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5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania Moisés de Lemos Martins & Manuel Pinto (Orgs.) (2008) Comunicação e Cidadania - Actas do 5º Congresso da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação 6 - 8 Setembro 2007, Braga: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho) ISBN 978-989-95500-1-8 Teoria dos meios clássicos de comunicação de massas versus novos meios ANTÓNIO MACHUCO ROSA Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Resumo: Nesta comunicação são expostas algumas das características dos novos meios de comunicação que obrigam a reformular os modelos clássicos da comunicação de massas. O fio condutor será a análise dos três níveis - físico, lógico e de conteúdos - presentes em qualquer processo de comunicação tecnologicamente mediado. Ao nível físico, salientase como a assimetria dos meios clássicos desaparece por as tecnologias envolvidas nos novos meios serem as mesmas no ponto de emissão no pont o de recepção. Ao nível lógico, salientase como a emergência de plataformas neutrais altera substancialmente as formas clássicas de acesso e distribuição de conteúdos. Finalmente, mostra-se como a liberdade de acesso decorrente de plataformas logicamente neutrais cria novas tensões em torno da produção e distribuição de conteúdos baseadas nas leis de propriedade intelectual. Palavras-chave: Modelos de comunicação de massas, novos media, redes. Uma forma de compreender a emergência e características do que genericamente se designa por novos media – que, grosso modo, compreendem a rede de computadores Internet e as diversas redes virtuais que nela assentam, como a world wide web, as redes de peer-to-peer ou redes do tipo de myspace.com – consiste em compará-los com a estrutura dos meios tradicionais de comunicação de massas, utilizando os três níveis que caracterizam qualquer processo de comunicação tecnologicamente mediado como referencial. Esses são os níveis que Yochai Benkler (Benkler, 2006) identificou como o nível físico, o nível lógico e o nível dos conteúdos. É seguindo o fio heurístico fornecido por essa classificação, mesmo se por vezes ultrapassando o seu domínio inicial de aplicação, que procuraremos nesta comunicação contrapor de forma sistemática os meios de comunicação clássicos – tendo sobretudo presente o casos do telefone, rádio e televisão – com os novos media. Nível físico. O nível físico designa a infra-estrutura tecnológica dos meios de comunicação (máquinas, cabos, etc.). Contudo, a sua configuração depende de decisões tomadas ao nível lógico e de políticas
2832 Teoria dos meios clássicos de comunicação de massas versus novos meios 5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania sociais de regulação mais vastas. No caso dos meios tradicionais de comunicação tecnologicamente mediada, podemos constatá-lo recordando que a rádio e a televisão encontram as suas origens longínquas no telégrafo. Este foi desde o seu início um meio de comunicação ponto-a-ponto, um-um, sem assimetria pronunciada entre os dispositivos de transmissão (ou emissão) e recepção. Sumarizando desenvolvimentos complexos, a tecnologia do telégrafo foi inicialmente patenteada por S. Morse e evoluiu para um modelo de exploração comercial baseado num regime de quase monopólio detido por agentes privados (nos Estado-Unidos) ou pelos governos (na Europa). O telégrafo deu origem ao telefone, o qual teve uma trajectória inicial similar: meio ponto-a-ponto que nos Estados-Unidos evoluiu para um monopólio graças às patentes obtidas por A. Bell em 1876.1 Nesse país, com o fim do prazo de protecção à época conferido pelas patentes (14 anos, contra os 20 actuais), bem como devido a decisões judiciais que invalidaram muitas das patentes sucessivamente requeridas por Bell, surgiram novos operadores de redes telefónicas. Rapidamente se colocou a questão crucial da sua interconexão, com as companhias originadas a partir da propriedade intelectual detida por A. Bell (Bell Company e depois AT&T) a recusarem a formação de uma plataforma comum, procurando assim garantir a situação de monopólio que emerge em mercados com fortes externalidades em rede, isto é, quando o valor de uma rede cresce exponencialmente com o número de aderentes a essa mesma rede, dinâmica de que a rede telefónica é precisamente um exemplo.2 Para além do telefone, o telégrafo também esteve na origem da rádio ao evoluir para telegrafia sem fios, repetindo-se neste caso, inicialmente em Inglaterra, o padrão norte-americano no caso do telefone: G. Marconi obteve a exclusividade de exploração comercial graças às patentes que lhe foram acordadas, e de seguida implementou uma política de recusa da interconexão semelhante à de Bell. A telegrafia sem fios era também um meio ponto-a-ponto e a questão importante reside em saber como esse tipo de rádio se vai modificar radicalmente na sua forma quando transitou para o bem distinto modelo de broadcasting que acabou por caracterizar os media de massas. As razões que levaram à formação da rádio como meio de comunicação de massas foram complexas e diferentes nos Estados-Unidos e na Europa (cf. Jeanneney, 1996), mas podem ser resumidas pelos acontecimentos nos Estados-Unidos.3 É significativo o motivo que levou a empresa Westinghouse a criar a primeira estação de broadcasting (a KDKA, em 1920). O objectivo inicial não era explorar comercialmente um meio de comunicação de massas, mas sim vender os receptores que a empresa tinha começado a produzir de forma estandardizada para os fins militares impostos pela I Grande Guerra, desenvolvendo igualmente equipamento que não estivesse patenteado por empresas rivais no negócio do telefone sem fios (Benkler, 1998). Num determinado período, um desses rivais foi a AT&T. Esta empresa criou (também no início dos anos 20) uma estação emissora seguindo uma outra estratégia, assente num modelo de telefonia sem fios em que o público pagaria um aluguer para produzir ‘conteúdos’; o ‘público’ não se interessou e a empresa teve ela própria de começar a produzir os seus conteúdos. Num movimento paralelo, começaram a proliferar inúmeras estações de rádio em torno de Universidades e comunidades diversas, as quais tiravam partido do apesar de tudo relativamente baixo custo dos transmissores e que acabaram por conseguir obter um número significativo de licenças de emissão. Assim, não foi a tecnologia ou estratégias comerciais intencionais que deu à luz o modelo comercial de emissão de massas. Ele era uma possibilidade real desde a última década do século 1 Para a passagem do telefone para a rádio baseamo-nos sobretudo em P. Starr, 2004, e Y. Benkler, 1998. 2 Cf. Economides, 1996, e Machuco Rosa, 2004, para uma análise da questão das incompatibilidades em tecnologias da informação 3 Salientamos aqui as razões tecnológicas, comerciais e institucionais. Não estamos a afirmar não existirem razões sociológicas profundas, cuja análise extravasa largamente o âmbito desta comunicação.
A.M. Rosa 2833 5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania XIX, sendo a AT&T precisamente criticada por não o adoptar quando, nas duas primeiras décadas do século XX, preferiu o modelo da tecnologia funcionando ponto a ponto (cf. Barnow, 1967). A contingência do modelo de comercial comunicação de massas ainda se torna mais clara quando se constata que, para além de decisões empresariais, foi a regulamentação governamental que o criou ao determinar a arquitectura tecnológica que acabou por se tornar dominante. O momento fundamental foi a aprovação do Radio Act de 1927 proposto por Hoover (cf. Starr, 2004). Essa lei estipulava três tipos de licenças, sendo apenas importante salientar que as licenças permitindo uma maior cobertura exigiam fortes custo iniciais de investimentos, sendo a sua atribuição que originou as posteriores estações comerciais de massas (NBC, etc.). Portanto, emerge uma estrutura, criada pelo governo, em que as tecnologias de transmissão se encontram institucional e economicamente apenas ao alcance de alguns, enquanto que, no outro ponto, no ponto de recepção, vão surgir dispositivos com custos tendencialmente cada vez mais baratos. Sublinha-se de novo que essa estrutura do nível físico do meio de comunicação não tem nada de necessário; ela foi em larga medida produzida pela regulação. Como é amplamente conhecido, o modelo da rádio foi praticamente na íntegra reproduzido na caso da televisão. Nos Estados-Unidos, o espectro radioeléctrico foi considerado um bem público atribuído sob a forma de licenciamento a agentes privados que assentaram o seu modelo de negócio nos retornos financeiros provenientes de publicidade enviada para uma massa mais ou menos homogénea de receptores. Na Europa, o regime inicial foi o monopólio por parte de uma companhia pública (BBC, em Inglaterra), ou então existiram regimes mistos (França, por exemplo). No essencial, o modelo norte-americano acabou por se impor a partir dos anos 60 e 70 na maior parte dos países ocidentais. Nesse quadro tecnológico, comercial e regulatório as frequências são alocados pela entidade pública responsável, cabendo a agentes privados (mas também públicos) a exploração comercial. No caso específico do telefone, meio com algumas das características dos meios em rede, as autoridades também intervieram no sentido de garantir o aumento do bem-estar social decorrente da obrigatoriedade dos diversos operadores interconectarem as suas redes. Noutros casos (Tv por cabo, por exemplo), o canal de transmissão é integralmente propriedade das empresas que o exploram. Mas a Tv por cabo continuou a ter uma assimetria tecnológica fundamental: durante muito tempo, o canal esteve dedicado a um formato específico da informação – som e imagem transmitidos analogicamente –, bem como apenas permitia que os conteúdos circulassem unidireccionalmente do ponto de emissão para o dispositivo de recepção. Em suma, os meios de comunicação clássicos caracterizam-se, ao nível físico, pela existência de dispositivos tecnológicos de arquitecturas distintas nos pontos de emissão e de recepção, distinção reflectida nos custos económicos pronunciadamente diferentes que existem nesses dois pontos. Nem sempre é suficientemente sublinhado o facto de, nos novos media (Internet e redes virtuais nela assentes), o dispositivo tecnológico de base ser um único, o computador universal. Ainda menos referido é o facto de o computador não ter sido objecto de qualquer patente atribuída à sua concepção original. Não que um dos seus autores, John Eckert, não tivesse procurado obter nos anos 40 do século passado uma patente para a máquina em cuja invenção tinha colaborado. Mas o outro principal inventor, J. von Neumann, estava sobretudo preocupado com a difusão do saber e relevância social da nova máquina, pelo que divulgou publicamente a sua concepção (cf. CampbellKelly e Aspray, 2004). A consequência foi que a competição entre empresas (IBM, Honeywell, etc.) se fizesse em torno de uma plataforma comum a todas elas (o próprio computador), sem se sentirem os efeitos potencialmente perniciosos em termos de inovação que podem decorrer da existência de um
2834 Teoria dos meios clássicos de comunicação de massas versus novos meios 5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania monopólio. Sob esse aspecto, a presença da sua concepção no domínio público, o computador foi desde o início uma plataforma aberta em cima da qual a inovação poderia vir a ter lugar.4 O computador tornou-se uma plataforma aberta ainda num outro sentido. Ele é potencialmente uma máquina universal extremamente plástica capaz de operar sobre qualquer tipo de informação desde que esta seja definida sem ambiguidades. Tal como hoje é plenamente visível, o computador suporta qualquer tipo de informação sob inúmeros formatos. A sua neutralidade, a sua abertura, tornou-se actual com o surgimento, em meados dos anos 50, da ideia de programas residentes em unidades de memória independentes do próprio chip da máquina (cf. Ceruzzi, 2003). Isso significou que o computador passou a ser fornecido pelo fabricante apenas equipado com uma quantidade mínima de software implementado directamente no hardware (o chamado firmware), pelo que ele pode ser livremente utilizado e programado por quaisquer indivíduos minimamente competentes para o efeito. A abertura, a programação externa, a existência de dados armazenados um unidades funcionais independentes, não constituiu qualquer necessidade tecnológica. Ela foi, em parte, tornada possível pela ausência de patentes e torna-se ainda mais evidente quando se pensa, por contraposição, nos inúmeros dispositivos (desde micro-ondas a sofisticados computadores dedicados ao reconhecimento de imagens) cuja totalidade de software se encontra directamente implementado no chip, dispositivos que, portanto, não são livremente modificáveis. Assim., nos pontos de ‘emissão’ e ‘recepção’ da rede Internet existe um mesmo tipo genérico de equipamento aberto que, adicionalmente, é (pelos padrões de vida ocidentais) relativamente barato. O nível físico de transporte dos novos media é a própria Internet. Essa rede de redes foi criada a partir da rede Arpanet, financiada por fundos do governo norte-americano. O desenvolvimento posterior foi complexo e já o analisámos em detalhe noutras ocasiões (cf. Machuco Rosa, 2003). Aqui interessa realçar que durante muito tempo a infra-estrutura física de transporte foi constituída pelos cabos propriedade das companhias telefónicas. Mais abaixo referiremos que esse canal foi reconfigurado ao nível lógico de forma a deixar de ser um canal dedicado a um formato (voz). Se nos restringirmos ao nível especificamente físico, pode-se afirmar que a Internet foi um sub-produto da regulação dos governos (a começar pelos Estados-Unidos) quando estes decidiram politicamente que uma companhia deveria facultar a outras companhias o acesso à sua rede de transmissão. Essa regulação visava criar concorrência no mercado das chamadas telefónicas tradicionais, só que, ao impedirem que uma companhia controlasse qual o tipo de utilização que pode ser feito das suas linhas, os governos criaram não intencionalmente a Internet (Lessig, 2001). Contrastámos, ao nível físico, os meios tradicionais e os novos media (Internet). Podemos resumir na seguinte tabela o que até agora se viu. Nível Físico Media clássicos Novos media Dispositivo tecnológico originariamente patenteado (telefone, rádio). Meio desprotegido de propriedade intelectual. Canais de transmissão regulados e/ou proprietários. Canal de transmissão proprietário e (indirectamente) regulado. Dispositivos de emissão e recepção dedicados e tecnologicamente assimétricos. Um único dispositivo de ‘emissão’ e ‘recepção’ neutral e multifuncional. Dispositivo de emissão caro e dispositivo de recepção barato. Dispositivo de emissão recepção barato. 4 Apesar de não referir a inexistência de patentes, J. Zittrain (Zittrain, 2006) desenvolveu detalhadamente a importância desse ponto.
A.M. Rosa 2835 5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania Nível lógico O nível lógico é o nível do software, standards, normas, etc. permitindo que aquilo que é transmitido a nível físico seja social e cognitivivamente reconhecido pelos agentes humanos intervenientes num processo de comunicação. A sua forma nos meios de comunicação clássicos resultou em larga medida da visão da tecnologia, das estratégias comerciais e do quadro regulador que configurou o nível físico. Já vimos que acabou por se impor um quadro regulador em que licenças são atribuídas a empresas que transmitem conteúdos unidireccionalmente segundo um certo formato. Em geral, a empresa proprietária de um meio de comunicação clássico determina o tipo dos conteúdos recebidos, os horários de transmissão, a sua sequência, lista de canais disponíveis no caso de distribuidores de múltiplos canais, estrutura da programação, etc. Portanto, a forma do nível físico em conjunto com a do nível lógico tem como consequência uma estrutura mediática tematizada por diversos modelos dos meios de comunicação de massas (cf., por exemplo, Wolf, 1987): existe uma fonte que detém a tecnologia adequada de produção e emissão de conteúdos, os quais são distribuídos unidirecionalmente segundo uma organização lógica particular e através de um canal adstrito à transmissão de um certo tipo de sinal, e que finalmente são recebidos por um conjunto de receptores relativamente indiferenciados. Este modelo não possui uma qualquer necessidade tecnológica ou lógica intrínseca. Como se realçou, ele foi o resultado de um conjunto de decisões e factores largamente contingentes. A inexistência de qualquer necessidade prova-se adicionalmente se, por contraposição, consideramos os novos media ao nível lógico, começando de novo com a Internet. As múltiplas conexões físicas de rede e os inúmeros computadores que compõem a infra-estrutura física da Internet são propriedade privada dos seus legítimos detentores. Contudo, em sentido estrito, a Internet é uma rede de redes ou ‘meta-nível de arquitectura de inter-redes’ (Leiner, et a, 1997). O que a define não é tanto o nível físico mas antes o nível lógico, onde sobressai o protocolo de inter-redes, o TCP/IP (transmission-control protocol/Internet provider). A característica fundamental desse protocolo, que surgiu na década de 70, deve ser intensamente sublinhada: trata-se de um protocolo aberto. Essa abertura deve ser entendida num duplo sentido (Lessig, 2001). Em primeiro lugar, o TCP/IP é aberto por o seu código-fonte se encontrar em domínio público, e portanto livremente acessível a qualquer um que se queira ligar à rede ou nela desenvolver funcionalidades.. Em segundo lugar, o protocolo é end-to-end. Isso significa que ele é indiferente¸ neutral, ‘cego’ por relação ao conteúdo que ele transporta. Exemplificando com alguns dos tipos de formatos hoje existentes, o protocolo não distingue uma página web de um e-mail ou de qualquer outro dos formatos das centenas de aplicações que são executadas na Internet. O princípio end-to-end significa que a ‘inteligência’ da rede, isto é, os programas, reside nos seus nós, a natureza específicas dos quais, no entanto, não é distinguida ao nível do TCP/IP, o qual se limita a transportar pacotes de bits de acordo com o seu endereço IP. É devido a essa dupla abertura que TCP/IP garantiu e continua a garantir a inovação: quem, nos anos 70, imaginaria o surgimento de redes de distribuição de texto, som, vídeo, ou redes suportando transmissão de rádio sobre IP? A mesma abertura verifica-se nas diversas redes virtuais assentes na rede física Internet e que formam a galáxia dos novos media. Assim, o protocolo da world wide web (WWW), HTTP, é aberto no exacto duplo sentido em que TCP/IP é aberto (cf. Berners-Lee, 2000). A sua linguagem de base, HTML, também se encontra em domínio público. O software de redes como as redes de peer-to-peer computation (p2p) encontra-se também publicamente disponível. Essa abertura e neutralidade das redes assentes em computadores provocou o desenvolvimento espontâneo dos novos media na quase completa ausência de regulamentação governamental.5 Além disso, devido à já mencionada 5 Para mais precisões, cf. Goldsmith e Wu, 2006.
2836 Teoria dos meios clássicos de comunicação de massas versus novos meios 5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania neutralidade imposta às companhias telefónicas pelos governos e ao facto de o nível lógico de interconexão ser público e aberto, resultou que o problema de interconexão entre redes diferentes não se colocou. Portanto, nos novos media, temos: (1), um único dispositivo tecnológico de base relativamente barato, o computador; (2) um nível lógico de transmissão aberto e neutral. A consequência imediata ‘e qualquer indivíduo poder colocar conteúdos ou executar programas nos novos media. Não existe aqui também qualquer necessidade tecnológica, e nada garante que a rede aberta Internet continue a ter mesma abertura que hoje possui.6 Mais profundamente, as caracterísiticas físicas e lógicas dos novos media constituíram a ocasião para a emergência de uma estrutura topológica em rede substancialmente distinta da estrutura linear, assimétrica, um-muitos, dos meios clássicos, como de seguida se demonstra. Considere-se inicialmente a world wide web. Na medida em que é uma rede cliente/servidor (cliente/server), ela não parece diferenciar-se substancialmente dos meios tradicionais: podemos considerar a rede como uma um conjunto de clientes, linearmente independentes entre si, que acedem a um mesmo (ou a vários) servidor(es). Mas como o acesso à rede é livre e a principal linguagem é também livre e tem o princípio de hiperligações como sua característica essencial, o resultado final é uma estrutura bem distinta da estrutura um-muitos e assimétrica dos meios clássicos (cf. figura 1, e comparar com a figura 2). Emissor Receptores Figura 1. O diagrama dos meios de comunicação de massas clássicos. Essa estrutura decorre de na WWW ter de existir um pedido activo de informação7 e, sobretudo, de a criação de links ser uma acção voluntária levada a cabo por cada um. Ora, se os links são caminhos criados que tornam mais ou menos acessíveis, mais ou menos visíveis, sites funcionando como um servidor/emissor, demonstra-se que a distribuição de links por sites tem uma topologia muito particular bem distinta da representada na figura 1. Albert et al (Albert et al, 1999), Broder et al (Broder et al, 2000), demonstraram que a função de distribuição, P(k), das k ligações (hyperlinks) entre os N nós (páginas web ou sites) não é do tipo gaussiano (aproximadamente um mesmo número médio de links por página ou site), bem como evidentemente não sucede todos os links apontarem para um mesmo site. Ela tem antes a forma P(k) ~ kλ , isto é, uma distribuição sem escala característica, ou em lei de potência, onde a probabilidade de um nó (página ou site) aleatoriamente escolhido receber k ligações (hiperlinks) decresce segundo um expoente de k. Nós mesmos (Machuco Rosa e Giro, 2007) demonstrámos o mesmo resultado para a WWW de domínio *.pt, obtendo λ=2.1 (cf figura 2). Basta olhar para a figura 2 para se aperceber a diferença em relação à figura 1 (mesmo que esta seja apenas um diagrama). Portanto, se existe uma visibilidade e acesso a sites bastante desigual, estamos muito longe da topologia um/muitos dos modelos clássicos.8 9 6 cf. Lessig, 1999, Zittrain, 2006, para a demonstração, com exemplos, desse ponto. 7 Autores como Zittrain, 2006, fazem notar que a existência de software que produz actualizações automáticas ou outras formas de acções não solicitadas pelo computador cliente é uma tendência no sentido de retorno ao modelo clássico. 8 Estamos apenas a afirmar que a abertura da plataforma cria as condições para a emergência de uma topologia particular dos novos media de comunicação, não se analisando aqui qual o mecanismo preciso que a faz emergir. Nota-se apenas que ele pertence ao tipo geral dos processos de crescimento por retroacção positiva, de que um exemplo é dado no seguimento do texto (cf. Dorogovtsev e Mendes, 2003, e Machuco Rosa, 2006a, capítulo IV).
A.M. Rosa 2837 5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania Fig 2. A World Wide Web de domínio *.pt tem uma distribuição em forma de lei de potência om o valor do expoente λ para inlinks = 2.156. Para além do liberdade de acesso e da topologia da rede, uma terceira consequência da arquitectura física e lógica dos novos media reside no seu princípio de crescimento. O princípio de crescimento dos meios de comunicação clássicos deve-se em larga medida à criação de um mercado de emissão de conteúdos recepcionados por dispositivos baratos e de manuseamento simples. Como vimos, ele foi pré-concebido pela conjugação dos interesse comerciais e da regulação. Tão pouco existem externalidades no modelo assim pré-concebido: o facto de um indivíduo possuir um desses dispositivos não é, em si mesmo, um incentivo para que um outro indivíduo instale idêntico dispositivo. Pelo contrário, nas redes de p2p, por exemplo, desaparece o modelo cliente/servidor da WWW, mantendo-se no entanto a identidade do mesmo dispositivo, o computador, quer no ponto de ‘emissão’ quer no de ‘recepção’. Em maior ou menor grau, nas redes p2p, os computadores tornamse, em sentido preciso, simultaneamente emissores/distribuidores e receptores: se o computador funciona indiferentemente como dispositivo tecnológico de produção, distribuição e recepção em todos os nós da rede, então não existe propriamente distinção entre computadores clientes e computadores servidores. Todos podem exercer simultaneamente a função de distribuição e recepção. 10 É a cada vez maior indistinção entre ‘emissores’, ‘distribuidores’ e ‘receptores’ que se constata no acima aludido princípio morfogenético de crescimento das redes em geral e das redes p2p em particular: o princípio de retroacção positiva traduzido na existência das chamadas externalidades em redes.11 Este princípio afirma que o valor de uma rede cresce exponencialmente com o número dos seus aderentes. Portanto, a partir de uma certa massa crítica, cada indivíduo é racionalmente levado a fazer a mesma coisa que um outro, isto é, a aderir à mesma rede. Essa adesão imitativa faz, por sua vez, aumentar o valor da rede, induzindo ulteriores adesões até emergir uma plataforma global de comunicação. Note-se que esta não está pré-concebida. Ela radica em acções individuais adicionando-se de forma não linear ou complexa: o valor ou atracção da rede aumenta por indivíduos a ela aderirem, só que estes aderem por essa atracção já ter anteriormente crescido fruto de anteriores adesões, isto é, existe um sistema acoplado indivíduo-meio no qual não é possível separar linearmente a rede e os actos de adesão como causas isoladas ou independentes responsáveis pelo 9 Esse resultados são robustos, encontrando-se noutras redes ligadas aos novos media: redes de e-mail (Ebel et al, 2002.), de redes P2P (Adamic et al, 2001, Ripenau et al, 2002), de blogs (Feng et al, 2006), de redes colaborativas como wikipedia (Capocci et al, 2006), ou ainda a distribuição do acesso a sites (Adamic, e Huberman 1999). 10 Ver Machuco Rosa, 2003, para a análise de uma rede p2p (a rede Freenet). 11 Reenviamos para as referências citadas na nota 2. f.p. Inlinks (exp.=2.156) 0 1 2 3 0 1 2 3 log10( links ) log10( sites )
2838 Teoria dos meios clássicos de comunicação de massas versus novos meios 5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania processo morfogenético de crescimento.12 Nessa medida, pode, com rigor, afirmar-se que cada indivíduo é um ‘emissor’ para outro, tendo, no entanto, ele próprio sido ‘destinatário’ dos actos de adesão de outros. O resultado é uma sinergia global que consiste no agregado global simultâneo de todos os ‘produtores’ e ‘receptores’ se fundir num todo único: a própria rede que emerge dos actos, todos identicamente recíprocos, que emergem da rede que eles próprios criam. Este tipo de dinâmicas também se encontra presente nas redes sociais virtuais de partilha como myspace.com, partilha de vídeo (YouTube) ou certos outros aspectos da plataforma Google, apesar de nesses exemplos não estarmos na presença de redes verdadeiramente distribuídas. Em todos os casos, verifica-se um princípio de crescimento com múltiplas ligações horizontais espontâneas que retroagem umas sobre as outras. Não é apenas uma lei em potência que então emerge. O princípio de crescimento interactivo dos novos media, e a sua ausência nos meios tradicionais, pode ser rigorosamente quantificado utilizando uma outra métrica da teoria geral das redes, o chamado coeficiente de agrupamento. Este mede a existência de ciclos ou triângulos numa rede, isto é, em termos intuitivos, se o nó A tem uma ligação para B, e se B tem para C, então A está ligado a C.13 Ora, estudos empíricos mostram que a maior parte das redes possuem um alto coeficiente de agrupamento, isto é, têm uma grande densidade de ciclos como os acabados de descrever (cf. as súmulas de Albert e Barabási, 2002, e Newmann, 2003). O nosso estudo da WWW portuguesa encontrou a mesma propriedade (valor de 0.12). O mesmo é válido para as redes p2p (Adamic et al, 2001). As redes de social networking têm seguramente a mesma propriedade, se bem que não conheçamos dados empíricos. Ora, se se voltar a considerar a figura 1 enquanto diagrama dos meios clássicos, vê-se de imediato que o coeficiente de agrupamento numa tal rede é = 0. Ao invés, a existência de um alto coeficiente de agrupamento atesta a presença de comunidades nos novos media A comparação obtida a partir do nível lógico entre os meios de comunicação clássicos e os novos media permite-nos chegar à seguinte tabela. Nível lógico Media clássicos Novos media Nível regulado Ausência de regulação governamental Produção, organização e distribuição dos conteúdos controlada pelos proprietários do canal. Protocolos (TCP/IP e HTTP, entre outros) abertos e públicos Princípio de design pré-concebido Princípio de crescimento sob a forma da retroacção positiva Estrutura assimétrica um-muitos Utilizador como produtor/distribuidor/ receptor nas novas redes Topologia de rede simples em ‘estrela’ e sem coeficiente de agrupamento Topologia em lei de potência e com forte coeficiente de agrupamento Nível dos conteúdos Os níveis físico e lógico definiram os novos media enquanto meios abertos com muito poucas restricções ao nível do acesso, da distribuição de conteúdos e de programas que neles podem se executados. Tal como o nível lógico é constrangido pelo nível físico, também o nível dos conteúdos, aquilo que efectivamente é comunicado, é constrangido pelos dois níveis anteriores. De facto, o traço 12 Essa dinâmica ó objecto principal de estudo da chamada teoria dos sistemas complexos. Sendo a bibliografia imensa, reenvia-se a título indicativo para Arthur, 1994, e Amral e Ottino, 2004. 13 Mais precisamente, o coeficiente de agrupamento, C, é a razão entre o número de ligações, Ei , existentes entre os nós vizinhos de um nó dado e o número total de ligações possíveis entre esses nós: Ci = Ei / ki (ki -1)/2.
A.M. Rosa 2839 5º SOPCOM – Comunicação e Cidadania dos novos media é ‘todos poderem participar’, os novos media são meios participativos.14 É a dinâmica participativa na produção de conteúdos e suas consequências, e não uma análise sintáctica, semântica ou pragmática dos conteúdos per si, que esboçamos de seguida. Tal como é usual afirmar-se, o acesso à criação e distribuição dos mais diversos tipos de conteúdos encontra-se, nos meios clássicos, restringido a condições mais ou menos precisas, que, em geral, são definidas pelas entidades proprietárias ou gestoras de cada meio de comunicação específico. Sem se entrar em todos os aspectos que formam o núcleo dos modelos e teorias clássicas da comunicação (por exemplo, veja-se a súmula em McQuail, 2003), um dos mais importantes é o acesso à produção e distribuição de conteúdos depender de diversas formas de certificação social de indivíduos. Essas variam, podendo depender da conclusão de cursos profissionais ou académicos, da experiência pessoal, de currículos, da inscrição em ordens profissionais, de recomendações pessoais, etc. Em qualquer dos casos, são essas diversas formas de certificação que classificam um certo indivíduo como ‘profissional’, como ‘jornalista’, etc. De seguida, existem estruturas mais ou menos hierarquizadas (desde direcções de programas a conselhos de redacção e a editores individuais) que decidem os conteúdos susceptíveis de serem transmitidos e a forma como o são (agendamentos, selecções, etc.). Finalmente, os conteúdos produzidos estão sujeitos às leis de protecção intelectual existentes para todo o tipo de conteúdos, leis que podem ser menos (jornais) ou mais (música ou vídeo) importantes do ponto de vista do retorno comercial que proporcionam. Com a emergência de meios de comunicação assentes em plataformas tecnológicas abertas com custos relativamente baixos de acesso, bem como de produção e distribuição, seria de esperar que a certificação de quem produz tal como o controlo daquilo que é distribuído sofresse uma erosão profunda. Ao nível da produção de conteúdos assistiu-a a uma gigantesca explosão de criação de conteúdos por parte de indivíduos que não se apresentam munidos dos instrumentos tradicionais de certificação, isto é, que, desse ponto de vista, são qualificados como ‘amadores’ em vez de serem ‘profissionais’. Os conteúdos produzidos e distribuídos à escala global não se encontram portanto (ou encontram-se muito pouco) sujeitos aos critério de responsabilização hierarquizada e pessoal característicos dos meios clássicos. Quiçá mais importante que referir a existência de milhões de blogs e a massiva produção de conteúdo audiovisual disponibilizado instantaneamente em plataformas abertas, é mencionar a existência de inúmeros projectos globais de produção de conteúdos em modo distribuído levados a cabos por ‘amadores’, de que Wikipedia é um dos exemplos mais conhecidos. Deve notar-se que tais projectos não estão previstos nem tão pouco são explicáveis pelas teorias clássicas da economia e das organizações. Mais exactamente, a teoria das organizações afirma implicitamente que eles são impossíveis de ser levados a cabo, visto ela assumir que um projecto a larga escala exige o tipo de coordenação hierárquica que apenas uma organização formal pode fornecer a indivíduos motivados principalmente pela recompensa monetária que auferem (cf. Chandler, 1977). No entanto, a emergência de projectos distribuídos por centenas ou milhares de indivíduos sem forte enquadramento institucional não nos parece constituir um enigma indecifrável, sobretudo se continuarmos a sublinhar a importância das plataformas abertas, importância agora situada ao nível dos conteúdos.15 Explicando esquematicamente o fenómeno, assuma-se um conjunto fechado de condições que são, (1), uma rede tecnológica aberta sem grandes barreiras económicas à entrada; (2), um grupo de indivíduos munidos de um conjunto aleatório de motivações idiossincráticas (desejo de colaborar para o bem público, busca da fama, ou o que se quiser); (3), assuma-se que existe uma 14 Cf. o dossiê organizado pela revista The Economist, em 20 de Abril de 2006 15 Um raciocínio similar foi desenvolvido por James Boyle (Boyle, 2006) e Yochai. Benkler (Benkler, 2001).