Deteção de Indícios de Fraude na Indústria do Retalho
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DETEÇÃO DE INDÍCIOS DE FRAUDE NA INDÚSTRIA DO RETALHO por Ricardo Jorge Alves de Oliveira Tese de Mestrado em Modelação, Análise de Dados e Sistemas de Apoio à Decisão pela Faculdade de Economia do Porto Orientada por: Professor Dr. João Manuel Portela da Gama Co-orientada por: Professora Dra. Rita Paula Almeida Ribeiro 2015
i Nota Biográfica Ricardo Oliveira nasceu na cidade do Porto em 1978. Concluiu a licenciatura em Informática de Gestão em 2003 na Universidade do Minho, pólo de Guimarães. Após dois breves trabalhos como webdesigner, em 2004 surge a 1ª experiência profissional na Accenture (Lisboa) durante um ano, nas funções de analista / programador. Participa em projetos de desenvolvimento/manutenção de aplicações informáticas para a Direção Geral de Contribuições e Impostos: SEF (Sistema de Execuções Fiscais), SLC (Sistema Local de Cobranças) e Reclamações Graciosas. Em 2005 inicia funções numa empresa de retalho, como analista de dados. Desde então as suas atividades principais têm sido: análise de informação de negócio, análise da eficiência e eficácia dos processos, deteção de casos anómalos ou estranhos, possíveis fraudes ou incumprimento de procedimentos. Em 2009 obteve a certificação de “Certified Information Systems Auditor” pelo instituto internacional ISACA.
ii Agradecimentos Tendo chegado ao final deste trabalho, cabe-me agradecer a todas as pessoas que foram importantes ao longo deste caminho: À minha esposa Célia, pela paciência e compreensão ao longo destes dois anos do curso. Aos meus familiares, amigos e colegas de curso, pelo apoio e conselhos que me foram transmitindo ao longo do tempo, levando-me a tomar as melhores decisões possíveis. Às chefias do meu departamento, pelo apoio e incentivo à inscrição neste mestrado, e também por terem tornado esta dissertação possível. Por fim e não menos importante, o agradecimento aos professores João Gama e Rita Ribeiro, pelo interesse demonstrado no tema escolhido, pela experiência, sugestões, visão e melhorias ao longo do trabalho, tornando possível o seu resultado final. Este trabalho foi apoiado pela Comissão Europeia, no âmbito do projeto MAESTRA (Grant number ICT-2013-612944) a quem também envio o meu agradecimento. Thanks to the support of project MAESTRA (Grant number ICT-2013-612944) funded by European Commission.
iii Resumo A fraude é omnipresente a todas as organizações, sendo que nenhuma está imune à sua ameaça. O seu custo é equivalente a um iceberg financeiro, onde as perdas financeiras são visíveis, mas existem outros custos indiretos, como perdas de produtividade, danos de imagem ou reputacionais. Estima-se que todas as organizações possam perder 5% das suas receitas em cada ano, devido à fraude. A taxa de crime económico reportada mundialmente tem vindo a aumentar desde 2009, sendo que um terço das organizações reportou ter sido vítima de crime económico. Recentemente, metade das organizações da indústria do Retalho reportou ter sido vítima de crime económico. A área de “Data Analytics” onde se inclui o Data Mining, foi considerada como o método mais eficaz para a deteção da fraude, tendo sido destacada por 25% das organizações que já sofreram crimes económicos. Esta dissertação propôs-se desenvolver um modelo de aprendizagem a partir de dados de devoluções de artigos, num universo de 40 lojas de um retalhista, na procura de deteção de casos anómalos ou estranhos (designados por outliers), que possam ser fraude ou não. Esse modelo é criado através da aplicação de técnicas de Data Mining, sendo que a deteção dos outliers é obtida através de representação gráfica (box-plot), através do estudo das variáveis do conjunto de dados. A análise das variáveis é realizada de forma individual (univariada) e em combinação (bivariada e multivariada) entre as mesmas, produzindo resultados relevantes, mas distintos entre si. É destacada a importância das análises multivariadas, através do desenvolvimento de árvores de regressão, pois permitem identificar outliers de contexto. Estes casos são considerados de difícil deteção, sendo apenas observados num determinado contexto, definido por um conjunto de regras associadas às variáveis. Palavras-chave: Fraude; Data Mining; Análises Univariada/Bivariada/Multivariada; Árvores de Regressão; Outliers; Gráficos Box-Plot; Devoluções de Artigos.
iv Abstract Fraud is omnipresent to all organizations, and no one is immune to its threat. The cost of fraud is equivalent to a financial iceberg, where the financial losses are visible, but there are other indirect costs such as lost productivity, image or reputational damage. It is estimated that every organization can lose 5% of their revenue each year due to fraud. The economic crime rate reported worldwide has increased since 2009, with one third of organizations reported have been victims of economic crime. Recently, half of the retail industry organizations reported having been victims of economic crime. The area of "Data Analytics" which includes Data Mining was considered the most effective method for fraud detection, and was highlighted by 25% of organizations that have suffered economic crimes. This dissertation proposed to develop a learning model from returned items (to stores), in a total of 40 stores from a retailer, trying to find and detecting abnormal or unusual cases (called outliers), which can be fraud or not. This model is created through the application of data mining techniques, and the detection of outliers is obtained through graphical representation (box-plot), by studying the data set variables. This analysis of the variables is carried out individually (univariate) and in combination (bivariate and multivariate) between them, to produce relevant results, but distinct from each other. It is highlighted the importance of multivariate analysis, through the development of regression trees, that can lead to identifying context outliers. These cases are considered of difficult detection, being observed only in a given context, defined by a set of rules associated with the variables. Keywords: Fraud; Data Mining; Univariate/Bivariate/Multivariate Analysis; Regression Trees; Outliers; Box-Plot graph; Item returns.
v Índice Geral Capítulo 1: Introdução ...................................................................................................... 1 1.1 Motivação ........................................................................................................... 1 1.2 Objetivos ............................................................................................................ 2 1.3 Contribuições ..................................................................................................... 3 1.4 Organização ........................................................................................................ 3 Capítulo 2: A Fraude e o uso do Data Mining .................................................................. 4 2.1 A Fraude - introdução ........................................................................................ 4 2.2 A Fraude Ocupacional ........................................................................................ 5 2.3 Perfil do(s) autor(es) da Fraude.......................................................................... 8 2.4 Subcategorias de fraude na categoria “Apropriação Indevida de Ativos” ....... 16 2.5 O uso do Data Mining na deteção de indícios de fraude ................................. 19 2.5.1 Definição de Data Mining e suas vantagens ............................................. 19 2.5.2 Aprendizagem Supervisionada vs Não Supervisonada ............................ 21 2.5.3 Deteção de Outliers .................................................................................. 22 2.5.4 Tipos de variáveis: qualitativas vs quantitativas ....................................... 24 2.5.5 Metodologia usada em Data Mining ........................................................ 27 Capítulo 3: Deteção de indícios de fraude sobre devoluções de artigos ......................... 29 3.1 Objetivo e Âmbito ............................................................................................ 29 3.2 Caracterização do conjunto de dados ............................................................... 30 3.3 Análise estatística das variáveis ....................................................................... 32 3.3.1 Variáveis qualitativas ................................................................................ 32 3.3.2 Variáveis quantitativas .............................................................................. 36 3.4 Deteção de outliers por análises univariadas ................................................... 38 3.5 Deteção de outliers por análises bivariadas ..................................................... 40
vi 3.6 Deteção de outliers por análises multivariadas (árvores de regressão) ............ 47 3.6.1 Árvore de regressão: variável objetivo “Total artigos devolvidos” ............. 49 3.6.2 Árvore de regressão: variável objetivo “Valor médio artigos devolvidos” .. 61 Capítulo 4: Conclusões e trabalho futuro ....................................................................... 84 Bibliografia ..................................................................................................................... 86 ANEXO I – Árvore da fraude ......................................................................................... 89 ANEXO II - Análises bivariadas .................................................................................... 91 ANEXO III - Análises multivariadas: variável objetivo “Total artigos devolvidos” ..... 95 ANEXO IV - Análises multivariadas: variável objetivo “Valor médio artigos devolvidos” ................................................................................................................... 124
vii Índice de Figuras Figura 2.1 - Árvore da Fraude (versão simplificada) ........................................................ 6 Figura 2.2 – As 5 sub-categorias de Fraude por “Apropriação Indevida de Ativos” ....... 6 Figura 2.3 – Esquemas mais frequentes de Fraude, na indústria do retalho ..................... 7 Figura 2.4 – O triângulo da Fraude ................................................................................... 8 Figura 2.5 – Principal falha de controlo interno observada nas organizações .................. 9 Figura 2.6 – Comportamentos “estranhos” demonstrados pelos infratores .................... 11 Figura 2.7 – Posição hierárquica do indivíduo que comete a fraude .............................. 12 Figura 2.8 – Perda média estimada baseada na posição hierárquica do indivíduo ......... 13 Figura 2.9 – Número de infratores – frequência e perda média estimada ...................... 13 Figura 2.10 – Género do infrator baseado na região ....................................................... 14 Figura 2.11 – Exemplo de outliers num conjunto de dados de 2 dimensões .................. 22 Figura 2.12 – Diagrama de extremos e quartis (box-plot) .............................................. 26 Figura 2.13 – Ciclo de vida da metodologia CRISP-DM ............................................... 28 Figura 3.1 – Processo das devoluções de artigos ............................................................ 29 Figura 3.2 – Arquitetura das transações no sistema de informação ................................ 30 Figura 3.3 – Gráfico de frequências da variável “Loja” ................................................. 32 Figura 3.4 – Gráfico do nº de Supervisores por Loja ..................................................... 33 Figura 3.5 – Histograma da variável “Total artigos devolvidos” ................................... 36 Figura 3.6 – Histograma da variável “Valor médio artigos devolvidos” ........................ 37 Figura 3.7 – Teste Kolmogorov-Smirnov ....................................................................... 37 Figura 3.8 – Box-Plot: “Total artigos devolvidos” ......................................................... 38 Figura 3.9 – Box-Plot: “Valor médio artigos devolvidos” .............................................. 39 Figura 3.10 – Box-Plot: “Zona País” vs “Valor médio artigos devolvidos” ................... 40 Figura 3.11 – Box-Plot: “Dia semana” vs “Total artigos devolvidos” ........................... 41 Figura 3.12 – Box-Plot: “Horario registo” vs “Total artigos devolvidos” ...................... 42 Figura 3.13 – Box-Plot: “Horario registo” vs “Valor médio artigos devolvidos” .......... 43 Figura 3.14 – Box-Plot: “Unidade Negócio” (parte 1) vs “Total artigos devolvidos” ... 44 Figura 3.15 – Box-Plot: “Unidade Negócio” (parte 2) vs “Total artigos devolvidos” ... 44 Figura 3.16 – Box-Plot: “Unidade Negócio” (parte 1) vs “Valor médio artigos devolvidos” ..................................................................................................................... 45
viii Figura 3.17 – Box-Plot: “Unidade Negócio” (parte 2) vs “Valor médio artigos devolvidos” ..................................................................................................................... 45 Figura 3.18 – Árvore regressão variável objetivo “Total artigos devolvidos” ............... 50 Figura 3.19 – Regras decisão da árvore variável “Total artigos devolvidos” ................. 51 Figura 3.20 – Box-Plot do Nó 12, variável “Total artigos devolvidos” .......................... 53 Figura 3.21 – Box-Plot do Nó 14, variável “Total artigos devolvidos” .......................... 54 Figura 3.22 – Box-Plot do Nó 18, variável “Total artigos devolvidos” .......................... 55 Figura 3.23 – Box-Plot do Nó 22, variável “Total artigos devolvidos” .......................... 56 Figura 3.24 – Box-Plot do Nó 26, variável “Total artigos devolvidos” .......................... 57 Figura 3.25 – Box-Plot do Nó 46, variável “Total artigos devolvidos” .......................... 58 Figura 3.26 – Box-Plot do Nó 55, variável “Total artigos devolvidos” .......................... 59 Figura 3.27 – Box-Plot do Nó 62, variável “Total artigos devolvidos” .......................... 60 Figura 3.28 – Árvore regressão variável objetivo “Valor médio artigos devolvidos” ... 62 Figura 3.29 – Regras decisão da árvore variável “Valor médio artigos devolvidos” ..... 63 Figura 3.30 – Box-Plot do Nó 5, variável “Valor médio artigos devolvidos” ................ 65 Figura 3.31 – Box-Plot do Nó 6, variável “Valor médio artigos devolvidos” ................ 66 Figura 3.32 – Box-Plot do Nó 9, variável “Valor médio artigos devolvidos” ................ 67 Figura 3.33 – Box-Plot do Nó 10, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 68 Figura 3.34 – Box-Plot do Nó 11, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 69 Figura 3.35 – Box-Plot do Nó 12, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 70 Figura 3.36 – Box-Plot do Nó 13, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 71 Figura 3.37 – Box-Plot do Nó 14, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 72 Figura 3.38 – Box-Plot do Nó 15, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 73 Figura 3.39 – Box-Plot do Nó 16, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 74 Figura 3.40 – Box-Plot do Nó 30, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 75 Figura 3.41 – Box-Plot do Nó 34, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 76 Figura 3.42 – Box-Plot do Nó 60, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 77 Figura 3.43 – Box-Plot do Nó 61, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 78 Figura 3.44 – Box-Plot do Nó 62, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 79 Figura 3.45 – Box-Plot do Nó 70, variável “Valor médio artigos devolvidos” .............. 80 Figura 3.46 – Box-Plot do Nó 122, variável “Valor médio artigos devolvidos” ............ 81 Figura 3.47 – Box-Plot do Nó 286, variável “Valor médio artigos devolvidos” ............ 82
3 1.3 Contribuições Este trabalho visa desenvolver um modelo de aprendizagem semi-automático (não supervisionado) sobre os dados em estudo e que permita a um analista identificar casos anómalos, através da procura de outliers que possam revelar indícios de possível fraude. Para além da realização de análises univariada e bivariada, o trabalho pretende demonstrar como as análises multivariadas são muito importantes na obtenção de um conhecimento mais profundo das variáveis, através da identificação de outliers de contexto, que de outra forma não seriam detetáveis. De uma forma global, pode-se dizer que o contributo principal passa pela demonstração a auditores, investigadores ou analistas de fraude, sobre a importância do uso das ferramentas e tecnologias de Data Mining no seu trabalho de investigação. 1.4 Organização No capítulo 2 é desenvolvido o tema proposto, começando por uma descrição do conceito de fraude, a estrutura da fraude em termos de categorias e subcategorias, a explicação da teoria do triângulo da fraude e a apresentação do perfil mais comum dos infratores que cometem fraude, através dos casos conhecidos e investigados por especialistas, com a ilustração de estatísticas sobre esse mesmo perfil. Ainda neste capítulo é apresentado como diversos autores consideram as técnicas e metodologias de Data Mining como importantes na deteção de anomalias ou casos estranhos. No capítulo 3 são desenvolvidas análises sobre um conjunto de dados de devoluções de artigos, com análises estatísticas sobre as variáveis qualitativas e quantitativas. É efetuada uma análise univariada para deteção de outliers do tipo global através de gráficos “box-plot”. De forma complementar são realizadas análises bivariadas (duas variáveis) pela combinação das várias variáveis entre si. Pretende-se aqui identificar novos outliers, que não tivessem sido observados ou destacados na análise univariada. Por fim e de forma mais aprofundada são realizadas análises multivariadas, onde são construídas árvores de regressão como forma de estudar as duas variáveis quantitativas, através da combinação das restantes variáveis qualitativas em simultâneo. Em cada nó/folha da árvore são criados gráficos “box-plot” para observar a presença de novos outliers (de contexto), ainda não identificados noutras análises.
4 Capítulo 2: A Fraude e o uso do Data Mining 2.1 A Fraude - introdução Nas normas internacionais para a prática profissional de Auditoria Interna do The Institute of Internal Auditors (IIA) encontra-se uma definição do conceito de fraude (2012:19): “Quaisquer atos ilegais caracterizados por desonestidade, dissimulação ou quebra de confiança. Estes atos não implicam o uso de ameaça de violência ou de força física. As fraudes são praticadas por partes e organizações a fim de se obter dinheiro, propriedade ou serviços; para evitar pagamento ou perda de serviços; ou para garantir vantagem pessoal ou em negócios.” No relatório publicado pela Association of Certified Examiners (ACFE) em 2014 “Report to the Nations on Occupational Fraud and Abuse” a fraude é descrita como algo omnipresente sendo que nenhuma entidade está imune à sua ameaça, embora ainda haja muitas organizações com a convicção de pensamento de que a fraude só acontece aos outros. Por isso e nesse sentido, a ACFE tem procurado combater este paradigma, considerando relevante tornar público o custo da fraude, a sua natureza universal, bem como as suas tendências (ACFE, 2014, p. 6). Esta associação foi fundada em 1988 no Texas - Estados Unidos da América, e é a maior organização mundial antifraude e a principal fornecedora de formação e educação antifraude, estando a reduzir a mesma nas empresas a nível mundial e a ganhar a confiança das pessoas na integridade e objetividade da profissão (Wells, J. T., 2009, p. 15). Segundo informação do seu sítio institucional (ACFE, 2014), atualmente a associação beneficia da colaboração de cerca de 75 mil membros. O seu presidente honorário e fundador - Joseph T. Wells, é criminologista e antigo agente do FBI, investiga e dá conferências a grupos empresariais e profissionais acerca de temas relacionados com fraudes, já obteve prémios máximos de literatura, e durante a última década, já foi nomeado para a lista das 100 pessoas mais influentes na área da contabilidade da Accounting Today (Wells, J. T., 2009, p. 15).
5 2.2 A Fraude Ocupacional A fraude pode ser classificada como organizacional (funcionários de uma organização que cometem fraude no interesse da organização) ou ocupacional (funcionários de uma organização que cometem fraude contra ela própria). Desde o ano de 1996 que a ACFE publica, de dois em dois anos, um estudo sobre a compreensão e conhecimento da ocorrência da fraude ocupacional e os seus impactos financeiros nas organizações por todo o mundo. A edição de 2014 é baseada em 1483 casos de fraudes ocupacionais, reportadas à ACFE por examinadores de fraude certificados (membros da própria associação) que as investigaram (ACFE, 2014, p. 2) em mais de 100 países. A análise destes casos fornece uma visão fundamental sobre como a fraude é cometida, como pode ser detetada e como as organizações podem reduzir as suas vulnerabilidades ao risco da sua ocorrência. Segundo este relatório, a fraude ocupacional é descrita como o abuso ou má aplicação dos recursos ou ativos de uma organização por parte de um indivíduo para proveito próprio (ACFE, 2014, p. 6). Infelizmente, a própria natureza das fraudes leva a que os seus custos e a sua existência não sejam revelados, mesmo que nalguns casos até sejam detetadas e investigadas. O custo da fraude é equivalente a um iceberg financeiro onde as perdas financeiras são claramente visíveis, mas existem outros custos indiretos, como perdas de produtividade, danos de imagem ou reputacionais e custos de investigação (ACFE, 2014, p. 8). Este relatório refere que se estima que todas as organizações possam perder 5% das suas receitas em cada ano, devido à fraude (ACFE, 2014, p. 8). Esta percentagem aplicada ao produto bruto mundial de 2013 pode corresponder a perdas projetadas de 3,7 triliões de dólares (aproximadamente 3 triliões de euros). Este valor deve ser usado como benchmark, mas não deve ser interpretado como o custo real da fraude. Segundo o mesmo relatório (ACFE, 2014, p. 11), a fraude ocupacional pode ser estruturada em 3 categorias principais: Apropriação Indevida de Ativos, Demonstrações Financeiras Fraudulentas e Corrupção, em que cada uma pode ainda conter várias subcategorias, conforme a figura 2.1 e 2.2. O âmbito desta dissertação irá incidir o seu foco na deteção de indícios de fraude sobre as subcategorias “Desembolsos fraudulentos” e “Furto”, conforme ilustrado na figura 2.2, dado estarem diretamente relacionadas com o processo de Devolução de artigos nas
6 lojas. As estatísticas apresentadas mais á frente serão mais focadas quer neste tipo da fraude, quer em termos do tipo de indústria (neste caso, retalho) e uma visão sobre os dados conhecidos nos países europeus (mais próximos da realidade portuguesa). Figura 2.1 - Árvore da Fraude (versão simplificada) Fonte: IPAI, 2014, p. 15 Figura 2.2 – As 5 sub-categorias de Fraude por “Apropriação Indevida de Ativos” Nota: no Anexo I, e em particular na figura A1.1, pode ser consultada a árvore da fraude, na versão original e detalhada, publicada pela ACFE em 2014.
7 Numa análise à frequência dos esquemas mais comuns de fraude sobre a indústria do retalho (“Retail”), verifica-se que são os Ativos não financeiros (“Non-Cash”) os mais frequentes com 33,8% e o Furto de dinheiro (“Cash on Hand”) com 22,1%: Figura 2.3 – Esquemas mais frequentes de Fraude, na indústria do retalho Fonte: ACFE, 2014, p. 29
8 2.3 Perfil do(s) autor(es) da Fraude Para melhor se compreender o perfil do autor de uma fraude, é importante considerar os três drivers da fraude, conforme é descrito por um estudo realizado pela empresa KPMG (KPMG, 2013, p. 5), sendo eles: oportunidade, pressão (ou motivação) e justificação (ou racionalização). Figura 2.4 – O triângulo da Fraude Fonte: Wells, J. T., 2009, p. 24 Este estudo refere que “as pessoas cometem fraude quando os três elementos acontecem em simultâneo”. Estes três drivers são parte de uma metodologia que foi desenvolvida por investigadores de fraude na década de 50. A KPMG descreve o seguinte cenário: “O potencial infrator vê uma porta aberta como uma oportunidade. O motivo e o racional fazem-no mover-se em direção à porta e a capacidade fá-lo atravessá-la” (KPMG, 2013, p. 5). De acordo com a teoria do triângulo da fraude, aqueles que cometem fraude ocupacional tendem a sentir necessidades financeiras, oportunidade e racionalização, sendo por esse motivo que a deteção é um dos principais fatores de sucesso na prevenção da fraude por eliminar a perceção de oportunidade por parte do fraudador (ACFE, 2014, p. 18). Oportunidade A KPMG refere que “As pessoas não cometem fraude sem surgir a oportunidade para a cometer” (KPMG, 2013, p. 6). No seu estudo de 2013 verificou-se que na maioria dos casos de fraude observados, o infrator já trabalhava na organização há mais de 6 anos, o que significa que um infrator não entra para uma organização com o objetivo a priori de
9 cometer fraude. Porém mudanças em circunstâncias pessoais, como a pressão para atingir objetivos considerados “irrealistas”, podem criar condições para a ocorrência da fraude. A fraude pode ser cometida por pessoas que já se sentem confortáveis nas suas funções e também em relação à própria organização (KPMG, 2013, p. 6) Para a KPMG “não existe um perfil de personalidade que cometa fraude, mas todos os tipos de pessoas podem cometer fraude se a oportunidade surgir“ (KPMG, 2013, p. 14) A figura 2.5 mostra como essas oportunidades podem ser aproveitadas pelas pessoas, sendo que no estudo realizado pela ACFE, verifica-se que em 1/3 dos casos observados pelos CFEs foram observadas falhas ou fraquezas ao nível dos controlos internos para prevenir a ocorrência da fraude. Este facto reforça a importância da existência de controlos anti-fraude, sendo que, no caso particular de empresas de pequenas dimensões ainda assume uma maior importância (ACFE, 2014, p. 39): Figura 2.5 – Principal falha de controlo interno observada nas organizações Fonte: ACFE, 2014, p. 39
10 Porém, mesmo existindo um forte sistema de controlos internos nas organizações, isso não previne a ocorrência de todas as fraudes (KPMG, 2013, p. 7). Nalguns casos, o infrator pode ser alguém dentro da organização que perceba como estão implementados os controlos internos e saber como os “ultrapassar” ou, até ser conhecedor de uma falha de controlo, e explorar essa falha. A KPMG considera a “capacidade” como uma componente do driver da oportunidade, sendo que consiste nos atributos (personalidade e competência) do infrator que lhe permitem explorar a oportunidade, quando esta surge (KPMG, 2013, p. 7). Por exemplo, quanto mais alta a posição hierárquica do infrator na organização, maior a sua possibilidade de “ultrapassar” certos controlos implementados (KPMG, 2013, p. 7). Os críticos do triângulo da fraude argumentam que este, por si só, não pode explicar a fraude porque duas das suas características como a Motivação e a Justificação, não são observáveis. Por isso em 2004 foi apresentado um modelo chamado “Diamante da Fraude”, que segundo os seus autores, casos conhecidos de fraudes multimilionárias em demonstrações financeiras, não teriam ocorrido sem as pessoas terem a capacidade adequada para executar os detalhes da fraude (IPAI, 2014, p. 17). Pressão/Motivação “A fraude como qualquer outro crime, requere um motivo, sendo a razão mais frequente o financeiro” (KPMG, 2013, p. 8). No inquérito realizado pela ACFE, foram analisados indicadores sobre o comportamento exibido pelos infratores antes das suas fraudes serem detetadas. Pelo menos um alerta vermelho foi identificado em 92% dos casos, sendo que em 64% dos casos o infrator exibiu sinais estranhos em dois ou mais alertas vermelhos (ACFE, 2014, p. 59). A figura 2.6 mostra como sinais de uma vida para além das posses, ou dificuldades financeiras, proximidade invulgar com fornecedores ou clientes, ou pessoas pouco dadas a delegar tarefas, se tornam alertas importantes.
11 Figura 2.6 – Comportamentos “estranhos” demonstrados pelos infratores Fonte: ACFE, 2014, p. 59 Justificação/Racional Os infratores encontram muitas vezes motivos racionais para as suas práticas, podendo estas estar relacionadas com fúria, medo, sentimentos de injustiça (ex: salário abaixo do expectável) (KPMG, 2013, p. 8). Porém, tem sido observado por investigadores da KPMG que o motivo para a fraude é muito determinado pelo contexto ético e cultural, variando bastante de país para país. (KPMG, 2013, p. 9). As regulamentações governamentais, bem como políticas para reforçar os padrões éticos são por isso importantes. Verifica-se então que o valor da informação sobre o perfil do autor de uma fraude, permite analisar, identificar e quantificar onde reside o maior risco de fraude dentro de uma organização: qual a sua função/departamento, a sua idade, antiguidade na organização, o seu passado criminal e comportamentos “estranhos” detetados (ACFE, 2014, p. 40).
12 Estes dados têm sido recolhidos pela ACFE ao longo dos anos, e permitem analisar de uma forma consistente, a tendência e as evoluções dos padrões comportamentais da pessoa que comete a fraude. Começando pela análise ao cargo que o indivíduo fraudulento ocupa na organização, verifica-se pela figura 2.7, que na Europa Ocidental, cerca de 45% dos casos observados de fraude foram realizados por colaboradores da organização num nível mais baixo em termos hierárquicos, de 30% por parte de chefias ou gestores, e de 22% pelos próprios donos ou administradores: Figura 2.7 – Posição hierárquica do indivíduo que comete a fraude Fonte: ACFE, 2014, p. 42 Se a probabilidade de ocorrência de fraude parece estar mais relacionada com os níveis hierárquicos mais inferiores de uma organização, porém, o seu impacto em termos de custo de perda é inversamente proporcional, dado que uma fraude cometida por alguém do topo de uma organização, pode implicar perdas muito mais significativas, conforme se pode comprovar pela figura 2.8:
19 2.5 O uso do Data Mining na deteção de indícios de fraude 2.5.1 Definição de Data Mining e suas vantagens “Fazer mais e melhor com menos recursos” tem sido uma das frases mais ouvidas nos últimos anos, praticamente em todos os departamentos nas organizações, e também entre os investigadores da fraude. O atual ambiente de negócio nas organizações exige aumentos de produtividade em todas as áreas da organização (Codere, D., 2009, p. 41). Vivemos atualmente na era da informação, onde as organizações estão sobrecarregadas de dados. Cada vez mais informação é armazenada nas bases de dados, em que transformar esses dados em conhecimento cria uma necessidade de procurar poderosas ferramentas de análise (Jans, M. et al., 2007, p. 5). À medida que o uso das tecnologias de informação é cada vez maior, também maior deverá ser o uso destas tecnologias na deteção da fraude, permitindo aos investigadores um foco maior nas áreas de maior risco (Codere, D., 2009, p. 41). As técnicas de análise de dados usadas no passado incidiam muito sobre aspetos quantitativos e estatísticos em relação às características dos dados. Estas técnicas são úteis na interpretação dos dados e podem ajudar a obter uma visão mais aprofundada, e criar conhecimento a partir daí. Mas embora estas técnicas de análise de dados tradicionais consigam extrair conhecimento a partir dos dados, o seu processo é criado por analistas, sendo seu processo de criação manual (Jans, M. et al., 2007, p. 5). Para ultrapassar estas limitações, deve ser desenvolvido um sistema de análise de dados com recurso a conhecimentos de fundo, e que envolvam tarefas de raciocínio a partir dos dados fornecidos. Para atingir este objetivo, pesquisadores têm-se focado na área de Machine Learning, que é uma disciplina científica que explora a construção e o estudo de algoritmos que “aprendem” a partir de dados. Esses algoritmos operam a partir de modelos baseados nos inputs e usam-nos para criar previsões ou decisões. Assim emergiu uma nova área frequentemente designada por Data Mining e descoberta de conhecimento. Data Mining pode ser definido como o processo de descoberta de padrões nos dados, podendo o processo ser automático ou semi-automático (mais comum). Os padrões identificados devem ter significado por forma a trazerem vantagens, principalmente económicas (Jans, M. et al., 2007, p. 6).
20 Data Mining é assim uma forma de descobrir conhecimento nas vastas bases de dados que as organizações dispõem (Jans, M. et al., 2007, p. 6). A deteção de fraude é uma área importante para a aplicação prática das técnicas de Data Mining, tendo em conta as consequências económicas e sociais que estão normalmente associadas a essas atividades ilegais (Torgo, L., 2010, p. 165). A empresa SAS num artigo publicado sobre o uso de técnicas de Data Mining para deteção de fraude, define alguns passos importantes neste processo (Kristin, R. N. et al.,, 1999, p. 1): 1. Definição do problema 2. Extração de dados 3. Estratégia de modelação 4. Análise de resultados A definição do processo de negócio a analisar é o primeiro e o passo mais importante na utilização do Data Mining, devendo-se definir aqui quais os objetivos da análise de forma clara e como os resultados vão ser medidos (Kristin, R. N. et al.,, 1999, p. 1). Estando assim definido qual o processo de negócio a analisar para o plano de deteção de fraude, deve-se então proceder à identificação dos dados necessários a essa análise, isto é, quais as respetivas base de dados, campos pretendidos, devendo esta tarefa ser executada com prudência, pois as ferramentas de Data Mining só são úteis caso os dados estejam completos e não enviesados ou distorcidos (Kristin, R. N. et al.,, 1999, p. 2). O Data Mining traz a capacidade de considerar e analisar milhares de transações em menos tempo, com mais eficiência e relação custo-eficácia do que usando técnicas mais tradicionais de amostragem forenses (KPMG, 2006, p. 16). O fenómeno do Big Data trouxe um aumento vertiginoso do volume, variedade e velocidade (3Vs) de informações de negócio, que mudou a forma como as principais empresas gerem os seus desafios de conformidade legal e investigam comportamento aberracionais ou estranhos (EY, 2014, p. 1).
21 2.5.2 Aprendizagem Supervisionada vs Não Supervisonada Em termos de estratégias de Data Mining, existem duas amplamente conhecidas: aprendizagem supervisionada e não supervisionada. Os métodos supervisionados são implementados quando existe uma variável “alvo” através da qual se pretende efetuar previsões, a partir de outras variáveis de entrada. Numa investigação de fraude, exemplos de registos com casos de fraude e de não-fraude são necessários, ou seja, todos os registos disponíveis têm de ser classificados como “fraudulento” ou “não-fraudulento” (Jans, M. et al., 2007, p. 7). Depois de construído o modelo usando esses dados como o conjunto de treino, os novos casos analisados devem ser classificados conforme os rótulos anteriores. Claro que isto implica que haja uma confiança na correta classificação dos dados do conjunto de treino, sendo esta confiança a sustentabilidade do próprio modelo. Este método é apenas aplicável na deteção de fraude de um determinado tipo, se já ocorreu e existem dados sobre a mesma ocorrência. Em contraste, os métodos não supervisionados não usam registos já classificados (Singh, K. et al., 2012, p. 6). Os métodos não supervisionados são aplicados nos casos em que não temos uma variável “alvo”, apesar de existirem as variáveis de entrada (Kristin, R. N. et al., 1999, p. 3). Estes métodos buscam análises sobre contas, clientes, fornecedores, etc, que tenham comportamentos considerados “estranhos” pela obtenção de outputs suspeitos ou de anomalias gráficas. Por fim, e para ambos os métodos, deve-se avaliar os resultados validando se os objetivos definidos foram alcançados, sendo que no caso de não estarem a ser alcançados, deve-se então efetuar uma reformulação ou ajustamento ao modelo de forma a garantir resultados mais efetivos, como por exemplo, reduzir ou eliminar os falsos positivos. A utilização de qualquer um dos dois métodos, apenas dá uma indicação da probabilidade de ocorrência de fraude, isto porque nenhuma análise estatística por si só, pode assegurar que um objeto particular em análise é fraudulento. Apenas indica que o objeto em estudo é mais provável de ser fraudulento do que outros objetos (Jans, M. et al., 2007, p. 7). É impossível ter a certeza absoluta sobre a legitimidade da intenção de quem efetua uma transação (Phua, C. et al., 2010, p. 1).
22 2.5.3 Deteção de Outliers O que é um Outlier? Segundo Hawkins (1980), é uma observação num conjunto de dados, que é suficientemente diferente ou aberrante dos restantes elementos e que levanta suspeita de ser causado por um mecanismo diferenciado. A deteção de outliers refere-se ao problema de identificar padrões nos dados alvo de análise e que não estão em conformidade com um comportamento esperado como normal. Estes padrões anómalos são muitas vezes referidos como anomalias, observações discordantes, exceções, falhas, defeitos, aberrações, ruído, erros e peculiaridades nos diferentes domínios a que se aplicam (Chandola, V. et al., 2009, p. 1). Figura 2.11 – Exemplo de outliers num conjunto de dados de 2 dimensões Fonte: Chandola et al, 2009, p. 2 Na figura 2.11 é possível observar-se duas zonas consideradas normais (N1 e N2), sendo que O1 e O2 representam duas observações remotas e O3 significa uma região distante. Os outliers estão fora das zonas consideradas normais. Para além disso, os outliers existem em praticamente todos os conjuntos reais de dados (Chandola, V. et al., 2009, p. 2).
23 Os outliers podem ser classificados em três categorias (Chandola, V. et al., 2009, p. 8): Outliers - Tipo 1 (Global) São o tipo mais simples de outliers e o foco da maioria dos esquemas de deteção de outliers existentes. As técnicas que detetam este tipo de outlier analisam a relação de uma observação individual em relação às restantes observações. Podem ser detetados sobre qualquer tipo de dados. Outliers - Tipo 2 (Contexto) Este tipo de outlier também se trata de uma instância individual, mas a diferença para o tipo 1, é que o tipo 2 pode não ser considerado um outlier se estiver num contexto diferente. Ou seja, os outliers deste tipo são definidos em função do contexto. A região de uma loja é um exemplo de um atributo de contexto. Outliers - Tipo 3 (Espacial ou Sequencial) Este tipo de outliers ocorre quando um subconjunto das instâncias dos dados observados é periférico ou distante, em relação ao conjunto global dos dados. Este tipo de outlier apenas tem significado quando os dados têm uma natureza espacial ou sequencial. Uma característica deste tipo de outlier é a sua continuidade temporal, sendo um elemento chave (Manish, G. et al., 2014, p. 1). A análise de outliers temporais investiga anomalias no comportamento dos dados, ao longo do tempo (Manish, G. et al., 2014, p. 1). Alguns exemplos dessa utilização: mercados financeiros, diagnósticos de sistemas (mecânicos, aeronaves), dados biológicos, ou transações de clientes. Outras aplicações possíveis são descritas por Zhang, Y. et al. (2007) e por Hodge, V. et al. (2004), como aplicáveis nas seguintes áreas: deteção de intrusão em sistemas informáticos, monitorização ambiental, cuidados de saúde e controlo de logística e transportes.
24 2.5.4 Tipos de variáveis: qualitativas vs quantitativas De seguida, e de forma mais pormenorizada, são descritas como podem ser analisadas as variáveis, consoante sejam qualitativas (texto) ou quantitativas (numéricas): Variáveis qualitativas são aquelas cujos resultados são possíveis de ser observados na forma de categoria, qualidade ou característica. Estas variáveis podem ser analisadas segundo a distribuição de frequências que consiste na organização dos dados de acordo com as ocorrências dos diferentes resultados observados. A contagem de quantos elementos existem em cada categoria forma uma distribuição de frequência dos dados dessa variável, que pode ser apresentada em tabela ou gráfico. As frequências podem ainda ser apresentadas em forma absoluta ou forma relativa. Como forma de conhecermos melhor as Variáveis quantitativas do conjunto de dados, várias características devem ser observadas, podendo ser agrupadas da seguinte forma: 1. Medidas de localização – estatísticas que resumem a informação da variável, dando informação do centro da distribuição dos dados: a. Média aritmética: indica o centro de um conjunto de valores, porém esta métrica perde a sua utilidade quando existem valores discrepantes (outliers). b. Mediana: centro posicional da distribuição, definida a partir da sucessão ordenada de observações, representando assim o valor central da variável. c. Moda: define o valor mais frequente da variável observada. d. Quartis (ou Percentis): correspondem a medidas de localização de tendência não central. Os quartis dividem a variável em 4 secções com igual frequência, correspondendo o Quartil 2 à mediana. 2. Medidas de dispersão – determinação da variabilidade ou dispersão da variável, relativamente à medida de localização do centro dos dados. Quanto mais heterogénea é a informação, maiores são os desvios. a. Amplitude: diferença entre o valor máximo e mínimo. b. Variância: estabelece os desvios em relação à média aritmética; c. Desvio-padrão: identifica a regularidade dos dados, correspondendo à raiz quadrada da variância. Quanto menor o seu valor, mais regular são os dados.
25 d. Amplitude Interquartílica (AIQ): diferença entre o 3º quartil e o 1º quartil. A AIQ engloba 50% das observações mais centrais. 3. Medidas de forma – permitem comprovar se uma distribuição de frequência tem características especiais como simetria, assimetria e nível de concentração: a. Assimetria/Skewness: indica o grau de distorção da distribuição em relação a uma distribuição simétrica. Revela o enviesamento que a distribuição apresenta relativamente à média. Se a distribuição se concentrar no lado esquerdo com uma longa cauda para a direita, o indicador toma valores maiores do que zero e a distribuição diz-se com enviesamento positivo. b. Achatamento/Kurtose: indica a forma da curva da distribuição em relação ao seu achatamento. A forma da curva de distribuição em relação à kurtose pode ser leptocúrtica (valores maiores do que 0), mesocúrtica (valores próximos de 0) ou platicúrtica (valores menos do que 0). Com base nos resultados acima, é possível analisar as respetivas distribuições de frequências. Esta distribuição pode ser representada graficamente por um par de eixos cartesianos, sendo que o eixo horizontal representa a variável e o eixo vertical, as frequências. A distribuição de frequências de variáveis contínuas é feita dividindo a amplitude total dos dados (diferença entre o maior e o menor valor) em vários intervalos, denominados classes. Esses intervalos devem ser mutuamente exclusivos, exaustivos e de preferência ter o mesmo tamanho. O histograma é a forma mais usual de apresentação de distribuições de frequências de uma variável contínua. São retângulos justapostos, feitos sobre as classes da variável em estudo (Abbott, D., 2014, p. 66). A área dos retângulos é igual ou proporcional à frequência observada da correspondente classe. Podem ser efetuados testes estatísticos para aferir a normalidade dos dados, sendo que um deles é o teste não-paramétrico Kolmogorov-Smirnov. Este teste destina-se a averiguar se as variáveis seguem uma distribuição normal, através da hipótese nula das variáveis seguirem uma distribuição normal.
26 Através das estatísticas é possível analisar as diferenças inter-quartis e a presença de outliers, através do gráfico “Diagrama de extremos e quartis” (box-plot), que se representa por um retângulo e que evidencia o desvio inter-quartílico. Este retângulo representa a faixa dos 50% dos valores mais típicos da distribuição. O retângulo é dividido no valor correspondente à mediana, assinalando o quartil inferior (Q1), a mediana (Q2) e o quartil superior (Q3). O valor de AIQ corresponde à diferença entre o 3º quartil (Q3) e o 1º quartil (Q1). Os outliers são aqueles cujo valor é superior ao valor da expressão (Q3 + 1,5*AIQ) ou inferior ao valor da expressão (Q1 - 1,5*AIQ) O outlier pode ser considerado de “moderado” se o seu valor estiver entre: (Q3 + 1,5*AIQ) e (Q3 + 3*AIQ) ou (Q1 – 1,5*AIQ) e (Q1 – 3*AIQ) O outlier pode ser considerado de “extremo” se o seu valor superior a: (Q3 + 3*AIQ) ou (Q1 – 3*AIQ). Figura 2.12 – Diagrama de extremos e quartis (box-plot) Fonte: Marôco, J., 2011, p. 28 A figura 2.12 exemplifica de forma gráfica o referido anteriormente, sendo um dos gráficos mais utilizados para descrever uma variável em estudo. Este gráfico pode ser gerado nas aplicações IBM SPSS, R ou Knime.
27 2.5.5 Metodologia usada em Data Mining Nos últimos anos tem-se verificado um crescimento rápido do volume e da dimensão das bases de dados, causado principalmente pela queda no custo de armazenamento dos dados. A análise desses volumes de dados começou a ficar humanamente impossível utilizando os sistemas existentes. Neste cenário surge, no final da década de 1980, um novo ramo da computação, a descoberta de conhecimento em bases de dados. O processo de extração de conhecimento em bases de dados (KDD - Knowledge Discovery in Databases) é definido como sendo um processo iterativo, não trivial, de identificação de padrões válidos, novos, potencialmente úteis, compreensíveis e embebidos nos dados, envolvendo vários passos, e com decisões feitas pelo analista. Na tentativa de tornar a extração de conhecimento das bases de dados uma realidade, e à medida que o mercado mostrou interesse pela área do Data Mining, tornou-se necessária a criação de uma nova abordagem, para demonstrar o quanto esta área era importante para ser parte do processo de negócio. Em meados da década de 90, as empresas reuniram esforços para a criação de um processo padrão de Data Mining, denominado CRISP-DM (Cross-Industry Standard Process for Data Mining). Cada empresa contribuiu com suas experiências para o desenvolvimento de um padrão que pudesse ser aplicado a qualquer tipo de problema. A metodologia CRISP-DM é descrita como um processo hierárquico, que contém seis fases, conforme se verifica na figura 2.13: compreensão do negócio, compreensão dos dados, preparação dos dados, modelação, avaliação e implementação.
28 Figura 2.13 – Ciclo de vida da metodologia CRISP-DM Compreensão do Negócio: Na fase inicial procura-se identificar quais os objetivos e necessidades em termos de perspetivas do negócio, e converter as mesmas num problema de Data Mining pela definição de plano inicial de resolução do problema. Compreensão dos Dados: Nesta fase seleciona-se os dados relevantes para o problema e identifica-se possíveis problemas na qualidade dos dados. Preparação dos Dados: Nesta fase desenrola-se o processo de construção do conjunto de dados alvo de análise. São desenvolvidas tarefas como: seleção de tabelas, registos e atributos, transformação, limpeza dos dados, para a posterior utilização dos dados na aplicação de algoritmos de Data Mining. Modelação: Aqui pretende-se selecionar e aplicar técnicas de modelação. Existem várias técnicas que podem ser utilizadas sobre o mesmo problema. Algumas dessas técnicas possuem requisitos específicos na formatação dos dados, sendo por isso muitas vezes necessário regressar à fase anterior, de preparação de dados. Avaliação: Após a modelação, o modelo construído é avaliado, tendo em conta os requisitos do negócio, e é realizada a escolha do melhor modelo. Implementação: Depois de construído e avaliado, o modelo pode ser implementado. Esta fase pode colidir com uma simples elaboração de relatórios para o apoio à tomada de decisão.
35 Na tabela 3.7 é efetuada uma análise de frequências à variável “Unidade de Negócio”, que consiste na descrição do tipo de produto. Verifica-se que as unidades “Congelados” e “TakeAway” representam menos de 4% de frequência relativa, o que indica que são tipos de artigos menos suscetíveis de serem devolvidos. Por outro lado, produtos do tipo “Higiene e Beleza” e “Mercearia Doce” são os que apresentam frequências relativas mais altas, com 6,9%: Tabela 3.7 – Frequência da variável “Unidade de Negócio” Unidade Negocio freq. abs. freq. rel. (%) Bebidas 2714 6,3% Bricolage e Auto 2326 5,4% Casa 2655 6,1% Charcutaria&Queijos 2532 5,9% Congelados 1499 3,5% Cultura 2642 6,1% Frutas e Legumes 2571 6,0% Higiene e Beleza 2966 6,9% Lacticínios 2812 6,5% Lazer 2344 5,4% Limpeza do Lar 2612 6,0% Mercearia Doce 2964 6,9% Mercearia Salgada 2732 6,3% Padaria 2366 5,5% Peixaria 2119 4,9% Pets&Plants 1800 4,2% TakeAway 1462 3,4% Talho 2090 4,8% Total 43206 100%
36 3.3.2 Variáveis quantitativas Na tabela 3.8 apresenta-se o resultado das medidas de localização, dispersão e de forma, aplicadas às variáveis quantitativas presentes no conjunto de dados: “Total artigos devolvidos” e “Valor médio artigos devolvidos”. Tabela 3.8 – Medidas estatísticas das variáveis quantitativas De forma complementar, é possível analisar os seguintes histogramas para as variáveis quantitativas. Nestes histogramas é desenhada a linha de distribuição normal o que permite evidenciar as medidas de assimetria e achatamento: Figura 3.5 – Histograma da variável “Total artigos devolvidos” Na figura 3.5, a variável “Total artigos devolvidos” mostra uma amplitude considerável entre os seus valores extremos, bem como uma variância elevada de 213. A distribuição tem um enviesamento positivo, o que indica que apesar da grande amplitude, o nº de artigos devolvidos localiza-se principalmente no 1º intervalo (entre 1 e 11). Total artigos devolvidos Valor médio artigos devolvidos 9,3 8,26 € 44,64 € 11,99 € 25 22,48 € 50 44,64 € 75 11 9,47 € 10,02 € 725 1.167,12 € 724 1.167,10 € 14,6 14,07 € 213 197,85 € 7,9 21,87 € 0,01 0,01 199,1 1.269,80 € 0,02 0,02 Moda Desvio Padrão Variância Quartis Forma Dispersão Localização Desvio padrão do Kurtosis Variáveis quantitativas em análise Medidas Nº observações 43.206 Kurtosis Skewness Desvio padrão do Skewness Média Mediana Amplitude Minimo Máximo
37 Figura 3.6 – Histograma da variável “Valor médio artigos devolvidos” Na figura 3.6, a variável “Valor médio artigos devolvidos” mostra uma amplitude considerável entre o seu valor mínimo e máximo, bem como uma variância elevada de 197,85€. A distribuição tem um enviesamento positivo, o que indica que apesar da grande amplitude, o valor médio dos artigos devolvidos localiza-se logo no 1º intervalo (entre 0,02€ e 16,67€). De seguida é realizado um teste às variáveis quantitativas, a fim de se verificar se as mesmas seguem uma distribuição normal. Pelos valores obtidos na figura 3.7, no valor do p-value (“Asymp. Sig.”), sendo os ambos inferiores ao nível de significância de 0.05 , a hipótese nula é rejeitada nos dois casos, logo pode-se concluir que as variáveis não seguem uma distribuição normal. Figura 3.7 – Teste Kolmogorov-Smirnov
38 3.4 Deteção de outliers por análises univariadas Neste ponto dá-se início à identificação de outliers através da representação gráfica boxplot na aplicação SPSS (também possível no R ou Knime). Nesta fase são realizadas análises apenas sobre cada uma das variáveis quantitativas, e destacados apenas os outliers extremos: Figura 3.8 – Box-Plot: “Total artigos devolvidos” Observa-se que o grupo é pouco homogéneo, pelo que o número de outliers globais extremos é muito elevado, dado existirem 1695 outliers de valores acima de 38, obtido através da expressão (11 + 3 * (11-2)). Desse modo, optou-se por destacar apenas 12 outliers globais extremos, visualmente mais significativos, com total de artigos devolvidos superior a 200 unidades: dois do supervisor “I21590”, sete do supervisor “D13030” e um de cada um dos supervisores “B4820”, “B95960” e “L857770”.
39 Figura 3.9 – Box-Plot: “Valor médio artigos devolvidos” Observa-se que o grupo é pouco homogéneo, pelo que o número de outliers globais extremos é muito elevado, dado existirem 1467 outliers de valores acima de 30.5, obtido através da expressão (9.5 + 3 * (9.5-2.5)). Desse modo, optou-se por destacar apenas 11 outliers globais extremos, visualmente mais significativos, com valores médios de artigos devolvidos superiores a 225€: supervisor “K778980”, “AB1101560”, “AH1103390”, “AH1096150”, “AC1099270”, “Q23100”, “AF460920”, “A225280”, “I870710”, “AH18540” e “C84400”. Conclusão: Através das análises univariadas pelos gráficos box-plot foi possível identificar outliers globais, sendo que cada uma das variáveis quantitativas revelou outliers distintos. Contudo, estas análises podem ser consideradas muito “macro” por darem apenas uma visão geral das variáveis, não revelando outliers de contexto. No quadro seguinte é apresentado um resumo dos 23 outliers identificados até aqui: Tabela 3.9 – Outliers extremos globais identificados nas análises univariadas Descrição Total Total artigos devolvidos I21590 {2} | D13030 {7} | B4820 | B95960 | L857770 12 Valor médio artigos devolvidos K778980 | AB1101560 | AH1103390 | AH1096150 | AC1099270 | Q23100 AF460920 | A225280 | I870710 | AH18540 | C84400 11 Análises univariadas Outliers globais extremos identificados
40 3.5 Deteção de outliers por análises bivariadas O objetivo neste ponto passa pela criação de um modelo iterativo, onde se vai realizando análises bivariadas (duas variáveis) pela combinação das várias variáveis entre si. Essa iteração consiste na avaliação de cada gráfico, na perspetiva de qual o valor acrescentado que o mesmo traz em termos de relevância de outliers novos, aos já conhecidos pelas análises univariadas. Neste capítulo apenas serão ilustrados os gráficos onde são observados novos outliers, sendo que os restantes gráficos podem ser consultados no Anexo II. Figura 3.10 – Box-Plot: “Zona País” vs “Valor médio artigos devolvidos” Nesta análise pretende-se verificar e detetar a presença de outliers da variável “Valor médio artigos devolvidos” em função da área geográfica onde a loja se situa. Conclusão: Observa-se que o número de outliers é muito elevado, pelo que de forma mais nítida, é possível identificar 5 novos outliers extremos que não foram identificados na análise univariada, para além de se observar os outliers globais já conhecidos: zona “Centro” - Supervisores “AB1113460” e “F136970” zona “Norte” – Supervisores “Y549030”, “A76830” e “D12380”
41 Figura 3.11 – Box-Plot: “Dia semana” vs “Total artigos devolvidos” Analisando agora as variáveis “Dia semana” e “Total artigos devolvidos”, pretende-se detetar a presença de outliers, em função do dia da semana, ou seja, dias úteis ou fins de semana/feriados. Observa-se que o número de outliers é muito elevado, pelo que de forma mais nítida, é possível identificar um novo outlier extremo, quando a variável “Dia semana” é “Fins de Semana ou Feriados“, no supervisor “I915230”. Nos “Dias úteis” não se identificam outliers novos, apenas os casos já conhecidos. Conclusão: esta análise revelou-se útil pela deteção de um novo outlier extremo, que não foi identificado na análise univariada, para além de se observar os outliers globais já conhecidos.
42 Figura 3.12 – Box-Plot: “Horario registo” vs “Total artigos devolvidos” Nesta análise pretende-se verificar e detetar a presença de outliers da variável “Total artigos devolvidos” em função do momento temporal em que se verificou o registo da devolução. Observa-se que o número de outliers é muito elevado, pelo que de forma mais nítida, é possível identificar um novo outlier extremo, quando a variável “Horario registo” é “Noite“, no supervisor “I186220”. Na “Manhã” e “Tarde” não se identificam outliers novos, apenas os casos já conhecidos. Conclusão: esta análise revelou-se útil pela deteção de um novo outlier extremo, que não foi identificado na análise univariada, para além de se observar os outliers globais já conhecidos.
43 Figura 3.13 – Box-Plot: “Horario registo” vs “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: Nesta análise bivariada entre as variáveis “Horario registo” e “Valor médio artigos devolvidos” observa-se que o número de outliers é muito elevado, pelo que de forma mais nítida, é possível identificar três novos outliers extremos: na “Noite” destacam-se dois novos casos no supervisor “I112020” e “AD1094390” e na “Tarde” observa-se um outlier associado ao supervisor “B16540”. Na análise bivariada seguinte, pelo facto de existirem 18 unidades de negócio diferentes no conjunto de dados, optou-se por efetuar uma análise gráfica box-plot em duas partes (9 unidades de negócio cada), por forma a permitir uma leitura mais percetível. Na 1ª parte da análise pretende-se verificar e detetar a presença de outliers extremos das variáveis “Total artigos devolvidos” e “Valor artigos devolvidos” nas Unidades de Negócio como Bebidas, Charcutaria & Queijos, Congelados, Frutas & Legumes, Lacticínios, Mercearia Doce, Mercearia Salgada, Peixaria e Talho.
44 Figura 3.14 – Box-Plot: “Unidade Negócio” (parte 1) vs “Total artigos devolvidos” Conclusão: No gráfico da 1ª parte desta análise bivariada observam-se 14 novos outliers extremos nas unidades de negócio “Charcutaria & Queijos”, “Lacticinios”, “Mercearia Doce”, “Peixaria” e “Talho”. Pretende-se agora analisar as mesmas variáveis nas Unidades de Negócio como Bricolage, Casa, Cultura, Higiene, Lazer, Limpeza, Padaria, Pets&Plants e Take Away. Figura 3.15 – Box-Plot: “Unidade Negócio” (parte 2) vs “Total artigos devolvidos” Conclusão: No gráfico da 2ª parte desta análise bivariada observa-se três novos outliers extremos (supervisores “B16760”, “C120710” e “AB1101050”).
51 Figura 3.19 – Regras decisão da árvore variável “Total artigos devolvidos”
52 Em termos de texto, a árvore representa-se conforme a figura 3.19, permitindo uma leitura mais percetível dos nós e das folhas da árvore. Podemos assim transformar toda a árvore em regras de decisão (não é normal denominar estas por regras de regressão). Na figura 3.19, a 1ª linha indica que o nº de observações usadas para aprendizagem foi de 43206. Abaixo cada linha está identificada com um número, que corresponde a uma identificação do nó. Em cada uma dessas linhas é indicado o nº de casos, o valor do desvio e o valor médio da variável objetivo. Por exemplo no nó número 767) são classificados 16 casos, que seguem a regra – (Dia=“Dias úteis” & Loja=”B” & Horario registo=”Manhã” & Unidade Negocio=”Lacticinios”), prevendo-se um número de artigos devolvidos de 88,8 e com um desvio de 98. Pretende-se agora estudar a árvore, e em cada nó ir realizando análises do tipo box-plot e identificar a presença de novos outliers extremos em relação às análises univariada e bivariada. O processo deve ser repetido até concluída a análise a todos os nós e folhas da árvore. O topo da árvore corresponde ao total das observações, pelo que é igual à análise univariada já realizada. A 1ª divisão da árvore acontece com a variável “Unidade Negócio”, separando a árvore em dois nós (2 e 3): De seguida são apresentados os gráficos box-plot referentes às 36 regras inerentes a cada nó/folha da árvore. Neste capítulo apenas serão ilustrados os gráficos onde são observados novos outliers extremos que não tenham sido identificados nas análises univariadas e bivariadas. Os restantes gráficos podem ser consultados no Anexo III.
53 Regras de Decisão do Nó 12 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Loja = A, AA, AB, AC, AD, AE, AF, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, E, F, G, H, I, J, K, M, N, O, P, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z E Dia semana = Fim de semana ou feriado ENTÃO Total artigos devolvidos = 8,71 N = 4835 Desvio = 515053,8 Figura 3.20 – Box-Plot do Nó 12, variável “Total artigos devolvidos” Conclusão: observam-se seis novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra descrita acima, o total artigos devolvidos é de cerca de 8.71, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 75 unidades. Os valores são superiores em quase 9 vezes o valor da média.
54 Regras de Decisão do Nó 14 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Loja = AG, AH, B, C, D, L, Q E Dia semana = Fim de semana ou feriado ENTÃO Total artigos devolvidos = 14,58 N = 1364 Desvio = 351094,1 Figura 3.21 – Box-Plot do Nó 14, variável “Total artigos devolvidos” Conclusão: observam-se seis novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra descrita acima, o total artigos devolvidos é de cerca de 14.58, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 85 unidades. Os valores são superiores em quase 6 vezes o valor da média.
55 Regras de Decisão do Nó 18 SE Loja = A, AA, AB, AC, AD, AE, AF, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, E, F, G, H, I, J, K, M, N, O, P, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z E Unidade Negocio = Bebidas, Bricolage&Auto, Charcutaria&Queijos, Cultura, Frutas&Legumes, Lacticínios, Limpeza E Dia semana = Fim de semana ou feriado ENTÃO Total artigos devolvidos = 5,83 N = 6302 Desvio = 265074,3 Figura 3.22 – Box-Plot do Nó 18, variável “Total artigos devolvidos” Conclusão: observam-se seis novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra descrita acima, o total artigos devolvidos é de cerca de 5.83, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores ou iguais a 55 unidades. Estes valores são superiores em cerca de 9 vezes o valor da média.
56 Regras de Decisão do Nó 22 SE Loja = AG, AH, B, C, D, L, Q E Unidade Negocio = Bebidas, Bricolage&Auto, Charcutaria&Queijos, Cultura, Frutas&Legumes, Lacticínios, Limpeza E Dia semana = Fim de semana ou feriado ENTÃO Total artigos devolvidos = 10,35 N = 1886 Desvio = 261460,4 Figura 3.23 – Box-Plot do Nó 22, variável “Total artigos devolvidos” Conclusão: observa-se um novo outlier extremo mais significativo, que não foi detetado em análises anteriores, no supervisor B4880. Aplicando a regra descrita acima, o total artigos devolvidos é de cerca de 10.35, no entanto no caso identificado, as devoluções efetuadas são de 112 unidades. Este valor é superior em quase de 11 vezes o valor da média.
57 Regras de Decisão do Nó 26 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Dia Semana = Dias úteis E Loja = AA, AC, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, M, O, P, R, S, T, U, V ENTÃO Total artigos devolvidos = 10,19 N = 2131 Desvio = 272956,4 Figura 3.24 – Box-Plot do Nó 26, variável “Total artigos devolvidos” Conclusão: observam-se cinco novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra descrita acima, o total artigos devolvidos é de cerca de 10.19, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores ou iguais a 65 unidades. Estes valores são superiores em cerca de 6 vezes o valor da média.
58 Regras de Decisão do Nó 46 SE Unidade Negócio = Bebidas, Bricolage&Auto, Charcutaria&Queijos, Cultura, Frutas&Legumes, Lacticinios, Limpeza E Dia Semana = Dias úteis E Loja = AG, AH, D, Q ENTÃO Total artigos devolvidos = 15,47 N = 1226 Desvio = 570995,2 Figura 3.25 – Box-Plot do Nó 46, variável “Total artigos devolvidos” Conclusão: observam-se quatro novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra descrita acima, o total artigos devolvidos é de cerca de 15.47, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores ou iguais a 90 unidades. Estes valores são superiores em quase 6 vezes o valor da média.
59 Regras de Decisão do Nó 55 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Dia Semana = Dias úteis E Loja = A, AB, AD, AE, AF, E, F, G, H, I, J, K, N, W, X, Y, Z E Horario registo = Tarde ENTÃO Total artigos devolvidos = 18,87 N = 1531 Desvio = 889838,2 Figura 3.26 – Box-Plot do Nó 55, variável “Total artigos devolvidos” Conclusão: observam-se cinco novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra descrita acima, o total artigos devolvidos é de cerca de 18.87, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 130 unidades. Estes valores são superiores em quase 7 vezes o valor da média.
60 Regras de Decisão do Nó 62 E Unidade Negocio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Dia semana = Dias úteis E Horario registo = Tarde E Loja = AH, D ENTÃO Total artigos devolvidos = 22,34 N = 248 Desvio = 160189,9 Figura 3.27 – Box-Plot do Nó 62, variável “Total artigos devolvidos” Conclusão: observa-se um novo outlier extremo, que não foi detetado em análises anteriores, no supervisor AH1103120. Aplicando a regra descrita acima, o total artigos devolvidos é de cerca de 22.34, no entanto no caso identificado, as devoluções efetuadas são de 124 unidades. Este valor é superior em cerca de 5,5 vezes o valor da média.
67 Regras de Decisão do Nó 9 SE Unidade Negócio = Cultura, Limpeza, Talho ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 6,63€ N = 7344 Desvio = 225273,6 Figura 3.32 – Box-Plot do Nó 9, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se seis novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Nos produtos de Cultura, Limpeza ou Talho, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 6,63€, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 69€. Este valor é superior em cerca de 10 vezes o valor da média.
68 Regras de Decisão do Nó 10 SE Unidade Negócio = Bebidas, Higiene, Pets&Plants ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 9,37€ N = 7480 Desvio = 1105080 Figura 3.33 – Box-Plot do Nó 10, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observa-se um novo outlier extremo mais significativo, que não foi detetado em análises anteriores. Nos produtos de Bebidas, Higiene ou Pets&Plants, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 9,37€, no entanto no caso identificado, as devoluções efetuadas é igual a 173€. Este valor é superior em cerca de 18 vezes o valor da média.
69 Regras de Decisão do Nó 11 SE Unidade Negócio = Casa, Peixaria ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 12,94€ N = 4774 Desvio = 1713273 Figura 3.34 – Box-Plot do Nó 11, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se quatro novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Nos produtos de Casa ou Peixaria, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 12,94€, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 170€. Este valor é superior em cerca de 13 vezes o valor da média.
70 Regras de Decisão do Nó 12 SE Unidade Negócio = Bricolage&Auto E Loja = A, AC, AE, AG, AH, AI, AK, C, D, E, F, G, H, I, J, L, M, P, Q, T, Y ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 15,11€ N = 1472 Desvio = 355707,1 Figura 3.35 – Box-Plot do Nó 12, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se sete novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra acima descrita, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 15,11€, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 125€. Este valor é superior em cerca de 8 vezes o valor da média.
71 Regras de Decisão do Nó 13 SE Unidade Negócio = Bricolage&Auto E Loja = AA, AB, AD, AF, AJ, AL, AM, AN, B, K, N, O, R, S, U, V, W, X, Z ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 19,76€ N = 854 Desvio = 413455,3 Figura 3.36 – Box-Plot do Nó 13, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se dois novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra acima descrita, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 19,76€, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 145€. Este valor é superior em cerca de 7 vezes o valor da média.
72 Regras de Decisão do Nó 14 SE Unidade Negócio = Lazer E Loja = A, AA, AC, AE, AF, AG, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, B, C, E, F, G, H, I,J, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, U, W, X, Y, Z ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 27,98€ N = 1973 Desvio = 486453 Figura 3.37 – Box-Plot do Nó 14, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se quatro novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra acima descrita, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 27,98€, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 145€. Este valor é superior em cerca de 5 vezes o valor da média.
73 Regras de Decisão do Nó 15 SE Unidade Negócio = Lazer E Loja = AB, AD, AH, D, K, V ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 35,76€ N = 371 Desvio = 759530,8 Figura 3.38 – Box-Plot do Nó 15, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se três novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra acima descrita, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 35,76€, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 145€. Este valor é superior em cerca de 4 vezes o valor da média. Outlier já identificado na bivariada
74 Regras de Decisão do Nó 16 SE Unidade Negócio = Frutas&Legumes, Padaria ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 2,55€ N = 4937 Desvio = 24465,84 Figura 3.39 – Box-Plot do Nó 16, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se dois novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Nos produtos de “Frutas&Legumes” ou de “Padaria”, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 2,55€, no entanto nos dois casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 35€. Estes valores são superiores em cerca de 13,7 vezes o valor da média.
75 Regras de Decisão do Nó 30 SE Unidade Negócio = Lazer E Loja = AD, AH, D, K, V ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 34,26€ N = 326 Desvio = 424464,8 Figura 3.40 – Box-Plot do Nó 30, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se três novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra acima descrita, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 34,26€, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 145€. Este valor é superior em cerca de 4 vezes o valor da média. Outlier já identificado na bivariada
76 Regras de Decisão do Nó 34 SE Unidade Negócio = Charcutaria&Queijos, Congelados, Lacticínios, Mercearia Doce, Mercearia Salgada, TakeAway E Loja = A, AA, AB, AC, AD, AE, AF, AG, AH, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, B, C, D, E, F, G, H, I, J, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 3,94€ N = 13608 Desvio = 332110,1 Figura 3.41 – Box-Plot do Nó 34, variável “Valor médio artigos devolvidos” Conclusão: observam-se cinco novos outliers extremos mais significativos, que não foram detetados em análises anteriores. Aplicando a regra descrita acima, o valor médio dos artigos devolvidos é de cerca de 3,94€, no entanto nos casos identificados, as devoluções efetuadas são superiores a 95€. Estes valores são superiores em cerca de 24 vezes o valor da média.
83 Após a realização das análises multivariadas para as duas variáveis objetivo, é importante resumir os novos outliers extremos identificados, dado que não tinham sido observados nas análises univariadas e bivariadas: Tabela 3.11 – Novos Outliers extremos identificados nas análises multivariada, variável objetivo: Total artigos devolvidos Tabela 3.12 – Novos Outliers extremos identificados nas análises multivariada, variável objetivo: Valor médio artigos devolvidos Conforme se verifica pelas tabelas 3.11 e 3.12, através das análises multivariadas, foram identificados 90 novos outliers extremos, que não tinham sido observados nas análises univariada e bivariada. Variável objectivo: Total artigos devolvidos Total 12 A21440 | AE1116250 | AF1458260 | K932810 | I44830 | I458040 6 14 AG1106410 | L753210 {2} | C691530 | C437860 {2} 6 18 AE1116250 {2} | K1029320 | AB1115780 {2} | G50820 6 22 B4880 1 26 AM1520790 | U897930 | P99290 | AI1347930 {2} 5 46 AG1110250 | AG1106410 {3} 4 55 I27440 | Y1096090 {3} | I114130 5 62 AH1103120 1 34 Análises multivariadas Nº do Nó / Folha Novos Outliers extremos identificados (outliers de contexto) Total Variável objectivo: Valor médio artigos devolvidos Total 5 G51690 | D33920 | AA253110 | G51280 4 6 U298540 | AL263700 | H223880 3 9 B99500 | I115150 | AA1224110 | AH1103390 | E1461750 | I1937860 6 10 D33920 1 11 G51280 | G51690 | AE1104430 | AA253110 4 12 H223880 | G29950 | H97150 | G51280 | AE1104430 | A15160 | A10160 7 13 U298540 | AL263700 2 14 U180660 | J119130 | B9680 | Z1722240 4 15 V304510 | D13030 | K508770 3 16 I109720 | A10160 2 30 V304510 | D13030 | K508770 3 34 H97150 | W794120 | G51660 | F38380 | AG1106410 5 60 D13030 | K508770 2 61 V304510 1 62 AB1101990 1 70 K778980 | K1029320 | K211390 | K4410 | K798250 | K804580 6 122 V304510 1 286 K114610 1 56 Total Novos Outliers extremos identificados (outliers de contexto) Análises multivariadas Nº do Nó / Folha
84 Capítulo 4: Conclusões e trabalho futuro Os objetivos deste trabalho de dissertação foram alcançados, pela criação de um modelo de aprendizagem não supervisionada, que permitisse a deteção de casos anómalos ou estranhos na área de devoluções de artigos em loja, que possam ser fraude ou não. O conjunto de dados analisado foi obtido através de transações reais, num grupo de 40 lojas de um retalhista. O período observado é referente a Dezembro-2014 a Fevereiro2015. As devoluções de artigos são um dos esquemas mais comuns de fraude na indústria do retalho, fazendo parte da sub-categoria de “Desembolsos fraudulentos” da árvore da fraude publicada pela maior organização mundial antifraude que é a ACFE. O plano de trabalho consistiu na deteção de casos anómalos ou estranhos pela identificação de outliers, observados através dos gráficos box-plot, e pelas análises univariadas, bivariadas e multivariadas, aplicadas sobre as variáveis do conjunto de dados. As análises univariadas permitiram de uma forma rápida identificar vários outliers extremos globais, num grupo de características pouco homogéneas. Embora sejam análises úteis, carecem de maior profundidade na extração de conhecimento, dado que apenas olhamos para uma variável de cada vez. Desse modo, o passo seguinte foi efetuar análises bivariadas, pela combinação das variáveis, duas a duas. Aqui foi possível explorar e identificar novos casos (outliers) não observados anteriormente nas análises univariadas. Por fim, efetuou-se análises multivariadas como forma de estudar as duas variáveis quantitativas, através da combinação das variáveis qualitativas em simultâneo. Essa análise foi efetuada através do desenvolvimento de árvores de regressão, tendo revelado novos casos desconhecidos até então. Destes três tipos de análise, a multivariada é sem dúvida a mais rica em termos de extração de conhecimento, dado que para além de identificar outliers globais, consegue descer a um nível de detalhe muito interessante, e revelar casos bem “escondidos”, considerados como outliers de contexto.
85 Por exemplo, só assim foi possível identificar dois outliers extremos (ver figura 3.39), num contexto de devoluções de produtos de “Frutas&Legumes” ou “Padaria”, cujo valor médio ronda os 2,55€, mas no entanto dois supervisores realizaram devoluções a um valor médio superior a 35€. Este valor é superior em cerca de 13,7 vezes o valor da média. Este é um tipo de outlier de contexto, que dificilmente seria observado nas análises univariada e bivariada, dai a importância das análises multivariadas. Em termos de resumo final dos resultados alcançados, deve-se referir que foram identificados cerca de 147 outliers extremos (total entre globais e de contexto, pelos três tipos de análises), o que confirma o objetivo do trabalho de detetar casos anómalos ou estranhos. Porém a confirmação de cada caso sobre a conclusão se é fraude ou não, só é possível através de uma averiguação e investigação nas respetivas lojas, sendo que esse processo pode envolver técnicas de investigação forense. Desse modo o âmbito desta dissertação termina nesta fase de deteção de casos anómalos ou estranhos. Proposta para trabalho futuro: Perante a confirmação e satisfação com os resultados obtidos, o trabalho futuro mais imediato passa pela sistematização do modelo apresentado, para permitir a identificação mais periódica de situações estranhas. Os gráficos de deteção de outliers são bastante intuitivos e podem ser desenvolvidos no SPSS ou no R. Um outro desafio passa também pela obtenção de novas variáveis associadas ao processo das devoluções de artigos, que possam enriquecer e complementar a análise. A inclusão de variáveis sobre o stock dos artigos devolvidos pode ser interessante, dado que um dos riscos das devoluções é o furto do artigo devolvido, após o registo da devolução e reembolso ao cliente. Seria também interessante analisar outros conjuntos de dados, com dimensão temporal, explorar e detetar casos anómalos ou estranhos, tal como efetuado neste trabalho. O modelo desenvolvido neste trabalho é extensível e flexível para outros esquemas de possível fraude, como anulação de artigos durante a venda ou anulação de transações durante a venda, etc.
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89 ANEXO I – Árvore da fraude
90 Figura A1.1 - Árvore da Fraude (versão completa) Fonte: ACFE, 2014, p. 11
91 ANEXO II - Análises bivariadas
92 Figura A2.1 – Box-Plot: “Zona País” vs “Total artigos devolvidos” Nesta análise pretende-se verificar e detetar a presença de outliers da variável “Total artigos devolvidos” em função da área geográfica onde a loja se situa. Observa-se que o número de outliers é muito elevado, pelo que de forma nítida não é possível identificar novos outliers. Conclusão: esta análise não revelou a existência de novos outliers, apenas se observa os outliers já conhecidos nas análises univariada e bivariada do capítulo 3.
99 Regras de Decisão do Nó 5 SE Unidade Negócio = Bebidas, Bricolage&Auto, Charcutaria&Queijos, Congelados, Cultura, Frutas&Legumes, Lacticinios, Limpeza, Padaria, Peixaria, Pets&Plants, TakeAway, Talho E Loja = AG, AH, B, C, D, L, Q ENTÃO Total artigos devolvidos = 11,36 N = 6982 Desvio = 1979454 Figura A3.4 – Box-Plot do Nó 5, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
100 Regras de Decisão do Nó 6 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Loja = A, AA, AB, AC, AD, AE, AF, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, E, F, G, H, I, J, K, M, N, O, P, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z ENTÃO Total artigos devolvidos = 11,59 N = 10673 Desvio = 2977266 Figura A3.5 – Box-Plot do Nó 6, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
101 Regras de Decisão do Nó 7 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Loja = AG, AH, B, C, D, L, Q ENTÃO Total artigos devolvidos = 20,72 N = 2988 Desvio = 2142962 Figura A3.6 – Box-Plot do Nó 7, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
102 Regras de Decisão do Nó 8 SE Loja = A, AA, AB, AC, AD, AE, AF, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, E, F, G, H, I, J, K, M, N, O, P, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z E Unidade Negócio = Congelados, Padaria, Peixaria, Pets&Plants, TakeAway, Talho ENTÃO Total artigos devolvidos = 4,02 N = 8489 Desvio = 222951,4 Figura A3.7 – Box-Plot do Nó 8, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
103 Regras de Decisão do Nó 9 SE Loja = A, AA, AB, AC, AD, AE, AF, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, E, F, G, H, I, J, K, M, N, O, P, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z E Unidade Negócio = Bebidas, Bricolage&Auto, Charcutaria&Queijos, Cultura, Frutas&Legumes, Lacticinios, Limpeza ENTÃO Total artigos devolvidos = 7,41 N = 14074 Desvio = 1116969 Figura A3.8 – Box-Plot do Nó 9, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
104 Regras de Decisão do Nó 10 SE Loja = AG, AH, B, C, D, L, Q E Unidade Negócio = Congelados, Padaria, Peixaria, Pets&Plants, TakeAway, Talho ENTÃO Total artigos devolvidos = 6,89 N = 2847 Desvio = 281338,7 Figura A3.9 – Box-Plot do Nó 10, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
105 Regras de Decisão do Nó 11 SE Loja = AG, AH, B, C, D, L, Q E Unidade Negócio = Bebidas, Bricolage&Auto, Charcutaria&Queijos, Cultura, Frutas&Legumes, Lacticinios, Limpeza ENTÃO Total artigos devolvidos = 14,44 N = 4135 Desvio = 1601965 Figura A3.10 – Box-Plot do Nó 11, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
106 Regras de Decisão do Nó 13 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Loja = A, AA, AB, AC, AD, AE, AF, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, E, F, G, H, I, J, K, M, N, O, P, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z E Dia Semana = Dias úteis ENTÃO Total artigos devolvidos = 13,98 N = 5838 Desvio = 2388991 Figura A3.11 – Box-Plot do Nó 13, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
107 Regras de Decisão do Nó 15 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Loja = AG, AH, B, C, D, L, Q E Dia semana = Dias úteis ENTÃO Total artigos devolvidos = 25,87 N = 1624 Desvio = 1697310 Figura A3.12 – Box-Plot do Nó 15, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
108 Regras de Decisão do Nó 19 SE Loja = A, AA, AB, AC, AD, AE, AF, AI, AJ, AK, AL, AM, AN, E, F, G, H, I, J, K, M, N, O, P, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z E Unidade Negócio = Bebidas, Bricolage&Auto, Charcutaria&Queijos, Cultura, Frutas&Legumes, Lacticinios, Limpeza E Dia semana = Dias úteis ENTÃO Total artigos devolvidos = 8,7 N = 7772 Desvio = 823273,8 Figura A3.13 – Box-Plot do Nó 19, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
115 Regras de Decisão do Nó 63 SE Unidade Negócio = Casa, Higiene, Lazer, Mercearia Doce, Mercearia Salgada E Dia semana = Dias úteis E Horario registo = Tarde E Loja = AG, B, C, L, Q ENTÃO Total artigos devolvidos = 34,01 N = 423 Desvio = 505438,9 Figura A3.20 – Box-Plot do Nó 63, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não identificou a presença de outliers extremos.
116 Regras de Decisão do Nó 94 SE Dia Semana = Dias úteis E Loja = B, C, L E Unidade Negócio = Bebidas, Bricolage&Auto, Charcutaria&Queijos, Cultura, Limpeza ENTÃO Total artigos devolvidos = 19 N = 713 Desvio = 323440 Figura A3.21 – Box-Plot do Nó 94, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
117 Regras de Decisão do Nó 95 SE Dia Semana = Dias úteis E Loja = B, C, L E Unidade Negócio = Frutas&Legumes, Lacticinios ENTÃO Total artigos devolvidos = 24,73 N = 310 Desvio = 365549,7 Figura A3.22 – Box-Plot do Nó 95, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
118 Regras de Decisão do Nó 190 SE Dia Semana = Dias úteis E Unidade Negócio = Frutas&Legumes, Lacticinios E Loja = C, L ENTÃO Total artigos devolvidos = 20,43 N = 205 Desvio = 100228,4 Figura A3.23 – Box-Plot do Nó 190, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos, apenas os já conhecidos.
119 Regras de Decisão do Nó 191 SE Dia Semana = Dias úteis E Unidade Negócio = Frutas&Legumes, Lacticinios E Loja = B ENTÃO Total artigos devolvidos = 33,1 N = 105 Desvio = 254173,8 Figura A3.24 – Box-Plot do Nó 191, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos, apenas os já conhecidos.
120 Regras de Decisão do Nó 382 SE Dia Semana = Dias úteis E Unidade Negócio = Frutas&Legumes, Lacticinios E Loja = B E Horario registo = Tarde, Noite ENTÃO Total artigos devolvidos = 20,77 N = 73 Desvio = 27327,04 Figura A3.25 – Box-Plot do Nó 382, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos, apenas os já conhecidos.
121 Regras de Decisão do Nó 383 SE Dia Semana = Dias úteis E Unidade Negócio = Frutas&Legumes, Lacticinios E Loja = B E Horario registo = Manhã ENTÃO Total artigos devolvidos = 61,25 N = 32 Desvio = 190386 Figura A3.26 – Box-Plot do Nó 383, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos, apenas os já conhecidos.
122 Regras de Decisão do Nó 766 SE Dia Semana = Dias úteis E Loja = B E Horario registo = Manhã E Unidade Negócio = Frutas&Legumes ENTÃO Total artigos devolvidos = 33,69 N = 16 Desvio = 12311,44 Figura A3.27 – Box-Plot do Nó 766, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não identificou a presença de outliers extremos.
123 Regras de Decisão do Nó 767 SE Dia Semana = Dias úteis E Loja = B E Horario registo = Manhã E Unidade Negócio = Lacticinios ENTÃO Total artigos devolvidos = 88,81 N = 16 Desvio = 153764,4 Figura A3.28 – Box-Plot do Nó 767, variável “Total artigos devolvidos” Nota: esta análise não identificou a presença de outliers extremos.
124 ANEXO IV - Análises multivariadas: variável objetivo “Valor médio artigos devolvidos”
131 Regras de Decisão do Nó 31 SE Unidade Negócio = Lazer E Loja = AB ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 46,61€ N = 45 Desvio = 329036,5 Figura A4.7 – Box-Plot do Nó 31, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos, apenas o já conhecido.
132 Regras de Decisão do Nó 35 SE Unidade Negócio = Charcutaria&Queijos, Congelados, Lacticinios, Mercearia Doce, Mercearia Salgada, TakeAway E Loja = K ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 6,48€ N = 393 Desvio = 1353429 Figura A4.8 – Box-Plot do Nó 35, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
133 Regras de Decisão do Nó 63 SE Unidade Negócio = Lazer E Loja = AB E Dia semana = Fim de semana ou feriado ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 62,92€ N = 20 Desvio = 310727 Figura A4.9 – Box-Plot do Nó 63, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos, apenas o já conhecido.
134 Regras de Decisão do Nó 71 SE Loja = K E Unidade Negócio = Lacticinios ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 18,67€ N = 77 Desvio = 1336895 Figura A4.10 – Box-Plot do Nó 71, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
135 Regras de Decisão do Nó 123 SE Unidade Negócio = Lazer E Horario registo = Manhã E Loja = AH ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 59,59€ N = 24 Desvio = 258218,5 Figura A4.11 – Box-Plot do Nó 123, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
136 Regras de Decisão do Nó 126 SE Unidade Negócio = Lazer E Loja = AB E Dia semana = Fim de semana ou feriado E Horario registo = Manhã, Noite ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 33,82€ N = 10 Desvio = 3445,515 Figura A4.12 – Box-Plot do Nó 126, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
137 Regras de Decisão do Nó 127 SE Unidade Negócio = Lazer E Loja = AB E Dia semana = Fim de semana ou feriado E Horario registo = Tarde ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 92,02€ N = 10 Desvio = 290344,1 Figura A4.13 – Box-Plot do Nó 127, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
138 Regras de Decisão do Nó 142 SE Loja = K E Unidade Negócio = Lacticinios E Horario registo = Manhã, Noite ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 3,53€ N = 48 Desvio = 249,3271 Figura A4.14 – Box-Plot do Nó 142, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não identificou outliers extremos.
139 Regras de Decisão do Nó 143 SE Loja = K E Unidade Negócio = Lacticinios E Horario registo = Tarde ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 43,74€ N = 29 Desvio = 1307423 Figura A4.15 – Box-Plot do Nó 143, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não revelou a existência de novos outliers extremos significativos, apenas os já conhecidos.
140 Regras de Decisão do Nó 246 SE Unidade Negócio = Lazer E Horario registo = Manhã E Loja = AH E Dia semana = Fim de semana ou feriado ENTÃO Valor médio artigos devolvidos = 24,07€ N = 9 Desvio = 658, 4663 Figura A4.16 – Box-Plot do Nó 246, variável “Valor médio artigos devolvidos” Nota: esta análise não identificou outliers extremos.