lisboa: Escola Naval, 2014. 41 PEREIRA, José António Rodrigues – Marinha Portuguesa. Nove Séculos de História. Lisboa: Comissão Cultural de Marinha, 2010, p. 445-449. 42 COSTA, Paulo Nuno – As Perdas da Frota Mercante Portuguesa durante a Primeira Grande Guerra. In Jornadas do Mar – 2014, Lisboa, 2014 – Jornadas do Mar – 2014. Mar: uma onda de Progresso. Lisboa: Escola Naval, 2014, p.3. 22 uma vasta informação remetente aos submarinos alemães durante as duas guerras mundiais. O site em questão inclui uma listagem dos naufrágios provocados pelos submarinos alemães e respetiva localização geográfica, apresentando também outros dados significativos, como a sua nacionalidade, carga, peso e data do naufrágio, além de apresentar a sua localização através do Google Maps. Os seus gestores contam com o apoio e colaboração de vários autores, para além de arquivos alemães como o Deutsches Uboot Museum Archive (sediado em Cuxhaven- Altenbruch) e o Arquivo dos Marinekorps Flandern (sediada em Friburgo, na Alemanha), para além do contributo de vários investigadores a nível internacional. A segunda plataforma wrecksite.eu possuí a maior base de dados online do mundo, no que toca a naufrágios. Aqui, o utilizador pode aceder a variados campos analíticos ligados a um determinado naufrágio. Para além dos gestores do site incorporarem os dados proporcionados pelo uboat.net, esta plataforma apresenta uma georreferenciação em graus decimais, o que facilitou o mapeamento dos naufrágios ao longo da nossa costa. Acresce, ainda, que para o mapeamento e inventariação dos naufrágios provocados ao longo da costa nacional, tivemos acesso a pelo menos 9 diários de guerra pertencentes a comandantes de submarinos alemães. Os diários de guerra (Kriegstagebuch, ou KTB) foram proporcionados pelo Deutsches Uboot Museum Archive. O arquivo em questão detém inúmeras cópias microfilmadas dos diários de guerra dos submarinos alemães, além de possuir documentação variada sobre a Marinha Imperial Alemã. Não foi possível, ao longo desta dissertação, aceder a todos os diários de guerra dos submarinos que passaram pela costa portuguesa. Os critérios de seriação prenderam-se não só com questões financeiras, como igualmente metodológicas. A importação destes diários comporta alguns custos, pelo que se optou por uma seleção previamente definida e equacionada. Para compreender o contexto esposendense e o consequente impacte da guerra submarina para a comunidade, recorreu-se a 6 diários de guerra de submarinos que operaram na costa portuguesa, sobretudo ao largo da costa do norte de Portugal, entre dezembro de 1916 e julho de 1917: o diário de guerra do U-47 (operou 17 a 26 maio de 1917) 43 ; o diário de guerra do U-52 (operou entre 14 a 19 de abril de 1917) 44 ; o diário de guerra do U-79 (operou entre 31 de dezembro de 1916 a 7 de janeiro de 1917) 45 ; o diário de guerra do UC-27 (operou entre 15 a 18 de abril) 46 ; o diário de guerra do UC-37 (operou entre 2 a 7 de janeiro de 1917) 47 ; e o diário de guerra do UC-53 (operou entre 9 43 DUMA/C-A – Kriegstagebuch – S.M. Unterseeboot „U.47“. Kommandant: Kapitänleutant Metzger – Angefangen am: 1.mai. Abgeschlossen am:8. juni 1917. 44 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.52“. für die Zeit der Vernunternehmung von 16.märz – 27. april 17.Kapitänleutnant Walther (Hans). 45 DUMA/C-A – Kriegstagebuch - S.M.U-Boot „U.79.“. Kommandant: Kapitänleutnant Jeß - Angefangen am: 21. dezember.1916.Abgeschlossen am:28. januar 1917. 46 DUMA/C-A – Kriegstagebuch – „UC 37“. Kommandant: Kapitänleutnant Schultz – vom 3.april bis 3. mai 1917. 47 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.C.37“.Kommandant Oberleutnant z.See Launberg – Angefangen am: 25.dezember.1916. Abgeschlossen am:12.januar 1917. 23 a 12 de janeiro de 1917) 48 . Para a análise da atividade submarina no âmbito nacional, escolheram-se os diários de guerra dos submarinos alemães que mais naufrágios e ataques provocaram ao longo da nossa costa. Para este efeito, selecionaram-se os diários de guerra do U-35 49 , do U-38 50 e do U-155 51 . Destacamos algumas incidências, nas quais estes submarinos protagonizaram as ofensivas alemãs em águas portuguesas, como o ataque ao Funchal pelo U- 38, a 3 de dezembro de 1916, e os ataque a Ponta Delgada pelo U-155 a 4 de julho, de 1917. A análise do diário de guerra do U-35, para além de evidenciar os demais ataques que efetuou na costa portuguesa, é uma das ferramentas basilares do “Projeto U-35”. Ao acedermos ao diário de guerra do U-35, podemos verificar com maior detalhe, a interpretação, a progressão do projeto, e estratégias de mediação a equipa do CINAV. Após a incorporação e análise das fontes que expusemos aqui, filtrámos os dados recolhidos recorrendo a um folha Excel, como anteriormente referimos. Na folha Excel incorporámos cerca de 17 secções, colunas nomencladas, correspondendo às seguintes categorias relativas à embarcação naufragada, ao contexto espácio-temporal do naufrágio, às suas consequências e às fontes de informação: Nome do Navio; Construtora (Entidade, Ano); Tipo de Embarcação, Função da Embarcação; Nacionalidade do Navio; Data do Afundamento; Rota aquando o Naufrágio; Coordenadas (Latitude e Longitude); Carga; Tonelagem; Número de Mortos; Submarino Responsável. Esta categorização permitiu uma aproximação mais verosímil em torno dos impactes socioeconómicos da guerra submarina alemã, compreendendo o pano de fundo de um contexto nacional. A folha Excel permitiu consolidar vários trabalhos a nível do mapeamento, georreferenciação e consolidação de dados estatísticos. Finalmente, para a execução da proposta de mediação para o Museu Municipal de Esposende, fizemos uso das Atas de Vereação de Esposende, mais concretamente o Livro nº37 – Atas (outubro de 1915 a julho de 1917) 52 , e o Livro nº38 – Atas (agosto de 1917 a novembro de 1918) 53 , no sentido de aceder a informação ligada ao quotidiano social, político e económico esposendense, durante o período da Grande Guera. Outra razão pela sua escolha prende-se com a extração de relatos ou registos inerentes a casos de contrabando com submarinos alemães, ou mesmo outros casos de contrabandos verificados na localidade. 48 DUMA/C-A – Kriegstagebuch – „UC 53“. Kommandant: Kapitänleutant Albercht , Kurt. Für die Zeit vom 27. mai bis 24. Juni 1917. 49 DUMA/C-A - Kriegstagebuch - S.M.U-Boot „U.35.“.(Kommandant: Kapitanleutant v. Arnuald) – für die Ziet vom 31. märz bis 6. mai 1917. 50 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.38“. Kommandant Kapitänleutant Valentiner – Angefangen am: 1.november 1916. Abgeschlossen am: 23. dezember 1916. 51 DUMA/C-A – Bermerkungen zum Kriegstagebuch U 155. Kommandant : Korvet tenkapi tän Eckelman – Unternehmung von 14. januar 1918 bis 4. mai 1918. 52 ACME - Atas de Câmara - Livro nº 37 – Atas - outubro de 1915 a julho de 1917. 53 ACME - Atas de Câmara - Livro nº 38 – Atas - agosto de 1917 a novembro de 1918. 24 Sublinhe-se ainda, que estabelecemos contacto com vários investigadores ligados à temática dos submarinos alemães da Primeira Guerra Mundial e respetivos naufrágios: Jorge Russo 54 (investigador do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, membro do CINAV, e da equipa do “Projeto U- 35”), Augusto Alves Salgado (Membro do CINAV e da equipa do “Projeto U-35”) 55 , Paulo Nuno Borges Costa 56 (Investigador do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, membro da organização nãogovernamental Portugal 1914-1918), Marisa Alexandra Santos Fernandes 57 (Investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa) e Reinaldo Delgado (Investigador, e administrador do blog Navios e Navegadores 58 ). 54 Disponível em http://ihc.fcsh.unl.pt/pt/ihc/investigadores/item/36438-jorge-russo, consultado a 15/04/2015. 55 Disponível em http://marinha.academia.edu/AugustoAlvesSalgado, consultado a 15/04/2015. 56 Disponível em http://www.ihc.fcsh.unl.pt/pt/investigacao/grupos-de-investigacao/item/2278-economia- sociedade-patrim%C3%B3nio-e-inova%C3%A7%C3%A3o, consultado a 16/04/2015. 57 Disponível em http://www.ihc.fcsh.unl.pt/pt/investigacao/grupos-de-investigacao/item/2278-economia- sociedade-patrim%C3%B3nio-e-inova%C3%A7%C3%A3o, consultado a 16/04/2015. 58 Disponível em http://naviosenavegadores.blogspot.pt/, consultado a 16/04/2015. 25 Capítulo 1 – A emergência da guerra submarina na Primeira Guerra Mundial Este capítulo tem por objetivo desenhar um quadro síntese das manobras navais e submarinas, durante a I Guerra Mundial, dando-nos elementos para compreender, de um modo global e englobante, o papel da guerra submarina no conflito. Ao perspetivarmos sobre a atividade submarina alemã nos mais variados palcos de ação, no período compreendido 1914- 1918, podemos contextualizar de um modo mais satisfatório a frente marítima portuguesa, num conflito que por sua vez foi mundial. 1.1. O submarino alemão: abastecimento, tática e eficácia. A compreensão do submarino alemão da Primeira Guerra Mundial, na sua plenitude e tendo em conta as suas funcionalidades, os seus objetivos bélicos, a sua autonomia e os recursos humanos e técnicos que mobilizava, é um elemento central na compreensão do projeto. O submarino, ao lado do tanque, dos zepelins da metralhadora, das armas químicas, entre outras novas armas aplicadas nos campos de batalha da Grande Guerra, foi seguramente uma das que mais surpreendeu em termos de eficácia e funcionalidade, como se verá. O submarino é uma invenção do século XIX, no entanto o seu desenvolvimento prático só se verificou nos inícios do século XX. A partir de 1912, os submarinos começaram a ser equipados com um motor a diesel 59 para uma navegação à superfície mais estável, e com um motor elétrico, para ações de imersão 60 . Com o emprego destes dois novos elementos, o submarino demonstrar-se-ia um agente bélico preponderante nos mares. Nos finais do século XIX a construção de submarinoscomeçou a estabelecer alguns padrões e formas arreigadas a novas conceções tecnológicas, que afetaram a sua morfologia nos sessenta anos seguintes 61 . Avanços tecnológicos como o giroscópio, a bússola giroscópica, o emprego de cascos de aço, a criação método seguro de propulsão de combustão interna e o emprego de baterias de acumuladores, tornaram o submarino um elemento bélico possível 62 . 59 Diesel ou gasóleo é um produto que deriva da destilação do petróleo bruto. O nome deste produto provém do cientista alemão Rudolf Diesel (1858-1913), que o produziu precisamente para o seu motor de autoignição. 60 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1914 – 1915. Uma Guerra Diferente. Vila do Conde: Verso da História, 2014. vol 2, p. 38. 61 HUMBLE, Richard – Naval Warfare – An Illustrated History. London: Time Warner Books, 2004, p.130. 62 Submarine History – The New Navy. In www.globalsecurity.org, Disponível em http://www.globalsecurity.org/military/systems/ship/sub-history4.htm, consultado a 17/04/2015. 32 Os submarinos da Grande Guerra não eram, ainda, os U-Boat, da Segunda Guerra Mundial 111 . Apesar de serem impressionantes armas de guerra, tendo em conta os parâmetros da época, os submarinos alemães da Primeira Guerra Mundial tinham algumas limitações. A sua capacidade de autonomia e mergulho eram limitadas, fazendo com que estes operassem sobretudo à superfície, o que os expunha por vezes a ataques aéreos e a uma localização inimiga mais facilitada nestas ocasiões 112 . A reduzida velocidade dos submarinos quando em imersão e a limitada carga das suas baterias não lhes permitia perseguir eficazmente as suas vítimas, quando submersos 113 . As tripulações dos submarinos operavam em condições desumanas, dado ambiente claustrofóbico do interior de um submarino. Os marinheiros estavam expostos a gases tóxicos expelidos pela maquinaria envolvente, assim como a altíssimas temperaturas. O submarino, apesar destas desvantagens, notabilizava-se no campo de batalha. Enquanto um torpedeiro necessitava de proteger-se através da obscuridade da noite por exemplo, o submarino podia facilmente passar despercebido mesmo em pleno dia 114 . Numa época onde não existiam radares ou sonares, os ataques dos U-boats eram completamente imprevisíveis. O seu efeito surpresa alterou por completo o modo como a guerra naval era compreendida até então, atenuando assim o raio de atividade dos navios de guerra inimigos. Os U-boats atacavam quase sempre fora do alcance do fogo inimigo, calibrando sempre o alcance dos torpedos que direcionavam. Quando avistava um navio adversário estes punham em marcha os seus motores elétricos, alimentados por baterias, e após um mergulho, tentavam tomar a dianteira da sua vítima 115 . A própria conceção dos navios de guerra tradicionais favorecia as intenções dos submarinos, dado que a blindagem destes concentrava-se sobretudo nas partes superiores, sendo a parte inferior completamente vulnerável a ataques com torpedos. No entanto, dado o custo elevado dos torpedos e a sua curta autonomia quando submersos, os comandantes dos U-boats abordavam, na maioria das vezes, os navios inimigos com os seus canhões, economizando assim a sua capacidade de ofensiva. Outra particularidade dos submarinos alemães era o facto de atacarem quase sempre em circunstâncias de superioridade, procurando sempre o modo mais seguro de o fazer, ou seja, atacavam quase sempre fora do alcance de tiro dos navios visados, ou mesmo embarcações com parca capacidade defensiva, por exemplo. Os submarinos empreenderam astutos esquemas defensivos, lançando objetos pelos tubos lança-torpedeiros e óleo, fazendo crer aos navios inimigos que estes tinham sido 111 CARDOSO, Rui; RAMALHO, Margarida Magalhães; MARQUES, Ricardo – A Primeira Guerra Mundial. Livro Extra sobre a Participação de Portugal. Lisboa: Esfera dos Livros, 2014, p. 72. 112 Idem, Ibidem. 113 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1997.vol. 7, p.121. 114 CORREIA, Virgílio Lopes – Construção Naval Militar: Submarinos e submersíveis. [S.l: S.N], 1921, p.15. 115 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1997.vol. 7, p.120. 33 afundados 116 . Evidentemente, consoante o desenrolar do conflito mundial, as táticas dos submarinos alemães diversificaram-se e adaptaram-se aos demais contextos territoriais e logísticos, variando assim de acordo com estes fatores 117 . No final do ano de 1914, cerca de 11 vapores e 9 navios de guerra britânicos foram destruídos por submarinos alemães, fossem estes torpedeados, ou vítimas de minas navais 118 . Os Aliados não conseguiram lidar, numa primeira instância, com as ofensivas submarinas dos alemães, dada a falta de sistemas defensivos costeiros e de ações de localização e alarme. Esta realidade encorajaria os U-boats a aumentarem o seu raio de ação. A própria Home Fleet britânica 119 fora mesmo afastada do alto-mar, ancorando no porto irlandês de Loch Swilly, em vez de o tradicional porto de Scapa Flow, na Escócia 120 . O bloqueio naval britânico à Alemanha, efetuado logo no começo do conflito, perdera o seu vigor inicial. No final de 1914, os almirantes da Marinha Imperial alemã não tinham dúvidas quanto ao valor de guerra intrínseco dos seus submarinos 121 . Nos começos de 1915 as medidas antissubmarinas dos britânicos foram algo previsíveis 122 . Eram empregues mais redes antissubmarinas, mais minas em alto-mar, mais patrulhas costeiras, porém os U-boats continuavam a penetrar nas águas aliadas. A negligência aliada em relação aos submarinos inimigos permitiu que estes se aventurassem cada vez mais, chegando ao ponto de bombardear navios mercantes aliados. Crescia, dentro da elite do almirantado alemão, a opinião de que a aplicação de uma guerra de corso à marinha mercante britânica poderia afetar em muito o desempenho bélico aliado, fosse na terra fosse no mar. A Grã-Bretanha, uma nação insular, dependia grandemente das rotas comerciais da sua marinha mercante para a preservação das suas reservas alimentares. Com o estrangulamento das suas rotas de abastecimento, a Grã-Bretanha poderia facilmente capitular. Porém, o recurso à guerra de corso surgia como uma hipótese remota do ponto de vista britânico. A Conferência Naval de Londres, decorrida entre 1908 e 1909, regulava, à luz do 116 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p. 96. 117 Nesta dissertação ápor mencionar algumas das táticas dos submarinos alemães, pois estas variam de acordo com o contexto regional e logístico, que por sua vez se determinava consoante o desenrolar do conflito mundial. 118 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 22. 119 A Home Fleet britânica era uma frota, dentro da Royal Navy, que tinha como função proteger as águas ao largo das Ilhas Britânicas. 120 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1914-1915- Uma Guerra Diferente. Vila do Conde: Verso da História, 2014. vol. 2, p. 58. 121 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 22. 122 BRIDGLAND, Tony – Sea Killers in Disguise- The Story of the Q-ships and Decoy Ships in The First Word War. Barmsley: Leo Cooper, 1999, p.2. 34 direito internacional, a corrida às armas navais, o modo como se processavam os bloqueios portuários e os procedimentos bélicos efetuados no mar. A Alemanha participou nesta Conferência, e inclusive consentiu os 71 artigos da Declaração das Leis da Guerra Naval de Londres, em 1909 123 . Esta declaração deixara claro alguns princípios, que por sua vez salvaguardavam o fluxo de navios neutros e dos navios mercantis. O almirante von Tirpitz, Secretário Naval do Estado, deu uma entrevista a um jornalista americano nos começos de 1915, alegando que uma nova campanha submarina estaria iminente 124 . A 5 de fevereiro de 1915, o kaiser Guilherme II declarou que todas a área marítima em torno das Ilhas Britânicas e da Irlanda seriam consideradas como uma “zona de guerra” 125 . Todos os navios mercantes inimigos que circulassem dentro desta zona seriam destruídos, pondo de parte qualquer tipo de adversão ou aviso 126 . Os navios neutrais seriam devidamente alarmados na zona de guerra em questão, porém era aconselhável não patrulharem estas águas 127 . Os U-boats tinham instruções para não bombardear navios neutrais, evitando tanto quanto possível incidências com estas mesmas embarcações. Segundo as regras internacionais, os submarinos teriam de submergir assinalando uma bandeira, permitindo às tripulações dos navios inimigos e neutrais a sua fuga antes do torpedeamento 128 . O governo britânico patrocinou o uso de distintivos e bandeiras, que permitissem aos navios neutrais revelar a sua identidade aos alemães 129 . Apesar das instruções e dos distintivos dos navios neutrais, os U-boats quebraram por várias vezes as recomendações definidas. Vários navios neutrais foram afundados sem qualquer tipo de aviso. O domínio dos mares devia-se agora a um revivalismo da antiquíssima guerra de corso, protagonizada pelos submarinos alemães. A sua autonomia em alto mar, a sua capacidade de iniciativa, e a sua versatilidade, permitiram aos U-boats uma grande flexibilidade para novas operações e ofensivas nesta nova campanha de corso. A Declaração das Leis da Guerra Naval de Londres de 1909 foi corrompida. A Grande Guerra mostrava-se uma “guerra total”. O principal argumento alemão prendia-se com a retaliação ao bloqueio naval britânico no Mar do Norte, efetuado a novembro de 1914 130 . Em agosto deste mesmo ano, a França propusera à sua aliada britânica a renovação dos acordos de 123 Declaration concerning the Laws of Naval War. London, 26 February 1909.In www.icrc.org, Disponível em https://www.icrc.org/applic/ihl/ihl.nsf/States.xsp?xp_viewStates=XPages_NORMStatesSign&xp_trea tySelected=255, consultado a 18/04/1918. 124 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 26. 125 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.36. 126 BRIDGLAND, Tony – Sea Killers in Disguise- The Story of the Q-ships and Decoy Ships in The First Word War. Barmsley: Leo Cooper, 1999, p.3. 127 Idem, Ibidem. 128 KEYLOR, William R. – História do Século XX. Lisboa: Publicações Europa-América, 2001, p. 88. 129 Idem, Ibidem. 130 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994. vol. 2, p. 95. 35 1909, para assim regular, de um modo mais eficaz, a apreensão de mercadorias de contrabando 131 . A Grã-Bretanha acordou. Assumido este compromisso, os Aliados aumentaram significativamente a lista das mercadorias consideradas como contrabando de guerra aos navios neutros, tentando assim impedir o tráfego mercantil além-Mancha. O bloqueio aliado e o emprego das minas alemãs no Mar do Norte facilitaram esta estratégia. As importações diretas da Alemanha, provenientes dos Estados Unidos, foram praticamente interrompidas 132 . Naturalmente, os alemães responderam com os seus submarinos. Os alemães mobilizaram os seus recursos, mesmo antes do bloqueio à Inglaterra, para uma nova campanha submarina. Os submarinos eram agora equipados com novas baterias, e novos dispositivos de torpedos de maior alcance 133 . Os comandantes dos submarinos recebiam uma nova formação, mais direcionada para a guerra de corso aos navios mercantes, incluindo-se também um “piloto de guerra”, que tinha como função localizar e identificar os navios mercantes 134 . Em março de 1915, as novas classes submarinas UB e UC entravam verdadeiramente em ação, tendo como tarefa principal minar vastas áreas de mar. Deslocavam entre 127 a 142 toneladas, comportando também um motor a diesel de 60 cavalos, e um motor elétrico de 120 cavalos 135 . Estes modelos eram demasiado lentos para poderem perseguir vapores inimigos, sendo que os seus motores não aguentariam uma perseguição de algumas horas 136 . Na primavera de 1915, o tipo UB-II começou a ser produzido nos estaleiros navais germânicos 137 . A guerra de corso alemã parecia estar a dar os seus frutos. Só apenas em três meses, entre março e maio de 1915, foram afundados 123 navios ao largo das Ilhas Britânicas 138 . A 7 de maio do mesmo ano, dá-se o célebre afundamento do navio britânico Lusitania pelo U-20, que efetivamente chocou a opinião pública americana e britânica. O navio foi torpedeado sem qualquer aviso. Morreram cerca de 1198 passageiros, 128 dos quais americanos 139 . O acontecimento em questão tornou-se num poderoso símbolo do conflito entre o certo e o errado 140 . Os americanos já não podiam ignorar mais o conflito europeu. Washington asseverou, 131 NÉRÉ, Jacques – História Universal – O Mundo Contemporâneo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1977, p.341. 132 Idem, Ibidem. 133 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 30. 134 Idem, Ibidem. 135 TERRAINE, John – Business in Great Waters – The U-Boat Wars, 1916-1945. Barnsley: Wordsworth Editions, 1993, p. 20. 136 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice– The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 38. 137 Idem, Ibidem. 138 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.37. 139 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994.vol. 2, p. 146. 140 Idem, Ibidem. 36 através dos seus dignatários em Berlim, que as forças do kaiser deveriam cessar imediatamente o fogo a navios desarmados. No entanto, os Estados Unidos permaneceram neutros. Os alemães lançaram os seus submarinos para novas frentes de guerra, nomeadamente para o Atlântico, para o Golfo da Biscaia e para o Mediterrâneo. Para os aliados o afundamento do navio britânico Lusitania apurava um facto surpreendente: os U-boats chegavam agora às faixas marítimas atlânticas 141 . Abriam-se novas frentes navais. Com a ofensiva naval na primavera de 1915 nos Dardanelos projetada por Winston Churchill, Lord Kitchener, e Asquith 142 , os Aliados tencionavam mudar o curso da guerra, neutralizando os turcos na península estratégica de Galipóli e abrindo novas rotas de abastecimento aos russos através do Mar Negro 143 . Primordialmente, não foram os fluxos das embarcações mercantis da Entente que atraíram os U-boats alemães para o Mediterrâneo, mas precisamente esta ofensiva aliada 144 . Servindo-se das bases austro-húngaras de Cattaro e Pula 145 no Adriático, e dos portos turcos no Mediterrâneo, os alemães equacionaram agora novas operações militares entre Gibraltar e o Levante. Logo após o fracasso da campanha aliada nos Dardanelos, Otto Hersing, comandante do U-21, torpedeia o grande couraçado inglês HMS Triumph, em finais de maio de 1915. O oficial naval alemão, Wilhelm Tägert, recordou mais tarde: “o afundamento do Triumph foi uma visão tão tremenda que por momentos foi esquecida a guerra em terra” 146 . Como se não bastasse, Hersing torpedeia outro couraçado aliado, o HMS Majestic, no dia seguinte. Os submarinos conseguiam assim um considerável sucesso no Mediterrâneo 147 , muito devido às ótimas condições de navegação, que contrastavam com as do Atlântico ou do Mar do Norte. Os comandantes dos U-boat facilmente localizavam embarcações inimigas, graças à boa visibilidade e estabilidade das condições meteorológicas mediterrânicas 148 . Outro ponto a favor das operações submarinas germânicas era a escassa presença de dispositivos defensivos aliados nas costas mediterrânicas, além de uma ineficaz reação da aliança Entente. Segundo Joachim Koever, os objetivos militares dos alemães no Mediterrâneo eram diferentes do Atlântico ou do 141 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 42. 142 Na primavera de 1915 Winston Churchill era chefe do almirantado, Lord Kichtener era ministro da Guerra e Asquith era primeiro-ministro da Grã-Bretanha. 143 HAFFNER, Sebastian – Winston Churchill. Barcelona: Liberdúplex, 2011, p.51. 144 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 67. 145 Cattaro (atual Kotor, localizada na República de Montenegro) e Pula (localizada na atual Croácia) foram duas importantes bases navais no Adriático para as Potências Centrais, durante a Grande Guerra. A sua localização estratégica permitiu aos submarinos alemães e austro-húngaros um raio de ação considerável que se estendia entre Gibraltar e o Mar Negro, negando assim aos aliados uma hegemonia plena no mar Mediterrâneo. 146 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994. vol. 2, p. 158. 147 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.41. 148 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 67. 37 Mar do Norte. Aqui, estes praticavam uma guerra de corso generalizada sem um foco específico ou uma predefinição temporal 149 . No Mediterrâneo as baixas aliadas comportavam sobretudo embarcações francesas e italianas 150 . Só no Outono de 1915, os U-boats afundaram cerca de 54 navios britânicos e 38 navios Aliados, no Mediterrâneo 151 . Apesar das ofensivas alemãs os Aliados estudaram novas estratégias antissubmarinas. Os Aliados chegaram mesmo a dividir o Mediterrâneo em “zonas de intervenção” distribuídas pelas várias nações beligerantes, não obtendo por sua vez um sistema eficaz de coordenação de forças 152 . Em janeiro de 1915, dois pilotos britânicos abordaram alguns submarinos alemães lançando bombas a baixa altitude 153 . Efetuaram serviços de patrulhas de caça costeiras, tanto aéreas como submarinas, em muitos pontos da costa 154 . Outra inovação dos Aliados fora o recurso aos Q-ships ou barcos-chamarizes, que engenhavam uma estratégia bastante eficaz. Os Q-ships eram embarcações devidamente camufladas que sugeriam um carácter meramente inofensivo, distorcendo assim os impulsos atacantes dos submarinos. Ao simular a sua rendição, ou uma situação de enorme fragilidade operatória da embarcação, os Q-ships aguardavam que um submarino se aproximasse para junto das suas baterias. Ao fazê-lo, os submarinos submergiam, expondo-se assim ao fogo inimigo. Segundo Tony Bridgland, os submersíveis UB-13, U-64 e o U-30, por exemplo, foram afundados nestas circunstâncias 155 . No entanto, só a partir de meados de 1917 é que os Aliados encontram meios eficazes no combate aos U-boats. Em fevereiro de 1916 os alemães lançaram uma nova ofensiva submarina 156 . O general alemão Erich von Falkennhayn planeara junto do kaiser uma colossal ofensiva terrestre, que visava a captura da estratégica e simbólica cidade francesa de Verdun. As elites militares germânicas sugeriram uma nova campanha marítima, que acompanharia a incursão terrestre 157 . As previsões alemãs eram otimistas. O Almirantado alemão esperava alcançar um rácio de 631.000 toneladas afundadas por mês, com a aplicação desta nova campanha submarina 158 . Projetava-se a capitulação do jugo britânico em apenas seis meses 159 . Para acentuar ainda mais a asfixia da Grã-Bretanha, várias vozes defendiam a promulgação de uma guerra submarina sem 149 KOEVER, Hans Joachim – German Submarine Warfare 1914-1918 in the Eyes of the British Intelligence, 2010, p. 22. 150 Idem, Ibidem. 151 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p.79. 152 Idem, Ibidem. 153 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994.vol. 2, p. 93. 154 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p. 94. 155 BRIDGLAND, Tony – Sea Killers in Disguise- The Story of the Q-ships and Decoy Ships in The First Word War. Barmsley: Leo Cooper, 1999, p.144. 156 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.38. 157 Idem, Ibidem. 158 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 81. 159 Idem, Ibidem. 38 restrições, ou seja, dentro do raio de ação submarina qualquer navio poderia ser afundado sem qualquer aviso prévio, fosse este inimigo ou neutro 160 . Até esta data, a maioria dos submarinos, antes de efetuar o ataque, lançava um aviso aos navios, permitindo poupar vidas humanas ao dar a possibilidade à tripulação de utilizar os barcos salva-vidas 161 . Com uma guerra sem restrições, este tipo de preocupações passava simplesmente para segundo plano. A 28 de março, o parlamento alemão aprovou a guerra submarina imediata e irrestrita 162 . Dois dias depois, o navio hospital russo Portugal foi bombardeado no Mar Negro, por um submarino alemão 163 . A 8 de maio 164 , o navio americano Cymric foi afundado, sendo o trigésimo sétimo navio de passageiros vítima de submarinos alemães desde o Lusitania 165 . A ofensiva submarina alemã de 1916 ditou-se, primordialmente, por alguns sucessos iniciais dos U-boats da classe UB e UC, na costa ocidental inglesa 166 . A 24 de março de 1916, o UB-29 torpedeia o vapor francês Sussex perto do porto de Dieppe, na Bélgica. Metade das vítimas eram cidadãos americanos 167 . O presidente Woodrow Wilson reagiu no congresso americano a 19 de abril de 1916, declarando que o Governo Imperial Alemão deveria cessar as suas atividades submarinas, ameaçando mesmo severas retaliações diplomáticas 168 . No final da primavera de 1916, os Aliados estimavam uma perda entre 200.00 a 300.00 toneladas em embarcações nos mares que banhavam a Europa do Norte 169 . No Mediterrâneo, o ano de 1916 demonstrou-se trágico para os Aliados. No início desse ano, os submarinos germânicos operavam já largamente no mar mediterrânico e no mar Adriático 170 . Assistiu-se mesmo a uma transferência de submarinos do Mar do Norte para o palco mediterrânico 171 . Um total de 256 embarcações, representando cerca de 662.131 toneladas, foi vítima da guerra de corso submarina, apenas no Mediterrâneo 172 . Os austríacos, apesar da sua modesta frota de submarinos, tinham direito à sua quota-parte no sucesso da Tríplice no Mediterrâneo, fornecendo não só as suas bases navais como aplicaram danos severos à marinha italiana. 160 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.38. 161 FERRO, Marc – A Grande Guerra 1914-1918. Lisboa: Edições 70, 1990, p. 169. 162 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994. vol. 3, p. 116. 163 Idem, Ibidem. 164 Ships Hit during WW1 - Cymric. In www.uboat.net, Disponível em http://www.uboat.net/wwi/ships_hit/1521.html, consultado a 18/04/2015. 165 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994.vol. 3, p.116. 166 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.39. 167 Idem, Ibidem. 168 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 88. 169 Idem, Ibidem, p. 94. 170 WILSON, Michael; KEMP, Paul – Mediterranean Submarines – Submarine Warfare in World War One. Manchester: Crécy Publishing Ltd, 1998, p.125. 171 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 133. 172 Idem, Ibidem, p. 134. 39 A 1 de outubro de 1916, o kaiser saudou o serviço dos seus submarinos, pelo afundamento de um milhão de toneladas de embarcações da Entente, na sua maioria baixas britânicas 173 . Uma semana depois, os U-boats alemães atingem a costa leste americana, sendo que o U-53 afunda cinco navios mercantes 174 . Eram também lançados novos tipos de classes submarinas em meados de 1916, a classe UB-II (18-47) 175 , a classe UC-II 176 , para além dos novos “submarinos-cruzador” 177 . Os novos UB e UC tinham funcionalidades ligadas à colocação de minas. Porém, estes modelos apresentavam motores mais eficientes, deslocando uma maior tonelagem, um novo sistema de torpedeamento e atingiam agora velocidades correspondentes a 9,15 178 e 11, 6 nós 179 , respetivamente, quando submergidos. Os “submarinoscruzador” eram grandes estruturas subaquáticas, podendo deslocar cerca de 2.000 toneladas, com uma velocidade de superfície de 15 nós 180 . Estes estavam também armados com duas baterias de 15 cm, alcançando um raio de ação de 12.000 milhas 181 . O submarino Deustchland, disponível a partir de 28 de março de 1916, foi o primeiro deste género. A 9 de janeiro de 1917, o kaiser estava à beira de tomar uma decisão que afetaria o rumo da guerra. Aquando a sua presidência no Conselho da Coroa, o kaiser e a elite militar alemã discutiram uma possível promulgação de uma guerra submarina sem restrições 182 . O chefe do Estado-Maior da Marinha, o almirante Henning von Holtzendorf, garantiu que se efetivamente uma guerra submarina irrestrita fosse posta em prática, a Grã-Bretanha pediria a paz dentro de meio ano. A 1 de fevereiro, a guerra submarina sem restrições entrou em vigor. Qualquer navio, neutro ou inimigo, seria abatido pelos submarinos, ignorando-se quaisquer insígnias de navegação ou carga. Só em janeiro de 1917, o último mês antes da promulgação da guerra submarina sem restrições, os submarinos alemães afundaram 51 navios britânicos, 63 de outros países Aliados e 66 navios neutrais, num total de 3.000.000 toneladas 183 . Alguns dirigentes das forças militares alemãs achavam ainda remota a possibilidade de os Estados Unidos entrarem na guerra devido à guerra submarina sem restrições, incluindo o novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Alfred von Zimmermann. Bastaram dois meses. 173 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994. vol. 4, p.25. 174 Idem, Ibidem. 175 TERRAINE, John – Business in Great Waters – The U-Boat Wars, 1916-1945. Barnsley: Wordsworth Editions, 1993, p. 20. 176 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.17. 177 Idem, Ibidem, p.15. 178 WW1U-boat Types – Type UB-II. In www.uboat.net, Disponível em http://www.uboat.net/wwi/types/?type=UB+II, consultado a 18/04/2015. 179 WW1U-boat Types – Type UC-II. In www.uboat.net, Disponível em http://www.uboat.net/wwi/types/?type=UC+II, consultado a 18/04/2015. 180 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.16. 181 Idem, Ibidem. 182 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994. vol. 4, p.52. 183 Idem, Ibidem. 40 Episódios como o afundamento do cargueiro americano Housatonic 184 , a 3 de fevereiro, e do petroleiro americano Healdton 185 , a 21 de março, enfureceram os parlamentares americanos, incluindo Hodroow Wilson. Como se não bastasse, o telegrama enviado por Alfred Zimmermann ao México, que propunha aos mexicanos uma colaboração militar contra os Estados Unidos, foi decifrado pelos britânicos. O telegrama de Zimmerman foi exposto publicamente a 1 de março de 1917, nos Estados Unidos 186 . A 6 de abril de 1917, os Estados Unidos declaram guerra à Alemanha de Guilherme II. Nos inícios de 1917, os alemães dispunham de pouco mais de cem submarinos operacionais, sendo que mais de quarenta estavam nos estaleiros navais em reparações 187 . Desde o início da guerra, cerca de 51 submarinos tinham sido afundados 188 , no entanto os alemães tentaram por sua vez colmatar esta perda. O ano de 1917 foi o que assistiu a uma maior construção de submarinos 189 . Os U-boats preparam-se agora para a nova campanha submarina, dividindo as suas unidades pelos demais palcos de guerra, reforçando os seus números no Mar do Norte, Mediterrâneo, Atlântico e na costa flamenga 190 . O ano de 1917 demonstrou ser mais dramático para as forças Aliadas baseadas no mar. De fevereiro a abril de 1917, o número de embarcações que atingiam os portos britânicos assistiu a uma diminuição na ordem dos 75 %, num total de 900.00 toneladas 191 . O autor Hans Joachim Koever, ao refletir sobre a campanha submarina de 1917, argumenta que neste espaço de tempo os alemães conseguiram disponibilizar um maior número de U-boats, aumentando significativamente o número de baixas aliadas 192 . Só em 1917 os alemães produziram cerca de 87 submersíveis 193 . Koever alerta também para o aumento significativo de alvos dada a ingressão dos navios neutros, fruto da guerra submarina sem restrições 194 . 184 O cargueiro americano Housatonic foi afundado no dia 3 de fevereiro de 1917, pelo submarino alemão U-53, perto das Ilhas Scilly. 185 O petroleiro americano Healdton foi afundado no dia 21 de março de 1917, por um submarino alemão, perto da costa holandesa. Este navio foi afundado numa área declarada como “zona de segurança”. 186 Alfred von Zimmermann, aquando a sua posse do Ministério dos Negócios Estrangeiros, engenhou uma possível cooperação militar entre a Alemanha e o México contra os Estados Unidos da América. Num telegrama enviado ao ministro alemão sediado na Cidade do México, Zimmermann prometia aos mexicanos a recuperação dos territórios que perdera no século anterior: o Texas, o Novo México e o Arizona. 187 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994. vol. 4, p.56. 188 Idem, Ibidem. 189 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 142. 190 Idem, Ibidem, p. 143. 191 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994.vol. 4, p.56. 192 KOEVER, Hans Joachim – German Submarine Warfare 1914-1918 in the Eyes of the British Intelligence, 2010, p. 30. 193 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.17. 194 KOEVER, Hans Joachim – German Submarine Warfare 1914-1918 in the Eyes of the British Intelligence, 2010, p. 30. 41 No entanto, os Aliados reagiam de um modo mais eficaz à guerra submarina. O sistema de comboios permitiu uma maior proteção das marinhas mercantes aliadas, ou seja, agora as embarcações comerciais eram escoltadas por navios de guerra. Durante mais de três anos, o Almirantado britânico recusou adotar o sistema de comboios mercantes, temendo uma perda massiva dos seus navios de guerra 195 . Loyd George, agora primeiro-ministro inglês, decidiu implementar este sistema, garantindo assim os fluxos de abastecimento transatlânticos. Em sequência, um comboio de dez a cinquenta navios era escoltado por vários navios de guerra, incluindo dois torpedeiros equipados com um balão aerostático, que permitia a localização de submarinos inimigos 196 . Só após a implementação deste sistema de escolte é que os Aliados conseguiram reduzir as baixas no mar. Dos 1.100.000 soldados americanos transportados para a frente europeia, entre maio de 1917 e novembro de 1918, apenas 637 destes foram vítimas de ataques submarinos alemães 197 . Por todo o mundo, os Aliados consignaram vários entrepostos para assim organizarem os seus comboios, incluindo os portos estratégicos de Halifax (Nova Escócia), Port Said (Egipto), Rio de Janeiro, Gibraltar, Dakar, Murmansk (Rússia) e o canal do Panamá 198 . Esta definição de posições-chave assegurou o esforço de guerra aliado, contraindo as esperanças alemãs de asfixia comercial aliada. Não foi apenas a aplicação do sistema de comboios que efetivou a mudança da política naval aliada. Os navios civis foram equipados com dispositivos para cortarem as amarrações, recorrendo-se a aparelhos Otter 199 , além de mecanismos de rocega para remover as minas. Em meados de 1917, os Aliados apetrecharam também os seus navios civis com hidrofones, o que permitiu uma localização mais precisa e credível do inimigo 200 . Novas minas foram colocadas nas águas costeiras alemãs: a mina H2. Crê-se que a nova H2 provocou a destruição de 16 U- boats 201 . Apesar das medidas aliadas, a situação era contudo, desesperante. Entre maio e junho de 1917, os alemães conseguiram afundar cerca de 765 navios mercantes 202 . Só em abril desse ano, os britânicos perderam cerca de 155 embarcações, representando uma tonelagem de 516.394 toneladas respetivamente 203 , e os Aliados 373 navios, num total de 873.754 toneladas 204 . Eram 195 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994.vol. 4, p.93. 196 Idem, Ibidem. 197 Idem, Ibidem, p.94. 198 Idem, Ibidem. 199 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p. 96. 200 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos - 1915-1917 – As Trincheiras. Vila do Conde: Verso da História, 2014. vol. 3, p.43. 201 WILIAMSON, Gordon – U-boats of the Kaiser’s Navy. Oxford: Osprey Publishing, 2002, p.44. 202 Idem, Ibidem, p.41. 203 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 160. 204 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994. vol. 4, p.93. 48 1917, os americanos iniciam a instalação efetiva de uma base militar, recorrendo ao cônsul de S. Miguel, depositando posteriormente 10.000 toneladas de carvão para abastecer os navios aliados que cruzavam o Atlântico 248 . A estratégia americana não residia apenas na escolta dos comboios mercantis transatlânticos, mas igualmente na proteção dos Açores relativamente às incursões alemãs. Combinando uma dualidade de destroyers e submarinos, os americanos tentaram proteger os portos açorianos. Em 1918, os americanos instalam uma unidade de hidroaviões no arquipélago, tal como os franceses fizeram nos portos continentais portugueses. Após a declaração de guerra a Portugal, a 9 de março de 1916, os submarinos alemães, a partir de abril deste mesmo ano, iniciaram as ações militares na costa portuguesa, recorrendo a minas e a ataques a navios mercantes. Consoante o desenrolar do conflito na frente marítima portuguesa, os submarinos alemães inverteram a sua estratégia de incidência no atlântico, como teremos oportunidade de verificar mais adiante. Cremos expor várias dimensões da guerra submarina alemã empreendida ao largo da costa portuguesa, tendo em conta as suas consequências sobretudo a nível socioeconómico, e militar. A frente marítima portuguesa apresenta-se como um palco de guerra ainda largamente desconhecido, dada a carência de estudos e falta de representatividade no âmbito da historiografia portuguesa. A frente marítima portuguesa apresenta características inerentes a um conflito mundial, muito devido à sua posição-chave no Atlântico. Nesta dissertação empreendemos esforços para apresentarmos alguns números tocantes às perdas materiais e humanas provocadas por submarinos alemães ao largo da costa portuguesa, que nos aproxima com um maior fundamento de um valor real. Como indicam as tabelas presentes no Apêndice (Tabelas 6, 7 e 8), contabilizámos 176 naufrágios provocados por submarinos alemães, tanto portugueses como estrangeiros, o que perfaz um total de 1.623.104 toneladas afundadas, no período que medeia entre 9 de março de 1916 e 11 de novembro de 1918. Quanto ao número de perdas humanas, verificamos que os submarinos provocaram a morte de 833 homens na frente marítima portuguesa 249 . No entanto, desconhecemos ainda o verdadeiro impacto da guerra submarina alemã apesar de já evidenciarmos alguns números neste sentido. Segundo o autor António José Telo a entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial deveu-se parcialmente ao sucesso das campanhas submarinas alemãs, o que sublinha a importância geoestratégica da frente marítima portuguesa 250 248 TELO, António José – Os Açores e o Controlo do Atlântico (1898/1948).Lisboa: Edições Asa, 1993, p.110. 249 Este número remete apenas às mortes registadas no mar. Este número é uma mera aproximação, dada a escassa informação recolhida em torno de alguns naufrágios neste sentido. No entanto, cremos que este número, apesar de contabilizar uma boa parte dos mortos registados ao longo da nossa costa, possa assumir um número maior. 250 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1914 – 1915. Uma Guerra Diferente. Vila do Conde: Verso da História, 2014. vol 2, p. 55. 49 2.1. 1916 - O choque. Portugal e a emergência da guerra submarina alemã Logo após a declaração de guerra alemã a Portugal, a 9 de março e 1916, um submarino alemão preencheu a entrada da barra de Lisboa com minas navais, tentando assim suspender o tráfego mercantil além-Tejo 251 . O país era posto em estado de alerta, passando toda a costa a ser objeto de uma maior vigilância por parte da Divisão Naval, chefiada pelo capitão-de-fragata Leote do Rego 252 . Era bastante difícil a Portugal, devido às circunstâncias da guerra, importar novos navios e material de guerra provenientes do estrangeiro. A República Portuguesa detinha apenas quatro cruzadores, dois contratorpedeiros, um submarino e uma escassa dezena de canhoeiras para dar resposta aos alemães no mar 253 . Os recursos dos Aliados eram cada vez mais escassos, e auxiliar a República Portuguesa na sua frente interna, não era uma prioridade militar. Foi a indústria nacional, nomeadamente o Arsenal da Marinha, a improvisar e a colmatar as falhas defensivas da costa portuguesa. No mar, Portugal estava entregue a si próprio. O Arsenal da Marinha trabalhava muito lentamente na reparação dos navios alemães apreendidos em fevereiro de 1916, dada a sabotagem das suas tripulações aquando da apreensão das autoridades portuguesas 254 . O Arsenal unia esforços para munir e apetrechar alguns navios da marinha mercante portuguesa, recorrendo sobretudo a meios improvisados. Como se não bastasse, a 18 de abril de 1916, o Arsenal da Marinha foi vítima de um incêndio. Segundo o suplemento A Ilustração Portuguesa, do jornal O Século, a biblioteca, o museu da Escola Naval, a Sala do Risco, e o laboratório químico foram afetados pelas chamas 255 . Quanto ao emprego dos navios alemães apreendidos, Portugal só teve direito a cerca de 20 % dos navios apreendidos, sendo que os restantes 80 % foram entregues ao esforço de guerra britânico 256 . Apesar de maior parte dos navios capturados ter sido colocada, Portugal contava agora com um bom número de navios modernos ao seu serviço. Os primeiros caça-minas improvisados surgem logo em 1916, sob direção do 1º tenente Jaime de Sousa, que obteve formação em Inglaterra 257 . Em julho do mesmo ano, Portugal dispunha de cerca de 5 caça-minas e 6 vapores em Lisboa, assim como vários galeões e navios de pesca no Algarve e 2 vapores em 251 CARDOSO, Rui; RAMALHO, Margarida Magalhães; MARQUES, Ricardo – A Primeira Guerra Mundial. Livro Extra sobre a Participação de Portugal. Lisboa: Esfera dos Livros, 2014, p. 74. 252 SERRÃO, Joaquim Veríssimo – História de Portugal (1910-1926). Lisboa: Editorial Verbo, 1989, p. 178. 253 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1997.vol. 7, p.121. 254 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. As Trincheira. Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 56. 255 A Ilustração Portuguesa, 24 de abril de 1916, p. 514. 256 CARDOSO, Rui; RAMALHO, Margarida Magalhães; MARQUES, Ricardo – A Primeira Guerra Mundial. Livro Extra sobre a Participação de Portugal. Lisboa: Esfera dos Livros, 2014, p. 77. 257 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. As Trincheiras. Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 56. 50 Leixões 258 . São entregues 6 navios alemães à Armada Portuguesa, batizados com nomes portugueses: o cruzador Gil Eanes, o lança-minas Sado, o navio de salvamento Patrão Lopes, entre outras unidades navais. Estabeleceram-se também barragens no porto de Lisboa, recorrendo-se ao lançamento de minas nas imediações da sua barra 259 . O país mobilizava-se, incluindo alguns clubes náuticos proporcionarem os seus iates, os seus barcos e os seus depósitos de combustível, em troca da isenção militar dos seus proprietários 260 . Foram criadas novas tripulações na marinha portuguesa, mobilizando-se para além das habituais reservas. Novos membros provenientes das associações náuticas e de recreio nacionais preenchiam os quadros da marinha, denominados como Auxiliares da Defesa Marítima 261 . Após a declaração de guerra alemã, os seus submarinos principiaram as suas operações ao largo da costa portuguesa, atacando mesmo navios de outras nacionalidades que não a portuguesa. O primeiro navio a ser afundado na costa lusa foi o navio norueguês Terje Vikken. Este cargueiro a vapor, de 3.580 toneladas, foi vítima de uma das minas largadas pelo U-73, perto de Cascais, a 17 de abril de 1916 262 . A 28 de outubro de 1916, seria a vez do navio americano Lanao 263 , vítima do submarino U-63, perto do Cabo de S. Vicente 264 . A 25 de novembro, ao largo de Lisboa, o submarino alemão U-52 afundou um grande couraçado da Marinha Francesa, o Suffren. Não houve sobreviventes 265 , morrendo cerca de 648 marinheiros 266 . De acordo com a análise dos dados e respetivo cruzamento destes, crê-se que nenhum outro ataque alemão em águas portuguesas tenha provocado tantos mortos. O Suffren era um couraçado com grandes proporções para a época, com cerca de 12.750 t., sendo um dos maiores navios que foram afundados durante a Primeira Guerra Mundial 267 . O mês de dezembro de 1916 foi especialmente marcante, sobretudo para as autoridades portuguesas presentes no arquipélago madeirense e no arquipélago cabo-verdiano. O submarino U-38, comandado por Max Valentiner, protagonizou a maioria dos ataques e afundamentos em 258 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. As Trincheiras. Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 56. 259 PEREIRA, José António Rodrigues - Marinha Portuguesa - Nove Séculos de História. Lisboa: Comissão Cultural de Marinha, 2010, p. 423. 260 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. As Trincheiras. Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 58. 261 PEREIRA, José António Rodrigues - Marinha Portuguesa - Nove Séculos de História. Lisboa: Comissão Cultural de Marinha, 2010, p. 424. 262 Terje Vikken. In www.portugal1914.org, Disponível em http://www.portugal1914.org/portal/pt/historia/a-guerra-1914-1918/item/6923-terje-viken, consultado a 19/04/2015. 263 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Esfera dos Livros, 1994.vol. 4,p. 26. 264 Ships hit during WW1. In www.uboat.net, Disponível em http://uboat.net/wwi/ships_hit/3560.html, consultado a 19/04/2015. 265 GILBERT, Martin – A Primeira Guerra Mundial. Esfera dos Livros, 1994.vol. 4, p. 44. 266 Ships hit during WW1. In www.uboat.net,Disponível em http://www.uboat.net/wwi/ships_hit/5825.html, consultado a 19/04/2015. 267 Ships hit during WW1. In www.uboat.net, Disponível em http://www.uboat.net/wwi/ships_hit/largest.html#, consultado a 19/04/2015. 51 águas portuguesas, durante este mesmo mês. Só em dezembro de 1916, este submarino abateu, de acordo com os dados recolhidos, cerca de oito navios, o que perfaz um total de 9.805 t. A 3 de dezembro de 1916, o U-38, proveniente da base austro-húngara de Cattaro no Mediterrâneo, ataca o porto do Funchal, apanhando as autoridades locais completamente de surpresa. De acordo com o testemunho do comandante do U-38, Max Valentiner, presente na obra La Terreur des Mers: Mes Aventures en Sous-Marin 1914-1918 268 , podemos aceder à perspetiva alemã do ataque. Segundo Max Valentiner, o ataque fora premeditado por Berlim, dada a frequente permanência de navios de guerra ingleses neste porto 269 . No entanto, Valentiner não prometeu a Berlim um ataque bem-sucedido, queixando-se mesmo do curto raio de ação do U-38, e da consequente falta de combustível 270 . Vejamos como a operação se processou, com base na descrição de Valentiner. Chegou perto do Funchal na manhã de domingo do dia 3 de dezembro de 1916. Não era a primeira vez que o comandante visionava o porto funchalense e a paisagem envolvente. Relembrava-se dos tempos em que era cadete, em 1902, reconhecendo mesmo um dos fortes presentes no cimo de um dos rochedos, as encostas íngremes e a morfologia urbana da cidade 271 . Ao observar o porto, o comandante ficou dececionado com o seu alvo, dado o escasso número de embarcações da Entente. Na verdade, esperava encontrar uma numerosa esquadra inglesa, tal como Berlim tinha previsto 272 . Ao avistar algumas embarcações francesas e inglesas o U-38 avançou. O U-38 imergiu para efetuar o ataque, mas ao fazê-lo deu por si no meio de um grupo numeroso de pequenos barcos de pesca, que estavam ancorados ao largo do porto, criando o pânico e o desespero entre os pescadores 273 . O submarino esteve mesmo a dois metros destas mesmas embarcações 274 . Valentiner receou que o seu submarino ficasse preso a uma das redes de pesca ou mesmo a uma das âncoras dos barcos, sendo obrigado a utilizar o periscópio para assim manobrar e obter alguma visibilidade 275 . No meio da confusão envolvente, o comandante recorda a face de um pescador português, completamente aterrorizado ao avistar o periscópio do submarino, alertando o resto dos pescadores para que estes largassem as amarras e remassem com todas as suas forças até ao cais do porto 276 . 268 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931. 269 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931, p.105. 270 Idem, Ibidem. 271 Idem, Ibidem, p.116. 272 Idem, Ibidem. 273 Idem, Ibidem, p.117. 274 Idem, Ibidem. 275 Idem, Ibidem. 276 Com receio de ser descoberto pelo alarme dos pescadores, o submarino agiu rapidamente sobre os barcos ancorados no porto. 52 Valentiner começou por torpedear três navios ancorados no porto do Funchal, além de uma barcaça portuguesa que estava a abastecer o navio francês Surprise de carvão 277 . O porto funchalense estava desprovido de qualquer sistema defensivo fiável, mesmo de redes anti torpedo, além de que naquela manhã o tempo mostrava-se bastante enublado, segundo consta uma notícia do Comércio do Porto 278 . Estes dois fatores contribuíram de um modo decisivo para o sucesso da incursão do U-38. Os navios afundados, o Surprise 279 , o Kanguroo 280 e o Dacia 281 representam uma perda de 684.349 toneladas. Nesta ofensiva morreram entre 33 a 35 membros das tripulações estrangeiras, além de 8 portugueses que tripulavam a barcaça da empresa de abastecimento de carvão Blandy 282 . Um total de 43 mortos aproximadamente. Depois de afundar os três navios e a barcaça portuguesa, o submarino alemão retirou-se, emergindo a 7.000 metros da cidade 283 . Os portugueses retaliaram, disparando sobre o submarino com as suas peças de artilharias presente no Forte de São Tiago e no parque do Casino da Vigia. A artilharia costeira local não tinha um alcance satisfatório, além de que os navios-patrulha, com as suas peças de 47 mm, não tinham capacidade para perseguir o submarino eficazmente 284 . Valentiner afirma mesmo que a artilharia portuguesa disparava cegamente para o submarino 285 . O U-38, em retaliação, executou um bombardeamento pujante, com cerca de 50 disparos à distância de 2 milhas, que perdurou até às 11 horas da manhã 286 . Presumindo dever-se ao impactante poder de fogo do submarino em questão, os periódicos da época mencionam a presença de vários submarinos no ataque, quando na verdade fora apenas um a protagoniza-lo. Numa notícia de 5 de dezembro de 1916, presente no jornal Comércio do Porto, são mencionados três submarinos comprometidos no bombardeamento ao Funchal 287 . O suplemento periódico Ilustração Portuguesa, na sua edição do dia 11 de dezembro de 1916 declara que o submarino retirou-se passadas duas horas, após o bombardeamento 288 . Max Valentiner optou por alvos lógicos, como as baterias de artilharia instaladas no parque do Casino da Quinta da Vigia e no Forte de S. Tiago, assim como a estação de cabos submarinos 277 Madeira 1914-1918 – Marinha de Guerra. In www.momentoscomhistoria.com, Disponível em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_08_Marinha.htm, consultado a 19/04/2015. 278 O Comércio do Porto, 5 de dezembro de 1916, p.3. 279 Canhoeira francesa de 680 toneladas. 280 Porta-submarino francês. 281 Navio britânico que instalava cabos submarinos. 282 Madeira 1914-1918 – Marinha de Guerra. In www.momentoscomhistoria.com, Disponível em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_08_Marinha.htm, consultado a 19/04/2015. 283 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931, p.119. 284 CARDOSO, Rui; RAMALHO, Margarida Magalhães; MARQUES, Ricardo – A Primeira Guerra Mundial. Livro Extra sobre a Participação de Portugal. Lisboa: Esfera dos Livros, 2014, p. 77. 285 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931, p.118. 286 Madeira 1914-1918 – Marinha de Guerra. In www.momentoscomhistoria.com, Disponível em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_08_Marinha.htm, consultado a 19/04/2015. 287 O Comércio do Porto, 5 de dezembro de 1916, p.3. 288 A Ilustração Portuguesa, 11 de dezembro de 1916, p. 465. 53 inglesa 289 e os geradores de eletricidade da cidade 290 . Valentiner recorda-nos na sua obra, que um dos fortes da cidade vivenciou uma grande explosão, fazendo cair vários pedaços de rocha pelas encostas do Funchal 291 . Segundo o diário de guerra de Valentiner, o U-38 também bombardeou uma grande fábrica de carvão, além das instalações portuárias presentes no cais funchalense 292 . Valentiner queria exercer a sua vitória sobre os portugueses, pretendendo obter mantimentos. Valentiner tentou de facto negociar um cessar-fogo com os portugueses em trocas de víveres, ou seja, negociar com o inimigo não era uma exceção. Com efeito, os alemães tentaram estabelecer contacto com os portugueses, através da estação de comunicações T.S.F, presente no Funchal, não obtendo qualquer resposta 293 . Valentiner pediu mesmo ao comandante norueguês Ghottas (tripulante do submarino, desde a captura do navio Solvang) que negociasse com os portugueses dada a sua neutralidade, porém este recusou 294 . Impossibilitado de negociar ou contra-atacar, dada a sua inferioridade militar, o U-38 afastou-se do Funchal. Segundo o diário de guerra do comandante, o submarino zarpou para próximo de Vila Baleira (Porto Santo), onde ancorou nas suas proximidades 295 . Valentiner foi condecorado com distinção militar alemã Pour le Mérite 296 pelo próprio kaiser, pelo bem-sucedido ataque ao Funchal 297 . A população funchalense entrou em pânico, fugindo mesmo das suas casas, para as localidades mais interiores da ilha. Receou-se que o submarino voltasse à noite, o que não aconteceu 298 . O comércio fechou cedo e durante a noite as ruas foram patrulhadas por unidades do RI-27 e guardas cívicos 299 . Por ordem do comandante do Regimento de Infantaria 27, todas as janelas que estivessem viradas para o mar teriam de ser fechadas durante a noite, impondo também um recolher obrigatório depois das 9 horas 300 . O jornal O Comércio do Porto, numa notícia do dia 5 de dezembro, declara que os estragos materiais verificados não foram 289 TELO, António José - Homens, Doutrinas e Organização: 1824-1974. In Telo, António José, coord. - Homens, Doutrinas e Organização: 1824-1974. Lisboa: Academia de Marinha, 1999, p. 272. 290 Madeira 1914-1918 – Marinha de Guerra. In www.momentoscomhistoria.com, Disponível em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_08_Marinha.htm, consultado a 19/04/2015. 291 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931, p.119. 292 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.38“. Kommandant Kapitänleutant Valentiner – Angefangen am: 1.November 1916. Abgeschlossen am: 23. Dezember 1916, p.7. 293 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931, p.119. 294 Idem,Ibidem. 295 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.38“. Kommandant Kapitänleutant Valentiner – Angefangen am: 1.november 1916. Abgeschlossen am:23. dezember 1916, p.8. 296 A distinção militar Pour le Mérite, apesar da nomenclatura francesa, foi criada por Frederico II “o Grande” da Prússia, em 1750. Era a mais alta condecoração militar da Prússia de Frederico II, que por sua vez perdurou até à Primeira Guerra Mundial. 297 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931, p.123. 298 Idem, Ibidem, p.123. 299 Idem, Ibidem. 300 Madeira 1914-1918 – Marinha de Guerra. In www.momentoscomhistoria.com, Disponível em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_08_Marinha.htm, consultado a 19/04/2015. 54 significativos 301 , não havendo também quaisquer mortos ou feridos na cidade 302 . A mesma fonte indica que os autores do ataque abasteceram-se nas ilhas Canárias 303 . O ataque ao Funchal confirmou os temores aliados, no que toca à expansão e imprevisibilidade do raio de ação submarina no Atlântico, tal como os Almirantados da Entente receavam 304 . Portugal apresentava, logo depois do ataque alemão, um pedido de explicações a Londres, relembrando os compromissos que Lancelot Carnegie tinha apresentado. Portugal mostrou-se mesmo reivindicativo, pedindo a Londres meia dúzia de contratorpedeiros, caso não houvesse condições para a defesa das ilhas 305 . O Foreign Office asseverou que não haveria possibilidades para aceder ao pedido, no entanto seriam enviadas unidades próprias para os portos ameaçados 306 . O ataque ao Funchal levou o Governo a apressar as primeiras expedições, como forma de protesto contra a agressividade da frota germânica, que bem poderia tentar apoderar-se de uma ou mais ilhas dos nossos arquipélagos no Atlântico 307 . O ataque alemão ao Funchal apresentou-se como um momento decisivo. A incapacidade e debilidade das forças portuguesas eram bastante notórias, não havendo de todo meios para impedir a propagação dos seus ataques. O perigo da guerra submarina era de facto iminente e real, dada permeabilidade das águas portuguesas. Aqui, os submarinos alemães para além de obterem um raio de ação considerável no Atlântico, não tinham, à partida, uma força inimiga consistente e coesa. No dia seguinte, após o ataque ao Funchal, a 4 de dezembro de 1916, seria a vez do arquipélago cabo-verdiano. Tal como na Madeira, as dificuldades defensivas portuguesas voltam a dar azo à ousadia dos submarinos alemães. Em 1916 disponibilizaram-se duas canhoeiras para a defesa de Cabo Verde, ingressando-se também alguns vapores e rebocadores requisitados para a defesa do porto de São Vicente 308 . Os britânicos estavam a par das deficiências dos sistemas defensivos do porto de S. Vicente, retirando mais tarde os seus cruzadores para o porto francês de Dakar 309 . Durante uma rotineira vigilância noturna no porto de S. Vicente, em Cabo Verde, a canhoeira portuguesa NRP Ibo saiu do porto para escoltar o paquete Moçambique, que trazia tropas para a frente colonial. Após o paquete receber a ordem para atracar no porto, alguns marinheiros de vigia da canhoeira Ibo detetaram um casco de um submarino emerso, mais 301 Segundo o periódico O Comércio do Porto, cerca de 20 prédios da cidade do Funchal foram atingidos pelo bombardeamento inimigo. 302 O Comércio do Porto, 6 de dezembro de 1916, pág.3. 303 Idem, Ibidem. 304 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 1931, p. 134. 305 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. As Trincheiras. Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 62. 306 Idem, Ibidem. 307 Idem, Ibidem, p. 184. 308 TELO, António José – Primeira República I – Do Sonho à Realidade. Lisboa: Artes Gráficas, 2010, p. 419. 309 Idem, Ibidem. 55 especificamente o periscópio, a entrar na baía portuária 310 . A canhoeira Ibo foi rapidamente ao seu encontro, tentando abalroar o submarino, mas o inimigo conseguiu evitar o choque. O submarino chegou mesmo a vir à superfície outra vez, mas meia dúzia de tiros foram os suficientes para que este batesse em retirada 311 . A canhoeira Beira seguiu pouco depois, tentando alcançar o submarino inimigo 312 . O submarino alemão ao avistar as duas canhoeiras na sua direção, apesar de pequenas e mal armadas, submergiu rapidamente 313 . Provavelmente seria o submarino U-47, comandado por Heinrich Metzger, que se afundou na zona, naquela data. Segundo Saturnino Monteiro, crê-se que ambas as canhoeiras, tanto a Ibo como a Beira, patrulharam as águas adjacentes ao porto durante a noite e o dia seguinte, tentando esgotar as baterias do submarino, obrigando-o a vir à superfície para as carregar novamente 314 . No entanto, apesar dos esforços intensos das canhoeiras portuguesas, o submarino não foi localizado. Após o ataque ao Funchal, Max Valentiner não cessou a sua campanha militar em águas portuguesas. No dia 8 de dezembro, o navio britânico Britannia foi afundado pelo U-38, ao largo do cabo de Sines. O periódico Ilustração Portuguesa confirma este mesmo afundamento, asseverando que os pobres náufragos, em número de vinte e dois, chegaram extenuados a Odemira, sendo entregues ao cuidado do cônsul de Inglaterra presente em Lisboa 315 . A mesma fonte adianta que o comandante do navio ficou prisioneiro a bordo do submarino 316 , prática que já verificamos anteriormente com Ghottas, antes do ataque ao Funchal, o comandante norueguês do navio Solvang. Segundo o periódico O Comércio do Porto, morreram o maquinista e os homens que trabalhavam nas caldeiras do navio 317 . No mesmo dia, o mesmo submarino suprime o cargueiro norueguês Brask que, de 1.464 t., ao largo de Sines 318 . No dia 9 de dezembro, o lugre português Brizella é afundado pelo U-38, ao largo de Lisboa 319 . Segundo o periódico O Comércio do Porto, alguns tripulantes chegaram a Sines após o afundamento, recorrendo a duas baleeiras 320 . Apenas uma baleeira chegou efetivamente a 310 Cabo Verde 1914-1918 – Cabo Verde na Grande Guerra. In www.momentoscomhistoria.com, Disponível em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_07_Marinha.htm, consultado a 19/04/2015. 311 AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. As Trincheiras. Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 63. 312 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p. 106. 313 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1997, vol. 7, p.125. 314 Idem, Ibidem. 315 A Ilustração Portuguesa, 18 de dezembro de 1916, p. 486. 316 Idem, Ibidem. 317 O Comércio do Porto, 10 de dezembro de 1916, p.4 318 Ships hit during WW1. In www.uboat.net, Disponível em http://www.uboat.net/wwi/ships_hit/913.html, consultado a 20/04/2015. 319 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.38“. Kommandant Kapitänleutant Valentiner – Angefangen am: 1.november 1916. Abgeschlossen am:23. dezember 1916, p.9. 320 O Comércio do Porto, 12 de dezembro de 1916, p.3. 56 aparecer a Sines, sendo que os seus homens estiveram cerca de 57 horas no mar, sem qualquer tipo de socorrimento 321 . Podemos perspetivar sobre algumas práticas das tripulações dos U-boats alemães, como o aprisionamento dos comandantes dos navios naufragados ou o abastecimento em Espanha, sobretudo nas ilhas Canárias. De facto os submarinos alemães procuravam sustentar as suas ações no mar, procurando alguns apoios logísticos ao longo da costa, recorrendo mesmo a estratégias pouco ortodoxas. Valentiner, após o ataque ao Funchal, serviu-se da neutralidade de um comandante norueguês capturado, para que este negociasse o abastecimento do seu submarino com os portugueses. As longas estadias em alto-mar faziam com que os comandantes submarinos alemães engenhassem várias estratégias de abastecimento e coordenação de operações, dado que estes não possuíam pontos de apoio ao largo da frente marítima portuguesa. 321 O Comércio do Porto, 12 de dezembro de 1916, p.3. 57 2.2. 1917 - O ano crítico. Portugal e o auge da guerra submarina O ano de 1917 demonstrar-se-ia bem mais penoso para as embarcações que circulavam pelas águas nacionais, comparativamente ao ano anterior. Em 1917, a tonelagem descarregada nos portos portugueses representou cerca de 20 % da de 1913 322 . A guerra submarina intensificou assim a escassez de todo o tipo de bens, fossem estes de primeira ou de segunda necessidade. Portugal importava, em 1916, cerca de 182.000 toneladas de trigo (representando metade do seu consumo) e só teve, em 1917, acesso a 55.000 toneladas deste género alimentar 323 . A anemia mercantil era sentida em todo o país. A guerra submarina sufocava os circuitos de subsistência das nações banhadas pelo Atlântico. Portugal não era certamente uma exceção. Foram, segundo Rui Ramos, os piores anos (1914-1918) para viver em Portugal do século XX 324 . Vejamos mais uma vez o contributo da guerra submarina, dados os seus impactes. Logo nos primeiros dias de janeiro de 1917, os alemães lançavam-se às águas portuguesas. Provenientes do golfo da Biscaia, o UC-37, de Otto Lanburg 325 , e o U-79 de Heinrich Jeß 326 , entre 1 e 4 de janeiro, os dois submarinos afundaram cerca de 13 embarcações ao largo da costa portuguesa, representando uma perda de 24.741 toneladas aproximadamente. Segundo o periódico O Comércio do Porto as tripulações dos cargueiros gregos Aristotelis C. Ioannou e Dimitrios Goulandris, afundados no dia 2 de janeiro de 1917, próximo do Cabo da Roca, desembarcaram no Arsenal da Marinha em Lisboa 327 . Segundo o mesmo periódico, os tripulantes foram socorridos por três-navios patrulha portugueses, entregando-os à responsabilidade do cônsul grego, que os reencaminhou para várias unidades hoteleiras de Lisboa 328 . A 17 de março de 1917 os alemães lançaram um ataque sem precedentes em águas portuguesas, contra 4 caíques de pesca algarvios que navegavam perto do Cabo da Roca: o Restaurador, o Primeira Flor d’Abril, o Santa Rita Segunda, e o Senhora do Rosário. Segundo o periódico O Comércio do Porto foram dois submarinos que efetuaram o ataque, atacando um do norte e outro do sul, cercando assim os quatro caíques de pesca 329 . Aglutinando todas as tripulações dos quatro caíques, a totalidade dos náufragos atingia os 100 homens, que por sua 322 RAMOS, Rui; MONTEIRO, Nuno Gonçalo; SOUSA, Bernardo Vasconcelos e – História de Portugal. A República durante e depois da Guerra (1917-1926). Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009, vol. 8, p.33. 323 Idem, Ibidem. 324 Idem, Ibidem, p.34. 325 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.C.37“.Kommandant Oberleutnant z.See Launberg – Angefangen am: 25.dezember.1916. Abgeschlossen am:12.januar 1917, p.23. 326 DUMA/C-A - Kriegstagebuch - S.M.U-Boot „U.79.“. Kommandant: Kapitänleutnant Jeß - Angefangen am: 21. dezember.1916.Abgeschlossen am:28. januar 1917, p. 10. 327 O Comércio do Porto, 4 de janeiro de 1917, p.3. 328 Idem, Ibidem. 329 O Comércio do Porto, 20 de março de 1917, p.4. 64 2.3. – 1918. O longo percurso para a paz Apesar de dramático, o ano de 1918 viria a assistir a um abrandamento da intensidade e insistência das forças alemãs, quando comparadas com o ano anterior. A guerra submarina alemã continuava com a sua política de corso nas águas portuguesas. Fazia-se sentir a eficácia do sistema de comboios, criada pelos Aliados, reduzindo assim o número de baixas em alto mar. A escolta dos navios mercantis portugueses verificou-se a partir de abril de 1916, que segundo António José Telo eram comboiados de forma esporádica e não sistemática, dando sempre prioridade aos navios de grande porte 374 . Em boa regra, o sistema de comboios português envolveria apenas um navio acompanhado por uma escolta. Segundo o mesmo autor, receberam comboio em toda a guerra 129 navios: 10 em 1916, 62 em 1917 e 57 em 1918 375 . Apesar de o ano de 1918 apresentar um número significativo de naufrágios, este não apresenta ataques alemães a cidades ou bases militares portuguesas no Atlântico. A 23 de março de 1918, o draga-minas Augusto de Castilho, comandado pelo 1º Tenente Augusto de Almeida Teixeira, escoltava o navio de transporte Loanda proveniente de Lisboa em direção ao Funchal, abrindo fogo a cerca de 500 metros sobre um submarino inimigo, que mergulhou prontamente. Romperam fogo as duas peças do Augusto de Castilho, que guinou sobre o inimigo, mergulhando este logo que viu os projéteis caírem de perto, sem que se efetivasse qualquer ataque ao Loanda 376 . No dia 24 de julho, a canhoeira portuguesa Limpopo, comandada pelo capitão-tenente Procópio de Freitas, patrulhava a barra de Lisboa, rumo ao cabo Espichel. A 4 milhas do Cabo da Roca, deparou-se com os periscópios de um submarino a cerca de 1 milha, disparando sete tiros 377 . O submarino desapareceu pouco depois, após uma segunda emersão. Este submarino nunca foi identificado. No mês seguinte, a 1 de Setembro, segundo o testemunho do comandante do cruzador auxiliar Pedro Nunes, presume-se que tenha havido uma tentativa de um ataque submarino, a 110 milhas a noroeste da ilha da Madeira. Valeu a vigilância do próprio oficial de quarto, o malogrado tenente Adelino de Oliveira, que permitiu o afastamento do submarino através de disparos do próprio cruzador 378 . 374 ANICETO, Afonso; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. As Trincheiras. Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 65. 375 Idem, Ibidem. 376 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, P.108. 377 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1997, vol. 7, p.135. 378 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p. 110. 65 Passados quatros dias, o rebocador português Bérrio, aquando da vigilância entre a praia do Guincho e o Cabo Raso (Cascais), detetou vários tiros de canhão, de um submarino. O som provinha do Sul, e o Bérrio navegou em direção à barra lisboeta, avistando, por binóculo, um submarino que navegava para noroeste 379 . O navio português ainda tentou abalroar o submarino, mas este desapareceu imergindo nas águas. O rebocador avistou o iate Prateado, que já se encontrava desmantelado pelo submarino, a 9 milhas a norte-noroeste do Cabo Espichel 380 . A mesma embarcação ainda achou o rebocador Vila Franca, também desmantelado. O Bérrio recolheu os náufragos dos dois barcos atacados e rebocou o Prateado para Lisboa 381 . A 14 de outubro de 1918, ocorre provavelmente o caso mais mediático, no que toca à atividade marítima alemã em águas portuguesas. Trata-se do célebre afundamento do caçaminas Augusto de Castilho, comandado pelo primeiro-tenente Carvalho de Araújo, que, segundo Joaquim Veríssimo Serrão, foi um acontecimento que envolveu um frémito de patriotismo 382 . A edição semanal, A Ilustração Portuguesa, do dia 28 de outubro de 1918, demonstra isso mesmo: [...] Os boches n’um último arranco de cobardia, quando pediam a Wilson a paz, ainda faziam as suas costumadas arremetidas de submarinos. Escolheram a sua vítima o vapor S. Miguel, que navegava entre a ilha da Madeira e a ilha de S. Miguel, e que escapou ao ataque dos piratas pela proteção que lhe prestou o caça-minas Augusto de Castilho, que foi metido a pique depois de um formidável combate em que os nossos marinheiros praticaram verdadeiros heroísmos, tendo desaparecido trinta dos seus tripulantes, entre os quais o seu valente comandante [...] 383 . Pensamos que este é provavelmente o ataque alemão em águas portuguesas que está melhor documentado, sendo o episódio mais mencionado pela historiografia nacional. O Augusto de Castilho foi o navio da armada portuguesa que mais encontros teve com submarinos inimigos, ao longo do seu período de atividade, que comportou 20 meses, e 22 missões 384 . O acontecimento foi também filmado pela tripulação alemã do U – 139, e está atualmente disponível online na Cinemateca Portuguesa 385 . Este episódio está também presente no mundo 379 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p. 112. 380 Idem, Ibidem. 381 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1997, vol. 7, p.138. 382 SERRÃO, Joaquim Veríssimo – História de Portugal (1910-1926). Lisboa: Editorial Verbo, 1989, p. 215. 383 A Ilustração Portuguesa, 28 de outubro de 1918, p. 347. 384 PEREIRA, José António Rodrigues – Grandes Batalhas Navais Portuguesas. Lisboa: Esfera dos Livros, 2013, p. 314. 385 Cinemateca Digital – Vídeo – Afundamento do Augusto de Castilho. In www.cinemateca.pt, Disponível em http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=2261&type=Video, consultado a 21/04/2015. 66 artístico, como é visível no quadro O Combate do Augusto de Castilho, de Elisa Felismino, presente atualmente no Museu da Marinha, em Lisboa. António José Telo sintetiza o evento: “o Augusto de Castilho resistiu heroicamente ao submarino, com o sacrifício do seu comandante e de parte da tripulação, o que permitiu a fuga do paquete S. Miguel” 386 . Vejamos como ocorreu o ataque. Faltavam poucos dias para a assinatura do Armistício, e o NRP Augusto de Castilho, comandado pelo primeiro-tenente José Botelho de Carvalho Araújo, escoltava o paquete S. Miguel em direção ao porto de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. No paquete seguiam 206 passageiros civis e no NRP Augusto de Castilho 6, entre os quais alguns militares, um operário e três rapazes madeirenses que procuravam trabalho nos Açores 387 . O Augusto de Castilho viria a enfrentar um submarino comandado por Lothar von Arnauld de la Pière, que foi, muito provavelmente, o comandante de submarinos mais bem-sucedido de toda a Grande Guerra, e de toda a História, recorde que ainda detém 388 . Foi sobretudo uma luta bastante desigual. O armamento dos dois navios era muito diferente, com uma evidente superioridade para o submarino, que, com peças de 155 mm, se podia manter fora do alcance das modestas 47 mm do caça-minas (era uma mera traineira transformada) e disparar longe 389 , o que significa que o U-boat podia disparar fora do alcance da traineira portuguesa 390 . Na noite de 13 para 14 de outubro de 1918, o U-139 de Lothar von Arnauld encontravase na linha de comunicação Açores-Madeira, quando, pela manhã, deparou-se com o vapor S. Miguel e a traineira Augusto de Castilho 391 . Após os marinheiros da traineira portuguesa avistarem o submarino inimigo, o Augusto de Castilho tudo fez para salvar o paquete S. Miguel. No entanto a traineira portuguesa impediu o poderoso U-139 de destruir o paquete S. Miguel, num ato de imensa determinação e heroísmo, como o capitão-tenente Kurt von Pistor confirmou 392 . Com um tiro de canhão disparado numa posição à popa do caça-minas, o U – 139 abriu o combate. O caça-minas português abriu fogo, respondendo ao poderio alemão, mas no entanto o seu canhão de curto alcance não fazia milagres. O NRP Augusto de Castilho ainda tentou criar uma nuvem de fumo para permitir a fuga do paquete S. Miguel, mas esgotadas as caixas com 386 AFONSO, Aniceto – 7 Grandes Batalhas da História de Portugal. 1914-1918. Grande Guerra. Vila do Conde: Academia Portuguesa da História, 2007, vol. 7, p. 86. 387 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora,2007, vol. 7, p.142. 388 WWI U-boat commanders – Lothar von Arnauld de la Perière. In www.uboat.net, Disponível em http://www.uboat.net/wwi/men/commanders/10.html, consultado a 22/04/2015. 389 ANICETO, Afonso; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1915 – 1917. As Trincheiras. Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 66. 390 Idem, Ibidem, p. 86. 391 CUTILEIRO, Alberto – O combate do caça-minas “Augusto de Castilho” com o submarino Alemão “U.139” visto através do relatório do 1º oficial encarregado de artilharia, capitão-tenente Kurt von Pistor. Lisboa: Centro de Estudos de Marinha, 1976, p.9. 392 Idem, Ibidem, p.12. 67 munições de fumo o paquete esteve novamente descoberto 393 . No entanto, com esta ação, o S. Miguel conseguiu escapar em direção a Ponta Delgada. O submarino alemão tentou a todo o custo alvejar sempre o paquete São Miguel, o que fez com que o comandante Carvalho Araújo direcionasse o seu navio em direção ao submersível, tentando alcançá-lo com a sua reduzida capacidade de tiro, para assim o abalroar. Ao aproximar-se da canhoeira portuguesa, após obterem uma melhor visibilidade, os alemães lançaram várias granadas que provocaram enormes chuvas de estilhaços sobre os marinheiros portugueses 394 . Quando o comandante Carvalho Araújo verificou que o S. Miguel já se encontrava suficientemente longe, junto à linha do horizonte, e porque se encontrava sem mais munições, ordenou que parassem as máquinas e hasteassem a bandeira nacional 395 . Pouco depois, o comandante é atingido, mortalmente, por um tiro certeiro do submarino e os marinheiros lançam-se ao mar com os seus salva-vidas, agarrando-se aos destroços que boiavam. Quando, ainda, se estava a lançar o segundo salva-vidas ao mar, rebenta perto do navio uma outra granada e é então que se percebe que os alemães continuavam a disparar por causa da bandeira nacional estar içada 396 . Foi aí que se arriou a bandeira nacional e se estendeu uma bandeira branca, cessando assim o bombardeamento alemão 397 . Os alemães chegaram ao ponto de deixar os portugueses voltar ao NRP Augusto de Castilho, para que recolhessem algumas coisas e retirassem um bote que colocaram na água 398 . Após este processo, os alemães deixaram os portugueses partirem para um porto seguro. Foi definitivamente outra aventura para os sobreviventes do Augusto de Castilho, pois a viagem fora de 200 milhas. Os náufragos portugueses seguiram em duas embarcações para os Açores, chegando a baleeira a Santa Maria a 18 de outubro, e o bote a Ponta do Arnel, na ilha de São Miguel, a 20 de outubro 399 . Os 12 marinheiros avistaram terra 5 dias depois do combate, às 11 horas do dia 19 de outubro de 1918, mas só chegaram a terra às 21 horas, seguindo sempre a luz de um farol 400 . Terminou assim o último confronto naval entre as forças portuguesas e as alemãs. 393 MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. Volume VII-1808-1975. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1997, vol. 7, p.143. 394 Ibidem. 395 Açores 1914-1918 – Açores na Grande Guerra. In www.momentosdehistoria.com, Disponível em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_09_Marinha.htm, consultado a 22/04/2015. 396 Ibidem. 397 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p. 102. 398 Açores 1914-1918 – Açores na Grande Guerra. In www.momentosdehistoria.com, Disponível em http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_09_Marinha.htm, consultado a 22/04/2015. 399 PEREIRA, José António Rodrigues – Grandes Batalhas Navais Portuguesas. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009, p. 314. 400 Idem, Ibidem. 68 O Armistício seria assinado a 11 de novembro de 1918. Não podemos deixar de salientar o facto de que o próprio tenente Carvalho de Araújo já ter sido avisado anteriormente pelo comandante do navio Celestino Soares, Monteiro de Barros. Este preveniu-o, asseverando que as rotas em direção a Ponta Delgada não eram seguras, devido à atividade submarina. O próprio Monteiro de Barros vivenciou a sua própria novela submarina, quando 9 dias antes, a 6 de outubro de 1918, durante a escolta do paquete S. Miguel, se sentiu perseguido por um submarino 401 . 401 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p. 112. 69 2.4 Números e reflexões Pesquisar e refletir sobre a atividade submarina alemã nas águas nacionais entre 1916 e 1918, é uma componente preponderante no desenvolvimento desta investigação, apertando o foco para a realidade socioeconómica portuguesa, sobretudo das comunidades costeiras, consequentes da guerra submarina. Através dos dados recolhidos e aqui expostos, podemos depreender algumas consequências da guerra submarina, considerando e interpretando estes números apenas como aproximações. Vejamos o evoluir da guerra submarina durante este período de três anos, culminando numa leitura geral que aporta as especificidades de cada ano analisado, compreendendo que cada ano apresenta dinâmicas diferentes que devemos focar. Ao fatiarmos analiticamente a baliza cronológica analisada, podemos ter acesso a uma leitura muito mais profunda dos dados recolhidos, compreendendo também o raio de ação submarina. 2.4.1 – 1916 O ano de 1916 saldou-se por uma perda significativa de navios, quer pertencentes aos Aliados quer pertencentes aos países neutrais. Uma súmula dos dados obtidos é apresentada na Tabela 1. A partir dela e da Fig. 1, podemos apontar para um total de 18 embarcações afundadas nas águas portuguesas. Os italianos, os britânicos e os noruegueses terão sido os mais prejudicados. Os britânicos e os italianos perderam 4 navios respetivamente, já os noruegueses perderam três, segundo a Fig.2. Assumindo estas meras aproximações, baseadas na análise e comparação dos dados recolhidos, presume-se que os naufrágios provocados pelos submarinos alemães terão alcançado as 49.730 toneladas, entre 9 de março (declaração de guerra alemã a Portugal) até aos finais de dezembro de 1916. Assumindo uma margem de erro, crendo que possam ter ocrrido mais naufrágios que não conseguimos identificar, acreditamos que cerca de 10 % do total dos navios afundados durante toda a guerra, na costa portuguesa, foram-no em 1916. As fontes bibliográficas e documentais variam bastante no que toca à real tonelagem dos navios afundados, o que dificulta uma aproximação absoluta e indiscutível. A tonelagem registada nas fontes alemãs, por vezes, não corrobora a tonelagem presente nas fontes portuguesas. Porém, é razoável assumir que esse número seja ligeiramente maior. Não sabemos ao certo a tonelagem da barcaça portuguesa da empresa carvoeira Blandy, nem a tonelagem do navio italiano Cenan 402 , não contando para o número assumido acima, por exemplo. Alguns naufrágios não estão devidamente catalogados, e não tivemos acesso a todos os diários de 402 O navio italiano Cenan surge referenciado numa notícia do periódico O Comércio do Porto do dia 31 de outubro de 1916, para além de um veleiro da mesma nacionalidade. Segundo notícia, crê-se que o navio terá sido afundado no mesmo dia que o cargueiro norueguês Torsdal, no dia 28 de outubro, como podemos confirmar através da informação veiculada pela base de dados em www.uboat.net. 70 guerra dos submarinos que passaram por águas portuguesas em 1916, assim como nos anos de 1917 e 1918, o que não permite uma análise mais profunda. Tabela 1 - Súmula de resultados da atividade submarina ao largo da costa portuguesa, no ano de 1916, a partir da tabela 1, 2 e 3, no Apêndice 2 403 . Ano Número de naufrágios Número de navios danificados Número de submarinos responsáveis Tonelagem estimada404, afundada Número estimado de mortos405 1916 18 1 6 49.730 693 403 Para a realização das tabelas e dos gráficos gizados no subcapítulo Números e Reflexões consultámos essencialmente os dados proporcionados pelos sites uboat.net e wrecksite,eu, assim como os diários de guerra fornecidos pelos Deutches Museum Archive. 404 Para a contabilização dos navios afundados no ano de 1916, excluímos a tonelagem da barcaça Blandy e do cargueiro italiano Cenan, dada a indefinição da sua real tonelagem. Os navios Surprise (tonelagem varia entre 646 e 680 toneladas), Brizella (tonelagem medeia entre 282 e 330 toneladas) e Esemplare (tonelagem medeia entre 2.595 e 2.632 toneladas) apresentam tonelagens indefinidas apesar de incluídos na soma final, pelo que optamos por calcular a média da tonelagem destes navios. 405 Desconhecemos o real número de mortos aquando o naufrágio do navio inglês Britannia. No entanto assumimos como provável que tenham morrido dois marinheiros. A maioria das fontes analisadas aponta para apenas duas mortes, pelo que assumimos, nesta contagem este mesmo número. 47% 12% 17% 6% 6% 6% 6% U-38 - 8 naufrágios U-63 - 2 naufrágios U-32 - 3 naufrágios U-52 - 1 naufrágios U-73 - 1 naufrágio UC-34 - 1 naufrágio Naufrágios cujo submarino atacante não foi identificado - 1 naufrágio Nº de Naufrágios - 18 71 Fig. 1 – Número de naufrágios provocados por submarinos alemães e respetiva responsabilidade, em 1916. Fig. 2 - Nacionalidade dos naufrágios provocados por submarinos. A entrada de Portugal na guerra afirma a confluência entre a atividade submarina presente no Mediterrâneo e a as ações marítimas no Golfo da Biscaia e no Mar do Norte. Imperiosamente, a costa atlântica portuguesa serviria de ponto de passagem para os submarinos alemães estabelecerem um elo de ligação entre os demais campos da frente marítima. O eixo Golfo da Biscaia – Atlântico – Mediterrâneo, e vice-versa, é uma constante nos trajetos dos submarinos alemães durante a baliza cronológica considerada. A expansão da atividade submarina alemã no Mediterrâneo, já verificada em meados de 1915, é visível logo após a entrada de Portugal na Grande Guerra. A atividade submarina alemã em águas portuguesas, em 1916, confirma uma maior incidência às portas do estreito de Gibraltar, um filtro geográfico que atraiu os submarinos alemães. Cerca de 8 dos 18 naufrágios totalizados em 1916, na costa portuguesa, foram afundados nas proximidades da costa algarvia (Fig. 3). Destacamos também o ataque de Max Valentiner a 3 de dezembro de 1916, que segundo R.H. Gibson e Maurice Prendergast confirmou as pretensões atlânticas alemãs; diminuir o desempenho logístico dos Aliados nas suas bases Atlânticas 406 . Corroborando com ambos os autores, há que salientar que o ataque à Madeira de Max Valentiner fora premeditado por Berlim 407 , o que por si só revela a importância estratégica da costa e dos arquipélagos portugueses. Concluindo, 1916 apresenta as tendências estratégicas alemãs, que são 406 GIBSON, R.H; PRENDERGAST, Maurice – The German Submarine War (1914-1918). London: Naval Institute Press, 2003, p. 134. 407 VALENTINER, Max – La Terreur des Mers: Mês Aventures en Sous-Marin 1914-1918. Paris: Payot, 1931, p.105. 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 72 posteriormente visíveis no ano seguinte: a expansão da área de intervenção submarina tanto para o Atlântico, como para o Mediterrâneo. Fig. 3- Localização dos naufrágios provocados em 1916. 2.4.2 – 1917 Segundo os dados recolhidos, cuja súmula se apresenta na Tabela 2, cremos que cerca de 104 408 navios foram afundados por submarinos neste ano, num total de 176 navios afundados, ao longo da costa portuguesa em todo o período do conflito. 1917, é sem dúvida, o ano com mais naufrágios verificados, representando aproximadamente cerca de 60 % do total dos naufrágios afundados na costa portuguesa, no período que medeia entre 1916 e 1918. Segundo o que conseguimos apurar, cerca de 1.467.161 toneladas, aproximadamente, foram afundadas ao largo da costa portuguesa neste ano. Apesar de assumirmos este número, consideramos que este valor possa ser significativamente maior, dado que a tonelagem de alguns naufrágios inventariados não se apresenta clara, como verificamos na Tabela 2. 408 Alguns destes naufrágios que nesta dissertação estão georreferenciados apresentam-se algo afastados da costa portuguesa, como é o caso dos seguintes naufrágios: Barbara, Calliope, Hilda R., Platuria, Lapa, Frances M., Arendal, Ardglamis, Reim. O propósito da sua georreferenciação prende-se com a compreensão dos fluxos marítimos da época, e com a análise das rotas submarinas nas imediações das ilhas atlânticas portuguesas. 0123456789 Largo da costa algarvia Largo de Lisboa Largo da costa alentejana Largo da Madeira 73 Tabela 2- Súmula de resultados da atividadee submarina ao largo da costa portuguesa, no ano de 1917, a partir da tabela 1, 2 e 3, no Apêndice 2. Ano Número de naufrágios Número de navios danificados Número de submarinos responsáveis Tonelagem, fundada Número, de mortos 1917 104 3 21 1.467.161409 79410 O ano em questão é aquele em que se assiste a um maior tráfego de submarinos alemães, considerando que 21 destes causaram naufrágios em águas lusas. É-nos impossível aproximar de um valor seguro, no que toca à contagem dos submarinos alemães que cruzaram as águas nacionais, dado que não tivemos acesso a todos os diários de guerra dos U-boats alemães (Fig. 4). Fig. 4 - Número de naufrágios provocados por submarinos alemães e respetiva responsabilidade, em 1917 e ao largo da costa portuguesa 411 . 409 Desconhece-se a real tonelagem de alguns navios afundados na costa portuguesa, como é o caso dos seguintes navios: Makololo, Serra do Marão, Serra do Pilar, Serra do Marco, Santa Marta, São José, além de dois navios de pesca que desconhecemos o seu nome. Os navios Ares, Restaurador, Santa Rita Segunda, Senhora do Rosário e Três Macs apresentam uma tonelagem variável de acordo com as fontes analisadas. Para contabilizarmos a sua tonelagem calculámos a média do seu peso, com os limites verificados nas fontes consultadas. U-155 - 16 naufrágios U-151 - 10 naufrágios UC-37 - 9 naufrágios U-63 - 6 naufrágios U-35 - 5 naufrágios Outros U-boats 80 contendo cada uma 900 ovos. Está correndo o processo na alfândega” 423 . A 1 de maio de 1917, os periódicos O Século e Diário de Notícias noticiam a circunstância em questão, apresentando dados novos e levantam questões sobre o incidente ocorrido com a guarda-fiscal da vila de Esposende. Segundo O Século, cerca de nove mil ovos, provenientes de Barcelos e que se destinavam a fornecer submarinos alemães que se encontravam em águas portuguesas, foram apreendidos na praia de Esposende 424 . A mesma fonte indica que foram apreendidas 10 caixas nesta incursão da guarda-fiscal, graças à vigilância do 1º cabo da guarda-fiscal, António de Carvalho Almeida, que contou também com o auxílio popular 425 . O Século, na mesma notícia, adianta que as referidas caixas eram conduzidas por lanchas, que durante a noite exerciam o contrabando, contando com a colaboração de intermediários espanhóis. Por fim, estes passavam os produtos contrabandeados aos submarinos alemães presentes na costa nacional 426 . Segundo a mesma fonte periódica, cada elemento desta operação receberia 600 escudos por cada embarque 427 . A guarda-fiscal esposendense conseguiu prender os carreteiros que conduziam regularmente os ovos para a praia de Esposende, no entanto a lancha e os tripulantes conseguiram fugir, desconhecendo-se qual o seu efetivo destino 428 . O periódico Diário de Notícias noticia a mesma circunstância 429 , no mesmo dia, não acrescentando pontos de relevância maior, dada a frescura da própria notícia, como a própria fonte indica 430 . No mesmo dia, o periódico Primeiro de Janeiro noticia o mesmo caso, intitulando a notícia do seguinte modo: “Contrabando para Espanha ou fornecimento para os submarinos?” 431 O Primeiro de Janeiro apresenta alguns dados novos à contenda verificada pela guarda-fiscal esposendense. Segundo a mesma fonte, o 1º cabo da guarda-fiscal, António Carvalho d’Almeida, andava já há algum tempo desconfiado com a atividade noturna de uma lancha proveniente de Vila Praia de Âncora. Aparentemente, António d’Almeida não interrompeu a atividade de contrabando mais cedo, porque, segundo a mesma fonte, a praia de Esposende continha numerosos espiões que salvaguardavam a atividade ilícita 432 . De acordo com a mesma notícia, na noite da apreensão, os espiões conseguiram avisar os contrabandistas, no entanto o carreteiro que fugia a caminho de um pinhal foi capturado 433 . O Primeiro de Janeiro, ao constatar os contornos do formato da caixa e os acondicionamentos da mercadora, 423 O Espozendense, 26 de abril de 1917, p.2. 424 O Século, 1 de maio de 1917, p.2. 425 Ibidem. 426 Ibidem. 427 Ibidem. 428 O Século, 1 de maio de 1917, p.2. 429 É bastante provável que ambos os periódicos tenham trocado informações, dado que, textualmente, a notícia do Diário de Notícias apresenta-se praticamente igual à do periódico O Século. 430 Diário de Notícias, 1 de Maio de 1917, p.2. 431 O Primeiro de Janeiro, 1 de maio de 1917, p.2. 432 Ibidem. 433 Ibidem. 81 presume que a mercadoria se destinava a abastecer submarinos inimigos 434 . Os editores questionam-se sobre o verdadeiro destino da mercadoria; se se destinava a Espanha num mero caso de contrabando, ou se, efetivamente, se destinava a submarinos alemães. A 3 de maio de 1917, as mesmas fontes periódicas apresentam avanços, assim como outros jornais regionais e locais. O jornal O Século apresenta a seguinte notícia com o respetivo título: Em Esposende. O caso dos 9.000 ovos – Persiste a suspeita de que eram para os submarinos alemães 435 . Apesar de O Século não acrescentar dados significativos aos já verificados no dia 1 de maio, podemos aceder a alguns pormenores importantes. Segundo a fonte periódica, supunha-se um simples contrabando, pois repugnava a descoberta de uma rede de contrabando que sustentasse submarinos alemães 436 . Em segundo lugar, os ovos foram transportados de Barcelos para Esposende em 10 caixotes, conduzidos por António Rodrigues Santa Marinha 437 pelo correio da vila barcelense, utilizando uma guia da autoridade administrativa local. Outros suspeitos são apresentados, como o carreiro António Salgueiro, de Apúlia, um indivíduo conhecido como Narciso, de Barcelos, António João Fernandes dos Reis, de Caminha e um cidadão de Vila Praia de Âncora 438 . Segundo a mesma fonte, os suspeitos disponibilizaram-se a pagar a multa de mil escudos aplicada na alfândega, onde os ovos apreendidos estavam depositados. Concluindo, tudo faria supor que os ovos se destinavam ao fornecimento de submarinos, dado que houve várias ocorrências nas imediações de Esposende. O Século expõe alguns argumentos, como a boas condições de desembarque das praias da localidade e a falta de vigilância nas zonas costeiras, por falta de praças da guarda-fiscal 439 . O Primeiro de Janeiro, no mesmo dia de 3 de maio de 1917, afirma que a sua notícia do dia anterior 440 , causou um grande impacto na opinião pública barcelense, por o remetente ser de Barcelos. O Primeiro de Janeiro relata que o remetente barcelense é natural da freguesia de Alheira (concelho de Barcelos), que morava e detinha um estabelecimento em Vila Praia de Âncora, aquando a apreensão dos ovos 441 . A mesma fonte assegura que o contrabando não seria apenas de ovos, mas também de todos os géneros alimentícios, inclusive gasolina 442 . O remetente barcelense, segundo este mesmo jornal, detinha variados negócios com um negociante esposendense, que após receber a mercadoria, exportava em ocasiões próprias. 443 434 O Primeiro de Janeiro, 1 de maio de 1917, p.2. 435 O Século, 3 de maio de 1917, p.1. 436 Ibidem. 437 Numa fase inicial, António Rodrigues Santa Marinha apresentou-se como inocente neste caso. 438 O Século, 3 de Maio de 1917, p.1. 439 Ibidem. 440 O Primeiro de Janeiro, 2 de maio de 1917, p.2. 441 Ibidem. 442 Ibidem. 443 Ibidem. 82 Partindo para um contexto local, o periódico O Espozendense apresenta argumentos que põe em causa a veracidade das notícias circulantes, neste caso do Diário de Notícias, sobre o caso dos ovos apreendidos. O periódico esposendense duvida sobre o fornecimento de bens alimentares aos submarinos alemães, achando mesmo tardia a apreensão 444 . Os argumentos do periódico prendem-se com a difícil navegabilidade das águas adjacentes aos cavalos de Fão 445 , com a ausência de um farol, e com negligência dos guardas-fiscais. Quando à cumplicidade de possíveis intermediários espanhóis, o Espozendense alega que se trataria de mais um caso de fornecimento clandestino a barcos espanhóis, que pescavam nestas águas com a devida autorização 446 . O pormenor que se segue tem sentido acompanhar. No dia 5 de maio de 1917, o governador civil de Braga, Eduardo Cruz, visita Esposende para averiguar o caso, após regressar de Lisboa como confirma uma notícia de O Comércio do Porto 447 , assim como os periódicos Primeiro de Janeiro 448 , Gazeta de Braga 449 , O Espozendense 450 e O Comércio do Minho 451 . Segundo O Comércio do Porto, o governador civil de Braga, a fim de averiguar o caso de abastecimento de submarinos em Esposende, visitou a localidade em questão 452 . A mesma fonte periódica, no mesmo dia da notícia acima, apresenta dados novos à contenda, que aparentemente outros periódicos não expuseram. De acordo com O Comércio do Porto, a guarda-fiscal local aguardava já um novo incidente deste género, fosse por terra ou por mar, pedindo auxílio ao secretário da administração para um maior reforço da vigilância. As forças da guarda e o próprio secretário da administração dirigiram-se para a estrada que liga Fão à freguesia de Apúlia, onde estes esperariam pela vinda da mercadoria contrabandeada 453 . Os cálculos da guarda-fiscal foram fortuitos, dada a apreensão de um carreteiro que transportava 10 caixas de ovos num carro de bois, pelas 7 horas da tarde 454 . Segundo a mesma fonte, a detenção foi motivada pela circulação ilegal do carreteiro, dado que a sua guia caducara no dia 19 de abril de 1917. O periódico O Comércio do Porto apresenta ainda mais dados surpreendentes, que transcendem a simples apreensão do carreteiro. O carro de bois pertencia a António Alves Salgueiro, proveniente de Apúlia, que alegou ter sido convidado por um proprietário de 444 O Espozendense, 3 de maio de 1917, p.2. 445 Os rochedos conhecidos como “Cavalos de Fão” localizam-se defronte da restinga a sul da foz do rio Cávado, nas imediações costeiras da localidade de Fão. 446 O Espozendense, 3 de maio de 1917, p.2. 447 O Comércio do Porto, 4 de maio de 1917, p.1. 448 O Primeiro de Janeiro, 5 de maio de 1917, p.1. 449 Gazeta de Braga, 13 de maio de 1917, p.3. 450 O Espozendense, 10 de maio de 1917, p2. 451 O Comércio do Minho, 8 de maio de 1917, p.2. 452 O Comércio do Porto, 5 de maio de 1917, p.1. 453 Ibidem. 454 Ibidem. 83 Seixas 455 , João Fernandes dos Reis, e por Manuel Portela Barreiro, de Vila Praia de Âncora 456 . António Salgueiro acrescenta que as caixas se encontravam em casa de António José Dias Júnior, da freguesia de Gandra, concelho de Esposende. Salgueiro justificou por sua vez a sua condução ilegal, dado que João Fernandes dos Reis e Manuel Portela Barreiro apresentaram-lhe uma guia de trânsito validada pelo administrador de Barcelos 457 . O carreteiro confirmou ter feito mais de que uma incursão deste tipo em direção à casa de António Dias Júnior, entregando 11 caixas nas mesmas condições anteriormente. O Comércio do Porto declara que foi provado que os ovos seguiriam para Espanha, faltando comprovar se efetivamente os ovos seriam conduzidos de barco até à praia de Fão 458 . Os implicados neste caso foram condenados a uma multa de 1.000 $ 000 réis 459 . No entanto, O Comércio do Porto nada notificou sobre o abastecimento de submarinos alemães. No dia 6 de maio de 1917, o Primeiro de Janeiro publicou novas atualizações, de acordo com as informações recolhidas pelo governador civil de Braga, Eduardo Cerqueira Cruz, aquando a sua visita a Esposende. Segundo este periódico, o próprio governador civil inquiriu o facto de serem abastecidos submarinos alemães, e concluiu, de acordo com as informações recolhidas, que de facto este abastecimento era efetivamente exercido numa extensa faixa do litoral, entre Apúlia e S. Bartolomeu do Mar 460 . Eduardo Cruz concluiu igualmente que este abastecimento era praticado sobretudo à noite, quando a vigilância e a visibilidade eram menores. Eduardo Cruz alerta para a frequência deste tipo de incidentes, dado que este caso não se apresenta como um caso isolado na região 461 . Os agentes implicados neste caso de contrabando conseguiam efetivar os seus objetivos muito devido à carência de efetivos da guarda-fiscal local, que não era solicitada para vigiar estas zonas costeiras à noite 462 . A mesma notícia assegura que o governador civil de Braga comunicou o caso ao Ministro do Interior, propondo várias providências 463 . Os periódicos Gazeta de Braga 464 , o Comércio do Minho 465 confirmam, sem grandes avanços ao compararmos com O Século, as mesmas conclusões do governador civil de Braga. O periódico local O Espozendense noticia igualmente a visita do governador Eduardo Cerqueira Cruz, transcrevendo precisamente a notícia do periódico Primeiro de Janeiro do dia 6 455 Em 1917, a freguesia de Seixas pertencia ao concelho de Caminha. 456 O Comércio do Porto, 5 de maio de 1917, p.1. 457 Ibidem. 458 Ibidem. 459 Ibidem. 460 O Primeiro de Janeiro, 6 de maio de 1917, p1. 461 Ibidem. 462 Ibidem. 463 Ibidem. 464 Gazeta de Braga, 13 de maio de 1917, p.3. 465 O Comércio do Minho, 8 de maio de 1917, p.2. 84 de Maio. Os editores de O Espozendense simplesmente não aceitaram a possibilidade de Esposende ser um entreposto de submarinos alemães, pondo mesmo em causa as afirmações e conclusões do governador Eduardo Cerqueira Cruz, numa notícia intitulada Submarinos em Esposende? 466 O Espozendense reforça a ideia de se tratar de mais um caso de simples contrabando para Espanha, salvaguardando por sua vez a ideia de que o incidente mudaria de figura, caso algumas figuras categorizadas de Barcelos estivessem implicadas no caso 467 . Como anteriormente referimos, O Espozendense, rejeitou as afirmações e conclusões do governador Eduardo Cerqueira Cruz, alegando o seguinte: “Mas então quem deu estas informações ao snr. Governador Civil? Com que fundamento se vai assim inquietar a opinião pública do concelho? Sim, dizemos concelho porque essas informações que deram a sua Ex.ª refere-se só a que o fornecimento faz-se em larga escala, livremente entre Apúlia e S. Bartolomeu do Mar” 468 . O Espozendense avança com outros argumentos que protegem a integridade do povo de Esposende, defendendo que muitos esposendenses defendiam os interesses de Portugal nos campos de batalha em França. Concluindo, o periódico local termina com a seguinte frase: “Luz, muita luz e venha a verdade, queremos saber quem são esses traidores!” 469 Doravante, ao estudarmos as edições posteriores em vários periódicos, não verificamos quaisquer notícias que mencionem o episódio histórico em questão. Não temos conhecimento sobre como o processo se desenrolou com os homens apreendidos, nem quais as medidas tomadas pelo Ministério do Interior, a pedido do governador civil de Braga. A pesquisa que foi feita nos arquivos locais, nos livros de atas, na correspondência com o governador civil, a partir da administração local, não conseguiu encontrar a mínima informação sobre o sucedido. 3.2 Perspetivas a reter Os episódios narrados apresentam-se soltos, repetidamente publicados em vários jornais e liminarmente negados pelo jornal local. O seu significado aponta para práticas de contrabando, confirmando o que poderia ser habitual, frente aos constrangimentos alimentares. Em primeiro lugar, trata-se sem dúvida de uma rede complexa e bem apetrechada no terreno, que aparentemente usava os percursos hídricos, marítimos e terrestres para efetuar o contrabando. As notícias aqui examinadas verificam a presença de um carreteiro que conduzia um carro de bois até às praias adjacentes a Esposende, além de uma lancha que recebia a mercadoria contrabandeada, como meios de transporte. A consistência da rede de contrabando era singular, revendo: os ovos provinham de Barcelos; a lancha provinha de Vila Praia de Âncora; os negociadores portugueses eram de 466 O Espozendense, 10 de maio de 1917, p.2. 467 Ibidem. 468 Ibidem. 469 Ibidem. 85 Âncora, de Seixas e de Gandra; os intermediários eram espanhóis; e o destino da mercadoria iria para os submarinos alemães. Estaremos perante uma rede de contrabando fruto das dificuldades vividas na região, no período da Primeira Guerra Mundial? Não podemos responder com segurança, mas dada a particular crise socioeconómica vivida em Portugal, agrava pelas vicissitudes do conflito mundial, podemos depreender que novas redes de contrabando se adaptaram às novas exigências de oferta e procura, assim como novos contactos comerciais. Estaremos perante um caso isolado na região? Decididamente que não. De acordo com as fontes periódicas da época, são vários os casos de contrabando de géneros alimentares. Recolhemos, do periódico O Espozendense, pelo menos 11 notícias, de janeiro de 1917 a janeiro de 1918, que relatam casos de contrabando. Examinemos algumas notícias. Segundo a mesma fonte periódica, do dia 1 de março de 1917, a guarda republicana apreendeu, durante aquela semana, pelo menos 3 carros que transportavam milho contrabandeado, com destino a Póvoa do Varzim e a alguns concelhos do distrito do Porto 470 . A 24 de maio de 1917, foram apreendidos em trânsito para a Póvoa do Varzim (imediações de Esposende), algumas canastras de ovos, contendo aproximadamente 4 mil, e algum milho contrabandeando pela guarda republicana local. No mesmo dia, a guarda republicana apreende um carro de milho contrabandeado, que se dirigia a Barcelos 471 . Segundo uma notícia do periódico O Espozendense, de 11 de outubro de 1917, a guarda republicana deteve alguns carros de milho em trânsito para Barcelos 472 . O periódico O Cávado confirma algumas notícias neste sentido, como ocorreu no dia 14 de outubro de 1917, quando a Guarda Nacional Republicana de Esposende detém uma grande quantidade de milho contrabandeado, que seguia para fora do concelho, em incursões noturnas 473 . A edição do mesmo dia relata um outro incidente ocorrido em Esposende, entre a Guarda Nacional Republicana e três homens armados, que seguiam com cereais contrabandeados num carro de bois. Após um pequeno combate, os transgressores foram aprisionados e entregues ao Tribunal da Comarca, escapando apenas um homem 474 . Segundo atas municipais de Esposende, seria recorrente alguns carreteiros da vila conduzirem os seus carros de bois e cavalos sem as luzes acesas, o que alude a possíveis atividades contrabandistas, como é o caso dos multados António Peixoto Lima 475 e José Humberto Cocheiro 476 . Outro registo não menos importante, menciona que os carros de José da Costa Terra impediam o 470 O Espozendense, 1 de março de 1917, p.3. 471 O Espozendense, 24 de maio de 1917, p.2. 472 Ibidem. 473 O Cávado, 14 de outubro de 1917, p.2. 474 O Cávado, 14 de outubro de 1917, p.3. 475 Ata de Sessão ordinária de 9 de junho de 1917 – Fólio 93 476 Ata de sessão ordinária de 21 de julho de 1917 – Fólio 99 86 tráfego habitual na vila de Esposende, com especial incidência à noite 477 , o que remete também para atividades ilícitas. Nenhum destes nomes consta das notícias dos jornais, atrás referidas. Concluindo, o contrabando de ovos, galinhas, gado caprino e suíno, farinhas, milho e outros produtos alimentares era regular na região. Quanto aos ovos contrabandeados, cremos que a sua fonte de proteína e a sua capacidade de preservação serviam como atrativos à clientela alemã. Várias notícias documentam a fuga de géneros para outros concelhos limítrofes, dado que os produtores agrícolas tentavam vender os seus produtos noutras localidades a um melhor preço. Numa época onde a fome e as sucessivas crises de subsistência proliferavam, os governadores distritais e municipais taxavam os preços conforme a abundância alimentar de cada localidade, o que provocava um desfasamento da relação preço-necessidade. O acesso aos mais básicos géneros alimentares, tal como no resto de todo o país, era visível nas comunidades nortenhas portuguesas. Segundo O Diário de Notícias, do dia 1 de maio de 1917, dois representantes políticos nortenhos reuniram com o Ministro do Trabalho para fazer chegar ao norte do país novos e urgentes carregamentos de trigo. A situação era desesperante, dado que muitas fábricas de moagens estavam paralisadas, e outras muito próximas da deste destino 478 . Um dos fatores que fomentava o contrabando era sem dúvida as deficiências verificadas no sistema de organização central, pois esta não fixava e uniformizava os preços, bem como no referente ao binómio distribuição/transportes 479 . Segundo Alice Samara, as vicissitudes da Primeira Guerra Mundial criaram condições para a proliferação de açambarcadores, que guardavam todo o tipo de produtos para mais tarde os venderem a preços mais altos do que os estipulados 480 . Segundo o periódico A Capital, do dia 5 de maio de 1917, a Associação dos Operários Manipuladores de Pão protestara junto do Governador Civil e da Comissão de Abastecimento, contra o açambarcamento de pão por várias tabernas, mercearias e até carvoarias, o que provocava a falta deste género em várias padarias 481 . Cremos que António José Dias Júnior, que armazenava os ovos contrabandeados em sua casa, na freguesia de Gandra, Esposende, seria efetivamente um açambarcador. Alice Samara fala-nos igualmente da criação de novos nichos inerentes ao mercado negro, onde se vendem produtos, já em escassez, a preços proibitivos, agravando assim a crise das subsistências 482 . Estas dinâmicas da economia paralela permitiam o enriquecimento exponencial de algumas individualidades regionais, como 477 Acta – Fólio 81, Leitura do ofício nº120 de 3 de março do administrador do concelho. 478 Diário de Notícias, 1 de Maio de 1917, p.2. 479 SAMARA, Alice – O Impacte Económico e Social da Primeira Guerra em Portugal. In TEIXEIRA, Nuno Severiano, coord. – Portugal e a Guerra. História das Intervenções Militares Portuguesas nos Grandes Conflitos Mundiais – Séculos XIX e XX. Lisboa: Edições Colibri, 1998, p. 93. 480 Idem, Ibidem, p. 96. 481 A Capital, 5 de Maio de 1917, p.2. 482 SAMARA, Alice – O Impacte Económico e Social da Primeira Guerra em Portugal. In TEIXEIRA, Nuno Severiano, coord. – Portugal e a Guerra. História das Intervenções Militares Portuguesas nos Grandes Conflitos Mundiais – Séculos XIX e XX. Lisboa: Edições Colibri, 1998, p. 96. 87 será possivelmente o caso dos proprietários João Fernandes dos Reis e Manuel Portela Barreiro, implicados no caso que anteriormente analisamos. A fiscalização e a vigilância em torno do contrabando não eram eficazes. Segundo Alice Samara a fixação de preços era mais um argumento teórico do propriamente um dado adquirido no sentido prático 483 . Os testemunhos e documentos que analisamos corroboram as reflexões de Alice Samara. A prática de açambarcamento, favorecimentos de determinadas clientelas, e negócios ilícitos era uma prática generalizada em muitos pontos do país, numa relação comercial que ascendia desde o pequeno produtor ao pequeno comerciante retalhista 484 . O que realmente aconteceu em Esposende nos inícios de maio de 1917 representa na perfeição esta visão englobante e generalista, como podemos verificar. No entanto, os governos municipais, assim como o esposendense, tentavam reagir. De acordo com uma notícia de 12 de julho de 1917, proibiu-se a saída de gado caprino e suíno para fora dos concelhos, inclusive os fronteiriços 485 . Após as apreensões, os géneros alimentares eram vendidos pela guarda republicana ou fiscal, nos celeiros municipais, como confirmam algumas notícias. Encontramos igualmente notícias que comprovam o contrabando para Espanha, ou para agentes espanhóis presentes na região. De acordo com uma notícia de 18 de janeiro de 1917, foram apreendidas em Capareiros, distrito de Viana do Castelo, pela guarda-fiscal 112 galinhas que iam para Espanha, sendo estas depositadas no posto policial de Viana do Castelo, posteriormente 486 .Conforme uma notícia de 11 de outubro de 1917, o custo sempre crescente do preço das galinhas e dos ovos era uma prova bem frisante de que estes géneros eram exportados para Espanha em grande quantidade 487 . Uma notícia do Comércio do Minho, do dia 8 de maio de 1917, confirma a expedição de uma circular aos governadores civis que autoriza, como no ano findo, a entrada de súbitos espanhóis com destino às praias e termas, sem mais documentação do que as cédulas pessoais 488 . Esta última notícia confirma uma certa permeabilidade dos cidadãos espanhóis no território português. Em Esposende, vários barcos de pesca e contrabando espanhóis navegam nas águas de jurisdição nacional, pois estes tinham autorização para aqui navegar. Segundo averiguamos, a sua presença nestas águas era regular 489 . Na cidade do Porto o contrabando para Espanha também seria frequente. A 2 de janeiro de 1916, o Diretor da Companhia de Utilidade Doméstica queixava-se da saída de géneros para 483 SAMARA, Alice – O Impacte Económico e Social da Primeira Guerra em Portugal. In TEIXEIRA, Nuno Severiano, coord. – Portugal e a Guerra. História das Intervenções Militares Portuguesas nos Grandes Conflitos Mundiais – Séculos XIX e XX. Lisboa: Edições Colibri, 1998, p. 96. 484 Idem, Ibidem. 485 O Espozendense, 12 de julho de 1917, p.2. 486 O Espozendense, 18 de janeiro de 1917, p.1. 487 O Espozendense, 11 de outubro de 1917, p.2. 488 O Comércio do Minho, 8 de maio, p.2. 489 O Espozendense, 3 de maio de 1917, p.2. 88 Espanha, dado que os grandes criadores de gado vendiam aqui os seus animais, por um preço mais favorável 490 . Apesar da proibição deste processo, não havia uma vigilância eficaz que interrompesse este contrabando. Segundo o periódico A Montanha, a solução seria aumentar a vigilância nas fronteiras, para além de que as Câmaras de Lisboa e Porto deveriam impedir o abate de vitelas com menos de 50 quilos. A mesma notícia avança que o contrabando não se verificava apenas com cereais, mas com outros géneros alimentares 491 , o que não parece real. Alguns autores avançam com a ideia de que a atividade e abastecimento dos submarinos alemães, tanto em Espanha como nas ilhas Canárias, foram frequentes durante o conflito. Vários autores espanhóis falam-nos do contrabando espanhol verificado na Primeira Guerra Mundial, e dos postos avançados alemães em território espanhol. As obras ¿España Neutral?La Marina Mercante Española en la I Guerra Mundial, de Enric García 492 ; Submarinos al Acecho: Guerra Submarina en Finisterre, de Lino J.Pazos 493 ; Cazadores de Barcos – Historia de los submarinos alemanes en las costas de Galicia durante la Primera Guerra Mundial de José Ramallo e Sergio González 494 ; Tiburones de Acero – La Guerra Submarina en el Levante Español (1914- 1918) 495 de José Pellón e Luís Adán; apresentam já estudos bastante consistentes neste sentido. Segundo Jaime Rubio Rosales, houve durante a Primeira Guerra Mundial, com destaque para os anos de 1917 e 1918, uma atividade submarina intensa nas imediações costeiras das ilhas Canárias, considerando os testemunhos locais da localidade de La Gomera 496 . Segundo Jaime Correia do Inso, os submarinos alemães que atuavam ao largo da costa algarvia abasteciam-se entre Huelva e Cádis, e os que operavam nas águas no norte de Portugal faziamno no porto galego de Vigo 497 . Correia do Inso evidencia também os constantes e consistentes relatos em torno do avistamento de submarinos alemães vividos nas Canárias 498 . Espanha foi efetivamente utilizada como uma plataforma logística para arquitetar ataques submarinos a Portugal. Temos notícias que asseguram que os submarinos alemães abasteciam-se em portos espanhóis antes de atacar bases portuguesas. O jornal O Comércio do Porto, segundo uma notícia do dia 5 de dezembro, indica que o U-38, antes do ataque à ao Funchal, a 3 de dezembro 490 ROSSUM, Arnold Arie van – A Questão das Subsistências no Porto, no período da Grande Guerra. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011, 58 f. Tese de mestrado. 491 Idem, Ibidem. 492 GARCÍA, Eric Domingo -¿España Neutral?La Marina Mercante Española en la I Guerra Mundial. Madrid: Real del Catorce Editores, S.l, 2005. 493 LINO, J. Pazos – Submarinos al Acecho:Guerra Submarina en Finisterre. Madrid: Damaré, 2008. 494 RAMALLO, José Antonio Tojo; GONZÁLEZ, Sergio Tojo - Cazadores de Barcos – Historia de los submarinos alemanes en las costas de Galicia durante la Primera Guerra Mundial. Madrid: Ministerio de Defensa – Centro de Publicaciones, 2008. 495 PELLÓN, José Angel del Rio - Tiburones de Acero – La Guerra Submarina en el Levante Español (1914-1918). Madrid: Ediciones Divum & Mare, 2010. 496 ROSALES, Jaime Rubio – Submarinos y arqueología nazi en Canarias. Londres: Lulu Press Inc, 2007, p. 77. 497 INSO, Jaime do – A Marinha Portuguesa na Grande Guerra. [S.l.]: Edições Culturais da Marinha, 2006, p.56. 498 Idem, Ibidem. 89 de 1916, abasteceu-se provavelmente nas ilhas Canárias 499 . Outra notícia, não menos importante, fala-nos do modo como os submarinos eram abastecidos em alto-mar. De acordo com O Comércio do Porto, segundo informações provenientes de Cabo Verde, um submarino alemão foi avistado, atracado a um barco à vela, a receber um carregamento de gasolina 500 . Terá este fenómeno ocorrido igualmente em Esposende? Segundo José Ramallo, há que olhar para a tradição de contrabando transfronteiriço e costeiro entre o norte de Portugal e a Galiza. Os territórios em questão, apesar de muito pouco atrativos para os serviços de espionagem alemães, muito devido às escassas vias de comunicação, ofereciam enclaves costeiros adequados ao fornecimento de submarinos alemães 501 . Segundo João Francisco Marques, a região fronteiriça entre o Minho e a Galiza, fornece condições geomorfológicas favoráveis ao contrabando, destacando os espaços ribeirinhos que entestam as zonas limítrofes 502 . Eduardo González Calleja defende que a principal atividade promovida pelos serviços secretos alemães, durante a guerra, foi sem dúvida o abastecimento dos seus submarinos em território neutro, com especial incidência em Espanha 503 . Desde o início do conflito, que a inteligência naval alemã via a Espanha, compreendo as suas posições ultramarinas e as suas relações diplomáticas favoráveis, como uma possível base para o reabastecimento das suas unidades militares navais. A costa espanhola confinava sobretudo dois palcos de ação submarina alemã: o Golfo da Biscaia e o Mediterrâneo. A posição geoestratégica espanhola, e a sua política neutral perante o conflito, ajudaram a fixação dos agentes alemães. Os serviços de inteligência alemã organizaram pequenas flotilhas de pequenos barcos, com tripulações locais, em vários pontos da costa espanhola, para assim atender às necessidades dos seus submarinos 504 . Segundo Eduardo Calleja, estes empreendimentos encontraram uma maior incidência entre Cádis e as ilhas Canárias, dada a dificuldade em estabelecer postos de abastecimentos no Mediterrâneo 505 . Mas como, efetivamente, se processava o contrabando entre os intermediários espanhóis e os submarinos alemães, em Portugal? Não podemos responder com segurança, mas avançamos com a ideia de que poderá ter sido um processo semelhante ao ocorrido nas proximidades de Cabo Verde, eventualmente com algum paralelo noutras ocasiões. Segundo O Comércio do Porto, um submarino alemão foi avistado, atracado a um barco à vela, a receber 499 O Comércio do Porto, 6 de dezembro de 1916, pág.3. 500 O Comércio do Porto, 4 de novembro de 1916, p.3. 501 CALLEJA, Eduardo González – El Dispositivo de Vigilancia Francés en Galicia durante la Primeira Guerra Mundial. Madrid: Universidad Carlos IIII de Madrid, 2014, p.7. 502 MARQUES, João Francisco – O Contrabando no Romance Contemporâneo Português – Contextos Espácio-Sociais e Histórico-Económicos. Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2014, p. 676. 503 CALLEJA, Eduardo González – El Dispositivo de Vigilancia Francés en Galicia durante la Primeira Guerra Mundial. Madrid: Universidad Carlos IIII de Madrid, 2014, p.1 504 Idem, Ibidem. 505 Idem, Ibidem. 96 Centenary of World War One abriu todo um leque de oportunidades, entre 2014 e 2018, para novos projetos, emancipando-se, ao abrigo do direito internacional da Convenção de 2001 528 . Mesmo antes daquela Convenção, algumas instituições não-governamentais sentiam um certo vazio na legislação internacional, relativamente à conservação do património subaquático. Em 1994, a International Law Association (ILA) propôs, em Buenos Aires, que a UNESCO se encarregasse deste tipo de matérias, sendo por sua vez a instituição não-governamental mais indicada para responder às problemáticas ligadas aos vestígios patrimoniais presentes no fundo do mar 529 . No entanto, a resposta para este vazio legislativo proveio do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS), com a aprovação da Carta sobre a Protecção e Gestão do Património Cultural Subaquático, em 1996, cujos princípios inflenciarão a Convenção de 2001. Segundo o ICOMOS, a Carta de 1996 complementa a Carta sobre a Protecção e Gestão do Património Cultural Subaquático de 1990. Apesar do ICOMOS reconhecer o património subaquático simplesmente como “património arqueológico”, apresenta, porém, alguns problemas a nível legislativo e jurídico, muito devido à sua localização em águas de estatuto internacional, ou mesmo em águas alheias à nacionalidade de um determinado naufrágio 530 . No ano seguinte, em 1997, a conferência geral da UNESCO decidiu criar uma carta, na qual normalizasse as intervenções a nível internacional, culminando finalmente em 2001 com a promulgação da Convenção Os estatutos da Convenção sobre a Proteção do Património Subaquático de 2001 entraram em vigor em Portugal, a 2 de janeiro de 2009, segundo o 27º artigo da mesma convenção, após ter sido anteriormente aprovada pela Resolução da Assembleia da República, em 2006 531 . Portugal assume atualmente os princípios básicos da salvaguarda do património subaquático, de acordo com os ditames da Convenção de 2001, incorporando-os na legislação nacional. Vejamos algumas das principais abordagens que Portugal deverá cumprir a este nível. Conforme o Aviso n.º 6/2012, presente no Diário da República, 1ª. Série – N.º61 – 26 de março de 2012, a República Portuguesa deve pugnar-se pela preservação do património subaquático in situ 532 , ou seja, beneficiar das vantagens educativas e recreativas de um acesso responsável e 528 Underwater Cultural Heritage - Text of the 2001 Convention. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/new/en/culture/themes/underwater-cultural-heritage/2001-convention/officialtext/, consultado a 02/05/2015. 529 The History of the 2001 Convention on the Protection of the Underwater Cultural Heritage In www.unesco.org, Disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001894/189450E.pdf, consultado a 02/05/2015. 530 Charter on the Protection and Management of Underwater Cultural Heritage (1996). In www.international.icomos.org, Disponível em http://www.international.icomos.org/charters/underwater_e.pdf, consultado a 02/05/2015. 531 Diário da República, 1ª. Série – N.º61 – 26 de Março de 2012, p. 1427. 532 A preservação in situ, segundo a convenção Protection of the Underwater Cultural Heritage premeiase, antes de mais, por empregar estratégias de conservação patrimonial sem remover/extrair quaisquer 97 não intrusivo. De acordo com o sétimo ponto do artigo do 2º Artigo da convenção da UNESCO, são condenáveis quaisquer tentativas de exploração comercial em torno deste tipo de património 533 . Avaliando o décimo ponto do artigo referido anteriormente, o acesso responsável e não intrusivo do público ao património cultural subaquático in situ para fins de observação e documentação deverá ser encorajado. No terceiro ponto do 18º Artigo da convenção, cada Estado Parte notificará o Diretor-Geral (de uma descoberta arqueológica subaquática) e qualquer outro Estado com um interesse legítimo, ao abrigo da mesma convenção. A 2º Regra presente no anexo das Regras Relativas a Intervenções sobre Património Cultural, declara que a exploração comercial do património cultural subaquático para fins de transação ou especulação ou a sua irreversível dispersão é incompatível com a sua proteção e adequada gestão 534 . Neste contexto legislativo, vejamos alguns projetos e conferências realizadas em solo nacional que se sensibilizaram em torno da causa. Muito recentemente, entre 25 a 27 de junho de 2015, realizou-se, em Lisboa, a International Conference – Tourism, Leisure and War. Nesta conferência, vários projetos e comunicações inerentes ao período da Primeira Guerra Mundial apresentaram os seus objetivos e progressões científicas. Entre os quais, destacamos a proposta do CINAV, com os oradores Augusto Salgado e Jorge Russo, que apresentaram a seguinte comunicação: “Pode um Submarino Imperial Alemão, na Primeira Guerra Mundial, produzir matéria turística em Portugal, no século XXI?” 535 . Nesta comunicação ambos os oradores se questionaram sobre a possibilidade de integrar o “Projeto U-35” num circuito turístico, explorando vários contornos em torno dos naufrágios jazidos no fundo do mar. Em que medida poderão estes naufrágios, assim como o percurso do submarino U-35 e respetivo episódio histórico, ser convertido numa Unidade Económica ou atração turística? Foram questões que inquietaram os oradores em questão. Segundo verificámos, trata-se do primeiro caso em Portugal, que tenta rentabilizar um circuito de um submarino imperial alemão da Primeira Guerra Mundial. Averiguando alguns casos no âmbito nacional, são visíveis projetos de exploração turística, mediação patrimonial e de conservação em torno de naufrágios, acabando por efetivamente influenciar e moldar os preceitos do “Projeto U-35” do CINAV. Destacamos em primeiro lugar, o naufrágio de um submarino da Segunda Guerra Mundial, o U-1277, no litoral artefactos do fundo do mar. Segundo o quinto ponto do Artigo nº2 dos estatutos da mesma convenção, a preservação in situ do património cultural é uma operação prioritária. 533 Diário da República, 1ª. Série – N.º61 – 26 de Março de 2012, p. 1428. 534 Diário da República, 1ª. Série – N.º61 – 26 de Março de 2012, p. 1434. 535 SALGADO, Augusto; RUSSO, Jorge – Pode um Submarino Imperial Alemão, na Primeira Guerra Mundial, produzir matéria turística em Portugal, no século XXI? In BOOK OF ABSTRACTS. INTERNATIONAL CONFERENCE – TOURISM, LEISURE AND WAR. LISBOA, 2015 – Panel IV – War Tourism.Lisboa: CINAV, 2015. p. 60-61 98 do município de Matosinhos 536 . Afundado intencionalmente pela tripulação, no dia 3 de junho de 1945 537 , o submarino é uma atração turística com uma relativa projeção internacional, que atrai sobretudo mergulhadores de várias nacionalidades, tanto profissionais como amadores. Apesar de carecer de um projeto de mediação patrimonial propriamente dito, ou mesmo de salvaguarda e conservação deste, a Câmara de Matosinhos dispõe de uma cooperação com uma companhia de mergulho, a Submania, que realiza saídas de mergulho previamente marcadas 538 . Um caso de enorme relevância a nível de mediação patrimonial em torno dos naufrágios será o projeto Naufrágios na Costa de Esposende, do Museu Marítimo de Esposende. Esta unidade museológica criou um roteiro turístico, que conjuga incursões de mergulho com a exibição de artefactos e vestígios arqueológicos extraídos dos naufrágios, que estão presentes no museu. Atualmente esta unidade museológica conta com objetos retirados das embarcações mercantis Harriet 539 , Ada Ferrer 540 , Julian 541 , Oldenburg 542 e de uma embarcação datada de 1548 543 . O museu possui um vasto espólio histórico, muito devido à cooperação com comunidade envolvente, que se dispôs a ceder um numeroso manancial de peças resgatadas do mar, sendo um processo fruto das ações de sensibilização patrocinadas pela equipa componente do museu. 544 . Esta relação entre a unidade museológica e a comunidade permitiu alicerçar os propósitos iniciais do corpo museológico, aproximando assim os agentes de memória subaquáticos a uma comunidade que historicamente sempre esteve ligada ao mar. No entanto, vários perigos ameaçam o património subaquático esposendense, como as intervenções abusivas de mergulhadores amadores e os empreendimentos de empresas ligadas ao conceito de “caça ao tesouro”. Nos Açores, vários esforços foram feitos nos últimos anos para rentabilizar os naufrágios Lidador 545 e Oakfield 546 , como são visíveis nos últimos trabalhos de Paulo 536 Os destroços do submarino apresentam-se atualmente ao largo da praia do Cabo do Mundo, em Leça da Palmeira. 537 List of all U-boats – U-1277. In www.uboat.net, Disponível em http://www.uboat.net/boats/u1277.htm, consultado a 05/05/2015. 538 Mergulho – O submarino U-1277. In www.uboat.net, Disponível em http://www.cmmatosinhos.pt/pages/549, consultado a 06/05/2015. 539 Navio encalhado na costa S. Bartolomeu do Mar, próximo de Esposende, em 1925. 540 Cargueiro espanhol que encalhou perto de Esposende a 3 de outubro de 1973, devido à má visibilidade. 541 Embarcação espanhola que encalhou a norte dos cavalos de Fão, nas proximidades de Esposende, a 13 de julho de 1896. 542 Cargueiro alemão que rumava para Hamburgo via Lisboa, encalhando a 11 de maio de 1936 ao largo de Esposende. 543 Museu Marítimo de Esposende – Da Memória ao Legado dos Homens do Mar. In http://esposendeacontece.pt/da-memoria-ao-legado-dos-homens-do-mar/, consultado a 06/05/2015. 544 Idem, Ibidem. 545 Navio brasileiro que encalhou em Cais da Figueirinha, em Angra do Heroísmo, a 16 de fevereiro de 1878. 546 Vapor inglês do século XIX que naufragou a 21 de janeiro de 1897, ao largo de Ponta Delgada. 99 Monteiro 547 e Sónia Bombico 548 . A intervenção arqueológica nestes naufrágios, além das empreendidas nos Açores nos últimos anos, inspirou as ações da equipa do CINAV, e do seu projeto “U-35” 549 . Segundo a Carta Arqueológica Subaquática dos Açores. Metodologia, resultados e a sua aplicação na gestão do património subaquático da Região Autónoma dos Açores 550 , fruto do 3º Congresso de Arqueologia Peninsular (realizada entre 21 a 27 de Setembro de 1999), verificamos o empenhamento por parte de algumas instituições, tanto nacionais como internacionais, no sentido de autenticar uma carta arqueológica que gerisse o património subaquático ao largo do arquipélago açoriano. Só em 1999, se assiste à promulgação da Carta Arqueológica Subaquática dos Açores (CASA), num projeto que envolveu a Direção Regional da Cultura do Governo Regional dos Açores (DRC), o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática do Instituto Português de Arqueologia (CNANS/IPA) e o Institute of Nautical Archaeology da Texas A&M University (INA) 551 . A CASA prima pela preservação do património subaquático aplicando a metodologia in situ, respondendo também às ameaças constantes dos mergulhadores e caçadores de tesouros. Segundo a Carta Arqueológica Subaquática dos Açores o património subaquático em questão possuí uma imensa riqueza de artefactos valiosos, incluindo peças de ouro, prata e porcelanas de valor arqueológico e histórico, pelo que atrai imensas empresas, sejam nacionais ou estrangeiras, para preformar ações e percursos alusivos ao conceito de “caça ao tesouro” 552 . Um caso de importância nacional trata-se da intervenção sobre o clipper britânico Thermopylae 553 , afundado em 1907, nas proximidades de Cascais. Os seus vestígios submersos só foram formalmente identificados quase um século após o afundamento deste 554 . Atualmente a 547 O Naufrágio do vapor Lidador na ilha Terceira, Açores (1878): relatório preliminar. In www.academia.edu, Disponível em http://www.academia.edu/211654/O_naufr%C3%A1gio_do_vapor_Lidador_na_ilha_Terceira_A%C3%A 7ores_1878_relat%C3%B3rio_preliminar, consultado a 07/05/2015. 548 Oakfield 1883-87: O naufrágio de um Vapor (São Miguel-Açores). In www.academia.eu, Disponível em http://www.academia.edu/1724850/Oakfield_1883- 97_O_naufr%C3%A1gio_de_um_Vapor_S%C3%A3o_Miguel_-_A%C3%A7ores, consultado a 07/05/2015. 549 AA.VV. – Project U-35. Relatório de Trabalhos de 2014. Lisboa: CINAV, 2005.p. 9. 550 Carta Arqueológica Subaquática dos Açores. Metodologia, resultados e sua aplicação na gestão do património subaquático da Região Autónoma dos Açores. In www.entrada.tv, Disponível em http://www.entrada.tv/DB/wrecks/Docs/Carta_Arqueologica_Subaquatica_dos_Acores.pdf, consultado a 07/05/2015. 551 Carta Arqueológica Subaquática dos Açores. Metodologia, resultados e sua aplicação na gestão do património subaquático da Região Autónoma dos Açores. In www.entrada.tv, Disponível em http://www.entrada.tv/DB/wrecks/Docs/Carta_Arqueologica_Subaquatica_dos_Acores.pdf, consultado a 07/05/2015. 552 Idem, Ibidem. 553 Afundado aquando manobras navais ao largo de Cascais, em 1907, o Thermopylae tratava-se de um grande veleiro comercial britânico. A Câmara Municipal de Cascais reuniu esforço, no Verão de 2009, para salvaguardar o naufrágio em questão. 554 Missão de avaliação e levantamento do sítio submarino do clipper Thermopylae. In www.patrimoniocultural.pt, Disponível em 100 Câmara Municipal de Cascais pretende uma abordagem transdisciplinar na qual a arqueologia dos destroços do navio se molda no espaço identitário, físico e cultural da região 555 . Por fim, destacamos outros empreendimentos relativamente aos naufrágios presentes em águas de jurisdição nacional, como a canhoeira Faro 556 em Lagos, e o SS Dago 557 , em Peniche. O naufrágio do SS Dago recebeu a devida atenção de um dos elementos do CINAV, Jorge Russo, que inclusive publicou os seus aprofundamentos historiográficos e científicos no International Journal of Nautical Archaeology, participando também no Seminário de Arqueologia Naval e Subaquática realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (2013) e na Nautical Archaeology Annual Conference, em Portsmouth, Inglaterra (2013) 558 .A intervenção arqueológica destes três naufrágios influenciou os moldes metodológicos do “Projeto U-35” do CINAV 559 . 4.2 - Georreferenciação e mapeamento dos naufrágios da Primeira Guerra. Modelos e empreendimentos internacionais e projetos nacionais Neste contexto, pretendemos refletir sobre metodologias dotadas, como a georreferenciação e mapeamento dos naufrágios provocados pela guerra submarina alemã, no que diz respeito às suas potencialidades no campo da salvaguarda e mediação da fruição. Como podemos efetivamente salvaguardar o património subaquático do período em análise, sem um mapeamento consistente e atualizado? A georreferenciação surge como um meio importantíssimo para a salvaguarda e gestão dos naufrágios, sejam eles quais forem, mas que se poderá aplicar aos provocados por U-boats alemães. Apesar de alguns documentos históricos e empreendimentos científicos apresentarem um mapeamento aparentemente completo e assertivo, investigações mais recentes comprovam que a devida localização dos naufrágios merece novos contributos. Olhemos por exemplo para os trabalhos do britânico Innes MacCartney, que na sua comunicação The Historical Archaeology of World War I U-boats and the Compilation of Admiralty History: The case of UC-79, apresentada na Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War One de 2014, defende que a efetiva localização do património subaquático requer uma simbiose multidimensional entre um corpo de profissionais, provenientes de variadas áreas. A somar, http://www.patrimoniocultural.pt/media/uploads/revistaportuguesadearqueologia/12_1/12_1artigos/221_2 44.pdf, consultado a 07/05/2015. 555 Idem, Ibidem. 556 Canhoeira portuguesa afundada em 1912, defronte ao Alvor, no Algarve. No seu percurso entre Lagos e Faro, a canhoeira colidiu com o rebocador Josefina. 557 Vapor inglês afundado por um avião alemão, aquando a Segunda Guerra Mundial, nas proximidades de Peniche, em 1942. 558 Investigadores // CV Jorge Russo. In ww.ihc.fcsh..unl.pt, Disponível em http://ihc.fcsh.unl.pt/pt/ihc/investigadores/item/36438-jorge-russo, consultado a 07/05/2015. 559 AA.VV. – Project U-35. Relatório de Trabalhos de 2014. Lisboa: CINAV, 2005.p. 9. 101 deve-se pugnar por uma investigação histórica que cruze vários dados fornecidos por outras áreas científicas, como a arqueologia e a náutica. Após anos de mergulho, investigação histórica, e inventariação de naufrágios ao longo do canal da Mancha, Innes concluiu que as fontes históricas da época podem conter algumas incongruências. MacCartney estudou a lista de submarinos alemães perdidos, através da Antisubmarine Division, ou ASD, onde o Almirantado britânico enumerava e listava todas as perdas germânicas ao largo da costa inglesa. MacCartney concluiu que apenas 48 % da ASD estava efetivamente correta, questionando a verdadeira veracidade da fonte histórica 560 . Innes dá o exemplo do naufrágio do UC-79, que apesar de estar assinalado como “afundado” na ASD, a 19 de Outubro de 1917, a zona sul do Mar do Norte, na verdade ele continuou operacional depois desta data. O submarino efetivamente atacado foi o U- 53, pelo submersível britânico HMS E-45, e não o UC-79. Concluindo, os serviços de informação britânicos depreende que fosse o UC-79, simplesmente por terem conhecimento de que se encontrava próximo do submarino britânico aquando o ataque. No entanto, nenhum dos submarinos foi afundado naquela data, sendo que o comandante do U-53 relatou o ataque britânico no seu diário de guerra, justificando assim a sua sobrevivência 561 . A nível internacional, dispomos de algumas tentativas de inventariação, mapeamento e georreferenciação dos naufrágios provocados por submarinos alemães. Vários comunicadores apresentaram novas propostas de mapeamento e georreferenciação dos naufrágios da Primeira Guerra Mundial na Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War One de 2014, o que permitiu uma reflexão mais profunda sobre este processo. Vejamos alguns casos a nível nacional e internacional. Innes MacCartney, aqui já mencionado, reuniu mais de 100 naufrágios de submarinos, sobretudo do período que aporta as duas guerras mundiais, ao longo da costa do Reino Unido. Na sua obra The Maritime Archaeology of a Modern Conflitct: Comparing the Archaeology of German Submarine Wrecks to the Historical Test 562 , Innes focou-se sobretudo no Canal da Mancha, expondo uma localização mais exata de 32 submarinos alemães da Primeira Guerra Mundial 563 . Esta obra compreende um novo mapeamento dos naufrágios, que não vão necessariamente ao encontro das fontes históricas e documentais da época, dado que estas apresentam listagens e datações erróneas. O trabalho de Innes só foi possível graças à cooperação de vários profissionais de diversas áreas, incluindo historiadores, arqueólogos, 560 Underwater Cultural Heritage From World War I – Proceedings of the Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War I. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/culture/underwater/world-warI.pdf, consultado a 27/06/2015. 561 Ibidem. 562 MacCartney, Innes - The Maritime Archaeology of a Modern Conflitct: Comparing the Archaeology of German Submarine Wrecks to the Historical Test. London: Routledge, 2015. 563 Underwater Cultural Heritage From World War I – Proceedings of the Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War I. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/culture/underwater/world-warI.pdf, consultado a 27/06/2015. 102 mergulhadores, e programadores informáticos. Ao compararem e partilharem os dados por estes selecionados, MacCartney obteve conclusões muito mais abrangentes e multidimensionais. Mark Dunley, outro britânico que se dedica a esta investigação, afirma que a história naval do período 1914-1918 foi negligenciada durante décadas, tanto a nível historiográfico como a nível arqueológico e patrimonial, encontrando algum foco apenas nos incidentes bélicos da Jutlândia e dos Dardanelos 564 . O objetivo de Dunley é georreferenciar as perdas submarinas anglo-germânicas, os naufrágios mercantis britânicos, e os naufrágios do almirantado britânico, ao longo da costa do Reino Unido, estabelecendo um elo de ligação com as soluções defensivas da época e com o sistema de comboios mercantis. Mark Dunley colocou os seus mapas numa base de dados disponível online, pastscape.org.uk 565 , na qual vários investigadores ligados à área podem aceder gratuitamente 566 . Dunley e a sua equipa estão, juntamente com alguns departamentos do governo britânico, a identificar lacunas e falhas no sistema legislativo que contrarie uma proteção do património subaquático eficiente. O mesmo estabelece contacto com vários investigadores e mergulhadores por todo o Reino Unido, para que lhe enviem registos de mergulho, fotografias, ou mesmo documentação 567 . Na mesma conferência, vários investigadores belgas uniram-se numa tentativa de mapear todo o património subaquático da Primeira Guerra Mundial, com o objetivo de atualizar a base de dados belga presente no site maritime-archeologie-be 568 , acessível em quatro línguas, desde 2006 569 . Segundo vários investigadores belgas, a base de dados em questão fundamentase apenas em informação publicada e documentação arquivística, ignorando o possível contributo de outras áreas científicas como a arqueologia. A equipa presente na conferência mapeou vários naufrágios presentes ao largo da costa belga, apresentando novos dados e contributos de outros profissionais, o que permitiu novas tipologias de mapas e uma inventariação/categorização do património subaquático. Os franceses, no âmbito desta conferência, apresentaram também os seus mais recentes contributos nesta área. Michel L’Hour, porta-voz do Département des Recherches Archéologiques Subaquatiques et Sous-Marines (DRASSM) 570 , apresentou as contrariedades e os progressos da inventariação, localização, mapeamento e proteção do património subaquático 564 Underwater Cultural Heritage From World War I – Proceedings of the Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War I. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/culture/underwater/world-warI.pdf, consultado a 27/06/2015. 565 Disponível em www.pastscape.org.uk, consultado a 27/06/2015. 566 Underwater Cultural Heritage From World War I – Proceedings of the Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War I. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/culture/underwater/world-warI.pdf, consultado a 27/06/2015. 567 Ibidem. 568 Disponível em www.maritime-archeologie-be, consultado a 27/06/2015. 569 Idem, Ibidem. 570 Atualmente, a DRASSM coopera vivamente com a UNESCO, estabelecendo contacto direto com a sua sede em Paris. Criada por André Malraux, a DRASSM foi a primeiro departamento de arqueologia subaquática do mundo, sendo atualmente parte integrante do Ministério da Cultura francês. 103 nas águas de jurisdição francesa, nos últimos 30 anos. Os investigadores franceses possuem uma tarefa árdua, dado que, das 7.000 embarcações afundadas por submarinos alemães, cerca de 2.000 aproximadamente foram afundadas em águas de jurisdição francesa 571 , o que faz com que o DRASSM tenha uma responsabilidade acrescida no âmbito da georreferenciação dos naufrágios da Primeira Guerra Mundial. Atualmente, os arquivos do DRASSM têm a responsabilidade de centralizar os documentos relativos ao património cultural subaquático de origem francesa, seja em águas nacionais ou internacionais. O DRASSM pretende, futuramente, juntar todos os seus naufrágios georreferenciados, além dos mapas arqueológicos nacionais, numa base informática disponível ao grande público, com a nomenclatura Cultural Heritage Atlas 572 . O DRASSM possui também três projetos de uma base de dados de naufrágios georreferenciados: o Archaeological Atlas of Maritime Cultural Remains of the Atlantic Arc; o PALM Atlas (Archæological Heritage of the Mediterranean Littoral: Provence-Alpes-Côte d’Azur); Atlas of the Maritime Cultural Remains of Hérault; e um grande projeto europeu The Atlas of the Two Seas: English Channel and North Sea 573 . Todos estes projetos de georreferenciação estão incluídos numa base de dados enorme, a Patriarche Database, que permite uma visão englobante dos contributos do DRASSM, que emprega tecnologia digital, fontes iconográficas e mapas 574 . Uma das maiores e mais credíveis bases de dados georreferenciados, inerentes aos naufrágios provocados por submarinos alemães da Primeira Guerra Mundial, é sem sombra de dúvidas o uboat.net. A equipa, liderada pelo islandês Gudmundur Helgason, iniciou os seus trabalhos em 1995, dado que não havia quaisquer publicações online sobre a guerra submarina compreendida no período das duas guerras mundiais 575 . A equipa de Gumundur engloba vários investigadores de variadíssimas nacionalidades, como o suíço Rainer Kolbicz 576 , o holandês Brian Corijn 577 , os americanos Brian Viglietti 578 , Yves Dufeil, e Michael Lowrey 579 . A 571 Underwater Cultural Heritage From World War I – Proceedings of the Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War I. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/culture/underwater/world-warI.pdf, consultado a 27/04/2015. 572 DRASM – Explore, Protect, Publicise and Study Humanity’s drowned history. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/culture/underwater/world-warI.pdf, consultado a 27/06/2015. 573 Ibidem. 574 Idem, Ibidem. 575 About the editor. In www.uboat.net, Disponível em http://uboat.net/about/editor.htm, consultado a 28/06/2015. 576 Rainer Kolbicz deu enormes contributos à base de dados da plataforma eletrónica em questão, centrando-se sobretudo na listagem dos feitos militares dos submarinos alemães, recorrendo à análise das cópias microfilmadas dos diários de guerra alemães, fornecidas pelo Deutsches Uboot Museum Archive, sediado em Cuxhaven-Altenbruch, na Alemanha. 577 Brian Corijn centrou-se em inventariar e listar os demais naufrágios dos navios aliados, durante o período das duas guerras mundiais. 578 Brian Viglietti é responsável pela análise da documentação relacionada com os demais incidentes entre submarinos alemães e navios de guerra aliados. 104 plataforma permite-nos aceder a várias listagens sobre os submarinos imperiais alemães, os seus comandantes, os naufrágios que provocaram, o percurso dos submarinos, entre toda uma panóplia de dados categorizados. Uma das mais importantes contribuições desta plataforma eletrónica foi a georreferenciação dos naufrágios provocados pelos submarinos alemães, de acordo com as ferramentas utilizáveis tanto do Google Maps, como do Google Earth. Através do motor de busca, o utilizador pode aceder a variados dados sobre um determinado naufrágio, incluindo a sua georreferenciação, tipologia de navio, carga, peso, causas do seu afundamento, data do seu afundamento, submarino responsável, entre outros aspetos relacionados. A georreferenciação dos naufrágios só foi possível graças à análise das cópias microfilmadas dos diários de guerra alemães, fornecidas pelo Deutsches Uboot Museum Archive. Outra plataforma eletrónica de relevância internacional, é o site wrecksite.eu, a maior base online de naufrágios georreferenciados disponível ao grande público. Nesta plataforma, tal como no uboat.net o utilizador pode aceder a um considerável número de dados e factos sobre um determinado naufrágio, seja qual for efetivamente o período histórico aquando o seu afundamento. Possuí 1801 cartas marítimas, incluindo 54 cartas portuguesas que assinalam vários naufrágios mapeados ao longo da costa portuguesa, incluindo os da Primeira Guerra Mundial 580 . 4.2.1 - O “Projeto U-35”, do CINAV O “Projeto U-35” é absolutamente pioneiro em Portugal, e exemplar no contexto mundial, como é visível na Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War One de 2014 581 . Segundo o Relatório de Trabalhos de 2014 582 , podemos aceder aos objetivos e metas alcançadas pelo CINAV. Os principais objetivos do “Projeto U-35” visam sobretudo a localização do veleiro italiano Bieneimé Prof. Luigi, afundado pelo U-35 em 24 de abril de 1917; efetuar o levantamento dos três destroços alegadamente correspondentes aos três outros navios afundados pelo U-35 no dia 24 daquele mês: SS Torvore, SS Nordsøen e SS Vilhelm Krag; analisar o testemunho material para confirmar ou descartar a relação destroço- 579 Estes dois últimos programadores informáticos, para além de arquitetarem as bases de dados do site www.uboat.net, empreenderam uma considerável investigação em torno da perda dos submarinos alemães, e conteúdos biografias relacionados com os comandantes dos U-boats alemães. 580 Serviço Hidrográfico de Portugal. In www.wrecksite.eu, Disponível em http://www.wrecksite.eu/chartInfo.aspx?19, consultado a 28/06/2015. 581 Underwater Cultural Heritage From World War I – Proceedings of the Scientific Conference on the Occasion of the Centenary of World War I. In www.unesco.org, Disponível em http://www.unesco.org/culture/underwater/world-warI.pdf, consultado a 27/04/2015. 582 AA.VV. – Project U-35. Relatório de Trabalhos de 2014. Lisboa: CINAV, 2005. 105 navio; contribuir com dados para o projeto “The Stroke Project” 583 ; e propor um projeto de fruição, divulgação e salvaguarda 584 . No Relatório de Trabalhos de 2014, num jeito conclusivo, a equipa do CINAV fala-nos como entreviu e investigou os naufrágios mencionados acima, assim como a busca pelo quarto navio afundado naquele dia, o veleiro italiano Bieneimé Prof. Luigi. Para a identificação dos destroços correspondentes aos três vapores localizados, a equipa do CINAV desenvolveu uma metodologia diferente para cada um, muito influenciada nos preceitos de David M. Vanzandt, presentes na tese de mestrado A Systematic Method for the Identification of Historic Era Shipwrecks, um dos mais recentes contributos neste sentido 585 . Para o Torvore a equipa do CINAV desenvolveu e testou novas metodologias de registo de naufrágios no âmbito nacional, recorrendo a um método de mapeamento arqueológico nomenclado Base Line and Offset 586 , a um registo geofísico de multifeixe 587 , com a ajuda da empresa Subnauta 588 , comparação das cristas geomorfológicas dos locais de afundamento e emprego do método destroço-navio 589 . O naufrágio Vilhelm Krag, não foi ainda alvo de análise ou registo material, sendo este um dos objetivos a concretizar a curto prazo. O CINAV envolveu várias instituições para os vários fins do “Projeto U-35”. No que toca à salvaguarda e fruição dos naufrágios localizados, a mesma estabeleceu uma parceria com a Global Underwater Explorers (GUE), que através do projeto local Baseline Torvore, ambas as instituições pretendem desenvolver um projeto de monitorização do destroço. Neste projeto é compreendido o seu aspeto histórico-material, mas também biológico e ecológico, dando outra dimensão ao “Projeto U-35” 590 . O CINAV envolveu por sua vez o tecido empresarial local, recebendo apoios das unidades hoteleiras da região e mesmo de algumas unidades de restauração, que ajudaram a economizar os processos de investigação da equipa. Este projeto capitalizou igualmente empresas de mergulho locais, como a Subnauta, e Ocean Revival, potenciando o seu material e os seus recursos humanos. O “Projeto U-35” recebeu apoios 583 O “Stroke Project” é um projeto desenvolvido pelo investigador do CINAV, Jorge Russo, que pretende investigar o naufrágio SS Dago, que foi afundado na Segunda Guerra Mundial ao lado de Peniche, em 1942. 584 AA.VV. – Project U-35. Relatório de Trabalhos de 2014. Lisboa: CINAV, 2005, p 7. 585 VANZANDT, David M. - A Systematic Method for the Identification of Historic Era Shipwrecks. Adelaide, South Australia: Flinders University, 2009. Master’s thesis. 586 Técnica de mapeamento recorrente entre os arqueólogos subaquáticos, que tem como fim calcular a distância entre um ponto fixo costeiro e um naufrágio. 587 Através de vários programas informáticos é possível reconstituir as imediações geofísicas em redor de um naufrágio, em três dimensões. O registo de geofísica de multifeixe permite um novo tipo de intervenção em torno do naufrágio, e mesmo desempenho do arqueólogo subaquático. 588 Empresa portuguesa especializada em mergulho técnico e trístico, sediada em Portimão. 589 Na arqueologia subaquática, a técnica destroço-navio permite comprovar a verdadeira identidade de um determinado naufrágio, recorrendo a um comparação entre os artefactos e destroços resgatados e o naufrágio. 590 AA.VV. – Project U-35. Relatório de Trabalhos de 2014. Lisboa: CINAV, 2005, p 89. 112 (1917) 607 , apresenta uma grande compilação de filmagens das incursões submarinas do comandante alemão Lothar von Arnauld de la Perière a bordo do U-35, o comandante de submarinos alemão mais bem-sucedido da Primeira Guerra Mundial. Tencionamos elaborar um pequeno guia adaptado para este filme, traduzindo para a língua portuguesa o guia oficial desta película disponibilizado pela Lloyd’s Register of Shipping e pelo Imperial War Museum de Londres 608 . O filme possui duas versões, uma alemã 609 e outra inglesa 610 , pelo que optámos por disponibilizar as duas. No site oficial do Imperial War Museum podemos aceder às duas versões cinematográficas gratuitamente. 607 BRENNERT, Hans – Der Magische Grutel. Alemanha:Bild-und Film Amt (BUFA), 1917. 608 First World War U-boat – A Guide to the Video (Der Magische (The Echanted Circle) (1917) and The Exploits of a german Submarine (U.35) Operating in the Mediterranean (1919). London. Lloyd’s Register of Shipping on behalf of the Imperial War Museum, 2000. 609 Der Magische Grütel (Main Title). In www.iwm.org.uk, Disponível em http://www.iwm.org.uk/collections/item/object/1060008290, consultado a 15/07/2015. 610 The Exploits of a German Submarine (U-35) Operating in the Mediterranean (Main Title). In www.iwm.org.uk, Disponível em http://www.iwm.org.uk/collections/item/object/1060023104, consultado a 15/07/2015. 113 5.2 - Área temática – A guerra submarina alemã e Portugal (1916-1918) Esta área temática aporta uma dinâmica mais específica e uma maior pormenorização dos factos históricos ligados à frente marítima portuguesa. Em primeiro lugar, pretendemos, através de painéis expositivos, estabelecer uma pequena cronologia que compila os ataques dos submarinos alemães mais relevantes, verificados no período 1916-1918. Alguns ataques alemães merecem uma descrição textual mais consistente e descritiva nos painéis expositivos, como é o caso dos seguintes selecionados: os dois ataques à Madeira verificados a 3 de dezembro de 1916, pelo U-38, e a 12 de dezembro de 1917, pelo U-155; o ataque a Ponta Delgada a 4 de julho de 1917, pelo U-155; e o ataque ao porto de S. Vicente (Cabo Verde) a 2 de novembro de 1917, pelo U-151. Para acompanhar a pequena descrição textual destes ataques selecionados, planeamos adicionar várias fontes iconográficas da época que testemunham estes mesmos confrontos. O suplemento A Ilustração Portuguesa, do periódico O Século, apresenta inúmeras imagens dos danos materiais e humanos destas mesmas ofensivas alemãs, como é o caso da sua edição do dia 20 de agosto de 1917, que apresenta algumas fotografias do ataque verificado a 4 de julho de 1917, no Funchal 611 . Nesta edição podemos verificar, através das imagens exibidas, os danos materiais e humanos que o submarino provocou à comunidade funchalense. Fig. 11 - A Ilustração Portuguesa, edição de 20 de agosto de 1917. Destroços provocados pelo U-155, após o ataque a Ponta Delgada. 611 A Ilustração Portuguesa, 20 de agosto, p.145. 114 Fig. 12 - A Ilustração Portuguesa, edição de 1 de janeiro de 1917. Naufrágios consequentes do ataque do submarino U-38 ao Funchal 612 . Usaremos fotografias e imagens da época, que apresentem os maiores naufrágios provocados por submarinos alemães, o seu número e distribuição por anos. Selecionaremos algumas embarcações, pelas suas perdas materiais e humanas. Optámos pelos seguintes naufrágios: o cargueiro norueguês Terje Vikken, por se tratar efetivamente do primeiro naufrágio causado por um submarino alemão em águas portuguesas; o grande couraçado francês Suffren, devido ao facto de ter sido o maior navio afundado nas nossas águas, e um dos maiores em toda a Primeira Guerra Mundial 613 ; os navios Surprise, Kanguroo e Dacia, por terem sido afundados no ataque ao Funchal, a 3 de dezembro de 1916; os navios Nordsøen, Vilhelm Krag, Torvore e Bien Aimé Prof. Luigi, por serem naufrágios investigados atualmente pelo CINAV, e por protagonizaram um dos ataques mais singulares vividos na nossa costa; e por último os cargueiros brasileiros Acary e Guahyba, afundado pelo U-151, a 2 de novembro de 1917, no porto de S. Vicente. Pretendemos, no painel dispositivo, apresentar várias componentes do naufrágio, incluindo: nome do navio, data do afundamento, submarino responsável, número de mortes, rota quando o naufrágio, localização geográfica, carga, tonelagem, operadora e nacionalidade. O visitante, ao ter acesso a uma pequena caixa de texto descritiva e a estes dados, poderá ter uma melhor noção sobre a frente marítima portuguesa. Adjacente à cronologia e às descrições textuais dos ataques alemães, pretendemos juntar mais elementos fotográficos. Através dos diários de guerra alemães microfilmados que 612 A Ilustração Portuguesa, 1 de janeiro de 1917, p.6. 613 Ships hit by U-boats during WWI - Largest Ships sunk or damgaged, Disponível em http://www.uboat.net/wwi/ships_hit/largest.html, consultado a 16/08/2015. 115 dispomos, enviados pelo Deutsches Uboot Museum Archive, sediado em Cuxhaven-Altenbruch (Alemanha), pretendemos expor fotografias alusivas aos percursos dos U-boats que navegaram perto da costa portuguesa, ou mesmo confirmações dos ataques mencionados em acima. No final de cada diário de guerra obtido, verificámos que estes continham um mapa náutico que apresenta o percurso empreendido pelos submarinos em questão. Fig. 13 - Mapa náutico do percurso do submarino U-52, realizado entre 14 a 19 de abril de 1917 614 . Fig. 14 – Mapa náutico do percurso do submarino U-155, realizado entre março e abril de 1918 615 . 614 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.52“. für die Zeit der Vernunternehmung von 16.März – 27. April 17.Kapitänleutnant Walther (Hans), p.37. 615 DUMA/C-A – Bermerkungen zum Kriegstagebuch U 155. Kommandant : Korvet tenkapi tän Eckelman – Unternehmung von 14. Januar 1918 bis 4. Mai 1918, p.94. 116 Fig. 15 – Mapa náutico do percurso do submarino UC-37, empreendido entre 2 a 7 de Janeiro de 1917 616 . Um dos confrontos mais icónicos da guerra submarina alemã foi sem dúvida o combate entre o U-139 e ao caça-minas NRP Augusto de Castilho, que pretendemos expor nesta exposição. Mais uma vez, no sentido de dinamizar a nossa proposta de mediação, propomos a conjugação de três elementos: um corpo textual descritivo presente num painel expositivo (breve descrição do combate luso-germânico), a colocação de imagens da época neste mesmo painel e a exibição de filmagens que testemunham o acontecimento em questão. Quanto à exibição dos testemunhos cinematográficos, relativos ao combate, podemos aceder a uma curtametragem retirada de um documentário alemão 617 , que está disponibilizada na Cinemateca Digital, proporcionada pela Cinemateca Portuguesa 618 . O visitante terá acesso aos testemunhos cinematográficos que retratam a guerra submarina vivida nas nossas águas, alcançando assim uma nova visão sobre a frente marítima portuguesa. Outro elemento que apresenta um papel preponderante nesta área temática será a exposição dos naufrágios georreferenciados, recorrendo aos vários mapas proporcionados pela 616 DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.C.37“.Kommandant Oberleutnant z.See Launberg – Angefangen am: 25.Dezember.1916. Abgeschlossen am:12.Januar 1917, p.23. 617 Como já mencionamos nesta dissertação de mestrado, o comandante alemão Lothar von Arnauld de la Perière tinha um cameraman incorporado na sua tripulação, tanto no U-35, como no U-139. O seu cameraman registou vários momentos do ataque ao Augusto de Castilho a 13 de outubro de 1918, expondo-o num documentário cujo título desconhecemos. 618 Cinemateca Digital – Vídeo – Afundamento do Augusto de Castilho. In www.cinemateca.pt, Disponível em http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=2261&type=Video, consultado a 21/04/2015. 117 MAPoteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto 619 , assim como a imagens retiradas a título próprio do Google Maps. Os mapas apresentam uma sequência cronológica e regional. A sequência cronológica exibe mapas desde o começo da guerra entre a Alemanha e Portugal, em 1916, até ao ano de 1918, que culmina num quarto mapa com a apresentação dos 176 naufrágios que conseguimos georreferenciar, durante este mesmo período. As imagens elaboradas a título próprio, através do Google Maps, permitem ao visitante compreender o modo como georreferenciamos e mapeamos os naufrágios, fornecendo também uma visão e uma perspetiva diferente. Fig. 16 – Georreferenciação dos naufrágios afundados em 1916, com o recurso ao Google Maps. A sequência de mapas de cariz regional, visa focar algumas das zonas marítimas mais afetadas pela ação dos submarinos alemães, entre os quais escolhemos as seguintes imediações marinhas: largo de Lisboa, largo do Porto, largo de Esposende, largo do Algarve, largo dos Açores e largo da Madeira. Para focar este aspeto analítico, serão exibidos mapas, proporcionados pela MAPoteca, que foquem estas mesmas imediações marítimas, além dos dados georreferenciados no Google Maps. Para concluir a estruturação desta área temática, pretendemos apresentar vários gráficos e dados estatísticos que demonstrem o número de perdas materiais e humanas, fruto da guerra submarina vivida nas águas portuguesas. Os mesmos elementos serviram para quantificar as baixas provocadas pelos submarinos alemães mais bem-sucedidos na nossa costa. Para este efeito selecionamos três U-boats: o U-38, o U-35 e o U-155. Os comandantes dos três 619 Os mapas aqui evidenciados estão presentes em anexo. 118 submarinos selecionados (Max Valentiner, Lothar von Arnauld de la Perière e Karl Meussel) merecerão uma pequena biografia, na qual se focará nos seus maiores feitos militares durante a Primeira Guerra Mundial. 119 5.3 Área temática – Esposende, guerra submarina alemã e os seus impactes A área temática em questão apresenta-se como a mais importante de todas, pois Esposende e a guerra submarina é o grande foco de toda esta proposta de mediação, que se relaciona com a realidade local. Esta área temática apresenta três vetores essenciais, que assim estruturam a mesma: Esposende na Primeira Guerra Mundial; O Abastecimento de Submarinos alemães; e Esposende – Uma comunidade afetada pela Guerra Submarina Alemã. Os painéis expositivos relativos a Esposende na Primeira Guerra Mundial tentam contextualizar a comunidade esposendense no período em questão, espelhando a sua realidade socioeconómica. Desejamos também apresentar dados relativos à vila de Esposende na época, apresentando dados demográficos, principais atividades económicas e culturais, planta da vila, pontos de comércio entre outras componentes. Aqui desejamos apresentar elementos que estabeleçam um fio condutor entre as dificuldades socioeconómicas e o caso de abastecimento de submarinos vivido nos inícios de maio de 1917. Para esse efeito compilamos algumas notícias do periódico O Espozendense que refletem os demais casos de contrabando, fome, roubo e atividades policiais vividas na vila de Esposende. Como vimos, o contrabando de géneros alimentares era regular na região, pelo que o visitante poderá ter essa perceção nesta seção da área temática Esposende e a guerra submarina alemã na Primeira Guerra Mundial. A somar, seria relevante evidenciar por sua vez os géneros alimentares produzidos na região, relacionando-os mais tarde com os hábitos alimentares e de produção da agrícola local. A seção O Abastecimento de Submarinos Alemães – tem como principal objetivo apresentar o episódio histórico vivido nos inícios de maio de 1917, em Esposende. Tencionamos recorrer a uma descrição mais elaborada, na qual o visitante poderá reter várias informações sobre o que efetivamente ocorreu nesta data. Este corpo textual apesar de mais elaborado e descritivo, não pode apresentar-se excessivamente longo. Para dinamizar corpo textual aqui mencionado, serão anexadas várias imagens que documentam as notícias dos vários periódicos que analisamos ao longo desta dissertação. Ao compilarmos, iconograficamente, as notícias mais relevantes dos periódicos O Espozendense, Gazeta de Braga, O Comércio do Porto, O Século, O Primeiro de Janeiro e Diário de Notícias, o visitante poderá compreender de um modo mais satisfatório a dimensão deste episódio histórico na imprensa da época. Será também interessante uma comparação entre as fontes periódicas aqui selecionadas, dada a faciosidade regionalista verificada no periódico O Espozendense, que renega quaisquer acusações contra o povo de Esposende. A “voz” dos meios de comunicação locais e a sua respetiva opinião, terão seguramente uma representatividade nesta proposta de mediação. 120 Fig. 17 – Notícia retirada do periódico Gazeta de Braga, na sua edição de 13 de maio de 1917 620 . Fig. 18 – Notícia retirada do periódico O Espozendense, na sua edição de 10 de maio de 1917 621 . 620 Gazeta de Braga, 13 de maio de 1917, p.3 621 O Espozendense, 10 de maio de 1917, p.2. 121 Fig. 19 – Notícia retirada do periódico O Espozendense, na sua edição de 3 de maio de 1917 622 . Numa segunda ocasião, planeamos apresentar um quadro que esquematiza toda a relação de clientela averiguada neste evento histórico, que é fruto das dificuldades socioeconómicas vividas na região. Pretendemos explicitar a proliferação do contrabando do fomento dos açambarcadores e da economia paralela, tanto a nível regional como nacional, partindo depois para um caso particular: o de Esposende. O quadro esquemático visa uma pequena descrição, que especifique a função de cada um dos elementos articulados na rede de contrabando em questão, ampliando igualmente as notícias extraídas e as atas municipais, que evidenciam casos de contrabando na região. Quanto aos intermediários de contrabando espanhóis, arquitetaremos uma compilação de notícias recolhidas nos periódicos aqui mencionados, que evidenciem a atividade destes agentes na região, para além de mencionarmos os novos contributos historiográficos em torno desta questão. A seção Esposende – Uma comunidade afetada pela Guerra Submarina Alemã, apresenta alguns elementos no sentido de uma conclusão sobre a atividade dos agentes bélicos germânicos. As nossas notas reflexivas sobre o caso ocorrido em Esposende preencheram os painéis expositivos desta seção, tentando, tanto quanto possível, aludir à interpretação do visitante. Pretendemos expor uma notícia do periódico O Cávado, que confirma que os submarinos faziam parte do quotidiano dos esposendenses. Ao expormos esta notícia na íntegra, o visitante terá uma nova perceção sobre a relação entre as comunidades costeiras portuguesas e 622 O Espozendense, 3 de maio de 1917, p.2. 128 Referências Fontes documentais: DUMA/C-A – Kriegstagebuch – S.M. Unterseeboot „U.47“. Kommandant: Kapitänleutant Metzger – Angefangen am: 1.mai. Abgeschlossen am:8. juni 1917. DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.52“. für die Zeit der Vernunternehmung von 16.märz – 27. april 17.Kapitänleutnant Walther (Hans). DUMA/C-A – Kriegstagebuch - S.M.U-Boot „U.79.“. Kommandant: Kapitänleutnant Jeß - Angefangen am: 21. dezember.1916.Abgeschlossen am:28. januar 1917. DUMA/C-A – Kriegstagebuch – „UC 37“. Kommandant: Kapitänleutnant Schultz – vom 3.april bis 3. mai 1917. DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.C.37“.Kommandant Oberleutnant z.See Launberg – Angefangen am: 25.dezember.1916. Abgeschlossen am:12.januar 1917. DUMA/C-A – Kriegstagebuch – „UC 53“. Kommandant: Kapitänleutant Albercht , Kurt. Für die Zeit vom 27. mai bis 24. juni 1917. DUMA/C-A - Kriegstagebuch - S.M.U-Boot „U.35.“.(Kommandant: Kapitanleutant v. Arnuald) – für die Ziet vom 31. März bis 6. Mai 1917. DUMA/C-A –Kriegstagebuch – des Kommandos S.M.U-Boot „U.38“. Kommandant Kapitänleutant Valentiner – Angefangen am: 1.november 1916. Abgeschlossen am: 23. dezember 1916. DUMA/C-A – Bermerkungen zum Kriegstagebuch U 155. Kommandant : Korvet tenkapi tän Eckelman – Unternehmung von 14. januar 1918 bis 4. mai 1918. ACME - Atas de Câmara - Livro nº 37 – Atas - outubro de 1915 a julho de 1917. ACME - Atas de Câmara - Livro nº 38 – Atasagosto de 1917 a novembro de 1918. 129 Fontes Periódicas: A Capital, 5 de maio de 1917, p.2. A Ilustração Portugueza, 6 de março de 1916, p.294. A Ilustração Portugueza, 24 de abril de 1916, p.514. A Ilustração Portugueza, 11 de dezembro de 1916, p.465. A Ilustração Portugueza, 18 de dezembro de 1916, p.486. A Ilustração Portugueza, 1 de janeiro de 1917, p.6. A Ilustração Portugueza, 20 de agosto de 1917, p.145. A Ilustração Portugueza, 28 de outubro de 1918, p.347. A Ilustração Portugueza, 3 de dezembro de 1917, p.447. Diário de Notícias, 1 de maio de 1917, p.2. Gazeta de Braga, 13 de maio de 1917, p.3. O Cávado, 29 de julho de 1917, p.3. O Cávado, 14 de outubro de 1917, p.3. O Comércio do Minho, 8 de maio de 1917, p.2. O Comércio do Porto, 4 de novembro de 1916, p.3. O Comércio do Porto, 5 de novembro de 1916, p.3. O Comércio do Porto, 9 de novembro de 1916, p.3. O Comércio do Porto, 5 de dezembro de 1916, p.3. O Comércio do Porto, 6 de dezembro de 1916, p.3. O Comércio do Porto, 10 de dezembro de 1916, p.4. O Comércio do Porto, 12 de dezembro de 1916, p.3. O Comércio do Porto, 4 de janeiro de 1917, p.3. O Comércio do Porto, 20 de março de 1917, p.4. O Comércio do Porto, 4 de maio de 1916, p.1. 130 O Comércio do Porto, 5 de maio de 1916, p.1. O Espozendense, 18 de janeiro de 1917, p.1. O Espozendense, 1 de março de 1917, p.3. O Espozendense, 26 de abril de 1917, p.2. O Espozendense, 3 de maio de 1917, p.2. O Espozendense, 10 de maio de 1917, p.2. O Espozendense, 24 de maio de 1917, p.2. O Espozendense, 12 de julho de 1917, p.2. O Espozendense, 11 de outubro de 1917, p.2. O Primeiro de Janeiro, 1 de maio de 1917, p.2. O Primeiro de Janeiro, 2 de maio de 1917, p.2. O Primeiro de Janeiro, 5 de maio de 1917, p.1. O Primeiro de Janeiro, 6 de maio de 1917, p.1. O Século, 1 de maio de 1917, p.1. O Século, 3 de maio de 1917, p.1. 131 Eletrónicas: About the editor. 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Lisboa: Editorial Verbo. 144 Fig.22 Fig. 23 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Número de naufrágios provocados por mês , ao largo da costa portuguesa, no ano de 1916 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 Número de naufrágios provocados por mês , ao largo da costa portuguesa, no ano de 1917 145 Fig. 24 Fig. 25 Averiguando as perdas humanas na baliza cronológica analisada, de acordo com as bases de dados das plataformas eletrónicas uboat.net e wrecksite.eu, entre outras fontes bibliográficas e periódicas, verificamos que os submarinos provocaram a morte de 834 homens 0 2 4 6 8 10 12 14 Número de naufrágios provocados por mês , ao largo da costa portuguesa, no ano de 1918 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 1916 1917 1918 Número de naufrágios provocados por mês ao largo da costa portuguesa, de Abril de 1916 a Novembro de 1918 146 na frente marítima portuguesa 650 . Cremos que aproximadamente 77 % 651 destes pereceram quando o submarino U-52 torpedeou o grande couraçado francês Suffren, no dia 25 de novembro de 1916, ao largo de Lisboa. Outro incidente que registou um número substancial de mortos foi o ataque ao navio francês Surprise, que estava ancorado no porto funchalense aquando o ataque do U-38, a 3 de dezembro de 1916. Segundo as fontes analisadas, 35 tripulantes pereceram nesta ofensiva. Quanto às perdas humanas verificadas em terra, fruto da ação submarina, não encontramos perdas significativas. Apenas registamos 5 mortos, no segundo ataque alemão ao Funchal pelo U-155, a 12 de novembro de 1917, como o autor Rui Cardoso confirma 652 . Quanto ao número de portugueses mortos na frente marítima, dispomos do número de António José Telo, que alega que 23 portugueses foram vítimas na frente marítima portuguesa. Os afundamentos dos dois caça-minas NRP Roberto Ivens e NRP Augusto de Castilho provocaram a morte de 21 marinheiros portugueses, e a queda de um hidroavião de patrulha da marinha portuguesa provocou a morte de 2 pilotos da mesma nacionalidade 653 . Quanto às perdas estrangeiras, como anteriormente evidenciamos, não existem quaisquer estudos ou apontamentos bibliográficos na historiografia nacional, que retratem este assunto. O CINAV, como vimos, desenvolveu importantes estudos em torno de quatro navios estrangeiros (Torvore, Vilhelm Krag, Norsøen e Bieneimé Prof. Luigi), no entanto não dispomos de outro tipo de menções bibliográficas significativas respetivas a este aspeto. Nesta dissertação tentamos dar um novo contributo neste sentido, como é visível na Fig.25.Segundo conseguimos apurar nos 176 naufrágios analisados, os britânicos foram os mais prejudicados em águas portuguesas, com uma perda de 33 navios. Em segundo lugar foram os noruegueses com uma perda de 23 navios. Há que frisar o facto de que a Noruega teria, em 1913, a quarta maior marinha mercante do mundo 654 . Segundo o historiador norueguês Jan Normann Knutssen, a Noruega, apesar da sua neutralidade na Grande Guerra, perdeu cerca de 49 % da sua Marinha Mercante, perecendo também 2.000 marinheiros noruegueses 655 . Segundo o mesmo autor, a Noruega sofreu o maior número de baixas civis no mar, em comparação com qualquer outro país beligerante 656 . Em terceiro lugar estão os italianos, com uma perda de 18 embarcações em 650 Este número remete apenas às mortes registadas no mar. Este número é uma mera aproximação, dada a escassa informação recolhida em torno de alguns naufrágios neste sentido. No entanto, cremos que este número, apesar de contabilizar uma boa parte dos mortos registados ao longo da nossa costa, possa assumir um número maior. 651 Esta percentagem corresponde a 648 mortos. 652 CARDOSO, Rui; RAMALHO, Margarida Magalhães; MARQUES, Ricardo – A Primeira Guerra Mundial. Livro Extra sobre a Participação de Portugal. Lisboa: Esfera dos Livros, 2014, vol.7, p. 77. 653 ANICETO, Afonso; GOMES, Carlos de Matos – Portugal e a Grande Guerra – 1918 – 1919.O Fim da Guerra. Vila do Conde: Verso da História, 2014, vol.5, p. 79. 654 PIRES, Ana Paula – Portugal e a I Guerra Mundial. A República e a Economia de Guerra. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2011, p. 76. 655 KNUTSEN, Jan Normann – Norway in the First World War. Poznan: Folia Scandinavica, 1999.vol. 5, p. 57. 656 Ibidem. 147 águas portuguesas. Outras nações apresentam uma considerável representatividade nos naufrágios analisados, como é o caso da França que perde 13 navios, dos Estados Unidos, 8 navios naufragados, e, finalmente a Dinamarca e a Grécia com 6 naufrágios, respetivamente. No que toca às perdas portuguesas nas suas próprias águas, contabilizamos 58 embarcações afundadas por submarinos alemães, o que perfaz um total de 33 % do total dos naufrágios apurados. Fig.26 – Nacionalidade dos naufrágios afundados na frente marítima portuguesa (1916-1918) Para compreendermos a dimensão das perdas ocorridas na frente marítima portuguesa, tentamos aprimorar a tipologia dos 176 navios afundados. Concluímos que 96 naufrágios, dos quais conseguimos identificar o tipo de propulsão, eram efetivamente cargueiros ou navios a vapor, que na sua maioria eram estrangeiros, que deslocariam por sua vez entre 1.000 a 7.500 toneladas. O cargueiro francês Champlain 657 , de 7.418 toneladas, ou o cargueiro norueguês Benguela 658 , de 4.612 toneladas, são exemplos de grandes navios de carga afundados. Os veleiros e as escunas apresentam uma representatividade considerável, com 35 exemplares 657 Grande cargueiro francês afundado a 124 milhas a oeste do Cabo Mondego, pelo submarino UB-128 de Wilhelm Canaris, a 21 de agosto de 1918. 658 Cargueiro norueguês afundado ao largo de Ponta Delgada, a 30 de junho de 1917, pelo U-155 de Karl Meussel. 5% 2% 18% 3% 2% 8% 4% 11% 13% 34% Americanos - 6 naufrágios Brasileiros - 3 naufrágios Britânicos - 31 naufrágios Dinamarqueses - 6 naufrágios Espanhóis - 3 naufrágios Franceses - 13 naufrágios Gregos - 6 naufrágios Italianos - 19 naufrágios Noruegueses - 22 naufrágios Portugueses - 58 naufrágios Outros nacionalidades - 5 naufrágios 148 identificados 659 . Os navios ligados ao setor das pescas, incluindo iates, escunas, traineiras, palhabotes e outros tipos e navios, apresentam perdas significativas, com 20 casos verificados. No entanto verificamos que grande parte dos navios portugueses naufragados eram sobretudo veleiros, escunas, traineiras, iates, palhabotes, lugres, caíques e entre outro tipo de embarcações que empregavam o uso da vela. Dos 58 navios portugueses afundados ao largo da costa da mesma nacionalidade, só apenas 14 navios aplicavam a força do vapor, como os vapores Neptuno e os vapores de pesca Serra do Marão e Serra do Pilar, representativos do que era, afinal, a frota portuguesa. Segundo a Fig.27, os navios a vapor apresentam uma percentagem ligeiramente superior, muito devido à presença de grandes vapores estrangeiros em águas de jurisdição portuguesa. Cerca de 69 % dos navios estrangeiros empregavam propulsão a vapor, num total de 128 navios com propulsão apurada. Apenas 39 navios estrangeiros naufragados empregavam a força da vela nas suas embarcações, aquando a passagem pelas águas portuguesas. Fig.27 – Propulsão dos naufrágios provocados por submarinos alemães ao largo da costa portuguesa, entre 1916-1918 660 . 659 Este valor é uma mera aproximação, dado que a verdadeira tipologia de muitos navios não está devidamente apurada. Os navios à vela aportam um manancial tipológico considerável, que por vezes mostra-se difícil de apurar. 660 Foi-nos muito difícil detetar quais os navios mistos, muito devido à incoerência das fontes consultadas. Conseguimos apenas diferenciar a propulsão dos navios a vela e os navios a vapor. 55% 45% Navios a vapor (cargueiros, transatlânticos, petroleiros, vapores de pesca, navios de guerra entre outros) Navios a vela (veleiros, caíques, lugres, escunas, brigantinas, barcos de pesca, iate, entre outros) 149 Fig.28 – Propulsão dos naufrágios provocados por submarinos alemães ao largo da costa portuguesa, entre 1916-1918. Outro ponto a considerar será apurar que rotas estes navios tomavam para navegarem em águas portuguesas. Partindo desta questão, queremos frisar o facto de que Portugal e as suas respetivas parcelas insulares no Atlântico eram preponderantes a nível estratégico e ponto de escala portuária. Ana Paula Pires reforça esta ideia, afirmando que, em 1914, Portugal detinha o sétimo lugar entre os países com maior provimento portuário. Os portos nacionais moviam cerca de 40.182.000 toneladas por ano, sendo que metade desta tonelagem era transportada por navios portugueses 661 . Portanto, mesmo antes da beligerância mundial, Portugal era já um destino portuário considerável. Por norma, os comandantes alemães apontavam as rotas dos navios que destruíam, após a apreensão dos documentos do comandante do navio naufragado. Graças a este procedimento, podemos compreender as demais rotas dos navios naufragados na nossa costa 662 . De acordo com as rotas apuradas, 40 navios naufragados partiram do Reino Unido ou de cidades portuárias nas suas extensões coloniais. Portos como Bombaim, Calcutá, Londres, Liverpool, Barry, Swansea, Malta e Gibraltar apresentam-se como pontos de partida para muitos navios. Em segundo lugar, encontramos os portos americanos (Filadélfia, Nova Iorque, Nova Orleães, Baltimore entre outros), com 23 casos registados. Em seguida temos a preponderância dos portos espanhóis (Huelva, Sevilha, Barcelona, Mellila, Cádis e Málaga), com 17 navios registados. Com alguma representatividade encontramos os portos franceses (Marselha, 661 PIRES, Ana Paula – Portugal e a I Guerra Mundial. A República e a Economia de Guerra. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2011, p. 74. 662 A plataforma eletrónica www.uboat.net dispõe destas mesmas rotas, incluindo os pontos de chegada e partida. Navios a Vapor 70% Navios a Vela 30% 150 Bordéus, Le Havre, entre outros), com 15 casos registados, tanto do espaço metropolitano como das suas extensões coloniais, e os portos italianos (Génova, Livorno, Savona, entre outros), com 12 embarcações. Apenas 15 dos naufrágios analisados provieram de portos portugueses, com preponderância para Lisboa, Porto e Madeira. Tabela 3 – Pontos de partida dos naufrágios afundados por submarinos alemães ao largo da costa portuguesa, entre 1916-1918. Pontos de Partida Naufrágios Baltimore 2 Bordéus 5 Buenos Aires 4 Cádis 6 Calcutá 2 Filadélfia 4 Génova 6 Huelva 2 Lisboa 9 Liverpool 3 Málaga 2 Londres 4 Nova Iorque 6 Norfolk 2 Nova Orleães 4 Portland 3 Porto 3 Swansea 2 St. John’s, Newfoundland 3 Outros portos 58 Analisados os pontos de partida, vejamos os pontos de chegada. Mais uma vez o Reino Unido e o seu império apresentam-se em primeiro lugar, onde 33 dos naufrágios analisados se dirigiam aos portos britânicos, com especial destaque para Gibraltar e Barry, no País de Gales. Portugal surge em segundo lugar, dado que 24 navios se destinavam a Lisboa, Porto, Viana do Castelo, Figueira da Foz, Faro, Setúbal e Madeira. Em seguida, temos os portos franceses com 22 casos. Destacamos a posição de Gibraltar, que marcaria um papel importante na coordenação 151 das operações mediterrânicas para os britânicos, dado que umas partes consideráveis destes naufrágios dirigiam-se para este porto. Tabela 4 – Pontos de chegada dos naufrágios afundados por submarinos alemães ao largo da costa portuguesa, entre 1916-1918. Pontos de Chegada Naufrágios Barry 4 Bordéus 2 Dakar 4 Filadélfia 2 Génova 6 Hamtpon 2 Lisboa 9 Málaga 1 Londres 4 Madeira 5 Marselha 5 Nápoles 2 Nova Iorque 6 Norfolk 1 Nova Orleães 1 Porto 5 Ruão 2 St. John’s, Newfoundland 4 Outros portos 56 Concluindo, a articulação dos fluxos mercantis entre alguns países europeus, como a França ou o Reino Unido com as suas extensões coloniais, assim os percursos náuticos entre como os Estados Unidos e a Europa, vão ao encontro das águas portuguesas. A costa continental portuguesa era um ponto de confluência de numerosas rotas marítimas, como Ana Paula Pires nos demonstra na sua obra Portugal e a I Guerra Mundial. A República e a Economia de Guerra 663 , mas também de palcos de guerra. Os grandes palcos da guerra submarina da Primeira Guerra Mundial foram o Mar do Norte (em especial em torno das Ilhas Britânicas), o Golfo da Biscaia, o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrânico. Portugal seria o elo de ligação 663 PIRES, Ana Paula – Portugal e a I Guerra Mundial. A República e a Economia de Guerra. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2011. 152 entre estes palcos, confluindo a seguinte tríade: Golfo da Biscaia – Oceano Atlântico – Mar Mediterrâneo. As águas portuguesas seriam, portanto, um ponto de passagem para muitos navios e transatlânticos, assim como submarinos alemães. Os U-boats alemães, atraídos pelos fluxos de navios aliados no atlântico, tentavam estrangular as comunicações entre as metrópoles britânicas e francesas e seus respetivos os impérios coloniais, assim como as comunicações Europa-América. A costa portuguesa e as suas parcelas insulares atlânticas teriam portanto, do ponto de vista estratégico, um papel importante numa perspetiva estratégica e militar, tanto para os aliados como para os alemães. Conseguimos também, através da plataforma uboat.net, ter conhecimento da carga que alguns dos naufrágios transportavam, acrescentando assim mais um dado relevante. As tripulações alemãs saqueavam alguns dos navios apreendidos antes de os naufragar com explosivos ou tiros de canhão, acedendo assim a alguns géneros alimentares em alto-mar, como aconteceu com as embarcações de pesca portuguesas Restaurador, Primeira Flor d’Abril, Santa Rita Segunda e Senhora do Rosário, que transportavam peixe 664 . Após o saque, os comandantes dos submarinos alemães registavam os produtos apreendidos, ou simplesmente a carga que transportavam. No diário de guerra do comandante Lothar von Arnauld de la Perière, ao serviço do U-35, encontramos uma lista de todos os naufrágios afundados por este, intitulada Liste der versunken Fahrzeuge 665 . Nesta lista estão incluídas as cargas dos navios afundados, como é o caso do Torvore, Norsøen, Vilhelm Krag e Bien Aimé Prof. Luigi, que foram afundados na costa portuguesa. Através deste processo podemos ter conhecimento sobre a carga que os navios naufragados transportavam. Grande parte dos navios analisados tinha como principal função o transporte de mercadorias, com especial destaque para os cargueiros britânicos, italianos, noruegueses, gregos e dinamarqueses. Segundo conseguimos apurar, eram os géneros alimentares que compunham boa parte da carga destes cargueiros. Estamos convictos de que 61 dos navios, dos que conseguimos apurar a carga, transportavam produtos alimentares, destacando géneros como trigo, vinho, conservas, bacalhau, frutas, arroz, milho, amendoins e café, como é visível na Fig.29. Em segundo lugar temos os navios que transportavam combustíveis, incluindo petróleo bruto, gasolina, carvão e subprodutos petrolíferos. Destacamos o carvão, verificando a sua presença em 14 naufrágios. Os produtos minerais como o ferro, aço e cobre, tanto em piritas como em lingotes, apresentam um número significativo, com 14 casos analisados. Os produtos químicos, materiais de construção, materiais de guerra, lastro e correio também surgem-nos em muitos navios naufragados. 664 AJAX - The German Pirate – His Methods and Record. New York: George H. Doran Company, 1918, p. 18. 665 DUMA/C-A - Kriegstagebuch - S.M.U-Boot „U.35.“.(Kommandant: Kapitanleutant v. Arnuald) – für die Ziet vom 31. März bis 6. Mai 1917, p.46. 153 Fig.29 – Representatividade dos produtos contidos nos naufrágios provocados por submarinos alemães ao largo da costa portuguesa (1916-1918). Revendo estes números, podemos ter algumas perceções sobre o impacto da guerra submarina em Portugal. É-nos bastante difícil evidenciar os impactes socioeconómicos da guerra submarina em Portugal, dada a extensão dos campos de análise, que por sua vez transcendem os verdadeiros objetivos desta investigação. No entanto, não temos dúvida que a guerra submarina afetou a balança alimentar portuguesa, dadas as já visíveis vulnerabilidades económicas e sociais antes do conflito 666 . Os fluxos de embarcações mercantis eram absolutamente essências para o equilíbrio das balanças alimentares, como ainda hoje o são. Por exemplo, no dia 2 de maio de 1917, anunciou-se que Lisboa só teria farinha para mais três dias. Chegou-se mesmo a propor-se uma mistura de farinha de fava e aveia, enquanto não chegasse o navio Goa com o trigo comprado em Nova Iorque 667 . Este episódio espelha a importância que os fluxos mercantis marítimos, que quando afrouxados podiam intensificar graves crises de subsistência alimentar. No período do conflito, as subsistências alimentares dependiam grandemente das marinhas mercantes, sobretudo dos países neutrais, como a Dinamarca, Noruega ou Holanda. A guerra submarina sem restrições, aprovada a 28 de março de 1917, começou a atacar igualmente os navios de pavilhão neutral, o que ainda agravou mais a crise de subsistências. Alguns navios 666 Recorrendo à plataforma informática www.uboat.net , podemos verificar quantos naufrágios se destinavam para Portugal, como evidenciamos nas tabelas anteriormente expostas. 667 SERRÃO, Joaquim Veríssimo – História de Portugal (1910-1926). Lisboa: Editorial Verbo, 1989, p. 188. 38% 5% 20% 6% 12% 9% 3% 3% 1% 2% 1% Géneros Alimentares Combustíveis Recursos Minerais Materiais de construção Lastro Produtos regulares Químicos Material de Guerra Correio Cutelarias Tabaco