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Notas sobre a Arte de grammatica, latina, portugueza, benedictina (Lisboa, 1636) de Frutuoso Pereira

Ponce de León Romeo, Rogelio

Abstract

Este trabalho analisa diversos aspetos da Arte de grammatica, latina,portugueza, benedictina (Lisboa, 1636) de Frutuoso Pereira; nomeadamente problemas que têm a ver com a tradição textual e com a autoria, bem como questões relacionadas com o enquadramento da referida obra no contexto pedagógico português da primeira metade do século XVII. Também é analisado o enquadramento da Arte de gramatica nas correntes de gramática vigentes na época; em concreto, na gramática racionalista e na gramática escolar.

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76 Notas sobre a Arte de grAmmAticA, lAtinA, portuguezA, benedictinA (Lisboa, 1636) de Frutuoso Pereira Rogelio Ponce de León Romeo Resumo: Este trabalho analisa diversos aspetos da Arte de grammatica, latina, portugueza, benedictina (Lisboa, 1636) de Frutuoso Pereira; nomeadamente problemas que têm a ver com a tradição textual e com a autoria, bem como questões relacionadas com o enquadramento da referida obra no contexto pedagógico português da primeira metade do século XVII. Também é analisado o enquadramento da Arte de gramatica nas correntes de gramática vigentes na época; em concreto, na gramática racionalista e na gramática escolar. Palavras‑chave: Frutuoso Pereira. Historiografia gramatical. Século XVII. Considerações iniCiais ■São bem conhecidas pelos especialistas na historiografia linguística do Português as profundas alterações que se sentiram, no Portugal da primeira metade do século XVII, na configuração teórica e pedagógica de certos textos metagramaticais. No plano da teoria gramatical, pode afirmar-se que as Artes mais inovadores acolheram um conjunto de procedimentos de explicação dos factos linguísticos, integrados naquilo que se tem vindo a designar como gramática racionalista. No contexto português – tal como, de resto, noutras nações europeias –, os manuais gramaticais cuja teoria se configura em torno desta corrente seguem muito de perto a doutrina racionalista defendida pelo humanista espanhol Francisco Sánchez de las Brozas nas suas obras gramaticais que descrevem e versam sobre o Latim; especialmente, na sua Minerua seu de causis de linguae latinae (Salamanca, 1587). Com efeito, na gramaticografia do Português e na latino-portuguesa, casos bem conhecidos de manuais que se servem, em maior ou menor medida, da doutrina sanctiana para a descrição gramatical são a Arte de grammatica pera em breve saber latim (Lisboa, * Doutor em Filologia pela Universidade Complutense de Madrid (Espanha). Professor auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal). Investigador do Centro de Linguística da mesma instituição. E‑mail: [email protected] 77 TODAS AS LETRAS W, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 76-89, maio 2014 http://dx.doi.org/10.15529/1980-6914/letras.v16n1p76-89 NOTAS SOBRE A ARTE DE GRAMMATICA, LATINA, PORTUGUEZA, BENEDICTINA (LISBOA, 1636) DE FRUTUOSO PEREIRA DOSSIÊ 1610) de Pedro Sanches (FERNANDES, 2002b; PONCE DE LEÓN, 2002, p. 499- -507; PONCE DE LEÓN; ASSUNÇÃO; FERNANDES, 2008) e as obras gramaticais de Amaro de Roboredo: a Verdadeira grammatica latina pera se bem saber em breve tempo (Lisboa, 1615), o Methodo grammatical para todas as línguas (Lisboa, 1619) e a Grammatica latina. Mais breve, e facil que as publicadas até agora na qual precedem os exemplos aas regras (Lisboa, 1625) (SCHÄFER- -PRIESS, 1990; KOSSARIK, 1997; FERNANDES, 2002a; PONCE DE LEÓN, 2002, p. 508-520; FERNANDES; ASSUNÇÃO, 2007; PONCE DE LEÓN, 2009). Por outro lado, num plano mais estritamente didático – mas com claras repercussões na descrição gramatical –, os autores acima referidos – e outros coevos –, acolhendo os avanços desenvolvidos, nessa área, na Europa (PONCE DE LEÓN, 1996, p. 218; FERNANDES, 2002b, p. 61-73), sentiram a necessidade de subverter os princípios pedagógicos que subjaziam, até então, às artes gramaticais latinas, aproximando dos estudantes o objeto de aprendizagem, por forma a melhorar as condições de ensino-aprendizagem nas aulas da língua do Lácio. No contexto didático-gramatical português, Amaro de Roboredo, como é bem conhecido, parece ter sido o primeiro autor a adaptar de forma sistemática as suas obras de acordo com estes princípios pedagógicos, habitualmente denominados sensualistas ou experimentalistas. Esta abordagem metodológica pode ser resumida na seguinte afirmação registada no prólogo ao Methodo grammatical para todas as linguas: E das artes que nos retardão o uso devemos fugir com diligencia […]. E como a mesma diligencia deve o Artifice, considerando o fim, & os meios para chegar a esse fim, spicular a capacidade do que ha de usar desses meios, accomodandose aa natureza das suas potencias […]. E como he notoria a grande dependencia, que o discurso humano t˜e dos sentidos corporaes, procede dereito dos effeitos para as causas, dos exemplos para aas regras (ROBOREDO, 2007 [1619], p. 19). Ou, ainda no prólogo, mais adiante: Fica logo clara a obrigação do Artifice quero dizer minha neste Methodo de me accommodar aa rudeza pueril, screvendo na lingua Materna do principiante, levandoo per exemplos claros, & ainda corporaes della para a Latina […]. E fica clara a obrigação de dispor a materia ainda da lingua Materna segundo a natureza do discurso humano dep˜ed˜ete dos s˜etidos […]; ajuntando muitos exemplos em o livro, & em voz, que o aprendiz veja, ouça, apalpe (ROBOREDO, 2007 [1619], p. 20). Dos passos reproduzidos podem ser deduzidos dois critérios caraterizadores desta proposta didática: 1. a preeminência da aprendizagem indutiva da língua objeto de estudo através das capacidades sensoriais – previsivelmente, por meio da compreensão auditiva e leitora – sobre o estudo dedutivo dos preceitos gramaticais, o que implica, por outro lado, que o aluno comece a interiorizar a estrutura gramatical através de amostras de língua que Roboredo, no fim do último passo apresentado, refere como sendo “exemplos em o livro, & em voz, que o aprendiz veja, ouça, apalpe”; 2. o uso obrigatório da língua materna do estudante como veículo para a aprendizagem da língua latina (FERNANDES, 2002b, p. 467 -485). Neste contexto gramaticográfico, cabe situar outros autores que publicaram os seus manuais na primeira metade do século XVII, como é o caso da Arte de grammatica latina, nouamente ordenada em portuguez, pera menos trabalho 78 TODAS AS LETRAS W, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 76-89, maio 2014 http://dx.doi.org/10.15529/1980-6914/letras.v16n1p76-89 ROgELIO PONCE DE LEÓN ROmEO DOSSIÊ dos que começão a aprender (Lisboa, 1636) do frade beneditino Frutuoso Pereira († 1660)1, obra que teve duas outras edições (Lisboa, 1643 e 1652); na terceira, é apresentado um título diferente: Arte de grammatica, latina, portugueza, benedictina – pormenor este que poderá considerar-se um indício das alterações textuais registadas ao longo das edições da Arte. Sobre aspetos da teoria gramatical e da metodologia desta obra, bem como sobre questões que se prendem com a autoria, versa o presente trabalho. em torno da autoria da Arte de grAmmAticA, lAtinA, portuguezA, benedictinA Antes de passar a analisar someramente os traços teóricos e pedagógicos principais da gramática de Frutuoso Pereira, parece-nos pertinente abordar de forma sucinta – embora, na verdade, se nos afigure bastante complexa – a questão da tradição textual desta obra. Um problema inicial – e de relevo – prende-se com a autoria, questão à qual se referem os bibliógrafos portugueses mais importantes. Por exemplo, Inocêncio da Silva (1883, t. X, p. 213) atribui a autoria da obra em estudo a João de Castelo Branco, bem como Diogo Barbosa machado, o qual nos informa de que Castelo Branco publicou uma Arte de grammatica latina em Lisboa em 1636: D. Ioão de Castellobranco natural de Lisboa onde foraõ seus illustres progenitores D. Duarte de Castellobranco primeiro Conde do Sabugal, e D. Catherina de Menezes filha de D. Bernardo Coutinho. Foy excellente Latino, e muito perito nos preceitos do idioma Romano. Ornado de summa prudência, e naõ menor vigilância exercitou o lugar de Prezidente do Senado de Lisboa em que o elegeo o Serenissimo Rey D. Ioão o IV. no anno de 1644. A sua caza era o refugio dos pobres, aos quais curava com ardente charidade ministrandolhe os medicamentos manipulados por suas próprias maõs. Falleceo em Lisboa com geral sentimento dos necessitados […]. Compoz Arte de grammatica latina. Lisboa 1636. 4 (MACHADO, 1966 [1747], t. II, p. 626)2. Frutuoso Pereira, por seu turno, terá apenas desempenhado o papel de editor nas duas primeiras edições da Arte; na terceira, Pereira teria passado a ser o autor, segundo se pode deduzir das palavras de Inocêncio da Silva: A 1.ª edição d’esta grammatica é de 1636; a 2.ª de 1643; e a seguinte de 1652, que se diz 3.o, é terceira certamente, contando sobre aquellas duas; mas parece que deve ser a primeira com respeito a fr. Fructuoso, que nas outras tinha sido 1 Uma notícia biobibliográfica do autor aparece na Bibliotheca Lusitana de Diogo Barbosa Machado: “Fr. Fructuoso Pereyra natural da Villa da Feira sinco leguas distante da Cidade do Porto, Cabeça de Condado, e descendente dos Condes deste Titulo, o qual querendo ser mais illustre por beneficio da Graça do que nacera por liberalidade da natureza recebeu a Cogulla Benedictina em o Convento da Cidade do Porto a 5 de Mayo de 1620. Foy muito douto nos preceitos da Gramatica Latina, Poesia heróica, e intelligencia das línguas Italiana Franceza, e Espanhola […]. Falleceo no Mosteiro de S. Martinho do Couto a 20. de Ianeiro de 1660. Compoz. / Arte de Gramatica Latina novamente ordenada em Portuguez para menos trabalho dos que começaõ a aprender. Lisboa por Lourenço Craesbeeck 1636. 4. Sahio segunda vez com este titulo. / Arte de Gramatica Latina ordenada em Portuguez para mayor facilidade deste estudo. Lisboa por Lourenço de Anveres. 1643. 8. Et ibi por Domingos Lopes Rosa. 1652. 8 […]. / Faz memoria honorifica do Author Fr. Gregorio de Argaes Perla de Catalun. pag. 464. §. 156. Compuso el Arte de Gramatica que anda de baxo de su nombre com tan fácil disposicion para los principiantes, que hiziera escurecer todas las de mas artes desta materia si nó hubiera la oposición de la embidia, y del interés” (MACHADO, 1966 [1747], t. II, p. 305). 2 O fragmento reproduzido da Bibliotheca Lusitana parece ter sido a fonte de que Inocêncio da Silva se serviu para a notícia biobibliográfica correspondente: “filho do 1.o Conde do Sabugal D. Duarte de Castello‑branco, e Presidente do Senado da Camara de Lisboa, nomeado por el‑rei D. João IV em 1644. – Foi natural de Lisboa, não constando comtudo a data do seu nascimento, nem tão pouco a do obito. – E. / 618) Arte de Grammatica Latina. Lisboa, 1636. 4.o” (SILVA, 1859, t. III, p. 344). 79 TODAS AS LETRAS W, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 76-89, maio 2014 http://dx.doi.org/10.15529/1980-6914/letras.v16n1p76-89 NOTAS SOBRE A ARTE DE GRAMMATICA, LATINA, PORTUGUEZA, BENEDICTINA (LISBOA, 1636) DE FRUTUOSO PEREIRA DOSSIÊ mero editor, e n’esta foi auctor, porque refundiu a antecedente (SILVA, 1883, t. X, p. 213). No que toca à autoria da Arte de grammatica, latina, portugueza, benedictina, depois de ter analisado e confrontado as três edições, parece-nos que Frutuoso Pereira não foi apenas editor da obra – no caso das duas primeiras edições –, mas autor, ou pelo menos não dispomos de dados consistentes para pensar que o autor da Arte em análise fosse João de Castelo Branco, pese embora a informação anteriormente referida por Barbosa machado, quem, na notícia biobibliográfica correspondente a Pereira – parcialmente reproduzida na nota 1 do presente estudo –, afirma que o frade beneditino compôs uma Arte de grammatica latina, publicada, casualmente, no mesmo ano e local e até com o mesmo formato que aquela que é atribuída a João de Castelo Branco. Por outro lado, resulta esclarecedora – se bem que não determinante – a licença, datada de 12 de outubro de 1635, que aparece na primeira edição, na qual tão-só é mencionado o nome do frade beneditino. Seja como for, mesmo que atribuíssemos a João de Castelo Branco a autoria da obra, não podemos concordar com a afirmação de Inocêncio da Silva – apresentada no fim do fragmento anteriormente reproduzido –, segundo a qual Frutuoso Pereira, na terceira edição da gramática, poderia ser já considerado autor, porquanto “refundiu a antecedente”. Na verdade, as alterações textuais ocorrem, segundo tivemos ocasião de comprovar, entre a primeira edição e as seguintes, e não entre a última e as duas anteriores, como Inocêncio da Silva sugere. Contudo, não obstante as profundas alterações estruturais e textuais detetadas do cotejo das três edições – muito especialmente, como acima referimos, entre a primeira edição e as duas restantes –, estamos perante uma obra, textual e conceitualmente, unitária. PrinCíPios gramatiCais e metodológiCos Partindo, por conseguinte, da consideração de que as três edições reproduzem, apesar das diferenças textuais, uma obra, cabe agora situar a Arte de grammatica, latina, portugueza, benedictina nas diversas tendências gramaticais e pedagógicas da altura, às quais se fez referência no início do presente estudo; ou, por outras palavras, cabe dilucidar em que medida se pode enquadrar Frutuoso Pereira nas propostas epistemológicas mais inovadoras na gramaticografia seiscentista, como é o caso do racionalismo e do sensualismo ou empirismo. No que se refere à incidência do empirismo, há já alguns anos sublinhamos (PONCE DE LEÓN, 1996, p. 224-226) o facto de haver, no manual de Pereira, uma profunda preocupação pela maneira como se aprendia a língua latina nas escolas portuguesas durante as primeiras décadas do século XVII. A este propósito, o frade beneditino tem clara consciência de que os critérios didáticos praticados nas aulas de Latim da época não eram os adequados, o que se mostra mais evidentemente logo no início do prólogo à terceira edição da gramática: He a experi˜ecia assist˜ete antes cõpanheira da arte, os avisos daquella, saõ a firmeza dos documentos desta. O uso he h˜ua nova Arte que pode constituir a Arte natureza. Daqui nace, ˜q se com o tempo as Arte[s] se apuraõ, he porque o tempo se servio de experiencias no uso dellas. Muitos séculos há que se usa a Gramatica Latina, mas não foi com todo o uso das experiencias, ˜q cada dia o tempo prodúz, ou se serve. Naõ basta que tal artífice obrasse de tal sorte, pera ˜q cõ 80 TODAS AS LETRAS W, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 76-89, maio 2014 http://dx.doi.org/10.15529/1980-6914/letras.v16n1p76-89 ROgELIO PONCE DE LEÓN ROmEO DOSSIÊ melhoras se naõ possa tirar novo modo de obrar do que se experimenta. O empyrico talves antes muitas vezes, obra com mais felicidade, ˜q o Methodico, & ˜q o Racional, por˜q se valeo mães do uso ˜q do preceito, mães da experiencia que da ciência, & a empyrica naõ pode carecer de occultos preceitos, ˜q se os ignora o artifice pode constitu[i]llos no uso, porque nelle os observa. Varios saõ os mestres antigos & varios os modernos ˜q escreveraõ Gramàticas latinas, todos attenderão a todas as regras por˜q nem todos respeitão a todo uso. Não basta sò escrever bem, mas escrever tamb˜e útil; & a utilidade não respeita tanto ao preceito, como ao effeito. Estes são os que tocamos, os que admiramos. & pella mayor parte nos não dà cuidado o inteiro conhecimento da causa: & estas sempre ficão obscuras, senão chegão a produzir, em proporção h˜u effeito de todo correlativo (PEREIRA, 1652, p. 6‑7). No passo reproduzido, o autor advoga de forma recorrente, no processo do ensino-aprendizagem da língua latina – mas também, acrescentamos nós, no de outras línguas –, a preeminência da experiência – entendida esta como observação dos factos e que se pode indentificar também com o uso –, sobre a arte, ou conjunto de preceitos. Deste modo, o gramático – que Pereira, como outros gramáticos coevos, denomina de artífice –, ao adotar esta abordagem metodólogica, terá mais sucesso, no plano didático, que o normativista (methodico) ou o logicista (racional). Desta forma, Frutuoso Pereira parece distanciar-se tanto da gramática normativa, como da gramática racionalista. A adoção da abordagem experimentalista na Arte de grammatica, latina, portugueza, benedictina de Pereira deveria ter mais repercussões daquelas que, na verdade, são detetadas, se comparada com a Arte gramatical portuguesa, a nosso ver, mais representativa da corrente experimentalista; refiro-me à Grammatica latina de Amaro de Roboredo. Estas divergências, por exemplo, podem ser analisadas na exposição da matéria gramatical sobre o nome e o verbo, tal como aparece no seguinte Quadro 1. Quadro 1 – O nome e o verbo em Roboredo (1625) e em Pereira (1636) Roboredo, 1625 Pereira, 1636 Fica mostrado que o No‑ me he palabra, que tem numeros, e Casos com genero: e que se divide em Substantivo, e Adjec‑ tivo (p. 29). Tem o Substantivo esta propriedade, que pode per si entrar na Oraçaõ sem Adjectivo; e o Adjec‑ tivo tem a contraria, que naõ pode entrar na Ora‑ çaõ sem ir junto ao Subs‑ tantivo declarado, ou en‑ t˜edido de fora (p. 30). O nome, he h˜ua parte da oração que se declina por casos, & naõ tem tempos. O nome se diuide em Substantiuo, & Adiectiuo. O Substan‑ tiuo, he mais nobre que o Adiectiuo, porque significa per si a cousa de que se trata na oração. O Adiectiuo serue ao substantiuo, & não pode estar na ora‑ ção sem elle […] (f. 1). (continua) 81 TODAS AS LETRAS W, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 76-89, maio 2014 http://dx.doi.org/10.15529/1980-6914/letras.v16n1p76-89 NOTAS SOBRE A ARTE DE GRAMMATICA, LATINA, PORTUGUEZA, BENEDICTINA (LISBOA, 1636) DE FRUTUOSO PEREIRA DOSSIÊ Roboredo, 1625 Pereira, 1636 Fica mostrado nas Con‑ jugações, que o Verbo he h˜ua palabra que tem Nu‑ meros, e Pessoas com Tempo. E que ou he Acti‑ vo; como. Amo, Amas; ou Passivo; como Amor, Amaris; e que cada hum destes ou he Pessoal; co‑ mo Amat, Amatur, ou he Impessoal; como Amare, Amavisse, Amari; Amã‑ do, Amat˜u, nos quaes se encerrão os Tempos, Nu‑ meros, e Pessoas (p. 67) A declinaçaõ do verbo se chama coniugaçaõ. E assi, overbo he h˜ua parte da oraçaõ, que se declina, ou se coniuga por modos, & tem tempos Os modos porque o verbo se coniuga saõ quatro, Indicatiuo, Imperatiuo, Coniuntiuo, Infinitiuo. Os tempos saõ seis. Tempo presente. Tempo passado im‑ perfeito. Tempo passado perfeito. Tempo passado mais que perfeito. Tempo que està para vir imperfeito. Tempo que es‑ tà para vir mais que perfeito. Diuidese o verbo, em pessoal, & impessoal. O pessoal he aquelle que tem todas as três pessoas, as quais saõ Ego,eu, tu, tu, vos, ille, aquelle. O verbo impessoal he aquelle que naõ tem mais que a terceira pessoa do singular, & lhe faltaõ as primeiras duas pessoas. O verbo pessoal diuidese em actiuo, passiuo, neutro, comm˜u, & depoente. O verbo actiuo he aquelle, que acaban‑ do na letra (o) se faz passiuo acrecentandolhe a letra (r) co‑ mo, lego, eu leo, legor, eu sou lido. O passiuo he aquelle que se forma do actiuo acredentando‑ lhe a letra (r) como lego, legor. O neutro he aquelle que acabando nas letras, m, ou, o, nun‑ ca se faz passiuo, pessoal, como, sum, eu sou, sedeo, eu estou assentado. O comm˜u he aquelle, que acabando na silla, or, tem signifi‑ cação actiua, & também passiua, em alg˜us tempos, como ao diante se verá. O depoente he o que acabando na sillaba, or, tem significa‑ çaõ actiua, ou neutra […] (f. 1/r). Fonte: Elaborado pelo autor. Com efeito, do confronto entre as duas obras pode concluir-se que, diferentemente da Grammatica de Roboredo, na Arte do frade beneditino não parece haver uma aplicação coerente dos princípios empíricos – à exceção do uso do Português como língua de redação da obra: na Grammatica roborediana, como o título da obra indica, os exemplos são apresentados antes dos preceitos, o que se pode deduzir, no Quadro 1, a partir das expressões como “fica mostrado” ou “mostra esta sentença” que iniciam os enunciados caraterizadores das partes da oração; Frutuoso Pereira, por sua vez, segue a sequência de exposição habitual na tradição gramatical latino-portuguesa, ao apresentar primeiro os preceitos e depois os exemplos. Não parecem, contudo, ser questões de método os únicos elementos que afastam a gramática de Frutuoso Pereira dos manuais roboredianos. No que diz respeito à teoria gramatical, encontramos nítidas divergências com a doutrina defendida por Roboredo3, com clara incidência na descrição das 3 Este critério parece‑nos, no entanto, ser coerente com as propostas defendidas no prólogo da edição da Arte de gramatica de Quadro 1 – O nome e o verbo em Roboredo (1625) e em Pereira (1636) (continuação) 82 TODAS AS LETRAS W, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 76-89, maio 2014 http://dx.doi.org/10.15529/1980-6914/letras.v16n1p76-89 ROgELIO PONCE DE LEÓN ROmEO DOSSIÊ classes de palavras. Como é bem sabido, na esteira da gramática racional de Francisco Sánchez de las Brozas4 (SCHÄFER-PRIESS, 1990, p. 65-66; SCHÄFER-PRIESS, 2000, p. 135; PONCE DE LEÓN, 2002, p. 510; PONCE DE LEÓN, 2008, p. 246-247), Amaro de Roboredo propõe uma redução do número das partes da oração para cinco (nome, verbo, advérbio, conjunção e preposição) – se bem que na Grammatica latina sejam apenas caraterizadas as quatro primeiras por razões provavelmente de índole pedagógica. Por sua vez, Pereira segue a gramática latina tradicional na caraterização das partes da oração indeclináveis: Quadro 2 – As partes da oração indeclináveis em Roboredo (1625) e em Pereira (1636) Roboredo, 1625 Pereira, 1636 Mostra [esta sentença] que o Adverbio he palavra sem Numero, que altera a outra a que se ajunta. E ajuntase principalmente a Verbos, e despois a Ad‑ jectivos; e também a outros Advérbios […]. Mostra [esta sentença] que alg˜uas vezes se usa o Adverbio em lugar de Nome (p. 86) O Aduerbio he parte da oraçaõ que se naõ declina & serue na oraçaõ, pera declarar a força, & modo da significaçaõ do verbo, & nome (f. 1r.). Mostrão estas sentençãs, que a Conjunçaõ he pa‑ lavra sem Numero que ajunta semelhantes casos, tempos, e orações declaradas, ou entendidas de fora per figura (p. 87). Mostrase que sempre nas Orações precederá al‑ g˜ua palavra a estas Conjunções [...]. Mostra como sempre estas Conjunções se antepo‑ rão a outra palabra que atão com a primeira [...]. E notese que os Adverbios que ataõ se fazem Con‑ junções (p. 133). A coniunçaõ he parte da oraçaõ que se naõ declina, & serue pera atar, ou diuidir as partes da oraçaõ (f. 1r.). ‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑ O Pronome, he h˜ua parte da ora‑ çaõ, que posta em lugar do nome substantiuo, signfica certa & de‑ terminada pessoa (f. 1). ‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑ O particípio he nome, que nace de qualquer verbo, declinase por ca‑ sos, & significa tempo, & assi h˜us seruem pera tempo presente & passado, outros pera tempo futuro (f. 1r.). (continua) 1652, que reproduzimos parcialmente acima e que parece oportuno aqui repetir: “O empyrico talves antes muitas vezes, obra com mais felicidade, ˜q o Methodico, & ˜q o Racional, por ˜q se valeo mães do uso ˜q do preceito, mães da experiencia que da ciên‑ cia, & a empyrica naõ pode carecer de occultos preceitos, ˜q se os ignora o artifice pode constitu[i]llos no uso, porque nelle os observa” (PEREIRA, 1652, p. 6). 4 Pese embora as reservas iniciais, Carlos Assunção e Gonçalo Fernandes admitem, quanto ao número das partes da oração, que “indirecta e ideologicamente, o gramático português [i. e. Amaro de Roboredo] é influenciado pela Minerva de 1587 [do Brocense]” (FERNANDES; ASSUNÇÃO, 2007, p. lvi). 83 TODAS AS LETRAS W, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 76-89, maio 2014 http://dx.doi.org/10.15529/1980-6914/letras.v16n1p76-89 NOTAS SOBRE A ARTE DE GRAMMATICA, LATINA, PORTUGUEZA, BENEDICTINA (LISBOA, 1636) DE FRUTUOSO PEREIRA DOSSIÊ Roboredo, 1625 Pereira, 1636 ‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑ A praeposição he parte da oração que se não de‑ clina, & serue na oração, ou junta em composi‑ çaõ de nome, & verbo, ou apartada, & então rege caso depois de si (f 1.r). ‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑ A interieição he parte da oração que se não de‑ clina, & serue pera declarar vários desejos & af‑ feitos do animo (f. 1r.) Fonte: Elaborado pelo autor. Há, por outro lado, diferenças nítidas entre Roboredo e Pereira na descrição gramatical de certas partes da oração – especialmente aquelas em que a matriz racionalista se torna mais evidente nas obras do primeiro autor –, como é o caso do verbo, que Roboredo (1625, p. 67) caracteriza como sendo “h˜ua palabra que tem Numeros, e Pessoas com Tempo”. Nesta definição, Roboredo elimina o acidente do modo, como já analisámos num trabalho nosso anterior (PONCE DE LEÓN, 2008, p. 249-250), como traço caraterizador do verbo, o que, de novo, deve considerar-se influência da Minerva de Sánchez de las Brozas. Frutuoso Pereira, por seu turno, tal como se pode observar no Quadro 1, diferentemente de Roboredo, assume o modo como acidente verbal, estabelecendo um sistema quatripartido: indicativo, conjuntivo, imperativo e infinitivo. Em suma, pode verificar-se que, no plano teórico, a Arte de Frutuoso Pereira se distancia claramente da doutrina racionalista5.Nesse contexto, parece aparentemente simples responder à questão sobre o enquadramento teórico da Arte de grammatica, latina, portugueza, benedictina. Segundo o que vimos até agora, poderá afirmar-se que o frade beneditino segue a gramatica escolar latino-portuguesa; em concreto, os De institutione grammatica libri tres (Lisboa, 1572) do jesuíta manuel Álvares, nomeadamente a edição que o também jesuíta António Velez fez da gramática alvaresiana, publicada pela primeira vez em Évora, em 1599. Uma prova que pode ajudar a confirmar a nossa hipótese é, de novo, a descrição das classes de palavras: Quadro 3 – As classes de palabras em Álvares / Velez (1599) e em Pereira (1636) Álvares / Velez, 1599 Pereira, 1636 Nomen est pars orationis, quae casus habet, neque tempora adsignificat […]. Substantiuum seu fixum nomen est, quod per se in oratione esse potest […] Adiectiuum nomen, mobile, seu appositum est, quod in oratione esse non potest sine substantiuo aperte, uel occulte (p. 121). O nome, he h˜ua parte da oração que se declina por casos, & naõ tem tempos. O nome se diuide em Substantiuo, & Adiectiuo. O Substantiuo, he mais nobre que o Adiectiuo, porque significa per si a cousa de que se trata na oração. O Adiectiuo serue ao substantiuo, & não pode estar na oração sem elle […] (f. 1). 5 A questão sobre a consideração do modo como acidente do verbo é apenas um elemento que ilustra as divergências entre a proposta de Frutuoso Pereira e os gramáticos racionalistas coevos, como Amaro de Roboredo; não é, com certeza, o único critério diferenciador: no Quadro 1, a respeito do verbo, pode observar‑se que Pereira advoga a existência dos verbos impessoais (“O verbo impessoal he aquelle que naõ tem mais que a terceira pessoa do singular, & lhe faltaõ as primeiras duas pessoas” (PEREIRA, 1636, f. 1)) ou a tipologia dos verbos em neutro, ativo, passivo, comum e depoente. Estas propostas, como é bem sabido, são rejeitadas pela doutrina logicista. Quadro 2 – As partes da oração indeclináveis em Roboredo (1625) e em Pereira (1636) (conclusão) (continua) 84 TODAS AS LETRAS W, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 76-89, maio 2014 http://dx.doi.org/10.15529/1980-6914/letras.v16n1p76-89 ROgELIO PONCE DE LEÓN ROmEO DOSSIÊ Álvares / Velez, 1599 Pereira, 1636 Verbum est pars orationis, quae modos et tempora habet, neque in casus declinatur. Verbum duplex est, personale et impersonale. Personale est, quod omnes personas utriusque numeri habet […]. Impersonale est, quod prima et secunda utriusque numeri et tertia multitudinis fere privatur, unde et nomen traxit. Id duplex est: alterum actiuae declinationis […]; alterum passiuae […]. Verbum personale diuiditur in quinque genera: actiuum, passiuum, neutrum, commune, deponens. Actiuum est, quod litera ‘o’ finitum passiuum fit addita litera ‘r’ […]. Passiuum est, quod syllaba ‘or’ finitum actiuum fit ‘r’ litera abiecta […]. Neutrum est, quod ‘m’ uel ‘o’ literis finitum ex se passiuum personale non gignit (p. 134). Commune est, quod ‘or’ syllaba tantum finitum actiui simul et passiui significationem habet […]. Deponens est quod ‘or’ syllaba tantum finitum actiui uel neutri significationem habet (p. 135). A declinaçaõ do verbo se chama coniugaçaõ. E assi, overbo he h˜ua parte da oraçaõ, que se de‑ clina, ou se coniuga por modos, & tem tempos. Os modos porque o verbo se coniuga saõ quatro, Indicatiuo, Imperatiuo, Coniuntiuo, Infinitiuo. Os tempos saõ seis. Tempo presente. Tempo passado imperfeito. Tempo passado perfeito. Tempo passado mais que perfeito. Tempo que està para vir imperfeito. Tempo que està para vir mais que perfeito. Diuidese o verbo, em pessoal, & impessoal. O pessoal he aquelle que tem todas as três pes‑ soas, as quais saõ Ego,eu, tu, tu, vos, ille, aquel‑ le. O verbo impessoal he aquelle que naõ tem mais que a terceira pessoa do singular, & lhe fal‑ taõ as primeiras duas pessoas. O verbo pessoal diuidese em actiuo, passiuo, neutro, comm˜u, & depoente. O verbo actiuo he aquelle, que acabando na letra (o) se faz passiuo acrecentandolhe a letra (r) como, lego, eu leo, le‑ gor, eu sou lido. O passiuo he aquelle que se forma do actiuo acredentandolhe a letra (r) como lego, legor. O neutro he aquelle que acabando nas letras, m, ou, o, nunca se faz passiuo, pessoal, como, sum, eu sou, sedeo, eu estou assentado. O comm˜u he aquelle, que acabando na silla, or, tem significação actiua, & também passiua, em alg˜us tempos, como ao diante se verá. O depoente he o que acabando na sillaba, or, tem significaçaõ actiua, ou neutra […] (f. 1/r). Pronomen est, quod loco nominis positum certam finitamque personam adsignificat (p. 132). O Pronome, he h˜ua parte da oraçaõ, que posta em lugar do nome substantiuo, signfica certa & determinada pessoa (f. 1). Participium est pars orationis, quae tum casus, tum tempora habet (p. 138). O particípio he nome, que nace de qualquer ver‑ bo, declinase por casos, & significa tempo, & as‑ si h˜us seruem pera tempo presente & passado, outros pera tempo futuro (f. 1r.). Praepositio est pars orationis, quae ceteris partibus aut separata, aut coiuncta fere praeponitur (p. 142). A praeposição he parte da oração que se não de‑ clina, & serue na oração, ou junta em composi‑ çaõ de nome, & verbo, ou apartada, & então rego caso depois de si (f 1.r). (continua) Quadro 3 – As classes de palabras em Álvares / Velez (1599) e em Pereira (1636) (continuação)