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As formas pronominais EU/TU: valor genérico e distanciação

Duarte, Isabel Margarida,Marques, Maria Aldina

Abstract

Os modos de presença do locutor no discurso convocam estratégias variadas de discursivização de que decorre uma instabilidade enunciativa fundamental. Analisando um corpus de interações orais, estudaremos os valores generalizantes de "eu" e "tu", em coocorrência com "nós", "a gente", "a pessoa", "uma pessoa", "o pessoal", "as pessoas", sublinhando atensão enunciativa que resulta da conjunção da ocorrência da deixis pessoal, ancorada na permanência discursiva de um centro deíctico explícito, com uma perspetiva de distanciação do locutor relativamente ao seu dizer, no uso de enunciados generalizantes. O continuum entre valores deícticos dos pronomes e valores generalizantes permite um jogo entre inscrição e desinscrição enunciativa, útil para a apresentação de argumentos, mais ou menos assumidos pelo locutor, de acordo com o seu programa.

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69 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 As formas pronominais EU/TU – valor genérico e distanciação Isabel Margarida Duarte CLUP – Faculdade de Letras/Universidade do Porto1 Maria Aldina Marques CEHUM/ILCH – Universidade do Minho Resumo: Os modos de presença do locutor no discurso convocam estratégias variadas de discursivização de que decorre uma instabilidade enunciativa fundamental. Analisando um corpus de interações orais, estudaremos os valores generalizantes de “eu” e “tu”, em coocorrência com “nós”, “a gente”, “a pessoa”, “uma pessoa”, “o pessoal”, “as pessoas”, sublinhando a tensão enunciativa que resulta da conjunção da ocorrência da deixis pessoal, ancorada na permanência discursiva de um centro deíctico explícito, com uma perspetiva de distanciação do locutor relativamente ao seu dizer, no uso de enunciados generalizantes. O continuum entre valores deícticos dos pronomes e valores generalizantes permite um jogo entre inscrição e desinscrição enunciativa, útil para a apresentação de argumentos, mais ou menos assumidos pelo locutor, de acordo com o seu programa. Palavras chave: Deixis, distanciação, genericidade, oralidade, (des)inscrição enunciativa. Sumário: 1. Introdução. 2. O uso dos pronomes pessoais no Português oral. 2.1. Valores generalizantes. 3. Instabilidades enunciativas e argumentação. 3.1. Valores referenciais de EU/TU. 3.2.Cadeiasanafóricasetomadadevez.4.Conclusão.Referênciasbibliográficas Pronominal forms EU/TU – generic value and distantiation Abstract: The modes of presence of the speaker in discourse bring together different strategies of discursivization giving rise to a basic enunciative instability. We aim at determine the pragmatic values of "EU" and "TU", in co-occurrence with "nós", "a gente", "a pessoa", "uma pessoa", "o pessoal", in a corpus of oral interactions. Our study highlights the enunciative tension resulting from the conjunction of the occurrence of personal deixis, anchored on an explicit discursive deictic centre, and a speaker’s enunciative distanciation, by using generic 1 PEst-OE/LIN/UI0022/2011. Isabel Margarida Duarte / Maria Aldina Marques 70 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 statements. The continuum linking deictic and generic values of pronouns allows a variation between enunciative inscription and dis-inscription, crucial to the argumentative process, and assumed by the speaker in different ways, according to his goal in the verbal interaction. Key words: Deixis, distanciation, genericity, spoken language, enunciative (dis-) inscription. Contents: 1. Introduction. 2. The use of personal pronouns in oral Portuguese. 2.1. Generic values of personal pronouns. 3. Enunciative and argumentative instabilities. 3.1. Referential values of EU/TU. 3.2. Anaphoric chains and turn taking. 4. Conclusion. References. 1. Introdução Os modos de presença do locutor no seu discurso convocam estratégias diversas de discursivização, que se ordenam segundo um eixo gradativo entre pólos de objetividade e subjetividade que apenas podem ser tendenciais. Mais ainda, na globalidadeconfiguracionaldecadainteração,ocorreporvezesumaconfluência de estratégias de que resulta uma instabilidade enunciativa fundamental para os seus sentidos globais. A análise destes funcionamentos permite-nos evidenciar uma tensão enunciativa, ancorada na permanência discursiva de um centro deíctico explícito, que resulta da conjunção da ocorrência da deixis pessoal com uma perspetiva de distanciação do locutor relativamente ao seu dizer, no uso de enunciados generalizantes, um termo que tomámos de Ali-Bouacha (1993: §31)2: […], l’énoncé généralisant se caractérise moins par l’absence de repérages situationnels que par sa disponibilité énonciative qui le rend à la fois itéré et itérable. Il ne renvoie pas à un discours sans sujets mais au contraire à un discours de tous les sujets. Este autor assinala, ainda, que há uma gradação dessa generalização, uma opinião que partilhamos, como aliás iremos mostrar de seguida. 2 Bouacha distingue entre “générécité” (frásica) et “généralisation” (discursiva): “[…] la généralisation dans le discours pouvait constituer un domaine complémentaire à celui de la généricité et relativement autonome par rapport à lui. Au champ des contraintes syntaxico-sémantiques, elle allait permettre d’intégrer la composante inter-subjective. A la phrase générique, il était possible d’opposer l’énoncé généralisant.” (1993:§24) As formas pronominais EU/TU – valor genérico e distanciação 71 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 2. O uso dos pronomes pessoais no Português oral No corpus oral plurilocutores em análise, constituído por duas reuniões de professores do ensino secundário3, encontramos vários fenómenos que atestam a nossa hipótese de que a descrição do português oral ainda está por fazer (pelo menos no que concerne ao Português Europeu) e as gramáticas existentes quase nunca têm em conta os dados da oralidade. Deste panorama teórico-descritivo, são testemunho,porexemplo,asafirmaçõesqueaíencontramossobreaausênciade pronomes sujeito em português, e que o quadro abaixo apresentado deveria levar a modalizar, pelo menos no que concerne à presença em interações verbais orais do pronome de 1ª pessoa “eu”: […] de qualquer maneira vou-vos dando isto... que pediram... para eu pedir na reunião...aquelaficharesumode()[distribuiumasíntesedasplanificações de cada disciplina] (4) E: ah... que bonitinho, eu posso utilizar isto p’rós... p’rós dire... p’rós encarregados de educação? […] (8) N: foi porque eu não tinha na altura deste-me ontem mas... eu não já... tinha fotocopiado.> (9) E: ah... mas eu enviei. (10) N: mas eu não tinha de inglês, em excel, em folha de excel, não tinha > (11) C: ah em excel não tinhas (12) N: pois não, não tinha de inglês, nem de educação física. (13) P: mas eu... mandei. (14) N: em folha de exel, para mim? (15) P: sim... para ti, não sei, para a directora de turma. (16) E: e eu não reencaminhei? (17) N: eu não a recebi o de educação física em excel (18) P: eu já tenho (19) E: não sei se mandaste, não sei, eu vou ser sincera, euaindanão...nãofiz uma pasta eh... mas olha eu dá-me ideia que não porque eu reencaminhei tudo para ela, e se não reencaminhei educação física é porque XXX (20) P: eu acho esquisito XXX (21) N: alteraste isso? temos que enviar isso, tens que me enviar... enviaste hoje? (22) E: eu tenho ideia que não, é melhor mandar outra vez (23) N: pois não, pois não XXX mas se calhar eu já tinha feito isso com os delaefoi...eficou...XXX 3 E ainda por alguns excertos de interações verbais informais a seguir apresentadas. Isabel Margarida Duarte / Maria Aldina Marques 72 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 […] (33) C: […]e nós vimos XXX e eu amanhã vou propor para ver se eles aceitam como é obvio, que eles podem não aceitar XXX posso enviar (-) […] O mesmo fenómeno é amplamente atestado no outro corpus referido na nota 3: eu [muito] nerbosa // tanto qu’ela da segunda vez percebeu isso eu tremia toda eu estaba sentada a frente dela / no gabinete assim / toda direita e ela // taba / taba a Júlia e acho que tabaaa a Elisabete acho eu acho qu’éramos as três // e eu sentia as pernas literalmente a tremer eu nãomesmo qu’eu quisesse parar eunãoconseguia/expliqueilhe/entãoelanofinaldosemestrechamame p’ra dar as notas / tás muito melhor / tu evoluíste muito / uma data de elogios // mas eu dou-te o [nove = ] De facto, estas ocorrências, muito frequentes na oralidade, contradizem o que está escrito nas gramáticas portuguesas. Veja-se, por exemplo, Cunha / Cintra (1984: 284): Os pronomes sujeitos eu, tu, ele (ela), nós, vós, eles (elas) são normalmente omitidos em português, porque as desinências verbais bastam, de regra, para indicar a pessoa a que se refere o predicado, bem como o número gramatical (singular ou plural) dessa pessoa (…) (itálico nosso). Num outro ponto da mesma gramática (Cunha / Cintra), os autores acrescentam: “Convém usar com extrema parcimónia as formas pronominais da 1ª pessoa do singular, especialmente a forma recta eu. O seu emprego imoderado deixa-nos sempre uma penosa impressão de imodéstia de quem o pratica.” (1984: 289) (itálico nosso). Quanto ao emprego habitualmente referido nas gramáticas, e muito frequente, de “eu” e “tu” como deícticos, vejam-se os exemplos (1) e (2), em que “eu” é a pessoa que fala e “tu” aquela a quem se fala. (1) (12) E: […] eu achava que era importante nós aqui manifestarmo-nos sobreanovafilosofiadestasaulas (2) (121) Em: tu falaste bem... nós só podemos pedir um professor se ele estiver de atestado trinta dias Sublinhe-se no entanto que, no corpus das reuniões de professores, “eu” é frequentemente sujeito de verbos epistémicos que atenuam a asserção posterior, a opinião do Locutor: eu acho, eu queria dizer que, e esta mitigação vai no mesmo sentido da construção de um consenso procurado, do reforço do ethos prediscursivo dos professores, assinalados noutro momento deste trabalho. As formas pronominais EU/TU – valor genérico e distanciação 73 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 2.1. Valores generalizantes Os dados que usamos para a nossa investigação, constituídos por excertos de duas reuniões de professores e de excertos de conversas informais são retirados de dois corpora constituídos por alunos do ILCH da Universidade do Minho e da FLUP. No primeiro caso, o corpus foi gravado e transcrito segundo as normas REDIP (Ramilo / Freitas 2002), por Elvira Fernandes (2010), no âmbito da sua tese de mestrado4; é composto por 4 horas de gravação, realizadas em outubro e novembro de 2009, e 38 páginas de transcrição integral de duas reuniões de professores de uma escola pública, da região do Porto.5 O objetivo do nosso trabalho é, precisamente, analisar os valores generalizantes de “eu” e “tu”, em coocorrência com “nós”, “a gente”, “a pessoa”, “uma pessoa”, “o pessoal”, “as pessoas”6. Nas gramáticas tradicionais, a descrição destes elementos linguísticos reduz-se ao seu valor deíctico restrito: “eu” indica a pessoa que fala, “tu” a pessoa para quem se fala, etc.7 Apenas em três gramáticas encontramos uns breves apontamentos que abrem perspetivas para outros usos, é o caso de Mateus et al (2003), que refere já os valores generalizantes de “tu”, como faz também Raposo et al. (2013) para “tu” e para “você”, e Maria Helena Moura Neves (1999), que refere os valores generalizantes de “eu”, para o Português Brasileiro. Mateus faz referência a um “Sujeito com interpretação arbitrária, denominado indeterminado na tradição gramatical luso-brasileira”, que, entre outros, pode ser expresso “pela 2ª pessoa do singular de um verbo em frases com interpretação genérica (compare-se Ajudas sempre os amigos e apesar disso eles criticam-te com One helps one’s friends and they still criticize you). (2003: 283). 4 Orientada por Maria Aldina Marques. 5 O segundo corpus, mais restrito, é constituído por excertos de cerca de 40 conversas informais gravadas e transcritas por estudantes da FLUP. As gravaçõe foram transcritas, primeiro segundo as normas REDIP, mais tarde segundo as convenções do grupo Va.Les.Co, por estudantes das Unidades Curriculares de Projeto de Ciências da Linguagem e de Gramática da Comunicação Oral e Escrita, dos anos letivos de 2011-2012, 2012-2013 e por Paula Silva, para o Centro de Linguística da Universidade do Porto. 6 Também se encontra “um gajo” com o mesmo valor generalizante, em registos menos vigiados do que as expressões referidas. Exemplo: “L1: (…) a ouvir isto um gajo cansa… eu acho que uma cena sempre… que acho… que tentamos fazer na banda e eu próprio gosto de ouvir nas outras… as músicas têm de respirar meu… tem que haver momentos de relaxe e pumba…relaxe… isto é sempre a dar não pára… mas é Motorhead… também…”. 7 Bouacha (1993: §34) sublinha que as categorias gramaticais, em que inclui as formas gramaticais eu-tu são pouco solicitadas no quadro de genericidade frásica. Isabel Margarida Duarte / Maria Aldina Marques 74 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 Eis um exemplo do corpus em que o “tu” não é o alocutário mas um sujeito genérico paradigmático do conjunto de professores que poderão vir a aproveitar do trabalho a que se refere o Locutor: (3) (346) N: < eu estou a preparar um dossier, que é uma caderneta de cada alunoquevaificardentrodeumamica,essedossiervaiserumdossierpara formação em contexto de trabalho. tu depois vais... cada actividade que tiveres vai pôr lá a avaliação dele, de cada aluno em cada mica, Não se acrescenta muito mais na nova gramática da Fundação Gulbenkian (Raposo et al. 2013: 989): Por sua vez, os pronomes pessoais de segunda pessoa (semântica) do singular, tu e você (incluindo a versão nula), podem receber uma leitura semelhante a uma interpretação genérica, na qual o ouvinte é implicitamente incluído num grupo que representa as pessoas em geral, como se ilustra nos seguintes exemplos: (27) a. Em Barcelona, se (tu) entras num museu sem camisa ou camisola, vais preso! b. Na América, se você não tem um cartão de crédito, não pode pedir um empréstimo ao banco. Quanto à terceira gramática, Neves apresenta deste modo o valor generalizante do pronome pessoal de 1ª pessoa: Também a forma pronominal EU – que, em princípio, é altamente determinada, já que é de primeira pessoa – ocorre com referência genérica. Assim, […] pode-se pensar num enunciado em que o falante imagine o que qualquer pessoa pode vir a fazer, ou o que pode acontecer, em um determinado lugar, e construa um enunciado de atribuição genérica colocando-se como sujeito do enunciado: — EUvoulá,ficodoisdiasfazendoocurso,elesME catequizam, ME fazem comprar uma tonelada de sabão e abrir o meu negócio. (Neves 1999: 463464) (negrito e itálico no original) 3. Instabilidades enunciativas e argumentação A análise que aqui desenvolvemos não se limita à frase como é o caso dos exemplos de PE que transcrevemos acima. E, na verdade, é por nos situarmos ao nível do discurso, da interação verbal global, que nos é possível considerar os valores que os pronomes deícticos aí assumem bem como as instabilidades enunciativas que o/a constituem. As formas pronominais EU/TU – valor genérico e distanciação 75 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 O funcionamento generalizante dos elementos linguísticos estudados pode ser resumido no esquema abaixo apresentado e que passamos a explicitar. Há, nas estruturas estudadas, uma espécie de jogo subtil entre um uso caracterizado pela inscrição enunciativa e um outro marcado pela desinscrição enunciativa. Quanto aos usos generalizantes, podemos efetivamente falar de desinscrição enunciativa, pois os pronomes não são usados de forma deíctica, não reenviando à situação enunciativa: o locutor põe em cena um enunciador, que reenvia a umgrupoamploedecontornosreferenciaisindefinidos.Adesinscriçãoenunciativa, por apagamento da origem da “voz” corresponde, segundo Rabatel8, à passagem … d’une énonciation personnelle à une énonciation impersonnelle, avec, en phase intermédiaire, la présence de formes personnelles ou de tiroirs verbaux «déictiques» dont l’interprétation ne dépend pas (ou plus) de données situationnelles, comme lorsque je, tu (nous, vous) prennent une valeur générique. (Rabatel 2004a : 19). A este quadro teórico, acrescentamos um fenómeno que consideramos fundamental: a ambivalência que decorre da ocorrência das formas prototipicamente deícticas “EU-TU” nestes usos impessoalizados. Assim, o facto de usarmos os pronomes mesmo quando se trata de indicar um grupo genérico e não apenas a pessoa que fala (eu) ou aquela a quem se fala (tu), etc., tem comoefeitodiscursivopresentificarassituaçõesdescritasouimaginadas,aproximar argumentativamente estas situações dos interlocutores concretos, presentes nas interações que constituem o nosso corpus de análise. Com efeito, os pronomes preservam esse “caractère irreductiblement indéxicale” de que fala Mondada (2002) a propósito das interações verbais em geral. Esta presença de “eu” e “tu” em construções com valor generalizante produz um efeito de dramatização9 que se assemelha ao efeito provocado pelo uso do discurso direto no relato de discursos imaginados usado na mesma situação. É uma estratégia argumentativa que pretende implicarosinterlocutores em situações imaginárias que olocutor constróiafim de tornar mais credíveis e aceitáveis os argumentos que está a usar. Estamos em 8 Ver também Rabatel (2004b, §11): «Même l’énonciation personnelle (…) est susceptible de relever de cette problématique, dès lors que le je ou le tu se trouvent comme vidés de toute référence pertinente à leur contexte de production.”. 9 Citamos mais uma vez Rabatel para acentuar as consequências das escolhas do locutor na construção da referenciaçãodiscursiva:«[...]ilimportedenepasréduirelaréférenceàl’identificationdesréférents: en tant que mode de donation, elle correspond à l’expression d’un point de vue de l’énonciateur sur ce référent …» (Rabatel 2007: §2), Isabel Margarida Duarte / Maria Aldina Marques 76 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 presença do que Fernanda Irene Fonseca (1996: 441-442) designou como deixis fictivaou“mostração”10. Mesmo que possa parecer contraditória, a conjunção da desinscrição com o valor generalizante dos pronomes tem também uma clara função argumentativa. Nesta perspetiva,olocutornãoseidentificacomoenunciador(totalouparcialmente), e o usogeneralizanteexplicaseejustificase,nanossaopinião,porquestões de face. Para evitar a ameaça da face de alvos potenciais, o locutor dissimula as suas opiniões, distancia-se, apresentando-as como alheias, i.e, “formes de percevoir qui ne sont pas les siennes” (Rabatel 2010: 363)11, e que não implicam (responsabilizam?) diretamente os seus interlocutores. O enunciador é mais abrangente que o locutor, pois está na origem de um ponto de vista com valor generalizante. Por exemplo, o uso do pronome “nós” com valor generalizante não só não inclui por vezes o locutor como pode mesmo ser equivalente de um “vós” ou de um “eles” totalmente disjuntos de L, que não partilha o ponto de vista expresso: (4) Z: […] porque a verdade é, esta, os alunos… nós hoje em dia temos são alunos carentes economicamente mas temos alunos carentes também de afecto e a um aluno que chega à nossa sala carente de afecto, se nós respondemos com uma palmada, um bofetão ou então ignorando-o, porque à… às vezes dói mais, eh, vou só dar um exemplo, dói mais, eh vou dar só um exemplo, dói mais eu estar aqui a dar uma aula e hoje ignoro aqui a D, […]. Este procedimento atualiza um valor doxal dominante e comum a todos os participantes na interação, coincidente com o ethos coletivo dos professores, e que poderá ser representado num enunciado do género “no que concerne aos seusalunos,oprofessoréumlídereumprofissionalresponsável”.Afirmar o contrário teria consequências necessariamente desfavoráveis para a argumentação em curso. Nos exemplos seguintes, é claro que se trata de sequências em que há um certo jogo discursivo entre, por um lado, as generalizações, que visam preservar a face dos interlocutores e, por conseguinte, facilitar a construção argumentativa, ou, pelo 10 Escreveestaautorasobreadeixisfictiva:“[…]mostração“inabsentia”,logo,...mostraçãofictiva;; sendo o acto de mostração que induz a evocação de um campo perceptivo, esta modalidade de deixis ilustra a possibilidade de criação, pela linguagem ... do seu próprio contexto referencial” (Fonseca 1992). 11 Neste sentido, afasta-se de Bouacha que, a propósito de usos similares aos que aqui consideramos, mas em sala de aula, e num quadro teórico desenhado pelo conceito de formação discursiva, fala de “[…] constitution d’une classe de locuteurs dont le représentant idéal serait, selon l’heureuse formule de Bachelard, «le professeur quelconque»”(Ali-Bouacha 1993: §21). As formas pronominais EU/TU – valor genérico e distanciação 77 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 menos,assegurarqueseéescutadoeaceite,e,poroutro,umapresentificaçãodecorrente do uso dos pronomes que, apesar de tudo, reenviam, nem que seja simbolicamente, às pessoas do discurso, de forma a maximizar o comprometimento dos participantes, pela sua implicação no tema em discussão: a codocência, o absentismo, a indisciplina. Estas sequências generalizantes com “eu”, “tu”, “nós”, “a gente”, “a pessoa”, “as pessoas”, e cuja função, como foi já acentuado, é argumentativa, são produzidas pelo locutor em momentos de desacordo ou mesmo de confronto, ao serviço de uma atitude de distanciação e avaliação negativa da codocência, do absentismo e da indisciplina. Trata-se sempre de um assunto polémico, a propósito do qual o locutor argumenta para o interior do próprio grupo: (5) E: […] eh... há depois o problema das faltas dos professores que estão em co-docência. e aqui eu pedia sugestões para, parece que há professores que estão a trabalhar em co-docência, mas as coisas não estão a correr assim muito bem […] Ainda que, neste exemplo, “eu” tenha um uso deíctico prototípico, ocorre num contexto em que vemos delinear-se um objeto discursivo tão problemático como o absentismo de professores em codocência. Nas sequências que analisamos, é, aliás, evidente a ocorrência de cadeias anafóricas iniciadas por pronomes com valor generalizante (a gente, eu, etc.) que, no entanto, são substituídos anaforicamente, a um dado momento, pelo sintagma o professor (porque se trata sempre do professor e da construção do seu ethos coletivo), mesmo quando os participantes falam como se se tratasse de casos gerais. As sequências generalizantes em contextos de desacordo são anunciadas por estruturas linguísticas variadas, introdutoras de mundos alternativos e que denominámos de ativadores de valor generalizante. É o caso das estruturas condicionais, com se, e de estruturas lexicais variadas: verbos modais (pode haver uma pessoa), verbos de atividade mental (imagina), ou expressões como é assim, então, tipo, ou vou dar só mais um exemplo, quesãoativadoresdeficcionalidade.A construção destes mundos alternativos (cumprindo a técnica retórica dos exempla com função explicativa) está ao serviço de uma estratégia de objetivização do discurso para tornar mais fortes os argumentos usados (uma espécie de força centrífuga que distancia os pronomes da situação enunciativa em que deveriam estar integrados, em princípio) por oposição a uma força centrípeta, subjetivizante, que, apesar de tudo, a presença dos deícticos não deixa de convocar, criando uma tensão entre distanciação e dramatização: Isabel Margarida Duarte / Maria Aldina Marques 84 Revista Galega de Filoloxía, ISSN 1576-2661, 2014, 15: 69-85 Data de recepción: 10/02/2014 | Data de aceptación: 30/05/2014 Referênciasbibliográficas Ali-Bouacha, M. 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