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Contributos para uma definição de Palavra Fonológica

Maria de Lurdes dos Santos Ferreira

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Maria de Lurdes dos Santos Ferreira 2º Ciclo de Estudos em Linguística CONTRIBUTOS PARA UMA DEFINIÇÃO DE PALAVRA FONOLÓGICA 2012 Orientador: Prof. Doutor João Manuel Pires da Silva e Almeida Veloso Classificação: Ciclo de estudos Dissertação Versão definitiva i Índice Índice de Quadros ...............................................................................................................................v Índice de Figuras .............................................................................................................................. vi Resumo ........................................................................................................................................... vii Abstract .......................................................................................................................................... viii Agradecimentos ................................................................................................................................ ix Introdução …………………………………………………………………………………….. 2 1. Objeto de estudo .............................................................................................................................6 2. Objetivos ........................................................................................................................................7 3. Plano do trabalho ............................................................................................................................8 I. PARTE - ENQUADRAMENTO TEÓRICO ……………………………………………... 10 I. CAPÍTULO - CARACTERÍSTICAS GERAIS DA PALAVRA PROSÓDICA …………. 12 0. Introdução ..................................................................................................................................... 14 1. Quadro teórico .............................................................................................................................. 15 2. Características da palavra prosódica .............................................................................................. 18 2.1. Condição de minimalidade ......................................................................................................... 19 2.2. Domínio da silabificação ............................................................................................................ 23 2.3. Domínio de restrições fonotáticas ............................................................................................... 29 2.4. Domínio da atribuição do acento ................................................................................................ 34 2.4.1.Acentuação em Português ........................................................................................................ 35 2.4.2. Acentuação em Espanhol ......................................................................................................... 38 2.4.3. Acentuação em Francês ........................................................................................................... 39 2.4.4. Acentuação em Inglês ............................................................................................................. 40 2.4.5. Acentuação em Alemão ........................................................................................................... 41 2.5. Domínio de aplicação de regras e processos fonológicos ............................................................ 42 2.5.1. Indicadores alofónicos ............................................................................................................. 43 2.5.2. Harmonização vocálica (Metafonia) ........................................................................................ 43 2.5.3. Outros processos fonológicos .................................................................................................. 45 2.5.3.1. Neutralização das vogais átonas ............................................................................................ 45 2.5.3.2. Neutralização da vogal média baixa ...................................................................................... 46 2.5.3.3. Desvozeamento de consoantes fricativas ............................................................................... 46 2.5.3.4. Obstrução glotal ................................................................................................................... 46 ii 2.5.3.5. Realização do grafema ch como palatal ou velar em alemão.................................................. 47 2.5.3.6. Semivocalização ................................................................................................................... 47 2.5.3.7. Ditongação de vogais médias acentuadas .............................................................................. 47 3. Conclusão ..................................................................................................................................... 48 II. CAPÍTULO - ESTATUTO FONOLÓGICOS DE ALGUMAS ESTRUTURAS MORFOLÓGICAS COMPLEXAS …………………………………………………………. 50 0. Introdução ..................................................................................................................................... 52 1. Grupo Clítico ................................................................................................................................ 53 1.1. Características gerais dos clíticos ............................................................................................... 53 1.2. Subclasses do clítico .................................................................................................................. 56 1.3. Relação entre o clítico e o hospedeiro ......................................................................................... 58 1.4. Processos fonológicos que motivam o constituinte prosódico – Grupo Clítico ............................. 62 2. Grupo de Palavra Prosódica .......................................................................................................... 64 2.1. Mesóclise ................................................................................................................................... 64 2.2. Palavras derivadas com afixos independentes da base ................................................................. 67 2.2.1. Características gerais dos afixos .............................................................................................. 67 2.2. 1.1. Algumas particularidades dos prefixos ................................................................................. 69 2.2.1.2. Algumas particularidades dos sufixos ................................................................................... 73 2.2.1.2.1. Algumas particularidades do sufixo –mente ....................................................................... 74 2.2.1.2.2. Algumas particularidades do sufixo –zinho ........................................................................ 75 2.3. Palavras compostas .................................................................................................................... 78 2.3.1. Características gerais dos compostos ....................................................................................... 78 2.3.2. Tipos de compostos ................................................................................................................. 82 3. Conclusão ..................................................................................................................................... 88 II. PARTE - ESTUDO EXPERIMENTAL …………………………………………………. 90 III. CAPÍTULO – METODOLOGIA ……………………………………………………….. 92 0. Introdução ..................................................................................................................................... 94 1. Objetivos do estudo ....................................................................................................................... 94 2. Metodologia .................................................................................................................................. 97 IV. CAPÍTULO – RESULTADOS ………………………………………………………… 108 0. Introdução ................................................................................................................................... 110 1. Apresentação de Resultados ........................................................................................................ 110 1.1. Análise da associação entre clítico e palavra ............................................................................. 111 1.1.1. Associação entre clítico e nome ............................................................................................. 112 1.1.1.1. Análise do desempenho dos grupos .................................................................................... 112 iii 1.1.1.2. Comparação entre o desempenho dos grupos ...................................................................... 113 1.1.2. Associação entre clítico e verbo ............................................................................................. 115 1.1.2.1. Análise do desempenho dos grupos .................................................................................... 115 1.1.2.2. Comparação entre o desempenho dos grupos ...................................................................... 116 2. Análise da associação entre afixo e palavra, entre radicais ou entre palavras ................................ 117 2.1. Análise do desempenho dos grupos .......................................................................................... 117 2.2. Comparação entre o desempenho dos grupos ............................................................................ 119 3. Síntese dos Resultados ................................................................................................................ 121 V. CAPÍTULO - DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ……………………………………. 122 0. Introdução ................................................................................................................................... 124 1. Análise dos dados por grupo ....................................................................................................... 125 1.1. Associação entre clítico e palavra prosódica ............................................................................. 125 1.1.1. Associação entre clítico e nome ou adjetivo ........................................................................... 125 1.1.2. Associação entre clítico ou palavra gramatical e verbo ........................................................... 133 1.2. Associação entre afixo e palavra, entre palavras ou entre radicais ............................................ 137 1.2.1. Associação entre afixo e palavra ............................................................................................ 137 1.2.2. Associação entre radicais ou entre palavras............................................................................ 141 1.3. Outras hipersegmentações ........................................................................................................ 143 CONCLUSÕES ……………………………………………………………………………. 144 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ……………………………………………………... 154 ANEXOS …………………………………………………………………………………... 180 ANEXO A …………………………………………………………………………………. 182 Anexo A1. Tabela de referência ...................................................................................................... 184 Anexo A2 - Análise comparativa de resultados referentes aos grupos A1, A2, B, C1 e C2 ............... 185 Anexo A3 - Análise comparativa de resultados referentes aos grupos D, E, F E G ........................... 186 Anexo A4 - Análise comparativa de resultados referentes aos grupos H1, H2, I, J, L, M e N ........... 187 Anexo A5 – Quadro Síntese das segmentações inesperadas. ............................................................ 188 ANEXO B ………………………………………………………………………………….. 189 Anexo B1 – Intervalos de Confiança para os grupos A1, A2, B, C1 e C2, distribuídos por sexo ....... 192 Anexo B2 – Medidas descritivas para os grupos A1, A2, B, C1 e C2, distribuídos por sexo ............. 192 Anexo B3 – Análise do fator sexo para os grupos A1, A2, B, C1 e C2 ............................................. 193 Anexo B4 – Intervalos de Confiança para os grupos D, E1, E2, F e G, distribuídos por sexo ............ 194 Anexo B5 – Medidas descritivas para os grupos D, E1, E2, F e G, distribuídos por sexo .................. 194 Anexo B6 – Análise do fator sexo para os grupos D, E1, E2, F e G.................................................. 195 Anexo B7 – Intervalos de Confiança para os grupos H1, H2, I, J, L, M e N, distribuídos por sexo ... 196 iv Anexo B8 – Medidas descritivas para os grupos H1, H2, I, J, L, M e N, distribuídos por sexo ......... 196 Anexo B9 – Análise do fator sexo para os grupos H1, H2, I, J, L, M e N ......................................... 197 ANEXO C …………………………………………………………………………………. 199 Anexo C1 – Intervalos de Confiança para os grupos A1, A2, B, C1 e C2, distribuídos por tipo de escola ............................................................................................................................................. 202 Anexo C2 – Teste para a homogeneidade da variância .................................................................... 202 Anexo C3 – Medidas descritivas para os grupos A1, A2, B, C1 e C2, distribuídos por tipo de escola ....................................................................................................................................................... 203 Anexo C4 – Análise do fator tipo de escola para os grupos A1, A2, B, C1 e C2 .............................. 204 Anexo C5 – Intervalos de Confiança para os grupos D, E1, E2, F e G, distribuídos por tipo de escola ....................................................................................................................................................... 205 Anexo C6 – Teste para a homogeneidade da variância .................................................................... 205 Anexo C7 – Medidas descritivas para os grupos D, E1, E2, F e G, distribuídos por tipo de escola ... 206 Anexo C8 – Análise do fator tipo de escola para os grupos D, E1, E2, F.......................................... 207 Anexo C9 – Intervalos de Confiança para os grupos H1, H2, I, J, L, M e N, distribuídos por tipo de escola ............................................................................................................................................. 208 Anexo C10 – Teste para a homogeneidade da variância................................................................... 208 Anexo C11 – Medidas descritivas para os grupos H1, H2, I, J, L, M e N, distribuídos por tipo de escola ............................................................................................................................................. 209 Anexo C12 – Análise do fator tipo de escola para os grupos H1, H2, I, J, L, M e N ......................... 210 v Índice de Quadros Quadro 1– Síntese das características da palavra nas línguas em estudo ................................ 49 Quadro 2 - Distribuição da população do estudo ................................................................... 97 Quadro 3 - Dados em estudo nos diferentes grupos ............................................................. 102 Quadro 4 - Valores absolutos e respetiva percentagem para os grupos A1, A2, B, C1 e C2. 112 Quadro 5 – Percentagem média para os grupos A1, A2, B, C1 e C2. ................................... 113 Quadro 6 - Análise de resultados referentes aos grupos A1, A2, B, C1 e C2 ....................... 114 Quadro 7 - Valores absolutos e respetiva percentagem para os grupos D, E1, E2, F e G. ..... 115 Quadro 8 - Percentagem média para os grupos D, E1, E2, F e G ......................................... 116 Quadro 9 - Análise de resultados referentes aos grupos D, E1, E2, F e G. ........................... 116 Quadro 10 - Valores absolutos e respetiva percentagem para o grupo J ............................... 118 Quadro 11 - Valores absolutos e respetiva percentagem para os grupos H1, H2, I, L, M e N. ........................................................................................................................................... 118 Quadro 13 - Análise da existência de isomorfia entre palavra morfológica e palavra prosódica (grupos H1, H2, I, L, M e N). ............................................................................................. 119 Quadro 12 - Percentagem média para os grupos H1, H2, I, L, M e N. ................................. 119 Quadro 14 - Percentagem média para o grupo J .................................................................. 120 Quadro 15 - Análise da inexistência de isomorfia entre palavra morfológica e palavra prosódica (grupo J).. ........................................................................................................... 120 Quadro 16 - Síntese dos resultados por grupo. .................................................................... 121 vi Índice de Figuras Figura 1 - Intervalos de Confiança par a os diferentes test es dos grupos A1, A2, B, C1 e C2….. ........................................................................................................................................... 112 Figura 2 -Intervalos de Confiança para o desempenho global por grupo (A1, A2, B, C1 e C2).. ........................................................................................................................................... 113 Figura 3 - Intervalos de Confiança para os diferentes testes dos grupos D, E1, E2, F e G. ... 115 Figura 4 - Intervalos de Confiança para o desempenho global por grupo (D, E1, E2, F e G). ........................................................................................................................................... 116 Figura 5 - Intervalos de Confiança para os diferentes testes dos grupos H1, H2, I, J, L, M e N.. ........................................................................................................................................... 118 Figura 6 - Intervalos de Confiança para o desempenho global por grupo (H1, H2, I, J, L, M e N). ...................................................................................................................................... 119 vii Resumo A noção de palavra foi objeto de análise por várias áreas da linguística, apresentando em cada uma dessas áreas características diferentes. O nosso objeto de estudo circunscreve-se à noção de palavra prosódica. O estudo desenvolvido visa estabelecer indicadores que permitam delimitar a palavra em fonologia. A busca de indicadores implicou uma divisão deste estudo em duas partes: uma teórica e outra prática. Na primeira, identificamos os indicadores referidos e verificamos a eficácia dos mesmos em cinco línguas europeias. Na segunda apresentamos um estudo experimental, no qual procuramos verificar que conceito de palavra existe numa criança, com cinco anos, antes de esta iniciar a aprendizagem da escrita e se esse conceito é influenciado por variáveis sociais. Do nosso estudo destaca-se a seguinte conclusão: a noção de palavra prosódica difere da palavra gráfica, sendo os limites da primeira estabelecidos pela conjunção de diferentes indicadores – condição de minimalidade, silabificação, restrições fonotáticas, acento, regras e processos fonológicos – e motivados por questões rítmicas. Entendemos que o presente trabalho poderá contribuir para uma definição de palavra prosódica em Português Europeu. 5 Uma das dificuldades na identificação da palavra no domínio oral decorre de esta perder, muitas vezes, parte da sua identidade. Assim, no discurso normal, há palavras que se concatenam com outras, mantendo ou não parte da sua independência. A mesma palavra pode ainda realizar-se foneticamente de modo diferente de acordo com o contexto em que se insere. Outras vezes assistimos a fenómenos de ressilabificação. Estes fenómenos revelam que a palavra não é uma unidade fonética da fala; no entanto, o falante de uma língua parece reter, mesmo assim, a sua identidade. Atendendo a esta capacidade, Cruz (1987:319) defende que a noção de palavr a tem de par tir “do reconhecimento de que a sua representação mais comum e mais simples, aquela que se apresenta simultaneamente como uma realidade na consciência comum dos falantes de uma língua e que constitui a unidade de tratamento lexicográfico – a palavra gráfica –, nem sempre corresponde à unidade de funcionamento da língua. Os limites daquela, não coincidindo sistematicamente com os da palavra gráfica ou da palavra morfológica, podem situar-se aquém (unidades de significação menores, os monemas 3 ) ou além (unidades lexicais formadas por várias palavras gráficas, tradicionalmente designadas por palavras compostas) dos limites da palavra gráfica”. Cruz (1987) sublinha ainda a ambiguidade da noção de palavra e a dificuldade que suscita quer a nível da sua definição quer na determinação do lugar a ocupar na análise linguística. As dificuldades na determinação dos limites da palavra e a impossibilidade de estabelecer critérios 4 que identifiquem essa unidade não invalidam, no entanto, que a palavra seja considerada uma unidade natural e incontestável da linguagem (Krámský,1969). Em suma, a literatura parece sublinhar a dificuldade na definição de palavra, no domínio oral. No entanto, essa dificuldade parece residir apenas no plano teórico e formal. Na realidade, vários estudos demonstram que os falantes de uma língua identificam intuitivamente entidades linguísticas enquanto palavras da sua língua, sendo esta escrita ou não, sendo esse conhecimento mais extenso do que aquele que têm de outras estruturas gramaticais (Robins, 1993: 184). Essa constatação leva Robins (idem: 185) a sugerir que tal facto resulta de um conhecimento intuitivo do falante, sujeito a critérios e regras linguísticas, que necessitam de ser explicitadas e sistematizadas. 3 “O monema não é nem de ordem fóni ca nem de ordem semântica: representa um certo ti po de escolha operada pelo sujeito falante no decurso de um ato de enunciação. O monema constitui, entre as escolhas que são determinadas diretamente pelo conteúdo da mensagem a comunicar, a escolha elementar (impossível de analisar em escolhas mais simples).” (Ducrot e Todorov, 1973: 215). 4 Segundo Martinet (1991: 112), “ao termo palavra correspondem necessariamente em cada língua tipos particulares de relações sintagmáticas se, entre os factos que levam a considerar esse tipo de unidades, distinguirmos por um lado os traços fónicos, demarcativos ou culminativos, por outro, os traços formais de separabilidade e de amálgama, por outro ainda, as indicações que a semântica pode fornecer”. 6 Essa sistematização começou a ser realizada por estudos mais recentes, nomeadamente, no domínio da Fonologia Prosódica. De acordo com Nespor e Vogel (1986: 6), apesar de a fala se apresentar como um contínuo sonoro, é possível segmentar esse contínuo em constituintes fonológicos, que se apresentam como contextos propícios à aplicação de regras específicas. Esta dificuldade na definição de palavra, conceito, como já referimos, aparentemente fácil para o falante mas problemático para os linguistas, justifica o surgimento deste trabalho. Pretendemos que este seja mais um contributo para a sistematização e clarificação desse conceito intuitivo que um qualquer falante parece ter de palavra. 1. Objeto de estudo Já referimos que o objeto de estudo deste trabalho seria o conceito de palavra em português europeu. O conceito tem sido problematizado e estudado por várias áreas da linguística. Diferentes teorias e autores procuraram determinar princípios universais que permitissem definir palavra como unidade linguística. Mattoso Câmara Jr (1998: 34) distingue palavra prosódica, que corresponde a uma “divisão espontânea na cade ia de emis são vocal” 5 , de palavra formal ou mórfica, que corresponde à individualização desse segmento fónico em função de um significado específico que lhe é atribuído na língua. Embora o autor admita que há uma certa correspondência entre as duas entidades, sublinha que elas não coincidem sempre e rigorosamente. Mediante a diversidade de conceitos, que correspondem a diferentes realidades da palavra, consideramos, como Martinet (1966: 53), que é do enunciado oral que se deve partir para compreender a verdadeira natureza da linguagem humana. Assim, neste trabalho, circunscrevemos o nosso estudo à palavra prosódica, entendida não só como uma divisão espontânea na cadeia de emissão vocal, mas também como uma sequência de sons, organizados hierarquicamente, de acordo com princípios e regras que os identificam como uma unidade. Apesar das dificuldades que a delimitação da palavra prosódica coloca, entendemos, como Mattoso Câmara Jr. (1973:80), que há nas línguas em geral certas peculiaridades que exercem uma função delimitativa. Dessas peculiaridades, neste trabalho entendidas como 5 Esta definição não corresponde à aceção moderna de palavra prosódica. 7 indicadores dos limites de palavra, que têm sido enunciadas em diferentes estudos, destacamos, aqui, a restrição de minimalidade, a palavra como domínio de aplicação das restrições fonotáticas, da silabificação, da acentuação e de regras e processos fonológicos. Em conjunto, e de forma diferente, os indicadores referidos contribuem para a identificação dos limites da palavra prosódica. Assim, partindo destes indicadores, consideramos, preliminarmente, que os limites da palavra prosódica, quando não coincidem com os da palavra gráfica, podem situar-se aquém (unidades de significação menor, como alguns prefixos - pré- - ou sufixos - -mente) ou além (unidades lexicais formadas por várias palavras gráficas, tradicionalmente designadas por palavras compostas – guarda-chuva) da mesma (Cruz, 1987: 319). De acordo com Nespor e Vogel (1986), a palavra prosódica seria um constituinte da hierarquia prosódica, situado imediatamente acima do pé e imediatamente abaixo do grupo clítico. Este constituinte não equivale necessariamente aos constituintes da hierarquia morfossintática: ele pode ser menor, igual ou maior do que o elemento terminal de uma árvore sintática, dependendo da língua em estudo. É precisamente a partir dos pressupostos da fonologia prosódica que procuraremos enquadrar o nosso estudo, explicitando os casos onde não existe isomorfia entre a palavra morfológica e a palavra prosódica. Assim, a partir dos indicadores enunciados, procuraremos analisar o estatuto de alguns afixos e dos constituintes de uma palavra composta, de modo a verificar a possibilidade de a palavra prosódica ser menor do que a morfológica. Da mesma forma, analisaremos o estatuto dos clíticos e a sua relação com o hospedeiro, atendendo à possibilidade de a palavra prosódica ser maior do que a morfológica. 2. Objetivos Como indicamos no ponto 1, a definição dos limites da palavra prosódica tem sido objeto de estudo de diferentes teorias linguísticas e diversos autores se preocuparam em identificar indicadores desses limites. O nosso trabalho pretende constituir mais um contributo para a definição do conceito de palavra prosódica, a partir de indicadores claros e, tendencialmente, universais. Assim, o nosso primeiro objetivo é procurar determinar os indicadores referidos. Esse primeiro objetivo é concretizado a partir de leituras diversas, que nos permitem verificar se cada indicador por si é suficiente para a identificação do conceito de palavra 8 prosódica. Atendendo a que os indicadores selecionados devem apresentar um caráter universal, procuramos testá-los em cinco línguas europeias - português, espanhol, francês, inglês e alemão -, distribuídas por dois grupos - línguas românicas e línguas germânicas. À seleção das línguas presidiu igualmente o intuito de verificar se os grupos de línguas apresentam conceitos diferentes de palavra prosódica 6 . Apesar de as línguas indicadas apresentarem características fonológicas e morfológicas diferentes, procuraremos encontrar indicadores que sejam válidos nas cinco línguas em estudo. Essa busca de indicadores comuns implica, igualmente, um afastamento da palavra gráfica. Manteremos, neste trabalho, esse afastamento, uma vez que procuramos um conceito intuitivo e não uma segmentação convencional ou arbitrária da frase, como foi definida por Potter (1957:78). Assim, e como terceiro objetivo, pretendemos verificar que conceito de palavra existe numa criança, com cinco anos, antes de esta iniciar a aprendizagem da escrita. 3. Plano do trabalho Com estes objetivos e após uma breve introdução, estruturamos o trabalho em duas partes. Na primeira parte, constituída por dois capítulos, faz-se o enquadramento teórico do nosso estudo. No primeiro capítulo, indicamos diferentes processos que possibilitam a segmentação do contínuo sonoro em unidades que designamos por palavras e aplicamo-los às cinco línguas europeias selecionadas, de modo a verificar se os mesmos indicadores apresentavam igual pertinência nas cinco línguas em estudo. No segundo capítulo analisamos estruturas que no português europeu causam dificuldades de análise, nomeadamente as sequências entre clítico ou palavra gramatical e palavra lexical, algumas palavras derivadas e alguns compostos. Na segunda parte do nosso trabalho, constituída por três capítulos, apresentamos o estudo experimental, a partir do qual procuramos testar a perceção que as crianças têm das estruturas em estudo, antes da aprendizagem da escrita. Assim, começaremos por apresentar os procedimentos metodológicos efetuados para a recolha e tratamento dos dados do nosso estudo experimental (Capítulo 3). Seguidamente, apresentamos os resultados obtidos por 6 Segundo Moreno (1997: 19), a silabificação sempre foi usada para distinguir línguas do grupo germânico (Inglês, Holandês, etc.), em que aquela é sensível à estrutura morfológica, das línguas do grupo românico, as quais permitiam a “silabifica ção através da frase”. Para o autor, essa diferença resulta da existência de dois tipos de silabificação: uma aplicada no domínio da palavra prosódica (universal) e outra aplicada pós-lexicalmente – a ressilabificação -, depois de aplicada a primeira (específica de certas línguas). 9 grupo de análise (Capítulo 4). Na discussão de resultados (Capítulo 5), procuramos clarificar o significado das segmentações efetuadas pelas crianças. Por fim, no último capítulo, procuraremos sintetizar as principais conclusões deste estudo e apontar possíveis rumos futuros de investigação. Este trabalho apresenta ainda três anexos. No Anexo A reunimos algumas tabelas de referência e com dados estatísticos referentes ao estudo experimental. O estudo estatístico pressupõe que a amostra é homogénea, ou seja, os resultados não diferem de acordo com o sexo dos sujeitos ou o estabelecimento de ensino de onde provêm. Essa homogeneidade foi devidamente testada através do programa SPSS. Assim, no Anexo B, apresentamos o estudo dos resultados da distribuição da amostra por sexo e, no Anexo C, o estudo dos resultados da distribuição da amostra por estabelecimento de ensino. Os estudos em anexo são constituídos por um conjunto de tabelas e gráficos, acompanhados de uma breve análise inicial. 10 I. PARTE ENQUADRAMENTO TEÓRICO 11 12 I. CAPÍTULO CARACTERÍSTICAS GERAIS DA PALAVRA PROSÓDICA 13 14 0. Introdução De acordo com Martinet (1966:40), no uso corrente das línguas de cultura contemporânea, encontr amos o termo “palavra”, que, no discurso oral ou no discurso escrito, designa um segmento que pode ser separado do seu contexto pela pronúncia isolada ou através de espaços em branco, sendo-lhe atribuída uma significação ou uma função específica. Esta noção parece coincidir com a tendência de entender o conceito de palavra como um dos conceitos mais acessíveis aos falantes sem conhecimentos específicos de linguística (Chao, 1975: 71). Essa facilidade é, no entanto, aparente e implica, antes de mais, uma distinção mais clara entre dois domínios: o oral e o escrito. Existe, por assim dizer, uma noção intuitiva de palavra, principalmente para os falantes de uma língua com sistema gráfico. Na escrita, a palavra é geralmente definida como uma sequência de letras não interrompida por espaços em branco (Booij, 2007: 281). No discurso oral, em contrapartida, o isolamento de palavras é dificultado pela ausência de marcadores inequívocos, tais como as pausas silenciosas. No entanto, supõe-se que os falantes adultos mediante um estímulo fonético ativem todos os itens lexicais compatíveis com a informação recebida, realizando uma completa descodificação do contínuo sonoro. A investigação nesta área identificou alguns fenómenos que podem ser utilizados pelos falantes para isolar palavras. E, embora esses processos impliquem uma aprendizagem, as crianças parecem fazer desde cedo uso dos mesmos (Christophe, Gout, Peperkamp e Morgan, 2003: 586). Esses processos isoladamente não permitem uma correta segmentação, mas a sua interação facilita o processo de aquisição do léxico. Neste capítulo procuraremos analisar alguns dos elementos que contribuem para a definição da palavra como unidade fonológica. Começaremos por fazer uma breve abordagem dos conceitos que serão ponto de partida para o nosso estudo. Depois, procederemos a uma análise de cinco indicadores da palavra prosódica, que correspondem a cinco domínios: o de restrições de minimalidade; o de silabificação; o de restrições fonotáticas; o de atribuição do acento; o de aplicação de regras e processos fonológicos. Estudaremos a manifestação desses indicadores em cinco línguas europeias, nomeadamente em português, espanhol, francês, inglês e alemão. As línguas aqui estudadas apresentam características diferentes, o que pode implicar uma importância diferente dos indicadores em estudo. Tradicionalmente, as referidas línguas são distribuídas por duas famílias – línguas românicas (português, espanhol 21 forma truncada pode ainda apresentar a estrutura de uma sílaba pesada, como [(tís)] PWd, uma vez que a consoante em coda contribui com uma mora, o pé é bimoraico, embora seja monossilábico. A restrição de palavra mínima, neste caso, é respeitada no nível moraico. Pensado (1999: 4468) defende, no entanto, que a truncação, em espanhol, consiste na redução da palavra a uma estrutura dissilábica e paroxítona correspondente às duas primeiras sílabas da base: colegio / cole. Se a segunda sílaba da palavra terminar em consoante -r, -l ou -n, esta pode ou não ser preservada: Asunción / Asu(n). Às palavras truncadas podem, depois, ser adicionados sufixos. Ao contrário do que se referiu para o espanhol, é afirmação corrente na literatura a inexistência de uma condição de minimalidade no francês (Peperkamp & Dupoux, 2002), dado que, nesta língua, a palavra pode ser constituída por uma sílaba leve, como, por exemplo, eau [o] ou feu [fø] 14 . No entanto, há estudos que indiciam o contrário. Num estudo sobre a apócope de nomes próprios, Plénat e Huerta (2006) verificaram que as formas reduzidas apresentavam estruturas muito diversificadas. Para um nome como Dominique, surgiam formas como Domi ou Dodo, reduções que preservavam a condição de minimalidade da palavra. Apesar de num número muito reduzido, surgiram igualmente formas como Dom e Do, para as quais os autores do estudo dizem não ter ainda explicação. Sendo a tendência geral para a seleção da forma não marcada, esta parece não constituir justificação suficiente, tendendo os autores a associar as escolhas a um critério subjetivo. Num estudo anterior, Plénat e Roché (2003) analisaram diferentes processos de formação de palavras e verificaram que acrónimos com três ou mais segmentos eram organizados em sílabas e pronunciados como palavras, mas tal não acontecia com os que apenas apresentavam dois segmentos, mesmo quando constituíam uma sílaba bem formada. Os autores do estudo associam os resultados à existência de uma restrição de minimalidade, optando pela caracterização da palavra mínima como dissilábica ou bimoraica, o que explicaria a opção por soletrar os exemplos dados em BU [be.y] e a silabificação em CEVU [se.vy]. A partir de uma análise destes acrónimos e de dados relacionados com a derivação de palavras, os autores destacam as exceções (alguns acrónimos são monossilábicos) e a escassez de dados, não excluindo a restrição de minimalidade para a palavra no francês 15 . 14 Tais vocábulos derivam, historicamente, de palavras dissilábicas, nomeadamente de aigue e de fadude, que constituem pés dissilábicos (Godefroy, 1982). 15 Num estudo anterior sobre a leitura de acrónimos, Plénat (1993) concluíra que a oralização das siglas obedecia a constrangimentos prosódicos que impunham um mínimo de duas moras ou um máximo de duas sílabas mais uma, implicando uma alternância entre ataque e rima. 22 Uma outra característica interessante de alguns acrónimos, em francês, é a possibilidade de estes servirem de base para outros processos morfológicos como a derivação, visível na forma: cégétiste - alguém pertencente à CGT - Confederação Geral de Trabalho (Aronoff e Fudeman, 2005: 115). A restrição de minimalidade parece estar presente em inglês. Booij (2007: 158) defende que uma palavra prosódica, nesta língua, tem de ter no mínimo uma vogal plena, ou seja, uma vogal não reduzida. Essa restrição implica que palavras de formato CV e com uma única mora estejam ausentes do vocabulário lexical inglês (em dialetos que admitem o alongamento das vogais baixas, Pa e Ma apresentam vogais longas). Assim todas as palavras lexicais apresentam pelo menos duas moras. Exemplo dessa restrição é a flexão de verbos irregulares, nos quais o desaparecimento da terminação regular –ed é compensado pela adição de –t ou –d, sendo a forma resultante uma sílaba pesada (McCarthy e Prince, 2001: 303 – nota 5), como o confirmam os exemplos seguintes: told; lost. Hammond (1996) acrescenta ainda que para preservar a noção de binaridade do pé nas palavras prosódicas em inglês pode ser necessário ajustar a silabificação. De acordo com o autor (1996:108), a restrição de binaridade do pé é inviolável, o que implica uma alteração da estrutura silábica. Assim, uma palavra como panic apresentaria a seguinte estrutura: [pan]ic. A despeito do referido no parágrafo anterior, os sistemas que impõem restrições de minimalidade admitem tipicamente desvios no vocabulário não lexical, o que explica a existência de clíticos com apenas uma mora, como a ou the (Kenstowicz, 1994: 640) 16 . Num estudo semelhante ao de Plénat e Huerta (2006), McCarthy e Prince (2001: 288) demonstraram que a truncação de nomes próprios em inglês respeita a restrição de minimalidade, uma vez que a forma resultante é sempre uma sílaba bimoraica, como se constata nos exemplos seguintes: Alfred – Al, Alf, Alfie; Edward – Ed, Eddie. Essa restrição estende-se à constituição do pé métrico, que deve ser sempre uma sílaba pesada. Em relação ao alemão, é possível verificar que a palavra mínima é bimoraica. Esta restrição está bem patente na construção do particípio passado dos verbos. Assim, se a base verbal for constituída por um só pé métrico, é-lhe acrescentada a partícula ge, como podemos verificar em: suchen – gesucht; versuchen – versucht. Como verificamos, em versucht não se acrescenta a partícula ge, uma vez que a palavra já satisfaz a condição de minimalidade. A inserção desta partícula obedece a dois critérios: 16 De acordo com o mesmo autor (1994:642) esses elementos oriundos de classes não lexicais, como os pronomes, preposições e partículas gramaticais, não recebem acento e tendem a associar-se a itens lexicais adjacentes, onde podem (embora não precisem) estar sujeitos à regra cíclica de atribuição do acento. 23 i. apenas ocorre para formar o particípio de um verbo; ii. só pode ser unida a uma base com um único pé (Wiese, 1996: 92). Wiese (1996: 62-3) assinala igualmente a truncação de nomes, como processo peculiar no alemão, dado que reduz nomes de qualquer extensão a uma base dissilábica, em que a primeira sílaba é acentuada e a segunda termina invariavelmente com o segmento /i/, como está patente nos exemplos seguintes: Professioneller – Profi ou Bundesdeutscher – Bundi. Perante estes e outros exemplos de truncação de nomes 17 , Wiese (idem: 64) intui que o pé dissilábico parece ser a estrutura mais comum, para as crianças, na assimilação de palavras mais longas e complexas. O processo de truncação pode surgir associado a uma determinada terminação. Em inglês, à forma truncada junta-se –y ou –ie, como, por exemplo, Becky a partir de Rebecca; commie de communist. Em alemão, os nomes truncados podem terminar em –i, -e ou –o, daí resultando formas como Andi de Andéas; Wolle de Wolfgang; Realo de Realist (Booij, 2007: 21). Da análise realizada sobressai uma tendência para a classificação da palavra mínima como bimoraica ou dissilábica, nas línguas em estudo, registando-se, no entanto, algumas exceções em que essa restrição não parece influir na criação de novos vocábulos. Em relação ao português, encontramos dados e opiniões contraditórias. Se, por um lado, encontramos palavras lexicais constituídas por uma sílaba simples aberta, por outro, essas palavras, pelo seu número reduzido, poderão ser entendidas como exceções. 2.2. Domínio da silabificação A palavra prosódica é o domínio da silabificação (Booij, 2007:161). Laeufer (1995: 119) distingue dois tipos de línguas em relação ao referido domínio. Por um lado, encontramos línguas de acento fixo, nas quais a constituição morfológica das palavras não interfere ou não é proeminente na atribuição do acento, a silabificação ocorre no domínio da palavra. Pelo contrário, em línguas em que a estrutura morfológica é relevante na atribuição do acento, a silabificação tende a circunscrever-se ao morfema. Defende igualmente que silabificação não pode ser aplicada através dos membros de um composto, muito menos entre as palavras de uma frase. Esta última possibilidade sempre foi 17 O autor nomeia ainda as possibilidades de truncação do nome Elisabeth em Eli, Lisa e Sabeth ou em Else(a), Liese, Libeth, Elsbeth, Liesbeth, bem como de outros nomes como Vater e Mutter, que dão respetivamente Vati e Mutti. 24 usada para distinguir línguas do grupo germânico (como o inglês ou o alemão) das línguas do grupo românico, as quais permitiam a ressilabificação (Lyche e Girard, 1995: 206; Moreno, 1997:19). Apesar do referido no parágrafo anterior, em qualquer língua, o verdadeiro domínio da silabificação é a palavra prosódica, podendo ser usada como teste para a delimitação da mesma. No entanto, no espanhol, no português e no francês encontramos dois tipos de silabificação: i. a que se aplica no domínio da palavra prosódica (universal) – silabificação lexical; ii. a ressilabificação, específica a certas línguas (aplicada sempre pós-lexicalmente, depois que a silabificação essencial já foi aplicada no nível da palavra prosódica) – silabificação pós-lexical. De acordo com Peperkamp (1999:5), a ressilabificação implica uma reestruturação prosódica, de modo a que todas as sílabas ficam sob o domínio de uma palavra prosódica, o que não implica que as duas estruturas se transformem numa única palavra prosódica. Assim, a ressilabificação pós-lexical permite a formação de palavras prosódicas pós-lexicais, que diferem minimamente das palavras prosódicas lexicais das quais derivam. Podemos então concluir que as sílabas se adequam no interior das palavras prosódicas, quer lexical quer póslexicalmente 18 . Verifiquemos, no entanto, com mais pormenor como se processa a silabificação nas línguas em estudo. Mateus e Andrade (2000) propõem um conjunto de regras de silabificação lexical, denominadas por algoritmo de silabificação, que implica a associação a um núcleo de todos os segmentos com um traço [-cons], que não sejam precedidos por outro segmento [-cons]; a associação de todos os [+cons] que imediatamente precedem o núcleo a um ataque, ao qual pode ser associado outro segmento [+cons], desde que a associação respeite os princípios de sonoridade e de dissemelhança; a associação de um elemento [+cons] flutuante à coda da rima precedente. As regras enunciadas não impedem, contudo, a existência de núcleos e ataques vazios. Mateus e Andrade (1998) defendem que, quando uma sílaba exibe apenas uma rima no nível fonético, essa rima será associada a uma árvore silábica com ataque vazio, o que explica o diferenciado comportamento de vogais não acentuadas em posição inicial. Assim, as vogais 18 De acordo com a autora, uma estrutura como “bar aperto” apresentaria uma estrutura lexical - (bar)PW(aperto)PW – e uma estrutura pós-lexical – (ba)PW (ra.per.to)PW. 25 subjacentes /e/ e // quando não acentuadas em português europeu são foneticamente [ɨ] entre consoantes ou em final de palavra. No início da palavra, no entanto, a vogal [ɨ] não existe, ocorrendo esta vogal como [i] (elefante ou educador), [i] ou [e] (ermida ou ervilha), [e] ou [ε] (erguer ou herbanário). A mesma alternância se pode verificar com as vogais subjacentes /o/ e /ɔ/, que ocorrem como /u/ em todos os contextos exceto em posição inicial de palavra (ordinário ou ostentar). Além das características enunciadas, acresce ainda o facto de as consoantes em coda poderem ocorrer como ataque da palavra seguinte, permitindo, desta forma, uma ressilabificação (Vigário, 2003b: 72; Mateus, Frota e Vigário, 2003: 1064), como acontece, por exemplo, numa sequência como: líder amado li.de.ra.ma.do. A par desta constatação, regista-se uma prática sistemática das aféreses, das síncopes e das apócopes vocálicas, o que faz com que o português se distinga, fortemente, das duas outras línguas românicas do sul – o espanhol e o francês (Almeida, 2005: 617). Em relação ao espanhol, há estudos que indiciam a preferência pelo preenchimento do ataque em detrimento da coda, o que pode ser explicado facilmente se atendermos às três regras básicas de silabificação enunciadas em Shepherd (2003: 11-2), que implicam que uma consoante situada entre duas vogais seja sempre ataque da segunda vogal (VCV → V.CV); que um cluster no interior da palavra possa apresentar dois tipos de silabificação: V.CCV ou VC.CV (se as consoantes em questão puderem constituir ataque em início de palavra, como em hablo → [á.βlo]; alto → [ál .t o]); VC.CCV ou VCC.CV (se a condição enunciada não se verificar, como em ancla → [áŋ.kla]; perspicaz → [pers.pi.kás]). Essa preferência pelo preenchimento do ataque explica o processo de ressilabificação diferenciado: a sequência tienes alas poderia ser ressilabificada como tiene salas; mas uma sequência como club lindo seria sempre silabificada como [klúB.lín.do] e nunca como [klú.βlín.do] (id.:15). A ressilabificação satisfaz assim, de acordo com Shepherd (2003:26), a restrição em relação à coda silábica, mas não se verifica se o ataque da palavra seguinte já se encontrar preenchido. Essa preferência também se verifica nas alterações provocadas pela presença de um prefixo (ibidem) como no par de palavras: estético  es.t é.t i.co, antiestético  an .t jes.t é.t i.co. Em espanhol, a junção de um sufixo a uma raiz respeita normalmente a estrutura CV, o que equivale a dizer que, na maioria dos casos, se associa um sufixo iniciado por vogal a uma raiz terminada em consoante, implicando quer ressilabificação quer alterações na acentuação 26 (Pensado, 1999:4452). Este facto constitui um bom exemplo de que a silabificação não respeita a estrutura morfológica da palavra, aplicando-se ciclicamente após o acréscimo de cada sufixo. Assim, por exemplo, uma sequência nasal-glide é bem formada no nível silábico (nuevo, nuez, nieve) e, de acordo com o princípio da maximização do ataque, um segmento (y) interno ao vocábulo é silabificado com a vogal nasal que o segue, não com a que o precede: manual → [ma] [nual]. A mesma sequência não sofre, no entanto, a mesma silabificação, quando ocorre em vocábulos adjacentes, como se comprova pela ocorrência de assimilação nasal em un huevo [uweo] e un hielo [unjelo], a qual não ocorre em nuevo [nweo] nem em nieto [njeto] (Nespor & Vogel, 1986: 70). As diferenças registadas mostram a diferença entre a silabificação lexical e a pós-lexical. A ressilabificação ocorre igualmente entre palavras, implicando ora um processo de contração de vogais (otra amiga  ó.tra.mí.ga) ou de consoantes homólogas que ocorram no limite de duas palavras (las salas [la-sá-las]), ora de ditongação (mi edad  mje. á(D )), ou mesmo tritongação (inopia humana  i.no.pjau.ma.na) 19 . Este processo permite uma segmentação semelhante à que ocorre no interior da palavra, como se observa em: alelado – [a]σ[le]σ[la]σ[o]σ e al helado – [a]σ[le]σ[la]σ[o]σ (Nespor e Vogel, 1986: 68). Outra particularidade da silabificação do espanhol é observada na adaptação de palavras estrangeiras. Nesta língua, o formato silábico implica a existência de uma vogal. Quando esta não está presente, os espanhóis acrescentam uma vogal epentética. Assim, uma palavra como splin, sofreria o referido processo em espanhol – esplin (Kenstowicz, 1994: 271). Em relação ao francês, prolifera a ideia de impossibilidade da delimitação da palavra prosódica. Essa ideia assenta num conjunto de características da língua, sendo uma delas a do domínio da silabificação. Laeufer (1995: 110-111) analisou alguns dados do francês e concluiu que, contrariamente ao que acontece com as línguas germânicas estudadas neste trabalho, a silabificação não respeita a estrutura morfológica, pelo que as consoantes finais da base silabificam com o sufixo, quer este seja iniciado por vogal quer por consoante. Os dados 19 Santamaría Busto (2007: 967) indica este tipo de ressilabificação (que denomina sinalefa) como uma das características da língua espanhola. A sinalefa corresponde à tendência natural do espanhol para unir as palavras devido à proximidade de produção articulatória que têm os sons vocálicos fronteiriços, ou seja, é a realização monossilábica das vogais finais de uma palavra e das iniciais da seguinte, dependendo da velocidade da fala, da tonicidade e da aproximação do timbre das vogais envolvidas. 27 seguintes mostram a silabificação de palavras com sufixos iniciados por vogal: [[papet]ier] - [papə.ˈtje]; [[nag]eur] - [na.ˈžœr]; [[maîtr]esse] - [mɛ.ˈtrɛs]. Podemos constatar que houve ressilabificação em exemplos como [fõ.ˈdra] ([[fond]ra]), pois não se regista o alongamento da vogal nasal, como seria suposto se fosse aplicada a regra fonológica que implica o alongamento de uma vogal antes de consoantes fricativas e /r/ tautossilábicas e antes de qualquer consoante que anteceda uma vogal nasal. Podemos igualmente verificar que em [papə.ˈtri] ([[papete]rie]) não ocorre a transformação da vogal semifechada /ə/ na vogal semiaberta /ɛ/ que, segundo as regras fonológicas do francês, se verifica antes de consoantes tautossilábicas. Registam-se, nesta língua, dificuldades na delimitação do sufixo, uma vez que um mesmo sufixo pode apresentar variantes, que podem consistir no acrescento de uma vogal de ligação (tion / ation, ture / ature), na natureza da vogal de ligação (ation / ition, iteur / ateur), na natureza da consoante de ligação do sufixo em relação à sequência fonológica do radical (tion / sion / ssion) 20 . Para Martinet (1966:47), se o francês não possuísse uma tradição escrita da língua, um qualquer estudioso de linguística, oriundo de outro continente, apresentaria dificuldades na segmentação do contínuo sonoro, podendo mesmo considerar uma sequência com “jleluidonne” como uma única palavra. A explicação deste facto revela que, nesta língua, as regras de silabificação se aplicam do mesmo modo à palavra e ao grupo clítico, mas não se aplicam para lá desse nível (Lyche e Girard, 1995: 208). Comprovam esta afirmação pares de frases como: un as authentique e un assaut tentant; Je suis le premier avis e Je suis le premier ravi. Mais arrojada é a opinião de Booij (1984:272), que defende que a palavra prosódica, nesta língua, se assemelha à frase fonológica, como o comprova o seguinte exemplo: quelle table? [kɛltabl] ou [kɛltab]. Nos exemplos transcritos, poderá haver ambiguidade em determinados contextos, que poderá ser atenuada com recurso a uma diferente entoação. Essa ambiguidade resulta precisamente do facto de a silabificação não se restringir ao domínio da palavra 21 . Passemos agora à análise da silabificação nas línguas germânicas. Em inglês, o domínio da silabificação corresponde ao radical e aos afixos adjacentes, ou seja, os afixos não neutros 20 Ao contrário do que registamos nas restantes línguas analisadas, em francês, não é possível o apagamento de um sufixo numa estrutura de coordenação, o que torna agramatical uma estrutura como: lent mais surement (Vigário e Frota, 2002: 255). 21 Laeufer (1995:103) sublinha que, ao contrário de outras línguas, a silabificação no francês não respeita a estrutura morfológica. O domínio da silabificação lexical é a palavra. 28 (afixos de Classe I). A silabificação de brookite é [brook]ơ[ite]ơ e não *[broo]ơ[kite]ơ. Esta silabificação justifica-se por a consoante oclusiva não ser aspirada, facto que se observaria se a referida consoante constituísse ataque da sílaba seguinte (Nespor e Vogel, 1986: 62). Ainda no que respeita ao inglês, Nespor e Vogel (id: 64) defendem que a silabificação coincide em geral com os limites do morfema, acrescentando que aquela é sensível a certos aspetos da estrutura morfológica. Para as autoras, no caso do inglês, em particular, o domínio da silabificação corresponde à soma de um radical com qualquer sufixo não-neutro adjacente. Ela não se aplica através do limite entre um radical e um afixo neutro, ou entre dois afixos neutros, como verificamos em sleeplessness → [sleep] [less] [ness], mas nunca *[slee] [ple] [ssness]. Esta análise vem de encontro à de Laeufer (1995: 101) que acrescenta que a estrutura silábica pode ser ajustada pós-lexicalmente quando a um morfema é acrescentado um sufixo iniciado por vogal, quer esta seja acentuada como em styllish ([[styl]ish] - [stai.lš]) ou não seja como em grotesque ([[grot]esque] - [gro.tsk]), mas o mesmo não acontece quando os sufixos são iniciados por consoante 22 , como em shapeless ([[shape]less] - [šeįp.ls]). Essa parece ser a opinião veiculada por Booij (2007: 155), que distingue dois tipos de sufixos, os que implicam um processo de ressilabificação e os que o impedem. Assim, sufixos como –er formam uma sílaba com a consoante precedente: [be:.kr], enquanto outros formam o seu próprio domínio de silabificação, como, por exemplo, -less em [ˈhɛlp.lɪs]. O mesmo se parece verificar no alemão, como facilmente constataremos a partir dos exemplos: [[Weis]ung] - [ˈvai.z]; [[freud]ig] - [ˈfroi.d]; [[les]end] - [ˈle:.znt]. Uma evidência de que a silabificação referida é a correta reside na não aplicação da regra de dessonorização da consoante em final de palavra em alemão - Weisung [ˈvai.z] / *[ˈvais.]; da velarização do l em final de sílaba em inglês - stylish [ˈstai.lš] / *[ˈstaiɫ.š]; da vocalização do r em inglês e alemão - starry [ˈsta:.r] / *[ˈsta:.]; sphärisch [ˈsf:.rš] / *[ˈsf:ɐ.š]; da aspiração da oclusiva final indicando que esta inicia nova sílaba, como o demonstram os seguintes exemplos em inglês e alemão, respetivamente: grotesque [gro.ˈtsk]; Fabrikant [fabr.ˈkant]. 22 Esta diferença justifica-a o autor em virtude de um sufixo iniciado por consoante ser um padrão não marcado e o iniciado por vogal ser marcado. 29 Em alemão, os afixos podem implicar um processo de ressilabificação. Tal é o caso de morfemas gramaticais, como /-en/ que ocorrem no infinitivo dos verbos, terminações correspondentes à declinação de caso (como /-es/ do genitivo). Assim, um vocábulo como feld - [fld], quando lhe é acrescentado um morfe ma “s”, sofre um processo de ressilabificação, como podemos verificar: [fl] [d+s] (Keil, 2001: 4). Neste exemplo, o morfema gramatical liga-se à última consoante do radical, formando uma sílaba e evitando a aplicação da regra da dessonorização das consoantes finais. Estes casos não são, no entanto, muito comuns nesta língua, circunscrevendo-se a morfemas gramaticais indicadores do infinitivo verbal ou da declinação de caso ou a sufixos como /-/. Braches (1987: 39) explica que este processo de ressilabificação se ajusta à tendência nesta língua para o preenchimento do ataque, manifestada, por exemplo, na obstrução glotal verificada antes de vogais iniciais. Assim, quando um sufixo iniciado por vogal é adicionado a um radical, há um processo de ressilabificação, de modo a preencher o ataque dessa sílaba, como se verifica em: Hund – Hun.de. Ao contrário do que constatamos para os sufixos, em alemão, os prefixos constituem, no geral, o seu próprio domínio de silabificação, registando algumas exceções. Encontram-se entre estas últimas os prefixos her-, hine vor-, os quais, quando combinados com preposições, podem ressilabificar-se, como o demonstram as formas [heˈran], [hiˈnaus] e [foˈran] e a assimilação do prefixo innas seguintes ocorrências illegal, irregular, impotent (Wiese, 1996: 66). Como o indicaram Lyche e Girard (1995: 206) e Moreno (1997: 25), o processo de ressilabificação parece, na realidade, ocorrer nas cinco línguas em estudo, embora abranja domínios diferentes. No inglês e no alemão, circunscrevem-se ao domínio da palavra com alguns dos seus afixos 23 ; já nas restantes línguas – português, espanhol e francês – pode ocorrer entre palavras. 2.3. Domínio de restrições fonotáticas Já neste trabalho definimos a fala como um contínuo sonoro. Não obstante, um falante de uma língua consegue intuitivamente segmentar esse contínuo sonoro em unidades 23 No entanto, é importante relembrar a existência de dois tipos de afixos – os que implicam um processo de ressilabificação e os que formam o seu próprio domínio de silabificação. 30 gramaticais. Assim sendo, torna-se importante identificar o tipo de conhecimento linguístico 24 que torna possível essa segmentação e que influencia o processamento linguístico ao longo da vida (Whalen e Dell, 2006: 2371). De acordo com a teoria generativa, a competência de um falante inclui o conhecimento da fonotática da sua língua, ou seja, um conjunto de generalizações emergentes, que definem os segmentos passíveis de ocorrer em determinado lugar de uma palavra, uma vez que o sistema fonológico de qualquer língua impõe restrições às combinações e à ocorrência de sons numa palavra (Langacker, 1972: 37; Hyman, 1978:447), ou seja, uma espécie de gramática fonológica que descreve a ordem dos segmentos fonéticos (Vitevitch e Luce, 1999: 375). Assim, a competência fonotática é entendida como uma propriedade emergente do léxico mental (Frisch, 2001). Os princípios que delimitam as combinações consonânticas possíveis em clusters 25 , de vogais em sequências vocálicas, e as dependências mútuas de vogais e consoantes são denominados restrições fonotáticas (Gussmann & Szymanec, 2000: 427). Ser o domínio de restrições fonotáticas 26 é uma das características essenciais da palavra prosódica (Booij, 1999b; Bisol, 2007), pelo que as mesmas restrições podem não se aplicar ao morfema (Booij, 1999b: 50) ou à sílaba (Booij, 1984: 251) 27 . Embora as restrições fonotáticas locais e a frequência de padrões de palavras possam ser suficientes para reconstituir padrões mal formados (Calderone, Celata e Herreros, 2008), o seu conhecimento não implica, no entanto, um processamento mais rápido. Se é verdade que a experiência de Weber (2000a) demonstrou que os falantes, perante um discurso que misture palavras e sequências sem sentido, identificam mais facilmente as palavras que respeitam as restrições fonotáticas da sua língua; outros estudos nesta área demonstraram que palavras ou sequências de padrões fonotáticos frequentes numa língua são processados mais lentamente do que palavras ou sequências de padrões fonotáticos pouco frequentes ou impossíveis. Tal 24 Shipman & Zue (1982) sublinham a importância de uma descrição fonotática da língua no reconhecimento de palavras. A produção de programas de reconhecimento da fala implica um conhecimento profundo do sistema linguístico, nomeadamente das combinações de sons possíveis numa determinada língua. 25 Segundo Lowenstamm (1999), as restrições das referidas combinações dependem da sua ocorrência na margem esquerda ou direita das palavras e do respeito do princípio de sonoridade (a escala de sonoridade é a seguinte: consoantes oclusivas < fricativas < nasais < líquidas < semivogais < vogais). 26 Muitos autores (Firth, 1937:44; Jakobson, 1963:167; Troubetzkoy, 1964:292; Martinet, 1991:112; Booij, 1999b) destacam a importância dos fonemas como elementos demarcativos. 27 Registam-se, no final da palavra, enfraquecimento ou apagamento de segmentos motivados por condições morfossintáticas (Harris, 2009). Esta possibilidade impele Fox (2002: 358) a contestar as restrições fonotáticas como motivo de inclusão da palavra prosódica na hierarquia prosódica. De acordo com o autor, embora o domínio de ocorrência de processos fonológicos e as unidades da hierarquia prosódica tendam a confluir, essa identificação não é obrigatória. 37 mesma estrutura, substituindo o Presente pelo Imperfeito do Indicativo do mesmo verbo 39 (Pereira, 1999: 163; Mateus e Andrade, 2000:115). Regista-se, por isso, igualmente uma diferença no comportamento acentual destes tempos: a sílaba acentuada faz parte do morfema de tempo, modo e aspeto, encontrando-se, no caso do Futuro, na última ou na penúltima posição relativamente a limite direito da palavra e, no Condicional, na penúltima ou na antepenúltima (Pereira, id.:164). Em relação ao segundo sistema, a condição da Janela de Três Sílabas nunca é violada. De acordo com a análise de Pereira (1999), poderemos enunciar algumas regras no que concerne à acentuação de formas não verbais do português: i. o acento não é sensível ao peso silábico; ii. o acento principal está sempre limitado a uma das três últimas sílabas da palavra; iii. no padrão normal, a sílaba acentuada é a última sílaba do radical derivacional (as marcas flexionais não influenciam a atribuição do acento); iv. nos padrões marcados, a sílaba acentuada é a penúltima ou a antepenúltima do radical derivacional . Para Mateus et al. (2003: 1052), a acentuação das formas não verbais obedece a uma regra geral, que determina que os nomes e adjetivos sejam acentuados na última vogal do radical. Há, no entanto, uma exceção: se a última vogal estiver marcada como não-acentuável no léxico, acentua-se a penúltima vogal do radical. Assim, a regra do acento não verbal opera no nível lexical, após a aplicação dos processos morfológicos lexicais e das regras cíclicas e antes da inserção do marcador de classe. Além do acento principal – atribuído na componente lexical-, pode assinalar-se, em português, a existência de uma acentuação secundária – atribuída a nível pós-lexical, pois tem em conta processo como a supressão de vogais átonas e permite a variação decorrente do contexto fónico ou de circunstâncias aleatórias. Assim, palavras com os sufixos –mente e com z-avaliativo, os compostos e certas palavras com prefixos possuem acento secundário, dado que mantêm a sílaba acentuada das formas de base (em virtude de não se registar a redução das vogais acentuadas), embora na palavra o acento predominante seja o que se situa mais à direita. Dado que este acento decorre da estrutura morfológica das palavras, é denominado 39 De acordo com Pereira, “a natureza complexa da representação de base destas formas é legitim ada sincronicamente pelo fenómeno da mesóclise: os clíticos pronominais não são inseridos à sua direita, como acontece com todos os outros tempos / modos, mas no seu interior” (i dem: 164). A mesóclise será analisada, com mais pormenor, no capítulo II. 38 acento secundário morfológico (Pereira, 1999: capítulo 5; Mateus, Frota e Vigário, 2003: 1058). 2.4.2. Acentuação em Espanhol À semelhança do que alguns autores propõem para o português, a Real Academia Espanhola (1999) distingue quatro grupos de palavra, de acordo com a sua acentuação: as agudas ou oxítonas (palavra polissilábicas, cuja sílaba tónica seja a última sílaba da palavra), as graves ou paroxítonas (palavras cuja penúltima sílaba é tónica), esdrúxulas ou proparoxítonas (palavras cuja antepenúltima sílaba é tónica) e as sobresdrúxulas (palavras cuja sílaba tónica recai antes da antepenúltima sílaba). Por esse facto, o acento em espanhol dificilmente se assume como elemento demarcador da palavra, uma vez que o número de sílabas desta não é previsível (Anderson, 1965; Tobarra, 2005). Esta ideia é reforçada por Franch e Blecua (1998: 439), que reconhecendo a restrição da ‘Janela das Três Sílabas’ para o espanhol nomeiam a existência de palavras com duplo acento de intensidade e a condicionante histórica do acento 40 . Pensado (1999: 4441) defende que, nesta língua, cada palavra apresenta um único acento, à exceção de certos composto (fútbol-sala), dos advérbios construídos com o sufixo –mente (cómodamente) e as sequências de palavra tónica e pronomes enclíticos quando a combinação resulta numa sobresdrúxula (póngaseló). Apesar de se tratar de uma língua de acento livre, o acento pode assumir um caráter distintivo, ou seja, há alguns esquemas acentuais que podem apresentar caráter significativo e permitir a distinção de sequências idênticas de fonemas. Tal sucede, por exemplo, em tomo e tomó. De acordo com Tobarra (2005), um só fonema vocálico /o/ ocorre nas duas palavras, em posição final, que apenas se distingue no acento, que adquire valor distintivo. Ao contrário do que é defendido pela Real Academia Espanhola, este autor apenas defende três padrões de acentuação, conforme o acento seja atribuído à última, penúltima ou antepenúltima sílaba da palavra. O acento só é atribuído a uma sílaba anterior à antepenúltima em verbos com clíticos, pelo que Tobarra (idem) considera ser inadequada a denominação de sobresdrúxulas a essas palavras (ver nota 37). O respeito pela Janela das Três Sílabas é reforçado por Roca (1992: 271-2), que demonstra que o acento pode ser deslocado se recair numa sílaba anterior à antepenúltima. 40 A colocação do acento em espanhol segue as normas de acentuação do étimo latino. Em latim, o acento caía na penúltima sílaba se esta tivesse uma vogal longa ou terminasse em consoante, caso contrário recebia o acento a antepenúltima sílaba (havendo mais de duas sílabas). Era raro acentuar a última sílaba. 39 Para comprovar a sua teoria, o autor nomeia o deslocamento do acento em palavras derivadas contendo o sufixo –ico: ciclo – cíclico; órgano – orgánico. No primeiro exemplo, com o acréscimo do sufixo, a vogal acentuada não sofre alteração, já no segundo exemplo o acento desloca-se para a direita, de modo a respeitar a restrição nomeada. Algumas regras simples podem ser enunciadas para a acentuação de nomes: as palavras terminadas em vogal são acentuadas na penúltima sílaba, já as terminadas em consoante o são tendencialmente na última. Há ainda um número excecional de palavras acentuadas na antepenúltima sílaba (Cruttenden, 1997:14). Em relação ao acento verbal, e como bem definiu Roca (id.:276), a acentuação é fixa no domínio do paradigma 41 , dependendo da estrutura morfológica. Desta forma, o acento pode localizar-se na vogal temática, no morfema flexional ou na última sílaba. Assim, localiza-se na vogal temática nos tempos do imperfeito, no morfema lexical no futuro e no condicional e na penúltima ou na última 42 sílaba no presente (id.:282). 2.4.3. Acentuação em Francês Diferente parece ser o caso do francês. Nesta língua, o acento tem sido tradicionalmente descrito como um acento de duração, caracterizado pelo alongamento da última vogal plena, acompanhado igualmente por um movimento tonal 43 . Embora a localização desse acento seja determinada morfologicamente, o seu domínio é o grupo de palavras que constitui uma unidade de sentido, podendo uma palavra perder o seu acento quando não ocupa a posição final de um grupo prosódico (Nakata e Meynadier, 2008). De acordo com Bally (1965: 204), no entanto, a palavra apresenta normalmente um acento na última sílaba qualquer que seja a sua constituição sintagmática. Um prefixo é sempre átono e o radical torna-se átono quando se liga a um sufixo. Tal significa que, para os franceses, a palavra é uma unidade compacta, onde os elementos se excluem perante o radical. Esta constatação vem ao encontro das ideias defendidas por Garde (1968:99), para quem o francês é uma língua de acento fixo, recaindo este na última sílaba da palavra, admitindo, no entanto, que as palavras podem perder o seu acento de acordo com a posição que assumirem na frase. Cruttenden (1997:14) sublinha que o acento nesta língua tende a marcar a última 41 Esta parece ser uma característica das línguas românicas, à exceção do francês que o autor considera ser uma língua que não apresenta acentuação na palavra (Roca, 1992:276). 42 Acentua-se a última sílaba na segunda pessoa do plural (Roca, 2006: 240). 43 O acento tonal é um acento de altura que consiste em destacar uma parte da palavra por uma elevação do som fundamental (Dubois et al., 1993: 589-90). 40 sílaba de um grupo de palavras, delimitando um grupo e não uma palavra 44 . Walker (1975:887) formula uma regra para a atribuição do acento na língua nomeada: V → [+ stress] / __ C0 (i C0) #. Assim, de acordo com o autor, o acento é atribuído à última vogal da palavra, salvo se esta for um shwa, sendo nesse caso atribuído à penúltima vogal, como se constata nos exemplos: parti [parti]; hiver [ivɛ : r]; est [ɛst]; première [prəmjɛ : r(ə)]. Tratando-se de uma língua de acento fixo, este não tem para os falantes um valor distintivo, ou seja, não existem em francês palavras que se distingam somente em virtude da colocação do acento, por esse facto os falantes mostram-se incapazes de distinguir palavras que apenas difiram na colocação do acento (Peperkamp, Dupoux e Sebastián-Gallés, 1999). 2.4.4. Acentuação em Inglês Frisch (2001: 37-8) relembra que, no inglês, o acento recai no início da palavra. No entanto, as palavras com quatro sílabas apresentam acentuação primária na terceira sílaba e acentuação secundária na sílaba inicial. Talvez tenha sido esse facto que motivou que Martinet (1966: 48) a considerar que, na língua referida, o acento não se relaciona com os limites de palavra, mas a sua presença num determinado ponto da cadeia sonora sinalizava a presença de uma unidade significativa, correspondendo, muitas vezes, ao que normalmente se designa como palavra. Katamba (1989:224) afirma mesmo que o acento, em inglês, não é parte integrante da vogal. Em várias palavras dissilábicas, a localização do acento depende do facto de a palavra estar a ser utilizada como nome - ˈproject - ou como verbo - proˈject. Cruttenden (1997:14) defende que o acento em inglês tem uma função distintiva e não delimitativa 45 , formulando algumas regras que permitem determinar a atribuição do acento. Na sua análise, indica como não acentuados os verbos auxiliares, pronomes pessoais, preposições e algumas conjunções (idem 17). Em relação às restantes palavras, começa por estabelecer dois grupos: radicais e afixos. No que concerne aos radicais, subdivide o grupo, distinguindo os verbos e adjetivos (em que o acento é atribuído à última sílaba, exceto se esta apresentar uma vogal breve e for uma sílaba aberta ou fechada por uma consoante simples, sendo nesse caso atribuído à penúltima, como se verifica em reláte) dos nomes (em que a 44 Nas palavras francesas, pronunciadas isoladamente e sem movimento afetivo, o acento recai na última sílaba na vogal pronunciada. No contínuo sonoro, o acento recai na última sílaba na vogal pronunciada de um grupo acentual (Grevisse, 1980: 67). 45 Esta não é a opinião de Aronoff (1985: 40), que assinala a existência de uma regra de encurtamento da vogal de qualquer sílaba acentuada que se encontre a três ou mais sílabas do limite direito da palavra. 41 presença de uma vogal longa atrai o acento em palavras dissilábicas, como acontece em catárrh; nas que apresentam mais de duas sílabas e terminam em vogal longa, o acento pode opcionalmente cair na antepenúltima sílaba como em ánecdote; caso a última sílaba apresente uma vogal breve, esta é considerada extramétrica e são aplicadas as regras definidas para os verbos e adjetivos, como em élephant). De acordo com o mesmo autor (idem: 16), os sufixos podem influenciar a acentuação de três formas diferentes. Sufixos como –ment ou –ly, não alteram a acentuação do radical, mas implicam uma alteração na acentuação da palavra ( fulfíl / fulfílment; úsual / úsually). Outros, como –ic ou –ity, implicam uma alteração na acentuação do radical (ecónomy / económic; cúrious / curiósity). Há ainda um terceiro grupo que sendo acentuados fazem recair sobre si o acento da palavra (limit / limitation). Garde (1969: 121) refere que nesta língua os afixos de origem não inglesa apresentam um comportamento constante, independente da raiz a que se liguem: uns são sempre acentuados e outros nunca o são. 2.4.5. Acentuação em Alemão O alemão é, de acordo com Garde (1968:68), uma língua de acento livre. O acento recai na raiz ou na vogal do radical. Além disso, a maioria das raízes são monossílabos, com rima ramificada - ˈ Haus, ˈ hell -, ou apresentam uma segunda sílaba não acentuada - ˈ sicher, ˈ Keller - (Braches, 1987: 31). Há, no entanto, palavras que apresentam uma vogal longa na segunda sílaba, tornando-se esta pesada e recebendo, por isso, um acento secundário - ˈ Her ˌ zog; ˈ Hei ˌ rat ; ˈ Ur ˌ laub (id.: 27). O mesmo acontece com sufixos que apresentem vogais longas ou ditongos como -los, - heit, -sam. Estes sufixos apresentam uma sílaba pesada, apresentam características de palavra e formam uma palavra prosódica - ˈ lang ˌ sam ; ˈ Reich ˌ tum ; ˈ Echt ˌ heit (Wiese, 1996: 278). Os sufixos formam normalmente uma única palavra com o radical e atraem o acento principal, como acontece com - ei, -ier(en), -ät (id.: 49) . Numa palavra como ruhig, o sufixo –ig liga-se ao radical - Ruh(e), formando uma única palavra prosódica. A palavra continua a ter duas sílabas. Já em einsam, o sufixo –sam apresenta a constituição de uma sílaba pesada, é acentuado, e a palavra à qual se une apresenta as mesmas características. Apesar de a construção resultante ter igualmente duas 42 sílabas, agora há duas palavras prosódicas. Já a flexão não acarreta qualquer alteração nas palavras, mesmo quando se trata da flexão em grau, como nos adjetivos. Da mesma forma, em alemão, encontramos prefixos que são acentuados e atraem o acento de palavra como aufem ˈAufgang, outros que são sempre inacentuados como beem beˈdeuten e outros que podem ser ou não acentuados como unem ˈunmenschlich ou unˈmenschlich (Braches, 1987: 37-8). A palavra prosódica, em alemão, é constituída por um ou dois pés trocaicos com proeminência à direita. Se à esquerda for constituído novo pé ou se existirem outras sílabas, pode constituir novo pé à esquerda. Nesse caso, sobre o pé mais à direita recai o acento principal, e ao outro é atribuído um acento secundário. Além disso, uma sílaba pode ser associada diretamente à palavra prosódica, o que ocorre, por exemplo, com sílabas iniciais átonas (Kamel e Girrafe são exemplo disso): Kamel - /kaˈme:l/, cuja organização prosódica é [Ka[mel]F]PW e Giraffe - /giˈʁafa/, com a seguinte organização prosódica: [Gi[raffe]Ft]PW. Nas palavras compostas, sobre a palavra prosódica mais à esquerda recai o acento principal, e a que se encontra à direita comporta o acento secundário. Disso mesmo encontramos exemplo em Handtuch - /ˈhanttu:x/, como poderemos observar pela sua organização prosódica: [[[Hand]Ft]PW[tuch]Ft]PW]PW. A diferença entre o alemão e o francês reside no facto de no alemão o acento se associar à raiz, independentemente da função sintática por esta desempenhada. Já no francês um radical pode perder a sua autonomia sintática, quando forma uma palavra composta, podendo perder o seu acento em consequência dessa associação. Por exemplo, em Sterbebett os dois morfemas radicais conservam a sua acentuação; já em lit de mort, morfologicamente um composto, forma-se uma unidade acentual, recaindo o acento na última sílaba (Garde, id.: 75). Este último exemplo sublinha, mais uma vez, a distinção entre os dois grupos aqui indicados – línguas de acento fixo e línguas de acento livre, permitindo concluir que o acento pode ser um indicador dos limites da palavra no primeiro grupo, mas não no segundo. 2.5. Domínio de aplicação de regras e processos fonológicos A palavra prosódica ainda é o domínio de aplicação de fenómenos fonológicos e segmentais de diferentes tipos (Trask, 1996: 275; Dai, 1998: 104; Peperkamp, 1999; Mateus, Frota e Vigário, 2003:1061). 43 Nas cinco línguas em estudo ocorrem um conjunto de regras que contribuem para a delimitação da palavra prosódica, sendo que a mais nomeada pelos linguistas a harmonização vocálica. No entanto, podemos referir um conjunto vasto de outras regras, a saber: indicadores alofónicos, neutralização da vogal média baixa e das vogais átonas, dessonorização de consoantes fricativas, obstrução glotal, semivocalização, ditongação de vogais médias acentuadas, sonorização intervocálica da sibilante, apagamento de vogais. Em seguida, analisaremos a ocorrência de algumas dessas regras nas línguas em estudo. 2.5.1. Indicadores alofónicos Os fonemas têm diferentes realizações dependendo da sua distribuição nas palavras ou sílabas. Algumas dessas realizações ocorrem exclusivamente no domínio da palavra, contribuindo para a delimitação do seu domínio. Em inglês, /t/ e /r/ em ‘‘night rates’’ diferem dos que se realizam em ‘‘nitrates’’ (nomeadamente, /t/ é aspirado e retrofletido em ‘‘nitrates’’ mas não é aspirado, nem glotalizado em ‘‘night rates’’; /r/ é vozeado em ‘‘nitrates’’ mas não o é em ‘‘night rates’’); tais diferenças podem ser utilizadas para identificar limites de palavra. (Christophe, Gout, Peperkamp e Morgan, 2003). No espanhol, há duas formas alomórficas para o artigo definido, feminino, singular: la, que ocorre na maioria dos casos, e el, que ocorre somente quando a palavra seguinte se inicia com um /a/ acentuado, como facilmente verificamos nos exemplos: la armadura, la avenida, el ama, el alma. A regra da substituição de la por el é uma regra cíclica do domínio da palavra prosódica do espanhol. Embora se apresente como um afixo cíclico, o artigo não implica apagamento do acento (Halle & Vergnaud, 1990: 93-4). 2.5.2. Harmonização vocálica (Metafonia) A harmonização vocálica é um processo de assimilação total ou parcial entre duas vogais não contínuas, ou seja, é a mudança do timbre de uma vogal pretónica para se harmonizar com a vogal tónica ou com a palavra (Mattoso Câmara Jr., 2007:166). No alemão, quando a vogal do radical harmoniza com o sufixo, origina um processo conhecido como metafonia, assimilação caracterizada pela modificação do timbre de uma vogal sob a influência de uma outra vogal não contígua situada na mesma palavra. Essa 44 alteração é simbolizada na escrita pelo trema (Umlaut). Exemplo dessa alteração encontramos na formação do plural em nomes como Gast, que apresenta a forma flexionada Gäste, em que o trema indica a anteriorização da vogal (Booij, 2007: 37; Neveu, 2007: 201). A mesma alteração pode ocorrer com sufixos derivacionais como –lich na formação de adjetivos como väterlich (Booij, 2007: 264). Em francês, uma sílaba aberta não final uma vogal baixa, seguida por uma sílaba como vogal menos baixa, torna-se menos baixa. Este processo ocorre com mais frequência nas vogais não arredondadas /e/ e /ɛ/ do que nas arredondadas posteriores /ø/ e /œ/. Exemplos dessa transformação ocorre entre fête /ɛ/ e fêtée /e/, mas não em fêtard /ɛ/. O mesmo sucede entre beugle /œ/ e beugle /ø/ não se verificando em beuglement /œ/ (Casagrande, 1984:89). Este processo ocorre igualmente em português nos verbos que apresentam [e], [], [o], [ɔ] como última vogal do radical. Nestes verbos, verifica-se na alternância de altura da última vogal do radical dos verbos quando é acentuada, ou seja, as vogais baixas, médias e altas acentuadas ocorrem nas formas em que a vogal temática foi suprimida. Esta alternância resulta da projeção do traço de altura da vogal temática sobre a vogal do radical acentuada. A vogal que sofre assimilação apresenta, no entanto, duas restrições: não pode ser alta e não pode ser baixa. Mateus (2003: 1024) sublinha que o processo descrito ocorre na primeira pessoa do singular do Presente do Indicativo e nas primeira, segunda e terceira pessoas do singular e terceira do plural do Conjuntivo. Nessas formas verbais, o sufixo que se segue à vogal temática é uma vogal, pelo que a vogal temática e a posição que lhe está associada na estrutura subjacente são suprimidas. Em consequência o traço de altura da vogal temática torna-se um segmento flutuante e projeta-se na vogal do radical. Assim, num verbo como levar, obtemos as formas l[ ɛ ] vo, l[ ɛ ] ve, l[ ɛ ] ves, l[ ɛ ] ve e l[ ɛ ] vem. No entanto, em ]ro ou ]ro, a aplicação dessa alternância daria formas agramaticais (*v[ɛ ]ro ou *f[ɔ ]ro). Interessa ainda sublinhar que a vogal do radical assimila apenas o traço de altura, mantendo os valores do traço [recuado] e [arredondado] 46 . 46 [e], [ɛ] e [i] são [-recuadas] e [-arredondadas]; [o], [ɔ], [u] são [+recuadas] e [+arredondadas]. 45 2.5.3. Outros processos fonológicos Neste item referiremos brevemente diferentes processos que, em cada língua, contribuem para delimitar a noção de palavra. 2.5.3.1. Neutralização das vogais átonas Em português, as vogais átonas estão sujeitas à modificação de timbre pela aplicação de regras gerais do vocalismo átono, ou seja, há uma elevação de todas as vogais fonológicas quando não acentuadas. Assim, /a/, [+baixa], realiza-se como [-baixa]; /e, , o, ɔ/ realizam-se como [+altas]; /e, / realizam-se ainda como [+recuadas]. O processo de neutralização implica o desaparecimento de diferenças entre algumas vogais, pela aplicação de regras fonológicas (Mateus, 2003: 1012). Verificamos este processo em derivações como b[]lo – b[ɨ]leza; c[a]sa – c[ɐ]sinha. Em b[ɨ]leza e c[ɐ]sinha, as vogais /a/ e // sofreram um processo de elevação e de recuo, ou seja, realizam-se como [-baixa] e [+recuadas], respetivamente, porque não são acentuadas. Além da exceção indicada em 2.5.3.2., não se aplica a regra de neutralização das vogais átonas nas vogais de ditongos decrescentes (como em b[ai]rrista, al[oi]rada end[ew]sar) e quando as vogais átonas se encontram em início absoluto de palavra (como verificamos em olhar [o] / [ɔ], ermida [e] / [i] ou elefante [i]) (Mateus, id.: 1014) 47 . Constituem ainda exceção a esta regra as palavras que integram os sufixos iniciados por –z, denominados z-avaliativos, e o sufixo –mente, uma vez que a vogal acentuada de base conserva as suas características apesar de não ter o acento principal, como se verifica em devagarzinho [a], florzita [o], facilmente [a], belamente [], fortemente [ɔ] (id.: 1015). Estas palavras, que apresentam uma estrutura prosódica própria, serão objeto de estudo no Capítulo II. 47 De acordo com a mesma autora (id.: 1015), há ainda um conjunto de palavras – invasor [a], relator [a], redação [a], protetor [], absorver [ɔ], pregar [], corar [ɔ], aquecer [], adotar [ɔ] - que constituem exceções à regra assinalada em 2.5.3.1. A causa destas exceções é histórica e não analisável a nível sincrónico. São palavras marcadas no nível lexical, nas respetivas formas de base. 46 2.5.3.2. Neutralização da vogal média baixa Em português, a neutralização de altura das vogais átonas em sílaba final terminada em /l/ ou /ɾ/, vogais que ocorrem sempre como baixas, é um processo que ocorre no domínio da palavra (Mateus, 2004: 18). Este processo pode verificar-se em palavras como açúcar [a], caráter [], possível []. Nos exemplos as vogais átonas não manifestam alteração em relação às acentuadas por pertencerem a sílabas terminadas nas consoantes referidas, contexto que impede a alteração do timbre. Trata-se aqui de uma exceção à aplicação das regras de neutralização das vogais átonas, referida no item anterior (Mateus, 2003: 1013). 2.5.3.3. Desvozeamento de consoantes fricativas Em alemão, todas as consoantes fricativas sofrem um processo de desvozeamento quando ocorrem em final de uma palavra (Gussmann, 2002: 145; Booij, 2007: 32). Assim, as consoantes fricativas apresentam sempre o traço [-voz] quando ocorrem em final de palavra, mas são [+voz] em outro contexto. Os pares seguintes ilustram essa alteração: Lo[p] - Lo[b]es; Ra[t] - Ra[d]es; Sar[k] - Sär[g]e; akti[f] - akti[v]e; Gra[s] – Grä[z]er; oran[∫]e – Oran[ჳ]e (Wiese, 1996). Este processo também ocorre entre membros de um composto, como em Hal[pj]ahr; Flu[kr]ekord; Wil[te]nde; Hau[sai]ngang, facto que demonstra que cada um desses membros é uma palavra prosódica. Este processo ocorre igualmente no inglês, na fronteira de palavras, estando dependente do contexto. Assim, uma fricativa sonora mantém a sonoridade se for seguida de uma consoante sonora, mas perde-a se a consoante for surda (Spencer, 1996: 49), como se pode verificar nos exemplos: five before [faɪvbɪfɔ:] mas five past [faɪfpɑ:st]; love declared [lʌvdɪklɛ:d] mas love to go [lʌftəgou]. 2.5.3.4. Obstrução glotal A oclusiva glotal, som característico do alemão e que não existe em português, é um fonema que se realiza com uma pequena interrupção da corrente de ar, seguida por um súbito relaxamento da glote. 53 O Grupo de Palavra Prosódica, uma noção recente e que não é consensualmente aceite pelos fonólogos, é construído por mais de uma palavra prosódica, sendo que uma domina a(s) outra(s). Este constituinte inclui palavras derivadas com sufixos que formam domínios de acento lexical independentes da sua base, palavras derivadas com prefixos acentuados, compostos morfológicos, compostos morfossintáticos, alguns compostos sintáticos, estruturas mesoclíticas, siglas, sequências de letras, sequências de letras e números e certas sequências de numerais e nomes (Vigário, 2007: 683). A nossa análise centrar-se-á, neste capítulo, nas características destes dois constituintes. Começaremos por analisar a constituição do Grupo Clítico e os fenómenos fonológicos que motivam a sua independência como constituinte prosódico. Num segundo momento, analisaremos o Grupo de Palavra Prosódica, mas centrar-nos-emos apenas nas seguintes estruturas: estruturas mesoclíticas, palavras derivadas com sufixos que formam domínios de acento lexical independentes da sua base, palavras derivadas com prefixos acentuados, compostos morfológicos, compostos morfossintáticos. A análise das estruturas assinaladas terá como ponto de partida as características da palavra que foram indicadas no capítulo anterior e centrar-se-á em estruturas testadas no estudo experimental. 1. Grupo Clítico Para Hayes (1989: 207), o Grupo Clítico é constituído por uma palavra prosódica e pelos seus clíticos, agrupados no mesmo constituinte sintático. Para definir este constituinte, torna-se importante estabelecer as características dos elementos que o compõem: a palavra prosódica – caracterizada no capítulo I - e o clítico. Assim, enumeraremos, em primeiro lugar, as características gerais dos clíticos e a sua distribuição em diferentes subclasses; depois, analisaremos a relação que o clítico estabelece com o seu hospedeiro – palavra prosódica à qual se associa – e os processos fonológicos que ocorrem no interior da nova estrutura que se forma. 1.1. Características gerais dos clíticos Muitas línguas apresentam elementos que exibem características das palavras independentes e características dos afixos, em especial dos flexionais. Algumas propriedades têm sido apresentadas para descrever os clíticos, nomeadamente, o serem maioritariamente 54 monossilábicos, o pertencerem a classes de palavras fechadas e a impossibilidade de aparecerem isoladamente. Estas características mostram-se, no entanto, insuficientes, uma vez que encontramos clíticos dissilábicos em português; algumas palavras pertencentes a classes fechadas não podem ser classificadas como clíticas; algumas preposições e conjunções, apesar de serem palavras prosódicas, não podem aparecer isoladamente (Vigário, 2003b: 174-5). Há, no entanto, propriedades essenciais que distinguem os clíticos das palavras lexicais: apresentarem-se como constituintes sintáticos, com alguma liberdade de movimentação na frase, pertencerem à classe das palavras funcionais e serem sempre inacentuados (Vigário, 2003b: 174). A esta última característica devem a designação de clíticos 48 . Os clíticos não têm, portanto, estatuto de vocábulo fonológico 49 (Mattoso Câmara Jr.,1972: 27). A ausência de acento implica uma outra característica: a sua associação a um hospedeiro (Barrie, 2000: 7). Nesse sentido, Booij (2007; 166) define clíticos como “pequenas palavras” de classes não lexicais como pronomes e determinantes 50 , que se associam a um hospedeiro, com o qual formam uma estrutura prosódica. Os clíticos diferem ainda das palavras prosódicas por poderem ser menores do que um pé binário, sendo que em muitas línguas a palavra prosódica deve ser minimamente bimoraica. Ao contrário das palavras prosódicas, os clíticos violam restrições fonotáticas 51 , o que seria mais um argumento para diferenciar os clíticos das palavras prosódicas (Peperkamp, 1997). Zwicky e Pullum (1983: 504-5) enumeram algumas características que possibilitam uma mais precisa definição de clítico: i. O clítico pode virtualmente associar-se a palavras de qualquer categoria sintática; ii. A combinação entre clítico e seu hospedeiro depende de algumas condições, como a estrutura sintática, as propriedades fonológicas e a categoria do hospedeiro e acentuação frásica; 48 Anderson (2005:2) define clíticos como pequenas palavras inacentuadas – “Clitics are little words that lack accent of their own”. 49 Esse facto é sublinhado por outro aspeto: pessoas que não dominam o sistema de escrita português e os copistas medievais escrevem olivro, sefala, falase, sem espaço em branco, adotando um critério fonológico, que não é autorizado pelas convenções atualmente vigentes da ortografia portuguesa (Mattoso Câmara Jr, 1998:36). 50 A associação do clítico a categorias não lexicais é questionada por Inkelas (1990: 234), demonstrando que algumas palavras plenas do inglês podem apresentar formas reduzidas inacentuadas, que seriam clíticos. Essa opinião vem ao encontro da de Anderson (2005:26), que inclui na categoria de clíticos as formas reduzidas dos verbos auxiliares em inglês. 51 Em português, o fonema /ʎ / não ocorre em início de palavras, mas ocorre no clítico lhe. 55 iii. Não ocorrem idiossincrasias morfofonológicas ou semânticas no interior do grupo clítico; iv. No que respeita a regras sintáticas, o grupo clítico não é considerado como uma unidade; v. Um clítico pode associar-se a um grupo clítico. É ainda Zwicky (1985: 286-7) que coloca em causa a designação de clítico como elemento não acentuado, acrescentando outras características que mais fielmente permitirão a distinção entre clítico e palavra. Assim, torna-se relevante referir que o clítico forma com uma palavra uma unidade prosódica, constituindo uma estrutura prosódica, no interior da qual operam as regras de sandhi interno, de acentuação e da harmonização vocálica. Por sua vez, Anderson (2005: 45) defende a inexistência de uma propriedade [+ Clítico] específica para estes elementos, mas a sua distinção far-se-ia em função de uma dimensão no domínio da fonologia. Os clíticos são deficientes em termos prosódicos, uma vez que não apresentam a estrutura de uma palavra prosódica no momento em que se associam a uma estrutura sintática. Essa deficiência prosódica resulta do facto de o clítico ser constituído por uma sílaba, mas não formar um pé métrico, sendo, por isso, necessária a sua incorporação numa palavra prosódica ou num outro constituinte da estrutura prosódica, no domínio da fonologia pós-lexical. No entanto, uma sequência de dois clíticos pode constituir um pé métrico, introduzindo, desta forma, alterações na acentuação (id.: 43) 52 . Essa dependência dos clíticos implicou que alguns autores, na opinião de Nespor e Vogel (1986: 145), os associassem à palavra prosódica, quando são considerados similares aos afixos, ou à frase fonológica, quando são considerados similares a palavras independentes. No entanto, as mesmas autoras registam casos em que o clítico não pertence a nenhuma dessas categorias, indicando a existência de fenómenos específicos que apenas ocorrem entre clítico e palavra prosódica, facto que justificava a presença de um outro constituinte na estrutura prosódica que abrangesse esses casos, denominado Grupo Clítico. Acresce ainda que a relação entre clítico e hospedeiro apresenta características diferentes, dependendo da natureza dos dois constituintes 53 . A inclusão deste constituinte na hierarquia 52 Anderson (2005:43) refere-se a exemplos do grego, indicando que quando dois clíticos se seguem a uma palavra prosódica, se formam dois pés dissilábicos, mantendo-se o acento do primeiro pé, como acontece em [ðósemúto]. 53 “A Clitic Group is constructed by com bining a nonclitic word with any suitable adjacent clitics. ‘Suitable’ here refers to the notion that some clitics are lexically specified to attach in only one direction.” (Anderson, 2005: 43) 56 prosódica não tem, no entanto, sido pacífica. A existência do clítico não implica, por si só, que seja admitido o grupo clítico na hierarquia prosódica. Para que tal fosse possível, tornavase necessário que o grupo clítico fosse domínio exclusivo de regras fonológicas em todas as línguas. No entanto, embora isso se verifique em línguas como o português, o mesmo não acontece no que concerne, por exemplo, à língua inglesa (Fragoso, 2009: 101) 54 . Assumindo a ausência de argumentos consistentes para a inclusão do grupo clítico na estrutura prosódica, Anderson (2005:44) defende que a relação entre clítico e hospedeiro se explica facilmente recorrendo à assunção de que a estrutura referida pode ser organizada a nível lexical, a nível pós-lexical ou em ambos. Nesta perspetiva, a análise dos clíticos implica o reconhecimento de dois tipos de palavras: as que derivam da morfologia e as que apenas existem depois de terminado o processo sintático. Este tipo de análise implica a divisão do processo de estruturação das palavras em duas componentes: a morfologia e a clitização póssintática (Sadock, 1991: 51). No nosso estudo procuraremos explicitar a pertinência deste constituinte prosódico, referindo os processos fonológicos que apenas ocorrem no domínio do Grupo Clítico. 1.2. Subclasses do clítico As palavras funcionais apresentam, como assinalamos, propriedades diferentes das palavras lexicais (Selkirk, 1995:440). Segundo Bisol (2000: 19), os clíticos não respeitam os requisitos básicos da palavra prosódica, dado que não formam pés bimoraicos e não apresentam acento. Assim, e de acordo com a mesma autora (2005a), os clíticos apresentam as seguintes propriedades universais: (i) são átonos, (ii) são formas dependentes e (iii) pertencem a diferentes classes morfológicas. Atendendo ainda à característica essencial do clítico – ser átono -, Vigário (2003b: 180) distingue clíticos de palavras funcionais acentuadas. Assim, considera palavras funcionais acentuadas algumas preposições (após, até, desde, sobre), alguns pronomes pessoais (ele(s), ela(s), nós, nosso(s), nossa(s)), algumas conjunções (logo, embora, caso, conforme), o quantificador todos, os pronomes quem e onde. 54 Para Hayes (1989: 209), o grupo clítico é domínio das regras de palatalização e de sandhi no inglês. Para Bisol (2005a), o grupo clítico é domínio da regra de elisão da vogal /e/, além de ser o menor domínio para a regra de elisão da vogal /a/ no português brasileiro. 57 No que respeita ao grupo dos clíticos, a autora divide-o ainda em monossilábicos e dissilábicos. Pertencem ao primeiro subgrupo 55 algumas preposições (a, de, por, com, em), os artigos definidos 56 , alguns pronomes pessoais (me, te, se, lhe, lhes, nos, vos, o, os, a, as), algumas conjunções (e, mas, ou), o pronome (que). Inserem-se no segundo subgrupo a preposição ou conjunção para, a contração pelo(s)/a(s), o quantificador ou pronome cada, o complementador porque (cf. Bisol, 2004:1). Vigário (2003b: 182) estabelece uma correspondência entre os clíticos em português e as subclasses indicadas por Zwicky (1977) 57 . Assim, de acordo com a autora, poderemos encontrar as seguintes subclasses em Português Europeu: i. clíticos especiais: os pronomes pessoais inacentuados apresentam uma distribuição especial; ii. clíticos adjuntos: as palavras funcionais com schwa ou [] como única vogal são inacentuadas e, por isso, são consideradas palavras dependentes; iii. clíticos simples: as restantes palavras funcionais inacentuadas. Esta divisão parece igualmente ser motivada pela classe gramatical a que pertence o clítico, uma vez que esta influencia a posição que o clítico assume em relação ao hospedeiro. 55 Bisol (2005b) acrescenta ainda os artigos indefinidos um e uma. Vigário (2003b: 179) admite a possibilidade de os referidos artigos poderem ser considerados inacentuados, mas ser difícil diferenciar o seu comportamento do das palavras acentuadas. 56 Há, em português, uma conexão particular entre as formas do artigo definido e os pronomes clíticos átonos, que historicamente provêm do acusativo do demonstrativo latino ille, illa, illud. “Para a terceira pessoa não possuía o latim nenhum pronome especial, recorria por isso a alguns dos demonstrativos, hic, iste, ipse, is, idem, ou ille; o latim vulgar empregou de preferência no masculino ille, que se acha representado em português por ele e el, que divergem entre si apenas em o primeiro conservar o e final, que no segundo, ainda em uso no povo, que lhe dá para plural eis, caiu, devido a próclise (…)” (Nunes, 1989:237) . O mesmo autor (id:251) sublinha a inexistência de artigos no latim, sendo utilizado com a mesma função destes, nomeadamente designar pessoa ou coisa conhecida por todos, os demonstrativos ille e ipse. No acusativo, ille evoluiu regularmente para elo e ela, formas que pelo seu caráter proclítico passaram para lo e la. “Sucedia, porém, que na fala, em que soavam como se constituíssem um vocábulo único a palavra e o lo ou la que a precedia ou seguia, frequentemente estes se achavam entre vogais e, como em tais casos o génio da língua repelia o -l, daí a sua transformação posterior em o ou a” (id: 252). 57 Zwicky (1977) propõe a distinção de três subclasses de clíticos: os simples (definidos como morfemas livres que, quando inacentuados, podem apresentar uma forma reduzida fonologicamente e dependente de um hospedeiro); os especiais (formas dependentes inacentuadas que surgem como variantes de formas livres acentuadas, com o mesmo significado e fonologicamente semelhantes; não se tratam, no entanto, de formas comutativas, podendo, pelo contrário, ocorrer na mesma frase); os adjuntos (morfemas dependentes e inacentuados, que podem ser associados a palavras de diferentes classes morfológicas). 58 1.3. Relação entre o clítico e o hospedeiro Enquanto forma dependente, o clítico pode associar-se ao elemento linguístico que o antecede - enclíticos - ou ao que o segue – proclíticos (Halpern, 2001: 101) 58 . De acordo com Mattoso Câmara Jr. (1970: 62), os primeiros corresponderiam a uma sílaba postónica última de um vocábulo, enquanto os segundos a sílabas pretónicas. A diferença entre enclíticos e proclíticos mostra-se igualmente no grau de conexão: os enclíticos (como os sufixos) apresentam uma maior ligação com o hospedeiro do que os proclíticos (como os prefixos), os quais normalmente apresentam uma maior independência em relação ao hospedeiro (Vigário, 2003b: 18). Línguas como o português admitem ainda uma terceira opção – a mesóclise, quando o clítico ocorre no interior do hospedeiro (Brito, Duarte e Matos, 2003:831) 59 . Um clítico, no sentido fonológico restrito, ou seja, uma palavra sem acentuação e não apresentando qualquer outra particularidade, não necessita de ter consequências sintáticas. É esse o caso, por exemplo, das preposições que regem o sintagma preposicional. Contrapondo a esta definição de clítico, as línguas românicas apresentam uma classe de pronomes inacentuados e que implicam uma redistribuição dos constituintes frásicos. Esta constatação mostra que, embora comportando-se todos como palavras dependentes fonologicamente, alguns clíticos são considerados como pertencentes à palavra prosódica, quando se assemelham a afixos, outros à frase fonológica, quando se assemelham a palavras independentes (Fragoso, 2009: 103-4). De acordo com Selkirk (1995), a relação referida pode apresentar diferentes configurações, podendo os clíticos assumir diferentes designações: clíticos livres, clíticos internos e clíticos afixais 60 e apresentam as seguintes estruturas: i. Clítico livre: (fnc(lex)PWd)PPh; ii. Clítico interno: ((fnclex) PWd)PPh; iii. Clítico afixal: ((fnc(lex)PWd) PWd )PPh. Ainda no que se refere à relação que estabelecem com o hospedeiro, Vigário (2003b:188) refere que os proclíticos e os enclíticos apresentam estruturas diferentes. Assim, 58 A associação entre clítico e hospedeiro pode ser apenas motivada fonologicamente, mas há igualmente situações em que a motivação é sintática, ou seja, depende da estrutura sintática em que clítico e hospedeiro se integram (Anderson, 2005: 55). 59 A mesóclise implica uma estrutura prosódica diferente e será analisada no ponto 2.1. deste capítulo. 60 Para clarificar estes conceitos, podemos estabelecer a seguinte correspondência entre as subclasses indicadas por Zwicky (1977) e as indicadas por Selkirk (1995): clíticos simples são clíticos livres; clíticos especiais são clíticos internos; clíticos adjuntos são clíticos afixais. 59 de acordo com a autora, os proclíticos apresentariam uma estrutura de adjunção; enquanto os enclíticos apresentariam uma estrutura de incorporação. Desta forma, a relação entre o enclítico e o hospedeiro parece ser mais estreita do que a estabelecida entre o proclítico e o hospedeiro. A distinção entre os diferentes clíticos não se circunscreve ao facto de pertencerem a diferentes classes gramaticais, mas alarga-se à sua preferência pela ênclise ou pela próclise. Neste sentido, as preposições e os artigos são preferencialmente proclíticos enquanto os pronomes pessoais enclíticos (Vigário, 2003b: 188). A este respeito, Vigário assinala duas regras - a regra de apagamento da vogal arredondada (regra que apenas ocorre em final de palavra prosódica) e degeminação silábica (apagamento opcional da consoante e da vogal da primeira de duas sílabas semelhantes, quando a primeira, sílaba final de uma palavra prosódica, é átona e a segunda se encontra em início de palavra), para mostrar que os artigos e as preposições não se comportam como enclíticos, ou seja, que não incorporam na palavra prosódica que os precede. Assim, a não ocorrência do processo de apagamento da vogal arredondada - gosto do artigo [w] / *0 - e a degeminação silábica - ele entende de tudo [dɨdɨ] / [dɨ] - mostram que a preposição não está incorporada na palavra anterior. Vigário (2003b: 196) concluiu que as preposições e os artigos estabeleceriam uma relação preferencial com o hospedeiro à sua direita, preferindo a próclise. Além disso, como proclíticas, não afetam a realização da vogal inicial de uma palavra prosódica, quando se trata de uma vogal não central e não alta. Esse comportamento verifica-se igualmente em clíticos pronominais que surjam em posição pré-verbal, ou seja, que se apresentem como proclíticos. Diferente é o comportamento dos clíticos pronominais, entendidos como preferencialmente enclíticos. Começaremos por analisar os processos fonológicos que ocorrem na sequência de dois clíticos pronominais. Vigário (1998: 586) nomeia a queda da consoante dos pronomes clíticos dativos nos e vos quando é seguida por um clítico na forma acusativa lo(s)/la(s). Isso mesmo verificamos em “deste-no-lo” ou “dou-vo-la”, mas não em “*dou-lhe-lo”. A queda de consoante ocorre ainda na sequência entre formas verbais e clíticos pronominais dativos, quando ambos se encontram na primeira e segunda pessoas do plural (damo-nos ou damo-vos), não ocorrendo se o verbo estiver conjugado na primeira, segunda ou terceira pessoas do singular, mesmo que sejam seguidas do mesmo clítico (pus-nos ou faznos). Da mesma forma, não verificamos a sua ocorrência se o clítico utilizado estiver na segunda ou terceira pessoa do singular ou na terceira do plural (damos-te, damos-lhe, damoslhes). Este é, de acordo com a autora, um processo idiossincrático, dado que as sequências de 60 consoante em coda seguida de consoante em ataque ser bem formada em português, quer no interior da palavra (asno, esventrar), quer entre palavras (belas luvas, pires novo). A sequência entre verbo e alguns clíticos pronominais em posição enclítica, nomeadamente os referentes à 3ª pessoa, não reflexos, com função de complemento direto - o, a, os e as - implica igualmente a ocorrência de processos fonológicos como a epêntese de /n/ como ataque do clítico, quando o verbo termina em nasal – os rapazes partiram-nos - ou a transformação da fricativa alveolar ou pós-alveolar ou da rótica dos verbos ou outros clíticos em /l/, quando são seguidos de um clítico iniciado em vogal – ele fê-lo (Barrie, 2000: 41-2; Luís, 2001). Estas formas coocorrem com formas onde essas alterações não se verificam (partiu-o ou fazia-o). Estas variações não são explicáveis através de regras fonológicas gerais da língua, pois envolvem informação de natureza morfossintática. Na realidade, estas transformações ocorrem antes de clítico acusativo, como em dá-lo, mas não ocorrem quando o clítico se encontra no caso dativo (Vigário, 1999a: 586; Monachesi, 2004:63), como em dar-nos. De acordo com Vigário (2003b: 187), quando o verbo é seguido por um clítico pronominal, a vogal final da forma verbal não se comporta como uma vogal em final de palavra. Por sua vez, o clítico pronominal assume o comportamento de uma sílaba final de palavra prosódica, demonstrando que estamos perante uma estrutura de incorporação, facto que se comprova pela aplicação da regra de semivocalização e pelo não apagamento da vogal não recuada final. No entanto, esse comportamento não implica que a sequência nomeada se insira no mesmo nível prosódico que uma palavra prosódica, uma vez a presença do clítico não bloqueia o aparecimento de glide nasal, não desencadeia a regra de dissimilação de vogais não recuadas, seguidas de consoante palatal, nem desencadeia a regra de ditongação (Mateus, 1975: 31; Vigário, 1999b: 225). Ao contrário de Vigário, Crysmann (2001) defende que as palavras se encontram apenas parcialmente prosodizadas no nível lexical, podendo ser integradas posteriormente com a palavra seguinte. Assim, as palavras não teriam o seu processo de silabificação concluído, de modo a que os segmentos finais poderiam silabificar com a palavra seguinte. O autor estabelece ainda uma distinção entre os clíticos não pronominais e os pronomes clíticos. Os clíticos não pronominais, como signos lexicais, são adjuntas prosodicamente à palavra prosódica seguinte, com a qual não estabelece uma verdadeira relação prosódica. A sua variante reduzida só é selecionada se a palavra seguinte começar por vogal, uma vez que as palavras iniciadas por consoante já têm o ataque especificado. Os pronomes apresentam um 61 comportamento semelhante, não sendo especificados em relação às propriedades prosódicas, as quais seriam determinadas pelo esquema morfológico, sujeito, por seu turno, à posição do clítico em relação ao hospedeiro. Desta forma, em posição proclítica, estabelecem ligação com a palavra à sua direita, apresentando características semelhantes às das palavras funcionais; em posição enclítica, as suas características aproximem-se das do seu hospedeiro. Luís (2001: 170) defende ainda que as regularidades observadas nos pronomes os aproximam dos afixos. A ordem fixa dos clíticos na frase e as restrições de coocorrência não advêm de princípios gerais da sintaxe. Do mesmo modo, as alterações morfofonológicas que ocorrem no interior do grupo formado por clítico e hospedeiro não derivam de regras fonológicas. O verbo está sujeito a alomorfia do radical e não pode separar-se do enclítico. A distinção entre os clíticos não se circunscreve à classe gramatical a que pertencem, mas mostra-se igualmente na relação que estabelecem com o seu hospedeiro. Neste sentido, parece-nos importante sublinhar duas ideias: os artigos e as preposições assumem-se como proclíticos, estabelecendo, com o seu hospedeiro, uma estrutura de adjunção, como ilustrado em (2); os pronomes pessoais 61 , enquanto enclíticos, formam com o hospedeiro uma estrutura de incorporação, como em (3). (2) (3) ω ω σ ω clítico hospedeiro hospedeiro clítico (Vigário, 2003b: 203, 193) Este caráter afixal dos clíticos aproxima os proclíticos das características dos prefixos e os enclíticos das dos sufixos. Neste sentido, Luís (2004: 350) defende que os pronomes enclíticos são genuínos sufixos verbais, que se apresentam, no radical, como elementos exteriores ou como elementos flexionais. Por sua vez, os proclíticos constituem prefixos frásicos. Como sufixos verbais, os clíticos referidos podem ser inseridos na posição final ou 61 De acordo com Duarte, Matos e Faria (1995: 134), a ênclise é a estrutura padrão do português europeu; a próclise apenas ocorre por exigência de um operador, que implica movimento do clítico; a mesóclise substitui a ênclise quando o verbo se encontra no futuro do indicativo ou no condicional. 62 internamente no verbo; como afixos frásicos, os proclíticos são gerados na morfologia, mas colocados na sintaxe. As características dos afixos serão analisadas no ponto 2 deste capítulo. 1.4. Processos fonológicos que motivam o constituinte prosódico – Grupo Clítico Para Bisol (2005b), o clítico é anexado via silabificação ao hospedeiro, uma palavra que já possui estrutura prosódica, que se reestrutura para formar com o clítico um novo constituinte prosódico: a palavra prosódica pós-lexical, que aqui designamos por grupo clítico. Há diferentes processos fonológicos que atestam a dependência do clítico face a um hospedeiro. A autora nomeia como evidências dessa característica as seguintes: a insensibilidade do clítico à restrição das três janelas; a mobilidade (no caso dos clíticos pronominais) na frase; a sensibilidade às regras pós-lexicais (Bisol, 2000: 25). A autora foca-se nesta última característica para demonstrar que o clítico forma com o seu hospedeiro um grupo prosódico – o grupo clítico ou a palavra prosódica pós-lexical – e esse grupo seria a menor unidade prosódica da componente pós-lexical (id.:27). A prosodização do clítico junto ao hospedeiro processa-se, pois, no domínio pós-lexical, sem informação de categoria morfológica ou de função sintática, tornando iguais sequências como: te dizer, dizer-lhe, de noite, com calma, de tardezinha, em surdina. 62 Procederemos, seguidamente, à enumeração dos processos que ocorrem no interior do constituinte prosódico nomeado em português europeu: I. Insensibilidade do clítico à restrição da Janela das Três Sílabas Verificamos, no ponto 2.4.1. do capítulo I, que a janela de atribuição do acento se reduz sempre às três sílabas finais da palavra prosódica (Mateus e D’Andrade, 2000; Mateus et al., 2003), não existindo, por isso, palavras acentuadas para além da terceira sílaba a contar do limite direito daquelas. No entanto, a associação de clíticos pronominais a formas verbais implica a subida do acento além da antepenúltima sílaba, nomeadamente à quarta (cantávamos-te) e à quinta (cantávamo-vo-lo), ou seja, dependência fonológica do clítico implica a ocorrência de formas que violam a Janela das Três Sílabas. Alguns autores (Mateus e Andrade, 2000: 116; Pereira, 1999: 122; Vigário, 1999b:224) defendem que esta violação é 62 A linguista relembra que a Fonologia Lexical tem por pressuposto a Condição de Bracketing, condição de apagamento de parênteses internos, que atua ao finalizar das operações de cada componente, seja lexical seja sintático, deixando sem informações morfológicas ou sintáticas o componente pós-lexical em que se dá a prosodização do clítico (Bisol, 2005b). 69 No entanto, a constatação de que alguns prefixos apresentariam características próprias dos sufixos e alguns sufixos se comportavam como prefixos motivou a conclusão de que as características nomeadas não eram atribuíveis à posição ocupada pelo afixo, mas à função que este desempenha na estrutura da palavra. Assim, Villava (id: 943) propõe a distinção entre afixos derivacionais, que exibiriam todas as propriedades enumeradas para os sufixos, e afixos modificadores, que apresentariam as atribuídas aos prefixos. Atendendo às características nomeadas, a autora distingue dois processos: a derivação e a modificação. Por razões metodológicas, manteremos, neste trabalho, a distinção entre prefixos e sufixos, sublinhando em cada item as características derivacionais ou modificadoras que os mesmos exibirem. 2.2. 1.1. Algumas particularidades dos prefixos Tal como observamos para outras línguas no capítulo anterior, vários autores defendem a existência de dois grupos de prefixos, sendo o acento o indício da sua autonomia. Assim, os prefixos que apresentam acento próprio formam um pé métrico, comportando-se como membros de palavras composta. Já os outros são anexados a uma base morfológica. Este último grupo pode subdividir-se entre aqueles que integram a palavra prosódica no primeiro nível da componente lexical, não alterando estruturas prosódicas prévias, e outros, que por não necessitarem ligação direta à base morfológica, integram mais tardiamente a palavra prosódica (Bisol, 2000:14). De acordo com Schwindt (2008:392), do ponto de vista prosódico, os prefixos podem assumir diferentes relações com a palavra à qual se associam: i. constituem uma sílaba átona à esquerda de outras sílabas, formando com estas uma só palavra prosódica, num mecanismo de incorporação - prefixos incorporados, como na forma inscrito, representada na seguinte estrutura: (5) ω prefixo base (Vigário, 2003b: 166) 70 ii. são uma sílaba átona à esquerda de uma palavra prosódica, com a qual formam uma palavra prosódica recursiva, num mecanismo de adjunção - prefixos adjuntos, como na forma desatado, representada na seguinte estrutura: (6) ω ω prefixo base (Vigário, ibidem) iii. são uma palavra prosódica formada por uma ou duas sílabas, relacionando-se com outra palavra, com a qual formam uma palavra prosódica recursiva, num mecanismo de composição prosódica - prefixos composicionais 67 , como na forma pré-escola, representada na seguinte estrutura: (7) ωmax ωw ωs prefixo base (Vigário, id.: 232) Schwindt (2000: 77) sublinha, além disso, que muitos dos prefixos incorporados no português eram preposições latinas, cuja maioria tivera origem em advérbios. Muitas dessas preposições passaram para o português, ora sem modificação de forma (ante, contra, de, per), ora alteradas (ad > a, post > pós, cum > com, inter > entre, sine > sem, trans > trás, pro > por, secundum > segundo, in > en/em, sub > sob/so, super > sobre). As mesmas formas são, além de preposições, prefixos, alguns mantendo mesmo a sua forma primitiva. Essa é igualmente a opinião de Mattoso Câmara Jr. (2007:246), que associa o prefixo à variante presa das preposições. A sua adjunção a uma palavra cria uma nova 67 O mesmo autor defende que os prefixos incorporados só conservam limite morfológico em relação à base, mas prefixos adjuntos e compostos, por outro lado, têm estruturas morfológica e prosódica delimitadas. Schwindt (2008) propõe, para os prefixos composicionais, a seguinte estrutura: [[σ (σ)]PW [σ...]PW]PW. Esta proposta implica a violação do princípio de exaustividade e do princípio de recursividade. Vigário (2003b), ao admitir a inserção do Grupo de Palavra Prosódica num nível intermédio entre a Palavra Prosódica e o Sintagma Fonológico, oferece uma estrutura adequada para a análise desses prefixos, sem recurso à violação dos princípios nomeados. 71 significação externa para esta, que sendo um radical pode apresentar três formas: é uma forma livre; é uma forma livre numa estrutura variante; é uma forma presa, mas constitui a base de duas palavras 68 . Vigário (2003b: 167) refere as regras que demonstram a não incorporação de alguns prefixos na base incluem o fortalecimento inicial de // (rerubricar []), a não redução da vogal em posição inicial (reorganizar [] / [] / *[u]), a variedade dos traços de altura que caracteriza as vogais iniciais e a atribuição de acento enfático. Acresce aos processos fonológicos indicados a não aplicação da centralização da vogal heterossilábica /e/ (reeditar [e] / [i] / *[]). Essa não inclusão na base não constitui, contudo, motivo suficiente para a classificação desses prefixos como palavras prosódicas. Os prefixos indicados, além de não possuírem acento próprio, apresentam [] como única vogal (refazer []; desfazer []) e a mesma pode ser sofrer um processo de semivocalização se a base for iniciada por outra vogal (readaptar [j]; realojar [j]). Apesar de não constituírem uma palavra prosódica, os prefixos referidos não se incorporam na palavra prosódica que domina a base, uma vez que nunca alteram a acentuação. Vigário (2003b: 170) conclui, por isso, que esses prefixos são adjuntos à palavra prosódica que inclui a base a que se ligam. Há, no entanto, outros prefixos, que apresentam características e estruturas diferentes, denominados por composicionais (pré-acentual; pós-moderno; pró-comunista). Schwindt (2000: 103) indica dois requisitos para que tais prefixos possam apresentar o estatuto de palavra prosódica: “que formem pés isoladamente e que não possuam mais do que um acento primário”. Esses prefixos são monossilábicos tónicos e bimoraicos, pelo que respeitam os requisitos de palavra prosódica. A presença do acento, nos exemplos dados, é confirmada pela não aplicação ao prefixo dos processos de elevação e centralização do vocalismo átono (Mateus, Frota e Vigário, 2003: 1062). Além da acentuação, a neutralização do grau de altura das vogais não-altas em sílabas 68 Estas observações motivam, para Nespor e Vogel (1986:127), a distinção entre o processo sincrónico e o diacrónico da prefixação. De acordo com as autoras (id:127), que se reportam a dados do italiano, perante palavras com prefixos de origem grega ou latina, o falante não teria perceção do processo diacrónico e, consequentemente, consideraria essa construção como uma única palavra prosódica e não como uma palavra derivada. Schwindt (2000: 67-8) reafirma a ideia de que muitos dos prefixos não permitem uma identificação sincrónica por se encontrarem já integrados em formas lexicalizadas. 72 átonas finais fechadas por /ɾ/ 69 demonstra que os prefixos apresentam estatuto de palavra prosódica (int[]rcultural; hip[]rmotivado; sup[]rprático). Como alguns autores registaram 70 , outro processo que permite diagnosticar o estatuto de palavra prosódica é a possibilidade de apagamento de palavras fonológicas em estruturas coordenadas. Para que esse processo se aplique é necessário que não só a unidade que é apagada mas também a unidade que permanece na estrutura coordenada correspondam a palavras prosódicas autónomas, como se verifica em: (pré)ω (tónicas)ω e (pós)ω (tónicas)ω > (pré) ω e (pós) ω (tónicas) ω (Vigário, 2003a: 416). Podemos sustentar estas observações recorrendo a alguns dos diagnósticos para a identificação da palavra prosódica no Português: cada um dos termos coordenados em apresenta dois acentos de palavra (os prefixos pré e pós e a base tónicas são acentuados); as vogais acentuadas de cada palavra prosódica não sofrem os processos de elevação e centralização do vocalismo átono (p[ɔ]s-, pr[]-, t[ɔ]nicas). Esse processo apagamento não se aplica, no entanto, se, em cada palavra, um dos membros não corresponder a uma palavra prosódica: (des(fez)ω )ω e (re(fez)ω )ω > *(des)ω e (refez)ω . É o caso deste exemplo, onde a única vogal dos prefixos ree desé um schwa. Há ainda outras situações a analisar. Observemos os exemplos: a. *um torneio (intra) ω(nacional) ω e (int[ɨ]r) ω(nacional) ω b. diversidade (intra) ω(linguística) ω ou (int[]r) ω(linguística) ω A diferença entre os dois exemplos apresentados resulta das características da vogal átona não-alta final de inter. Só se a referida vogal apresentar uma realização baixa, pode ser apagada numa estrutura de coordenação. Em (b), inter é uma palavra prosódica, mas não tem esse estatuto em (a), daí a agramaticalidade do exemplo. Em (a), inter é um prefixo adjunto, mas em (b) é um prefixo composicional. 69 Este é um processo fonológico lexical que ocorre na palavra prosódica, como descrevemos no ponto 2.5.3.2. do capítulo I. 70 Das línguas abordadas, neste estudo, regista-se este processo no alemão (Wiese, 1996: 70); no francês (Vigário e Frota, 2002: 255) e no espanhol (Hualde, 2005: 228). 73 2.2.1.2. Algumas particularidades dos sufixos Ao contrário dos prefixos, os sufixos determinam a categoria sintática da palavra, bem como o valor das categorias morfológicas, morfossintáticas e morfossemânticas relevantes (Villalva, 2003:942). Assim, o sentido da palavra derivada é parcialmente determinado pelo morfema funcional que é afixado à base 71 . Mattoso Câmara Jr. (1970: 64) defende que o sufixo, além de determinar a categoria do derivado, recebe, normalmente o acento. No entanto, se analisarmos diferentes sufixos, verificamos que estes apresentam comportamentos diferenciados. Assim, há sufixos - como /-vel/ - que não provocam alteração do lugar do acento, ou seja, este mantém-se sobre a vogal temática como ocorre na palavra primitiva. Tal se verifica em inacreditável ou incrível. Outros sufixos - como é o caso, por exemplo, do sufixo /-ico/, que é utilizado para formar adjetivos proparoxítonos - podem manter a acentuação da base (alfabeto - alfabético), fazer recuar (categoria - categórico) ou avançar (símbolo - simbólico) o acento. Estas alterações de acentuação foram analisadas por Pereira (1999: 128-9), que demonstra que a regra de base se mantém: o domínio de atribuição do acento continua a ser o radical, mas acrescenta que se trata do radical derivacional, definido como um dos constituintes da palavra, que pode conter uma ou mais raízes. As palavras derivadas são igualmente acentuadas na última sílaba do radical derivacional, independentemente do número de constituintes do mesmo, como podemos verificar pelos exemplos: pessegueiro; pessegueirinho; maioria; dentuça; tolice; credibilidade; olival; sensatez; macacão; regador; corpanzil; familiar. Estas características mostram que os sufixos incorporam na palavra prosódica que domina a sua base, constituindo uma única palavra prosódica, conforme a estrutura prosódica proposta por Vigário (2003b: 165), apresentada em (8): (8) ω base sufixo (Vigário, 2003b: 165) 71 De acordo com Figueiredo Silva e Mioto (2009:3), o significado de ‘armário para guardar roupas’ que roupeiro apresenta deve ser creditado ao sufixo –eiro. 74 Tal como observamos para os prefixos, também se registam exemplos de sufixos que parecem ser autónomos em relação à base. A base, como constituinte preso, categorizado como radical ou como tema, que se apresenta como não autónomo alojado no interior do produto derivacional, não é sensível a propriedades de concordância. Apenas o derivado pode apresentar propriedades flexionais de número, género, de tempo ou modo. Em português, essas marcas encontram-se em adjacência à direita do radical nominal ou do tema verbal (RioTorto, 2006). No entanto, há palavras, em português, que parecem não respeitar essas características, nomeadamente as palavras derivadas que apresentam os sufixos -zinho e – mente, que serão analisados em seguida. 2.2.1.2.1. Algumas particularidades do sufixo –mente Cintra (1993: 74) destaca a singularidade de, num sistema tão rico como o dos afixos derivacionais do português, ocorrer apenas um sufixo adverbial e de este ser o único caso de ocorrência de um só sufixo. Na realidade, este tem sido um assunto controverso. Câmara (1970: 70) considera –mente uma forma livre, referindo a manutenção do acento por parte do adjetivo e a consequente ocorrência de vogais abertas em posição prétónica 72 , bem como a seleção da desinência de feminino para concordar com o sufixo. Cintra (id.:75) defende que a ocorrência de vogais abertas em posição pré-tónica aproxima as palavras referidas (claramente; regiamente; vivamente; livremente) de um padrão acentual característico de compostos (passatempo; vitória-régia) ou sequências de palavras (clara voz; viva voz; livre curso). A particularidade de –mente exigir flexão de género impede-o, de acordo com Cintra (id.: 79), de ser considerado sufixo derivacional, uma vez que violaria as regras morfotáticas básicas, de acordo com as quais os sufixos flexionais de género e número ocorrem sempre segundo esta ordem e após os derivacionais, no final da palavra; como se constata no exemplo: livr - inh - o – s. Quando acrescentamos o sufixo – mente, os sufixos flexionais não ocorrem no final da palavra, como podemos verificar em sadi – a – mente. O autor relembra ainda que a seleção da forma feminina do adjetivo decorre de uma regra de concordância, uma vez que –mente advém do ablativo singular do nome feminino 72 De acordo com Villalva (2003: 949), estes são derivados em que a vogal tónica da forma de base fica imune aos efeitos do vocalismo átono. 75 latino mens, mentis 73 . Os advérbios em –mente apresentariam uma flexão interna, impositiva e específica, de género, marcada com [-masculino], o que justifica a agramaticalidade das formas como *generosomente; *bommente ; *vãomente (Rio-Torto, 2006). Além disso, a forma –mente pode ser apagada numa estrutura de coordenação, ou seja, goza o privilégio sintático de fatorizar (Cintra, id.: 76; Vigário, 2003a; Villalva, 2003:950): Ele falou clara e abertamente. As caraterísticas assinaladas indicam que –mente não é um sufixo adverbial, já que não apresenta quaisquer características de sufixo (Cintra, ibidem), sendo antes um vocábulo fonológico independente, que apresentaria a representação prosódica, ilustrada em (9): (9) ωmax ωw ωs base sufixo (Vigário, 2003b: 227) 2.2.1.2.2. Algumas particularidades do sufixo –zinho Outro sufixo que merece análise detalhada é –zinho. Andrade (1994: 46) defende que as formas sufixais com [z], como –zinho ou –zito, não manifestam a verdadeira forma do sufixo. Pelo contrário, os seus derivados conservam a individualidade fonética e morfológica da palavra primitiva, apresentando duas vezes marca do género (vermelhozinho / vermelhazinha) e do número (cãozinho / cãezinhos). Esta marcação dupla de género e de número não se manifesta quando as formas sufixais não apresentam [z] (professorinho / professorinha), o que indica que as formas z-avaliativas determinam a classe temática da forma onde se integram, por concordância com o valor de género da forma de base e de acordo com a sua realização não marcada (professorzinho / professorazinha), ou seja, tema em –o para formas masculinas e tema em –a para as formas femininas (Villalva, 2000: 321). 73 Booij (2007: 171) defende que se trata de um caso de alomorfia: o sufixo associa-se a forma feminina do adjetivo porque deriva da forma do ablativo do nome latino mens, cujo género era feminino e requeria, por isso, que o adjetivo se apresentasse igualmente no género feminino. A esse respeito ver igualmente Hualde (2005: 228) para o espanhol. Esta associação remete para a evolução diacrónica das línguas, constituindo esse dinamismo uma dificuldade para uma defin ição do concei to de “palavra” (Bodmer, 1960: 36). 76 Villalva (1998) assinala ainda outro contraste entre os dois tipos de sufixação avaliativa, nomeadamente o que ocorre nos nomes masculinos de tema em –a: pijaminha / pijamazinho; probleminha / problemazinho. Nas formas avaliativas o índice temático presente é o da forma de base. Nas formas zavaliativas, verificamos que o índice temático se encontra na forma de base, mas o índice temático da nova palavra é definido por concordância e realizado de acordo com o caso nãomarcado no Português: tema em –o para o masculino. Outra particularidade se observa nas palavras formadas por sufixação z-avaliativa: a presença de duas marcas de plural. Algumas palavras, apesar de não exibirem a realização fonética do sufixo do plural, mostram a forma do tema que é exclusiva do plural, como observamos em: flores (flor) / florezinhas (florzinha); caracóis (caracol) / caracoizinhos (caracolzinho); leões (leão) / leõezinhos (leãozinho); pães (pão) / pãezinhos (pãozinho). De acordo com Villalva (2008:167-8), estes exemplos indicam que o sufixo z-avaliativo se associa a formas flexionadas. O sufixo de flexão de base não é realizado foneticamente é por razões de natureza fonológica, relacionadas com a degeminação de consoantes muito próximas, i.e., [ʒ] e [z]: [[flores]N zinhas]N; [[caracóis]N zinhos]N; [[leões]N zinhos]N; [[pães]N zinhos]N. Por fim, tal como acontece com o sufixo -mente, também nestes exemplos a forma de base exibe duas sílabas e permanece imune aos efeitos do vocalismo átono (bolazinha – b[]lazinha). Estas constatações levam Andrade (1996) à conclusão de que os sufixos –inho, - ito, -ete e –ão aumentativo, quando têm [z], se encontram separados da palavra primitiva pela fronteira #. Lee (1999) defende que, dadas as características acima referidas, -inho é um sufixo, isto é, um elemento que faz parte de um processo derivacional, enquanto que –zinho é considerado como um elemento que faz parte de um composto, ou seja, é considerado palavra prosódica. Os referidos sufixos apresentam restrições de seleção. Assim, -inho associa-se a radicais de nomes temáticos, terminados em /a/, /o/ ou /e/ átonos (casa - casinha [kzí]; livro - livrinho [livíu]; pente - pentinho [petíu]; papel – papelinho [pplíu]). Já os nomes terminados em /r/, /l/ e /s/ associam-se preferencialmente a diminutivos com z, embora admitam outros (amor - amorzinho [mozíu]; animal - animalzinho [nimázíu]; papel - papelzinho [ppzíu]). É de assinalar a dupla marcação do plural no diminutivo com z. Por fim, os radicais acabados em vogal ou ditongo, orais ou nasais, só aceitam diminutivos com z (café - 77 cafézinho [kfzíu]; som - sonzinho [sozíu]; chapéu - chapéuzinho [pwzíu]) (Mateus e Andrade, 2000: 103). Em nomes temáticos, terminados em /a/, /o/ ou /e/ átonos, a forma –inho é anexada a um radical, implicando a ressilabificação e alterando o acento. Nos restantes exemplos, a forma –zinho apresenta autonomia em relação à base, constituindo um domínio de silabificação e de acentuação autónomo. Uma análise comparativa das formas papelzinho [ppzíu] e papelinho [pplíu] permite-nos ainda constatar uma outra particularidade. A presença do [z] impede a aplicação da regra de neutralização das vogais átonas, cujo domínio é a palavra prosódica. Assim, as palavras deste tipo funcionariam como verdadeiras palavras compostas, recebendo mais do que um acento (Andrade, 1994: 46). Essa é igualmente a conclusão de Faggion (2006) que realça a diferença entre estes dois sufixos, explicitando que -inho se associa a um radical e mantém o seu acento, modificando o acento tónico da palavra e -zinho se associa a uma base e assinala a presença de dois acentos tónicos na forma resultante. Há vários casos em que a seleção do sufixo depende dos gostos ou dos hábitos linguísticos dos falantes. Formas como dinheirinho e dinheirozinho podem coexistir. O uso preferencial, no entanto, parece estar dependente de dois fatores: o número de sílabas da forma de base (os sufixos avaliativos são preferidos por bases com um menor número de sílabas) e o universo semântico a que essas formas pertencem (os sufixos avaliativos ocorrem mais no vocabulário ligado ao quotidiano). Apenas se regista uma restrição: os sufixos avaliativos não podem juntar-se a palavras atemáticas, daí as formas *caféinho, *ladrãoinho ou *cacauinho serem agramaticais (Villalva, 2003: 960). Rio-Torto (2006) acrescenta que os restantes casos de z-derivação apresentam uma base opaca à flexão interna, encontrando-se a marca de número apenas na fronteira direita do derivado, tendo escopo sobre a totalidade, como o verificamos em papelada(s) - *papeizadas ou canzoada(s) - *cãezoadas. Estas formas, como –zinho ou –mente, são denominadas como afixoides ou semiafixos, uma forma que se encontra entre a base e os afixos (Hacken, 2000: 355). À semelhança do que verificamos em relação a alguns prefixos, alguns sufixos demonstram independência prosódica em relação à base à qual se associam. Hacken (id. ibidem) relembra que, diacronicamente, estes elementos poderão ser entendidos como uma classe de transição entre radical e afixo. Sincronicamente, destacam-se pela sua crescente produtividade, pela diluição 78 da sua especificidade semântica e pela ligação etimológica e formal a um radical livre. Os dois primeiros critérios aproximam-no de um radical, o último dos afixos. Outra é, no entanto, a interpretação de Bisol (2010:83) ao defender –inho como o afixo diminutivo mais frequente do português, que se reveste de z epentético para satisfazer os requisitos da organização estrutural. Partindo dos pressupostos da teoria da Otimidade, a autora explica a epêntese de z como forma de evitar o hiato, sublinhando que a mesma é fiel ao traço do input e à estrutura silábica de base e preserva o acento marcado. Para concluir, queremos reforçar a ideia de que, tal como indicamos para os prefixos, existem dois tipos de sufixos, ilustrados nas estruturas em (10): a. um associa-se a um radical, formando com este uma unidade fonológica; b. o outro associa-se a uma palavra, mantendo um certo grau de independência, marcado por uma acentuação própria e possibilitando a flexão interna. As palavras que resultam da associação a este último tipo de afixos parecem apresentar algumas características que as aproximam dos compostos. (10) a. ω b. ωmax ωw ωs base sufixo -inho base sufixo -zinho 2.3. Palavras compostas 2.3.1. Características gerais dos compostos Em muitas línguas, um dos processos mais produtivos de formação de palavras é a composição, que consiste na concatenação de dois ou mais radicais ou palavras. Nos casos mais simples, a composição consiste na combinação de duas palavras, sendo que uma modifica o significado da outra, que corresponde à cabeça 74 do composto. Este tipo de compostos apresenta uma estrutura binária (Booij, 2007:75) 75 . A produtividade deste processo 74 A noção de cabeça é uma noção sintática. Na sintaxe, cada constituinte apresenta uma cabeça e é a categoria sintática da cabeça que determina a categoria do constituinte. A mesma noção foi aplicada em morfologia, na análise das palavras derivadas, onde a categoria sintática do sufixo determinava a categoria da palavra derivada. 75 São exemplo dessa estrutura palavras como Rotlicht em alemão. 85 direito da palavra prosódica, o que demonstra que o primeiro radical é uma palavra prosódica (fotomontagem [fɔ tɔm t ʒɐ ]; autoadmiração [ tɔɐ miɾɐs ]; biomédico [ ɔmɛ i ]; teleconferência [tɛ ɛ fɨɾé s ɐ]; inforjovem [ fɔɾʒɔ vɐ ] 82 ; heliporto [ɛ ip ɾt ]). Estes compostos contrastam, de acordo com Vigário (id.: 235), com os enunciados por Villalva (1998). Desta forma, Vigário assume que as diferenças prosódicas registadas entre os exemplos resultam das diferentes estruturas morfológicas associadas aos mesmos. Assim, no primeiro tipo de compostos morfológicos, o segundo membro do composto não corresponde a uma palavra, pelo que os mesmos se formam a partir da concatenação de radicais. Já no segundo tipo de compostos morfológicos, o segundo membro corresponde a uma palavra, pelo que estamos perante a concatenação de um radical com uma palavra. Os compostos morfológicos não permitem estabelecer uma correlação entre as estruturas morfológicas e as estruturas fonológicas. Como foi sublinhado por Vigário (id.: 234), em português, encontramos palavras como poligâmico, que inclui duas palavras prosódicas ((poli)w(gâmico)w), no entanto, gâmico não é uma palavra independente, pelo que o estatuto fonológico deste componente não apresenta correlação com o seu estatuto morfológico. Assim, constatamos que os compostos morfológicos apresentam dois tipos de estruturas prosódicas: i. uma palavra prosódica com dois radicais: (fotografia)ω; ii. cada palavra prosódica é composta por um radical (podendo incluir um sufixo): (foto)ω(composição)ω. A diferença entre os dois tipos enunciados é igualmente constada a possibilidade de apagamento de um dos constituintes numa estrutura de coordenação. Esse apagamento, de acordo com Vigário (2003b: 252) produz estruturas agramaticais nas estruturas que formam apenas uma palavra prosódica (*monoe biografia); mas corresponde a estruturas gramaticais quando resultam em mais do que uma palavra prosódica (auto e heteroavaliação). Atendendo às características dos compostos morfológicos e partindo das representações prosódicas propostas por Vigário (2003b), poderemos indicar dois tipos de estruturas prosódicas, uma para os compostos morfológicos lexicalizados, que agregam dois radicais de origem grega ou latina (12a), e outra os compostos morfológicos, constituídos por um radical e uma palavra (12b): 82 Observe-se, neste exemplo, a neutralização do grau de altura das vogais não-altas em sílabas átonas finais fechadas por /ɾ/, que implica a realização baixa da vogal, quando essa sequência vogal-vibrante se encontra em posição final em certos compostos, marcando uma fronteira de palavra. 86 (12) a. ω b. ωmax ωw ωs radical radical palavra palavra A partir das estruturas propostas, verificamos que a estrutura proposta em (12a) se aproxima de uma estrutura de integração, como a proposta em (10a) para alguns sufixos. A referida estrutura aproxima-se da ideia defendida por Veloso e Martins (2011: 567) de que tais palavras já foram sujeitas a um processo de lexicalização. Um outro grupo de compostos, identificado por Villalva, são os compostos morfossintáticos, que resultam de um processo híbrido de formação de palavras, podem ser gerados por três processos: adjunção, conjunção e reanálise de uma expressão sintática. Alguns destes compostos sofreram uma transformação progressiva e gradual, que se observa da existência ou não de fronteiras de palavra, dando origem à identificação de dois estádios de lexicalização destes compostos: assim, os compostos que sofreram apenas um processo de lexicalização semântica são caracterizados como justapostos (como pontapé, por exemplo); os que sofreram um processo de lexicalização semântica e formal, ou seja, perderam a sua estrutura interna, denominam-se compostos aglutinados (artimanha é exemplo disso). A respeito dos compostos aglutinados, Vigário (2003b: 237) observa que, embora de historicamente sejam constituídos por duas palavras, apresentam-se como uma única palavra prosódica, resultado de um processo de lexicalização. Os compostos morfossintáticos formados por adjunção são estruturas nominais, de núcleo inicial, sendo que o constituinte da esquerda apresenta flexão em género (aluno- -modelo e aluna-modelo) e em número (homem-rã e homens-rã) e o da direita é um modificador nominal. Este tipo de estrutura, que envolve exclusivamente unidades lexicais, gera uma nova unidade lexical 83 . Há ainda compostos morfossintáticos formados por conjunção. Estes envolvem a coordenação de nomes (autor-compositor) ou adjetivos (surdo-mudo), cujo comportamento morfológico não possibilita a identificação de nenhum dos seus constituintes como núcleo de 83 A autora esclarece que a ortografia não determina a análise linguista, facto que implica a distinção entre compostos morfossintáticos e expressões sintáticas lexicalizadas (id:979). 87 toda a estrutura, exibindo todos os constituintes valor idêntico em relação à flexão em número e ao género (no caso dos adjetivos) 84 . Por fim, Villalva (2003: 982) integra ainda nos compostos morfossintáticos as estruturas de reanálise - equivalentes aos compostos sintáticos 85 em Rio-Torto e Ribeiro (2011) -, que consiste na reinterpretação de uma estrutura sintática como palavra. Essa estrutura é uma projeção máxima do verbo, constituída por uma forma verbal flexionada na terceira pessoa do singular do presente do indicativo e seguida de uma forma nominal ou adjetival (abre-latas, tira-olhos, picapau, fala-barato). Em geral, o constituinte da direita é um nome, flexionado normalmente no plural, sendo possível caracterizar o núcleo da projeção nominal como objeto direto do verbo e com a função de tema. A forma composta resultante deste processo é um radical nominal, que normalmente possibilita uma interpretação de instrumental, sendo masculino, ou de agentivo, sendo comum de dois. Se o constituinte da direita for um nome flexionado no singular, torna-se possível desambiguar o valor de número do composto. A reanálise distingue-se dos restantes compostos morfossintáticos por não poder ocupar posições sintáticas finais quando a sua posição semântica não é composicional. Os compostos morfossintáticos apresentam configurações prosódicas diferentes: as estruturas de adjunção ou de reanálise podem ser representados como em (13), os que a estrutura de conjunção representa-se como ilustra (14): (13) (14) ωmax  ωw ωs ω ω palavra palavra palavra palavra Vigário (2003b: 238) defende que a distinção entre as duas estruturas se justifica pela aplicação da regra de apagamento da vogal final. Assim, o apagamento da vogal final do primeiro constituinte ocorreria somente se o composto apresentasse uma estrutura como a representada em (14). Assim, a ocorr ência do apagame nt o num composto do tipo “pequenoalmoço” indicaria que os dois constituintes não formavam um Grupo de Palavra Prosódica, mas que se ligariam diretamente ao Sintagma Fonológico. 84 Não se verifica, naturalmente, esta concordância quando um dos constituintes é invariável. 85 Rio-Tort o e Ribeiro (2011) incluem neste grupo expressões como “caminho de ferro” ou “ferro de engomar”, que Villalva (2003: 979) classifica como expressões sintáticas lexicalizadas. 88 3. Conclusão Neste segundo capítulo analisamos algumas estruturas que, no português, indicam a inexistência de isomorfia entre a palavra morfológica e a palavra prosódica. A partir dos indicadores dos limites de palavra prosódica, analisados no capítulo I, procuramos determinar o grau de autonomia das estruturas referidas, nomeadamente dos clíticos, de alguns afixos, dos constituintes dos compostos. Essa análise implicou a verificação da existência de estruturas acima da palavra prosódica e a subdivisão dessas estruturas em dois constituintes prosódicos: o Grupo Clítico - constituído pela palavra prosódica e pelos seus clíticos (Nespor e Vogel, 1986) - e o Grupo de Palavra Prosódica - construído por mais de uma palavra prosódica, sendo que uma domina a(s) outra(s) (Vigário, 2007). No primeiro grupo incluímos as estruturas formadas por clítico e palavra lexical que correspondem a uma única palavra prosódica – a estrutura apresenta um único acento. Atendendo a que quer o clítico quer as palavras lexicais podem pertencer a diferentes categorias gramaticais, fizemos uma análise das subclasses dos clíticos e da relação que estabelecem com o respetivo hospedeiro, pertencentes a diferentes classes. A inserção deste grupo na estrutura prosódica tem sido polémica, mas alguns autores nomeiam processos fonológicos que o motivam, nomeadamente: insensibilidade do clítico à restrição das três janelas; a mobilidade (no caso dos clíticos pronominais) na frase; a sensibilidade às regras pós-lexicais. No segundo grupo foram incluídas estruturas que agrupam mais de uma palavra prosódica, conforme sugerido em Vigário (2007), nomeadamente: estruturas mesoclíticas, palavras derivadas com sufixos que formam domínios de acento lexical independentes da sua base, palavras derivadas com prefixos acentuados, compostos morfológicos, compostos morfossintáticos. Atendendo a que as combinações de afixo e palavra lexical e entre palavras ou radicais implicam diferentes estruturas prosódicas, procedemos a uma distinção dos diferentes afixos e da relação prosódica que estabelecem com a base e distinguimos diferentes compostos, sublinhando igualmente a relação prosódica entre os seus constituintes. Destacamos os afixos que constituem domínios prosódicos independentes e os compostos – alguns morfológicos e os morfossintáticos – que apresentam mais do que uma palavra prosódica. Relativamente aos 89 compostos, queremos sublinhar a possibilidade de sofrerem um processo de lexicalização, tornando-se numa palavra prosódica simples. Tal como no Grupo Clítico, também o Grupo de Palavra Prosódica é motivado pela ocorrência, no seu interior, dos seguintes processos fonológicos específicos: presença de diferentes níveis de acento; bloqueio de processos fonológicos de apagamento de vogal; apagamento sob identidade; truncação. As estruturas analisadas mostram que não existe isomorfia entre a palavra morfológica e a palavra prosódica. Assim, analisamos estruturas em que a palavra morfológica é menor que a prosódica – Grupo Clítico – e estruturas em que a morfológica é maior que prosódica – Grupo de Palavra Prosódica. 90 II. PARTE ESTUDO EXPERIMENTAL 91 92 III. CAPÍTULO METODOLOGIA 93 94 0. Introdução Constatamos, nos capítulos anteriores, que a noção de palavra é descrita na literatura como uma das noções mais acessíveis aos falantes (Booij, 2007). De acordo com Ullmann (1951: 23), um falante, desconhecedor de qualquer teoria linguística, tem, no entanto, uma consciência intuitiva do que é a palavra na sua língua. No entanto, no plano fónico, a palavra perde, muitas vezes, parte da sua identidade. Assim, no discurso normal, há palavras que se concatenam com outras, mantendo ou não parte da sua independência. A mesma palavra pode ainda realizar-se foneticamente de modo diferente de acordo com o contexto em que se insere. Outras vezes, assistimos a fenómenos de ressilabificação. Estes fenómenos revelam que a palavra não é uma unidade fonética da fala, no entanto, o falante de uma língua parece reter a sua identidade. Os limites de uma palavra são subtilmente indicados por determinados fenómenos, que foram estudados nos capítulos anteriores. Neste estudo experimental procuramos analisar como crianças, falantes nativas do português, em idade pré-escolar, segmentavam algumas frases e, a partir dessa segmentação, verificar a noção de palavra que possuem. Nesse sentido, analisaremos algumas das estruturas mais problemáticas do português, nomeadamente os clíticos e sua relação com o hospedeiro, as palavras funcionais, os afixos e os compostos, que foram analisadas no capítulo II. Nesta análise teremos igualmente em consideração outras características da língua analisadas no capítulo I. 1. Objetivos do estudo Partindo do pressuposto chomskiano de que a linguagem é uma capacidade inata ao ser humano, que lhe permite não só gerar uma série infinita de estruturas linguísticas, como também elaborar juízos de valor acerca da sua gramaticalidade (Chomsky, 1999), consideramos que existe uma noção intuitiva de “palavra”. Neste estudo procuramos investigar essa noção de “palavra” que uma criança, falante da língua portuguesa como língua mãe, tem, antes de iniciar a aprendizagem da escrita. Reconhecemos, como já o indicamos neste trabalho, que, antes da aprendizagem da escrita, a criança já tem uma noção do constituinte fonológico em estudo – a palavra prosódica. Estudos 101 A segunda associação nomeada – entre base e afixo – tem igualmente sido motivo de alguma controvérsia, uma vez que há afixos que se juntam à base para formar uma nova palavra, mas outros mantêm alguma independência, apresentando características próprias da palavra prosódica – respeitam a restrição de minimalidade e as restrições fonotáticas da língua, apresentam acentuação própria. Neste estudo abordaremos os dois tipos de afixos, ilustrados a partir dos exemplos seguintes: a) Sufixos -inho e -ito - como em JF24; b) Sufixos -zinho e -mente - como em H1F15; c) Prefixo super- - como em MF13. Os afixos assinalados em a) unem-se a um radical enquanto que os assinalados em b) e c) se unem a palavras. Esta diferença comporta consequências no que se refere, por exemplo, à acentuação das palavras ou à silabificação e faz com que os dois tipos de afixos tenham classificações diferentes - afixos primários, que formam uma palavra prosódica com o morfema precedente, e afixos secundários, que constituem uma palavra prosódica por si só (Kiparsky, 1983; Booij, 2001: 340). Por último, analisaremos a associação entre palavras – compostos morfossintáticos – e entre radicais – compostos morfológicos. Assim, no grupo dos compostos, também encontramos situações diferentes. A associação entre palavras podem implicar a ocorrência de um processo de lexicalização semântica – nos compostos morfossintáticos deste estudo – ou a um processo de lexicalização semântica e formal – no composto morfológico aqui analisado. Assim, acrescentaremos ainda à nossa análise as seguintes estruturas: a) Compostos morfossintáticos - como em LF22; b) Compostos morfológicos 89 - como em NF11. Os grupos foram inicialmente constituídos tendo por motivação apenas dados linguísticos, tendo sido designados por uma letra do alfabeto, como se indicada na tabela seguinte: 89 A forma “aguarela” é um empréstimo da língua italiana. Na língua italiana, “aguarela” é composta por dois radicais, mas perde a composicionalidade original na língua importadora – o português. 102 Grupo Dados em estudo Grupo A Associação entre clítico (artigo) e nome ou adjetivo, em posição de não início de frase Grupo B Associação entre clítico (preposição) e nome ou adjetivo, em posição de não início de frase Grupo C Associação entre clítico (artigo) e nome ou adjetivo, em posição de início de frase Grupo D Associação entre palavras funcionais (pronome sujeito) e verbo Grupo E Associação entre clítico (pronome complemento indireto, posposto) e verbo Grupo F Associação entre clítico (pronome complemento indireto, anteposto) e verbo Grupo G Associação entre clítico (preposição simples ou contraída) e verbo Grupo H Identificação do sufixo z-avaliativo como palavra Grupo I Identificação do sufixo –mente como palavra Grupo J Identificação dos sufixos diminutivos –inho, -ito como parte integrante de uma palavra Grupo L Segmentação dos compostos morfossintáticos Grupo M Identificação do prefixo supercomo palavra Grupo N Segmentação do composto morfológico Quadro 3 - Dados em estudo nos diferentes grupos Em todos os grupos, à exceção do Grupo J, é analisada a possibilidade de não haver isomorfia entre palavra morfológica e palavra prosódica. Nas construções com clíticos, a palavra prosódica é, segundo a literatura, maior do que a palavra morfológica. Nas outras situações analisadas, à exceção do Grupo N, tende a ocorrer o inverso. No entanto, uma primeira análise dos dados motivou algumas alterações. Metodologia estatística Após a constituição dos grupos, foi realizada uma análise de homogeneidade dos desempenhos nos testes dentro de cada grupo. Essa análise permitiu observar que, nos grupos A, C e H, havia testes do mesmo grupo, em que era notório que os alunos tinham desempenho diferente. Em relação ao grupo A, os dados pareciam indicar a existência de dois grupos: A1 e A2. Essa divisão pode ser motivada por um fenómeno linguístico – a ressilabificação - que analisaremos no próximo capítulo. A motivação para o reajustamento realizado nos grupos C e H é influenciada pela natureza da palavra e será analisada no próximo capítulo. 103 A subdivisão de E permite destacar uma estrutura linguística que causa dificuldades no processo de aprendizagem da língua e que será enunciada como E2. Os dados relativos ao grupo J são apresentados em quadro próprio, uma vez que se analisa a existência de isomorfia entre a palavra prosódica e a morfológica. Estas observações implicaram a reformulação de grupos de análise iniciais, que passaram a ter a seguinte constituição: Grupo A1 – associação entre clítico (artigo) e nome ou adjetivo, em posição de não início de frase: F6. Tenho um novo passatempo. F9. Eu trago o guarda-chuva. F20. Ela comprar-te-á um livro. F23. Não vos contei a história. F24. Li-vos o livrito. F25. Três ladrõezinhos roubaram o carro. Grupo A2 – associação entre clítico (artigo) e nome ou adjetivo, em posição de não início de frase: F4. Ela deu-me o livro. F11. Pinta com as aguarelas. F15. Arruma rapidamente os brinquedos. F21. Fiz um cafezinho. Grupo B – associação entre clítico (preposição) e nome ou adjetivo, em posição de não início de frase: F3. A Joana gosta de feijõezinhos. F13. Fui ao supermercado. F14. Saí de manhã. Grupo C1 - associação entre clítico (artigo) e nome ou adjetivo, em posição de início de frase: F3. A Joana gosta de feijõezinhos. F10. O guarda-noturno está cansado. F18. O professor dá-nos chocolate. 104 Grupo C2 - associação entre clítico (artigo) e nome ou adjetivo, em posição de início de frase: F19. A mãezinha chegou. Grupo D - associação entre palavras funcionais (pronome sujeito) e verbo: F1. Eu vou passear. F9. Eu trago o guarda-chuva. F12. Ele tem dois cãezinhos. F16. Ele veio depressa. F17. Ela tem pressa. Grupo E1 - associação entre clítico (pronome complemento indireto, posposto) e verbo: F4. Ela deu-me o livro. F18. O professor dá-nos chocolate. F22. Comprei-te amores-perfeitos. F24. Li-vos o livrito. Grupo E2 - associação entre clítico (pronome complemento indireto, posposto) e verbo no futuro: F20. Ela comprar-te-á um livro. Grupo F - associação entre clítico (pronome complemento indireto, anteposto) e verbo: F5. Ele não te deu chocolate. F23. Não vos contei a história. Grupo G - associação entre clítico (preposição simples ou contraída) e verbo: F3. A Joana gosta de feijõezinhos. F11. Pinta com as aguarelas. F13. Fui ao supermercado. F14. Saí de manhã. Grupo H1 – identificação do sufixo z-avaliativo como palavra: F3. A Joana gosta de feijõezinhos. F8. Aqueles limõezinhos estão verdes. 105 F12. Ele tem dois cãezinhos. F19. A mãezinha chegou. F25. Três ladrõezinhos roubaram o carro. Grupo H2 – identificação do sufixo z-avaliativo como palavra: F21. Fiz um cafezinho. Grupo I – identificação do sufixo -mente como palavra: F7. Telmo comeu rapidamente. F15. Arruma rapidamente os brinquedos. Grupo J – identificação dos sufixos diminutivos –inho, -ito como parte integrante de uma palavra: F2. Rui, come muitas cenourinhas. F24. Li-vos o livrito. Grupo L – segmentação dos compostos morfossintáticos: F6. Tenho um novo passatempo. F9. Eu trago o guarda-chuva. F10. O guarda-noturno está cansado. F22. Comprei-te amores-perfeitos. Grupo M – identificação do prefixo supercomo palavra: F13. Fui ao supermercado. Grupo N – segmentação do composto morfológico: F11. Pinta com as aguarelas. Ao longo deste trabalho, os dados referentes aos grupos e ao material linguístico em estudo serão identificados a partir da letra atribuída ao grupo e a numeração da frase, conforme o exemplo: 106 A1F11 – este item refere-se à associação entre o clítico (artigo) e o nome ou adjetivo, em posição de não início de frase, que ocorre na frase 11 (Anexo A1). Após a recolha de dados, procedeu-se à sua análise estatística. Num primeiro momento, os dados foram analisados, tendo como pressuposto que a amostra é homogénea, ou seja, que os resultados não diferem de acordo com o sexo dos sujeitos ou o estabelecimento de ensino de onde provêm. Num segundo momento, os dados foram analisados, tendo em conta a variável estabelecimento de ensino e sexo, através do programa SPSS, para determinar se essas variáveis influenciam o desempenho das crianças. 107 108 IV. CAPÍTULO RESULTADOS 109 110 0. Introdução Nesta secção apresentaremos os resultados do desempenho dos sujeitos nos diferentes grupos. Neste estudo assumimos que a amostra é homogénea, considerando que o facto de haver diferente número de crianças do sexo feminino e do sexo masculino, bem como a desigualdade de número de elementos de cada turma ou estabelecimento de ensino (um público e outro privado) não interfere nos resultados. No entanto, de modo a confirmarmos a homogeneidade da amostra, investigamos se as variáveis nomeadas interferiam nos desempenhos. Assim, consideramos duas amostras independentes, distribuídas por sexo, e três amostras independentes, distribuídas de acordo com o estabelecimento de ensino. Para testar esta segunda variável, procedeu-se à distribuição das crianças por três amostras, dado que, além de procederem de escolas diferentes, estavam inseridas em turmas diferentes, conforme descrito no Quadro 2. Para determinar se existiam diferenças estatísticas significativas entre as variáveis, utilizamos o teste t-Student para amostras independentes, testando-se a igualdade das variâncias populacionais. Para testar a homogeneidade de variâncias e assumindo o nível de significância de 5 %, utilizou-se o teste de Levene. Os resultados dos referidos testes são apresentados nos Anexos B e C. Em relação à variável sexo, como ficou confirmado pelos resultados, esta parece não interferir na perceção que as crianças têm em relação ao objeto de estudo. Já em relação à variável tipo de escola, registamos diferenças estatísticas significativas em dois grupos – B e N, em relação à Escola Privada e à Escola Pública 1. Assim, os testes confirmaram tratar-se de um grupo homogéneo. 1. Apresentação de Resultados As figuras assinalam o desempenho dos sujeitos nos diferentes testes. As linhas horizontais delimitam o intervalo dos valores admissíveis para a proporção, ou seja, o intervalo entre zero e um. A linha tracejada indica o efeito aleatório 90 . O primeiro estudo visou investigar a existência de homogeneidade nos diferentes grupos, apresentada nas primeiras figuras, que representam intervalos de confiança (95%) 90 O valor aleatório corresponde às mesmas probabilidades de ocorrência de uma dada situação. Por exemplo, se atirarmos uma moeda ao ar, o valor 0,50 corresponde a ter as mesmas probabilidades de ocorrer cara ou coroa. 117 que se refere ao grupo G, os resultados permitem concluir que não há tendência para a associação entre palavra gramatical (pronome pessoal, com função de sujeito) e o verbo. Em relação aos restantes grupos (D, E2, F), a amostra não permite concluir a tendência para a associação em estudo. A análise da figura ilustra o desempenho global por grupo de respostas, permitindo-nos constatar que apenas se regista coincidência de intervalos de confiança entre os grupos E2 e F, indiciando que a mesóclise motiva o mesmo comportamento nos sujeitos que a anteposição do pronome pessoal. Uma leitura global do Quadro 5 permite ainda destacar os valores elevados registados no grupo E1, que contrastam com os valores registados nos restantes grupos. A partir da análise do Anexo A3, poderemos constatar diferenças estatisticamente significativas (p < 0,05) entre quase todas as comparações estabelecidas, ou seja, os resultados sugerem que a alteração das variáveis dependentes produz alteração nos comportamentos. A exceção diz respeito à relação entre os grupos E2 e F (p≈1), que se distinguem pela posição do clítico em relação ao hospedeiro (mesóclise em E2 e próclise em F). A leitura dos dados indica que a associação entre verbo e clítico depende da classe gramatical deste. Além disso, quando o clítico é um pronome pessoal, a sua associação com o verbo depende da sua posição em relação ao verbo. Os dados apenas permitem constatar essa tendência para associação quando o clítico se encontra posposto, como ocorre em E1. É igualmente importante sublinhar que não se regista tendência para a associação entre palavra gramatical e verbo, como se verifica pelos valores obtidos no grupo D. 2. Análise da associação entre afixo e palavra, entre radicais ou entre palavras 2.1. Análise do desempenho dos grupos Seguidamente, apresentaremos os dados referentes aos grupos H, I, L e M, nos quais ocorrem estruturas linguísticas, onde a palavra prosódica tende a ser menor do que a palavra morfológica. Os grupos J e N apresentam estruturas semelhantes às testadas nos grupos anteriores, mas em que se registam diferenças na organização das estruturas. Os resultados desta análise são ilustrados na figura 5. 118 Grupos H1 e H2 - associação entre base e afixo (Fiz um cafezinho) Grupo I - associação entre base e afixo (Telmo comeu rapidamente) Grupo J – associação entre base e afixo (Li-vos o livrito) Grupos L – segmentação de compostos (Tenho um novo passatempo) Grupo M - a associação entre prefixo e base (Fui ao supermercado) Grupo N – segmentação de compostos (Pinta com as aguarelas) A figura 5 apresenta uma sobreposição dos intervalos de resposta nos grupos H1, I, J e L e os intervalos de respostas dos grupos H2, M e N. Em relação ao grupo H, procedeu-se à sua subdivisão por haver dúvidas acerca da convergência dos valores de H21 com os dos restantes testes do mesmo grupo. Nos testes registados como H1, os intervalos de resposta sobrepõe-se. Nos grupos I, J e L regista-se uma sobreposição de intervalos, o que indica a homogeneidade de respostas. Além da homogeneidade dos testes no interior de cada grupo, os resultados permitem constatar a tendência para a perceção dos afixos –zinho (H1 e H2), -mente (I) e super- (M) como unidades independentes. Em relação ao grupo J, verifica-se a tendência para a perceção GRUPO TESTE N=46 % J JF2 41 89 JF24 46 100 Quadro 10 - Valores absolutos e respetiva percentagem para o grupo J GRUPO FraseTeste N=46 % H1 H1F3 37 80 H1F8 31 67 H1F12 34 74 H1F19 31 67 H1F25 31 67 H2 H21 40 87 I IF7 43 93 IF15 40 87 L LF6 45 98 LF9 46 100 LF10 45 98 LF22 45 98 M MF13 45 98 N NF11 39 85 Figura 5 - Intervalos de Confiança para os diferentes testes dos grupos H1, H2, I, J, L, M e N. Quadro 11 - Valores absolutos e respetiva percentagem para os grupos H1, H2, I, L, M e N. 119 dos sufixos como parte integrante da base. Os resultados mostram ainda tendência para segmentação dos compostos (L e N). 2.2. Comparação entre o desempenho dos grupos Os grupos em análise testam a associação entre diferentes estruturas, tendo em consideração a existência ou inexistência de isomorfia entre palavra morfológica e palavra prosódica. Quando não existe isomorfia, poderemos encontrar duas situações: a palavra morfológica é maior do que a fonológica (como ocorre nos grupos H ou L) ou a palavra prosódica é maior do que a morfológica (como ocorre em N). Figura 6 - Intervalos de Confiança para o desempenho global por grupo (H1, H2, I, J, L, M e N). GRUPO % H1 71 H2 87 I 90 L 98.5 M 98 N 85 Variável Média Margem de Erro Intervalo de Confiança 95% Valor inferior Valor superior H1 ,724 ,043 ,638 ,811 H2 ,889 ,047 ,793 ,984 I ,900 ,034 ,831 ,969 L ,983 ,009 ,964 1,002 M ,978 ,022 ,933 1,023 N ,844 ,055 ,734 ,955 Quadro 12 - Análise da existência de isomorfia entre palavra morfológica e palavra prosódica (grupos H1, H2, I, L, M e N). Quadro 13 - Percentagem média para os grupos H1, H2, I, L, M e N. 120 A figura 6 ilustra o desempenho global por grupo de respostas, permitindo-nos constatar que não há coincidência de intervalos de confiança entre os grupos H1 e I; H1 e J; H1 e L; H1 e M. Além disso, os ICs de todos os grupos de análise situam-se acima do valor 0,50, indicando a tendência para a não segmentação da palavra morfológica no grupo J e para a sua segmentação nos restantes grupos. Uma leitura global dos Quadros 8 e 9 permite destacar os valores elevados registados em todos os grupos. Destaca-se H1 que, apesar da média elevada registada, é inferior à dos restantes grupos. Da leitura dos quadros destaca-se o facto de o sufixo –zinho (H1) ter apresentado valores inferiores aos de estruturas consideradas equivalentes como o sufixo –mente (I), os compostos (L) ou o prefixo –super (M). Foi igualmente inesperado o resultado registado no grupo N, que indica a tendência para a segmentação de um composto morfológico. Em seguida, efetuou-se a comparação estatística dos desempenhos globais por grupo (Anexo A4). A sua análise revela diferenças estatisticamente significativas nas comparações estabelecidas entre os grupos H1 e I (p≈0,012), H1 e J (p≈0,001), H1 e L (p≈0), e entre H1 e M (p≈0). Todas as restantes comparações não revelam, em relação à amostra, a existência de diferenças estatisticamente significativas. Assim, a leitura dos resultados indica que há equivalência entre os resultados obtidos para os grupos H2, I, L e M, o que indicia que os afixos aqui estudados são percecionados de modo idêntico aos compostos, pelos sujeitos da experiência. Em relação ao grupo J, os resultados registados denotam tendência para a não identificação dos sufixos em estudo como unidades independentes, como era esperado. GRUPO % J 94.5 Variável Média Margem de Erro Intervalo de Confiança 95% Valor inferior Valor superior J ,956 ,021 ,912 ,999 Quadro 14 - Percentagem média para o grupo J Quadro 15 - Análise da inexistência de isomorfia entre palavra morfológica e palavra prosódica (grupo J). 121 3. Síntese dos Resultados Em seguida, apresentamos uma síntese dos resultados registados em cada grupo. ASSOCIAÇÃO EM ESTUDO RESULTADOS CLÍTICO E PALAVRA CLÍTICO E NOME Artigo e nome ou adjetivo, em não início de frase (A1) Percecionado como unidade A classe gramatical do clítico e a sua posição na frase influenciam os resultados Artigo e nome ou adjetivo, em não início de frase (A2) Preposição e nome ou adjetivo, em não início de frase (B) Artigo e nome ou adjetivo, em início de frase (C1) Artigo e nome ou adjetivo, em início de frase (C2) Não é possível concluir que é percecionado como unidade CLÍTICO E VERBO Verbo e pronome, posposto (E1) Percecionado como unidade Verbo e pronome pessoal, posposto (mesóclise) (E2) Não é possível concluir que é percecionado como unidade Verbo e pronome pessoal, anteposto (F) Verbo e preposição (G) Não é percecionado como unidade Palavra gramatical e verbo (D) Não é possível concluir que é percecionado como unidade AFIXO E PALAVRA Sufixo z-avaliativo (H1) Perceção do afixo como elemento independente Sufixo z-avaliativo (H2) Sufixo –mente (I) Prefixo super- (M) Sufixos diminutivos –inho e –ito (J) Perceção do afixo como elemento dependente Palavra e palavra (L) Segmentação do composto nos componentes Radical e radical (N) Segmentação do composto em diferentes unidades Quadro 16 - Síntese dos resultados por grupo. 122 V. CAPÍTULO DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 123 124 0. Introdução Neste trabalho, procurámos analisar o conceito de palavra prosódica em sujeitos em idade pré-escolar. Para analisar esse conceito, selecionámos três situações: associação entre clítico ou palavra funcional e palavra lexical; a associação entre base e afixos; a associação entre palavras. As situações indicadas implicam subdivisões que dependem, como explicamos, da constituição das palavras envolvidas, da classe gramatical a que pertencem e da sua localização na frase. Atendendo a estas características, constituímos os grupos enunciados no quadro 3. Uma primeira análise estatística revelou, no entanto, a inexistência de homogeneidade em alguns dos grupos constituídos. Essa constatação implicou uma análise dos indicadores de limite de palavra, que enunciámos no capítulo I, e identificámos aqueles que, em cada situação, pareciam influenciar a segmentação efetuada. Essa identificação levou, por sua vez, à reestruturação dos grupos, enunciada igualmente no capítulo III. Neste capítulo, procuraremos manter a organização que vem sendo seguida neste trabalho. Assim, começaremos por analisar os dados referentes à associação entre clítico ou palavra gramatical e palavra lexical; seguidamente, analisaremos a associação entre base e afixos; por fim, a associação entre palavras. Em cada momento, explicaremos a subdivisão dos grupos. Para finalizar, procederemos a uma breve análise dos dados de acordo com as varáveis sexo e estabelecimento de ensino. Esta análise será breve, uma vez que o estudo pressupõe a homogeneidade do grupo de sujeitos, o que indicia que as variáveis em questão não influenciam o desempenho esperado. Ao longo da nossa análise estabeleceremos, por vezes, comparações com dados de textos escritos. Entendemos que, na fase de apr endizagem da escrita, a noção de “palavra escrita” é ainda instável para a criança (Ferreiro e Pontecorvo,1996: 45), ou seja, não há correspondência termo a termo entre palavras gráficas e palavras orais. Outro dado interessante destas experiências é o facto de as crianças demonstrarem maior facilidade na identificação de nomes, verbos e adjetivos do que na identificação de artigos, conjunções ou preposições como unidades linguísticas (ibidem). Ainda de acordo com as autoras (ibidem), era de esperar uma maior tendência para a hipossegmentação - falta de espaço entre fronteiras vocabulares - do que para a hipersegmentação - alocação de espaço no interior da palavra 92 . 92 Adotamos, neste estudo, a definição dos conceitos dada por Cunha (2010a). 125 Estes dois conceitos surgem associados a dados de escrita inicial. Em virtude dos resultados inesperados obtidos no nosso estudo e da associação dos mesmos a fatores prosódicos, adotaremos a mesma designação para os dados com características semelhantes aos registados por Cunha (2010a). 1. Análise dos dados por grupo 1.1. Associação entre clítico e palavra prosódica Indicámos no capítulo anterior que a constituição dos grupos de análise se efetuou de acordo com as características gramaticais dos mesmos. Assim, começamos por distinguir dois grupos: os clíticos e as palavras funcionais. A distinção entre estes grupos tem por objetivo verificar se, como afirma Vigário (2003b: 179-180), as palavras gramaticais selecionadas (grupo D) – eu e ele – apresentam um comportamento diferente dos clíticos. A segunda divisão diz respeito à categoria morfológica dos clíticos – as preposições e os artigos (grupos A, B, C, G), como proclíticos, e os pronomes pessoais (grupos E, F), como enclíticos. A subdivisão deste grupo de acordo com o critério referido é motivada pela análise de Zwicky (1977), que distingue clíticos simples de clíticos especiais. Vigário (2003b: 129) sublinha a particularidade dos clíticos especiais no português europeu de selecionarem um hospedeiro de uma categoria morfossintática específica – o verbo. De acordo com a autora, os clíticos especiais distinguem-se dos restantes clíticos por serem tão seletivos quanto os afixos. Procuramos verificar, neste estudo, se essa característica influencia a segmentação que a criança efetua. Estes seis grupos visam analisar não só a associação entre clítico e palavra lexical, mas igualmente observar se essa relação é influenciada pela categoria morfológica dos dois elementos e pela função sintática que desempenham na frase. 1.1.1. Associação entre clítico e nome ou adjetivo Tal como advoga a literatura (Mattoso Câmara Jr., 1998; Vigário, 2003b; Bisol, 2005b), os resultados revelam uma tendência para a associação entre o clítico e a palavra lexical como unidade fonológica. Começamos por verificar que os valores das médias dos grupos em análise indicam essa tendência, salvo em relação ao grupo C2, grupo em que a localização do IC se encontra abaixo da linha dos 0,50 (fig. 2). 126 No entanto, os resultados permitem igualmente verificar que essa relação depende do contexto linguístico específico, tendo esse facto motivado neste estudo a segmentação dos grupos A e C, como enunciámos no capítulo anterior. Procederemos, agora, a uma análise mais pormenorizada dos elementos que motivaram a subdivisão dos grupos. Assim, no grupo A, observámos que em F4, F11, F15 e F21 a associação entre clítico e nome não era tão recorrente como nas restantes situações. Uma análise do contexto linguístico em que ocorre a sequência em estudo revelou a existência de outros fenómenos fonológicos que justificariam a não associação entre os elementos. Em F4, o contexto linguístico proporciona a ressilabificação, alterando, desta forma, a segmentação da frase. A segmentação preferencial é a seguinte: Ela / deu-me o / livro. Entre o pronome pessoal e o artigo definido ocorre a contração das duas formas linguísticas. Brisolara (2008: 144), analisando as sequências de pronome pessoal (me, te, se) ou preposição (de) e artigo, refere que, embora a tendência seja para a formação de um ditongo, pode ocorrer o apagamento da vogal /e/, em posição de final de palavra, sendo esta um clítico, quando a palavra seguinte se inicia por uma vogal diferente. Em relação ao português europeu, constata-se que a vogal não-recuada final dos enclíticos pronominais é elidida obrigatoriamente como sucede em fim de palavra prosódica (Mateus, Frota e Vigário, 2003: 1065). Essa elisão é, de acordo com Santamaría Busto (2007: 961), um fenómeno frequente nas línguas românicas, pois, ao evitar a separação fonética de vogais sucessivas, agiliza o fluxo da fala e evita esforços articulatórios na produção da mensagem 93 . Essas características linguísticas explicam, pois, a segmentação verificada neste estudo, indiciando que o pronome “me” forma com o verbo que o antecede uma palavra prosódica, ou seja, comporta-se como sílaba postónica, aplicando-se, por isso, a regra de elisão da vogal [ɨ], que apenas ocorre em final de palavra prosódica. A referida contração afeta, naturalmente, a associação desse clítico ao nome, porque da contração resulta um pronome pessoal, com função sintática de complemento indireto, que se associa ao verbo que o precede. A posição enclítica é a mais natural para este tipo de pronomes (Duarte, Matos e Faria, 1995: 134; Cunha, 2010a: 91), os quais são incorporados no hospedeiro (Vigário, 2003b: 325). Poderíamos concluir, a partir deste dado, que os 93 Pensado (1999: 4455) defende que, historicamente, a sequência de duas vogais idênticas, em qualquer situação, implicava a contração. No espanhol atual, através da fronteira de palavra, a sequência de vogais idênticas conserva-se em posição tónica, mas reduz-se em posição átona. 133 Os dados mostram que há maior tendência na associação entre o artigo e o nome do que entre a preposição e o nome. Esta tendência é natural se atendermos à relação gramatical entre os constituintes: o artigo concorda em género e número com o nome; já entre a preposição e o nome não se verifica uma relação gramatical tão estreita. Na realidade, o artigo é sempre proclítico, associando-se à palavra seguinte (Vigário, 2003b: 188), mas, tal como a preposição, não se incorpora nessa palavra, criando uma estrutura de adjunção. A análise dos dados, neste grupo, permite constar algumas características interessantes: - a ressilabificação e outros fenómenos fonológicos influenciam a segmentação do continuo sonoro; - parece existir uma tendência para a formação de pés trocaicos; - existe uma relação gramatical estreita entre alguns constituintes que parece igualmente determinar a segmentação. 1.1.2. Associação entre clítico ou palavra gramatical e verbo A associação entre clítico e verbo merece-nos uma particular atenção. Os clíticos que poderemos associar ao verbo pertencem às classes gramaticais dos pronomes pessoais e das preposições. Se em relação às preposições apenas constatamos a possibilidade de posposição ao verbo, já no que respeita aos pronomes a variedade é mais acentuada. Incluímos, igualmente, nesta análise a associação entre palavra gramatical e verbo, de modo a comparar o comportamento da palavra gramatical com o dos dois tipos de clíticos em estudo. Já referimos, no capítulo III, no ponto 2.3.1., a não tendência para a associação entre verbo e preposição. Esses resultados podem ser explicados pela ocorrência de outros fenómenos fonológicos ou pela natureza dos constituintes sintáticos. Em relação aos dados de F3, F13 e F14, verificamos que, quando a preposição não é associada ao nome, é percecionada como um constituinte prosódico independente. No caso de F11, há uma tendência para a contração entre a preposição com e o artigo as, formando assim um constituinte independente. No nosso estudo, dezassete crianças (correspondendo a cerca de 37% da amostra) consideraram a referida contração como um elemento independente. Outros elementos podem ainda explicar a segmentação verificada. Na realidade, as preposições em análise são o núcleo sintático de um sintagma – o sintagma preposicional, o 134 qual pode ser deslocado ou destacado por processos de topicalização (Brito, 2003: 393), sendo por isso esperada a sua dissociação do verbo. Os dados do nosso estudo não indicam que as palavras gramaticais formem uma unidade prosódica com o verbo, como constatamos pelos resultados registados para o grupo D. Tal como indicamos no Capítulo II, as palavras selecionadas não podem ser consideradas clíticos, uma vez que apresentam vogais plenas e não sofrem qualquer processo de redução vocálica (Vigário, 2003b: 180), apresentam, assim, um estatuto de palavra prosódica, constituída por uma sílaba pesada (eu) ou duas sílabas leves (ele, ela). Além disso, a não associação entre estes dois constituintes pode também ser justificada sintaticamente, dado que se assumem como os dois constituintes imediatos da frase básica do português: sujeito e predicado (Brito, Duarte e Matos, 2003: 436). Também neste caso, a sintaxe parece influenciar a segmentação da frase. Outra observação que nos parece interessante, apesar de não ser estatisticamente relevante, é que a não tendência de associação entre os pronomes referidos e o verbo é maior para a forma ela do que para a forma ele, quando o contexto sintático e fonológico é o mesmo, como ocorre em F12 e F17. Parece-nos ainda relevante referir que, apesar de reduzida, a associação entre palavra gramatical e verbo é maior do que a registada entre verbo e clítico, quando este é uma preposição. Não encontramos para estes dados nem justificação fonológica nem sintática. Analisaremos agora a tendência de associação entre verbo e pronome, com função sintática de complemento indireto. Esta só é constatada quando o pronome se encontra posposto ao verbo. Quer os dados referentes à anteposição do pronome quer os referentes à mesóclise não permitem concluir a tendência para a associação. Para Rosa (2002:43), uma sequência como as registadas em E1 seria apenas uma palavra, uma vez que o pronome equivale a uma sílaba átona em relação ao verbo. Esta perspetiva pode ser ainda reforçada pela segmentação registada em F4. A incorporação do artigo definido no pronome pessoal só se verifica por este último se comportar como uma sílaba átona final de uma palavra prosódica (Vigário, id.:187). Desta forma, a associação entre verbo e pronome, com função de complemento indireto, parece depender da posição que ocupa em relação ao seu hospedeiro 98 . Rosa (2002: 79) explica que, no português europeu, os clíticos de acusativo são sempre fonologicamente 98 Nespor e Vogel (1986: 151) e Fragoso (2009: 5) defendem, pelo contrário, que no que concerne ao grupo clítico que os constituintes sintáticos não permitem sempre predizer o hospedeiro fonológico que será selecionado pelo clítico. 135 enclíticos, a despeito de qual seja a palavra precedente. Esse facto explicaria a diferença registada nos resultados entre E1 e F, ou seja, os resultados demonstram que apenas podemos concluir que há tendência para a associação entre verbo e pronome, com função sintática de complemento indireto, quando os pronomes são enclíticos. Estes dados parecem indicar, como já constatara Cunha (2010a: 91), que a posição enclítica do pronome é a forma preferencial de uso no português europeu. Em nenhum dos casos essas hipossegmentações infringem a regra das três janelas para o acento principal no português, ou seja, quando o clítico é unido à palavra de conteúdo ou forma pés binários, como em apanhala (paroxítona), ou forma, no máximo, pés ternários, como em chamome (proparoxítona). Esses dados parecem ter como motivação o efeito de direccionalidade, cuja consequência, no Português Europeu, é a integração de sílabas átonas para a esquerda (ênclise). Uma nova leitura dos registos permitiu uma observação que, não sendo objeto deste estudo, vem ao encontro das conclusões de Rosa (2002) e de Cunha (2010a): alguns dos sujeitos deste estudo preferiram associar o pronome à palavra que o antecedia (no caso era o advérbio de negação). Assim, encontramos sujeitos que percecionam como unidade sequências como as apresentadas em (17), que ocorrem na segmentação de F5 e F23, respetivamente: (17) a. nãote - 7 b. nãovos - 10 Mais uma vez, esta hipossegmentação parece indiciar a preferência por uma estrutura rítmica, com a constituição de troqueus silábicos. Estes dados assemelham-se ao que Cunha (2010a: 142) denominou “dado singular”. A anteposição do pronome ao verbo constitui uma irregularidade, daí que, nesses casos, seja mais frequente que o pronome não se associe ao verbo, mas à palavra que o antecede, criando um troqueu silábico. Outro resultado inesperado foi a alteração da posição do pronome. Alguns dos sujeitos ao reproduzirem e segmentarem a F23 alteraram a ordem dos constituintes, unindo o pronome ao verbo como em (18): 136 (18) conteivos: 2 Esta alteração vem reforçar a ideia de que esta é a posição mais natural destes clíticos - pronomes pessoais com a função de complemento indireto (Duarte, Matos e Faria, 1995: 134; Rosa, 2002:79). Vem igualmente ao encontro dos dados analisados por Cunha (2010a: 91), sublinhando, assim, mais uma vez o efeito de direccionalidade, cuja consequência parece ser a integração de sílabas átonas para a esquerda, ou seja, a ênclise. Ao contrário do que verificamos em relação aos artigos, a ressilabificação não interfere na segmentação, ou seja, apesar de em F4 e em F22, haver a possibilidade de ressilabificação, esta não altera a tendência de associação entre verbo e clítico, pois como já referimos, o resultado gramatical da contração seria sempre um pronome com função de complemento indireto, que é tendencialmente um enclítico. Em relação à mesóclise, o nosso estudo não permite concluir que existe uma tendência para a perceção dessa estrutura como unidade. Na realidade, os sujeitos do nosso estudo apresentaram dificuldades na compreensão e reprodução de F20, o que demonstra a complexidade da estrutura. Alguns sujeitos que optaram pela segmentação da unidade procederam à silabificação, outros optaram por alterar a estrutura para uma perifrástica do tipo vai-te comprar, outros alteraram o tempo verbal. Há, no entanto, alguns que isolaram duas unidades acentuais, mas associaram o clítico à segunda unidade, conforme (19): (19) comprar#teá - 5 Esta segmentação apresenta uma estrutura prosódica diferente da que constatamos até aqui, uma vez que opta pela associação do pronome ao hospedeiro da direita, contrariamente ao proposto por Vigário (2003b: 247). Essa diferença poderá explicar-se, mais uma vez, pela ressilabificação e pela restrição de minimalidade, ou seja, o pronome ao ligar-se ao hospedeiro da direita forma com este uma sequência de glide e vogal que, em português europeu, pode ser percecionado como hiato formando uma palavra dissilábica ou como ditongo formando uma sílaba pesada, ou seja, uma palavra bimoraica. As duas sequências respeitam a restrição de minimalidade. 137 Todas estas constatações confirmam as conclusões de outros estudos com crianças mais jovens e que sublinham a estabilização tardia da colocação dos clíticos no português europeu, que se deve à complexidade dos clíticos, resultante da alternância entre próclise e ênclise (Duarte, Matos e Faria, 1995). Assim, da análise destes resultados, sobressaem dois dados essenciais: - apenas se regista a tendência para associação entre verbo e clítico, quando este desempenha a função sintática de complemento indireto e se apresenta em posição proclítica; - há uma relação entre o efeito de direccionalidade e a colocação dos clíticos, com a categoria gramatical de pronome pessoal e a função sintática de complemento indireto. 1.2. Associação entre afixo e palavra, entre palavras ou entre radicais 1.2.1. Associação entre afixo e palavra Defendemos, no segundo capítulo, que os afixos eram formas dependentes no domínio morfológico e prosódico. No entanto, a literatura distingue, normalmente, diferentes tipos de afixos. No estudo experimental analisamos afixos que se associam a um radical, com o qual constituem uma unidade, e afixos que se associam a uma palavra, em relação à qual preservam uma independência. Começaremos por analisar os diferentes afixos, apresentados nos grupos H, I, J e M. A nossa análise visava distinguir o comportamento das crianças face aos dois tipos de afixos referidos no parágrafo anterior. Pretendíamos igualmente verificar se a perceção do afixo como elemento independente dependeria da posição que este ocupava na estrutura da palavra lexical. Atendendo a que prefixos e sufixos apresentam características semelhantes, diferindo apenas em relação à posição ocupada na estrutura da palavra (Schwindt, 2000:17), seria natural que fossem percecionados da mesma forma pelos sujeitos falantes. Começaremos por analisar os dados agrupados em H. Uma primeira análise dos dados motivou, como já referimos, uma subdivisão deste grupo, que resulta da natureza da palavra primitiva. Assim, em H1 as palavras apresentam ditongo nasal e em H2 esse facto não ocorre. Os nossos resultados mostram que o sufixo “-zinho” apresenta uma menor independência em relação à base, quando esta é uma palavra terminada em ditongo nasal. Estes resultados vêm contrariar a tendência esperada, uma vez que as palavras em H1 apresentam duas marcas de plural, além da acentuação, facto que indiciava uma marcação da fronteira de palavra mais 138 definida (Andrade, 1994: 46; Lee, 1999; Mateus e Andrade, 2000: 103; Faggion, 2006; RioTorto, 2006; Villalva, 2008:167-8; Bisol, 2010:83). A estranheza dos resultados impeliu-nos a uma análise mais cuidada da segmentação efetuada e permitiu-nos constatar as seguintes ocorrências: (20) a. defei#jõe#zinhos: 3 b. defei#jõezinhos: 3 c. fei#jõezinhos: 1 d. fei#jõe#zinhos: 1 e. defeijão#zinhos: 1 (21) a. limãozinhos: 1 b. limão#zinhos: 10 c. li#mãozinhos: 1 d. li#mão#zinhos: 2 e. limõe#zinho: 4 f. li#mõe#zinhos: 5 g. li#mõezinhos: 2 (22) a. cãozinhos: 2 b. cão#zinhos: 5 (23) a. la#drõe#zinhos: 6 b. la#drõezinhos: 1 c. ladrão#zinhos: 2 Como poderemos observar (em 20e, 21a, 21b, 21c, 21d, 22a, 22b e 23c), as crianças não reproduzem as duas marcas do plural, o que indicia que não está ainda interiorizada a dupla flexão do plural que as formas apresentam. Esta constatação ajuda a explicar que a 139 segmentação seja neste grupo inferior à do grupo H2, mas não justifica todo o tipo de segmentações registadas. Um outro aspeto parece sobressair destes dados: o grande número de segmentações em monossílabos pesados, ou seja, em pés trocaicos (jõe, fei, mão, mõe, drõe, cão). Esta foi igualmente uma observação registada por Cunha (2010a: 56), para quem esse é um efeito da influência da sílaba tónica na preservação do pé binário e no isolamento de sílabas pesadas. Alguns destes monossílabos, como mão e cão, são palavras familiares à criança, mas a maioria não é uma palavra lexical, no entanto, respeitam a condição de minimalidade, uma vez que possuem três segmentos (Veloso, 2007a) e constituem um pé trocaico. Outra observação interessante é a formação de pés trocaicos em sequências como: jõezinhos; mãozinhos; mõezinhos; drõezinhos. Esta formação vem ao encontro da hierarquia de restrições propostas por Abaurre e Galves (1998), segundo a qual a formação de pés trocaicos 99 seria mais importante do que a integridade da palavra prosódica. Este tipo de segmentações encontramos igualmente no grupo H2, como o comprovam os seguintes dados: (24) a. umca#fé#zinho – 7 b. um#ca#fé#zinho – 8 c. umca#fézinho – 5 Mais uma vez, verificamos a tendência para a formação de pés trocaicos. Além disso, estes dados parecem confirmar a teoria de Rosa (ibidem), de acordo com a qual a sílaba prétónica tende a integrar-se no esquema acentual precedente, com o qual formaria um grupo rítmico de acento inicial (como em 24a e 24c). Há ainda a possibilidade de essa sílaba constituir um pé degenerado se ocorrer no fim de um enunciado, como acontece em relação aos nossos dados (24b). A nossa intenção ao constituir o grupo H era analisar a perceção que os sujeitos tinham em relação à forma -zinho. Pretendíamos igualmente comparar esses dados com a perceção das mesmas crianças em relação a outros sufixos diminutivos, que se agregam ao radical de uma palavra, nomeadamente -inho e -ito (Grupo J). Tal como esperado, a maioria 99 De acordo com as autoras, a restrição de pé trocaico se refere apenas à localização da cabeça do pé à esquerda, não levando em consideração o número de sílabas (Abaurre e Galves, 1998). 140 das crianças não segmentou as palavras. Estes sufixos, como indicamos no Capítulo II, agregam-se a um radical e atraem para si o acento, formando uma única palavra prosódica. No entanto, ocorreram algumas segmentações que merecem a nossa reflexão: (25) a. ce # nou # rinhas - 2 b. cenou#rinhas - 5 c. ce #nourinhas - 2 d. li # vrito – 2 Mais uma vez, é curioso observar que as segmentações respeitam, na sua maioria, o pé trocaico. Em 25d, poderemos ainda registar que a segmentação separa uma palavra lexical (li) de uma palavra prosódica (vrito), sendo este um tipo de segmentação também encontrado por Cunha (2010). Outro sufixo analisado neste trabalho foi -mente (Grupo I). Este sufixo, como vimos no Capítulo II, é muito produtivo e apresenta características da palavra prosódica em português: respeita as restrições fonotáticas, é acentuado, é dissílabo, agrega-se à palavra e não ao radical. Quando se associa ao adjetivo, não há redução vocálica, mantendo-se os dois acentos. Dadas as características indicadas, era esperado que os sujeitos identificassem o sufixo como vocábulo fonológico, o que se verificou. É curioso registar que há diferenças estatísticas entre este grupo e o grupo H1, quando era esperado que ambos os sufixos fossem percecionados da mesma forma. Neste grupo não se registam segmentações inesperadas, o que pode proceder da localização do acento secundário, ou seja, não há choque de acentos. A segmentação observada em “rápida # mente” respeita não só a palavra prosódica como o pé trocaico (ver nota 99). Outro indicador de que -mente é percecionado como palavra prosódica é a aplicação da regra de elisão do /e/. Em F15, como já indicamos, a vogal recuada é elidida (Vigário, 2003b: 187). Além dos sufixos, procuramos igualmente perceber como é percecionado o prefixo (Grupo M). O selecionado foi super-, que apresenta várias características que o poderiam identificar como palavra: respeita as restrições fonotáticas da língua, é dissilábico, é acentuado. Quando se une a uma outra palavra, não há ressilabificação e ocorre a 141 neutralização do grau de altura das vogais não-altas em sílabas átonas finais fechadas por /ɾ/ (Vigário, 2003b: 230). Além disso, o prefixo nomeado forma um pé métrico e apresenta um acento primário, dois requisitos que lhe possibilitam a atribuição do estatuto de palavra (Schwindt, 2000: 103). Os nossos resultados indicam claramente que as crianças percecionam o referido prefixo como palavra. No mesmo grupo, apesar de não ser esse o principal objetivo deste trabalho, verificamos algumas hipersegmentações no que respeita à palavra mercado, como seguidamente se indicam: (26) a. mer#cado: 5 b. merca#do: 1 A hipersegmentação registada em 11a. remete, mais uma vez, para a preferência por pés trocaicos. Assim, a análise efetuada permite-nos destacar os seguintes dados: - os afixos -zinho, -mente e supersão percecionados como elementos independentes; - há alguma tendência, inesperada no nosso estudo, para a segmentação em pés métricos. 1.2.2. Associação entre radicais ou entre palavras Neste item incluem-se os grupos L e N. No primeiro grupo nomeado incluem-se apenas compostos morfossintáticos, que sofreram apenas um processo de lexicalização semântica. No grupo N, encontramos um composto morfológico, constituído dois radicais numa língua de empréstimo – neste caso, o italiano - e que entra já como composto na língua importadora – o português-, onde perde a composicionalidade original. Por os grupos incluírem radicais ou palavras, a análise foi realizada da mesma forma, ou seja, assinalou-se a segmentação como comportamento esperado. No entanto, tendo em conta que o composto morfológico aqui analisado perdeu a composicionalidade original, era possível que no grupo N as crianças não identificassem os constituintes do composto e, consequentemente, o percecionassem como uma unidade. Em relação ao grupo L, os nossos resultados indicam, claramente, que as crianças identificam os dois constituintes. Uma observação mais atenta da estrutura das palavras ajuda 142 a explicar os resultados. Na realidade, as estruturas selecionadas apresentam características muito semelhantes: apresentam acentuação grave e são quase todas dissilábicas, constituindo assim pés trocaicos com cabeça à esquerda. Esta regularidade não impede, no entanto, que haja algumas segmentações inesperadas. Assim, no composto guarda-noturno, registamos a seguinte hipersegmentação: (27) no#turno: 3 A hipersegmentação registada demonstra, mais uma vez, a preferência pelo pé trocaico. Além disso, revela a consciência da criança de que há em no uma acentuação secundária, marcada pela inexistência de redução vocálica. Os resultados mais surpreendentes registaram-se no grupo N, tendo-se registado as hipersegmentações indicadas em (28): (28) a. agua#relas: 37 b. agu#a#relas: 2 c. agua#re#las: 2 As hipersegmentações em (28) permitem verificar que há uma tendência para a criança identificar um vocábulo muito comum no vocabulário corrente: água. No entanto, da segmentação resulta igualmente a forma relas, que não constitui uma palavra lexical. Assim, esta segmentação parece, mais uma vez, motivada pela acentuação secundária da palavra, marcada igualmente pela inexistência de redução vocálica. Mais uma vez, se regista a tendência para a segmentação em pés trocaicos, mostrando que, na hierarquia das restrições, a formação de pé trocaico precede a integridade da palavra morfológica (Abaurre e Galves, 1998). Nestes grupos, a análise efetuada permite-nos constatar os seguintes dados: - há uma identificação das unidades que formam os compostos morfossintáticos; - há alguma tendência, inesperada no nosso estudo, para a segmentação em pés métricos.