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Diálogo entre Pré-existência e Intervenção Contemporânea: Estudo de cinco casas burguesas do Porto Dissertação de Mestrado Integrado apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto por Maria Leonor de Albuquerque Dunões Docente Orientador Professora Doutora Ana Isabel da Costa e Silva Esta Dissertação não adopta o Acordo Ortográfico de 2011
Agradecimentos À minha orientadora, Professora Doutora Ana Isabel da Costa e Silva, pela disponibilidade, crítica pertinente e partilha de conhecimentos. Aos arquitectos , pela ajuda e material disponibilizado. Aos colegas e docentes, que me apoiaram e contribuíram para a minha para a minha formação académica e pessoal. A todos os meus amigos pela amizade, apoio e paciência, ao longo destes anos. A toda a minha família, em especial aos meus pais e irmãos,pela ajuda, motivação e presença constantes. Ao Gil, por tudo.
Resumo O centro histórico do Porto, património mundial da UNESCO, tem sido objecto de diversas intervenções de reabilitação, que se estendem pelas áreas adjacentes. No entanto, ainda se verifica a existência de muitos edifícios devolutos, na sua maioria de habitação unifamiliar, nomeadamente casas burguesas, que chegaram até aos nossos dias como elemento marcante de várias fases da história da cidade. Sendo actualmente a intervenção urbana um tema incontornável para a salvaguarda do património histórico, torna-se necessário explorar a adaptabilidade deste tipo de edificado, que foi construído noutra época e para outros usos, de forma a reutilizá-lo mantendo a sua identidade. A realização de um estágio num escritório de arquitectura despertou o interesse da autora para as soluções actualmente adoptadas nas intervenções efectuadas nas casas burguesas do Porto. Como tal, a dissertação desenvolve-se no seguimento de um estudo que visa a compreensão do diálogo entre o edifício pré-existente e a intervenção contemporânea nestes edifícios. Nesta dissertação é desenvolvido um estudo sobre cinco intervenções distintas e as respectivas soluções adoptadas para ultrapassar os problemas transversais das casas burguesas como: a falta de iluminação natural no interior da habitação, a carência de instalações sanitárias completas e conforto térmico e acústico, assim como a inexistência de garagem e de elevador. Os casos de estudo englobam uma vasta gama de soluções, permitindo estudar a adaptabilidade destas casas em diferentes contextos, condicionados muitas vezes pelo estado de conservação. Estes casos foram escolhidos de forma a contemplar diferentes graus de intervenção, abranger tipologias de casas burguesas distintas, com usos diversos. Por outro lado, a escolha foi determinada pelo equilíbrio de informação disponibilizada pelos arquitectos, procurando apresentar o mesmo nível de detalhe em todos os casos. Assim, a dissertação apresenta-se como um estudo que transmite uma visão transversal sobre a intervenção contemporânea na casa burguesa e pretende demonstrar várias soluções possíveis e diferenciadas para as principais carências. Palavras-Chave: casa burguesa, pré-existência, intervenção, Porto
Abstract The historic center of Porto, UNESCO World Heritage Site, is being object of several interventions, as well as adjacent areas. However the existence of many vacant buildings, mostly single family homes, namely bourgeois houses, which are still nowadays relevant elements of the various stages of the evolution of the city. Being currently urban intervention an unavoidable issue for the safeguard of the historical heritage, there is a need to explore the adaptability of this type of buildings, which have been built in another era and for other uses, while maintaining its identity. The completion of traineeship in architectural studio addressed the author’s interest to the solutions currently adopted in the interventions made in the bourgeois houses of Porto. As such, the dissertation is developed following a study aimed to the comprehension of the dialogue between the existing building and the contemporary intervention in these buildings. This thesis develops a study on five different interventions and the solutions adopted to overcome the problems of bourgeois houses as: the lack of natural lighting indoors, the shortage of complete bathroom and thermal and acoustic comfort, as well as the absence of garage and lift. The case studies were selected to encompass a wide range of solutions, allowing the study of adaptability of these houses in different contexts that is frequently limited by the decay of de pre-existence. These cases have been chosen in order to encompass different degrees of intervention, types of bourgeois houses and uses. On the other hand, the choice was determined by the availability of information provided by the architects, so it could be possible to attain a balanced study of all cases. Thus, this thesis is presented as a study that gives an overview about current interventions made in bourgeois houses and intends to demonstrate a number of possible and differentiated solutions to that can be used to overcome the main problems. Keywords: bourgeois house, pre-existence, intervention, Porto
8 fig. 1 | Centro Histórico do Porto [Arquivo Pessoal]
Índice 1 | Introdução 11 1.1 | Objecto 13 1.2 | Motivação 14 1.3 | Objectivo 14 1.4 | Metodologia e estrutura 15 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX 17 2.1 | Contexto histórico e urbano 19 2.2 | Caracterização das tipologias 29 2.2.1 | Período Mercantilista 29 2.2.2 | Período Iluminista 35 2.2.3 | Período Liberal 37 2.2.4 | Transformação da habitação unifamiliar em plurifamiliar 45 2.3 | Sistema construtivo 49 2.4 | Influência dos costumes 59 3 | Casos de Estudo 63 3.1 | Casa - Atelier na Rua do Almada 67 3.2 | Casa Unifamiliar na Rua da Maternidade 77 3.3 | Alojamento na Rua Dr. Alves da Veiga 85 3.4 | Alojamento na Rua Duque de Loulé 95 3.5 | Casa Unifamiliar na Rua Duque de Saldanha 103 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo 111 5 | Considerações Finais 123 6 | Referência Bibliográficas 131 7 | Anexos 139 fig. 1 | Centro Histórico do Porto [Arquivo Pessoal]
2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX
19 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX 2.1 | Contexto histórico e urbano O início do século XVII , ficou marcado por um período bastante conturbado, devido à instabilidade política que o país vivia, consequente das revoluções internas que conduziram à perda da independência de Portugal em 1580. A Restauração da Independência, em 1640, veio trazer ao Porto um período de certa prosperidade, com o advento de uma política mercantilista, que resulta no aumento da produção vinícola e cerealífera, contribuindo para a intensificação do comércio internacional. Esta expansão agrícola levou a um aumento exponencial de navios na barra do Douro, tendo como primazia as embarcações inglesas relativamente às nacionais. Na sequência deste desenvolvimento económico, observa-se um aumento significativo da população, intramuros e na periferia, resultante não só da fixação de comerciantes estrangeiros, nomeadamente ingleses, como também do processo de migração das populações rurais portuenses, devido às oportunidades de trabalho inerentes ao desenvolvimento portuário. Apesar do crescimento económico e do significativo aumento populacional e construtivo, não surgiram novos pólos de urbanização. No entanto, verificou-se a saturação dos núcleos pré-existentes: o interior da muralha3, assim como os dois principais pólos urbanos exteriores à muralha, Miragaia e Santo Ildefonso. Ainda no período do domínio filipino, dada a densificação construtiva no interior da muralha fernandina, foram fomentadas duas acções urbanísticas, que indiciaram o desenvolvimento radial da cidade4. A primeira fase trata-se da construção de conventos e edifícios religiosos e assistenciais, em áreas exteriores e interiores à muralha e adjacentes às suas portas - o Tribunal da Relação e Cadeia, a Igreja das Carmelitas, o Colégio dos Órfãos, o Convento de São Filipe Nery ou a Igreja de Santo Idelfonso - e na segunda fase, o ordenamento dos primeiros espaços públicos, cuja localização era coincidente com as áreas onde eram 3- “Os velhos muros medievais, erguidos no século XIV por ordem de D.Afonso IV eram agora muito restritos para uma cidade em avanço galopante tanto na sua dimensão económica como demográfica”. - PINTO, Jorge Ricardo - Bonfim: Territórios de Memórias e Destinos. p.23. 4- “Importará também acrescentar que estes tímidos mas significativo indícios do desenvolvimento radial da cidade durante o século XVII, constituirão pontos de apoio ao desenvolvimento urbano posterior, assumidos e retomados, um século mais tarde e com novo fôlego, pelos Almadas, reformadores da cidade”. - FERRÃO, Bernardo José - Projecto de transformação urbana do Porto na época dos Almadas: 1758-1813. p.155.. séc. XVII expansão extra-muros
20 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 2 | As Muralhas do Porto, 1839 [As muralhas do Porto : da circunvallaçäo Gasca e da circunvallaçäo Fernandina. p.17]
21 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX implantados os novos edifícios religiosos5 - os rossios do Olival, das Hortas e da Batalha.6 No início do século XVIII, a actividade económica em Portugal contínua em ascensão devido à descoberta do ouro no Brasil e à assinatura do tratado de Mathuen (1703), estabelecido com Inglaterra, que coloca o Porto como centro exportador da mais importante área vinícola portuguesa. Neste período, a arquitectura portuense é marcada pela requalificação barroca do espaço urbano, tendo como influência os modelos italianos implementados por Nicolau Nazoni. Dos seus trabalhos realizados, promovidos pela nobreza eclesiástica, destacam-se dois: o Paço Episcopal e a Torre os Clérigos.7 No quadro do desenvolvimento económico, destaca-se o aumento da produção e comercialização do vinhos do Porto, actividade que o Marquês de Pombal tentou estabilizar em 1756 com a criação da Real Companhia da Agricultura e das Vinhas do Alto Douro, medida que decorreu das iniciativas políticas e estratégia económica após o Terramoto de 1755.8 Tal como as outras companhias criadas pelo Marquês de Pombal, a Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, foi concebida com o intuito de modernizar a cidade do Porto. Esta política económica deu origem, no ano seguinte, a um violento motim popular, derivado do imposto acrescido ao preço do vinho. Desta forma, o ministro D. José, futuro Marquês, enviou para o Porto o seu primo direito, João de Almada e Melo, como governador civil e militar, no sentido de comandar as forças de repressão. João de Almada e Melo, interessa-se desde cedo pelo desenvolvimento da cidade, assumindo a liderança do processo de transformação urbana da cidade do Porto, revelando-se assim, um instrumento notável da acção pombalina no norte do país. Em 1758 é fundada, sob a égide do Marquês de Pombal, a Junta das Obras Publicas, liderada por João de Almada e Melo. Este organismo de gestão urbana foi encarregue de pôr em prática os programas de embelezamento urbano, de acordo com os conceitos iluministas adoptados pelo Marquês de Pombal, na 5FERRÃO, Bernardo José - Projecto de transformação urbana do Porto na época dos Almadas: 17581813. p.154 e 155. 6Idem, Ibidem. p.154. 7- “Nazoni projectou elementos urbanos que contribuíram fortemente, quer para a qualificação de espaços (...), quer para o condicionamento futuro de novos traçados a efectuar na segunda metade do século XVIII.” - FERRÃO, Bernardo José - Projecto de transformação urbana do Porto na época dos Almadas: 1758-1813. p.159.. 8BERRANCE, Luis Eduardo - Evolução do desenho das fachadas das habitações almadinas: 1774-1844. p.19. séc. XVIII tratado Mathuen Junta das Obras Públicas
22 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 3 | Renovação da estrutura urbana (1764-1819) [Atlas histórico de ciudades europeas, p.132, fig.16]
23 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX reconstrução de Lisboa9. A actuação da Junta das Obras Publicas era financiada pelo imposto aplicado sobre o vinho, pela Companhia da Agricultura e vinhas do Alto-Douro. Esta composição leva a que a política do poder central, a economia e a arquitectura estejam unidas de um modo organizado, conhecido como The Architecture of Port Wine.10 As acções urbanísticas desenvolvidas pela Junta de Obras Públicas, no núcleo medieval e na expansão extramuros, respondiam a dois objectivos gerais muito precisos: promover a adequação funcional dos espaços de circulação e controlar a qualidade estética dos edifícios. Para tal, a nova estrutura urbana organiza-se tendo como base um plano de carácter radioconcêntrico, que tinham como base a regularização e substituição de antigas vias, contemplando medidas de higienização, de reconversão funcional do tecido urbano existente e promove um programa de edifícios públicos que marcaram a renovação da imagem da cidade.11 Os programas urbanos desenvolveram-se em duas etapas. A primeira, entre 1760 e 1780, inicia-se com a criação do primeiro eixo do sistema radioconcêntrico, orientado a norte-sul, que unia a Praça da Ribeira com a Praça de Santo Ovídio. Este eixo aproveita, parcialmente, traçados pré-existentes, como a Rua das Flores, e é complementado com a abertura de novas ruas: a Rua de São João e a Rua do Almada.12 A segunda etapa, entre 1780 e 1800, corresponde à concepção do plano radioconcêntrico da cidade como um todo, definido pela regularização das principais vias de saída existentes - Rua de Santo Ildefonso e Rua de Cedofeitae a criação de novos eixos de saída da cidade - Rua de Santa Catarina e suas transversais de ligação entre eixos (Rua da Boavista, Rua Formosa e Rua Gonçalo Cristóvão). Mais tarde, de modo a estabelecer uma frente de contacto entre a cidade nova e a cidade muralhada, foram traçadas a Rua de Santo António, Rua dos Clérigos e foi dada uma definição à frente ribeirinha,13 criandose normas para construção dos edifícios, quanto à composição das fachadas, obedecendo a regras de composição neoclássica. 9- “O novo espírito defende a abertura, a luz, a higiene, a racionalização do espaço físico e social da cidade. As ruas e praças que se rompem, largas e rectilíneas, permitem uma maior luminosidade e arejamento.” - RAMOS, Luís A. De Oliveira - História do Porto. p.379. 10MANDROUX-FRANÇA, Marie-Thérèse, Quatro Fases da Urbanização do Porto no Século XVIII. p.9. 11NONELL, Anni Gunter, TAVARES, Rui - Atlas histórico de ciudades europeas. p.132. 12NONELL, Anni Gunter, TAVARES, Rui - Atlas histórico de ciudades europeas. p.132. 13BERRANCE, Luis - Eduardo, Evolução do desenho das fachadas das habitações almadinas: 17741844. p.21. planos urbanísticos
24 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 4 | Primeira planta conhecida da cidade (1813) [Atlas histórico de ciudades europeas, p.133, fig.13] fig. 5 | Projecto de fachadas regulares da Rua de Santa Catarina (1776) [Atlas histórico de ciudades europeas, p.133, fig.13]
25 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX Nas transformações urbanas almadinas14, o edificado é estabelecido segundo padrões previamente definidos, de parcelamento regular, assim como a utilização de um sistema modular de composição das fachadas, linguagem formal que tem como base o estilo neopalladiano. Este estilo clássico adoptado na renovação da cidade, foi importado de Inglaterra e representa a influência sóciocultural da comunidade britânica residente no Porto, constituída na sua maioria por comerciantes de vinho. As políticas adoptadas durante o período almadino revelaram-se benéficas para o desenvolvimento económico da cidade, potenciando as trocas comerciais e o crescimento do sector industrial. A cidade atravessava um momento de grande prosperidade económica. As primeiras décadas do século XIX, foram marcadas por uma série de acontecimentos de cariz económico, político e social que perturbaram o funcionamento do desenvolvimento urbano portuense. As invasões Napoleónicas, que duraram até 1814, levaram à fuga da corte para o Brasil e ao reforço das tropas inglesas, perturbando o funcionamento das estruturas administrativas e que se reflectiu na gestão da cidade, marcando assim, o primeiro revés na contínuação das reformas urbanísticas.15 A Revolução Liberal de 1820 despoletou uma violenta guerra civil entre liberais e absolutistas que perdurou até 1834. No Porto, este período de grande inquietação foi marcado pelo cerco à cidade (1832-1833), que conduziu ao aparecimento de um drástico surto de cólera e ao bombardeamento da cidade.16 Como consequência, este clima de instabilidade política e social, foi determinante para o decréscimo demográfico. No entanto, a partir de meados do século XIX, retomou-se o seu crescimento normal na sequência do processo de industrialização e, consequentemente, ao processo de migração da população operária do norte do país para a zona do Porto em busca de trabalho. Esta nova população tende a fixar-se na zona oriental da cidade e periferia, onde se situam as indústrias mais importantes. Em 1833, com a extinção da Junta das Obras Públicas, a gestão urbanística deixa de estar centralizada num único organismo e passa a estar repartida por 14- “(...)a cidade foi beneficiada por uma série de melhoramentos urbanísticos em resultado da acção destes dois homens que se sucederam num empenho notável de desenvolvimento da urbe, não só ao nível viário com a introdução de medidas de higiene e limpeza da cidade com particular destaque para o abastecimento de águas” - CRUZ, Maria Antonieta - Os Burgueses do Porto na segunda metade do século XIX. p.361. 15NONELL, Anni Günter, TAVARES, Rui - Atlas histórico de ciudades europeas. p.134. 16TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.19. neopalladiano séc. XIX Revolução Liberal extinção da Juntas das Obras Públicas
32 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 10 | Edifício de habitação com frentes para duas ruas, localizável em quarteirão compacto; caixa de escadas central; fachada de dois vãos, eventualmente com três; piso térreo com uso misto; 1º e outros pisos para habitação. [Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade - p.134] oficina, loja, armazém cozinha quarto, sala
33 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX Este tipo de edificações encontram-se nos quarteirões fronteiros ao Douro nas áreas Ribeira-Barredo e Miragaia, assim como nos quarteirões mais extensos e regulares das áreas da Sé e da Vitória32, em lotes com profundidade variáveis entre os 20 e os 30 metros e a largura entre os 4,5 e os 6 metros. No que respeita à topografia do lote, verifica-se a tipologia do tipo dois requer terrenos com pendentes reduzidas, de modo a possibilitar o acesso exterior público e privado nas duas frentes. Assim, a introdução da segunda fachada, voltada para o logradouro, exige terrenos com maiores dimensões33. A composição da fachada principal, definida por dois ou três vãos, desenvolvese de acordo com o método adoptado na tipologia anterior, relacionando-se directamente com a rua. A introdução do alçado tardoz surge de um modo mais económico e elementar, como resultado da composição espacial interior.34 A organização interna desta segunda tipologia sofre algumas alterações devido à introdução de novos factores na habitação, tais como: o aumento de área e o aumento do número de compartimentos, despoletando assim a noção de privacidade no uso da casa. Assim, a relação público/privado passa a manifestarse não só na progressão do piso térreo para os superiores, como também na passagem dos compartimentos da frente para os compartimentos de trás.35 As tipologias deste período dispõem do uso polifuncional. Deste modo, o piso térreo dispunha de um espaço independente, destinado na maioria dos casos ao comércio, e os pisos superiores eram destinados à habitação. O conceito de privacidade associado à casa começa a surgir a partir do século XVIII, sendo que neste período ainda persistia a ideia medieval de habitar, não havendo nenhuma especialização na divisão dos espaços. No mesmo compartimento, come-se, dormese e executam-se os trabalhos domésticos. Porém, a cozinha situa-se sempre no último piso, junto ao telhado, por razões de segurança e funcionais, relacionadas com a exaustão de fumos36. Neste período ainda não existia no léxico de residência o conceito de corredor-distribuidor, desta forma, transitava-se de um espaço directamente para outro.37 32FERNANDES, Francisco Barata - Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade. 33Idem. 34Idem, Ibidem. 35Idem, Ibidem. p.125 36TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.25. 37FERNANDES, Francisco Barata - Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade. p.127. organização interna organização funcional
34 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 11 | Porto iluminista [Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade - p.160]
35 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX 2.2.2 | Período Iluminista Este período foi marcado pelas estratégias de intervenção adoptadas pela Junta de Obras Públicas, e também pela consequente expansão radial da cidade.38 As edificações deste período encontram-se fora da muralha, mas na sua proximidade, e nas áreas de expansão almadina39, mais precisamente, na Rua do Almada, Rua de Cedofeita, Rua dos Clérigos, Rua 31 de Janeiro, Rua de Santa Catarina, entre outras. Os edifícios de habitação deste período mantêm os mesmos princípios da tipologia mercantilista, no que diz respeito à relação com a rua e com o lote. Todavia, a tipologia iluminista destaca-se devido à sua capacidade de se adaptar ao relevo: quer seja muito ou pouco acentuado, quer o lote esteja paralelo ou perpendicular à pendente. Relativamente à relação do lote com a rua, denotase a preocupação com a composição conjunta dos alçados, característica determinante no período almadino. Normalmente, a composição do alçado principal apresentava-se de um modo tripartido e os vãos eram sensivelmente maiores em altura. O que também distingue estas casas das do período anterior é o surgimento de pequenas janelas nas portas do piso térreo, designadas por postigos, assim como as varandas corridas nos pisos superiores que vão de uma parede de meação à outra.40 As dimensões destas implantações são relativamente constantes. As frentes variam entre os 5 e os 7 metros e, no que diz respeito à profundidade, distinguem-se dois tipos: ou próximas dos 12 metros, ou próximas dos 22 metros. O logradouro não tem uma dimensão precisa, normalmente varia consoante o declive do terreno, podendo desempenhar o papel de saguão ou pequeno pátio, dependendo da sua profundidade. Durante este período, o número de pisos, assim como altura dos pés direitos tende a aumentar, chegando a haver casas com cinco pisos.41 A organização interna é influenciada pela tipologia de duas frentes, presente no período anterior: a caixa de escadas é central e piso térreo fica independente do resto da casa, destinado ao comércio, oficina ou armazém. 38- “No Porto, onde os efeitos do terramoto não tiveram significado, a acção urbanística que os Almadas (pai e filho) desenvolveram revela um entendimento da cidade e da sua gestão igualmente globalizador e racionalista. O planeamento da expansão radial da cidade, ou melhor, a modernização, a reestruturação e a urbanização do sistema radiocêntrico do Porto de Seiscentos manifesta a capacidade de apreensão do fenómeno urbano como facto uno e complexo” - FERNANDES, Francisco Barata - Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade. p.141. 39Idem, Ibidem. p.143. 40Idem, Ibidem. p.144. 41Idem. organização interna
36 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 12 | Edifício de habitação de duas frentes e logradouro, localizado em quarteirão de interior amplo; caixa de escadas com iluminação vertical, com dois ou três vãos nas fachadas; o aumento de pisos reproduz um tema dos pisos existentes; as cozinhas localizam-se no último piso e nas traseiras. [Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade - p.156] oficina, loja, armazém cozinha quarto, sala instalação sanitária
37 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX A organização funcional mantém os mesmos princípios da habitação mercantilista: a cozinha situada no último piso voltada para o logradouro e a sala no primeiro piso virada para a rua de modo a receber os visitantes.42 É de destacar que neste período foram implantadas instalações sanitárias, anteriormente inexistentes e que se destacam no alçado posterior. O aumento na frente do lote, vai consequentemente aumentar a dimensão dos compartimentos, pelo que, em alguns casos, é possível associar dois compartimentos na mesma fachada. A caixa de escadas passa a ser iluminada por uma clarabóia, permitindo também, no caso dos lotes mais profundos, iluminar as alcovas, através das janelas interiores.43 Os materiais de construção utilizados são os mesmos das tipologias do período mercantilista, contudo neste período há um maior uso do ferro nas guardas das varandas e sacadas, ao contrário do que acontecia nos modelos anteriores, em que normalmente se usava madeira. As preocupações com a segurança das habitações contra o risco de incêndio e com a precariedade dos sistemas construtivos rudimentares determinam a progressiva substituição das paredes construídas em tabique, por paredes construídas em alvenaria, essencialmente de pedra. Com esta substituição, as paredes de tabique passam a ser apenas utilizadas nos pisos recuados ou acrescentados.44 O modelo descrito irá tornar-se numa solução arquitectónica característica das casas do Porto, não só da segunda metade de Setecentos como de todo o século XIX.45 2.2.3 | Período Liberal Durante o século XIX, a cidade continuou a expandir-se de acordo com a metodologia do período dos Almadas, demonstrando a importância das suas políticas. Ao longo dos principais acessos à cidade, tais como: a Rua de S.Roque da Lameira, Rua de Costa Cabral, Rua de Antero de Quental, Rua de Cedofeita, entre outras, verifica-se a presença de casas do período liberal.46 Este modelo, apesar de manter as mesmas características tipológicas, sofreu algumas alterações 42FERNANDES, Francisco Barata - Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade. p.145. 43-Idem, Ibidem. p.144. 44TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.26. 45FERNANDES, Francisco Barata - Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade. p.144. 46Idem, Ibidem. p.170. organização funcional
38 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 13 | Casas burguesas do período liberal. [Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade - p.189]
39 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX relativamente ao modelo precedente. As principais alterações são: a introdução de instalações sanitárias rudimentares no alçado tardoz dos edifícios, o aumento da altura de cada piso, o aumento do espaço destinado a arrecadações e armazenagem, assim como, a organização do espaço destinado ao logradouro com jardins e hortas.47 Como resultado de um processo de industrialização, a partir da segunda metade do século XIX surge um novo tipo de habitação burguesa. Esta tipologia é caracterizada por ser o primeiro tipo de habitação urbana, que estabelece uma efectiva divisão social e funcional da cidade: áreas de residência e áreas de trabalho (comércio, serviços, pequena e média indústria).48 Esta tipologia distingue-se das tipologias anteriores pelo seu carácter monofuncional. Deste modo, esta tipologia não prevê usos mistos, investindo num tipologia habitacional mais complexa relativamente à organização interna e funcional.49 Estes novos tipos de habitação vão ocupar novas área de expansão da cidade, nomeadamente: a Rua e Avenida da Boavista, Rua de Álvares Cabral, Praça da República, Praça do Marquês e Avenida Rodrigues de Freitas. Também surgem em dois outros núcleos da cidade, em extremos opostos: Foz do Douro e Campanhã.50 A tipologia monofuncional destaca-se pela complexidade e exigências do seu programa, principalmente no que diz respeito à organização interior. O modelo urbano mais comum desta época dispõem de dois, três ou quatro pisos, com duas frentes e paredes de meação, o que revela não só a continuidade do modelo precedente como a perspectiva e convicção na perdurabilidade deste sistema construtivo assim como no modo de fazer cidade. O lote, tal como acontece nos modelos anteriores, é caracterizado por ter apenas uma só frente e a capacidade de se adaptar a terrenos com alguma pendente. No entanto, a implantação desta tipologia requer uma superfície plana, deste modo, a pendente é muitas vezes vencida através de diversos patamares identificados com a horta, o jardim, o pomar, o lago, etc.51 As dimensões do lote, são muito semelhantes com as dos modelos anteriores, apresentando frentes variáveis entre os 5,5 e os 6 metros, e profundidades variáveis: ou próximas dos 47FERNANDES, Francisco Barata - Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade. p.170. 48Idem, Ibidem. p.79. 49Idem. 50Idem, Ibidem. p.170. 51Idem, Ibidem. p.171.
40 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 14 | Tipo de habitação unifamiliar, monofuncional, com rés do chão sobrelevado e cave iluminada. [Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade - p.193] sala de jantar sala de visitas cozinha instalação sanitária quarto, sala
41 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX 15 ou próximas dos 20 metros.52 Na matriz de organização interna, denota-se uma profunda alteração relativamente aos modelos anteriores. A mais relevante foi a introdução de uma cave sobrelevada com aberturas para a rua, cujo o uso se destinava às zonas de serviço e armazenagem. Uma vez que a cave não era completamente subterrânea, em relação às cotas da rua, não é possível definir um piso térreo. Desta forma, o único acesso à habitação é estabelecido a partir do rés-do-chão sobrelevado, através de uma porta de entrada, normalmente situada junto a uma das paredes de meação, contudo, existem variantes desta tipologia que dispõem de entrada central.53 À semelhança das tipologias anteriores, a organização interna e a comunicação entre pisos era estabelecida através de uma escada central, de dois lances, perpendicular à profundidade do edificado54, que organiza de um modo simétrico toda a habitação. Através da ligação entre os diferentes patamares das escadas encontrava-se definido um espaço central, com pé direito duplo ou triplo, iluminado de forma zenital por uma ampla clarabóia de forma cónica. O acesso à cave era feito na continuação desta mesma escada, no entanto, encontrava-se devidamente separado através de uma pequena porta integrada sob o patamar. O acesso à cave tinha um carácter de serviço, que se desenvolvia de forma mais abrupta. Existe ainda um outro acesso à cave por um único lanço, extremamente íngreme, a partir de uma pequeníssima porta situada imediatamente a seguir à entrada.55 A organização espacial pertencente à tipologia liberal, ao contrário das anteriores, era mais complexa no que se refere a hierarquização funcional e social, existindo designações próprias para cada compartimento. No rés-dochão sobrelevado, face à rua, encontra-se a sala de visitas, contígua ao espaço de entrada, concedendo uma maior privacidade aos restantes compartimentos da casa. A passagem da cozinha das traseiras do último piso para as traseiras do rés-do-chão sobrelevado, permitiu uma maior proximidade com os espaços de serviço localizados na cave, assim como a sala de jantar e a sala de visitas. As instalações sanitárias começaram a fazer parte da vida quotidiana deste modo foram integradas no alçado tardoz, numa das extremidades da varanda. Os quartos encontravam-se distribuídos pelos restantes pisos, à excepção do sótão 52FERNANDES, Francisco Barata - Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade. p.171. 53Idem, Ibidem. p.172. 54Idem. 55Idem.
48 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 19 | Pormenor de uma parede exterior de um piso recuado em tabique simples reforçado. Legenda: 1 Viga (pau rolado) da estrutura do sobrado, 2 Argamassa de saibro, 3 Fasquio, 4 Estuque, 5 Tarugo, 6 Contrafrechal, 7 Vara, 8 Ripa, 9 Telha vã (canal e coberta), 10 Argamassa de assentamento, 11 Telha Marselha, 12 Rufo em chapa de zinco, 13 Ripa de fixação da chapa ondulada, 14 Chapa ondulada, 15 Guarnição (mata juntas) exterior, 16 Ripa de fixação do radapé, 17 Prumo, 18 Soalho, 19 Tábua inferior do rodapé, 20 Tábua superir do rodapé, 21 Travessanho, 22 Duplo tabuado, 24 Guarnição (mata juntas) interior, 25 Tábua de peito, 26 Travessa inferior do caixilho da janela, 27 Pinázio, 28 Travessa superior do caixilho da janela, 29 Aro do caixilho da janela, 30 Calço, 31 Verga, 32 Cimalha em madeira, 33 Frechal, 34 Viga (pau rolado) de apoio da estrutura do tecto, 35 Barrote para apoio dos fasquios do tecto. (Desenho e legenda de Joaquim Teixeira) [Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.119].
49 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX 2.3 | Sistema construtivo A casa burguesa é (...) a casa vulgar que todos conhecemos às centenas por estas ruas, e que, por isso mesmo,(... ) é uma das expressões mais típicas do Porto.66 Ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, verifica-se uma clara evolução tipológica nas casas burguesas do Porto, contudo, no que diz respeito às técnicas e aos materiais construtivos, existem características comuns entre os diferentes modelos. A arquitectura destas casas é determinada por um conjunto de condicionantes que resultam dos factores sociais e económicos da época, assim como da sistematização no uso de materiais de origem natural, que se destacavam pela abundância, fácil manuseamento, transporte e transformação.67 Os materiais tradicionais - a pedra, a madeira, a cal, a argila, a areia e certos metais - predominaram durante vários séculos.68 Em linguagem corrente, estas construções encontram-se definidas num paralelepípedo de largura variável entre os 4 e os 7 metros (correspondente a 18 e 31 palmos) e comprimento variável entre os 15 e os 25 metros (correspondente a 78 e 114 palmos) e de altura variável, entre os dois e os quatro pisos, fora os acréscimos.69 Estas medidas estão directamente relacionadas com os materiais predominantemente utilizados: a madeira, o granito e o ferro, que estiveram presentes ao longo de todas as épocas da história da civilização70, e abundavam no seio da cidade. O seu alçado também é característico, definido pelas cantarias em pedra, vãos de desenvolvimento vertical, caixilharias de madeira e revestido, muitas vezes, com azulejo. A estrutura da casa burguesa apresenta dois tipos de elementos: os de carácter principal o os de carácter secundário. Considera-se de carácter principal, os elementos responsáveis pela integridade do edifício: as paredes de meação, as paredes de fundações, a estrutura dos sobrados e a estrutura da cobertura. Os elementos de carácter secundário, nomeadamente: as paredes das fachadas, as paredes interiores de compartimentação, a estrutura das escadas, a estrutura da clarabóia e a estrutura das águas furtadas e trapeiras, têm a função de complementar os elementos de carácter principal.71 66VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto, GALHANO, Fernando - Arquitectura tradicional portuguesa. p.310. 67OLIVEIRA, Simão Costa - A casas corrente do Porto: um estudo e um projecto. p.91. 68TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.28 69-Idem, Ibidem. p.279 70Idem, Ibidem. p.49 71TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.45
50 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 20 | Corte por uma asna com nível (Desenho de Joaquim Teixeira) [Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.98]. fig. 21 | Corte por uma asna com pendural e escoras (Desenho elaborado por um grupo de trabalho do ano letivo 2001/2002) [Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.100].
51 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX As paredes de meação são construídas em alvenaria de pedra de granito, de aparelho irregular, em forma de perpeanho72, com espessuras médias de 30cm, sendo que nos modelos mais antigos, é possível encontrar paredes de tabique mistos, conhecido também por sistema de gaiola73. As paredes das fundações encontram-se na continuidade das paredes de meação, no entanto, aumentam de espessura de forma a garantir uma melhor descarga dos esforços no terreno. Estas paredes desenvolvem-se em profundidade até encontrarem um terreno consistente, deste modo, a sua dimensão é variável, estando directamente relacionada com as características do terreno em que se insere.74 A estrutura dos sobrados é constituída por um vigamento de troncos de madeira, em forma de paus rolados, cujo comprimento depende da largura da casa.75 Este vigamento de madeira, encontra-se apoiado nas paredes de meação e disposto de forma paralela, com um espaçamento variável entre os 50 e os 70 centímetros. Normalmente, uma destas vigas encontra-se encostada às paredes das fachadas, conferindo assim uma maior estabilidade. Esta estrutura é travada, na perpendicular, por tarugos - vigas de menor dimensãoque se encontram espaçadas 1,5 metros entre si, agregando assim toda a estrutura. No caso do piso térreo, esta estrutura encontra-se elevada em relação ao terreno, de modo a permitir a sua ventilação e conservação.76 As paredes das fachadas são constituídas por alvenaria de pedra de granito, com 70 centímetros de espessura, sendo mais espessas que as paredes de meação, devido às aberturas de grandes vãos. Regra geral, estas paredes autoportantes asseguram a continuidade da alvenaria das paredes de meação, e auxiliam no travamento da estrutura dos pisos e na estrutura do telhado, como apoio às tacaniças.77 As paredes da fachada posterior dispõem de varandas corridas, apoiadas em cachorros, que permitem o acesso aos volumes sanitários. Nas últimas décadas do século XIX78 estas varandas são frequentemente fechadas para marquise, 72- “Pedra de cantaria que vai de face a face da parede, tendo por isso dois parâmetros; o mesmo que travadouro.” Idem, Ibidem. p.212 73Estrutura de madeira, preenchida por pedra miúda ou tijolo 74Idem, Ibidem. p.45. 75- “Este tronco de madeira, de várias dimensões - 18 a 25 cm de diâmetro, por 7 m de comprimento no máximo - simplesmente descascado, é o principal elemento de estrutura dos sobrados, da estrutura das escadas interiores e da estrutura dos telhados” Idem, Ibidem. p.55. 76Idem, Ibidem. p.47. 77Idem, Ibidem. p.46. 78Idem, Ibidem. p.143. paredes de meação paredes de fundação estrutura dos sobrados paredes das fachadas
52 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 22 | Representação da fachada principal e da fachada posterior (Desenhos de Joaquim Teixeira) [Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.110 e144] fig. 23 | Parede de tabique interior, com duplo tabuado, sem frechal inferior, com prumos afastados cerca de 1m e travessanhos pregados à altura do rodapé; Parede de tabique interior, com duplo tabuado e frechal inferior elevado, apoiado em prumos distanciados cerca de 1m. (Desenho de Joaquim Teixeira) [Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.123]
53 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX através de uma estrutura semelhante às paredes de tabique simples reforçado.79 As paredes das fachadas eram revestidas, tanto no interior como no exterior, com rebocos à base de argamassas de saibro e cal, com acabamento estucado e pintado. Todavia, em meados do século XIX, quando o azulejo começa a ser produzido em larga escala, passa a ser o revestimento mais usual pelo exterior.80 Nas paredes das fachadas, que se encontram na continuação das paredes de pedra e nos pisos recuados e acrescentados, é possível encontrar paredes de tabique81 de dois tipos: paredes de tabique simples e paredes de tabique reforçado, muito semelhantes construtivamente.82 As paredes de tabique simples, são constituídas, por uma estrutura de barrotes de madeira, composta por prumos, frechais, travessanhos e vergas, caso haja necessidade de abertura de vãos. Esta estrutura é preenchida por um duplo tabuado com 2 centímetros de espessura, disposto na vertical e na diagonal, sobre qual é pregado um fasquiado pelo interior, que serve de suporte para o reboco, e um ripado pelo exterior, que serve de apoio ao revestimento, podendo este ser definido por soletos de ardósia, chapa zincada ondulada ou reboco, embora este último seja menos frequente.83 As paredes de tabique reforçado, são constituídas uma estrutura em forma de gaiola, semelhantes às paredes de tabique misto. No entanto, o processo de construção é semelhante ao modelo anterior de tabique simples, sendo que o que os distingue é o revestimento em ambos os lados pelo tabuado. Estas paredes no seu interior podem ser preenchidas com restos de madeira, cortiça ou folhas de jornal, de modo a isolar termicamente. O fasquiado é aplicado da mesma forma que o modelo anterior.84 As paredes interiores, de compartimentação e da caixa de escadas, apresentam um processo de construção e acabamentos igual aos modelos anteriores, construídas em tabique simples ou tabique simples reforçado. Todavia, enquanto as paredes de compartimentação podiam ser construídas posteriormente, numa fase de acabamentos pois apenas dependiam da modulação do vigamento, 79TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX.p.46. 80Idem. 81- “(...) uma técnica de construção anterior ao século XVII (...) VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto, GALHANO, Fernando - Arquitectura tradicional portuguesa. p.281. 82TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.105. 83Idem, Ibidem.p.112. 84Idem, Ibidem.p.113. paredes de tabique simples paredes de tabique reforçado paredes interiores
54 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 24 | Parede da caixa de escadas em tabique simples, escadas e clarabóia. Legenda: 1 Contra frechal, 2 Vara, 3 Barrote cadeia, 4 Travessanho da estrutura da clarabóia, 5 Tabuado, 6 Aduela, 7 Frechal de coroamento, 8 Perna da asna, 9 Madre, 10 Calço, 11 Escora, 12 Verga, 13 Prumo, 14 Frechal, 15 Cadeia da clarabóia, 16 Travessa de peito, 17 Chincharel, 18 Cadeia da escada, 19 Travessanho, 20 Espelho, 21 Esquadro, 22 Cobertor, 23 Perna da escada. (Desenho e legenda de Joaquim Teixeira) [Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.130 e131]
55 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX as paredes da caixa de escadas tinham de ser construídas de raiz, devido à sua localização, restrita ao espaço destinado aos acessos verticais, e ao facto de desempenharem a função de suporte da estrutura das escadas. Embora não seja comum, é possível encontrar alguns exemplos em que as paredes da caixa de escadas são em alvenaria de pedra de granito.85 A estrutura das escadas, está directamente relacionada com a sua largura dos seus lanços, sendo definida por duas ou três vigas - pernas - em formas de paus rolados ou esquadriados, de acordo com o período em estudo. Estas vigas apoiam-se directamente nas cadeias dos patamares de piso e nos patamares intermédios. Assim, a cadeia dos patamares do piso apoia-se no vigamento do piso correspondente e a cadeia dos patamares intermédios apoia-se na parede pertencente à estrutura da caixa de escadas. Sobre as pernas pregam-se tábuas, em forma de esquadro, de forma a receberem os cobertores e os espelhos, com espessuras variáveis entre os 4 e os 2 centímetros respectivamente, que encaixam tipo macho - fêmea.86 A estrutura da cobertura até ao final do século XIX, regra geral, é definida por quatro águas,87 constituída por asnas que se apoiam nas paredes de meação e que se encontram espaçadas 3 metros entre si. Por vezes, este ritmo pode ser interrompido dependendo da localização da clarabóia.88 No que diz respeito às asnas, as mais antigas apresentam uma forma simples, sendo compostas por linha, pernas e nível. A partir do século XIX, estas começam a ser substituídas por asnas mais complexas, compostas por linha, pernas, pendural e escoras. Este conjunto de elementos encontra-se unido por paus de fileira no topo, duas madres a meia altura e na base os contra-frechais que encaixam nas paredes de meação. Sobre estas vigas encontra-se pregado o varedo, espaçado 50 centímetros entre si, e sobre o qual se apoia, na perpendicular, o ripado, para assentamento das telhas.89 85TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.120. 86Idem, Ibidem. p.134. 87- “Pode-se dizer que, salvas raríssimas excepções, até meados do século XIX, as casas do Porto (mesma já as velhas casas estreitas e altas de fachadas de tabique dos bairros da Sé e Vitória) têm telhados de quatro águas, de telha caleira portuguesa.”VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto, GALHANO, Fernando - Arquitectura tradicional portuguesa. p.350. 88TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.47. 89Idem. estrutura das escadas estrutura da cobertura
56 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX fig. 25 | Estrutura de uma cobertura de quatro águas com trapeira. (Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.142)
57 2 | Casa Burguesa do Porto do Século XVII ao XIX Na cobertura encontram-se localizadas as clarabóias90, elementos característicos da casa burguesa do Porto, de variadas formas e feitios: redondas ou ovais e quadradas ou rectangulares. No que diz respeito aos lanternins, ora se encontram de nível, no mesmo plano das águas da cobertura, ora se encontram sob a forma de pequenas cúpulas, de ferro e vidro. Regra geral, no interior, estes elementos eram revestidos de acordo com o mesmo sistema das restantes paredes da casa, e no exterior, eram revestidos por telha caleira, chapas de zinco ou chumbo, sendo que nos exemplos mais modernos podíamos encontrar chapa zincada.91 As águas furtadas, trapeiras92 e mirantes são elementos frequentemente presentes nas casas burguesas do Porto, construídos de raiz ou posteriormente, sendo por isso uma característica intemporal. As paredes destes elementos, são idênticas às paredes dos pisos recuados ou acrescentados, tendo como apoio o vigamento do sobrado ou a cadeia construída na estrutura do telhado, no caso do telhado de duas águas.93 90- “As clarabóias, que estão em relação com o plano interior destas casas, para iluminação da escada central, são também elementos característicos dos telhados do Porto, extremamente corrente. Aparecem muitas clarabóias de muitos formatos, desde simples vidraças ao correr das águas do telhado, até complicadas gaiolas de fantasia, altas como mirantes e exuberantemente ornamentadas. O tipo mais comum é o da clarabóia circular ou elíptica, em forma de pequena cúpula de vidro - muitas vezes com vidro de cor - montada numa base cónica de barrotes dispostos à feição, cobertos de telhas ao alto, e revestidos com rede protectora.” VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto, GALHANO, Fernando - Arquitectura tradicional portuguesa. p.355. 91TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.48. 92- “As trapeiras são pequenas construções, como alas que se inserem no telhado, de uma (...), de duas (...) e mais geralmente três águas (...) do tamanho apenas de uma janela (...) e destinam-se a iluminar e altear o sector - ou mesmo a totalidade - de um sótão.”VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto, GALHANO, Fernando - Arquitectura tradicional portuguesa. p.354 e 355. 93TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.141. clarabóias águas furtadas, trapeiras e mirantes
64 3 | Casos de Estudo fig. 26 | Mapa da cidade do Porto onde se encontra identificada a Zona de Intervenção Prioritária a vermelho. [http://www.portovivosru.pt/pt/area-de-atuacao/enquadramento] 1 2 3 4 5 fig. 27 | Vista aérea de parte da cidade do Porto, localização dos casos de estudo. [https://www.google.pt/maps/] casos de estudo limite do centro histórico do Porto 1 - Casa-atelier da Rua do Almada 2 - Casa na Rua da Maternidade 3 - Casa-alojamento local da Rua Dr. Alves da Veiga 4 - Alojamento local da Rua Duque de Loulé 5 - Casa da Rua Duque de Saldanha
65 3 | Casos de Estudo 3 | Casos de Estudo Para compreender como é estabelecido o diálogo entre a pré-existência e a intervenção contemporânea, foram seleccionados para análise cinco intervenções realizadas recentemente em casas burguesas do Porto localizadas na Z.I.P (Zona de Intervenção Prioritária). A selecção dos casos de estudo teve como premissa englobar intervenções distintas, abrangendo edifícios de diferentes tipologias, usos, intensidades de intervenção, que tivessem sido construídos em diferentes fases da urbanização da cidade do Porto, no sentido de perceber como é que diferentes tipologias se adaptaram a um novo programa e necessidades de conforto mais complexas e exigentes. Os casos de estudo encontram-se ordenados de acordo com a sua evolução tipológica ao longo da história do Porto. O primeiro projecto situa-se na Rua do Almada, pertencendo ao primeiro momento de urbanização da cidade do Porto fora das muralhas, período iluminista. O segundo projecto situa-se na Rua da Maternidade, sendo esta também uma das tipologias do período iluminista. O terceiro e quarto projectos, situam-se na Rua Dr. Alves da Veiga e Rua Duque de Loulé respectivamente, e correspondem a uma solução intermédia da tipologia do período liberal, que dispunha de dois usos distintos, tal como acontecia no período iluminista. O quinto projecto situa-se na Rua Duque de Saldanha, e corresponde ao período liberal na sua verdadeira essência, caracterizado por ser apenas habitacional. A análise dos projectos de intervenção divide-se em duas fases: o edificado pré-existente e a intervenção contemporânea. Na primeira fase, pretende-se contextualizar o edificado no tempo e no espaço. Tendo como referência o estudo desenvolvido por Francisco Barata Fernandes, pretende-se determinar qual seria a tipologia de origem de cada caso de estudo. Desta forma, pretende-se fazer a análise comparativa entre a génese e o edifício antes da recente intervenção, quanto aos seus usos, alçados, organização interna e estado de conservação. Posteriormente, na segunda fase, pretende-se analisar a intervenção contemporânea tendo em conta o programa, proposta e opções projectuais, como resposta às exigências contemporâneas, nomeadamente: carência de instalações sanitárias completas, garagem, elevador e conforto térmico e acústico. No sentido de perceber como estas questões influenciam a organização interna e a solução estrutural.
66 3 | Casos de Estudo fig. 28 | Localização do edifício em estudo [https://www.google.pt/maps/]
67 3 | Casos de Estudo 3.1 | Casa - Atelier na Rua do Almada _ Análise do edifício pré-existente Esta intervenção, projectada pela Arquitecta Cristina Campilho, tem como base uma construção pré-existente presente na Rua do Almada, número 528. Esta casa insere-se num lote orientado a nascente-poente, com 6,3m de largura e 66m de profundidade, confinados por paredes e muros de meação. Na sua totalidade, o lote apresenta uma área de 350m2, da qual faz parte a implantação do edificado e o logradouro, com 113m2 e 237m2 respectivamente. A casa, localizada na extremidade oeste do lote , tem 23,4m de profundidade e divide-se em quatro pisos, que perfazem uma área bruta de construção de 535m2. No sentido de vencer a pendente do terreno ao longo da sua profundidade, o logradouro encontra-se subdivido em dois patamares com funcionalidades distintas, cuja ligação é estabelecida através de um escada de três lances em alvenaria de pedra. O primeiro de 65m2 é caracterizado como pátio e o segundo com 135m2 como jardim. A casa analisada correspondia ao modelo de uma casa burguesa do século XVIII, construída na época dos Almadas. Desta forma, tendo em conta a rua em que está localizada, acredita-se que esta casa se trate de um testemunho do primeiro momento de urbanização planeada na cidade do Porto. Esta casa de duas frentes encontra-se cingida pelos edifícios adjacentes. O edificado a norte trata-se de uma casa burguesa da mesma época, que mantém a mesma linguagem da casa em estudo, contudo a sul, encontra-se um edifício que difere por completo dos adjacentes, em termos de escala e composição do alçado, quebrando o ritmo das fachadas que conferem identidade a esta rua. De acordo com Francisco Barata Fernandes, a tipologia predominante desta época dispunha de dois usos distintos, conjugando a habitação presente nos pisos superiores com comércio no piso térreo, que estabelecia uma relação directa com a rua. Porém, a casa em estudo dispunha apenas de habitação. Podendo-se deduzir este edifício sofreu alterações de uso ao longo do tempo. Segundo a Arquitecta Cristina Campilho, esta casa chegou a ser habitada por duas irmãs com a sua respectiva família, o que justificou a coexistência de uma cozinha no piso térreo e outra no último piso. Esta organização programática justifica o uso do compartimento, onde possivelmente se encontrava o espaço destinado ao comércio, como sala de jantar. Regra geral, na tipologia iluminista, o pé-direito aumenta à medida que se sobe na casa, como é possível verificar a partir da casa em estudo que no piso inserção urbana fig. 29 | Alçado principal e posterior antes da intervenção [fotos cedidas pela Arquitecta Cristina Campilho]
68 3 | Casos de Estudo fig. 30 | Estado de conservação da sala e cozinha actual [fotos cedidas pela Arquitecta Cristina Campilho] fig. 31 | Estado de conservação da quarto, localizado no segundo piso, e do terceiro piso. [fotos cedidas pela Arquitecta Cristina Campilho] fig. 36 | Corte longitudinal de vermelhos/amarelos correspondente ao construído/demolido [elaboração própria com base na informação cedida pela Arquitecta Cristina Campilho] 0 31 5 construído demolido cobertura 3º piso 2º piso 1º piso piso térreo 0 31 5 construído demolido fig. 35 | Planta de vermelhos/amarelos correspondente ao construído/demolido. [elaboração própria com base na informação cedida pela Arquitecta Cristina Campilho] fig. 32 | Escadas e janela da alcova antes intervenção [fotos cedidas pela Arquitecta Cristina Campilho] fig. 33 | Cobertura e trapeira antes da intervenção. [fotos cedidas pela Arquitecta Cristina Campilho] 0 31 5 construído demolido fig. 34 | Alçados de vermelhos/amarelos correspondente ao construído/demolido e Alçados finais. [elaboração própria com base na informação cedida pela Arquitecta Cristina Campilho] alçado principal (antes da intervenção) alçado posterior (antes da intervenção) alçado principal (depois da intervenção) alçado posterior (depois da intervenção)
69 3 | Casos de Estudo térreo apresente o pé-direito é de 2,63m, no primeiro piso é de 2,90m, no segundo piso é de 3,00m e no último piso, recuado em relação à fachada principal, a altura é de 2,68m. O último piso quebra este aumento contínuo apresentando um pé-direito de 2,70m, o que leva a crer que este piso possa ter sido construído posteriormente à construção de raiz. O alçado principal, revestido com azulejos de padrão geométrico, apresenta uma base compositiva bipartida, definida no primeiro plano, por dois vãos de desenvolvimento vertical com largura constante de 1,33m, alinhados verticalmente entre si, a partir de três formas distintas. No piso térreo encontra-se a porta de acesso à habitação, composta por duas folhas com bandeira e respectivos postigos e, no alinhamento da padieira, a janela de peito de batente com bandeira. No primeiro piso, encontram-se duas janelas do tipo guilhotina. No segundo piso, existem duas janelas de batente de sacada com bandeira , através das quais se acede à varanda corrida. No terceiro piso, recuado em relação à rua, encontramse duas janelas de guilhotina, de diferentes dimensões, adjacentes às paredes de meação, todavia, não seguem nenhum dos alinhamentos presentes no primeiro plano deste mesmo alçado. Os vãos pertencentes ao primeiro plano do alçado principal encontram-se organizados segundo um eixo de simetria, contudo este não coincide com o eixo central do plano da fachada. O alçado posterior estava bastante adulterado102, na sequência da intervenção realizada no século XX, na qual foi acrescentado ao alçado uma nova estrutura de betão preenchida com alvenaria de tijolo, cujo objectivo era ampliar as instalações sanitárias existentes. Este novo volume dispunha de banheira e lavatório complementando a instalação sanitária existente. Os vãos que compunham este alçado diferiam consoante a função do espaço em que estavam inseridos: as janelas que pertenciam às instalações sanitárias eram janelas de guilhotina, e as restantes eram janelas de peito de batente com bandeira. Procurar a história e manter a autenticidade do edifício, foram os princípios adoptados pela arquitecta. Como resultado, a postura adoptada foi a menos invasiva possível, de modo a evitar intervenções irreversíveis. O projecto foi desenvolvido a partir do resultado do diagnóstico do estado de conservação do edifício e orientado de forma a manter os seus elementos originais, sempre que o estado de conservação dos mesmos o permitisse. No sentido de avaliar o estado de conservação da estrutura, foi solicitado ao NCREP (Consultoria em Reabilitação do Edificado e Património, Lda) que realizasse um diagnóstico 102tendo em conta a tipologia iluministas descrita no estudo por Francisco Barata Fernandes. alçados estado de conservação fig. 37 | Alçado principal e posterior depois da intervenção [fotografias de Ines Guedes - http://www.inesguedes.com/albums/almada-house/]
70 3 | Casos de Estudo fig. 42 | Plantas da organização programática [elaboração própria com base na informação cedida pela Arquitecta Cristina Campilho] 0 31 5 atelier e oficina arrumos instalação sanitária cozinha, espaço de refeições e sala de estar quarto cobertura 3º piso 2º piso 1º piso piso térreo fig. 43 | Plantas da organização programática [elaboração própria com base na informação cedida pela Arquitecta Cristina Campilho] 0 31 5 atelier e oficina arrumos instalação sanitária cozinha, espaço de refeições e sala de estar quarto fig. 38 | Piso térreo - espaço de distribuição e atelier. [fotografias de Ines Guedes - http://www.inesguedes.com/albums/almada-house/] fig. 39 | Piso 1sala de estar. [fotografias de Ines Guedes - http://www.inesguedes.com/albums/almada-house/] fig. 40 | Piso 1 - cozinha + espaço de refeições e respectivo acesso ao logradouro [fotografias de Ines Guedes - http://www.inesguedes.com/albums/almada-house/] fig. 41 | Piso 2 - quarto principal. [fotografias de Ines Guedes - http://www.inesguedes.com/albums/almada-house/]
71 3 | Casos de Estudo estrutural103 , através do qual se concluiu que a casa apresentava um bom estado de conservação, tenso sido possível manter a estrutura pré-existente, com excepção da estrutura cobertura, em que foram substituídas algumas vigas, e da estrutura de betão pertencente às instalações sanitárias. _ Análise da intervenção O programa base deste projecto assentou na recuperação do edifício, tendo como objectivo desenvolver uma habitação unifamiliar para um jovem casal, e ao mesmo tempo conjugar este espaço com um local de trabalho. Desta forma surgiu a casa-atelier. A proposta de intervenção surge de forma a manter a lógica de organização interna presente no edifício pré-existente. No entanto, como resposta às necessidades dos proprietários, foi proposto que as áreas de acesso público e de trabalho se localizassem no piso térreo, as áreas sociais no primeiro piso e os quartos no segundo e terceiro pisos. Assim, a localização do espaço de trabalho não interfere na privacidade dos habitantes nos pisos superiores . Como resposta ao novo programa, a organização interna foi readaptada tendo como referência a organização pré-existente . No piso térreo, foi colocado o atelier à face da rua, de modo a possibilitar a recepção de pessoas sem intervir na privacidade dos restantes habitantes da casa, e no compartimento face ao logradouro, existe um espaço onde se prevê instalar uma pequena oficina, que tanto pode servir de apoio ao atelier (concepção de maquetas), como pode ser utilizado como espaço de lazer, associado a trabalhos artísticos. O facto de este espaço ser de fácil acesso ao logradouro, possibilita a concepção de actividades ao ar livre. No primeiro piso, encontra-se o espaço social da casa. A poente, a sala de estar, com vista para a rua, e a nascente, a cozinha e a sala de jantar, com vista para o jardim e acesso directo ao logradouro através de uma escada no exterior. É de destacar que estes dois últimos compartimentos funcionam em open space de modo a que as actividades relacionadas com a cozinha sejam vividas em família. No segundo e terceiro pisos encontram-se os espaços mais reservados da casa, os quartos. No lado nascente do segundo piso, encontra-se o quarto de casal, o único que dispõem de closet e instalação sanitária imediatamente anexa. Os restantes compartimentos, actualmente sem utilização, estão previstos para um futuro 103Para efectuar o diagnóstico utilizaram-se dois instrumentos de ensaio: o Pacómetro (para identificar o alinhamento das vigas) e o Resistógrafo (para analisar a integridade das vigas na zona de entrega nas paredes de alvenaria de pedra) que permitem efectuar a análise das vigas de forma não destrutiva. A acção conjunta destes dois instrumentos, permitiu identificar a configuração dos pavimentos (secção e espaçamento das vigas) e analisar o estado de conservação dos vários elementos estruturais e a extensão dos ataques de agentes bióticos, definindo assim a necessidade de eventuais reforços estruturais. programa proposta organização interna
72 3 | Casos de Estudo fig. 44 | Piso 2 - quarto voltado para a rua [fotografias de Ines Guedes - http://www.inesguedes.com/albums/almada-house/] fig. 45 | Piso 2 - acesso ao piso recuado e instalação sanitária. [fotografias de Ines Guedes - http://www.inesguedes.com/albums/almada-house/] fig. 46 | Piso 3, recuado - quarto. [fotografias de Ines Guedes - http://www.inesguedes.com/albums/almada-house/] fig. 47 | Tectos ornamentados em gesso e teto em tabuado de madeira tipo “camisa e saia“ [fotografias cedidas pela Arquitecta Cristina Campilho]
73 3 | Casos de Estudo aumento da família. De acordo com a análise estrutural feita pelo NCREP, foi possível manter praticamente todas a paredes pré-existentes, o tabuado dos pisos, e os vãos interiores, com as respectivas portas e ombreiras. No que diz respeito à estrutura de madeira do sobrado e telhado, aplicou-se entalhes e reforços onde foi identificado como necessário, muitas vezes como consequência do aumento de cargas104. O volume de betão e alvenaria de tijolo, acrescentado no alçado posterior no início do século XX, dedicado às instalações sanitárias completas, foi removido tendo em conta os sinais de deterioração identificados no diagnóstico estrutural. No espaço libertado pela remoção deste volume foram construídas varandas com estrutura metálica, tendo em conta a (...) vista privilegiada para o jardim, para as torres da Câmara do Porto e da Igreja da Trindade e, no último andar, para a Sé e Vila Nova de Gaia105. Os compartimentos correspondentes às antigas instalações sanitárias (“cabine” com sanita) formam mantidos, no entanto, à excepção do último piso, foram atribuídos a estes espaços novos usos, nomeadamente a função de arrumos ou compartimentos técnicos. Ao demolir o volume de betão das antigas instalações sanitárias, houve a necessidade de as colocar num novo local. Atendendo à organização interior da casa, optou-se por colocá-las no compartimento nascente junto às escadas. As janelas interiores, pertencentes às antigas alcovas, foram aproveitadas, permitindo que a instalação sanitária usufruísse de iluminação natural, proveniente da clarabóia central. Para a minimizar as intervenções ao nível da infra-estrutura, foi introduzida uma parede técnica que atravessa todos os pisos do edifício. O seu interior contém todas as infra-estruturas hidráulicas, condutas de exaustão, circuitos de electricidade e respectivos quadros eléctricos.106 Os circuitos de electricidade da casa foram embutidos nos rodapés, de modo a não danificar as paredes. Para tal, houve necessidade de substituir os rodapés simples, de origem, por rodapés duplos, reproduzindo o modelo presente na caixa de escadas. No sentido de preservar a pré-existência foram feitos alguns trabalhos de manutenção e restauro. As paredes e tectos interiores foram reabilitados a partir 104-como por exemplo: eletrodomésticos da cozinha, instalações sanitárias 105Presente na Memória Descritiva da Casa/Atelier da Rua do Almada em anexo neste trabalho. p.5. 106Presente na Memória Descritiva da Casa/Atelier da Rua do Almada em anexo neste trabalho. p.5. estrutura infra-estruturas
80 3 | Casos de Estudo cobertura 2º piso 1º piso piso térreo fig. 59 | Plantas da organização programática [elaboração própria com base na informação cedida pelo atelier Pablo Pita Arquitectos] 0 31 5 escritório garagem instalação sanitária cozinha, espaço de refeições e sala de estar quarto fig. 55 | Cozinha, espaço de refeições e sala de estar. [fotos cedidas pelo atelier Pablo Pita Arquitectos] fig. 56 | Escadas de acesso aos pisos superiores e clarabóia. [fotos cedidas pelo atelier Pablo Pita Arquitectos] fig. 57 | Corredor de acesso no primeiro piso e quarto voltado para a rua [fotos cedidas pelo atelier Pablo Pita Arquitectos] fig. 58 | Corredor de acesso no primeiro piso e quarto voltado para a rua [fotos cedidas pelo atelier Pablo Pita Arquitectos] fig. 60 | Escritório. [fotos cedidas pelo atelier Pablo Pita Arquitectos]
81 3 | Casos de Estudo O levantamento permitiu verificar que o edifício se encontrava em mau estado de conservação. Segundo os arquitectos, a falta de ornamentação dos elementos, nomeadamente, os rodatectos, além de se encontrarem danificados, não apresentavam grande valor patrimonial. As infiltrações abundantes, contribuíram também para que o estuque dos tectos, assim como os diversos elementos de madeira, incluindo a estrutura, estivessem degradados. _ Análise da intervenção As novas exigências funcionais, o avançado estado de degradação dos elementos interiores e a falta de ornamentação, constituíram o ponto de partida para uma renovação completa do interior. O programa base, assenta na reinterpretação da organização interior da casa burguesa, mantendo o uso monofuncional e a escala interior, de forma a readaptar a base tipológica às novas rotinas e necessidades contemporâneas. A proposta de intervenção teve o cuidado de manter a lógica de organização interna: áreas sociais no piso térreo e quartos nos pisos superiores. Contudo, tendo em conta as novas exigências contemporâneas, o projecto teve como premissas a questão da iluminação e a introdução de uma garagem. Além disso, foi acrescentado um segundo piso recuado, de acordo com o perfil do quarteirão. Este acrescento permitiu aumentar a área bruta de construção de 190m2 para 260m2. Como resultado desta proposta, a organização interna difere nos diferentes pisos. No piso térreo, confinante com o espaço de entrada, existe a garagem. No interior da habitação encontra-se o espaço social da casa, que reúne a cozinha, sala de estar e instalação sanitária de serviço. A sala e a cozinha funcionam em open space e encontram-se directamente relacionadas com o jardim. No primeiro piso, encontram-se dois quartos que respeitam a sua escala original. O quarto principal dispões vista para o jardim e é composto por instalação sanitária e closet. A instalação sanitária está divida em dois módulos, separando a zona de duche dos restantes elementos. O espaço destinado ao duche, foi introduzido no antigo compartimento da instalação sanitária, permitindo deste modo a vista sobre o jardim. O outro quarto tem vista para a rua, e dispõem da instalação sanitária comum, anexa à caixa de escadas. No segundo piso, encontra-se o espaço destinado aos hóspedes que reúne a sala de estar com vista para a rua e o quarto com instalação sanitária, virado para o jardim. A caixa de escadas, um dos elementos determinantes na casa burguesa do Porto, é redesenhada tornando-se um elemento unificador que relaciona estado de conservação programa proposta organização interna
82 3 | Casos de Estudo fig. 63 | Axonometria da caixa de escadas e fotografias de obra. [axonometria e fotos cedidas pelo atelier Pablo Pita Arquitectos] fig. 61 | Quarto no segundo piso voltado para o logradouro [fotos cedidas pelo atelier Pablo Pita Arquitectos] fig. 62 | fotografias de obra da caixa de escadas e infra-estruturas. [fotos cedidas pelo atelier Pablo Pita Arquitectos]
83 3 | Casos de Estudo todos os espaços num percurso vertical. O desenho destas escadas, foi pensado de modo que não haja lances sobrepostos, à medida que de desenvolve a partir do piso térreo a distância dos lances ao eixo central vai aumentando, permitindo que a iluminação zenital proveniente da ampla clarabóia, penetre em todos os pisos. Deste desenho resultam novos enfiamentos visuais e diferentes relações entre pisos, proporcionados através do seu núcleo. No novo desenho das escadas foram adoptados alguns dos balaústres torneados pertencente à guarda da escada anterior, de modo a incluir elementos da casa pré-existente. A estrutura foi sujeita a alterações como consequência do estado devoluto e de decomposição da casa. As fachadas e paredes pré-existentes de meação, ambas em alvenaria de pedra de granito foram mantidas. De acordo com o estado de conservação das vigas de madeira e da estrutura da cobertura, os arquitectos optaram por substituir a estrutura tradicional por uma solução de laje aligeirada de betão suportada por vigas metálicas. Os alçados foram preservados e enobrecidos através de um processo de limpeza formal reavivando o seu estado original. No entanto, a materialidade, assim como a sua composição foram alterados. O alçado principal, foi readaptado às novas exigências contemporâneas com a introdução do portão de garagem. Contudo, de forma a salvaguardar a pré-existência foram mantidas as cantarias originais. Tendo em conta a fraca qualidade dos azulejos pré-existentes e a ausência de alguns, os arquitectos optaram por substituir esta materialidade por um novo revestimento de reboco. O alçado posterior foi reinterpretado de acordo com o modelo original . A estrutura da marquise foi substituída por uma guarda em aço galvanizado. O revestimento exterior foi mantido, foi pintado de azul escuro. Em ambos alçados, os caixilhos foram substituídos por caixilhos de alumínio, com vidro duplo e corte térmico. Estes elementos seguem um desenho simples, realçando os elementos de cantaria recuperados. As bandeiras pertencentes ao antigo desenho do alçado são mantidas, remetendo para desenho original. O isolamento do edifício é colocado pelo interior, através das lajes, paredes e tectos, sendo de seguida, revestidos por gesso cartonado. Para minimizar as intervenções relacionadas com as infra-estruturas, foi introduzida uma parede técnica que atravessa todos os pisos do edifício. O seu interior contém todas as infra-estruturas hidráulicas, condutas de exaustão e circuitos de electricidade. estrutura alçados isolamento
84 3 | Casos de Estudo fig. 64 | Localização do edifício em estudo [https://www.google.pt/maps/]
85 3 | Casos de Estudo 3.3 | Alojamento na Rua Dr. Alves da Veiga _ Análise do edifício pré-existente Esta intervenção, projectada pelo atelier Pedra Liquida, tem como base uma casa burguesa presente na Rua Dr. Alves da Veiga, número 186. Esta casa insere-se num lote, orientado a nascente-poente, com 7m de largura e 45m de profundidade, confinados por paredes e muros de meação. Na sua totalidade, o lote apresenta uma área de 321m2, sendo que a implantação do edificado representa 147m2 e o respectivo logradouro com 147m2 e 174m2 respectivamente. A casa, localizada na extremidade oeste do lote, tem 20,5m de profundidade e é constituída por quatro pisos, o que vai resultar numa área bruta de construção de 512,5m2. A cota do logradouro encontra-se a -1,72m em relação à cota da rua, sendo que este diferença é vencida pela cave sobrelevada. A casa analisada corresponde ao modelo de uma casa burguesa de meados do século XIX. A rua Dr. Alves da Veiga, que anteriormente chamavase Rua das Malmerendas109, foi traçada em 1822, contudo, o prolongamento da mesma, onde se insere a casa em estudo, data de 1858. De acordo com Francisco Barata Fernandes, a tipologia predominante nesta época era tipologia liberal, caracterizada por apenas se destinar a habitação. Contudo, neste período também eram construídas tipologias que apresentavam uma solução intermédia, entre a tipologia iluminista e a tipologia liberal. Esta solução, regra geral, encontrava-se presente na proximidade de zonas comerciais ou industriais, pelo que acreditase que casa em estudo era um edifício de carácter polifuncional do tipo duas portas e uma janela (consultar capitulo 2.2.3). Aquando do levantamento, não foi possível confirmar qual seria o uso desta segunda porta, no entanto, sabe-se que estabelecia uma ligação directa da rua com logradouro, através de um corredor. A casa em estudo estava inserida num conjunto de cinco casas, unidas por um friso contínuo no topo das construções, que apresentavam o mesmo padrão de azulejo na fachada, o que leva a crer que poderiam pertencer à mesma família, contudo encontravam-se situadas em lotes distintos. À excepção da casa em estudo, que apresentava uma solução intermédia, as restantes casas deste conjunto destinavam-se apenas a habitação. O alçado principal apresentava uma base compositiva tripartida, definida por três vão de desenvolvimento vertical com uma largura constante de 1,15m, organizados segundo em eixo de simetria, que coincide com o eixo central do plano da fachada. Os vãos que compunham o alçado principal apresentavam 109FREITAS, Eugénio Andrea da Cunha e - Toponímia Portuense. p.30. inserção urbana alçados fig. 65 | Alçado principal e posterior antes da intervenção. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida]
86 3 | Casos de Estudo 0 31 5 construído demolido cobertura 2º piso 1º piso rés-do-chão cave fig. 66 | Corredor que estabelece a ligação da rua ao logradouro e compartimento adjacente ao mesmo. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 69 | Alçado principal e posterior de vermelhos/amarelos correspondente ao construído/demolido. [elaboração própria com base na informação cedidas pelo atelier Pedra Liquida] 0 31 5 construído demolido alçado principal (antes da intervenção) alçado posterior (antes da intervenção) alçado principal (depois da intervenção) alçado posterior (depois da intervenção) fig. 67 | Estrutura da marquise construida por cima da guarda original. Acrescento em madeira no último piso, recuado.[fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 68 | Nova estrutura da clarabóia da caixa de escadas central. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 70 | Planta e corte longitudinal de vermelhos/amarelos correspondente ao construído/demolido. [elaboração própria com base na informação cedidas pelo atelier Pedra Liquida]
87 3 | Casos de Estudo quatro formas distintas. No rés-do-chão existiam duas portas, junto às paredes de meação, que permitiam o acesso à habitação e ao logradouro, compostas por duas folhas com bandeira e respectivos postigos. Ao centro existia uma janela de peito de batente com bandeira, pertencente ao rés-do-chão sobrelevado e, por baixo, seguindo o seu alinhamento podíamos encontrar uma pequena janela pertencente à cave sobrelevada. No primeiro piso, existiam duas janelas de peito de batente com bandeira e ao centro uma janela de batente de sacada com bandeira, através da qual se acede à varanda. O alçado posterior foi alterado no segundo piso, relativamente ao alçado original, tendo a varanda sido adaptada para marquise110, no entanto, esta nova estrutura foi construída por cima da guarda de ferro pré-existente, confirmando a existência da guarda(fig. 66). Os vãos de desenvolvimento vertical que compunham este alçado apresentavam quatro soluções distintas. Na cave sobrelevada, existiam duas janelas de batente de sacada com bandeira e uma porta de uma folha em madeira, pertencente ao corredor de acesso à rua. No rés-do-chão sobrelevado, existiam três janelas de batente de sacada, através das quais se acede à varanda. No primeiro piso, existiam três janelas de guilhotina, contudo é possível verificar que as janelas de batente de sacada, que anteriormente permitiam o acesso à varanda mantiveram-se. No segundo piso, recuado, existiam pequenas janelas de guilhotina. A casa em estudo, aquando do levantamento, não se encontrava habitada, tornando-se difícil determinar com exactidão qual seria a matriz de organização interna. Tendo como referência a organização interna de edifícios idênticos, pertencentes ao período liberal, acredita-se que a organização interna da casa em estudo deveria ser semelhante. Deste modo, a cave tinha a função de arrumos, não dispondo de nenhum tipo de revestimento, o rés-do-chão dispunha de uma sala com vista para a rua, e na parte posterior, encontrava-se a sala de jantar e cozinha com dispensa, no primeiro e segundo pisos encontravam-se os quartos e respectivos roupeiros. A ligação entre pisos é estabelecida através da caixa de escadas central, iluminada por uma clarabóia, de forma cónica. No alçado posterior existia uma instalação sanitária, à qual se acedia através da varanda ou marquise. Neste caso de estudo, o logradouro dispunha de um poço e na extremidade nascente existia um anexo que se destinava à criação de gado. A partir do levantamento foi possível verificar que, à excepção dos compartimentos que estabeleciam contacto com a cobertura, o edifício encontrava-se em bom estado de conservação, sendo possível aproveitar quase 110Esta alteração era bastante comum nas últimas décadas do século XIX. organização interna estado de conservação fig. 71 | Alçado principal e posterior depois da intervenção. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida]
88 3 | Casos de Estudo fig. 72 | Instalação sanitária na antiga varanda, alçado posterior e varanda. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 73 | Instalação sanitária na antiga varanda, alçado posterior e varanda. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 74 | Instalação sanitária na antiga varanda, alçado posterior e varanda. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 75 | Instalação sanitária e quarto, ambos pertencentes ao alojamento local. Detalhe do teto em gesso. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] 0 31 5 quarto do alojamento local arrumos instalação sanitária cozinha, espaço de refeições e sala de estar closet receção quarto cobertura 2º piso 1º piso rés-do-chão cave fig. 76 | Plantas da organização programática [elaboração própria com base na informação cedida pelo atelier Pedra Liquida] fig. 77 | Cortes longitudinais representativos que demonstram como o alojamento local e a habitação unifamiliar se relacionam. [elaboração própria com base na informação cedida pelo atelier Pedra Liquida] habitação unifamiliar alojamento local
89 3 | Casos de Estudo todas as carpintarias. Os tectos eram simples, sem grande valor ao nível de ornamentos. _ Análise da intervenção O programa base deste projecto assentou na recuperação do edifício, alterando o seu uso monofuncional. O projecto pretende conjugar no mesmo edifício dois programas distintos: uma habitação unifamiliar para um casal e um alojamento local, que funcionem de modo independente e autónomo. Desta forma, a proposta divide o edifício em dois usos distintos: a habitação unifamiliar, que dispõem do uso exclusivo do jardim, desenvolve-se no cave e no rés-do-chão (lado nascente); e o alojamento local que se desenvolve no rés-do-chão(lado poente) e restantes pisos superiores. Tendo em conta que o proprietário destes dois usos distintos é o mesmo, um dos requisitos era que houvesse uma ligação directa entre os dois espaços, permitindo aceder ao alojamento local sem sair do edificado. Como resultado desta proposta, a organização interna difere nos diferentes pisos. Na cave, encontra-se o espaço social da casa, a nascente, voltado para o jardim, encontra-se a sala de estar relacionada com a cozinha, enquanto a poente se encontra a dispensa e a garrafeira associadas à cozinha, e uma instalação sanitária de serviço. O acesso ao primeiro piso é feito através das escadas pertencentes à sala de estar. No rés-do-chão, pertencente à habitação, existe um corredor de distribuição que permite a ligação ao quarto do casal ou ao alojamento local. O quarto, com vista para o jardim, dispõem de um closet e de duas instalações sanitárias, uma no interior do edifício e outra no espaço correspondente à antiga varanda. No rés-do-chão, pertencente ao alojamento local, existe uma sala de convívio e recepção com vista para a rua, e a caixa de escadas central, iluminada por uma clarabóia, através da qual se acede aos quartos. No primeiro e segundo pisos, existem cinco quartos, três no primeiro e dois no segundo, que dispõem de espaço para confecção de pequenas refeições e instalação sanitária. No segundo piso, para ganhar mais área nos quartos, foram feitos acrescentos. No compartimento a nascente, prolongou-se o quarto usufruindo do espaço correspondente às águas furtadas e no compartimento a poente, voltado para a rua, aumentou-se o pé-direito, e converteu-se o espaço correspondente à cobertura em telhado. Ainda neste piso, o compartimento que se encontra em frente às escadas, destina-se a áreas técnicas e arrumos. Tendo em conta que os tectos do edifício pré-existente eram simples e sem grandes ornamentos, os arquitectos inspiraram-se no desenho dos cubos perspectivados, presente nos antigos mosaicos hidráulicos e fizeram um molde programa proposta organização interna
96 3 | Casos de Estudo 3º piso - águas furtadas 2º piso 1º piso piso térreo cobertura fig. 84 | Planta e cortes de vermelhos/amarelos correspondente ao construído/demolido. [elaboração própria com base na informação cedidas pelo atelier Pedra Liquida] 0 31 5 construído demolido fig. 83 | Alçado principal e posterior de vermelhos/amaralos correspondente ao contruído/demolido. [elaboração própria com base na informação cedidas pelo atelier Pedra Liquida] 0 31 5 construído demolido fig. 82 | Piso térreo, primeiro piso e último piso - fotos do levantamento. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida]
97 3 | Casos de Estudo O alçado posterior dispunha de marquises no espaço correspondente às varandas. Esta alteração, comum no século XIX, era caracterizada pela substituição da guarda da varanda de ferro, por uma parede com estrutura de madeira, As paredes da marquise eram construídas através de uma estrutura semelhante às paredes das fachadas de tabique112 e revestidas pelo exterior com uma chapa ondulada e onde assentavam janelas de guilhotina com bandeira. Deste modo, podíamos encontrar quatro soluções distintas de vãos na composição do alçado. No piso térreo, existiam três janelas de batente de sacada com bandeira, no segundo e terceiro piso, existiam três janelas guilhotina e no terceiro piso, recuado em relação à fachada, existiam duas janelas de guilhotina. Os três primeiros pisos, dispunham de instalações sanitárias, caracterizadas por pequenas janelas em arco ogival. Aquando do levantamento, o edifício não se encontrava habitado, pelo que é difícil determinar com exactidão qual seria a sua matriz de organização interna. No entanto, eram perceptíveis as alterações ao modelo original. No piso térreo, o espaço destinado à oficina havia sido aumentado, apropriando-se da área destinada ao logradouro, e havia sido construída uma mezanine por cima das duas portas de entrada, que se destinava a um pequeno escritório. A iluminação do escritório era estabelecida através das bandeiras pertencentes às portas de entrada na oficina, permitindo a entrada de luz natural. Com a elevada imigração para o centro do Porto, os pisos superiores, destinados à habitação unifamiliar, foram adaptados para seis apartamentos, dois por piso, transformando o edifício de habitação unifamiliar num edifício de habitação plurifamiliar, onde as pessoas viviam em situações precárias, algumas sem condições de higiene. O levantamento permitiu também verificar que o edifício se encontrava em bom estado de conservação, permitindo o reaproveitamento da estrutura, à excepção da cobertura que teve de ser maioritariamente refeita, devido às infiltrações. Os pisos destinados à habitação apresentavam tectos bastante ornamentados em estuque, que juntamente com as carpintarias foram recuperados. 112TEIXEIRA, Joaquim - Descrição do sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX. p.143. organização interna estado de conservação fig. 85 | Alçado principal e posterior após a intervenção. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida]
98 3 | Casos de Estudo 2º piso 1º piso 5 0 31 quarto do alojamento local arrumos instalação sanitária sala de estar escritório fig. 89 | Plantas da organização programática [elaboração própria com base na informação cedida pelo atelier Pedra Liquida] piso térreo 3º piso - águas furtadas cobertura 0 31 quarto do alojamento local arrumos instalação sanitária sala de estar escritório fig. 88 | Plantas da organização programática [elaboração própria com base na informação cedida pelo atelier Pedra Liquida] 5 fig. 90 | Quarto tipo do edifício em estudo. [http://www.tripadvisor.com.br/] fig. 86 | Espaço social do alojamento local que, em ambos os edifícios, foi intervencionado pelo atelier Pedra Liquida. [http://www.tripadvisor.com.br/] fig. 87 | Alçado principal e posterior, após a intervenção. [elaboração própria com base na informação cedida pelo atelier Pedra Liquida] 0 31 5 alçado principal alçado posterior
99 3 | Casos de Estudo _ Análise da intervenção O programa base deste projecto assentou na recuperação do edifício, alterando o seu uso polifuncional para monofuncional. O edifício em estudo, foi adquirido pelo proprietário do edifício adjacente, que pretendia expandir o seu negócio, através da materialização da continuidade entre os dois edifícios. No entanto, o proprietário pretende que os usos sejam diferentes nos dois edifícios. Desta forma, pretende que neste novo edifício, disponha de quartos amplos com: instalação sanitária, espaço de vestir, espaço de dormir/lazer, espaço destinado a confecção de pequenas refeições. De modo a facilitar o acesso entre os quatro pisos, um dos requisitos foi a instalação de um elevador. A proposta de intervenção surge com a premissa de salvaguardar os elementos de valor histórico e patrimonial presentes no edifício pré-existente. No sentido de adaptar a proposta ao novo programa, foram definidas seis suites, com áreas compreendidas entre 35 e 50 m2 e foi implementado um elevador com a finalidade de servir os dois edifícios, através da abertura de um vão na parede de meação correspondente ao corredor de distribuição. Deste modo, os dois edifícios funcionarão como um só, interligados em todos os pisos, inclusive no piso térreo, através do espaço destinado à recepção. Os alçados sofreram um processo de limpeza da pedra, e foram pintados da mesma cor do edifício adjacente. O alçado posterior foi remetido à imagem do edifício adjacente, através da demolição das marquises e introdução de guardas varanda, que possivelmente faziam parte do edifício original. Através desta intervenção, foi estabelecido uma uniformidade na composição dos alçados, da casa em estudo e do edifício adjacente. Tendo como referência a organização polifuncional do edifício préexistente, a organização interna sofreu um processo de adaptação. No piso térreo, face à rua, encontra-se uma sala de estar para os hóspedes, através da qual se estabelece o acesso aos quartos. Ainda neste piso, podemos encontrar um escritório destinado à administração e uma suite com acesso exclusivo ao logradouro. No primeiro e segundo pisos, existem quatro suites, duas por piso, uma a nascente e uma outra a poente. No terceiro piso, existe um pequeno escritório/arrumo a nascente e uma suite a poente. As suites desenvolvem-se segundo o conceito de open space, que proporciona quartos mais amplos e com mais iluminação. As instalações sanitárias, materializadas por um volume de forma irregular apresentam um papel determinante na organização espacial do quarto separando os espaços: de lazer e dormir, de confecção de pequenas refeições e de vestir. programa proposta organização interna
100 3 | Casos de Estudo fig. 91 | Estado de conservação da cobertura e consequentemente o último piso. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 92 | Fotos das demolições. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 93 | Estrutura das instalações sanitárias. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida] fig. 94 | Fachada posterior, após a demolição do muro de meação que separava os dois edifícios. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida]
101 3 | Casos de Estudo O volume das instalações sanitária é definido através de uma estrutura em gesso cartonado, e revestido com cortiça. Este revestimento tem a função de absorver o som, melhorando a acústica do quarto, e reforçar a imponência deste elemento na organização do quarto. Este volume, de forma irregular, apresenta uma base rectangular que a partir de 2,40m de altura afunila de modo a não interferir na leitura dos gessos ornamentados. Este elemento repete-se em todos os quartos, funcionando como uma parede técnica por onde passam infra-estruturas. A escolha de uma estrutura metálica revestida a placas de gesso cartonado, está directamente relacionada com a preservação do património, optando por uma solução reversível e pouco interventiva. No sentido de adaptar o edifício às novas exigências programáticas, houve a necessidade de demolir algumas paredes, de modo a tornar os quartos mais amplos. No entanto, manteve-se uma pequena parte das paredes de tabique, de modo a deixar vestígios de como era a organização interna do edifício préexistente, realçando os tectos ornamentados. A estrutura do edifício encontrava-se em bom estado, tendo-se mantido a laje do primeiro, segundo e terceiro pisos. No piso térreo foi demolida e construída uma nova laje, fruto da necessidade de implementar as novas infra-estruturas. A estrutura da cobertura encontrava-se danificada devido a infiltrações, pelo que foi substituída por uma nova estrutura de madeira. Esta intervenção teve em conta as novas exigências relativamente à acústica, conforto térmico e eficiência energética. Nas lajes pré-existentes, de madeira, foi introduzida celulose projectada no seu interior, de forma a resolver os problemas acústicos e térmicos entre pisos. Nas novas paredes interiores de gesso cartonado, foi introduzida lã de rocha no seu interior, para reduzir a propagação sonora. As caixilharias pré-existentes foram substituídas por caixilharias novas de madeira com corte térmico, tentando reproduzir fielmente o caixilho original. No alçado principal, devido ao uso monofuncional do edifício na actualidade, optou-se por manter apenas porta de entrada pré-existente, que permitia o acesso à habitação. As duas portas que permitiam o acesso à oficina foram substituídas por janelas definidas por um novo caixilho fixo, de forma a manter uma leitura contínua relativamente ao alçado do edifício adjacente. No que diz respeito às carpintarias, as portas, rodapés, e soalhos foram mantidos e replicados sempre que necessário. Os restantes revestimentos foram escolhidos de acordo com os materiais utilizados na época, dando especial destaque ao mosaico hidráulico. isolamento
102 3 | Casos de Estudo fig. 95 | Localização do edifício em estudo [https://www.google.pt/maps/]
103 3 | Casos de Estudo 3.5 | Casa Unifamiliar na Rua Duque de Saldanha _ Análise do edifício pré-existente Esta intervenção projectada pelo atelier Lousinha Arquitectos, tem como base uma casa burguesa presente na Rua Duque de Saldanha, número 538. Esta casa insere-se num lote orientado a nascente-poente, com 6,3m de largura e 17,4m de profundidade, confinado por paredes e muros de meação. Na sua totalidade, o lote apresenta uma área de 109m2, sendo que a implantação representa 84 m2 e o respectivo logradouro 25m2. A casa, de 13,3m profundidade, encontra-se localizada na extremidade oeste do lote e era constituída por dois pisos, o que resultava numa área bruta de construção de 166m2. A cota do logradouro encontrava-se a -2,71m em relação à cota da rua, sendo que este diferença é vencida pela cave sobrelevada. A casa analisada correspondia ao modelo de uma casa burguesa de meados do século XIX. Tendo como referência o estudo de Francisco Barata Fernandes, a tipologia predominante da época era a monofuncional, como se pode verificar pelo edifício em estudo. O edifício, de carácter exclusivamente habitacional, situa-se numa artéria resultante da expropriação e loteamento da quinta do Reimão (ou Cirne)113. Esta casa pertence ao conjunto de três casas, que se encontram unidas por um friso contínuo no topo das construções e apresentam a mesma composição de alçado. As casas adjacentes, na fachada, apresentam um padrão de azulejo que difere da casa em estudo, neste sentido, deduz-se que outrora estas casas tenham sido iguais e que posteriormente, na casa em estudo, foi substituído o revestimento por azulejo bizelado de forma rectangular, disposto na vertical. O alçado principal apresenta uma base compositiva tripartida, sob a forma de três soluções distintas. No rés-do-chão, correspondente ao piso de entrada, podemos encontrar, junto a uma parede de meação, uma porta composta por duas folhas com bandeira e respectivos postigos. No rés-do-chão sobrelevado, encontram-se duas janelas de peito de batente com bandeira, de desenvolvimento vertical, e por baixo das mesmas, na orientação da soleira da porta de entrada, encontram-se duas pequenas janelas de batente, que pertencem à cave sobrelevada. O alçado posterior estava completamente adulterado face ao modelo original, no entanto as alterações eram facilmente identificáveis. Na cave foi introduzida uma marquise e o foi acrescentado um anexo, ao qual se acedia 113FREITAS, Eugénio Andrea da Cunha e - Toponímia Portuense. p.308. inserção urbana alçados fig. 96 | Alçado principal e posterior antes da intervenção. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida]
104 3 | Casos de Estudo fig. 101 | Planta, cortes e alçados de vermelhos/amarelos correspondente ao construído/demolido. [elaboração própria com base na informação cedidas pelo atelier Lousinha Arquitectos] 0 31 5 construído demolido fig. 97 | fotos do levantamento das escadas de entrada e escadas centrais. [fotos cedidas pelo atelier Lousinha Arquitectos] fig. 99 | fotos das demolições e da laje de madeira sobrelevada em relação ao piso pré-existente. [fotos cedidas pelo atelier Lousinha Arquitectos] fig. 98 | fotos do levantamento. [fotos cedidas pelo atelier Lousinha Arquitectos] cobertura 1º piso - águas furtadas rés-do-chão cave alçado principal alçado posterior fig. 100 | fotos de obra. [fotos cedidas pelo atelier Lousinha Arquitectos] fig. 102 | nova estrutura de madeira. [elaboração própria com base na informação cedidas pelo atelier Lousinha Arquitectos]
105 3 | Casos de Estudo através do compartimento das instalações sanitárias. No piso superior, tendo em conta o desenho da fachada e a época em que a casa foi construída, é possível que a marquise pertença à casa na sua origem. No entanto, as paredes de ambas marquises eram em alvenaria de tijolo, o que reforça a ideia de que no piso superior esta tenha sido acrescentada posteriormente. Nenhum dos caixilhos presentes no alçado posterior fazia parte da casa original, podendo-se encontrar desde caixilhos fixos de madeira no piso térreo a caixilhos de alumínio do tipo guilhotina no piso superior. Através do levantamento e do modelo original destas casas, estudado por Francisco Barata Fernandes, foi possível verificar que a organização interior estava bastante alterada. A casa unifamiliar, estava dividida em dois pisos, aos quais se podia aceder de forma independente. No patamar intermédio da escada central foi construída uma instalação sanitária completa. De acordo com a informação disponibilizada por antigos proprietários, na cave, encontravam-se dois quartos, cozinha e lavandaria, localizada no anexo, e no primeiro piso existia um quarto e a sala. A casa encontrava-se em mau estado de conservação, nomeadamente a estrutura das lajes e cobertura. Como consequência das alterações que foram feitas ao longo dos anos, verificava-se que alguns pavimentos tinham sido substituídos por pavimento flutuante, e mesmo o próprio soalho de madeira, tinha sido pintado de branco, o que pode ter contribuído para a sua degradação. _ Análise da intervenção O programa deste projecto visa a reabilitação de uma casa burguesa, mantendo o seu uso monofuncional, destinado apenas a habitação. Como resultado do mau estado de conservação do edificado, optou-se por demolir o interior da casa. Esta atitude permitiu acrescentar um piso nas águas furtadas, aumentando a área útil do edifício pré-existente. Este acrescento foi possível através da diminuição do pé direito no rés-do-chão, que por consequência, aumentou a altura de pé direito das águas furtadas. No sentido de uniformizar as alturas de pé-direito em todos os pisos, subiu-se a cota da laje da cave em 50cm relativamente ao edifício pré-existente. Esta solução cria um sistema de ventilação, que permite uma melhor conservação da madeira. De acordo com o programa solicitado houve a necessidade de adaptar a casa às exigência contemporâneas. Na cave encontra-se o espaço social da casa organização interna estado de conservação programa proposta organização interna fig. 103 | Alçado principal e posterior depois da intervenção. [fotos cedidas pelo atelier Pedra Liquida]
112 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo Casa - Atelier Rua do Almada Casa Unifamiliar Rua da Maternidade Alojamento Rua Dr. Alves da Veiga Alojamento Rua Duque de Loulé Casa Unifamiliar Rua Duque de Saldanha Uso Antes da intervenção habitação unifamiliar habitação unifamiliar habitação unifamiliar habitação plurifamiliar + comércio habitação unifamiliar Após a intervenção habitação unifamiliar + atelier habitação unifamiliar habitação unifamiliar + alojamento alojamento habitação unifamiliar Organização interna (após a intervenção) piso térreo: carácter público (atelier + oficina) piso 1: carácter social (sala, cozinha) piso 2 e 3: carácter privado (quartos) piso térreo: carácter social (sala, cozinha e garagem) piso 1: carácter privado (quartos) piso 2: carácter privado (quarto e escritório ) piso térreo: carácter social (habitação: sala, cozinha) piso 1: carácter público /privado (recepção do alojamento e habitação) piso 2: carácter privado (quartos alojamento) piso térreo: carácter social (sala, cozinha) piso 1: carácter privado (quartos do alojamento) piso 2 e 3: carácter privado (quartos do alojamento) piso térreo: carácter social (sala, cozinha) piso 1: carácter privado (quartos) piso 2: carácter privado (espaço polivalente) Grau de intervenção (substituição dos elementos pré-existentes) pouco interventiva - o sistema construtivo pré-existente foi mantido; - a organização interna actual foi adaptada à pré-existente. muito interventiva - o interior foi todo demolido, mantendo-se apenas as paredes de meação e fachadas; - nova estrutura em betão armado com lajes aligeiradas. pouco interventiva - o sistema construtivo pré-existente foi mantido; - algumas paredes interiores foram demolidas, no entanto, o método de compartimentação manteve-se. pouco interventiva -o sistema construtivo pré-existente foi mantido; - a sua maioria das paredes interiores foram demolidas procurando obter-se espaços mais amplos. muito interventiva - o interior foi todo demolido, mantendo-se apenas as paredes de meação e fachadas; - novo sistema construtivo próximo do original, com vigas de madeira. Elementos mantidos ou reinterpretados (conferem identidade ao edifício actual e estabelecem uma relação com a préexistência ou com elementos arquitectónicos da época em que o edifício foi construído ) - a fachada principal foi mantida; - as varandas contemporâneas reinterpretam o volume de betão que foi demolido na fachada posterior; - as alcovas deram lugar às instalações sanitárias; - os tectos trabalhados com ornamentos em gesso foram mantidos; - as clarabóia original; - as carpintarias. - a fachada posterior foi remetida ao modelo original, com a reinserção de guardas; - a organização interna reinterpreta a organização pré-existente; - os balaústres pré-existentes foram integrados na nova caixa de escadas; - os novos caixilhos de alumínio incluem bandeiras. - a fachada principal foi mantida; - a fachada posterior foi remetida ao modelo original, salientando as guardas de ferro que se encontravam ocultas; - a organização interna pré-existente foi reinterpretada; - o desenho do cubo presente nos mosaicos hidráulicos da época, foi reinterpretado para outros fins; - as carpintarias. - a fachada principal foi mantida; - a fachada posterior foi remetida, ao que se pensa ser o modelo original, com a introdução de guardas na varandas iguais às do edifício adjacente; - As marcações da paredes préexistentes foram mantidas em forma de “sancas”; - foram mantidos os tectos de gesso; - foi mantida a clarabóia original - a fachada principal foi mantida; - a fachada posterior foi remetida, ao que se pensa ser o modelo original, com a introdução de guardas na varandas iguais às do edifício adjacente; - a organização interna pré-existente foi reinterpretada; - a iluminação das instalações sanitárias reinterpreta a iluminação das alcovas. Alterações da pré-existência resultantes das exigências contemporâneas - a cozinha e o espaço de refeições surgem interligados em open space; - as instalações sanitárias completas e a lavandaria são introduzidas; - as caixilharias são substituídas por caixilharias de madeira com vidro duplo; - a fachada posterior é revestida com isolamento pelo exterior; - os rodapés são redesenhados e readaptados de forma a incluir as infra-estruturas eléctricas. - a cozinha e o espaço social estão relacionados em open space; - as instalações sanitárias completas são introduzidas; - as caixilharias foram substituídas por caixilharias de alumínio com vidro duplo e corte térmico; - os compartimentos tem mais iluminação natural; - o isolamentoé incluído pelo interior; - a garagem é incluída. - a cozinha e espaço de refeições estão interligados em open space - as instalações sanitárias completas são introduzidas; - as caixilharias são substituídas por caixilharias de madeira com vidro duplo; - o isolamento nas paredes interiores é incluído - os quartos incluem espaço de lazer, refeições e dormir interligados em open space, resultando numa maior iluminação do seu no interior - as instalações sanitárias completas são introduzidas; - as caixilharias são substituídas por caixilharias de madeira com vidro duplo; - o isolamento é incluído nas lajes. - o elevador é incluído - a cozinha e os espaço de refeições interligados em open space - as instalações sanitárias completas são introduzidas; - as caixilharias são substituídas por caixilharias de madeira com vidro duplo; - o isolamento nas paredes interiores é incluído Tabela Síntese dos Casos de Estudo
113 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo Através da análise dos cinco casos de estudo anteriormente descritos, foi possível verificar algumas semelhanças nas estratégias de intervenção adoptadas. Os edifícios analisados sofreram várias intervenções desde a sua construção, no século XVIII e XIX, até aos dias de hoje. Presumivelmente, todos as casas estudadas, com excepção da casa na Rua Duque de Saldanha, foram construídas para uma utilização polifuncional, conjugando o carácter habitacional com o comércio e, posteriormente, a evolução dos costumes burgueses que levou à separação entre o espaço de trabalho e a habitação, terá eliminado o comércio do piso térreo. As intervenções estudadas são bastante recentes e, em alguns casos, o uso destes edifícios é alterado novamente, como se pode observar nos projectos da Rua do Almada, da Rua Dr Alves da Veiga e da Rua Duque de Loulé, que alteraram o seu uso, total ou parcialmente, para atelier ou alojamento local. As alterações do uso não obrigam, por si só, a uma intervenção mais profunda, como pode ser comprovado pelos casos estudados, em que as intervenções que alteraram o seu uso são as intervenções menos invasivas. A introdução do atelier ocorreu no projecto da Rua do Almada. Neste caso, a essência da origem da casa burguesa mantêm-se, uma vez que o atelier não deixa de ser o local do trabalho/actividade profissional do proprietário da habitação. Enquanto que, nos projectos da Rua Dr Alves da Veiga e da Rua Duque de Loulé, o alojamento local, que surge como resposta ao crescimento exponencial do turismo no centro da cidade do Porto, representa uma alteração mais significativa da organização original da casa burguesa. Nos quatro projectos de habitação unifamiliar, o espaço social encontrase relacionado com o logradouro. Nos projectos da Rua da Maternidade, da Rua Dr. Alves da Veiga e da Rua Duque de Saldanha estes dois espaços encontramse, aproximadamente, à mesma cota, estabelecendo uma relação visual e espacial directa, entre o interior e o exterior. Na Rua do Almada o logradouro encontra-se dividido em dois patamares: o pátio à cota do piso térreo e o jardim 4,87m acima do pátio. Assim, a relação estabelecida entre espaço social, localizado no primeiro piso, e o jardim é apenas visual, não sendo possível o acesso directo. Na Rua Duque de Loulé, tendo em conta as dimensões reduzidas do espaço destinado ao logradouro, este apresenta-se como um espaço destinado ao lazer, dispondo de pequenos canteiros e não de um jardim amplo como os restantes casos de estudo. usos
114 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo fig. 111 | Alçados principais dos edifícios em estudo antes e depois da intervenção. [elaboração própria com base na informação cedidas pelos atelieres] 0 31 5 fig. 112 | Alçados posteriores dos edifícios em estudo antes e depois da intervenção. [elaboração própria com base na informação cedidas pelos atelieres] 0 31 5 Antes da intervenção Depois da intervenção Antes da intervenção Depois da intervenção
115 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo Os casos analisados podem ser agrupados, de acordo com o grau de intervenção, em dois grupos: o primeiro grupo refere-se às intervenções mais profundas, em que apenas, as fachadas e as paredes de meação são mantidas; e segundo grupo, refere-se a intervenções menos profundas, em que além da estrutura, também se mantiveram parte das paredes interiores, entre outros elementos arquitectónicos que conferem identidade ao edifício. Assim, no primeiro grupo, enquadram-se os projecto da Rua da Maternidade e Rua Duque de Saldanha e, no segundo grupo, enquadram-se os projectos da Rua do Almada, Rua Dr Alves da Veiga e Rua Duque de Loulé. No primeiro grupo, a estrutura do edificado pré-existente encontravase em mau estado de conservação, justificando, assim, a implementação de um novo sistema construtivo. No projecto da Rua da Maternidade optou-se por uma nova estrutura em betão armado, com lajes aligeiradas, enquanto no projecto da Rua Duque de Saldanha optou-se por um sistema construtivo mais próximo do original, com vigamento de madeira. No segundo grupo, o edificado pré-existente encontrava-se em melhor estado de conservação, permitindo uma intervenção menos invasiva. Nestes projectos, a estrutura pré-existente, definida por paredes de meação e vigamento de madeira, é mantida, sendo reforçada e substituída, sempre que necessário. Os reforços e substituições estão directamente relacionados com aumento de cargas, resultantes da alteração da organização interna, e com o facto de algumas vigas estarem deterioradas. Em geral, os reforços consistem na introdução de vigas adicionais, paralelas às pré-existentes. Em todos os projectos analisados, a cobertura era o elemento arquitectónico que se encontrava em pior estado de conservação, devido à degradação provocada por infiltrações. Estas infiltrações, merecem especial atenção, pois ao alastraremse pelo interior do edifício terão um forte impacto na sua degradação. Como tal, nos edifícios em que se manteve a estrutura, as intervenções iniciaram-se pela cobertura, de modo a preservar a pré-existência. Através da análise das intervenções é possível verificar que em todos os projectos estudados, independentemente do grau de intervenção, existiram elementos pertencentes ao edifício pré-existente que foram valorizados, preservados, reabilitados, recuperados e, em alguns casos, replicados. Foram ainda, identificados alguns elementos, que estabelecem uma relação com materiais e metodologias adoptadas na época em que estes edifícios foram construídos, que podem ou não pertencer ao edifício pré-existente. No entanto, tendo em conta o seu elevado valor identitário, serviram como referência à reinterpretação da casa tipo de intervenção elementos valorizados na casa burguesa
116 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo burguesa do Porto, numa proposta contemporânea, que se materializa em pequenos pormenores. As fachadas da casa burguesa são a sua expressão perante a cidade e, desta forma verifica-se, que na maioria das intervenções, mesmo quando são mais profundas, mantêm-se as fachadas ou são reconvertidas ao seu modelo original. Nos projectos da Rua do Almada, da Rua Dr. Alves da Veiga, da Rua Duque de Loulé e da Rua Duque de Saldanha, o alçado principal foi mantido, sofrendo um processo de limpeza das cantarias e reposição de azulejos em falta, recorrendo sempre que necessário ao banco de materiais da câmara municipal do Porto. À excepção de todos os outros projectos em estudo, o projecto da Rua da Maternidade modifica a imagem do alçado principal ao introduzir a garagem e ao substituir o revestimento de azulejo por uma solução em reboco. Apesar desta atitude invasiva, houve a preocupação em manter as cantarias de pedra pré-existentes, em torno do portão de garagem, estabelecendo referência às janelas ou portas que outrora compunham a fachada. O alçado posterior, em todos os casos de estudo, encontrava-se adulterado face ao modelo original, como consequência das alterações realizadas no início do século XIX. Neste período era comum transformar as varandas de acesso ao volume das instalações sanitárias em marquises. À excepção do projecto da Rua do Almada, todos os outros demoliram as marquises e reavivaram as varandas, tendo como base o modelo original. Desta forma, as paredes das marquises foram substituídas por guardas em ferro ou de aço, como acontece no projecto da Rua da Maternidade. No projecto da Rua Duque de Saldanha, recorreu-se ao banco de materiais da câmara municipal do Porto, onde se podem encontrar guardas originais de varandas. No projecto da Rua Alves da Veiga, a parede da marquise foi demolida. No entanto, ao contrario do que acontece nos outros projectos, a parede da marquise não foi substituída por uma guarda de varanda, neste caso, foi utilizada “rede metálica” aplicada no primeiro e segundo pisos, que tem como base o cubo perspectivado presente nos mosaicos hidráulicos da época. A imagem do cubo perspectivado serviu como referência para o desenvolvimento de diversos elementos, dispostos em vários compartimentos do edifício: no alçado posterior, presente na rede metálica; nos pavimento das instalações sanitárias e varanda, através do mosaico hidráulico; e em alguns tectos do edifício, valorizando a técnica de gesso utilizada antigamente. No projecto da Rua do Almada, o alçado posterior estava completamente alterado relativamente ao modelo original, uma vez que, no século XIX foi alçado principal alçado posterior
117 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo construído um volume em betão e alvenaria de tijolo na continuação do volume das instalações sanitárias, de forma a incluir banheira, tornado-a mais completa. Aquando da intervenção, este volume encontrava-se em mau estado de conservação tendo sido demolido. Contudo, de forma a que a memória deste volume fosse mantida, o volume foi substituído por varandas com a mesma dimensão, apoiadas numa estrutura metálica e revestidas com deck de madeira. As caixilharias das casas burguesas fazem parte da sua identidade histórica, tanto pelos materiais utilizados como pela sua composição, como tal, nos casos de estudo existiu a preocupação em manter as caixilharias de acordo com o modelo pré-existente. No entanto, as exigências térmicas e acústicas, obrigam a que as caixilharias pré-existentes de madeira com vidro simples fossem, em muitos casos, substituídas por novas caixilharias com vidro duplo. No alçado principal dos projectos estudados verifica-se que existe a preocupação em reproduzir o desenho dos caixilhos originais o mais fiel possível. Nos projectos da Rua do Almada, da Rua Dr. Alves da Veiga, da Rua Duque de Loulé e da Rua Duque de Saldanha, manteve-se o desenho dos caixilhos préexistentes nas novas caixilharias, no entanto, no projecto da Rua do Almada, manteve-se os caixilhos originais, no primeiro piso, tendo em conta que a adaptação para vidro duplo iria alterar por completo o desenho do caixilho. Neste caso, de forma a responder às novas exigências térmicas e acústicas, optou-se por colocar um novo caixilho pelo interior, paralelo ao pré-existente. Também no projecto da Rua Duque de Loulé, devido a alteração do uso, optou-se por substituir as duas portas de acesso ao logradouro, por duas janelas fixas, iguais às janelas do edifício adjacente, que dispõem do mesmo programa. No caso da Rua da Maternidade, aquando da intervenção, os caixilhos pré-existentes encontravam-se alterados face ao modelo original. Os caixilhos originais haviam sido substituídos por outros de alumínio. Este facto, juntamente com a introdução de garagem, levou à alteração por completo do alçado principal, sendo que, os únicos elementos que se mantiveram foram as cantarias. Mesmo assim, na intervenção efectuada, houve o cuidado de incluir nas novas janela de desenho simples, as bandeiras, características do edifício pré-existente. Relativamente ao alçado posterior, podemos verificar que nenhum dos projectos manteve na integra os caixilhos, de acordo com os modelos préexistentes. Os únicos projectos que mantiveram a composição dos caixilhos préexistentes, parcialmente, foram os projectos da Rua Dr. Alves da Veiga e Duque de Loulé que reproduziram os caixilhos pré-existentes, correspondentes ao primeiro, segundo e terceiro pisos no projecto da Rua Duque de Loulé. Nestes caixilhos
118 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo dois casos, no piso térreo, existiam portas em vez de janelas, pelo que o desenho teve de ser adaptado. No projecto da Rua do Almada, o alçado posterior encontrava-se adulterado. Tendo sido necessário demolir o volume de betão das instalações sanitárias, optou-se por desenhar uma nova composição do alçado, tendo como referência o tamanho e o alinhamento das portas de acesso à marquise. Os novos caixilhos de madeira são do tipo guilhotina e apresentam um novo desenho. Nos projectos em estudo verifica-se que a organização interior foi adaptada de acordo com os programas propostos. No projecto da Rua do Almada, tendo em conta o seu carácter pouco interventivo, foram mantidas praticamente todas as paredes pré-existentes em tabique, tendo sido apenas demolidas duas paredes, correspondentes à cozinha e ao quarto no último piso. No caso da Rua Dr. Alves da Veiga, foram demolidas algumas paredes, de forma a adaptar ao novo programa, contudo, o modo como o edifício actual se encontra compartimentado é semelhante ao edifício pré-existente. Os restantes projectos os restantes projectos apresentam atitude mais interventiva, no entanto, a nova organização interna estabelece uma relação com o edifício pré-existente. No projecto da Rua Duque de Loulé, apenas são mantidas as paredes perimetrais da caixa de escadas central, todavia, é mantida a marcação correspondente às paredes pré-existentes, demonstrando a organização interna original. Os projectos da Rua da Maternidade e Rua Duque de Saldanha, apesar de serem os que apresentam intervenções mais profundas, mantendo apenas as paredes de meação e das fachadas, têm em consideração a organização préexistente na nova proposta. No projecto da Rua Duque de Saldanha, são mantidos os compartimentos, correspondentes às antigas alcovas, assim como, o seu método de iluminação a partir da clarabóia da caixa de escadas, contudo em vez de uma pequena janela, foi adoptada uma divisória translucida em policarbonato. No projecto da Rua da Maternidade, a organização interior é reinterpretada, tendo como base a organização pré-existentes Uma das problemáticas da reabilitação da casa burguesa, considerando as exigências contemporâneas, é a falta de iluminação, resultante do excesso de compartimentação e do facto da casa só dispor de duas frentes. O projecto na Rua da Maternidade, aborda o tema da iluminação, de forma mais interventiva, redesenhando a caixa de escadas, de modo a obter mais luz em todos os pisos. A adaptação para open space, é outra solução que ajuda a resolver este problema, reduzindo a compartimentação dos pisos e tornando os espaços mais amplos e iluminados, como acontece no projecto na Rua Duque de Loulé, em que organização interna open space
119 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo se demoliu as paredes interiores dos quartos. Actualmente, nos edifícios de carácter habitacional, assiste-se a uma tendência para a cozinha, a sala de estar e a sala de jantar estarem directamente relacionadas, muitas vezes funcionando como um único compartimento, como acontece nos projectos da Rua da Maternidade, Rua Duque de Saldanha e Rua Dr. Alves da Veiga. Esta organização definida como open space, permite que as actividades associadas à cozinha, não sejam monótonas, mas sim vividas em família. No projecto da Rua do Almada, verifica-se também esta intenção, no entanto, visto que o espaço social desta casa está cingido ao primeiro piso, a sala de estar mantêm-se no compartimento pré-existente, voltada para a rua, encontrando-se separada do espaço de refeições. Outra problemática nas casas burguesas é a carência de instalações sanitárias completas, indispensáveis nos dias hoje. Nos edifícios pré-existentes, normalmente, as instalações sanitárias localizavam-se no alçado posterior, num volume de dimensões reduzidas, construído de raiz ou acrescentado posteriormente, dispondo apenas de uma sanita e de um lavatório. O projecto da Rua Duque de Saldanha é o único que dispunha de uma instalação sanitária completa, acrescentada posteriormente, e à qual se acedia pelo patamar da escadas centrais. De acordo com a análise dos casos de estudo, após as intervenções, estes pequenos compartimentos mantiveram-se, contudo apresentam na maioria dos casos, com usos diferentes, destinados normalmente a arrumos. De forma a adaptar os edifícios às novas necessidades contemporâneas, os projectos contemplam a implementação de novas instalações sanitárias completas. O projecto da Rua Dr. Alves da Veiga, mantém o conceito de instalação sanitária no alçado posterior, juntando à instalação sanitária pré-existente uma banheira e um lavatório, localizados na antiga varanda, que é fechada em marquise. Nos projectos menos invasivos, da Rua do Almada e Rua Duque de Loulé, verifica-se que houve uma preocupação acrescida em organizar as infra-estruturas técnicas de forma a não interferir com a pré-existência, optando-se por soluções menos interventivas. Desta forma, no projecto da Rua do Almada as instalações sanitárias, cozinha e lavandaria, encontram-se sobrepostas e interligadas através de uma parede técnica. No projecto da Rua Duque de Loulé, acresce a preocupação em não danificar os tectos, pelo que, se optou por uma solução menos invasiva através de uma estrutura leve em gesso cartonado, definindo assim um volume destinado à instalação sanitária. Este volume repete-se em todos os quartos, obrigando à implementação de duas paredes técnicas. instalações sanitárias
120 4 | Síntese e Análise dos Casos de Estudo No projecto da Rua da Maternidade e Duque de Saldanha, tendo em conta que são intervenções mais profundas, sujeitas a uma nova estrutura, as instalações sanitárias encontram-se mais dispersas. No projecto da Rua da Maternidade as infra-estruturas principais encontram-se centralizadas, junto à caixa de escadas, através de uma parede técnica, interligando a cozinha e instalações sanitárias do primeiro e segundo pisos. No primeiro piso, a instalação sanitária pré-existente localizada no alçado posterior é adaptada para duche, desta forma, os restantes elementos sanitários encontram-se noutro compartimento. No projecto da Rua Duque de Saldanha, as instalações sanitários encontram-se espalhadas por vários pontos da casa. A clarabóia é um dos elementos que caracteriza a casa burguesa do Porto servindo para iluminar a caixa de escadas central. Nos projectos da Rua do Almada e Rua Duque de Loulé mantiveram-se as clarabóias pré-existentes, ornamentadas em estuque, sofrendo apenas um processo de manutenção. No projecto da Rua Dr. Alves da Veiga, a clarabóia encontrava-se em mau estado de conservação, tendo sido substituída por uma nova, com base cónica desenvolvida numa estrutura de aço galvanizado revestido por placas gesso cartonado. Esta nova forma foi estudada de modo a obter a maior amplitude horária de iluminação. No projecto da Rua Duque de Saldanha, a clarabóia pré-existente encontrava-se de nível com o telhado, tendo sido substituídas por duas clarabóias novas, tipo velux, permitindo a ventilação através de um sistema automático. Nos projectos da Rua do Almada e Rua Duque de Saldanha, a clarabóia serve, não só para iluminar a caixa de escadas, como também para iluminar as instalações sanitárias localizadas no espaço correspondente às antigas alcovas. No projecto da Rua da Maternidade, a iluminação foi o ponto de partida para o novo projecto, deste modo, alterou-se por completo a clarabóia préexistente, assim como o desenho das caixa de escadas, de forma a permitir que a iluminação natural chegasse a todos os pisos. As carpintarias interiores, cujo desenho caracteriza o interior das casas burguesas, nomeadamente as portas, rodapés e soalhos de madeira, foram mantidas nos projectos da Rua do Almada, Rua Duque de Loulé e Rua Dr. Alves da Veiga, tendo sido reabilitados e replicados sempre que necessário. Nos projectos da Rua da Maternidade e Rua Duque de Saldanha, a substituição de todo o interior da casa levou à implementação de portas interiores pivotantes de MDF. Nestes dois casos os rodapés não estabelecem qualquer relação com o edifício pré-existente e os pavimentos são em parquet de madeira, sem qualquer semelhança com o original. clarabóia
121 4 | Síntese da Análise dos Casos de Estudo No projecto da Rua Duque de Loulé, tendo em conta que se trata de um alojamento local de quatro pisos, foi solicitada a implementação de um elevador. Tendo em conta que o edifício adjacente apresenta uma organização interna simétrica ao caso em estudo, é possível que o elevador possa vir a servir ambos os edifícios, através da demolição parcial da parede, correspondente ao corredor de distribuição. elevador
128 5 | Considerações Finais A introdução de instalações sanitárias completas que não se encontravam previstas nos edifícios originalmente construídos, originam a modificações significativas na organização da casa burguesa. Assim, de forma a reduzir o impacto das infra-estruturas resultantes da introdução destes compartimentos, deve existir a preocupação em tentar interligar estes compartimentos, como acontece no caso da Rua do Almada, em que apenas existe uma parede técnica, onde se localizam todas as infra-estruturas técnicas. Ainda nesta intervenção, pode verificar-se que os rodapés pré-existentes foram adaptados de forma a incluir a cablagem eléctrica, mantendo o seu desenho original. O isolamento térmico, também é um tema complexo nestas intervenções. A sua implementação, nestas casas pode ocorrer de diferentes formas, pelo interior, através de uma estrutura leve revestida com placas de gesso cartonado, pelo exterior através do sistema ETICS e/ou no interior das lajes através da introdução de celulose projectada . Contudo, a escolha das soluções a adoptar devem ter em consideração, os elementos de valor arquitectónico pré-existentes, ou seja, no exterior (azulejos e cantarias,) e no interior (tectos ornamentados em gesso.). Isto significa que, o isolamento térmico deve ser pensado de forma a não entrar em conflito com os elementos pré-existentes. A introdução de garagem e elevador representarem intervenções complexas e invasivas, no entanto, são exigências contemporâneas possíveis de se implementar, como podemos ver nos casos de estudo. Apesar de estas soluções serem tecnicamente possíveis, o seu impacto em edifícios de carácter patrimonial pode ser muito significativo. Para concluir, tendo em conta o valor patrimonial que estas casas representam para a cidade do Porto, é necessário que haja uma consciencialização por parte dos arquitectos e clientes, sobre o valor do património que deve ser preservado para o usufruto das gerações futuras. Levando a que os edifícios sejam, continuamente readaptados aos novos usos, mantendo a sua autenticidade.
129 5 | Considerações Finais
6 | Referência Bibliográficas
133 6 | Referências Bibliográficas 6 | Referências Bibliográficas Livros _A.A.V.V. -Casas do Porto (séculos XIV ao XVIII). Porto: A.H.C.M.P, Documentos e Memórias para a História do Porto, 1961 _AGUIAR, José; CABRITA, A. M. Reis; APPLETON, João - Guia de Apoio à Reabilitação de Edifícios Habitacionais, volume 1. Lisboa: LNEC, 2005 _ANTAS, António Azaredo - A Salubridade Habitacional no Pôrto (1929-1933). Lisboa: Imprensa Nacional, 1934 _APPLETON, João G. - Reabilitação de edifícios antigos: patologias e tecnologias de intervenção. Amadora: Edições Orion, 2003. _APPLETON, João G.; DOMINGOS, Isabel - Biografia de um Pombalino: Um caso de reabilitação na Baixa de Lisboa. Amadora: Edições Orion, 2009 _BERRANCE, Luis Eduardo - Evolução do Desenho das Fachadas das Habitações Almadinas 1774-1844. Porto: A.H.C.M.P, 1993 _CRUZ, Maria Antonieta - Os burgueses do Porto na segunda metade do século XIX. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1999. _FERRÃO, Bernardo José - Projecto de transformação urbana do Porto na época dos Almadas, 1758/1813. Porto: Faup publicações, 1985. _FERNANDES, Francisco Barata - Transformação e permanência na habitação portuense: as formas da casa na forma da cidade. Porto: Faup publicações 1999 _FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B., O Porto na Época dos Almadas. Arquitectura. Porto: Edições de Autor, 1990 _FREITAS, Eugénio Andrea da Cunha e - Toponímia Portuense. Porto: Contemporânea, 1999 _FREITAS, Vasco Peixoto de - Manual de Apoio ao Projecto de Reabilitação de Edifícios Antigos. Porto: Ordem dos Engenheiros da Região Norte, 2012 _LOZA, Rui Ramos - Porto Património Mundial III: CRUARB 25 anos de reabilitação urbana. Porto: Câmara Municipal do Porto, 1ªedição, 2000. _MANDROUX-FRANÇA, Marie-Thérèse - Quatro Fases da Urbanização do Porto no Século XVIII. Porto: Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, 2ªsérie, Vol.2, 1984
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136 6 | Referências Bibliográficas Actas de Congressos _ MOTA, Nélson - O espaço doméstico burguês do Porto no final do século XIX: fronteiras entre o público e privado: I Encontro CITCEM ( Família, Espaço e Património), Universidade do Minho, 2010. Porto: CITCEM Referências na Internet <https://www.google.pt/maps/> [consultado em 2015/06] < http://www.portovivosru.pt/pt/area-de-atuacao/enquadramento> [consultado em 2015/07] <http://www.tripadvisor.com.br/>[consultado em 2015/07]
137 6 | Referências Bibliográficas