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Decisão táctica e preferência lateral no futebol : estudo comparativo do tempo e da qualidade da decisão táctica em jovens futebolistas federados com diferentes preferências laterais

Liliana Ponte

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FACULDADE DE CIÊNCIAS DO DESPORTO E DE EDUCAÇÃO FÍSICA UNIVERSIDADE DO PORTO DECISÃO TÁCTICA E PREFERÊNCIA LATERAL NO FUTEBOL Estudo comparativo do tempo e qualidade da decisão táctica em jovens futebolistas federados com diferentes preferências laterais. Liliana Isabel Faria Ponte Orientador: Professor Doutor Júlio Garganta Co-Orientadora: Professora Doutora Olga Vasconcelos Dezembro 2005 DECISÃO TÁCTICA E PREFERÊNCIA LATERAL NO FUTEBOL Estudo comparativo do tempo e qualidade da decisão táctica em jovens futebolistas federados com diferentes preferências laterais. Liliana Isabel Faria Ponte Dezembro 2005 Trabalho monográfico realizado no âmbito da disciplina de Seminário do 5º ano da Licenciatura em Desporto e Educação Física, sob orientação do Professor Doutor Júlio Garganta e Co-Orientado pela Professora Doutora Olga Vasconcelos. Resumo III RESUMO A qualidade e velocidade da tomada de decisão é fundamental para dar resposta ao nível de jogo de Futebol que se impõe hoje em dia. Em cada situação de jogo é necessário aprender a seleccionar as fontes de informação mais relevantes que um jogador tem ao seu dispor. Um tema actual de pesquisa tem sido a busca de factores perceptivomotores que discriminam a actuação de destrímanos e sinistrómanos, sendo apresentadas diferenças de actuação entre grupos com diferentes preferências laterais. No presente estudo pretende-se comparar o tempo de tomada de decisão e a qualidade de decisão em jogadores federados de escalões de Escolas, Iniciados e Juvenis, com diferentes preferências laterais de mão e pé. Foi aplicado um questionário adaptado de Porac & Coren (1981), para aferição da preferência manual e pedal e, aplicado o protocolo de Mangas (1999), para aferir o tempo e qualidade de decisão. Este protocolo composto por 11 situações ofensivas de jogos de futebol de alto nível, tendo, em cada uma delas, uma solução correcta e uma incorrecta, melhorado por Correia (2000) com um relógio digital que permitiu obter informação acerca da variável “tempo de resposta”. Da amostra constam 102 sujeitos, repartidos por diferentes escalões: 32 atletas de Escolas, 38 de Iniciados e 32 de Juvenis. Os procedimentos estatísticos reportaram-se à estatística descritiva para apresentar os resultados relativos à qualidade e tempo de decisão entre os escalões, e à ANOVA unidimensional para comparar diferenças entre os quatro grupos de preferência lateral, o nível de significância foi de 0,05. Concluiu-se que: - A qualidade de decisão táctico – técnica tende a aumentar à medida que os jogadores vão possuindo um maior número de anos de prática federada na modalidade (escalão superior); Resumo IV - O tempo de decisão táctico-técnica tende a diminuir à medida que os jogadores vão possuindo um maior número de anos de prática federada na modalidade(escalão superior); - Os atletas com preferência manual direita e pedal esquerda (cruzada DE), decidem mais correctamente (valor médio de respostas correctas superior) e erram menos vezes (valor médio de respostas erradas inferior); - Os atletas com preferência manual esquerda e pedal esquerda (ipsilateral EE) decidem menos bem (valor média de respostas correctas inferior) e erram mais vezes ( valor médio de respostas erradas superior); - Os atletas com preferência manual direita e pedal esquerda (DE) decidem mais rápido, e os atletas com preferência manual esquerda e pedal esquerda (EE) levaram mais tempo para decidir. Palavras-chave: Decisão táctico-técnica, tomada de decisão, lateralidade, preferência manual, preferência pedal, assimetrias, futebol. Agradecimentos IV AGRADECIMENTOS É aqui, neste momento, que agradeço a todos aqueles que me ajudaram nesta “caminhada”... A todos eles, deixo aqui o meu muito obrigado pelo apoio, pela dedicação, pela paciência que proporcionaram e pela sabedoria com que me souberam aconselhar... Deixo aqui o meu especial agradecimento: Ao Professor Doutor Júlio Garganta, orientador deste trabalho, pelo seu profissionalismo, disponibilidade, ajuda, vontade e competência demonstradas. À Professora Doutora Olga Vasconcelos, co-orientadora deste trabalho, pelo interesse, ajuda, disponibilidade, conselhos e pela vivacidade com que encara o trabalho. Ao Professor Paulo Correia pela cedência do protocolo de avaliação. À minha Irmã Carla pela indispensável colaboração no tratamento estatístico dos dados recolhidos. Ao meu namorado Paulo pelo apoio, amizade, ajuda e compreensão. À minha Amiga Lara pela paciência, companheirismo, amizade e ajuda. Aos Coordenadores, Directores, treinadores e atletas dos clubes da nossa amostra pela paciência e disponibilidade demonstradas. À minha família pela paciência que revelaram na consecução deste trabalho. Índice de Quadros V ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1: Caracterização da amostra tendo em consideração o número de atletas por escalão. (Página 32) Quadro 2. Caracterização dos atletas tendo em conta a média de idades e respectivos desvios-padrão. ( Página 32) Quadro 3: Caracterização dos atletas tendo em conta a média de anos de prática e respectivos desviospadrão. (Página 32) Quadro 4. Quantificação de atletas dos diferentes escalões de acordo com a preferência lateral. (Página 34) Quadro 5. Comparação da média e respectivos desvios padrão de respostas correctas e erradas nos três grupos da amostra. (Página 41) Quadro 6. Diferenças entre as médias de respostas correctas entre os três escalões: escolas, iniciados e juvenis. (Página 42) Quadro 7. Diferenças entre as médias de respostas erradas entre os três escalões: escolas, iniciados e juvenis. (Página 42) Quadro 8. Comparação do tempo médio de decisão nos três grupos da amostra. (Página 44) Quadro 9. Diferenças entre as médias de tempo entre os três escalões: escolas, iniciados e juvenis. (Página 44) Quadro 10. Comparação da média final e respectivos desvios-padrão e respostas correctas em função da preferência lateral na totalidade da amostra. (Página 46) Índice de Quadros VI Quadro 11. Comparação da média final e respectivos desvios padrão de respostas erradas em função da preferência lateral na totalidade da amostra. (Página 47) Quadro 12. Comparação da média final e respectivos desvios padrão do tempo em função da preferência lateral na totalidade da amostra. (Página 51) Quadro 13. Valores das correlações entre as diferentes variáveis na totalidade da amostra: lateralidade, respostas erradas, respostas certas e tempo. (Página 53) Índice VIII ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1. Vídeo do protocolo de Mangas (1999). (Página 37) Figura 2. Quatro soluções possíveis. (Página 37) Figura 3. Análise comparativa das respostas correctas dos atletas dos diferentes escalões. (Página 42) Figura 4. Análise comparativa das respostas erradas dos atletas dos diferentes escalões. (Página 43) Figura 5. Análise comparativa das respostas correctas em função da preferência lateral. (Página 46) Figura 6. Análise comparativa das respostas erradas em função da preferência lateral. (Página 47) Figura 7. Análise comparativa das respostas correctas e erradas em função dos sub - grupos da amostra relativos à preferência lateral. (Página 48) Figura 8. Análise comparativa do tempo médio de decisão de acordo com a preferência lateral. (Página 51) Índice IX ÍNDICE Agradecimentos Resumo Índices 1. INTRODUÇÃO..............................................................................................................1 1.1 Pertinência e âmbito do estudo........................................................................1 1.2 Delimitação do problema.................................................................................4 2. REVISÃO DA LITERATURA.........................................................................................6 2.1. Natureza dos Jogos Desportivos Colectivos (JDC).......................................7 2.2. A táctica nos JDC...........................................................................................8 2.3. Autonomia de decisão nos jogadores de JDC...............................................9 2.3.1. O problema de decisão nos JDC..................................................10 2.3.2. Factores que influenciam a decisão..............................................11 2.4. Decisão táctico-técnica: Conhecimento declarativo e conheci mento processual.......................................................................................................................13 2.5. Conhecimento e qualidade de decisão nos JDC.........................................17 2.6. Lateralidade e a metacognição em jovens atletas.......................................19 2.7. Especialização funcional hemisférica e a tomada de decisão......................23 2.8. Performance, Futebol e preferência lateral.......................………................25 3. METODOLOGIA..........................................................................................................29 3.1.Objectivos........................................................................................................29 3.2.Hipóteses.........................................................................................................29 3.3. Material e Métodos.......................................................................................31 3.3.1. Amostra.........................................................................................31 3.3.1.1. Razões da escolha da amostra.........................................32 3.3.2.Critérios de selecção da amostra..................................................32 3.3.3. Caracterização dos atletas em função da preferência lateral.......32 3.3.4. Procedimento metodológico adoptado para a recolha de dados..33 3.3.5. Protocolo de avaliação..................................................................33 3.3.5.1. Préteste..........................................................................34 Introdução ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 5 São escassos os estudos que pretendem analisar os tempos de reacção inerentes às questões de processamento de informação e preferência lateral. Aliado a isto, surgem as controvérsias acerca do funcionamento cerebral e da sua especialização funcional. O presente estudo visa indagar a relação entre os tempos de decisão, a qualidade de resposta e a preferência lateral dos sujeitos da amostra. REVISÃO DA LITERATURA Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 7 2. REVISÃO DA LITERATURA 2.1. Natureza dos Jogos Desportivos Colectivos (JDC) Segundo Loureiro dos Santos (1982) em referência à teoria geral dos jogos, os denominados Jogos Desportivos Colectivos podem ser considerados como um conflito no qual a superação é o objectivo essencial. Outros autores completam sustentando que esse conflito deve-se à existência de dois grupos em confronto, com interesses antagónicos, usando estratégias comuns (Gréhaigne & Guillon, 1992; Garganta, 1995), tendo como primeiro objectivo procurar um espaço favorável para realizar uma acção táctico técnica (Contreras & Ortega, 1999). Os JDC são caracterizados como desportos onde as acções de jogo possuem uma natureza complexa, determinando sempre alguma imprevisibilidade, e onde as situações devem ser entendidas como unidades de acção (Pittera & Riva, 1982; Konzag, 1983). Os jogadores devem ser capazes de percepcionar de diversas formas a situação do meio envolvente e relacioná-la com a sua própria actividade, transformando a relação de oposição vantajosa, momentânea ou definitivamente (Tavares, 1996). A necessidade de efectuar acções com a oposição de adversários, solicita do praticante a capacidade de poder prever as acções contrárias para que possa antecipar-se (Tavares, 1993; Garganta, 1997). A dinâmica do próprio jogo dificulta ao jogador a reprodução exacta do seu desenvolvimento, por este motivo as acções devem orientar-se para a resolução de situações. Segundo Tavares (1996), o jogador deve saber o quê, e como, observar, pois de contrário não saberá distinguir o fundamental do acessório e menos ainda avaliá-lo. A capacidade cognitiva é, então, um pré-requisito fundamental para o jogo (Greco & Chagas, 1992; Garganta & Pinto, 1995; Pinto, 1995;Sisto & Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 8 Greco, 1995; Tavares, 1995; Castelo, 1996), ocupando um lugar de destaque no quadro da complexa estruturação da performance dos JDC (Konzag, 1985). Sendo o futebol um JDC com um nível de coordenação elevado, caracterizado por um conjunto variado de condições onde a precisão e rapidez de movimentos têm que ser mantidos, conduzirá obrigatoriamente a uma utilização uniforme ou similar dos dois lados do corpo (Starosta, 1988, 1990), por forma a dar resposta à velocidade em que o jogo decorre. 2.2. A táctica nos JDC A táctica é o elemento central nos jogos de oposição (Araújo, 1983; Konzag, 1985; Aguilà et al., 1990; Alves, 1990; Greco & Chagas, 1992; Aguilà & Pereira, 1993; Riera, 1995; Sisto & Greco, 1995; Moya, 1996) sendo considerada por Bayer (1994), como conteúdo principal para o ensino dos JDC, pois o jogador em qualquer situação de jogo, tem de saber o que fazer (decisão táctica), antes de eleger o como fazer (decisão técnica), seleccionando e utilizando a resposta motora mais adequada (Aguilà et al., 1990; Alves, 1990; Aguilà & Pereira, 1993; Badin, 1993; Garganta & Pinto, 1995; Castelo, 1998; Mesquita, 1998). As situações de jogo reclamam uma atitude táctica permanente, uma vez que estas determinam a direcção dos comportamentos a adoptar pelos jogadores (Konzag, 1983), sendo a táctica uma construção no decurso da acção modificando, segundo os determinismos e as variações do contexto, a percepção da informação ou a conduta (Gréhaigne, 1992). Estas situações exigem do jogador uma utilização simétrica do corpo, dos pés com uma frequência e agilidade semelhante. Uma das habilidades fundamentais do jogador de elite é a ambidestria, ser capaz de usar os dois pés com a mesma igualdade de consistência e precisão (Grouios, et al, 2002). Gréhaigne (1992), diz-nos que o desenvolvimento da atitude táctica supõe o desenvolvimento da atitude de decidir e de decidir rapidamente, estando esta dependente da atitude de conceber soluções, significando que o desenvolvimento das possibilidades de escolha necessita do desenvolvimento de conhecimentos. Esta decisão rápida passa pela utilização dos dois pés, a pressão que o jogo revela leva aos jogadores a adaptarem a utilização não só Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 9 do pé preferido, mas também do não preferido, contribuindo assim para um desenvolvimento simétrico dos dois pés, o que irá contribuir para um aumento da performance (Grouios, et al. 2002). A vantagem de utilização dos dois pés no Futebol deriva do aspecto táctico-estratégico que o jogo implica. A acção táctica é, pois, um complexo mecanismo que engloba a percepção e análise da situação, decisão a tomar e execução ( Mahlo, 1980; Matveiev, 1986; Aguilà & Pereira, 1993; Brito, 1995; Brito & Maçãs, 1998; Castelo, 1998), sendo fundamental que ao nível do alto rendimento desportivo os jogadores e as equipas possuam uma forte disciplina táctica entendida como a observância dos princípios que permitem operacionalizar o modelo de jogo preconizado (Garganta, 1998). É importante, pois, privilegiar um ensino das acções técnicas integrado com as acções táctico-estratégicas, e para esta integração é necessário que o ensino esteja associado a conhecimentos sobre a hemisfericidade do aprendiz. Uma vez que, a aprendizagem motora surge progressivamente através do desenvolvimento paralelo das funções mentais e habilidades motoras, estando o factor cognitivo dependente da condição de processamento hemisférico do aprendiz (Oliveira et al., 2003) A permanente realização de acções tácticas coloca grandes exigências ao nível do sistema perceptivo, cognitivo e motor dos jogadores (Mahlo, 1980; Tavares & Vicente, 1991). Importa, pois, desenvolver nestes, uma disponibilidade motora e mental que ultrapasse a simples mecanização de gestos e se centre na aquisição e assimilação de regras de acção e princípios de gestão do espaço de jogo (Garganta, 1995). 2.3. Autonomia de decisão dos jogadores de JDC Vários autores (Rippol, 1987; Tavares, 1993; Uriondo & Santos, 1995; Alves & Araújo, 1996; Araújo, 1997) entendem que a tomada de decisão no desporto adquire grande importância, sendo considerada uma acção eminentemente táctica (Oliveira & Ticó, 1992) e uma das mais importantes capacidades do atleta, sendo, em muitos casos, responsável pelas diferentes inter-individuais de rendimento. Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 10 Partindo deste pressuposto, Tavares (1993) sustenta que será necessário adequar o problema da formação e do treino técnico – táctico à natureza do jogador, para que a sua preparação desportiva seja adequada. Brito (1995), refere, então, que os comportamentos técnico – tácticos implícitos no exercício de treino, terão assim de induzir à construção de um sistema de esquemas de assimilação e de organização do real a partir de estruturas espacio – temporais e causais. A sucessiva e progressiva interacção que o jogador estabelecerá, dessa forma, com a realidade do jogo através do exercício de treino, permitir-lhe-ão sucessivamente um controlo e uma intencionalidade progressivas que lhe possibilitem o conhecimento dos pormenores da acção. Segundo Oliveira et al. (2003), a melhor forma de integrar o nosso corpo com o meio ambiente é através da condição de processamento de conteúdos de aprendizagem e/ou organização de movimentos simultaneamente nos dois hemisférios. No seu estudo, os jogadores de voleibol e futebol bi-hemisféricos demonstraram distinção na performance cognitiva (melhor performance). Isto implica que, qualquer tipo de metodologia de ensino desportivo, deverá considerar a natureza do aprendiz, tendo em conta as distinções hemisféricas e adaptando e treinando as duas partes do corpo, fazendo apelo ao funcionamento dos dois hemisférios cerebrais. Permitindo, através de uma organização cerebral dos padrões motores, uma maior autonomia de decisão e resposta motora. 2.3.1. O problema da decisão nos JDC Segundo Faria & Tavares (1996), a tomada de decisão joga num papel importante nas acções do atleta, pois a realização de movimentos conscientes é sempre precedida de uma decisão. A variação sistemática das situações momentâneas do jogo reduz consideravelmente a coerência dos acontecimentos elevando a complexidade dos processos de decisão, dado que o jogador terá de ter em atenção um maior número de variáveis para dar uma resposta motora adequada. A constante modificação e variabilidade das situações colocam grandes exigências a nível do sistema perceptivo – decisional já que implicam uma Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 11 complexa leitura e coerência de jogo, multiplicando o número de mecanismos de detecção, identificação, interpretação e decisão mobilizados no ínfimo tempo de que dispõe (Konzag & Konzag, 1980; citado por Greco & Chagas, 1992). Segundo Tavares (1996), as decisões devem efectuar-se numa dinâmica relacional colectiva e serem coordenadas no seio de unidades amplas. Assim, nos JDC a acção será absurda se não estiver ligada à dos co – autores da situação. Temprado (1989 cit. por Tavares, 1996) afirma que a decisão é não só funcional, porque participa na resolução da tarefa, mas também significante, pois informa colegas e adversários e influência as suas próprias decisões. A decisão é sempre o produto do tratamento da informação, actualizando de forma observável a gestão da incerteza e a resolução do conflito que provoca. 2.3.2. Factores que influenciam a decisão O elevado número de jogadores intervenientes e a pluralidade das acções e decisões possíveis, solicitam uma grande diversidade de decisões e de acções táctico – técnicas, tornando muito complexas as condições para decidir. Mesmo quando as acções táctico – técnicas são pré – determinadas com pormenorizada precisão, como é o caso dos esquemas tácticos, a tomada de decisão do jogador mantém a sua natureza complexa. Por esta razão, as determinantes do comportamento táctico sintetizam-se como processos cognitivos (Greco, 1989). Estes definem-se como o desenvolvimento do fenómeno de interpretação e ordenamento das informações na consciência através das funções intelectuais e a formação de conceitos fáceis de oferecer soluções a um problema (Dorsch, 1985; citado por Greco, 1989). Segundo Tavares (1996), existem tarefas motoras de grande complexidade ao nível do mecanismo de decisão e para cuja resolução não existe um modelo de execução fixo que garanta o êxito. Será, então, importante o atleta aprender a adaptar convenientemente a sua resposta motora de acordo com as exigências inerentes à situação. Bañuelos (1986) considera a complexidade da decisão nos JDC e considera que o jogador, ao tomar uma decisão, deverá ter em conta os Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 12 seguintes factores condicionantes: 1) número de decisões e objectivos da tarefa; 2) número de respostas alternativas em cada decisão; 3) tempo exigido para tomada de decisão; 4) nível de incerteza com que se toma a decisão; 5) ordem sequencial das decisões; 6) número de elementos necessários recordar para tomar decisão. O sistema perceptivo parece assumir-se como um dos grandes responsáveis para obtenção de êxito em competição (Mahlo, 1980; Garganta, 1997). Segundo Jalabert (1998; citado por Garganta, 1999), as interacções do sistema perceptivo com a velocidade de realização organizam-se em torno de três eixos: • Selecção das informações: o jogador de alto nível ganha tempo seleccionando, cada vez mais rapidamente, num caos de informações, aquelas que lhe são mais úteis para atingir o objectivo; • Ligação entre as informações: o jogador de alto nível invoca as experiências passadas para prever as consequências das acções que realiza, as quais se revelam determinantes para a obtenção de sucesso; • Reorganização sensorial do controlo do movimento: ao invés do principiante, para quem o controlo visual da bola é indispensável, o jogador confirmado utiliza a propriocepção, o que se torna mais económico em termos de tempo, dado que tal o disponibiliza, do ponto de vista cognitivo, para o tratamento da informação. Cada jogador percebe o jogo consoante as suas experiências anteriores, organizando os dados dispersos construindo um sentido de jogo, que depende de um modelo de referência. A capacidade de leitura do jogo e execução das habilidades técnicas depende da organização da informação e da capacidade para discriminar o significado dessa informação. A dimensão cognitiva marca diferença entre jogadores dos JDC, visto o jogo exigir uma constante adaptação das estruturas cognitivas em resposta aos variados estímulos desencadeados pelo jogo. A resolução dos problemas que as situações de jogo levantam é uma actividade onde a experiência anterior é utilizada para reorganizar as componentes dessa situação a fim de atingir o respectivo objectivo. Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 13 Compreende a memorização (problemas anteriormente resolvidos de forma activa), a selecção e organização dos dados (estabelecimento de uma associação mental entre a situação percebida e a solução correspondente) para formular princípios, relações e associações que envolvem a própria solução dos problemas. Decorre deste pressuposto, que os jogadores mais experientes devem tratar melhor e mais rapidamente a informação que lhes é apresentada, associando em tempo oportuno a solução mais adequada ao problema momentâneo. Cada vez mais, o ensino do futebol é baseado no ensino simétrico dos movimentos, permitindo um desenvolvimento igual de ambos os lados do corpo. Um desenvolvimento simétrico ou semelhante das duas pernas (pés) permite uma maior eficiência motora, não só técnica como táctica (Starosta, 1990). O treino do pé não preferido cria um nível de atenção elevado no treino, permitindo uma organização cerebral e do comportamento motor. Quando trabalhamos o pé não preferido estamos a retirar informações relevantes do meio ambiente durante o treino, que vai permitir uma nova organização estrutural e um programa motor mais eficiente que permita a utilização dos dois pés (Hoff & Haaland, s/d). Esta maior organização cerebral, vai permitir que o jogador decida mais rápido pois, a reorganização sensorial do controlo do movimento efectuada no treino, libertará o jogador para analisar as informações do jogo e decidir consoante suas experiências anteriores mais eficazmente. 2.4. Decisão táctico-técnica: Conhecimento declarativo e conhecimento processual Vários autores (Housner & French, 1994, Thomas & Thomas, 1994), entendem que a tomada de decisão está relacionada com o conhecimento por eles adquirido, bem como com o seu desenvolvimento ao longo do processo de maturação. Alves & Araújo (1996) consideram que a qualidade de tomada de decisão do atleta em situação de jogo depende do seu conhecimento declarativo e processual específicos, das suas capacidades cognitivas, da Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 14 capacidade (competência) no uso das capacidades cognitivas, das preferências pessoais e dos factores motivacionais. Graça (1995), refere ainda, que só é possível antecipar, projectar ou problematizar determinadas situações em função dos conhecimentos que se tem e dos meios que se conhece e de que se dispõe para agir. A aprendizagem declarativa relaciona-se com a aquisição de saberes que, posteriormente, são requisitados às memórias episódica e semântica. A aprendizagem processual correspondia à aquisição de saberes relacionados com as capacidades para realizar tarefas complexas sem haver necessidade de recorrer a recordações conscientes (Cohen & Squire, 1980; Anderson, 1983 citados por Oliveira, 2004). Os praticantes de JDC necessitam, continuamente, de formular programas de acção, bem como tomar decisões que devem ser adequadas, ao problema que lhes surge (Mangas, 1999). Segundo Konzag (1985), muitas acções erradas dos jogadores advêm de carências ao nível da percepção e análises das situações, as quais se devem em muitos casos, a um deficiente conhecimento do jogo. Alguns autores (George, 1983 cit. por Pinto 1995; Ryle, 1949 cit. por Oliveira, 2004) sugerem que o conhecimento declarativo se relaciona com o “saber o quê” e o conhecimento processual com o “saber como”. O “saber o quê” diz respeito aos conhecimentos que são possíveis verbalizar e que estão implicados com as memórias episódicas e semânticas. O “saber como” são conhecimentos ligados à capacidade de realizar tarefas simples e complexas, sem que haja necessidade de envolvimento de recordações conscientes. Então, segundo Oliveira (2004), o conhecimento declarativo é todo o tipo de conhecimento que pode ser expresso ou declarado através da verbalização, podendo ser explicado ou transmitido por palavras e não está necessariamente relacionado com a situação em que pode estar a ser utilizado. Este conhecimento está relacionado com o que fazer perante determinada situação, é acessível de forma consciente (Cohen, 1984; Eysenck & Keane, 1994 cit. por Oliveira 2004). O Conhecimento processual, ainda segundo Oliveira (2004), é um tipo de conhecimento que está relacionado com a realização de acções e é Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 21 O cérebro humano está estruturado em dois hemisférios que estão interligados pelo corpo caloso. Franz Gall, anatomista alemão, foi o primeiro a propor que o cérebro não é uma massa uniforme, e que várias faculdades mentais localizam-se diferentes partes do cérebro, em 1796. Seguiu-se Marc Dax, em 1836, com apresentação de um trabalho com observações que apontavam um papel especial do hemisfério esquerdo na fala, na altura foram ignoradas. Paul Broca, em 1865, realizou um trabalho que continha grandes descobertas anatómicas e informação sobre a natureza da manifestação de problemas da fala e da relação entre o uso da mão e a fala, propondo que a fala e habilidade manual, são atribuídas à superioridade inata do hemisfério esquerdo nos destros. A “lei” de Broca, de que o hemisfério controlador da fala se encontra no lado oposto à mão predominante, exerceu bastante influência no século XX (Springer & Deutsch, 1998). A partir dos anos quarenta, alguns estudos reflectem a ideia de um hemisfério dominante, activo, e de um hemisfério não dominante ou passivo. Outros defendem com mais pormenor, o facto de que cada hemisfério se revela superior para determinado tipo de funções, atribuindo ao hemisfério esquerdo a dominância para a linguagem e para as destrezas manuais e ao hemisfério direito certas capacidades espaciais e musicais, a atenção e muitos aspectos ligados à emoção (Penfield & Roberts, 1959; Sperry, 1960; Geschwind, 1965 cit. por Springer & Detsch, 1998; e Vasconcelos, 1991). A teoria que defendia a dominância cerebral como traço único da espécie humana foi sendo rejeitada à medida que as investigações demonstravam assimetrias estruturais, assim como, químicas e farmacológicas em outras espécies (Vasconcelos, 1991). Contudo, entre as teorias clássicas e as investigações actuais verifica-se que o efeito das lesões precoces ou tardias têm um efeito comum na dominância cerebral. As lesões unilaterais precoces ( primeiros anos de vida) abarcam uma mudança das funções para o hemisfério oposto, enquanto nos adultos esta transferência é muito menos frequentemente e com menos eficiência (Vasconcelos,1991;Springer & Deutsch, 1998). Segundo Vasconcelos (1991),actualmente a designação “dominância hemisférica” ou “cerebral” deu lugar ao termo “especialização funcional Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 22 hemisférica” que abarca um determinado número de factores de variação quer relativos ao próprio indivíduo (idade, sexo, experiência anterior), quer ao carácter específico da actividade, quer ainda às estratégias utilizadas para a cumprir. O carácter dinâmico da especialização funcional hemisférica deverá ser entendido em paralelo e em interacção com os factores estruturais (Hécaen, 1984 cit. por Vasconcelos,1991). Fonseca (1989) refere que a lateralidade constitui um processo essencial à relações entre a motricidade e a organização psíquica intersensorial. Representa a consciencialização integrada e simbolicamente interiorizada dos dois lados do corpo, lado esquerdo e lado direito, o que pressupõe a noção da linha média do corpo. Daí vão decorrer as relações de orientação face aos objectos, às imagens e aos símbolos, razão pela qual a lateralização vai interferir nas aprendizagens escolares de uma maneira decisiva. A lateralização reflecte a organização funcional do sistema nervoso central. Sabe-se que a metade esquerda do corpo é controlada pelo hemisfério direito, ao passo que a outra metade é controlada pelo hemisfério esquerdo. Quando há dominância do hemisfério esquerdo, temos o indivíduo destro; quando ocorre a dominância do hemisfério direito, temos o indivíduo sinistrómano. Contudo, pode-se admitir que haja colaboração dos dois hemisférios na elaboração da inteligência (Springer & Deutch, 1998). Consoante Romero (1988), o predomínio lateral é funcional e relativo, não significando a existência da mesma proporção de destros e canhotos. A lateralidade complementa uma função coordenada com a dominante. Negrine (1986) diz-nos que a lateralidade é uma bagagem inata e uma dominância espacial adquirida. A automatização da lateralidade (apreensão da idéia de direita – esquerda) tanto é necessária como indispensável esse conhecimento deve ser automatizado o mais cedo possível e a sua detecção o quanto antes (Romero, 1988). O conhecimento do corpo não depende somente do desenvolvimento cognitivo. Depende, também, da percepção formada tanto de sensações visuais, tácteis, cinestésicas quanto, em parte, da contribuição da linguagem (Fisher, 1997). Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 23 Em relação à lateralidade, Faria (2001), classifica os sujeitos da seguinte forma: - Destros: são aqueles nos quais existe um predomínio claro estabelecido do lado direito na utilização dos membros e órgãos; - Sinistros ou canhotos: são aqueles nos quais existe um predomínio claro estabelecido do lado esquerdo na utilização de membros e órgãos e, - Ambidestros: são aqueles nos quais não existe predomínio claro estabelecido, ocorrendo o uso indiscriminado dos dois lados. É importante considerarmos, ainda, as grandes variações dentro da lateralidade. Estão inclusos nessa categoria os indivíduos de preferência lateral cruzada, ou seja, aqueles que têm a sua dominância discordante entre um membro e o outro. 2.7. Especialização funcional hemisférica e a tomada de decisão Como as funções do nosso cérebro parecem estar assimetricamente repartidas pelos hemisférios cerebrais por razões que estão provavelmente relacionadas com a existência de um controlador final, em vez de dois, quando chega o momento de escolher uma acção ou um pensamento. Segundo Damásio (1999) se os dois lados tivessem a mesma importância na elaboração de um movimento, poderíamos confluir num conflito – a nossa mão direita poderia interferir com a esquerda e teríamos menos possibilidade de produzir novos movimentos coordenados que envolvessem mais de um membro. Relativamente a uma série de funções, as estruturas de um dado hemisfério têm de ter vantagem sobre o outro; essas estruturas chamam-se dominantes. Como já foi referido, um exemplo de dominância diz respeito à linguagem, que depende em larga medida das estruturas do hemisfério esquerdo. Outro exemplo de dominância, relativamente ao hemisfério direito, envolve o sentido integrado do corpo, através do qual a representação de estados viscerais, por um lado, e a representação de estado dos membros, do tronco e das componentes centrais do aparelho musculo-esquelético, por outro, se reúnem num mapa coordenado dinâmico ( Damásio,1999). Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 24 Os sinais relacionados com o lado esquerdo e o lado direito encontram o seu espaço de encontro mais extenso no hemisfério direito (Sperry, 1981). Isto não significa que as estruturas equivalentes no hemisfério esquerdo não representam o corpo, ou o espaço; apenas que as representações são diferentes: as representações do hemisfério esquerdo são provavelmente parciais e não integradas. Lesões no hemisfério direito associadas a destruição de um grupo específico de córtices cerebrais, conhecidos como somatossensoriais, comprometem o raciocínio, a tomada de decisões e as emoções/sentimentos (Damásio,1999;2000; 2003). Segundo um levantamento das condições neurológicas em que limitações de raciocínio/tomada de decisão e de emoções/sentimentos ocorrem, Damásio (1999) revela o seguinte: (i) Existe uma região do cérebro humano, constituída pelos córtices pré-frontais ventromedianos, cuja danificação compromete de maneira consistente o raciocínio/tomada de decisão como as emoções/ sentimentos, especialmente no domínio pessoal e social; (ii)Existe uma região do cérebro humano, o complexo de somatossensoriais no hemisfério direito, cuja danificação também compromete o raciocínio/tomada de decisão e emoções/ sentimentos e adicionalmente destrói os processos de sinalização básica do corpo; (iii) Existem regiões localizadas nos córtices préfrontais para além do sector ventromediano cuja danificação compromete também o raciocínio e tomada de decisões. Pode, então, dizer-se que parece existir um conjunto de sistemas no cérebro humano dedicados ao processo de pensamento orientado para um determinado fim, ao qual chamamos raciocínio, e à selecção de uma resposta, a que chamamos tomada de decisão, com um ênfase especial sobre o domínio pessoal e social. Este conjunto de sistemas está envolvido nas emoções e nos sentimentos e dedica-se em parte ao processamento dos sinais do corpo. Alves (1998) sustenta que indivíduos sinistrómanos, através de um teste de tempo de reacção com diferentes níveis de complexidade, apresentam um melhor processamento de informação alegando que não é despendido tempo na comunicação interhemisférica. Tavares & Vasconcelos (1992) avaliaram os efeitos da velocidade sobre a exactidão da resposta numa prova de reacção de escolha e analisados de Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 25 acordo com sexo e preferência manual. Apesar de sugerirem que os sinistrómanos (sinistrómanas em particular) apresentam tempo de reacção de escolha , assim como erros de resposta, inferiores aos destrímanos, apontam para que esta melhor performance se deve a uma organização hemisférica mais bilateral do processamento perceptivo. 2.8. Performance, Futebol e preferência lateral É frequente afirmar-se a existência de uma proporção fora do comum de sinistrómanos entre os atletas de elite de ambos os sexos, relativamente aos não atletas (Porac & Coren,1981; McLean & Ciurzak,1982; Annett, 1985; Bisiacchi, et al., 1985; Wood & Aggleton, 1989). Isto deve-se às qualidades inatas dos atletas sinistrómanos e ao facto destes isolarem as variáveis que poderão indiciar o nível específico de performance a atingir (Vasconcelos, 1991). O estudo de Gouios et al. (2000) mostra-nos que existe um número significativo de indivíduos sinistrómanos nos atletas de competição, mas apenas se aplica aos desportos interactivos e de confronto, como por exemplo: Basquetebol, Futebol, Andebol, Judo, Ténis de mesa, Ténis, Voleibol. Não se verificando nos desportos não interactivos ou que não exijam confronto, ou seja, no Ciclismo, Ginástica, Atletismo, Natação. Existem muitas razões que nos levam a pensar que não é apenas uma questão dos sinistrómanos terem vantagem no sistema motor central para as tarefas motoras (Bisiacchi et. al, 1985). Assim sendo, os estudos de Annett (1985) e de McLean e Ciurzack (1982) revelam que o aspecto mais significativo para um maior número de sinistrómanos é o efeito surpresa que eles provocam, já que os destrímanos não se encontram preparados para enfrentar adversários com essas características , o que lhes provoca dificuldades durante a competição. Contudo, segundo Annett (1985), Geschwind & Galaburda (1985) e Nass & Gazzaniga (1987) os sinistrómanos possuem uma vantagem intrínseca sobre os destrímanos devido a uma superioridade nas suas destrezas motoras espaciais. Então, a existência de um elevado número de atletas sinistrómanos de alto nível parece atribuir-se, em parte, ao reflexo dessa superioridade inata. Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 26 Geschwind & Galaburda (1985) sugerem, ainda, que os sinistrómanos possuem níveis superiores de performance nas actividades desportivas que envolvem o uso das duas mãos, devido a uma proporção superior de representação bilateral do control motor axial. Kilshaw & Annett (1983) referem que indivíduos não destrímanos apresentam elevados quocientes de ambidestria, o que resultará de um aumento de rendimento devido à representação bilateral. Ainda Annett (1985), sugeriu que a especialização da linguagem no hemisfério esquerdo, existente na maioria dos destrímanos, pode em alguns casos, ser a consequência de um “enfraquecimento” do hemisfério direito. O que poderia prejudicar uma série de componentes da performance, incluindo a capacidade de processamento visuo-espacial, o controlo fino de ambas as mãos e a capacidade de processamento visuoespacial, o controlo fino das mãos e a capacidade de reacção de ambos os lados do corpo. Bisiacchi e al. (1985) sugeriram, também, através de um estudo a esgrimistas, que a vantagem dos sinistrómanos deve estar ligada ao hemisfério direito, o qual se encontra envolvido nas actividades de atenção e não no aspecto “surpresa”. Wood & Aggleton (1989) concluíram que a superioridade dos sinistromanos neste tipo de actividades desportivas era devido à natureza do jogo e não às qualidades neurológicas inatas dos atletas, contudo, a ideia de que os sinistrómanos gozam de uma vantagem em alguns desportos (Wood & Aggleton 1989). Os sinistrómanos têm normalmente vantagem quando entram em combate, esta superioridade pode ser explicada por um conjunto de factores tácticos ou estratégicos associados à mão ou pé preferidos durante a luta ou interacções agressivas. Esta vantagem também pode estar associada às consequências estratégicas do jogo que ocorrem do lado esquerdo. Por exemplo, os defesas que utilizam o pé esquerdo encontram um oponente que dribla predominantemente com o seu pé direito (mais comum). Neste caso o defesa com preferência pedal esquerda tem vantagens sobre o defesa com preferência pedal direita, uma vez que, tem acesso privilegiado das redes visuoespaciais do hemisfério direito (Carey et al., 2001). Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 27 Segundo Rossi e Zani (1986), a performance desportiva baseia-se numa integração sensório-motora espacial e num rápido processamento da informação sensorial. Estes autores registaram diferenças no processamento hemisférico da informação espacial entre hemisfério direito e o hemisfério esquerdo. Também observaram uma vantagem da mão esquerda principalmente nas actividades de precisão. Vários autores (Starosta, 1988, 1990; Starosta & Bergier, 1993, Grouios et al., 2002; Oliveira et al., 2003) referem que a utilização de ambos os pés no futebol está associado a uma vantagem na performance dos jogadores, demonstrando que os ambidestros são mais eficientes não sendo este apenas um factor técnico como também táctico, inerente ao jogo de futebol. Carey et. Al. (2001) referem, também, que os jogadores que utilizam os dois pés tem uma maior habilidade que os que só utilizam o pé preferido, e que os jogadores amadores apresentam uma maior diferença de habilidade entre os dois pés. Hoff & Haaland (s/d), verificaram que o adestramento do pé não preferido melhora as habilidades específicas do futebol, assim como, aumenta a capacidade de atenção melhorando a organização cerebral e consequentemente o control e aprendizagem motora. Segundo Vasconcelos (1991), o papel do sistema nervoso e a participação dos hemisférios cerebrais na organização sensório-motora são factores fundamentais nas diferenças de performance evidenciadas entre as duas mãos, tornando estudos desta natureza difíceis e pouco claros. Estas investigações, relativas à preferência lateral e a performance sensório-motora, pretendem isolar as variáveis que poderão indiciar o nível específico de proficiência a atingir, podendo, deste modo, aumentar o rendimento dos atletas e da performance das várias modalidades desportivas. Peters (1988) concluiu que a preferencia do pé relacionada com a mão preferida pode ter duas interpretações. A primeira, diz-nos que destrímanos mostram uma clara preferência pelo pé direito. Segundo, que os sinistrómanos não demonstram uma clara preferência pelo pé esquerdo. Contudo, os sinistrómanos puros (com preferência lateral esquerda consistente – realizam tarefas com mão esquerda somente) mostram uma preferência mais forte pelo pé esquerdo do que os sinistrómanos não puros (com preferência lateral esquerda não consistenterealizam algumas tarefas com mão direita). Revisão da Literatura ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 28 Porac & Coren (1981) analisaram os resultados da proficiência dos jogadores de futebol relativamente ao pé esquerdo e pé direito preferidos e a sua relação com a preferência ipsilateral ou cruzada da mão e pé. A proficiência mostrou ser uma medida indirecta das habilidades dos jogadores, não sendo encontradas diferenças significativas quando comparamos a proficiência com os jogadores pé esquerdo e pé direito preferidos. Contudo, a média favorece os jogadores que jogam com pé esquerdo. Os jogadores que tem preferência cruzada, apresentam índices de proficiência mais elevados do que os que apresentam uma preferência ipsilateral (preferência pelos membros do mesmo lado). Ainda, Porac & Coren (1981) sustentaram que os jogadores com preferência pelo pé esquerdo apresentam mais vantagens, e que a preferência lateral cruzada entre a mão e o pé é uma vantagem porque os ajustamentos posturais são favorecidos pela imitação quando o pé preferido é oposto à mão preferida. METODOLOGIA Metodologia ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 30 3. METODOLOGIA 3.1. Objectivos: O presente trabalho tem como objectivos: - Comparar o nível de decisão táctico técnico (adequação da resposta à situação/problema colocado e respectivo tempo despendido) em diferentes escalões (escolas, iniciados e juvenis) e entre atletas federados de futebol; - Verificar se o nível de decisão táctico técnica (adequação da resposta à situação/problema colocado e respectivo tempo despendido) em situações ofensivas difere em atletas com diferentes preferências manuais e pedais. 3.2. Hipóteses: Hipótese 1: Existem diferenças estatisticamente significativas nos resultados obtidos no tempo de decisão entre o grupo de indivíduos de escalões diferentes; Hipótese 2: Existem diferenças estatisticamente significativas nos resultados obtidos na qualidade de decisão entre o grupo de indivíduos de escalões diferentes; Hipótese 3: Os jogadores com diferentes preferências laterais apresentam diferenças nos tempos de decisão e adequação da resposta; Hipótese 4: Os jogadores do escalão competitivo superior apresentam uma melhor adequação da resposta à situação/problema colocados; Metodologia ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 37 situação/problema). Era então nesta fase que no ecrã surgia um quadro com o tempo de decisão registado pelo sujeito (segundos, décimos e centésimos). Figura 1. Vídeo do protocolo de Mangas (1999) Figura 2. Quatro soluções possíveis 3.3.5.2.2. Tempo disponível para a tomada de decisão Os atletas não tinham um tempo limite para tomar a decisão. No entanto, tinha-lhes sido referido, durante a explicação do protocolo, que interessava não só escolher a resposta adequada, mas também que esta decisão/escolha ocorresse no tempo mais curto possível. 3.3.5.2.3. Intervalo entre cada situação O tempo de intervalo entre cada situação variava, pois logo que o atleta respondia a uma determinada situação, e após ser feito o registo da resposta escolhida e do tempo que tinha demorado a mesma, passava-se à imagem seguinte. 3.3.5.2.4. Registo da resposta Os atletas só tinham que premir a tecla “Enter” no preciso momento em que referiam a solução por eles preconizada, ou seja, se correspondia à fotografia 1,2,3 ou 4. A resposta e o tempo gasto na mesma eram transcritos para uma folha individual, previamente preparada para o efeito, e onde já constavam os dados do jogador (nome, idade, escalão, anos de prática e questionário de preferência lateral), como se pode ver no Anexo 1 . Metodologia ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 38 3.3.5.3. Classificação do protocolo O teste, composto por onze imagens, foi classificado de acordo com o número de respostas correctas e respostas erradas de cada praticante. De referir que o facto dos atletas não apresentarem elevado número de respostas correctas, não implicava que estivessem todas erradas, tal só se verificando se optassem por uma determinada solução, em cada imagem analisada (Mangas, 1999). 3.3.5.4. Instrumentos Para a aplicação deste protocolo foram utilizados os seguintes instrumentos: - Computador portátil; - Rato óptico; - Programas: Microsoft PowerPoint, Video For Windows e Visual Basic; - SPSS 10.0 3.3.5.5. Procedimentos estatísticos Os procedimentos estatísticos utilizados no presente estudo, para além da estatística descritiva, foram os seguintes: A Anova unidimensional foi usada para comparar diferenças de médias dos três grupos da amostra e entre os quatro grupos de preferência lateral. Para se proceder à análise das correlações entre as respostas certas e erradas da totalidade da amostra, recorreu-se ao Coeficiente de Correlação de Pearson. O nível de significância foi mantido em 5%. Foi utilizado o programa SPSS 10.0 para realizar os procedimentos estatísticos acima referidos. Metodologia ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 39 3.3.5.6. Limitações da análise estatística Quanto às limitações da análise estatística, deste estudo, há a referir que a amostra é de conveniência, com possibilidade de ocorrência de viés de selecção - o tamanho da amostra é reduzido e, também, não foram controladas alguns factores que poderão funcionar como variáveis de confundimento (estatuto posicional, tipo de treino efectuado pelos clubes e treinadores (se valorizam o adestramento dos dois lados do corpo), intensidade da preferência manual/pedal. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 41 4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Devido às contingências humanas do nosso estudo, a consistência de preferência lateral dos indivíduos estudados não é verificada na totalidade, uma vez que, não foi possível encontrar um conjunto considerável de atletas com as características pretendidas (principalmente no que concerne à preferência manual). Por esta razão os atletas foram agrupados consoante a preferência manual para a escrita e pedal para o pé a que predominantemente recorrem para chutar a bola. 4.1. Decisão táctico-técnica na fase ofensiva em relação com o escalão etário de Escolas, Iniciados e Juvenis Os resultados apresentados dizem respeito ao número de respostas correctas e ao número de respostas erradas, em função da peritagem efectuada no trabalho apresentado por Mangas (1999), assim como o tempo médio gasto na obtenção na totalidade dessas respostas, acrescentado por Correia (2000). O número máximo de respostas correctas ou erradas era de onze. 4.1.1 A Qualidade das Respostas O Quadro 5 apresenta a comparação das médias do número de respostas correctas e respostas erradas nos três escalões que constituem a amostra. Quadro 5. Comparação da média e respectivos desvios padrão de respostas correctas e erradas nos três grupos da amostra. Escolas Iniciados Juvenis Respostas Correctas 4,56 ± 1,48 6,21 ± 1,68 6,59 ± 1,48 Respostas Erradas 1,72 ± 1,20 0,76 ± 0,82 0,69 ± 0,86 Como pode verificar-se, numa análise comparativa da pontuação final dos três escalões, o valor médio das respostas correctas vai aumentando à medida que avançamos nos escalões de formação e o valor médio de Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 42 respostas erradas vai diminuindo. Sendo o escalão de Escolas aquele que obtém valor médio inferior de respostas correctas (4,56±1,48) e também o que obteve um valor médio superior de respostas erradas (1,72±1,20). Contrariamente, o escalão de Juvenis foi o que obteve um valor médio superior para as respostas certas (6,59±1,48), e um valor médio inferior de respostas erradas (0,69±0,86). Quadro 6. Diferenças entre as médias de respostas correctas entre os três escalões: escolas, iniciados e juvenis. Escolas Iniciados Juvenis Escolas - 1,65* -2,03* Iniciados 1,65* -0,38 Juvenis 2,03* -0,38 *diferenças estatisticamente significativas para p≤0,05 Quadro 7. Diferenças entre as médias de respostas erradas entre os três escalões: escolas, iniciados e juvenis. Escolas Iniciados Juvenis Escolas 0,96* 1,03* Iniciados -0,96* 7,57E02 Juvenis -1,03* -7,57E02 *diferenças estatisticamente significativas para p≤0,05 Contudo, importa referir que estas variáveis registam diferenças estatisticamente significativas entre os sujeitos de Escolas e Iniciados e, Escolas e Juvenis (p < 0,05), como se pode verificar nos Quadros 6 e 7 para as respostas correctas e erradas. Escalão JUVENISINICIADOSESCOLAS Média Respostas CERTAS 7,0 6,5 6,0 5,5 5,0 4,5 4,0 Figura 3. Análise comparativa das respostas correctas dos atletas dos diferentes escalões Estes resultados estão de acordo com um estudo de Mahlo (1985) que nos diz existirem diferenças nas tomadas de decisão entre os jogadores Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 43 experientes e os menos experientes sendo, o raciocínio táctico – técnico dos jogadores mais experientes, também, mais elaborado. Outros estudos (Brito, 1995, Machado, 1996 e Correia, 2000) demonstraram que o número de respostas correctas aumenta à medida que o escalão é superior. Escalão JUVENISINICIADOSESCOLAS Média Respostas ERRADAS 1,8 1,6 1,4 1,2 1,0 ,8 ,6 ,4 Figura 4. Análise comparativa das respostas erradas dos atletas dos diferentes escalões Verifica-se que o valor médio de respostas erradas, à medida que se avança no escalão de formação, vai decrescendo. Existem diferenças estatisticamente significativas relativamente ao escalão de escolas quando comparado com os iniciados e juvenis, à semelhança dos resultados obtidos para as respostas certas. Então, o número médio de respostas erradas têm tendência a ser inferior à medida que aumenta a idade e o nível competitivo. Pode, então, dizer-se que um maior número de anos de prática se associa a um valor médio de respostas correctas superior. Pois, como se verifica, o escalão de iniciados não apresenta diferenças estatisticamente significativas relativamente ao escalão de juvenis, uma vez que, a diferença entre os anos de prática não é tão díspar como é, entre o escalão de escolas e iniciados, e escolas e juvenis onde são verificadas diferenças estatisticamente significativas ( p ≤ 0,05). De igual modo, um maior número de anos de prática, associa-se a um decréscimo do valor médio de respostas erradas. Os resultados obtidos vão ao encontro de outros já realizados (Helsen & Pauwels, 1987, 1993; Ripoll, 1987; Konzag, 1990; Tavares, 1993;Tenenbaum et al., 1993; Mendes, 1999 todos citados por Mangas, 1999; Correia, 2000) que mostram que a qualidade de decisão está correlacionada com a experiência e Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 44 anos de prática. O estudo de Mangas (1999) e de Correia (2000), realizados com atletas federados de Futebol de diferentes escalões, com aplicação do mesmo protocolo, sugerem resultados idênticos ao presente estudo, corroborando que a um maior número de anos de prática federada se associa a um valor médio de respostas correctas superior e, de igual modo, um decréscimo do valor médio de respostas erradas. Ainda outros estudos (French & Thomas, 1987; Thomas & Thomas, 1994; Pinto, 1995; Rodrigues, 1998; Mangas, 1999; Correia, 2000; Costa et al.,2002) sustentam a existência de um maior conhecimento específico da modalidade por parte dos atletas mais experientes, o que faz com que estes reconheçam mais facilmente os problemas e identifiquem melhor as soluções. Estes estudos confirmam os resultados do presente estudo, constatando-se que os jogadores experientes são mais eficazes no processamento de informação e, deste modo, nas prestações desportivas, como refere Tavares (1993). Assim sendo, os jogadores com mais tempo de prática parecem ter estruturas cognitivas superiores, utilizando os recursos cognitivos mais eficazmente devido a uma estruturação progressiva oferecida pela prática (experiência). 4.1.2. O Tempo de Decisão O Quadro 8 apresenta a comparação do tempo médio de decisão dos três grupos que constituem a amostra. Quadro 8. Comparação do tempo médio de decisão nos três grupos da amostra. Escolas Iniciados Juvenis Tempo médio decisão 72,52 ± 27,52 43,58 ± 19,99 36,80 ± 11,05 O Quadro 8 mostra-nos que o tempo médio de decisão decresce à medida que se avança nos escalões de formação. Verificam-se diferenças estatisticamente significativas entre o escalão de escolas e iniciados e entre escolas e juvenis, como se pode verificar no Quadro 9. Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 45 Quadro 9. Diferenças entre as médias de tempo entre os três escalões: escolas, iniciados e juvenis. Escolas Iniciados Juvenis Escolas 28,7966* 35,5744* Iniciados -28,7966* 6,7778 Juvenis -35,5744* -6,7778 *diferenças estatisticamente significativas para p≤0,05 Posto isto, constata-se que estes resultados corroboram os de outros estudos (Ripoll, 1987; Carriere, 1978; Bard & Fleury, 1978; Alard & Starkes, 1980; Starkes & Alard, 1983; Helsen et al., 1986,1988 e 1989; Konzag, 1990; Tavares & Graça, 1992; todos citados por Tavares, 1993; Mahlo, 1980; Ripoll, 1987; Tavares, 1993; Brito, 1995; Machado, 1996; Correia, 2000) que referem que os tempos de decisão são mais reduzidos nos atletas experientes do que nos menos experientes. No estudo de Brito (1995), com jogadores jovens de Futebol federados e não federados, os jogadores de escalão superior, gastam menos tempo na tomada de decisão. Os mesmos resultados se conferem, com estudos com jovens de Futebol federado, nos estudos de Mangas (1999) e Correia (2000) nos quais os atletas de escalão superior levam menos tempo a decidir. Os resultados obtidos, sugerem que a adequação da resposta e o tempo de decisão estão determinados pelo nível de conhecimento específico (conhecimento declarativo e conhecimento processual) que se impõe pelos anos de prática (experiência) e pelo nível competitivo superior, fazendo com que jogadores mais experientes e de nível competitivo superior decidam melhor e mais rápido. 4.2. Decisão táctico-técnica na fase ofensiva em função da preferência lateral Os sujeitos que compõem a amostra foram agrupados consoante a sua preferência lateral: Preferência manual direita e pedal direita (DD), Preferência manual direita e pedal esquerda (DE), Preferência manual esquerda e pedal esquerda (EE) e Preferência manual esquerda e pedal direita (ED). Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 46 Os resultados do protocolo são apresentados em função do número de respostas correctas e erradas (como resultado da hierarquização obtida através da peritagem), bem como o tempo médio gasto na obtenção dessas respostas. O número máximo de respostas correctas ou erradas era de onze. Estes resultados reportam-se aos valores obtidos para diferentes preferências laterais na totalidade da amostra. 4.2.1 A Qualidade das Respostas No Quadro 10 pode observar-se os valores médios e respectivos desvios-padrão do número de respostas correctas, em função da preferência lateral para a totalidade da amostra. Quadro 10. Comparação da média final e respectivos desvios-padrão e respostas correctas em função da preferência lateral na totalidade da amostra Legenda: DD – Preferência manual direita e pedal direita; DE – Preferência manual direita e pedal esquerda; EE – Preferência manual esquerda e pedal esquerda; e ED –Preferência manual esquerda e pedal direita. Comparando os atletas da totalidade da amostra de acordo com a sua preferência lateral pode verificar-se que foram os indivíduos com preferência lateral Direita-Esquerda (DE) que obtiveram um valor médio superior de respostas correctas (5,91±1,76), seguindo-se, por esta ordem, indivíduos com preferência lateral Direita – Direita (DD), Esquerda – Direita (ED) e, por último Os indivíduos com preferência lateral Esquerda – Esquerda (EE). No entanto, não se verificam diferenças estatisticamente significativas entre as diferentes preferências laterais estudadas. Escalão Lateralidade N Média Desvio padrão DD 36 5,81 1,88 DE 33 5,91 1,76 EE 17 5,71 1,76 Respostas Correctas ED 16 5,75 1,69 Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 53 processamento de informação, sendo necessário aos jogadores menos tempo para decidir. Será pertinente referir que a investigação realizada até ao momento, escassa no que se refere à comparação dos atletas em função da preferência lateral e tomada de decisão, não nos permite comparar os nossos resultados com um hipotético padrão ou norma, podendo apenas retirar algumas suposições e ilações consoante estudos semelhantes na área do comportamento humano para a preferência lateral. Não foram encontrados estudos que comparassem a velocidade de processamento de informação com a preferência lateral nos jogadores de futebol que nos permitissem retirar ilações mais concretas. Será importante referir que os resultados relativos à comparação entre os grupos de preferência lateral não se mostram estatisticamente significativos. Isto poderá ser devido ao número reduzido da amostra, e à dificuldade em arranjar jogadores com preferência lateral cruzada, o que não permite definir a sua ambidestria no que concerne à sua organização cerebral. Estes resultados, não estatisticamente significativos, também podem estar relacionados com os estatutos posicionais ocupados pelos atletas, o que poderá sugerirr uma configuração hemisférica diferente da obtida através dos questionários sobre a lateralidade. Na falta de indivíduos com preferência pedal esquerda, os indivíduos destros que ocupam posições de terreno que solicitam mais vezes o pé esquerdo (lado esquerdo e centro terreno) poderão desenvolver capacidades superiores de habilidades motoras e metacognição influenciadas pelo uso dos dois hemisférios. Também a configuração de treino adoptada pelos treinadores poderá ter implicações, uma vez que alguns treinadores trabalham as duas partes do corpo (ambidestria) e outros trabalham mais a especificidade e optam só por trabalhar o pé preferido. Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 54 4.3. Correlação entre as variáveis: lateralidade, respostas certas, respostas erradas e tempo. Foi estudada a correlação total da amostra, através do coeficiente de correlação de Pearson, para que pudéssemos obter dados concretos acerca das influências de uma variável em relação aos dados verificados para as outras (Quadro 13). Quadro 13. Valores das correlações entre as diferentes variáveis na totalidade da amostra: lateralidade, respostas erradas, respostas certas e tempo. * Correlação estatisticamente significativa para p≤ 0.05 ** Correlação estatisticamente significativa para p≤ 0.01 Através da análise do Quadro 13, podemos verificar que existem correlações estatisticamente significativas entre os seguintes pares de variáveis: Tempo/Erradas (p=0,031) e Certas/Erradas (p=0,000). Não foram estatisticamente significativas as correlações existentes entre os pares de variáveis: Lateralidade/Tempo (p=0,590), Lateralidade/Certas (p=0,852), Lateralidade/Erradas (p=0,760) e Tempo/Certas (p=0,118). Estudos realizados por Pachella (1974), Fitts (1986), Pew (1969), Jensen (1985), Proteau e Girouard (1987) citados por Alves (1990), Sanders, (1980), Spijkers e Walter (1985) e Alves (1990) citados por Tavares & Vasconcelos (1992), indicaram que quanto mais rápido se responde à situações criadas no jogo, maior tendência para cometer erros, ou seja, quanto menor é o tempo de resposta, maior será a percentagem de erros. Esta conclusão verificou-se no nosso estudo pois, o tempo influenciou, significativamente a qualidade de respostas, no que concerne às respostas Lateralidade Tempo CERTAS ERRADAS R 1,000 ,054 -,019 -,031 Sig. , ,590 ,852 ,760 Lateralidade N 102 102 102 102 R ,054 1,000 -,156 ,214* Sig. ,590 , ,118 ,031 Tempo N 102 102 102 102 R -,019 -,156 1,000 -,629** Sig. ,852 ,118 , ,000 CERTAS N 102 102 102 102 R -,031 ,214* -,629** 1,000 Sig. ,760 ,031 ,000 , ERRADAS N 102 102 102 102 Apresentação e Discussão dos Resultados ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 55 erradas. O que significa que um menor tempo de decisão corresponde também a uma maior percentagem de erros. As duas variáveis demonstraram também, uma correlação negativa, corroborando o enunciado por Castelo (1994) e Tavares (1993), quando referem que a rapidez e adequação das respostas são duas qualidades que se interagem em sentidos inversos. Então, a tomada de decisão demasiado rápida (e precipitada) pode levar a uma qualidade de decisão inferior que poderá também ser devido à falta de experiência. Daqui se explica a importância da prática de Futebol num contexto especifico, onde a velocidade de tomada de decisão esteja implícita e seja invocada, melhorando assim, a velocidade de processamento de informação e, consequentemente, a performance através de uma experiência contextualizada que vá ao encontro das características da natureza do Futebol. A correlação negativa existente entre as respostas certas e erradas significa que os sujeitos que mais vezes indicam a resposta correcta, também são os que menos vezes optam pela errada. Estudos de Mangas (1999) e de Correia (2000) registaram resultados semelhantes a estes. Isto leva a crer que os jogadores que mais respostas correctas dão são aqueles que possuem mais conhecimento específico, uma vez que, estes também erram menos. CONCLUSÕES Conclusões ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 56 5. CONCLUSÕES O presente trabalho tinha como objectivos: - Comparar o nível de decisão táctico-técnico (adequação da resposta à situação/problema colocado e tempo gasto) em diferentes escalões (escolas, iniciados e juvenis) e entre atletas federados de futebol; - Verificar se o nível de decisão táctico técnica (adequação da resposta decisão à situação/problema colocado e tempo gasto) em situações ofensivas difere em atletas com diferentes preferências manuais e pedais. Apesar da reduzida dimensão da amostra e da limitação da análise estatística, os resultados obtidos demonstram alguma similaridade com estudos efectuados por outros autores. Pode, então, sintetizar-se as seguintes conclusões: - A qualidade de decisão táctico – técnica tende a ser superior à medida que os jogadores vão possuindo mais anos de prática federada na modalidade (escalão superior), o que significa que estes vão decidindo cada vez melhor e errando cada vez menos; - O tempo de decisão táctico – técnica tende a ser inferior à medida que os jogadores vão possuindo um maior número de anos de prática federada na modalidade (escalão superior), o que significa que estes vão decidindo cada vez mais rápido face às situações de jogo; - Através de uma análise comparativa em função da preferência lateral, os resultados demonstraram que os atletas com preferência manual direita e preferência pedal esquerda (cruzada DE) decidem mais correctamente (valor médio de respostas correctas mais elevado) e erram menos vezes (valor médio de respostas erradas inferior). Contrariamente, os atletas com preferência manual esquerda e preferência pedal esquerda (ipsilateral EE) decidem menos bem (valor médio de respostas correctas inferior) e erram mais vezes (valor médio de respostas erradas superior); Conclusões ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 57 - Relativamente ao tempo de decisão em função da preferência lateral, verificou-se que os atletas com preferência manual direita e pedal esquerda (cruzada DE) são os que decidem mais rápido e que os atletas com preferência manual esquerda e pedal esquerda (ipsilateral EE) levaram mais tempo para decidir. Os atletas com preferência pedal e manual direita foram os segundos mais rápidos a decidir, seguindo-se os atletas com preferência manual esquerda e pedal direita. Relativamente às correlações entre as variáveis, pode-se observar que para a variável lateralidade não se obteve valores significativos relativamente ao tempo e qualidade de respostas (certas e erradas) dadas pelos atletas. A variável tempo parece ter sido responsável pela qualidade das respostas, pois o facto dos atletas responderem mais rapidamente implica um aumento das respostas erradas. Verificou-se, também, uma correlação negativa moderada entre as respostas certas e erradas, significando isto que os atletas que mais vezes escolhem a resposta certa, optam menos vezes pela errada. Recorrendo às hipóteses formuladas, pode concluir-se o seguinte: Hipótese 1: Existem diferenças estatisticamente significativas nos resultados obtidos no tempo de decisão entre o grupo de indivíduos de escalões diferentes Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nos resultados obtidos no tempo de decisão entre os escalões de Escolas/Iniciados, Escolas/Juvenis, existindo uma tendência para diminuir o tempo de decisão à medida que aumenta o tempo de prática (escalão superior). Não se verificam diferenças estatisticamente significativas entre o grupo Iniciados/Juvenis, pensamos que, pelo tempo de prática idêntico evidenciado entre estes dois escalões, pelo que a hipótese não foi totalmente confirmada. Conclusões ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 58 Hipótese 2: Existem diferenças estatisticamente significativas nos resultados obtidos na qualidade de decisão entre o grupo de indivíduos de escalões diferentes Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas nos resultados obtidos na qualidade de decisão entre os grupos Escolas/Iniciados, Escolas/Juvenis, existindo uma tendência para aumentar o número de respostas correctas à medida que aumenta o tempo de prática (escalão superior) e de diminuir o número de respostas erradas. Não se verificam diferenças estatisticamente significativas entre o grupo Iniciados/Juvenis, pensamos que, pelo tempo de prática idêntico evidenciado entre estes dois escalões, pelo que a hipótese não foi totalmente confirmada. Hipótese 3: Os jogadores com diferentes preferências laterais apresentam diferenças nos tempos de decisão e adequação da resposta Não se observaram diferenças estatisticamente significativas nos tempos de decisão e adequação da resposta, nos jogadores com diferentes preferências laterais, logo a hipótese foi infirmada. Hipótese 4: Os jogadores de escalão competitivo superior apresentam uma melhor adequação da resposta à situação/problema colocados Já se tinha averiguado que existe uma tendência para o número de respostas correctas aumentar com o tempo de prática (escalão superior) e para o número de respostas erradas diminuir. Verificou-se na nossa amostra uma melhor adequação de respostas (mais certas e menos erradas) em escalões superiores. Logo esta hipótese foi confirmada. Conclusões ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 59 Hipótese 5: Os jogadores de escalão competitivo superior apresentam um menor tempo de decisão. Verificou-se que os jogadores de escalão competitivo superior apresentam um menor tempo de decisão. A hipótese é confirmada. Hipótese 6: Os jogadores com preferência lateral (pé/mão) cruzada apresentam tempo de decisão menor do que os atletas com lateralidade ipsilateral Esta hipótese não se confirmou pois apesar dos jogadores mais rápidos a responder terem sido os DE (preferência cruzada), os resultados não são estatisticamente significativos. Hipótese 7: Os jogadores com preferência lateral (pé/mão) cruzada apresentam maior número de respostas certas relativamente aos atletas com lateralidade ipsilateral. Esta hipótese não se confirmou, uma vez que as diferenças evidenciadas não são estatisticamente significativas, apesar dos jogadores com mais respostas certas terem sido os DE (preferência cruzada). Hipótese 8: Os jogadores com preferência lateral (pé/mão) cruzada apresentam menor número de respostas erradas relativamente aos atletas com lateralidade ipsilateral. Esta hipótese não se confirmou porque, apesar de serem os jogadores com preferência lateral cruzada, DE e ED, a apresentar menos respostas Conclusões ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 60 erradas e os jogadores com preferência ipsilateral, EE e DD, a apresentar mais respostas erradas, as diferenças não são estatisticamente significativas. Aspectos relevantes a considerar no presente estudo: - Nenhum jogador escolheu a melhor solução para todas as situações/problemas; - Relativamente às respostas correctas, quatro atletas só acertaram duas delas (três Escolas – um DD e dois DEe um Iniciados – DD) e, dois atletas acertaram em dez respostas (um Iniciado – DD e um Juvenil – ED); - Relativamente às respostas erradas trinta e nove atletas não erraram em nenhuma resposta (seis Escolas, dezasseis Iniciados e dezassete Juvenis) e dois erraram quatro respostas (dois Escolasum DD e um EE); - O jogador que respondeu que levou menos tempo a responder a todas as situações foi um atleta iniciado com 16,86 seg. (com preferência lateral DD) e o que demorou mais tempo foi um atleta das Escolas com 154,75 seg.(com preferência lateral EE); Sugestões para futuros trabalhos Depois de concluído este estudo, parece pertinente sugerir novas propostas de trabalho: - Realizar mais estudos acerca da tomada de decisão e da preferência lateral, com aferição não só da preferência lateral, mas também da intensidade da mesma subdividindo e estudando os diversos grupos de preferência lateral direita, esquerda e ambidestra; - Estudar as diversas componentes da preferência lateral: mão, pé, olho e ouvido, subdividindo igualmente pela preferência lateral esquerda, direita e ambidestra para verificar se os resultados obtidos acerca da preferência lateral cruzada se verificam superiores aos ipsilaterais; Conclusões ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 61 - Comparar os estatutos posicionais dos jogadores com a sua preferência lateral, verificando se o estatuto posicional tem implicações na forma como o atleta estrutura a sua cognição e organização cerebral. - Realizar um estudo com uma amostra aleatória de maiores dimensões; - Estudar outras variáveis como o estatuto posicional, tipo de treino (se inclui o adestramento de ambos os lados do corpo), idade, características de formação do clube, importância que o jogador atribuí ao adestramento de ambos os lados do corpo. Referências Bibliográficas ___________________________________________________________________ Decisão Táctica e Preferência Lateral no Futebol 68  Pittera, C. & Riva, V. (1982): Palavollo – dentro il movimento. Triangle editore, Torino.  Porac, C. & coren, S. (1981): Lateral preference and human behavior. New York, SpringerVerlag.  Read, B. & Devis, J. (1992): ducación de los juegos deportivos: cambio de enfoque. Stadium. Nº 155. Outubro. Ano 26: 42-46.  Reiss, M., Tymnik,G., Kogler, P, Kogler, W. & Reiss, G. (1999): Laterality of hand, eye and ear in twins. Laterality, 4 (3): 287-297.  Riera , J . (1995) :Análisis de la Táctica Deportiva . Apunts . Educación Física y Deportes. 40: 47-60.  Rink, J. French, K.,& Tjeerdsma, B. (1996): Foundations for the learning and instructions of sports and games. Journal of Teaching in Physical Education, 15: 399-447.  Ripoll, H. (1987). 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Responde a cada uma das seguintes questões assinalando com uma cruz DIREITO se executas a tarefa com o lado direito, ESQUERDO se a executas com o lado esquerdo. Mão: Direita Esquerda 1Com que mão escreves? Pé: Direito Esquerdo 1Com que pé dás um chuto numa bola? Conhecimento específico Imagem nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Total Solução nº Tempo ANEXO 1 Soluções validadas hierarquicamente Mangas (1999) Imagens Melhor solução 2ª melhor 3ª melhor Pior solução 1 3 2 2 2 4 3 2 1 3 4 4 2 3 4 1 5 1 2 4 3 6 3 4 1 2 7 1 3 2 4 8 4 2 1 9 10 2 1 4 3 11 12 4 2 1 3 13 2 4 1 3 Concordância de 5 em 6 peritos, na hierarquização das diferentes soluções A sombreado as soluções não validadas. ANEXO 2 Imagens do Protocolo de Mangas (1999) aperfeiçoado por Correia (2000) Fig. 1 - Imagem do vídeo Fig.2 - Imagem das 4 soluções possíveis Fig. 3 - Imagem após a decisão do atleta com amostragem do tempo Correia (2000) ANEXO 3