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Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal

Sandra Eliana Nunes Ferreira

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Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Por Sandra Eliana Nunes Ferreira [email protected] Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Finanças pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto Orientada pelo Professor Doutor Júlio Fernando Seara Sequeira da Mota Lobão Porto, 2013 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças Nota Biográfica Sandra Eliana Nunes Ferreira nasceu a 25 de outubro de 1989 no distrito do Porto. Iniciou o percurso académico na Universidade Portucalense Infante D. Henrique, no ano letivo 2007/2008, tendo-se licenciado em Gestão, em 2010. Em 2011 ingressou no Mestrado em Finanças, na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, tendo concluído a componente letiva em 2012. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças Agradecimentos A concretização deste trabalho só foi possível graças ao esforço e apoio de várias pessoas, às quais estou bastante grata. Ao meu orientador, Professor Doutor Júlio Lobão pela disponibilidade e amabilidade que teve em orientar este trabalho, pelas sugestões e retificações e por todo o tempo dispensado neste trabalho. Aos meus pais e irmão, pelo apoio e incentivo, pela compreensão, pela cooperação e pelas oportunidades de educação. À Olga pela ajuda, encorajamento e confiança e ao Alexandre pela preciosa ajuda. E a todas as pessoas que direta ou indiretamente colaboraram na realização deste trabalho. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças Palavras-chave: Endividamento, Dificuldades financeiras, Particulares, Finanças comportamentais. Resumo Nos últimos anos, têm-se registado níveis de endividamento significativamente elevados e um aumento do rácio de incumprimento dos particulares, mostrando-se preocupante do ponto de vista individual e coletivo. A compreensão dos fatores subjacentes à decisão de endividamento ou à experimentação de dificuldades financeiras mostra-se pertinente, por exemplo, na elaboração e adotação de medidas e políticas (preventivas ou corretivas) eficazes na resolução de potenciais problemas causados pelo endividamento dos particulares. O objetivo do presente trabalho é determinar e analisar o efeito de fatores comportamentais e socioeconómicos nas decisões de endividamento e no experimento de dificuldades financeiras. Para o efeito, recorre-se à análise de três questionários. O primeiro questionário, desenvolvido no Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, conta com 2120 consumidores que recorreram ao apoio da DECO entre 2005 e 2008. O segundo questionário, divulgado pelo Banco de Portugal, foi realizado a 2000 indivíduos com idades superiores a 16 anos, em fevereiro e março de 2010. O último questionário é resultado de elaboração própria, sendo desenvolvido com o intuito de ultrapassar a indisponibilidade de dados para manuseamento e análise da relação ou efeito de fatores socioeconómicos e comportamentais sobre o endividamento ou a capacidade de manter os compromissos financeiros. Este conta com 101 indivíduos que cumprem os requisitos mínimos para a aquisição de dívida, ainda que efetivamente não a detenham. No terceiro questionário mostraram-se significativos os efeitos, quer de variáveis socioeconómicas, como género, estado civil, situação laboral e rendimento disponível, quer de fatores comportamentais e psicológicos, nomeadamente, a atitude face à dívida, o otimismo e o locus de controlo interno. Foram ainda observados indícios de racionalidade limitada, excesso de confiança, present bias e a presença das heurísticas de ancoragem e de representatividade nos endividados dos dois relatórios nacionais considerados. Estes resultados são consistentes com a literatura, na medida em que é evidenciada a correlação de fatores socioeconómicos ou comportamentais com os fenómenos tratados, corroborando a ideia de que estes não são função, unicamente, de variáveis económicas. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças Keywords: Debt, Financial Difficulties, Private Entities, Behavioral Finance. Abstract In the recent years, there has been significantly high levels of debt and an increase in the default ratio of individuals, thus revealing worrying, in terms of individual and collective terms. Understanding the factors underlying the decision to debt or financial difficulties experimentation proves to be relevant, for example in the elaboration and adoption of policies and measures (preventive or corrective) effective when solving potential problems caused by household indebtedness. The objective of this study is to determine and analyze the effect of socio-economic and behavioral factors in the decisions of debt and financial difficulties in experiment. To this end, I appeal to the analysis of three questionnaires. The first questionnaire, developed at the Center for Social Studies, Faculty of Economics, University of Coimbra, 2120 questionnaires were appealed to consumers who explored for the support of DECO between 2005 and 2008. The second survey, released by the Bank of Portugal, was conducted in 2000 individuals aged over 16 years, in February and March of the year 2010. The final questionnaire is the result of their own creation, therefor being developed in order to overcome the unavailability of data for treatment and analysis of the relationship or the effect of socio-economic and behavioral factors on the debt or the ability to maintain financial commitments. This includes 101 individuals who meet the minimum requirements for the acquisition of any debt, though not actually holding them. In the third questionnaire, were significant effects of either socio-economic variables, such as gender, marital status, employment status and disposable income, either behavioral and psychological factors, namely attitude towards debt, optimism and locus of internal control. It was also observed evidence of bounded rationality, overconfidence, presence of bias present and the presence of the heuristics anchor indebted and representation in the two national reports considered. These results are consistent with the literature, the correlation is evident with the socioeconomic factors and behavioral phenomena treated, support the idea that these are not due solely economic variables. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças Índice 1. Introdução ................................................................................................................ 1 2. Endividamento em Portugal .................................................................................... 6 3. Revisão de literatura .............................................................................................. 11 3.1. Teorias e modelos base ................................................................................ 11 3.1.1. Finanças Comportamentais ....................................................................... 12 3.2. Definições relevantes sobre o endividamento .............................................. 19 3.3. Estudos semelhantes .................................................................................... 20 3.4. Metodologias utilizadas em estudos semelhantes ........................................ 37 4. Metodologia adotada ............................................................................................. 39 4.1. Inquérito OEC-DECO .................................................................................. 40 4.2. Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa .......................... 50 4.3. Inquérito – Endividamento & Financial distress ......................................... 60 4.3.1. Questões da pesquisa ................................................................................ 61 4.3.2. Amostra ..................................................................................................... 61 4.3.3. Instrumento ............................................................................................... 62 4.3.4. Limitações da pesquisa ............................................................................. 69 4.3.5. Análise preliminar ..................................................................................... 69 4.3.6. Análise fatorial .......................................................................................... 70 4.3.7. Análise discriminante ............................................................................... 73 4.3.8. Análise Probit ........................................................................................... 85 5. Análise conjunta de resultados .............................................................................. 94 6. Conclusões ........................................................................................................... 102 Apêndices ...................................................................................................................... 105 Referências bibliográficas ............................................................................................. 112 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças Anexos .......................................................................................................................... 117 Índice de tabelas Tabela 1 – Dados para caracterização do endividamento ............................................... 42 Tabela 2 – Dados sociodemográficos ............................................................................. 44 Tabela 3 – Razão para a escolha da entidade de crédito (Racionalidade limitada) ........ 46 Tabela 4 – Razões que estão na base da decisão de endividamento ............................... 46 Tabela 5 – Grau de aversão ao crédito: “Se fosse hoje, voltaria a contrair crédito?” ..... 49 Tabela 6 – Análise fatorial: Atitude perante o crédito .................................................... 72 Tabela 7 – Análise fatorial: Locus de controlo ............................................................... 73 Tabela 8 – Funções discriminantes daqueles que se encontram endividados ................. 75 Tabela 9 – Análise das funções discriminantes, daqueles que se encontram endividados, pelos respetivos centroides ............................................................................................. 77 Tabela 10 – Função discriminante dos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação ..................................................................................................... 79 Tabela 11 – Análise da função discriminante dos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação através dos respetivos centroides ............................... 80 Tabela 12 – Função discriminante dos indivíduos que enfrentam algum grau de dificuldade financeira ................................................................................................. 8119 Tabela 13 – Análise da função discriminante dos indivíduos que enfrentam algum grau de dificuldade financeira, através dos respetivos centroides .......................................... 83 Tabela 14 – Resultados da análise probit para a variável dependente “Endividado” ... 896 Tabela 15 – Resultados da análise probit para a variável dependente “Apenas outras dívidas” ..................................................................................................................... 12386 Tabela 16 – Resultados da análise probit para a variável dependente “Dificuldades financeiras” ..................................................................................................................... 90 Tabela 17 – Testes Validade: Atitudes perante a dívida ............................................... 106 Tabela 18 – Testes Validade: Locus de controlo .......................................................... 107 Tabela 19 – Retenção dos fatores comuns: Total da variância explicada – Atitudes perante a dívida .......................................................................................................................... 108 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças Tabela 20 – Retenção dos fatores comuns: Total da variância explicada – Locus de controlo ......................................................................................................................... 108 Tabela 21 – Análise fatorial: Atitude perante o crédito ................................................ 109 Tabela 22 – Análise fatorial: Locus de controlo ........................................................... 110 Tabela 23 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” .................................................................................... 120 Tabela 24 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Inquérito à Literacia Financeira” .................................................................................................................... 124 Tabela 25 – Valores Próprios: funções que discriminam endividados dos restantes indivíduos ...................................................................................................................... 133 Tabela 26 – Wilks' Lambda: funções que discriminam endividados dos restantes indivíduos ...................................................................................................................... 133 Tabela 27 – Matriz estruturada - correlação entre as variáveis e funções discriminantes daqueles que se encontram endividados ....................................................................... 133 Tabela 28 – Centroides: discriminação daqueles que se encontram endividados ........ 135 Tabela 29 – Valores Próprios: função que permite a discriminação do grupo de indivíduos que detem dívidas diferentes do crédito à habitação do grupo de indivíduos que não possuem qualquer tipo de dívida .................................................................................. 135 Tabela 30 – Wilks' Lambda: função que permite a discriminação do grupo de indivíduos que detem dívidas diferentes do crédito à habitação do grupo de indivíduos que não possuem qualquer tipo de dívida .................................................................................. 136 Tabela 31 – Matriz estruturada - correlação entre as variáveis e função discriminante dos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação ................... 136 Tabela 32 – Centroides: discriminação dos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação .................................................................................. 138 Tabela 33 – Valores Próprios: função discriminante dos indivíduos que enfrentam dificuldades financeiras dos restantes ........................................................................... 138 Tabela 34 – Wilks' Lambda: função discriminante dos indivíduos que enfrentam dificuldades financeiras dos restantes ........................................................................... 138 Tabela 35 – Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante dos indivíduos que enfrentam algum grau de dificuldade financeira .................................. 138 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 6 2. Endividamento em Portugal O crédito concedido aos consumidores é amplamente utilizado há mais de um século nos Estados-Unidos, no entanto apenas na década de 90 foi introduzido em Portugal. A generalização deste instrumento em Portugal, tornou-se notória com o aumento significativo do endividamento de 20 %, em 1990, para 80%, em 1999. Uma série de acontecimentos e condições favoráveis quer do lado da procura quer do lado da oferta apresentam-se elucidativas deste fenómeno. Do lado da procura a adesão à zona euro, com subsequente estabilização dos preços e juros nominais e reais baixos quando comparados historicamente, a reorientação do crédito para particulares e a forte competitividade entre as entidades de crédito, fomentadora de um relaxamento na avaliação do risco de clientes e derivada da liberalização e desregulamentação do sistema financeiro e ainda da inovação financeira. Do lado da procura, o contexto de emprego, propício à incitação de elevados níveis de confiança que combinados com a resposta oferecida a diversas necessidades, por este meio de financiamento, conduziram um número considerável de famílias a endividar-se, essencialmente, para a compra de habitação e ainda para o consumo. O endividamento tornou-se um fator de inclusão social, bem como proporcionador de uma maior satisfação presente com a antecipação da compra e adiamento do pagamento. As famílias portuguesas continuaram a endividar-se ao longo das últimas duas décadas. Normalmente em situações de estabilidade financeira e laboral, este instrumento apresenta vantagens imediatas como o ajustamento temporal dos rendimentos, com a antecipação dos mesmos, permitindo a satisfação das suas necessidades no presente em detrimento dessa satisfação no futuro. No entanto, quando associado a eventos adversos que condicionam a capacidade dos seus detentores em cumprir as obrigações subjacentes, as consequências são usualmente o sobre-endividamento ou insolvência. No final de 2005 o BCE aumentou a taxa de juro de referência na zona euro de 2% para 2,5%, afetando essencialmente o consumo privado e as obrigações tidas com os empréstimos para habitação, contratados maioritariamente a taxas de juro variáveis indexadas à Euribor. O desemprego e a ausência de um reequilíbrio financeiro afetaram ainda mais o consumo privado, com consequente desmotivação por parte das empresas Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 7 no investimento. Este cenário combinado com os elevados níveis de endividamento suportados por alguns tornou-se claramente preocupante. Desta forma, quer por consequência de um agravamento das condições económicas e laborais quer por um endividamento excessivo dos consumidores, que os torna mais vulneráveis a eventos negativos, os indivíduos perdem o poder de garantir o cumprimento das suas obrigações. O surgimento do sobre-endividamento, merecedor de uma especial atenção por parte do Banco de Portugal, originou a tomada de medidas, nomeadamente ao nível das condições de concessão de crédito e criação de organismos vocacionados para a orientação e ajuda em situações de incumprimento. O crédito ao consumidor tem vindo a diminuir em Portugal nos últimos três anos, registando-se, inclusive, taxas de variação anual do crédito concedido a particulares negativas. O montante total da dívida em 2012 atingiu 142 462 milhões. Isto representa cerca de 118% do rendimento familiar anual disponível, sendo a taxa de endividamento mais baixa desde 2007, dado a gradual redução desta desde 2010. Em contraste, o número de famílias com problemas de dívida e de crédito tem aumentado. A taxa de poupança, de acordo com dados recentes 1 , tem de forma geral aumentado. Gráfico 1 - Taxa de variação anual - empréstimos bancários Fonte: Banco de Portugal 1 Indicador de Poupança divulgado pela Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Património. http://www.apfipp.pt/index2.aspx?MenuCode=AP&ItemCode=APFIPP_IP&name=Estudos%20e%20Inic iativas -15,00% -10,00% -5,00% 0,00% 5,00% 2010 2011 2012 Empréstimos bancários Taxa de variação anual Habitação Portugal Consumo Portugal Outros fins Portugal Habitação Euro Consumo Euro Outros fins Euro Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 8 Gráfico 2 - Empréstimo concedido a famílias Fonte: Banco de Portugal Dadas as taxas de juro historicamente baixas, em 2010 verifica-se um ligeiro aumento do empréstimo concedido a famílias, essencialmente por meio do crédito à habitação. Sob uma perspetiva geral, os empréstimos concedidos tem diminuído desde 2010, sendo esta desaceleração mais acentuado ao nível dos empréstimos para o consumo, devido a diversos fatores como a diminuição da confiança dos consumidores, o aumento das restrições à concessão de crédito, o aumento da taxa de desemprego, entre outros. Gráfico 3 - Taxa de endividamento em Portugal (% do rendimento disponível) Fonte: Banco de Portugal Gráfico 4 - Rácio de crédito vencido (Famílias) Fonte: Banco de Portugal 2 2 Ver ainda relatório de estabilidade financeira Agosto de 2011 77,8% 78,3% 79,5% 80,7% 22,2% 21,8% 20,5 19,3% 151406 153230 149799 142462 0 50000 100000 150000 200000 2009 2010 2011 2012 Empréstimo concedido a famílias (106euros) Consumo Habitação Total 121,60% 121,60% 124,50% 122,10% 121,50% 117,60% 110,00% 115,00% 120,00% 125,00% 130,00% 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Endividamento (% do rendimento disponível) 2,90% 3,30% 3,70% 4,10% 0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 2009 2010 2011 2012 Rácio de crédito vencido - famílias Consumo Habitação Total Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 9 Nos últimos anos o nível de endividamento ainda que tendencialmente tenha diminuído continua a apresentar níveis preocupantemente elevados. O peso do crédito à habitação é consideravelmente superior ao do consumo. Com o crescimento da taxa de desemprego, responsável pela diminuição de uma parte considerável do rendimento, o rácio de crédito vencido das famílias aumentou, sendo este aumento mais considerável ao nível dos empréstimos para consumo. De acordo com dados divulgados pelo Banco de Portugal 3 , no segundo trimestre de 2013, este rácio é de 4,3% no total (2,3% no crédito à habitação e 12,6% no crédito ao consumo e outros afins) e 15,5% das pessoas com empréstimos estão numa situação de incumprimento. O equilíbrio entre o rendimento disponível e as despesas é facilmente abalado quer por uma redução do primeiro quer pelo aumento da despesa, podendo ambas ocorrer essencialmente por circunstâncias adversas como desemprego ou aumento das taxas de juro. Assim, os elevados níveis de endividamento, que comprometem uma parte importante do rendimento, e as baixas taxas de poupança tornam as famílias mais suscetível a problemas financeiros. O despoletar da crise mundial, o aumento constante do desemprego, a instabilidade financeira, politica, social e cultural, conduziram a incremento das despesas das famílias, com o surgimento de sobre-endividamento. A responsabilidade deste fenómeno pode ser atribuída a uma série de intervenientes, como os agentes que contraíram a dívida, as instituições de crédito que falharam na transmissão da informação de forma clara e transparente e as autoridades públicas. Os indivíduos que se encontram em dificuldades financeiras, tendem a atribuir a culpa da sua situação financeira a fatores exógenos, como a perda de emprego, que conduzem à redução do rendimento esperado (sobre-endividamento passivo), ignorando a existência dos possíveis mecanismos psicológicos inerentes ou a sua inaptidão na gestão dos recursos financeiros disponíveis (sobre-endividamento ativo). 3 “Boletim oficial do Banco de Portugal”, divulgado pelo Banco de Portugal. http://www.bportugal.pt/ptPT/PublicacoeseIntervencoes/Banco/BoletimOficial/Lists/FolderDeListaComLinks/Attachments/79/BO_ Agosto_2013.pdf Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 10 Os efeitos negativos de eventos externos afetam em diferente medida os diversos agentes, dependendo de uma série de características, como o nível de literacia financeira, as características sociodemográficas ou socioculturais, etc. Assim as causas do sobre-endividamento tem sido atribuídas quer a fatores de caráter estrutural como a desregulação do mercado de crédito e a democratização do crédito, quer a fatores culturais ou psicológicos, estando estes dois grupos correlacionados e dependentes um do outro. O estudo do sobre-endividamento deve a sua relevância às importantes consequências quer sobre o indivíduo e o seu agregado familiar, quer sobre o sector real da economia. Os primeiros desenvolvem problemas psicológicos e sociais que afetam geralmente todo o agregado, como exclusão social, o divórcio, etc. Quando o sobre-endividamento atinge um número considerável de famílias, e os casos de insolvência aumentam, observa-se do lado da oferta um condicionamento no acesso ao crédito que reduz o número de clientes, incluindo os potencialmente cumpridores. Do lado da procura este fenómeno induz uma redução do consumo privado, provocando um abrandamento do crescimento económico (OEC, 2002). A compreensão das suas causas permite ainda o desenvolvimento de medidas preventivas e corretivas mais direcionadas e eficazes. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 11 3. Revisão de literatura 3.1. Teorias e modelos base O comportamento humano é objeto de estudo de diferentes áreas como economia, finanças, psicologia, sociologia e marketing. Os particulares, ao contrário das empresas, têm sentimentos, emoções, atitudes, desejos, crenças, tendências, opiniões, entre outros, sendo o seu julgamento influenciado ou afetado, pelo menos em parte, por estes. Para Blackwell et al. (2005 apud Queiroz 2007) o comportamento do consumidor diz respeito a uma área de estudo que analisa todo o processo de tomada de decisão do consumidor. Este processo compreende várias etapas: 1) reconhecimento da necessidade de consumo; 2) busca de informações e soluções com o intuito de satisfazer a necessidade ou desejo reconhecido; 3) avaliação das alternativas, prestando especial atenção aos fatores diferenciais existentes entre as mesmas, de forma a apurar as melhores opções. Nesta fase, diferenças individuais e ambientais determinam o padrão e as normas de avaliação, sendo por isso importantes na análise do comportamento de compra do consumidor; 4) decisão de compra; 5) decisão de consumo e utilização; 6) avaliação pósconsumo; e 7) descarte dos bens consumidos. Nas fases seguintes ao consumo, o nível de satisfação inerente à compra é determinado, sendo as últimas fases do processo afetadas pelo modo como o bem é utilizado e pelo momento da sua utilização. Segundo o autor, diferenças individuais como a personalidade, os valores, a psicografia e a demografia afetam o processo acima mencionado e o comportamento de compra. São ainda enumeradas como diferenças individuais os recursos que o decisor possui durante o processo de tomada de decisão, a motivação inerente à compra, o conhecimento relativo ao produto e a atitude. Dada a complexidade e influência do ambiente onde vivem os consumidores, as diferenças ambientais são tidas como variáveis importantes na análise do comportamento do consumidor. Blackwell et al. cita assim a cultura, as classes sociais, os familiares, as influências pessoais, resultantes da pressão imposta por normas e expetativas de outros, e as mudanças situacionais que alteram o ambiente do consumidor. Em concordância com o objetivo a que se prende este trabalho, nesta secção serão apresentadas as teorias base ao entendimento da complexidade do processo de tomada de Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 12 decisão e do comportamento do consumidor neste processo. Estas teorias questionam a racionalidade tida como premissa em diversos trabalhos da teoria económica clássica e procuram identificar e justificar escolhas satisfatórias, ao invés de maximizadoras, e os erros sistemáticos inerentes a este fato. Um importante ramo das finanças cujas teorias desenvolvidas no seu âmbito corresponde ao exposto diz respeito às Finanças Comportamentais. 3.1.1. Finanças Comportamentais Nos últimos anos, tem-se observado uma evolução significativa do número de pesquisas e excelentes trabalhos desenvolvidas ao nível da teoria de Finanças Comportamentais, continuando a despertar o interesse e reconhecimento de bastantes estudiosos pela sua evidência prática na maioria dos casos. Esta teoria surgiu fundamentalmente da necessidade e importância de explicar, pelo menos em parte, através da incorporação de áreas como a psicologia e sociologia, algumas das decisões financeiras tomadas pelos diferentes agentes económicos que o paradigma tradicional não consegue esclarecer (Barberis e Thaler, 2003). Esta visão desafia a Hipótese dos Mercados Eficientes, um importante pilar das finanças neoclássicas, que defende a existência de equilíbrio em mercados competitivos dado a racionalidade dos agentes. Segundo Fama (1998) esta hipótese admite a ocorrência de erros por parte dos agentes de mercado desde que estes sejam aleatórios, ou seja, não se verifiquem de forma sistemática. A teoria das Finanças Comportamentais desafia ainda outras definições e modelos das finanças modernas, tais como o modelo de formação de portfólio de Markowitz (1959), o modelo CAPM (Capital Asset Princing Model) proposto por Sharpe et al. e a APT (Arbitrage Pricing Theory) proposta por Ross que são também baseados em premissas simplificadoras do comportamento dos agentes envolvidos no processo de decisão, admitindo o investidor como racional, avesso ao risco e utilizador da curva de utilidade para a maximização do seu bem-estar. Com a evolução e aprimoramento das pesquisas e técnicas utilizadas em Finanças Comportamentais, começaram a ser identificados indícios de uma discrepância entre algumas das atitudes e comportamentos esperados pela hipótese e modelos acima mencionados e os efetivamente evidenciados. Esta área passou assim a admitir a Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 13 existência de limites à arbitragem, uma vez que algumas estratégias de arbitragem podem ser arriscadas ou caras e como tal abandonadas por possíveis arbitragistas, e a questionar a racionalidade ilimitada dos indivíduos na tomada de decisões, dada a influência de limitações cognitivas no processo de tomada de decisões. Em suma, as finanças neoclássicas descrevem como as decisões devem ser tomadas, enquanto as Finanças Comportamentais descrevem como as mesmas são tomadas na prática. Para Barberis e Thaler (2003) a racionalidade tida como base em diversos modelos significa por um lado uma atualização das opiniões dos agentes de acordo com as leis de Bayes quando estes recebem novas informações e por outro lado escolhas consistentes com a utilidade esperada subjetiva de Savage. Notando-se assim já uma aceitação da existência de motivações individuais na determinação da utilidade, que definem a ordem de preferência. Von Neumann e Morgenstern (apud Tversky e Kahneman, 1986, pp. 252-254) consideram que a tomada de decisão racional deve respeitar alguns princípios como o cancelamento de qualquer condição que conduza ao mesmo resultado, transitividade na escolha da opção com maior valor de utilidade, dominância da opção que se apresentar, relativamente às restantes opções, melhor num estado e pelo menos igual nos restantes estados e invariância das preferências perante diferentes apresentações da mesma escolha. Esta racionalidade é questionada por Simon (1957 apud Barros, 2010) que acredita que para uma decisão ser considerada racional, esta deveria seguir algumas condições, como: as consequências resultantes de cada escolha deveriam ser conhecidas e antecipadas, no entanto ainda assim como estas ocorrem no futuro, a sua valorização é efetuada com base na imaginação e como tal imperfeita; deveriam ser conhecidas e consideradas todas as alternativas existentes no processo de decisão, no entanto dada a sua dimensão, a escolha apenas se baseia numa pequena amostra dessas alternativas; ainda devido à dimensão das alternativas a considerar, a informação subjacente a ser tratada é também vasta, dificultando a tomada de uma decisão “racional”; a limitação das capacidades cognitivas e computacionais dos indivíduos impossibilitam por si só a sua racionalidade. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 14 O autor desenvolveu assim a bounded rationality, isto é, o princípio da racionalidade limitada, onde é admitida a formulação e utilização de modelos simplificados, por parte dos indivíduos, para cada situação, devido à sua complexidade. Diversos e relevantes estudos da literatura, cujo objeto de estudo se prende com os processos comportamentais presentes em situações de escolha e tomada de decisão, comprovam que os tomadores de decisão apresentam, de forma continua e sistemática, erros de julgamento, comportamentos, escolhas e análises de probabilidades enviesadas relativamente ao que seria de esperar pelo modelo de maximização racional do bem-estar. A evidência de racionalidade limitada, isto é, do sacrifício da melhor solução por uma apenas razoável em momentos de incerteza, acredita-se ter a sua origem em 1841 com o trabalho “Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds” de Charles Mackay. Esta evidência é apresentada como consequência de viés e ilusões cognitivas e mentais, que conduzem a decisões capazes de satisfazer as suas necessidades, mas que nem sempre permitem aos indivíduos tomarem decisões ótimas que maximizem a sua utilidade futura, especialmente quando se deparam com um conjunto de variáveis complexas e de implicações inesperadas, como o caso dos empréstimos (Kilborn, 2005). Os indivíduos são assim caracterizados como satisficers e não maximizadores (2007, Herbert Simon apud Campitelli e Gobet 2010). A limitação no processamento de informações e alguns dos vieses causadores destas limitações conduzem à necessidade do apoio em algumas regras simplificadoras no processo de decisão. Os vieses, os atalhos heurísticos, as evidências e consequências destas são estudadas na área de Finanças comportamentais. Teoria do Perspetiva de Kahneman e Tversky (1979) Um marco importante na história das Finanças Comportamentais que lhe conferiu destaque e credibilidade foram os trabalhos de Kahneman e Tversky, quer pelas conclusões atingidas, quer pelo fato de Daniel Kahneman ter ganho o Prémio Nobel de Economia em 2002. Nas suas pesquisas evidenciaram a inconsistência sistemática entre o comportamento tido e o considerado racional. Baseando-se na noção da racionalidade limitada de Simon (1957) detetaram vieses e heurísticas capazes de interferir na capacidade de decisão e desenvolveram a Teoria do Perspetiva com o intuito de explicar Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 15 o modo como os agentes económicos efetuam as suas escolhas, inclusive quando estas não aparento ser racionais. No artigo “Judgment under uncertainty: Heuristics and biases” de 1974 os autores apresentam as regras de heurística. Tversky e Kahneman referem que os tomadores de decisão não avaliam eventos incertos através de teorias de probabilidade ou da teoria de maximização da utilidade, utilizando frequentemente atalhos mentais ou regras heurísticas que condicionam a capacidade das decisões tomadas conduzirem a soluções ótimas, o que provoca um enviesamento nos processos de escolha. Os indivíduos apresentam limitações no processamento e análise de informações ou situações cujo resultado ou consequências se mostram incertas, necessitando do apoio destas regras. O resultado das decisões baseadas nestas regras são apenas satisfatórias ou erradas ao invés de ótimas. Os agentes tendem a ignorar informações relevantes ou características importantes das diferentes opções, são muitas vezes incapazes de aplicar regras estatísticas simples, etc. São enumerados três heurísticas que influenciam o processo de tomada de decisão: representatividade, disponibilidade e ancoragem. O atalho de disponibilidade diz respeito, essencialmente, à influência que ideias presentes na memória ou eventos facilmente imagináveis e relembrados têm no processo de decisão. A importância associada às informações disponíveis é assim erroneamente atribuída, sendo a decisão baseada numa que parece ser decisiva. A representatividade consiste na busca de semelhanças entre eventos conhecidos e eventos novos, baseando a decisão no estereótipo criado pela extrapolação do futuro a partir do passado, mesmo quando a informação tida do evento não seja suficiente para essa associação. A terceira heurística apontada refere-se à ancoragem, onde é atribuída uma maior relevância à informação inicial (e.g. um dado valor), sendo esta tomada como referência para a realização de estimações. Essas estimações resultarão em valores muito próximos ao valor inicial tomado como referência, ainda que tal valor ou informação não sejam relevante à situação. Mental accounting é também uma heurística utilizada no processo de decisão, desenvolvida por Thaler (1985), onde se desenvolve uma separação mental da origem e Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 22 Os trabalhos acima expostos servem apenas de exemplo, uma vez que os mesmos correspondem unicamente a uma pequena amostra dos estudos levados a cabo sob esta perspetiva. Todavia, e tal como Poppe (2008) defende, os problemas associados à dívida deverão ser abordados e estudados sob uma perspetiva mais abrangente, não se limitando apenas à perspetiva económica. Acrescentando inclusive que o impacto de orientações sociais ou comportamentos psicológicos nas decisões financeiras deverão ser considerados aquando da elaboração de medidas corretivas e preventivas de situações de sobre-endividamento. O estudo do endividamento sob a perspetiva da economia conjunta com a psicologia, segundo Davies e Lea (1995), teve maior destaque com o trabalho de Katona em 1975, onde defende que as preferências de consumo são imprevisíveis e, consequentemente, não são simplesmente previsíveis de variáveis económicas. Para Katona o endividamento pode resultar de uma renda insuficiente para fazer face às despesas essenciais, de uma renda elevada proporcionadora e aliada a um forte desejo de gastar e por último, simplesmente, de uma falta de vontade em poupar. Neste contexto, surgiram trabalhos como Livingstone e Lunt (1992), Lea et al. (1993), entre outros. Endividamento sob uma perspetiva alternativa As famílias são diariamente confrontadas com uma série de decisões financeiras em busca da satisfação das suas necessidades. Sempre que estas conduzem a resultados enviesados como problemas financeiros (e.g. sobre-endividamento), são consideradas não ótimas sob a perspetiva das finanças neoclássicas. O principal pressuposto da teoria da procura é que os consumidores agem de forma racional, maximizando a sua utilidade, contudo esta tarefa mostra-se de difícil concretização e observação na realidade. Durkin (1975) adianta como possível justificação para a dificuldade dos consumidores em agirem racionalmente nas suas escolhas de compra ou crédito a falta de um perfeito entendimento dos custos reais dos empréstimos e das compras a crédito. Neste sentido e no âmbito de diferentes ciências socias, a literatura tem adotado uma abordagem alternativa estudando as diferentes decisões financeiras, como o endividamento, poupança ou investimento, considerando e explicando a influência de determinados fatores sociodemográficos, psicológicos ou comportamentais sobre a Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 23 capacidade do consumidor tomar tais decisões de acordo com os modelos teóricos que assentam no pressuposto da racionalidade. Ainda nenhum modelo que integre todos estes fatores foi desenvolvido, tendendo os estudos empíricos a analisar apenas o papel de alguns e diferentes fatores em cada estudo. A área dos investimentos é a mais estudada por esta nova abordagem, no entanto acreditase que a extrapolação de algumas das suas conclusões possam servir de apoio ao estudo de outras decisões financeiras como o endividamento. Posto isto, uma série de estudos associados às Finanças Comportamentais têm por objetivo o estudo do comportamento responsável pelo endividamento, considerando a influência de fatores comportamentais, sociais, demográficos, psicológicos ou emocionais. Diversos autores concordam com a influência de diferentes variáveis desde psicológicas, comportamentais ou sociais, para além das variáveis puramente económicas, associadas ao fenómeno de endividamento. Assim, nesta secção procederemos ao levantamento de alguns fatores relacionados com a dívida de particulares presentes em artigos científicos, dando maior enfase às variáveis psicológicas, comportamentais e sociodemográficas apontadas como causas da dívida. Kilborn (2005) defende que a área de Finanças Comportamentais permite uma maior sensibilidade e melhor compreensão da situação atual dos consumidores, admitindo, no entanto, que nem todas as conclusões ou desvios comportamentais documentados sejam indicados para explicar o sobre-endividamento. No seu artigo destaca o excesso de confiança, as heurísticas mentais e o desconto hiperbólico, extrapolando algumas das conclusões empíricas inerentes a estes para o estudo do comportamento que conduz ao endividamento. o Excesso de confiança De acordo com o autor, resultados empíricos de diversas pesquisas, como Kahneman e Tversky (1996), comprovam a manifestação de excesso de confiança nos indivíduos de forma consistente e sistemática. Este viés conduz a uma análise e suscetibilidade incorreta do risco, com tendência para sobrevalorizar as informações disponíveis na memória, Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 24 subestimar os custos futuros e a sobrestimar os benefícios imediatos. No contexto do fenómeno de endividamento, o entendimento deste viés permite justificar a subestimação da probabilidade de incapacidade de cumprir as obrigações assumidas e o fascínio provocado pelos benefícios presentes em detrimentos dos custos futuros. Ou seja, como Meier e Sprenger (2007) afirma, esta tendência poderá conduzir ao consumo através da utilização de dívida, independentemente da sustentabilidade dos montantes de dívidas futuras. Os indivíduos tendem a subestimar a probabilidade de serem afetados por eventos negativos que possam colocar em causa a sua capacidade de cumprir os seus compromissos financeiros (Kilborn 2002; Meier e Sprenger 2007), e a sobrestimar a sua capacidade de gerir os seus recursos financeiros. Kilborn (2005) faz alusão a esta evidência, afirmando ainda que a mesma se observa em indivíduos de todos os status sociais, inclusive nos que conhecem a real probabilidade estatística do evento negativo. Este efeito é acentuado pela ilusão de que o controlo sobre o próprio comportamento aumentará a sua capacidade de evitar acontecimentos negativos. Assim, dada a complexidade do cálculo de juros e algumas extravagâncias do orçamento familiar, é facilmente visualizável o modo como o excesso de confiança seduziu os consumidores para uma posição de fragilidade financeira (Kilborn, 2005). o Heurísticas mentais De acordo com alguns atalhos mentais, como a disponibilidade ou representatividade, os indivíduos tendem a sobrestimar o risco de eventos futuros, essencialmente, negativos, se estes são mais recentes, frequentes, facilmente lembrados ou visualizáveis. Isto é, se um indivíduo presenciou recentemente um evento catastrófico ou experimentou um evento negativo, atribuirá uma maior probabilidade à ocorrência do mesmo. O contrário também se poderá observar, isto é, se os eventos são pouco frequentes ou os fatores subjacentes não são relevantes, haverá uma tendência para a subestimação da probabilidade de ocorrência de eventos semelhantes. Os eventos que conduzem a um sobre-endividamento, para a maioria dos indivíduos, não são nem figurativos nem frequentes, pelo que estes subestimam o risco de eles próprios Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 25 enfrentarem este problema. Compreensivelmente, um indivíduo que não tenha vivenciado uma crise financeira ou outro distress financeiro, ainda que seja possuidor de dados probabilísticos relativamente às taxas de incumprimento ou níveis de solvência, estas perdem impacto pela sua natureza impessoal. Assim, os riscos subjacentes a pequenos empréstimos incrementais, por exemplo, através do uso de cartões de crédito, são subestimados, originando problemas financeiros consideráveis. O viés de excesso de confiança poderá exacerbar o efeito dos atalhos heurísticos, ou ainda contrariar negativamente os mesmos, afetando inclusive aqueles que vivenciaram uma crise financeira, conduzindo-os à subestimação do risco de eventos negativos futuros, semelhantes aos passados. o Desconto hiperbólico e força de vontade limitada Vários autores evidenciaram a sobrevalorização dos benefícios e custos imediatos e a subvalorização dos custos e benefícios futuros, sendo maior a valorização dos benefícios imediatos e maior a subvalorização dos custos futuros. O autor destaca ainda a evidência de um “desconto hiperbólico” na subvalorização dos custos futuros, sendo esta subvalorização cada vez mais forte, comparativamente à observada ao nível dos benefícios futuros, à medida que estes, os custos e benefícios, se movem para o futuro. Assim, ainda que no presente um custo seja superior ao benefício, quando estes se estendem para o futuro, o desconto hiperbólico induz a inversão da perceção do valor futuro descontado do benefício e do custo, tornando a decisão final um risco de longo prazo. A força de vontade limitada conduz ao abandono da renúncia de atividades de risco, uma vez que os benefícios imediatos superam os riscos futuros e distantes da atividade, ainda que os mesmos sejam reconhecidos. O autor realiza a extrapolação destas conclusões, explicando a propensão dos indivíduos ao endividamento e justificando a sobrevalorização atribuída aos benefícios presentes, que no contexto se apresenta como o poder de comprar presente, e a subvalorização dos custos futuros, isto é, de poder pagar mais tarde, proporcionados, por exemplo pelo crédito. Assim, ainda que os potenciais custos inerentes à contração de dívida excedam a renda futura certa ou os benefícios atuais, o desconto hiperbólico distorce o processo de Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 26 decisão favorecendo a contração de dívida. Isto é, o benefício presente de possuir um dado bem de imediato supera o benefício futuro descontado de obter esse mesmo bem no futuro sem a contração da dívida e a sobrestimação do custo atual de renunciar ao consumo presente, poderá superar o custo futuro descontado ou o risco futuro descontado da incapacidade de reembolsar o empréstimo. Anderloni e Vandone (2010) procedem ao levantamento de alguns estudos da área de Finanças Comportamentais reformulando algumas conclusões pertinentes. Destacam o excesso de confiança, a impulsividade no consumo, a comparação social e a miopia relativamente às implicações a longo prazo das decisões tomadas, como fatores responsáveis pelo comportamento que estimula o endividamento. Segundo estes autores, os níveis de endividamento experimentados são justificados, geralmente, pelos indivíduos que se encontram nesta situação financeira, como consequência de fatores externos que provocam a diminuição do rendimento esperado, ignorando o impacto da qualidade e implicações da sua gestão e decisões financeiras, bem como a presença de determinados fatores psicológicos e respetivas consequências. Muitos dos desvios comportamentais mantêm-se, ainda que os indivíduos reconheçam os riscos que enfrentam. Fazem ainda alusão ao nível de literacia financeira, constatando que um baixo nível de literacia é muitas vezes apontado como uma das causas do sobre-endividamento, apresentando, no entanto, um argumento bastante pertinente de Willis (2008b), em que um elevado nível de literacia é apontado como potencial condutor ao viés de excesso de confiança e consequentemente a um endividamento menos racional. Kösters et al. (2004 apud Anderloni e Vandone 2011) mostram, com recurso a uma análise comparativa entre cincos países distintos, as causas do endividamento mais citadas pelos entrevistados. O desemprego foi a principal causa apontada na França por 42% dos inquiridos, na Alemanha por 38% e na Bélgica por 19%. Nos Estados Unidos, o uso do cartão de crédito foi a principal causa citada (63%). A má gestão orçamental é também citada como uma causa importante, sendo inclusive a mais citada por 26% dos entrevistados na Áustria. Importantes evidências empíricas da influência de fatores de personalidade e atitudes sobre as decisões de financiamento de dívida têm sido oferecidas pela literatura na área da psicologia. Cosma e Pattarin (2010) investigam a importância e relação destes fatores Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 27 no recurso ao crédito, analisando os resultados de uma pesquisa sobre este recurso, realizado a uma ampla amostra de famílias italianas. Segundo estes, os fatores psicológicos influenciam a tomada de decisões e a atitude face à dívida está significativamente relacionada com as motivações para o uso de crédito e para a preferência desta forma de financiamento. McCarthy (2011) investiga em que medida características comportamentais, como a capacidade de autocontrolo, planeamento e perseverança, são responsáveis pela experiência de dificuldades financeiras. Para tal, a autora utiliza uma pesquisa nacional representativa da capacidade e experiência financeira, que se destina ao estudo dos fatores subjacentes à assunção de problemas financeiros no Reino Unido e Irlanda. Os resultados mostram que embora as variáveis demográficas e económicas sejam determinantes importantes, as características comportamentais, como capacidade de autocontrolo, planeamento e paciência, são também significativas. Os fatores comportamentais apresentam um impacto na incidência de dificuldades financeiras superior ao da literacia ou educação financeira, a impulsividade e a propensão de experimentar dificuldades financeiras estão positivamente relacionadas, independentemente do grau de literacia ou educação financeira e as pessoas mais impacientes ou desorganizadas são também mais propensas a dificuldades financeiras. Ameriks et al. (2003), utilizando os dados de um survey realizado a indivíduos dos Estados Unidos, examina a influência que as atitudes e skills exercem na propensão das famílias em planear, considerando que as diferenças na propensão de planear influenciam a acumulação de riqueza. Estes evidenciaram que os indivíduos com uma elevada propensão para planear, consequentemente dedicam mais tempo ao planeamento, ao desenvolvimento de planos financeiros, à poupança e acumulação de riqueza comparativamente aos que apresentam uma menor propensão ao planeamento. Os autores argumentam que as evidências encontradas são consistentes com as conclusões da psicologia, no que diz respeito ao impacto positivo do planeamento no alcance de determinado objetivo. Livingstone e Lunt (1992) examinam os fatores sociais, económicos e psicológicos relacionados com a dívida no Reino Unido, usando dados de uma pesquisa personalizada, Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 28 que conta com uma amostra de apenas 279 respondentes, residentes em Oxford e arredores, durante Setembro de 1989. Através da análise da função discriminante e da análise de regressão múltipla, os autores exploram os fatores que distinguem os devedores dos não devedores, a quantidade de dívida assumida e o montante da mesma que é reembolsado. Estes concluem que fatores sociodemográficos desempenham um papel de menor importância na dívida e reembolso, enquanto fatores comportamentais como a atitude face à dívida (pro ou anti dívida ou a atribuição do rótulo de problemático ou não ao crédito, apesar de reconhecer a utilidade do crédito) são previsores importantes e significativos da dívida e reembolso. Assim, os indivíduos em dívida possuem uma atitude positiva face à mesma e atribuem a culpa pelos seus problemas financeiros ao sistema de crédito, nomeadamente à sua conveniência e aos seus limites elevados. Reconhecem e culpam, no entanto, fatores como a falta de autodisciplina, orçamento descuidado, prazer no consumo e falta de controlo, o que contrasta com as explicações, baseadas em infortúnios inesperados, atribuídas por parte dos que se encontram com problemas de dívida consideráveis. Os indivíduos que não se encontram em dívida justificam eventuais problemas financeiros, essencialmente, como resultado de exigências dos seus filhos. Uma variável importante e discriminativa mencionada no artigo é a estratégia de orçamentação, sendo que os endividados reportam o uso usual de uma estratégia mais flexível, enquanto aqueles que não se encontram em dívida preferem uma orçamentação fixa independentemente das circunstâncias. A flexibilidade parece conduzir em direção ao endividamento, ao invés da poupança, em consequência de uma maior perda de controlo sobre o orçamento. “Being in debt appears linked to sociopsychological participation in consumer culture more generally”. O consumo é visto como uma ferramenta através da qual os indivíduos expressam o seu valor e as suas relações sociais, sendo ainda uma preocupação e tema de interesse dentro do seu grupo social (Livingstone e Lunt, 1991). As variáveis responsáveis pela tomada de dívida e pelo montante assumido, segundo a literatura, poderão nem sempre ser as mesmas, por exemplo, a idade e o número de filhos são determinantes do endividamento, mas não do montante em dívida. Segundo Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 29 Livingstone e Lunt (1991) o rendimento disponível, ao contrário de algumas variáveis demográficas ou psicológicas, não determina a assunção de dívida, afetando no entanto o seu montante. O número de dívidas está positivamente correlacionado com o aumento do montante em dívida, não se podendo porém extrapolar esta conclusão quando são relacionados apenas o número de dívidas e o montante em dívida, dadas as suas possíveis combinações - muitas e pequenas dívidas, uma dívida suficientemente elevada, etc. As atitudes pró ou anti crédito são bons indicadores do montante de dívida. O locus de controlo externo é também observado na maioria dos devedores. A hipótese de comparação social foi, no entanto, negada pelos inquiridos. Os mais endividados parecem sentir menos prazer no consumo, sendo presumido pelos autores uma consequência dos problemas e preocupações proporcionais, alterando-se as práticas económicas. Nenhuma evidência foi encontrada relativamente a um menor autocontrolo ou assunção de mais riscos por parte dos endividados, no entanto na distinção entre devedores e não devedores foram consideradas boas variáveis discriminativas a falta de auto controlo e o prazer pelo consumo. Desta forma, acredita-se que estas variáveis ajudam a entender porque os indivíduos entram em dívida, mas não justifica porque ficam mais endividados do que outros. No que respeita a fatores sociodemográficos, muitos autores estudam a influência de determinados fatores como género, estado civil e idade. Tang (1992) observou que os homens dão mais importância ao dinheiro do que as mulheres. Rudmin (1994) sugere que os homens associam poder ao dinheiro, sendo esta associação historicamente limitada ao sexo masculino. Relativamente ao estado civil autores como Sung (1996) e Faff et al. (2004) concluem que divorciados são menos tolerantes ao risco do que os viúvos, que por sua vez são menos do que os casados, e estes menos do que os solteiros. De acordo com o exposto, os solteiros poderão ser mais propensos ao endividamento. Ponchio (2006) identificou a relação entre género, idade e escolaridade, ficando evidenciado no seu estudo que as mulheres são mais favoráveis à atitude de endividamento do que homens, pessoas mais velhas apresentam menor probabilidade de assumir dívidas e quanto menor o grau de instrução do indivíduo, maior é sua tendência de assumir crédito. Berthoud e Kempson (1990 apud Livingstone e Lunt 1992) e Livingstone e Lunt (1991) observaram que os devedores eram maioritariamente jovens, no entanto, estes últimos Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 30 afirmam que este fato não se deve à procura característica da fase do ciclo de vida em que se encontram, sendo antes um reflexo das diferenças de atitude face à dívida entre gerações, apesar do usufruo de rendimentos semelhantes. Berthoud e Kempson (1990, apud Livingstone and Lunt 1992) realizou entrevistas a cerca de duas mil famílias britânicas em 1989. Concluem que os mais jovens são mais propensos ao crédito e a problemas com a dívida, achado consistente com estudos realizados ao nível das Finanças Comportamentais. Outra conclusão interessante foi a forte ligação positivamente correlacionada entre a atitude favorável ao crédito e o número de compromissos de crédito assumidos. Furnham (1984) identificou uma maior preocupação e contensão no uso do dinheiro em pessoas mais velhas. No seu estudo Livingstone e Lunt, contrariamente ao observado por Hartropp et al. (1987 apud Livingstone e Lunt 1992), os endividados não possuem mais filhos do que os nãoendividados, adiantando como possíveis justificações a necessidade das famílias com mais dependentes adotarem estratégias mais conservadoras e de orçamento fixo, dada as suas constantes necessidades. Hartropp et al. (1987 apud Livingstone and Lunt 1992) afirma que os estudos empíricos realizados no Reino Unido contestam a chamada “cultura da dívida” e o estereótipo de irresponsável atribuído aos indivíduos endividados, demonstrando que estes se sentem moralmente obrigados a saldar as sua dívidas, embora não o possam fazer devido a problemas de cariz externo, além disso os indivíduos são geralmente os mais jovens ou os com filhos dependentes. Nofsinger (2012) estuda as mudanças culturais e sociais, o comportamento das famílias durante os ciclos económicos de boom e bust e o papel dos consumidores após a crise, considerando a influência de limitações cognitivas e viés psicológico, especialmente na recente crise financeira. Durante os ciclos de expansão, as famílias otimistas e confiantes tendem a exacerbar o crescimento económico, assumindo mais dívida e reduzindo a taxa de poupança. Contrariamente, durante o bust, as famílias, afetadas por um pessimismo característico, pagam as suas dívidas e aumentam as suas poupanças, tornando ainda mais lenta a economia. Estas conclusões estão em concordância com Katona (1975). De acordo com o autor, durante o recente boom, credores e organizações, procuraram explorar as limitações e vieses cognitivos dos seus clientes, desenhando produtos e estratégias de marketing capazes de aproveitar essas mesmas limitações. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 31 Os indivíduos apresentam dificuldade em processar um conjunto vasto ou complexo de informações, focando-se e baseando a sua decisão em apenas algumas particularidades que se destacam. O número de características destacadas diminui quando as decisões são de elevada complexidade ou emocionalmente desgastantes. Outra limitação apresentada é a subestimação sistemática dos custos futuros. O autor reúne uma série de argumentos, apontando como causas desta limitação, o viés de crescimento exponencial em que se dá uma linearização das funções que incluem termos exponenciais, a forma como as questões são formuladas, a miopia pela qual a atenção limitada dos indivíduos é focada no curto-prazo, dando-se menos atenção ao longo-prazo, e o otimismo sobre futuros eventos. Assim, a combinação destas limitações, limita a compreensão e análise de todas as variáveis que constituem o contrato hipotecário, especificamente desenvolvidas pelos seus autores para esse fim, dificultando a tomada da melhor decisão. Nofsinger destaca o viés de extrapolação, uma aplicação da heurística da representatividade, percetível nas famílias que tendem a extrapolar eventos passados conhecidos e semelhantes como a melhor previsão do futuro desconhecido, entrando e saindo tarde de um investimento. Mudanças culturais e sociais são também estudadas e apresentadas como possíveis causas para os elevados níveis de dívida assumidos. Uma evidência interessante relativa à influência da cultura na decisão de consumo e poupança é identificada por Jain e Joy (1997). Estes autores destacam e confirmam a influência da cultura Hindu na atitude face ao risco. De acordo com esta cultura os indivíduos são instruídos a adotar uma visão de longo prazo refletindo sempre sobre o futuro da sua família e descendentes, tornando-os mais tolerantes ao risco. A crescente aceitação do uso de dívida por parte da sociedade, induzida essencialmente pelas gerações nascidas após a Grande Depressão e pela promoção levada a cabo pelo governo, conduziu a uma maior utilização da mesma como meio de alcançar o consumo desejado (Buckley e Brinig 1998 apud Nofsinger 2012). O consumo tornou-se uma atividade de lazer, impulsionador de autoestima, os bens duráveis definem os valores Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 38 Quadro 1 – Evidência empírica sobre vieses e heurísticas (continuação) Questionário / análise descritiva n.a n.a n.a Lea et al. (1995) Atitude face à dívida Comparação social Má gestão orçamental Locus externo de controlo Horizontes temporais Estudo de caso EUA 5 Banco de investimentos UBS, Seguradora AIG, Standard & Poors, SEC e Narvik (investidor) Shefrin (2010) Excesso de confiança Conservadorismo Viés group think Viés confirmation Otimismo Revisão de literatura n.a n.a n.a Kilborn (2005) Excesso de confiança Heurísticas mentais Desconto hiperbólico n.a n.a n.a Anderloni e Vandone (2010) Excesso de confiança Impulsividade no consumo Comparação social Miopia n.a n.a n.a Nofsinger (2012) Mudanças culturais e sociais Limitações cognitivas Viés de crescimento exponencial Miopia Otimismo Heurística da representatividade Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 39 4. Metodologia adotada Ao longo da análise procederemos à identificação e investigação do papel de diferentes aspetos comportamentais no endividamento, e/ou sobre-endividamento, observados em diversos estudos da literatura apresentada. Este estudo é essencialmente de carácter exploratório, dada as alternativas metodológicas existentes, as limitações de tempo e recursos, a dificuldade e carência de representatividade obtida por meio de outros instrumentos e técnicas de amostragem. Neste sentido, e tendo em consideração a ausência de dados estatísticos regulares e desagregados sobre o endividamento e sobre-endividamento dos particulares em Portugal, recorreu-se à análise de três survey’s. Estes incidem sobre diferentes amostras de uma mesma população (i.e. particulares), permitindo a caracterização do fenómeno de endividamento, a evidência de alguns fatores sociodemográficos e comportamentais e a análise dos efeitos dos fatores identificados sobre o fenómeno de endividamento. O primeiro questionário foi desenvolvido no Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e integrado no quadro do Observatório do Endividamento dos Consumidores (OEC). A sua amostra é composta por 2120 consumidores que recorreram ao apoio da DECO para mediação da renegociação das dívidas com entidades de crédito entre 2005 e 2008. O segundo questionário, divulgado pelo Banco de Portugal, foi realizado a 2000 indivíduos com idade superior ou igual a 16 anos, em fevereiro e março de 2010. O último questionário surgiu da necessidade de realizamos um estudo adicional próprio, com o intuito de ultrapassar a indisponibilidade de dados para manuseamento e análise da relação ou efeito de fatores socioeconómicos e comportamentais sobre o endividamento e a capacidade de manter os compromissos financeiros assumidos. A amostra é constituída por 101 famílias ou indivíduos que cumprem os requisitos mínimos para a aquisição de crédito ou de qualquer outro tipo de dívida, ainda que efetivamente não as detenham. A análise desenvolvida nesta secção resultará da interpretação dos dados por meio das conclusões obtidas na pesquisa bibliográfica. Isto é, começaremos por destacar algumas questões e conclusões dos inquéritos, procurando identificar e analisar características Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 40 comportamentais e socioeconómicas com o apoio dos fundamentos teóricos descritos na literatura. Os dados fornecidos, por meio dos instrumentos utilizados, apresentam uma série de limitações, pelo que as conclusões aqui expostas não poderão ser extrapoladas para a população portuguesa. Servem, no entanto, o propósito de confirmar a evidência de uma série de comportamentos estudados e apresentados durante a revisão da literatura desenvolvida. 4.1. Inquérito OEC-DECO O primeiro instrumento utilizado diz respeito ao questionário realizado no âmbito de um relatório de investigação, designado por “Um perfil dos sobreendividados em Portugal”, desenvolvido no Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, integrado no quadro do Observatório do Endividamento dos Consumidores (OEC), em Dezembro de 2008. Este relatório tem assim por base a análise de 2120 questionários OECDECO, realizados a alguns consumidores que recorreram ao apoio da DECO para mediação da renegociação das dívidas com entidades de crédito entre 2005 e 2008. O objetivo deste consiste essencialmente no desenvolvimento do perfil dos sobreendividados portugueses. Este inquérito abrange uma série de tópicos que permitem a caracterização do fenómeno de sobre-endividamento e dos indivíduos sobreendividados, facilitando informações especialmente úteis ao propósito deste trabalho, nomeadamente informações demográficas, socioeconómicas e comportamentais. Esta vertente permite a análise da relação de alguns fatores chave e a ocorrência de dificuldades financeiras entre os entrevistados. O relatório mencionado fornece ainda informações acerca da estrutura do questionário. Sabe-se assim que o questionário assenta em questões de escolha múltipla simples e compostas (técnico e inquirido) e de resposta numérica, contando ainda com campos abertos para observações pertinentes ao entendimento dos processos, por parte dos técnicos. Relativamente à estrutura é fornecido o seguinte quadro: Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 41 Quadro 2 - Conteúdos dos questionários OEC-DECO Secção Conteúdos Nº Questões Identificação Delegação; N.º de processo; Data de preenchimento 4 Características Sociodemográficas Sexo; Idade; Estado civil, Composição do agregado familiar, Residência, Escolaridade, Profissão; Situação na profissão 17 Características financeiras Rendimento; Dívidas de crédito contraídas; Dívidas de crédito em atraso; Outras dívidas em atraso 11 Motivações do consumidor (perceção do inquirido e técnico) Recurso ao crédito; Entidades de crédito; Incumprimento 5 Contatos com a entidade de crédito Tentativa de renegociação das dívidas; Resultado do pedido de renegociação das dívidas; Cálculo das dívidas em atraso 4 Gestão das dificuldades financeiras Redes formais e informais de solidariedade 3 Consequências do sobreendividamento Exclusão de sobreendividados do mercado de trabalho 2 Perceção do risco de crédito Intenção de recorrer ao crédito num futuro próximo 1 Fonte: Relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (Frade et al., 2008) Algumas limitações apontadas prendem-se com o período em estudo e a dimensão da amostra, não sendo possível a extrapolação dos resultados para outros intervalos de tempo ou para a população. São ainda mencionadas algumas omissões de preenchimento, nomeadamente no que respeita ao número e montante das dívidas de não-crédito. Há também um alerta para a dispersão entre o número de processos tratados pela DECO e o número de questionários recebidos pela OEC, que apresenta valores distintos nos diferentes anos em estudo, sendo especialmente notória nos dois últimos anos em estudo. Tendo em consideração o objetivo a que este trabalho se propõe, bem como o tempo e alternativas de análise, o recurso a este relatório parece-nos ser uma das melhores Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 42 alternativas, independentemente das suas limitações, sendo portanto utilizado neste estudo.  Caracterização dos níveis de endividamento dos inquiridos Começaremos por uma breve caracterização do nível de endividamento e incumprimento observados na amostra. Cerca de 40% dos inquiridos possui um rendimento mensal do agregado familiar entre 501 a 1000 euros e apenas 10% possui rendimentos superiores a 1501 euros. Mais de 60% da amostra encontra-se multiendividada. Os tipos de crédito detidos em maior escala são o crédito pessoal e à habitação. Metade da amostra tem um a três créditos em atraso e cerca de 30% não possui dívidas de crédito em atraso, podendo o seu recurso à DECO ser justificado por outros tipos de dívida ou por uma situação de risco e não de incumprimento efetivo. Os créditos com maior incidência de atraso são, por ordem decrescente, crédito pessoal, crédito à habitação, crédito para aquisição de automóvel, cartão de crédito e outros. Na tabela 1 são sintetizados os dados acima mencionados, no entanto, para uma análise mais completa poderão ser consultados alguns dados complementares no anexo I. Tabela 1 – Dados para caracterização do endividamento Variáveis Alternativas Frequência relativa (%) Rendimento mensal atual do agregado familiar (€) <500 30,1 501 a 1000 39,3 1001 a 1500 20,6 > 1501 10 Nº de créditos contraídos (créditos ao consumo ou à habitação) 0 19,1 1 18,3 + 2 62,6 Tipo de crédito Crédito à habitação 43,5 Crédito Pessoal 52 Outros 4,5 Nº de créditos em atraso 0 33,6 1 a 3 54,3 + 4 12,1 Fonte: Relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (Frade et al., 2008). Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 43  Caracterização sociodemográfica da amostra Tendo por base alguns dos dados sociodemográficos fornecidos no inquérito OEC-DECO e apresentados na tabela 2, apresentaremos de seguida algumas conclusões. Importa salientar que a amostra é constituída por endividados e/ou sobre endividados, uma vez que todas as conclusões retidas, na análise dos dados apresentados, tiveram por base esse fato. Desta forma, verifica-se uma maior incidência do fenómeno de sobreendividamento nas zonas urbanas, nomeadamente, Porto e Lisboa, representando 70,9% da amostra. Dos 90,3% de consumidores que contactaram individualmente a DECO, 55% são do género feminino. A maioria dos endividados ou sobreendividados encontram-se na faixa etária dos 30 aos 39 anos, representando 31,6% dos respondentes. A partir desta faixa, a percentagem de endividados, diminui com a idade. Segundo os autores da Teoria da Perspetiva (i.e. Kahneman e Tversky, 1979), esta permite a identificação da relação entre o risco e o consumo, na medida em que maior propensão ao endividamento significa uma maior propensão ao risco, uma vez que o recurso ao endividamento coloca uma importante parcela do orçamento em risco, na expetativa de um determinado resultado. Sob esta perspetiva, a evidência da diminuição do nível de endividamento com a evolução da idade é consistente com o aumento do nível de aversão ao risco à medida que se evolui na faixa etária. Estes resultados encontra-se em concordância com alguns dos estudos anteriores, como por exemplo, Furnham (1984) que identificou uma maior preocupação e contenção no uso do dinheiro em pessoas mais velhas e Ponchio (2006) que concluiu que as mulheres são mais favoráveis à atitude de endividamento do que os homens e que as pessoas mais velhas apresentam menor probabilidade de assumir dívidas. Cerca de 19,8% dos entrevistados não possuem dependentes, 70% possui um ou dois filhos, sendo que apenas 10,2% possuem mais de dois filhos. Hartropp et al. (1987 apud Livingstone and Lunt, 1992) identifica os endividados como os indivíduos geralmente os mais jovens ou com filhos dependentes. Contrariamente ao verificado em algumas pesquisas empíricas apresentadas durante a revisão da literatura (como, por exemplo, Sung, 1996), 55% dos inquiridos que recorreram à DECO são casados/união de facto e apenas 17,8% dos entrevistados são solteiros. Cerca de 62,6% exerce profissão, sendo Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 44 apenas 20,2% os que se encontram desempregados. No entanto, 44,9% apontaram como principal razão de incumprimento o desemprego, podendo esta diferença ser explicada hipoteticamente por uma mudança relativamente recente da situação profissional de alguns dos inquiridos. A tabela 2 inclui alguns dos dados 4 sociodemográficos da amostra, que se mostraram fundamentais para a sua caraterização. Tabela 2 – Dados sociodemográficos Características sociodemográficas Variáveis Alternativas Frequência relativa (%) Distribuição geográfica Lisboa 53,1 Porto5 17,8 Coimbra 11,5 Outros6 17,6 Género7 F 55 M 45 Grupo etário <29 12,9 30 – 39 31,6 40 – 49 28,9 50 – 59 18,7 60 – 69 7,6 > 70 0,4 Estado civil Solteiro 17,8 Casado/União de facto 55 Divorciado/Separado/Viúvo 27,2 Nº de filhos 0 19,8 + 1 80,2 Fonte: Relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (Frade et al., 2008) 4 Para uma análise mais completa, os dados complementares podem ser consultados no anexo I. 5 A dispersão entre o número de processos abertos nas delegações de Lisboa e do Porto e o número de casos estudados condiciona em parte a relevância desta distribuição. No entanto, se a totalidade dos processos tivesse sido considerada, o peso destas delegações seria acentuado. 6 Outros: Viana do castelo (26 casos = 1,2%), Santarém (167 casos = 7,9%), Faro (137 casos = 6,5%) e Évora (43 casos = 2%). 7 Tem por base os 90,3% de consumidores que contactaram individualmente a DECO (de um total de 2078 respondentes). Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 45  Questões sobre características comportamentais Este inquérito inclui algumas questões que permitem a análise de comportamentos e motivações relacionadas com o financial distress sentido pelos inquiridos. Assim, pretende-se estudar a evidência de alguns limitações ou heurísticas nos sobreendividados, nomeadamente racionalidade limitada, excesso de confiança, autocontrolo e heurística de representatividade e disponibilidade. a) Racionalidade limitada Segundo Herbert Simon (1978), dada a racionalidade limitada no processo de decisão, não são consideradas todas as alternativas possíveis nem o cálculo das consequências de todas essas alternativas. A combinação desta realidade com a existência de incertezas, provenientes de eventos exógenos, impossibilita a estimação dos custos marginais e das rendibilidades de todas as alternativas, sendo a alternativa escolhida apenas aquela que se mostre mais "satisfatória". Os inquiridos foram questionados sobre a razão pela qual escolheram a entidade de crédito. Com base na informação fornecida classificamos como escolha racional aqueles que apontaram como razão de escolha da entidade de crédito a que oferecia uma “Melhor proposta de crédito” e o caso contrário classificamos como sendo aqueles que indicaram como razão a “Publicidade ao crédito”, “Entidade que oferecia crédito na loja de aquisição do bem”, “Indicação de familiares e amigos”, “Proximidade da residência/trabalho”. Como é possível observar na tabela 3, cerca de 23,6% da amostra evidenciou uma escolha racional. Os restantes sobreendividados escolheram a entidade de crédito sem proceder à pesquisa e análise das diferentes entidades de crédito, no sentido de poder optar por aquela que mais se adaptava às suas necessidades e como tal que permitiria maximizar o seu bem-estar. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 46 Tabela 3 – Razão para a escolha da entidade de crédito (Racionalidade limitada) Variáveis Alternativas Frequência relativa (%) Razão base para a escolha da entidade de crédito Publicidade ao crédito 46,1 Entidade que oferecia crédito na loja de aquisição do bem 28,2 Melhor proposta de crédito 23,6 Indicação de familiares e amigos 10,3 Proximidade da residência/trabalho 5,3 Outra 21,9 Fonte: Relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (Frade et al., 2008). Importa ainda salientar alguns motivos de carácter emocional identificados quer pelos endividados, quer pelos técnicos para o recurso ao crédito. Motivos como “compensar frustrações”, “manter/melhorar estilos de vida”, “facilidade em obter crédito” e “publicidade ao crédito” são então apontados, ainda que em menor escala. Tabela 4 – Razões que estão na base da decisão de endividamento Respostas Inquirido Técnico Razão para o endividamento8 Dificuldades financeiras no momento 57,2 28,1 Acesso a bens essenciais 45,4 31,4 Pagar outras dívidas 22,5 45,2 Ajudar familiar/amigo 14,9 6,5 Facilidade em obter crédito 10,9 6,9 Manter/melhorara estilo de vida 1,7 8,7 Publicidade ao crédito 1,7 3,1 Compensar frustrações 0,2 2,6 Não especificado 0,6 1,5 Outra 2,1 8,9 Fonte: Relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (Frade et al., 2008). b) Excesso de confiança De acordo com diversos estudos empíricos este viés manifesta-se de forma consistente e sistemática nos indivíduos (Barber e Odean, 2000, por exemplo). Atendendo às 8 Foi requerida a opinião dos inquiridos e técnicos. Esta questão admite ainda escolha múltipla. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 47 conclusões apresentadas por Kilborn (2005), este viés permite compreender a subestimação da probabilidade de incapacidade de cumprir as obrigações assumidas e o fascínio provocado pelos benefícios presentes em detrimentos dos custos futuros, dada a incorreta análise do risco provocado por este viés. Este viés permite assim compreender o porquê de alguns indivíduos tomarem a decisão de se endividarem e em que medida, colocando-se, inclusive, em alguns casos numa situação frágil e propensa ao fenómeno do sobre-endividamento. De acordo com Block-Lieb e Janger (2006, apud Nofsinger, 2012), este viés conduz a uma sobrestimação da ocorrência de eventos positivos e subestimação dos eventos negativos, podendo assim levar os tomadores de crédito a subestimar os riscos associados às incertezas, essencialmente quando pensam ter controlo sobre esses eventos. Durante a fase de expansão da economia observou-se, a nível agregado, um aumento dos créditos concedidos, seguido por um elevado sobre-endividamento na fase de recessão. A fase de expansão seguida pela recessão traduz uma série de acontecimentos adversos, como o aumento das taxas de desemprego, que claramente foram subvalorizados, dado o elevado sobre-endividamento durante esta fase. Para testar a presença de excesso de confiança nos sobreendividados foi considerada a informação fornecida pelos técnicos e inquiridos no que respeita à razão de incumprimento. Como é possível verificar no anexo I, as quatro razões mais apontadas pelos inquiridos foi o desemprego (44,9%), problemas de saúde (23%), agravamento dos custos de crédito (22,6%) e gestão deficiente do orçamento familiar (21,1%). Segundo a opinião dos técnicos o desemprego foi a razão principal (43%), seguida pela gestão deficiente do orçamento familiar (34,4%) e problemas de saúde (22,6%). O agravamento dos custos de crédito é apontado apenas em 7,3% dos casos, contrariamente à opinião dos inquiridos onde aparece em 22,6% dos casos. Houve claramente uma subestimação da ocorrência dos eventos adversos como problemas de saúde e desemprego, tendo ainda em conta que cerca de 88,9% dos Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 54 entre os bancos em que é cliente, ignorando em ambos os casos as taxas praticadas no mercado. Sabemos ainda, pelos dados fornecidos na terceira questão que apenas 22% dos que possuem empréstimos sabem o valor exato das respetivas taxas de juro, sendo que os restantes conhecem esse valor de forma aproximada, informam-se apenas no momento de contração ou desconhecem totalmente qual o valor dessas taxas de juro. A desconsideração desta informação ou a insensibilidade face às taxas de juro poderá ser explicada pela evidência de racionalidade limitada por parte dos inquiridos. Relativamente à última questão acima apresentada, é sabido que 41% escolheu o seu crédito à habitação tendo por base o valor da prestação, 28% recorreu ao seu banco usual e apenas 4% considerou a taxa anual efetiva. A mesma questão foi dirigida aos que possuíam outros créditos, nomeadamente ao consumo, para além do crédito à habitação, dos cartões de crédito ou dos descobertos bancários. As razões mais apontadas são o valor da prestação, o recurso ao banco usual e comodidade de obtenção do empréstimo, com 27%, 26% e 23%, respetivamente. A taxa de juro com todos os encargos (TAEG) é apenas considerada em 5% dos casos. Heurística de Ancoragem De acordo com Tversky e Kahneman (1974), os indivíduos confiam e utilizam algumas heurísticas que reduzem a complexidade inerente a avaliações de probabilidades ou a previsões de valores, de modo a facilitar a tomada de decisão. No entanto, estas conduzem, por vezes, a erros severos e sistemáticos. Para Bazerman (2004), esta heurística pode ser definida como uma simplificação da realidade complexa, onde as estimativas são efetuadas com base num valor inicial, incorrendo geralmente em ajustes insuficientes do mesmo na estimativa do valor final. Isto é, para a realização de estimativas é dada uma elevada importância à informação inicial ou valor inicial, podendo este ter resultado da formulação do problema ou de uma computação parcial. Segundo Block-Lieb e Janger (2006, apud Nofsinger, 2012) esta heurística faz com que os indivíduos se preocupem apenas em se certificar que o valor da parcela em causa é suportável, efetuando os cálculos mínimos, não tomando consciência do custo do crédito. Assim os mesmos não procedem à comparação entre o custo do crédito e a opção de Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 55 utilizar os fundos de uma poupança, ou até mesmo a comparação entre diferentes ofertas de crédito. A questão do inquérito utilizada para a evidência deste fenómeno é a mesma apresentada anteriormente, isto é, “Qual a principal razão da escolha do seu crédito à habitação? Qual a principal razão da escolha do seu crédito?”. Tal como já havia sido verificado, a razão mais apontada na escolha quer do crédito à habitação, quer do crédito ao consumo, foi o valor da prestação. Apenas uma pequena percentagem considerou a Taxa Anual Efetiva e a Taxa Anual De Encargos Global, 4% e 5% nos créditos à habitação e ao consumo respetivamente, revelando a desconsideração de uma série de custos e prazos de pagamento associados pela maioria da amostra. b) Autocontrolo (Impulsividade) Para Livingstone e Lunt (1991) o autocontrolo ajuda a entender porque os indivíduos entram em dívida, ainda que não justifique em que medida. No sentido de aferir o grau de impulsividade relativamente ao consumo é realizada a seguinte questão aos inquiridos. - “Tende a comprar coisas de forma impulsiva?” As opções de resposta variam entre “Sempre/Quase sempre”, “Às vezes”, “Nunca/Raramente” e “Não responde”. Esta questão é utilizada para medir o grau de autocontrolo dos indivíduos. Cerca de 23% dos entrevistados assumem ser pelo menos às vezes impulsivos. É ainda interessante ressaltar a seguinte informação fornecida no pelo relatório. 14% dos indivíduos recorrem de imediato ao crédito para comprar algo desejado às vezes. 65% preferem poupar para comprar algo sempre, sendo que 17% destes referem também que “às vezes” tendem a comprar de forma impulsiva e 11 por cento que “às vezes” recorrem de imediato ao crédito. Dada a natureza dos dados e impossibilidade de manuseamento dos mesmos, apenas é possível observar algum grau de impulsividade nos indivíduos, no entanto nenhuma Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 56 conclusão pode ser tirada relativamente à relação ou efeito da impulsividade sobre o endividamento. c) Excesso de confiança No inquérito é realizada uma série de questões com o objetivo de avaliar a compreensão dos entrevistados relativamente às características de diferentes produtos ou conceitos financeiros. Para medir o excesso de confiança da amostra considerou-se como proxy o número de respostas incorretas às questões sobre conhecimento financeiro, que evidência uma possível sobrevalorização dos próprios conhecimentos dada a possibilidade de responder “não sei”. Classificou-se como “excesso de confiança” quando o número de respostas corretas é inferior a 6 e o caso contrário quando o número de respostas corretas é igual a 6 ou 7. Apenas 16% da amostra respondeu corretamente a 6 ou 7 questões, verificando-se algum grau de excesso de confiança nos restantes. Gráfico 2 – Número de respostas corretas às questões de conhecimento financeiro Fonte: Relatório do inquérito à literacia financeira da população portuguesa A questão com maior taxa de erro foi: “O que é a EURIBOR?”. Apenas 9% dos entrevistados responderam corretamente e mais de metade (53%) errou esta questão. É interessante salientar que, embora a taxa de respostas corretas aumente com o nível de escolaridade, a percentagem de indivíduos que admite não saber a resposta diminui e os indivíduos que respondem incorretamente aumenta com o nível de escolaridade. Este fato 4% 9% 18% 28% 25% 13% 3% 1 resposta 2 respostas 3 respostas 4 respostas 5 respostas 6 respostas 7 respostas 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% NÚMERO DE RESPOSTAS CORRETAS Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 57 está em concordância com alguns estudos empíricos onde o aumento do nível de escolaridade encoraja o excesso de confiança. Gráfico 3 – O que é a Euribor? Fonte: Relatório do inquérito à literacia financeira da população portuguesa Os encargos com os empréstimos detidos pelos indivíduos consomem uma importante parcela do rendimento mensal, podendo inclusive gerar um cenário de fragilidade financeira perante eventos negativos que afetem, por exemplo, o rendimento ou o valor desses encargos. A assunção de uma taxa de esforço elevada poderá, em parte, evidenciar excesso de confiança e racionalidade limitada. De acordo com os dados anteriormente apresentados relativamente à taxa de esforço, 25% dos detentores de empréstimo admitem não conhecer o peso dos encargos no seu rendimento mensal ou confirmam o comprometimento de mais de metade do seu rendimento com esses encargos. Este comprometimento ou desinteresse, que os coloca numa posição vulnerável a eventos adversos, poderá expressar, ainda que hipoteticamente, o fenómeno descrito nesta subsecção. d) Present bias - Cartões de crédito (modo de pagamento) 1% 7% 8% 14% 17% 9% 20% 44% 57% 68% 72% 53% 79% 49% 35% 18% 11% 38% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Sem instrução primária Tem a instrução primária Tem o ensino básico Tem o ensino secundário Tem licenciatura completa ou mais Total O que é a Euribor? Resposta correta Resposta incorreta Não sabe/ Não responde Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 58 A utilização de cartão de crédito influencia e limita a racionalidade do indivíduo. Segundo Block-Lieb e Janger (2006, apud Nofsinger, 2012), o pagamento em dinheiro, ao contrário do pagamento com o cartão de crédito, torna tangível o limite de compra. O cartão de crédito causa uma dissonância cognitiva, uma vez que esse limite não é sentido de imediato. Este meio de pagamento apresenta-se de fácil utilização, além de possibilitar o fracionamento do pagamento da compra. Quando associado à desconsideração dos custos inerentes, a possibilidade de endividamento e consequentemente sobreendividamento aumenta consideravelmente. A partir da questão anteriormente apresentada na identificação dos “endividados”, relativa aos produtos financeiros detidos por todos os indivíduos da amostra que têm conta bancária, o cartão de crédito é o segundo produto mais apontado (32%). No sentido de compreender o risco assumido quer ao esquema e encargos adotado, quer à sua utilização para fazer face a despesas correntes, foram utilizadas as seguintes questões: - “Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito? Sabe o valor da taxa juro e outros encargos associados ao seu cartão de crédito?” - “Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito? Utiliza o cartão de crédito para pagamento de despesas correntes?” No que respeita ao esquema de pagamento utilizado e ao conhecimento da taxa de juro e outros encargos associados, 43% dos inquiridos pagam parcialmente, dos quais apenas 22% conhecem o valor dos encargos, 27% desconhece de todo este valor e 51% admite saber apenas por alto. O valor da taxa de juro e outros encargos é claramente mais significativa para os indivíduos que decidem pagar parcialmente. No entanto, de acordo com os dados fornecidos pelo inquérito, este valor é de maior conhecimento entre os que pagam a totalidade do saldo em dívida no fim do mês. Mais especificamente, dos 52% que pagam na totalidade, 31% conhece o referido valor. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 59 Gráfico 4 - Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito? Sabe o valor da taxa juro e outros encargos associados ao seu cartão de crédito? Fonte: Relatório do inquérito à literacia financeira da população portuguesa Relativamente à utilização do cartão de crédito especificamente para o pagamento de despesas correntes, 23% dos seus utilizadores efetuam esta operação frequentemente, 39% raramente e 37% respondem negativamente. Tendo em consideração o cruzamento entre o esquema de pagamento adotado e a utilização do cartão de crédito para o fim mencionado, sabe-se que dos indivíduos que optam pelo pagamento da dívida na totalidade, 25% utiliza frequentemente este meio para o pagamento das ditas despesas, 36% raramente e 37% não fazem esta utilização em específico do cartão. Dos indivíduos que pagam parcialmente uma menor percentagem de indivíduos utiliza frequentemente (23%) ou raramente (36%) e uma maior percentagem nega a utilização deste para o pagamento das despesas correntes (39%). 13% 22% 31% 26% 17% 51% 42% 45% 70% 27% 27% 29% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Não responde Vai pagando parcialmete Paga no mês seguinte, na totalidade Total “Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito? Sabe o valor da taxa juro e outros encargos associados ao seu cartão de crédito?” Sim, exatamente Sim, por alto Não sabe Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 60 Gráfico 5 - Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito? Utiliza o cartão de crédito para pagamento de despesas correntes? Fonte: Relatório do inquérito à literacia financeira da população portuguesa Em suma, quase um quarto (23%) dos indivíduos utiliza frequentemente este meio no pagamento de despesas correntes e apenas 22% dos indivíduos que pagam parcialmente a dívida do cartão sabem o valor exato das taxas de juro e outros encargos. Tal comprova a facilidade com que este meio é utilizado e mostra uma certa desconsideração quanto aos custos. A utilização deste meio evidencia o present bias, isto é, a valorização do presente face aos planos futuros. Este permite o adiamento do pagamento e o usufruto imediato dos benefícios, possibilitando a satisfação das necessidades dos seus utilizadores. As limitações ao poder de compra, a inibição e consciencialização da compra e a frustração são adiadas por este meio, criando um ambiente fomentador ao endividamento. 4.3. Inquérito – Endividamento & Financial distress A análise dos inquéritos anteriores permitiu a evidência de diferentes vieses e heurísticas mencionadas na teoria. Surgiu, no entanto, a necessidade de realizamos um estudo adicional próprio, com o intuito de ultrapassar a indisponibilidade de dados para manuseamento e análise mais específica. 17% 23% 25% 23% 10% 45% 36% 39% 67% 32% 39% 37% 6% 1% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Não responde Vai pagando parcialmete Paga no mês seguinte, na totalidade Total “Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito? Utiliza o cartão de crédito para pagamento de despesas correntes?” Sim, exatamente Raramente Não Não responde Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 61 Neste capítulo são assim apresentados os objetivos, a técnica de coleta de dados da amostra, algumas limitações, as variáveis de pesquisa, as análises estatísticas e resultados. O estudo realizado é descritivo e de carácter quantitativo. Dada a natureza do tema estudado, desenvolvemos um questionário que cobre uma série de questões que permite a combinação entre a decisão de endividamento e a capacidade de fazer face aos compromissos financeiros assumidos com informações sociodemográficas, psicológicas e comportamentais. Todas as etapas que envolvem este capítulo basearam-se essencialmente em dois papers: “Predicting personal debt and debt repayment: Psychological, social and economic determinants” de Livingstone e Lunt (1992); e “Behavioural characteristics and financial distress” de McCarthy. 4.3.1. Questões da pesquisa O objetivo desta análise é examinar o modo como alguns fatores, nomeadamente sociodemográficos, comportamentais e psicológicos, afetam a dívida pessoal e a capacidade de manter os compromissos financeiros. Pretende-se especificamente analisar as seguintes questões: a) O que discrimina endividados de não endividados? b) O que discrimina aqueles que se encontram com algum grau de “Financial distress” dos restantes? c) Quais os fatores chave relacionados com a probabilidade de endividamento e de financial distress? 4.3.2. Amostra O universo da amostra, em conformidade com o objetivo da dissertação, é composto por famílias ou indivíduos que cumpram os requisitos mínimos para a aquisição de crédito ou de qualquer outro tipo de dívida, ainda que efetivamente não as detenham. Esta amostra foi essencialmente obtida pela distribuição pessoal do questionário a alguns indivíduos e pela disponibilização dos questionários em dois estabelecimentos comerciais. Por esta razão a amostra não é considerada probabilística, sendo as conclusões obtidas apenas para a amostra aqui estudada. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 62 As questões utilizadas no questionário são apresentadas no anexo III, sendo algumas destas explicadas no item seguinte. A taxa de respostas foi de 70%, sendo originalmente distribuído 161 questionários, dos quais apenas 101 foram considerados na análise. 95% da amostra é da região do Norte do país e 5% do Centro. Esta distribuição é justificada pela técnica de distribuição e coleta de dados. A amostra foi constituída por 62 (61,4%) mulheres e 39 (38,6%) homens, com idades a variar entre os 20 e os 69 anos, sendo a grande maioria casado, mais especificamente, 77,2%. Dos indivíduos casados, 69,2% encontra-se endividado, no entanto apenas 37,2% apresenta dificuldades financeiras. Cerca de 90% possui rendimentos familiares entre 500 a 2500 euros e rendimentos individuais acima dos 500 euros, tendo também, estes grupos, maior percentagem de endividados e indivíduos com dificuldades em manter os seus compromissos financeiros. Dos 15,8% que se encontram desempregado, apenas 2% tem o parceiro na mesma situação laboral. Cerca de 70% dos indivíduos que se encontra nesta situação apresentam algum grau de dificuldade em regularizar as suas dívidas. O número máximo de dependentes observados na amostra foram 3, no entanto apenas 5,9% das famílias têm três dependentes. Mais de 85% dos agregados familiares dos indivíduos entrevistados são constituídos por 2 a 4 elementos. O grupo de indivíduos do sexo feminino ou cujos parceiros trabalham apresenta uma incidência de endividamento e de financial distress ligeiramente superior. 4.3.3. Instrumento Tal como já havia sido mencionado anteriormente, na coleta de dados foi utilizado um questionário de 4 páginas composto por quatro secções desenhadas com o objetivo de identificar aqueles que se encontram em dívida e/ou com algum grau de dificuldade financeira, através do estudo de uma série de variáveis independentes, nomeadamente, fatores sociodemográficos, locus de controlo, atitudes perante a dívida, impulsividade, otimismo e excesso de confiança. Todas as variáveis estudadas derivam de diversas teorias da área de psicologia económica, economia comportamental e finanças Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 63 comportamentais, sendo algumas das questões transcrições integrais de pesquisas elaboradas por autores da área. Os respondentes foram informados quanto à confidencialidade dos inquéritos, assim nenhum inquirido foi identificado individualmente quer na aplicação do inquérito quer na análise de dados. Esta medida foi tomada com o objetivo de evitar constrangimentos no que respeita ao montante em dívida ou à avaliação das afirmações de acordo com o nível de concordância. O questionário foi estruturado da seguinte forma: I. Questões sociodemográficas A primeira secção reúne uma série de questões de carácter sociodemográficas, como sexo, idade, escolaridade, situação laboral do respondente e do parceiro, tamanho do agregado familiar, número de filhos e dependentes, estado civil e intervalo do rendimento familiar e individual. II. Questões para caracterização da dívida e evidência de dificuldades financeiras (Variáveis dependentes) As questões da segunda secção foram desenhadas de acordo com os papers acima mencionados, objetivando-se a caracterização da dívida e da situação financeira em que se encontram os entrevistados. Os indivíduos foram questionados sobre o montante total da (s) dívida (s) que possuem individualmente ou como parte do casal, nos seguintes tipos de dívida: Crédito à habitação, outros créditos (e.g. crédito pessoal, automóvel, etc.), cartão de crédito e outras dívidas para além do crédito (e.g. familiares e amigos). As respostas dos inquiridos permitiram a identificação e caracterização daqueles que se encontram endividados e dos que não o estão, considerando-se, para o efeito, “endividado” todos aqueles que detêm qualquer tipo de dívida. Para o montante da dívida, considerou-se a soma dos valores devidos em todos os tipos de dívida que possuem individualmente ou como parte do casal. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 70 - N = número total de respostas; - ct = proporção correta para todos os itens assinalados com a probabilidade rt. Esta pode, no entanto ser simplificada, uma vez que é igual à diferença entre a média da pontuação de confiança e a média da proporção correta (precisão). Neste sentido, cada entrevistado obteve um índice de acerto (IA), que corresponde à soma do número de questões corretas, por exemplo, se nas dez questões seis foram respondidas corretamente, IA=6. O intervalo de confiança associado, por cada inquirido, à sua resposta foram transformados para: [50%] = 5; [51%-59%] = 5,5; [60%-69%] = 6,45; [70%-79%] = 7,45; [80%-89%] = 8,45; [90%-99%] = 9,45; e [100%] = 10. A média dos valores transformados das 10 questões de cada inquirido dá origem ao Nível de Confiança geral (NC). A diferença entre o NC e o IA dá o excesso de confiança. Relativamente ao grau de otimismo global, o TOV revisto terá uma pontuação entre 0 e 24, para cada participante, uma vez que as seis afirmações consideradas têm uma pontuação máxima de 4, após a inversão da pontuação das afirmações negativas. Os valores de TOV revisto para cada indivíduo, constituirá uma única variável de análise. 4.3.6. Análise fatorial Para a análise dos dados coletados foram utilizadas diferentes técnicas estatísticas, de modo a permitir um estudo mais aprofundado dos resultados obtidos. As principais técnicas utilizadas foram: análise fatorial e discriminante utilizando-se o programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) e a análise de regressão probit utilizando-se o software Stata. Para as variáveis “atitude perante a dívida” e “locus de controlo”, além de serem consideradas os itens específicos, foram contruídas variáveis que não são diretamente observáveis, mas que se encontram latentes às variáveis originais, através da análise fatorial. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 71 a. Atitudes perante o crédito A análise fatorial mostrou-se adequada para a estimação de fatores comuns, quer pelo teste KMO, quer pelo teste de Esfericidade de Bartlett, com um KMO igual a 0,605 11 acima dos 0,5 e p-value 12 = 0,000 < 0,05 13 . O número de fatores comuns retidos pelo Critério de Kaiser, privilegiado pelo programa SPSS, foram 3. Após a Rotação Varimax, desenvolvida por Kaiser, a interpretação empírica dos 3 fatores comuns retidos pela análise fatorial efetuada é possibilitada. Assim, as 3 componentes, com base nos pesos fatoriais apresentados na tabela 6, podem ser definidas pelas seguintes variáveis latentes: 1. Crédito útil; 2. Atitude anti dívida; 3. Crédito como normal vs. Crédito como incapacidade. b. Locus de controlo A análise fatorial mostrou-se adequada pelo teste KMO e pelo teste de Esfericidade de Bartlett, com um KMO igual a 0,514 acima dos 0,5 e p-value=0,028 < 0,05 14 . Tal como é possivel observar na tabela 7, o número de fatores retidos pelo Critério de Kaiser, privilegiado pelo programa SPSS, foram 2. O primeiro fator pode ser definido como locus de controlo externo e o segundo fator foi definido como locus de controlo interno. 11 Para um KMO igual a 0,605 ou 0,514, a matriz das correlações entre as variáveis é adequada para a análise fatorial, ainda que, segundo a hierarquia de Kaiser e Rice (1974), este valor situa-se no quadrante medíocre. 12 Visto que o nível de significância (p-value) apresentado é de 0, inferior a 0,05, rejeita-se a hipótese da igualdade das duas matrizes (rejeita-se H0), ou seja, as variáveis são correlacionáveis, sendo a análise fatorial válida de acordo com este teste. 13 Ver apêndice I. 14 Ver apêndice I. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 72 Tabela 6 – Análise fatorial: Atitude perante o crédito Matriz que relaciona as variáveis com as componentes extraídas (após rotação)a Componentesb 1 2 3 É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro -,418 ,543 -,037 Ficar endividado é errado e deve ser evitado -,085 ,848 ,031 É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os quero ,901 -,090 ,060 É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles ,735 -,103 ,160 Ter dívidas mostra que não consegue gerir as suas finanças de forma adequada ,243 ,136 -,623 Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonha ,330 -,102 ,759 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros ,253 -,002 ,697 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios ,012 ,767 -,252 Notas: Método de extração: Análise dos principais componentes; Método de rotação: Varimax com normalização de Kaisera a. Rotação convergiu em 5 iterações. b. Pela análise da matriz, o fator 1 é caracterizado, por ordem de importância, pelas variáveis “É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os quero” e “É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles”. Ambas apresentam pesos fatoriais elevados e positivos (correlação positiva com o fator comum 1). O fator 1 agrega assim variáveis onde a utilidade do crédito é reconhecida, sendo portanto definido como “Crédito útil”. O segundo fator é influenciado pelas variáveis: “Ficar endividado é errado e deve ser evitado”, “Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios” e “É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro”. Em conjunto estas indicam alguma relutância na utilização de crédito, sendo definido como “atitude anti dívida”. Por último, o terceiro fator comum apresenta correlações positivas e fortes com as variáveis “Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonha” e “Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros” e uma correlação forte negativa com a variável “Ter dívidas mostra que não consegue gerir as suas finanças de forma adequada”. Este fator contrapõe variáveis em que o crédito é visto como um recurso natural, com a variável onde o recurso ao crédito é tido como resultado de uma incapacidade de gestão. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 73 Tabela 7 – Análise fatorial: Locus de controlo Matriz que relaciona as variáveis com as componentes extraídas (após rotação) a Componentesb 1 2 “Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizar.” -,053 ,747 “O que acontece comigo é resultado das minhas próprias ações.” ,124 ,589 “Fazer as coisas da maneira correta depende da capacidade; a sorte não tem nada a ver com isso.” ,129 ,410 “Muitas das infelicidades na vida das pessoas são, em parte, devido à má sorte.” ,836 -,197 “Conseguir um bom emprego depende, principalmente, de estar no lugar certo à hora certa.” ,570 ,291 “Muitas vezes sinto que tenho pouca influência sobre as coisas que acontecem comigo.” ,597 ,206 Notas: Método de extração: Análise dos principais componentes; Método de rotação: Varimax com normalização de Kaisera a. Rotação convergiu em 5 iterações. b. Pela análise da matriz, o fator 1 é caracterizado, por ordem de importância, pelas variáveis “Muitas das infelicidades na vida das pessoas são, em parte, devido à má sorte”, “Muitas vezes sinto que tenho pouca influência sobre as coisas que acontecem comigo” e “Conseguir um bom emprego depende, principalmente, de estar no lugar certo à hora certa.” Estas apresentam pesos fatoriais elevados e positivos (correlação positiva com o fator comum 1). O fator 1 agrega assim variáveis que denotam locus de controlo externo. O segundo fator é influenciado pelas variáveis: “Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizar”, “O que acontece comigo é resultado das minhas próprias ações” e “Fazer as coisas da maneira correta depende da capacidade; a sorte não tem nada a ver com isso.” Em conjunto estas indicam locus de controlo interno. 4.3.7. Análise discriminante Mais de metade (63,3%) da amostra deve dinheiro individualmente ou conjuntamente com o seu parceiro, num ou mais tipos de dívida (N= 64). O valor médio da dívida total é 42.408,91€. Atendendo apenas aqueles que possuem dívidas, 81,25% possui 1 dívidas e 18,75% possui 2 ou 3 dívidas, sendo que 71,88% tem apenas crédito à habitação. Em média, os que possuem dívidas (N=64) reembolsam 286,50€ por mês. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 74 Pouco mais de 38% dos indivíduos admite ter algum grau de dificuldade em manter os seus compromissos financeiros (N=39). Descriminar endividados de não endividados Neste ponto, a análise de discriminante permitirá determinar a existência de uma ou mais combinações lineares entre as variáveis (funções discriminantes), que distinguem os três grupos considerados. Foram definidos três grupos, com base no montante da dívida total assumida: Grupo I – Sem dívida Grupo II – Dívida abaixo da média (42.408,91€) Grupo III – Dívida acima da média (42.408,91€) O objetivo consiste em identificar, através de uma ou mais funções discriminantes, quais as variáveis que melhor discriminam estes três grupos. Apenas 100 observações foram consideradas e analisadas. O número de observações nos grupos I, II e III foram 39, 32 e 29, respetivamente. A primeira função discriminante explica 71,7% da variação entre grupos, enquanto a segunda função discriminante explica os restantes 28,3% da variação entre grupos 15 . Pelo lambda de Wilk’s, pelo menos a primeira função discriminante é estatisticamente significativa (Correlação canónica = 0,483, df= 8, p-value = 0 < 0,05). A segunda função discriminante é também estatisticamente significativa (Correlação canónica = 0,327, df= 3, p-value = 0,013 < 0,05), ou seja, explica a diferença entre grupos que não foi explicada pela primeira função discriminante. Para explicar a diferença entre os três grupos são então necessárias as duas funções discriminantes. A tabela 8 mostra as variáveis com correlação superior ao valor de cut-off de 0,1 16 , com as funções discriminantes, em ordem decrescente de correlação. Apenas 4 variáveis foram 15 Ver tabela 25 do anexo IV. 16 A matriz de correlações completes pode ser consultada no tabela 27 do anexo IV. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 75 utilizadas na análise da função discriminante para construir as equações como indicadas. As outras variáveis apresentadas não contribuem de forma independente para a função discriminantes, no entanto separadamente são fatores indicativos de estar em dívida. A primeira função discriminante permite discriminar o grupo 1 do grupo 2 e 3, isto é, os que não possuem dívida daqueles que se encontram endividados. Assim, os indivíduos que não possuem dívidas apresentam maiores rendimentos familiares, um maior otimismo quanto ao futuro e uma atitude anti dívida. Quanto aos grupos 2 e 3 esta função não permite uma distinção tão clara, pois os centroides de ambos possuem o mesmo sinal, o que indica que ambos possuem baixos valores nas três variáveis acima mencionadas, embora os indivíduos do grupo 3 pareçam ter valores menos baixos quando comparados com os valores dos indivíduos do grupo 2. A segunda função discriminante serve então para distinguir aqueles que se endividam abaixo da média daqueles que se endividam acima da média. O facto de o parceiro estar empregado está positivamente correlacionado com aqueles que possuem dívidas superiores à média, discriminando estes dos restantes devedores. Tabela 8 – Funções discriminantes daqueles que se encontram endividados Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e funções discriminantes (continua) Função 1 2 Sou sempre otimista quanto ao meu futuro ,625* Ficar endividado é errado e deve ser evitado ,579* Rendimento familiar ,468* Otimismob ,318* Escolaridade intervalob ,293* Rendimento Individualb ,283* O que acontece comigo é resultado das minhas próprias açõesb ,248* Em geral as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas própriosb ,218* Otimismo dummyb ,176* Locus Internob ,167* Impulsividadeb ,163* Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 76 Tabela 8 – Funções discriminantes daqueles que se encontram endividados Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e funções discriminantes (continuação) Função 1 2 Nº Filhosb -,156* Raramente espero que coisas boas aconteçam comigob ,149* Em geral espero que me aconteçam mais coisas boas do que másb ,149* Ter dívidas mostra que não consegue gerir as suas finanças de forma adequadab ,138* Nº Dependentesb -,119* Muitas vezes sinto que tenho pouca influência sobre as coisas que acontecem comigob -,109* Em momentos de incerteza geralmente espero que aconteça o melhorb ,101* Parceiro Trabalha p/ c/ própria e/ou p/ c/ outrem ,929* Parceiro Desempregadob -,457* É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro para talb ,291* Casadob ,206* Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonhab -,188* É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os querb -,167* Conseguir um bom emprego depende, principalmente, de estar no lugar certo à hora certab -,167* Locus Externob -,164* Viúvo/separado/divorciadob -,153* Euriborb -,152* Impulsividade dummyb -,150* Locus Externo dummyb -,137* Responsabilidadeb -,126* Excesso de confiançab ,125* Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizarb ,119* Spreadb ,114* Excesso de confiança intervalob ,111* Fazer as coisas da maneira correta depende da capacidade; a sorte não tem nada a ver com issob ,110* Idadeb -,109* Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 77 Notas: Variáveis ordenadas pelo valor absoluto de correlação na função. *. Maior correlação absoluta entre cada variável e função discriminante. Notas adicionais: a. As variáveis mais correlacionadas com a primeira função discriminante são: “Sou sempre otimista quanto ao meu futuro”, “Ficar endividado é errado e deve ser evitado” e “Rendimento familiar”. Esta função discriminante opõe os indivíduos que apresentam maior grau de concordância com as duas primeiras afirmações e valores elevados no rendimento familiar aos indivíduos com baixo grau de concordância nas duas afirmações e baixos rendimentos familiares. A variável mais correlacionada com a função discriminante 2 é “Parceiro Trabalha p/ c/ própria e/ou p/ c/ outrem “. A função discriminante 2 contrapõe os indivíduos em que o parceiro se encontra numa situação de emprego dos restantes. b. Esta variável não foi utilizada na análise. Tabela 9 – Análise das funções discriminantes, daqueles que se encontram endividados, pelos respetivos centroides Centroides Dívida total Grupo Função 1a 2b 1 ,600 -,199 2 -,692 -,240 3 -,043 ,533 Notas: Funções discriminantes canônicas não estandardizadas avaliadas pelas médias dos grupos; Médias de cada Z (função discriminante) calculadas à custa das médias das variáveis nos grupos 1, 2 e 3, separadamente, são próximas, mas distintas, o que sugere grupos separados. Notas adicionais: a. A média associada ao grupo 1 é positiva, pelo que os indivíduos deste grupo apresentam maiores níveis de concordância com as afirmações “Sou sempre otimista quanto ao meu futuro” e “Ficar endividado é errado e deve ser evitado” e maiores rendimentos familiares. E os indivíduos do grupo 2 e 3 (média negativa) apresentam níveis de concordância mais baixos (ou maiores níveis de discordância) com as duas afirmações e menores rendimentos familiares. Ou seja, a primeira função discriminante permite discriminar o grupo 1 ao grupo 2 e 3. b. Esta função serve então para distinguir os grupos 2 e 3 que a função 1 não conseguia. Uma vez que a média associada ao grupo 3 é positiva, então os indivíduos deste grupo têm maioritariamente os seus parceiros empregados. Os indivíduos do grupo 2 não têm os seus parceiros na mesma situação laboral, encontrando-se desempregados, a trabalhar a tempo parcial, reformados ou não ativos. Mostrou-se ainda interessante efetuar esta análise, excluindo aqueles que possuíam apenas crédito à habitação. O objetivo é perceber quais as variáveis que discriminam os que não possuem dívida daqueles que possuem algum tipo de dívida pessoal. Esta análise Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 78 é talvez mais pertinente do que a anterior, uma vez que os inquéritos foram realizados individualmente. Isto é, ainda que tenha havido o cuidado dos inquéritos serem realizado pelo indivíduo de referência do agregado, o inquérito caracteriza essencialmente o indivíduo respondente. O crédito à habitação raramente é decidido individualmente, sendo resultado de um conjunto mais complexo de variáveis que envolvem o agregado. Neste sentido foi criada uma variável dummy “Outras dívidas” que assume o valor 1 sempre que o indivíduo possui algum tipo de dívida, como crédito pessoal, automóvel, entre outras, e zero caso contrário. Para este estudo foram eliminados todos os casos que tinham apenas crédito à habitação (N = 46). O objetivo consiste em identificar quais as variáveis que melhor discriminam os indivíduos que têm dívidas (excluindo-se crédito à habitação) dos que não detêm qualquer tipo de dívida. Apenas 55 observações foram consideradas e analisadas. Cerca de 33% da amostra admite ter dívida. Pelo lambda de Wilk’s, a função discriminante é estatisticamente significativa (Correlação canónica = 0,548, df= 4, p-value = 0,001 < 0,05). A tabela 10 mostra as variáveis com correlação superior ao valor de cut-off de 0,1 17 , com a função discriminante, em ordem decrescente de correlação. Apenas 4 variáveis foram utilizadas na análise da função discriminante para construir a equação como indicadas. As restantes variáveis apresentadas não contribuem de forma independente para a função discriminantes, no entanto separadamente são fatores indicativos de estar em dívida. Os indivíduos com dívidas, nesta amostra, apresentam menores agregados familiares, são menos conhecedores do conceito spread, exibem menor locus interno e uma atitude mais favorável ao crédito, vendo este como um meio facilitador. Uma possível justificação para a relação inversa entre o tamanho do agregado familiar e o endividamento, poderse-á dever à exigência de uma orçamentação e planeamento mais cuidado e pensado, tornando o recurso a este tipo de dívida impossível ou indesejado. 17 A matriz estruturada completa pode ser consultada no anexo IV. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 79 Tabela 10 – Função discriminante dos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante (continua) Função 1 Spread ,495 Agregado ,399 Rendimento familiara ,368 Nº Dependentesa ,340 Excesso de confiançaa -,325 Fator Locus Interno ,311 Locus Interno Dummya ,310 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros -,301 Em geral, espero que me aconteçam mais coisas boas do que más a -,298 É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles a -,296 Locus Internoa ,295 Escolaridade Intervaloa ,295 Crédito útil -,289 Escolaridadea ,286 Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizar a ,285 É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os quer a -,277 Responsabilidadea ,263 Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonha a -,232 Fator: Crédito como normal vs. Crédito como incapacidade -,229 O que acontece comigo é resultado das minhas próprias ações a ,188 Excesso de confiança intervaloa -,182 É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro para isso a ,175 Casadoa ,157 Sou sempre otimista quanto ao meu futuro a ,155 Ficar endividado é errado e deve ser evitadoa ,148 Parceiro Trabalha p/c/ própria e/ou p/c/ outrema ,145 Rendimento Individuala ,136 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios a ,130 Muitas das infelicidades na vida das pessoas são, em parte, devido à má sorte a -,125 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 86 A análise probit é usada para a análise de variáveis de resposta binomial, pelo que foi definida a variável dummy “Endividado” que toma o valor 1 para todo o respondente que tenha mencionado um montante positivo em qualquer tipo de dívida e igual a zero caso contrário. Tabela 14 – Resultados da análise probit para a variável dependente “Endividado” Resultados probit para a variável dependente “Endividado” Marginal effects after probit y = Pr (Endividado) (predict) = .6875704 Variáveis Efeito marginal Std.Err. Feminino*** .2654912 .15276 Parceiro desempregado*** .3198401 .11405 Parceiro trabalha por conta de outrem ou própria** .4227731 .155 Agregado*** -.1611796 .09549 Casado** .4528475 .21291 Rendimento Familiar*** -.2164015 .12682 Rendimento Individual*** .2272585 .11747 Excesso de confiança** -.010595 .0048 Otimismo** .0761506 .03396 “Se alguma coisa ruim pode acontecer comigo, vai acontecer.” (inversão da pontuação) ** -.1666041 .08327 “Sou sempre otimista quanto ao meu futuro.” * -.2129785 .07584 “Raramente espero que coisas boas aconteçam comigo. ” (inversão da pontuação) * -.2207845 .08192 “É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles.”** .161895 .06894 “Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros.”*** .1124538 .05761 “Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios.”*** -.1008956 .0604 Locus interno** -.1233113 .06226 N LR chi2 (36 Prob > chi2 Pseudo R2 99 50,02 0,0014 0,3823 *Nível de Significância igual a 1% ** Nível de Significância igual a 5% *** Nível de Significância igual a 10% Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 87 Neste estudo foram consideradas 99 observações. Pelo teste LR chi2 as variáveis explicativas são conjuntamente importantes para explicar a variável dependente “dívida”. Para um nível de significância de 1%, podemos rejeitar a hipótese nula de que todos os coeficientes são iguais a zero. Aproximadamente 38% da variação da variável dependente pode ser atribuída às variáveis explicativas. Pelo goodness-of-fit test que mede a qualidade do ajustamento do modelo, o modelo mostrou-se bem ajustado. De um modo geral o modelo prevê 82,83% das observações corretamente. Uma série de variáveis demográficas, comportamentais e psicológicas mostraram-se significativas para níveis de significância inferiores a 10%, sendo apenas essas apresentadas na tabela 14. Se o indivíduo for do sexo feminino, o seu parceiro estiver desempregado, o seu parceiro estiver empregado ou encontra-se casado, a probabilidade do mesmo ter dívida aumenta em 26,5%, 31,9%, 42,3% e 45,3%, respetivamente. Relativamente ao tamanho do agregado familiar, por cada membro adicional, a probabilidade de ter dívida diminui aproximadamente 16%. Por cada ponto percentual adicional do nível de confiança apresentado, há uma queda de um ponto percentual na probabilidade de ter dívida. A probabilidade de estar em dívida diminui 21,6% por cada classe de rendimento familiar superior atingido e aumenta 22,7% pelo mesmo aumento no caso do rendimento individual. No que respeita ao otimismo, para além do TOV, mais três afirmações consideradas individualmente foram estatisticamente significativas. A inversão da pontuação das afirmações negativas, levada a cabo no início da investigação, obriga o cuidado na análise das duas afirmações acima indicadas. Neste contexto, o aumento do nível de concordância em cada uma das afirmações, representa um maior otimismo. Posto isto, para um aumento em um ponto no nível de concordância com a afirmação “Sou sempre otimista quanto ao meu futuro”, a probabilidade de estar em dívida diminui 21,3% e para o aumento em um ponto no nível de concordância nas afirmações “Se alguma coisa ruim pode acontecer comigo, vai acontecer” e “Raramente espero que coisas boas aconteçam comigo”, que representa mais concretamente um aumento proporcional do nível de discordância, a probabilidade de ter dívida diminui 16,7% e 22,1%, respetivamente. No entanto, quando se observa o TOV, ou seja, o nível de otimismo global, resultado das seis questões Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 88 apresentadas no início deste estudo, o aumento em um valor na pontuação obtida neste teste, conduz a um pequeno aumento de 7,6% da probabilidade de ter dívida. A concordância com as afirmações “É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles” e “Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros”, representam indícios de uma atitude favorável ao crédito, enquanto a concordância com a afirmação “Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios”, parece mais ligada a uma atitude anti crédito. De acordo com os resultados probit, uma atitude favorável ao crédito aumenta a probabilidade de ter dívida, em contraste com uma atitude anti crédito, onde a mesma probabilidade diminui. A expetativa de um maior controlo interno sob a própria vida e sucesso, provoca uma queda da probabilidade de estar em dívida. Tabela 15 – Resultados da análise probit para a variável dependente “Apenas outras dívidas” Resultados probit para a variável dependente “Apenas outras dívidas” Marginal effects after probit y = Pr (Outras dívidas) (predict) = .11812993 Variáveis Efeito marginal Std.Err. Feminino*** .2274946 .1217 Desempregado** -.2604479 .10494 Trabalha por conta de outrem ou própria** -.7425444 .25745 Agregado*** -.1764495 .0758 Nº Filhos** -.6661816 .21799 Nº Dependentes*** .424183 .17975 Casado** .4085326 .136 Locus interno** -.1057628 .04378 N LR chi2 (36 Prob > chi2 Pseudo R2 55 30,16 0,0073 0,4337 *Nível de Significância igual a 1% ** Nível de Significância igual a 5% *** Nível de Significância igual a 10% Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 89 Neste ponto construímos uma nova amostra (N=55), excluindo todos aqueles que possuíam apenas crédito à habitação e considerando apenas os valores respetivos a outras dívidas, como automóvel, crédito pessoal, etc. A pertinência e objetivo desta amostra já foi discutido durante a análise discriminante. O modelo acima apresenta-se bem ajustado. Apenas variáveis demográficas e o locus de controlo interno se mostraram significativas. Se um indivíduo for do sexo feminino ou casado, a probabilidade de possuir dívidas desta natureza aumenta 22,7% e 40,9%. Se se encontrar desempregado, ou pelo contrário empregado, a mesma probabilidade cai em 26% e 74,25%, respetivamente. Por cada membro adicional no agregado familiar ou filho a probabilidade do indivíduo ter estas dívidas diminui, respetivamente, 17,6% e 66,6%. No entanto, por cada filho dependente adicional, a mesma probabilidade aumenta em 42,4%. Uma vez mais, o locus de controlo interno tem um efeito negativo sobre a probabilidade de detenção de dívida. Dada a natureza desta regressão foi definida a variável dummy “Dificuldades financeiras” que toma o valor 1 para todo o respondente que mencione algum grau de dificuldade em manter os seus compromissos financeiros e igual a zero caso contrário. Tabela 16 – Resultados da análise probit para a variável dependente “Dificuldades financeiras” Resultados probit para a variável dependente “Dificuldades financeiras” (continua) Marginal effects after probit y = Pr (Dificuldades financeiras) (predict) = .21135339 Variáveis Efeito marginal Std.Err. Idade* .4512988 .17066 Desempregado* .9554768 .04101 Nº Dependentes*** .3465152 .20795 Casado*** -.4908959 .27496 Excesso de confiança** -.0112349 .00516 Impulsividade* .3095918 .12816 Otimismo* .2645518 .07676 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 90 Tabela 16 – Resultados da análise probit para a variável dependente “Dificuldades financeiras” Resultados probit para a variável dependente “Dificuldades financeiras” (continuação) Variáveis Efeito marginal Std.Err. “Se alguma coisa ruim pode acontecer comigo, vai acontecer.” (inversão da pontuação) * -.541785 .1541 “Sou sempre otimista quanto ao meu futuro.” * -.5459449 .18088 “Quase nunca espero que as coisas funcionem como eu desejaria.” (inversão da pontuação) ** -.2956913 .1433 “Raramente espero que coisas boas aconteçam comigo.” (inversão da pontuação) * -.4388331 .13601 “É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles.”** .2035113 .09006 Locus Interno** .1615237 .09267 Dívida dummy* .5338453 .14195 N LR chi2 (36 Prob > chi2 Pseudo R2 99 85,12 0,0000 0,6412 *Nível de Significância igual a 1% ** Nível de Significância igual a 5% *** Nível de Significância igual a 10% Tal como no estudo da tomada de dívida, foram consideradas 99 observações. Pelo teste LR chi2 as variáveis explicativas são conjuntamente importantes para explicar a variável dependente. Pelo Prob>chi2 podemos rejeitar a hipótese nula de que todos os coeficientes são iguais a zero. Aproximadamente 64% da variação da variável dependente pode ser atribuída às variáveis explicativas. Pelo goodness-of-fit test que mede a qualidade do ajustamento do modelo, o modelo mostrou-se bem ajustado. De um modo geral, o modelo prevê 89,90% das observações corretamente. Uma série de variáveis demográficas, comportamentais e psicológicas mostraram-se significativas para níveis de significância inferiores a 10%, sendo apenas essas apresentadas na tabela 16. Se o indivíduo estiver desempregado, a probabilidade do mesmo ter dificuldades financeiras aumenta em 95,5%, se se encontrar casado, esta probabilidade cai em 49,1%%. O aumento do número de dependentes e da classe etária conduz a um aumento considerável da probabilidade de ter dificuldades em manter os compromissos financeiros Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 91 assumidos. Por cada ponto percentual adicional do nível de confiança apresentado, há uma queda de um ponto percentual na probabilidade de ter dificuldades. Pelo contrário, esta probabilidade aumenta com o aumento em um grau de impulsividade. No que respeita ao otimismo, para além do TOV, mais quatro afirmações consideradas individualmente foram estatisticamente significativas. Tal como na análise efetuada no estudo da probabilidade de detenção de dívida, o aumento do nível de concordância em cada uma das afirmações, representa um maior otimismo, dado a inversão da pontuação das afirmações negativas. Posto isto, para um aumento em um ponto no nível de concordância com a afirmação “Sou sempre otimista quanto ao meu futuro”, a probabilidade de ter dificuldades diminui 54,6% e para o aumento em um ponto no nível de concordância nas afirmações “Se alguma coisa ruim pode acontecer comigo, vai acontecer”, “Quase nunca espero que as coisas funcionem como eu desejaria” e “Raramente espero que coisas boas aconteçam comigo”, que representa mais concretamente um aumento proporcional do nível de discordância, a probabilidade de ter dívida diminui 54,2%, 29,6% e 43,9%, respetivamente. No entanto, quando se observa o TOV, o aumento em um valor na pontuação obtida neste teste, conduz novamente a um aumento, mais considerável do que na análise da dívida, de 26,5% da probabilidade de ter dificuldades. A concordância com a afirmação “É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles”, traduz um reconhecimento da utilidade do crédito, podendo ser indicativo de uma atitude favorável ao crédito. De acordo com os resultados probit, o aumento do nível de concordância com a afirmação, aumenta a probabilidade de ter dificuldades financeiras. A expetativa de um maior controlo interno sob a vida e sucesso, provoca um aumento da probabilidade de ter dificuldades financeiras. Um indivíduo que tenha dívida apresenta um aumento de 53,4% da probabilidade de ter dificuldades financeiras. No entanto, pode argumentar-se que enquanto ter dívida aumenta a probabilidade de ter dificuldades financeiras, estar em dificuldades financeiras pode levar os inquiridos a recorrerem à dívida. Para avaliar esta questão, utilizamos o mesmo método de McCarthy (2011), baseado na metodologia de Lusardi and Mitchell Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 92 (2007), para estudar a possível causalidade reversa. Neste sentido, foi realizada a regressão probit reversa, onde a variável dependente é a variável dummy “Endividado” e as variáveis independentes são exatamente as mesmas consideradas acima, mais a variável dummy “Dificuldades financeiras”. Esta regressão mostrou que o coeficiente de dificuldades financeiras é estatisticamente significativo, o que sugere uma causalidade reversa com a detenção de dívida. Síntese O impacto das diferentes variáveis sociodemográficas, comportamentais e psicológicas (independentes) na probabilidade de estar endividado ou experimentar dificuldades financeiras foi examinado através do modelo probit. Os resultados desta análise permitiram uma série de conclusões pertinentes e relevantes que, por questões de organização, serão sintetizadas neste ponto. Uma série de fatores demográficos e económicos mostraram-se significativos para o estudo da probabilidade quer do endividamento quer das dificuldades financeiras tidas. 1. Dummy “Endividado” A probabilidade de estar endividado aumenta: mais de 32%, quando o indivíduo tem o seu parceiro empregado ou desempregado; mais de 26%, quando o indivíduo é do género feminino e 45% se é casado; cerca de 22,7% por cada patamar adicional atingido no rendimento individual; cerca de 11% a 16%, quando evidencia uma atitude favorável ao crédito; e cerca de 8%, por cada unidade adicional na pontuação obtida pelo teste de otimismo global. A probabilidade de deter dívida, no entanto, diminui: cerca de 16% a 20% com o aumento do nível de concordância (ou discordância no caso das afirmações cujas pontuações foram invertidas) em três afirmações consideradas individualmente e que indicam algum grau de otimismo, como por exemplo, “Sou sempre otimista quanto ao meu futuro”; cerca de 1% por cada ponto percentual adicional de excesso de confiança; cerca de 12% com o aumento da expetativa de controlo sob a própria vida e sucesso; cerca de 10% quando o crédito é visto como problemático; e cerca de 16% e 22%, respetivamente, com o aumento do tamanho do agregado familiar e do rendimento familiar. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 93 2. Dummy “Outras dívidas” (essencialmente de caráter individual) A probabilidade de ter dívidas, exceto crédito à habitação, aumenta: cerca de 40%, quando o indivíduo é casado; cerca de 23% quando o indivíduo é do género feminino; e perto de 42% por cada filho dependente adicional. A probabilidade de deter “outras” dívidas diminui: aproximadamente 26% se o indivíduo se encontra desempregado e mais de 74% se este se encontra empregado; mais de 17% por cada membro familiar extra e 66% por cada filho adicional; e cerca de 10,5% com o aumento da expetativa de controlo sob a própria vida e sucesso. 3. Dummy “dificuldades financeiras” A probabilidade de ter dificuldades financeiras aumenta: mais de 95%, quando o indivíduo se encontra desempregado; pouco mais de 45% por cada ano de idade adicional e de 34% por cada filho dependente adicional; cerca de 20% quando evidencia uma atitude favorável ao crédito; aproximadamente 31% com o aumento do nível de impulsividade, cerca de 26%, por cada unidade adicional na pontuação obtida pelo teste de otimismo global e cerca de 16% com o aumento da expetativa de controlo sob a própria vida e sucesso; e mais de 53%, quando o indivíduo possui dívida de qualquer tipo. A probabilidade de ter dificuldades em cumprir os compromissos financeiros assumidos diminui: cerca de 49% quando o indivíduo se encontra casado; entre 29,5% e 54,6% com o aumento do nível de concordância (ou discordância no caso das afirmações cujas pontuações foram invertidas) em quatro das seis afirmações consideradas individualmente e que indicam algum grau de otimismo; e cerca de 1%, por cada ponto percentual adicional de excesso de confiança. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 94 5. Análise conjunta de resultados Na presente dissertação procedemos à análise de três inquéritos, desenvolvidos em diferentes âmbitos de investigação, que incidiram sobre distintas amostras. Todavia, foi possível observar algumas semelhanças entre as mesmas. Aproximadamente metade (entre 47% a 63%) dos inquiridos encontram-se endividados. Em consistência com outros estudos (e.g. Furnham, 1984; Livingstone e Lunt, 1991; Ponchio, 2006), a grande maioria dos endividados são do género feminino, sugerindo uma atitude mais favorável ao endividamento por parte das mulheres, têm rendimentos familiares superiores (entre 500 a 2500 euros), têm idades compreendidas entre 30 a 49 anos, possuem filhos e dependentes. Contrariamente ao esperado (e.g. Sung, 1996), apenas cerca de 10% a 17% são solteiros e 15% a 20% são desempregados, estando mais de metade da amostra casados e a exercer profissão. Foram ainda encontradas evidências de racionalidade limitada nas três amostras consideradas. A análise do relatório disponibilizado pelo Observatório do Endividamento dos Consumidores, cuja amostra são unicamente os consumidores endividados ou sobre endividados que recorreram ao apoio da DECO, possibilitou a caracterização do fenómeno de endividamento e a análise cruzada deste fenómeno com alguns fatores sociodemográficos e comportamentais. Isto é, dada a natureza da amostra e os tópicos abordados no inquérito, foi possível identificar tendências e confirmar a presença de alguns vieses comportamentais nos indivíduos endividados/sobreendividados. O endividamento não resulta apenas da contração de crédito, porém, parece haver uma forte relação, sendo que 80,9% dos entrevistados detêm crédito à habitação e/ou ao consumo e apenas os restantes 19,1% possuem dívidas diferentes do crédito. 66,4% dos endividados/sobreendividados admitem ter um ou mais créditos em atraso. No que respeita à caracterização sociodemográfica dos endividados da amostra, para além dos dados apresentados, importa destacar que a partir da faixa etária dos 30 aos 39 anos, onde se encontram a maioria (31,6%) dos endividados, a percentagem de endividados, diminui com a idade. A evidência da diminuição do nível de endividamento com a evolução da idade é consistente com o aumento do nível de aversão ao risco à medida que se evolui Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 95 na faixa etária, segundo a Teoria da Perspetiva. Isto é, de acordo com os autores desta teoria (i.e. Kahneman e Tversky, 1979), a mesma permite a identificação da relação entre o risco e o consumo, na medida em que maior propensão ao endividamento significa uma maior propensão ao risco, uma vez que o recurso ao endividamento coloca uma importante parcela do orçamento em risco, na expetativa de um determinado resultado. Na escolha da entidade de crédito, 76,4% dos indivíduos que constituem esta amostra, admitem não proceder à pesquisa e análise das propostas de crédito oferecidas pelas diferentes entidades. Assim, os indivíduos não analisam todas as alternativas que dispõem, incorrendo no risco de sacrificar a escolha (da entidade) que melhor se adaptaria às suas necessidades e que permitiria maximizar o seu bem-estar. Esta realidade sugere a presença de racionalidade limitada na amostra, sob a perspetiva partilhada por Herbert Simon (1978). Isto é, o autor defende que a presença de racionalidade limitada, no processo de decisão, impossibilita a consideração de todas as alternativas possíveis e o cálculo das consequências de todas essas alternativas. A combinação desta realidade com a existência de incertezas, provenientes de eventos exógenos, conduz à escolha da alternativa que se mostre mais “satisfatória” e não maximizadora. A heurística de representatividade e disponibilidade, segundo os autores Kahneman e Tversky (1974), conduz a uma sobrestimação do risco de eventos futuros, especialmente negativos, mais recentes, frequentes ou facilmente imagináveis. Pelo contrário, quando os eventos são pouco frequentes ou figurativos, como os eventos que conduzem ao sobreendividamento, tanto a probabilidade de eventos semelhantes como o risco de incorrer neste fenómeno são subestimados. Posto isto, foi possível observa-se esta heurística em 86,5% dos inquiridos, através da forte relutância demonstrada perante a possibilidade de voltar a adquirir crédito. Isto é, a grave situação de endividamento ou sobre-endividamento em que os inquiridos se encontram, combinada com a aversão ao crédito demonstrada, sugere uma sobrestimação da probabilidade de sofrerem os mesmos problemas que enfrentam no momento. A questão foi colocada num momento posterior ao ato de endividamento, não se podendo identificar a heurística tratada como causa do endividamento ou sobre-endividamento. No entanto, a leviandade na escolha da entidade de crédito, a irreflexão demonstrada pelas razões indicadas para o endividamento e a posterior aversão observada perante os créditos, conduz, ainda que hipoteticamente, à Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 102 6. Conclusões Nos últimos anos tem-se registado uma diminuição do nível de endividamento. No entanto, apesar desta diminuição, o endividamento continua a apresentar níveis significativamente elevados, representando em 2012, 117,6% do rendimento disponível, e o rácio de incumprimento, pelo contrário, tem aumentado. Esta situação mostra-se preocupante do ponto de vista individual e coletivo, dados os enormes custos para todo o sistema financeiro. Desta forma, justifica-se a necessidade de compreender os fatores subjacentes à decisão de endividamento ou à experimentação de dificuldades financeiras, por exemplo, para uma melhor definição das políticas e medidas de prevenção. O comportamento humano é objeto de estudo de diferentes áreas como economia, finanças, psicologia, sociologia e marketing. Os consumidores, ao contrário das empresas, têm sentimentos, emoções, atitudes, desejos, crenças, tendências, opiniões, entre outros, sendo o seu julgamento influenciado ou afetado, pelo menos em parte, por estes. Fatores de natureza comportamental ou psicológica são geralmente negligenciados aquando da definição de políticas de prevenção e correção, sendo estas centradas essencialmente na literacia financeira. No entanto, melhores resultados poderiam ser obtidos com a combinação da educação financeira e ferramentas de aconselhamento que permitam minimizar o impacto de determinas características comportamentais e psicológicas. As ciências comportamentais têm identificado de forma sistemática a evidência de uma série de caraterísticas e fatores, nos indivíduos, que comprometem a escolha da alternativa que maximiza o seu bem-estar, durante o processo de decisão. A análise sob esta vertente, relativamente recente, permite uma compreensão mais abrangente da decisão de endividamento por parte das famílias. Diferentes análises, nomeadamente a análise da função discriminante e análise probit, foram realizadas no decorrer deste trabalho, com o objetivo de examinar o modo como alguns fatores, designadamente sociodemográficos, comportamentais e psicológicos, afetam a tomada de dívida e a capacidade de manter os compromissos financeiros. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 103 As conclusões apresentadas não podem ser extrapoladas para a caracterização dos endividados em geral, dada as limitações associadas aos inquéritos utilizados, essencialmente no que respeita ao período em estudo e dimensão da amostra. Todavia, com base na análise dos dados recolhidos, por meio de um inquérito originalmente desenvolvido e distribuído, foi possível observar os efeitos de uma série de características comportamentais, sociodemográficas e psicológicas na probabilidade de endividamento e de financial distress. Para além das variáveis socioeconómicas, como género, estado civil, situação laboral e rendimento disponível, o efeito de alguns dos fatores comportamentais e psicológicos estudados mostraram-se significativos, nomeadamente, a atitude face à dívida, o otimismo e o locus de controlo interno. Mais concretamente, segundo os testes desenvolvidos, os indivíduos que não possuem dívidas de qualquer tipo apresentam maiores rendimentos familiares, um maior otimismo quanto ao futuro e uma atitude anti dívida, considerando o endividamento errado e a ser evitado. O facto de o parceiro estar empregado está positivamente correlacionado com aqueles que possuem dívidas superiores à média, discriminando estes dos restantes devedores. A probabilidade de estar endividado aumenta ainda quando o indivíduo é do género feminino (26,5%), casado (45%), tem o seu parceiro nas situações laborais de emprego (42%) ou de desemprego (32%), tem maiores rendimentos individuais, uma atitude favorável ao crédito (11% a 16%) e uma maior pontuação no teste de otimismo global (8%). Pelo contrário, esta probabilidade diminui em mais de 12% com o aumento dos rendimentos familiares, do tamanho do agregado familiar e da perceção de controlo sobre a própria vida e sucesso. A atribuição do rótulo problemático ao crédito diminui a probabilidade de ter dívida em cerca de 10%. No que diz respeito aos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação, observou-se menores agregados familiares, um menor conhecimento do termo spread, um menor locus de controlo e uma atitude mais favorável ao crédito, considerando este como um meio facilitador. Os indivíduos casados, do género feminino e com dependes têm maior probabilidade de incorrer neste tipo de dívidas. Esta probabilidade diminui em cerca de 26% com o fato de o parceiro se encontrar empregado e 74% quando o mesmo está desempregado. Por cada filho adicional a probabilidade de deter divida diminui mais de 66%. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 104 Os indivíduos com algum grau de dificuldade financeira encontram-se maioritariamente desempregados, apresentam um maior otimismo, esperando que o aconteça o melhor em momentos de incerteza e menor pessimismo. Contribui ainda positivamente para esta situação a idade, o número de filhos dependentes, a presença de dívidas, a atitude mais favorável ao crédito, o aumento do nível de impulsividade e do locus de controlo interno. Estar casado diminui a probabilidade de enfrentar dificuldades financeiras em cerca de 49%. Foram ainda observados indícios de racionalidade limitada, excesso de confiança, desejo em manter o status social, present bias e a presença da heurística de ancoragem e de representatividade e disponibilidade nos endividados das amostras consideradas nos dois inquéritos nacionais também analisados. Uma conclusão comum aos estudos que analisam a correlação de diferentes fatores com o endividamento e dificuldades financeiras é a evidência de fatores sociais, psicológicos ou comportamentais associados a estes fenómenos, o que corrobora a ideia de que estes não são função, unicamente, de variáveis económicas. A análise de decisões financeiras, como o endividamento, sob a vertente das ciências comportamentais, apesar da complexidade e dificuldade inerente ao estudo de variáveis desta natureza, apresenta fortes potencialidades práticas. Assim, mostra-se pertinente e interessante para investigações futuras um estudo mais aprofundado deste tema, que possibilite ainda uma posterior integração dos resultados em modelos e políticas económicas. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 105 Apêndices Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 106 Apêndice I – Análise fatorial Os resultados empíricos foram obtidos pela aplicação de três técnicas de análise, nomeadamente, a Análise Fatorial, a Análise Discriminante e a Análise Probit. A Análise Fatorial foi aplicada à escala de Livingstone e Lunt (1991), composta por oito afirmações que refletem as atitudes face à dívida e à escala de locus de controlo de Lumpkin (1985), adotada por Cosma e Pattarin (2010) e constituída por três afirmações direcionadas ao locus de controlo externo e três ao locus de controlo interno. Esta análise tem como objetivo identificar um conjunto de fatores capazes de detetar possíveis relações que se estabelecem entre as variáveis, reduzindo, geralmente, a dimensão das variáveis a considerar. Os fatores são assim criados a partir das variáveis originais. A validade da análise fatorial é conseguida a partir de alguns testes, que permitem averiguar se os dados em estudo são adequados para a análise. Os testes mais utilizados são: o teste de KMO e o teste de Bartlett. O teste KMO é a medida de homogeneidade das variáveis, que compara as correlações observadas com as correlações parciais. Segundo este teste a análise é válida para valores compreendidos entre 0,5 e 1. O teste de Esfericidade de Bartlett avalia o nível de correlação entre as variáveis, realizando o seguinte teste de hipóteses: H0: matriz das correlações entre variáveis = matriz identidade; H1: matriz das correlações entre variáveis ≠ matriz identidade. Para níveis de significância inferiores a 5% rejeita-se a hipótese nula, sendo as variáveis correlacionáveis e o modelo adequado. De acordo com o exposto, ambas as análises fatoriais levadas a cabo mostraram-se adequadas para a estimação dos fatores comuns. Tabela 17 – Testes Validade: Atitudes perante a dívida KMO and Bartlett's Test (Atitudes perante a dívida) Kaiser-Meyer-Olkin Measure of Sampling Adequacy. ,605 Bartlett's Test of Sphericity Approx. Chi-Square 144,868 df 28 Sig. ,000 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 107 Tabela 18 – Testes Validade: Locus de controlo KMO and Bartlett's Test (Locus de controlo) Kaiser-Meyer-Olkin Measure of Sampling Adequacy. ,514 Bartlett's Test of Sphericity Approx. Chi-Square 27,061 df 15 Sig. ,028 Isto é, para um KMO = 0,605 e um KMO = 0,514, as respetivas matrizes de correlações entre as variáveis são adequadas para a análise fatorial, ainda que, segundo a hierarquia de Kaiser e Rice (1974), este valor situa-se no quadrante medíocre. Visto que o nível de significância (p-value) apresentado é de 0, ou próximo, mas em ambos os estudos inferior a 0,05, rejeita-se a hipótese da igualdade das duas matrizes (rejeita-se H0). Ou seja, as variáveis estão correlacionadas e como tal as análises são válidas de acordo com este teste. A retenção dos fatores comuns consiste na determinação dos fatores comuns que melhor explicam a correlação entre as variáveis, isto é, os fatores que melhor explicam as variâncias apresentadas pelas variáveis. Durante este processo, três critérios podem ser considerados, sendo eles: reter o número de eixos tal que a percentagem de inércia explicada seja maior ou igual a 80% (Critério de Pearson), análise do Scree Plot (chamada regra do cotovelo) onde é prestada atenção ao comportamento da curva apresentada por este gráfico e reter apenas os fatores com valores próprios superiores a 1 (Critério de Kaiser). Uma vez que o software utilizado, o SPSS, dá preferência ao critério de Kaiser, este foi o critério considerado na análise. De acordo com o critério de Kaiser devem ser retidas todas as componentes que tenham um valor próprio superior a 1, ou seja, todos os fatores comuns que detenham um grau informativo superior às variáveis iniciais. Esta tabela dá-nos ainda o conhecimento acerca da percentagem da variância explicada pelos fatores extraídos. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 108 Tabela 19 – Retenção dos fatores comuns: Total da variância explicada – Atitudes perante a dívida Total Variance Explained Component Initial Eigenvalues Extraction Sums of Squared Loadings Total % of Variance Cumulative % Total % of Variance Cumulative % 1 2,516 31,444 31,444 2,516 31,444 31,444 2 1,262 15,772 47,216 1,262 15,772 47,216 3 1,183 14,788 62,004 1,183 14,788 62,004 4 ,983 12,281 74,285 5 ,723 9,040 83,325 6 ,556 6,954 90,279 7 ,447 5,588 95,867 8 ,331 4,133 100,000 Nota: Método de extração: Análise dos componentes principais Na escala de atitudes perante a dívida, pelo critério de Kaiser, foram retidos 3 fatores. Sabe-se ainda que o primeiro fator explica 31,44% da variância e os outros dois fatores retidos explicam, cada, cerca de 15%. Tabela 20 – Retenção dos fatores comuns: Total da variância explicada – Locus de controlo Total Variance Explained Component Initial Eigenvalues Extraction Sums of Squared Loadings Total % of Variance Cumulative % Total % of Variance Cumulative % 1 1,556 25,928 25,928 1,556 25,928 25,928 2 1,099 18,320 44,249 1,099 18,320 44,249 3 1,073 17,876 62,125 4 ,957 15,951 78,076 5 ,709 11,820 89,896 6 ,606 10,104 100,000 Nota: Método de extração: Análise dos componentes principais Na análise da escala de locus de controlo foram retidos 2 fatores. O primeiro fator explica 25,9% da variância e o segundo 18,3%. Muitas das vezes não é possível proceder a uma interpretação clara dos fatores extraídos (componentes), devido à proximidade dos valores apresentados na Component Matrix. No entanto, esta limitação é normalmente ultrapassada pela utilização da Rotação Varimax, desenvolvida por Kaiser, cujo objetivo passa por obter uma estrutura fatorial que permita a atribuição de um significado interpretativo. Esta transformação permite Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 109 fortificar a relação de cada variável com um único fator extraído, e em simultâneo a redução dessa relação com os restantes fatores, sendo de preferência próxima de zero. A Rotação Varimax resulta da multiplicação entre duas matrizes, a Component Matrix e a Componente Transformation Matrix, sendo diretamente apresentada pelo SPSS como output a Rotated Component Matrix (matriz que relaciona as variáveis com as componentes extraídas). Torna-se assim, possível proceder à interpretação dos fatores comuns retidos pela Análise Fatorial efetuada e que se relacionam com as variáveis consideradas. Tabela 21 – Análise fatorial: Atitude perante o crédito Matriz que relaciona as variáveis com as componentes extraídas (após rotação)a Componentesb 1 2 3 É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro -,418 ,543 -,037 Ficar endividado é errado e deve ser evitado -,085 ,848 ,031 É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os quero ,901 -,090 ,060 É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles ,735 -,103 ,160 Ter dívidas mostra que não consegue gerir as suas finanças de forma adequada ,243 ,136 -,623 Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonha ,330 -,102 ,759 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros ,253 -,002 ,697 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios ,012 ,767 -,252 Notas: Método de extração: Análise dos principais componentes; Método de rotação: Varimax com normalização de Kaisera a. Rotação convergiu em 5 iterações Pela análise da matriz, o fator 1 é caracterizado, por ordem de importância, pelas variáveis: “É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os quero” e “É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles”. Ambas apresentam pesos fatoriais elevados e positivos (correlação Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 110 positiva com o fator comum 1). O fator 1 agrega assim variáveis onde a utilidade do crédito é reconhecida, sendo portanto definido como “Crédito útil”. O segundo fator é influenciado pelas variáveis: “Ficar endividado é errado e deve ser evitado”, “Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios” e “É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro”. Em conjunto estas indicam alguma relutância na utilização de crédito, sendo definido como “atitude anti dívida”. Por último, o terceiro fator comum apresenta correlações positivas e fortes com as variáveis “Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonha” e “Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros” e uma correlação forte negativa com a variável “Ter dívidas mostra que não consegue gerir as suas finanças de forma adequada”. Este fator contrapõe variáveis em que o crédito é visto como um recurso natural, com a variável onde o recurso ao crédito é tido como resultado de uma incapacidade de gestão. Tabela 22 – Análise fatorial: Locus de controlo Matriz que relaciona as variáveis com as componentes extraídas (após rotação) a Componentesb 1 2 “Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizar.” -,053 ,747 “O que acontece comigo é resultado das minhas próprias ações.” ,124 ,589 “Fazer as coisas da maneira correta depende da capacidade; a sorte não tem nada a ver com isso.” ,129 ,410 “Muitas das infelicidades na vida das pessoas são, em parte, devido à má sorte.” ,836 -,197 “Conseguir um bom emprego depende, principalmente, de estar no lugar certo à hora certa.” ,570 ,291 “Muitas vezes sinto que tenho pouca influência sobre as coisas que acontecem comigo.” ,597 ,206 Notas: Método de extração: Análise dos principais componentes; Método de rotação: Varimax com normalização de Kaiser a. Rotação convergiu em 5 iterações. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 111 Pela análise da matriz, o fator 1 é caracterizado, por ordem de importância, pelas variáveis “Muitas das infelicidades na vida das pessoas são, em parte, devido à má sorte”, “Muitas vezes sinto que tenho pouca influência sobre as coisas que acontecem comigo” e “Conseguir um bom emprego depende, principalmente, de estar no lugar certo à hora certa.” Estas apresentam pesos fatoriais elevados e positivos (correlação positiva com o fator comum 1). O fator 1 agrega assim variáveis que denotam locus de controlo externo. O segundo fator é influenciado pelas variáveis: “Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizar”, “O que acontece comigo é resultado das minhas próprias ações” e “Fazer as coisas da maneira correta depende da capacidade; a sorte não tem nada a ver com isso.” Em conjunto estas indicam locus de controlo interno. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 118 Anexo I – Dados do relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” Tabela 23 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (continua) “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) Características sociodemográficas Distribuição geográfica Lisboa 1125 53,1 Porto19 378 17,8 Coimbra 244 11,5 Outros20 373 17,6 Género21 F 1032 55 M 844 45 Grupo etário <20 5 0,3 20 – 29 235 12,6 30 – 39 590 31,6 40 – 49 539 28,9 50 – 59 349 18,7 60 – 69 142 7,6 > 70 7 0,4 Estado civil Solteiro 371 17,8 Casado/União de facto 1145 55 Divorciado/Separado 491 23,6 Viúvo 75 3,6 19 A dispersão entre o número de processos abertos nas delegações de Lisboa e do Porto e o número de casos estudados condiciona em parte a relevância desta distribuição. No entanto, se a totalidade dos processos tivesse sido considerada, o peso destas delegações seria acentuado. 20 Outros: Viana do castelo (26 casos = 1,2%), Santarém (167 casos = 7,9%), Faro (137 casos = 6,5%) e Évora (43 casos = 2%). 21 Tem por base os 90,3% de consumidores que contactaram individualmente a DECO (de um total de 2078 respondentes). Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 119 Tabela 23 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (continuação) “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) Características sociodemográficas Agregado familiar Nº elementos 1 330 17,9 2 459 24,9 3 550 29,8 4 371 20,1 5 90 4,9 6 31 1,7 7 9 0,5 8 4 0,2 Nº de filhos 0 334 19,8 1 696 41,2 2 486 28,8 3 128 7,6 4 30 1,8 5 7 0,4 6 3 0,2 7 5 0,3 Habilitações literárias Não sabe ler nem escrever 10 0,5 1º Ciclo do Ensino Básico 314 15,6 2º Ciclo do Ensino Básico 343 17 3º Ciclo do Ensino Básico 512 25,4 Ensino Secundário 506 25,1 Curso Técnico Profissional 129 6,4 Curso Superior 201 9,9 Situação perante o trabalho Exerce profissão 1301 62,6 Desempregado 419 20,2 Desempregado – pequenos trabalhos informais 77 3,7 Estudantes 31 1,5 Reformado 212 10,2 Doméstica 39 1,9 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 120 Tabela 23 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (continuação) “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) Situação profissional Trabalhador por conta de outrem 1664 88,9 Trabalhador por conta próprio – empregador 107 5,7 Trabalhador por conta própria – isolado 99 5,3 Trabalhador familiar não remunerado 1 0,1 Membro ativo de cooperativa 1 0,1 Características do endividamento Rendimento mensal atual do agregado familiar (€) <375 249 12 376 a 500 376 18,1 501 a 1000 815 39,3 1001 a 1500 427 20,6 1501 a 2000 139 6,7 2001 a 2500 36 1,7 > 2501 31 1,5 Nº de créditos (ao consumo ou à habitação) contraídos 0 19,1 1 18,3 2 16,3 3 15,1 + 3 31,2 Tipo de crédito22 Crédito Pessoal23 1505 52 Crédito à habitação 43,5 Automóvel 31,7 Cartão de crédito 29,3 Outros créditos24 15,9 22 Questão de escolha múltipla. 23 Mais frequentes 24 Inclui principalmente contas-ordenado com saldo negativo ou outros créditos pessoais e cartões de crédito. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 121 Tabela 23 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (continuação) “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) Respostas Inquirido Técnico Razão para o endividamento25 Dificuldades financeiras no momento 57,2 28,1 Acesso a bens essenciais 45,4 31,4 Pagar outras dívidas 22,5 45,2 Ajudar familiar/amigo 14,9 6,5 Facilidade em obter crédito 10,9 6,9 Manter/melhorara estilo de vida 1,7 8,7 Publicidade ao crédito 1,7 3,1 Compensar frustrações 0,2 2,6 Não especificado 0,6 1,5 Outra 2,1 8,9 Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) Razão base para a escolha da entidade de crédito Publicidade ao crédito 46,1 Entidade que oferecia crédito na loja de aquisição do bem 28,2 Melhor proposta de crédito 23,6 Indicação de familiares e amigos 10,3 Proximidade da residência/trabalho 5,3 Outra 21,9 Características do incumprimento Nº de créditos em atraso 0 1218 33,6 1 28,2 2 16,1 3 10 4 5,3 5 2,5 6 1,6 + 7 2,8 25 Foi requerida a opinião dos inquiridos e técnicos. Esta questão admite ainda escolha múltipla. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 122 Tabela 23 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (continuação) “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) Características do incumprimento Tipo de crédito em atraso no total dos sobreendividados Crédito Pessoal 26,3 Crédito â habitação 20,1 Automóvel 18,1 Cartão de crédito 10,4 Outros créditos26 5,5 Respostas Inquirido Técnico Razão para o incumprimento Desemprego 44,9 43 Detioração das condições laborais 18,8 21,5 Gestão deficiente do orçamento familiar 21,1 34,4 Doença/Acidente de elemento do agregado familiar 23 22,6 Divórcio/Separação 14,2 14,4 Falecimento de elemento do agregado familiar 2,9 2,7 Aumento agregado 7,6 8,6 Agravamento custo de crédito 22,6 7,3 Despesas com educação 11 4,9 Despesas com a saúde 15,9 10,9 Apoio de terceiros Sim 38,6 Não 61,4 26 Inclui principalmente contas-ordenado com saldo negativo ou outros créditos pessoais e cartões de crédito. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 123 Tabela 23 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (continuação) “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) Sobreendividamento e risco Grau de aversão ao crédito – “Se fosse hoje, voltaria a contrair crédito?” Não, de modo algum 1730 40,9 Possivelmente não 22,7 Só se não tivesse alternativa 22,9 Possivelmente sim 11,5 Sim de certeza absoluta 2 Perceção do risco de crédito em função do rendimento mensal do agregado Sim (%) Só se não tivesse alternativa (%) Não (%) Grau de aversão ao crédito – “Se fosse hoje, voltaria a contrair crédito?” Até 375 14,6 15,7 69,7 376 a 500 21 21,3 57,7 501 a 1000 11,9 24,7 63,4 1001 a 1500 9,3 24,2 66,5 1501 a 2000 12,4 28,3 59,3 2001 a 2500 10 30 60 + 2501 20,8 8,3 70,8 Perceção do risco de crédito em função da faixa etária Sim (%) Só se não tivesse alternativa (%) Não (%) Grau de aversão ao crédito – “Se fosse hoje, voltaria a contrair crédito?” <20 60 20 20 20 – 29 15 23,4 61,7 30 – 39 13,6 23,9 62,5 40 – 49 12,3 21,9 65,8 50 – 59 11,2 26 62,8 60 – 69 11 13,8 75,2 > 70 0 50 50 Fonte: Relatório “Um perfil dos sobreendividados em Portugal” (Frade et al., 2008) Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 124 Anexo II - Dados do relatório “Inquérito à Literacia Financeira” Tabela 24 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Inquérito à Literacia Financeira” (continua) “Inquérito à Literacia Financeira” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) Género Feminino 2000 52,1 Masculino 47,9 “Que produtos financeiros detém?27” Crédito à habitação 82228 26 Cartões de crédito 32 Outros créditos 16 “Tem ideia de quanto é que os empréstimos consomem do seu rendimento?” Menos de um quarto 822 43 Mais de um quarto e menos de metade 32 Mais de metade 12 Não sabe/ Não responde 13 “Qual a principal razão da escolha do seu crédito à habitação?” Valor da prestação 444 41 Recorri ao meu banco usual 28 Taxa de juro 18 Outra 7 Taxa Anual Efetiva (TAE) 4 Segui a publicidade do banco 1 Não responde 1 “Qual a principal razão da escolha do seu crédito?” Valor da prestação 285 27% Recorri ao meu banco usual 26% Taxa de juro 13% Outra 6% Taxa de juros com todos os encargos (TAEG) 5% Comodidade de obtenção do empréstimo 23% 27 Nesta questão são consideradas escolhas múltiplas. São apenas apontados os produtos considerados na análise deste trabalho. Os restantes produtos poderão ser consultados no Relatório do Inquérito à Literacia Financeira (2010). 28 Base 1742 dos entrevistados que possuem conta bancária. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 125 Tabela 24 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Inquérito à Literacia Financeira” (continuação) “Inquérito à Literacia Financeira” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) “Tende a comprar coisas de forma impulsiva?” Sempre/Quase sempre 2000 2 Às vezes 21 Nunca/Raramente 75 Não responde 2 “Lê a informação que o banco lhe dá antes de fazer uma aplicação ou de contrair um empréstimo?” Sim, leio com muito detalhe 1223 34% Sim, leio com algum detalhe 40% Sim, leio mas com pouco detalhe 9% Não leio, confio n que o funcionário ao balcão me transmite 13% Não leio, não dou muita importância 2% Não responde 2% “Sabe o valor das taxas de juro de empréstimos que paga ao seu banco?” Sim, valor exato 822 22% Sim, valor aproximado 43% Informo-me no momento da contratação 13% Não 22% “Compara as taxas de juro antes de contrair um empréstimo?” Sim, entre os bancos de que sou cliente 822 29% Sim, entre os bancos de sou cliente e com as praticadas no mercado 31% Não 40% “Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito?” Pagamento da totalidade no final do mês 564 52 Pagamento parcial 43 Não responde 5 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 126 Tabela 24 – Quadro resumo dos dados a destacar do relatório “Inquérito à Literacia Financeira” (continuação) “Inquérito à Literacia Financeira” Variáveis Alternativas Frequência Frequência relativa (%) “Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito? Sabe o valor da taxa juro e outros encargos associados ao seu cartão de crédito?” Pagamento da totalidade no final do mês Sim, exatamente 564 31 Sim, por alto 42 Não sabe 27 Pagamento parcial Sim, exatamente 22 Sim, por alto 51 Não sabe 27 Não responde Sim, exatamente 13 Sim, por alto 17 Não sabe 70 “Utiliza o cartão de crédito para pagamento de despesas correntes?” Sim, frequentemente 23 Raramente 39 Não 37 Não responde 1 “Qual o esquema de pagamento que utiliza, habitualmente, para o cartão de crédito? Utiliza o cartão de crédito para pagamento de despesas correntes?” Pagamento da totalidade no final do mês Sim, frequentemente 564 25 Raramente 36 Não 39 Não responde 0 Pagamento parcial Sim, frequentemente 23 Raramente 45 Não 32 Não responde 0 Não responde Sim, frequentemente 17 Raramente 10 Não 67 Não responde 6 Fonte: Relatório do inquérito à literacia financeira da população portuguesa Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 127 Anexo III - Inquérito “Endividamento & Financial distress” Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 134 Tabela 27 – Matriz estruturada - correlação entre as variáveis e funções discriminantes daqueles que se encontram endividados Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e funções discriminantes (continuação) Função 1 2 Nº Filhosb ,176* ,046 Raramente espero que coisas boas aconteçam comigob ,167* ,144 Em geral espero que me aconteçam mais coisas boas do que másb ,163* -,083 Ter dívidas mostra que não consegue gerir as suas finanças de forma adequadab -,156* -,083 Nº Dependentesb ,152* ,111 Muitas vezes sinto que tenho pouca influência sobre as coisas que acontecem comigob ,149* ,069 Em momentos de incerteza geralmente espero que aconteça o melhorb ,149* ,036 Em geral as facilidades de crédito tornam a vida mais fácilb ,138* ,096 Femininob -,119* -,021 Quase nunca espero que as coisas funcionem como eu desejariab -,109* -,101 Fator: Crédito como normal vs. Crédito como incapacidadeb ,101* ,028 Trabalha p/c/ própria e/ou p/c/ outremb ,093* -,017 Agregadob ,089* ,070 Parceiro Trabalha p/ c/ própria e/ou p/ c/ outrem ,072* -,028 Parceiro Desempregadob ,066* -,060 É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro para talb ,040* ,001 Casadob -,005* -,003 Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonhab -,144 ,929* É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os querb ,086 -,457* Conseguir um bom emprego depende, principalmente, de estar no lugar certo à hora certab ,153 ,291* Locus Externob -,176 ,206* Viúvo/separado/divorciadob ,036 -,188* Euriborb ,040 -,167* Impulsividade dummyb ,068 -,167* Locus Externo dummyb -,014 -,164* Responsabilidadeb -,018 -,156* Excesso de confiançab -,060 -,153* Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizarb -,093 -,152* Spreadb ,145 -,150* Excesso de confiança intervalob -,026 -,137* Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 135 Tabela 27 – Matriz estruturada - correlação entre as variáveis e funções discriminantes daqueles que se encontram endividados Tabela 28 – Centroides: discriminação daqueles que se encontram endividados Functions at Group Centroids Dívidatotalrange Function 1 2 1 ,600 -,199 2 -,692 -,240 3 -,043 ,533 Unstandardized canonical discriminant functions evaluated at group means - Outputs obtidos para o segundo cenário, isto é para a discriminação dos indivíduos que detêm dívidas diferentes do crédito à habitação dos indivíduos que não possuem qualquer tipo de dívida. Tabela 29 – Valores Próprios: função que permite a discriminação do grupo de indivíduos que detem dívidas diferentes do crédito à habitação do grupo de indivíduos que não possuem qualquer tipo de dívida Eigenvalues Function Eigenvalue % of Variance Cumulative % Canonical Correlation 1 ,429a 100,0 100,0 ,548 a. First 1 canonical discriminant functions were used in the analysis. Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e funções discriminantes (continuação) Função 1 2 Fazer as coisas da maneira correta depende da capacidade; a sorte não tem nada a ver com issob ,122 -,126* Idadeb ,033 ,119* Fator: Crédito útilb -,047 ,114* Se alguma coisa ruim pode acontecer comigo vai acontecerb -,029 ,114* Desempregadob ,041 ,111* Muitas das infelicidades na vida das pessoas são, em parte, devido à má sorteb ,037 ,110* É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa delesb -,096 -,109* Notas: Variáveis ordenadas pelo valor absoluto de correlação na função. b. Esta variável não foi utilizada na análise. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 136 Tabela 30 – Wilks' Lambda: função que permite a discriminação do grupo de indivíduos que detem dívidas diferentes do crédito à habitação do grupo de indivíduos que não possuem qualquer tipo de dívida Wilks' Lambda Test of Function(s) Wilks' Lambda Chi-square df Sig. 1 ,700 18,188 4 ,001 Tabela 31 – Matriz estruturada - correlação entre as variáveis e função discriminante dos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante (continua) Função 1 Spread ,495 Agregado ,399 Rendimento familiara ,368 Nº Dependentesa ,340 Excesso de confiançaa -,325 Fator Locus Interno ,311 Locus Interno Dummya ,310 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros -,301 Em geral, espero que me aconteçam mais coisas boas do que más a -,298 É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles a -,296 Locus Internoa ,295 Escolaridade Intervaloa ,295 Crédito útil -,289 Escolaridadea ,286 Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizar a ,285 É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os quer a -,277 Responsabilidadea ,263 Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonha a -,232 Fator: Crédito como normal vs. Crédito como incapacidade -,229 O que acontece comigo é resultado das minhas próprias ações a ,188 Excesso de confiança intervaloa -,182 É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro para isso a ,175 Casadoa ,157 Sou sempre otimista quanto ao meu futuro a ,155 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 137 Tabela 31 – Matriz estruturada - correlação entre as variáveis e função discriminante dos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante (continuação) Função 1 Ficar endividado é errado e deve ser evitadoa ,148 Parceiro Trabalha p/c/ própria e/ou p/c/ outrema ,145 Rendimento Individuala ,136 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios a ,130 Muitas das infelicidades na vida das pessoas são, em parte, devido à má sorte a -,125 Muitas vezes sinto que tenho pouca influência sobre as coisas que acontecem comigo a ,113 Em momentos de incerteza, geralmente espero que aconteça o melhor a ,109 Idadea -,109 Conseguir um bom emprego depende, principalmente, de estar no lugar certo à hora certa a -,106 Fator locus de controlo externoa -,105 Atitude anti-dívidaa ,100 Fazer as coisas da maneira correta depende da capacidade; a sorte não tem nada a ver com issoa ,095 Viúvo/separado/divorciadoa -,089 Raramente espero que coisas boas aconteçam comigoa -,076 Parceiro Desempregadoa -,076 Locus Externoa -,073 Se alguma coisa ruim pode acontecer comigo vai acontecera -,065 Ter dívidas mostra que não consegue gerir as suas finanças de forma adequadaa ,065 Nº Filhosa ,063 Locus Externo dummya ,061 Quase nunca espero que as coisas funcionem como eu desejariaa ,056 Impulsividade dummya ,055 Femininoa -,041 Trabalha p/c/ própria e/ou p/c/ outrema ,036 Otimismoa -,035 Euribora ,033 Desempregadoa -,023 Otimismo dummya ,022 Impulsividadea ,016 Notas: Variáveis ordenadas pelo valor absoluto de correlação na função. c. Esta variável não foi utilizada na análise. Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 138 Tabela 32 – Centroides: discriminação dos indivíduos que possuem outras dívidas diferentes do crédito à habitação Functions at Group Centroids Dívidaoutrosdummy Function 1 0 ,448 1 -,921 Unstandardized canonical discriminant functions evaluated at group means - Outputs obtidos na discriminação dos indivíduos que se encontram com dificuldades financeiras dos restantes. Tabela 33 – Valores Próprios: função discriminante dos indivíduos que enfrentam dificuldades financeiras dos restantes Eigenvalues Function Eigenvalue % of Variance Cumulative % Canonical Correlation 1 ,213a 100,0 100,0 ,419 a. First 1 canonical discriminant functions were used in the analysis. Tabela 34 – Wilks' Lambda: função discriminante dos indivíduos que enfrentam dificuldades financeiras dos restantes Wilks' Lambda Test of Function(s) Wilks' Lambda Chi-square df Sig. 1 ,824 18,641 3 ,000 Tabela 35 – Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante dos indivíduos que enfrentam algum grau de dificuldade financeira Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante (continua) Função 1 Em momentos de incerteza geralmente espero que aconteça o melhor ,620 Desempregado ,598 Se alguma coisa ruim pode acontecer comigo então vai acontecer -,461 Trabalha p/c/ própria e/ou p/c/ outrema -,385 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 139 Tabela 35 – Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante dos indivíduos que enfrentam algum grau de dificuldade financeira Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante (continuação) Função 1 Rendimento Individuala -,376 Locus Externoa ,211 Ter dívidas mostra que não consegue gerir as suas finanças de forma adequada a ,203 Femininoa ,202 É melhor pedir dinheiro emprestado de modo a ter os bens agora, quando precisa deles a -,196 Muitas vezes sinto que tenho pouca influência sobre as coisas que acontecem comigo a ,184 Ter dívidas faz parte do quotidiano nos dias de hoje e não é não há do que ter vergonha a ,170 Excesso de confiançaa ,165 Otimismoa ,157 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida mais fácil, pois podem resolver problemas financeiros a ,153 Idadea -,148 Em geral, espero que me aconteçam mais coisas boas do que más a ,146 Conseguir um bom emprego depende, principalmente, de estar no lugar certo à hora certa a ,146 Em geral, as facilidades de crédito tornam a vida complicada, pois podem trazer problemas próprios a ,146 Escolaridade intervaloa -,141 Sou sempre otimista quanto ao meu futuroa ,140 Ficar endividado é errado e deve ser evitadoa ,139 Excesso de confiança intervaloa ,139 Locus Externo dummya ,131 Otimismo dummya ,118 Muitas das infelicidades na vida das pessoas são, em parte, devido à má sortea ,108 Nº Dependentesa -,103 É melhor poupar e só comprar um determinado bem quando tiver dinheiro para issoa ,095 Parceiro Trabalha p/c/ própria e/ou p/c/ outrema ,083 Impulsividadea -,074 Casadoa ,070 NºFilhosa -,061 Quase nunca espero que as coisas funcionem como eu desejariaa ,055 Rendimento familiara -,054 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 140 Tabela 35 – Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante dos indivíduos que enfrentam algum grau de dificuldade financeira Matriz estruturada – correlação entre as variáveis e função discriminante (continuação) Função 1 O que acontece comigo é resultado das minhas próprias açõesa -,052 Locus Internoa -,040 Agregadoa ,034 Raramente espero que coisas boas aconteçam comigoa -,027 Quando faço planos, tenho quase a certeza de que os consigo realizara -,025 Parceiro Desempregadoa -,022 Viúvo/separado/divorciadoa -,018 Nortea -,013 É melhor pedir dinheiro emprestado de forma a ter os bens agora, quando os quera ,005 Fazer as coisas da maneira correta depende da capacidade; a sorte não tem nada a ver com issoa ,001 Notas: Variáveis ordenadas pelo valor absoluto de correlação na função. a. Esta variável não foi utilizada na análise. Tabela 36 – Centroides: discriminação dos indivíduos que enfrentam algum grau de dificuldade financeira Functions at Group Centroids DificuldadesFinanceiras Function 1 1 -,365 2 ,572 Unstandardized canonical discriminant functions evaluated at group means Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 141 Anexo V - Análise Probit Figura 2 – Output da regressão probit para a variável dummy “endividado” _cons 3.862913 1.833234 2.11 0.035 .26984 7.455986 muitasdasinfelicidadesnavidadasp -.1963994 .1733857 -1.13 0.257 -.5362291 .1434303 fazerascoisasdamaneiracorretadep 0 (omitted) oqueacontececomigoresultadodasmi .3283945 .2647876 1.24 0.215 -.1905797 .8473687 quandofaoplanostenhoquaseacertez .1299092 .2465377 0.53 0.598 -.3532958 .6131142 locusinterno -.3483469 .1763851 -1.97 0.048 -.6940553 -.0026385 var54 -.2850241 .1713499 -1.66 0.096 -.6208637 .0508155 emgeralasfacilidadesdecrditotorn .3176752 .1652284 1.92 0.055 -.0061666 .6415169 terdvidasfazpartedoquotidianonos -.1885906 .1631404 -1.16 0.248 -.50834 .1311588 melhorpedirdinheiroemprestadodem .4573436 .1924226 2.38 0.017 .0802023 .8344849 raramenteesperoquecoisasboasacon -.623703 .2362274 -2.64 0.008 -1.0867 -.1607057 sousempreotimistaquantoaomeufutu -.6016515 .2121143 -2.84 0.005 -1.017388 -.1859151 sealgumacoisaruimpodeacontecerco -.4706465 .2327931 -2.02 0.043 -.9269126 -.0143803 otimismo .2151208 .0960311 2.24 0.025 .0269034 .4033382 excessodeconfiana -.0299303 .0136457 -2.19 0.028 -.0566754 -.0031852 rendimentoindividual .6419914 .3304917 1.94 0.052 -.0057604 1.289743 rendimentofamiliar -.6113212 .3602261 -1.70 0.090 -1.317351 .0947091 vivoseparadodivorciado .5917958 1.039875 0.57 0.569 -1.446321 2.629913 casado 1.220023 .6162794 1.98 0.048 .0121373 2.427908 ndependentes .1337831 .2983584 0.45 0.654 -.4509886 .7185549 agregado -.4553226 .2672028 -1.70 0.088 -.9790306 .0683853 parceirotrabalhapcprpriaeoupcout 1.195116 .4724014 2.53 0.011 .2692263 2.121006 parceirodesempregado 1.28271 .7716712 1.66 0.096 -.2297382 2.795157 trabalhapcprpriaeoupcoutrem -.9964898 .6601294 -1.51 0.131 -2.29032 .2973401 desempregado -.4256598 .78244 -0.54 0.586 -1.959214 1.107894 feminino .7377378 .4320569 1.71 0.088 -.1090782 1.584554 dvidadummy Coef. Std. Err. z P>|z| [95% Conf. Interval] Log likelihood = -40.418137 Pseudo R2 = 0.3823 Prob > chi2 = 0.0014 LR chi2(24) = 50.02 Probit regression Number of obs = 99 Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 142 Figura 3 – Output obtido pela regressão probit, dos efeitos marginais, para a variável dummy “endividado” (*) dy/dx is for discrete change of dummy variable from 0 to 1 muitas~p -.0695234 .06105 -1.14 0.255 -.18917 .050123 1.48485 oqueac~i .1162483 .09309 1.25 0.212 -.066212 .298709 2.76768 quando~z .0459865 .08722 0.53 0.598 -.124956 .216929 2.56566 locusi~o -.1233113 .06226 -1.98 0.048 -.245336 -.001286 7.87879 var54 -.1008956 .0604 -1.67 0.095 -.219277 .017485 2.70707 emgera~n .1124538 .05761 1.95 0.051 -.000467 .225375 1.90909 terdvi~s -.0667592 .05745 -1.16 0.245 -.179362 .045844 1.90909 melhor~m .161895 .06894 2.35 0.019 .026766 .297024 1.46465 rarame~n -.2207845 .08192 -2.70 0.007 -.381348 -.060221 2.48485 sousem~u -.2129785 .07584 -2.81 0.005 -.361628 -.064329 2.42424 sealgu~o -.1666041 .08327 -2.00 0.045 -.329802 -.003406 2.58586 otimismo .0761506 .03396 2.24 0.025 .009595 .142707 15.1414 excess~a -.010595 .0048 -2.21 0.027 -.019994 -.001196 16.6162 rendim~l .2272585 .11747 1.93 0.053 -.002974 .457491 2.72727 rendim~r -.2164015 .12682 -1.71 0.088 -.464968 .032165 3.53535 vivose~o* .1772017 .24902 0.71 0.477 -.310863 .665267 .060606 casado* .4528475 .21291 2.13 0.033 .035543 .870152 .767677 ndepen~s .0473579 .1059 0.45 0.655 -.160206 .254922 1.0404 agregado -.1611796 .09549 -1.69 0.091 -.348341 .025982 3.28283 parcei~t* .4227731 .155 2.73 0.006 .11897 .726577 .59596 parcei~o* .3198401 .11405 2.80 0.005 .096313 .543367 .131313 trabal~m* -.3015921 .1624 -1.86 0.063 -.619884 .0167 .727273 desemp~o* -.1589479 .30204 -0.53 0.599 -.750945 .433049 .161616 feminino* .2654912 .15276 1.74 0.082 -.033916 .564898 .606061 variable dy/dx Std. Err. z P>|z| [ 95% C.I. ] X = .6875704 y = Pr(dvidadummy) (predict) Marginal effects after probit Uma análise comportamental aos inquéritos sobre endividamento dos particulares em Portugal Mestrado em Finanças 143 Figura 4 – Output da regressão probit e dos efeitos marginais para a variável dummy “apenas outras dívidas” (*) dy/dx is for discrete change of dummy variable from 0 to 1 locuse~o .0362933 .02882 1.26 0.208 -.020193 .09278 5.45455 locusi~o -.1057628 .04378 -2.42 0.016 -.191564 -.019961 8.07273 impuls~e .0608085 .056 1.09 0.277 -.04894 .170557 .763636 excess~a -.0039186 .00333 -1.18 0.240 -.010449 .002612 17 rendim~l -.0622363 .09474 -0.66 0.511 -.247923 .123451 2.8 rendim~r -.0414491 .12191 -0.34 0.734 -.280384 .197486 3.69091 vivose~o* .9471288 . . . . . .072727 casado* .4085326 .136 3.00 0.003 .141969 .675096 .654545 ndepen~s .424183 .17975 2.36 0.018 .071882 .776484 .836364 nfilhos -.6661816 .21799 -3.06 0.002 -1.09343 -.238929 1.18182 agregado -.1764495 .0758 -2.33 0.020 -.325021 -.027878 3.16364 trabal~m* -.7425444 .25745 -2.88 0.004 -1.24713 -.23796 .745455 desemp~o* -.2604479 .10494 -2.48 0.013 -.466135 -.054761 .127273 feminino* .2274946 .1217 1.87 0.062 -.011028 .466018 .618182 variable dy/dx Std. Err. z P>|z| [ 95% C.I. ] X = .11812993 y = Pr(dvidaoutrosdummy) (predict) Marginal effects after probit warning: derivative missing; try rescaling variable vivoseparadodivorciado . mfx Note: 2 failures and 0 successes completely determined. _cons 8.306677 3.606642 2.30 0.021 1.237789 15.37556 locusexterno .1834528 .1582596 1.16 0.246 -.1267303 .4936359 locusinterno -.5346026 .223682 -2.39 0.017 -.9730112 -.0961939 impulsividade .3073705 .3064089 1.00 0.316 -.2931799 .907921 excessodeconfiana -.0198072 .0171908 -1.15 0.249 -.0535006 .0138861 rendimentoindividual -.3145878 .4909218 -0.64 0.522 -1.276777 .6476013 rendimentofamiliar -.2095141 .6158306 -0.34 0.734 -1.41652 .9974918 vivoseparadodivorciado 5.957992 3.006975 1.98 0.048 .0644295 11.85155 casado 2.769035 1.175345 2.36 0.018 .465402 5.072669 ndependentes 2.144131 1.209726 1.77 0.076 -.2268887 4.515152 nfilhos -3.36737 1.422534 -2.37 0.018 -6.155486 -.5792536 agregado -.8919049 .4654248 -1.92 0.055 -1.804121 .0203109 trabalhapcprpriaeoupcoutrem -2.601907 1.299795 -2.00 0.045 -5.149459 -.054355 desempregado -4.261897 2.025901 -2.10 0.035 -8.232591 -.2912035 feminino 1.333586 .7929304 1.68 0.093 -.2205288 2.887701 dvidaoutrosdummy Coef. Std. Err. z P>|z| [95% Conf. Interval] Log likelihood = -19.692084 Pseudo R2 = 0.4337 Prob > chi2 = 0.0073 LR chi2(14) = 30.16 Probit regression Number of obs = 55