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Bourdieu e o conceito de prática na pesquisa em educação

Telmo Caria

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BOURDlEU E O CONCEITO , DE PRATICA NA N PESQUISA EM EDUCAÇAO Telmo Humberto Lapa Caria RESUMO -Bourdiell e o conceito de prática lia pesquisa em educação. Em 1972, Pierre Bourdieu, no seu Esquisse d'une Theorie de la Pratique, dizia-nos que o habitus não seria o único princípio de explicação da prática. Neste ensaio procuro apresentar outro princípio de explicação da prática, baseado na associação dos conceitos de conjun tura, descontinuidade estrutural e cultura (na acepção antropológica), a partir de uma releitura do mesmo livro de Bourdieu, publicado em português, em 2002. No quadro deste argumento, indico os obstáculos à retlexividade social em Educação, em Portugal, como país semi-periférico (a partir de vários trabalhos de investigação realizados nos anos 80 e 90), e identifico as categorias sociais cujo trabalho intelectual de natureza técnico-profissional mais exige o desenvolvimento de improvisos sociais que não sejam apenas regulados pelo habitus. Palavras-chave: habitus, conjuntura, descontinuidade estrutural, prática, cultura, tra balho intelectual. ABSTRACT -Bourdieu and the concept ofpractice in educational research. In 1972 Pierre Bourdieu, in his book Esquisse d 'une theorie de la pratique, said that habitus could not be the only principie in the explanation of practice. In this essay, I seek to present another principie for the explanation of practice based upon the association of the concepts of conjuncture, structural discontinuity, and culture (in an anthropological sense), by rereading this book by Bourdieu, now published in Portuguese. In the framework of this argument, I point to the obstacles facing an educational social retlexivity in Portugal, as semi-peripheral country (based upon research projects realized in the 80s and 90s). I also identify the social categories whose intellectual work of a professional technical nature demands the development of social improvisation that is not only regulated by habitus. Keywords: habitus, conjuncture, structural discontinuity, practice, culture, intel/ectua! labor. A edição em português do Esquisse d 'une Theorie de la Pratique de Pierre Bourdieu (2002)1, é um bom pretexto para relermos um dos clássicos da teoria social pós-estruturalista, passados trinta anos da sua primeira publicação, em 1972. O comentário sobre este livro, que neste artigo desenvolvemos (pontos 1, 2 e 4), é um pretexto para fazermos uma proposta teórica (pontos 3 e 5) destinada a encontrar explicações alternativas para a prática, que não se reduzam ao conceito de habitus. Este é um dos desafios que Bourdieu nos deixa neste livro quando afirma que "a reacção contra o juridicismo sob a sua forma aberta ou mascarada não deve levar-nos a fazer do habitus o princípio exclusivo de toda a prática ( ... )" (p.200). Aparentemente, as obras posteriores deste autor fizeram acreditar - a muitos dos seus criticos e mesmo a alguns dos seus discípulos - que Bourdieu considerava o habitus como o único princípio de explicação da prática. Por isso, o interesse em nos determos nesta obra em particular, procu rando explorar ao máximo as "portas entre-abertas" que ela nos deixa para pen sar alternativas. Em qualquer caso será importante não esquecer, como refere Richard Figuier, na introdução a essa edição, que se trata da primeira obra de maturidade teórica do autor. Sabemos do desagrado de Bourdieu por não ser devidamente lido e compre endido. Várias são as polêmicas sobre qual a leitura "certa" para a sua obra. Suponho que mais importante do que ter ou dar a interpretação legítima deste livro será interrogarmo-nos sobre sua atualidade para pensar as investigações que fazemos hoje (Lahire, 2002). Assim, pareceu-me que um comentário crítico ao Esquisse2. associado à reflexão sobre experiências e resultados variados de pesquisa em educação, obtidos em Portugal, cumpriria bem o propósito de en contrar alternativas teóricas à explicação da prática, sem renunciar ao conceito de habitus. O propósito é talvez ambicioso, mas será conveniente desde já sinalizar (como voltaremos a fazer ao longo do texto) que não pretendemos "descobrir um outro Bourdieu". Assim, não temos nenhuma dúvida em afilmar que Bourdieu não concordaria com as nossas conclusões (ver ponto 5, mais à frente). Esta afirmação pode ser justificada com base no pressuposto -como tanto gostava Bourdieu de salientar nas suas análises, sobre os atores que se movi mentam nos campos culturais -que o comentário e as implicações que fazemos e retiramos do Esquisse não são ingênuos, nem desinteressados. É a tomada de posição de um pesquisador em Ciências Sociais que: (1) ocupa uma posição periférica nos campos da Sociologia e da Antropologia, em Portugal; (2) pesqui sa na aproximação entre a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia, a fim de abordar objetos ligados à Educação enquanto atividades sociocognitivas e ati vidades de racionalização da cultura; (3) e que se distanciou, nos últimos dez anos, do quadro teórico de Bourdieu e da sociologia institucional, que se pratica em Portugal, para dedicar-se ao uso de teorias sociais micro-sociológicas e antropológicas de inspiração fenomenológica. Vejamos, pois, ao longo das li nhas que seguem, como esta posição concorre para o debate teórico epistemológico em Ciências Sociais. 32 Uma teoria para refletir sobre a Ciência Social As primeiras linhas do Esquisse, de Bourdieu, são muitos claras quanto aos seus propósitos: o de desenvolver uma crítica ao modo como se produz ciência social, denunciando os limites explicativos das teorias sociais estruturalistas (principalmente as etnológico-antropológicas) e da posição do teórico-intelec tual que "fala em lugar de outros" e em "seu lugar" (p.137-138). Assim, a idéia base da qual parte Bourdieu é a de que a teoria social, que serve para explicar as práticas de outros, também deve servir para explicar o ato de construção da ciência social (p.135). A ciência � ao ser também uma prática � não poderá escapar à teoria explicativa de toda a prática social proposta pelo autor. Só a aparente ingenuidade do cientista social poderá fazer esquecer que a sua quali dade de estrangeiro, numa cultura em estudo, supõe uma relação em dita com o objeto científico, que ilusoriamente estabelece uma oposição entre a teoria (de que seria o especialista) e a prática dos autóctones. Mas realmente aquilo que é estranho para o observador externo acaba por se revelar bem familiar, porque se trata de explicar práticas sociais quando a atividade do cientista social é também uma prática. Em conseqüência, Bourdieu vai caracterizar as modalidades de conhecimento teórico existentes (p.145-162), para saber qual delas está em con dições de, no mesmo ato, ser capaz de conhecer os outros e de dar a conhecer a Ciência Social ao cientista. A intenção parece confundir-se, antes do seu tempo, com os pressupostos da crítica pós-moderna da cultura, quando esta denuncia a arrogância do conhe cimento científico e a incapacidade deste para reconhecer os limites da sua racionalidade. A apresentação inicial do texto também concorre para esta confu são, pois afirma-se pretender desconcertar os epistemólogos sem prática e os cientistas sem reflexão, através de um estilo de escrita "de notas em andamen to", que não é nem o manual de metodologia nem o trabalho de pesquisa empírica (p.135-136). No entanto, o que se vai desenvolver é uma teoria que em nenhum momento serve para criticar a ciência no seu todo, enquanto campo social autô nomo. Nem mesmo se questionam as metodologias em concreto que fazem a Ciência, pois o pressuposto de Bourdieu é o de que, se tivermos uma teoria geral da prática, poderemos objetivar a ciência (como qualquer prática social), sem ter que percorrer o caminho do relativismo elementar (p. 140): o de questionar (acres centaria: teorizar, Caria, 2000a, p. 37-65) o observador externo datado e situado. Bourdieu esclarece que o modo praxiológico de produzir teoria científica (proposto por ele) está claramente em oposição ao modo fenomenológico (típi co do interacionismo simbólico e da etnometodologia), levando-se em conta que este explora a relação de familiaridade com o vivido (aproximação que reco nhece poder ser vantajosa), sem querer entender as condições de possibilidade que explicam a estrutura da cultura autóctone existente (recusa que a tomaria cientificamente irrelevante, p. 145). Para o autor, a fenomenologia, ao não buscar estabelecer uma mptura com as representações indígenas do mundo, não estará 33 em condições de poder também realizar uma ruptura com as representações do observador estrangeiro (que permitirá, segundo o autor, ver a ciência também como uma prática social). Reforçando o distanciamento face à fenomenologia, o autor afirma que a praxiologia "parte do conhecimento objetivista" (refere-se ao estruturalismo e a todas as construções científicas que explicam a realidade a partir de modelos ou idéias-tipo) para "o superá-lo" (p. 146). Assim, assume como bom o corte radical com a experiência do mundo, desenvolvido pelo objetivismo, como único meio para entenderem as estruturas sociais que deter minam as experiências, desde que estas estruturas não sejam entendidas como advindas do exterior (ou seja, como fixas, mecânicas e invariantes) mas como disposições interiorizadas pelos agentes sociais que as atualizam e as produzem em processos histórico-sociais (p. 145). Nesta linha de raciocínio, para Bourdieu os indivíduos são sempre determi nados socialmente, não interpretam opções possíveis nem têm projetos. São sempre agentes e não atores ou sujeitos sociais. No entanto, a prática social sem ser uma interação (uma interpretação de expectativas mútuas em reciprocidade, na versão fenomenológica) também não é um comportamento de execução. Tal como a fala, a prática social não depende do conhecimento das estruturas (da gramática e das regularidades socioestatísticas) para existir (p. 153-154). Esquemas pré-reflexivos e automatismos da ação o conceito central de Bourdieu para explicar o modo como a prática social existe é o de habitus. É a teorização em tomo deste conceito que permite a Bourdieu explicar (p. 163-212) como epor que a lógica da prática ou o domínio prático da prática não se confunde com a interação social, com a consciência prática, com as racionalizações discursivas ou com a regra (do costume ou da instituição) mais ou menos explícita. O habitus é definido (a síntese é nossa, porque os elementos referidos são variados ao longo do texto) como um conjunto de esquemas pré-reflexivos (dis posições) de percepção, apreciação e antecipação que foram produzidos no agente social. Estes esquemas são o resultado de um trabalho de inculcação pela prática (ver fazer e fazer acompanhando os que sabem fazer) em que o agente social interioriza, de modo sistemático e coerente, as estruturas das rela ções de poder, a partir do lugar e da posição que nelas ocupa, e exterioriza em práticas as disposições (os esquemas pré-reflexivas estruturados) que antes interiorizou (p. 163-164; p. 182). No entanto, a prática não é produto da estrutura presente mas antes "uma relação dialética entre a estrutura interiorizada pela história do grupo ou da classe social (habitus) e a estrutura social presente" (p. 166-167). A eventual defasagem entre uma e outra implica a necessidade de improvisão social, não se podendo repetir mecanicamente o que foi praticado no passado (p. 178-179). 34 o fato de se reconhecer o improviso social, determinado pela história do agente social, no modo como a lógica da prática opera, faz com que, por um lado, o conceito de prática nunca possa ser considerado como a obediência a regras sociais externas -ainda que implícitas -ou a constrangimentos institucionais (p.164). Assim, a diferenciação entre o social e o individual, tantas vezes valori zada pelas ciências sociais, perde sentido porque o indivíduo será sempre o produto estrutural da sua história social face ao estado conjuntural presente das relações de poder (p. 167; p. 178). Por outro lado, o improviso social também não deve ser entendido como uma adequação qualquer a fins posteriores ou a intenções estratégicas, prévia e conscientemente formuladas (p. 257-258). A incerteza da lógica da prática (que toma necessário o improviso) supõe que as construções subjectivas da consciência sejam conseqüência, a posteriori, da prática improvisada e não a sua origem ou explicação. Assim, as aspirações, as categorizações e os julgamentos sociais tendem a adequar-se ao provir, ao nomeável e ao realizável, através dos esquemas pré-reflexivos, respectivamente, de antecipação, percepção e apreciação, de acordo com as possibilidades estru turais relativas à posição de poder ocupada por cada agente social. Os improvi sos que se desenvolvem nas situações de defasagem entre o passado e o pre sente supõem: (1) para o caso das apreciações, transferências de sentido que operam através de "um círculo de metáforas que permite analogias implícitas entre sistemas de classificação" (p. 167); (2) para o caso das antecipações, supõem um cálculo estratégico prático que opera por homologias estruturais de posições de poder entre diferentes situações - o interesse de ter posição, man tendo-a ou evitando perdê-Ia (p. 176-177; 208; 234; 247; 263); (3) para o caso das percepções supõem competências culturais adquiridas de apropriação e descodificação simbólicas, que possam transformar os interesses materiais das estratégias práticas em relações de comunicação e de cooperação, apresentadas como desinteressadas e generosas, a fim de dissimular as desigualdades de poder existentes (p. 177; 237-240). O melhor argumento de Bourdieu para que a explicação do improviso práti co não passe pela consciência do agente social está no fato de a inculcação do habitus se produzir e reproduzir através do corpo (do fazer e ver fazer, como dissemos anteriormente). Existe, assim, nos primeiros anos de vida ("há uma cronologia das estruturas", p.183) um "trabalho pedagógico difuso e anônimo, sem autonomia e sem especificidade, que enquanto ambiente social estruturado vai ser incorporado (uma hexis corporal)", desenvolvendo-se no corpo os es quemas pré-reflexivos já referidos (p.185-186). O habitus, pelo fato de ser apren dido por incorporação (os exemplos apresentados são inúmeros e estão centrados nos ritos sociais, p. 187-193) é transparente à consciência e à sua transformação voluntária (p. 194). A incorporação das estruturas cumpre a função de "disciplinar o corpo selvagem", exigindo-se o pormenor, por exemplo, das posturas, dos gestos, dos tons de voz aparentemente "insignificantes, e exigindo-se o rodeio e o adiamen35 to da satisfação, diferindo e diversificando os prazeres no tempo, isto é, exigin do-se a forma pela forma, sem razão (p. 193-194). Deste ponto de vista, o habitus é "um ser que se reduz a um ter, a um ter sido e um ter feito ser" (p. 182). Assim, nada tem a ver com qualquer teoria que aborde o problema da identidade social, como construção de uma consciência coletiva. Existirão habitus mais semelhantes e outros mais diversos conforme a iden tidade de condições de existência ("dos teres"). Estes, ao serem regulados es truturalmente, supõem uma harmonização de habitus diversos, que tomarão previsíveis e inteligíveis, na prática, os comportamentos de outros, reproduzin do-se as estruturas de desigualdade existentes, como se de uma grande orques tra se tratasse, embora sem maestro: "uma invenção sem intenção", "uma concertação objetiva" (p.169-176). Em conclusão, a lógica da prática de que nos fala Bourdieu permite uma adequação automática e improvisada do pensamento e da ação no presente, para vencer as defasagens entre o habitus e as ocasiões, sem que a subjetivida de do agente social tenha que ser ativada, dado estar em primeiro lugar inscrita no corpo (p. 164-165). Este improviso automático supõe um domínio prático da prática, presente nos princípios organizadores das disposições do habitus, em que da prática se passa à prática pela "arte" de quem aprendeu, fazendo sem manifestar interesse ou intenção em saber (p. 185-187; p. 232), e em que o tempo é irreversível, supondo para o agente social uma cronologia e uma seqüência de acontecimentos necessários e óbvios (a naturalização da história em inconsci ente) (p. 168; p.227-231). A possível aproximação com a fenomenologia A necessidade que Bourdieu tem de desvalorizar o papel da consciência e da interação na dinâmica social é coerente com o posicionamento epistemológico inicial de rejeitar totalmente a tradição fenomenológica e aceitar parcialmente a tradição estruturalista. Penso que a formulação da epistemologia praxiológica, nestes termos terá muito a ver com a conjuntura intelectual dos anos 50-70, na França, e com o fato de os trabalhos de investigação (os três estudos sobre os Cabila) em que Bourdieu se apóia ter correspondido a um corte na sua trajetória intelectual de formação, de filósofo para etnólogo (Pinto, 2000, p. 17-36). Daí que tenhamos que perguntar até que ponto o autor nos deixa "portas abertas" para pensar as também parciais contribuições da fenomenologia para uma teoria da prática? No caso, trata-se de uma teoria da prática que não se centre apenas na análise estrutural (esta é retirada parcialmente da contribuição epistemológica objetivista que o texto em análise expressa) e enfatize aquilo que poderíamos designar como análise conjuntural (esta, pelo contrário, retirada das contribui ções fenomenológicas). É principalmente nas páginas 185-197, que encontra mos os elementos que nos fizeram admitir como plausível este outro olhar e leitura. 36 Não pretendo afirmar ou dar a entender que Bourdieu tenha fOlmulado este problema. Neste livro não o encontrei e aquilo que conheço das demais obras de Bourdieu não me permite afirmá-lo. A pergunta é minha e justifica-se no quadro de raciocínio que desenhei no início deste texto: reler Bourdieu para -através de das suas contribuições -repensar a teoria e a investigação social de hoje. É o reconhecimento da atualidade da teoria da prática que me faz regressar a algu mas conclusões da minha investigação com professores e, no caso, retomar uma das hipóteses que então considerei e que recentemente voltei a enunciar (Caria: 2000, p. 189-191; p. 540-541; p. 2002a): a de que a reflexividade dos atores sociais que desempenham um trabalho técnico-intelectual (Caria, 1999a, 2001, 2002b), como é o caso dos professores em Portugal, tem uma especificidade geral e particular na semiperiferia do sistema capitalista mundial. A associação desta hipótese com uma releitura do Esquisse de Bourdieu não é imediata, por isso que carece de uma explicação mais longa. Vários são os autores (Madureira-Pinto, 1991; Almeida et al.I992; Santos, 1990) que, referindo-se à estrutura da formação social portuguesa, identificam a existência de uma defasagem estrutural (típico da intermediação semiperiférica no sistema capitalista mundial) entre a esfera da produção e a esfera da reprodu ção. Isso tem como conseqüência o desenvolvimento de padrões de consumo, aspirações sociais e estilos de vida típicos de centros capitalistas desajustados das condições de produtividade (condições de trabalho, qualificações requeridas, processos de organização empresarial, etc), estas mais próximas da periferia capitalista. Dando conta, em parte, do mesmo problema teórico, Almerindo Afonso (1998) o recontextualiza e o atualiza para a análise das políticas educativas em Portugal, na década de 1985-1995, e Helena Araújo (1996) mostra-nos o quanto ele tem uma história antiga no que se refere à construção da escolaridade de massas em Portugal nos últimos três séculos. Esta autora, no mesmo trabalho, ensaia uma explicação para a defasagem que aludi, relacionando-a com a relativa falta de interpenetração e articulação entre diferentes espaços sociais como o doméstico, o de trabalho. Numa linguagem filiada à teoria da prática, parece indicar que os esquemas pré-reflexivos dos agentes que atuam no espaço públi co não seriam "suficientemente competentes" para promoverem as transferências, as antecipações e as apropriações de sentido prático entre diferentes campos sociais, reproduzindo-se de modo estrutural defasagens continuadas. O atual processo de transição e mudança acelerada ocorre, em Portugal, tendo em vista uma plena integração na União Européia, com uma intervenção do "Estado-como-imaginação-do-centro" (Santos, 1994), o que toma fácil con cluir que a necessidade de improviso social, fruto de uma maior incerteza nas condições da prática, é um fato cada vez mais incontornável, tendo sido particu larmente ampliado nos últimos quinze anos em Portugal. As estruturas sociais do presente parecem estar muito orientadas pelas racionalizações político-ideo lógicas hegemônicas relativas ao futuro europeu, embora os quotidianos das organizações e do trabalho continuem a estar demasiado "presos" ao passado. 37 Utilizando os termos de Bourdieu, o improviso social, em POliugal, lida com incertezas práticas acrescidas que podem levantar dificuldades à lógica dos automatismos do pensamento e da ação para regularem a prática. Tendo chega do aqui, podemos ter uma explicação estrutural para a reprodução das condi ções de dependência de Portugal, sem termos pistas de análise que nos permi tam entender como é que poderia ser diferente. Trata-se de uma explicação que, não sendo estruturalista, acaba por sê-lo seus efeitos (ponto de vista de algu mas das críticas à obra de Pierre Bourdieu que o acusam de reprodutivista), porque não nos mostra a possibilidade de ocorrerem efeitos não reprodutivos (de modo minoritário e/ou embrionário). Minha hipótese, para evitar os efeitos reprodutivistas da teoria a que aludi, é a de associar a análise da prática às características do trabalho técnico-intelec tual e às defasagens estruturais referidas, a saber: perante defasagens estrutu rais maiores, a lógica da prática (determinada pelo habitus inculcado na rela ção com estruturas sociais passadas) tenderá, se não for acompanhada pela reflexividade sobre os fatores especificamente conjunturais, a ficar sempre aquém da estrutura social presente em mudança, dando origem a interpretações equivocadas (p.179). Acrescentaremos ainda uma hipótese complementar, que temos procurado verificar em trabalhos mais recentes (Caria, 2001, 2002c): os atores sociais em melhores condições de poderem monitorar a prática através da consciência -dado serem especialistas em algum tipo de conhecimento especi alizado e operarem naquilo a que Giddens (1992) chama reflexividade institucional -são aqueles que desenvolvem um trabalho técnico-intelectual. Neste quadro de hipóteses, regressamos ao Esquisse de Bourdieu, para interrogarmo-nos até que ponto ele nos deixa pistas de explicação da prática perante defasagens estruturais acrescidas entre os habitus e as novas situa ções, isto é, até que ponto a regulação consciente da prática (seria a contribui ção da fenomenologia para a teoria da prática) pode assumir um papel explicativo relevante, sem confundi-la com o reducionismo culturalista relativo à explicação subjetivista da ação. As facetas das teorias indígenas e as abordagens micro do social Globalmente toda a teoria estrutural da prática de Bourdieu está subordina da à idéia, no que se refere às possíveis contribuições da fenomenologia, de que não podemos reduzir a estrutura objetiva da relação social à estrutura conjuntural da interação (p. 177-178). Pergunto, então: pode-se fazer o inverso, típico da análise estrutural, reduzir a conjuntura à estrutura da relação social? Penso que Bourdieu nos responderia que sim. Mas suponho que, em vários momentos do seu livro, nos indica sinais de que podem existir exceções. 38 Vejamos: ele nos fala da lógica da prática (p. 203; 223) como sendo "aberta", porque é necessariamente incoerente nos princípios e incerta na previsão dos resultados, para assim poder permitir o improviso e subordinar a consciência às funções práticas da prática. Acrescenta (p. 222) que só a lógica formalista do teórico pode imaginar uma lógica da prática como formando um todo homogê neo. Admite, ainda, que "uma forma de consciência lacunar, parcial e descontínua acompanha as práticas na forma de controles de vigilância sobre os automatismos" (p. 201), a que Giddens (1989) chama de consciência prática, dado o inconsciente não ser totalmente opaco à interação (p. 200). Os costumes a que Giddens (1989) chama rotinas da ação e as normas, como produtos dos habitus (p. 198; 202), estão próximos da lógica da prática, porque não enunciam princípios explícitos, (apresentam situações singulares como exemplares) e por que reforçam os princípios implícitos dessas situações exemplares, sem os expli carem, embora podendo enunciar o que não se pode fazer (isto é, sem implicar a racionalização discursiva). Em síntese, na minha leitura, aquilo que Bourdieu chama as teorias indíge nas da prática tanto pode servir às ideologias e aos conflitos de legitimidade (as racionalizações dos "discursos enganadores do enganado", p. 202), como corresponder ao domínio simbólico da prática, no qual os agentes detêm a sua atenção em segmentos da ação mais relevantes, mais recomendados ou mais reprovados nos jogos sociais. Nestes jogos sociais, apesar de o dever-fazer e o dever-ser já não serem vividos como únicos, os princípios da prática continuam implícitos, sem que se apresentem como regras sociais exteriores (p. 198; 201). Trata-se de analisar, por hipótese, esse saber social procedimental e categorial que é já uma norma mas ainda não é uma doxa, isto é, um saber que é descritível e nomeável (principalmente pela negativa) mas que continua a ser inexplicável para os próprios agentes sociais, dado existir, na oralidade pré-formalizada da consciência prática, numa fase intermédia entre o estado de incorporação e o estado discursivo (Caria, 2000a, p. 195-206; 2002c). Também Augusto S. Silva (1994), no seu trabalho sobre Sociologia da Cultura, enfatiza este nível interme diário de domínio simbólico da prática, que ficaria entre o sentido prático e a formalização discursiva e doutrinária. Minha experiência de investigação etnográfica com professores encontrou os elementos referidos por Bourdieu, no qual as teorias indígenas (a que a antropologia normalmente chama cultura) tinham esse caráter aberto, incoeren te e muito pouco sistemático, a fim de permitir que a lógica da prática pudesse improvisar. Para exprimir estas características, concluí que a cultura dos profes sores era como um puzzle de peças desencaixadas, mas onde os atores sociais não deixavam de reconhecer, no plano local das suas interações, as incertezas da prática, sem que desenvolvessem discursos racionalizadores (Caria, 2000a, p. 309-3 7 5). A explicação para esta oralidade interativa (em muitos casos com valor normativo para o grupo, referida acima como pré-formalizada) estava, como mais 39 ___ "A racionalização da cultura profissional dos professores -uma abordagem etno-sociológica no contexto do 2° ciclo do ensino básico n, Revista Portuguesa de Educação, , vol. 12, n, 1, 1999b p. 205-242. ___ "A retlexividade e a objectivação do olhar sociológico na investigação etnográfica", Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 55, 1999c, p. 5-36. ___ A cultura projissional dos professores - o uso do conhecimento em contexto de trabalho na conjuntura da reforma educativa dos anos 90. 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