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1 FAIR: UMA PLATAFORMA PARA A PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE EM PORTUGAL www.projectofair.com Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Ana Simões Porto, 2012
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3 FAIR: UMA PLATAFORMA PARA A PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE EM PORTUGAL www.projectofair.com Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Dissertação para a obtenção de Grau de Mestre Mestrado em Design Gráfico e Projetos Editoriais Orientador: Miguel Carvalhais, Professor Auxiliar, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Co-orientador: Júlio Dolbeth, Assistente, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Ana Simões Porto, 2012
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5 Agradeço a todos aqueles que durante este último ano de alguma forma participaram e ajudaram no trabalho que desenvolvemos. A todos os voluntários e participantes, alunos e editores que se ofereceram para fazer do nosso projeto aquilo que é hoje, e nos abriram as portas a uma comunidade. Agradeço ao Miguel Carvalhais e ao Júlio Dolbeth, pelo papel fundamental que desempenharam não só na criação e desenvolvimento deste projeto, mas também na minha formação académica ao longo dos últimos sete anos. Agradeço aos meus pais, pelo percurso que me proporcionaram, pelas críticas atentas e pelo apoio e incentivo a qualquer ideia que inicio, sem duvidar nunca de que é possível. Agradeço à Joana e à Catarina pela parceria, apoio e amizade ao longo de todos estes anos. Agradeço à Raquel, por ter enfrentado este último ano ao meu lado, pelo apoio, pela amizade, calma e compreensão. Agradeço, por fim, a quem dedico este trabalho: ao Jorge, pela sua dedicação a este projeto, pelo amor, paciência e apoio incondicional desde sempre, e por tudo aquilo que estará para vir. Ao Jorge
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7 ABSTRACT This document follows the development of a project that seeks to organize, support, promote and strengthen the portuguese independent publishing community. This project takes shape in two fundamental fronts: first an online platform, in which news are reported, books and fanzines are registered, and where resources for new publishers are available, and secondly the promotion of events and fairs, that can also contribute to strengthen and promote this type of publishing. This work acknowledges itself as a personal project, born out of a desire from its authors, to create a community project that can live from and for publishing, hoping that this results on the strengthening of support and networks, reaching a positive impact on the nacional independent publishing ‘industry’. Throughout this project we also want to gain a better understanding of this small publishing market, analysing its inner mechanics, its main goals, its sustainability strategies and ultimately its impact on the contemporary cultural development.
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9 RESUMO Este documento apresenta e acompanha o desenvolvimento e implementação de um projeto que procura contribuir para a organização, apoio, divulgação e dinamização da edição independente nacional. Este trabalho materializa-se em duas partes fundamentais: uma plataforma online, na qual são divulgadas notícias, registadas novas publicações e disponibilizados recursos úteis à autoedição, e a promoção de feiras e eventos, que possam também cumprir os objetivos de dinamização a que o projeto se propõe. Este trabalho assume-se como uma iniciativa pessoal, que vive de uma motivação da parte dos seus autores, em criar um projeto comunitário que possa viver de e para a edição, esperando como resultado o fortalecimento de redes de contacto e apoio que possam ter um impacto positivo na edição independente nacional. Ao longo deste trabalho pretende-se ainda perceber melhor este nicho de mercado editorial, analisando as suas mecânicas de funcionamento, os seus objetivos centrais, as suas estratégias de sustentabilidade e em última instância o seu impacto na produção cultural contemporânea.
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17 INTRODUÇÃO Esta dissertação acompanha o desenvolvimento de um projeto de arquivo, registo e divulgação da edição independente nacional. O trabalho que se pretende desenvolver materializa-se de duas formas distintas: numa plataforma online sobre edição independente, e na promoção de eventos associados que possam através de outros meios cumprir os mesmos objetivos. Este trabalho procura ainda compreender e analisar a edição independente nacional, estudando o funcionamento e gestão das editoras, com o intuito de melhor servir as suas necessidades. Esta investigação, que se alimenta em grande medida da prática e experiência adquiridas ao longo deste ano, é também acompanhada de uma breve contextualização da área, analisando, em particular, um conjunto de casos de estudo que poderão mostrar-se úteis para uma melhor compreensão das editoras, ao mesmo tempo que contribuem para uma perceção mais realista das potencialidades do projeto que se pretende implementar. A análise aqui apresentada deverá contou, então, com duas fases fundamentais que ao longo do ano foram crescendo de uma forma paralela, contaminando-se mutuamente. Uma primeira fase, essencialmente teórica, onde se procura perceber o mercado editorial independente através de um breve levantamento de motivações, objetivos e mecânicas de funcionamento destas pequenas editoras, e uma segunda fase, de índole prática, na qual se propõe a criação de uma plataforma online, que possa servir e apoiar os editores, acompanhada de eventos regulares, como feiras, exposições e conferências. O trabalho de investigação apresentado terá um cariz qualitativo, optando por deixar de lado uma análise quantitativa que, de uma forma redutora, poderia focar-se demasiado no lado financeiro deste pequeno mercado da edição, esquecendo aquilo que nos parece fundamental: as motivações e objetivos das editoras. Esta opção relaciona-se diretamente com a característica mais emocional e pessoal que estes projetos assumem. Não se pretende aqui perceber o lucro ou o prejuízo destas edições, nem mesmo o número de vendas que atingem. Queremos sim perceber o que move estas editoras, porque publicam, de que forma se relacionam com o objeto impresso e se conseguem contribuir ativamente para a dinamização da cultura contemporânea. Neste sentido, este trabalho procura responder a três questões centrais: Quais as motivações e objetivos por trás da edição independente nacional? De que forma se organizam, produzem, divulgam e comercializam as publicações independentes? E, percebendo estas questões iniciais, poderá uma plataforma de divulgação e gestão de recursos online servir de ponto de partida para um reforço da visibilidade e crescimento dos projetos editoriais independentes?
18 Embora estas questões tenham servido de mote ao projeto desenvolvido, ao longo do processo foram sempre surgindo novas possibilidades, interrogações e dúvidas, que serão aprofundadas ao longo dos próximos capítulos. O primeiro capítulo – Enquadramento – procura contextualizar a edição independente nacional, tentando expor as suas motivações e objetivos, assim como os seus métodos de gestão, produção e divulgação. O segundo capítulo – Casos de Estudo – analisa algumas editoras e associações culturais, estudando de uma forma mais próxima e particular as questões levantadas no capítulo anterior, tentando também perceber mais diretamente que necessidades poderão ser colmatadas através do projeto aqui desenvolvido. O terceiro capítulo – Projeto – apresenta o trabalho desenvolvido ao longo deste último ano, descrevendo a metodologia, os procedimentos e resultados obtidos, procurando perceber quais as mais-valias e quais as falhas do trabalho até agora. O quarto capítulo – Conclusão – resume o trabalho desenvolvido, interpretando os resultados e tentando apontar novos caminhos e soluções para o futuro deste projeto.
19 ENQUADRAMENTO Em Portugal, tal como em grande parte dos países ocidentais, o mercado editorial está concentrado num número reduzido de empresas com enormes estruturas editoriais. Estas empresas ou editoras, por sua vez, vendem a maioria dos seus livros em grandes livrarias espalhadas por centros comerciais um pouco por todo o país. Na dissertação de mestrado Plana. Publicações de Periodicidade Irregular, Luís Camanho1 afirma que “a venda de livros [se] concentra em mais de 70% nas lojas Fnac, livrarias Bertrand e hipermercados” (Camanho, 2008 p.13). Perante esta situação “as editoras disputam as prateleiras das livrarias como cães a um osso. Os expositores, bancas e gôndolas dos hipermercados são os altares, os lugares sagrados para um livro. Uma obra tem no máximo dois meses para mostrar o que vale, e a velocidade de rotação dos títulos nos escaparates é alucinante. (...) Ao contrário do que acontece em Espanha ou em França, onde a venda de livros está repartida por inúmeras livrarias independentes” (Carvalho, 2008a p.98-103). Segundo Robert Bringhurst,2 o objetivo destas empresas não se prende tanto com a edição, mas sim com a sua viabilidade económica. Estes grupos procuram gerir os seus recursos financeiros, estabelecendo a sua prática no mercado de uma forma segura, e tentando sempre como resultado obter o máximo de lucro possível. Desta forma “o meio editorial tem[-se] tornado refém de capacidades de lidar com áreas mais próximas da gestão de assuntos financeiros e/ou fiscais, do que propriamente com publicações” (Camanho, 2008 p.15). Esta situação resulta num mercado editorial onde o lucro está acima da produção e distribuição de bons livros. Nesse sentido, podemos encontrar outro tipo de motivações no mercado mais pequeno, mas também mais diversificado, da edição independente,3 onde parece existir uma maior preocupação com a contribuição para a cultura através da produção de publicações, conseguindo entretanto sustentar a sua atividade. No contexto do projeto que se pretende desenvolver, será importante tentar perceber em que consiste esta área da edição, analisando o que a motiva, de que forma se mantêm as estruturas editoriais e qual o impacto que têm na cultura contemporânea. 1. Luís Camanho é um designer e editor independente português, fundador da Plana Press, e autor da tese de mestrado Plana. Publicações de Periodicidade Irregular. Desde o seu projeto de mestrado, dedicado à criação de uma nova editora independente, tem já publicados oito livros. 2. Robert Bringhurst é um poeta, tipógrafo e autor canadiano. É o autor de The Elements of Typographic Style, um livro de referência em matéria de design e tipografia. 3. Utilizamos aqui o termo independente, não como uma caracterização fechada e definitiva, mas apenas para distinguir uma área da edição que trabalha à margem dos meios de divulgação e distribuição habituais. Ao longo desta dissertação o tema será abordado e explorado com mais profundidade. I.
20 A PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE Segundo o dicionário online Priberam.pt, publicar será “Tornar público e notório.” Publicar é divulgar, espalhar, afixar, apregoar. Em Indie Publishing: a pocket guide to publishing your own content, uma publicação eletrónica disponibilizada online por Ellen Lupton4 até 2009, a autora afirma que: Publicar é expor-se ao mundo exterior, proclamando que se tem conteúdo que vale a pena partilhar com outras pessoas. (...) A maioria dos empreendimentos editoriais, contudo, são motivados não tanto por lucro como pelo desejo humano de partilhar ideias através de um meio permanente, reprodutível e possível de partilhar.5 (Lupton, 2007) Esta vontade de partilhar uma ideia parece estar na génese daquilo que define a publicação independente, contribuindo para a criação de uma cultura coletiva através da publicação de conteúdos que, no mercado editorial convencional, ficariam guardados na gaveta à espera de um número de leitores rentável o suficiente para justificar esforço e gastos. Neste sentido, a edição e publicação dita independente implicará motivações um pouco mais profundas, que não se prendem necessariamente com a sustentabilidade do projeto, mas sim com a ideologia e motivação de cada autor. Ao mesmo tempo, torna-se clara uma vontade quase política e social que conduz à edição de conteúdos. Numa palestra em Hong Kong, o editor americano Jason Epstein fala da publicação como uma vocação: “(...) um sacerdócio secular, porque os editores são zeladores da nossa memória coletiva, servos indispensáveis a esses outros zeladores, poetas, contadores de estórias, bibliotecários, professores e académicos”6 (Epstein, 2008). A uma publicação associam-se outras ideias e vontades (ideológicas, pedagógicas, críticas) que vão para além do livro, que conseguem criar pequenas comunidades de seguidores e leitores culturalmente ativos que acabam por, eles próprios, dar início a novos projetos editoriais, resultando numa cultura coletiva partilhada que se alimenta e motiva a si própria. A edição independente vive desta partilha, tirando prazer do ato de publicar em si. Em Do Comunismo aos Comuns? Obstáculos à Hipótese do Comunismo, presente no livro A Economia do Artista, da editora independente Braço de Ferro, Dmitry Vilensky,7 fala do prazer da publicação como uma ação comunista, afirmando a cultura, não como uma mera fonte de lucro, mas como algo que se fundamenta numa característica base dos seres humanos: a capacidade de criação livre, a criação de algo novo, partilhando-o com outras pessoas sem perseguir uma lógica utilitária. Segundo Vilensky, “é esse o maior prazer de todos, e é isso que significa o comunismo” (Vilensky, 2010 p.125). Há ainda um certo romantismo associado à publicação de conteúdos sem mediação, permitindo e motivando a inovação, sem a necessidade 4. Ellen Lupton é uma escritora, curadora e designer gráfica americana. Já publicou vários livros ligados à autoedição, entre eles DIY: Design it Yourself (2006) e Indie Publishing: how to design and produce your own book (2008). É ainda diretora do MFA em Design Gráfico e do Center for Design Thinking no Maryland Institute College of Art (MICA). 6. No original inglês: (...) a secular priesthood, for publishers are caretakers of our collective memory, indispensable servants to those other caretakers, poets, story tellers, librarians, teachers and scholars. 7. Dmitry Vilensky é um artista e ativista russo, sediado em São Petersburgo. Foi o fundador da plataforma Chto Delat?/What is to be done?, sendo ainda o editor de um jornal com o mesmo nome. Já publicou ensaios em revistas, jornais, e catálogos de arte, tendo já publicado em seu nome publicações como Printed Project, Afterall, Rethinking Marxism, Phase2, entre muitas outras. 1.1 5. Tradução da autora, no original inglês: To publish is to put yourself out there, by proclaiming that you have content that’s worth sharing with other people. (…) Most publishing ventures, however, are motivated not so much by profit as by the universal human desire to share ideas through permanent, reproducible, exchangeable media.
21 de prever um determinado lucro associado ao processo. Na última edição da revista Emigre, que editou durante mais de 20 anos, Rudy Vanderlans8 refere este romantismo como estando associado à criação de trabalho sem compromisso, encorajando o risco e a experimentação (Vanderlans, 2005). Esta publicação de conteúdos sem mediação, está diretamente relacionada com a ideia de independência, de algo livre e autónomo que procura sobreviver num mercado sem obedecer a regras ou critérios preestabelecidos. De forma semelhante à expressão independente, muitas outras podem caracterizar o mesmo meio: autoedição, edição alternativa, marginal, underground, do-it-yourself, termos que pretendem significar uma mesma ideia de autonomia a nível de conteúdos e de produção. Sofia Gonçalves9 fala desta independência no seu texto Samples para uma Publicação Paralela, disponível online no blogue Reactor: Independência é a desassociação de um ser em relação a outro, do qual dependia ou era por ele dominado. É o estado de quem ou do que tem liberdade ou autonomia. Engloba estruturas que se colocam à margem das estruturas convencionais, de larga escala, das grandes corporações e das estruturas complexas. As estruturas independentes são normalmente estruturas locais, de pequena escala, com tendência para assumir discursos e ideologias mais experimentais. (Gonçalves, 2010) Estas publicações independentes assumem-se como alternativas no mercado, contrariando “o sistema hierárquico, autoritário, praticamente impenetrável das estruturas pesadas e imóveis das editoras ditas comerciais” (Gonçalves, 2010). Como refere Gonçalves, fugindo às estruturas convencionais, as edições independentes constroem e dão forma a um novo tipo de cultura, viabilizando projetos mais experimentais, podendo assumir compromissos sociais, políticos e económicos nas suas publicações. Segundo Sonja Commentz, embora os projetos de edição independente contemporâneos não vivam em grande medida de uma motivação política e social tão forte como os seus antecessores dos anos 1960 e 1970, existe uma tentativa, de certa forma política, de explorar os meios de produção, reclamando uma autonomia total desde a conceptualização do objeto, passando pela impressão, até à distribuição. A edição independente, ou autoedição, contemporânea tende, segundo Commentz, a ser um pouco mais crítica, reflexiva e diversificada, não estando sujeita a nenhum tipo de código de conduta ou ideologia central. “Estes são exercícios imediatos – e intermediados – não destinados a sobreviver uma vida de escrutínio estético, mas a documentar uma fase particular no tempo e no estado de espírito.”10 (Commentz, 2010 p.7) As editoras que seguem este modelo editorial dito independente partilham em geral uma série de características comuns. Segundo Marcos Farrajota, fundador da editora independente Chili com Carne, será possível identificar uma editora deste género através de uma estrutura organizacional e laboral reduzida (uma pessoa, um casal, um coletivo), comunicação ativa com 9. Sofia Gonçalves é uma designer e editora independente portuguesa, professora de design de comunicação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa (FBAUL) e co-fundadora do atelier de design gráfico Flatland. Juntamente com Marco Balesteros foi coordenadora do workshop Samizdat, que teve lugar na FBAUL em 2010, focado na produção editorial independente e nas suas problemáticas. O workshop deu origem a uma publicação do mesmo nome que compilou as motivações, conteúdos e objetivos do projeto, assim como um conjunto de trabalhos produzidos durante o seu funcionamento. 10. No original inglês: These are immediate - and intermediate - exercises not destined to survive a lifetime of aesthetic scrutiny, but to document a particular stage in time and state of mind. 8. Rudy Vanderlans é o co-fundador da revista Emigre, juntamente com a sua mulher Zuzana Licko. Criada em 1984, a revista Emigre desenvolveu trabalho durante 20 anos, tendo sempre dedicado as suas páginas à experimentação em design, contribuindo de uma forma fundamental para o desenvolvimento do pensamento teórico e crítico sobre a disciplina.
22 os autores e o público, distribuição e promoção defeituosa, exploração de nichos de mercado, poucos apoios públicos ou institucionais, financiamento reduzido, inovação tecnológica, entre outros aspectos. É um meio no qual se dá particular atenção ao objeto impresso, dedicando bastante tempo a cada fase da sua conceção (Farrajota, 2012a). Nesta caracterização alargada do que será edição independente, Farrajota nomeia várias formas de publicação que passando pela impressão caseira, artística, barata ou um pouco mais cara, poderão ser identificados: Fanzine – publicação amadora feita por fãs ou militantes de alguma causa (bd, poesia, música, cinema, política) geralmente fotocopiada e agrafada com uma distribuição reduzida (…). Zine – evolução natural do fanzine abandonando a militância ou a idolatria pela cultura Pop, são publicações que não sendo ‘fãs’ de algo, publicam trabalhos pessoais ou artísticos de um autor ou de um colectivo de autores. Edição de Autor – , ou auto-edição. Edição realizada pelo autor, pode ter um aspecto profissional mas geralmente não tem um ‘selo de editor’ como forma de garantia comercial. Livro de Autor – edição realizada pelo autor de poucos exemplares com evidentes realizações manuais (capa, agrafamento, colagens, ex-libris, etc…) e coleccionistas (assinatura e numeração pelo autor). Livro de Artista – edição de um livro geralmente de uma ou poucas cópias em que as páginas da edição muitas vezes são os próprios originais do livro. Impressão digital / P.O.D. – impressão em fotocópia laser que permite produzir poucos exemplares com um tratamento profissional (cosido, colado, encadernado) ou exemplares conforme a procura (print on demand). Esta tecnologia tem servido para Edição de Autor mas também para pequenas editoras ou para livros de pouca circulação de grandes editoras. E ainda: split’zine (zine feito por dois títulos, a capa de um é a contra-capa do outro lado), prozine (termo anacrónico norte-americano para fanzines feitos por autores profissionais, mais vale usar o termo ‘auto-edição’ ou ‘edição de autor’), micro-edição (edição bastante limitada, abaixo de 50 exemplares),… De fora deste ‘relatório’ ficam as produções electrónicas: e-zines, PDFs para visualização e/ou descarga, etc…11 (Farrajota, 2012a) Dependendo dos objetivos e intenções a que cada editor se propõe, as possibilidades de edição independente são inúmeras, e a publicação não é tão inacessível como poderá parecer à partida. Multiplicam-se modelos e guias de ajuda à edição, com conselhos do-it-yourself que vão desde o desenho de um livro, à sua produção, distribuição ou até venda ao público. Guias como Design it Yourself e Indie Publishing de Lupton, dão indicações sobre como organizar o layout de uma página ou encadernar um livro em casa, associando a esta prática um pensamento crítico sobre a cultura DIY e as suas implicações sociais. 11. Ainda que esta lista de Farrajota possa estar de alguma forma incompleta, ou mesmo com algumas caracterizações menos claras, ela serve já como apontamento para uma possível organização dos vários tipos de publicações produzidas de forma independente a nível nacional e internacional.
23 Camanho fala do trabalho de Lupton como sendo promotor de formas alternativas aos princípios da economia de grande escala e produção massifi cada de livros, no que diz respeito à sua produção e dist ribuição. O autor refere ainda as compilações de várias técnicas de impressão e reprodução desde a digitalização de originais ao seu tratamento e preparação para impressão em fotocópia, serigrafi a e off set, de Ron Rene Jr., Dave Choe, Brian Ralph e Jordan Crane, na publicação Re – A Guide To Reproduct ion, assim como no Soyfriends Home-Publication Guide (Fig. 1), editado por Rui Tenreiro, e que pretende também dar indicações e orientações sobre a produção caseira de publicações com o mínimo de recursos. Ao entender o prazer da produção e da acessibilidade dos meios como força motriz para a criação, assume-se a importância da matéria como experiência, forma, mensagem e linguagem. Não é difícil const atar que a expressão gráfi ca é contaminada pelos meios de produção — as fanzines em fotocópia, as novas publicações nos processos mimeográfi cos, parecem fi liar-se numa mesma geneologia linguíst ica. (Gonçalves, 2010) Figura 1 - Capa de Soyfriends home-publication guide, editado por Rui Tenreiro.
24 Uma das características fundamentais da edição independente é esta ligação ao processo de produção de uma forma completa e integrada, em que o autor/editor acaba por ter um papel ativo em todas as partes do processo. Lupton defende esta atitude como uma necessidade social, associando-a às ideias de Walter Benjamin no texto de 1934, The Author as Producer. Como marxista, Benjamin acreditava que as tecnologias de manufactura deveriam estar nas mãos dos operários, sendo propriedade coletiva. Desta forma, acreditava que uma prática artística politicamente ativa não deveria apenas produzir conteúdos políticos revolucionários, mas também revolucionar os meios através dos quais o trabalho é produzido e distribuído. Esta quebra de barreira entre o autor e produtor, revela-se particularmente pertinente na prática do editor independente. Enquanto que na edição tradicional, cada publicação é “um diálogo entre autor, editor, agentes de legitimação (críticos, coleccionadores, comissários), agentes de produção (editor, indústria gráfica, transportes e distribuição) e leitores” (Gonçalves, 2010), na edição independente passa a ser fruto de um só personagem: o autor, que consegue simultaneamente o papel de escritor, fotógrafo, ilustrador, editor, designer ou produtor gráfico, consoante o seu grau de envolvimento com o objeto. Segundo Gonçalves, esta “posição empreendedora coloca nas mãos dos autores todas as tarefas de produção, dotando-os de autoridade e autonomia. Permite negar as consensuais estratégias de viabilidade económica e de gastos mínimos de produção exigidos pelos sistemas capitalistas. Neste sentido, assume-se como um circuito de produção paralelo” (Gonçalves, 2010). Este circuito aproxima produtor e leitor. Funcionando à margem dos meios de distribuição normais, as publicações chegam ao seu público de uma forma muito pouco mediada, por vezes numa relação de venda direta do produtor ao público. É neste movimento de distribuição, em que a cadeia de intermediários leva o produto até ao consumidor, que, afirma Gonçalves, se encontram as alternativas e tangentes aos circuitos comerciais, e se encontra o leitor ideal. Com uma tiragem assumidamente reduzida, as edições chegam a um número muito pequeno de interessados. Livres de pressões económicas e preocupações de rentabilidade, os editores procuram não um público vasto, mas um público muito específico, ou seja, um público ideal. O sistema social de distribuição e, com este, a consolidação da comunidade são, para Robert Drake (1992), mais importantes que os meios físicos de produção. Em última e radical instância, podemos afirmar que a publicação só se faz para construir essa noção de comunidade. Começa por ambicionar encontrar o leitor ideal e deste estende-se ao colectivo, ao reconhecimento dos seus pares. Esta consciência ou emoção colectiva […] promove a fusão entre o artista e o grupo de leitores. É esta espécie de empatia latente, não obrigatoriamente baseada na consensualidade do gosto, que leva a maior parte dos editores ao encontro do leitor ideal. A publicação é mais um elemento de socialização, mas também de socialismo. Perante a autoridade histórica da publicação, dilui-se a ansiedade pela autoridade do artista, pela sua individualidade forçada, ao encontro agora do valor do colectivo, da cooperação. (Gonçalves, 2010)
25 Esta distribuição próxima do consumidor é consequência de uma rede de contactos estabelecida entre editores e pontos de venda alternativos que acaba por conseguir criar uma pequena comunidade unida de colaboração e entreajuda. No texto Show me yours, I’ll show you mine, presente no livro Behind the Zines: the self-publishing culture, Commentz fala-nos de uma rede flexível mas resistente, modelada à imagem da World Wide Web. É uma rede baseada em entusiasmo, idealismo e pragmatismo: Quem conhece a melhor impressora a um preço acessível? Ou um encadernador barato e flexível, que esteja disposto a ir um pouco mais além por uma pequena edição? Vendes as minhas zines se eu promover as tuas? Baseada numa rede de ‘sussurros Chineses’ e uma abordagem moderna à economia barter, todo o sistema prospera no feedback construtivo, físico e financeiro, e num pouco de dar e receber.12 (Commentz, 2010 p.5) É neste contexto que eventos de divulgação e dinamização da área desempenham um papel fulcral, fornecendo pontos de venda regulares, em que o contacto com o público e com outros editores permite o fortalecimento destas redes, dando consistência à comunidade. Na sua dissertação de mestrado Suportes para uma edição reflexiva, Maria João Macedo refere a importância da comunidade alternativa e específica associada aos projetos editoriais independentes, uma vez que as editoras trabalham com a confiança da pertença a uma comunidade, nos incentivos de compreensão e colecionismo que os seus próprios produtos colocam. Sabemos que a manutenção desta(s) colectividade(s) se dá muito à custa do interesse recíproco que umas manifestam pelas outras: os editores de umas são público das outras, os autores repetem-se desta para aquela publicação, uns citam os outros e depois juntam-se para colaborar num projecto diferente, os consumidores são também produtores de publicações independentes. São, de facto, relações algo promíscuas, mas que fazem disso a sua razão de ser. A competição dá lugar à cooperação, as características identitárias individuais esbatem-se para dar lugar a uma noção de colectividade – o território da publicação independente sai reforçado, contando que a capacidade crítica não perca terreno. (Macedo, 2010 p.57) Em Portugal, um dos eventos com mais impacto e regularidade na área da edição independente tem sido a Feira Laica (Fig. 2), organizada pela associação Chili com Carne, que já conta com 20 edições. O projeto da feira tem-se mostrado consistente ao longo dos anos, conseguindo motivar e apoiar novos editores na sua prática. Falaremos deste projeto aprofundadamente, um pouco mais à frente (pág. 31). Durante o último ano têm surgido outras iniciativas ligadas à promoção da edição independente. Para além da Feira de Publicação Independente, com a sua primeira edição a 17 de Junho de 2011, seguida de três outras edições em 2011 e 2012, em Setembro de 2011, surgiu a Books Make Friends, organizada por José Bártolo na ESAD de Matosinhos, e um pouco mais tarde, em Outubro de 2011, a organização Farrapeira teve também 12. No original inglês: It is a network built on enthusiasm, idealism, and pragmatism: Who knows the best affordable printer? Or a cheap and flexible binder, willing to go that extra mile (or centimeter) for a tiny edition? Will you sell my zines if I promote yours? Based on an enticing web of Chinese whispers and a modern take on the barter economy, the entire system thrives on physical, financial and constructive feedback as well as a certain amount of give and take.
32 A associação dedica-se também à organização de exposições, feiras e workshops que de uma forma ou de outra se relacionam com a edição, e acabam por ser movidos por motivações semelhantes. Entre estes projetos está uma das mais importantes feiras de edição independente do país: a Feira Laica. Esta feira teve início em 2004, na tentativa de criar um evento focado em edição independente que não se ficasse pelos projetos pontuais com pouca regularidade da altura, e que pudesse criar um ponto de venda e divulgação regular com uma boa seleção de fanzines e ilustração. Já foram realizadas 20 edições, com a mais recente a acontecer no passado dia 30 de Junho de 2012, em Lisboa. No nosso caso há muitos projectos a acontecer ao mesmo tempo, ou seja, não somos uma editora no sentido clássico. (…) Realmente as coisas partem muito da orgânica do momento. (Farrajota, 2012b) Figura 4 - Cartaz da 20ª Feira Laica, desenvolvido por Bráulio Amado, 2012.
33 Segundo a editora, o desenvolvimento de cada publicação não é preparado e premeditado de uma forma organizada. Por vezes as publicações nascem de uma vontade interna da editora, noutros casos são projetos propostos por autores exteriores. Esta situação implica um processo de seleção da parte de editora que vai definindo que autores e que conteúdos poderão interessar ao projeto da associação. Cada edição vive de uma vontade pontual de desenvolver este tipo de trabalho, sobre este determinado assunto, neste momento particular. Partindo dessa vontade, cada publicação segue o seu próprio percurso e vai crescendo à medida das suas necessidades, sendo publicada passado um mês da sua génese editorial ou passado um ano. Se a publicação o justificar poderá ser pensada e desenhada de uma forma extremamente profissional, com recurso a um designer e meios de produção relativamente sofisticados. Por outro lado, mediante os conteúdos da publicação, a produção também poderá ser totalmente manual, só com a ajuda de um scanner e de uma impressora caseira. Cada publicação da Chili com Carne é essencialmente o projeto de um editor, ilustrador, escritor que se relaciona e identifica com a associação, e que, trabalhando em conjunto com os editores, produz o seu próprio objeto de culto. Mais que um hobby, é sobretudo teres a liberdade de criação e de produção de qualquer coisa, de um objeto, de um conteúdo, que tu podes fazer como tu queres quando tu quiseres. (Farrajota, 2012b) A editora facilita ao autor a produção gráfica do livro, o desenvolvimento do design, a distribuição e divulgação, enquanto que o autor fornece ideias e conteúdos. Após a produção, a divulgação é feita maioritariamente por correio eletrónico. Raramente são realizados lançamentos, ou qualquer tipo de evento relacionado com um livro específico. Figura 5 - Capa do livro Mutate & Survive, uma coletânea de ilustração e banda desenhada, lançado em 2001, uma das primeiras edições da Chili com Carne.
34 Quanto à distribuição, embora no início tenha sido feita uma tentativa mais comercial, através de uma distribuidora convencional, a associação Chili com Carne faz agora este trabalho de uma forma independente, através de três vias principais: lojas, feiras e online. No primeiro caso, são enviados exemplares dos livros para lojas e galerias, que vendem os produtos à consignação. Neste caso existe um distanciamento maior do público, e um menor envolvimento da editora. As vendas são pontuais e dispersas ao longo do tempo, mas esta é uma forma simples de manter a editora visível e acessível em vários pontos do país e do mundo. No segundo caso, as feiras, existe um maior envolvimento da parte da editora, que, regra geral, se desloca ao local da feira com a sua banca para vender os produtos diretamente ao público. Neste caso as vendas têm tendência a subir, conseguindo-se um lucro maior em cada publicação. Por outro lado, as vendas online, funcionam um pouco com a velocidade de venda das lojas, mas com a margem de lucro de uma feira. No caso da Chili com Carne, a venda online traz uma outra vantagem para o consumidor. Pelo valor de uma cota anual, este tem a possibilidade de se tornar sócio da associação, chegando a ter descontos de 50% em cada publicação. Esta estratégia permite à editora fidelizar o seu público, garantindo um valor anual que ajuda a sustentar a editora. Sendo assim, após a sua publicação, cada livro vai sendo sujeito a uma série de meios de venda, conseguindo eventualmente esgotar os exemplares. Este processo de venda pode ser bastante lento, chegando a demorar dez anos a venda total de uma determinada publicação. De uma forma generalizada, toda a nossa atividade em dez anos, está paga. (Farrajota, 2012b) Embora as vendas de cada edição se prolonguem no tempo, a associação afirma ser um projeto sustentável, que, através de vendas e apoios externos, consegue sobreviver e pagar toda a sua produção. Assumindo as vendas como a fonte ideal de pagamento das edições, a editora aceita apoios financeiros e subsídios do Estado como parte da sustentabilidade de um projeto cultural deste género. Marcos Farrajota, um dos fundadores da Chili com Carne, afirma a utilidade destes apoios, “desde que esse subsídio não interfira de forma alguma sobre o trabalho” (2012). Segundo a editora, esta interferência nos conteúdos é muito rara, e nunca constituiu um problema nas suas publicações. Como referido acima, a Feira Laica tem desempenhado um papel fundamental no trabalho da Chili com Carne. “É o evento de edição independente mais regular e com mais visibilidade pública em Portugal.” (Feira Laica, 2012) A feira vive segundo alguns objetivos essenciais: “criar um momento catalisador de novidades editoriais, potenciar o encontro de editores independentes e a reflexão sobre a actividade criativa e editorial” e promover “a bibliodiversidade e a luta contra o monolitismo cultural” (Feira Laica, 2012). A Feira Laica tem surgido maioritariamente em Lisboa, mas já teve edições pontuais em outros locais do país como Palmela, Oeiras, Seixal, Porto e Coimbra, mantendo nos últimos anos uma regularidade semestral entre
35 Porto e Lisboa. A feira é organizada pela Chili com Carne, em conjunto com outros editores e criadores que “funcionam como foco galvanizador de uma comunidade criativa muito mais abrangente” (Feira Laica, 2012). Não existindo assumidamente um público-alvo, a feira existe para interessados em banda desenhada, ilustração, literatura, música, impressão e edição independente em geral. Para além da sua pertinência como editora, que tem vindo ao longo dos anos a recolher e publicar o trabalho de inúmeros ilustradores e escritores, o trabalho da Chili com Carne, ganha uma real consequência e visibilidade na sua ligação à Feira Laica. Este projeto que, de uma forma aberta, procura criar um ponto de encontro regular para as editoras independentes nacionais, divulgando e estimulando o seu trabalho, ao mesmo tempo que promove exposições e concertos, garante aos editores uma coerência e uma estabilidade na sua relação com o seu público e com os outros editores. A sua longevidade tem conferido credibilidade e relevância a esta feira que continua até hoje a divulgar novos nomes da edição independente nacional e internacional. É ainda importante referir que a Chili com Carne e a Feira Laica, demonstram regularmente um gosto pela publicação, que vem do prazer de publicar e produzir objetos visualmente interessantes, em detrimento de uma análise aprofundada crítica e teórica sobre a sua área de atuação. Esta visão emocional daquilo que é a publicação independente tem caracterizado o seu trabalho ao longo dos anos. Figura 6 - 5ª edição da Feira Laica em Dezembro de 2006, Lisboa.
36 OFICINA DO CEGO Data de Início: 2009 Local: Lisboa, Portugal Tipo de publicações e atividades: Produção editorial ligada à banda desenhada, ilustração, prosa e poesia independente, e oferta formativa com workshops e exposições ligados à edição. A Oficina do Cego (…) tem duas vertentes: formativa e editorial. Até aqui tem funcionado com mais regularidade a parte formativa (…). Foi fundada por 10 pessoas ligadas a diversas áreas: ilustração, impressão, design gráfico, crítica de banda desenhada e ilustração. (Henriques, 2012) A Oficina do Cego é uma associação cultural sem fins lucrativos que desenvolve trabalho no domínio das artes gráficas, seja a nível de formação ou edição independente. O seu nome teve origem numa importante casa de impressão do séc. xviii, recuperando “recursos e fundamentos da antiga Oficina Tipográfica, Calcográfica e Literária do Arco do Cego, activa na passagem do séc. xviii para o séc. xix, que conjugava meios necessários à pré-impressão, impressão e pós-impressão. A exigência do seu plano editorial deu origem à criação da Aula de Gravura, um espaço de formação onde se aprendia fazendo” (Bártolo, 2010 p.27). A associação recupera essa vontade de formação, dedicando-se não só à publicação, mas também à organização de seminários, workshops e exposições, promovendo um maior e melhor entendimento das artes gráficas e da edição caseira. Figura 7 - Fotografia de divulgação para um workshop de iniciação à encadernação. “Tendo como ponto de partida a construção de uma prensa rudimentar de encadernação, a formação tem como objetivos dotar os participantes de noções teóricas e práticas necessárias para realizarem as suas próprias encadernações.” (Oficina do Cego, 2012) 2.1.2
37 De um grupo informal de pessoas de várias áreas que participava já em exposições e feiras de uma forma individual (nomeadamente a Feira Laica), nasceu a vontade de trabalhar em conjunto, criando um espaço onde pudesse viver a troca de ideias e influências, juntando esforços, conhecimentos e materiais. Com este núcleo central mais ativo, a associação cresceu para cerca de 48 associados, que participam e colaboram nos projetos do coletivo. Figura 8 - Capa da publicação Chama-lhe o que quiseres de Rui Caeiro, 2010. A publicação foi impressa integralmentre através de serigrafia.
38 “A edição foi sempre um objetivo. E publicar sem pedir licença a ninguém, fazendo como bem entendemos, também” (Henriques, 2012), contudo a ideia de uma oferta formativa pareceu ser sempre central ao projeto, possibilitando a sustentabilidade da associação. As edições podem ser feitas com métodos tradicionais, caídos em desuso, como a tipografia de caracteres móveis. Podem também ser feitas em serigrafia ou cópia digital. Podem ser feitas em off-set. As possibilidades são infinitas. Mas interessa-nos aprender tudo e participar na feitura de todo o processo. (Henriques, 2012) Segundo a associação não existe um plano único que defina o modelo editorial a seguir. Existem maioritariamente duas formas de pensar uma publicação: coletiva e individual. Por vezes o grupo toma a iniciativa de produzir uma edição em conjunto, procurando a participação e contribuição de todos os membros de forma ativa. Noutros casos um ou mais sócios propõem uma ideia, que consoante os interesses dos membros e da associação poderá ser construída e desenvolvida de uma forma relativamente desligada do resto do grupo. Os artistas, ilustradores ou escritores convidados para as várias publicações surgem também de uma forma intuitiva, por proximidade, admiração ou afinidade, participando de uma forma mais ou menos ativa no processo de produção. O seu público é vasto, desde leitores de poesia, ao público colecionador de fanzines, ou, de uma forma mais geral, a qualquer “público que se interessa por bizarrias gráficas” (Henriques, 2012). Procurando uma grande variedade de métodos de impressão nas suas publicações, utilizando desde técnicas de impressão de grande escala como o offset ou processos de produção caseira como a serigrafia ou a gravura, produzem tiragens reduzidas, entre 100 a 200 exemplares por publicação. A divulgação é feita essencialmente através do blogue e de alguma publicidade boca a boca, que a associação acredita ser uma das suas melhores ferramentas. Para além disso realizam com alguma regularidade eventos que reúnem muitos dos seus potenciais interessados, divulgando o projeto junto do seu público principal. “Para a dimensão que temos é suficiente: as edições esgotam.” (Henriques, 2012) Para além da venda de edições, o projeto tem-se sustentado maioritariamente com a organização de eventos, workshops e seminários, e através do pagamento de cotas dos seus associados (3 euros por mês). Não têm vivido com apoios ou subsídios, por más experiências passadas, mas não põem de lado a possibilidade, nem lhes parece uma opção que contrarie a independência do projeto. Fundamentalmente preocupam-se, antes de cada objeto ou evento, em perceber se será sustentável e se compensa avançar. A partir desse ponto, qualquer projeto é possível e viável dentro da associação sem grandes preocupações com lucro. Eu diria que a parte formativa e os eventos são o cimento da associação. Sem isso, já não existiríamos. (Henriques, 2012)
39 Com o objetivo de promover a formação e a aprendizagem de artes gráficas caídas em desuso, a Oficina do Cego organiza de uma forma ativa formações e workshops nas mais variadas áreas ligadas à impressão e autoedição. Pretendem promover a liberdade de divulgação, e um certo entusiasmo pela “bizarria e pequena edição” (Henriques, 2012). Os eventos têm decorrido em várias cidades do país, mas maioritariamente em Lisboa, onde se encontra sediada a associação. Existiram já tentativas de sair da capital, contudo, a falta de apoios e recursos impossibilita uma atividade mais permanente noutros locais. A Oficina do Cego visa (…) responder à necessidade de juntar esforços no domínio das artes gráficas de carácter autoral, criando uma plataforma capaz de reunir meios, recursos, conhecimentos e motivações que através da edição, do seu ensino, experimentação, crítica e produção, contribua activamente para a transformação cultural. (Bártolo, 2010 p.27) A associação tem conseguido ao longo destes últimos anos reavivar um interesse generalizado pelas técnicas de impressão de uma forma contemporânea, recuperando uma atenção ao detalhe, ao erro, e ao objeto único nos seus projetos e workshops. Conseguem de uma forma direta e eficaz dinamizar a área em que estão inseridos, trabalhando de um modo coerente no sentido de promoverem os seus próprios projetos e incentivando outros a iniciar a sua prática. Figura 9 - Cartaz para o curso Auto-edição: curso de técnicas e práticas de edição e impressão promovido pela Oficina do Cego. “O curso de Auto-Edição da Oficina do Cego oferece uma formação transversal que alia a aquisição e aplicação efectivas de competências em artes gráficas – segundo o lema ‘aprender, fazendo’ ao conhecimento das práticas editoriais, contextualizando a sua história e as múltiplas tendências actuais.” (Oficina do Cego, 2012)
40 BRAÇO DE FERRO Data de Atividade: 2007 - 2011 Local: Porto, Portugal Tipo de publicações e atividades: Produção editorial ligada ao livro de artista e livros teóricos sobre arte e design, acompanhada do Navio Vazio, um espaço físico programado e editado como um livro. Sem forma de expressão definida. Sem forma de acção definida. Um livro é uma forma de acção possível. Todo o preconceito é repressivo. Toda a fórmula pode ser utilizada. Sem expressão definitiva. Sem redacção definitiva. Vários textos contraditórios podem muito bem nascer de um mesmo evento. Não ao livro definitivo.15 (Braço de Ferro, 2009) A Braço de Ferro foi uma editora independente dedicada à edição de livros relacionados com arte e design, maioritariamente teóricos. A sua equipa, sediada no Porto, era composta pela artista Isabel Carvalho, e pelo designer gráfico Pedro Nora. “Os editores da BF vêem no livro uma forma de acção pública (publica-acção) e política, que deve potenciar a reflexão e o enriquecimento do leitor e proporcionar uma alternativa aos meios estabelecidos de veiculação de conhecimento.” (Braço de Ferro, 2012) O trabalho da editora nasce já depois dos dois editores terem desenvolvido outros projetos em conjunto. Antes de publicarem como Braço de Ferro, Pedro Nora e Isabel Carvalho tinham já colaborado no coletivo Alíngua, que editou várias publicações, entre elas a Satélite Internacional.16 Esta publicação irregular teve quatro números entre 2002 e 2005, ao longo dos quais se percebe um crescente interesse e aprofundamento da edição e das suas potencialidades, passando de uma abordagem muito ilustrativa para conteúdos quase exclusivamente teóricos nos últimos números. É interessante perceber as motivações d’Alíngua que na sua apresentação online apontavam já o caminho do que viria a ser a Braço de Ferro. Todos nós, participantes do alíngua, temos em comum o facto de gostar de contar histórias. Algumas inventamos e outras recriamos visualmente a partir de autores literários com os quais nos identificamos. E gostaríamos que as histórias continuassem a ser a linha que nos orienta para o futuro: nos próximos números, nas próximas colaborações que possam surgir, ou noutros projetos que este grupo decida realizar paralelamente ao alíngua. Por fim só temos a prometer melhoramentos. Talvez com uma pequena ajuda financeira vinda de algum lado, interessada em incentivar as nossas imaginações. (Nora, 2001) A publicação Wanda, lançada em Setembro de 2007, marca o início oficial da Braço de Ferro, compilando crónicas eróticas, anteriormente publicadas por Isabel Carvalho no blogue Wanda-button, “onde podem ler-se histórias 15. Na exposição O que é urgente mostrar, Experimenta Design 2009, comissariada por José Bártolo, vários autores foram convidados a expressar a sua ‘mensagem urgente’ através da escolha de um cartaz do Espólio Ernesto de Sousa, associando a este um cartaz da sua autoria. A editora Braço de Ferro escolheu o cartaz Ne coupez pas nº4 de Jean Claude Moineau, desenvolvendo por sua vez um cartaz entitulado Um livro é uma forma de acção possível. O texto citado pode ser lido nesse cartaz, e resume de alguma forma a visão da Braço de Ferro sobre o que será o objeto livro. 16. “Apesar de irregular em todos os aspectos – formato, conteúdos, periodicidade, e até preço – há algo que se mantém disciplinado e conforme as vontades férreas dos seus mentores: a qualidade. A S.I. não é uma mera publicação de trabalhos ou objecto circunstancial, mas sim uma vontade editorial em mostrar que tipo de caminhos laboratoriais são por vezes possíveis. É também uma espécie de catálogo de uma banda desenhada ‘de autor’, mais ou menos ‘experimental’, mais ou menos ‘gástrica’, mas sempre com poucas ou nenhumas concessões às ‘necessidades’ do mercado ou aos ‘gostos vigentes’. Conta sempre com colaborações internacionais e não são nada desprezíveis esses nomes convidados.” (Moura, 2005) 2.1.3
41 que se referem a temas como a masturbação; a homossexualidade feminina e masculina; a troca de papéis sexuais; a sensualidade e o erotismo; a liberdade sexual feminina; a sexualidade do casal heterossexual (…)” (Duarte, 2010 p.95). O crescimento e desenvolvimento da editora não seguiu propriamente um caminho planeado. Foi surgindo à medida das vontades e possibilidades dos seus autores. Na tese de mestrado Publicação Independente: Auto-edição e discurso crítico sobre design gráfico, Isabel Duarte fala das motivações que conduziram ao início da Braço de Ferro. “A origem da Braço de Ferro, em 2007, é consonante com a mudança de intenções editoriais do projeto anterior e com a vontade de combater a falta de produção artística, crítica e teórica impressa e alternativa que a escassa documentação no meio artístico nacional originava.” (Duarte, 2010 p.96) Embora a editora assuma não ter motivações ‘panfletárias’ para a sua prática, sentem “a necessidade de registar, para inscrever na memória, certos acontecimentos. Gostam de livros e daquilo que certas pessoas fazem, como tal, sentem uma obrigação social para documentar o que se passa” (Camanho, 2008 p.36). Apoiando-me na minha experiência pessoal, julgo que o que leva uma artista a interessar-se por fazer livros, os seus livros, os livros dos outros, a gerir conteúdos, a fazer papel de editora, a ter um espaço para gerir, é saber que tudo isso faz parte de um mesmo processo de gestão e produção de conhecimento. (Carvalho, 2010a) Figura 10 - Capa da publicação Satélite Internacional #04, 2005, editada pelo coletivo Alíngua.
48 Segundo os autores, esta dinamização dos estudantes e jovens designers é essencial para o crescimento da área. “Achamos bem que sejam os alunos e os jovens a dinamizar a sua área, porque demonstra que são interessados e é aí que se consegue ver a motivação de cada aluno. Cada um tem que lutar pelo que acredita.” (Sá Fernandes, 2012) A institucionalização de projetos deste género, agregando-os a associações de design ou a instituições académicas parece-lhes pouco relevante, e em última instância menos consequente, retirando o poder da iniciativa própria, que consideram ser essencial. A divulgação do projeto é feita maioritariamente através da sua página no Facebook, atualizando notícias e recolhendo sugestões. “Não há verdadeiramente um esforço efetivo, no entanto é claro que nós gostávamos que houvesse um maior número de pessoas interessadas no Colher e que o lesse, mas não fazemos propriamente publicidade (…)”. (Sá Fernandes, 2012) Afirmam ainda deixar que o público decida a direção que o site deve tomar. Não querem impor uma determinada visão, “porque (…) se as pessoas vêem e gostam é mais que natural que continuem a gostar. Se o deixarem de fazer é porque nós estamos a fazer alguma coisa errada, e aí vamos estudar as fragilidades e não propriamente preocuparmo-nos em fazer sempre publicidade” (Sá Fernandes, 2012). Figura 14 - Capa da publicação Colher - Portuguese Illustration, editada pelo Colher.net em 2011.
49 Segundo Eurico Sá Fernandes, o Colher não é sustentável. Permite apenas pagar algumas contas de alojamento do site, e pouco mais. Recentemente foi adicionada à plataforma uma pequena secção de publicidade que permite cobrir alguns custos, mas não completamente. Desta forma, assume-se como um projeto ainda amador que não tem retorno financeiro, mas que pretende com tempo e experiência conseguir chegar a esse ponto. O Colher promove ainda outras iniciativas que vão para além da plataforma online, procurando chegar ao público de uma forma mais direta. Entre eles está a Colher Tour, uma série de conferências itinerantes que teve lugar em 2011, ao longo de várias cidades do país. Vários projetos relacionados com design e ilustração foram convidados para se apresentarem e divulgarem um pouco do seu trabalho, em breves palestras de 15 minutos. Esta iniciativa conseguiu sair dos roteiros habituais de Lisboa e Porto, passando também por Évora, Caldas da Rainha, Coimbra e Barcelos, atingindo um público bastante alargado e diversificado. Mais uma vez todos os custos foram pagos integralmente pelos organizadores do evento. Não é um projecto sustentável, mas nós gostaríamos muito que fosse para também podermos apostar mais nele e trazer mais e melhor. Mas nós somos dos que pensam que, mesmo com pouco dinheiro, podemos fazer tudo o que queremos. (Sá Fernandes, 2012) Para além da Colher Tour foram ainda editadas duas publicações, uma primeira com uma compilação de ilustradores portugueses, e uma segunda que vivendo também da ilustração assumia o formato de calendário. No futuro o Colher pretende continuar a existir para além do site, promovendo mais eventos como a Colher Tour, e editando publicações impressas. Os autores querem “pensar como um projeto como este que acontece sobretudo online se pode inscrever em outros eventos mais físicos e palpáveis e mais próximo do público e da vida real” (Sá Fernandes, 2012) de forma a atingir o seu público e os seus objetivos de uma forma diferente, e possivelmente mais direta. Ao longo destes dois anos de trabalho o Colher tem conseguido realmente criar uma comunidade em torno do seu website, que contribui e colabora ativamente na construção e consolidação dos seus objetivos. Encontramos aqui, de uma forma clara, a ideia de comunidade que se move em torno de um projeto, sem qualquer expectativa de retorno, apenas com noção de dar e receber que uma iniciativa desta natureza permite.
50 BINAURAL Data de Início: 2004 Local: Nodar/São Pedro do Sul, Portugal Área de intervenção: Promoção da exploração e da pesquisa cultural, tecnológica e científica com particular enfoque na arte sonora, aplicada a contextos sociais e económicos do interior do país. Agora que muita da arte contemporânea parece perder a centelha das emoções verdadeiras, enredada em mecanismos de auto-contemplação e de auto-justificação. Artistas e comentadores num só corpo, potenciados por um fascínio tecnófilo. Temos de nos pôr a caminho. Procurar no outro lado da auto-estrada, nos arrabaldes do mundo, os artistas que dizem: criei esta obra por absoluta necessidade. Para não me esquecer. Para me manter à tona do pântano. Como homenagem ao meu semelhante que luta, ao sol que nos aquece, ao sistema de rega que nos alimenta, ao vinho que nos anima. Abaixo os laboratórios de artistas higiénicos. Abaixo as mentes brilhantes enredadas nos seus algoritmos. Arte não é ciência. Viva a poeira da estrada. Queremos braços actuantes. O meu medium é uma enxada, precisa de músculo e de suor para funcionar. Saudemos a virtude das coisas necessárias. (Binaural, n.d.a) A Associação Cultural de Nodar (Binaural/Nodar) é uma associação sem fins lucrativos, criada com o intuito de promover a cooperação local e internacional nos domínios da pesquisa cultural, tecnológica e científica, promovendo a investigação da arte sonora experimental, focando-se na sua articulação com o contexto social, geográfico e económico envolvente. A associação trabalha essencialmente em contextos rurais, tendo como principal área de atuação os espaços de Nodar e do Maciço da Gralheira (concelho de São Pedro do Sul, sub-região de Lafões). 2.2.2
51 A equipa é constituída por Luís Costa, fundador e atual presidente da associação, Rui Costa, fundador e diretor editorial, e Manuela Barile, uma artista italiana que se juntou ao projeto como diretora artística. O projeto nasceu de uma vontade dos seus fundadores, “um colectivo de artistas contemporâneos dedicados às artes media” (Costa, 2012), em promover práticas artísticas mais integradas no seu contexto, interagindo de uma forma ativa com o público que o rodeia. Os autores sentiram a necessidade de aprofundar “a investigação sobre as possibilidades de uma prática artística exploratória em estreita interacção com um contexto específico rural e em lançar as bases de uma plataforma de troca regular de ideias e de práticas com artistas e organizações internacionais atuando na mesma área” (Costa, 2012). Uma vez que dois dos membros fundadores eram originários da aldeia de Nodar, foi dada continuidade às suas motivações através da Binaural/Nodar, utilizando esta comunidade rural como ponto de partida. Figura 15 - Aldeia de Nodar, junto ao rio Paiva.
52 Perante um cenário artístico contemporâneo, que segundo os autores, se encontra demasiado fechado sobre si próprio, tendo “na sua génese projectos intelectuais ou tecnológicos que funcionam de forma circular ou isolada da realidade mais imediata (íntima, social, política)” (Binaural, n.d.b), e dependendo muitas vezes de mecanismos de cultura de massas, surge a necessidade de criar um projeto artístico mais comunitário e mais próximo do público. Urge cada vez mais devolver a arte à vida, potenciando a atenção às coisas mínimas, não tanto aos grandes ideais ou teorias. Essa amplificação sensorial do íntimo, do esquecido, do periférico é (ainda) hoje uma necessidade imperativa. (Binaural, n.d.c) O projeto Binaural/Nodar assume-se então como uma tentativa de aproximação entre a arte e a vida, “colocando em comunicação direta artistas com realidades / comunidades não abrangidas pelos radares públicos ou políticos (periféricas, marginais, rurais, etc.). Esta radicalidade assenta num retorno a uma certa pureza original da arte, de um sentido menos mediado de forma exclusiva por processos de auto-referência e de crítica” (Binaural, n.d.c). De certa forma, o grupo pretende promover projetos artísticos que possam ser entendidos como necessidade pública, uma característica muitas vezes esquecida nos circuitos artísticos das cidades. Percebendo que as comunidades com que trabalham não são uniformes, nem em termos de formação nem de idade, a associação percebe o seu trabalho como algo que pode e deve adaptar-se ao seu contexto, ganhando com essa variedade de público. O grupo organiza uma série de projetos artísticos aplicados a estes contextos rurais, entre eles workshops e residências artísticas. Os artistas são, então, convidados a arriscar, assumindo o desafio de trabalhar com um meio novo, adaptando-se a um contacto social direto e tendo de questionar e reconfigurar a sua linguagem, materiais e abordagens estéticas. A associação pretende evitar uma noção de que o artista irá trabalhar com base em histórias ou vivências da aldeia, como se fossem simplesmente conteúdo. O objetivo será promover “um envolvimento mútuo, um encontro entre formas diferentes de viver, conceber e traduzir o mundo. O encontro entre o artista e o contexto não deve pois ser meramente instrumental (no sentido da recolha de elementos para o desenvolvimentos da obra) mas sim algo de orgânico, que se vai construindo naturalmente ao longo do tempo, que se baseia numa vivência quotidiana e comunicativa. É claro que este encontro exige disponibilidade mútua, abertura ao outro com o grau de ‘tensão’ e de imprevisto que lhe são inerentes por natureza” (Binaural, n.d.d). No largo espectro de projetos organizados pela associação, entre eles residências artísticas em arte e tecnologia de reflexão criativa e científica, projetos educativos de mapeamento sonoro de territórios rurais, documentação da memória local e de publicação de catálogos, CDs, entre outros documentos, consegue-se perceber uma lógica contínua que une todas estas vertentes, criando uma perceção multifacetada das
53 realidades rurais, do seu património e potencial artístico e económico, divulgando estas ideias junto dos próprios habitantes locais ou mesmo de pessoas e entidades exteriores à região. Um dos projetos mais relevantes na atividade da associação é o Nodar Rural Art Lab, um programa de laboratório de criação artística em arte sonora, desenvolvido em articulação com comunidades e paisagens rurais do Maciço da Gralheira, em particular a aldeia de Nodar. As residências artísticas promovidas por este projeto procuram estabelecer relações e interações dos artistas “com o local, os seus habitantes, espaço geográfico, identidade e memória” (Binaural, n.d.d). Nestas residências já participaram mais de 100 artistas, todos eles referidos no website da associação,18 realizando projetos artísticos em ligação com a comunidade. Foram feitos “concertos, workshops, exposições, palestras e projecções de vídeo (…) em diversas aldeias da região com interesse e participação crescentes” (Binaural, n.d.d). É tão paradoxal quanto irónico como gente rural recebe de forma interessada obras que, na sua maioria, podem ser caracterizadas como experimentais. As mesmas obras que nas grandes cidades poderiam ser encaradas como curiosidade ou de forma indiferente, dado o número de manifestações culturais a decorrer em simultâneo, num tempo em que existe a impressão de que já se viu e ouviu tudo. (Binaural, n.d.d) Figura 16 - Workshop Aldeias Sonoras, em Canelas. 18. www.binauralmedia.org
54 Através deste projeto a associação acredita já ter conseguido um acréscimo na auto-estima coletiva e individual dos habitantes locais, pelo facto de se verem representados nas obras, encontrarem o seu quotidiano, as suas memórias e opiniões espelhadas através da prática artística. Perante estes resultados, os autores assumem a convicção de que “ao acompanharem os trabalhos artísticos desenvolvidos, as pessoas (tenham a instrução e a idade que tiverem) intuem os rudimentos dos processos de transformação sensível da realidade em arte e reconhecem essa realidade como sua, o que reduz de sobremaneira o hiato entre a criação e a recepção” (Binaural, n.d.d). A associação consegue assim aproximar a arte de um público raramente exposto a ela, não só dando visibilidade aos artistas, mas fundamentalmente dando orgulho e auto-estima a regiões isoladas e rurais, que raramente se veem valorizadas desta forma tão íntima e imediata. Paralelamente a esta motivação ligada à promoção e dinamização das regiões rurais, a associação afirma um esforço no sentido de promover e interessar jovens artistas nacionais, procurando garantir a sua presença nas suas residências muito frequentadas por artistas internacionais, “já que tal constitui uma oportunidade única de aprendizagem e aquisição de conhecimentos junto dos artistas internacionais com carreiras mais estabelecidas” (Costa, 2012). No mundo de hoje em que o trabalho artístico cada vez mais se faz em rede e numa perspectiva multidisciplinar, acreditamos mais no papel de estruturas informais e dinâmicas que se relacionem com parceiros para a consecução de projectos concretos do que na dependência em relação a plataformas ou organismos centralizados. (Costa, 2012) A divulgação é feita através da produção de objetos editoriais, promoção de exposições retrospetivas, apresentação das atividades desenvolvidas fora da região, entre outras ações. A associação assume a importância desta divulgação para a continuidade do projeto, afirmando que “A nossa lógica é trabalhar esteticamente na lógica ‘local’ mas produzir e divulgar numa escala ‘global’” (Costa, 2012). Ao longo dos anos as iniciativas conseguidas têm mostrado consequências e resultados que em muito ultrapassam os objetivos iniciais a que se propunham. “(…) a nossa presença contínua numa região muito remota e pobre, onde existe um sentido de auto-estima muito diminuído, tem permitido a criação de laços muito fortes com a população e a criação de oportunidades de melhoria efectiva da qualidade de vida das mesmas.” (Costa, 2012) A cada ano aumenta a presença de público nacional e estrangeiro nos eventos promovidos, e as candidaturas a residências artísticas começam a ter cada vez mais procura. Apesar desta maior visibilidade, é importante salientar que a promoção mediática não é o foco da associação. “(…) a nossa razão de existir tem a ver com a presença contínua, muitas vezes em condições árduas, numa região muito carenciada, pelo que todo o nosso sucesso em termos de público ou de visibilidade do projecto será sempre visto por nós como algo que vem por acréscimo e que não é um fim em si mesmo.” (Costa, 2012)
55 Quanto à sua sustentabilidade económica, a associação afirma organizar-se sempre em conformidade com as suas possibilidades económicas e os apoios disponíveis. São apoiados por entidades públicas como a Direção Geral das Artes e a União Europeia, mas o seu principal rendimento é conseguido através da venda das suas edições, da venda de espetáculos e da organização de workshops. (…) julgamos que os apoios públicos são essenciais, em especial para estruturas que se dedicam a um trabalho concomitante de produção, investigação, criação que geram memória e pensamento sobre arte e território e que fogem à centralização da cultura nos centros urbanos, mas estes apoios não devem retirar a capacidade e energia para encontrar formas criativas de gerar receitas e garantir a sustentabilidade dos projectos. (Costa, 2012) Concluindo, esta associação tem desenvolvido um trabalho de grande impacto nas regiões rurais onde tem trabalhado. Ao longo dos seus anos de existência tem já resultados reais junto do público, e através da investigação artística tem conseguido aumentar a auto-estima e a valorização dos locais e da população. O seu trabalho reflete-se num aumento do conhecimento sobre as regiões, quer a nível interno como externo. É dado aos artistas um público diferente e novo, mas que ultrapassados alguns preconceitos demonstra um grande interesse e uma capacidade de participação e colaboração muito ativa, conseguindo-se criar e reforçar comunidades em torno destas práticas. Figura 17 - Exposição do projeto Aldeias Sonoras, na Escola Secundária de S. Pedro do Sul. Fotografia: Paulo Paiva
56 RESULTADOS Após esta exposição de casos de estudo, é importante perceber de que forma se relacionaram com o projeto aqui desenvolvido, e em que medida se revelaram pertinentes para o seu desenvolvimento. Embora os grupos de que falámos neste capítulo apresentem projetos distintos, com objetivos bastante diferentes, conseguimos encontrar um ponto comum nas suas motivações. Estas editoras e associações assumem a procura de um trabalho culturalmente relevante, e que pretende, de uma forma altruísta, contribuir para a dinamização e crescimento da sua área de intervenção. Todas estas editoras ou associações consistem em pequenos grupos que doam o seu tempo e trabalho ao projeto, esperando pouco ou nenhum retorno financeiro, tentando sempre procurar estratégias de financiamento alternativas para que os seus objetivos possam ser cumpridos. Numa primeira parte, analisámos associações e editoras dedicadas especialmente à edição independente. O seu trabalho é maioritariamente ligado à edição, ou à promoção desta prática, seja através de exposições, feiras ou workshops. Demonstrando sempre uma dedicação e um amor à edição e publicação de conteúdos, a Chili com Carne, a Braço de Ferro e a Oficina do Cego procuram sempre novas formas de promover a publicação independente e chamar a atenção de novos públicos para esta área. Estudando um pouco mais a fundo o seu trabalho pudemos perceber, não só métodos de divulgação e sustentabilidade financeira das edições que produzem, mas também estratégias para a promoção da própria área da edição independente e dos editores envolvidos. A segunda fase do estudo concentrou-se em associações que se dedicam à promoção de uma área cultural. O Colher e a Binaural, embora distantes da edição independente e do projeto apresentado nesta dissertação, mostram motivações e objetivos muito próximos daqueles que fundamentam esta dissertação. A sua intervenção ativa numa comunidade e os resultados consequentes e duradouros que conseguiram atingir são exemplos que nos ajudam a perceber melhor de que forma um projeto deste tipo poderá crescer e atingir os seus objetivos. Nestes dois casos, mantém-se o carácter independente da sua gestão e organização, com pouco ou nenhum retorno financeiro, tendo sempre como objetivo a sustentabilidade da associação. Estes estudos permitiram-nos uma maior aproximação a projetos independentes de uma forma um pouco mais abrangente. Foi-nos possível perceber não só a sua forma de gestão e divulgação, mas também as motivações das quais nasceram e com que objetivos dirigem o seu trabalho. Para melhor podermos cumprir as nossas ambições é essencial perceber como funcionam estes projetos, e de que forma se relacionam com as comunidades que os rodeiam. Esta análise permite-nos clarificar a nossa própria prática, percebendo melhor o contexto em que estamos inseridos e potenciando novas soluções para o projeto que pretendemos desenvolver. 2.3
57 PROJETO O INÍCIO As motivações para o trabalho aqui desenvolvido partem de ideias anteriores a este relatório. Projetos como a revista Pangrama, ou a 1ª edição da Feira de Publicação Independente levantavam já algumas questões que se exploram neste documento com mais profundidade. A experiência que fomos adquirindo nesses dois projetos alimentou empiricamente muitos dos conteúdos aqui tratados, levantando problemas que seriam imprevisíveis através de uma análise meramente teórica. A PANGRAMA Este projeto editorial independente começou em 2009, como projeto final da licenciatura de Design de Comunicação, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, tendo sido desenvolvido em conjunto com cinco colegas: Catarina Correia, Joana Sobral, João Araújo, Luísa Silva e Raquel Rei. Neste momento dois dos elementos deixaram de ter disponibilidade (João Araújo e Luísa Silva) e o grupo passou a integrar só quatro pessoas. Embora inicialmente os objetivos da revista fossem ainda pouco definidos, era já clara uma vontade de produzir conteúdos teóricos sobre design e publicá-los de uma forma livre e descomprometida. O projeto pretendia funcionar como um contributo real para dar resposta a uma necessidade que nós, enquanto estudantes de design, identificámos na altura: a de plataformas que sirvam de estímulo para uma discussão teórica e crítica sobre a disciplina. Neste contexto, a Pangrama surge como uma publicação independente que se concentra em teoria de design, procurando dar voz a escritores e pensadores menos reconhecidos, acompanhando os seus textos com ilustração nacional. A revista tem como principais objetivos: 1. Contribuir para o alargar de uma arena de discussão sobre a disciplina do design, em território nacional, divulgando também novas vozes da crítica e da teoria. Pretende oferecer plataformas para uma discussão aberta que acolha opiniões distintas. As plataformas de crítica e teoria do design anteriores à Pangrama são, maioritariamente, blogues que compilam artigos de um só autor. 2. Contribuir para o crescimento de um interesse na crítica e teoria do design, por parte dos estudantes da área, que muitas vezes se centram 3. 3.1 3.1.1
64 do utilizador da mesma forma que faremos para qualquer notícia. Contudo, depois de aberta a notícia ou publicação, esta mostrará uma estrutura bastante diferente. Para cada publicação será selecionada uma série de imagens que a caracterizam, que será depois associada a um breve texto sobre a publicação (escrito por nós ou pedido ao autor) e a uma descrição detalhada dos seus vários elementos, tais como título, autor, data, local, tiragem, ISBN, entre outros já referidos. Um dos elementos fundamentais da página particular de cada publicação será o link para a compra da publicação. Esta ligação embora não funcione como compra de uma forma direta, leva o interessado para a página da editora, ou, no caso de não existir website, para o e-mail do editor. Depois de feita essa passagem, ficará do lado do consumidor decidir se quer efetivamente enviar um e-mail a pedir a publicação ou comprar a publicação através do website, e dos meios que este disponibliza, contactando diretamente com a editora e não connosco. Pareceu-nos essencial facilitar o contacto entre o público potencialmente interessado e os editores que, desta forma, adquirem não só mais um ponto de divulgação, mas também de venda. As várias publicações, embora apareçam referidas na página inicial, poderão ser vistas isoladamente selecionando a secção Publicações. Por outro lado, e de uma forma mais simplificada, a página de cada notícia deverá conter apenas algumas imagens, um pequeno texto e links pertinentes. Tal como as publicações, o utilizador poderá ver apenas notícias selecionando a secção Notícias. Quanto aos Recursos, estes contemplam três secções distintas: apoios, registos e locais de venda. Aqui, o utilizador poderá encontrar uma lista de subsídios disponíveis, registo ISBN, ISSN, entre outros, e possíveis pontos de divulgação e venda das publicações. Os Recursos pretendem servir como um suporte principalmente focado em novos editores, que queiram perceber de que forma se podem iniciar no mundo da edição, encontrando ali uma boa parte da informação prática necessária. O desenvolvimento do website levantou ainda algumas questões sobre as opções a tomar no seu desenho e programação. Foi bastante evidente, desde o início que o projeto deveria ser desenvolvido em formato blogue. Era importante que o público percebesse o website como uma plataforma de novidades em constante atualização, que poderia e deveria ser consultado com regularidade. Embora inicialmente nos parecesse importante a criação de um layout de raiz, foi-se tornando claro que poderíamos partir de um tema já desenhado, o que nos pouparia tempo e daria a possibilidade de escolher uma estrutura já pensada e testada que se adaptasse às nossas necessidades, concentrando os nossos esforços naquilo que era realmente importante neste projeto: os conteúdos. Depois da criação de uma parte dos conteúdos, e da sua aplicação ao layout escolhido, ainda assumindo o formato beta do projeto, decidimos dar início a uma divulgação ativa do projeto Fair. Uma das primeiras plataformas de divulgação surgiu nas Unneeded Conversations,27 organizadas entre os dias 16 e 19 de Maio de 2012, que nos possibilitaram uma apresentação pública da revista Pangrama 27. “As Unneeded conversations são uma iniciativa de âmbito internacional do Instituto de Investigação em Arte Design e Sociedade (i2ADS). Estes seminários tiveram a sua primeira edição em Maio de 2010 e têm como objectivo constituir uma plataforma interdisciplinar de discussão e reflexão sobre a prática artística contemporânea.” (Leal, 2012) Em 2012, com a caracterização de low cost, as Unneeded Conversations realizaram-se entre 16 e 19 de Maio na FBAUP, espalhando um conjunto de eventos associados por vários pontos da cidade.
65 Figuras 22 a 25 - Website www.projectofair.com – página de entrada, secção Recursos > Apoios, página de notícia e página de publicação (arquivo)
66 e projetos associados, entre eles o Fair. Já com uma breve ideia do que seria o projeto, o público foi depois confrontado com o website, e uma página no Facebook, que contribui para a divulgação de novidades e conteúdos do projeto. Neste momento, o maior desafio será manter o projeto vivo, adicionando novos conteúdos sempre que possível. É essencial não perder de vista os objetivos iniciais da plataforma, que mesmo depois de uma boa primeira fase de divulgação, precisará sempre de bastante atividade para se manter pertinente, consequente e eficaz. RESULTADOS O projeto tem estado a crescer e a ser construído progressivamente ao longo dos últimos meses. Neste momento temos já mais de 110 publicações em acervo na Biblioteca da FBAUP, e mais de 40 no registo online. Até à data os comentários ao projeto que temos recebido têm sido invariavelmente positivos. As editoras têm-se mostrado bastante disponíveis para colaborar, enviando conteúdos e imagens, esclarecendo dúvidas, e mesmo participando ativamente na divulgação. O público também se tem mostrado recetivo, já com alguma atividade no Facebook, e mesmo na zona de comentários do website. As pessoas interessadas parecem estar a utilizar a plataforma, e insistem no seu desenvolvimento, fazendo perguntas e sugestões. Esta receção positiva só reforça a nossa vontade de continuar a melhorar o projeto, sublinhando a pertinência do trabalho que estamos a desenvolver. É ainda importante referir algumas dúvidas e questões que vão surgindo na aplicação prática das ideias apresentadas, e que poderão servir como pontos de partida para uma melhoria ativa do projeto. Entre os principais problemas a resolver está o registo fotográfico das publicações, que terá de ser desenvolvido de uma forma mais profissional no futuro. É essencial ter um bom registo das publicações, e neste momento ainda não temos a capacidade técnica para uma reprodução de excelente qualidade. Uma outra questão que tem estado sempre presente, e que já foi referida anteriormente, é a dificuldade de manutenção ativa da página, com a necessidade da publicação diária de conteúdos. Esta atividade é fundamental e teremos de definir uma equipa e uma estratégia clara para que o projeto se mantenha atual. É ainda importante referir que o trabalho desenvolvido no website estará em constante análise, mesmo depois da conclusão desta dissertação. Essa continuidade crítica poderá implicar alterações de layout ou de conteúdo no sentido de melhorar o acesso à informação diponibilizada, tornando a plataforma mais amigável e eficaz. 3.2.1.2
67 FEIRA DE PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE Como foi referido anteriormente (pág. 60), a Feira de Publicação Independente surgiu antes do projeto Fair, tratado nesta dissertação. Contudo, ela é agora uma parte integrante e fundamental daquilo que nos propomos a fazer. Quando começámos a organizar estes eventos, não tínhamos ainda planeado a sua regularidade. Inicialmente surgiu como uma ideia pontual, algo que se justificava fazer na altura, e que conseguia responder a um conjunto de problemas que não víamos resolvidos na FBAUP. Tínhamos como ideia central a noção de que numa faculdade de belas artes se produz imenso conteúdo editorial que nunca vê o público e nunca é confrontado com críticas fora da sala de aula. Quisemos, então, abrir as aulas ao resto da comunidade escolar e convidar editoras que pudessem contribuir com conteúdos interessantes, que entusiasmassem e encorajassem os alunos à produção editorial independente. Perante os resultados e boa receção da primeira feira, o projeto cresceu, ganhou vontade de se repetir e transformou-se num evento de periodicidade irregular, mas que vai marcando presença ao longo do ano, como um ponto de encontro para editores de maior ou menor dimensão. Os nossos objetivos também cresceram. Queremos agora não só trazer os alunos para a edição, mas também dar à edição mais um ponto de divulgação, de troca de ideias e de contacto direto com o seu público, para uma venda de objetos culturais sem intermediários. Queremos criar um evento que não surja pontualmente de uma forma isolada, mas que associado à nossa plataforma online, possa criar um grupo de editores que trabalham em conjunto para fortalecer os seus projetos e a área da edição independente, deixando de lado o isolamento frequente deste projetos e criando uma pequena comunidade de editores nacionais. METODOLOGIA Cada edição da Feira de Publicação Independente foi seguindo um modelo de gestão e organização progressivamente mais apurado. Embora ainda não estejamos inteiramente satisfeitos com a forma como o evento tem sido estruturado, estamos a trabalhar nas suas melhorias e julgamos estar a caminhar na direção certa. Em cada edição da feira, o primeiro passo é sempre a seleção de um local e de uma data, ou um conjunto de datas possíveis. A escolha do local, ou o tipo de local para o qual convidam o nosso projeto, define em grande medida as características do evento em si, mediante as possibilidades do espaço. Ao longo dos vários eventos tivemos a possibilidade de trabalhar com concertos, conversas, palestras e exposições, tudo variando consoante o espaço e tempo disponíveis. 3.2.2 3.2.2.1
68 Após a primeira edição da feira, todas as outras têm vivido em associação a eventos paralelos, o que implica uma organização mais alargada e complexa. Por isso, e depois de uma primeira análise do espaço e planeamento do que poderá constar em cada evento, dá-se início a um levantamento dos potenciais participantes, quer na feira, quer nos eventos que a acompanham. A base de editoras a convidar tem crescido ao longo das várias edições da feira, sendo sempre feita uma tentativa de chamar nomes novos e alargar o público com acesso ao evento. A procura de novas editoras nacionais e internacionais é constante e vai acontecendo ao longo de todo o ano, mesmo fora de períodos de feira. Tendo já definida uma ideia e um plano para o evento, damos início à divulgação. Desenvolvemos cartazes e flyers, atualizamos o site28 e a página do Facebook, convidamos editoras por correio eletrónico, e, aos poucos, vamos criando uma lista de inscrições que só estará completa cerca de uma semana antes da feira. Este processo de divulgação é essencial para o sucesso do evento. Sem uma publicidade bastante ativa as feiras acabam por perder público e participantes, e os objetivos não são cumpridos. As inscrições processam-se em duas modalidades distintas: inscrição para mesa, com possibilidade de vender as suas próprias publicações num espaço especialmente destinado à editora, e inscrições de publicações isoladas, nas quais nós nos responsabilizamos pela venda. No primeiro caso, a editora ficará responsável por aparecer no dia da feira e organizar a sua mesa, no segundo caso é feita uma recolha das publicações inscritas, seja por entrega pessoal ou correio, que serão posteriormente catalogadas e organizadas por nós, sendo depois vendidas em mesas da própria organização da feira. Na primeira e segunda edições da feira não foi cobrado qualquer valor nem comissões em qualquer um dos tipos de inscrição. Contudo, à medida que o projeto evoluiu sentimos necessidade de dar resposta a alguns gastos do evento procurando compensá-los através de um valor de inscrição para mesa, e uma comissão percentual de vendas para as publicações isoladas. Alguns dias depois da feira cada participante recebe uma lista detalhada com as suas vendas, dando-se início ao processo de devolução das publicações e transferência dos valores vendidos. EDIÇÕES 1ª Edição Data: 17 Junho 2011 Local: Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Nº de participantes: 37 Nº de publicações: cerca de 111 A primeira edição da Feira de Publicação Independente serviu essencialmente para perceber o potencial do projeto. Embora tenhamos tido bastante menos participantes que na edição seguinte, houve uma grande adesão da parte 3.2.2.2 28. www.pangrama.org/afeira
69 dos alunos, e foi realmente possível cumprir os objetivos propostos. Notou-se um entusiasmo renovado pela publicação independente, motivando claramente os estudantes ao início de uma atividade como editores, tendo mesmo surgido novos projetos editoriais. As reações foram extremamente positivas, com bastantes sugestões para que repetíssemos o evento, mesmo noutros sítios da cidade. Serviu para que percebêssemos já algumas falhas na nossa forma relativamente informal de organizar o evento, nomeadamente na gestão e organização das publicações, motivando uma reorganização e uma tentativa de estruturar melhor as inscrições e a entrega de publicações. Foi a única edição em que só houve feira, sem qualquer outra atividade associada. Figura 26 - Cartaz promocional da 1ª edição da Feira de Publicação Independente, 2011, FBAUP.
70 Figuras 27 a 31 - 1ª edição da Feira de Publicação Independente, 2011, FBAUP.
71
72 2ª Edição Data: 23 de Novembro 2011 Local: Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Nº de participantes: 61 Nº de publicações: cerca de 183 Eventos associados: Breve série de apresentações de projetos editoriais nas quais participaram João Sobral (Panda Gordo), Márcia Novais (Close Up), Miguel Carneiro, Dário Cannata e Dayana Lucas (Oficina Arara), seguida de uma conversa sobre a gestão e sustentabilidade em edição, moderada por Júlio Dolbeth, com a participação de Marcos Farrajota (Chili com Carne), Luís Camanho (Plana Press), Ana Carvalho (Plana Press) e Pedro Bismark (Punkto). A 2ª edição da Feira de Publicação Independente fez uma tentativa de expandir o projeto para além da venda de publicações. Quisemos abrir a discussão sobre edição na feira, procurando abordar o tema da gestão e sustentabilidade, que, num contexto de crise económica nacional, ganha particular pertinência. Nesta feira conseguimos aumentar o número de participantes, alargando a visibilidade do evento, e trazendo projetos internacionais pouco comuns no nosso meio habitual. Mais uma vez a adesão ao evento foi muito boa, tendo recebido comentários construtivos sobre o possível melhoramento do formato das conversas, embora reconhecendo o esforço realizado. Nesta edição tornou-se particularmente claro que era necessário sair da faculdade e tentar levar o evento a um público mais alargado, de forma a deixar o nicho onde estávamos inseridos, e conseguindo que o projeto crescesse. Figura 32 - Cartazes complementares da 2ª edição da Feira de Publicação Independente, 2011, FBAUP.
73 Figura 33 - Cartaz promocional da 2ª edição da Feira de Publicação Independente, 2011, FBAUP.
80 4ª edição Data: 18 de Maio 2012 Local: Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Nº de participantes: 71 Nº de publicações: cerca de 213 publicações Eventos associados: Durante a manhã antes da feira foram organizadas no museu da FBAUP apresentações de projetos editoriais, com a Pangrama, Pierre Von Kleist e Pli, seguidas de duas conversas, uma com José Bártolo e os Atlas Projetos, e outra com Rui Vitorino Santos e a Oficina Arara. As conversas foram acompanhadas de uma exposição sobre edição independente no espaço do museu. Transpirando amor, pensamento, tempo e – muitas vezes – improvisação inspirada, as zines, volumes e periódicos autoeditados, estão a começar a aparecer na cultura mainstream – e numa prateleira numa livraria especializada perto de si.29 (Commentz, 2011) Para a 4ª edição, fomos convidados pelo Professor Miguel Leal, da FBAUP, a organizar nos dias das Unneeded Conversations, uma Feira de Publicação Independente, e uma manhã dedicada à publicação independente. Nesta edição, voltámos ao espaço da faculdade, agora com um evento em maior escala e já com outra perceção daquilo que poderia ser feito a nível de palestras e exposições. Para a manhã, foi-nos proposto que desenvolvêssemos um tema para conversas, intervenções ou exposições, que pudessem decorrer durante cerca de três horas no museu da FBAUP. Perante o desafio, a nossa proposta centrou-se em três características fundamentais de uma publicação dita independente: love, thought and time (amor, pensamento e tempo). O texto que se segue foi utilizado na promoção do evento: Love Estamos constantemente a encontrar novos projetos de edição independente. Novas editoras que acabaram de se lançar, um autor ou ilustrador de quem nunca tínhamos ouvido falar, ou uma nova publicação da editora que seguimos regularmente. É uma área dinâmica e surpreendente, que se mantém em constante renovação, e que fascina precisamente pela emoção e imprevisibilidade que lhe é característica. O que encontramos são objetos de amor e intuição, muitas vezes produzidos com a simples vontade de publicar, de fazer, de desenhar, de encadernar e mostrar aos outros. São muitas vezes projetos experimentais, que não se prendem tanto com o sentido das coisas, mas sim com a beleza de fazer algo novo, emocionante e diferente. 29. No original inglês: Oozing love, thought, time and – often enough – spirited improvisation, selfpublishing zines, tomes and periodicals are starting to seep into mainstream culture – and on a shelf or a specialist bookshop near you.
81 Thought De um modo mais ponderado, há também quem utilize este meio como uma forma de publicar, literalmente, de tornar pública uma ideia. A noção de que é possível criar cultura de uma forma não mediada, falar sobre qualquer assunto, explorá-lo ou questioná-lo sem que haja um condicionamento económico sobre essa produção, é libertadora e tem-se revelado fundamental na produção teórica contemporânea. A edição independente parece ser uma plataforma ideal para a discussão teórica e para a criação de pensamento sobre temas, aos quais muito dificilmente teria sido dada atenção no mercado editorial convencional. Time É ainda preciso ter em atenção o cuidado com que cada uma destas publicações nasce, o tempo que é dedicado à sua produção e acabamento, todo o processo meticuloso por onde passa cada objeto. Tudo isto faz parte da própria natureza e do prazer da edição independente. A valorização do erro e da manualidade transformam-se aqui em mais valias da área, que produz objetos únicos, de culto, de coleção. Não se procura nunca o objeto perfeito, quer-se apenas experimentar mais e melhor. Estes três conceitos serviram como mote para conversas e uma exposição divididas em três partes, cada uma delas especialmente focada nas ideias descritas acima. A feira decorreu apenas durante a parte da tarde, desta vez ocupando um espaço um pouco maior, apresentando com mais participantes e mesas. Embora tenha sido um evento rápido e com alguma confusão, correu bem, e teve uma boa adesão do público, com excelentes comentários em relação à organização da manhã. Figura 45 - Cartazes complementares da 4ª edição da Feira de Publicação Independente, 2012, FBAUP.
82 Figura 46 - Cartaz promocional da 4ª edição da Feira de Publicação Independente, 2012, FBAUP.
83 Figuras 47 a 49 - Apresentações na manhã da 4ª edição da Feira de Publicação Independente, 2012, FBAUP. Fotografia: João Sobral.
84 Figuras 50 a 55 - Apresentações e exposição na manhã da 4ª edição da Feira de Publicação Independente, 2012, FBAUP. Fotografi a: João Sobral (51, 52, 55)
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86 Figuras 56 a 58 - Tarde da 4ª edição da Feira de Publicação Independente, 2012, FBAUP. Fotografia: Ariana Ferreira (58)
87 RESULTADOS As feiras têm conseguido cumprir os seus objetivos. Ao longo deste último ano conseguimos realizar quatro eventos distintos, cada um com as suas características particulares, trabalhando com mais de 80 editores, e conseguindo que o seu trabalho fosse divulgado e exposto ao público. As várias feiras ajudaram-nos a perceber de que forma poderíamos melhorar o projeto e informaram a nossa prática no www.projectofair.com. Nos vários eventos reparámos que editores que não se conheciam começaram a criar pontes e laços, tendo surgido por várias vezes a possibilidade de projetos em comum. Contudo, temos ainda detalhes a afinar na organização destes eventos. É clara a necessidade de uma equipa mais alargada, que possa dividir tarefas e estruturar de uma forma mais concentrada cada uma das várias dimensões da organização do evento. Pretendemos também procurar modelos de gestão mais eficazes na catalogação de publicações, possibilitando uma venda mais simples e organizada. As reações do público e dos próprios editores têm sido sempre no sentido de um desejo que o projeto continue e que possa manter alguma regularidade, motivando novos editores, e apoiando aqueles que já estão em atividade. Têm sido dias totalmente dedicados à edição independente, que pretendemos continuar de uma forma consistente durante o próximo ano. Incluímos aqui um texto de João Sobral, no blogue www.colher.net, escrito logo após a terceira edição da Feira de Publicação Independete, e que nos parece ser o espelho dos resultados que conseguimos ao longo deste ano. Um pouco de história... A Feira de Publicação Independente tem no seu nome a sua melhor apresentação, mas acrescente-se que é um projecto que Ana Simões (Gume Editora) fez nascer no ano passado na Faculdade de Belas Artes do Porto. 17 de junho de 2011 foi a data da sua primeira edição e alguns estudantes não esquecem o dia em que os jardins da faculdade tinham, logo às dez da manhã, meia dúzia de mesas cheias que a chuva obrigou a que voltassem para dentro mais tarde. O desafio tinha sido lançado e alguns alunos, respondendo com entusiasmo, prepararam para esse dia aqueles que seriam os seus primeiros fanzines. Antes de continuar, devo dizer que fui um desses alunos e fica já explicado o tom nostálgico com que comecei este texto. Prova do sucesso desta primeira edição, para além da minha felicidade que não vos deve convencer por aí além, foi a quantidade de publicações que, a 23 de novembro, inundou a segunda edição da feira. Passaram-se cinco meses e nem umas férias de verão pelo meio serviram para reduzir o entusiasmo. O número de interessados disparou e o resultado esteve visível: várias mesas a abarrotar de trabalhos desenvolvidos pelos alunos para aquela ocasião, que se misturaram com as publicações 3.2.2.3
88 de projectos exteriores, nacionais e estrangeiros, também em maior número desta vez. A acompanhar esta enchente, houve ainda a criação do projecto FAIR (brevemente online) que para além de promover a edição independente através de eventos como a Feira de Publicação Independente, propõe-se à divulgação de novas editoras e edições e, mais importante, à organização de um arquivo de publicação independente. Nada mais se sabe acerca deste projecto, mas continua-se a aguardar boas revelações. Mas as novidades da segunda edição não ficaram por aqui. Foram organizadas conversas que incluiram a apresentação rápida de alguns projectos e ainda uma discussão moderada por Júlio Dolbeth, na qual participaram Marcos Farrajota (Chili com Carne), Luís Camanho (Plana Press), Nuno Coelho (Uma terra sem gente, para gente sem terra) e Pedro Levi Bismarck (Punkto). Este foi um óptimo acrescento à programação da feira (apesar de ter tido uma infeliz concorrência do barulho do bar da faculdade) e espero que tenha sido apenas a primeira tentativa de algo que poderá enriquecer futuras edições deste evento, trazendo a discussão e a troca de ideias para os seus hábitos. ... para chegar aqui. Este ano, a Feira de Publicação Independente apresentou-se com algumas mudanças. A mais significativa foi a mudança de local para o exterior da Faculdade de Belas Artes. O espaço partilhado pela Matéria Prima e pela Galeria Dama Aflita foi o eleito para acolher a terceira edição da feira, que se duplicou (outra das novidades) e, portanto, aconteceu em dois dias: 6 e 7 de abril. Esta migração permitiu meter a Lovers & Lollipops ao barulho e acrescentar à programação dois concertos por ela agenciados: Tren Go! Soundsystem e o espanhol Atomizador (que também trouxe os seus fanzines). Para além disso, abriu portas à cerveja artesanal Sovina e ao extremamente calórico e caseiro muffin de chocolate e banana, entre outros comes e bebes, apreciados por quem lá passou e ainda mais por quem lá esteve. Mas todas estas novidades resultaram em menos inscrições e, julgo eu, menos visitantes. O que acabou por não ser mau de todo: não sendo muito o espaço disponível, evitaram-se maiores confusões e apesar de mais reduzido, o público foi diferente, saindo cumprido o objectivo de querer mostrar os projectos a um público mais alargado e tentar sair do nicho a que estamos habituados. No entanto, fica-se sem saber até que ponto é que este menor envolvimento dos alunos choca com essa ideia de sair do nicho a que estamos habituados. Terá sido a mudança de ambiente a reduzir o seu interesse? A data encostada ao domingo de Páscoa e incluída numa semana de férias atrapalha a questão e impossibilita, por agora, uma resposta. Esperemos por eventuais conclusões futuras. Voltando aos dias 6 e 7, há que referir a óptima oportunidade que esta ocasião nos deu para comprar o novo exemplar do pasquim satírico
89 pró-lírico Buraco (obrigatório), na mesma mesa onde os trabalhos de impressão da Oficina Arara partilhavam ainda o espaço com algumas obras da dupla Calhau. Mais um bocadinho e encontrava-se Rudolfo com o novo número do Lodaçal Comix que vai já na sua quinta edição, Ghuna-X com a maior contribuição em publicações musicais e a Chili Com Carne, com livros novos (“Mistery Park” de André Ruivo e “Bestiário Ilustríssimo” de Rui Eduardo Paes) e um generoso stock off. Estiveram igualmente presentes, ainda que sem novidades no catálogo, as editoras Plana, Serrote e, claro, a Gume com as recomendáveis revistas Pangrama, para além do projecto O Panda Gordo e da ilustradora Wasted Rita que trouxeram, no meio dos vários fanzines, algumas novidades que também mereceram uma olhadela. Ao fundo, naquela banca onde tudo se encontra e tudo se mistura, era possível perder-se algum tempo à procura de trabalhos de Café Royal, Alexander Egger, Oficina do Cego, Mike Goes West, A Prensa, José Cardoso com Tamás Lakos, Jorge Amador, Hey Mikel, João Drumond, Sofia Palma, Alexandre M. Ferreira, The Second Bus Home, Camera Obscura, Nada, Pli e muitos outros que se me falham na memória não será com certeza por falta de valor. Depois de referir isto tudo, repito a presença da cerveja Sovina e relembro a exposição de Mike Redmond e de Zé Burnay que se podia ver nas paredes da Dama Aflita, sem esquecer a Matéria Prima, que merece sempre uma visita atenta, para vos deixar convencidos de que a Feira de Publicação Independente III foi óptima para quem apareceu. (Sobral, 2012) EDIÇÕES FUTURAS A intenção agora será expandir o projeto, garantindo uma maior coerência nos conteúdos e tornando-o cada vez mais completo e interessante. Queremos explorar novos espaços e possivelmente novas cidades. Parece-nos essencial para a concretização dos nossos objetivos tentar fazer chegar publicação independente a novos públicos e procurar criar pensamento crítico sobre a área. Neste momento estamos já a preparar o planeamento de uma feira a realizar no próximo ano. Foi-nos feito um convite pela Biblioteca de Serralves para uma possível colaboração, por isso estamos agora a estruturar um plano e orçamento, que será proposto à direção como parte dos eventos a acontecer na instituição durante o ano 2013. Estamos também a considerar a possibilidade de estar presentes em Lisboa. Temos tido vários pedidos e convites para que a Feira de Publicação Independente pudesse acontecer lá, nomeadamente na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, que demonstra um potencial e necessidades semelhantes à faculdade do Porto, abrindo a possibilidade de atingir um público mais alargado. São planos a considerar, e aos quais nos dedicaremos durante o próximo ano. 3.2.2.4
96 Chappell, Warren, revisto e atualizado por Robert Bringhurst. A Short History of the Printed Word. Vancouver: Hartley & Marks Publishers Inc., 1999. Print. Chili com Carne. “Ccc”. Lisboa. (n.d.). 10.04.12 <http://www.chilicomcarne. com/index.php?option=com_content&task=view&id=13&Itemid=43>. Commentz, Sonja. “Show Me Your I’ll Show You Mine”. Behind the Zines: Self Publishing Culture. Hubner, Matthias, Robert Klanten e Adeline Moolard, eds. Berlim: Gestalten, 2010. 2-7. Print. Costa, Rui. Entrevista por e-mail. 3-22 Junho 2012. Duarte, Isabel. “Publicação Independente: Auto-Edição E Discurso Crítico Sobre Design Gráfico”. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, 2010. Print. Duncombe, Stephen. Notes from the Underground: Zines and the Politics of Alternative Culture. Bloomington, IN: Microcosm Publishing, 1997. Print. Emigre Magazine. “Emigre”. 2012. <http://www.emigre.com/>. Epstein, Jason. Book Business: Publishing Past, Present and Future. New York, NY: W. W. Norton & Company, 2002. Print. Epstein, Jason. “Speech Given by Jason Epstein at the 2008 Hong Kong Book Fair”. On Demand Books (2008). 15.05.12 <http://www. ondemandbooks.com/docs/Brooklyn%20Library%20Speech.pdf>. Fanzino. “La Fanzinothèque De Poitiers”. 2012. <http://www.fanzino.org/>. Farrajota, Marcos. “Relatório Sobre Fanzine E Edição Independente Em Portugal 2011”. Blogzine da Chili com Carne (2012a). 18.01.12 <http:// chilicomcarne.blogspot.com/2012/01/relatorio-sobre-fanzines-e-edicao.html>. Farrajota, Marcos. Entrevista pessoal. 24 Fevereiro 2012b. Feira Laica. “Faqs”. Lisboa. Farrajota, Marcos, ed. (n.d.). 5.05.12. <http://feiralaica.wordpress.com/>. Gonçalves, Sofia. “Samples Para Uma Publicação Paralela”. (2010). 10.09.11 <http://reactor-reactor.blogspot.pt/search/label/Edi%C3%A7%C3%A3o>. Henriques, Luís. Entrevista por e-mail. 20 Abril - 4 Junho 2012. Hubner, Matthias, Robert Klanten e Adeline Moolard, eds. Behind the Zines - Self Publishing Culture. Berlim: Gestalten, 2011. Print. Leal, Miguel. “Unneeded Conversations”. (2012). 10.05.12. <http://www.i2ads.org/unneeded2012>. D E F G H L
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101 ANEXOS ENTREVISTAS PARA CASOS DE ESTUDO CHILI COM CARNE O texto que se segue é uma transcrição da conversa com Marcos Farrajota, a 24 de Fevereiro de 2012. A transcrição assume o seu grau de oralidade pelo que poderão existir falhas na sequência do discurso ou utilização de termos característicos da oralidade. 1. Quando é que a Chili Com Carne começou? E como é que isso aconteceu? Foi em ‘95, creio, mas só em ‘97 é que foi legalizada. Quer dizer, também para dizer a verdade é o seguinte, só também em ‘97 é que fizemos um livro, pode-se assim dizer, naquela excitação de serem 1000 exemplares e irem para a tipografia. E também só em 2000 é que ficou mesmo definido que iríamos trabalhar com edição. Embora fizéssemos fanzines e isso, pronto, a Chili com Carne era mesmo isso, era uma caixazinha de feijões cheia de coisas completamente diferentes. Houve curtas-metragens, exposições de artes plásticas, coisas assim do género, e depois 2000 é que foi mesmo definitivo, do género ‘ok queremos trabalhar é com edição’. 2. Quando começaram, então, não tinham já uma ideia do que queriam ser? Não, basicamente era só montar uma estrutura que fortalecesse os projetos das pessoas que estavam envolvidas. Porque pronto, obviamente com uma associação, há montes de coisas que tu podes fazer, receber subsídios, ter coisas legalizadas, tens outro impacto sobre o meio. E basicamente era isso, quer dizer, as pessoas que estavam envolvidas, todas elas estavam ainda num estado muito embrionário. Também isto se calhar é um bocado esquisito, eu tenho estado a pensar nisso nos últimos tempos, que realmente é um bocado estranho pensar como é que era o mundo mesmo assim nos anos ‘90, quando ficas a pensar que não havia internet, não havia telemóvel, não havia todas estas tecnologias digitais que permitem obviamente no campo da edição fazeres tudo muito rapidamente. Antigamente havia monstros terríveis como os fotolitos, quer dizer havia toda uma série de coisas que realmente custavam para 6. 6.1 6.1.1
102 editar. E mesmo a história dos fanzines quer dizer, eu atualmente sei que não sei fazer um fanzine, porque já não há aquelas máquinas como havia antigamente. Agora vais com uns .PDFs e entregas ao centro de cópias. Opá já não é aquela coisa de pegares numa folha, dobrares, colas uma página e outra, e fazes uma espécie de uma maquete primeiro e não é tudo digital. (...) Mas isso explica que não havia nenhuma ambição à partida de fazer nenhuma edição ou uma revista ou qualquer coisa. Cada um estava no seu spot a tentar fazer um trabalho que era muito low-fi, para os standards possíveis de agora, pronto. Eu estava a fazer o meu fanzine, o Rafael Gouveia estava a fazer outro... 3. Mas com todas as coisas que estavam a fazer, entre exposições e curtas, porque é que se decidiram focar na edição? Basicamente porque houve confusões e lutas internas de se estar a trabalhar em várias áreas e muitas vezes elas não terem sequer o mesmo fito, ou o mesmo objetivo das outras áreas que estavam a ser trabalhadas. 4. A edição servia melhor para mostrar o que queriam, do que uma exposição por exemplo? Sim. Obviamente, quer dizer, eu acho que mais tarde ou mais cedo iríamos fazer livros e isso era mais do que óbvio, porque já tinhamos feito duas situações ou três que estavam a indicar para aí. Mesmo eu como autor já estava a ser publicado pela Polvo, com o João Fazenda. O Pedro Brito estava a trabalhar na Polvo, por isso era óbvio que ia acontecer qualquer coisa dentro desse campo. Agora, acho que faltava era ainda a matéria prima de qualquer coisa para ser feita. E realmente na altura havia... Era um bocado o boom da banda desenhada, também estávamos muito ligados à banda desenhada, muitas das pessoas. Quer dizer, havia uma expansão bastante enorme em ‘96 e 2002 graças aqui à Bedeteca e ao tempo do João Paulo Cotrim, que havia um apoio às editoras. Estes exemplos que eu trouxe são exemplos disso... A Bedeteca estava a fazer subsídios no fim de contas na compra de livros de fanzines, de coisas de autores portugueses, e isso tudo. Eu acho que estava a depender um bocado do que é que ia acontecer com cada uma das pessoas. Curiosamente até arrancámos um bocadinho mais à séria com um livro de literatura, uma prosa poética, textos mais ou menos poéticos, do Rafael Dionísio. E só depois com o Mutate & Survive que é pronto, mais uma lata de feijões esquisitos não é, uma junção de muitas coisas. Pronto, sobre uma ideia de fazer um mega fanzine. Na altura fazia sentido, agora se calhar menos, mas que pronto foi assim uma experiência fora do comum. Antes disso em ‘97 a única coisa que tínhamos editado era o Mesinha de Cabeceira nº13 que tinha uma história de um autor, assim um bocado de
103 meteorito que é o Nunsky. Que nunca mais fez nada depois disso e pronto era assim um trabalho mesmo alien (e continua a ser) do resto da cena portuguesa. Pronto foi a única vez que apostámos, depois as coisas foram surgindo. Também no nosso caso há muitos projetos, quer dizer, não é uma editora naquele sentido clássico de vou selecionar um trabalho estrangeiro e vou traduzi-lo, por acaso isso nunca nos aconteceu. Realmente as coisas partem muito de raiz da orgânica do momento, quer dizer, se há cinco pessoas que dizem ‘epá era muita louco alugarmos uma carrinha e irmos pela europa fora e fazer um livro depois com isso’, pronto a gente faz isso. Se houver alguém que diz ‘tenho este livro para editar etc etc’, ok tudo bem. Agora não temos aquela gestão editorial, do género todos os anos temos de fazer x desta coleção de ensaio ou seja o que for. (...) Acontece um bocado ao acaso e é uma espécie de recreio. Quer dizer, todas as publicações são sempre recreios para as pessoas, porque estão envolvidas... Quer dizer quem quiser fazer isso acaba por fazer realmente uma empresa ou coisa assim do género. Isto são sempre recreios para as pessoas, não é. Mais que um hobby, é sobretudo teres aquela liberdade de criação e de produção de qualquer coisa, de um objeto, de um conteúdo, que tu podes fazer como tu queres quando tu quiseres. 5. Então em cada publicação que fazem, o projeto vai surgindo. Vocês não têm um plano muito definido, nem acontece sempre da mesma maneira. Cada publicação acontece como acontece. Não têm propriamente um editor que diga vamos seguir esta linha ou aquela. Por exemplo como é que escolhem os autores? Quer dizer, eu como elemento resistente da coisa, e depois talvez a Jucifer que também está desde 2001, mais ou menos... Quer dizer há coisas que são óbvias que não queres fazer não é, pronto. 6. Vocês vão escolhendo um bocado intuitivamente? Sim, quer dizer, é óbvio que se alguém vier com qualquer coisa como aquele ‘pizza boy’ ou uma treta assim do género, a gente não vai querer editar aquilo, como é óbvio. 7. Mas as pessoas vêm ter convosco para editar coisas? Sim, de vez em quando acontece esse tipo de situações. Mas é assim, muito raramente são coisas que tu digas ‘epá descobrimos um gajo...’. Não o que acontece é um bocado aquele pessoal que envia uma tonelada de e-mails com o currículo para várias empresas ao mesmo tempo à espera... ‘São uma editora de BD, vejam lá o meu trabalho’. Às vezes são gajos que fazem super heróis ou fazem coisas assim terríveis. Esquece, vou responder a dizer ‘não, não nos interessa mas tenta a Devir ou a Asa, mas não envies para a Chili com Carne ou para a MMMNNNRRRG, se não conheces o catálogo.’ É absurdo.
104 8. E depois a produção, como é que vocês fazem? É consoante cada publicação? Sim, não temos tido nenhum designer a tempo inteiro. Em cada projeto, são as coisas a rolarem por elas próprias, com aquilo que tu fazes no momento e com aquilo que tu achas que faz sentido. Por exemplo houve livros que foram feitos quase todos à mão, todo o lettering, toda a ficha técnica, todas essas coisas foram feitas à mão, com a ajuda de alguém que ajudou depois a scannear, ou assim. Como há por exemplo uma coleção que está muito bem definida que é o João Cunha que faz todo o design dessa coleção que é com parceria com a Disco, que é a coleção de ensaios. Mas o resto tem sido sempre assim por mero acaso, porque faz sentido naquela altura estar com aquela pessoa ou porque aquela pessoa está ali presente e também voluntariza-se para fazer o trabalho. A parte de design, como todo o trabalho basicamente não é remunerado, por isso, se as pessoas não puderem na altura, dizem que não podem e tudo bem. 9. Vocês esforçam-se muito por chegar ao público, por vender? Divulgação é uma coisa que vocês valorizam? Sim, divulgação e distribuição, tem de ser as duas coisas ao mesmo tempo. Quase todos os dias estou a chatear loja a ver ‘então como é que é? já venderam? precisam de mais?’ No fundo, tentar fazer esse esforço. 10. Vão fazendo lançamentos? Lançamentos nem por isso. Não muito. Quer dizer, agora houve uma situação e vamos agora fazer outras, pronto. Há algumas situações que sim, mas muitas vezes nem entramos muito nesse esquema muito formal e isso tudo. Basicamente é divulgar por e-mail e por blogues. 11. Acham que tem sido suficiente? Eu tenho as minhas dúvidas, porque, pelo menos eu, sou muito conflituoso com as pessoas, por exemplo, no caso da BD. Para já há um desinteresse máximo, da maior parte dos meios de comunicação em pegar sobre banda desenhada. É curioso, por exemplo o Boring Europa quiseram pegar muito nisso. Houve realmente a Câmara Clara, foi uma revista de viagens, acho que saíram mais notícias aqui e acolá porque realmente o projeto é o que é, por ser original. Agora, se for uma banda desenhada que não se sabe muito bem de quê, até pode ser muito boa, até pode ser uma coisa experimental, super interessante e isso tudo, epá, ninguém sabe pegar naquilo, analisar criticar e divulgar e promover nos media. Isso não lhes interessa. A análise pública que existe de banda desenhada, aquela que há, são coisas muito quadradas, muito fechadas, numa linha antigo regime da coisa, tipo Manara’s e Astérix. Opá pronto o Mana é state of the art para eles, e o resto são bizaterries que nem sequer têm valor. Aliás, na coleção da Bedeteca,
105 a LxComix quando saiu os dois primeiros números que era eu e o Pedro Brito – o Pedro Brito o primeiro número e o meu era o segundo – estas coisas acabaram por sair cá para fora. E eu lembro-me de ver as críticas na altura que eram do género ‘isto são putos a brincar’. Eu tive uma crítica muito mais engraçada de um tipo que estava preso em Monsanto, que eu fui lá num workshop de BD, e o gajo escreveu mais qualquer coisa de bonito e engraçado sobre o meu livro do que propriamente o Carlos Pessoa no Público. E realmente estes primeiros indícios deste novo formato que apareceu no final dos anos ‘90 a graphic novel, a preto e branco, o comic book, todos estes formatos ao início foram achados como uma coisa de putos ou de pessoal dos fanzines que está aqui a brincar. Demorou alguns anos até isso ser levado a sério. Isto são exemplos, porque continuando a editar as coisas que edito, são realmente marginalizadas, não têm impacto sobre os media, por isso eu pergunto-me o que é que realmente poderia fazer mais. Realmente é trabalhar mais com o público e tentar fazer através dos eventos que há e isso tudo, tentar promover aí. 12. Vocês também acabam por ter um público mais ou menos definido não? Um grupo de pessoas que já consome o que vocês produzem e não há um alargamento muito significativo, certo? Não, não, acho que isso era estarmos a pensar que só há 500 pessoas com piada no universo. Realmente há coisas curiosas quando as pessoas descobrem títulos antigos, que foram editados em 2000/2005, pessoas que estão agora a descobrir números antigos. Estamos a pensar tiragens que foram grandes, algumas no início até 1500 exemplares. Realmente demorou até alguns desses livros estarem esgotados, e alguns se é que alguma vez vão ficar esgotados. Portanto há realmente pessoas que estão interessadas, que andam por aí. É um bocado sem fim, acho que não há um número finito de interessados. Estás sempre a encontrar novas pessoas. Simplesmente elas não sabiam que tu existias. Podem ser tocadas por um certo tema, ou por um autor e depois descobrem, e podem continuar a procurar. Isso é realmente o consumo de cada um. As pessoas é que sabem até que ponto são ativas sobre o seu próprio consumo. Se aceitam apenas tudo o que existe numa livraria... Depois a frequência de outros meios permite a descoberta de muito mais coisas. No caso da banda desenhada ou da edição independente, eu acho que as pessoas ou realmente têm uma paixão muito especial por banda desenhada ou por um tipo de edição, ou então é um consumo muito normalizado, tipo cinema, em que as pessoas têm tempo ou não. Se as pessoas souberem que há autores parecidos com o David Lynch se calhar vão à procura, ou às salas de cinema ou a festivais ou a sacar da net ou comprar dvds... Agora se as pessoas não têm tempo nem o interesse de pesquisar mais, o que aparecer à frente é o que há.
112 5. De que forma produzem as publicações? (métodos de impressão, tiragem e distribuição) As edições podem ser feitas com métodos tradicionais, caídos em desuso, como a tipografia de caracteres móveis. Podem também ser feitas em serigrafia ou cópia digital. Podem ser feitas em off-set. As possibilidades são infinitas. Mas interessa-nos aprender tudo e participar na feitura de todo o processo. As tiragens são reduzidas. entre 100 a 200 exemplares, habitualmente. 6. De que forma divulgam os vossos projetos? Consideram a vossa divulgação suficiente? Divulgamos os projectos pelo blog e confiamos na passagem do boca a boca. Realizamos com alguma regularidade eventos que reúnem muitos dos potenciais interessados. Para a dimensão que temos é suficiente: as edições esgotam. 7. Conseguem atingir o público que pretendem? Ou seja, sentem que estão a cumprir os objetivos a que se propuseram quando o projeto começou? Eu diria que sim. Mas ainda podemos fazer mais. Deveríamos ter um catálogo muito mais preenchido, mas falta-nos tempo (nenhum de nós se pode dedicar exclusivamente a isto). 8. Qual o público-alvo das vossas publicações? Público leitor de poesia, público de fanzines, público que se interessa por bizarrias gráficas. 9. Como se sustentam? O processo de edição, juntamente com os eventos e workshops é sustentável? Neste contexto o que pensam de subsídios e apoios públicos? Com eventos, workshops e com o pagamento de cotas (3 euros por mês). Não temos grande património e pagamos renda. Não sobra muito. Quanto a apoios, nenhum de nós tem nada contra. Já procurámos apoio ao nível de espaço. Chegámos a participar activamente na promoção dum evento que foi muito concorrido no Mercado do Forno do Tijolo. Na altura, acenaram-nos com uma cenoura (espaço com renda baixa) que depois foi retirada. Também já tentámos apoio para levar as formações para fora de Lisboa. Não resultou. Deixámos de contar com apoios e vamos na mesma. Mas primeiro garantimos que a coisa é paga e compensa. Estivemos há dois dias nas Caldas da Rainha a dar workshops de tipografia. Correram muito bem.
113 10. Qual a importância para vocês dos projetos não editoriais da Oficina do Cego? (ex: workshops, exposições) Desempenham um papel grande naquilo que define a vossa associação? Eu diria que a parte formativa e os eventos são o cimento da associação. Sem isso, já não existiríamos 11. Quais são os objetivos principais destes projetos paralelos? Estão a ser cumpridos? Vão continuar? O objectivo principal é promover um certo entendimento das artes gráficas: liberdade, bizarria e pequena edição. Cumprimo-los plenamente e vamos continuar. 12. O que vos parece funcionar melhor na Oficina do Cego, e quais são as suas principais falhas? (se é que existem claro) Tudo funciona no melhor dos mundos possíveis. Mas devíamos ter mais edições. Falta-nos tempo. 13. Continua a parecer-vos importante a divulgação da área da autoedição? Acham que durante estes últimos dois anos o “mercado” independente tem ficado saturado de workshops, feiras e exposições deste género? Uma saturação destas poderia tirar validade aos projetos que estão a desenvolver? Não sentimos saturação. Ou melhor: se existe saturação é generalizada. Comparadas com o turbo-capitalismo de imprensa que enche as livrarias de franchising, as feiras parecem-me pequenos cogumelos na floresta. Acho que ainda não é uma epidemia. Mas pouco importa. A gente trabalha demasiado devagar e numa onda que não tem a ver com nada. Mesmo que não se venda já, continuaremos a fazer. Até porque fazermos tão pouco e com tanta preguiça... 14. O projeto desta dissertação está concentrado na criação de um registo de edições independentes. Consideram pertinente o registo de edições que se assumem como pontuais e efémeras? Há uma ambivalência na memória e no impulso arquivisitico ou histórico. A memória está por detrás do famigerado respeitinho, da moral e do medo aos antepassados que se vai cristalizando em formas de dominação aparentemente inelutáveis - como ensina a genealogia da moral. Mas o registo da multiplicidade de experiências do passado também abre hipótese de nos desviarmos do carreiro único, dá-nos forças para resistir e criar valores. Apesar do aparato e dos rituais institucionais, curiosamente, as milhentas teses universitárias que se vão empilhando anualmente nos depósitos da BN e nos arquivos universitários também não deixam de ter uma faceta efémera.
114 Em todo o caso, a vontade de dar um pouco mais de duração às coisas, não me parece mal. 15. Este regiso que vamos fazer, vai ser feito online através de um site que pretende ir registando, mas também divulgando projetos e eventos da área. Queremos compilar notícias e ideias de várias fontes sobre publicação independente. Podemos ir publicitando notícias do vosso blogue? Claro. A ideia de trabalhar também para o presente, e não para o empilhamento do passado, parece-me óptima.
115 COLHER O texto que se segue é o resultado de uma entrevista a Eurico Sá Fernandes realizada por e-mail entre 3 e 16 de Junho de 2012. 1. Apresentação do projeto: objetivos e motivações do Colher. Importa saber quando começou e em que contexto (data e local). O Colher iniciou-se em Fevereiro de 2010 por mim, como um projecto inicial com o objectivo de criar um livro sobre o design gráfico português. Na altura tinha acabado o meu curso profissional de design gráfico na Escola Artística e Profissional Árvore e estava a fazer o meu gap-year. Durante esse gap-year para além de pensar no que queria para o meu futuro, também tive a oportunidade de trabalhar livremente em alguns projectos pessoais e o Colher foi um destes. 2. O que é que motivou o vosso início? Como é que aconteceu? O que motivou o início do Colher foi a vontade utópica de querer fazer e publicar um livro sobre o design gráfico português. Na altura (tinha 18 anos) pensava que qualquer editora o poderia publicar, hoje provavelmente já optaria por uma publicação independente. Mas tudo aconteceu, porque no ano anterior, 2009, eu estava fascinado com o livro Neuland desenhado pelos TwoPoints, que tinha encontrado numa Fnac em Bilbau aquando de uma road-trip com os meus pais e o meu irmão a Paris. Quando voltei, queria fazer algo do género, contudo tinha consciência da ausência de meios para o concretizar também não conhecia suficientemente bem o design gráfico português. Por isso, decidi iniciar o Colher como ponto de partida para esse livro baseando-me um pouco no formato de website/ blog influenciado pelo site TypoJungle, já que, por esse tempo, eu o visitava praticamente todos os dias, para assim conhecer e dar a conhecer um designer, atelier ou estudante de design gráfico. A partir daí comecei a conhecer bastantes pessoas, porque sempre postei com o consentimento das pessoas e também a mapear o design gráfico português. Quando a Mariana e eu nos mudámos para Londres para ambos estudarmos no London College of Communication, ela começou a ter um papel mais activo no Colher e agora o projecto também é dela. Recentemente devido a estarmos bastante ocupados com a faculdade e o trabalho solicitamos a colaboração de pessoas para nos ajudar a tornar o Colher mais completo e até termos a oportunidade para dar uns passos em frente. 3. O vosso projeto tem uma forte componente altruísta. A divulgação de trabalho de terceiros acaba por ser o mote do vosso trabalho. Isso agrada-vos? Não têm ambições de produzir e divulgar o vosso próprio trabalho, ou uma coisa leva à outra? Apesar de não darmos a conhecer o nosso trabalho através do Colher, este tem sido um projecto que, apesar de pontualmente não estar tão 6.1.3
116 activo, está sempre presente. Com o Colher tivemos a oportunidade de criar coisas para nós, e o que não é o Colher senão a imagem. No fundo, a divulgação do que é o nosso trabalho já passa através da imagem visual e curadoria do Colher ou das suas extensões como são os exemplos das publicações, concursos ou exposições. 4. De que forma organizam a publicação de conteúdos, ou seja, como são escolhidos os conteúdos de cada post? (Por exemplo: como escolhem os autores, que equipa editorial existe por trás de cada notícia, etc) Presentemente temos colaboradores que nos ajudam a criar conteúdos, mas muitas vezes estes são feitos porque estão nas circunstâncias. Mas em relação a conteúdos no directório, ou gostamos e contactamos para pedir permissão para postar ou então fazêmo-lo através do submit no site do Colher. O processo do Colher é bastante caótico, não existe propriamente uma equipa editorial. Isto porque nunca ganhamos nada com o Colher, é um projecto de tempos livres e, por isso, este nunca conseguiu tomar a qualidade desejada em termos de conteúdos. O que nós fazemos ao nível editorial prende-se com o facto de termos um grupo privado no facebook que nos ajuda a manter o diálogo activo. 5. Nos últimos anos os projetos auto-iniciados por alunos ou jovens designers têm dinamizado a área de uma forma inovadora, que antes não tinha sido conseguida pelas instituições já estabelecidas. O que pensam disso? Devem ser os alunos e designers a dinamizar a sua própria área, ou deveria existir uma plataforma mais oficial para a resolução dos problemas que a área enfrenta? Oficializar vem um pouco tirar o poder da iniciativa própria que é bastante importante. Achamos bem que sejam os alunos e os jovens a dinamizar a sua área, porque demonstra que são interessados e é aí que se consegue ver a motivação de cada aluno. Cada um tem que lutar pelo que acredita. Achamos que são boas iniciativas as tomadas por alunos ou designers ou freelancers ou desempregados, porque normalmente quando mais tempo se tem, mais se criam novas formas de dinamização. Isto também tem a ver um pouco com a internet e a difusão da informação. Achamos que não deveria existir uma plataforma oficial, porque se parte do desejo pessoal, o facto de se oficializar ia ser “corporativo”. Seria um pouco “sindicalizar” as coisas e não sabemos se isso é realmente benéfico para quem o pratica ou se ainda iria trazer mais problemas. Obviamente que pode haver uma entidade que as representa ou divulgue, como o Colher faz, mas entrar “economia” ao barulho ia ser complicado e estranho.
117 6. Numa perspetiva mais prática, dão muita importância à divulgação pública do vosso projeto? Fazem um esforço efetivo para que as vossas ideias sejam lidas pelo máximo número de pessoas, ou assumem que o trabalho está disponível ao público e que isso é suficiente? O único esforço efectivo que fizemos foi, provavelmente, a partir do facebook (e não é muito esforço). Não há verdadeiramente um esforço efectivo, no entanto é claro que nós gostávamos que houvesse um maior número de pessoas interessadas no Colher e que o lesse, mas não fazemos propriamente publicidade, não há a necessidade de fazer advertising na internet com google ads ou facebook ads ou até andar sempre a ver quantas visitas temos no Colher. Esta faceta é, provavelmente, o que distingue o Colher dos outros sites do género, talvez não sejamos tão “intrusivos”. 7. Sentem que conseguem atingir o público que pretendem? Ou seja, sentem que os objetivos a que se propuseram quando o projeto começou estão a ser cumpridos? Achamos que estar a “enfiar pela garganta abaixo” das pessoas o que elas não querem, não faz sentido, talvez só numa perspectiva de novos visitantes ou novos leitores, porque de resto se as pessoas vêem e gostam é mais que natural que continuem a gostar. Se o deixarem de o fazer é porque nós estamos a fazer alguma coisa errada, e aí vamos estudar as fragilidades e não propriamente preocuparmo-nos em fazer sempre publicidade. 8. Conseguem ver uma verdadeira consequência do vosso projeto na vossa área de intervenção? A consequência mais visível presumo que foi a das pessoas começarem a saber mais quem é uma ou quem é outra, se calhar houve uma agregação mais efectiva das pessoas que o Colher divulga. Não vejo outra consequência muito mais efectiva, porque o objectivo do projecto era divulgar o design gráfico português, algo que vive dentro das pessoas e, por isso, não é propriamente visível ou palpável. No Colher Tour achamos que sim, que se percebeu mais a imagem que as pessoas têm do Colher e como este influencia, principalmente nas regiões mais periféricas. 9. O vosso projeto é sustentável? Conseguem compensar os gastos que têm? Como é que fazem essa gestão? Neste contexto o que pensam de subsídios e apoios públicos? Não é sustentável, mas precisamos de repensar essa matéria. Nós já implementámos algumas coisas como anúncios no site que, na versão original, não tinha mas mal chega para pagar as despejas de alojamento do site ou mesmo a implementação da loja online. Mas estes são lucros que não são efectivos, não dão propriamente para governar uma pessoa, mas vamos tentado que dê pelo menos para pagar as despesas como impressões e alojamento do site. Os lucros não são findáveis. Nas nossas iniciativas como é o caso do Portuguese Illustration ja sabíamos que íamos
118 gastar um pouco de dinheiro por ser impresso em Riso, mas a ideia era vender o maior número de cópias possível e daí advirem alguns lucros que fossem sustentar os próximos passos do projecto. Mas isso não se verificou, porque a venda foi bastante lenta e ainda temos algumas cópias. Algumas também vendemos em lojas ou livrarias, mas efectivamente a impressão ficou muito cara, para além de termos tido um apoio em parte dos custos de impressão da publicação, se deu para pagar o dinheiro que investimos já é muito bom. Em relação ao Colher Tour foi tudo pago do nosso bolso, por isso apesar do esforço para fazer tudo o mais barato possível ainda se gastou um bom dinheiro porque éramos 5 pessoas e 2 automóveis. É claro que há sites que dão dinheiro como os It’s Nice That, por exemplo, mas o Colher como é bastante específico é mais complicado de ganhar dinheiro com isso. Não é um projecto sustentável, mas nós gostaríamos muito que fosse para também podermos apostar mais nele e trazer mais e melhor. Mas nós somos dos que pensam que, mesmo com pouco dinheiro, podemos fazer tudo que queremos. Os subsídios e os apoios públicos só vão para quem tem cunhas e nós não temos, por isso não sabemos. Acho que os subsídios públicos nunca chegariam ao Colher, por isso é que também não nos metemos nessas burocracias estranhas e papeladas estúpidas e nem estamos registados, porque não acreditamos muito nisso. 10. Para vocês qual é a importância dos vossso projetos que vão para além do site (ex: exposições, publicações, palestras)? Desempenham um papel grande naquilo que define o Colher? Claro que sim, porque o Colher se fosse um site para todo o sempre, este iria morrer, iam nascer novos blogs sobre o design gráfico português, aliás já existem e era só uma questão de tempo até isso começar a acontecer. E também acho que é um pouco “seca” uma pessoa se confinar apenas a um meio; explorar outros meios permite ser mais desafiador, pensar como um projecto como este que acontece sobretudo online se pode inscrever em outros eventos mais físicos e palpáveis e mais próximo do público e da vida real. O Colher vai-se definindo não apenas como sendo um site, porque alcança outros tipos de formatos, como exposições, cujo exemplo foi o Colher Tour, que estamos a pensar voltar a fazer no próximo ano e as duas publicações (Portuguese illustration e Calendário 2012). E queremos continuar os esforços. Acho que não, o Colher é daquelas coisas que não precisam de uma descrição porque auto explica-se. Acho que se define e se suporta por si mesmo e que as falhas não reflectem muito para o público pelo facto de, no fundo, ser feito para um público que também somos nós.
119 11. O que vos parece estar a funcionar melhor no Colher, e quais são as suas principais falhas? (se é que existem claro) O que parece estar a funcionar melhor é que não está a cair por um abismo abaixo, parece que continuamos a manter as pessoas interessadas depois destes dois anos, podia cair na monotonia, mas não foi o caso. Mantivemos o público interessado muito em parte, devido às iniciativas promovidas pelo Colher e daí termos conseguido uma dinamização louvável, mas muito especificamente considero que o que está a funcionar melhor é a nossa vontade de manter o Colher activo. Também temos agora uma panóplia de novos colaboradores que, apesar de não ser fazer organizar, ajudam a manter o Colher vivo. A principal falha são, provavelmente, os fundos para suportar o projecto e para podermos trabalhar nele como gostaríamos, ir muito além da faculdade e trabalho, apesar de não queremos fazer do Colher a nossa vida. Precisávamos de mais tempo disponível para trabalharmos no projecto mais produtiva e seriamente. 12. O projeto desta dissertação está concentrado na criação de um registo de edições independentes, assim como de uma plataforma de divulgação para essas mesmas edições. Este regiso que vamos fazer, vai ser feito online através de um site que pretende ir registando, mas também divulgando projetos e eventos da área (www.projectofair.com). Queremos compilar notícias e ideias de várias fontes sobre publicação independente. Podemos ir publicando as vossas novidades relacionadas com a área? Claro que sim!
120 BINAURAL O texto que se segue é o resultado de uma entrevista a Rui Costa realizada por e-mail entre 3 e 22 de Junho de 2012. 1. Apresentação do projeto: objetivos e motivações da Binaural. Importa saber quando começou e em que contexto (data e local). A Associação Cultural de Nodar (Binaural/Nodar) é uma associação sem fins lucrativos dedicada desde 2007 à cooperação local e internacional nos domínios da pesquisa cultural, tecnológica e científica, enquanto ferramentas complementares de articulação com o contexto social, geográfico e económico das aldeias serranas onde se situa a sua zona de intervenção (maciço da Gralheira, Arada e Montemuro). 2. O que é que motivou o vosso início? Como é que aconteceu? A decisão de iniciar as actividades da Binaural/Nodar foi motivada pela vontade dos seus membros, um colectivo de artistas contemporâneos dedicados às artes media, em aprofundarem a investigação sobre as possibilidades de uma prática artística exploratória em estreita interacção com um contexto específico rural e em lançar as bases de uma plataforma de troca regular de ideias e de práticas com artistas e organizações internacionais actuando na mesma área. Estas motivações foram possíveis de pôr em prática pela coincidência de dois dos membros fundadores da Binaural/Nodar serem originários da aldeia de Nodar. 3. Que tipo de projetos desenvolvem com a Binaural? Que projetos gostariam de desenvolver no futuro? A Binaural/Nodar desenvolve um largo feixe de projectos, de acolhimento de residências artísticas em arte e tecnologia, de reflexão criativa e científica, projectos educativos de mapeamento sonoro de territórios rurais, de documentação da memória local e de publicação de catálogos, CDs etc.) os quais, com uma lógica complementar e modular, criam uma percepção multifacetada do “sentido do lugar”, da sua riqueza patrimonial e potencial económico local, junto de diversos destinatários, quer locais, quer exteriores à região. Nos últimos anos, decidimos que as nossas actividades devem ser cada vez mais transdisciplinares, no sentido em que em todas as nossas residências artísticas e criações próprias deve haver um cruzamento da investigação artística com as ciências humanas, nomeadamente pelo envolvimento de investigadores em áreas como a arquitectura, a ecologia, a antropologia, que aportam um conhecimento aprofundado sobre as múltiplas facetas do contexto rural onde actuamos. 6.1.4
121 4. O vosso projeto tem uma forte componente altruísta. A divulgação de trabalho de terceiros acaba por ser uma parte central do vosso trabalho. Isso agrada-vos? Não têm ambições de produzir e divulgar o vosso próprio trabalho, ou uma coisa leva à outra? A nossa abordagem tem passado, ao longo dos anos, pela simultaneidade da produção artística própria com a curadoria de exposições e eventos com artistas com quem temos afinidades estéticas e com a organização de residências artísticas em que projectos artísticos são seleccionados com base na sua adequação a um tema proposto. A partir das cumplicidades criadas entre os nossos artistas e os que nos visitam e da investigação que realizamos na preparação dos trabalhos desses artistas, acabam por surgir espontaneamente oportunidades de desenvolver trabalhos de criação própria, muitos deles em colaboração com esses mesmos artistas. 5. De que forma organizam os conteúdos que divulgam, ou seja, como são escolhidos os conteúdos de cada exposição ou workshop? (Por exemplo: como escolhem os autores, que equipa existe por trás de cada projeto, etc.) No caso particular dos workshops a nossa intenção é oferecer um leque de temáticas que cubra vários aspectos da utilização do som na prática artística (como por exemplo a composição sonora a partir de gravações de campo, as instalações sonoras multi-canal, o hardware hacking, etc.) e em que são partilhados com estudantes ou artistas emergentes as abordagens estéticas e de relação da arte com o contexto envolvente que caracteriza a acção da Binaural/Nodar. As exposições são normalmente retrospectivas de trabalhos de criação própria ou colectivas em que são exibidos os trabalhos de artistas em residência, centrados num tema em concreto. 6. Nos últimos anos os projetos auto-iniciados por alunos ou jovens artistas têm dinamizado a área de uma forma inovadora, que antes não tinha sido conseguida pelas instituições já estabelecidas. O que pensam disso? Devem ser os alunos e artistas a dinamizar a sua própria área, ou deveria existir uma plataforma mais oficial para a resolução dos problemas que a área enfrenta? Um dos focos centrais da actividade da Binaural/Nodar é o de permitir a partilha e disseminação dos aspectos centrais da nossa abordagem estética com jovens artistas e alunos de belas artes. Em particular, temos organizado residências / workshops em parceria com Universidades da região alargada onde operamos (Aveiro e Viseu, em particular) em que experimentamos com os alunos várias técnicas e conceitos estéticos da arte sonora e em particular do trabalho artístico em contexto específico. Em paralelo, sempre fizemos questão em garantir a presença de artistas emergentes Portugueses nos nossos programas de residências, já que tal constitui uma oportunidade única de aprendizagem e aquisição de conhecimentos junto dos artistas internacionais com carreiras mais estabelecidas.
128 Em territórios mais híbridos, próximos da ilustração, as editoras Plana, Opuntia Books, Imprensa Canalha, Oficina do Cego (dirigida para a promoção de práticas de impressão e autoedição), os Cadernos Serrote e a Ao Norte. E nunca é de mais lembrar a Feira Laica, em Lisboa, a Galeria Dama Aflita, no Porto, a livraria itinerária Estante e, claro está, a Feira de Publicação Independente do Porto. Figura 60 - “A Feira de Publicação Independente da Faculdade de Belas-Artes do Porto deu a conhecer o crescimento deste universo” (Marmeleira, 2011).
129 TIME OUT – PORTO Feira de Publicação Independente Abril 2012 - Sérgio Gomes da Cost a A Feira de Publicação Independente vai ter a terceira edição entre sexta-feira 6 e sábado 7, no espaço do Galeria Dama Afl ita e da loja Matéria Prima, em plena rua da Picaria. O evento nasceu da vontade dos editores da Pangrama, revist a dedicada ao design. Perceberam que faltava um project o de difusão de publicações independentes e a feira surgiu como solução. Acabou por ganhar vida própria. Quem ali entrar vai ver edições independentes de todo o género. Ist o abrange revist as, jornais, cartazes, sacos, post ais, discos e o que mais se queira. A escolha é grande, com toda a liberdade criativa que a independência implica. Est a edição traz uma novidade. Foi feita uma parceria com a Lovers & Lollypops, pelo que os concertos fazem parte do programa. A isso acrescenta-se uma banca dest a produtora e editora com produtos musicais. 6.2.4 Figura 61 - 2ª edição da Feira de Publicação Independente, a 23 de Novembro de 2011, FBAUP.
130 VICE Publicação Independente – Anotem na Vossa Agenda: Ilustração + Lovers & Lollypops + Rua Da Picaria 4 Abril 2012 - Equipa Vice Era uma vez um tempo em que a internet não era lá grande coisa (imaginem só!) e era uma vez uns putos que, algures em Montreal, começaram uma publicação independente que viria a evoluir e a crescer, transformando-se numa revista chamada VICE. É esta, em formato tweet, a nossa história, por isso sentimos que é o nosso dever, numa de irmão mais velho que venceu na vida (não detestam esses gajos?), dar atenção e força aos nossos irmãozinhos editoriais mais novos. Está difícil para todos, mas há quem mereça o seu lugar ao sol. Nos próximos dias 6 e 7 de Abril, a sexta e sábado que vêm aí, podem reservar algum do vosso tempo livre para dar uma saltada à Feira da Publicação Independente — ou não, vocês é que sabem (e que ficam a perder). A 3.ª edição do evento acontece este ano fora da FBAUP que o viu nascer, saltando para a Galeria Dama Aflita/Matéria Prima (na Rua da Picaria — é ir ao Candelabro tomar o melhor café da cidade e depois começar a descer). E há cameo dos nossos amigos da Lovers & Lollypops e tudo. Dois dias para mostrar o que o pessoal da ilustração (Alexander Egger, Chili com Carne, Wasted Rita, etc) e da edição (Pangrama, A Prensa, etc) anda a fazer com direito a música ao vivo: Tren Go Soundsystem, na sexta, e Atomizador, no sábado. Se estiver sol os concertos até vão ser no jardim — foi o Fua que disse. A feira começa às duas da tarde de sexta e vai até às oito da noite de sábado. Os concertos são sempre às 18h. Tomara que não chova. 6.2.5 Figura 62 - Cartaz promocional da 3ª edição da Feira de Publicação Independente, a 6 e 7 Abril 2012, Dama Aflita & Matéria Prima, Porto.
131 JPN Porto: Galeria Dama Aflita recebe 3.ª edição da Feira de Publicação Independente 5 Abril 2012 - Maria Eduarda Moreira Nos dias 6 e 7 de abril, a galeria Dama Aflita acolhe a 3.ª Feira de Publicação Independente, com a colaboração da companhia discográfica Lovers &Lollypops. São dois dias totalmente dedicados à “divulgação e venda de projetos editoriais independentes, juntando à edição de livros, a edição musical”, como é possível ler no site da iniciativa. Geralmente realizado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), o evento foca-se na “qualidade e seleção de publicações nacionais e internacionais” e conta com dois concertos promovidos pela Lovers & Lollypops, convidada pela primeira vez a colaborar no evento. A feira de publicação independente vem dar a conhecer “projetos jovens e editoras mais experientes, juntando tudo novamente, num dia totalmente dedicado à auto-edição”, desta feita na galeria Dama Aflita, situada na rua da Picaria, no Porto, a 6 e 7 de abril. Esta saída da FBAUP prende-se com o intuito de “abrir as portas à cidade”, numa tentativa de “chegar a mais pessoas” e impedir que a iniciativa se concentre “num núcleo muito fechado”. Ana Simões, organizadora do evento, explica que tudo surgiu ainda “num contexto académico”, após a criação da revista “Pangrama”, em 2009, que, por sua vez, veio da “necessidade de criar uma plataforma editorial onde várias opiniões e ideias sobre design se possam encontrar, sem preconceitos ou parcialidades”. Atualmente, a “Pangrama” procura “criar uma discussão produtiva com uma abordagem pouco convencional à teoria e crítica do design, através da escrita ou mesmo da ilustração”. Pela primeira vez, a editora discográfica e produtora Lovers & Lollypops vai dar música a este evento. De acordo com a organizadora, a ideia é “juntar a edição independente de publicações à edição independente musical”, já que partilham “ideias semelhantes”. Joaquim Durães, da Lovers & Lollypops, afirma que o convite para esta primeira participação partiu da organização da feira e considera positiva a divulgação de “um nicho que está bastante ativo”. Durães espera, ainda, que o projeto “desperte o interesse em muitas pessoas”, com “uma lógica ‘low cost’”. O primeiro dia, sexta-feira, 6 de abril, será marcado pelo concerto dos “Tren Go! Sound System” e, a 7, sábado, o música espanhol Atomizador (que também é ilustrador) vai marcar presença. Além da própria divulgação de publicação independente, a organização quer dar a conhecer alguns outros “pequenos projetos” e “manter, com regularidade, um ponto de encontro entre editores e público”, por forma a “manter vivo o interesse por esta área”. 6.2.6
132 Aos interessados em participar com projetos editoriais basta enviar um e-mail para a “Pangrama” e as editoras têm, também, a possibilidade de reservar uma mesa para vender as suas publicações. O evento já está no Facebook e, devido ao espaço, terá um número limitado de participantes. A feira vai estar aberta entre as 14h00 e as 20h00. Figura 63 - “Dama Aflita é a galeria que acolhe a 3.ª edição da feira de publicação independente” (Moreira, 2012).
133 6.3 DOCUMENTOS AUDIOVISUAIS A lista que se segue está compilada no CD anexo a esta dissertação. 1. Vídeo de parte das conversas na 2ª edição da Feira de Publicação Independente, 23 Novembro 2011, FBAUP. 2. Vídeo sobre a 3ª edição da Feira de Publicação Independente, 6 e 7 Abril 2012, Dama Aflita & Matéria Prima, Porto. 3. Gravação áudio das apresentações Love, Thought and Time, 18 Maio 2012, Museu da FBAUP.
134 Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Dissertação para a obtenção do grau de Mestre: Mestrado em Design Gráfico e Projetos Editoriais Orientador: Miguel Carvalhais, Professor Auxiliar, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Co-Orientador: Júlio Dolbeth, Assistente, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Porto 2012
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