Relatório de Estágio realizado na Farmácia Fonseca
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Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária Setembro 2014 a Fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia I Miguel Eduardo Magalhães Gouveia
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia II Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto Relatório De Estágio Profissionalizante Farmácia Fonseca setembro 2014 – fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia Orientador: Dr. Carlos Fonseca __________________________________ Tutor FFUP: Prof.ª Doutora Irene Jesus __________________________________
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia III Declaração de Integridade Eu Miguel Eduardo Magalhães Gouveia, abaixo assinado, nº 080601205, aluno do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, declaro ter atuado com absoluta integridade na elaboração deste documento. Nesse sentido, confirmo que NÃO incorri em plágio (ato pelo qual um indivíduo, mesmo por omissão, assume a autoria de um determinado trabalho intelectual ou partes dele). Mais declaro que todas as frases que retirei de trabalhos anteriores pertencentes a outros autores foram referenciadas ou redigidas com novas palavras, tendo neste caso colocado a citação da fonte bibliográfica. Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, ____ de __________________ de ______ Assinatura: ______________________________________
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia IV Agradecimentos: Dr. Carlos Fonseca, diretor Técnico da Farmácia, pela excelente orientação e transmissão de conhecimentos ao longo do meu estágio. Dra. Ana Cláudia Amador um agradecimento especial por todos os ensinamentos muito enriquecedores e que me serão muito úteis ao longo de toda a minha carreira profissional. Dra. Márcia Batista, Dra. Tânia Oliveira e Berta Silva pela vontade de ensinar, companheirismo e boa disposição, o que facilitou muito a minha integração na Farmácia Fonseca contribuindo para que este estágio fosse uma experiência muito enriquecedora tanto a nível pessoal como profissional.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia V Resumo O estágio curricular decorreu durante 6 meses (de setembro 2014 a fevereiro 2015) numa farmácia comunitária em Fânzeres, a Farmácia Fonseca. O estágio permitiu consolidar os conhecimentos adquiridos durante os 5 anos de curso na FFUP. Estes 6 meses significaram um grande crescimento quer a nível profissional como pessoal no exercício da atividade farmacêutica. O relatório é composto por 2 partes. A primeira parte descreve a atividade profissional desenvolvida na farmácia comunitária. A segunda parte é uma consequência da experiência vivida, e dúvidas dos utentes que levaram à realização de 2 panfletos informativos e ao desenvolvimento de um trabalho teórico sobre uma nova associação de fármacos para o tratamento da doença pulmonar obstrutiva crónica.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia VI Índice 1. Introdução .......................................................................................................... IX 2. Caracterização da Farmácia Fonseca .............................................................. 1 2.1 Localização, horário e enquadramento sociocultural .............................................. 1 2.2 Recursos humanos ................................................................................................ 2 2.3 Espaço exterior, físico e funcional .......................................................................... 3 2.4 Fontes de informação ............................................................................................ 4 2.5 Sistema informático ................................................................................................ 4 3. Gestão de stocks, encomendas e aprovisionamento ..................................... 5 3.1 Gestão de stocks ................................................................................................... 5 3.2 Seleção de fornecedores ....................................................................................... 6 3.3 Realização de encomendas ................................................................................... 6 3.4 Receção e conferência de encomendas ................................................................ 6 3.5 Armazenamento ..................................................................................................... 7 3.6 Controlo e gestão de stocks ................................................................................... 8 3.7 Controlo de prazos de validade e de stocks ........................................................... 8 3.8 Devoluções ............................................................................................................ 9 4. Dispensa de medicamentos .............................................................................. 9 4.1 Dispensa de MSRM ............................................................................................. 10 4.1.1 Medicamentos genéricos .................................................................................. 11 4.1.2 Dispensa de medicamentos estupefacientes e psicotrópicos ............................ 12 4.1.3 Comparticipação de medicamentos .................................................................. 12 4.1.4 Dispensa e aconselhamento farmacêutico ........................................................ 13 4.1.5 Conferência de receituário e faturação .............................................................. 13 4.2 Dispensa de MNSRM ........................................................................................... 14 5. Dispensa de outros produtos farmacêuticos ................................................ 15 5.1 Medicamentos e produtos de uso veterinário ....................................................... 15 5.2 Produtos de cosmética e higiene corporal ............................................................ 15 5.3 Alimentação especial; suplementos alimentares e vitamínicos ............................. 16 5.4 Produtos de puericultura e obstetrícia .................................................................. 16 5.5 Produtos homeopáticos e fitoterapêuticos ............................................................ 16 5.6 Dispositivos médicos ............................................................................................ 17 5.7 Manipulados ......................................................................................................... 17 6. Cuidados de saúde prestados na farmácia .................................................... 17 6.1 Pressão arterial .................................................................................................... 18 6.2 Glicemia ............................................................................................................... 18 6.3 Colesterol total e triglicerídeos ............................................................................. 19 6.4 Peso e altura ........................................................................................................ 19 6.5 VALORMED e recolha de radiografias ................................................................. 19 Terapia de cessação tabágica ............................................................................. 22 Introdução .................................................................................................................. 22
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia VII Tratamento ................................................................................................................ 23 Novas terapêuticas no tratamento da doença pulmonar crónica obstrutiva .. 24 Introdução .................................................................................................................. 24 Diagnóstico ................................................................................................................ 25 Tratamento ................................................................................................................ 25 Conclusão .................................................................................................................. 28 Micoses ................................................................................................................. 29 Resumo ..................................................................................................................... 29 Introdução .................................................................................................................. 29 Métodos ..................................................................................................................... 29 Resultados ................................................................................................................. 30 Micoses subcutâneas................................................................................................. 30 Micoses cutâneas e mucocutâneas ........................................................................... 30 Tinha dos pés ............................................................................................................ 30 Tinha da barba ........................................................................................................... 31 Tinha da cabeça ........................................................................................................ 31 Tinha do corpo ........................................................................................................... 32 Tinha inguinal ou tinea cruris ..................................................................................... 32 Onicomicose ou tinea unguium .................................................................................. 33 Onicomicose subungueal distal lateral ....................................................................... 33 Onicomicose branca superficial ................................................................................. 33 Onicomicose subungueal proximal ............................................................................. 34 Onicomicose candidásica .......................................................................................... 34 Onicodistrofia total ..................................................................................................... 34 Conclusão .................................................................................................................. 34 Bibliografia............................................................................................................ 35 Anexos .................................................................................................................. 37 Anexo 1 Panfleto Tabagismo ..................................................................................... 38 Anexo 2 Panfleto Micoses ............................................. Error! Bookmark not defined.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia VIII Lista de Abreviaturas MICF Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas FFUP Faculdade Farmácia da Universidade do Porto ARS Administração Regional Saúde ANF Associação Nacional de Farmácias FF Farmácia Fonseca RCM Resumo das Características do Medicamento INFARMED Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. PVP Preço Venda Público MSRM Medicamento Sujeito a Receita Médica MNSRM Medicamento Não Sujeito a Receita Médica DCI Denominação Comum Internacional SNC Sistema Nervoso Central PCHC Produtos Cosmética Higiene Pessoal
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia IX Índice de figuras Figura 1 - Salbutamol ....................................................................................... 26 Figura 2 - Salmeterol ........................................................................................ 26 Figura 3 - Indacaterol ....................................................................................... 27 Figura 4 - Brometo de glicopirróneo ................................................................. 27 Figura 5 - Efeito da associação de indacaterol 110 μg mais brometo de glicopirrónio 50μg no volume expiratório forçado no 1º segundo versus dose única de indacaterol e brometo de glicopirrónio, placebo e tiotrópio. ............................................. 28 Figura 6 - Tinha dos pés (Tinea pedis) ............................................................. 30 Figura 7 - Tinha da cabeça (Tinea capitis) ....................................................... 31 Figura 8 - Tinha do corpo ................................................................................. 32 Figura 9 - Onicomicose (Tinea unguium) ......................................................... 33 Índice de tabelas Tabela 1 - Prevalência do consumo de tabaco na população portuguesa com mais de 15 anos ............................................................................................................ 22 Tabela 2 - Fumadores diários com idade superior a 15 anos por sexo na população portuguesa .................................................................................................. 23
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 7 a encomenda se destina mesmo à farmácia, consultando para esse efeito a fatura. O passo seguinte será armazenar todos os medicamentos que necessitem de condições especiais de armazenamento, como por exemplo as insulinas, que têm de ser armazenadas no frigorífico. Após estes primeiros passos há que dar entrada dos medicamentos no menu “Receção de encomendas” no Sifarma2000®: começa-se por introduzir os produtos no sistema informático ao mesmo tempo que se corrigem prazos de validade e marca o PVP; uma vez finalizada esta tarefa, fecha-se a receção e imprimem-se as etiquetas com o PVP para os produtos de venda livre. Há que destacar, no caso das encomendas por via telefónica, que estas não constam do menu “Receção de encomendas”, pelo que primeiro é necessário criar uma encomenda manual para que o sistema informático reconheça que existe uma encomenda por rececionar, sendo que o restante procedimento é igual ao anteriormente mencionado. 3.5 Armazenamento Concluídas as etapas de receção e conferência da encomenda e a eventual marcação de preços, deve-se proceder ao armazenamento dos produtos recebidos. Um bom armazenamento é fundamental para tornar o atendimento mais rápido e eficaz, garantir que todas as condições de conservação dos medicamentos e outros produtos de saúde são satisfeitas. Durante o período de estágio efetuou por diversas vezes esta atividade, sendo das primeiras tarefas realizadas e o primeiro contacto com os medicamentos em si, as formas e cores das embalagens, nomes comerciais, as diferentes formas farmacêuticas com o mesmo nome comercial e, principalmente, com a localização de todos os produtos. Pode, sem margem para dúvida, assegurar que este processo ajudou na posterior dispensação dos produtos por estar familiarizado com a localização dos mesmos. O armazenamento na FF é feito em armários de gavetas deslizantes. o Cremes, geles e pomadas; o Preparações retais (supositórios, enemas); o Preparações extemporâneas; o Preparações nasais, oftálmicas e auriculares; o Soluções orais e gotas; o Injetáveis.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 8 Os medicamentos de marca e genéricos são armazenados em 2 armários de gavetas separados e por ordem alfabética. Estes estão organizados por ordem alfabética da DCI (Denominação Comum Internacional). Em todos os casos, os produtos com prazos de validade mais curtos são colocados à frente dos restantes, de acordo com a regra First Expired, First Out (FEFO). A FF possui ainda um frigorífico para o armazenamento dos produtos que requerem temperaturas mais baixas, nomeadamente as vacinas e insulinas, possibilitando uma conservação segura destes produtos. Todos os produtos estão armazenados em condições de temperatura e humidade adequados, controlados por termohigrómetros. 3.6 Controlo e gestão de stocks O controlo e gestão de stock da farmácia são um dos elementos essenciais para assegurar a rentabilidade e sustentabilidade da mesma. Por stock entendase o conjunto de produtos e medicamentos com presença física na farmácia, passíveis de venda e utilização. Uma boa gestão de stock garante a presença dos produtos necessários para satisfazer as necessidades da população que normalmente afluem à farmácia, mas também, a maximização do investimento de capital, maior liquidez e minimiza as perdas por retenção de produtos. O stock ideal deverá ser aquele que permita uma boa rotação de produtos, o que, por sua vez, leva a uma maior liquidez da farmácia e a uma maximização económica e financeira do capital investido. Desta forma, para cada produto, é necessário estipular um stock mínimo e um stock máximo, que evitem a rutura de stock e, simultaneamente, não conduzam à retenção de produtos. O estabelecimento destes valores encontra-se facilitado pelo sistema informático (Sifarma 2000®) e pela existência de uma ficha do produto, permitindo a consulta do histórico de vendas. 3.7 Controlo de prazos de validade e de stocks Os medicamentos e outros produtos farmacêuticos, quando mantidos sob as condições de armazenagem indicadas pelo fabricante, devem manter-se estáveis, química e fisicamente, durante um período de tempo definido. O
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 9 controlo do prazo de validade é uma preocupação constante, assegurando que todos os produtos dispensados se encontram em boas condições. Para além de um primeiro controlo realizado durante a receção das encomendas, no início de cada mês é elaborada, a partir do sistema informático, uma lista dos medicamentos com prazo de validade a expirar nos próximos 5 meses. Os medicamentos com prazo de validade a expirar serão recolhidos e devolvidos ao fornecedor. Esta listagem também permite efetuar uma verificação física dos stocks, de maneira a ver se coincidem com os stocks informáticos. Se o prazo de validade não se encontra atualizado, é anotada a validade mais curta na respetiva listagem e mais tarde é feita uma atualização dos prazos de validade no sistema informático e procede-se à devolução (quando aplicável) dos produtos retirados. 3.8 Devoluções Durante o estágio contactou com várias situações que exigiram a devolução dos produtos aos fornecedores, nomeadamente a existência de produtos com prazo de validade expirado, por erros nas faturas (produtos trocados ou envio de produtos não encomendados), embalagens danificadas, ou retirada do lote ou do mercado por ordem do INFARMED. Posteriormente o fornecedor regulariza a devolução, podendo ser efetuada a troca do produto, não ser aceite a devolução ou ser concedido o crédito. Neste último caso é emitida uma nota de crédito referente à devolução permitindo regularizar o capital investido. 4. Dispensa de medicamentos A dispensação clínica de medicamentos consiste numa atividade profissional do farmacêutico na qual é avaliado o processo de uso da medicação, se disponibiliza a mesma e informa, de modo personalizado, o doente ou o respetivo cuidador, acerca da sua utilização correta. Desta forma, o farmacêutico assume um papel de elevada responsabilidade, protegendo a população de possíveis resultados negativos associados à medicação e contribui para melhorar a sua qualidade de vida.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 10 No que diz respeito à dispensa ao público, os medicamentos de uso humano são classificados em Medicamentos Sujeitos a Receita Médica (MSRM) e Medicamentos Não Sujeitos a Receita Médica (MNSRM). 4.1 Dispensa de MSRM A dispensa de MSRM está sujeita à apresentação de uma receita médica, segundo um modelo aprovado pelo Despacho n.º 15700/2012, num contexto de responsabilidade repartida entre o médico e farmacêutico. A prescrição de medicamentos é, preferencialmente, feita por via eletrónica ou, não sendo possível, manualmente. A via eletrónica revela-se mais vantajosa, uma vez que, permite aumentar a segurança no processo de prescrição e dispensa do medicamento, facilitando a comunicação entre profissionais de saúde e agilizando processos. De modo a que receita seja válida e que sejam obtidas as comparticipações respetivas, no ato de prescrição, o médico tem que obedecer a determinados requisitos no preenchimento da mesma. O farmacêutico deve analisar cuidadosamente a receita e verificar se todos os parâmetros estabelecidos são cumpridos. Desta forma, na validação da receita durante a dispensa, é importante verificar que esta não se encontra rasurada e ter em atenção à presença dos seguintes aspetos: o número da receita, o local da prescrição, a identificação do médico prescritor, com indicação do nome e especialidade médica e a sua assinatura, o nome e número de utente ou número de beneficiário com indicação da entidade financeira responsável e do regime especial de comparticipação (se aplicável), a designação do medicamento, feita através da DCI, nome de marca ou nome genérico para as substâncias ativas em que existam medicamentos genéricos autorizados. A forma farmacêutica, número de embalagens, posologia, dimensão das embalagens e dosagem devem estar também referenciadas na receita médica. Nas situações em que as duas últimas não se encontram presentes, deverá ser dispensada a embalagem na menor quantidade comercializada e na dosagem mais baixa. Um outro ponto importante é a verificação da data da prescrição para determinar a validade da receita. As receitas podem ter uma validade de trinta dias ou serem renováveis, apresentando uma validade de seis meses. Os medicamentos de receita médica renovável são aqueles que se destinam a
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 11 tratamentos de longa duração e, dada a segurança da sua utilização, podem ser adquiridos mais do que uma vez sem necessitarem de nova prescrição médica. Não é permitida mais do que uma via da receita manual, ou seja, a receita renovável não pode ser emitida por via manual. Em cada receita podem ser prescritos até quatro medicamentos distintos, num total de quatro embalagens por receita. Por cada medicamento, podem ser prescritas até duas embalagens, exceto nos medicamentos que se apresentam em forma unitária, para os quais podem ser prescritos até quatro embalagens iguais por receita. 4.1.1 Medicamentos genéricos Segundo o INFARMED, um medicamento genérico é definido como “um medicamento com a mesma substância ativa, forma farmacêutica e dosagem e com a mesma indicação terapêutica que o medicamento original, de marca, que serviu de referência”. Os medicamentos genéricos são equivalentes terapêuticos de um medicamento original cujo direito de propriedade industrial caducou, possuindo a mesma composição qualitativa, quantitativa e forma farmacêutica. A comercialização destes medicamentos genéricos torna-se mais económica por não ter de suportar os custos de marca, que em geral expiram num período aproximadamente de vinte anos[4]. Durante o estágio deparou-se com utentes que não se dispunham a qualquer tipo de troca (de um medicamento de marca para um medicamentos genéricos ou mesmo entre laboratórios), apresentando muitas desconfianças e inseguranças relativas a medicamentos genéricos. Por outro lado e tendo em consideração o panorama económico do país, há já uma grande percentagem da população que pede medicamentos genéricos, uma vez que apresentam uma melhor relação custo/benefício e confiam igualmente nestes medicamentos. Ao longo deste período teve a oportunidade de esclarecer dúvidas e incertezas do público relativa a esta temática, tentando sempre exercer funções de responsabilidade enquanto profissional de saúde, com o objetivo de aumentar a adesão à terapêutica por parte dos doentes.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 12 4.1.2 Dispensa de medicamentos estupefacientes e psicotrópicos Os psicotrópicos e estupefacientes atuam ao nível do sistema nervoso central e apresentam inúmeras aplicações terapêuticas, desde doenças psiquiátricas a oncológicas. No entanto, apesar das suas propriedades benéficas apresentam alguns riscos, podendo induzir habituação, e dependência. Por esta razão são sujeitos a uma legislação específica de modo a que sejam utilizados no âmbito clínico e de forma lícita. No momento da dispensa destes medicamentos é necessário o preenchimento de dados que não são exigidos na restante medicação. É necessário indicar o nome do médico, o nome do doente e respetiva morada; o nome, morada, idade, número do bilhete de identidade/cartão de cidadão e respetiva data de expiração do utente a quem é dispensada a medicação[5]. Após término da venda é necessário tirar fotocópia da receita médica que necessita de ficar arquivada na farmácia durante três anos. É ainda necessário, enviar mensalmente ao INFARMED o registo de entradas e saídas destes medicamentos e anualmente o mapa de balanço. Durante o estágio na FF surgiu oportunidade em diversas ocasiões de efetuar a receção e a dispensa deste género de medicamentos sujeitos a controlo muito rigoroso. A aquisição dos psicotrópicos e estupefacientes é realizada juntamente com os restantes produtos, sendo enviada uma guia de requisição própria, que deve ser assinada e carimbada pelo Diretor-Técnico. Uma cópia dos registos de entradas e saídas, assim como o balanço de entradas/saídas deve ser enviado mensalmente ao INFARMED. 4.1.3 Comparticipação de medicamentos A comparticipação dos medicamentos aos utentes do Sistema Nacional de Saúde (SNS) realiza-se mediante um sistema de escalões predeterminados (A, B, C e D), em que o Estado paga parte do preço do medicamento, consoante a sua classificação farmacoterapêutica[6]. Para além do SNS, que abrange a maior parte dos utentes, teve oportunidade de conhecer durante o estágio outras entidades, como o Serviço de Assistência Médico-Social (SAMS), Portugal Telecom (PT) ou Sãvida (Medicina Apoiada, EDP) entre outros. A existência de situações especiais, relacionadas com determinadas doenças ou medicamentos levou à criação de um Regime Especial de Comparticipação, para aqueles utentes que obtenham condições de doentes profissionais, doentes crónicos e pensionistas. Para que haja uma comparticipação acrescida, é
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 13 necessário que o médico prescritor indique na receita o respetivo despacho, decreto-lei ou portaria. 4.1.4 Dispensa e aconselhamento farmacêutico Ocupando o farmacêutico uma posição privilegiada é seu dever “(…)fornecer toda a informação necessária para um uso correto, seguro e eficaz dos medicamentos (…)“.[1] Como tal, aquando da dispensa de medicação o farmacêutico deve assegurar que o utente sai da farmácia sem qualquer tipo de dúvida relativamente à medicação. Para tal são fornecidas informações verbalmente e por escrito se necessário, sendo fundamental que a mensagem seja simples e completa. É ainda fundamental adequar o discurso às características individuais e socioeconómicas do utente. Deve-se ainda interpretar de forma cuidada a prescrição médica de modo a detetar possíveis interações e contraindicações. Por vezes, pode ser necessário complementar a informação prestada oralmente com a escrita. A mensagem oral e escrita deve ser clara, simples e o mais completa possível. Quando foi considerado importante, fez-se acompanhar o aconselhamento oral com algum suporte escrito. 4.1.5 Conferência de receituário e faturação A conferência de receituário é uma atividade realizada para detetar quaisquer erros que possam ter ocorrido no momento da dispensa dos medicamentos e que invalidem o pagamento da comparticipação do Estado à farmácia. Para tal, organizam-se as receitas por entidade comparticipante em lotes de trinta receitas, as quais estão seriadas, e verifica-se uma a uma se o número da receita confere com o impresso no verso, se a medicação dispensada é a forma farmacêutica correta, dosagem, tamanha de embalagem, validade, organismo que foi facturado, assinatura do médico, presença do carimbo da farmácia e assinatura de quem corrigiu a receita. No final de cada mês procede-se ao fecho dos lotes e imprime-se o Verbete de Identificação de Lote, a Relação de Resumos de Lote e a fatura final para cada entidade comparticipante. Posteriormente e cumprindo com a data limite apresentada pela ANF, esta documentação e as respetivas receitas são enviadas às entidades competentes que procedem ao pagamento do valor das comparticipações, na ausência de irregularidades.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 14 As receitas devolvidas, ou seja, sem pagamento da comparticipação do Estado, são recebidas pela farmácia, onde se procede, caso seja possível, à sua correção para novo envio. 4.2 Dispensa de MNSRM Os MNSRM são utilizados para tratar patologias de menor gravidade ou problemas de saúde autolimitados, não sendo obrigatório a apresentação de uma prescrição médica para os adquirir[3]. Segundo o Estatuto do Medicamento estes destinam-se ao tratamento ou prevenção de certas doenças que não requerem cuidados médicos, podendo ser adquiridos sem receita, estando excluídos os medicamentos por via injetável. Deste modo, na sua aquisição está envolvida a automedicação ou a indicação farmacêutica. Em qualquer dos casos o farmacêutico tem um papel ativo intervindo na transmissão de informação sobre a saúde, aconselhamento e dispensa de medicamentos. Na automedicação o próprio doente seleciona o medicamento que necessita para tratar o seu problema de saúde. No entanto, de um modo geral, o utente não tem experiência nem conhecimentos suficientes que permitam distinguir distúrbios, avaliar gravidade e escolher o mais adequado entre os recursos terapêuticos disponíveis, o que leva a que a prática da automedicação nem sempre se revele favorável aos utentes. Deste modo, o farmacêutico deve inquirir o utente acerca da finalidade do medicamento, dos sintomas que apresenta e respetiva duração, para poder decidir qual a melhor alternativa de tratamento ou se há necessidade de recorrer ao médico. Durante o atendimento ao balcão concluímos que a maioria dos MNSRM solicitados, correspondia a medicamentos utilizados no tratamento de transtornos ligeiros como tosse, dor de garganta, gripes e outras viroses não complicadas.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 15 5. Dispensa de outros produtos farmacêuticos 5.1 Medicamentos e produtos de uso veterinário É importante ter presente que a saúde das pessoas passa também pela saúde dos animais com que convivem. Deste modo, é importante que o farmacêutico se encontre informado dos produtos e medicamentos veterinários existentes, de forma a poder intervir e aconselhar corretamente no ato da dispensa, esclarecendo todas as dúvidas expostas. É de salientar que, frequentemente, por ausência de alternativas terapêuticas, o médico veterinário recorre à prescrição de medicamentos de uso humano, com ajuste de dose de acordo com as características de cada animal, pois este mercado ainda carece de investimento no desenvolvimento de novas formulações. Visto a FF se encontrar, tal como referido anteriormente numa zona residencial, a procura destes medicamentos é maioritariamente para animais domésticos como cães e gatos. Estes medicamentos encontram-se acondicionados numa gaveta própria[7]. 5.2 Produtos de cosmética e higiene corporal Um PCHC, segundo o INFARMED é “qualquer substância ou preparação destinada a ser posta em contato com as diversas partes superficiais do corpo humano designadamente epiderme, sistemas piloso e capilar, unhas, lábios e órgãos genitais externos, ou com os dentes e as mucosas bucais, com a finalidade de, exclusiva ou principalmente, os limpar, perfumar, modificar o seu aspeto, proteger, manter em bom estado ou de corrigir os odores corporais” [8]. Os produtos cosméticos e de higiene corporal são, na sua maioria, expostos de forma visível, sendo as marcam mais trabalhadas a Avène®, a Vichy®, a Uriage®, e Bioderma®. Ao longo do estágio foram várias as situações de aconselhamento de PCHC. Nestes casos foi fundamental estabelecer um diálogo com o utente de modo a identificar os produtos mais adequados às suas características individuais, histológicas e fisiológicas e tentar perceber produtos já utilizados anteriormente de modo a identificar possíveis alergias.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 16 5.3 Alimentação especial - suplementos alimentares e vitamínicos Os géneros alimentícios destinados a uma alimentação especial distinguemse dos alimentos de consumo corrente dada a sua composição especial devido aos processos especiais de fabrico, revelando-se adequados às necessidades nutricionais especiais de determinados grupos etários como lactentes. Apesar de serem universalmente reconhecidos todos os benefícios inerentes ao leite materno, na sua ausência, existe uma variedade de leites adaptados às diferentes etapas do desenvolvimento e às necessidades particulares das crianças. O leite especial é o principal produto vendido na FF sendo procurado pelas suas propriedades antiregurgitantes, hipoalergénicas e anti obstipantes[9]. Os suplementos alimentares são alvos de grande procura, nomeadamente os multivitamínicos para o fortalecimento da memória em idosos e jovens em idade escolar para melhor aproveitamento escolar. 5.4 Produtos de puericultura e obstetrícia A FF dispõe de vários produtos de puericultura, como chupetas, tetinas, biberons, fraldas, escovas de cabelo e brinquedos. Os cremes hidratantes e produtos para banho são também muito procurados pelos pais. Um bom aconselhamento com base em informação científica e actualizada é fundamental em virtude de uma maior fragilidade e sensibilidade da pele de bebés/crianças. 5.5 Produtos homeopáticos e fitoterapêuticos Um medicamento homeopático é “obtido a partir de substâncias ou matériasprimas homeopáticas” [27], cuja preparação envolve a utilização de quantidades mínimas de substâncias ativas, obtidas através de diluições e dinamizações sucessivas. Na FF os medicamentos homeopáticos não têm grande procura pelo que o stock destes é muito reduzido, sendo apenas vendidos quando surge algum pedido por parte de utentes. Os produtos fitoterapêuticos são preparados a partir de plantas medicinais e são utilizados para o tratamento de patologias ou como complemento de outras terapêuticas. A FF dispõe de vários produtos fitoterapêuticos, sob a forma de
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 23 Como mostra a tabela 1, em Portugal há uma prevalência de fumadores na ordem dos 20.9% sendo que desses 30.9% são do sexo masculino e 11.8% do sexo feminino. Tabela 2. Fumadores diários com idade ≥15 anos por sexo na população portuguesa INS 1987 INS 1995/1996 INS 1998/1999 INS 2005/2006 Masculina 33.3% 29.2% 29.3% 26.1% Feminino 5.0% 6.5% 7.9% 9.0% Total 18.4% 17.3% 18.0% 17.2% Fonte: Direção Geral de Saúde; Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge; Infotabac Relatório 2011 Como se pode observar na tabela 2, a percentagem de fumadores tem vindo a descer no sexo masculino e a aumentar progressivamente no sexo feminino ao longo dos anos. No total, a percentagem de fumadores, na população portuguesa, está estabilizada desde 1987 até 2005/2006[14]. Tratamento O tratamento para a cessação tabágica tem como objetivo ajudar o fumador a deixar de fumar, diminuindo os efeitos físicos e psíquicos da abstinência de nicotina. Assim, existem 2 tipos de fármacos que ajudam na cessação tabágica: a terapêutica de substituição de nicotina e a terapêutica não nicotínica. Deve ser ponderado o uso de terapêutica nos utentes com enfarte de miocárdio recente (menos de 2 semanas), nas arritmias, na angina instável, e nas doenças cerebrovasculares. Na gravidez não deve ser utilizado qualquer fármaco. Nenhum dos fármacos consegue os níveis de nicotina no sangue como no consumo de tabaco, razão pela qual a síndrome de abstinência está sempre presente. Terapêutica de substituição nicotínica: 1. Gomas de nicotina (2 e 4 mg) atingem os níveis plasmáticos desejados em apenas quinze minutos. Para fumadores com consumo diário de menos de 25 cigarros está indicado as gomas de 2mg. Nas primeiras seis semanas deve ser utilizado uma goma por cada uma a duas horas (máximo 24 gomas /dia). O tratamento deve ter a duração aproximada de três meses. A goma deve ser utilizada durante trinta minutos e não devem ser ingeridas bebidas ácidas – só água durante e após quinze minutos. 2. Pastilhas de nicotina (2 e 4 mg) uma pastilha em cada uma a duas horas em monoterapia com 9 pastilhas /dia durante as primeiras seis semanas. Da 7ª-9ª semana
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 24 uma pastilha duas a quatro horas. Da 10ª12ª semana uma pastilha de quatro a oito horas. Não deve ser ultrapassado 20 pastilhas /dia. 3. Pensos transdérmicos Aplicar um penso/dia no corpo livre de pilosidade para melhor aderência e nunca repetir o mesmo local para evitar reações alérgicas. 4.Vareniclina 2 mg /dia dividido em 2 tomas. Para minimizar os efeitos secundários, os doentes devem iniciar a terapêutica da seguinte forma: 1º-3º dia um comprimido 0,5mg /dia 4º-7º dia um comprimido 0,5mg 12/12 horas 8º dia e seguintes um comprimido 1mg 12 /12 horas Tratamento durante 12 semanas Este fármaco está contraindicado em utentes com doenças psiquiátricas (esquizofrenia, depressão grave, doença bipolar, ideias suicidas) ou patologia renal. Pode provocar tonturas e sonolência, pelo que é muito importante informar os utentes que conduzem ou trabalham com máquinas destes efeitos secundários. Não é recomendado fazer associação com outros fármacos pois poderão potenciar os efeitos secundários da vareniclina. Novas terapêuticas no tratamento da doença pulmonar crónica obstrutiva Introdução A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma das principais causas de morbilidade e mortalidade a nível mundial. Estima-se que em todo mundo, existam cerca de 210 milhões de pessoas com esta doença[15]. Em Portugal, no último estudo de DPOC, estimou-se uma prevalência de 14.2% em pessoas com 40 ou mais anos de idade[16]. É uma doença prevenível e tratável, provocada pelo fumo de tabaco, gases tóxicos e partículas[17]. Esta exposição provoca uma reação inflamatória das vias aéreas e uma destruição progressiva e irreversível dos alvéolos pulmonares com obstrução do fluxo aéreo, e hipersecreção de muco, estreitamento das vias aéreas e efeitos cardiovasculares sistémicos. Os sintomas mais comuns são tosse com expetoração principalmente durante a manhã, posteriormente dispneia para grandes esforços e numa fase avançada da doença dispneia em repouso.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 25 Os doentes com DPOC apresentam riscos acrescidos para o aparecimento de outras doenças que podem estar direta ou indiretamente ligadas à DPOC. A respiração ineficiente ligada à menor oxigenação dos tecidos causa uma maior pressão nos sistemas respiratório e circulatório, levando ao possível aparecimento de doenças sistémicas. Também a inflamação sistémica que é característica da DPOC pode levar ao aparecimento de doenças como a osteoporose, diabetes, e distúrbios metabólicos [18]. Diagnóstico O diagnóstico da DPOC deverá ser realizado a qualquer paciente que apresente dispneia, tosse crónica com produção de expetoração e que tenha tido exposição aos fatores de risco da doença nomeadamente fumo de cigarros, atividade profissional ligada à inalação de poeiras (mineiros) ou exposição a agentes químicos nocivos para o sistema respiratório. O diagnóstico da DPOC é confirmado por espirometria. A espirometria também permite avaliar a gravidade e orientação terapêutica da doença. Tratamento Sendo o tabagismo a principal causa da DPOC, a cessação tabágica é o primeiro passo para iniciar a abordagem do tratamento e controlo da doença. O tratamento farmacológico da DPOC tem como objetivo o alívio dos sintomas, melhorar a tolerância à atividade física do dia a dia, prevenir a progressão e o agravamento da doença, prevenir exacerbações e reduzir a mortalidade associada à doença. Os fármacos de eleição para o tratamento da DPOC são os broncodilatadores de longa duração de ação. Existem três tipos de broncodilatadores: os antagonistas muscarínicos, os agonistas β2 e as metilxantinas. As metilxantinas são administradas por via oral ou intravenosa enquanto os agonistas β2 e antagonistas muscarínicos são administrados por via inalatória[19]. Agonistas β2 O músculo liso, com a exceção do músculo liso do trato gastrintestinal, sofre contração em resposta à estimulação dos recetores α1– adrenérgicos, enquanto que o seu relaxamento é provocado pela estimulação dos recetores β2–adrenérgicos. De particular interesse terapêutico, a musculatura lisa brônquica é fortemente dilatada pela ativação destes recetores. Os agonistas β2 seletivos são muito importantes no tratamento da DPOC assim como nas outras
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 26 Fig 2 - Salmeterol doenças respiratórias como é o caso da asma. O músculo esquelético também é afetado pelos agonistas β2 que levam à sua contração, nos humanos este efeito é sentido na forma de tremores que, pode resultar de um abuso excessivo de um agonista β2 como o salbutamol. Além da sua ação dilatadora estas substâncias inibem a libertação de TNF-α pelos monócitos que é um dos principais mediadores da inflamação. Os agonistas β2 podem ser subdividir em 2 categorias: Os de curta duração como o salbutamol (Figura 1) e terbutalina, cujo efeito máximo se dá passados 30 minutos da administração e possuem uma duração de ação de cerca de 4-6 horas, sendo usados em crises agudas ou exacerbação dos sintomas; Os de longa duração como o salmeterol (Figura 2) e formoterol, que têm uma duração de ação de cerca 12 horas após a administração, sendo usados de forma regular no tratamento da DPOC. Antagonistas dos recetores muscarínicos também são denominados parassimpaticolíticos por bloquearem seletivamente a atividade nervosa parassimpática, pela ligação aos receptores M3. Estas substâncias são maioritariamente antagonistas competitivos, estruturalmente semelhantes à acetilcolina. O ipatrópio, que é um composto de amónio quarternário, é um antagonista muscarínico utilizado para relaxar a constrição brônquica que ocorre por estimulação parassimpática normalmente devido a fenómenos irritantes. Este composto, sendo administrado sob a forma inalatória não é absorvido na circulação, não exerce efeitos a nível sistémico, atuando apenas localmente nos recetores brônquicos, possuindo assim poucos efeitos adversos. O seu efeito máximo é observado 30 minutos após a administração e tem uma duração de ação de 3-5 horas. Metilxantinas são utilizadas há décadas para o tratamento da DPOC, mas a sua utilização sofreu uma diminuição acentuada, como primeira escolha terapêutica, com o aparecimento dos agonistas β2 mais fáceis de utilizar e com menos efeitos secundários. Estas, têm propriedades anti-inflamatórias e broncodilatadoras através da inibição da fosfodiesterase e aumento intracelular de adenosina monofosfato cíclica. Fig 1 - Salbutamol
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 27 Atualmente, é recomendado como primeira escolha terapêutica, o uso de um agonista β2 de longa duração com associação de antagonistas muscarínicos de longa duração quando, com um único broncodilatador não se consegue controlar a doença. Os agonistas β2 e antagonistas muscarínicos vão proporcionar uma broncodilatação com locais de ação complementares, visto que os recetores β2adrenérgicos tem uma localização nas pequenas vias aéreas enquanto que os recetores M3 encontram-se predominantemente nos brônquios e traqueia. Assim, o emprego de uma terapia combinada para o tratamento desta doença, resulta de uma maior cobertura das vias aéreas e assim se consegue atingir uma maior broncodilatação e uma melhoria dos sintomas. Em 19 setembro de 2013, o medicamento composto por uma associação de dois broncodilatadores – indacaterol (Figura 3), um agonista β2 e brometo de glicopirrónio (Figura 4), antagonista muscarínico (Ultribo® Breezhaler®) – foi aprovado para a introdução no mercado pela European Medicines Agency. Esta aprovação é válida para toda a União Europeia. O pedido de avaliação de comparticipação para este medicamento foi publicado a 14 de agosto de 2014. O indacaterol é agonista β2 de longa duração de ação, cerca de 24 horas. Este fármaco possui a mais longa duração de ação comparativamente aos restantes (duração de ação do salmeterol é de 12 horas), esta devese à lipofilia do indacaterol, possuindo também uma maior afinidade, cerca de 2 vezes superior, em relação ao salmeterol e também um início de ação rápido [20]. O outro constituinte desta associação de fármacos é o brometo de glicopirrónio, um composto de amónio quartenário, antagonista muscarínico de longa duração (cerca de 24 horas), pois é absorvido lentamente a nível dos alvéolos. Esta molécula demonstrou também um início de ação rápido tal como o indacaterol[21]. Nos ensaios clínicos realizados, esta associação medicamentosa revelou melhorias estatisticamente significativas verso placebo, dose unitária de indacaterol, brometo de glicopirrónio e tiotrópio em estudos com ocultação e estudos abertos. Esta associação revelou um início de ação rápido com broncodilatação sustentada ao longo de 12 e 24 horas. Houve um aumento significativo da resistência ao exercício físico versus placebo e tiotrópio sozinho. O risco global de exacerbações em comparação com brometo de glicopirrónio e tiotrópio Fig 3 - Indacaterol Fig 4 – Brometo de Glicopirrónio
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 28 foi menor. Este conjunto de fármacos apresenta também um bom perfil de segurança e tolerabilidade [22,23,24,25,26]. A DPOC é uma doença progressiva, debilitante e irreversível e uma das principais causas de morbilidade e mortalidade a nível mundial, daí a necessidade do mundo científico investir na descoberta de novas terapêuticas. Conclusão A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma das principais causas de morbilidade e mortalidade a nível mundial. É uma doença prevenível e tratável provocada pelo fumo de tabaco, gases tóxicos e partículas. O tabagismo é a principal causa da DPOC e a cessação tabágica é o primeiro passo para iniciar a abordagem do tratamento e controlo da doença. Os fármacos de eleição para o tratamento da DPOC são os broncodilatadores de longa duração de ação. Existem três tipos de broncodilatadores: os antagonistas muscarínicos, agonistas β2 e as metilxantinas. Em 19 setembro de 2013, foram aprovados dois novos medicamentos compostos por uma associação de dois broncodilatadores, indacaterol – agonista β2 e brometo de glicopirrónio – antagonista muscarínico. Esta associação revelou um início de ação rápido com broncodilatação sustentada ao longo de vinte e quatro horas. Estes fármaco apresentam também um bom perfil de segurança e tolerabilidade. Figura 5 – Efeito da associação de indacaterol 110 μg mais brometo de glicopirrónio 50μg no volume expiratório forçado no 1º segundo versus dose única de indacaterol e brometo de glicopirrónio, placebo e tiotrópio.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 29 Micoses Resumo As micoses cutâneas são muito frequentes em crianças e adultos. Na farmácia onde decorreu o estágio, deparou-se com vários casos de micoses cutâneas, nomeadamente dermatofitoses. Os fungos dermatófitos infetam as estruturas queratinizadas da epiderme como as unhas e cabelo. O farmacêutico tem um papel preponderante no aconselhamento deste tipo de patologias visto que, muito frequentemente, os doentes recorrerem à farmácia como primeira opção. Foi elaborado um panfleto informativo com informação sobre as micoses mais frequentes e cuidados de prevenção que foi publicitado aos frequentadores da farmácia. Introdução Os fungos são os principais microrganismos responsáveis pela decomposição da matéria orgânica. Estes têm uma grande importância económica e são usados em numerosos processos industriais como no fabrico de pão, cervejas, vinhos e alguns queijos. Foram também muito importantes para a medicina, principalmente na descoberta de antibióticos como a penicilina e outras substâncias com interesse terapêutico. Atualmente encontram-se descritas cerca de 150 espécies com possível poder patogénico para o Homem. O termo micose significa que é uma infeção provocada por fungos microscópicos, sendo que a contagiosidade duma infeção por fungos é baixa, sendo raro haver surtos epidémicos. Métodos Foi realizada uma pesquisa bibliográfica, para elaboração de um artigo com a informação mais relevante das micoses cutâneas e dermatofitoses mais frequentementes na comunidade.
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 30 Resultados As micoses classificam-se em cutâneas, mucocutâneas, subcutâneas e sistémicas atendendo ao local onde se dá a infeção. As micoses sistémicas são micoses que tem origem no pulmão e seguidamente se vão difundir para outros órgãos e tecidos, provocando uma infeção generalizada. As espécies causadoras destas infeções são, por exemplo, o Cryptococcus neoformans, Histoplasma capsulatum. Estas micoses são mais frequentes nos imunocompremetidos. Micoses subcutâneas provocam infeção dos tecidos subcutâneos e da derme. As espécies que mais frequentemente causam estas infeções são Sporothrix schenckii. Micoses cutâneas e mucocutâneas são infeções de tecidos mais superficiais. São exemplo de micoses mucocutâneas, as candidoses da mucosa bucal ou vaginal. As micoses cutâneas ou superficiais são as micoses exploradas com maior detalhe, visto ser as infeções fúngicas mais comuns e onde com maior frequência é solicitado o aconselhamento do farmacêutico. Nas micoses cutâneas podemos incluir as infeções da pele, cabelo, pelo, e unhas. Estas micoses ou dermatofitoses são provocadas por um grupo bem definido de fungos filamentosos e septados pertencentes ao grupo Epidermophyton, Microsporum e Trichophyton. Estes fungos são capazes de parasitarem estruturas queratinizadas da epiderme, do cabelo e unhas. As lesões decorrem da ação do próprio fungo ou de reações de sensibilidade ao agente ou aos seus produtos. No grupo das dermatofitoses podemos enumerar: Tinha dos pés (tinea pedis); tinha inguinal (tinea cruris); tinha da barba (tinea barbae); tinha do corpo (tinea corporis); tinha do couro cabeludo (tinea capitis); tinha das unhas (tinea unguium) e tinha da face (tinea faciei). Tinha dos pés Podemos distinguir entre 2 formas de tinha dos pés, a forma aguda que se caracteriza por existência de uma forma vesicular, avermelhada e pruriginosa e, a forma crónica com a presença de fissuras e descamação. Há várias formas clínicas. A interdigital (Figura 1) que é caracterizada com fissuração e descamação entre os dedos dos pés. A vesiculosa onde há produção de vesiculas Fig 6– Tinha dos pés (tinea pedis)
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 31 quando há condições de humidade e calor que favorecem o crescimento fúngico. A tinha em mocassin apresenta uma descamação na planta do pé. Normalmente o seu agente etiológico é o Trichophyton rubrum e costuma ser assintomática e crónica. O tratamento para estas micoses passa normalmente por uso de um antimicótico tópico Na lesão em mocassin é aconselhado o uso de um antimicótico por via oral (terbinafina 250 mg/24 horas durante 2 meses). Além do tratamento tópico é aconselhado preventivamente, a fim de evitar futuras micoses, o uso de calçado fresco no verão, higiene cuidada dos pés, secar bem os pés principalmente entre os dedos, e usar sempre chinelos em balneários públicos e uso de meias de fibras naturais. Tinha da barba É uma micose muito frequente nos homens, em que os pelos da barba são afetados por lesões edematosas e eritematosas. O ataque ao pelo ou cabelo não é conseguido por todos os dermatófitos, os que não conseguem infetar os pelos designam-se por epidermófitos. Os dermatófitos que parasitam o cabelo são do género Microsporum spp e Trichophyton spp. O tratamento engloba antifúngico oral durante 6-8 semanas, e lavagem da parte afetada com uma solução antisséptica. Tinha da cabeça A tinha da cabeça ou tinea capitis (Figura 2) caracterizam-se por placas circulares de calvície no couro cabeludo. Consoante as diferentes características etiológicas e biológicas temos diferentes tinhas do couro cabeludo, entre elas as tinhas tonsurantes, tinhas favosas e tinhas inflamatórias. Este tipo de tinhas são as mais contagiosas podendo dar origem a surtos epidémicos principalmente entre crianças, numa escola ou infantário. As tinhas tonsurantes apesar de deixarem que o cabelo continue o seu crescimento, este quebra apenas alguns milímitros acima do orifício folicular dando origem à alopécia característica desta tinha. Etiologicamente as tinhas tonsurantes são as microspóricas e tricofíticas. As tinhas microspóricas são wood positivo, isto é, adquirem uma flurescência verde quando postas sob luz ultra violeta, e as placas de alopécia são normalmente extensas e descamativas. Os agentes etiológicos mais comuns são o M. canis, M. audouinii e M. ferrugineum. Por sua vez as tinhas tricofíticas são caraterizadas por um grande número de placas de alopécia de Figura 7 – Tinha da cabeça (tinea capitis)
Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 32 pequenas dimensões e os agentes etiológicos mais comuns é o T. tonsurans e T. violaceum. A tinha favosa cujo principal agente etiológico é T. schoenleinii, caracteriza-se pela existência de raros cabelos enfraquecidos e lesões circulares de aspeto crostoso no seu centro, a que denominamos escútulas fávicas. Se o paciente apresentar uma reação inflamatória nestas tinhas temos então o aparecimento de uma tinha do tipo inflamatória. O tratamento consiste na administração de antifúngicos por via oral durante um período de 6 - 8 semanas, mantendo o tratamento uma semana depois da cura clínica. O antifúngico administrado mais comum é terbinafina 10 mg/kg numa criança e 250 mg/24 horas no adulto. É recomendável também a lavagem diária do couro cabeludo com um shampô antifúngico para prevenir o contágio. No caso do paciente ser uma criança, esta não deve ir à escola por um período de quinze dias a fim de prevenir o contágio. Deverá ser sempre investigada a causa da doença, sendo frequentemente a origem um animal doméstico infetado, como cão ou gato. Tinha do corpo Esta tinha (Figura 3) aparece frequentemente durante o verão em crianças nos meios rurais, apesar de poder acontecer noutros locais e idades. Conforme o seu local tem diferentes designações. Se a lesão se situar na mão então denominamos tinea manuum. A lesão é caracterizada por uma placa de edema arredondada, com crescimento progressivo, bordos ativos e centro mais claro. O tratamento consiste na aplicação de um antifúngico tópico, aplicado duas vezes ao dia durante um mês ou até uma semana após cura, em casos mais raros e agressivos poderá ser necessário o tratamento com antifúngico sistémico. Nos primeiros quinze dias a lesão é contagiosa e poderá haver auto contágio para outras partes do corpo ou contágio para outras pessoas. Tinha inguinal ou tinea cruris Esta tinha é caracterizada por um processo descamativo e eritematoso e causa muito prurido. Os homens são mais afetados por esta tinha, sendo agravada pelo calor e humidade, é mais frequente ocorrer no verão. Muitas vezes esta tinha poderá Figura 8 – Tinha do corpo
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Relatório de Estágio em Farmácia Comunitária setembro 2014 a fevereiro 2015 Miguel Eduardo Magalhães Gouveia 40 Anexo 2. Panfleto micoses Este panfleto foi elaborado e publicitado na FF.
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