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Instituto Superior de Engenharia : um trajeto de ensino e de museologia educativa

Luís Alberto Marques Alves,Costa, Patrícia

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EDUCAÇÃO E PATRIMÓNIO CULTURAL ESCOLAS , OBJETOS E PRÁTICAS Coordenação Maria João Mogarro Autores Agustin Escolano . Alda Namora . Ana Isabel Madeira . Anabela Teixeira . António Manu el S il va . Car los A. S. Beato . Ca rl os Manique da Si !v a . Catar ina Lea l . Cr istina Yane s Cabrera . Eulalia Colle ld em ont Pujadas . Frank Simon . Helena Palma . Ian Grosvenor . J oaquim Pinta ss il go . Ju stino Magalhães . Lénia Cr istina Pedro . Lígia Penim . Luís Marqu es Alves . Marc De pa epe . Maria João Mogarro . Martin Lawn . Patrícia Costa . Ru i Lop es Ed ições Colibri Biblioteca Nacional de Porwgal -Catalogação na Publicação EDUCAÇÃO E PATR I MÓN IO CULTURAL Educação e patr im ónio cultural : escolas, objetos e práticas I coord. Maria João Mogarro. -(Extra-coleção) ISBN 978-989-689-339-2 1MOGARRO, Maria João, 1959CDU 371 Título: Educação e Património Cultural: Escolas, Objetos e Práticas Coordenação: M ar ia João Mogarro Editor: Fernando Mão de Fen·o Capa: Sérgio Neves Dep ósito legal n.0 362 919/ 13 INSTITUTO SUPERIOR DE ENGENHARIA: UM TRAJETO DE ENSINO E DE MUSEOLOGIA EDUCATIVA Luí s Marques Alves Faculdade de Letras da Un iversidade do Porto Patrícia Costa Instituto Supe ri or de Engenharia do Porto I Instituto de Hi stória Contemporânea da FCSH, Universidade No va de Lisboa A APARENTE estabilidade políti ca consegu id a em 1851 criou co ndi ções para POJtuga l concretizar apostas a médio prazo e o lh ar para a Europa enquanto espaço de comparação e modelo. O atraso económico foi uma dos aspetos que mer ece u uma maior atenção e, entendia-se, se ria pela via da ed ucação que essa diferença seria supe r ada . Logo a partir de 1852 assistiu-se ao estabelecimento de um siste ma de educação in dustrial que permitiu a importação das novas ideias ci en tí ficas qu e proliferavam por toda a Europa. Este sistema edu cat ivo tinha uma forte compo n ente prática, comprovada pela criação de inúmer os gab inetes e laboratóri os para atividad es experime nt ais. Anu alme nte eram adqu iri dos n ovos equipamentos e instrumentos científicos, com a finalid ade de equipar estes estabe l ec imentos auxiliares de ensino. As coleções didáticas, atualme nt e em exposi ção no Mu se u do Instituto Superior de Enge nharia do Potto, foram adq ui ridas a fabricantes europeus de referência internacional, a sua maioria in gleses, franceses e alemães, produtores especializa do s em material didáti co . A pr esença dest es objetos no atual acervo permite-nos conc luir que ex istia uma r ede de cir culação de conh ec imentos científicos transversal a vários países da Europa da qual Portugal acabou por fazer pat1 e. Através desta coleção petmanente o público pode obter uma perceção do de se nvolvimento das ciências relacionadas com as indú str ias, do espírito da educação industrial e da id entidade da Escola de Engenha ri a assim como o seu impacto no No rte de Port ugal, mantendo at é hoje um a das suas funções princ ip aisa e du cação. 1. O ensino industrial e o espaço educativo do Instituto (1851-1910) A aprovação do s estatutos de um a esco la indust ri al por um a assoc i ação e mpr esa rial do Port o, em 31 de outubro, e a s ua in aug ur ação lo go no mês seg uinte a 22 de novembro de 1852, reitera a vontade de se avançar com um ti po de ensino capaz de tornar a produção nacional mais co mp etitiva. Educação e Património C ul tural: Escola s, Objetos e Práticas, 2015, Edições Colibri, Lisboa, pp. 291 -307. 292 Educação e Património Cultural: Escolas, Objetos e Práticas Nesta iniciativa importa considerar n ão só a capacidade de antecipação de uma associação relativamente ao Estado (o diploma que legislará sobre o ensino industrial data de 30 de dezembro de 1852), como ainda a rápida adesão de alunos a esta iniciativa, mesmo particular. Esta adesão funcionou como ale1 ta para as entidades públicas. Era tempo de se passar das iniciativas privadas às medidas coordenadas pe lo Governo; era tempo de se ultrap assar um ce 1 to sincreti smo educativo (onde a f01mação demas i ado genérica ou teórica desse lu ga r a uma outra mais profissionalizante e técnica); era chegada a altura de nos a pr oximarmos do desenvolvimento económico europeu e para isso urgia formar os produtores do novo sistema - ca pitali smo indust ri a l. No pr imeiro dipl oma estrut ur ado r do ensino in dust ri al (30 de dezembro de 1852), criavase um "e ns in o genérico para todas as artes e ofícios" e dividia-se o ensino em "e l ementar, secundário e comp lementar"; assumia-se que apenas seria "professado em Lisboa e Porto "; e esclar ec ia-se sobre os conteú dos curriculares que deviam ser privilegiados. O ensino el eme ntar era consi de rado preparat ór io para o ensino industrial, e podia ser suprido por meio de exa me, com aprova ção plena, perante os professores do ens in o industrial. O ensino sec undário compreendia vár ias cadeiras com Elementos de Geometria Descritiva, ap li ca da às artes, Noções elementares de Química e Física, Dese nho de model os e máquinas. O ens in o complemen ta r co mpr ee ndia: Mecâ ni ca industrial, Química aplicada às artes; Ec on omia e l eg islação in dustrial e Desenho de model os e máq uinas (2" parte). Paralel ame nte aos conteúdos, apostavase no traba lh o em oficinas de "forjar, fundir e moldar, serralharia e ajustamento, to rn ear e mod ela r e manipulações químicas". Desejava- - se ainda que "a lgumas fáb ri cas do Porto" pudessem "se rvir de oficinas para o ensino do trabalho industrial, recebendo os pr op ri etá ri os uma ret ri b ui ção" . Esperava-se que o dispositivo pr evisto - "tr ês anos de pois do estabelecimento do Instituto Industrial de Lisboa e da Escola Industrial do Porto, nenhum operário será admiti do nas fábricas do Estado sem aprovação no grau do ensino respectivo" -fosse suficientemente incenti vador para justifica r a atração deste tipo de ensino, podendo posteriormente o Estado alargar e justificar um maior investim en to. No Porto, a população escolar respon deu a este desafio educativo e cerca de 130 alunos efetuaram 224 matrículas em várias cadeiras. Dific ul dades de organização, de professores h ab ilitados e de instalações pem1i ti r am apenas a realização de um curso livre (propedêuti co e que serv iu de habilitação de base no ano seguinte) que funci onou entre maio e ju lho de 1854 em salas cedi das pela Associação Industrial Portuense. Os números disponíveis para analisannos a rrequência da Escola IndustJial do Porto (que mantém esta designação até 1864, passando a Instituto Industrial do Porto até 1887, desigando-se por l. I. e Comercial do Po rto entre 1887 e 1919, voltando a I. I. P. entre 1919 e 1924, a I.I.C.P. entre 1924 e 1933 e a l.I.P. entre essa data e 1974) evidenci am que não se tr atou de um entusiasmo inicial pois é constatável uma adesão m ui to significativa até 191 O. Rea l ce para os mais de 18.000 alun os que passaram pe la Escola, lnstih1to desde 1864, do Porto até à I" República. A vida da Escola Industrial do P01to ficou desde o início li gada à figura de José de Pa - rada e S il va Leitão (primeiro diretor int er ino da escola), b ac harel fo rm ado em Matemática e le nt e de Físi ca e Mecânica industrial da Academia Politécnica. Este an·anque ficou ainda marcado por alguns aspetos que ma rcaram a sua vida até à implantação da República: -a lguma interferência ou inter li gação excessi va entre a Academia Politécnica e a Escola/ In st itut o; ... ·. Instituto Superior de Engenharia: Um Trajeto de Ensino e de Mu seo l ogia Educativa 293 ~ -;: :t ;-~ ~:. - - - - ----- Alunos Ma tricul a do s no Ins tituto Industrial e no Comercial do Porto . .... Q - l o ,.., _. , . ,.. ' --- - - 1853-1854 a 1909-1910 Quadro 1. Alunos matriculados no Instituto Industrial e no Comercial do Porto (1853-1854 a 1909-1910) Fonte: Annuario Estatístico. Li sboa: Imprensa Nacional, 1875 a 191 O - a ausência de in sta la ções adequadas que vão provocar frequentes conflitos entre os diferentes ocupantes do "Paço dos Estudos no Porto"(futuras instalações da Academia Politécnica e, atualmente, da Faculdade de Ciências); - a impossibilidade de cumprir integralmente as suas funções educativas, nomeadamente as que exigiam espaços mais téc ni cos (laboratórios, oficinas ... ) provocando uma predominância do ensino teórico que, em dada altura, se confunde com o ensino académico e daí a fusão que chega a ser so li citada para a criação de um Ins ti tuto Politécnico (finais de 1881 e inícios de 1882). Mas apesar das vicissitudes referidas, o esforço do diretor interino de colocar a Escola Indu st ri al do Pmto a funcionar em pleno acabou por ser compensado. A primeira necessidade da escola foi encontrar um edifício para se instalar. O "Paço dos Estudos", também conhecido como Edifico da Graça, foi considerado a opção mais viável, por reunir vários fatores: - loca li zação central; - já se encontrar neste espaço a Academia Politéc ni ca; - a existênc ia no seu interior do Colégio dos Órfãos, que poderia fornecer alunos internos para a escola industrial' ; - mais económico acabar o referido edifício, visto que o projeto nesta altura ainda não estava concluído, do que con stm ir um novo. A abertura oficial da escola ver ificou-se em 27 de março de 1854, na aula de Física da Academia Politécnica. Para o ano letivo seguinte foi organizado um orçamento que 1 Cf Livro de correspondência expedida, Relatório enviado ao Ministério das Obras Publicas Comercio e industr ia em no vembro de 1855. (documento pertencente ao Arquivo Histórico do ISEP) 294 Educação e Património Cultural: Escolas, Objetos e Práticas cobria todas as despesas de funcionamento deste estabelec im ento, permitindo o início do seu funcionamento com regularidade e utilidade pública. No que dizia respeito ao ensino prático, um dos principais enfoques deste ensino, houve desde do início uma preocupação constante em estabelecer condições para o seu funcionamento, apesar de nem sempre se ter atingir esse intuito integralmente. Apesar de no Decreto de 30 de dezembro de 1852 não ser referida a criação laboratórios e gabinetes de ensino prático, a instalação de um laboratório químico para a \ecionação da 7" cadeira -Chimica aplicada ás artes, foi considerado imprescindível, pois sem ele o ensino desta cadeira ficava comprometido. A falta de espaço para instalar este laboratório ob ri gou a direção da escola a considerar várias alternativas. A solução encontrada foi o aluguer do laboratório químico da Associ ação Industrial do Porto, enquanto não fossem concluídas as obras para a instalação do mesmo no edifico da Academia Politécn ica do Porto. Para o bom funcionamento do ensino prático aquisição de material didático era essencial. Em finais de 1853 surgem as primeiras referências relativamente a compra de mate ri a l. Nesta data foi organizada uma encomenda de utensílios de vidro (Figura I), de fomos e aparelhos em grés, a serem comprados na Marinha Grande e em França2, para o curso de Química e também alguns aparelhos para o ensino da Física3. Figura J. Diverso matel'ial em vidro. Fonte: Museu do Instituto Superior de Engenharia do Porto, (n° inv. MPL3640BJ , MPL7300BJ , MPL7390BJ, Coleção de Química). A primeira fase do ensino industrial ( 1852-1864) ficou assim caracterizada pela orga - nização e elaboração dos programas das cadeiras, pela escolha dos seus lentes e a criação das estruturas necessárias para o seu funcionamento. A reforma, publicada em 20 de dezembro de 1864, foi um imp01tante ponto de viragem na abordagem do ensino prático. É nesta altura que foi criado oficialmente o Labora2 As compras realizadas em França foram da responsabilidade de José Maurício Vieira, preparador de Física da Escola Politécnica de Lisboa, nomeado comissário do Governo de Sua Majestade para estudar e examinar os instrumentos de precisão, de matemática, física e química. (Livro de con·espondênc ia recebida, Oficio Instruções para a compra de que é encarregado em Paris, o preparador de physica da escola Polytecnhica de Lisboa José Maurício Vieira, 3 de dezembro de 1853, documento pertencente ao Arquivo Histórico do ISEP) 3 Talvez estes instrumentos tenham sido comprados para dar apoio à 4." cadeira -Noções elementares de chímica e Physica. Instituto Superior de Engenharia: Um Trajeto de Ensino e de Museologia Educativa 295 tório Chimico, o Gabinete de Physica e o Museu Technologico4, assim como outros esta - belecimentos auxiliares, não referenciados no referido decreto, como por exemplo o Laboratório de Mineralogia, criado para cobrir as necessidades do ens ino professado. Anualmente eram adquiridos instrumentos científicos e máquinas para equipar com o que de melhor havia em material didático , à semelhança do que se passava em estabelecimentos de ensino similares por toda a Europa, nomeadamente Inglaterra, França ou Alemanha. ( ... ) Para o estudo da physica possue já este In st ituto um gabinete com uma numerosa e muito escolhida co ll ecção de machinas e apare lh os, em todas os ramos ou sessões da physica experimental, podendo-se talvez dizer que elle está em condições de bem satisfazer ás necessidades do en si no, e já mais quando o mesmo se vá amp li ando com as machinas e aparelhos de novos inventos para se estar ao par com a sciencia. ( ... )5 (Arquivo Histórico do ISEP) Todavia, muitas vezes as verbas dispon ibilizadas para comp ra de equipamento não suprimiam as necessi dade s reais do ensino prático. Apesar deste facto, havia semp re um grande esforço por parte do Conse lho Escolar do Instituto em disponibilizar algum orça - mento para tais aquisições. Na sua grande maioria, os equipamentos foram adquiridos a reputados fabricantes eu - ropeus de referência internacional (Figuras 2 e 3). Figura 2. Aparelho para medir resistências de G. Fonta ine, Paris , fornecedor do Instituto Industrial do Porto Fonte: Museu do ISEP , (n° inv. M PL1 770BJ, Coleção de Eletrotecnia) Os docentes do Instituto tiveram um papel preponderante na importação dos no vos in ve ntos e de m ante rem os alunos atua li za dos no conhecimento das novas téc ni cas emp regues na indústria. A responsabilidade das encomendas do material didáti co estava a cargo dos me s mo s, os quais eram igualmente respon sáveis pelo gabinete de ens ino prático associado à cade ira que leciona va m. 4 Cf Co l eção Offic i al da Legislação Port uguesa ( 1965), Decreto de 20 de dezembro de 1864, Capitulo IX , p. 962. 5 Carta enviada para à Direcção Gera l do Come rc io e Industria de 15 de outub ro de 1872. (documento pertencente ao Arquivo Histórico do LSEP) 296 Educação e Património Cu ltural: Escolas, Ob je t os e Práticas Figura 3. Aparelho portátil para medidas rápidas de F. Ducretet & E. Roger, Paris, fornecedor do Instituto Industrial do Porto Fonte: Museu do ISEP, (no inv. MPLI780BJ , Coleção de Eletrotecnia) Durante a segunda metade do século XIX o ensino industri al sofreu consecutivas reformas, os gabinetes e laboratórios foram mudando de nome, sem alterar muito as suas funções principais, e foram surgindo outros acompanhando desta forma a evolução da ciênci a. Co m a aproximação da viragem do século, as conv ul sões políticas que caracterizaram este período tiveram, como seria óbvio, as suas repercussões na educação nacional. 2. 1" República: instabilidade política com repercussões educativas Num quadro de grande inst ab ilidade interna e externa não seria de esperar grandes "milagr es" sobre o ponto de vista educativo. Desde l ogo a formação de produtor es n ão aparecia nas primeiras prioridades educativas, embora fosse visível uma crescente especialização profissional. Nos Institutos Co merciais e Industriais passou-se de 665 para 1.22 1 aluno s( + 83,6%), número que inclui os in st itutos superior es de comércio e o recém-criado Instituto Superior Técnico (282 alunos em 1925). Apesar de algum alheamento em relação ao Ensino Técnico, vários dirigentes republicanos pronunciaram-se sobre a importância deste ensino (Br it o Camacho, no relatório que acompanha o Decreto de 23 de maio de L 911 afirma que "( ... ) o nosso atraso provém, apenas, de insuficiência do nosso ensino técnico, insuficiência que ontem era um mal e hoje é um perigo dada a luta de competência que é pr ec i so suportar na concon-ência aos mer cados de todo o mundo") ( ... ) e defendem algumas alterações que consideravam imprescindíveis a um desenvolvimento adequado do País e como resposta às expectativas educa ti vas de muitos alunos. Defendia-se, na sequência do que vinha sendo afirmado ao longo do século XIX, uma maior interação entre as escolas do ensino técnico elementar e o meio local, uma maior confiança dos empresários na formação veic ul ada pe las escolas, emprega nd o os seus a lu nos, a necessidade de se passar os serviços do ensino técnico par a a alçada do Ministério da In strução Pública (estavam adstritos ao Ministério do Fomento), um maior in vestimento em in stalações e equipamento (no me adamente nas Oficinas), a necessidade de se desenvolver o ensino notumo (embora adequando o seu ctmículo) e, so br etudo, intervenções legisl at ivas que procurassem adequar o ensino técnico às suas funções sociais e económicas. Instituto Superior de Engenharia: Um Trajeto de Ens ino e de Museologia Educat i va 297 Alunns tu.lfti c.. ul~\d os I•' m EOO 700 600 500 100 Alunos Matriculados no Instituto Industrial e no Comercial do Porto 1910-1911 a 1931-1932 Anos l ec 1l vos Quad ro 2. Alunos matriculados no Instituto I ndust ri al e no Comet·cial do Porto (19 10-1 911 a 1931-1932) Fonte: Amwario Estatístico de Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1923 a !9 3 I Os fins da educação técnica, obrigarão necessariamente a reformular o topo tornando- -se necessário equacionar o papel que os Institutos deveriam desempenhar, numa perspetiva simultaneamente articulada com o ensino sec undá ri o e com o ensino superior. A 23 de Ma io de 19 11 uma medida ajudará a clarificar o novo papel que a República pretendia atribuir aos Institutos. O Instituto Indu st ri al e Comerc ial de Lisboa da va or i gem ao I. Superior Técn i co e ao I. Superior de Comércio, mas mais do que o simples desme mbramento, imp01 ta referir não só a sua "ve 1t ente" su pe ri or, como as ju stificações que são a du zidas para este ato legislativo. Tinha-se ultrapassado a fase de algum sincretismo profissional e as escolas t écn icas sec undárias, implementadas a partir de 1884, começavam a fornec er alunos com alg um a ambição ed u cat iva. C ri ar um ensino técnico médio co nstituía uma necessidade, não só sob o ponto de vista de aspiração social, como sob retudo económica. É neste âmb ito que devem ser entendidas um conjunto de outras medidas -aprovação das bases do Instituto Sup er ior de Comércio de Lisboa (1913), criação da Escola de Construções, Indústria e Co mércio (1914), c ri ação da Faculdade Técnica do Porto ( 19 15 ), por exemplo -que de alguma forma preparam e ajudam a entender as reformas de 1918 e 1919, estas já com incidência nas novas funções destinadas ao Instituto Industrial do Porto. A r eg ul amentação do In stituto Industrial do Porto (Decreto n° 6 099 de 15 de setembro de 191 9), explicita e adapta um conjunto de aspetos. O ensino devia ser "teórico ", constituído sobretudo por pr eleções dos pr ofessores, "práti co" , em gabinetes, laboratórios ou através de visitas, missões de est udo (Figura 4) , trabalhos de campo, ou outras a ti vidades entendidas como convenientes, e "profissional" contando para isso com as oficinas anexas ao Instituto (de carpintaria geral e moldes, de serralharia mecânica e de fu ndição e forja). 304 Educação e Património Cultural: Escolas, Objetos e Práticas 639 agentes técnicos de engenharia; a especialidade dominante é a engenharia civil no caso dos engenheiros, mas, no caso dos agentes técnicos, é a electrotecnia e máquinas, o que desde logo é revelador de uma maior orientação para atividade nas empresas industriais privadas( ... ) (Brito, 2002, pp. 62 e 68). É neste contexto que, finalmente, o Instituto Industrial do Porto no ano de 1968 passa a funci onar em novas instalações (Figuras 7 e 8), na rua de S. Tomé, onde se encontra até hoje. Este novo espaço tinha capacidade para cerca de 2.000 alunos, sendo ministrados os cursos de Const ruções Civis e Minas, Electrotecnia e Máquinas e Química Laboral e Industrial. Figuras 7 e 8. Anfiteatro com 620 lugares e laboratório de Química Analítica das instalações do Instituto Industrial, na Rua de S. Tomé, inauguradas em Junho de 1868 Fonte: Folheto do Ministério das Obras Publicas, Junta das Construções para o ensino técnico e secundário São estes os traços indicativos de um cenário onde vão agora entrar em cena novas e mais radicais mudanças, protagonizadas por Veiga Simão que, ensaiadas em espaços coloniais, vão se r implementadas numa Metrópole que cam inha rapidamente para revolucionárias mudanças políticas mas onde, mais uma vez, outras alterações se antecipam, mostrando o caminho da democratização do acesso ao ensino, mas também do reconhecimento público de um trajeto dificil mas honroso dos Institutos Industriais. É interessante ler os princípios gerais da Lei n° 5 de 1973, que ilustra de forma claro todo o pensamento do Estado Novo relativamente ao ensino: 1. A educação nacional visa a formação integral dos portugueses, preparando-os, pela valorização das faculdades espirituais e físicas, para o cumprimento dos seus deveres morais e cívicos e a realização das finalidades da vida. 2. A educação compreende não só as atividades integradas no sistema educativo, mas quaisquer outras que contribuam para a formação dos indivíduos, nomeadamente as que se desenvolvem no âmbito da família e das demais sociedades primárias e outros grupos sociais ou profissionais. (p. 1315) Uma parte considerável da importância de Veiga Simão pre n de - se com a espantosa impo1tância atribuída à educação no nosso país, por um lado, a forte confiança que os governantes depositaram na educação e por outro lado a proeminência histórica do papel Instituto Superior de Engenharia: Um Trajeto de Ensino e de Museologia Educativa 305 do ensino em Portugal e a sua ligação com o catolici smo e a sua função específica na mudança social. Porém, as "realidades portuguesas" determinaram a falta de condições n ecessár ias para que se pudesse efetuar qualquer mobilização com êxito. Os primeiros sinais de uma mobilização mais séria e mais coerente surgiram a seguir à revolução de abril" (Ster, 1983, pp . 793-822). Com o go lpe militar de 25 de abr il de 1974, que pôs fim ao Estado Novo in iciouse um processo que viria a termin ar com a implanta ção de um regime democrático. O ens ino iria ser novamente alvo de alterações como reflexo do novo regime que ir ia vigorar em Portugal. 4. Conclusões: o impacto da democratização -de ensino médio a superior, de industrial a politécnico ( ... ) A democratização do ensino exige uma remodelação das actuais estruturas escolares que são reflexo de uma situação hierarquizada, antidemocrática e imobilista. Exemplo flagrante desta realidade são as escolas médias, em que uma população escolar, de um modo geral oriunda de classes menos favorecidas do que as que entram na Universidade, era ministrado um ens in o intencionalmente dest inado a manter os seus diplomados durante a vida profissional numa situação de desvantagem ou subaltemidade re lati vamente aos diplomados pelas escolas superior es.( ... ) Ass im com o propósito de pôr fi m a esta situação, julgou-se conveniente a reconversão dos institutos industriais em escolas superiores, que passam a ser designadas por institutos superiores de engenharia ( ... )(Decreto n° 830/74 de 31 de Dezembro) A cons uma ção desta decisão que est ava a ser preparada desde 1973, nomeadamente por iniciati va de Ve iga Simão, estava longe de ter efeitos imediatos e, sobretudo, estava l onge de contentar as est ru turas e du cativas, em particular as do ens in o superi or , provocando ainda em termos profissionais alg um as reser vas por parte, nomeadamente da Ordem dos Enge nh eiros. Bem avisa do estava o legislador ao tentar expli car o pa ssado histórico institucional das esco las agoras "pro mov id as": "( ... ) os institutos indu st riais remodelados pe lo presente diploma são esco las com um lon go passado que formaram gerações de profissionais que , indiscutivelmente, têm dado fundamental contributo para o desenvolvimento da indústria p01tuguesa ( ... )"(Decreto n° 303 de 31 de dez embro de 1974, p. 1670). As r efer ências el og i osa s das diversas Associações Patronais ao longo do Es tado Novo aos diplomados dos Institutos, concedendolh es mesmo bolsas e pr ém i os para os que mais se distinguiam, e o elevado índi ce de procura por parte das empresas, reiteravam as pa lavras introdutórias da le i. No entanto, a sua marca excessivamente "c la ssi sta" - " pr etende - se que cada ve z mais possam ter acesso aos institutos superior es de engenh ar ia alun os vindos das classes trabalhadoras" - fruto fundamentalmente da época política que se vivia, impediu uma adesão sem reservas por parte das ent id ade s escolar es e profissionais envol vidas. As modificações ao nível do ensino, faziam antever estas mudanças, e po r certo tamb ém , a perceção da p os sibilidade de al gumas reticências: - a grande frequência do s In st itutos, nomeadamente industriais, que l evou as s uas dir eções a criar em o ensino noturno; 306 Educação e Património Cultural: Escolas, Objetos e Práticas - a maior especialização no ensino secundário com uma reforma em 1973 que multiplica as áreas técnicas e profissionais, respondendo a uma maior procura e à necessidade de uma outra preparação para poderem aceder aos Institutos; - a lei 5/73 que previa a possibilidade de os Institutos Politécnicos conferirem o grau de bacharel; - a criação de novas universidades e de Institutos Politécnicos em Li sboa, Porto, Coimbra; Santarém e Vila Real com claros objetivos de promoverem o "dese nvolvimento económico e social do Paí s" . As intenções do legislador não impediram algumas ambiguidades -"os ISEs eram escolas de nível universitário mas não integradas nas universidades; podiam conceder licenciaturas e doutoramentos mas só o ensino correspondente aos bacharelatos foi ativado" (Decreto no 303, de 31 de dezembro de 1974, p. 1670). Objetivamente pretendia-se adaptar e regularizar a id entidade de escolas que, desenvolvendo um ensino muito próximo do superior mas com uma grande componente prática, responderiam de forma adequada, até pela "s ua história" às modificações em curso e previstas após a democratização e a crescente apetência pelo ensino superior. Apesar da história do ensino industrial em Portugal ser vasta e complexa, o Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP) é orgulhosamente a herdeiro deste passado, tentando ser uma escola na vanguarda da engenharia mas com raízes muito solid as proporcionadas pelo trajeto percorrido desde 1852. Atualmente no Museu do lSEP, criado em 1999, podem visitar as coleções didáticas pertencentes os laboratórios e gabinetes, utilizadas no passado pelos numerosos alunos e professores da casa em demonstrações e experiências práticas para ensino das denominadas engenharias tradicionais. Neste espaço podemos observar a coleção de Física, com os seus instrumentos de ética, eletrostática, hidrodinâmica, calor e acústica, passando pela Eletrotécnica com as medidas elétricas, telégrafos, cotTentes de indução e motores, as Minas e a Metalurgia com os seus fornos, a Mecânica com as máquinas a vapor, a Química com as balanças de precisão e diversos utensílios de laboratório, sem esquecer a Hidráulica com as suas rodas, a Secção de Desenho com modelos de gesso e o espólio da Sala de Geometria Descritiva com os seus modelos, e uma copiosa coleção de Mineralogia e Geologia, apreciando assim os grandes avanços tecnológicos dos séculos passados. Eram os professores titulares das cadeiras que tinham a responsabilidade de definir que instrumentos, aparelhos ou modelos deviam ser adquiridos para equipar os estabelecimentos de ensino prático, o que requeria um elevado conhecimento científico sobre as novas ideias e técnicas que circulavam na Europa industrializada. Para além dos objetos, o Museu do ISEP, possui ainda um considerável espólio bibliográfico onde podemos encontrar grandes obras de referência como a enciclópédia de Diderot e Alembert, um precioso livro de fisica de Musschenbroeck ou um livro de arquitetura de Leon Battista Alberti, assim como um arquivo com diversos tipos de documentos, nomeadamente atas, correspondência, processos de alunos, termos de posse, li vros de caixa, li vros de matrículas, entre outros. Ao longo dos tempos o ISEP manteve a s ua principal missão, a formação de engenheiros, no espírito dos modernos paradigmas do ensino politécnico, norteados por um saber-fazer de alta exigência científica, técnica e experimental. Instituto Superior de Engenharia: Um Trajeto de Ensino e de Museologia Educativa 307 Referências Bibliográficas Alves, L. A. M. (2003). O Porto 110 arranque do ensino industrial (1851-1910). Porto: Edições Afrontamento. Alves, L. A. M. (coord.) (2009). Ensino Técnico (1756-1973). Lisboa: Secretaria Geral do Ministério da Educação. Basto, A. M. (1987). Memória Histórica da Academia Politécnica do Porto. Porto: Universidade do Porto. Brito, J. M. B.; Heitor, M. & ROLLO, M. F. (coord.) (2002). Engenho e Obra -Uma abordagem à história da Engenharia em Portugal no século XX , Lisboa: Dom Quixote. Gomes, J. F. (1980). Estudos Para a História da Educação em Portugal. Coimbra: Almedina. Grácio, S. (1998). Ensinos Técnicos e Política em Portuga/1910/1990. 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