Do lugar à obra: cinco equipamentos desportivos portugueses
Abstract
A presente tese pretende estudar a relação entre obra e lugar, nos equipamentos desportivos portugueses - estádios de futebol. Propõe-se através de uma análise do desenho de cinco equipamentos desportivos portugueses, procurar compreender e aprofundar o diálogo topomorfológico na interpretação do significado do lugar como tema principal de desenho. Analisar-se-á o Estádio Nacional do Jamor, Lisboa (1944), o Estádio 1º de Maio, Braga (1950), o Estádio do Restelo, Lisboa (1956), o Estádio Municipal de Guimarães, Guimarães (1965), e o Estádio Municipal de Braga, Braga (2003) a partir de uma grelha, de análise, que estruture os temas a estudar.
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DO LUGAR À OBRA CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES DISSERTAÇÃO DE MESTRADO | FAUP 2012/2013 JOSÉ JOÃO PADRÃO CRUZ DIAS MENDANHA SOB ORIENTAÇÃO DO PROFESSOR DOUTOR HELDER CASAL RIBEIRO
SUMÁRIO 5 Agradecimentos 7 Resumo 9 Abstract 11 Introdução 15 Lugar 17 Lugar e Espaço 21 RelaçãoeIdentidade 23 Construir e Habitar 25 Envolvente e Paisagem 29 Obra 31 Estádio Nacional 51 Estádio 1º de Maio 71 Estádio do Restelo 91 Estádio Municipal de Guimarães 113 Estádio Municipal de Braga 133 Considerações Finais 141 ReferênciasBibliográficas 145 Lista de Imagens
|5 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES AGRADECIMENTOS Ao meu orientador, Professor Helder Casal Ribeiro, à minha mãe, ao meu pai, à minha irmã, à minha família, aos meus amigos.
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|7 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES RESUMO Apresentetesepretendeestudararelaçãoentreobraelugar,nosequipamentosdesportivos portugueses – estádios de futebol. Propõe-se através de uma análise do desenho de cinco equipamentosdesportivosportugueses,procurarcompreendereaprofundarodiálogotopomorfológiconainterpretaçãodosignificadodolugarcomotemaprincipaldedesenho. Analisar-se-á o Estádio Nacional do Jamor, Lisboa (1944), o Estádio 1º de Maio, Braga (1950), o Estádio do Restelo, Lisboa (1956), o Estádio Municipal de Guimarães, Guimarães (1965), e o EstádioMunicipaldeBraga,Braga(2003)apartirdeumagrelha,deanálise,queestrutureos temas a estudar.
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|9 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES ABSTRACT ThepurposeofthisthesisistostudytherelationshipbetweenworkandplaceinPortuguese sportsfacilities–footballstadiums.TheanalysesoffivePortuguesesportsfacilities,aimsto understandanddeepenthetopologicalandmorphologicaldialogueintheinterpretationofthe meaning of place as the main theme of the design. ThesportsfacilitiesanalysedareEstádiodoJamor,Lisbon(1944),Estádio1.ºdeMaio,Braga (1950), Estádio do Restelo, Lisbon (1956), Estádio Municipal de Guimarães, Guimarães (1965) andEstádioMunicipaldeBraga,Braga(2003),bymeansofananalyticalgridthatstructuresthe themes to be studied.
16| LUGAR
|17 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Lugar e Espaço Ao falar de lugar, é indissociável a noção de espaço,noentantoadistinçãoclaraentreosdois permiteumamelhorcompreensãodosignificadodelugar. Etimologicamente,apalavralugar, segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, derivadolatim“Locãle-, «local, de lugar»”1.Asmaisantigasabonaçõesqueseregistamdatamde 1253-1254, tendo evoluído na língua portuguesa da palavra logar. Segundo a mesma fonte, esta palavratambémderivadolatimlocãre,quesignifica“colocar,dispor,estabelecer;alugar”. AdefiniçãodelugarsugeridapelaGrande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, aborda-o do pontodevistafísico:“Parte do espaço que ocupa um corpo: qualquer objecto ocupa um lugar; (…) Sítio onde está qualquer coisa (…) Porção de espaço, abstraindo do corpo que o pode ocupar e considerando quanto às suas dimensões, a sua situação, o seu destino, as suas particularidades presentes, passadas ou futuras.”2 O Dicionário Compacto da Língua Portuguesa,tambémdefineapalavralugar do ponto de vista físico,masnarelaçãocomumcorpo:“Parte do espaço que um corpo ocupa. Sítio onde está qualquer coisa.”3 Namaioriadasdefiniçõesdelugar,estetermoéabordadosegundoumaperspectivafísica.Con1 MACHADO, José Pedro –“DicionárioEtimológicodaLínguaPortuguesa.ComaMaisAntigaDocumentaçãoEscritaeConhecidadeMuitosVocábulosEstudados,vol.III.”Lisboa:LivrosHorizonte,3.ªedição,1977[1952] 2 “GrandeEnciclopédiaPortuguesaeBrasileira”.Lisboa/RiodeJaneiro:EditorialEnciclopédiaLimitada,vol.XV 3 MORAISSILVA,Antóniode–“NovoDicionárioCompactodaLínguaPortuguesa”.EditorialConfluência,vol.III
18| LUGAR tudo, este conceito, tanto na acepção geral como na maioria das obras teóricas escritas por arquitectos,éremetidoparaaperspectivaaristotélica4,essencialmentedefinidodopontode vista geométrico. Geralmente o termo lugar, em oposição a espaço, expressaumvínculoafectivoforteentreoHomem e determinado ambiente. Por outras palavras, lugar, poder-se-ádefiniratravésdevalores e princípios humanos. Entreasváriascaracterísticasdeespaço,ChristianNorbergSchulzdistingueduas:espaçocomo geometriatridimensionaleespaçocomocampodepercepção.EstadistinçãointroduzoHomemcomoagentedefinidordoespaço,masinteressaperceberolugaralémdavertentetridimensional. ChristianNorbergSchulzsugerequeoespaço vivido pelo Homem, o espaço existencial, é o conjuntodeváriosespaços:umespaçoondeoHomemencontraassuasnecessidadesbiológicas; umespaçodepercepçãoeasuavertentemaisestáveleesquemática;umespaçoabstracto; umespaçoformadocolectivamentepelacomunidadeequereflecteasuaprópriacultura;eum espaço expressivo em que o Homem tenta alterar o seu ambiente. A relação do Homem com o espaçotorna-se,assim,partedaprópriadefiniçãodelugar,estenãoseráreduzidoàssuas característicasparticulares,masentendidocomoum“fenómenototalqualitativo”. Deste modo, propõe a análise de lugar através de duas noções interligadas, espaço e carácter. Oprimeirorefere-seàssuascaracterísticastridimensionais,osegundorefere-seàatmosfera dolugar,queseráacaracterísticamaisabrangenteereconhecíveldolugar.Cadalugarteráum carácter próprio indispensável à sua existência, o seu genius5.ChristianNorbergSchulzusaesta 4 Aristóteles parte do pressuposto de que todas as coisas estão num determinado lugar, logo o que não existe não estáemlugarnenhum,equeofactodesepodertransportaralgodeumlocalparaoutro,eestecontinuaraexistir deixa claro a existência de algo como o lugar.Ascoisasnãopodemexistirsemumlugar,apesardeolugarpoder existirsemascoisas.Assim,olugarédefinidoemtermosfísicos,eassociadoaoconceitodeespaço.Entendidocomo receptordealgo,permiteperceberasuaexistêncianomomentoemqueesteétambémdefinidordealgoquecontém,separadodacoisacontida.Émensurável,ouseja,nãotemcaráctervirtual. Numaprimeirainstância,Aristótelesdefineolugarcomopossuidordetrêsdimensões–largura,alturaeprofundidade,noentanto,tambématribuiestascaracterísticasaqualquercorpo,oqueinvalidariaasuaprópriadefiniçãode lugarseconsiderarmosquelugarecorpomanteriamasmesmaspropriedadessemestabelecerumadistinçãoinequívoca entre os dois. Este princípio levaria a percepção de que um lugar pode também ser um corpo, limitando a sua diferenciaçãoenofundoaprópriadefiniçãodelugarnarelaçãocomumcorpo.Assim,definequatropropriedades dolugarqueodiferenciamdocorpo.Aprimeiraéqueolugaréaquiloquecontém,nuncachegandoasercontido;a segunda é que o limite do lugar coincide com a coisa que esse lugar contém, não sendo nem maior nem menor que a coisacontida;aterceiraéqueolugarpodeexistirsemacoisacontida,tornandopossívelaexistênciadolugarapesar deseretiraraquiloquecontém;aquartaeúltimapropriedadeéquetodo o lugar possui um acima e um abaixo e consequentementetodososcorpospermanecemoumovem-separaumlugarpróprioapartirdestemovimento. 5 Genius Loci é um termo herdado da antiguidade clássica que se refere ao espírito do lugar. Cada lugar teria o
|19 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES referência como forma de mostrar que não existem dois lugares iguais, e é essa qualidade que os distinguedetodososoutros,influenciandoarelaçãodoHomemcomoqueoenvolve. Oprincípiosubjectivoadjacenteànoçãodecarácter,revelaumaimprecisãonecessáriaàinterpretação daquilo que conforma o carácter de um determinado espaço. Neste caso, não serão as característicasindividuaisouespecificasdeumespaçoquedeterminarãoocarácterdeumlugar, sugerindo que o carácter não poderá ser mensurável ou catalogado. ComoKennethFramptonrefereem“OnReadingHeidegger”,oconceitodeespaço pode ser abstratizado,enquantolugar refere-se à vivência, e assim sugere que a arquitectura deve criar lugaresenãodefinirespaços. Os fenómenos de percepção serão condicionantes na compreensão humana do mundo. A interacçãocomoquerodeiaserádeterminadapelascondicionantesfísicasimpostaspelosmateriais e pelo corpo, pois será a experiência de interacção, o contacto, que irá criar um conceito abstractodefinidordessaexperiência.Istorefere-seàvivência,àformacomooHomemapropriao espaçoeoabstractiza. “(Our inability to create places) is as prevalent in our architectural schools and in the monuments of the elite… Place now appears as inimical to our received mental set, not only as architects but also as a society. In our ubiquitous ‘non-place’ we congratulate ourselves regularly on our pathological capacity for abstraction; on our commitment to norms of statistical coordination; on our bondage to the transactional process of objectification that will admit to neither the luxury, nor the necessity of place. We exonerate the strip, ever fearful to admite that we might have eliminated, once and for all, the possibility of ever being anywhere.”6 Como afirma Martin Heidegger: “os espaços recebem a sua essência dos lugares e não do espaço”7, sugerindo que o espaço não existe independentemente das coisas, as coisas não são seu genius,umaidentidadequeinfluenciariaascaracterísticasdostemplosedificadoscomohomenagemaosdeuses daantiguidadeeaprópriavidadaspessoas. 6 FRAMPTON,Kenneth,“OnreadingHeidegger”inEISENMAN,Peter;FRAMPTON,Kenneth;GANDELSONAS,Mario (coord. edit.) Oppositions 4. NewYork:TheInstituteforArchitectureandUrbanStudies,1975 7 HEIDEGGER,Martin,Cit.porNORBERGSCHULZ,Christian,“ThePhenomenonofPlace”.InNESBITT,Kate–“Theorizinganewagendaforarchitecture:ananthologyofarchitecturaltheory1965-1995”.NewYork:PrincetonArchitectural Press, 1996, p. 418
20| LUGAR contidasnumespaçojáexistente. Em“Osignificadodaarquitecturaocidental”,ChristianNorbergSchulzsugereotermoespaço existencial, conferindo-lheumduplosignificadoenquantoconceito:porumladorefere-seaos aspectosespaciaisobjectivamentedescritíveis,poroutroapresentaaimagemmentalqueo individuocriaatravésdasrelaçõesespaciaisquefazempartedasuaexistência. Esteconceitointroduzaexperimentaçãodeumespaço,econsequentementeaimportânciado Homemcomoagentedefinidordolugar,naidentificaçãoelegitimaçãodocarácter,realçandoo princípiosubjectivoportrásdainterpretaçãodolugar.Contudo,acaracterísticadeinterpretaçãoinconscientepoderáserdeterminadapelasexperiênciasindividuaisoucolectivas. Assim,sugereadistinçãoentreespaçoexistencialprivado e público. O espaço existencial privadorefere-seàimagemmentalqueumindividuocriarelativamenteaoseumeio,resultantedas relaçõestridimensionaisentreobjectosaosquaisconferesignificado,nãocorrespondendoao espaçoimediatamenteperceptível.Oespaçoexistencialpúblicorefere-seaoconjuntodaspropriedades comuns de vários espaços existências privados. É a ligação cultural de uma sociedade quepermiteaexistênciadestascaracterísticascomunsmaisestáveis.ChristianNorbergSchulz introduz,assim,oconceitodepúblicoeprivado,nãocomodoisespaçosqueselimitam,mas comoespaçosquesebaseiamnaexistênciacolectivaeindividual.8 “space is not something that faces man. It is neither an external object nor an inner experience. It is not that there are men, and over and above them space.”9 ArelaçãoqueoHomemcriacomumlugar,eaprópriadefiniçãoeinterpretaçãoquedáaesse lugar, parte da experimentação e da vivência de um determinado espaço. As qualidades particularesdecadalugarserão,nolimite,consideraçõesdeintimidadequeoHomemcriacom determinadascaracterísticasdeumespaço.Sejadeformaconscienteouinconsciente,seráa relaçãodoHomemcomoespaçoquedeterminaráadefiniçãodolugar. 8 NORBERGSCHULZ,Christian–“Lasignificationdansl’architectureoccidentale”.Bruxelles:PierreMardagaéditeur, 1977, p. 430 9 HEIDEGGER,Martin, “Building,Dwelling,Thinking”in HEIDEGGER,Martin,Poetry, Language, Thought, New York:HarperCollinsPublishersinc.,1971.p.154
|21 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Relação e Identidade A forma como o Homem se relaciona e se insere num determinado lugar, depende da forma comoopercepcionaecomooapropria,influenciadoporumprincípioanalíticodeorientação. Contudo,arelaçãofuncionaleimediatadeutilizaçãopoderáinibiraidentificaçãocomesses lugares Em“Aimagemdacidade”,KevinLynchpropõeumainvestigaçãoempíricaaoselementosque compõeacidade,emvezdeproporumateoriabaseadanodesenhoeformaqueascidades deveriam assumir. Seguindoumprincípiodeinvestigaçãoapoiadonapsicologiaaplicada,realizaumestudorígido deumpontodevistacientífico,descobrindoqueaspessoasdesenvolviamumaimagemmental com base na percepção do ambiente construído que as rodeia baseado em elementos simples, como vias, limites, bairros, cruzamentos e pontos marcantes.10 Estaimagemmental,definidapelapercepçãodeumespaçoedaquiloqueocaracteriza,será umainterpretaçãopessoal,hierarquizadaemgraudereconhecimentoedeidentificação. ChristianNorbergSchulz,sugerequeocarácteranalíticoecientíficodaarquitecturanoMovimentoModerno,limitaaidentificaçãodoHomemcomoedifício.Consideraqueaarquitectura não pode somente responder às necessidades básicas do Homem, esquecendo a “interacção e influência”comoambientequeorodeia.NãodeveretirarasqualidadesdeidentificaçãodoHomemcomolugarparaseinteirarsomentederesponderaquestõescientíficaseprogramáticas dos espaços. O conceito orientaçãosurgecomumaimportânciasignificativa,noentantoéaidentificação que dá origem ao habitar. Os dois conceitos são independentes, o Homem pode orientar-se num espaçoeperceberasuaestruturasemseidentificarcomele,comoidentificar-secomumlugar sem perceber a sua completa estrutura de funcionamento. Qualquer um dos acontecimentos refere-seaumdeterminadoespaço,aumalocalizaçãocomaqualoHomemestabeleceumtipo de relação, tornando o lugar parte da existência humana. Aorientaçãoéumanecessidadeintrínsecaànaturezahumana,condicionaaformacomooHo10 LYNCH,Kevin,“Aimagemdacidade”.Lisboa:Edições70,2011.p.52
22| LUGAR memsemoveeserelacionacomosespaços.Estanecessidadedeorientaçãoinduzinconscientementeumaimagemmentalbaseadaemelementosbásicosquecaracterizarãoumespaço. Contudo,quandoosistemadeorientaçãoéfrágil,dificultaaformaçãodeumaimagemmental, deumarelaçãoinconscientefortequepermitaaidentificaçãocomumespaço. “L’uomo abita quando riesce ad orientarsi in un ambiente e ad identificarsi com esso, o più semplicemente, quando esperisce il significato di un ambiente.”11 VittorioGregotti,fazumaleituradolugarapartirdoseusignificado e a sua importância na relaçãocomoHomem.Transportatambémestadefiniçãoparaoedifício,referindoque“nenhuma obra de arquitectura possui um só significado”12, remetendo-o para os seus intérpretes, da mesmaformaqueumquadropodetersignificadosdiferentesparadiferentespessoas. “O fragmento de amarelo do céu de Gólgota, de um quadro de Tintoretto, não foi escolhido para significar angústia ou para provocá-la; é angústia e ao mesmo tempo céu amarelo”13 O significado da obra arquitectónica passa assim a ser interpretada por quem a vive, sendo esta relaçãocondiçãoessencialnodesenhodeumedifício.Assim,VittorioGregottidemonstraqueo processoprojectual,antecedenteàobra,omododefazer,seráoquepermitiráosignificado da obraenãoasimplestentativaderecrearumaimagemouumsimbolismoimposto. De forma a compreender o significadodolugar,VittorioGregottiprocuracompreendera“geografiadapaisagem”tendocomopontodepartidaotrabalhodegeógrafoseasuafunçãonum campo complementar à arquitectura. Com base nos estudos de Pierre George e de Alexander von Humboldt e as suas teorias de determinismo geográfico, assume, por exclusão, dois camposdetrabalhoqueaosarquitectosdizemrespeito:“O primeiro pode ser entendido: a nível de escalas: ao ultrapassar uma determinada dimensão, a definição espacial do ambiente parece precisar-se através da especificação de outras disciplinas técnicas, entre elas a arquitectura como descrição técnica de um “circundante” e também como técnica de construção. 11 NORBERGSCHULZ,Christian,“GeniusLoci,PaesaggioAmbienteArchitettura”.Milão:GruppoEditorialeElecta, 1986 (1979). p.5 12 GREGOTTI,Vittorio,“Territóriodaarquitectura”.SãoPaulo:EditoraPerspectiva,1994(1972),p.27 13 SARTRE,Jean-Paul.“Checo’sélaletteratura”.Milão:IlSaggiatore,1960p.119cit.porIbidem.p.27
|23 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Em contrapartida, o segundo campo não depende de problemas de escala, mas esclarece de modo muito mais interessante o propósito das duas disciplinas, caracterizando-a como uma disciplina descritiva e a outra como disciplina projectual.”14 Ageografia,sugereVittorioGregotti,apresenta-secomouma“ciênciadopresenteespacial”, desinteressadadarelaçãoqueessepresenteestabelececomoseusignificadooucarácter,apesardetrabalharsobreoaspectoambiental,nãoatribuiqualquersentidoestéticooudesignificadoàpaisagem.Revela-seassimnecessário,paraoarquitecto,compreenderedominaro entendimentotécnicodosespaçoscomoveiculoparaacompreensãosimbólicadolugar.Vittorio Gregottiassumequeumlugarapresentasignificadosdiferentesadiferentesescalas,easua leitura do lugar altera-se dependendo do grau de aproximação ou afastamento relativamente ao lugar. Uma forma pode ter significados diferentes dependendo das relações que cria com a sua envolvente, mais próxima ou longínqua, e dependendo da escala ou dimensão com a qual trabalhamos ou encontramos. Construir e Habitar A necessidade básica do Homem de procurar um abrigo poderá ser considerada a base para a transformaçãodeumespaço.EsteprincípioprimitivodoHomemseprotegerdoselementos, nãoserámuitodiferentedoinstintodosanimaisquecavamburacoscomomeiodeprotecção. Noentanto,nãopoderemosconsideraroinstintomaissimplesdeapropriaçãoagéneseeao mesmotempoafinalidadedaconcretizaçãoarquitectónica.15 Parte da necessidade de interpretação e apropriação pessoal do espaço, o princípio de construção, não apenas com o carácter de abrigomascomoprincípiodeidentificação,de habitar. Em“Building,Dwelling,Thinking”,MartinHeideggeriniciaumaexplicaçãoetimológica,dissecandoapalavraconstruiretraduzindo-aparaoinglêsantigoeparaoalemão:buan, que, segundooautorsignificahabitar. Estapalavratambémestarárelacionadacomumoutrosignificado: 14 GREGOTTI,Vittorio.Op.cit.p.63 15 NORBERGSCHULZ,Christian–“Lasignificationdansl’architectureoccidentale”.Op.cit.p.428
24| LUGAR eu sou. Assim,apalavraqueoriginalmentesignificariaconstruir e habitar, também se refere a ser, à qualidade existencialista do ser humano. Destaforma,MartinHeideggerexploraoconceitodeconstruir, nãosónasuavertentefísicamas numa vertente mais humana, relacionando-o com habitar, e considerando que construir, terá o habitar como meta. “We attain to dwelling, so it seems, only by means of building. The latter, building, has the former, dwelling, as its goal.”16 Habitar,segundoMartinHeidegger,nãoderivadeconstruir,mas,aocontrário,construir baseia- -se na verdadeira experiência de habitar.Construirpoderásignificarqueumlugar existe onde as quatro dimensõesquedefinemohabitar se encontram. Estas quatro dimensões referem-se aocéu,terra,divindadesemortais,atravésdosquaisMartinHeideggerexploraoconceitode habitar, relacionando-as com o Homem e com o carácter existencialista que estas lhe conferem. Construirpoderásignificaradefiniçãodeumlugarapartirdeespaçosindiferenciados,ondeas quatro dimensões seapresentamnassuasverdadeirascaracterísticas,criandoumespaço que permite habitar. AqualidadeexistencialistaqueMartinHeideggerconfereaosconceitosdeconstruir e habitar seráinterpretadaporChristianNorbergSchulz,comoformadedefiniçãoeesclarecimentoda palavra habitar naprocuradeumamelhordefiniçãodelugar. Habitar surge, assim, como elementocentralizadordeumdiscursoqueprocuraaexpressãomáximadohomemnarelação com o espaço, encarando o lugarcomotemadefinidornaconstruçãodeumedifício. “Abbiamo usato la parola «abitare» per definir ela complessitá delle relazioni dello spazio umano. Per meglio comprendereche cosa questa parola significhi è utile tornare sulla distinzioni fra «spazio» e «carattere». Quando un uomo abita, è simultaneamente localizzato in uno spazio ed oposto ad un certo carattere ambientale. Le due funzioni psicologiche implicite nell’abitare, possono essere cosi chiamati «orientamento» e identificazione». Per acquisire nel vivere un punto sicuro diappoggio, l’uomo deve essere capce di orientarsi, deve cio è conoscere dove egliè, ma deve esse reanche capacedi identificarsi com l’ambiente, il che significa sapere come è un certo 16 HEIDEGGER,Martin,Op.cit.p.143
|25 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES luogo.”17 VittorioGregottitambémretomaoconceitodehabitar citandoMartinHeidegger,econsiderandoqueaarquitecturaseapresentacomoumarespostapoéticaaoproblemadohabitar,emque oconstruído,assumidonasuacaracterísticafísica,existecomoresoluçãodesteproblema. “É a poesia que ‘faz habitar’. E de que modo se chega à residência? Através do construir. Mais que fazer habitar, a poesia constrói. Encontramo-nos, assim, frente a uma dupla exigência: em primeiro lugar, pensar no que chamamos existência do homem, partindo da residência e, em segundo lugar, considerar a ‘essência da poesia’ como fazer habitar; buscando a essência da poesia nesta direcção, chegaremos à essência da morada.”18 Aoprojectar,arespostasurgenaturalmente:oproblemaéfazerarquitecturaenãotentarcriar umsignificadoousimbolismo.Sendoaarquitecturafeitadematériasorganizadascomoobjectivo de criar uma certa forma, a forma passa a ser o habitar, centrando o discurso arquitectónico nesteproblemaedandoformaàrelaçãodoHomemcomoedifícionomodocomoeleovivee percepciona. Envolvente e Paisagem A interpretação do lugarnarelaçãocomoedificado,partedeumacompreensãoprofundadas componentes que o compõem. A interpretação da envolvente e a sua integração como tema de projectorevela-sepertinentenadefiniçãodeumprincípiodedesenhocoerentecomaintenção de integração na paisagem. Em“IntencionesenArquitectura”,ChristianNorbergSchulz,levantaumasériedequestõesque demonstraapreocupaçãodeperceberarealidadequedistingueumaobradearquitecturatanto noseuespaçofísicocomotemporal,bemcomoarelaçãoqueestabelecemoscomoedifícioe asuaenvolvente:“qué influencia tiene en nosotros la arquitectura (el ambiente)? (…) bajo qué 17 NORBERGSCHULZ,Christian,“GeniusLoci,PaesaggioAmbienteArchitettura”.Milão:GruppoEditorialeElecta, 1986 (1979). p. 19 18 HEIDEGGER,Martin.”Bâtir,Habiter,Penser.”Essaisetconferences,Paris:Gallimard,1958.cit.porGREGOTTI, Vittorio.Op.citp.49
32| OBRA Fig. 1. “EstádioNacional”-plantadoconjunto,MiguelJacobettyRosa
|33 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Fig. 2. “EstádioNacional”-plantadeimplantaçãoerelaçãocomcurvasdenivel,MiguelJacobettyRosa Fig. 3. “EstádioNacional”-plantageraldoEstádio,MiguelJacobettyRosa
34| OBRA
|35 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES OEstádioNacionalfazpartedeumconjuntodeobrasconstruídasduranteoregimeSalazarista comoobjectivodeafirmaçãodeumaidentidadenacional“assente numa certa ideia mítica de nação e de interesse nacional (…) definida e aplicada pelos aparelhos de propaganda e inculcação do regime e de acordo com o ideário da revolução nacional”.1 Asualocalização,quefoitemadediscussão,considerouduasalternativas:osterrenosdoValedo Jamor,eosdoLumiar.Pretendia-sequeocomplexodesportivo,doqualoEstádiofariaparte,se afastassedocentrodacidadeeseintegrassenumazonaverde.GodinhodeOliveira,membroda ComissãoAdministrativadasobrasdoEstádioNacional,preparouumrelatórioquedemonstrava otipodelocalizaçãopretendida.2 “Pensando-se na construção de uma cidade desportiva destinada à aplicação e às grandes provas de competição de carácter espectacular é indispensável que ela seja prevista dentro de uma vasta reforma de urbanização. Considerando este problema no sentido geral pode dizer-se que estes campos devem ocupar a zona mais limpa e saudável das cidades e em local, tanto quanto possível, de fácil acesso. É de uso moderno situá-los fora dos aglomerados urbanos.”3 A estratégia do Plano Urbanístico da Costa do Sol, que pretendia preservar uma área de expansão dacapitalatravésdaurbanizaçãodazonaentreLisboaeCascais,poderáserconsideradacomo umadasrazõesquelevaàimplantaçãodoEstádioNacionalnoValedoJamor.Aliadoàexpansão urbanísticaprevistanoplanoinsere-seaconstruçãodeumconjuntodeviasquepotenciema ligação a Lisboa, resultando num entendimento sinérgico que permite também ligar o Estádio à capital,eprojectarocomplexodesportivocomoâncoraaodesenvolvimentodacidadeaOeste. 1 ROSAS,Fernando,“Osalazarismoeohomemnovo:ensaiosobreoEstadoNovoeaquestãodototalitarismo” in,Análise Social, Vol. XXXV (157), 2001.p. 1032 2 ANDRESEN,Teresa;BETTENCOURTDACAMARA,Teresa;GUEDESDECARVALHO,Luis,“LugaresdaArquitectura Paisagista Portuguesa 1940 - 1970”, inANDRESEN, Teresa (coord. editorial), Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Francisco Caldeira Cabral e a primeira geração de arquitectos paisagistas (1940-1970).Lisboa:FundaçãoCalouste Gulbenkian,2003.p.146 3 OLIVEIRA,JoséGodinho–“EstádioseVelódromos.RelatóriodaMissãoOficialdeEstadonoEstrangeiro”.193536.Cit.porANDRESEN,Teresa–“OEstádioNacional–AsuaGéneseeasuaConstrução”.IntervençãonaConferência: “OEstádioNacional–UmParadigmadaArquitecturadoDesportoedoLazer”,inseridanasJornadasEuropeiasdo Património, 17 Setembro 2005.
36| OBRA Fig. 4. Maqueta da proposta de Carlos Ramos Fig. 5. MaquetadapropostadeCristinodaSilva
|37 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Em 1934 é lançado o concurso para a elaboração do Estádio Nacional, no qual concorrem três arquitectos que integram a geração modernista dos anos 30.4Noconcursoparticipamos arquitectos Carlos Ramos em conjunto com Jan Wils, autor do Estádio Olímpico de Amesterdão, Cristinoda SilvacomcolaboraçãodeConstantino Constantini, autordo ForumMussolini de Roma, e Jorge Segurado em conjunto com António Varela.5 AstrêspropostasapresentadasconsideramaimplantaçãodoComplexoDesportivonacotamais baixadoValedoJamor,propondoaconstruçãodeumplateauemqueoedificado,construídoà mesma cota,impede a passagem do rio. O Complexo Desportivo apresenta um desenho de organização marcadamente geométrico, definido pela construção de avenidas que ligam o complexo à estrada marginal.O Estádio é desenhado em todas as propostas como uma peça monumentalfechadaesemrelaçãocomoexterior,pousadanoterreno,semtirarpartidodas característicasnaturaisdolugar. EmSetembrode1937aSociedadedeEmpreitadaseTrabalhosHidráulicos,Ld.ª(SETH),empresa a que Jorge Segurado estava associado no concurso, envia uma carta a Francisco Caldeira Cabral pedindo o seu parecer sobre o Plano Geral desenvolvido pelo arquitecto. Francisco Caldeira Cabral, que se encontrava na altura a estudar Arquitectura Paisagista em Berlim, responde expondo as fragilidades que encontra no Plano. “O plano apresentado mostra uma certa aglomeração dos campos e edifícios de jogos que é sem dúvida motivada pelos acidentes do terreno e ainda pela posição das vias de acesso. Resulta evidentemente do facto apontado uma certa desproporção entre as áreas dos edifícios e dos campos e a área do parque. (…) O que acabamos de dizer leva-nos directamente à conclusão de que não pode deixar de se prever desde já uma zona de protecção cujo estudo deve ser efectuado em íntima ligação com o projecto do parque do estádio (…) Finalmente a grande avenida que liga a praça principal com a praia. Sendo a sua orientação no sentido N-S tem o grande defeito de encarar os ventos dominantes da região. Além do inconveniente apontado, a avenida tal como se apresenta no projecto que tenho á vista, separa rigidamente a parte de parque do fundo do Vale do Amor da parte da encosta de nascente. Dentro do conjunto da planta esta avenida, de proporções monumentais, não tem função que esteja de acordo com a sua importância. De facto 4 CarlosRamos(1897–1969)CristinodaSilva(1896–1979)JorgeSegurado(1898–1990), 5 ANDRESEN,Teresa,“TrêsdécadasdearquitecturapaisagistaemPortugal1940-1970”inANDRESEN,Teresa(coord. Editorial),Op. cit. p. 31
38| OBRA Fig. 6. “PlanoGeraldoEstádiodeLisboa”,JorgeSegurado Fig. 7. “PlanogeraldoEstádioNacional”,cópiadeJoséPedroMartinsBarata
|39 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES não se nota qualquer preocupação de arrumar o resto do plano tomando a avenida como eixo, ou tirando qualquer partido interessante da perspectiva criada. Sendo assim parece a sua função limitar-se ao trânsito de peões entre o edifício principal e o rio e que talvez não seja suficiente para justificar os inconvenientes acima apontados.”6 Com o projecto não adjudicado à SETH, Francisco Caldeira Cabraldesenvolve uma nova proposta emcolaboraçãodeWiepking,colaboradordeWernerMarchnoprojectodoEstádiodeBerlim, e de Konrad Wiesner que se encontrava nesse momento a trabalhar no Estádio de Nuremberga. Desta parceria, resulta uma proposta que se distancia do plano geral de Jorge Segurado. A memóriadescritivaenviadaàComissãodeAcompanhamentodasObrasdoNovoEstádiode Lisboa é antecedida por um texto apoiado numa imagem do Plano Geral de Jorge Segurado onde expõe as fragilidades do projecto. “O projecto do estádio apresentado mostra um formalismo rígido que não toma em linha de conta nem se adapta à paisagem grandiosa do vale do Jamor. Construindo exclusivamente no vale, obstrui-se este e perderam-se todos os pontos de vista possíveis. Eliminou-se o rio Jamor sem o qual toda a formação do vale se torna incompreensível. Os caminhos e estradas, todos asfaltados, oferecem sempre o mesmo aspecto monótono de longas filas de árvores, porque nunca nos proporcionam uma vista de conjunto ou um aspecto de paisagem. Como demonstramos a seguir a construção progressiva é impossível sem dar um aspecto de mutilação, de obra incompleta. A ordenação dos vários núcleos desportivos é defeituosa e o espaço desaproveitado ou mal aproveitado é enorme. Não será nunca possível alargar no futuro as instalações desportivas. A resolução do problema do trânsito é escusadamente complicada e imperfeita, tanto para os automóveis como para os peões. Não é possível ter uma vista de conjunto de qualquer desfile ou grande parada. Feita a critica do projecto anterior resta-nos apresentar como trabalho positivo a solução que entendemos deve ser dada ao problema.”7 Francisco Caldeira Cabral desenvolve duas propostas distintas que se baseiam nos mesmos princípios estruturadores: libertar o vale de qualquer construção, integrar o conjunto na 6 Parecer sobre o Novo Estádio. Francisco Caldeira Cabral, 8 de Outubro de 1937 cit. por Ibidem. p. 32 7 MemóriaDescritivaeJustificativadoProjectodoNovoEstádiodeLisboa.FranciscoCaldeiraCabral,16deMarço de 1938 cit. por Ibidem. p. 34
40| OBRA Fig. 8. Planta de Francisco Caldeira Cabral Fig. 9. Envolvente e Estádio Nacional
|41 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES paisagem, e conceber um estádio segundo os princípios do teatro grego. O plano geral que enquadra o desenho do estádio como hoje o conhecemos, é datado de Outubro de 1938. Neste documento, a implantação e forma do estádio aproximam-se daquela que viria a ser construída, demonstrandoumaclarainfluênciadeFranciscoCaldeiraCabralemtodooprocessoeasua importâncianadefiniçãodosprincípiosreguladoresdodesenhodoEstádioNacional. Nesta proposta, o estádio implanta-se na cota superior da encosta poente do vale e adoça-se ao terreno. Esta implantação permite, de forma natural, criar condições para que o estádio se relacione com a envolvente, e estabeleça relações visuais de proximidade e distância. Ao libertar o vale, a proposta permite manter o curso original do rio Jamor, criando condições para a expansãodocomplexodesportivo,aspectosqueFranciscoCaldeiraCabralreferecomoessenciais nacríticafeitaaoplanogeraldeJorgeSegurado,apresentadaanteriormente.OEstádioNacional éorientadonosentidoNorte–Sul,conseguindoaincidênciasolardesejadaparaoseventos desportivosecumprindoascondiçõesideaisparaapráticadefutebol. “As construções não devem ser colocadas numa baixa mas sim num ponto donde se domine a paisagem. Assim o edifício fica livre e para quem o vê adoçado a uma encosta ou coroando um cabeço, forma um conjunto harmónico com a natureza.”8 Em1940,FranciscoCaldeiraCabraléafastadodoprocessoesubstituídoporMiguelJacobetty Rosa, outro arquitecto que integra a geração dos pioneiros modernistas, autor da tribuna presidencial e de intervenções posteriores a 1939-1940.9 OEstádioestrutura-seapartirdadefiniçãodeumeixocentralqueacompanhaosentidoda pendentedaencostadefinindoumdesenhoassentenumahierarquiafuncionaleespacialque organizaoselementosestruturadoresdoconjunto. AimplantaçãodoEstádio,numadepressãonaturaldaencostaemformadeanfiteatro,permite queasbancadaspousemnaencosta,garantindoalteraçõesmínimasnoterrenoerealçandoo carácter de integração e diálogo com a morfologia do terreno. O desenho do estádio, segundo o princípio do teatro grego, afasta-se das propostas apresentadas no concurso, sendo reforçada estadiferençaconceptualnamemóriadescritiva. 8 Ibidem. p. 36 9 ANDRESEN, Teresa (coord. editorial) –Op.cit. p. 62
48| OBRA Fig. 16. Sanitários Fig. 17. Balneários
|49 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Aausênciadeprogramaporbaixodasbancadas,permitindoqueassentemdirectamenteno terreno, determina a implantação dos volumes de programa de apoio ao estádio à cota superior. Adistribuiçãoprogramáticaobedeceaumprincípiodedesenhoassentenadistinçãovolumétrica de todos os elementos que compõem o programa de apoio. Os sanitários e bares, distribuídos em seis volumes construídos no perímetro das bancadas nacotamaisaltadoestádio,afastam-sedasbancadaseencastram-senoterreno,permitindo evidenciar a relação visual criada com a envolvente próxima e aproximar a vegetação das bancadas. Apesar de servirem programas diferentes, todos os volumes apresentam a mesma linguagemvolumétrica,criandoumelementoqueatravésdarepetiçãoéremetidoparasegundo plano na leitura do espaço. O próprio desenho depurado dos volumes demonstra a intenção de queestesnãotenhamprotagonismonaleituradolimitedoestádio,remetendomaisumavez, para a vegetação e pendente do terreno. Osbalneáriosdosjogadoresencontram-senoedifícioanortedapraçadamaratonanacotamais baixadoestádio,desenhandoumacessodirectoparaoterrenodejogo,garantidoporumtúnel que passa por baixo da bancada e termina directamente no recinto. Este volume define-sepor um desenho que evoca os arquétipos da arquitectura vernacular portuguesa, diferenciando-o do resto do conjunto. Todososelementosdeapoiodistinguem-seperfeitamentedoestádio,sendoclaraaintençãode desenharoestádiocomoumapeçaúnicaconstituídoapenaspelasbancadaseresolvidonum únicogesto. AaproximaçãoformaleconceptualaodesenhodoEstádioNacionalrevelaumaforteinfluênciada época em que é projectado e construído. O afastamento dos princípios modernistas assimilados noiníciodoséculoXX,eatentativadeafirmaçãodeumaarquitecturadecarácternacionale nacionalizante,reflecte-senodesenhodealgunselementosenoprincípioaxialestruturantedo edificado.Noentanto,oprincípioutilizadonadefiniçãodanoçãodolimite,apoiadonouso da vegetação e a interpretação morfológica do terreno como sugestão para a implantação e formalizaçãodoEstádio,reflectemaconsagraçãodeumdesenhoapoiadonainterpretaçãodo lugar como princípio estruturador do projecto.
50| OBRA
|51 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Estádio 1º de Maio (1946 - 1950)
52| OBRA Fig. 18. “Estádio28deMaioBraga”-plantadeimplantação,JoãoSimões,1946 Fig. 19. “Estádio28deMaioBraga”-plantasuperior,JoãoSimões,1946
|53 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Fig. 20. “Estádio28deMaioBraga”-plantadeInteriores,JoãoSimões,1946 Fig. 21. “Estádio28deMaioBraga”-cortelongitudinal,JoãoSimões,1946 Fig. 22. “Estádio28deMaioBraga”-cortetransversal,JoãoSimões,1946
54| OBRA
|55 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES OEstádioMunicipaldeBraga,inauguradoem1950,foiconstruídoduranteoregimeSalazarista easuaprimeiradesignação,Estádio28deMaio,reflecteaépocaemquesevivia,depromoção dos ideais e dos princípios de propaganda do Estado Novo.1 Após o 25 de Abril, como aconteceu com outros monumentos Portugueses, o nome é alterado para Estádio 1 º Maio, em homenagem ao dia do trabalhador. A proposta de construção do Estádio surge integrada na intenção de construir um complexo desportivoquecriassecondiçõesparaapráticadeváriasmodalidadesdesportivas. “Esta comissão é de parecer que o futuro Estádio e seus anexos devem abranger campos e recintos para a prática das actividades seguintes: a)– Futebol, andebol, rugby e hóquei em campo; b) – Pistas de atletismo e seus anexos; c) – Basquetebol; voleibol; d) – Pista de ciclismo; e) – Rink de patinagem (Hóquei em Campo) f) – Piscina; g) – Ginásio coberto; h) – Ténis; i) – Anexos a distribuir (balneários, bufetes, instalações sanitárias, etc.) ”2 O processo de implantação do estádio contempla três momentos distintos em virtude das propostasdostécnicosresponsáveisedalocalizaçãodestanovainfra-estrutura. A primeira proposta de localização do complexo desportivo parte do urbanista Etienne de Groer,3queseencontravanaalturaaelaboraroestudodeexpansãourbanísticadacidadede Braga.Aproposta,de1944,propõeaimplantaçãodoestádioparaumazonaconhecidapor “Prados”,mantendonoentanto,oscamposexistenteserespectivosanexos,noParquedaPonte, 1 Referênciaaogolpedeestadode28deMaiode1926desencadeadoapartirdeBragapeloMarechalGomesda Costa, que pôs termo à primeira Republica Portuguesae consequentemente instaurou a Ditadura Militar, mais tarde dando origem ao Estado Novo. 2 “RelatóriodaComissãoMunicipalparaaconstruçãodoEstádioMunicipal.”,7deFevereiro1945.Fonte:Arquivo Municipal de Braga 3 EtiennedeGroerfoiumurbanistaconvidadopeloMinistrodasObrasPublicaseComunicaçõesDuartePacheco, queduranteosanos30e40desenvolveuumconjuntodeplanosurbanísticosparacidadesportuguesas,incluindo Braga. O Anteprojecto de urbanização de Braga: Anteprojecto-B é datado de 1944.
56| OBRA Fig. 23. “Estádio28deMaioBraga”-planta de implantação, João Simões, 1946
|57 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES como campo de treinos.4Estelocal,foradoslimitesdocentrodacidade,permitiasalvaguardar agrandeafluênciadepessoasparaumazonaquecausassemenosdistúrbiosnocentrourbano existente. “O terreno de futebol actual não servirá senão como terreno de treino, visto que há-de haver o estádio para os desafios. Cometeríamos um erro se desejássemos criar um grande estádio no terreno actual do futebol, como já se tratou e desejou, visto que, dada a insuficiência do terreno, seria necessário para construir o estádio aqui, fazer grandes trabalhos de terraplanagem e desviar a estrada de Guimarães, ou destruir uma grande parte do parque actual. Para mais, como resultados destas dificuldades, trabalhos e destruições, veríamos nos dias de festa o movimento do público embaraçar completamente a circulação na grande estrada de entrada.”5 Contudo,ovaloragrícoladosterrenoseoseurespectivocustodeexpropriaçãoinviabilizaa proposta levando o município a procurar outro local. Em 1945, o engenheiro Manuel Travassos Valdez6, a pedido de um membro da Comissão Municipal para a construção do Estádio, visita o Parque da Ponte como local possível para a implantaçãodonovoestádio.Olocalvisitadoeraconsideradocomoaprincipalzonaverdeda cidadequeintegravajáestruturasdesportivas,comoatrásreferido.Aáreasituava-sejuntoà estradaqueligavaBragaaGuimarãeseapresentava-secomoumlocalfortementearborizado, comumapaisagemnaturalúnica.Estaáreaverde,comcampodejogos,aCasa da Mitra7e um parquelúdico,cresceuemtornodaCapeladeSãoJoãodaPontequeaindahojesemantémcom ocoreto,ocruzeiroealgunselementosarquitectónicosprovenientesdoantigoConventodos Remédios de Braga, apesar das transformações que foi sofrendo ao longo dos tempos. Umadasprincipaisrazõesparaaescolhadestelocalrefere-seà potencialidade e adequação topográficadoterreno.Com“duas pequenas colinas frente a frente”8,apresentacaracterísticas 4 “Relatório da Comissão Municipal para a construção do Estádio Municipal”,Op. cit. 5 GROER,Etienne,“AnteplanodeUrbanizaçãodeBraga”,1944.Fonte:ArquivoHistóricodaDGODTU 6 ManuelTravassosValdezparticipounaadaptaçãodoespaçodoPavilhãoCarlosLopes,emLisboa,quandodo CampeonatodoMundodeHóqueiemPatinsde1947equeesteveligadoaoprimeiroprojectodoestádiodeAlvalade. 7 CasadaMitra,edifíciointegradonaQuintadaMitra,localondeseviriaadesenvolveroParquedeSãoJoãoda Ponte,eondefoiconstruídoumrecintodesportivo,correspondenteaoterreno de jogos pré-existente referido no relatório da Comissão Municipal para a construção do Estádio Municipal de 1945. 8 “RelatóriodaComissãoMunicipalparaaconstruçãodoEstádioMunicipal.”Op.Cit.
64| OBRA Fig. 30. “Estádio28deMaioBraga”-corte longitudinal, João Simões, 1946 Fig. 31. “Estádio28deMaioBraga”-corte transversal, João Simões, 1946
|65 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Oeixolongitudinalqueacompanhaosentidodapendentedaencostapermitequeabancada de topo Sul se encastre no terreno. O perfil assimétrico do vale determina a distribuição programáticadoestádio.Amaiorregularidadedoterrenonoladonascenteeaproximidade comocampodetreinosexistentereforçaoprincípiodedistribuiçãoprogramática,explícitona memóriadescritiva.Abancadanascenteconformaosespaçosdeprogramadeapoioaoestádio, assumindo-se como a super-estrutura referida na memória descritiva. Além de balneários, sanitáriosesalasdeapoio,oacessoaorecintoéfeitoapartirdestepontoatravésdeumtúnel que, tal como no Estádio Nacional, emerge já no relvado. “Aproveitando as condições orográficas do local, as bancadas do lado poente serão assentes no terreno que, para esse efeito, será escavado e regularizado. Do lado nascente ter-se-á posteriormente de estudar uma super-estrutura, onde se instalarão os serviços indispensáveis ao funcionamento do estádio.”15 A bancada poente, paralela ao eixo longitudinal, assenta directamente no terreno no local de maiorpendentedoeixotransversal,inviabilizandoasuautilizaçãoparaacolocaçãodeprograma deapoioaoestádioparaalémdatribunapresidencialerespectivoacesso.Atribuna,único elementoquesedestacanofortealinhamentoerigidezdestasbancadas,assume-secomoum volumequesedistinguedoconjuntoeanunciaumpontodeentradacelebrativotípicodeste tipodeprograma. Operfilassimétricodoterrenocondiciona,nãosó,opercursoàvoltadoestádio,comoainda defineolimitefísicodoconjunto–relaçãointerior/exterior.Opercurso,definidopelatopografia do terreno e em estreito contacto com a envolvente próxima, cria pontos de contacto com o construídoadiferentescotas,definindoacessosàbancadadiferenciados.Asentradas,adaptadas àcotadoterrenonocontactocomoestádio,desenhamopórticodeacessonointerioràmesma cota,aolongodetodaabancada.Assim,otratamentoindividualizadodecadaentradapermite a transição entre uma cota variável no exterior e uma cota constante no interior, apoiado na adaptação do desenho das escadas ao terreno. As entradas do topo sul, enquadradas no 15 Ibidem
66| OBRA Fig. 32. Vista da bancada poente Fig. 33. Vista do topo sul
|67 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES sentidodoeixolongitudinal,sãoasúnicasquecriamumacessoàbancadaaumacotadiferente, respondendo directamente à cota superior do percurso neste local. Contudo,adefiniçãodelimiteéaomesmotempomarcadoediluído.Aausênciadecobertura enfatizaumarelaçãodecontinuidadecomaenvolventepróximaeatenuaapresençadomuro que envolve as bancadas, mantendo a vegetação como elemento reconhecível na transição entre interior e exterior. O desenho do muro que rodeia as bancadas é claramente o limite do conjunto reforçado pelo percurso circundante. No entanto, aquando no interior do estádio, a percepção será outra. A estreita relação entre a baixa cércea do muro, a largura do percurso, a cotadoterrenocircundanteerespectivaescaladavegetação,diluemanoçãodelimite. Emtermosconstrutivos,oestádioapresentaestruturamistacomelementosembetãoarmado revestidos a granito e paramentos portantes em granito. O conjunto poderá ser dividido estruturalmente em três núcleos: as bancadas encastradas no terreno, a super-estruturaa nascente, que encerra o programa complementar, e o conjunto do acesso principal com a identificaçãodostrêselementosarquitectónicosexcepcionaisacimareferidos. A elegância da pala, na entrada norte, e a proporção dos vãos remetem para o uso do betão armadorevestidoagranito,emqueopormenordapeçaderemate,referidoanteriormente, expressaarelaçãoplásticaentreestruturaerevestimento.Emoposição,asquatrolâminaseos doispanoslaterais,pelasuaespessuraeformadeutilizaçãodogranitocomoelementorobusto, expressam a noção dos paramentos portantes adoçados à parede exterior do estádio. O uso do granito no embasamento do estádio realçado pela sua utilização como primeiro materialdecontactocomoutilizador,enopórticodaentradanorte,reforçaaimportânciae imponênciadestealçado,tornando-separticularmenteexpressivopelauniãodetodosestes elementosnumaúnicaimagemcompositiva. Oassentodasbancadasempeçasdegranitomaciçoaludeàintegraçãotopográficadasbancadas econfereumacoerênciavolumétricaeformalaoconjunto,permitindoumsentidounitárioque contrasta com a vegetação circundante a sul. O granito, material com uma forte presença na cidade de Braga, além de ser usado como pavimento,éprincipalmenteusadonaconstruçãodeedifícioscentenárioscomosãoexemplo:o EdifíciodoLargodoPaço,aSédeBraga,oArcodaPortaNova,ouaCapeladaGlória,reforçando
68| OBRA Fig. 34. Vista do acesso à bancada
|69 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES um discurso arquitectónico associado à tradição e em grande parte imposto pelos ideais conservadoresdo Estado Novo. “Com o final da década de 30 o acento monumentalista exposto no programa das obras públicas do regime aproxima-se de um vocabulário de novo historicista e regionalista, apostado numa narrativa de raiz clássica próxima dos modelos nazis e fascistas da época. A “política de espírito” tende a repor uma certa história, balizada entre um Império e um Portugal rural, folclórico, entendido na superficialidade da sua doçura como virtude de resistência à degeneração dos tempos modernos.”16 A aproximação regionalista e historicista apoiada na envolvente cultural, temporal e espacial, tem especialreflexonautilizaçãodosespessosrevestimentosdepedracomoréplicadatradicional alvenariavernaculareaconseguidaaparênciamonumentalapoiadanamemóriacolectivados monumentosreferidos,respondendodirectamenteaumaencomendadeumregimecadavez mais totalitário.17Contudo, o uso de elementos nacionalistas e a necessidade de resposta a uma ideologiacentradanapropagandadeumaimagemdevalornacional,nãomitigaumintuitoclaro econcretizadodeapropriaçãodoterrenoedeforterelaçãocomasuamorfologia,apoiadoem temasdeprojectoqueclarificamestaintenção. 16 TOSTÕES,Ana,“ArquitecturaModernaPortuguesa:osTrêsModos”inArquitectura moderna portuguesa 1920 – 1970: um património para conhecer e salvaguardar(Coord.AnaTostões).Lisboa:InstitutoPortuguêsdoPatrimónio Arquitectónico, 2003, p. 118 17 ROSAS,Fernando,“Osalazarismoeohomemnovo:ensaiosobreoEstadoNovoeaquestãodototalitarismo” in,Análise Social, Vol. XXXV (157), 2001p. 1031
70| OBRA
|71 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Estádio do Restelo (1951 - 1956)
72| OBRA Fig. 35. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-ante-projecto”-plantadeconjunto,CarlosRamos,1951 Fig. 36. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-projecto”-plantageral,CarlosRamos,1951
|73 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Fig. 37. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-projecto”-corteslongitudinaletransversal,CarlosRamos,1951 Fig. 38. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-projecto”-alçadoslaterais,CarlosRamos,1951 Fig. 39. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-ante-projecto”-alçadotoposul,CarlosRamos,1951
80| OBRA Fig. 42. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-ante-projecto”-plantaaoníveldabancadainferiorevestiários,CarlosRamos,1951 Fig. 43. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-projecto”-alçadotoposul,CarlosRamos,1951
|81 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES “Sobre o mesmo problema de estádios abertos ou fechados recordamos a opinião de um arquitecto holandês especializado na construção de estádios (Jean Wils – Estádio Olímpico de Amsterdam) e que afirmava que os estádios que possuem pistas de atletismo, deveriam ser estádios fechados uma vez que se deve garantir, sempre que possível, ao atleta um fundo uniforme.”6 Estabancadamaterializaoprimeiroelementodecontactocomoterrenoedefineoprincípio organizativo do estádio, estruturando a distribuição programática dos espaços de apoio ao estádio. O desenho e princípio de funcionamento da bancada inferior definem-se em dois momentos:nostoposnorteesul,enaslaterais. O perfil topográfico do terreno determina o desenho dos topos e respectiva distribuição programática, permitindo que o topo norte se encastre e apoie directamente no terreno, remetendoalocalizaçãoprogramáticaparaotoposul. Osprogramasdeapoio,localizadosporbaixodabancadadotoposul,distribuem-sesegundoum princípiodeorganizaçãotípicodosestádiosdefuteboldestaépoca.Osbalneáriossãoseparados em dois núcleos de funcionamento distintos, cada um com uma entrada própria e acesso independenteaorecintodejogo.Odesenhodosbalneáriosobedeceaumprincípiocompositivo assentenamétricaestrutural,definidapeloraiodosemicírculoquedefineacurvadotopo, resultandonumdesenhoracionaleestruturantequeorganizaosespaçosqueconformameste programa. Amanchaprogramáticadosbalneáriosdetermina o alçado dotoposuledefineovolumeda bancada inferior como elemento de remate do estádio à cota baixa. Areduzidapresençavolumétrica,afirmadapelacomposiçãodoalçadoepelolocaldecércea mais baixa, anuncia um momento de excepção, criando um primeiro ponto de contacto do Estádiocomopúblicodesenhadocomumamaioraproximaçãoàescalahumana. “O estádio ficará com bastante unidade ainda que se possa dividi-lo em duas partes fundamentais – a parte de bancadas embebida completamente no terreno e o mais possível diluída nele e a outra, a de estrutura, de uma grande leveza e contrastando propositadamente com a primeira.”7 6 Ibidem. p. 3 7 Ibidem.p. 7
82| OBRA Fig. 44. Bancada poente Fig. 45. Bancada nascente
|83 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Abancadasuperiorcaracteriza-seporumapeçaúnicaquecircundaorecinto,encastrando-se noterrenoedesenhandoumaaberturaparaapaisagem,mantendooprincípiodeorganização funcional presente nos desenhos de projecto. Odesenhoecomposiçãoformaldabancadasuperiorsugeremacaracterizaçãodeumelemento que pousa nas bancadas inferiores, completando o desenho geral do estádio, encerrando os espaçosdeapoioaopúblico,definindo os acessos às bancadas e desenhando dois momentos decontactocomaenvolvente:anorte–comodesenhodomurodesuporteedacobertura-e a sul – voltado para o rio Tejo e suas margens. Aorganizaçãoprogramáticadosespaçosdeapoioaopúbliconabancadasuperior,constituído pelossanitáriosebares,obedeceaumprincípiodedesenhocoerentecomamétricaorganizativa utilizadanodesenhodosbalneários,pautadaporcaracterísticasfuncionaissemelhantestanto no lado poente como no lado nascente. Estes espaços, acessíveis por uma plataforma que circunda o estádio e funciona como elemento de transição entre cotas, associam-se ao exterior erelacionam-secomosacessosdoestádioedocomplexodesportivo,criandoumaidentidade programáticaassociadaàutilizaçãodopúblico. Notoponorte,odesenhodosespaçosdeprogramadeapoioaopúblicoédeterminadopela adaptação das bancadas ao terreno e a integração do muro de suporte no conjunto. O desenho dos sanitários e bares écaracterizadopelaintegraçãovolumétricaevisual,conseguidocom o desenho de quatro volumes adoçados e construídos com o mesmo material que o muro de suporte, que delimitam o percurso de acesso às bancadas à cota superior, realçando o princípio de adaptação morfológica no contacto com o terreno. A abertura do topo sul poderá ser considerada como um dos principais temas de projecto que definemodesenhodoEstádio. Aconcretizaçãoformaldacoberturademonstradeformaclaraumprincípioconceptualcoerente comaqueleapresentadonodesenhodabancadainferior,resultandonumvolumequesintetiza arelaçãotopográficaevisualafirmando-secomoelementoessencialnadefiniçãoeorganização do desenho do Estádio. O princípio de integração no terreno, evidenciado pelo desenho e implantação das bancadas, é realçado pelo desenho da cobertura. O desenho dos elementos estruturais que a compõe
84| OBRA Fig. 46. Vista da abertura Fig. 47. Muro de suporte, sanitários e bares
|85 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES obedeceaumprincípioderepetiçãoqueprocuraumadefiniçãológicadedesenhoeconstrução, alterando-se no ponto de contacto com o terreno e sugerindo uma fusão entre a encosta e o Estádio. Odesenhodacobertura,alémdarelaçãotopográfica,limitaoolharedesenhaumenquadramento cénicosobreapaisagem,realçandooprincípiodefinidordaaberturanarelaçãointerior/exterior. Será de realçar a importância da bancada inferior como elemento que, cortando a relação visualcomaenvolventepróxima,seafirmacomoparteintegrantedacomposiçãoquecriao enquadramentodefinidordarelaçãovisualcomorioeamargemoposta. Construtivamente,oEstádioobedeceaumprincípioassentenautilizaçãoracionaldosrecursos enasistematizaçãodosprocessosconstrutivos. “Na construção das bancadas e nas estruturas de betão procurar-se-á tipificar ao máximo todos os elementos na convicção de esse método seja possível alcançar grande economia. Pedras tipo para bancada, lancis, elementos da cobertura, vigas em betão, caixilhos, etc., tudo será estudado de modo a poderem-se executar em série, facilitando também a sua colocação no local.”8 Omuro de suporteéinteiramente construídoem alvenaria,utilizando pedrasrecolhidasno terreno.Autilizaçãodestematerialnosvolumesdossanitáriosebaresadjacentesdenotaum princípiodeintegraçãoassentenãosónadefiniçãovolumétricamastambémnautilizaçãode umsistemaconstrutivotradicionalquecontrastacomoconjunto,enfatizandoaintegraçãodo Estádio no terreno. “A construção será possivelmente de um sistema misto de alvenaria e betão armado visto que se por um lado toda a estrutura é em betão armado, os movimentos de terras necessários provocam vários muros de suporte que serão de alvenaria aproveitando na medida do possível a pedra arrancada do local.”9 8 Ibidem.p. 7 9 Ibidem. p. 6
86| OBRA Fig. 48. Alçado bancada poente Fig. 49. Bancada poente
|87 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES O desenho das bancadas realça o seu carácter estrutural e construtivo tirando partido das possibilidades plásticas e estruturais do betão, definindo um princípio de composição diferenciado no interior e no exterior. O princípio organizador do desenho dos alçados da bancada superior, assegurado pelas capacidadesestruturaisdobetão,caracteriza-sepelaaberturadegrandesvãos,assumindoo exteriordoestádiocomoumelementoelegantecontrastantecomamaiorrigidezformalda bancada inferior. Estruturalmente o Estádio é constituído por um sistema porticado em betão assente numa métrica regular transversal a todo os espaços e programas. Aconcepçãoestrutural,semrecorreraparedesportanteseapoiadanousodepilares,reflecte uma crescente tendência de produção arquitectónica, nos anos cinquenta em Portugal, sustentada pelos princípios do modernismo internacional.10 A definição espacial espelha o diálogocomaconcepçãoestrutural,afirmandoousodobetãonãocomosócomopremissapara umasistematizaçãodosprocessosconstrutivos,mascomotemadeprojecto.Oesqueletodefine a linguagem e integra-se no princípio conceptual do Estádio, marcando este projecto como um dos exemplos do paradigma do moderno em Portugal. “Depois de um hiato de tendência nacionalista fascizante, monumental ou ruralizante, reflectido numa produção arquitectónica estruturalmente cenográfica, a ruptura entende-se como momento de fazer contas com a modernidade, de dar atenção ao interrompido projecto moderno constituindo-se com o que designamos por primeiro modo. (…) As premissas do movimento moderno, referenciadas claramente a LeCorbusier e, ainda por essa via, à arquitectura brasileira46, adoptam-se de um modo criativo, ético e ideologicamente convicto para logo se passar ao seu questionamento rompendo-se com o sentido de dogma do estilo internacional. Tempo de charneira ou segundo modo moderno, corresponde à aquisição de uma maioridade cultural e técnica por parte dos arquitectos.”11 10 TOSTÕES,Ana,“ArquitecturaModernaPortuguesa:osTrêsModos”inArquitectura moderna portuguesa 1920 – 1970: um património para conhecer e salvaguardar(Coord.AnaTostões),Lisboa:InstitutoPortuguêsdoPatrimónio Arquitectónico, 2003, p. 133 11 TOSTÕES,Ana–“Construçãomoderna:asgrandesmudançasdoséculoXX”p.20
88| OBRA Fig. 50. Vista da abertura
|89 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Osistemaconstrutivodacoberturareafirmaoprincípioconstrutivomotivadopelasistematização epadronizaçãodeprocessos.Assentenumelementoembetãoque,pelasuarepetição,conforma o desenho e funcionamento estrutural,a cobertura destaca-se do conjunto e assume-se como umdoselementosdoestádioquemelhorocaracteriza. Projectado como um estádio de construção faseada, o desenho do Estádio do Restelo demonstra uma coerência formal e conceptual que se adapta a todas as fases do projecto. O princípio de divisão do estádio em dois elementos – bancada inferior e bancada superior – que respondem aquestõestopográficaseprogramáticasdeformaespecífica,aliadosaodesenhointencional do enquadramento criado com a abertura do topo sul, demonstram uma clara intenção de integraçãoevalorizaçãodascaracterísticasdolugar.
96| OBRA Fig. 55. “AnteplanodeUrbanizaçãodaCidadedeGuimarães”,MariaJosé M. Moreira da Silva e David Moreira da Silva, 1949
|97 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES “2 – OS NOVOS ELEMENTOS DA COMPOSIÇÃO – Além da malha corrente de arruamentos, das praças e dos jardins indicados na respectiva planta, são dignos de destaque os seguintes elementos novos da composição: a – O PARQUE DA CIDADE, ocupando 25,5 hec. E compreendendo: 1 – Um teatro ao ar livre; 2 – O Estádio Municipal, composto de um campo de futebol para competições e outro para treinos; 3 – Um grande lago, com aproveitamento da água dum regato que passa no local; uma piscina; 4 - Dois “courts” de ténis; 5 – Um pavilhão de tiro aos pombos; 6 – Um restaurante.”5 A proposta, apresentada na “Planta de trabalho e Urbanização”, propõe a construção de um grandeparqueurbano,aoestedocentrohistórico,definindoumnovopólodecrescimentoda malha urbana e criando um elemento de transição entre o conjunto urbano existente e a nova zonahabitacionalproposta. Oparqueéenvolvidoporduasavenidasquedefinemolimitenorteesul,edividido,aocentro, porumpercursoquedefinedoisnúcleoscomcaracterísticasprogramáticasdistintas. No núcleo nascente é proposta a construção dos programas enumerados no “Anteplano de Urbanização da Cidade de Guimarães”, unidos por um conjunto de percursos pedonais que criam umtrajectolúdicoemcontactocomanatureza.Opercursodeacessoaoestádio,definidopela marcaçãorítmicadeárvoresaolongodoseutrajecto,determinaadistribuiçãoprogramáticado núcleo.OEstádioMunicipaléassociadoaocampodetreinocriandoumaidentidadeprogramática relacionada com o futebol. A oeste, o desenho orgânico do lago conforma dois espaços onde se implantam os campos de ténis e a piscina, e o teatro ao ar livre, associando estes programas a um elemento reconhecível que cria um percurso de transição entre os diferentes programas. Onúcleopoente,caracterizadoporumamaioráreadevegetação,reflectedeformamaisclaraa intençãodecriarumparquedacidade,nãosópelotratamentopaisagísticodospercursosedas 5 “AnteplanodeUrbanizaçãodaCidadedeGuimarães”,Op.cit.p.53
98| OBRA Fig. 56. “AnteplanodeUrbanizaçãodaCidadedeGuimarães-Remodelação” Maria José M. Moreira da Silva e David Moreira da Silva, 1953
|99 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES áreasarborizadas,mastambémporreservarestaáreaapenasparaaconstruçãodorestaurante queseapresentacomumreduzidoimpactovolumétriconoconjunto. Odesenhodoparquereflecteumprincípiodeorganizaçãoracional,tratadocomainterligação das diferentes áreas programáticas apesar de sectorizado segundo princípios de utilização específicos. O “Anteplano de Urbanização da Cidade de Guimarães” de 1953 representa uma alteração ao anteplano de 1949 após discussão e negociação com a Direcção Geral dos Serviços de Urbanização. Azonainicialmentedestinadaaoparquedacidade,econsolidadacomoprogramaanteriormente referido, é fortemente alterada mantendo apenas parte do programa previsto. “Desprezada como superiormente foi sugerido, a parte mais alta, mais bela e única, arborizada, do projecto parque da cidade, para que este ficasse reduzido a proporções mais modestas e compreendido entre estradas nacionais, aquele parque vai transformado, neste aditamento, num verdadeiro parque desportivo que pelas suas acanhadas proporções pouco mais poderá compreender além dum campo de futebol para competições, outro para treinos e a praça de touros. Em face disto, e a fim de evitar a perda irreparável daquela massa arborizada de interesse paisagístico para a cidade, os autores concordaram com a Direcção Geral dos Serviços de Urbanização na designação de ZONA DE RESERVA para aquela parte do anteriormente chamado parque da cidade, onde ao abrigo do respectivo regulamento, fica proibido o corte das árvores.”6 Aalteraçãoprogramáticadoparquedacidade,aintegraçãodoterrenodestinadoàconstrução do Estádio numa zona de reserva, a massa arbórea proibida de ser destruída pelo regulamento doanteplanourbanísticoafiguram-secomopremissasqueirãoinfluenciarainterpretaçãodo terreno e determinar o desenho do estádio. 6 MOREIRADASILVA,MariaJoséM.,MOREIRADASILVA,David–“AnteplanodeUrbanizaçãodaCidadedeGuimarães Peças Escritas”, Porto, 1953 p. 42
100| OBRA Fig. 57. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-plantadeconjunto,MárioBonito,1960
|101 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Independentementedasdivergênciasprogramáticasdosdoisplanosédesalientaraintenção demanteroestádiointegradonaestruturadoparquedacidade,numazonanãodestinadaà construçãodeedifícios. Na proposta de Mário Bonito, datada de 1958, o Estádio é implantado, de acordo com o “Anteplano de Urbanização da Cidade de Guimarães”de1953,nolocaldestinadoaoparque desportivo, integradonumparqueurbanofortementearborizado,numazona de reserva que garantiaacontinuidadedavegetaçãoedoselementosnaturaisexistentes. “Situa-se o Estádio Nacional de Guimarães em local próximo do futuro Parque da Cidade, isto é, em zona livre, que urbanisticamente obedecerá a tratamento paisagístico, arborização e lançamento de artérias adequadas. Julgou-se vantajoso que a proximidade do Parque influenciasse a concepção do Estádio para que, mesmo virtualmente, se operasse a fusão Parque – Estádio”.7 OEstádioestrutura-seapartirdanoção de limite-entre parque e estádio - com o desenho de ummurodesuportequeintegraasbancadaseconformaoprincípioorganizadordosnúcleos programáticosedosacessosàsbancadas. A forma ovóidedoEstádio,definidaporesteelemento,permiteasuaimplantaçãosemdefinir um princípio de axialidade típico dos estádios construídos durante os regimes totalitários, criandoumefeitoperspécticoque,nãodominandoapaisagem,-maspermitindoumarelação visualdirectacomaenvolventepróxima-éenquadradoapartirdetodosospontosdoparque como um elemento que se integra no terreno e relaciona com os elementos naturais existentes. Encarado como um elemento adaptável, o muro de suporte, obedece a um princípio de plasticidadeformalquepermiteaadaptaçãoaoterrenoeestruturaoprincípiodetransição físicaevisualentreoEstádioeoParque.Odesenhodeperfildomurosugereumprincípiode adaptaçãodefinidopelodesenhodainclinaçãoexteriorarticuladacomumdeclivenoterreno, promovendoumreduzidomovimentodeterras,criandoumatransiçãonaturalentreconstruído e não construído. 7 BONITO,Mário–“Memóriadescritivadoante-projectodoEstádioMunicipaldeGuimarães”.1958,p.5.Fonte: Arquivo Municipal Alfredo Pimenta
102| OBRA Fig. 58. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-cortes,MárioBonito,1958 Fig. 59. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-cortesdebancada,MárioBonito,1960
|103 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES “Realmente, a leitura da planta, sugere logo um tratamento especial, com relvados e taludes naturais, onde as próprias bancadas partem dos muros de suporte tratados com ligeireza de muros de jardim. Em parte, a tradição dos estádios helénicos, com a sua peculiar concepção espacial, abrindo o recinto à paisagem envolvente e sujeitando-o à topografia natural, surge-nos aqui como objectivo pelo menos tentado.”8 A cércea variável do muro de suporte permite uma adaptação constante às necessidades programáticaserespondedirectamenteàscondicionantesimpostaspelaenvolvente.Odesenho orgânicodomuroeoprincípiodeorganizaçãovolumétricaeespacial,centradonodesenho desteelemento,reforçaoprincípiodecomposiçãogeométricadoEstádio,configuraosespaços doprogramadeapoioeintegraasbancadascomoelementocontínuodomurodesuporte. Asbancadas,orientadasnosentidolongitudinaldorecintodejogo,definemopontodemaior cota da cércea do muro e conformam os espaços de programa de apoio ao Estádio. Oprogramadivide-seemdoisnúcleosdistintosquerespondemanecessidadesprogramáticas diferenciadas:espaçosdeapoioaojogoeespaçosdeserviçoeapoioaosespectadores. Abancadanascente,queencerraonúcleoprogramático de apoio ao jogo,édefinidapelos balneários,acessospúblicosàbancada,eatorreolímpica. Os balneários, divididos em dois sectores com entradas e acessos ao campo independentes, casasdebanhodeapoio,eginásio,respondemdirectamenteàsnecessidadesprogramáticas inerentesàrealizaçãodejogosdefutebol.Odesenhodaplantareforçaoprincípiovolumétrico do conjunto realçando uma concepção geométrica que se adapta ao desenho do muro de suporteecriandoumprincípiodeorganizaçãoassentenumaregradistributivaquehierarquiza e molda os espaços. Os acessos públicos ao interior do Estádio associados a esta bancada, pela sua dimensão, decrescente profundidade, e pela sua posição, colocados nos topos dos balneários, rematam a manchaprogramáticadabancadanascente. 8 “Memóriadescritivadoante-projectodoEstádioMunicipaldeGuimarães”Op.cit.p.5
104| OBRA Fig. 60. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-alçadonascente,MárioBonito,1960 Fig. 61. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-cortedatorreolímpica,MárioBonito,1960
|105 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES O desenho da torre apresenta duas materializações diferenciadas na proposta de 19589 e napropostafinal196010.Naprimeira,atorreédesenhadacomoumelementoverticalcom uma simplicidade volumétrica que serviria apenas como elemento de excepção do conjunto. Odestaquenapaisagemmarcariaumaentradadefinidaporumapalacaracterizadapeloseu desenhoorgânicoem contraste comarigidezvolumétrica datorre.Na propostade1960 o desenhodatorreécaracterizadopelatransparência,conseguidapeladefiniçãodeumperfil assente na marcação das paredes laterais, e por um volume horizontal elevado do chão e unicamente apoiado na torre que encerra os espaços de apoio à rádio, televisão, imprensa e cabine sonora.11 A diferença no desenho deste elemento nas duas fases do projecto, denota também uma diferençadepensamentonasuaconcepção,caracterizadaporumaprocuraconstanteatravés do desenho. Na primeira proposta a semelhança da torre com as do Estádio 1º de Maio e do Estádio Nacional, poderá demonstrar uma abordagem ao desenho deste elemento que servirá apenascomorespostadirectaaumaencomendaespecíficaecomaqualMárioBonitoestariaa tentarencontrarumdiscursopessoal,informadopeloespíritodamodernidadequecaracteriza as suas obras dos anos 50. “Os projectos de Mário Bonito, dos anos cinquenta, apresentam uma coerência conceptual e formal, que afirmam e reforçam o seu rigor de desenho, a partir da identificação do problema colocado e respectiva formulação de um princípio de intervenção, assente numa lógica disciplinada pela interpretação das condições físicas e simbólicas do contexto e do programa/encomenda. As propostas assentarão num vocabulário de sintaxe moderna que integra o progresso e a inovação das áreas técnicas complementares – a industrialização da construção – através do uso da composição abstracta/geométrica –, traçados reguladores e métrica conceptual (…)”12 9 BONITO,Mário–“EstádioMunicipalGuimarães–Ante-projecto”.Porto:1958,folha5Fonte:ArquivoMunicipal Alfredo Pimenta 10 BONITO,Mário–“EstádioMunicipalGuimarães–Projecto”.Porto:1960,folha6Fonte:ArquivoMunicipal Alfredo Pimenta 11 “Memóriadescritivadoante-projectodoEstádioMunicipaldeGuimarães”Op.cit.p.7 12 CASALRIBEIRO,Helder,“AExperimentaçãodoModernonaObradeMárioBonito–Umprocessodedesenho dos anos 40 a 60” Tese de doutoramento em Arquitectura, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 2013. p. 570
112| OBRA
|113 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Estádio Municipal de Braga (2000 - 2003)
114| OBRA Fig. 65. Planta de implantação, Eduardo Souto Moura, 2003 Fig. 66. Planta geral, Eduardo Souto Moura, 2003
|115 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Fig. 67. Corte Transversal, Eduardo Souto Moura, 2003 Fig. 68. Corte Longitudinal - Bancada Poente, Eduardo Souto Moura, 2003 Fig. 69. Corte Longitudinal - Bancada Nascente, Eduardo Souto Moura, 2003
116| OBRA
|117 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES O Estádio Municipal de Braga, desenhado por Eduardo Souto Moura1 e construído em 2003, integraoprocessodeconstruçãoereabilitaçãodedezestádiosdefutebol2 que iriam servir a organizaçãodoEuro2004emPortugal. ApropostadelocalizaçãodoEstádioMunicipaldeBragasurgeintegradanumprojectomais abrangentequepretendiaaconstruçãodeumparqueurbano,decarizdesportivo,queservisse deapoioàpopulaçãoepermitisseeapoiasseaexpansãourbanísticadacidadeparanorte. O parque funcionaria como catalisador para o crescimento do concelho, apoiado na construção deumconjuntodeinfra-estruturasquepermitissemaintegraçãodazonahabitacionalexistente. Este parque incluiria um complexo de piscinas na proximidade do Estádio que afirmasse o carácterdesportivodoarranjourbanístico. O desenho do parque urbano, elaborado previamente à entrada de Eduardo Souto Moura no processo do Estádio Municipal de Braga, previa a construção do recinto próximo do Monte Castro num local diferente daquele onde viria a ser construído. A área designada por Monte Castro, localizadanaperiferiaurbanadeBraga,constituiumdospontosmaiselevadosdacidade.A configuraçãodomonteapresentavaumatopografiabastanteirregularacentuadapelapresença de uma pedreira que dominava a paisagem. ApropostadeEduardoSoutoMouraimplantaoEstádio,numlocaldistintodoprevistonoPlano, tirandopartidodapedreiraelibertandoumcursodeáguaquenoplanodoparqueurbanoseria interrompido. “Era um dado adquirido no Plano mas eu mudei-o completamente, desviei-o uns cem ou duzentos metros. O estádio era encaixado numa linha de água com as curvas de nível simétricas, em que 1 Eduardo Souto Moura nasceu no Porto em 1952. Arquitecto formado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto,colaboroucomÁlvaroSizaVieiraentre1974e1979nodecursodoseupercursoacadémico.Concluiasualicenciatura em 1980 e em 1981 é convidado para ser assistente do curso de Arquitectura na Faculdade de Arquitectura daUniversidadedoPorto.Autordeinúmerasobras,destacam-seoMercadoMunicipaldeBraga,aCasadasArtes,a CasadoCinemadeManoeldeOliveiraeoEdifícioBurgonoPorto,oConventodeSantaMariadoBouroemAmares e a Casa das Histórias em Cascais. Em2011égalardoadocomoPrémioPritzkerdeArquitectura,tornando-seosegundoarquitectoportuguês,depois deÁlvaroSizaVieira,aserdistinguidocomoprémio. 2 ParaaorganizaçãodoeventoforamreabilitadoseconstruídosestádiosemBraga,Guimarães,Porto(Bessae Dragão),Aveiro,Coimbra,Leiria,Lisboa(AlvaladeeLuz),eFaro.
118| OBRA Fig. 70. Implantação Fig. 71. Vista aérea
|119 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES as quatro arquibancadas ficavam assentes em terra. Era um estádio mais convencional e foi assim que iniciei o trabalho.”3 Verifica-secomestaexplicitaçãoqueaestratégiadeimplantaçãodoestádiodiferedosoutros casos já abordados, estabelecendo um diálogo singular com a paisagem existente, ou seja, a topografiaem formade valeé preterida pela potencialidadeplásticae,possivelmente,pela noçãoromânticadapedreira,istoé,osentidoderuína. Assim, o Estádio Municipal de Braga poderá ser dividido em cinco momentos que definem nãosóoseuprincípiodefuncionamentomastambémcaracterizamoprocessotopográficoe interventivonoterreno,perceptívelnodesenhoemcortedoEstádio:aspraçasàcotabaixae alta,asbancadas,ocampo,apedreiraeacobertura.Aimplantaçãoedefiniçãodestescinco momentosreflecteumprincípiodeorganizaçãoassentenacompreensãotopográficadoterreno enanoçãodopercursopedonalcomotemaestruturadordapaisagem,permitindoaintegração e relação do Estádio a diferentes escalas. OentendimentodoEstádiocomoumapeçaàescaladoterritórioreflecte-senoreconhecimento einterpretaçãodamorfologiaedefiniçãourbanísticadolocal,econsequenteimplantação. Duas observações parecem pertinentes a propósito do discurso arquitectónico do Estádio a partirdaescalaurbana. Aprimeiraseráacaracterizaçãododesenhoemplanta,solidáriocomoreconhecimentoda matriz urbana envolvente condicionada pela topografia acidentada do terreno, que poderá servir como plataforma para um desenho caracterizado por um equilíbrio entre espaços de antecipação – praças - e a própria volumetria das bancadas. O desenho das praças à cota alta e àcotabaixareflectemaintençãonãosódeummomentodeabertura,masdeumaintegração cuidada,desenhandoummomentoestáveldeintegraçãodoEstádiocomosedifíciospróximos. Amanchaurbanaasul,caracterizadaporedifíciosdehabitaçãounifamiliardedoispisos,define umaenvolventepróximadeescalareduzida,sugerindoumadesadequaçãocomoprograma proposto para a construção do parque. No entanto, o desenho da praça na proximidade com esta realidade, em conjunto com a cota de implantação do Estádio, estabelece o diálogo de 3 SOUTOMOURA,Eduardo,“Linha”.Lisboa:2003
120| OBRA Fig. 72. Esquema conceptual, Eduardo Souto Moura
|121 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES integraçãodoedificadoexistentecomoparqueeoEstádioatravésdarelaçãovolumétricaea adequação do desenho da praça na transição entre escalas. Reconhece-se nesta intenção um profundo respeito pela malha urbana à cota alta, o Estádio nãoseimpõemasentraemcontactoatravésdodesenhodapraça–plataformadefinidapela ausênciadevolumetriaeedificação. A segunda reflecte-se na leitura em corte do Estádio. As duas praças, pelo seu desenho e semelhança, além de definirem momentos de recepção e transição no Estádio, sugerem o diálogo entre cotas. O reconhecimento destes elementos, com uma presença volumétrica e proporçõessemelhantes,traduz-senacaracterizaçãodatransiçãoentrecotasconseguidacom aimplantaçãoeconfiguraçãodoEstádio.OEstádiointegraetranspõeagrandediferençade cota que separa osnúcleos habitacionais a sul e a norte, criando um elemento reconhecível na transição entre cotas, coerente com a intenção de expansão da malha urbana da cidade para norte. “Com uma altura de 40 metros, o Estádio ficará adoçado a duas praças com o mesmo desnível. Sendo assim, o Edifício poderá servir de “âncora” à organização do território, na emergente expansão da cidade a Norte. A Sul, também foi assim há vinte anos, no Mercado do Carandá. Hoje sem romantismos, estou a amputá-lo, para que não morra de gangrena.”4 Odesenhoeimplantaçãodasbancadasdefinem-seapartirdoreconhecimentodasqualidades plásticas da pedreira existente e da condição cénica inerente ao espectáculo desportivo proporcionado pelo futebol. “Mas, à medida que fui visitando o local, sobretudo quando o vi de cima, deduzi que era muito mais interessante mudá-lo e usar a montanha, onde estava a pedreira desmontada, e usar a pedra como hipótese de uma modelação para fazer uma arquibancada.”5 4 SOUTOMOURA,Eduardo-“CatálogoeExposiçãoPrémioSecildeArquitectura2004”.Lisboa:OrdemdosArquitectos e SECIL, 2005 5 SOUTOMOURA,Eduardo,“OEstádiodeBragadeEduardoSoutoMoura”inRevista Linha, Jornal Expresso. 29 de Novembro de 2003.
128| OBRA Fig. 80. Relação com a vegetação Fig. 81. Lajes de escadas
|129 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES tratasse,conferindoummovimentoeelegânciaaoalçadoquereflecteumaintencionalidadede desenho desde a escala do território à escala humana. O alçado conjuga todos os elementos que compõem a bancada e apresenta-se como um corte, rematando o movimento rítmico das lâminas. A abordagem encontrada no alçado do Estádio Municipal de Braga encontra paralelo tanto no desenho do Silo – Espaço Cultural em Matosinhos, como na Torre Burgo no Porto. NoSilo,ocortedalajedepisoondeencaixamasescadaspermite,semartifíciosoudistorções, perceberaconfiguraçãoestrutural,realçandoaintencionalidadeeafirmaçãodorecortedalaje. Damesmaforma,o alçadode rua do volumehorizontaldoEdifícioBurgo realçao carácter estruturaldaobrapelaformacomomostraofuncionamentoconstrutivodoselementosque compõem os alçados da torre, criando um momento em que o princípio de pensamento de um corte no desenho de projecto é transposto para a obra. OprocessodefinidordoalçadodoEstádioMunicipaldeBragademonstra,destaforma,uma coerência conceptual na obra de Eduardo Souto Moura transversal a diferentes programas e escalas. Emtermosconstrutivos,oEstádioéconstruídototalmenteembetão,reforçandoocarácter estruturalerealçandoadistinçãoentreconstruídoenãoconstruído. “A preocupação pelo detalhe foi exactamente igual à que existe para uma obra pequena. Simplesmente, tive de reduzir a variedade de detalhes, ou enlouquecia. Um estádio é uma obra de sistematização de meia dúzia de detalhes. Para lá chegar tive de trabalhar duramente e testar protótipos, fizemos quase tudo numa dimensão real. E aconteceu uma coisa com piada: até certo ponto, o projecto era muito mais “janota” que a obra. Ou seja, havia guardas em inox e pavimentos epoxy auto-nivelantes. Quando percebi a escala, e de certo modo a grosseria do betão, que eu não podia controlar, retirei estes materiais. Neste contexto resultam melhor guardas galvanizadas, e são mais baratas; adequa-se mais um cimento afagado no chão que um auto-nivelante suíço. Foi um trabalho quase ao contrário, de retirar desenho, retirar presença das coisas.”12 12 Ibidem.
130| OBRA Fig. 82. Entrada pela bancada poente
|131 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES OprocessodeimplantaçãodoEstádioeadefiniçãododesenhoàescalaurbana,reflecteum profundocompromissonarelaçãodoedifíciocomaenvolvente.Damesmaforma,aapropriação da pedreira como tema de projecto, e a intencionalidade do desenho do Estádio apoiado nas característicasplásticasdapedra,demonstraumprincípiodeinterpretaçãodoterrenonoauxílio ao desenho do projecto pautado pelo diálogo entre arquitectura e lugar.
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|133 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Considerações Finais
134|
|135 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Aanálisedainfluênciadolugarnodesenhodoscasosdeestudorevelaumdiscursoarquitectónico apoiadoemtemasdeprojectoresultantesdainterpretaçãodamorfologiaetopografiadoterreno edoselementosconstituintesdaenvolvente.Abordaassimadefiniçãoenoçãodelimite,a relação interior/exterior – diálogo visual com envolvente/paisagem - e a reinterpretação dos materiais comotemade projecto,e a procura de uma definiçãoconceptualapoiadanestes temascomomotivodedesenho. Odiálogotopográficoentreobraeterrenosurgecomoumdostemasprojectuaistransversais a todos os casos de estudo. A interpretação morfológica do lugar permite uma definição conceptualparticulardasobrasestudadas.Ainterpretaçãodeumaencostacomolocalideal para a implantação de um estádio sugere um pensamento coerente com o princípio dos teatros helénicos. A pendente surge como tema de projecto e como mote para um desenho estruturado apartirdestacondição.Serádesalientaraintencionalidadenaimplantaçãodoscasosdeestudo emlocaisquecriamestascondições,reflectindoaintençãodeintegraçãoediálogomorfológico que parte desde o início do processo de desenho dos conjuntos. A procura de uma definição de limite, coerente com o princípio de integração topográfica, revela-se especialmente pertinente na definição de um discurso arquitectónico apoiado no reconhecimento dos elementos naturais circunstantes como parte do projecto, e consequência deumadefiniçãoconceptualassentenainterpretaçãovolumétricadavegetação. “A relação entre natureza e construção é decisiva na arquitectura. Esta relação, fonte permanente de qualquer projecto, representa para mim como que uma obsessão; sempre foi determinante no curso da história (…)”1 Odesenhodopontodecontactodoconstruídocomonaturalérevelador,nãosódacaracterização topográficadaspropostas,mastambémdocompromissoconceptualassumidonaintegração doedificadonapaisagemenarelaçãocomaenvolventepróxima.Ousodavegetaçãocomo elemento reconhecível e de transição revela-se particularmente importante na definição/ 1 SIZAVIEIRA,Álvaro,”ÁlvaroSiza:Imaginaraevidência”. Lisboa:Edições70,2009.
136| diluição do limite tanto no Estádio Nacional2 como no Estádio 1º de Maio3. Nestes dois casos, a vegetaçãoassumeumpapelclaramentedefinidordoconjunto. Amassaarbóreaqueenvolveosestádioscaracteriza-seporumafortepresençavolumétrica, coerente com os princípios de desenho estruturantes das propostas. A ausência de cobertura em ambos os casos revelar-se-á essencial na possibilidade de relação visual com a vegetação - factorfundamentalnaprocuradeumsentimentodepertençaeintegraçãoduranteautilização doequipamento-ecomoagentedefinidordaenvolvênciaerelaçãopessoalehumanacomo construído. “Foi nossa preocupação construir um estádio integrado na paisagem e do qual se pudesse estar em contacto com ela. (…) Não desejamos apenas integrar o estádio na paisagem afastada mas ligando-o aos montes e árvores próximas conseguimos alargar-lhe o âmbito estreitando o seu contacto com a natureza.”4 Poder-se-áargumentar,contudo,adiferençadodesenhodeperfilnocontactocomoterreno, emambasaspropostas,comopertinenteparaumainterpretaçãodiferenciadanadefinição de limite. O contacto com o terreno diferencia-se principalmente no desenho do percurso que circunda as bancadas, e na forma como este elemento interfere na transição entre construído e não construído. A inclusão do percurso no interior do estádio, como sucede no Estádio Nacional, permiteintegraçãodavegetaçãoàcotadecirculação,reflectindo-senumarelaçãoimediata,e um contacto directo com os elementos que compõe a envolvente próxima, sendo o desenho do limitefísicodoestádioconseguidocomabasedavegetação.NoEstádio1ºdeMaio,pormotivos programáticosedesegurança,opercursoencontra-senoexterior,exigindoaconstruçãodeum muro que faça esta separação. No entanto, será nesta diferença que se encontrará a semelhança conceptual no uso da vegetação. O desenho do percurso do Estádio 1º de Maio, apesar de acompanharacotadasentradas,nãodefineacotadavegetação,queacompanhaacérceado 2 Verfig.11,p.46 3 Verfig.33,p.70 4 ANDRESEN,Teresa;BETTENCOURTDACAMARA,Teresa;GUEDESDECARVALHO,Luis,“LugaresdaArquitectura Paisagista Portuguesa 1940 - 1970”, in ANDRESEN, Teresa (coord. editorial), Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Francisco Caldeira Cabral e a primeira geração de arquitectos paisagistas (1940-1970).Lisboa:Fundação CalousteGulbenkian,2003.
|137 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES estádio,permitindo,apartirdointeriorapercepçãodeumdesenhodeconjuntorealçadopela massa arbórea envolvente. O diálogo visual com elementos/paisagem circundantes, definidores da relação interior/ exterior, poderá ser considerado um dos temas de projecto comum a todos os casos de estudo. Aaberturaeinterrupçãodasbancadasafirmamumaintençãoderelaçãocomapaisagem,e estrutura o princípio de desenho do conjunto.5Odiálogonatureza/paisagem/construídosurge nãosócomorelaçãofísica,mastambémnaformacomooequipamentodesportivoapreende a envolvente distante e a incorpora como parte do conjunto.6 A interpretação da abertura como enquadramento sobre a paisagem será especialmente explorada como tema principal de desenho no Estádio do Restelo. A relação da cobertura com a bancada inferior permite um desenhoquasefotográficosobreamargemopostadorioTejoesobreoMosteirodosJerónimos, realçandoainfluênciadaenvolventenodesenhodoequipamento.7 A integração e interpretação dos elementos naturais como tema de projecto encontram uma expressão particular no Estádio Municipal de Guimarães. O desenho do muro de suporte, obedecendo a um princípio de integração total, e encarado como um elemento adaptável, estrutura o princípio de relação interior/exterior assente na relação entre estádio e parque.8 Será de salientar a clareza conceptual conseguida na utilização dos materiais como forma máximadeexpressãodeumdesenho,emqueaslinhasdefinidaspelosvolumes,eodesenhode contorno do conjunto, realçam um discurso arquitectónico assente na interpretação morfológica do terreno, e a exploração da memória como elemento fulcral da integração no lugar. OusodapedranoEstádioMunicipaldeGuimarãesreflecteaintençãodeintegraçãodovolume que conforma as bancadas no parque onde se insere. Será de salientar a diferença conceptual do uso do granito por Mário Bonito em relação ao Estádio Nacional e ao Estádio 1º de Maio. Nosdoisúltimos,ousodogranitoreflecteaintencionalidadedeumaarquitecturadomesticada peloregimetotalitário,eaprocuradeumcarácternacionalapoiadonapropagandanazi,enos 5 Verfig.27,p.64 6 Verfig.12,p.48 7 Verfig.46,p.88 8 Verfig.58,p.106
144| TOSTÕES,Ana,“ArquitecturaModernaPortuguesa:osTrêsModos”inArquitectura moderna portuguesa 1920 – 1970: um património para conhecer e salvaguardar (Coord.AnaTostões),Lisboa:InstitutoPortuguêsdoPatrimónio Arquitectónico, 2003 TOSTÕES,Ana,“Construçãomoderna:asgrandesmudançasdoséculoXX” VIEIRADEALMEIDA,Pedro,“AArquitecturanoEstadoNovo”.Lisboa:LivrosHorizonte,2002 2G Revista Internacional de Arquitectura nº5, Eduardo Souto de Moura obra recente. Barcelona:EditorialGustavo Gili, 1998. Fontes Primárias Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Câmara Municipal de Guimarães Arquivo Municipal de Braga, Câmara Municipal de Braga Arquivo Histórico da Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano (DGOTDU) ArquivoMunicipaldeLisboa-núcleoHistórico,CâmaraMunicipaldeLisboa InstitutodaHabitaçãoeReabilitaçãoUrbana(IHRU),FortedeSacavém MuseudoClubedeFutebol“OsBelenenses”
|145 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Lista de Imagens Fig. 1. “EstádioNacional”-plantadoconjunto,MiguelJacobettyRosa. Fonte:SistemadeInformaçãoparaoPatrimónioArquitectónico,RegistonºPT031110080020. Fig.2. “EstádioNacional”-plantadeimplantaçãoerelaçãocomcurvasdenivel,MiguelJacobettyRosa. Fonte:SistemadeInformaçãoparaoPatrimónioArquitectónico,RegistonºPT031110080020. Fig.3. “EstádioNacional”-plantageraldoEstádio,MiguelJacobettyRosa. Fonte:SistemadeInformaçãoparaoPatrimónioArquitectónico,RegistonºPT031110080020. Fig. 4. Maqueta da proposta de Carlos Ramos. Fonte:http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2013/05/estadio-nacional.html Fig.5. MaquetadapropostadeCristinodaSilva. Fonte:ANDRESEN,Teresa,“TrêsdécadasdearquitecturapaisagistaemPortugal1940-1970”inANDRESEN,Teresa (coord. Editorial), Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Francisco Caldeira Cabral e a primeira geração de arquitectospaisagistas(1940-1970).Lisboa:FundaçãoCalousteGulbenkian,2003.p.32 Fig.6. “PlanoGeraldoEstádiodeLisboa”,JorgeSegurado. Fonte:http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2013/05/estadio-nacional.html Fig.7. “PlanogeraldoEstádioNacional”,cópiadeJoséPedroMartinsBarata. Fonte:ANDRESEN,Teresa;BETTENCOURTDACAMARA,Teresa;GUEDESDECARVALHO,Luis,“LugaresdaArquitectura PaisagistaPortuguesa1940-1970”,inANDRESEN,Teresa(coord.editorial),DoEstádioNacionalaoJardimGulbenkian. FranciscoCaldeiraCabraleaprimeirageraçãodearquitectospaisagistas(1940-1970).Lisboa:FundaçãoCalouste Gulbenkian,2003.p.149 Fig. 8. Planta de Francisco Caldeira Cabral. Fonte:ANDRESEN,Teresa,“TrêsdécadasdearquitecturapaisagistaemPortugal1940-1970”inANDRESEN,Teresa (coord. Editorial), Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Francisco Caldeira Cabral e a primeira geração de arquitectospaisagistas(1940-1970).Lisboa:FundaçãoCalousteGulbenkian,2003.p.38 Fig. 9. Envolvente e Estádio Nacional. Fonte:ArquivoHorácioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian Fig. 10. Vista aérea. Fonte:ArquivoHorácioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig. 11. Vegetação circundante e bancada. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 12. Abertura e vista sobre o vale. Fonte:Fotografiadoautor. Fig.13. “EstádioNacional”-plantadaPraçadaMaratona,MiguelJacobettyRosa. Fonte:SistemadeInformaçãoparaoPatrimónioArquitectónico,RegistonºPT031110080020. Fig. 14. Praça Sul. Fonte:ArquivoHorácioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig. 15. Praça da Maratona e Tribuna de Honra. Fonte:ArquivoHorácioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig. 16. Sanitários. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 17. Balneários.
146| Fonte:ArquivoHorácioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig.18. “Estádio28deMaioBraga”-plantadeimplantação,JoãoSimões,1946. Fonte:ArquivoMunicipaldeBraga. Fig.19. “Estádio28deMaioBraga”-plantasuperior,JoãoSimões,1946. Fonte:ArquivoMunicipaldeBraga. Fig.20. “Estádio28deMaioBraga”-plantadeInteriores,JoãoSimões,1946. Fonte:ArquivoMunicipaldeBraga. Fig.21. “Estádio28deMaioBraga”-cortelongitudinal,JoãoSimões,1946. Fonte:ArquivoMunicipaldeBraga. Fig.22. “Estádio28deMaioBraga”-cortetransversal,JoãoSimões,1946. Fonte:ArquivoMunicipaldeBraga. Fig.23. “Estádio28deMaioBraga”-plantadeimplantação,JoãoSimões,1946. Fonte:ArquivoMunicipaldeBraga. Fig. 24. Enquadramanto geral. http://bragamaior.blogspot.pt/2012/10/estadio-1-de-maio-vai-ser-classificado.html Fig. 25. Vista do parque . Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 26. Vista do topo sul. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 27. Vista da abertura a norte. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 28. Vista da entrada. Fonte:ArquivoMárioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig. 29. Pormenor da pala. Fonte:Fotografiadoautor. Fig.30. “Estádio28deMaioBraga”-cortelongitudinal,JoãoSimões,1946. Fonte:ArquivoMunicipaldeBraga. Fig.31. “Estádio28deMaioBraga”-cortetransversal,JoãoSimões,1946. Fonte:ArquivoMunicipaldeBraga. Fig. 32. Vista da bancada poente. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 33. Vista do topo sul. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 34. Vista do acesso à bancada. Fonte:Fotografiadoautor. Fig.35. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-ante-projecto”-plantadeconjunto,CarlosRamos,1951. Fonte:ArquivoMunicipaldeLisboa-núcleoHistórico,registonº25868. Fig.36. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-projecto”-plantageral,CarlosRamos,1951 . Fonte:ArquivoMunicipaldeLisboa-núcleoHistórico,registonº25868. Fig.37. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-projecto”-corteslongitudinaletransversal,CarlosRamos,1951. Fonte:ArquivoMunicipaldeLisboa-núcleoHistórico,registonº25868. Fig.38. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-projecto”-alçadoslaterais,CarlosRamos,1951.
|147 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Fonte:ArquivoMunicipaldeLisboa-núcleoHistórico,registonº25868. Fig.39. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-ante-projecto”-alçadotoposul,CarlosRamos,1951. Fonte:ArquivoMunicipaldeLisboa-núcleoHistórico,registonº25868. Fig. 40. Vista topo norte. Fonte:ArquivoMárioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig. 41. Maqueta do Estádio do Restelo, 1953. Fonte:ArquivoMárioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig.42. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-ante-projecto”-plantaaoníveldabancadainferiorevestiários,Carlos Ramos, 1951 . Fonte:ArquivoMunicipaldeLisboa-núcleoHistórico,registonº25868. Fig.43. “EstádioparaoC.F.OsBelenenses-projecto”-alçadotoposul,CarlosRamos,1951. Fonte:ArquivoMunicipaldeLisboa-núcleoHistórico,registonº25868. Fig. 44. Bancada poente. Fonte:ArquivoMárioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig. 45. Bancada nascente. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 46. Vista da abertura. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 47. Muro de suporte, sanitários e bares. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 48. Alçado bancada poente. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 49. Bancada poente. Fonte:Fotografiadoautor. Fig. 50. Vista da abertura. Fonte:ArquivoMárioNovais,GaleriadeBibliotecadeArteFundaçãoCalousteGulbenkian. Fig.51. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-plantadeconjunto,MárioBonito,1960. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.52. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-cortes,MárioBonito,1958. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.53. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-alçadopoente,MárioBonito,1958. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.54. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-cortedabancada,MárioBonito,1960. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.55. “AnteplanodeUrbanizaçãodaCidadedeGuimarães”,MariaJoséM.MoreiradaSilvaeDavidMoreirada Silva, 1949. Fonte:ArquivoHistóricodaDirecção-GeraldoOrdenamentodoTerritórioeDesenvolvimentoUrbano. Fig.56. “AnteplanodeUrbanizaçãodaCidadedeGuimarães-Remodelação” Maria José M. Moreira da Silva e David Moreira da Silva, 1953. Fonte:ArquivoHistóricodaDirecção-GeraldoOrdenamentodoTerritórioeDesenvolvimentoUrbano. Fig.57. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-plantadeconjunto,MárioBonito,1960. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58.
148| Fig.58. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-cortes,MárioBonito,1958. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.59. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-cortesdebancada,MárioBonito,1960. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.60. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-alçadonascente,MárioBonito,1960. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.61. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-cortedatorreolímpica,MárioBonito,1960. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.62. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-Cortedabancadaecamarotes,MárioBonito,1960. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.63. “EstádioMunicipaldeGuimarães”-alçadopoente,MárioBonito,1960. Fonte:ArquivoMunicipalAlfredoPimenta,Guimarães,Processodelicenciamento,Registo14/U/58. Fig.64. Fotografiaaérea. Fonte:VitóriaSportClub Fig. 65. Planta de implantação, Eduardo Souto Moura, 2003. Fonte:“AEngenhariadoEstádioMunicipaldeBraga”,Afaconsult,p.27. Fig. 66. Planta geral, Eduardo Souto Moura, 2003. Fonte:“AEngenhariadoEstádioMunicipaldeBraga”,Afaconsult,p.27. Fig. 67. Corte Transversal, Eduardo Souto Moura, 2003. Fonte:“AEngenhariadoEstádioMunicipaldeBraga”,Afaconsult,p.27. Fig. 68. Corte Longitudinal - Bancada Poente, Eduardo Souto Moura, 2003. Fonte:“AEngenhariadoEstádioMunicipaldeBraga”,Afaconsult,p.32. Fig. 69. Corte Longitudinal - Bancada Nascente, Eduardo Souto Moura, 2003. Fonte:“AEngenhariadoEstádioMunicipaldeBraga”,Afaconsult,p.32. Fig. 70. Implantação. Fonte:ExtractoGoogle Earth Fig. 71. Vista aérea. Fonte:HugoDelgado Fig. 72. Esquema conceptual, Eduardo Souto Moura. Fonte:SOUTOMOURA,Eduardo,“EstádioMunicipaldeBraga”inAFONSO,João;MOTASARAIVA,Tiago,Catálogo e Exposição Prémio Secil de Arquitectura 2004. Lisboa:OrdemdosArquitectoseSecil,2005. Fig. 73. Esquiço vista do campo, Eduardo Souto Moura. Fonte:SOUTOMOURA,Eduardo,“EstádioMunicipaldeBraga”inAFONSO,João;MOTASARAIVA,Tiago,Catálogo e Exposição Prémio Secil de Arquitectura 2004. Lisboa:OrdemdosArquitectoseSecil,2005. Fig. 74. Esquiço vista geral, Eduardo Souto Moura. Fonte:SOUTOMOURA,Eduardo,“EstádioMunicipaldeBraga”inAFONSO,João;MOTASARAIVA,Tiago,Catálogo e Exposição Prémio Secil de Arquitectura 2004. Lisboa:OrdemdosArquitectoseSecil,2005. Fig. 75. Praça e acessos à bancada poente. Fonte:HugoDelgado. Fig. 76. Relação do campo com a pedreira. Fonte:JoãoMorgado Fig. 77. Alçado da bancada nascente.
|149 DO LUGAR À OBRA - CINCO EQUIPAMENTOS DESPORTIVOS PORTUGUESES Fonte:CarlosCoutinho,http://www.flickr.com/photos/carloscoutinho Fig. 79. Lajes de escadas. Fonte:CarlosCoutinho,http://www.flickr.com/photos/carloscoutinho Fig. 78. Lajes de escadas. Fonte:CarlosCoutinho,http://www.flickr.com/photos/carloscoutinho Fig. 80. Relação com a vegetação. Fonte:CarlosCoutinho,http://www.flickr.com/photos/carloscoutinho Fig. 81. Lajes de escadas. Fonte:CarlosCoutinho,http://www.flickr.com/photos/carloscoutinho Fig. 82. Entrada pela bancada poente. Fonte:CarlosCoutinho,http://www.flickr.com/photos/carloscoutinho