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A caminho da aceitação...: vivências de mães e pais face à identidade de género dos/as filhos/as não conforme o sexo

Catarina Maria Rego Moreira

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Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação A CAMINHO DA ACEITAÇÃO... VIVÊNCIAS DE MÃES E PAIS FACE À IDENTIDADE DE GÉNERO DOS/AS FILHOS/AS NÃO CONFORME O SEXO Catarina Maria Rêgo Moreira Outubro, 2014 Dissertação apresentada no Mestrado Integrado de Psicologia, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, orientada pela Professora Doutora Maria da Conceição de Oliveira Carvalho Nogueira (FPCEUP). ii AVISOS LEGAIS O conteúdo desta dissertação reflete as perspetivas, o trabalho e as interpretações da autora no momento da sua entrega. Esta dissertação pode conter incorreções, tanto conceptuais como metodológicas, que podem ter sido identificadas em momento posterior ao da sua entrega. Por conseguinte, qualquer utilização dos seus conteúdos deve ser exercida com cautela. Ao entregar esta dissertação, a autora declara que a mesma é resultante do seu próprio trabalho, contém contributos originais e são reconhecidas todas as fontes utilizadas, encontrando-se tais fontes devidamente citadas no corpo do texto e identificadas na secção de referências. A autora declara, ainda, que não divulga na presente dissertação quaisquer conteúdos cuja reprodução esteja vedada por direitos de autor ou de propriedade industrial. iii Agradecimentos Este trabalho, acima de tudo, representa, para mim, um enorme processo de aprendizagem e de crescimento pessoal, que se estende e estenderá muito para além das próximas páginas, e foi, em grande medida, proporcionado por várias pessoas, a quem expresso a minha sincera gratidão: À Professora Doutora Conceição Nogueira, pela orientação atenta, apoio constante, disponibilidade e sinceridade com me acompanhou nesta jornada de quase dois anos. Por me fazer entender que “todo o conhecimento deriva do facto de olharmos o mundo de uma ou de outra perspetiva e em função de uns interesses em detrimento de outros”... Ao Professor Doutor Nuno Carneiro, que esporadicamente tomou também parte neste caminho, e cujo feedback, preciso e desafiador, foi fulcral em algumas questões, motivando-me a explorar novas e “provocantes” perspetivas... À Liliana Rodrigues, pelas conversas apoiantes e partilha de experiências, que principalmente numa fase inicial foram tão importantes para delinear o meu caminho... Ao Telmo Fernandes, pelas experiências que, enquanto voluntária da ILGA Portugal, tive oportunidade de ter, que me fizeram sair da minha zona de conforto e representaram um marco no meu crescimento pessoal... À Doutora Cristina Coelho, que no contexto do estágio curricular, foi um auxílio fulcral no recrutamento dos/as participantes, e por me ter permitido um contacto tão próximo com a prática clínica com tantas pessoas que desafiam as fronteiras do género e do sexo e suas famílias, e acima de tudo pela confiança depositada no meu trabalho... À Doutora Zélia Figueiredo, que também no contexto do estágio curricular, foi importante no auxílio ao recrutamento dos/as participantes. Pela mesma confiança no meu trabalho, e pela partilha do seu longo conhecimento e experiência nesta área... Às mães e aos pais, participantes deste estudo, que merecem o maior agradecimento, pela forma tão sincera, aberta e disponível com que partilharam comigo os seus caminhos em direção à aceitação. Pelo que tanto aprendi com elas/es... iv Aos/às filhos/as, das/os participantes, com quem tive oportunidade de contactar durante o estágio curricular, pela forma como os seus percursos foram inspiradores para mim e contribuíram para um gosto cada vez maior pela temática... Às colegas e ao colega de seminário, pela partilha das dificuldades inerentes aos temas pelos quais enveredamos e pela interajuda... À Sílvia, pela paciência em me ensinar as formatações iniciais, e pelo que com ela aprendo acerca da exigência de nos dividirmos entre o trabalho e os tantos compromissos para além dele... À Stephanie, pela disponibilidade e prontidão com que me traduziu o resumo... À Joana, pela prontidão em me auxiliar nos acabamentos práticos deste trabalho... À Georgina, pelas tantas viagens partilhadas entre cansaço e conversas apoiantes, por estar sempre pronta a ajudar, até no último instante... Aos meus pais, pois sem tudo o que me fizeram ser e sem o seu apoio incondicional, nunca teria chegado até aqui da forma que cheguei. Pela compreensão... A outros familiares, pela preocupação e encorajamento constante... Às amigas e amigos, pela curiosidade acerca da temática com que me desafiam, pelo encorajamento e força, tão importante em alguns momentos... Ao Rogério, pela escuta, paciência, compreensão e suporte incondicionais no tempo e no espaço. Por tanto... E aos/às muitos/as anónimos/as, com quem me cruzo diariamente, que me mostram o fascínio da diversidade das expressões e comportamentos de género... v Resumo O ponto de partida para este trabalho emergiu da reflexão acerca das realidades das pessoas cuja identidade de género não se conforma com o sexo biológico. A revisão da literatura partiu dos complexos meandros do conceito coming out, e dada a constatação da sua relevância em contexto familiar, seguiu em direção à exploração das experiências de pessoas transexuais no seio da família nuclear, o que permitiu conhecer que esta diz respeito a uma das muitas carências da investigação neste âmbito, com especial ênfase para os núcleos parentais, cujas vivências foram ainda muito pouco exploradas. Ao mesmo tempo, assiste-se à mudança no que respeita à conceção das pessoas transexuais como ausentes do seio familiar, sendo que atualmente as figuras parentais tomam cada vez mais parte no processo de transição. Assim, o presente trabalho, através de entrevistas individuais semiestruturadas, explora as vivências de 10 figuras parentais (8 mães e 2 pais) face à identidade de género dos/as filhos/as não conforme com o sexo biológico e ao consequente processo de transição. Os dados foram analisados através do método da análise temática, segundo Braun e Clarke (2006), tendo emergido 11 temas principais (tomada de conhecimento, apoio aos/às filhos/as, procura de suporte para o/a próprio/a, adaptação ao novo nome/pronome, adaptação às mudanças físicas, medos, sofrimento, interpretações e/ou etiologias para a identidade de género não conforme o sexo biológico, mudanças na relação pai/mãe-filho/a, aspetos positivos e papel dos/as profissionais de saúde), que fazem parte, e influenciam, o caminho em direção à aceitação da situação que cada mãe e cada pai tomou. Como conclusão principal extraiu-se a ideia de que os percursos em direção à aceitação foram diversos e na sua maioria não implicaram a atribuição de um significado de perda à situação, contrariamente ao que veicula a generalidade da literatura, e que todos eles pareceram ser trilhados em prol da felicidade e minimização do sofrimento do/a filho/a, tendo sido notória a extrema centração na experiência do/a descendente. Daqui se eduziram algumas implicações para a prática clínica e, por fim, foram também refletidas as limitações deste estudo e avançadas sugestões para a investigação futura. Palavras-chave: Aceitação, vivências, identidade de género, mães e pais, sexo biológico vi Abstract The starting point for this study was the reflection about the realities of people whose gender identity does not conform to biological sex. The chosen literature referred to the complex intricacies of the ‘coming out’ concept, and, given the evidence of their relevance in the family context, was followed by the exploration of transgender people’s experiences within the nuclear family, which revealed that this aspect is has been overlooked by research in this field, with special emphasis on parental nuclei, whose experiences have yet to be fully explored. At the same time, the change in terms of perceiving transgender people as being absent within the family is noticeable and, currently, parental figures are increasingly taking part in the transition process. Thus, this study, through semi-structured individual interviews, explores the experience of 10 parental figures (8 mothers and 2 fathers) in the face of their children’s non-compliant with the biological sex gender identity and the consequent transition process. Data were analyzed using thematic analysis method, according to Braun and Clarke (2006) - 11 main themes emerged (becoming aware, supporting the children, looking for support for oneself, adapting to new name/pronoun, adapting to physical changes, fears, suffering, interpretations and/or etiologies referring to gender identity that does not conform to the biological sex, changes in the father/mother-son/daughter relationship, and positive aspects of the health professionals’ role), which were a part and influence the way toward accepting the situation that every parent took. The main conclusion was the idea that the paths toward acceptance were diverse and, for the most part, did not involve attributing a meaning of loss to the situation, contrary to that which the majority of literature suggests. Furthermore, all paths appeared to be taken for the sake of happiness and to minimize the child’s suffering, revealing an extreme focus on the descendent’s experience. Therefore, some implications for clinical practice followed and, finally, the limitations of this study and the suggestions for future research were put forward. Keywords: Acceptance, experiences, gender identity, mothers and fathers, biological sex vii Résumé Le point de démarrage de ce travail vient de la réflexion sur les réalités des personnes dont l’identité du genre ne se conforme pas avec le sexe biologique. La révision de la littérature ou a débuté du difficile concept coming out, et donnée la constatation de son importance dans le contexte familial, elle a suivi en direction de l’exploration des expériences de personnes transsexuelles au sein de la famille nucléaire, ce qui a permis de connaître que celle-ci est une des nombreuses carences de l’investigation sur le sujet, avec une particulière attention par les noyaux parentaux, dont les expériences n’ont pas été beaucoup explorées. En même temps, on assiste à un changement dans le vécu des personnes transsexuelles absentes du sein familial, étant donné qu’aujourd’hui les figures parentales prennent chaque fois plus partie dans le processus de transition. Ainsi, le présent travail, à travers des interviews semi-structurées, explore les expériences de 10 exemples parentaux (8méres et 2 pères) face à l’identité du genre de ses fils/filles non conforme avec le sexe biologique et à la conséquence du processus de transition. Les données ont été analysées à travers la méthode de l’analyse thématique, selon Braun et Clarke (2006), ce qu’il en ressort en ayant 11 thèmes principaux (prise de connaissance, aide aux fils/filles, recherche de soutien pour elle/lui-même, adaptation au nouveau prénom, adaptation aux changements physiques, peurs, souffrance, interprétations et/ou étiologies pour l’identité de genre non conforme au sexe biologique, changements dans la relation père/mère-fils/fille, aspects positifs et les fonctions des professionnels de la santé), qui font partie, et influence le sens de l’acceptation de la situation que chaque mère et père ont pris. Comme conclusion principale, il en ressort que les processus en direction de l’acceptation ont été divers et dans la majorité n’ont pas entrainé la signification d’une perte de la situation, contrairement à ce que dit la généralité de la littérature, et leurs semblent s’orienter en faveur du bonheur et la diminution de la souffrance du fils/fille, il a été relevé l’extrême fixation de l’expérience du descendant. Il en ressort certaines implications pour la pratique clinique et pour conclure, ont été aussi reflétées les limitations de cette étude et avancées suggestions pour l’investigation future. Mots-clés : Acceptation, identité de genre, mères et pères, sexe biologique. viii Índice Introdução .............................................................................................................................. 1 1. Enquadramento teórico ...................................................................................................... 5 1.1.Coming out... Nos meandros do conceito .................................................................... 5 1.2.Coming out da identidade de género – sua importância e particularidades ................. 8 1.3.Coming out no seio da família nuclear - O suporte familiar e a revelação aos pais .. 11 1.4.Dois modelos descritivos do processo de adaptação da família ................................ 13 1.5.A perspetiva parental ................................................................................................. 15 2.Metodologia ...................................................................................................................... 19 2.1.Participantes ............................................................................................................... 19 2.2.Método de recolha dos dados ..................................................................................... 20 2.3.Método de análise dos dados ..................................................................................... 21 3.Análise e Discussão dos Resultados ................................................................................. 23 3.1.Tomada de conhecimento .......................................................................................... 23 3.2.Apoio aos/às filhos/as ................................................................................................ 27 3.3.Suporte para o/a próprio/a .......................................................................................... 29 3.4.Adaptação ao novo nome/pronome ........................................................................... 30 3.5.Adaptação às mudanças físicas .................................................................................. 33 3.6.Medos ......................................................................................................................... 35 3.7.Sofrimento ................................................................................................................. 36 3.8.Interpretações e/ou etiologias para a identidade de género não conforme o sexo biológico .......................................................................................................................... 37 3.9.Mudanças na relação pai/mãe-filho/a ........................................................................ 40 3.10.Aspetos positivos ..................................................................................................... 42 3.11.Papel dos profissionais de saúde .............................................................................. 44 4.Conclusões e implicações clínicas .................................................................................... 49 Referências Bibliográficas ................................................................................................... 56 Anexos ................................................................................................................................. 63 6 Lev (2004) esclareceu que estes estádios não pretendem rotular as pessoas, definir a sua maturidade em termos de identidade de género, ou limitar as experiências de cada um/a. A autora ressalvou ainda que este “processo de emergência” é afetado por questões do foro cultural e social, económico, médico, pessoal, religioso, espiritual, entre outras. Os modelos em estádios têm sido alvo de fortes críticas, por encerrarem em si algumas limitações (Hill, 2009). Nomeadamente os modelos pioneiros, relacionados com o desenvolvimento da identidade lésbica e gay, conferiram linearidade ao processo de desenvolvimento da identidade. Porém, a formação da identidade não é ordenada nem previsível, e as pessoas podem experimentar os estádios em ordens diferentes, recuar a níveis anteriores, repetir estádios, permanecer num por tempo indefinido, ou mesmo desistir do processo de coming out, “fazendo passar-se” por heterossexuais (Rust, 1993). Hunter (2007) referiu que algumas pessoas autoidentificadas como lésbicas e gay relataram não se recordarem de fases de um processo de coming out, pois nunca tiveram dúvidas acerca de quem e o que eram e sempre estiveram “fora do armário” para si e para os outros. Além disso, outras pessoas não se identificam com nenhuma das categorias LGBT, por entenderem que estas não captam toda a abrangência das suas experiências no que concerne à identidade de género e à orientação sexual (Hill, 2009), e há ainda indivíduos que sentem que os rótulos não são necessários, estes autodenominam-se queer10 . Os modelos em estádios partem do princípio de que as pessoas têm a motivação de “sair do armário”, e os recursos culturais disponíveis para tal (Ridge & Ziebland, 2012). Orne (2011) considerou que o contexto sociocultural tem sido negligenciado na abordagem do coming out. Clarke e colaboradores (2010) criticaram a fusão do desenvolvimento da identidade com a revelação da identidade, e o facto de este tipo de modelos assumirem uma determinação essencialista da sexualidade, sendo que através da introspeção as pessoas podem descobrir a sua “verdadeira” identidade sexual. As críticas alargaram-se ainda a questões metodológicas, dado que estes modelos, na sua maioria, foram formulados a partir de amostras constituídas apenas por pessoas brancas, de classe média, que se identificaram como gay ou lésbicas (Hunter, 2007; Ridge & Ziebland, 2012). No âmbito da perspetiva construcionista social, que se contrapõe ao essencialismo dos modelos desenvolvimentais, foram postulados vários significados novos para o termo coming out. No entanto, segundo Orne (2011), alguns autores apenas postularam 10 Expressão usada para transmitir a ideia de recusa da fixidez identitária, como crítica às noções essencialistas de identidade e à própria ideia de identidade (Oliveira, Pinto, Pena, & Costa, 2009). 7 definições pessoais, e outros ignoraram a história do conceito e meramente acrescentaram a sua contribuição aos imensos já existentes. Desta forma, o termo expandiu-se e passou a cobrir várias definições diferentes, o que se apelida de inflação concetual, que contribuiu para que atualmente pareça existir uma desconexão entre a forma como as pessoas usam o termo no seu quotidiano e a forma como ele é utilizado na literatura (Orne, 2011). Uma noção importante e unânime na literatura é a de que o coming out não é um acontecimento único, mas um processo contínuo com cada nova relação ou acontecimento social ao longo da vida, que impelem decisões acerca do disclosure (Clarke et al., 2010; Lev, 2004; Morrow, 2006). Em Ridge e Ziebland (2012) os/as participantes declararam que continuamente “saem do armário” perante novas relações. Muitos indivíduos consideraram o coming out como uma oportunidade de crescimento pessoal decorrente do stress experimentado ao longo do processo, comportando melhorias na forma como se percecionam e experienciam a si mesmos, e melhorias na forma como percebem os seus pares LGBT, e nas suas relações com os mesmos (Vaughan & Waehler, 2010). A revelação da orientação sexual ou da identidade de género é considerada um marco na vida das pessoas que o fazem (Clarke et al., 2010; Morrow, 2006), sendo um aspeto central na experiência LGBT (Morrow, 2006). Strain e Shuff (2010) mostraram que variáveis de bem-estar psicológico (ansiedade, depressão, e autoestima) estavam relacionadas com o self-disclosure, sendo que quanto maior qualidade de self-disclosure, maior bem-estar psicológico, através do aumento da autoestima, diminuição de sintomas depressivos e redução dos níveis de ansiedade. Ridge e Ziebland (2012) enfatizaram o poder do coming out, apontando que este tem ajudado a transformar indivíduos e relações íntimas. Por outro lado, o coming out é também encontrado como um processo que, muitas vezes, acarreta consequências nefastas para a pessoa, no que respeita por exemplo ao aumento do risco de violência e abuso resultantes do preconceito. Esta possibilidade deve ser tida em conta em âmbito clínico, podendo nestas circunstâncias não ser vantajoso encorajar o/a cliente a revelar a sua identidade de género (Strain & Shuff, 2010). Há ainda quem decida não revelar, e quem selecione as pessoas (Gagné et al., 1997; Nuttbrock et al., 2009) e os contextos (Morrow, 2006) que têm acesso a essa informação. Os jovens, frequentemente, revelam aos pares/amigos em primeiro lugar (Clarke et al., 2010; Rossi, 2010), sendo os restantes contextos e pessoas, muitas vezes, privados da revelação explícita da sua orientação sexual ou identidade de género. Outros indivíduos não põem sequer questões quanto ao disclosure, e vivem de forma aberta e autêntica a sua identidade (Human Rights Campaign Foundation, 2013). 8 1.2.Coming out da identidade de género – sua importância e particularidades Ao longo da literatura é notório o predomínio de estudos no âmbito do coming out da orientação sexual não heterossexual e a escassa investigação quanto à identidade de género não conforme com o sexo biológico (e. g. Blumer et al., 2012; Gagné et al., 1997; Strain & Shuff, 2010; Zimman, 2009). Devor (2002) considera que as experiências de coming out são similares em ambas as condições “não normativas”. De facto, a consciência de ter uma orientação sexual não heterossexual ou uma identidade de género não conforme com os padrões habituais parece ser uma experiência idêntica, existindo, nos dois casos, a necessidade de ajustamento aos aspetos do self desprezados socialmente (Lev, 2004). Também a discriminação e o preconceito experimentados e as preocupações com a justiça social (e.g. proteção social, reconhecimento legal, acesso igualitário aos Serviços de Saúde) afetam tanto a orientação sexual como a identidade de género (Riggle, Rostosky, McCants, & Pascale-Hague, 2011). Porém, a literatura que enfatiza diferenças importantes no processo de coming out mostrase mais extensa (e.g. Fraser, 2009; Gagné et al. 1997; Hill, 2005; Lev, 2004; Sherriff, Hamilton, Wigmore, & Giambrone, 2011; Zimman, 2009). A especificidade deste processo reside, desde logo, no desafio que tal revelação coloca a uma sociedade que sanciona as pessoas que não exibem conformidade com as normas de género dominantes (Lombardi, Wilchins, Priesing, & Malouf, 2001). Transgressões ligadas à identidade e papéis de género parecem ser mais problemáticas do que questões relacionadas com a orientação sexual. Muitas vezes, as pessoas são vítimas de discriminação e de preconceito não por causa da sua orientação sexual, mas por exibirem comportamentos e expressões de género aparentemente não conformes com o seu sexo biológico. O que, por sua vez, resulta, frequentemente, em presunções de homossexualidade, como no caso da “mulher máscula” e do “homem efeminado” (Gagné et al., 1997). Para além da discriminação e preconceito exacerbados, as pessoas transexuais, a partir do momento em que assumem o papel de género correspondente à identidade sentida, tornam-na visível. Portanto, o coming out pode não envolver a declaração de uma identidade oculta (Zimman, 2009), podendo estes indivíduos serem forçados a “saírem do armário”, pois a visibilidade da transição torna a nova identidade permanente e pública, não permitindo que o coming out seja restrito (Gagné et al., 1997). 9 Ao mesmo tempo, muitas das pessoas transexuais, relativamente às quais se tem um conhecimento acerca do seu processo de transição11, mudam o nome e sexo no registo civil, e enfrentam questões médicas (Hill, 2005) quando pretendem submeter-se a intervenções cirúrgicas e/ou hormonais, passando muitas vezes por adversidades a estes níveis, como podem ser a adaptação à hormonoterapia, a morosidade do processo, em geral, e o longo tempo de espera para as intervenções cirúrgicas no Sistema Nacional de Saúde, em particular. Adicionalmente, segundo Sherriff e colaboradores (2011), as pessoas transexuais experienciam sentimentos de confusão, contradições, e aceitação em torno das perceções acerca da transição. Outra questão diferenciadora prende-se com o facto de a experiência de coming out da identidade de género envolver a gestão de três aspetos: sexo, género, e sexualidade, implicando muitas vezes a transformação da última (Gagné et al., 1997). Questões ligadas à orientação sexual têm desencadeado alguma investigação, desafiando a conceção de Benjamin, (1966/1999) de que as pessoas transexuais desejariam uma vida heterossexual, mas sendo atraídas por pessoas do mesmo sexo (biológico), e tendo uma identidade de género não conforme com o sexo de nascimento, rejeitariam a homossexualidade através da transição. Ora, por exemplo, Rowniak e Chesla (2013) encontraram alguns indivíduos transexuais (FtM) que, antes da transição se identificavam como lésbicas, e depois da transição declararam sentirem-se atraídos por homens. Esta constatação, para além de ter refutado a ideia de Benjamin (1966/1999), deu a conhecer que algumas pessoas podem passar pelo processo de coming out de forma sequencial, ou simultaneamente, como lésbicas, como transexuais, e como gay. Zimman (2009) alertou para a diferença de narrativas entre pessoas transexuais pré e pós transição, sendo que no primeiro caso trata-se da revelação de uma identidade de género ainda invisível, similar ao que acontece com as pessoas LGB. Já após a transição, pode não ser necessária uma revelação explícita para aqueles/as que apresentem características que denunciem a transição, como poderá ser o caso da voz e da estatura. Quanto aos/às que se apresentarem como homens ou mulheres, cujo sexo e género aparentem estar em conformidade, cabe-lhes a si mesmos/as a decisão de revelarem, ou não, a sua história como transexuais, sendo que alguns/mas optam por não a dar a conhecer (Strain & Shuff, 2010). 11 Refere-se ao período de tempo durante o qual as pessoas procedem à mudança fisiológica e social de masculino para feminino, ou vice-versa (Schleifer, 2006). 10 A revelação da identidade de género a outrem e as reações sociais/relacionais que suportam um comportamento no papel de género desejado são factos positivamente marcantes para as pessoas transexuais (Nuttbrock et al., 2009). Desta forma, tal como Gagné e colaboradores (1997) encontraram, o reconhecimento e a validação dos outros legitimam e reforçam a identidade, e as fontes de validação que se mostraram mais importantes foram os outros significativos da vida da pessoa, como familiares e amigos. Contudo, a revelação aos outros reveste-se de grande complexidade e intensidade emocional para a própria pessoa e para os seus significativos (Morrow, 2006). É uma decisão influenciada por diversas variáveis, como os tipos de relações em que as pessoas escolhem e/ou têm recursos para revelar, sendo mais frequente nas relações amorosas e de amizade, em contraste com as relações familiares, e o contexto cultural em que os indivíduos estão inseridos, dado que o maior ou menor grau de abertura à flexibilidade de género em cada tradição cultural influencia em larga medida a possibilidade de disclosure (Nuttbrock et al., 2009). Quanto às reações dos outros em geral à revelação, Gagné e colaboradores (1997) concluíram que menos de um quarto dos participantes relatou reações negativas na sua primeira experiência de disclosure. No entanto, estes participantes mostraram antecipadamente medo excessivo da reação dos outros, o que os levou ao controlo de quem tomava conhecimento da informação, selecionando as pessoas com base no critério de simpatizarem com identidades alternativas. As reações negativas aconteceram em situações em que a pessoa a quem revelaram não foi preparada previamente para tal, e não tinha qualquer conhecimento, por exemplo, acerca da tendência do outro para se vestir de acordo com o sexo oposto, o que desencadeou reações de choque. Com base na literatura revista e no contacto com a prática clínica, sabe-se que tendencialmente as pessoas transgénero que “saem do armário”, podem fazê-lo em todos os estádios e esferas da vida: quando são crianças ou adolescentes, quando são idosas, quando são casadas, quando são solteiras, quando têm os/as seus/as próprios/as filhos/as; à família, aos amigos, aos empregadores, aos profissionais de saúde (HRCF, 2013). Regra geral, o disclosure é feito quando a pessoa a quem se revela é percebida como alguém que “tem de saber”(Gagné et al., 1997). Além disso, uma perda significativa, real ou percebida, por exemplo do pai, da mãe, ou do/a parceiro/a romântico/a, pode precipitar o disclosure, ou então as pessoas simplesmente cansam-se de manter o segredo e viverem uma mentira (Zamboni, 2006). Um cenário idêntico é encontrado na revelação da orientação sexual LGB (e.g. Rossi, 2010). 11 1.3.Coming out no seio da família nuclear - O suporte familiar e a revelação aos pais A família constitui, em qualquer fase e situação de vida, uma importante fonte de apoio e suporte, e especialmente no processo de coming out a literatura é unânime quanto à importância da família, e aqui referimo-nos não só ao coming out da identidade de género, mas também aos das orientações sexuais não heterossexuais. Moody e Smith (2013) encontraram o suporte familiar significativamente associado a níveis mais baixos de comportamento suicida, e consideraram a perceção de apoio familiar como fator protetor do suicídio. Alguns estudos encontraram o suporte por parte da família como um importante indicador do bem-estar e saúde mental da pessoa (Goldfried & Goldfried, 2001; Heatherington & Lavner, 2008; Pinto & Moleiro, 2012), contribuindo para a redução do stress psicológico (Bockting, Miner, Swinburne Romine, Hamilton, & Coleman, 2013), o que se traduz em resultados positivos no que respeita ao coming out LGBT. A relevância deste apoio assume ainda maior destaque em populações onde o contexto familiar é particularmente forte e presente, como é o caso dos adolescentes, e de pessoas que habitam em zonas rurais (Heatherington & Lavner, 2008). Apesar da facilitação que tem para o processo de coming out, o contexto familiar, com destaque para o núcleo parental, é frequentemente o mais temido e dos últimos a ser selecionado para o disclosure, encontrando-se na literatura concordância no que respeita ao quão intimidante, e até assustador, pode ser para a própria pessoa equacionar a revelação neste âmbito (e.g. Boon & Miller, 1999; Brown & Rounsley, 2003; Heatherington & Lavner, 2008; Lev, 2004). Simultaneamente, os dados da investigação são recorrentes em mostrar que se trata do evento mais significativo de todo o processo de coming-out. Talvez por ser no seio da família onde têm lugar as emoções mais intensas e devastadoras, tanto positivas como negativas, e por as relações com os pais estarem entre as mais significativas e complexas que temos (Brown & Rounsley, 2003). Segundo Zamboni (2006), em muitas famílias a identidade de género não conforme com os padrões convencionais pode permanecer em segredo, apesar de alguns membros poderem suspeitar, mas, por vezes, confundirem com uma orientação sexual não heterossexual. A pessoa que não se identifica com o sexo atribuído à nascença pode manter esta informação secreta durante muito tempo, atenuando os seus sentimentos através do uso de roupas do género com que se identifica em segredo, da minimização de aspetos corporais do sexo de nascença, como por exemplo através do enfaixamento do peito, e 12 adotando características do género desejado. Outras pessoas podem suprimir completamente estes sentimentos. As famílias que constituíram o estudo de Money e colaboradores (1975) apenas sabiam que o filho vestia roupas femininas como female impersonator12. Cinco destes sete participantes MtF foram viver como mulheres a tempo inteiro, separadamente da família, mas, inicialmente, não revelaram que se vestiam e viviam como mulheres, sendo que quando visitavam a casa dos pais apresentavam-se de forma masculina. A investigação mostra-nos que os meios privilegiados pelas pessoas para estrategicamente “darem a entender” a identidade de género são muitos e distintos, sendo tão variáveis quanto os modos pessoais e relacionais das diferentes pessoas. Assim, a revelação pode acontecer pessoalmente, ou não, pode ser planeada, ou acidental, ou pode mesmo não existir nenhum momento específico no qual foi revelada ou descoberta a identidade de género, mas terem sido, gradualmente, “emitidos sinais”. De acordo com Brown e Rounsley (2003), das pessoas que escolhem um momento e planeiam a forma como vão dar a conhecer a sua identidade de género aos pais, a maioria fá-lo verbal e pessoalmente, outras preferem por telefone, ou através de carta escrita, lida na sua presença, ou não. Em situações de grande distância geográfica, ou quando sentem mais receio, optam, muitas vezes, por usar o correio eletrónico13. A não-aceitação por parte dos pais é comum, podendo implicar a rejeição do/a filho/a (e.g. Lev, 2004, 2006; Mitchell & Howarth, 2009), expulsando-o/a de casa (Ehrensaft, 2011; Morrow, 2006), rompendo relações, e conhecem-se também situações de vitimação14 (D’Augelli, Grossman, & Starks, 2008), incluindo abuso verbal e violência física no seio da família. Tudo isto parece motivado pela transfobia também existente nas famílias (Association of Lesbian, Gay, Bisexual, and Transgender Issues in Counseling, 2009), pois estas são constituídas por pessoas que tomam parte numa sociedade maioritariamente heteronormativa e transfóbica, sendo na família onde o mito de um “destino” necessariamente heterossexual e com expressões e desenvolvimentos de género 12 Homens que usam vestuário feminino para entreter uma audiência no teatro. Cuidam muito da maquilhagem, do cabelo, do discurso, e dos maneirismos, com o objetivo de apresentar uma imitação, mais perfeita possível, de uma mulher. Frequentemente imitam cantoras, atrizes e comediantes bem conhecidas do público (Brown & Rounsley, 2003). 13 Ao usarem esta via para a revelação aos pais, algumas pessoas optam por anexar fotografias suas com o aspeto que desejam vir a ter, ou que já têm. 14 Entende-se vitimação como experiência de abusos e maus tratos físicos e psicológicos perpetrados pelos familiares à pessoa que revela a sua identidade de género não conforme com o sexo. 13 conformes às expectativas sociais e culturais mais se alimenta e se nutre (e.g. Herdt & Koff, 1999). Portanto, algumas famílias tendem a constituir fator de risco (Ehrensaft, 2011) para os membros cuja identidade de género não se conforma com os padrões habituais. A situação agrava-se quando se trata de faixas etárias jovens, como a adolescência que, por sua vez, constitui uma das fases de disclosure por excelência, acumulando-se os fatores de risco, nomeadamente quando ocorre rejeição e/ou expulsão de casa (Heatherington & Lavner, 2008; Lombardi et al., 2001; Morrow, 2006; Whittle, Turner, Al-alami, & Thom, 2007). No caso das pessoas adultas, por terem maior consciência da estigmatização também presente na família, com frequência, evitam a revelação neste contexto até estarem realmente em transição (Lev, 2004), e as mudanças começarem a ser notórias. A qualidade das relações entre pai/mãe e filho/a antes do disclosure tem-se revelado um indicador importante da maior probabilidade de revelação e de reações parentais mais positivas (Brown & Rounsley, 2003; Heatherington & Lavner, 2008). Contudo, é difícil prever as reações iniciais dos pais, que podem incluir um vasto leque de emoções e sentimentos associados (Brown & Rounsley, 2003). E, como concluiu Wren (2002), os comportamentos e atitudes iniciais dos progenitores podem não permanecer e mudar ao longo do tempo, tanto os negativos, como os positivos. Porém, são as reações iniciais que parecem influenciar mais a perceção de suporte que os jovens têm das suas famílias (D’Augelli et al., 2008). Em Money e colaboradores (1975) o ajustamento e a aceitação da família relacionaram-se com o grau em que a transição era evidente para a família, amigos e vizinhos, sendo que quando a transição esteve envolta em menos secretismo a aceitação e o ajustamento por parte da família revelaram-se maiores. 1.4.Dois modelos descritivos do processo de adaptação da família Alguns/mas autores/as tentaram integrar em modelos as reações da família e o processo de adaptação desta à situação em que um dos membros revela a sua identidade de género como não conforme com as conceções tradicionais. Nesta secção expõem-se dois modelos existentes com esse objetivo, e faz-se propositadamente em separado das reações ilustradas na secção anterior, pois estes modelos revelaram-se, a nosso ver, demasiado redutores e ditadores daquilo que poderá ser a experiência da família. 14 O modelo pioneiro foi o de Emerson e Rosenfeld (1996, citado por Zamboni, 2006), que propôs cinco estádios de ajustamento: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. No primeiro os familiares reagem com choque à revelação da situação de transexualidade, podendo recusar-se a pensar sobre a questão, na esperança de que ela desapareça, podendo até evitar o contacto com a pessoa para manter a negação. No segundo estádio emergem sentimentos de raiva e traição, que podem fazer com que os membros da família responsabilizem o indivíduo por todos os problemas da família. A certa altura, a família exerce uma forte pressão para tentar impedir ou reverter o processo de transição, o que corresponde ao estádio da negociação, sendo capaz de ameaçar o término de relações ou a retirada de apoio. À medida que a nova identidade de género se vai tornando mais sólida, os familiares apercebem-se da realidade e permanência da transição, podendo evidenciar sintomas depressivos, que caraterizam o quarto estádio. A aceitação, no quinto estádio, não implica acordo com a decisão de transição, mas os familiares percebem que a mudança ocorreu, reconhecem uma perda, e começam a mostrar preocupação com o bem-estar da pessoa. Um modelo mais atual e alternativo ao anterior, é o de Lev (2004), apelidado de “Family Emergence”, que pretende descrever o processo adaptativo do sistema familiar, ilustrando o impacto da situação para os pais, esposos/as, e filhos/as. Esta “emergência familiar” implica uma complexa interação de transações desenvolvimentais e interpessoais, tratando-se de um processo de desenvolvimento semelhante ao que acontece com a pessoa transexual no caminho para consolidar a sua identidade de género, mas neste caso trata-se de consolidar a identidade da família face ao disclosure de um dos membros. Lev (2004) salvaguardou que nem todos os familiares se envolvem neste processo com facilidade, muitas vezes experienciam resistência, evitamento, ou negação para iniciar o caminho. O processo inicia-se a partir do momento da descoberta ou do disclosure da identidade de género não conforme com os padrões habituais. Este evento corresponde ao primeiro estádio, que muitas vezes resulta em reações de choque, sensação de traição e confusão. O segundo estádio é caraterizado por agitação/confusão, dado que se trata de uma fase de caos e de intenso stress e conflito familiar, em que as pessoas podem ficar lábeis ou retraídas do ponto de vista emocional, à medida que vão tomando consciência da realidade da transexualidade. O estádio de negociação trata-se de um tempo de diálogo consigo próprios e com a pessoa transexual, em que os familiares se apercebem de que a transexualidade não vai 15 desaparecer e que terão de conseguir uma forma de lidar com a situação. Começam então um processo de compromisso determinando com que aspetos da transição se sentem mais confortáveis em conviver e os limites que reconhecem. O último estádio corresponde ao encontro do equilíbrio, que se traduz pelo facto de a transexualidade deixar de ser um segredo, extinguindo-se a agitação e o caos e finalizando-se as negociações quanto às questões ligadas ao tema. A família não resolveu definitivamente todas as suas controvérsias, mas integrou a pessoa transexual na unidade familiar. 1.5.A perspetiva parental Um tema comum à escassa investigação que se debruçou sobre a perspetiva dos próprios pais refere-se ao sentimento de perda que a maioria dos participantes relatou (Brown & Rounsley, 2003;Wren, 2002; Zamboni, 2006). Alguns pais reagiram como se o/a filho/a tivesse morrido, mergulhando num período de luto, que durou meses, ou mesmo anos. Os relatos de perda não se referiram apenas à perda do/a filho/a, mas também das expectativas que tinham, de esperança no futuro, podendo aqui evocar-se a construção de mitos na família já abordada na secção anterior, e até perda de intimidade com outros membros da família (Wren, 2002). Outros sentimentos comuns em grande parte dos pais aquando do disclosure mostraram-se idênticos aos dos/as filhos/as, como confusão, medo, culpa (Platero, 2014), negação, raiva, e depressão (Zamboni, 2006), repercutindo-se, por vezes, em baixa auto-estima (Brown & Rounsley, 2003). Em Wren (2002) a aceitação da identidade de género do/a filho/a apareceu intimamente relacionada com a forma como os pais davam sentido à transexualidade. Por exemplo, as pessoas que acreditavam numa explicação biológica revelaram-se mais aceitantes e detentoras de uma visão mais positiva do/a filho/a, contrariamente aos pais que não conseguiam ultrapassar o sentimento de choque e estigmatização e procuravam evidências para explicações causais que apoiassem a visão de que a transexualidade era errada, uma condição instável, e de que o/a filho/a era imaturo/a. Os mesmos tendiam ainda a alertar e a pôr grande ênfase em outras dificuldades psicológicas que o/a filho/a tivesse. Estes pais revelaram-se, portanto, menos aceitantes. Platero (2014) encontrou que a forma como as famílias lidaram com o processo médico e social da transição foi decisivo para a aceitação. Apesar de, para alguns, ter 22 anotadas as ideias iniciais. Assim, esta fase implicou uma imersão nos dados, e dela resultou a base para toda a restante análise. Na segunda fase – Produção dos códigos iniciais – recolheram-se características interessantes ao longo de todo o conjunto de dados que foram agrupadas em códigos, sendo que cada código representa uma característica dos dados que se afigurou interessante para a investigadora. O passo seguinte – Pesquisa de temas – consistiu em aglomerar esses códigos em potenciais temas (unidades de análise, geralmente mais amplas do que os códigos iniciais), através da análise dos mesmos e da consideração de como códigos diferentes podem ser combinados para formarem temas mais abrangentes. A quarta fase – Revisão dos temas – consistiu em conferir se os temas estavam de acordo com os extratos codificados e com todo o conjunto dos dados, produzindo-se o mapa temático da análise (cf. Figura 1). Na fase seguinte – Definição e nomeação dos temas – aperfeiçoaram-se as especificidades de cada tema, e de toda a história geral que a análise conta, gerando-se definições claras e nomes para cada tema. Foi como que um regresso aos extratos de dados reunidos para cada tema, organizando-os numa explicação coerente e consistente, acompanhada de narrativa. Desta forma, para cada tema foi feita e escrita uma análise detalhada, identificando-se a história que ele conta, e ponderando-se como é que ele se encaixa na história mais ampla que se relata acerca dos dados em relação ao objeto de investigação. A última fase proposta por Braun e Clarke (2006) corresponde à elaboração do relatório, isto é, à apresentação dos resultados. Os extratos mais expressivos e atrativos foram escolhidos e procedeu-se à sua análise final. Desta análise resultou a narrativa da história que os dados contam, que se pretende clara, concisa, coerente e interessante. . 23 3.Análise e Discussão dos Resultados Nesta secção serão apresentados os temas que emergiram dos dados (tomada de conhecimento, apoio aos/às filhos/as, procura de suporte para o/a próprio/a, adaptação ao novo nome/pronome, adaptação às mudanças físicas, medos, sofrimento, interpretações e/ou etiologias para a identidade de género não conforme o sexo biológico, mudanças na relação pai/mãe-filho/a, aspetos positivos e papel dos/as profissionais de saúde) e os respetivos códigos que os compõem, acompanhados dos extratos mais ilustrativos. No final de cada tema, seus códigos e extratos, apresenta-se a narrativa que os interpreta e discute, sempre que possível em diálogo com a literatura existente.16 Para alguns temas, a literatura disponível é demasiado escassa ou inexistente, pelo que será avançada a interpretação entendida como mais coerente e convergente para o âmago global deste trabalho, isto é, para o caminho destas mães e destes pais em direção à aceitação da nova identidade do/a filho/a. A apresentação dos temas não obedece a uma disposição linear, dado que as vivências das/os participantes não acontecem dessa forma, excetuando-se o início do caminho, que se dá, inevitavelmente, com a tomada de conhecimento da situação, como também Lev (2004) alegou. 3.1.Tomada de conhecimento Algo diferente desde cedo “ (...) ela andava na cresce (...) vestia-se eu gostava, assim de tacão alto, mas como diziam que os meninos tinham tendência para isso (...) uma vez estava com a ideia de levar as Barbies: ‘Mãe posso levar as Barbies?’. ‘Podes! Sem problema nenhum…’ (...) ” (E1) “ (...) desde sempre gostou de jogar à bola (...) sempre gostou mais de vestir calças do que saias (...) às vezes, ela dizia: ‘Oh pai, não te importas deixas-me vestir isto ou aquilo teu?’. ‘Tudo bem filha!’ (...) ” (E4) Disclosure verbal por parte do/a filho/a “ (...) chamou-me ao quarto e abriu-se comigo. Contou-me tudo! (...) ” (E5) 16 Esta opção de apresentação foi tomada com o objetivo de criar maior harmonia e coerência na discussão de cada tema. 24 “ (...) disse-me: ‘Olha mamã eu tenho de falar contigo porque eu não estou feliz! (...) eu não me sinto uma mulher (...) ‘Eu acho que vou querer mudar de sexo...’ ” (E9) O/a filho/a nunca revelou diretamente “ (...) comecei a vir com ela às consultas nem sabia que era para mudar, a minha esposa é que disse (...) que ela que queria ser rapaz e que ia querer mudar de sexo. (...) ” (E4) “ (...) ela começou a ser vista pelo hospital distrital (...) e foi aí que ela disse à psicóloga que ela queria ser homem. (...) ” (E6) Reações de choque/surpresa “Foi pior que um balde de água fria (...) eu disse: ‘O quê? Mas o que…’ (...) ” (E2) “ (...) ‘Eu acho que vou querer mudar de sexo...’. Alto aí que fiquei! ‘Oh meu Deus agora é que foi!’. Fiquei assim estupefacta (...) a pessoa não está a contar (...) ” (E9) Distância entre a aceitação de expressões e comportamentos de género não conforme com o sexo biológico e a aceitação da mudança de sexo “ (...) ela tinha tendência mais a vestir roupa à rapaz. (...) Agora dizer que esperava isto, para dizer sinceramente não esperava! Nunca pensei chegar a isto. (...) ” (E4) “ (...) Que queria ficar com características masculinas eu percebi, mas mudar de sexo, essa parte não tinha percebido (...) ” (E10) Falta de conhecimento “Nada sabia (.) Só que queria peitos porque gostava, queria cabelo (...) ” (E1) “ (...) ouvia falar de pessoas que queriam mudar de sexo (...) Mas eu não tinha informação nenhuma também…” (E5) Perceção de que ‘só acontece aos outros’ “ (...) nós pensamos que nunca cai em nós, sempre aos outros. (...) ” (E7) “ (...) ‘Mas porque é que tenho de ser eu?’ Porque na minha cabeça só acontecia (...) a pessoas ricas! (...) ” (E8) 25 As vivências dos/as participantes em torno das questões de género dos/as filhos/as começam com a observação, desde cedo, de algo diferente do habitual no que se refere às expressões e aos comportamentos de género, dando-se esta descoberta de forma gradual, à medida que a criança mostra as suas preferências, nas brincadeiras, no vestuário, na maneira de estar, discrepantes em relação ao que seria tipicamente esperado com base no sexo biológico, tal como também constataram Ehrensaft (2011) e Kuvalanka, Weiner e Mahan (2014). Mas não são levantadas grandes preocupações nesta fase, sendo até permitida uma certa liberdade de expressão de género (e.g. E1 e E4). Similarmente, Gagné e colaboradores (1997) relataram que durante a infância os comportamentos de género e o vestuário de acordo com o convencionado para o sexo oposto pareceram ser tolerados. Também Saleiro (2012) encontrou esta tendência, mas apenas nos relatos de homens transexuais (FtM) ao recordarem a sua infância. A certa altura, com destaque para a adolescência, sendo esta a fase mais comum para o coming out, segundo a literatura existente (e.g. Heatherington & Lavner, 2008), alguns/mas filhos/as decidem dar a conhecer a sua identidade de género não conforme com o seu sexo biológico e a consequente decisão de mudarem de sexo. As/os participantes relatam as formas que os/as filhos/as escolheram para o fazer, diversas em quase todos os casos. Apesar da diversidade, destaca-se o disclosure verbal, pessoalmente, como a forma utilizada pela maioria dos/as filhos/as destes/as participantes, o que coincide com o que nos dizem Brown e Rounsley (2003). Noutras histórias, o/a filho/a nunca revelou diretamente, sendo que as mães e os pais tomaram conhecimento da situação à medida que o processo de transição se desenrolou, não suspeitando inicialmente de que se trataria efetivamente de um processo de mudança de sexo. Num caso foi a esposa quem informou e noutros foram profissionais de saúde que deram a notícia (e.g. E4 e E6). As mães e os pais tiveram reações de choque e surpresa no momento imediato à tomada de conhecimento da situação de transexualidade e consequente decisão de mudança de sexo. Estas reações encontram correspondência com toda a literatura explorada que aborda as reações parentais ao disclosure, nomeadamente com o primeiro estádio dos modelos descritivos do processo de adaptação da família de Emerson e Rosenfeld (1996, citado por Zamboni, 2006) e de Lev (2004). Ambos apontam reações de choque aquando da revelação ou da descoberta da situação, sendo esta a fase que inaugura o processo de adaptação, que se prolonga pelos restantes estádios. Contudo, o caminho que seguiu cada participante, dos que se conhece completos, mostra-se bastante diverso e oscilante, não cabendo exatamente nos restantes estádios propostos por um ou outro 26 modelo. Lev (2004) também alertou para a ideia de que nem todos os familiares experimentam a situação como uma crise e alguns/mas aceitam mais facilmente, não tendo obrigatoriamente que passar, por exemplo, por um processo de luto, como sugere o modelo de Emerson e Rosenfeld (1996, citado por Zamboni, 2006), para aceitar a situação, o que é congruente com o que acontece com a maioria das/os participantes deste estudo. Ora, face às reações de choque e surpresa, percebe-se que apesar de as/os participantes terem a perceção, desde cedo, de que os/as filhos/as têm comportamentos e expressões de género diferentes dos padrões convencionais, esta perceção não coincide com a identificação com a transexualidade e muito menos com a mudança de sexo, sendo que esta possibilidade nunca foi equacionada pelas/os participantes antes de os/as filhos/as, ou outras pessoas, as/os informarem. Um resultado semelhante emergiu no trabalho de Kuvalanka e colaboradores (2014), onde as mães entrevistadas, apesar de reconhecerem nos seus filhos desde cedo comportamentos associados ao sexo oposto, só anos mais tarde é que perceberam que os mesmos eram transgénero17. Durante a infância, as mães e os pais parecem entender as diferenças nos comportamentos e expressões de género como normativas e aceitáveis, interpretando como a “maria-rapaz” nos casos FtM ou como uma tendência relativamente comum nas crianças do sexo masculino para usarem as roupas e acessórios da mãe, nos casos MtF. No entanto, mais tarde, aquando do confronto com a decisão de mudar de sexo, o cenário revela-se completamente diferente e esta situação já não é encarada de forma tão ligeira, constatando-se uma grande distância entre a aceitação de uma e de outra situação. Portanto, o que é mais difícil para estas mães e estes pais não é lidarem com as diferenças no que respeita ao papel de género, a essas a maioria já se tinha habituado desde cedo, mas sim aceitar a mudança de sexo. Assim, é pertinente evocar a ideia da alimentação, no seio da família, do mito de um “destino” necessariamente heterossexual e com expressões e desenvolvimentos de género conformes às expectativas sociais e culturais, tal como nos falam Herdt e Koff (1999), e mesmo sendo tolerada, durante a infância, uma certa liberdade quanto às expressões e comportamentos de género, nunca é equacionado outro cenário posterior para a identidade de género dos/as filhos/as que não seja a conformidade com o sexo biológico, muito menos a mudança de sexo, pois esta quebra qualquer expectativa acerca das transições consideradas esperadas. A transexualidade é ainda um assunto atípico e que toca 17 Expressão usada pelos autores. 27 em aspetos fundamentais da identidade no que diz respeito ao género e à sexualidade, tendo o potencial para desafiar as noções associadas a estes tópicos, noções estas que estão ligadas aos sistemas de valores, políticas, religiosidade, espiritualidade, entre outros, contidos e reproduzidos na família (Zamboni, 2006). Ao mesmo tempo, a maioria das/os participantes revela que, aquando da revelação ou da descoberta, pouco conhecia acerca do fenómeno e do processo de transição, limitando-se a uma ideia pouco clara da sua existência ou mesmo a nenhuma noção. Ora, a falta de conhecimento e de informação, também encontrada por Platero (2014) e por Kuvalanka e colaboradores (2014), pode motivar as reações de choque e surpresa, pois o desconhecido não é equacionado, portanto quando aparece gera choque e surpresa. Para além disso, o parco conhecimento, juntamente à provável presença de estereótipos associados às pessoas transgénero, em particular as transexuais, levam a várias interrogações acerca da situação e a conceções erradas, como nos alerta Zamboni (2006), que podem influenciar a forma como as/os participantes trilham o caminho em direção à aceitação da situação. Ao mesmo tempo, a maioria das/os participantes admite que nunca imaginou que pudesse passar por tal situação, questionando, por vezes, o porquê de serem as/os próprias/os a terem de lidar com isto. De facto, regra geral, ninguém prevê que possa vir a ter de enfrentar situações entendidas, na nossa sociedade e cultura, como negativas e tão afastadas do que é considerado normativo, como é o caso da mudança de sexo. Apesar de tudo, a maioria das/os participantes, superaram as reações iniciais de choque e surpresa e iniciaram o caminho em direção à aceitação. 3.2.Apoio aos/às filhos/as Apoio imediato e incondicional “ ‘ (...) eu como só quero o teu bem, o meu problema deixa estar, doa o que doer (...) o que interessa é que eu vou estar sempre ao teu lado ((pausa)) sempre! (...) independentemente da minha dor!’ (...)” (E2) “A minha primeira reação foi... dar-lhe força! (...) ” (E5) “ (...) O apoiar, estarmos ali incondicionalmente, acho que é muito importante em algumas fases da vida, não é? Acho que é esse o meu caso!” (E10) 28 Condicionamento da própria vida e relações em favor de apoiar o/a filho/a “Prontos, os meus pais não aceitaram muito bem e eu peguei nela e saí de casa (...) no dia em que ele disse isso, eu disse-lhe a ele para ele sair de minha casa (...) ela também está sempre a dizer: ‘Arranje namorado, viva a sua vida!’. Não! Enquanto isto não estiver… A minha filha não estiver completa! (...)” (E1) “ (...) eu já lhe disse a ele: ‘Se tu começares a puxar a miúda para o lado, estás-me a puxar a mim também para o lado. E isso vai dar um divórcio!’ (...) ” (E6) Após a tomada de conhecimento, independentemente da forma como ela ocorreu, as/os participantes não hesitam em apoiar os/as seus/as filhos/as. Mesmo quando a situação é encarada com maior dificuldade, verifica-se uma tendência para subverter o próprio sofrimento em favor do suporte a dar ao/à filho/a (e.g. E2), que é percecionado como mais importante face à situação, assumindo um caráter incondicional. Tal constatação vai ao encontro da literatura que refere que alguns pais, apesar do sofrimento interior, são capazes de mostrar apoio e amor incondicionais de forma imediata (Brown & Rounsley, 2003). Implicitamente, estas mães e estes pais entendem que o seu apoio é fundamental para diminuir o sofrimento e em consequência contribuir para a felicidade do/a filho/a, o que coincide com o que encontrou Platero (2014) de que, a certa altura, os pais se tornaram conscientes do quão importante era o seu apoio para os/as filhos/as. Em alguns casos, os cônjuges ou companheiros das participantes, alguns sendo o pai biológico, e elementos da família alargada, não aceitam a situação, outras vezes são pessoas externas à família, como por exemplo vizinhos/as, que criam sérios problemas no quotidiano. Perante estas controvérsias, algumas participantes relatam que não hesitam em mudar a própria vida, pondo em causa, e em alguns casos rompendo, as suas relações familiares e conjugais para conseguirem acompanhar e apoiar o/a filho/a durante o processo de transição. Kuvalanka e colaboradores (2014) encontraram situações muito semelhantes, sendo que as mães passaram a ser defensoras dos/as filhos/as, muitas vezes dentro da própria casa, tal como também acontece em alguns casos deste estudo (e.g. E1). Johnson, Sikorski, Savage e Woitaszewski (2014) encontraram as mães como a maior fonte de suporte para os/as filhos/as, devido ao papel de protetoras que desempenhavam nos vários contextos (e.g. escolar, social, familiar), o que coincide com a maioria das histórias contadas pelas mães participantes neste estudo. 29 Deve ter-se em conta, tal como a literatura e o contacto com a prática clínica mostram, que não acontece desta forma em todos os casos, sendo que muitas vezes o apoio e amor parental não têm lugar de forma imediata (Brown & Rounsley, 2003), ou nunca chegam a acontecer, ocorrendo até situações de rejeição do/a filho/a (e.g. Lev, 2004, 2006; Mitchell & Howarth, 2009) e vitimação (D’Augelli et al., 2008), o que, felizmente, não acontece em nenhum dos casos deste estudo, revelando por isso alguma novidade face à maioria da literatura existente. 3.3.Suporte para o/a próprio/a Apoio informal Em amigos “Tive muitas ajudas de pessoas amigas (...) Os meus patrões (...) ” (E1) “ (...) em amigos e o meu grande amigo padre.” (E7) Exclusivamente na família “Familiares, o meu suporte é família (...) Há assuntos que são de família.” (E2) “Desabafo o que tenho sobre isto é com as minhas irmãs, porque sei que confio nelas, agora pessoas de fora não, ninguém! (...) ” (E3) Apoio formal Nos profissionais de saúde “ (...) tenho a psicóloga no hospital (...) vou lá de três em três meses… (...) ” (E6) “ (...) era a minha médica de família quando ele me mandava mensagens a dizer que se ia matar, e fazia isto e aquilo (...) eu trocava mensagens com a minha médica...” (E8) Para auxiliar a própria vivência da situação, algumas mães entrevistadas referem procurar apoio em amigos/as de confiança. Outras mencionam que o suporte que procuram se circunscreve às relações familiares, por considerarem tratar-se de uma vivência de caráter exclusivamente familiar, que não deve chegar às relações externas à família (e.g. E2). Esta precaução poderá ser tomada com o objetivo de proteger a família do estigma social associado às pessoas transexuais, e também com base neste obstáculo, a perceção de 30 suporte por parte de pessoas de fora, ou até da família alargada, pode ser diminuta (Zamboni, 2006). Duas participantes referem que usufruem de apoio formal, fornecido por profissionais de saúde. A primeira trata-se de apoio psicoterapêutico, do qual já usufruía antes desta situação, e que se mantém, e a segunda refere-se a apoio esporádico, pela médica de família. As/os restantes participantes revelam nunca ter procurado apoio formal para auxiliar a própria vivência da situação. Contudo, no decorrer de algumas entrevistas, foi possível perceber a pertinência de apoio psicoterapêutico na facilitação do processo de adaptação à situação, tendo sido devolvida esta apreciação à pessoa no final da entrevista. Noutros casos, o processo de aceitação deu-se de forma aparentemente tão natural, que em nenhum momento faria sentido colocar a hipótese de necessidade de suporte profissional. É de salientar que a maioria das/os entrevistados/as evidenciou não valorizar esta dimensão da procura de suporte, formal ou informal, para si próprias/os, em virtude de se concentrarem na procura de apoio para os/as filho/as, sendo notória a extrema centração na experiência dos/as descendentes em detrimento da sua, motivadas/os pela preocupação com a felicidade e minimização do sofrimento dos/as filhos/as. 3.4.Adaptação ao novo nome/pronome Dificuldade “ (...) O que me está a custar mais nem é a maneira dela vestir, porque já estou habituada, é… o nome! É tratar ela ou ele! (...) ” (E3) “Para mim não está a ser muito fácil (...) eu tento chamar Leonardo. Joana já não me sai tanto, mas o ela ainda sai muito. (...) ” (E7) Uma questão de hábito/tempo “ (...) depois passado um tempo, uns meses (...) comecei a dizer que era sempre Maria, Maria, Maria, Maria, prontos!” (E1) “ (...) É o hábito, pelo hábito só. (...) Depois pronto não foi difícil (...) ” (E9) 31 A fase “ele/ela, ela/ele” “ (...) E eu aqui é ela e depois é ele… (...) uma vez chamo-lhe Luís, outra vez chamo-lhe Tânia (...) nunca contei ao Luís, ela nem sabe… (...) ” (E3) “ (...) eu vou dizer Ana/André porque às vezes, eu faço um esforço para sair André, mas é complicado, custa! (...) ” (E10) O/a filho/a não deixa escapar “ (...) Às vezes (...) eu chamava: ‘João!’, e ela: ‘Ai, oh mãe!’ ((risos))(...)” (E1) “ (...) Se ele está presente corrige-me logo!... ((risos))” (E5) Necessidade de confirmação médica “Neste momento trato a Ivone por Ivone (...) ela tem de fazer os testes (...) um percurso muito grande até de facto chegar ao veredicto! (...) enquanto as coisas não estiverem definidas eu não vou andar com o carro à frente dos bois.” (E2) Necessidade de ver a transição completa “ ‘(...) então, para si, passar a tratar no masculino só faz sentido quando ela também já estiver transformada, é isso?’ Sim. Eu acho que sim. (...) ” (E6) Mágoa e ofensa “ (...) ela: ‘Não quero que me chames por filha nem por Ivone!’ ((pausa)) Aquilo para mim foi uma facada. (...) ‘Não é fácil. É a coisa mais violenta!’ (.) ” (E2) A adaptação ao novo nome/pronome é um dos temas mais preponderantes ao longo de todo o conjunto dos dados, sendo notório que assume um papel central nas vivências das/os participantes. Em primeiro lugar, é considerada por todas/os como uma tarefa difícil, pelo menos numa fase inicial, independentemente da maior ou menor facilidade com que lidam com todo o processo em direção à aceitação. O hábito enraizado de tratar pelo nome de nascimento é avançado pelas/os participantes como explicação para a dificuldade que sentem em apelidar pelo novo nome/pronome. O fator tempo aparece associado, dado que algumas/uns acreditam que o tempo ajudará a lidar com a novidade. E aquelas/es que já tratam exclusivamente pelo novo nome/pronome relatam que 38 “ (...) ele adorava vestir-se, e eu: ‘Ah é enquanto ele é pequenino, depois vai começar a fugir as ideias’ (...) ” (E8) Identificação com homossexualidade “No princípio pensava, que era, pronto, que gostava de homens.” (E1) “ (...) há pessoas (...) homossexuais (...) que não tiveram necessidade de passar por esse processo (...) Aceitei a homossexualidade da minha filha com a Bárbara, pronto até pode ser que mude (...) ” (E2) “ (...) Podia ser só lésbica, por exemplo. Está a perceber?” (E10) Desejo de determinado sexo durante a gravidez “ (...) quando andava grávida queria muito uma menina (...) pensei que isso tinha-se metido na minha cabeça.” (E1) “ (...) quando andava de bebé (...) eu era assim: ‘Ai gostava de ter uma menina...’ (...) eu pensei que isso também puxou um bocadinho (...) ” (E8) Fatores ambientais e educação “ (...) devido a determinados fatores externos (...) em termos de educação (...) foi educada pelo pai como se fosse um rapaz (...) Daí a Ivone provavelmente queixar-se que o cérebro dela ou a maneira de pensar não condiz com o corpo (...) ” (E2) “ (...) ela conviveu muito com primos, não sei se isso também tem influência (...) ” (E3) Natural/Biologia “ (...) afinal não tem nada a ver com dinheiro, é mesmo da pessoa! (...) ” (E5) “ (...) Isto é próprio, é a natureza, que é que nós vamos fazer? (...) ” (E9) As/os participantes avançaram as suas várias interpretações e etiologias acerca da situação de não conformidade com o sexo biológico. A maioria, aquando do confronto inicial com comportamentos e expressões de género tipicamente associados ao sexo oposto, interpretou como uma fase, que se dissiparia ao longo do desenvolvimento, tal como também encontraram Kuvalanka e colaboradores (2014), o que provavelmente também justificou, no início, a tolerância destas situações, como vimos no primeiro tema. 39 Outra interpretação inicial bastante comum aos/às entrevistados/as, e coincidente com a literatura (Kuvalanka et al., 2014; Vanderburgh, 2009; Zamboni, 2006), é a identificação com a homossexualidade, dado que os/as filhos/as revelam atração sexual por pessoas do mesmo sexo biológico. Além disso, regra geral, comportamentos e expressões de género diferentes do convencionado conforme o sexo biológico, são comummente associados à homossexualidade, como no caso da “mulher máscula”, frequentemente interpretada como lésbica, e o “homem efeminado”, quase sempre interpretado como gay (e.g. Gagné et al., 1997). Simultaneamente, as/os participantes relatam maior facilidade em aceitar uma situação de homossexualidade do que a de transexualidade (e.g. E10), provavelmente porque socialmente também se encontra esta tendência, como assegura a literatura (e.g. Clarke et al. 2010; Costa et al., 2010; Gagné et al., 1997; Lombardi et al., 2001). Pode acrescentar-se, como é evidente em alguns casos, que a maior facilidade em aceitar a homossexualidade estará ligada à possibilidade de mudança de orientação sexual que algumas/uns participantes acreditam existir (e.g. E2), enquanto que seguindo o caminho da mudança de sexo, a possibilidade de retorno dissipa-se e nada pode camuflar as transformações físicas que terão lugar. Parece estar também patente alguma ignorância e confusão no que respeita à diferenciação entre a orientação sexual e a identidade de género, o que se relaciona com o tópico já abordado da falta de conhecimento. Algumas participantes referem que no início do percurso chegaram a pensar que uma das causas para a situação atual do/a filho/a poderia ser o desejo que nutriram durante a gravidez de ter um bebé do sexo feminino. Tal crença dissipou-se à medida que foram contactando com profissionais de saúde, que desmistificaram a ideia. Os fatores ambientais e a educação que os filhos/as receberam são também etiologias apontadas por várias/os participantes. Em alguns casos a convivência diária exclusivamente com pessoas do sexo oposto, do ponto de vista destas mães e destes pais, levou a que os/as filhos/as apreendessem as expressões e comportamentos tipicamente associados a esse sexo e daí o desconforto e a vontade de mudar de sexo, quase como uma “hipótese de contágio”. Ou então, mesmo não convivendo maioritariamente com pessoas do sexo oposto, uma educação mais orientada para o papel de género tipicamente associado ao sexo oposto é da mesma forma apontada como uma etiologia plausível. Para outras/os participantes a natureza/a biologia exerce o seu papel na etiologia da situação, sendo notório que as pessoas que se detêm numa interpretação biológica/natural parecem mostrar uma maior capacidade de aceitação da situação, contrariamente àquelas 40 que se retêm nos fatores ambientais e educação, buscando incessantemente todos os pormenores, ao longo do tempo, que possam ter influenciado a identidade de género do/a filho/a (e.g. E2). Tal constatação coincide com o que Wren (2002) encontrou em termos da aceitação parental. Como bem sabemos a literatura é inconclusiva quanto a uma etiologia para a transexualidade, a não ser a rigidez das normas sociais que ditam que um dado sexo atribuído ao nascimento tem de corresponder a uma determinada identidade e papel de género convencionados, e portanto todas as pessoas que não cumprem este preceito são entendidas como estando à margem do que é considerado “normal”, cabendo no termo transgénero, e sendo muitas vezes interpretadas como doentes. Esta perspetiva está de acordo com Devor (2004) que considera que a transexualidade só faz sentido no contexto de uma sociedade em que existe uma forma quase universalmente aceite de compreensão do género, que ensina as pessoas a funcionarem como se certas ideologias fossem verdades elementares, em vez de produtos sociais. Ora, as mães e os pais deste estudo tomam parte nesta sociedade, que maioritariamente sanciona a diversidade de expressões e comportamentos de género e procura explicações diversas para o fenómeno, sendo que estas claramente estão incutidas nas/os participantes e influenciam o caminho que percorrem em direção à aceitação. 3.9.Mudanças na relação pai/mãe-filho/a Para melhor “ (...) A minha filha é muito melhor para mim agora (...) Culpava-me de tudo: ‘E porque é que eu nasci assim?!’ (...) ‘Mãe então tu não és linda, mãe? (...) ’ ” (E1) “Para melhor! (...) agora está diferente, porque sabe que a gente que apoia (...) ” (E3) De acordo com o sexo e género: “ (...) agora acho que está mais ligado a mim. (...) ‘Oh pai vamos fumar um cigarro?’, ‘Vamos!’. Às vezes sou eu que digo (...) ” (E4) “ (...) Antes era a menina, era uma relação, confiava e essas coisas todas, agora pronto há aquela coisa de quando a gente vai na rua e ele vê uma mulher jeitosa e pica-me ((risos)) e pronto, sei lá, é mesmo de pai para filho! De dois rapazes pronto! (...) (E5) 41 “ (...) por exemplo nós somos três mulheres em casa (...) Se calhar com um homem vai ser um bocadinho diferente (...) Agora vejo-a ali esticada na banheira, depois se calhar vou ficar mais inibida (...) até de me despir (...) ” (E10) No caminho em direção à aceitação, as relações entre mãe/pai e filho/a, muitas das vezes, tomam novas formas. A maioria das/os participantes revela que a partir do momento em que tomaram conhecimento da situação e começaram a acompanhar e apoiar o processo de transição do/a filho/a, a relação entre ambos/as mudou para melhor, sendo caracterizada como mais próxima, e em alguns casos extinguiram-se algumas das controvérsias que existiam (e.g. E1). Tal constatação coincide com a literatura que aponta melhorias na relação com a mãe nas situações de homossexualidade (Heatherington & Lavner, 2008), e especificamente em casos de transexualidade, Platero (2014) e Johnson e colaboradores (2014) encontraram que as relações no seio da família nuclear se tornaram mais próximas e profundas. Tais melhorias, em parte, poderão estar associadas ao apoio percebido pelos/as filhos/as (e.g. E3), o que corresponde à ideia veiculada por Brown e Rounsley (2003) de que em contextos de aceitação e suporte, a apreciação e o amor que os/as filhos/as nutrem pelos pais intensificam-se, contribuindo para uma melhoria a nível relacional. Ao mesmo tempo, o processo de transição, com destaque para as intervenções hormonais e cirúrgicas, acarreta muitas vezes situações de sofrimento físico e psicológico, como podem ser a adaptação à hormonoterapia, a recuperação pós cirúrgica e a morosidade de todo o processo em geral, o que pode também promover maior proximidade entre a díade mãe/pai-filho/a, no sentido de que em conjunto superam melhor as adversidades. Um tópico interessante que três participantes revelam diz respeito à relação tomar uma nova forma com base no sexo e género para os quais os/as filhos/as estão a transitar, dado que os dois pais entrevistados referem que agora com os filhos rapazes podem fazer outras atividades e ter outros temas de conversa que com as filhas raparigas não fariam ou não teriam. E uma mãe (E10) fala da diferença no que respeita a passar a ter um rapaz em vez de uma rapariga, no que concerne à exibição do corpo. Este resultado parece espelhar a construção social da diferença entre o masculino e o feminino (Amâncio, 1994) e de como esta se reproduz nas relações no seio da família. Socialmente são convencionadas as atividades e comportamentos tipicamente masculinos distintos das atividades e 42 comportamentos tipicamente femininos. Daí que, nestes casos, ao haver mudança de sexo, os pais e a mãe concebam que também os comportamentos e as atividades devem mudar. No caso dos pais, pela mudança de sexo, a filha passará para o seu grupo de pertença, o masculino, por isso entendem que emergem similaridades entre ambos, aproximando-os nos comportamentos e nas atividades, o que pode facilitar a aceitação por parte destes pais. E aqui, evocando a masculinidade hegemónica de Connell (1995), é possível que nos surja a questão: será que estes pais caminhariam com a mesma facilidade em direção à aceitação se a transição fosse no sentido inverso? No caso da mãe, a filha também transita para o sexo masculino, mas diferencia-se do seu grupo sexual, portanto são introduzidas divergências, neste caso o corpo, que poderá quebrar a intimidade que existia enquanto duas pessoas pertencentes ao mesmo sexo, facto que parece não influenciar o caminho em direção à aceitação que esta mãe percorre. 3.10.Aspetos positivos Felicidade/Realização pessoal do/a filho/a “ (...) o maior dos aspetos positivos é a felicidade dela (...) a realização dela (...) ” (E2) “ (...) a minha filha vai ficar feliz, para mim é o que vai ser mais importante (...) ” (E6) Tornar-se melhor pessoa/Não criticar “Comecei a ver melhor as pessoas e a não criticar ninguém e a ser melhor! (...) ” (E1) “ (...) isto fez de mim outra pessoa (...) Já não criticar tanto os outros, não me rir de certas situações. Às vezes as pessoas estão a falar e eu já me calo…” (E7) Novas aprendizagens e conhecimentos: “ (...) a gente vai aprendendo muita coisa!” (E1) “ (...) de certo modo, sinto-me agradecida por ter começado a ter mais conhecimentos sobre uma área que eu desconhecia praticamente. (...) ” (E9) 43 Mudança de perspetiva quanto à diversidade de expressões de género: “ (...) eu às vezes até dizia que ‘Olha é porque… às vezes é o dinheiro a mais’. E afinal não tem nada a ver com dinheiro, é mesmo da pessoa! (...) portanto já mudei as minhas ideias, não é? Isso também é positivo!” (E5) “ (...) Eu via assim às vezes aqueles travestis (...) mas achava que era (...) uma aberração vá (...) mas depois deixou de ser um problema e quando comecei a ter conhecimentos pronto no meu ambiente familiar, eu disse: ‘Alto, isto dá muito que falar e dá muito que perceber (...) ” (E9) No que respeita aos aspetos positivos ao longo do percurso já percorrido, foi notória a dificuldade da maioria das/os participantes em expor tópicos positivos decorrentes da vivência da situação, sendo que algumas/uns parecem não entender a pertinência do tema. Possivelmente, tal dificuldade está associada ao facto de nunca terem refletido sobre este tópico, devido ao percurso por vezes tão sofrido e tortuoso que algumas mães estão a fazer, não conseguindo ainda descortinar aspetos positivos. Simultaneamente, também porque à transexualidade, e especificamente à mudança de sexo, como já discutido, estão fundamentalmente associadas conotações negativas, veiculadas pelo estigma social. Ora, as mães e os pais, no seio deste ambiente social e cultural, tornam-se menos capazes de ver algo positivo na experiência de ter um/a filho/a que está a mudar de sexo e de género. Desta forma, o aspeto positivo que mais facilmente referem prende-se com a felicidade que o processo de transição trará para o/a filho/a, no sentido da sua realização pessoal. Mais uma vez, está presente a centração nas vivências dos/as filhos/as em detrimento das próprias, e a preocupação com a felicidade e minimização do sofrimento dos/as descendentes. Quanto a si próprias/os, as/os participantes que conseguiram referir aspetos positivos mencionam que esta experiência contribuiu para mudarem a sua maneira de ver os outros, sendo que atualmente já não criticam determinadas situações menos habituais, e entendem que se tornaram melhores pessoas por isso. A oportunidade de novas aprendizagens e conhecimentos é avançada por duas participantes como um aspeto positivo, tal como também encontraram Gonzalez e colaboradores (2013). Para outras/os a vivência em torno do processo de transição do/a filho/a permitiu que mudassem a perspetiva que tinham em relação às pessoas que transgridem as normas convencionais de género, o que também coincide com um dos 44 aspetos positivos que encontraram Gonzalez e colaboradores (2013). Neste estudo, esta constatação parece estar relacionada com a ideia de que o contacto com uma pessoa próxima pode contribuir para a mudança de perspetiva face ao fenómeno. Esta é já uma hipótese avançada pela literatura, sendo que por exemplo Costa e colaboradores (2010) encontraram que o aumento do contacto com a diversidade influencia a diminuição da transfobia. 3.11.Papel dos profissionais de saúde Apontam um caminho e apoiam nessa jornada “ (...) uma boa psicóloga (...) disse-me: ‘Não, não pode ser, isto não pode continuar, você vai à sua médica pede um P1, e depois vai ao (...) que tem lá médicos especialistas deste caso.’ (...) um dia maravilhoso para mim mal conheci a Doutora Ana (...) É uma pessoa que nos dá muito apoio, um amor de pessoa!” (E1) “ (...) felizmente estava a Doutora Laura (...) Eu disse: ‘Nem queira saber então não é que agora o Tiago, a Maria Cláudia, diz-me isto assim assim?’, diz ela: ‘E está preocupada com isso?’ ((risos)). Quando ela me falou assim eu acho que me despreocupei um bocadinho ((risos)). ‘ (...) Isso é perfeitamente normal, pode acontecer... (...) ” (E9) Desmistificação de crenças “ (...) queria muito uma menina (...) e o psicólogo disse que não tinha nada a ver (...) fui só viver com mulheres (...) Também falei ao Doutor e ele também disse que não (...) ” (E1) “ (...) o que me preocupa mais é o meu neto, tem cinco anos e começa assim: ‘Oh ´vó o tio Gustavo veste assim... mas ele é como eu ´vó, tem pilinha!’. (...) Eu até na altura perguntei à médica e ela disse: ‘Não, não tem nada a ver (...) ’ ” (E8) Certezas demasiado rápidas “ (...) isto são coisas que não se podem diagnosticar logo à primeira: é isto! (...) cada individuo tem que ser estudado, e não pode ser logo: ‘Olhe porque eu não gosto do meu corpo (...) ’ ” (E2) 45 “ (...) foi tão rápido agora esta parte (...) eu queria ter quase cem por cento de certeza que é mesmo este o caminho. (...) ” (E10) Promoção do encontro entre pais/mães e outros familiares que lidam com a situação “ (...) No caso daquela reunião (...) Gostei imenso porque, sei lá, estamos todos ali na mesma coisa, não é? E uma opinião diferente da outra ajuda sempre! (...) ” (E3) “Por acaso era uma coisa que eu gostava de ter assistido (...) trocarmos ideias e essas coisas todas é bom para toda a gente!” (E5) A certa altura, os/as profissionais de saúde passaram a fazer parte das vivências das/os participantes, tornando-se companheiros/as na jornada em direção à aceitação da situação, através do papel que têm, em alguns casos fundamental, na facilitação da vivência do processo de transição. Pode aqui evocar-se o que encontrou Platero (2014) no que respeita à função que os profissionais, não só de saúde, mas também professores e educadores sociais, podem ter na forma como os pais lidam com a situação dos/as filhos/as, contribuindo para a construção de significado da experiência na família. Na história de algumas mães, os/as profissionais de saúde apontaram um caminho no sentido da solução da dúvida quanto ao que fazer perante a situação de não conformidade da identidade de género com o sexo biológico por parte do/a filho/a, tendo proporcionado alívio através da normalização da situação (e.g. E9). Outra função de extrema importância que os/as profissionais de saúde têm prendese com a desmistificação de crenças enviesadas que as mães e os pais por vezes trazem e que podem não facilitar a aceitação da situação (e.g. E1 e E8). Para que este papel possa ser eficaz é importante que todos/as os/as profissionais de saúde, e não só, sejam bem formados/as acerca da temática, para que possam funcionar como facilitadores do processo de aceitação e, numa escala mais ampla, como agentes de sensibilização para a realidade das pessoas transexuais, tantas vezes deturpada, com base nas conceções enviesadas da sociedade em geral. Do ponto de vista de algumas participantes, os/as profissionais de saúde, que lidam diretamente com os processos de transição, concluíram demasiado rápido que o/a filho/a reunia as condições necessárias para avançar com o processo de transição. Sabe-se, da 46 literatura e do contacto com a prática clínica, que o papel destes/as profissionais de saúde não é, ou não deveria ser, um papel de juízes/as para provar se a pessoa é transexual ou não e daí se deve ou não prosseguir com o processo de transição. Esta sensação de demasiada rapidez que é relatada pelas participantes permite então refletir que provavelmente existe necessidade de um maior cuidado na transmissão da informação às figuras parentais, e na importância de um acompanhamento individualizado, independente daquele que é prestado aos/às filhos/as, nos casos em que tal se justificar. A literatura é ainda escassa no que respeita à consideração da família em âmbito clínico, dado que só recentemente as pessoas transexuais começaram a ser equacionadas no seio da família. Até há pouco tempo eram vistas como pessoas sem família, que devido ao processo de transição eram aconselhadas a mudar completamente de vida e afastar-se da família (Lev, 2004). No atual panorama, as famílias mostram-se cada vez mais presentes no contexto clínico e acompanham o processo de transição dos/as filhos/as, agora também em faixas etárias mais jovens (Vanderburgh, 2009), tal como acontece nos casos abordados neste estudo, pelo que se torna pertinente considerar a modificação nas práticas clínicas, no sentido de envolver também a família no processo de transição, promovendo a aceitação e a harmonia no seio familiar. Aliás, a “educação dos membros da família” é uma das recomendações contidas nos Standards of Care18 para os profissionais de saúde mental que trabalham com pessoas transexuais e suas famílias, mas pouca atenção tem sido dada a este tópico (Lev, 2006). Outro papel importante associado aos/às profissionais de saúde, que os/as participantes mencionam, refere-se à possibilidade de promover o contacto entre mães e pais, e outros elementos, de diferentes famílias, através de encontros ou outros formatos que visem principalmente a partilha de experiências em torno das vivências dos processos de transição. Pelo relato de algumas/uns participantes percebe-se que o encontro para familiares, que tinha decorrido há pouco tempo, foi bastante proveitoso para quem participou e quem não esteve presente solicita que tais momentos se repitam. Vanderburgh (2008) também sugere que os profissionais promovam o contacto entre famílias que lidam com uma situação de transição de sexo e género, no sentido de lhes proporcionar algum conforto, ao perceberem que não são as únicas, promovendo desta forma o seu suporte social, que é, na maioria das vezes, escasso. Zamboni (2006) propõe um formato de 18 Recomendações internacionais, elaboradas pela World Professional Association for Transgender Health (WPATH), que visam garantir cuidados de saúde que sejam adequados, que respeitem a identidade das pessoas transexuais e que promovam o seu bem-estar e felicidade. 47 seminário/workshop, que visa promover informação e suporte a familiares, paceiros/as românticos e amigos/as de pessoas transgénero, através do fornecimento de material informativo, de atividades em pequenos grupos para fomentar a partilha de experiências e emoções, visualização de filmes, entre outras estratégias, que pretendem auxiliar a vivência positiva do processo em direção à aceitação. 54 estudos, como o de Platero (2014), que avança uma explicação baseada na ideia da masculinidade hegemónica de Connell (1995) e de como ela está confirmada na paternidade, através de atitudes de homofobia e transfobia, que impedem o acesso às experiências dos pais. O presente estudo reforça esta ideia, pois através do relato de algumas participantes foi possível tomar conhecimento da posição dos maridos ou companheiros, na sua maioria pais biológicos, que, segundo as entrevistadas, não aceitam a situação. Alguns recusam-se a falar sobre ela, não tendo aceitado a proposta para participar neste estudo, outros vivem separados da família nuclear por razões profissionais, não tendo pleno conhecimento da situação, e a esposa prevê reações negativas aquando do confronto. E uma das participantes revela que o ex-companheiro, quando vivia consigo e com a filha, dirigia sistematicamente expressões verbais de caráter homofóbico e transfóbico face à exibição de vestuário de acordo com a identidade de género. Outra limitação relacionada com a amostra prende-se com o facto de todas/os as/os participantes terem sido recrutadas/os em meio clínico, sendo que todas/os acompanham ou acompanharam o/a filho/a no processo de transição, logo tratam-se inevitavelmente de mães e pais mais aceitantes ou que querem caminhar para a aceitação, pois provavelmente de outro modo não acompanhariam os/as filhos nem teriam colaborado no estudo. Assim, o presente trabalho não é representativo de experiências de mães ou pais que não frequentam contextos clínicos. Este estudo também não contemplou a diferença que pode existir nas vivências das mães e dos pais conforme o sentido em que transita o/a filho/a, dado que nesta questão a amostra também não foi equilibrada, uma vez que na maioria dos casos a transição é do sexo feminino para o masculino. A quantidade de temas abordados pode constituir uma limitação, no sentido de que não permitiu uma análise mais profunda de cada um em particular, que poderia ser, em alguns casos, pertinente. No entanto, a intenção deste estudo era precisamente explorar as várias questões com que as mães e os pais se debatem quando enfrentam a situação da identidade de género do/a filho/a não conforme com o sexo, daí ter-se optado por apresentar a maioria dos temas que emergiram. No que respeita à investigação futura, sugere-se a tentativa de amostras mais equilibradas em termos de género, de modo a serem representativas das mães e dos pais, podendo assim extrair-se conclusões face à diferença de experiências, ou não, entre as duas figuras. Mais interessante ainda seria um estudo que se debruçasse apenas sobre as experiências dos pais, para uma análise privilegiada do percurso dos mesmos, colmatando 55 a falha da sua representatividade que tem sido patenteada em vários estudos, e este não é exceção. Obviamente que se reconhece a dificuldade em aceder a tal amostra. Seria também interessante no futuro abordar as peculiaridades associadas à aceitação da transição do sexo masculino para o feminino e vice-versa, através do recrutamento de amostras representativas dos dois sentidos da transição, e nos caso da experiência dos pais poderia ser possível responder à pergunta avançada na discussão de como seria para os pais lidarem com uma situação de transição do sexo masculino para o feminino, em vez do contrário. Para além das mães e dos pais, há outros membros da família que também têm de lidar com a situação, não se conhecendo estudos que abordem com pormenor, por exemplo as vivências dos/as irmãos, pelo que seria interessante explorá-las, no intuito de derivar implicações para auxiliar a aceitação, caso necessário. Neste estudo a maioria das/os participantes mostrou trilhar um caminho em direção à aceitação de forma menos dolorosa do que aquela que é retratada em grande parte da literatura existente, e até positiva face a algumas questões, pelo que seria interessante aprofundar-se este tipo de trajetos, de modelos positivos, no sentido de conhecer o que pode fomentar formas mais positivas de lidar com a situação, com o objetivo de extrair implicações úteis na prática clínica para auxiliar as pessoas com maior dificuldade em caminhar em direção à aceitação. Em suma, este estudo conseguiu cumprir maioritariamente os objetivos a que se propôs inicialmente, tendo sido possível a exploração mais aprofundada das vivências de mães e pais face à situação de não conformidade da identidade de género dos/as filhos/as com o sexo biológico e ao consequente processo de transição, contribuindo para um pequeno aumento do conhecimento científico nas várias temáticas envolvidas, e para o aumento da visibilidade destas experiências, esperando que se gere maior compreensão e sensibilidade face às mesmas. E ainda foram extraídas algumas implicações clínicas, que se entendem como possíveis de implementar, no sentido de contribuir para uma melhoria na qualidade de vida, nos sistemas relacionais, e na sociedade em que todos/as existimos (Blumer et al., 2012). 56 Referências Bibliográficas Amâncio, L. (1994). Masculino e feminino: A cosntrução social da diferença. Porto: Edições Afrontamento. American Psychological Association (2011). 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