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Redução de riscos no trabalho sexual em Portugal: representações dos técnicos interventores

Joana Coutinho,Alexandra Oliveira

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PSICOLOGIA,SAÚDE & DOENÇAS, 2014, 15(2) 538-553 EISSN - 2182-8407 Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde - SPPS - www.sp-ps.com DOI: http://dx.doi.org/10.15309/14psd150216 www.sp-ps.com 538 REDUÇÃO DE RISCOS NO TRABALHO SEXUAL EM PORTUGAL: REPRESENTAÇÕES DOS TÉCNICOS INTERVENTORES Joana Coutinho  & Alexandra Oliveira Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Portugal _________________________________________________________________ RESUMOA redução de riscos associada ao trabalho sexual é hoje a política de intervenção de muitos projetos implementados em diversas partes do mundo com as pessoas que prestam serviços sexuais. Nesta investigação tivemos como objetivo conhecer a intervenção na área de redução de riscos associada ao trabalho sexual em Portugal, através do discurso dos técnicos de saúde dos projetos de redução de riscos, analisando os significados que estes constroem e veiculam. Nomeadamente, almejámos compreender as características que atribuem aos/às trabalhadores/as do sexo, a forma como qualificam as práticas de intervenção e a análise que fazem do seu trabalho e das implicações deste na sua saúde. Para tal, depois de efetuado um mapeamento dos projetos existentes, construímos um questionário que foi distribuído pela totalidade dos técnicos envolvidos. A devolução foi de cerca de 72% dos questionários (n = 60) cujas respostas analisámos. Os resultados da investigação apontam, entre outras, para uma visão compreensiva do trabalho sexual e dos seus atores e para uma especificidade da intervenção, que se centra na pessoa que faz trabalho sexual e que tem objetivos de empoderamento, apesar dos projetos ainda se centrarem maioritariamente na prevenção de doenças. Quanto à perceção sobre o impacto na sua saúde, metade dos técnicos considera que os aspetos positivos e negativos do trabalho não afetam subjetivamente a sua saúde, enquanto que a outra metade aponta implicações maioritariamente negativas, tais como o desgaste e o risco de contração de doenças ou infeções. Palavras-chave – trabalho sexual; redução de riscos; representações sociais. ______________________________________________________________________ SEX WORK HARM REDUCTION IN PORTUGAL: THE REPRESENTATIONS OF HEALTH PROFESSIONALS ABSTRACTSex work harm reduction is the intervention strategy of many projects implemented around the world towards people involved in sex industry. This study aimed to know sex work harm reduction in Portugal by knowing and understanding the discourse of health professionals who intervene with sex workers in harm reduction projects. In particular, we aimed to understand the characteristics professionals ascribe to sex workers, how they qualify the intervention practices, and the analysis they make of their work and its implications on their health. For this purpose, after mapping the existing projects, we constructed a questionnaire distributed to all the health professionals involved. At the end, we obtained 60  Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Rua do Doutor Melo Leote, 276, 1º esquerdo. 4100-342, Porto, Portugal. Telef.: 917164797. E-mail: [email protected] REDUÇÃO DE RISCOS NO TRABALHO SEXUAL EM PORTUGAL www.sp-ps.com 539 questionnaires, about 72% of the total of the professionals involved, and we analyzed the answers. The research results indicate, among others, a comprehensive view of sex work and sex workers. Also, despite the projects still focus mainly on the prevention of diseases, there is a need for intervention aiming the empowerment. Regarding the perception of the impact on their health, half of the professionals considers that the positive and negative aspects of the work does not affect their health subjectively, while the other half point mostly negative implications, such as wearing out and the risk of contracting diseases or infections. Keywords – sex work; harm reduction; social representations. ___________________________________________________________________ Recebido em 12 de Setembro de 2013/ Aceite em 20 de Fevereiro 2014 A redução de riscos no trabalho sexual pode ser considerada uma área de intervenção nova em Portugal na medida em que se identifica o seu início no ano de 1994 (Mak, 2004; Oliveira, 2008). Em consonância com este surgimento recente, os conhecimentos sobre este campo de intervenção são escassos e provenientes da prática interventiva. Especificamente, no que se refere à investigação científica, na pesquisa bibliográfica que efetuámos, não nos deparámos com qualquer trabalho efetuado neste país sobre a redução de riscos com trabalhadores do sexo. Pese embora a falta de dados, teóricos ou empíricos, a intervenção de redução de riscos com trabalhadores/as do sexo é pertinente redução de riscos, dadas as características destes e do seu trabalho, bem como das condições em que ele é exercido. O uso dos princípios da redução de riscos pode ajudar a proteger as vidas dos trabalhadores do sexo da mesma forma que os toxicodependentes têm beneficiado da redução de riscos associada ao consumo de drogas (Rekart, 2005). Enquanto as pessoas envolvidas no comércio do sexo forem etiquetadas como desviantes, alvo de estigma, de discriminação e de negação de direitos e a sua atividade for, de algum modo, associada a práticas de risco, tal como o sexo desprotegido, ou à violência, está justificado este tipo de intervenção. Os/as trabalhadores/as do sexo possuem uma história de representações sociais negativas na qual são estigmatizados, criminalizados e patologizados (Cusick, 2006). Ao longo dos tempos, a/os prostitutas/os, em particular, e os/as trabalhadores/as do sexo, em geral e mais recentemente, foram vistos como doentes, delinquentes, amorais ou vítimas (Oliveira, 2008). Contudo, como argumenta Weitzer (2009), esta visão implica um paradoxo, pois se o trabalho sexual se apresenta lucrativo, emprega um número significativo de trabalhadores e atrai muitos clientes, também é visto, por muitas pessoas, como desviante e necessitando de um controlo estrito. Estas representações negativas e a estigmatização e a exclusão a que os/as trabalhadores/as do sexo estão sujeitos/as podem afetar o seu bem-estar e ter consequências graves nas suas vidas (Day & Ward, 2004; Goffman, 1990; Ribeiro, Silva, Schouten, Ribeiro, & Sacramento, 2008). Por isto, a redução de riscos neste grupo se reveste de enorme importância, sobretudo se a entendermos de forma lata, isto é, dirigida não apenas para a prevenção do Vírus da Imunodeficiência Humana / Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (VIH/SIDA) e infeções sexualmente transmissíveis (IST). Joana Coutinho & Alexandra Oliveira www.sp-ps.com 540 A redução de riscos surgiu nos anos de 1980 como uma resposta de saúde pública na área das drogas ao surgimento da epidemia do VIH/SIDA (Denning, 2000; Marlatt, 1998), tendo os primeiros programas surgido na Holanda e no Reino Unido (Fernandes & Ribeiro, 2002). Em Portugal, até meados dos anos 1990, estas práticas tinham pouca visibilidade e eram fragmentárias e pontuais (Barbosa, 2009). Mais tarde, o decreto-lei 183/2001 de 21 de Junho, que aprovou o regime geral das políticas de redução de riscos, conduziu ao surgimento de propostas e estratégias mais refinadas, baseando-se nos princípios do humanismo e do pragmatismo (Fernandes & Ribeiro, 2002). Além destes princípios, estas intervenções caracterizam-se ainda pela horizontalidade e por serem intervenções de outreach em que se pretendem níveis acrescidos de autocuidado, saúde, empoderamento e bem-estar das populações-alvo de intervenção (Marlatt, 1998). No que concerne ao trabalho sexual, em Portugal, o primeiro projeto nesta área, denominado Drop In, surgiu em 1994, em Lisboa, inserido num centro de saúde (Mak, 2004; Oliveira, 2008). Depois deste, vários outros foram desenvolvidos por todo o país, direcionando-se, maioritariamente, para os riscos de contrair doenças como o VIH/SIDA e outras infeções sexualmente transmissíveis (IST) (Oliveira, 2008). Porém, se os/as trabalhadores/as do sexo poderão estar mais sujeitos ao risco de contrair o VIH/SIDA e outras IST através de comportamentos com clientes e parceiros íntimos (Oliveira, 2002; Petterson, Dimmeff, Tapert, Stern, & Gorman, 1998), alguns estudos têm demonstrado que, na Europa, as taxas de infeção entre trabalhadores/as do sexo é baixa, à exceção de grupos específicos, designadamente o dos consumidores de drogas por via endovenosa, o dos homens que fazem sexo com homens e o dos migrantes que são originários de países onde a doença é endémica (Oliveira, 2013). No entanto, de acordo com Rekart (2005), no geral, os/as trabalhadores/as do sexo estão expostos a riscos graves, tais como a contração de doenças e infeções, a violência, a discriminação, a criminalização e a exploração. Assim, a redução de riscos no trabalho sexual deve abarcar áreas como a promoção da saúde; a disponibilização de serviços sociais e de saúde; a prevenção, o tratamento ou o uso mais seguro de drogas; o aconselhamento e os serviços de apoio e informação; os direitos humanos e cívicos; a promoção ou o reforço da autoestima e da capacitação / empoderamento; e a prevenção da violência e exploração (EUROPAP/TAMPEP, 2001; Rekart, 2005). A European Network for HIV/STI Prevention and Health Promotion among Migrant Sex Workers (TAMPEP) enumera diversas recomendações para aqueles que estão envolvidos em projetos direcionados para os/as trabalhadores/as do sexo. Destas, destaca-se que o empoderamento, a dignidade, o respeito e uma atitude de não-julgamento devem ser elementos intrínsecos à atividade para e com estes trabalhadores (Brussa, 2009). Neste contexto, o outreach apresenta-se como uma estratégia fulcral do trabalho de redução de riscos para e com esta população, caracterizando-se pela prestação proximal de informações relacionadas com a saúde e serviços a populações-alvo tradicionalmente marginalizadas (CHHATT, ATTC, CSAT, 2009). Deve-se ir ao encontro dos/as trabalhadores/as do sexo onde eles estão, proporcionando um contexto seguro e não ameaçador (Petterson et al., 1998) e promovendo uma intervenção colaborativa. Esta estratégia envolve o estabelecimento de um contacto ativo com as pessoas nos ambientes em que habitualmente atuam, isto significa REDUÇÃO DE RISCOS NO TRABALHO SEXUAL EM PORTUGAL www.sp-ps.com 541 procurar as pessoas nos seus contextos em detrimento de esperar que elas contactem com os projetos (Brussa, 2009). Sendo que diferentes trabalhadores/as do sexo possuem diversos estilos de vida, de locais de trabalho e de condições associadas, a redução de riscos deve apresentar-se, nos dias de hoje, mais complexa e abrangente, procurando corresponder a necessidades várias da população e considerando-se a saúde num sentido lato e holístico (Gaffney, Velcevsky, Phoenix, & Schiffer, 2008; Mak, 2004). Neste artigo, apresentamos os resultados de uma investigação sobre a redução de riscos no trabalho sexual em Portugal, que teve como objetivo conhecer as representações dos técnicos interventores a partir da análise dos seus discursos. Neste sentido, o objeto do estudo consiste no discurso escrito veiculado por estes profissionais. Os nossos objetivos foram: (1) Compreender qual a caracterização que os técnicos interventores fazem da população-alvo dos projetos e a sua relação com as representações sociais dominantes sobre esta população, (2) conhecer como caracterizam as práticas de intervenção e de redução de riscos associadas ao trabalho sexual e (3) perceber quais consideram ser os aspetos positivos e negativos do seu trabalho e, ainda, se estes têm implicações na sua saúde. Assim, o objetivo do presente estudo é contribuir para o conhecimento no domínio da redução de riscos no trabalho sexual em Portugal, nomeadamente no que respeita ao discurso dos técnicos que contactam diretamente com a população-alvo dos projetos, colocando o foco nos significados que estes atores constroem e veiculam acerca dos aspetos estudados. MÉTODO Em termos metodológicos, este estudo tem um carácter exploratório, indutivo, descritivo e interpretativo e pretende efetuar uma análise do discurso escrito dos técnicos. Isto é, partindo de um conjunto de questões apresentadas, desejamos compreender os significados transmitidos por estes técnicos (Schwandt, 2000). Assim, utilizámos diferentes estratégias metodológicas num continuum interativo (Newman & Benz, 1998), isto é, na recolha de dados servimo-nos de um questionário como instrumento, ou seja, uma estratégia tradicionalmente considerada quantitativa, enquanto que na análise dos dados realizámos, essencialmente, uma análise de conteúdo do discurso escrito dos técnicos, considerando-se esta uma estratégia da linha qualitativa, não obstante termos considerado alguns aspetos quantitativos, tais como o número de técnicos que contribuíram para a criação de cada categoria/subcategoria. Participantes A amostra é constituída por 60 técnicos integrados nos projetos/organizações que intervêm na redução de riscos no trabalho sexual, o que corresponde a 73,2% do total de técnicos de acordo com o levantamento que efetuámos. Alguns questionários não tinham todas as questões respondidas, pelo que considerámos que 47 se encontravam completos e os restantes 13 incompletos. Quanto à distribuição por sexos, 70% dos respondentes é do sexo feminino (n = 48), existindo apenas 6 participantes do sexo masculino. No que respeita às idades dos participantes, a média é de 36 anos (M = 36,06, DP = 8,97), tendo o participante mais novo 23 Joana Coutinho & Alexandra Oliveira www.sp-ps.com 542 anos e o mais velho 58. No que concerne à escolaridade, 70% completou o ensino superior (com 34 licenciaturas e 7 mestrados), 5% o ensino secundário e apenas 1 não frequentou mais do que o ensino básico. As áreas de formação repartem-se entre a psicologia (n = 19), a enfermagem (n = 8) e, em menor número, o serviço social, a medicina, a sociologia, a educação social, as ciências sociais, a gestão cultural, a antropologia social e cultural e a investigação social. Mais de metade dos técnicos tem formação na área da saúde, parecendo haver poucas ligações a outros domínios. No que respeita à duração da sua atividade profissional nesta área, a média é de 6 anos de intervenção com trabalhadores/as do sexo (M = 6,43, DP = 4,48), sendo que o tempo mais curto de atividade é de um mês e o trabalho mais longo é executado por um técnico há 20 anos. Relativamente ao número de horas semanais associadas ao trabalho de técnico de redução de riscos, a média é de 26 horas (M = 26,40, DP = 13,72), sendo que, no mínimo, são despendidas por um participante duas horas e, no máximo, um técnico trabalha 45 horas. No que concerne à região de Portugal onde desenvolvem o seu trabalho, 12 participantes referem intervir no Centro, 17 no Norte e 19 no Sul do país, verificando-se, deste modo, uma boa distribuição geográfica da intervenção. Quanto à dedicação a este tipo de trabalho, para 13 dos técnicos este é o seu único trabalho, para 14 deles este apresenta-se como o trabalho principal e, para o mesmo número, este é um trabalho secundário, sendo que sete pessoas indicam outra situação. Material Para a operacionalização do estudo foi elaborado um questionário que inclui questões fechadas, semiabertas e, sobretudo, abertas, no sentido de permitir abarcar a complexidade do discurso escrito e a veiculação de significados. O questionário foi concebido de modo a permitir uma transmissão rica de discurso, tentando que este se aproximasse, tanto quanto possível, de uma entrevista semiestruturada. A sua construção passou pela criação de questões que possibilitassem respostas aos objetivos de investigação, elaborando-se, inicialmente, um instrumento que foi alvo de reformulações decorrentes de um pré-teste. Assim, o questionário do nosso estudo compreende 21 questões, 13 diretamente associadas aos objetivos da investigação e oito relativas à caracterização sociodemográfica dos participantes. Procedimento Esta investigação almejou a participação do universo dos técnicos de redução de riscos que intervêm no âmbito do trabalho sexual em Portugal pelo que não procedemos a qualquer método de amostragem. Na ausência de um mapeamento atualizado dos projetos de redução de riscos para trabalhadores/as do sexo existentes em Portugal, foi necessário efetuar uma pesquisa que nos permitisse conhecer a totalidade destes projetos1. Neste sentido, numa fase inicial, 1 Não obstante esta inexistência aquando do início da nossa investigação (outubro de 2010), no final de abril de 2012, quando havíamos já efetuado o nosso próprio mapeamento, surgiu um documento produzido pelo Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA (GAT), intitulado “Mapeamento de Serviços dirigidos a trabalhadores(as) do Sexo”, contendo a mesma informação. REDUÇÃO DE RISCOS NO TRABALHO SEXUAL EM PORTUGAL www.sp-ps.com 543 consultámos o “Directory of Health and Social Support Services for Sex Workers in Europe” (http://www.services4sexworkers.eu/s4swi/), organizado pela TAMPEP, que contém informações sobre os projetos que estavam em funcionamento em 2009 e que serviu de base ao nosso trabalho de mapeamento. Depois, contactámos as diferentes organizações, para averiguar que projetos se mantinham em funcionamento e qual a quantidade de técnicos implicados. Deste trabalho, concluímos que existiam 14 organizações ou associações a desenvolver intervenções na área do trabalho sexual, verificando-se a existência de 28 projetos ativos, com 82 técnicos a intervir diretamente com trabalhadores/as do sexo. Depois de reunida esta informação, procedemos ao envio dos questionários, tendo previamente estabelecido contacto com os responsáveis dos projetos, que nos autorizaram a enviá-los para os participantes, o que foi feito por via postal ou por via eletrónica, utilizandose a plataforma Qualtrics. Deste modo, foi possibilitado a cada um dos 82 técnicos o acesso anónimo e confidencial ao nosso questionário. Obtivemos uma taxa de resposta de 73,2%, correspondente à devolução de 60 questionários preenchidos, tal como já referimos. Quanto aos procedimentos de tratamento e análise da informação, no que respeita à caracterização sociodemográfica utilizou-se o programa informático IBM SPSS Statistics 20, obtendo-se dados estatísticos como distribuição de frequências, médias e desvios-padrão e valores mínimos e máximos. No que concerne à análise e interpretação do discurso escrito veiculado pelos participantes, efetuámos uma análise de conteúdo categorial das diferentes respostas do questionário, seguindo os procedimentos descritos por Bardin (2011). RESULTADOS As representações dos técnicos sobre a população-alvo dos projetos Cinquenta e dois porcento dos técnicos intervém apenas com trabalhadores/as do sexo, enquanto 48% atua com estes e com outro ou outros tipos de população, tais como toxicodependentes e imigrantes. Apesar disto, a totalidade dos participantes (60) referiu os/as trabalhadores/as do sexo como sendo a população-alvo principal dos projetos em que se inserem, incluindo mulheres, homens ou transgéneros. Alguns dos participantes responderam de modo mais específico, associando a população-alvo ao trabalho sexual de interior (n = 6) ou de rua (n = 5), sendo que um deles indica que a sua intervenção se dirige em simultâneo para pessoas que trabalham em um dos dois contextos. Dezassete participantes referem-se a trabalhadoras do sexo, utilizando a expressão no género feminino. Os outros grupos que são apontados como integrando a população-alvo principal dos projetos, são os (i)migrantes (n = 5), os clientes dos/as trabalhadores/as do sexo (n = 4), os toxicodependentes (n = 4), os homens que fazem sexo com homens (n = 3), as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e transexuais (LGBT) (n = 2) e os proprietários dos locais vocacionados para o trabalho sexual (n = 2). Estes dados relativos à população-alvo dos projetos parecem apontar no sentido de uma especificidade da intervenção, na medida em que os projetos parecem ser criados e implementados considerando particular e principalmente os/as trabalhadores/as do sexo, em Joana Coutinho & Alexandra Oliveira www.sp-ps.com 544 detrimento de intervirem com estes no âmbito de projetos desenhados e apropriados para outras populações, como, por exemplo, a dos utilizadores de drogas. Ainda mais é de salientar a existência de projetos que se direcionam para subgrupos específicos de entre os que fazem trabalho sexual. Se a intervenção na área da redução de riscos com trabalhadores/as do sexo se tem centrado nas mulheres (Oliveira, 2011), o facto de alguns técnicos indicarem os homens que fazem sexo com homens, as pessoas LGBT, os imigrantes e os clientes do comércio do sexo como sendo alvos de intervenção é um indicador de que os projetos se estão a adaptar à realidade e diversidade do trabalho sexual, indo assim de encontro à supressão das lacunas de intervenção previamente identificadas. Quanto à forma como os participantes definem um(a) trabalhador(a) do sexo, 74% deles afirma que se trata de alguém que presta serviços sexuais em troca de uma remuneração. De notar que 16% dos respondentes (oito técnicos) optou por não indicar uma definição, salientando que considera os/as trabalhador/a do sexo enquanto alguém que não se distingue da população em geral, quer acentuando as suas semelhanças, quer salientando as diferenças individuais (e.g., “Uma pessoa como qualquer outra pessoa” - R1; “Cada pessoa que conheço neste contexto é diferente” - R5). Estas respostas são congruentes com a literatura, quer no que respeita à definição de trabalho sexual, quer por considerarem que os/as trabalhadores/as do sexo não se distinguem particularmente da população em geral e representam um grupo heterogéneo (Manita & Oliveira, 2002; Oliveira, 2003, 2011; Weitzer, 2009). Finalmente, cinco respondentes apresentam uma definição a partir da enunciação de uma ou mais do que consideram ser as suas características - e.g., “Grande vulnerabilidade e fragilidade narcísica (…), boas capacidades de adaptação à mudança. São pessoas muito ocupadas, mas com muito pouco tempo para se ocuparem delas próprias…” (R17); “… Desprovidas dos seus direitos como trabalhadoras que são!” (R20); “Ser humano que escolheu ou não uma profissão ligada a muitos estigmas” (R35). Assim, cerca de três quartos dos participantes apresentam uma definição objetiva ou neutra sobre a população-alvo principal dos projetos, enquanto que 16% salienta a dificuldade de apresentar uma definição e aponta para a normalização dos/as trabalhadores/as do sexo e, ainda, 10% refere uma ou mais características que, na sua maioria, demonstram uma visão estereotipada daqueles. Quando solicitámos aos técnicos interventores que indicassem três características de um/a trabalhador/a do sexo, foram enunciados 22 atributos com conotação negativa, 17 com conotação positiva e nove características neutras. Assim, no que respeita à caracterização negativa, sete participantes (14,5% dos respondentes) consideram as características de vulnerabilidade associadas à estigmatização, à discriminação, ao sofrimento e à exposição a riscos. Tal dado é congruente com a UNAIDS (2002), quando adverte que a existência de fatores como a estigmatização e a exclusão, as dificuldades económicas, o acesso limitado à saúde, serviços sociais e jurídicos e o acesso limitado a meios de informação e de prevenção, entre outros, pode potenciar a vulnerabilidade destas pessoas. De resto, a existência de algum tipo de vulnerabilidade ligada aos fatores REDUÇÃO DE RISCOS NO TRABALHO SEXUAL EM PORTUGAL www.sp-ps.com 545 enunciados pelos técnicos interventores parece obter o consenso dos autores na literatura sobre o fenómeno (e.g., Oliveira, 2011; Rekart, 2005). Ainda no que concerne às características com conotação negativa, seis técnicos apontam as carências económica, emocional ou sem especificação dos/as trabalhadores/as do sexo e cinco deles referem a autoestima e a autoconfiança reduzidas destes trabalhadores. O nível de escolaridade baixo é referido por 7,3% dos respondentes, o que parece estar de acordo com a literatura, sobretudo se tivermos em consideração que a maioria dos estudos sobre prostituição é feita com amostras de prostitutos/as de rua. Num estudo etnográfico sobre caracterização do mundo da prostituição de rua realizado no Porto, Oliveira (2008) concluiu que a pouca escolaridade se apresentava regular nesta população, sendo que cerca de dois terços das pessoas que entrevistou possuíam um nível de escolaridade igual ou inferior ao quarto ano. Outros estudos, como o de Cusick (2006), apontam neste sentido. Não obstante não sabermos com certeza a que tipo de trabalhadores/as do sexo se referiram os participantes que indicaram esta característica, sabemos que são poucos os projetos de intervenção portugueses que intervêm com trabalhadores/as do sexo de interior. Dos 17 participantes que apresentam uma caracterização positiva, cinco referem a coragem e a perseverança dos/as trabalhadores/as do sexo. Quatro técnicos consideram características associadas à capacidade de resistir e superar e/ou recuperar de adversidades. Ainda, quatro participantes caracterizam estes trabalhadores como possuidores de capacidades de comunicação e salientam o cariz laboral da sua atividade. Quanto à caracterização considerada neutra, seis participantes aludiram à mobilidade dos/as trabalhadoras/as do sexo, particularidade que Ribeiro et al. (2008) referem ser estruturante do quotidiano destes trabalhadores, particularmente das mulheres que exercem prostituição. Ainda quatro técnicos referem a desconfiança desta população, o que considerámos uma característica neutra por falta de outros elementos para avaliar a sua valoração. Uma vez que as respostas se apresentaram sucintas (e.g., “Desconfiança” – R35), não podemos compreender se, para os técnicos, tal particularidade se apresenta como positiva ou como negativa. Por último, 13 participantes (27,1% dos respondentes) não consideram existir características específicas associadas à população que possam ser diferenciadoras – e.g., “Não têm características específicas” (R2); “(…) Há todos os tipos /perfil de pessoas que exercem esta atividade” (R4) – o que se pode considerar que reforça a representação dos/as trabalhadores/as do sexo como pessoas que não se distinguem da população em geral. Assim, com este tipo de respostas que acentuam a impossibilidade de serem indicadas três particularidades deste tipo de trabalhadores, os participantes parecem apresentar uma representação que vai além dos estereótipos, uma vez que evidenciam a não existência de distinções específicas em comparação com o resto da população. Contudo, se na definição geral dos/as trabalhadores/as do sexo a maioria dos participantes parece ter uma representação objetiva ou neutra, apontando para a sua normalização, o que vai no mesmo sentido, nas respostas à solicitação de características que se possam associar a estes trabalhadores verificaram-se mais referências com conotação negativa, do que positiva ou neutra. Joana Coutinho & Alexandra Oliveira www.sp-ps.com 546 No que se refere à eventual influência que a experiência profissional nesta área de intervenção exerce na visão que os técnicos têm acerca dos/as trabalhadores/as do sexo, 42 participantes (89,3% do total) consideram que esta experiência influencia ou influenciou a sua visão, admitindo possuir um conhecimento alargado da população-alvo de modo sustentado nas realidades com que contactam diretamente. Neste âmbito, particularmente, 22 técnicos apontam a diminuição ou eliminação de estereótipos, preconceitos e estigma que possuíam previamente. Também 20 técnicos consideram deter um conhecimento alargado e sustentado sem mais especificação (e.g., “Considero que influencia visto que o conhecimento de situações / casos nos fazem refletir acerca da situação” - R20). Assim, uma esmagadora maioria dos técnicos assume a relevância da sua experiência profissional nas representações que possui acerca dos/as trabalhadores/as do sexo, contribuindo esta para a diminuição de noções preconcebidas e para a aquisição de um conhecimento sustentado. Quanto à perceção dos técnicos sobre a representação dominante na sociedade acerca dos/as trabalhadores/as do sexo, 29,7% dos respondentes aponta para que esta se associa a uma visão negativa, a estereótipos, a preconceitos, ao estigma e à discriminação. Outros 11 participantes (aproximadamente, 23,4% do total), consideram que a sociedade apreende os/as trabalhadores/as do sexo como não sendo dignos de proceder, não sendo honrados e não agindo de acordo com a moralidade, ou seja, de modo íntegro, decente, conforme às regras éticas e dos bons costumes. A perspetiva vitimizante, isto é, a conceção dos/as trabalhadores/as do sexo como vítimas que realizam essa atividade por necessidade ou porque são exploradas por terceiros é referida por 21,2% dos respondentes como sendo a visão global que a sociedade tem destes/as trabalhadores/as. Alguns participantes (sete) consideram que a sociedade vê os/as trabalhadores/as do sexo como constituindo uma questão social negativa, um problema social pela prática do seu trabalho (e.g., “São seres menores (…) com graves questões sociais” - R5; “A representação dominante na sociedade continua a ser a de um „problema social‟ a erradicar” - R7). Globalmente, compreende-se que a totalidade dos participantes considera que a representação dominante na sociedade acerca dos/as trabalhadores/as do sexo tem uma conotação negativa, o que tem sido mencionado na literatura, particularmente no que respeita à prostituição: “A reação social às pessoas que se prostituem sempre foi, ou foi quase sempre, e ainda é, de rejeição e exclusão. (…) As prostitutas são vistas como amorais ou imorais; como desviantes e transgressoras, sendo alvo de estigmatização” (Oliveira, 2011, p. 215). As práticas de intervenção e de redução de riscos No que concerne às áreas de intervenção dos projetos, verificaram-se 44 referências à intervenção na área da saúde. Neste âmbito, 28 participantes (46,6% dos respondentes a esta questão) indicaram que os projetos nos quais estão integrados intervêm ao nível da prevenção das doenças, particularmente no que respeita o VIH/SIDA e outras IST. 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