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(Re)conhecer o Sucesso de uma Expatriação

Otília Susana Rodrigues Gonçalves Ribeiro

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! ! (Re)Conhecer o sucesso de uma expatriação Por Otília Susana Rodrigues Gonçalves Ribeiro Dissertação de Mestrado em Economia e Gestão de Recursos Humanos Orientada por Professora Doutora Luísa Helena Ferreira Pinto 2012 ii! ! BREVE NOTA BIOGRÁFICA A candidata, Otília Susana Rodrigues Gonçalves Ribeiro, nasceu no Porto, no ano de 1982. Licenciou-se, pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, no ano de 2005, em Psicologia, com uma pré-especialização na área do Trabalho e das Organizações. Desempenhou funções de Psicóloga do Trabalho numa Instituição Particular de Solidariedade Social, no apoio aos sinistrados no trabalho e seus familiares. Entre 2008 e 2009 desempenhou a função de bolseira contratada no Instituto de Educação e Psicologia, na Universidade do Minho, no âmbito de um estudo de Confiança Organizacional e Processos de Mudança, financiado pela Fundação da Ciência e da Tecnologia. Desde 2006 exerce funções de Formadora e Profissional de Reconhecimento e Validação de Competências num Centro de Formação Profissional. No ano de 2009 iniciou o Mestrado em Economia e Gestão de Recursos na Faculdade de Economia e Gestão de Recursos Humanos. iii! ! AGRADECIMENTOS A minha primeira palavra de agradecimento vai para o Filipe, pelo apoio incondicional, por nunca desistir de mim, mesmo quando eu própria já estava perto de o fazer, por me ajudar, cuidando do nosso filho, nas horas em que eu mais precisei. Obrigada, meu amor. Quero agradecer à Professora Luísa, na sua perseverança e atenção que teve sempre comigo, mesmo nos dias mais difíceis. Um obrigada aos meus amigos mais próximos, com especial atenção à Elsa e ao Filipe que tanto me ajudaram na parte prática deste estudo, e ainda ao Duarte que deu um “empurrão” importante para que as entrevistas se realizassem. Muito obrigada a todos os que aceitaram ser entrevistados, que responderam às minhas perguntas sem receio e sem rodeios, sem vocês, nada, mesmo nada, poderia ter sido feito. Dedico este trabalho ao meu filho, Vasco, é por ele que me esforço todos os dias para ter uma vida melhor e mostrando-lhe que, com empenho e dedicação, o céu é o limite. Pai, sei que me vês, me apoias e proteges. Estás sempre no meu coração. iv! ! RESUMO A mobilidade internacional no âmbito da estratégia de desenvolvimento e expansão do negócio das organizações em contexto além-fronteiras tem, ao longo das últimas décadas, obtido interesse especial por gestores e académicos. Alguns relatórios (GMAC 2011, 2012) referenciam um aumento crescente, ao longo dos últimos anos, da expatriação, enquanto modalidade de trabalho internacional utilizada no âmbito da Gestão Internacional de Recursos Humanos. Na continuidade, tem persistido uma tentativa de compreender o fenómeno associado ao sucesso/insucesso das expatriações que se tem focado em dimensões como o retorno antecipado, ajustamento, desempenho e, mais recente, em progressão de carreira. Acreditando que o tema continua pouco explorado, o presente estudo tem, como principal objetivo, aferir as dimensões que os expatriados utilizam para avaliar o sucesso de uma expatriação. Apesar de já vários estudos se dedicarem em analisar fatores que conduzem a um indivíduo a aceitar uma missão de longa duração, menos explorada tem sido a possível relação que existe entre motivos e dimensões do sucesso. Por fim, considerando a existência de outras partes envolvidas nesta equação, que é a expatriação, através dos expatriados, tenta-se descortinar que dimensões poderão ser utilizadas para avaliar o sucesso de uma expatriação pelos familiares. O estudo contou com a participação de 13 entrevistados, à data, expatriados. Os resultados obtidos apontam para um conjunto diversificado de dimensões utilizadas pelos expatriados para avaliar o sucesso da expatriação, repartidas pelos referenciais corporativo, pessoal e também social/familiar. A análise da relação entre motivos e dimensões de sucesso, bem como vislumbrar algumas dimensões apontadas como importantes para a família para avaliar o sucesso de uma expatriação permite introduzir os temas como um possível caminho de investigação no futuro. ! v! ! ABSTRACT Over the last decades, international mobility within the business development and expansion strategy of organizations in the across borders context has obtained a special interest by managers and academics. Thus some reports (GMAC 2011, 2012) refer to a steady increase of expatriation as an international working modality used in the scope of the International Management of Human Resources. It is still in course an attempt to understand the phenomenon associated with the success/failure of expatriation, which has focused on dimensions like early returns, adjustment, performance and, recently, in career progression. Believing that the issue remains largely unexplored, this study has as main objective to measure the dimensions that expatriates use to evaluate the success of an expatriation. Although several studies have already engaged in analyzing the factors that lead an individual to accept a longduration mission, less explored has been the possible relationship between motives and dimensions of success. Finally, considering the existence of other parties involved in this equation that is the expatriation, it is tried through the expatriates to uncover dimensions which can be used to measure the success of an expatriation through family members. The study involved the participation of 13 respondents, who were, to date, expatriates. The results point to a diverse set of dimensions used by the expatriates to evaluate the success of the expatriation, apportioned among the corporate, personal and also social/family referential. The analysis of the relationship between reasons and dimensions of success, as well as to have a glimpse some dimensions identified as important for the family to assess the success of an expatriation, enables the introduction of these issues as a possible path of research in the future. ! ! vi! ! ÍNDICE Capítulo I : Introdução 1 Capítulo II: Revisão da Literatura 5 2.1 Expatriação 6 2.2 Motivos para expatriar versus motivos para ser expatriado 9 2.3 Sucesso da expatriação 10 Capítulo III: Metodologia 17 3.1 Objetivos do estudo 18 3.2 Procedimento de recolha de dados 18 3.3 Procedimento da análise de dados 19 Capítulo IV: Apresentação e análise de resultados 21 4.1 Caracterização dos participantes 22 4.2 Principais resultados 24 4.2.1. Decisão de aceitar 24 4.2.2 Missão bem-sucedida 26 4.2.3 Missão mal sucedida 33 4.2.4 Demonstração do sucesso 34 4.2.5 Missão Internacional 37 4.2.6 Resultado não ir na missão 37 Capítulo V: Discussão dos resultados, conclusões e implicações 39 5.1 Discussão dos resultados 40 ! vii! ! 5.2 Conclusões 47 5.3 Implicações práticas de investigação 48 5.4 Limitações e futuras sugestões de investigação 49 Referências Bibliográficas 51 Anexos 59 ! viii! ! ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1: Caracterização dos sujeitos 23 Quadro 2: Principais categorias e sua descrição 23 ! 1! ! ! ! 7! ! características individuais e pessoais, em que o indivíduo se entrega a este empreendimento por vontade de viajar, conhecer novos locais e novas pessoas. O que o move é a vontade de explorar e/ou de aprender. Nem sempre sai do seu país de origem com um emprego já pré-estabelecido e, mesmo quando isso acontece, o indivíduo está disposto a aceitar qualquer tipo de trabalho, na medida em que o objetivo é sobreviver e fazer face aos seus objetivos, que nem sempre são claros para quem experiencia esta aventura, mas que estão essencialmente relacionados com o desejo de desenvolvimento pessoal e individual. Nestes casos, a experiência cultural é tão importante como o desenvolvimento profissional através do trabalho (Inkson et al, 1997). Neste grupo podemos identificar os estudantes ou ainda trabalhadores de organizações não governamentais. No caso da expatriação, mesmo existindo vontade no indivíduo para obter uma experiência internacional, esta é sempre iniciada e financiada pela organização em que o sujeito se encontra a trabalhar. O colaborador é, então, convidado a aceitar uma missão internacional de longa duração, em que os objetivos do expatriado se confundem, em grande parte com os objetivos da organização. Inkson et al (1997) abriram caminho para a definição de outras formas de obtenção de experiência internacional que, de acordo com Meyskens et al (2009) estão longe de se esgotarem nestes dois modos. A crescente dificuldade em atrair, motivar e reter expatriados, o aumento de casais em situação de dupla carreira, o desenvolvimento dos transportes e das telecomunicações, que permitiram, por sua vez, o encurtamento das distâncias, possibilitam a emergência de novas e alternativas formas de trabalho internacional (Meyskens et al, 2009; Tahvanainen et al, 2005). Todos estes fatores proporcionam às organizações colocarem os seus colaboradores além-fronteiras, utilizando outras formas de trabalho internacional que não apenas a expatriação, nomeadamente as viagens de negócio, comissão de serviço, comutação, transferência permanente e ainda o trabalho virtual. A expatriação difere destas formas de trabalho internacional em grande parte pela duração da mesma. A expatriação corresponde a uma situação de mobilidade de longa duração, o que justifica a mudança de residência, para o país de destino, podendo incluir ou não a mudança da família. No caso das viagens de negócio, o colaborador viaja ! 8! ! numa base frequente, não ultrapassando o tempo de estadia normalmente os 15 dias. Está em constante comunicação com a empresa mãe e a família permanece no país de origem. No que respeita às comissões de serviço, o colaborador é destacado para uma missão internacional normalmente de curta duração (com a duração de um mês a um ano) e envolve, com frequência, funções de natureza técnica. Neste caso, não é frequente as famílias acompanharem o colaborador em missão internacional. A comutação corresponde à situação em que o indivíduo viaja para o país de destino com uma frequência semanal ou bi-semanal. Por exemplo, em Portugal, esta modalidade aplica-se a alguns trabalhadores da construção civil que, contratados por uma empresa portuguesa, mantêm o seu posto de trabalho numa obra a decorrer em Espanha ou até em França, voltando a casa semanal ou quinzenalmente. A transferência permanente, tal como o nome indica, acontece quando um indivíduo, que poderá ter iniciado a sua passagem pelo país de destino como expatriado, por qualquer motivo, pessoal ou profissional, não pretende regressar ao seu país de origem, solicitando ou sendo solicitada pela empresa, a sua transferência permanente. Neste caso, é habitual deixar a situação de expatriado, e todas as condições a esta situação associadas, passando à condição de local. De acordo com o relatório GMAC (2012), quando questionados sobre políticas futuras no que concerne à gestão internacional de recursos humanos, 36% dos respondentes indicam a localização (conversão da condição de expatriado para a condição de local) como forma de missão internacional a ser implementada no futuro, seguida por missões de curta dimensão (entre 3 a 12 meses). O trabalho virtual é também anunciado como uma nova forma de modalidade de missão internacional (Bonache et al, 2010; Dowling et al, 2008; Tahvanainen et al, 2005). O desenvolvimento científico e tecnológico permitem aos indivíduos, mesmo permanecendo no seu país de origem, trabalhar além-fronteiras, ultrapassando diferenças horárias, cruzando geografias e culturas. Este estudo debruçar-se-á em concreto sobre a expatriação que se define como colaboradores que, independentemente de terem ou não revelado vontade em experienciar uma missão internacional, a determinada altura da sua vida profissional, foram convidados pela sua empresa a iniciar uma missão internacional, com uma duração nunca inferior a um ano, num país diferente do país de origem. ! 9! ! 2.2. Motivos para expatriar versus motivos para ser expatriado A gestão internacional de recursos humanos tem, com frequência, identificado diversas razões para a utilização, pela empresa, da expatriação, entre as quais se destacam a necessidade de preenchimento de uma posição numa das subsidiárias da empresa mãe, transferência de conhecimento entre organização de origem e a organização de destino, desenvolvimento da carreira dos gestores, criação de uma cultura internacional uníssona, construção de uma rede informal de relações, necessidade de coordenação e controlo de tarefas, facilitação da integração e coesão de operações globais (Bonache e Brewster, 2001; Dickmann et al, 2008; Dowling et al, 2008; Feldman e Thomas, 1992; Hippler, 2009; Pinto et al, 2012; Tung, 1987). Alguns autores revelam que se torna cada vez mais difícil atrair, motivar e reter talento internacional, acrescendo o facto de se verificar o turnover devido a muitos gestores estarem perto da idade da reforma ou ainda o aumento de padrões familiares de dupla carreira (Meyskens et al, 2009). Apesar deste cenário, entre 2011 e 2012 verificou-se um aumento da população expatriada de 21% (no ano de 2011, 43% dos respondentes referiram um aumento, enquanto em 2012, esta taxa sofreu uma evolução positiva para os 64%). Esta evolução tem-se sentido desde o ano de 2009, denotando-se um acréscimo: em 2009, 61% do tipo de missão internacional era de longo prazo, em 2010, as missões de longo prazo perfaziam um total de 64%, em 2011 estas aumentaram para 99%, havendo um decréscimo de 3%, no ano de 2012, para os 96%. Contudo, ainda no GMAC 2012, 63% dos respondentes, referem acreditarem num aumento, em 2012, do número de expatriados, como já referido anteriormente. Vários têm sido os autores que tentam compreender o que leva os indivíduos a aceitar uma expatriação (Andresen, Biemann e Pattie, 2012; Dickmann et al, 2008; Haines, Saba e Choquette, 2008, Hippler, 2009; Pinto et al, 2012). Esta tentativa de entender o que leva os indivíduos a aceitarem uma expatriação pode ser um instrumento valioso para a gestão internacional de recursos humanos combater a dificuldade em atrair e motivar os indivíduos para uma expatriação. Tipicamente, a literatura refere que os fatores que influenciam na decisão de os indivíduos aceitarem uma expatriação relaciona-se com a própria oferta de trabalho, ! 10! ! progressão da carreira, a oportunidade de terem uma nova experiência de aprendizagem pessoal e profissional, o interesse pessoal na experiência internacional, assuntos familiares, o local de destino, a expectativa do negociado para a repatriação e o pacote financeiro (Stahl e Cerdin, 2004; Stahl et al, 2002). Neste âmbito, e numa tentativa de comparar a perspetiva individual e corporativa, Dickmann et al (2008) combinam os métodos quantitativo e qualitativo para compreenderem os motivos que levam os indivíduos a aceitarem uma missão internacional, bem como os motivos que levam as organizações a expatriar. Neste estudo verifica-se que os representantes corporativos tendem a sobrestimar fatores relacionados com a oferta financeira, bem como a rotura da carreira do cônjuge e a perda de ordenado subsequente. Por outro lado, quanto maior a influência percebida de fatores relacionados com o potencial para o desenvolvimento da carreira, de competências de liderança, o desafio de trabalhar no estrangeiro e o sucesso de uma missão anterior, mais motivados parecem estar os indivíduos para aceitar uma missão internacional. Hippler (2009), num outro estudo com expatriados de nacionalidade alemã, distingue um total de 18 categorias de motivos consistentes com a literatura produzida até então, reforçando a importância do desenvolvimento da carreira, do desenvolvimento pessoal e do pacote financeiro. Mais recentemente, Pinto et al (2012) examinam as razões que levam os expatriados portugueses a aceitarem uma expatriação e de que forma essas mesmas razões se relacionam com os resultados da missão percecionados pelos expatriados. O desafio pessoal e profissional, bem como a perspetiva de carreira foram os dois principais motivos apontados pelos respondentes, seguido pelo motivo “compelido a aceitar”. A novidade surge, exatamente, neste último motivo e o estudo revela que existem diferenças entre aqueles que realmente pretendem obter uma experiência internacional e entre aqueles que são “compelidos” a aceitá-la. 2.3. O sucesso da expatriação Verificámos já que as expatriações são uma realidade na vida de muitas organizações. Envolvendo recursos ativos nas organizações, preocupações associadas ao sucesso ou insucesso das mesmas têm interessado académicos e gestores ao longo das últimas décadas. ! 11! ! O insucesso das expatriações poderá trazer, do ponto de vista organizacional, perda de negócios, diminuição da produção, além de causar dano nas relações com clientes, fornecedores ou autoridades locais. Do ponto de vista individual, o insucesso implica evolução negativa da carreira, perdas financeiras, bem como stress emocional, para o expatriado, bem como para a sua família (Avril e Magnini, 2007; 2009; Halopainen e Bjorkman, 2005; Hemmasi et al, 2010; Toh e DeNisi, 2005). Historicamente, o retorno antecipado tem sido utilizado como uma medida na apreciação do sucesso/insucesso de uma expatriação: voltar antecipadamente ao país de origem tem sido associado ao fracasso de uma missão internacional. Sendo, do ponto de vista organizacional, importante que uma determinada tarefa seja completada (Holopainen e Bjorkman, 2005), quando tal não acontece, custos significativos, tangíveis e intangíveis, podem incorrer, quer para a organização, quer para o próprio expatriado. Vários autores (Christensen e Harzing, 2004; Harzing, 1995; Hemmasi et al, 2010) têm perspetivado o retorno antecipado de maneira diferente. Desta forma, voltar antes da data prevista de término poderá não significar insucesso, bem como este poderá não ser evitado mesmo que o expatriado complete o seu destacamento. O regresso antecipado pode significar cumprimento antecipado dos objetivos, ou resultar somente de mudanças na estratégia corporativa e/ou local. É igualmente necessário distinguir os diferentes intervenientes presentes nesta relação: organização e indivíduos. Um regresso antecipado ao país de origem poderá significar insucesso na perspetiva da organização, mas não no ponto de vista do expatriado: se o expatriado receber uma melhor oferta de uma organização concorrente, sair antecipadamente poderá traduzir-se em sucesso. Se, por outro lado, ao colaborador destacado for solicitado o regresso antecipado porque não está a alcançar os objetivos previstos, do ponto de vista organizacional, este regresso pode revelar-se como sucesso, evitando mais custos. Um regresso antecipado pode, ainda, revelar-se como sucesso para ambas as partes, na medida em que se os objetivos propostos forem alcançados antes do término do destacamento, tal pode ser avaliado como sucesso, quer do ponto de vista da organização, quer do ponto de vista do expatriado. A transferência permanente, ! 12! ! a saída da organização pouco tempo depois da repatriação ou a recusa, logo à partida, de aceitar uma missão internacional poderão ser outras formas de insucesso (Hemmasi et al, 2010) O tema sucesso/insucesso de uma expatriação é também, frequentemente, avaliado através do ajustamento ou desajustamento do expatriado ao destacamento. Nesta abordagem, o retorno antecipado surge como um resultado desse desajustamento. O tema ajustamento permite perspetivar um outro denominador numa expatriação: a família. O retorno antecipado do expatriado do destacamento pode ser resultado de uma não adaptação do próprio e/ou família (cônjuge e/ou filhos) ao país de destino (Brett e Stroh, 1995; Harrison e Shaffer, 2005; Tung, 1987). Arthur e Bennett (1995) num estudo envolvendo 338 expatriados identificam cinco medidas para analisar o sucesso de uma expatriação, em que a medida situação familiar destaca-se na importância percecionada pelo expatriado, seguindo-se a flexibilidade/adaptabilidade, conhecimento da função/motivação, as competências relacionais e a abertura extra cultural. Reconhecendo a importância da adaptação do expatriado e sua família ao país de destino, e no sentido de facilitar esta mesma adaptação, as organizações têm apostado na formação, endereçada à cultura, geografia, clima e língua do país de destino, numa fase anterior à expatriação. Todavia, parecem negligenciar um outro facilitador do ajustamento: a organização local e os seus colaboradores (Toh e DeNisi, 2005). Sem o apoio e suporte dos colegas da empresa de destino, o expatriado poderá experienciar dificuldades acrescidas na sua adaptação ao trabalho e ao novo ambiente. Neste sentido, Toh e DeNisi (2005) propõem um conjunto de práticas aos gestores internacionais de recursos humanos no sentido de harmonizar o papel de expatriados e locais, aumentando a hipótese de sucesso numa missão. Foi já revelado no decorrer deste texto a existência de diferenças entre expatriados e organizações sobre as razões pelas quais aceitam uma expatriação e expatriam, respetivamente. Do ponto de vista do expatriado, sublinhámos a importância assumida da expatriação como forma de progressão da carreira e este detém, cada vez mais, um papel ativo na decisão sobre o futuro da sua carreira internacional. ! 13! ! Feldman e Thomas (1992) refletem sobre o facto de, ao existir uma perceção, por parte do expatriado, de uma ligação positiva entre a expatriação e o planeamento da carreira, haverá maior probabilidade de sucesso de uma expatriação. Acrescentam que a importância do planeamento de uma expatriação atendendo aos efeitos desta na carreira do indivíduo poderá ser tão importante como a preocupação com aspetos mais imediatos, como o treino linguístico e cultural. Segundo Cerdin e Le Pargneux (2009), o sucesso da carreira, para o expatriado, é um aspeto central, pelo que os autores propõem-se compreender de que forma as características de carreira influenciam o sucesso de uma expatriação, durante as fases de expatriação e repatriação, quer do ponto de vista individual, como também do ponto de vista corporativo. Neste sentido, sugerem que o sucesso pode ser medido, na perspetiva individual, através dos critérios de sucesso na carreira, que incluem satisfação com a carreira, promoção e aumento salarial; sucesso no trabalho, que pode ser definido como satisfação com o trabalho; sucesso desenvolvimental e desenvolvimento de uma rede de relações informal, ou seja, adquirir competências, aptidões e capacidades que se tornarão, no futuro, importantes para aumentar a sua empregabilidade. Do ponto de vista das organizações, apontam os critérios do desempenho, medida igualmente utilizada na avaliação do sucesso da expatriação (Caligiuri, 1997; Harzing e Christensen, 2004; Hemmasi et al, 2010); transferência de conhecimentos, um dos principais motivos para expatriar; rede de relações, como fonte de aumento de competitividade; e retenção do expatriado, medida fundamental, na perspetiva das organizações, para avaliar o sucesso de uma missão internacional. No seguimento desta proposição, tem sido prestada uma atenção especial ao turnover entre expatriados e repatriados (Lazarova e Cerdin, 2007; Yan, Zhu e Hall, 2002). Na continuidade, a literatura refere que uma política eficaz na gestão de expatriados falha, muitas vezes, na repatriação destes (Black, 1992; Caligiuri e Lazarova, 2001; Riusala e Suutari, 2000). Esta desatenção para com o momento da repatriação é sentida, com alguma frequência, pelos próprios expatriados/repatriados, que consideram ter adquirido diversas competências durante a sua missão internacional com valor acrescentado para a empresa mãe, tais como competências de tomada de decisão, competências de gestão, linguísticas, de conhecimento intercultural, bem como a criação de uma rede de relações ! 14! ! informal que podem mostrar-se de larga importância em diferentes momentos e que são claramente desaproveitadas pela empresa de origem. De facto, vários estudos, (Bolino, 2007; Hammer, Hart e Rogan, 1998; Stroh, Gregersen e Black, 1998) envolvendo repatriados, refletem a perceção de que a missão internacional tem, muitas vezes, um impacto negativo no desenvolvimento da sua carreira profissional. Com frequência, os repatriados regressam a um posto de trabalho com menor responsabilidade e autoridade, sentem-se insatisfeitos, situação que, no seu entender, espelha o grau de desvalorização da expatriação pelas organizações. Estes resultados são consistentes com a literatura que tem abordado o tema da repatriação e que revela a negligência continuada em termos de políticas e práticas de gestão de recursos humanos. Um planeamento frágil ou a sua não existência pode afetar o sucesso de uma expatriação (Christensen e Harzing, 2004; Feldman e Thomas, 1992; Tung, 1987). Em síntese, o sucesso da expatriação tem sido concebido, do ponto de vista das organizações, por algumas medidas avulsas como o cumprimento da duração da missão, o ajustamento no local de destino (pessoal e/ou familiar), o desempenho e, finalmente, o turnover. Do ponto de vista individual, tem sido atribuído menos importância ao modo como os expatriados (e respetivas famílias) avaliam o sucesso da expatriação, focando essencialmente aspetos associados ao ajustamento sociocultural e ao trabalho. Estas abordagens distinguem, basicamente, o sucesso objetivo do subjetivo (Feldman e Ng, 2007), o que se revela uma visão parcelar. Sendo a expatriação uma missão de longa duração que envolve o esforço e contributo de diversas partes interessadas, desde a empresa mãe à subsidiária de destino (incluindo chefias e colegas na origem e no destino), bem como o próprio expatriado, a família e as comunidades de origem e de destino, é natural considerar que o sucesso/insucesso da expatriação seja multifacetado. É igualmente plausível considerar que os motivos que conduzem os expatriados a aceitarem uma missão (como por exemplo, a compensação, progressão na carreira, entre outros), estejam igualmente subjacentes à apreciação e ao balanço que estes fazem do sucesso da missão. Por isso, este estudo explora as seguintes questões de investigação: ! 15! ! Quais as dimensões que os expatriados consideram relevantes para avaliação do sucesso de uma expatriação? Que dimensões utilizam outras partes interessadas, nomeadamente a família e a empresa de origem para avaliar o sucesso de uma expatriação, da perspetiva do expatriado? Qual a relação entre os motivos que levam o indivíduo a aceitar uma expatriação e as dimensões que os mesmos consideram para avaliar o sucesso da expatriação? ! 16! ! ! ! ! ! 23! ! Funções desempenhadas na empresa de destino Funções técnicas 5 Funções de gestão/administração 8 Quadro 1. Caracterização dos sujeitos Aquando do término do processo de categorização e codificação, obtivemos 12 categorias principais, como podemos ver no quadro síntese seguinte: Principais Categorias Descrição 1. Decisão de aceitar Que motivos levaram os sujeitos a aceitar uma expatriação. 2. Missão bem-sucedida Que dimensões os sujeitos consideram para avaliar a expatriação. 3. Missão bem-sucedida empresa Que dimensões os sujeitos consideram que as empresas utilizam para avaliar a expatriação. 4. Missão bem-sucedida família Que dimensões os sujeitos consideram que as famílias utilizam para avaliar a expatriação. 5. Competências de sucesso Competências técnicas e pessoais que os sujeitos consideram importantes para o sucesso da missão. 6. Conhecer objetivos à partida De que forma os sujeitos consideram importante para o sucesso da expatriação conhecer os objetivos antes de iniciar a expatriação. 7. Expectativas sobre a missão Quais são as expectativas para o final da expatriação. 8. Missão mal sucedida O que os sujeitos consideram que pode ou poderá acontecer, durante ou no final da missão, para que considerem que a expatriação não correu bem. ! 24! ! 9. Demonstração do sucesso pela empresa De que forma os sujeitos consideram que a empresa lhes pode demonstrar que a sua expatriação foi um sucesso. 10. Proposta adequada De que forma os sujeitos consideram que receber uma proposta que consideram adequada no final da expatriação traduz ou não o sucesso da missão. 11. Missão internacional De que forma os candidatos consideram que realizar uma missão internacional é importante para a carreira do sujeito. 12. Resultado em não ir na missão O que poderia ter acontecido se o sujeito não aceitasse a expatriação. Quadro 2. Principais categorias e sua descrição 4.2. Principais resultados Neste momento pretende-se analisar os resultados obtidos, pelo que se sugere a divisão em seis subdivisões de forma a melhor compreender os resultados: 4.2.1 Decisão de aceitar Quando questionados sobre porque motivo decidiram aceitar realizar uma missão internacional, 11 sujeitos responderam terem sido movidos pelo desafio: “(…) e foi por isso...e o desafio de vir para fora, para um sitio diferente...para mim foi apelativo porque eu gosto muito de viajar e gosto muito de andar de um lado para o outro e foi mais essa a razão que me fez aceitar.” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) “He...aceitei em primeiro lugar porque era um desafio muito aliciante...porque na prática isto acontece uma vez na vida...portanto...construir um Banco do...do nada...he...é uma coisa rara...portanto (sorriso)” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) ! 25! ! A progressão na carreira foi outro motivo que leva os entrevistados a aceitarem uma expatriação: “Ah... Aceitei porque representou para mim uma oportunidade de progredir na carreira e... e de vir a desempenhar funções ao nível de diretor executivo, o que equivale a um administrador de uma empresa ou do banco aí em Portugal.” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) “Porque o desafio era grande, ah … era também uma promoção. Eu no banco faço parte da alta direção, mas o banco é muito grande, é muito divisionado, não é, e então aqui, eu vi que podia ter uma carreira mais, digamos, com mais responsabilidades. Foi por isso que aceitei o desafio.” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) O desejo de viajar, o motivo financeiro, o facto de ser uma oportunidade única e ainda a motivação familiar são razões apontadas pelos entrevistados como responsáveis pelo facto de aceitarem uma expatriação. “(…) o desafio de vir para fora, para um sitio diferente...para mim foi apelativo porque eu gosto muito de viajar e gosto muito de andar de um lado para o outro e foi mais essa a razão que me fez aceitar.” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) “Foram vários fatores: o financeiro, obviamente, porque a proposta acaba por ser melhor (…)” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) “ha...segundo, porque eu estou numa área que é muito nova aqui, tenho um mercado totalmente novo, em que está tudo a crescer do zero, portanto eu acho que isso é uma oportunidade única e (...)” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) “Depois mesmo em termos familiares eu achei que mesmo para os meus filhos seria uma experiência muito boa e enriquecedora...he...eles também poderem estudar no estrangeiro he...e abrir novos horizontes que estudar só em Portugal com certeza que também poderiam atingir mas que não seria tão simples de atingir como eles atingiram não é he...(pausa)...conhece-se outras culturas, outras maneiras de ser, conhece-se ! 26! ! pessoas de todo o mundo he...e isso abre horizontes pessoais e profissionais que são muito aliciantes.” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) Dois entrevistados mencionaram terem sido coibidos a aceitar e um único entrevistado revelou que o clima foi um fator que o levou a aceitar. “(…) quando o administrador convida alguém, assume que a pessoas aceita, não é? (risos) Em primeiro lugar é difícil dizer não, mas por outro lado eu nessa altura tinha uma boa ascensão e achava que estava a atingir um nível que era difícil subir mais. Está a ver?” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) “(…)e porque... o tempo também é bom, ah... e todos esses fatores ajudaram a tomar a decisão.” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) 4.2.2 Missão bem-sucedida Para uma melhor compreensão das dimensões do sucesso de uma expatriação juntaramse as seguintes seis categorias, versando dimensões de sucesso: missão bem-sucedida, missão bem-sucedida para a empresa, missão bem-sucedida para a família, competências de sucesso, conhecer os objetivos à partida e expectativas no final da missão. No que respeita às dimensões que emergiram quando os participantes foram questionados sobre “O que é para si uma missão bem-sucedida?”, dez respondentes referiram a integração como importante para uma expatriação bem-sucedida: “(…) naturalmente que aqui também há algumas questões do domínio mais pessoal que é nós conseguirmos de alguma forma uma...ha...vamos chamar-lhe assim...uma aculturação...trata-se sempre de uma cultura diferente...trata-se sempre de uma forma diferente de fazer as coisas...trata-se sempre de uma atitude para com o trabalho diferente daquela que nós conhecemos...os países são diferentes...não dramaticamente diferentes ha...e este ajustamento...esta forma de entender as pessoas com quem trabalhamos e de alguma forma perceber o que é que as motiva, o que é que as faz correr, de que forma é que podemos contar com a sua humildade e confiança...ha...é ! 27! ! também, se quiser, um parâmetro para uma missão bem sucedida...é assim que eu vejo uma missão bem sucedida.” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) “obviamente ajudar a empresa, mas também temos que procurar conseguir distrações, temos também que conseguir sair da empresa porque não pode ser estarmos no estrangeiro, segunda a domingo 24 horas por dia. E isso também se tem conseguido, temos conseguido criar algumas saídas com a população daqui, alguns convívios, algumas distrações … ah … e isso também é importante para conseguirmos mantermonos pelo tempo que estamos cá longe da família e etc, etc.” (Expatriado em Moçambique, exercendo funções de gestão/administração) “(…) e portanto é fundamental a adaptação...não só nossa como também da família...é importante que a família também...(no caso dela existir não é...de sermos casados e termos filhos...eventualmente...) que nos acompanhe...acho que isso é um fator também muito importante...para a estabilidade das pessoas e para...para que a adaptação seja mais simples...” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) Cumprir objetivos, uma subcategoria inserida, por sua vez, numa subcategoria denominada realização profissional, é mencionada por sete entrevistados: “Sim sem dúvida...os objetivos que me propuseram estão a ser cumpridos...ha...eu penso...pelo menos isso é o que eu sinto...se efetivamente sou ou não sou bem sucedido...acho que só os resultados no final de cada ano e uma avaliação de desempenho por parte das pessoas a quem faço o report é que o poderão demonstrar...mas eu particularmente...eu sinto-me bem sucedido.” (Expatriado em Moçambique, exercendo funções de gestão/administração) “Uma missão bem-sucedida é sempre cumprir os objetivos. Estabelece-se os objetivos e você cumpre-os, se não, não é bem-sucedida! (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) Cerca de metade dos entrevistados (seis) mencionaram o facto de uma expatriação ser bem-sucedida quando existe uma superação individual: ! 28! ! “Uma missão bem-sucedida é quando os objetivos que foram definidos inicialmente e o plano que foi estabelecido é...consegue-se concretizar de forma a que se consegue concretizar os objetivos definidos dentro dos timings que foram também estabelecidos não é… e será bem sucedido...muito bem sucedido superarmos isso...tudo o que não seja isso é mal sucedido (sorriso)...” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) “Ou não fizeram a diferença, está a ver?! Eram mais um e nós temos que fazer a diferença é para isso que o expatriado vai trabalhar para esse país: fazer a diferença. Para ser igual não vale a pena ter um expatriado que fica mais caro do que um local … tem que fazer a diferença e isso às vezes não é percetível … e tem que conseguir trabalhar, integrar-se na empresa … e às vezes isso não é fácil.” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) “Missão bem sucedida?...(sorriso)...(pausa)...uma missão bem sucedida é quando nos superamos...quando nos igualamos não é uma missão bem sucedida...é quando nos ultrapassamos.” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) Entre os entrevistados, cinco referiram o reconhecimento, quer pelos pares, quer pela chefia, na empresa de origem como forma de avaliarem com sucesso uma missão: “Porque ganhei o meu espaço. Sou conhecido, sou … o pessoal dá-se bem comigo, dou-me bem com o pessoal, tenho o meu grupo de amigos … eh … profissionalmente acho que sou, sou, é pa é assim, sabem o que eu trabalho e reconhecem o meu valor e isso aí deixa-me satisfeito.” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) “(…)e ter toda a gente animada e contente e satisfeita de estar a trabalhar aqui...e comigo...acho que tenho orgulho nisso...ter as pessoas que trabalham comigo contentes, animadas e felizes.” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) Outro critério de medida de avaliação do sucesso pelo próprio relaciona-se com a satisfação pessoal e profissional: ! 29! ! “Eu acho que… para mim tem a ver com a satisfação pessoal e profissional… se respondeu, se superou ou se… ou se… se se espantou com aquilo que fez. Para mim é isso!” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) Quando questionados sobre “Como é que considera que a sua empresa avalia o sucesso da missão?”, os entrevistados destacaram o cumprimento de objetivos (quase sempre numéricos) e dinheiro: “Ha...falámos de objetivos...falámos de coisas concretas a atingir...ha...ha...projectos concretos a concluir...e portanto é conferir se eles foram...é tão simples quanto isto...,é conferir se foram atingidos ou não...e trata-se de resultados, nalguns casos numéricos, noutros um pouco mais qualitativos, e é uma questão de conferir se foram atingidos ou não...é tão simples quanto isto...” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) “Ter um resultado positivo no final de cada período...os acionistas esperam não é...ter resultados...ou um retorno periódico pelo investimento que estão a fazer aqui.” (Expatriado em Moçambique, exercendo funções técnicas) Aos entrevistados foi igualmente perguntado o que a família considera uma missão bem-sucedida, tendo-se destacado as dimensões como desempenho e desafogo financeiro: “Agora, com a minha mulher partilho com ela aquilo que é o meu desempenho e a realidade do meu desempenho e ela partilha comigo esses mesmos objetivos...” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) “Muito pela experiência que tenho cá fora e obviamente que conhecem o estado que está em Portugal e que faz todo o sentido estar num sítio onde se consiga poupar mais, também é por aí... acho que a minha família pensa muito por aí...” (Expatriado na Polónia, exercendo funções técnicas) Dois sujeitos evidenciaram o ajustamento como uma dimensão de sucesso perspetivada pela família: ! 30! ! “(…) mas para a família é sobretudo a capacidade de nos ajustarmos a uma realidade distinta, de nos aculturarmos, de sabermos o caminho para o supermercado, de conhecermos...ha...enfim...um conjunto de pessoas...e depois sentirmo-nos aqui, não digo na nossa casa, mas como em casa...portanto eu diria que o sucesso passa também por este sentimento de que de alguma forma estamos aqui bem integrados, com grupos locais, com atividades locais, com uma vida normalizada ha...enfim...” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) A satisfação pessoal e profissional surge igualmente como uma dimensão importante para a família: “Para a minha família...eu acho que principalmente na minha família...para o meu pai é eu estar bem...desde que eu esteja bem que goste do que estou a fazer...ta tudo bem para ele...em termos da minha família..” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) No decorrer da entrevista evidenciou-se o que denominamos competências de sucesso, na medida em que cinco entrevistados mencionaram a importância de possuir determinadas competências, no sentido de promover o sucesso da missão, entre as quais se destacam a integridade, a estabilidade emocional, a adaptabilidade e humildade: “E a parte da pessoa, não é!? A pessoa tem que ter caráter, ser honesto, ter de facto bons princípios, bons valores porque especialmente na Grécia que tem alguns problemas de corrupção.” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) “Hum... Pode... Como é que eu hei de explicar...? ha... a aceitação da diferença por exemplo, ha... a forma como temos de lidar com algumas situações que acontecem diariamente e aqui acontecem coisas que não aconteceriam noutro lado... ha... aqui tudo é possível acontecer! E é preciso ter uma personalidade que permita encarar a situação, não desesperar, por exemplo, ou... não se enervar facilmente, conseguir gerir o dia-a-dia de uma forma saudável e... eu não acho que seja qualquer pessoa que, primeiro, consegue emigrar e depois consegue fazê-lo aqui em Angola. Uma das coisas que dizemos por aí é que... uma vez vivendo em Angola, conseguimos ir para qualquer ! 31! ! outra parte do mundo que será fácil de viver!” (Expatriado em Angola, exercendo funções de gestão/administração) “Genericamente tem de ter a capacidade de não ter resistência à mudança, primeiro; ter capacidade de se adaptar, de ler bem a realidade e cultura dos países para onde você vai, ser humilde para perceber um bocadinho, ter a humildade para perceber a realidade local, mas por outro lado tem de perceber, principalmente se for para uma função de topo, o expatriado é o quadro mais caro que você tem numa empresa, ok, porque isto implica uma série de custos associados às empresas.” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) Durante a entrevista interrogou-se os entrevistados sobre se, conhecer à partida os objetivos da expatriação, pode afetar o sucesso da missão. Grande maioria dos entrevistados responderam afirmativamente à questão: “Ha só pode simplificar o sucesso da missão, nós ao concluirmos o que temos de fazer, enfim...dentro de um contexto que é o nosso conhecimento de então e conforme nos preparamos...ou se não conhecemos de todo...portanto eu acho que sim...acho que de todas as maneiras é o que pode ajudar a assumir o desafio.” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) “Acima de tudo dá-nos uma visão clara do que é ter sucesso e do que é não ter sucesso...ha...quando nos dão um objetivo no início dessa missão...nós conseguimos concretizar...temos a noção de que o objetivo foi feito...foi atingido...ha...sentimos que...que...efetivamente tivemos sucesso naquilo a que nos propusemos não é...quando nos traçam um objetivo que é uma linha orientadora para aquilo que vamos trabalhar durante esse período de expatriação...e...chegado o final ou o fim do período de expatriação e não atingirmos esse objetivo obviamente...o sucesso não é o mesmo não é...portanto isso acho que é fácil...se temos um objetivo claro de perseguir...temos é de fazer o caminho não é.” (Expatriado em Moçambique, exercendo funções de gestão/administração) ! 32! ! Da análise dos dados obtidos, quatro sujeitos revelaram não conhecer antecipadamente os objetivos a alcançar. Estes resultados permitem antecipar que, apesar de facilitar o sucesso da expatriação, o facto de não se conhecer não é, à partida, indicador que não se conseguirá, conforme deixa perceber o exemplo seguinte: “(…)seria realmente difícil, não conseguir obter da parte de quem tomou a iniciativa de quem decidiu avançar para o estrangeiro, seria bem mais complicado, não quer dizer que não se conseguisse, mas seria bem mais complicado não ter objetivos bem definidos e vir um bocadinho para o desconhecido... (…)” (Expatriado Moçambique, exercendo funções de gestão/administração) No que respeita o que esperam os entrevistados no final da missão destaca-se o reconhecer, que pode ser verbal, através de uma nota de apreço: “uma nota de apreço por parte da minha empresa e essa nota de apreço pode ter sabores distintos...ha...se eu voltasse amanhã...nos tempos que correm..dificilmente uma promoção financeira estaria no horizonte...as coisas não funcionam assim não é...não é tempo disso não é...” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) “era um bom reconhecimento...não seria necessário ser algo deste género...pode ser uma questão de uma conversa...de haver...acho que isto falta muito nas empresas...do reconhecimento, da palmadinha nas costas...às vezes quase que basta uma palmadinha nas costas...uma palmadinha nas costas sabe bem para quem está aqui longe...e já é um bom reconhecimento de que a pessoa que aqui está se esforça.” (Expatriado em Moçambique, exercendo funções de gestão/administração) Que pode antever uma progressão na carreira: “Ah... mas estou à espera que haja um reconhecimento ao nível da colocação. Estou na expectativa que seja superior àquela que eu deixei quando vim para aqui.” (Expatriado na Polónia, exercendo funções técnicas) ! 39! ! Capítulo V Discussão dos resultados, conclusões e implicações ! ! ! 40! ! 5.1 Discussão dos resultados De acordo com os resultados revelados no capítulo anterior, e atendendo ao objetivo do presente estudo, nesta fase procura-se evidenciar os principais aspetos emergentes, enquadrando-os com a bibliografia existente sobre o tema. Desta forma, discutir-se-á os resultados de acordo com as questões de investigação previamente formuladas. Quais as dimensões que os expatriados consideram relevantes para a avaliação do sucesso da expatriação? Relembra-se, nesta altura, que, historicamente, as seguintes medidas têm sido utilizadas para avaliar o sucesso de uma expatriação: o cumprimento da duração da missão, o ajustamento, o desempenho e, mais recentemente, de que forma uma expatriação poderá ser positiva para a carreira profissional do indivíduo (Cerdin e Le Pargneux, 2009; Feldman e Thomas, 1992; Hemmasi et al, 2010; Tung, 1987). Os dados obtidos através das verbalizações dos entrevistados, e no que respeita à dimensão da integração, vai de encontro ao verificado na literatura existente sobre o tema. De facto, os participantes evidenciaram a integração como dimensão importante para avaliar o sucesso da expatriação. Em alguns depoimentos deixa antever essencialmente que o sucesso se torna difícil sem uma adaptação eficaz: “Ahh... Para ser bem-sucedida? Para já termos uma boa amizade e bons colegas de equipa para não nos sentirmos isolados, isso é o primeiro objetivo. Muitas pessoas que querem sair de cá é porque se isolam, porque... não conseguem arranjar amigos ou não têm um bom ambiente de trabalho, isso antes de mais.” (Expatriado na Polónia, exercendo funções técnicas) “Do ponto de vista profissional até.... até.... não ponho sequer em causa as competências profissionais das pessoas mas é certo que isso não for acompanhado de uma certa abertura que permita também uma adaptação não só profissional mas social nos meios diferentes onde as pessoas se inserem, as coisas podem correr mal ou podem não ser tão bem sucedidas.” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) ! ! 41! ! A superação individual é uma dimensão na avaliação do sucesso de uma expatriação que parece bastante interessante e que surgiu com alguma frequência entre as verbalizações dos entrevistados. A necessidade de “fazer a diferença”, ser algo mais, deixar algo mais permite antever a importância atribuída pelos desta dimensão para avaliar o sucesso de uma expatriação: “Ou não fizeram a diferença, está a ver?! Eram mais um e nós temos que fazer a diferença é para isso que o expatriado vai trabalhar para esse país: fazer a diferença. Para ser igual não vale a pena ter um expatriado que fica mais caro do que um local … tem que fazer a diferença e isso às vezes não é percetível…” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) “Resultados positivos para mim é sempre superar os objetivos...não igualá-los...isso não são positivos...é superar....eu conseguir dar muito dinheiro à empresa...eu conseguir poupar tudo...” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) No decorrer da revisão da literatura efetuada, este é um parâmetro que aparece omisso. Uma outra dimensão que aparece na análise dos resultados prende-se com a importância do reconhecimento, entre os pares e da empresa de origem. Esta dimensão social, apesar de não ser conhecida entre os estudos realizados e, até ao momento, visualizados como medida aquando da investigação do tema sucesso/insucesso de uma expatriação, é possível mencionar o facto de alguns autores terem já salientado a importância do papel dos colegas de trabalho e empresa de destino como facilitadores na adaptação ao novo ambiente de trabalho e geral (Toh e DeNisi, 2005). De facto, de acordo com o apurado através da análise dos resultados, perceber que os seus pares e empresa de origem reconhecem o trabalho realizado parece ser uma dimensão de avaliação do sucesso de uma expatriação: “O nível da satisfação das minhas equipas é muito elevada, apesar de eu ser muito exigente. E… tem sido manifestada recorrentemente a confiança do conselho de administração do banco no que eu tenho feito, no resto da equipa. Definitivamente estará a funcionar. Aliás, nesta realidade se não estivesse, já cá não estaria.” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) ! 42! ! “(…) através da solicitação de trabalho, de recorrerem a mim já em situações mais críticas por ser capaz de as resolver... se calhar há um ano atrás, ou não, se calhar as resolveria também... ou por saber que o meu trabalho está a ser reconhecido e, isso, para mim, vale de muito.” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) Este subtema, reconhecimento, aparece recorrentemente ao longo da apresentação e análise de resultados. Quando questionados os entrevistados sobre o que consideram ser uma missão mal sucedida, a ausência de reconhecimento emerge como a segunda dimensão mais falada, logo a seguir à distância da família e não cumprimento dos objetivos. Este resultado parece ir de encontro à literatura existente sobre o tema de sucesso/insucesso na repatriação. Alguns autores que se dedicaram à compreensão do tema repatriação (Adler, 2002; Bolino, 2007; Christensen e Harzing, 2004; Feldman e Thomas, 1992; Hammer et al, 1998; Stroh et al, 1998; Tung, 1987) têm evidenciado o descontentamento generalizado dos expatriados aquando do seu retorno, que, no seu entender, sofrem de políticas frágeis e ineficazes de repatriação. Cumprir objetivos foi igualmente outro parâmetro para avaliação do sucesso de uma expatriação que emergiu da análise dos resultados. Este resultado poderá ser de fácil compreensão se se atentar à qualidade de expatriado dos participantes, ou seja, estes experienciam uma missão internacional, de longa duração, iniciada e financiada pela empresa de origem. Subsiste, então, um referencial distinto para o expatriado, sendo este a própria organização. Pelo que é possível verificar através de alguns depoimentos esta linha que orienta os expatriados na sua missão é bastante clara, esta linha orientadora é a sua empresa de origem: “Bem...isso é fácil...uma missão bem sucedida é quando atingimos os objetivos que nos propõem no início da missão e no início desta missão propuseram-me objetivos claros...e foi só seguir a linha de orientação desses objetivos e concretizálos...acontecendo isso...portanto...o sucesso é garantido, não é?” (Expatriado em Moçambique, exercendo funções de gestão/administração) Da averiguação efetuada da literatura existente sobre o tema em estudo esta dimensão parece ser algo a explorar com maior detalhe e atenção, até pela sua simplicidade, pelo que poderá justificar o facto de aparecer omissa na literatura analisada. ! 43! ! No sentido de melhor compreender a importância atribuída a este parâmetro pelos entrevistados e atendendo ao interesse existente na literatura sobre cumprir objetivos, os participantes foram indagados sobre se consideram o facto de saber à partida quais os objetivos que são esperados no destino poderá interferir com o sucesso da expatriação. Os resultados do presente estudo revelam que há uma convergência quanto a considerar existir um efeito positivo no sucesso da expatriação se se souber previamente os objetivos que devem ser alcançados: “É muito importante! Porque assim não sobram dúvidas e... vir numa situação dúbia, como a minha, em que não foi bem claro em termos de objetivos e determinadas funções, acabei por fazer muito mais do que era suposto e isso acaba por desgastar uma pessoa.” (Expatriado em Angola, exercendo funções técnicas) O mencionado anteriormente sobre o facto de se conhecer de antemão os objetivos facilitar, mas não ser imprescindível para o sucesso da expatriação, poderá estar relacionado com o facto de os participantes verbalizarem e valorizarem um conjunto de competências técnicas, pessoais e sociais para o sucesso da expatriação: “O perfil de uma pessoa...as suas características pessoais também têm um papel importante na escolha de qual é a melhor pessoa para um determinado cargo porque isso tem um contexto...não é apenas a experiência pessoal na minha opinião...é um conjunto das duas...é a melhor combinação possível das duas coisas.” (Expatriado na Grécia, exercendo funções de gestão/administração) Que dimensões utilizam outras partes interessadas, nomeadamente a família e empresa de origem, para avaliar o sucesso de uma expatriação, da perspetiva do expatriado? Atendendo à inevitabilidade da envolvência de outras partes numa expatriação e, considerando a importância em revelar-se sobre que medidas estas utilizam para avaliar o sucesso de uma expatriação, os participantes foram convidados a mencionarem quais são, na sua opinião, as dimensões usadas pela sua empresa de origem e família na avaliação do sucesso da missão. ! 44! ! Ao serem observados os resultados obtidos e no que respeita ao que a empresa considerará medidas de avaliação de sucesso da expatriação, há, claramente, uma vinculação ao cumprimento de objetivos e dinheiro. Aparece, pois, um conjunto de razões circunscritas e que se afastam de outras dimensões, mais pessoais e sociais, e que os entrevistados mencionaram como importantes medidas de avaliação do sucesso da missão, como a integração, a superação individual ou o reconhecimento. Tais resultados parecem salientar um fraco ajustamento das perspetivas da organização e do indivíduo. Talvez este desencontro entre expectativas corporativas e individuais possa acarretar alguns dissabores à própria expatriação, independentemente do ponto de vista, se da organização, se do indivíduo. Alguns autores evidenciaram, aliás, a existência de consequências negativas quer para as organizações, como perda de negócios, diminuição da produção, além de causar dano nas relações com clientes, fornecedores ou autoridades locais, quer para os indivíduo, associando à evolução negativa da carreira, perdas financeiras, bem como stress emocional, para o expatriado, bem como para a sua família (Avril e Magnini, 2007; 2009; Halopainen e Bjorkman, 2005; Hemmasi et al, 2010; Toh e DeNisi, 2005). Na continuidade tentou-se compreender, igualmente, que dimensões os sujeitos consideram que as suas famílias utilizam para avaliar o sucesso de uma expatriação. Partindo do facto que, por um lado, por definição, uma expatriação poderá acarretar a mudança da família para o local de destino; por outro lado, que os investigadores têm associado o ajustamento, ou não ajustamento do expatriado, e possível retorno antecipado, como resultado de uma não adaptação do cônjuge e/ou filhos ao país de destino (Brett e Stroh, 1995; Harrison e Shaffer, 2005; Tung, 1987) considera-se pertinente tentar perceber o que acham os expatriados sobre como a família avalia a expatriação, independentemente se se fazem ou não acompanhar durante a missão. O desempenho do expatriado, seguido pelo desafogo financeiro e ainda o ajustamento são as dimensões mais relevantes emergidas dos dados obtidos. Considerando os dados alcançados no presente estudo, estas dimensões parecem estar convergentes com os próprios propósitos dos participantes, ou seja, as dimensões que eles utilizam para avaliar o sucesso de uma expatriação parecem confundir-se com o que acham que a família também faz, como podemos perceber através do seguinte ! 45! ! exemplo: “É assim: com a minha mulher... com as minhas filhas, são bastante novas, não tenho conversas em muito detalhe sobre isso, não é. Agora, com a minha mulher partilho com ela aquilo que é o meu desempenho e a realidade do meu desempenho e ela partilha comigo esses mesmos objetivos...” (Expatriado na Roménia, exercendo funções de gestão/administração) Esta convicção é reforçada pela dimensão satisfação pessoal e profissional evidenciada pelos expatriados como uma medida de aferição do sucesso e que replica no caso da família. De forma a melhor compreender estes resultados será bastante interessante saber, na primeira pessoa, o que considera a família sobre o sucesso da expatriação, permitindo um conhecimento aprofundado do tema em questão. Qual a relação entre os motivos que levam o indivíduo a aceitar uma expatriação e as dimensões que os mesmos consideram para avaliar o sucesso da expatriação? Seria congruente e fácil de compreender a visualização que as dimensões de sucesso de uma expatriação resultassem em função dos motivos que levam os indivíduos a aceitar uma missão de longa duração. De forma a melhor compreender as relações existentes entre motivos e dimensões de sucesso evidenciadas no presente estudo será preciso reforçar a ideia subjacente ao longo dos resultados e que parece orientar o modo de pensar dos participantes: persiste um referencial, o referencial da organização, que orienta os entrevistados. De acordo com os dados obtidos, a decisão de aceitar acarreta uma forte componente profissional: o desafio (altamente associado ao desafio profissional) e a progressão na carreira. O cumprimento de objetivos reforça igualmente a mesma ideia, aparecendo na continuidade. O interesse adensa-se quando os expatriados acrescentam a dimensão reconhecimento nas dimensões referenciadas como de avaliação do sucesso de uma expatriação. Atendendo que um dos principais motivos evidenciados na literatura e igualmente corroborados no presente estudo indicam a progressão na carreira como um dos fatores ! 46! ! que levam um indivíduo a aceitar uma expatriação, parece que a emergência do reconhecimento como uma dimensão na avaliação de uma expatriação é bastante lógica. Acrescentando que o reconhecimento através de uma possibilidade de progressão na carreira surge igualmente como uma possível forma de a empresa demonstrar aos expatriados, que a sua expatriação havia sido bem-sucedida, como se verificou no capítulo anterior, este resultado parece consistente com o facto de o reconhecimento aparecer como uma dimensão na avaliação do sucesso de uma expatriação, já que o que os participantes pretendem, quando aceitam uma expatriação, é progredir na sua carreira. Assim, obter tal intento e vê-lo como reconhecimento da organização, parece consistente e lógico. Na continuidade, surgiu a intenção de compreender o que pensam os entrevistados sobre a relação experiência internacional e carreira profissional, ou seja, se há um efeito positivo de sucesso na carreira de quem tem uma experiência internacional. Os dados obtidos através da verbalização dos entrevistados não é convergente num mesmo sentido, na medida em que há um equilíbrio sobre o que pensam sobre esta matéria: metade considera que uma carreira internacional não significa sucesso de uma carreira profissional, enquanto a outra metade opina de forma contrária. Todavia, não podemos deixar de questionar o seguinte: atendendo que um dos motivos para aceitar uma expatriação é a vontade de progredir na carreira; que um reconhecimento da empresa de origem através da progressão da carreira é o que esperam e consideram adequado após terem estado numa expatriação, porque é que, metade dos entrevistados, revelam alguma relutância em considerar que uma experiência internacional possa ser benéfica no que respeita à progressão de carreira individual? Tal poderá ser resultado de uma alteração, ao longo da missão, das expectativas sobre a expatriação ou ainda porque conscientemente o que esperam ou gostariam nem sempre se poderá concretizar, talvez associado a esta crise económicofinanceira em que vivemos, como podemos antever da seguinte verbalização: “ah… infelizmente não muitas. Podia obviamente aqui pedir aumentos e assim, mas já sei que com Portugal nesta crise vai ser muito difícil obter esse tipo de reconhecimento, por isso se deixarem rolar as coisas como estão neste momento, onde não temos ! 47! ! grandes críticas, penso que seja bom.” (Expatriado na Polónia, exercendo funções técnicas) Esta linha de pensamento parece ser congruente com o facto de os participantes revelarem que, receberem ou não uma proposta que considerem adequado no final da expatriação, não traduz o sucesso ou o insucesso da expatriação, respetivamente. Estes resultados poderão ainda justificar-se com uma convicção entre os expatriados de que algumas carreiras internacionais têm origem na necessidade de afastar alguém mais do que na necessidade de usar o seu talento, como alguém disse: “(…)temos muitos exemplos de um lado e do outro, temos a nível internacional carreiras bem sucedidas como também temos exemplos que saíram de Portugal, pediram para sair de Portugal ou precisaram de sair de Portugal ou precisaram de sair do meio e se calhar com carreiras bem sucedidas (…)” (Expatriado em Moçambique, exercendo funções de gestão/administração) 5.2 Conclusões Na tentativa de responder aos objetivos de investigação foi levado a cabo um estudo exploratório que permitiu investigar e compreender um pouco o sucesso/insucesso de uma expatriação, do ponto de vista dos indivíduos diretamente envolvidos. Enquanto algumas medidas de avaliação do sucesso de uma expatriação evidenciadas pelos sujeitos vão de encontro ao existente na bibliografia sobre o tema, nomeadamente a integração/ajustamento e o cumprimento de objetivos, outras dimensões salientaramse entre os resultados obtidos, designadamente a superação individual e o reconhecimento, permitindo-nos desta forma alargar o conhecimento sobre que medidas os sujeitos valorizam na apreciação de uma expatriação bem-sucedida. O recorrente aparecimento em diferentes categorias de análise da dimensão reconhecimento, claramente social, obriga-nos à sua evidência. De facto, os entrevistados utilizam esta medida não apenas para aceder à avaliação do sucesso de uma expatriação, mas também a incluem como uma das formas de manifestação por parte da organização do sucesso da expatriação. A ausência de um reconhecimento, da ! 48! ! parte da empresa de origem, poderá ser um motivo de perceção de uma expatriação mal sucedida e, ainda, o reconhecimento como resultado no final da expatriação, através de uma progressão na carreira. Por outro lado, a progressão na carreira é claramente um antecedente e um resultado de uma expatriação. Esta assume-se como um dos motivos para aceitar uma expatriação, presente na literatura e confirmado pelos resultados obtidos no presente estudo, e, ao mesmo tempo, é algo que deve igualmente resultar no término da expatriação, embora estes reconheçam que a sua caracterização depende de outras variáveis além do sucesso. Esta conclusão reforça a importância da progressão da carreira para o indivíduo que experiencia uma expatriação. Cada vez mais, a carreira profissional de um indivíduo depende de si e dos seus interesses e projetos futuros e cada vez menos dos interesses e preocupações de uma única organização. A diluição de fronteiras entre Estados, fomentada pela evolução de transportes e comunicações, promove a globalização não só de produtos e serviços, mas igualmente de pessoas, sendo a transferência permanente como uma estratégia na política internacional de recursos humanos, conclusão esta que parece ir de encontro ao facto de no GMAC (2012) a localização (transferência permanente). A perceção dos sujeitos no que respeita às medidas utilizadas pelas empresas na avaliação do sucesso de uma expatriação revelam-se circunscritas a duas modalidades, nomeadamente o cumprimento dos objetivos e a parte financeira, deixando antever algum desfasamento no que respeita a interesses de indivíduos e organizações, já que, de forma explícita, neste estudo, foram evidenciadas mais medidas utilizadas pelos sujeitos para avaliar uma expatriação. O que a família parece pensar sobre as dimensões de sucesso de uma expatriação diluise entre os motivos financeiros, o desempenho, o ajustamento e a satisfação pessoal e profissional. Há, claramente, uma ênfase na necessidade de os familiares “sentirem” que os seus estão bem, mesmo estando longe de casa, independentemente se estão ou não acompanhados pelas suas famílias. Sair da zona de conforto que é a sua cidade, o seu país, parece só fazer sentido se há um ganho efetivo na deslocação, seja ele monetário ou de satisfação, no trabalho, ou pessoal. ! 55! ! Harrison, D. A. e M. A. Shaffer (2005), “Mapping the criterion space for expatriate success: taskand relationship-based performance, effort and adaptation”, Journal of Human Resource Management, Vol. 16, Nº 8, pp. 1454-1474. Harvey, M. e M. Moeller (2009), “Expatriate managers: a historical review”, International Journal of Management Reviews, Vol. 11, Nº3, pp. 275-296. Harzing, A. 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Anexo 1: Guião de Entrevista Guião de Entrevista • Idade • Estado Civil • Agregado familiar: foi ou não acompanhado? Logo desde o início, ou não? Como Foi? • Antiguidade na Empresa de origem • Antiguidade na empresa de destino • Duração da missão • Duração inicial da missão • Função/tarefas na empresa de origem • Função/tarefas na empresa de destino A ida: Ø Ainda se recorda como foi realizado o convite? Ø Porque acha que foi escolhido para a missão? Ou, porque resolveu candidatar-se a esta missão? Ø Na altura, porque aceitou? Se soubesse o que sabe hoje, voltaria a aceitar? Porquê? Recomendaria a outros? Porquê? A missão: Ø Como avalia a sua missão? Ø O que é para si uma missão “conseguida” ou “bem sucedida”. Porquê? Que outros colegas na mesma empresa foram bem sucedidos. O que é isso de “ser bem sucedido internacionalmente, ou na sua empresa”? Porquê? Porque valoriza…. Avaliação da missão: Ø Sabia os objectivos a atingir? Sabia o que o esperava profissionalmente no destino? Como? Como criou essa ideia precisa do que havia a fazer? Isso é/foi ! 61! ! importante para avaliar a missão? Como? Porquê? O que sucederia se não tivesse sabido (ou a inversa – o que teria sido diferente se soubesse?) Foi-lhe dito claramente o que era esperado de si? Ø Como avalia a sua experiência nesta missão? Porquê? Ø Diz-se que as pessoas com carreiras internacionais são mais bem sucedidas. O que acha? Porquê? Ø O que teria sucedido se não tivesse aceite? Porquê? Ø Estaria melhor ou pior, se não tivesse ido? Porquê? Ø Como é que acha que a sua empresa avalia o sucesso da sua missão? Ø Como é que acha que a sua família avalia o sucesso da sua missão? Ø O que espera obter no final desta missão?