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contributo para a avaliação de riscos ocupacionais no setor petrolífero: estudo de caso numa refinaria

Ana Gonçalves Cardoso

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Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto Rua Dr. Roberto Frias, s/n 4200-465 Porto PORTUGAL VoIP/SIP: [email protected] ISN: 3599*654 Telefone: +351 22 508 14 00 Fax: +351 22 508 14 40 URL: http://www.fe.up.pt Correio Electrónico: f[email protected] MESTRADO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA E HIGIENE OCUPACIONAIS Dissertação apresentada para obtenção do grau de Mestre em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto CONTRIBUTO PARA A AVALIAÇÃO DE RISCOS OCUPACIONAIS NO SETOR PETROLÍFERO: ESTUDO DE CASO NUMA REFINARIA Ana Gonçalves Cardoso Orientador: Professor Doutor Miguel Tato Diogo (FEUP) Coorientador: Investigadora Sameiro Queirós Domingues (FEUP) Arguente: Professor Doutor Fernando Pedro Ortega Oliveira Figueiredo (FCTUC) Presidente do Júri: Professor Doutor João Manuel Abreu dos Santos Baptista (FEUP) _____________________ 2013 Contributo para a avaliação de riscos ocupacionais no setor petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria i AGRADECIMENTOS Não existem palavras que consigam expressar o reconhecimento que se sente em relação aqueles, que colaboraram comigo, de um modo direto ou indireto para que esta Dissertação – contributo para a avaliação de riscos ocupacionais no setor petrolífero – possa ter acontecido. Assim não quero deixar de referir quem me prestou tamanha ajuda pelo que quero agradecer: À minha família, namorado e amigos que tanto me apoiaram nesta fase de menor disponibilidade e a quem, ao mesmo tempo aproveito para endereçar um pedido de desculpas por ter estado menos presente e por tal, ter sido motivo de preocupação. Ao Prof. Doutor Miguel Tato Diogo, meu orientador igualmente pela sua disponibilidade e apoio no desenvolvimento desta dissertação; À Mestre Eng.ª Sameiro Queirós de quem me socorri inúmeras vezes pelo vasto conhecimento na área; Ao Eng.º José Meireles Martins da Galp Energia-Refinaria de Matosinhos que acolheu o meu estágio com grande interesse e pelo seu auxílio, sabedoria, disponibilidade e colaboração prestados; Ao Eng.º Carlos Otero do Instituto de Soldadura e Qualidade – ISQ, pelo seu apoio e palavras de incentivo na realização deste trabalho; Aos Eng.ºs Ana Sofia Roçadas, André Fernandes e ao Carlos Magalhães que foram incansáveis na colaboração, apoio e interesse que demonstraram no caso em estudo; A todos os colaboradores da Galp, na figura dos seus responsáveis e em particular a todos os trabalhadores e técnicos de segurança e saúde no trabalho que tão prontamente colaboraram e tornaram possível o estudo do objeto de análise desta Dissertação; Aos meus colegas que sempre que solicitados, se disponibilizaram para prestar uma valiosa ajuda. Contributo para a avaliação de riscos ocupacionais no setor petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria iii RESUMO O petróleo é uma das matérias-primas mais importantes do mundo. Num planeta em que o estilo de vida está cada vez mais dependente da mobilidade de pessoas, o transporte rápido tornou-se indispensável. Sendo o petróleo uma das fontes de energia de utilização mais importante, a sua transformação em produto consumível constitui-se como uma das atividades mais importantes. Uma refinaria é uma estrutura industrial que integra um universo de complexos processos físicos e químicos que visam a produção eficaz destes mesmos produtos. A complexidade inerente a estes processos de transformação do petróleo torna esta indústria particularmente necessitada de uma forte cultura de segurança. Assim, a abordagem específica aos fatores das metodologias de avaliação de riscos revela-se pertinente. Nesta perspetiva o estudo aqui apresentado procura analisar a perceção do risco dos trabalhadores como fator influenciador da avaliação dos mesmos. A elaboração desta dissertação foi possível pela realização de um estágio numa refinaria. O estágio teve lugar durante um particular período, um período de paragem técnica de manutenção, em que foi caracterizado como fator influenciador da avaliação de riscos, a perceção de risco dos trabalhadores. Para análise da perceção do risco foi utilizado um questionário que permitiu conhecer o nível de segurança sentido por estes e a interpretação que dão aos riscos a que estão expostos no seu quotidiano. Na generalidade, os trabalhadores sentem-se seguros relativamente aos riscos existentes na refinaria. Com base na análise das respostas obtidas é proposta uma metodologia de avaliação de riscos em que a perceção de risco dos trabalhadores é utilizada como estratégia para avaliar os mesmos, numa perspetiva integrada do sistema ocupacional. A integração das diferentes perspetivas dos constituintes do sistema ocupacional, ou seja, do trabalhador, técnico de segurança e gestor, na avaliação de riscos, possibilita uma avaliação mais aproximada da realidade organizacional. Como tal, considera-se que a perceção do risco pode ser integrada no ciclo de gestão do mesmo com vista à melhoria das condições de segurança e saúde no trabalho. Palavras-chave: risco ocupacional, setor petrolífero, refinaria, avaliação de riscos, perceção do risco Contributo para a avaliação de riscos ocupacionais no setor petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria v ABSTRACT Oil is one of the most important raw materials in the world. In a world where lifestyle is increasingly dependent on the mobility of people, rapid transportation has become crucial. As one of the main sources of energy, oil transformation into consumable products has been established as one of the activities with most impact worldwide. A refinery is an industrial plant that integrates a universe of complex physical and chemical processes capable of producing these products. The inherent complexity in these processes turns this industry specifically in need of a strong safety culture. Thus, the specific approach to the factors of risk assessment methodologies acquires particular relevance. Regarding this, the study here presented analyzes the workers risk perception as an influencing factor of risk assessment. This dissertation was only possible with the attendance of an internship in an oil refinery. The internship was conducted during a refinery maintenance turnaround. This was the period where workers risk perception has been analyzed as a factor capable of influencing risk assessment. To analyze the perceived risk it was used a questionnaire that provided information about the level of security felt by workers while working and their interpretation about the risks they are exposed to. In general, workers feel secure considering occupational risks present in the refinery. Based on responses analysis it is proposed a risk assessment methodology in which workers risk perception is used as a strategy to evaluate the risks in an integrated perspective of the occupational system. Integrating different perspectives of the occupational system elements, such as workers, safety representative and manager in risk assessment, allows a more accurate evaluation of organizational reality. As such, it is considered that risk perception can be integrated into the risk management cycle in order to improve safety and health at work. Keywords: occupational risk, oil and gas industry, oil refinery, risk assessment, risk perception Contributo para a avaliação de riscos ocupacionais no setor petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria vii ÍNDICE 1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 1 2 ESTADO DA ARTE / REVISÃO DA LITERATURA ................................................. 3 2.1 Referenciais Tecnológicos e de Contexto ............................................................... 3 2.1.1 Ciclo de vida do Petróleo ................................................................................ 4 2.1.2 Refinarias de Petróleo ...................................................................................... 6 2.1.3 Guias de boas práticas ..................................................................................... 9 2.2 Enquadramento Legal e Normativo ...................................................................... 12 2.2.1 Legislação aplicável à indústria petroquímica............................................... 12 2.2.2 Legislação relacionada com a gestão do risco ............................................... 13 2.2.3 Normas aplicáveis à gestão dos riscos ........................................................... 15 2.2.4 Normas aplicáveis à indústria petrolífera ...................................................... 16 2.3 Conhecimento Científico ...................................................................................... 18 2.3.1 Função Risco ................................................................................................. 18 2.3.2 Riscos Ocupacionais ...................................................................................... 19 2.3.3 Modelos de gestão do risco ........................................................................... 21 2.3.4 Caracterização da perceção do risco .............................................................. 24 2.3.5 Fatores influenciadores da perceção do risco ................................................ 25 2.3.6 Teorias da Perceção do Risco ........................................................................ 36 3 OBJETIVOS, MATERIAIS E MÉTODOS .................................................................. 43 3.1 Objetivos da Dissertação ...................................................................................... 43 3.2 Materiais e Métodos .............................................................................................. 43 3.2.1 Materiais ........................................................................................................ 44 3.2.2 Métodos ......................................................................................................... 47 4 RESULTADOS ............................................................................................................ 51 4.1 Análise dos dados obtidos ..................................................................................... 51 5 DISCUSSÃO ................................................................................................................ 71 6 CONCLUSÕES E PERSPETIVAS FUTURAS ........................................................... 77 6.1 Conclusões ............................................................................................................ 77 6.2 Perspetivas Futuras ............................................................................................... 78 7 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................... 79 8 ANEXOS ........................................................................................................................ 1 Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 1 1 INTRODUÇÃO Gerir o risco de forma eficaz exige a compreensão da natureza do problema, do que constitui uma boa prática e como esta pode ser administrada e fundamentada. Os sistemas de gestão de segurança têm como objetivo manter o risco ocupacional num intervalo considerado aceitável. Assim, para estabelecer um sistema de gestão de segurança, as organizações privilegiam as normas, boas práticas e funções de gestão implementando uma metodologia organizacional que faz com que as empresas atuem de acordo com a legislação e normas adequadas, o que, apesar de necessário, pode não ser suficiente para que a gestão do risco seja eficaz. Daí que melhorar a segurança e saúde seja fundamental para todas as indústrias e, mais concretamente, para a indústria petrolífera. Esta melhoria pode ser verificada com base na implementação das recomendações incluídas nos manuais da especialidade, normas, legislação e conhecimento científico. Deve ser constante a integração do ser humano como fator essencial do ciclo do risco pela forma como o conhece, assimila, identifica e interage com o mesmo. O compromisso da gestão com a segurança é necessário mas, a verdadeira excelência de segurança requer o envolvimento de todas as pessoas da organização. Tal empenhamento beneficia a organização na sua totalidade. A concentração do esforço organizacional numa cultura de participação e envolvimento de todos os trabalhadores torna possível atingir o objetivo de zero acidentes. Organizações de segurança crítica como as militares, aviação, serviços de emergência e outras indústrias de elevado risco, estão associadas a uma série de potenciais fatores de stress que podem ter um impacto negativo na saúde e satisfação no trabalho de seus trabalhadores (Nielsen, Mearns, Matthiesen, & Eid, 2011). Trabalhar na indústria petrolífera envolve a exposição a uma série de riscos, alguns com potencial catastrófico tais como incêndios e explosões, que podem influenciar o bem-estar e satisfação do trabalhador. Por isso, a indústria do petróleo pode ser caracterizada como uma organização de segurança crítica (Crichton, 2005; Nielsen et al., 2011). A maneira como o trabalhador considera estar exposto a uma ameaça para a sua segurança e saúde, depende de uma série de fatores como a exposição, fatores biológicos, psicossociais e físicos. Destes é possível considerar o facto de a exposição ser ou não voluntária, o indivíduo sentir que tem controlo sobre o risco, que o mesmo lhe é familiar e conhecido, que conhece o potencial alvo, o seu efeito no tempo e o medo que possa sentir. Todos estes e outros fatores são capazes de explicar a perceção do risco (P. Slovic, 2000). Quando os trabalhadores acreditam que a segurança é de facto um valor organizacional a partilhar, contribuem com esforço adicional de modo a melhorar a mesma e demonstram menos propensão para cederem às pressões que conduzem à eliminação das práticas de trabalho seguro. A perceção do risco pode ser vista como estratégia de prevenção sendo aplicada pela determinação da perceção da probabilidade de ocorrência assim como pela determinação da perceção das consequências e seu efeito, em extensão e no tempo. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 2 Introdução A perceção do risco está presente em qualquer momento da vida do indivíduo e, especificamente, no quotidiano laboral. A capacidade de identificar e avaliar o risco de forma subjetiva está dependente de vários fatores intrínsecos ao indivíduo e à sua interação com o meio ambiente. A segurança deve ser um processo cooperativo, onde todos participam podendo contribuir com algo de significativo para melhorar as condições ocupacionais. Como tal, é pertinente a integração das perceções de riscos dos trabalhadores na gestão da segurança do trabalho (Areosa, 2012a). Deste modo, nesta perspetiva o estudo aqui apresentado divide-se em duas partes, na revisão bibliográfica e numa parte empírica em que se procurou integrar a perceção do risco dos trabalhadores de uma refinaria, no ciclo de gestão do mesmo, como fator influenciador da sua avaliação. Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 3 2 ESTADO DA ARTE / REVISÃO DA LITERATURA Este capítulo procura introduzir, contextualizar e fundamentar a dissertação. Em primeiro lugar faz-se uma abordagem ao ciclo de vida do petróleo que é contexto base da indústria caracterizada na dissertação. Procura-se explicar as etapas e processos inerentes à utilização deste ou, mais propriamente, dos seus produtos. Após enquadramento da indústria é abordado o contexto ocupacional em que é realizado o estudo, isto é, uma refinaria, onde se desenvolve o objeto de estudo, os riscos ocupacionais. Os guias de boas práticas apresentados – referenciais tecnológicos – permitiram o desenvolvimento e fundamentação do estado da arte. É caracterizado ainda o enquadramento legal e normativo aplicáveis à indústria de refinação do petróleo. Contextualizado o cenário que permitiu a realização do estudo, aprofunda-se com o conhecimento científico, o objeto do estudo, ou seja, os riscos ocupacionais, a sua identificação, caracterização, avaliação e perceção pelos trabalhadores de uma refinaria. 2.1 Referenciais Tecnológicos e de Contexto Figura 1 - Ciclo de vida do Petróleo O petróleo, sendo a matéria-prima mais importante do mundo, é nas ciências a nível global uma referência. Num planeta assente na elevada mobilidade de pessoas, o transporte rápido tornou-se uma necessidade muito importante. É certo que o transporte, e a obtenção de conforto não se conseguem sem fontes de energia, e sendo o petróleo a de utilização mais importante, a sua transformação em produto final constitui-se como uma das atividades mais Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 4 Estado da arte vitais para o funcionamento dos países. Para tal, são várias as etapas desde o seu processo de extração até à sua utilização como produto. A figura 1 ilustra as principais etapas a que o petróleo é sujeito e produtos obtidos, desde a sua exploração até ao seu consumo. Todas essas etapas exigem um planeamento eficaz, coordenado e fundamentado em procedimentos de segurança. Neste ponto, especificar-se-á em particular, a etapa da indústria de refinação do petróleo, com foco principal na gestão do risco ocupacional. 2.1.1 Ciclo de vida do Petróleo O petróleo bruto, ou crude, é um combustível fóssil. Quer isto dizer que, de acordo com a teoria orgânica da formação do petróleo, este tem origem na acumulação dos hidrocarbonetos provenientes de seres vivos que resultaram da ação do calor sobre matéria orgânica (Hunt, 1996). Origem O petróleo forma-se no seio de rochas sedimentares por transformação gradual. Tem a capacidade de se mover através dos poros das rochas sendo por isso muito raro encontrar petróleo em quantidades significativas no seu local de origem. Os jazigos petrolíferos consistem em barreiras naturais que impedem a migração do petróleo e como tal, fazem com que este se acumule. A matéria orgânica, devido à pressão e temperatura exercida, é crucial para a formação do petróleo. As rochas sedimentares são geralmente constituídas por matéria orgânica de origem animal e vegetal (Pulido & da Fonseca, 2004). O início do processo de transformação do petróleo dá-se com a diagénese em que há alteração biológica e físico-química dos detritos orgânicos devido à expulsão gradual da água das camadas sedimentares, ao aumento da temperatura, pressão exercida e à ação de microrganismos aeróbios que transformam a matéria orgânica em querogénio. Entretanto, o processo de subsidência vai aumentando e com o aumento da temperatura e pressão, entra numa nova fase, a catagénese (Hunt, 1996). Na catagénese, a compactação aumenta, a permeabilidade e a porosidade das rochas diminuem e o querogénio é transformado em betume e posteriormente, em petróleo, para finalmente se transformar em condensado e gás. A deslocação do petróleo é interrompida quando surge uma barreira que impeça o movimento, fazendo com que este se acumule nos chamados jazigos ou rochas reservatório (Hunt, 1996; Pulido & da Fonseca, 2004). Composição Os hidrocarbonetos são os componentes essenciais do petróleo. Consistem em moléculas formadas a partir da ligação entre átomos de carbono e de hidrogénio ligados entre si, formando moléculas com as mais diversas combinações e configurações. O hidrocarboneto mais simples tem quatro átomos de hidrogénio, o metano que tem a fórmula CH4 e é o Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 5 principal componente do gás natural (Pulido & da Fonseca, 2004; Waquier, 1995). As ligações estabelecidas entre os hidrocarbonetos dependem das valências dos átomos. O hidrogénio tem uma valência e o carbono tem quatro, dando origem à molécula do metano. Este é o princípio de praticamente todas as moléculas do petróleo e gás (Waquier, 1995). Classificação O petróleo pode ser classificado consoante a sua composição química, ou seja, consoante a estrutura, ligações estabelecidas e número de hidrocarbonetos, podendo ser: parafinas, naftenos e aromáticos. As parafinas são hidrocarbonetos alifáticos saturados podendo ser de cadeia linear ou ramificada; os naftenos são hidrocarbonetos saturados de cadeia cíclica e os aromáticos são hidrocarbonetos insaturados cíclicos que reagem com a adição de hidrogénio ou outros componentes ao anel. O petróleo pode ainda ser caracterizado consoante as suas frações: leve, média e pesada ou a sua concentração de enxofre. O crude contém também impurezas, compostos como o enxofre, indesejáveis devido ao facto de aumentarem a estabilidade das emulsões, provocarem corrosão nos equipamentos, contaminam catalisadores e por produzirem óxidos de enxofre e afetarem a qualidade ambiental. Podem surgir sob a forma de sulfetos, polissulfetos, moléculas policíclicas com azoto e oxigénio, ácido sulfídrico (H2S), entre outras (Szklo, 2005). A proporção de hidrocarbonetos no crude condiciona o produto obtido a partir do petróleo. A caracterização do crude é realizada de acordo com o comportamento dos hidrocarbonetos mediante características como a densidade, viscosidade, ponto de fluidez, cor e odor. Cada tipo de petróleo tem diferentes composições químicas que vão condicionar a sua caracterização. A quantidade de carbonos presentes condiciona, por exemplo, a curva típica de destilação de um determinado tipo de petróleo. O aumento do peso molecular dos compostos de hidrocarbonetos faz com que a volatilidade diminua e, consequentemente, a temperatura de ebulição aumente. A diferença de volatilidade entre os constituintes do petróleo é a base do seu processo de separação. Extração e transporte para as refinarias Após descoberta do reservatório de petróleo com auxílio de técnicas geoquímicas (Magoon, Dow, & Geologists, 1994), é realizada a marcação da área, podendo esta ser em terra ou mar. Em terra é realizada a perfuração do solo de forma a verificar se existe de facto petróleo e se este é viável. No mar, a perfuração é realizada com recurso a plataformas marítimas ou navios de perfuração. O crude é normalmente transportado para as refinarias por navios-tanque ou por pipelines, onde é armazenado em tanques cilíndricos de teto fixo ou flutuante. O armazenamento temporário do crude pode ser subterrâneo, submerso ou de superfície (Elvers, 2008). Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 6 Estado da arte Processos de separação e tratamento do crude A complexidade e diversidade das moléculas constituintes do crude não permitem a sua utilização industrial ou comercial direta. Para que possa ser utilizado para estes fins é necessário que ocorram uma série de processos que permitam a sua separação e tratamentos, de forma a produzir uma série de produtos ou subprodutos, tão presentes no quotidiano atual. Uma refinaria é uma estrutura industrial bastante complexa que integra diversos processos físicos e químicos que visam a produção eficaz destes mesmos produtos. O universo de operações realizadas para a obtenção dos produtos finais é diverso mas podem ser divididos em três categorias: separação, conversão e acabamento (Riazi, 2005). Destes fazem parte processos em que há rejeição de carbonos (ex: visbreaking, craqueamento catalítico FCC); processos em que há consumo de hidrogénio (ex: hidrocraqueamento) e processos de separação (ex: destilação e desasfaltação) (James Speight, 2001). Na figura 1 são ilustrados alguns dos métodos de tratamento físicos e químicos realizados em refinarias. Ao serem efetuados processos como a destilação, extração, reformação, hidrogenação, craqueamento e blending é possível converter o petróleo bruto em produtos de elevado valor (Babich & Moulijn, 2003), nomeadamente em produtos combustíveis como a gasolina, gasóleo, óleo combustível, GPL; produtos não combustíveis como solventes, lubrificantes, asfalto e coque; e produtos intermediários da indústria química como nafta, propano, butano, Benzeno-Tolueno-Xileno (BTX), entre outros. No anexo A, que consta em CD, encontra-se um enquadramento do ciclo de vida do petróleo mais aprofundado. 2.1.2 Refinarias de Petróleo Contexto ocupacional de refinarias Uma refinaria consiste numa instalação industrial constituída por uma série de unidades fabris que operam de forma altamente integrada para que se possam obter diferentes produtos a partir do petróleo para distribuição e consumo, de forma a serem autossuficientes em termos energéticos (Babich & Moulijn, 2003). Normalmente, a divisão entre unidades ocorre pela diversidade, interligação e especificidade das operações nelas desempenhadas. Estas unidades constituem um universo composto por tanques, fornalhas, torres de destilação, reatores, permutadores, bombas, tubagens e válvulas (Ontario, 2007). A refinaria, enquanto instalação com tecnologia de ponta, está sujeita a intervenções de manutenção. A manutenção pode surgir em duas fases distintas podendo ser preditiva, preventiva ou corretiva. Conforme sugerido pela designação, a manutenção preventiva surge num momento definido, de forma programa e planeada. A distinção entre esta e a preditiva está na calendarização sendo que a preditiva é adaptada continuamente, às condições do equipamento (Wallace & Merritt, 2003). Já a corretiva surge após ocorrência de algum tipo de anomalia no processo industrial (Padmanabhan, 2009). Em estabelecimentos industriais complexos como as refinarias, na manutenção programada constam as paragens técnicas para manutenção dos equipamentos que visam a preparação das instalações para que os novos ciclos produtivos decorram de forma eficaz, segura e fiável Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 7 (Alkhamis & Yellen, 1995; Shaligram Pokharel, 2008). Durante essas paragens realizam-se atividades de inspeção, reparação e ensaios que só são possíveis de executar pelo facto de a instalação não estar em funcionamento. As paragens técnicas podem afetar uma ou várias unidades, mediante as necessidades da refinaria (Alkhamis & Yellen, 1995). Este tipo de intervenção implica perda de produção que dado o volume de material e impacto da indústria, tem efeitos económicos e de mercado bastante significativos, pelo que é planeada para períodos curtos (Shaligram Pokharel, 2008). Os trabalhos a executar na paragem de manutenção programada consistem na inspeção de equipamentos e instalações, desmontagem ou montagem dos equipamentos, demolição ou construções de instalações, reparações mecânicas e elétricas, limpeza de equipamentos e instalações, armazenagem de equipamentos, componentes e materiais, movimentação e transporte de equipamentos e respetivos componentes bem como materiais. A diversidade de operações realizadas durante uma paragem técnica implica também um elevado número de trabalhadores, em particular colaboradores externos, com competências bastante distintas, nomeadamente, das atividades de metalomecânica, eletricidade, limpeza industrial, automação e controlo, entre outras (Duffuaa & Daya, 2004). Os trabalhos executados durante a manutenção têm sempre associados um organismo inspetor que certifica que a sua realização está de acordo com as normas (Sanders, 2004). Os equipamentos que constituem uma refinaria, em condições normais de funcionamento são, na sua maioria, circuitos de condutas para transporte de fluidos, o que diminui a probabilidade de exposição ao risco. Contudo, este nunca deve ser menosprezado pelo que é essencial uma manutenção adequada e a aplicação de boas práticas quer para o projeto quer para a construção e elaboração de procedimentos. O trabalhador deve aplicar os conhecimentos de práticas seguras em todos os momentos de execução do trabalho seja em fase de manutenção, reparação ou instalação de equipamentos (Ontario, 2007). Na fase de paragem técnica, há um desvio das operações rotineiras o que requer uma cuidada preparação e programação dos trabalhos por parte de uma equipa multidisciplinar bem como, procedimentos detalhados e eficazmente coordenados (Duffuaa & Daya, 2004), sendo o fator humano crítico na articulação dos trabalhos a realizar. Na indústria química, a maior causa de erro humano tem origem na omissão provocado por lapsos de memória que podem ter origem em tarefas com elevada carga de informação, etapas isoladas do processo, alterações na rotina ou após interrupções inesperadas (Ávila, Pessoa, & Andrade, 2013). As atividades de manutenção representam um universo único de riscos ocupacionais resultantes do trabalho em altura, intervenções em equipamentos que possam originar libertação de energia elétrica ou transferência de energia mecânica, entre outros. É também de considerar o facto de muitas vezes estarem contempladas aberturas de equipamentos que podem envolver situações não previstas como agentes químicos perigosos e produtos residuais em elevadas quantidades ou pressão. A falha no cumprimento dos procedimentos pode despoletar uma situação potencialmente catastrófica (Wallace & Merritt, 2003). Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 8 Estado da arte Caracterização ocupacional da Galp Energia - Refinaria de Matosinhos A gestão do risco é contemplada na Galp Energia - Refinaria de Matosinhos pela aplicação de medidas que visam a redução da exposição ao risco ou das suas consequências. Destas, são exemplo os sistemas de autorização de trabalho, sistemas de alarme e procedimentos de emergência, prevenção de acidentes graves, análises de risco, procedimentos de trabalho, planos de segurança e saúde, entre outros. Uma obra, seja de manutenção ou de construção, tem início com a emissão de um caderno de encargos, um documento de caráter técnico e económico, que contém especificações referentes à obra, elaboradas pelo gestor do investimento ou pelo responsável da área processual. Estas especificações são emitidas com base nas recomendações efetuadas pelas áreas de inspeção estática e dinâmica, segurança, ambiente e outras possíveis áreas intervenientes. Durante a elaboração do caderno de encargos há uma reunião que consiste numa avaliação sistemática de uma operação a fim de identificar potenciais perigos, designada como Hazard Identification (HAZID) em fase de projeto, cujo resultado é incluído no documento final. Isto com o objetivo de as empresas poderem conhecer as preocupações iniciais da refinaria e o impacto da obra na mesma. A empresa é selecionada com base na resposta às solicitações do caderno de encargos sendo então emitido um parecer técnico para que a empresa seja adjudicada. Já em fase de obra, é realizado um novo HAZID com o objetivo de otimizar o realizado anteriormente em fase de projeto. É verificado se houve alterações das condições iniciais e se é necessário acrescentar novas recomendações ou alterá-las. O coordenador de segurança participa em todo o processo, desde a fase de projeto até à conclusão da obra. O mesmo também define o documento a utilizar como base para as práticas seguras, analisa-o e valida-o. Mediante a dimensão da obra, podem ser utilizados um plano de segurança e saúde ou um dossier de segurança (fichas de procedimentos de segurança segundo o Decreto-Lei n.º 273/2003). Qualquer que seja o documento é sempre incluída a avaliação de riscos. Estágio na Galp Energia - Refinaria de Matosinhos Efetuar um estágio na Refinaria de Matosinhos torna possível o contacto com a realidade laboral, tecnológica e com os procedimentos de gestão da organização. Neste sentido, o acompanhamento de uma paragem técnica de manutenção é uma possibilidade de observação da execução in loco de todos os tipos de trabalhos desde os mais simples, os de baixo risco, até aos mais complexos e de risco elevado. Além disso, permite também conhecer de perto as responsabilidades de prevenção que os coordenadores de segurança em obra têm de aplicar e fazer valer durante a realização dos trabalhos para que o objetivo de zero acidentes seja atingido. Ao longo do estágio realizado na organização foi possível passar pelas mesmas etapas de permissão e acesso à refinaria que os demais trabalhadores têm de seguir. Desde a formação de acolhimento e demais tramites para a emissão do cartão de acesso, ao uso dos equipamentos de proteção individual obrigatórios, até ao contacto direto com os simulacros Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 9 de emergência que periodicamente se efetuam. Foram presenciados diversos trabalhos realizados no âmbito da paragem tais como, movimentação mecânica de cargas, trabalhos em espaços confinados, trabalhos de soldadura, trabalhos elétricos, trabalhos em altura, etc. Foi igualmente possível assistir ao trabalho efetuado pelos coordenadores de segurança em obra: auditorias, inspeções, análise de documentos de prevenção de ordem diversa, acompanhamento de trabalhos de elevado risco, entre outros. Foi ainda permitida a participação no desenvolvimento de procedimentos e instruções, como por exemplo para plataformas de trabalho em altura e caminhos de evacuação, aplicação ao contexto de trabalho de normas internacionais específicas do setor, entre outros. Este período permitiu não só conhecer o meio característico da Galp Energia – Refinaria de Matosinhos como também o ambiente, ritmo de trabalho, condições físicas e organizacionais da mesma. 2.1.3 Guias de boas práticas A pesquisa bibliográfica efetuada para a elaboração deste trabalho teve como foco a avaliação dos riscos em contexto ocupacional e a sua perceção por parte dos trabalhadores. De modo a ser possível compreender o conceito em toda a sua complexidade e sua influência na gestão do risco individual procedeu-se à pesquisa de referenciais técnicos. Esta investigação conduziu à pertinência da análise da perceção e gestão individual do risco nas mais diversas áreas e despertou particular atenção para as indústrias de elevado risco, em particular para a indústria petrolífera. Gestão do risco O American Petroleum Institute (API) emitiu um guia de boas práticas intitulado “API Recommended Practice 74” 1 (2007) para promover a segurança dos trabalhadores da indústria petrolífera onshore e de terceiros. As indicações e procedimentos inseridos neste documento incidem na promoção e manutenção das práticas seguras na execução das operações. É de salientar que este documento inicia com o facto de que os trabalhadores devem receber formação apropriada para a execução das suas tarefas. É também mencionada a importância de previamente à realização de um trabalho serem reunidos todos os trabalhadores afetos a este, para que possam ser discutidos os procedimentos a efetuar, de modo a diminuir a possibilidade de ocorrer qualquer acidente. Outro dos princípios deste guia consiste no desenvolvimento de um programa para a segurança acessível a todos os trabalhadores, incluindo subcontratados, que englobe a segurança de forma específica e transversal a todas as atividades da indústria. Neste, são considerados desde trabalhos elétricos, trabalhos com fogos, trabalhos em espaços confinados a práticas necessárias à organização do trabalho como limpeza e arrumação, utilização segura de ferramentas, operações de manutenção, regras gerais de segurança e comunicação para o perigo, entre outros. Como forma de inteirar os trabalhadores é mencionada a necessidade de existência de um programa de comunicação capaz de os 1 http://www.4cornerssafety.com/uploads/LYK1F56aLIQMHCmslmTPu6NgegDaYGlw.pdf Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 16 Estado da arte Existem normas para os trabalhos de manutenção no setor petrolífero, normas para a identificação, análise e gestão do risco, como é o caso da ISO 31000. Apesar de não específica para a perceção do risco, nessa norma é possível encontrar algumas referências à necessidade de existir uma adequada perceção dos riscos a que os trabalhadores estão expostos. Contudo esta perceção é vista como vetor de investimento e não tanto como ferramenta de avaliação subjetiva dos trabalhadores no seu quotidiano. De caráter transversal mas aplicáveis na área de segurança e saúde no trabalho são a ISO 31000, o sistema de gestão OHSAS 18001 e a norma portuguesa NP 4397 apresentados na tabela 4. 2.2.4 Normas aplicáveis à indústria petrolífera A indústria petrolífera é abrangida por inúmeras normas que estabelecem padrões de execução nas mais diversas matérias e âmbitos. ISO/TS 29001 – Indústria petrolífera, petroquímica e gás natural As exigências da atividade suscitaram a necessidade de criar um sistema de gestão da qualidade específico para a indústria de exploração e produção de petróleo e gás natural, a ISO/TS 29001. Esta norma resulta da colaboração entre o comité técnico da International Organization for Standardization (ISO) e do American Petroleum Institute (API), baseia-se na ISO 9001 e pretende definir as exigências do sistema de gestão da qualidade para o desenho, desenvolvimento, produção, instalação e serviço dos produtos para a indústria petrolífera e de gás natural (Hoyle, 2012). Normas aplicadas na Galp Energia - Refinaria de Matosinhos A indústria petrolífera contempla várias exigências, não só ao nível da segurança e higiene ocupacionais como também ao nível ambiental e de produção. Tabela 5 – Sistemas normativos ISO aplicáveis a diversas áreas Sistema normativo Âmbito Principais considerações NP EN ISO 9001 Gestão da qualidade/ Desempenho Melhoria contínua através da padronização de procedimentos; Aprovação da documentação; validação; definição de responsabilidades; auditorias (internas/ externas). Requer especificamente que o pessoal afeto a determinada tarefa tenha educação, formação, capacidades e experiência apropriadas para obter competência e consciencialização/ sensibilização para a execução da tarefa (Hoyle, 2012). NP EN 14001 Gestão do Impacto Ambiental Estabelece uma política ambiental e elementos da atividade, produtos ou serviços, capazes de interagir com o ambiente. Requer formação e consciencialização dos trabalhadores, controlo da documentação, das operações e preparação de respostas para situações de emergência (Strachan, Sinclair, & Lal, 2003). ISO 50001 Sistemas de Gestão de Energia Integra o desempenho energético nas práticas de gestão de diminuição do consumo energético de forma sustentável. A implementação do sistema de gestão de energia tem como objetivo a diminuição das emissões de gases de efeito estufa, custo energético, etc., através de uma política de controlo energético sistemático e consciencialização do pessoal envolvido (Fiedler & Mircea, 2012). Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 17 No domínio da refinação de petróleo, a Galp Energia – Refinaria de Matosinhos rege-se por normas europeias e por normas americanas como as Basic Engineering Standards (BES), as emitidas pelo API, National Fire Protection Association (NFPA), International Association of Oil and Gas Producers (OGP), entre outras. Os sistemas de gestão ISO, na sua maioria, são desenhados de forma a serem aplicados em qualquer indústria, independentemente da sua dimensão, atividade ou localização (Fiedler & Mircea, 2012). Na tabela 5, estão indicados os sistemas normativos de caráter transversal suscetíveis de serem aplicados na Galp Energia – Refinaria de Matosinhos. Figura 2 - Esboço da Galp Energia - Refinaria de Matosinhos, anterior a 1956 Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 18 Estado da arte 2.3 Conhecimento Científico A gestão do risco e a sua perceção é objeto de grande interesse na comunidade científica respeitante às mais diversas áreas, desde as ciências exatas como a engenharia às ciências sociais e humanas. Nesta fase do trabalho procura demonstrar-se a pesquisa científica efetuada relacionada com a gestão, avaliação do risco ocupacional e fatores condicionadores dessa avaliação, especificamente a perceção do risco. O conhecimento científico aqui apresentado foi obtido através de pesquisa por palavras-chave efetuada em bases de dados como a Metalib da Exlibris, Scopus, EBSCO e Google Scholar. 2.3.1 Função Risco A função risco resulta da combinação da probabilidade de ocorrência de um acontecimento perigoso ou exposição e da severidade das lesões, ferimentos ou danos para a saúde, resultantes desta combinação. A função risco considera assim, dois componentes, a probabilidade de um evento ocorrer e a gravidade das suas consequências, sendo a função destes componentes utilizada para caracterizar a materialização de um possível efeito (T. Aven, Vinnem, & Wiencke, 2007; Ferdous, Khan, Sadiq, Amyotte, & Veitch, 2013). A definição de risco indaga a concretização de um evento futuro (Areosa, 2010). O risco pode ser definido como o efeito da incerteza em atingir os objetivos, podendo incluir ainda na sua definição, a probabilidade, vulnerabilidade, perigo, a sua identificação e descrição, tudo isto com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da área de gestão e avaliação de riscos (Terje Aven, 2011). A consequência e a incerteza do risco são consonantes com a linguagem quotidiana e com a etimologia da palavra risco. Assim, consequência, ou nível de risco, refere-se ao que as pessoas dão valor, como a segurança, a saúde, o meio ambiente, etc. pelo que, a definição centra-se apenas nas consequências dos resultados da atividade, não distinguindo as consequências positivas das negativas, ou seja, as desejáveis das indesejáveis (Terje Aven, 2012). O ciclo da gestão da função risco é um processo complexo que integra informações de diferentes domínios, compreendendo a identificação do perigo, a caracterização do risco, a análise dos trabalhadores expostos e a consequência da exposição (Ling et al., 2012). É de considerar que na equação da função risco deve ser ponderado o indivíduo como variável ativa na gestão da segurança. Deste modo, realça-se o processo inerente à identificação e avaliação dos riscos, à perceção que o risco existe e à sua interpretação. A identificação dos perigos/riscos no local de trabalho ainda carece de conhecimento, de informação, de processo e de procedimentos (Gangolells, Casals, Forcada, Roca, & Fuertes, 2010). Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 19 O risco é um conceito complexo, assim como a sua avaliação pelo que, a eficácia da caracterização do risco depende de uma boa formulação do problema, conhecimento científico e um método de avaliação adequado (Meacham, 2008). Os modelos de gestão do risco visam a implementação de medidas capazes de eliminar o risco ou reduzi-lo para níveis aceitáveis, melhorando as condições de saúde e segurança ocupacionais. 2.3.2 Riscos Ocupacionais Os sistemas de gestão da segurança e saúde do trabalho consistem numa abordagem sistemática para a segurança e têm como objetivo a diminuição de acidentes, eliminação do risco e o desenvolvimento de uma cultura de segurança positiva (Waring, 1996 ), estando a sua eficácia assente, em grande parte, na correta identificação de riscos (Kathryn Mearns & Flin, 1995). O perigo é real mas o risco é socialmente interpretado sendo resultado de factos objetivos mas também de fatores psicológicos, sociais, culturais e políticos e, como tal, a sua avaliação tem alguma subjetividade associada (Paul Slovic, 2001). Tabela 6 – Riscos com origem no fator indivíduo Inerentes ao indivíduo/ Resultantes das relações interpessoais Interações com ambiente físico Interações de gestão Interações com o ambiente externo Discriminação, Juízos de valor erróneos Capacidade de distinguir o importante do acessório em situações de stress Stress ou fadiga resultantes das mudanças de turno, de sobrecarga horária, tarefas monótonas e ambiguidade ou conflito entre papéis Costumes Violência, conflitos, bullying Sobrecarga cognitiva e sensorial Responsabilidade por ações para as quais não tem autoridade Normas sociais Doenças contagiosas Perceção dos erros e capacidade de aprender com os mesmos (memorização do erro) Incertezas na carreira Cultura Problemas de comunicação Capacidade de selecionar informação primordial da secundária em situações de fadiga Perda de controlo das situações Resistência à mudança A gestão do risco deve ser composta tendo em consideração todos os intervenientes do contexto laboral, isto é, os trabalhadores, as instalações físicas utilizadas para a produção de bens ou serviços, e o tipo de organização dos recursos com vista a originar medidas organizacionais que constituem o contexto ocupacional. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 20 Estado da arte Tabela 7 - Riscos com origem no fator local de trabalho Interações com o indivíduo Interações com equipamentos Interações com a gestão Interações com o ambiente externo Ruído Falhas mecânicas, Deficiências estruturais, Conceção inadequada de processos Não testar os equipamentos de segurança e alarme Stress térmico Vibrações Espaços confinados Escassez de manutenção dos equipamentos Exposição ao frio e radiações ultravioleta Condições de iluminação Fontes de ignição Não reparação dos equipamentos Exposição do equipamento do local de trabalho à intempérie Conceção do posto de trabalho Substâncias perigosas, armazenagem e manuseamento de materiais Procedimentos inseguros com vista ao aumento da produção Crise económica Superfícies escorregadias Acessos e saídas Desastres naturais Condições de trabalho deficientes Elétricos, radiações Terrorismo Trabalhos em altura Protótipos Veículos em movimento e movimentação de cargas Biológicos Os riscos podem ter origem em qualquer um dos elementos do sistema ocupacional, isto é, no indivíduo, no local de trabalho e na gestão organizacional, a partir das alterações efetuadas ou da interação entre estes, conforme pode ser observado nas tabelas 6, 7 e 8 elaboradas de acordo com o modelo de organização dos riscos proposto (Makin & Winder, 2008). Tabela 8 - Riscos com origem no fator gestão organizacional Interações com o indivíduo/local de trabalho Interações com a cultura organizacional Interações com a própria gestão Interações com o ambiente externo Falta de consulta Desencorajamento de comunicação de incidentes Fraca liderança Relações adversas com as autoridades locais Supervisão inadequada ou inexistente Desvalorização da segurança Baixo compromisso Nível de sindicalização e apoio externo dos trabalhadores Violações intencionais dos procedimentos de trabalho por rigidez ou laxismo dos mesmos Falta de competência Alterações ao nível da gestão que resultem em desconhecimento da organização por falhas de comunicação Utilização de subcontratação Inadequação às condições normativas de segurança e saúde no trabalho Elevada rotatividade dos trabalhadores ou downsizing Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 21 Interações com o indivíduo/local de trabalho Interações com a cultura organizacional Interações com a própria gestão Interações com o ambiente externo Práticas de trabalho muito específicas Desconhecimento das alterações ao normativo de segurança ocupacional Atividades organizacionais estruturantes Falhas de compreensão do processo que se revelem problemáticas em situações de emergência Dado que a falha de um sistema raramente tem origem num único fator, mas sim numa sequência de eventos, um sistema de gestão de segurança deve englobar todos os componentes da organização bem como do ambiente económico e social que a constitui, considerando todos os postos de trabalho, trabalhadores e vias de comunicação existentes (Santos-Reyes & Beard, 2008) . A indústria petrolífera, uma indústria em constante desenvolvimento e para a qual a segurança é um fator crítico, exige a contínua aplicação e inovação de métodos de identificação e avaliação de riscos. 2.3.3 Modelos de gestão do risco Um dos principais objetivos das indústrias de processo deve ser proporcionar um ambiente seguro para os trabalhadores. A segurança é conseguida pela aplicação de sistemas de gestão do risco, procedimentos e formação (Summers, 2003). HAZID, HAZOP, índices de Mond e inspeção baseada no risco Os métodos de avaliação de risco podem ser utilizados em qualquer momento da vida da instalação desde a fase de conceção e design até à fase operacional. Em instalações de sistemas de processos complexos como as refinarias, é comum utilizarem-se técnicas de diagnóstico e análise como o Hazard identification (HAZID), análise preliminar de riscos (APR), o Hazard operability (HAZOP), entre outros (Oliveira & Q., 2009). É uma ferramenta maioritariamente aplicada na fase de conceção que procura estimular a identificação do maior número de cenários possíveis do desvio das condições normais de operação e medidas preventivas (Dunjó, Fthenakis, Vílchez, & Arnaldos, 2010). O HAZOP visa a identificação de possíveis desvios da normalidade do processo e do erro humano na operação em unidade. É também possível utilizar a metodologia dos Índices Mond que permite estimar os perigos característicos da atividade e das instalações com base nas substâncias manuseadas e nas Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 22 Estado da arte condições de operação de forma a estabelecer um ranking entre estes (Khan, Sadiq, & Amyotte, 2003). A inspeção baseada no risco é um outro método de avaliação de risco que pode ser utilizado no planeamento de operações de inspeção e manutenção, aumentando a eficácia destas (Bertolini, Bevilacqua, Ciarapica, & Giacchetta, 2009). Bow-tie e camadas de proteção O diagrama bow-tie combina duas técnicas de análise de risco, a técnica de análise da árvore de falhas e o método de análise de eventos. Através da análise quantitativa os parâmetros de controlo do risco são representados graficamente de modo a explicar as ligações entre as potenciais causas e consequências de um dado cenário (Ferdous et al., 2013). A popularidade deste método está no facto de conjugar a análise das causas e consequências do evento indesejado bem como a sua probabilidade de ocorrência (Khakzad, Khan, & Amyotte, 2012). A implementação de medidas de prevenção e mitigação de riscos pode ser feita de acordo com uma análise por níveis de risco. A sequência de eventos de qualquer incidente grave é analisada a partir da identificação da causa primária até à determinação dos seus potenciais efeitos e impactos associados pelo que, as barreiras de segurança são identificadas e incluídas na análise de prevenção, mitigação e redução do risco (Cherubin, Pellino, & Petrone, 2011). O modelo de análise de camadas de proteção visa determinar a eficácia e adequabilidade das medidas de proteção utilizadas no processo de atenuação do risco através da aplicação de medidas semi-quantitativas (Summers, 2003). As refinarias têm sistemas de prevenção distribuídos por várias camadas de proteção relacionadas entre si. É a complementaridade existente entre estas que garante a eficácia de proteção dos sistemas e não a sua ação individual. O objetivo do modelo consiste em avaliar a frequência de potenciais incidentes, verificar se as camadas existentes são suficientes para os evitar e a probabilidade destas camadas de proteção não cumprirem a sua função. As camadas de proteção mencionadas são implementadas desde a fase de projeto, sendo exemplo disso a necessidade de técnicos qualificados e a aplicação de normas, regulamentos e boas práticas de engenharia na conceção das instalações e postos de trabalho, bem como a implementação de mecanismos de alarme, proteção e mitigação do risco, distâncias de segurança entre determinadas unidades e equipamentos, etc. O método também estabelece uma relação entre o evento iniciante e as consequências e por isso, é normalmente utilizado em indústrias de elevado risco (Myers, 2013). Análises de risco quantitativas A nível mundial, as refinarias têm vindo a adotar vários requisitos emitidos por organismos de gestão da segurança que visam a promoção de um ambiente de trabalho seguro. A gestão do risco é vital para a indústria de refinação daí que estes e outros mecanismos e medidas façam parte de uma rede instrumentada de segurança, construída para que haja o Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 23 mínimo possível de desvios do processo e operações normais e que caso estes ocorram, o seu efeito possa ser controlado e minimizado (Sanders, 2004). O risco ocupacional é por vezes medido de forma objetiva assim, a avaliação de risco quantitativa é um dos métodos utilizados, tendo uma vasta aplicação. Para tal, é comum consultarem-se bases de dados como a Major Hazard Incident Data Service (MHIDAS). Utilizando um método de avaliação de risco quantitativa é possível identificar a fonte do risco, identificar possíveis cenários de materialização do risco e estimar a sua severidade, integrar uma análise de custo-benefício, entre outros. Como tal, a avaliação quantitativa dos riscos não deve ser considerada como um método isolado mas sim como constituinte do processo de gestão do risco em que é necessário definir objetivos para as medidas de segurança e aplicar critérios de aceitação (Brandsæter, 2002). Atualmente há indicações para que os fatores humanos e organizacionais sejam incluídos nas análises de risco quantitativas pelo que algumas já os consideram (Skogdalen & Vinnem, 2011). Contudo, a integração dos resultados de desempenho das análises de fiabilidade humana em sistemas de avaliação quantitativa de riscos, continua a ser uma tarefa bastante difícil de executar (Colombo & Demichela, 2008). Ações de resposta aos riscos, simulação de Monte Carlo e atualização Bayesiana O risco é dinâmico e como tal, as suas fontes e consequências evoluem e mudam ao longo do tempo pelo que, há necessidade de monitorizar continuamente os riscos. (Sanders, 2004). As ações de resposta inadequadas aos riscos são uma das causas de falha de gestão quando as situações de mudança não são acompanhadas. Estas ações assentam em três elementos chave: no desenvolvimento de cenários de risco, na utilização do modelo de árvore de falhas e na quantificação dos riscos através da simulação de Monte Carlo (Kujawski & Angelis, 2010). As atividades de construção são feitas de mudanças que requerem ajustes contínuos para que seja possível evitar lesões e acidentes. A atualização Bayesiana desempenha um papel importante nas análises de risco, permitindo a integração sistemática do conhecimento prévio e das observações. De acordo com as pesquisas nas áreas de segurança, da engenharia de resiliência e das organizações de elevada fiabilidade deve ser dado ênfase às incertezas em vez de, às probabilidades estáticas (Terje Aven, 2010). Programas de segurança e engenharia dos sistemas cognitivos Os elementos mais eficazes de um programa de segurança são o suporte da gestão de topo na seleção de subcontratados e a gestão estratégica. Por sua vez, os fatores menos eficazes de um programa de segurança são o planeamento da resposta a emergências e a análise de acidentes de trabalho (Hallowell & Gambatese, 2009). A perspetiva cognitiva sugere que os erros são um sintoma da existência de um problema concreto no sistema de trabalho e não uma simples falha humana. Desta forma, é preciso analisar as interações entre os comportamentos dos trabalhadores e a gestão dos recursos Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 24 Estado da arte (ferramentas, pessoas, tarefas e ambiente operacional) para que o erro humano se torne compreensível (Mitropoulos & Cupido, 2009). Assim, a perceção do risco é um dos fatores capazes de influenciar a fase de análise do risco pela complexidade do conceito e forma como é tida em cada indivíduo. O risco é um conceito complexo, assim como a sua avaliação. Deste modo, os sistemas de gestão de segurança e saúde ocupacionais devem considerar as interações entre as perceções do risco e o contexto social do risco nos diferentes grupos de trabalhadores considerando que as características percecionadas de um risco e capacidade de controlo deste, são mediadas pelo contexto social do trabalho (Holmes, Gifford, & Triggs, 1998). 2.3.4 Caracterização da perceção do risco A perceção é o mecanismo que permite a um indivíduo avaliar os estímulos do meio envolvente e por isso, é um fator determinante da resposta comportamental. O risco percecionado consiste na interpretação subjetiva da probabilidade de determinado risco se materializar e na extensão com que o indivíduo se preocupa com as possíveis consequências desse perigo. Este é um processo constituído por fatores culturais, sociais, físicos, políticos e psicológicos que contribuem para a forma como o indivíduo perceciona o risco e o seu comportamento como resposta a este (Cezar-Vaz et al., 2012; Lennart Sjöberg, 2004; Rundmo, 1996b). Apesar do risco ser sempre construído cognitivamente, um dos principais fatores capaz de explicar a forma como o risco é percecionado é o risco real. As perceções mais realistas são observadas em situações em que os indivíduos têm alguma experiência, seja esta direta ou indireta, ou seja, é necessário que o indivíduo identifique a existência de uma possível ameaça. Deste modo, a perceção do risco individual pode ser considerada como elemento de compreensão do comportamento dos trabalhadores e a forma como estes podem exponenciar o risco objetivo, nomeadamente, na componente probabilidade. Cada indivíduo pode minimizar a perceção do risco a que está exposto ou até eliminar fatores de risco relacionados com o seu comportamento ou condições de trabalho (Cezar-Vaz et al., 2012). O Homem tem a capacidade de interagir com o ambiente podendo a sua ação originar riscos ou diminuí-los (P Slovic, 1987). Maus julgamentos do risco podem originar decisões inapropriadas que originam comportamentos não-seguros e, consequentemente, erros humanos (Rundmo, 1995, 2001). A engenharia de resiliência considera o indivíduo como o fator mais importante do processo, no sentido em que é capaz de manter a operabilidade dos sistemas mesmo quando os equipamentos não estão a funcionar corretamente. Assim, quando o trabalhador está empenhado em cumprir uma tarefa, é capaz de manter os indivíduos e o ambiente em segurança, reduzindo os riscos operacionais (Ávila et al., 2013). Em indústrias de elevado risco, a segurança deve ser a característica dominante da cultura da organização e a cultura de segurança parte desta, que integra o indivíduo, tarefa e características organizacionais afetas à segurança e saúde (Cooper Ph.D, 2000). Em contexto Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 25 ocupacional, a perceção do risco é construída com base nos riscos existentes na organização (Areosa, 2012a). A perceção do risco tem, para além da componente racional, uma componente afetiva podendo esta ser um importante prognóstico do comportamento de risco (Ávila et al., 2013). Atualmente, o risco é considerado como sendo percecionado como sentimento e como capacidade de análise. O risco enquanto sentimento refere-se às reações instintivas e intuitivas que ocorrem numa situação de perigo. Já o risco como análise refere-se a um processo lógico, racional e de deliberação científica utilizado nas avaliações de risco e tomadas de decisão, o que indica que os indivíduos julgam um risco num processo dual, pelo que sabem e pensam acerca deste mas também pelos sentimentos que têm sobre o mesmo (Paul Slovic, Finucane, Peters, & MacGregor, 2004; Paul Slovic & Peters, 2006). Os indivíduos baseiam as suas considerações sobre uma determinada atividade ou tecnologia nos seus pensamentos e na forma como se sentem em relação à mesma. Esta complexa relação entre a razão e a emoção pode ser um ponto de partida para melhorar a gestão do risco (Paul Slovic et al., 2004). Assim, o risco percecionado consiste em fatores cognitivos, considerando a probabilidade, fatores emocionais, pela preocupação que tem com o risco e com as suas consequências (Moen, 2006). 2.3.5 Fatores influenciadores da perceção do risco A perceção do risco é um conceito multidimensional o que implica que seja influenciado por vários fatores, das mais distintas origens. A multidimensionalidade pode ser responsável pelo motivo de vários indivíduos percecionarem o mesmo risco de formas diferentes assim como o mesmo indivíduo percecionar um risco de forma diferente, em momentos diferentes (Leoni, 2010). É também um conceito multidisciplinar podendo encontrar origens na geografia, ciências políticas, antropologia e sociologia (P Slovic, 1987). Como conceito multidimensional, a perceção do risco pode ser influenciada por vários fatores específicos do indivíduo como a idade, o género e background cultural. Estes e outros fatores explicados neste ponto influenciam a forma como o indivíduo perceciona uma situação como perigosa e, mediante a sua avaliação, a aceitabilidade do risco. Não obstante, não se deve subestimar a importância do enquadramento do risco e a forma como é transmitida a informação acerca do mesmo, assim como o alvo, se o próprio ou se terceiros (Lennart Sjöberg, 2000; Paul Slovic, 2001). As perceções do risco são influenciadas pela interação constante de características específicas da situação, fatores cognitivos, emocionais, biológicos e comportamentais. Fatores intrínsecos ao indivíduo A consideração do fator humano aumenta a dificuldade em efetuar avaliações de risco objetivas, isto pelas diferenças e complexidade dos agentes que influenciam o seu desempenho. Os trabalhadores não efetuam avaliações de risco objetivas no seu quotidiano mas sim subjetivas, conhecidas como perceções do risco, sendo importante que quem realiza Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 32 Estado da arte capazes de originar reações de stress pode também auxiliar na prevenção de acidentes (Rundmo, 2001). Uma fraca avaliação do risco ou o risco aceite conscientemente são uma das maiores causas de acidentes. Um estudo realizado na indústria da construção, em trabalhadores de empresas empreiteiras, verificou que a rotação dos trabalhadores, a realização de testes de despiste de drogas e de programas de formação têm um impacto significativo no desempenho seguro dos empreiteiros (Jimmie Hinze & Gambatese, 2003). As relações industriais focam-se na forma como o trabalho é organizado e controlado e não no indivíduo em si, permitindo identificar o contexto em que os padrões de comportamento ocorrem e são reforçados considerando a importância das relações sociais (Zanko & Dawson, 2012). O risco percecionado pode ser afetado em grande parte por condições físicas de trabalho, satisfação no emprego, o estado de prevenção de acidentes de trabalho e o compromisso e envolvimento da gestão nos assuntos de segurança ocupacional (Fleming et al., 1998). - Cultura de segurança O interesse na segurança dos trabalhadores é em muito ditado pelo nível de risco inerente à indústria a que estes pertencem, a necessidade de controlar custos e a perceção da responsabilidade social da organização. O desempenho dos indivíduos no local de trabalho é também influenciado pela perceção dos trabalhadores da cultura de segurança em prática na empresa. (Morrow & Crum, 1998). Consequentemente, se os trabalhadores percecionarem a segurança como uma prática organizacional em declínio, o seu desempenho pode ser afetado de forma negativa. A cultura da organização fornece um enquadramento para o indivíduo avaliar o risco o que faz com que a perceção seja mais do que a avaliação e cognição do indivíduo (Oliver et al., 2002). Foi também verificada a existência de uma relação positiva entre a perceção do risco e as dimensões da cultura de segurança como a gestão ter a segurança como prioridade e existirem abordagens proactivas relativamente à segurança (Oltedal & Wadsworth, 2010). - Clima de segurança Foi realizado um estudo em que relacionaram o clima de segurança percecionado pelos trabalhadores de uma refinaria com o percecionado pelos trabalhadores das empresas subcontratadas que nela operam. Verificaram que quanto maior fosse a idade, qualificações académicas, tempo de experiência e se já tivessem tido um acidente, maior seria o clima de segurança percecionado. Quando o vínculo dos trabalhadores era precário, o clima de segurança diminuía (Pereira, Dias, & Bras, 2011). Consideraram ainda que o clima de segurança sentido pode influenciar a perceção do risco (Pereira et al., 2011). Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 33 - Compromisso da gestão com a segurança É fundamental que o trabalhador tenha conhecimento do nível de compromisso da organização, em particular nas funções relacionadas com a segurança e ocorrência de lesões (Leiter et al., 2009). A gestão da segurança pode ser melhorada se forem consideradas as características dos trabalhadores capazes de influenciar o risco percecionado nas tarefas que executam (Irizarry & Abraham, 2006). Um dos possíveis compromissos que a gestão pode assumir para com a segurança consiste em aumentar a formação para a segurança. A qualidade da formação para a segurança recebida influencia a avaliação dos riscos por parte dos trabalhadores (Leiter et al., 2009). A perceção dos trabalhadores relativamente ao compromisso da gestão com a segurança pode ainda contribuir para a satisfação destes relativamente às medidas de segurança e para o aumento da satisfação no emprego. A satisfação com as medidas de segurança e atitudes em prol da segurança, contribuem não só para a satisfação no emprego mas também para a perceção do risco uma vez que os indivíduos se sentem com maior controlo e, consequentemente, mais seguros (Fleming et al., 1998). Foi também verificada a influência da resignação dos trabalhadores ao risco por falta de confiança no departamento de segurança e na hierarquia de gestão (Hambach et al., 2011). - Pressão A gestão da segurança normalmente foca-se especificamente em procedimentos para o trabalho em segurança. As intervenções com especial foco nos riscos tendem a falhar na eliminação de muitos acidentes devido ao facto de os acidentes terem origem em múltiplos fatores como na tecnologia, no clima de segurança e social, equilíbrio entre exigências de produção e de segurança. Ao compreender que está a exposto ao perigo, o indivíduo recolhe informação sobre esse perigo e outras características da situação envolvente, analisa os riscos e determina as suas respostas comportamentais. Um fator muito importante na interpretação e decisão face a uma situação de risco está na importância que o trabalhador dá a manter o comportamento seguro e em simultâneo corresponder às exigências de produção (McLain & Jarrell, 2007). Segundo Rundmo (2001) não se devem concentrar todos os esforços em mudar as atitudes de cada trabalhador sem considerar uma forma de alterar os fatores que originam essas mesmas atitudes. Quanto maior for o grau de exigência de produção, mais aceitável se torna entre os trabalhadores adquirirem um comportamento de risco. Existe uma forte associação entre a prioridade na segurança versus os objetivos de produção e a influência dos trabalhadores e comunicação com a gestão, tendo estas uma influência significativa na aceitação do comportamento de risco. A tensão resultante da relação trabalho-segurança está indiretamente relacionada com acidentes ocupacionais, através de uma associação com o risco percecionado. Este facto Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 34 Estado da arte reforça a importância das perceções dos empregados das exigências da atividade que interferem com o trabalho em segurança (McGonagle & Kath, 2010). O aumento da exigência da produção perturba a capacidade dos trabalhadores em corresponder às expectativas de produção e desempenhar a sua função de forma segura. A perceção que os trabalhadores têm da compatibilidade destas exigências pode condicionar os seus comportamentos. Quando há sobrecarga, a atenção do trabalhador é afetada, fazendo com que a atenção para o trabalho seguro diminua e a probabilidade de ocorrer um acidente aumente (McLain & Jarrell, 2007). Em indústrias de segurança crítica, a perceção do risco pode ser considerada como um fator causador de stress (Fleming et al., 1998; Kathryn Mearns & Flin, 1995). O trabalhador está integrado num complexo sistema constituído por exigências de produção, perigos para a segurança, políticas organizacionais e de gestão. Quando a tarefa a desempenhar requer respostas cognitivas diferentes das habituais, a probabilidade de o trabalhador cometer um erro, aumenta. Quando não há compatibilidade entre a segurança e a resposta às necessidades de produção, estes competem pela atenção do trabalhador, fazendo com que este eleja uma das exigências. As perceções de controlo dos trabalhadores diminuem quando as exigências do trabalho são consideradas incompatíveis (McLain & Jarrell, 2007). - Experiência profissional Rundmo (1996b) efetuou uma comparação da perceção do risco de trabalhadores offshore na década de 1990 e 1994. Verificou que a perceção do risco dos trabalhadores melhorou e atribui este facto à possibilidade de ter havido redução do pessoal, ao facto de estes terem adquirido mais experiência em offshore e a terem decorrido alterações nas condições de trabalho, gestão e medidas de segurança. Um outro estudo sobre a perceção do risco dos trabalhadores em plataformas petrolíferas offshore verificou que os trabalhadores com experiência em várias instalações offshore, sentem-se mais seguros em relação aos riscos a que estão expostos, quando comparados com os que trabalharam em menor número de instalações (R. Flin et al., 1996). - Acesso à informação A análise das perceções de grupos de trabalhadores relativamente à exposição a riscos químicos permitiu verificar que um dos fatores que mais influencia as atitudes e comportamentos dos trabalhadores em relação aos riscos químicos estão relacionados com um fraco acesso à informação, nomeadamente, uma má compreensão dos perigos, o acesso a pouca informação toxicológica ou a informação ser de difícil compreensão (Hambach et al., 2011). Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 35 - Comunicação Apesar da legislação referente à segurança no trabalho, campanhas de sensibilização, listas de verificação, entre outros, a mensagem essencial sobre a segurança no trabalho pode não chegar aos trabalhadores. Num estudo com trabalhadores da construção, verificou-se que a consciencialização destes para o risco de utilizar escadas não era suficiente, em particular em alturas até 2 metros, apesar das lesões e mortes registadas. Determinaram ser necessário criar um plano de formação capaz de sensibilizar os trabalhadores para o risco específico do trabalho em altura e melhorar a sua perceção do risco (Lonsdale, 2004). - Tipo de trabalho - Administrativo/ físico Para determinar a qualidade das condições de trabalho e consequentemente a satisfação do trabalhador, deve considerar-se as características da profissão desempenhada pelo trabalhador e respetivas funções. Se o trabalhador tem, por exemplo que transportar cargas pesadas, o local de trabalho, o tipo de atividade, intensidade/velocidade, entre outros, a sua satisfação pode ser afetada, assim como a perceção do risco. O grau académico do trabalhador é também condicionante da forma como os indivíduos percecionam o risco. Os trabalhadores com educação superior têm baixa probabilidade de se sentirem em perigo na sua ocupação profissional (Leoni, 2010). Num estudo realizado na indústria gráfica verificou-se que as diferenças existentes entre as perceções dos trabalhadores estavam relacionadas com o tipo de trabalho e número de lesões ocorridas em cada departamento (Leiter et al., 2009). Foi verificado na indústria petrolífera offshore que os trabalhadores pertencentes a cargos administrativos e à equipa de catering tendem a sentir-se mais seguros em relação aos acidentes ocupacionais do que os trabalhadores dos sectores da perfuração, do convés, da mecânica ou da manutenção. No entanto, os trabalhadores pertencentes à segurança ocupacional sentiam-se menos seguros, em relação a riscos individuais do que os restantes trabalhadores (R. Flin et al., 1996). - Individual/ equipa Foi verificada a influência da perceção individual do risco no comportamento num estudo realizado na indústria naval norueguesa, constituído por 76 embarcações. Este pretendia determinar a relação entre cultura de segurança e o nível de segurança, utilizando como indicador do nível de segurança existente a bordo, a perceção do risco. Neste estudo foi verificado que um dos fatores que influenciava o risco percecionado dos trabalhadores era o trabalhar em equipa ou individualmente. Quando o trabalho é individual e não em equipa, Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 36 Estado da arte os trabalhadores tendem a ter a perceção do risco condicionada, percecionando níveis de segurança mais baixos (Oltedal & Wadsworth, 2010). - Satisfação no trabalho Os trabalhadores que percecionam elevados níveis de risco têm menor satisfação no trabalho. Mediante o risco em causa, este efeito pode ser atenuado quando percecionam o clima de segurança como positivo. Considerando o trabalhador de indústrias de segurança crítica, é ainda importante dar especial prioridade à prevenção e gestão do risco dado que nestas indústrias, os perigos e a exposição ao risco podem ser consideradas como exigências do trabalho e, como tal, estão associadas à satisfação no trabalho (Nielsen et al., 2011). 2.3.6 Teorias da Perceção do Risco A perceção do risco é já uma área de estudo bem estabelecida (Wåhlberg, 2001). É um conceito que diz respeito a todos os indivíduos e que pode integrar uma atividade científica e a expressão da cultura de cada um. É por isso refletida nas mais diversas ciências e perspetivas. É necessário definir nos sistemas sociais critérios que permitam priorizar as ações face aos riscos. No entanto, a definição destes critérios acarreta vários dilemas na priorização dos mesmos, em particular, se considerarmos as várias perspetivas do risco. Se o risco for considerado como uma propriedade objetiva de um evento ou atividade, há uma valoração de acordo com a probabilidade e severidade das consequências e consequentemente, uma ordenação nas medidas de eliminação/ combate aos riscos. Se, por sua vez, for considerado como uma interpretação social ou cultural, a gestão deste é feita de acordo com diferentes critérios que refletem estes mesmos valores sociais. A classificação do risco permite o enquadramento para comparação e análise dos diferentes conceitos de risco bem como a definição de elementos comuns e distintos (Renn, 1992). Na tabela 9, estão apresentadas algumas das possíveis aplicações da perceção do risco em termos científicos, das problemáticas que permite analisar, a metodologia adotada preferencialmente e função social. Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 37 Tabela 9 - Classificação sistemática das perspetivas do risco Abordagem integrada - Amplificação Social do Risco Seguros/ Estatísticas Toxicologia Epidemiologia Ecotoxicologia Engenharia Economia do risco Psicologia do risco Teoria Social do Risco Teoria cultural do risco Unidade Base Valor esperado Valor modelado Valor esperado (calculado) Utilidade esperada Utilidade esperada subjetiva Justiça e competência percecionadas Valores partilhados Metodologia Extrapolação Ensaios/ Questionários de saúde Árvore de falhas e análise de eventos Análise CustoBenefício Teoria Psicométrica Questionários/ Análise Estrutural Análise de grelha em grupo Universal Saúde e ambiente Segurança Universal Perceções Individuais Interesses sociais Agregados culturais Âmbito do conceito de risco Unidimensional Multidimensional Espaço, tempo e contexto Agregação preferencial Relativismo Social Problemática Capacidade de previsão Transferência para Humanos Modo comum de falhas Denominador comum Relevância social Complexidade Validade Empírica Variáveis intervenientes Aplicação Seguros Saúde Engenharia de Segurança Tomada de decisões Desenvolvimento de políticas e regulamentos Resolução de Conflitos (Mediação) Proteção do Ambiente Comunicação do Risco Função Instrumental Partilha de informação sobre Riscos Pré-aviso Atribuição de recursos Avaliação individual Equidade Justiça Identidade cultural Padronização Melhorar sistemas Aceitação Política Função Social Avaliação Redução do risco e definição de políticas de forma a lidar com a incerteza Legitimação política Adaptado de Renn (1992) Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria 38 Estado da Arte Paradigma psicométrico Uma das grandes descobertas que impulsionou o desenvolvimento da pesquisa sobre a perceção do risco foi a verificação da existência de estratégias mentais designadas heurísticas, adotadas pelos indivíduos para lidar com as incertezas do mundo e sobrecarga de informação (P. Slovic, 2000). O paradigma das heurísticas estabeleceu a perceção do risco como função cognitiva (L. Sjöberg, 1996). No entanto, verificou-se que apesar de as heurísticas serem válidas, podem também conduzir a grandes erros (que podem ser comuns a peritos e leigos) com implicações sérias para a avaliação de riscos (P. Slovic, 2000). O paradigma psicométrico é um modelo teórico que procura determinar porque é que cada indivíduo tem uma perceção de risco relativamente a um perigo e quais os fatores que a determinam, tendo como principal pressuposto a subjetividade do risco ou seja, o risco como fator abstrato. Foi publicado em 1978 por Fischoff e surgiu perante o aumento de preocupação do público face a riscos tecnológicos e ambientais. Neste modelo os riscos são classificados de acordo com várias dimensões cognitivas (P. Slovic, 2000). Deste modelo faz parte a quantificação desses fatores através de inquéritos, permitindo a produção de mapas cognitivos correspondentes às representações da perceção de risco de cada indivíduo. Normalmente, os inquéritos são constituídos com escalas entre 9 a 18 classificações que avaliam por exemplo a familiaridade do risco, a severidade das suas consequências e o conhecimento científico deste (Paul Slovic et al., 1982). O principal componente foi designado como risco ameaçador estando as escalas de perceção de controlo do risco, gravidade e consequências fatais altamente relacionadas com este tipo de risco. O segundo componente foi designado como risco desconhecido estando este relacionado com as avaliações da familiaridade, conhecimento científico e efeitos retardados (Siegrist, Keller, & Kiers, 2005). Aos sujeitos avaliados é solicitado que classifiquem os perigos para cada uma das escalas. Para cada escala e cada perigo são criadas médias das classificações, originando uma matriz Escala vs. Perigo. De acordo com esta abordagem, são várias as características que influenciam a perceção de um risco, dos seus benefícios e, consequentemente, a sua aceitação, tais como: exposição ser voluntária, familiaridade, controlo sobre o risco, potencial catastrófico, equidade, nível de conhecimento, entre outros. Após análise desta matriz é possível explicar a maioria das variações obtidas com 3 fatores, por norma com o fator “Novo-Velho”, o “Ameaçador” e o “Número de Expostos” (Lennart Sjöberg, 2000; P Slovic, 1987). Pode ainda ser utilizado um quarto fator, relacionado com o risco não-natural e imoral (Lennart Sjöberg, 2000). No primeiro fator estão englobados a noção de perda de controlo, ameaçador, potencial catastrófico, consequências fatais e a distribuição de riscos e benefícios. Este é o que mais determina a perceção do risco dos leigos. O fator de “risco desconhecido” engloba os perigos não-observáveis, novos, têm efeito desfasado e acerca dos quais se tem pouca informação. Nesta categoria, por norma, encontram-se as tecnologias químicas com elevadas pontuações (P. Slovic, 2000). Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 39 O desenvolvimento de uma taxonomia para os perigos permite a compreensão e previsão das respostas aos riscos sendo útil para o estudo da perceção do risco. O paradigma psicométrico tem sido um dos métodos mais utilizados e recorre a uma escala psicofísica bem como a técnicas de análise multivariável, originando mapas cognitivos das atitudes e perceções dos indivíduos face ao risco. A aplicação do paradigma psicométrico demonstrou que as perceções do risco são, não só quantificáveis como previsíveis (Lennart Sjöberg, 2003; Paul Slovic et al., 1982). O paradigma psicométrico tem como base a psicologia cognitiva e representa uma forte abordagem para a compreensão do facto de haver desvios entre o risco objetivo e o percecionado. Utiliza características dos perigos para determinar o nível de perceção e de aceitação (Lennart Sjöberg, 2003). Esta abordagem é particularmente útil para a avaliação de perceções de risco entre leigos e especialistas, no entanto, tem como foco a psicologia do indivíduo, não tendo uma perspetiva social (Lennart Sjöberg, 2004). Teoria Cultural A abordagem da teoria cultural tem por base a influência das relações sociais nas respostas aos riscos. O modelo da teoria cultural tem em conta o estilo de vida de cada indivíduo, identificando quatro tipos de indivíduos com padrões de relações interpessoais, consoante as suas preocupações: os igualitaristas - tecnologia e ambiente, os individualistas - guerras e outras ameaças para os mercados, os hierarquizas - lei e ordem, e os fatalistas - nenhuma das preocupações anteriormente mencionadas; e os seus modos de vida: “vieses culturais” e “crenças”. Estes dois domínios estão interligados e cada combinação tem representações distintas do que constitui um perigo. Refere que diferentes tipos de pessoas escolhem ter preocupações com diferentes tipos de perigos sendo que as crenças pessoais e perceções são controladas pelo seu contexto social (Leoni, 2010). Para determinar a perceção dos indivíduos relativamente ao risco, são feitas correlações com informação acerca de valores pessoais, educação, crenças, entre outros. Esta teoria foi criada por Douglas e Wildavsky e estabelece a perceção do risco como uma reflexão do contexto social em que o indivíduo se encontra (Lennart Sjöberg, 2000). De acordo com as teorias socioculturais, a perceção do risco pode ser vista como reflecções individuais mas consideraa como resultado de um processo contínuo de interação e comunicação. Amplificação social do risco Esta abordagem considera o risco como resultado da interação deste com fatores psicológicos, sociais, institucionais e culturais de uma forma que modela as perceções e respostas do público face ao risco, podendo atenuar ou amplificar as mesmas. De acordo com Kasperson et al. (1988), a amplificação ocorre quando a informação referente ao risco é transferida e, nos mecanismos de resposta. De acordo com o modelo da amplificação social do risco, a perceção individual da informação tem início com a filtração desta, seguida pela Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 40 Estado da arte descodificação dos sinais, geração de inferências, comparação da mensagem descodificada com outras mensagens, avaliação das mensagens, formação de crenças específicas, racionalização das crenças e, por fim, a determinação das ações correspondentes (Renn, Burns, Kasperson, Kasperson, & Slovic, 1992). Esta teoria foi criada para responder ao facto de a possibilidade de riscos com consequências menores por vezes despoletarem fortes preocupações e produzirem sérios impactos sociais e económicos. Esta abordagem procura ainda descrever os diversos processos sociais dinâmicos subjacentes à perceção do risco e à sua resposta (Pidgeon, Kasperson, & Slovic, 2003). Aprendizagem Bayesiana A aprendizagem Bayesiana tem vindo a ser aplicada à determinação da perceção do risco há algumas décadas. Este processo de aprendizagem estabelece que a perceção do risco é formada com base em atitudes pessoais e preferências, crenças pré-concebidas sobre um evento, informações obtidas através de meios de comunicação, educação, entre outros que permitem aos indivíduos atualizarem as suas perceções. Kip Viscusi em 1985, foi o impulsionador desta abordagem da perceção do risco. Demonstrou, através do processo de aprendizagem bayesiana, que os trabalhadores têm um comportamento adaptativo, face aos riscos a que estão expostos. Confrontou as perceções de risco dos trabalhadores com os riscos objetivos das suas atividades e verificou que estes sobrestimavam os riscos menos frequentes e subestimavam os mais frequentes (Viscusi, 1985). No processo bayesiano, o indivíduo utiliza a informação que vai obtendo para atualizar as probabilidades de um evento ocorrer (Hakes & Viscusi, 1998). Assim, as experiências pessoais e o risco associado a determinados locais, têm impacto na avaliação do risco subjetivo. Modelos Mentais A abordagem dos modelos mentais procura entender a forma como os indivíduos compreendem a realidade, o mundo exterior, e como constroem as suas representações internas na tentativa de identificar falhas críticas no conhecimento destes. Ao identificar estas falhas, pretende-se definir estratégias de comunicação do risco capazes de as colmatar. São os modelos mentais, mecanismos primários que, permitem ao indivíduo entender as experiências e eventos ocorridos, integrando conhecimento, crenças e atitudes. Assim, este modelo procura explicar de que forma estes mecanismos podem conduzir a situações perigosas. Tendo como base a psicologia cognitiva e a psicométrica, este método aborda aspetos cognitivos através de modelos racionalistas que não contemplam o contexto social e cultural (Keller et al., 2011). Com este modelo é possível estruturar a informação para que a comunicação sobre um risco com um determinado público-alvo seja eficaz (Cousin & Siegrist, 2010). Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 41 Teoria da avaliação do risco Este modelo integra as abordagens cognitivas e afetivas. Procura explicar como as emoções específicas medeiam a influência das avaliações do risco e perceção de benefícios e, como consequência, resultam em diferentes ações tendenciosas e comportamentos. Procura ainda responder ao facto de diferentes indivíduos terem respostas emocionais distintas ao mesmo risco como reflexo da avaliação de um estímulo e do que esse representa para o bem-estar do indivíduo relativamente a objetivos, necessidades, capacidades, recursos e valores (Keller et al., 2011). Redes sociais de contágio Esta teoria considera que os indivíduos adotam atitudes ou comportamentos de outros elementos pertencentes à sua rede social. Um dos principais objetivos desta teoria consiste em responder ao facto de a perceção do risco variar entre comunidades ou mesmo numa só comunidade. A base científica da rede social de contágio está nos estudos organizacionais e de redes sociais comunitárias. Segundo esta teoria, a perceção do risco dos indivíduos está relacionada com características destes e com a organização de redes sociais que constituem os grupos ou comunidades (Scherer & Cho, 2003). Abordagem sistémica do risco A abordagem sistémica do risco define o risco como uma variante existente entre o desejado e o não desejado e associa-o, tal como ao perigo, a uma potencial perda futura. Neste modelo, o perigo existe se alheio à nossa vontade acarretar consequências e o risco, por sua vez, é designado quando o acontecimento for originário de decisões do indivíduo ou seja, está dependente de uma ação do próprio. Apesar da distinção realizada entre o perigo e o risco é assumida a forte interligação entre estes. Não obstante, o risco é visto como um desvio do correr normal do sistema. A abordagem sistémica considera o risco como condição de determinada variável com potencial suficiente para interromper o sistema. Nesta teoria, é considerado que o indivíduo assume um otimismo realista o que faz com que negligencie determinados tipos de risco mas permite a coexistência num mundo que, caso contrário, seria repleto de incerteza, ansiedade e instabilidade emocional (Areosa, 2010). Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 48 Objetivos e Metodologia Distribuição No total, foram distribuídos 509 questionários a trabalhadores de diversas áreas. As empresas, prestadoras de serviços e operadora, estimaram o número de questionários necessários de modo a que fossem abrangidos a maioria possível de cargos existentes nas mesmas. Foram distribuídos questionários a um total de 25 empresas estando estas envolvidas no período de paragem técnica. O número de questionários atribuídos a cada empresa diferiu pela população que cada uma tinha em trabalho na Galp Energia – Refinaria de Matosinhos e pelo formato de entrega. Os questionários foram distribuídos por correio eletrónico ou em papel, como indicado na tabela 13. Aplicação Os questionários foram codificados por empresa (de A a X) e entregues a cada representante de segurança, pessoalmente ou por correio eletrónico, entre o período de 31 de maio e 06 de junho de 2013. As empresas em que os questionários foram entregues por correio eletrónico, ficaram responsáveis por imprimir e distribuir os mesmos pelos trabalhadores. Recolha Dos 509 questionários inicialmente distribuídos foram recolhidos entre 03 de junho e 15 de julho de 2013, 305 o que representa uma taxa de recolha de cerca de 60% 11 . Os questionários foram recolhidos e entregues pessoalmente pelos técnicos de segurança de cada empresa. Apenas uma empresa reenviou os questionários respondidos por correio eletrónico. Tratamento dos dados Após receção dos questionários, estes foram agrupados e numerados sequencialmente por empresa, num código alfanumérico, de A a X (código da empresa atribuído aquando da distribuição) e de 1 a 509 (ordem de entrega mediante número de questionários por empresa). Na tabela 13 estão relacionados o número de empresas envolvidas, o número de questionários distribuídos e devolvidos, estabelecendo uma relação entre os devolvidos e não devolvidos, consoante o formato de entrega. Tabela 13 – Relação entre o formato de entrega dos questionários e o número de questionários devolvidos Número de empresas Número de distribuídos Número de devolvidos Dev / Dist Correio eletrónico 6 74 30 40,5% Papel 19 435 275 63,2% Total 25 509 305 11 Processo de recolha à data de fecho da presente dissertação Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 49 No gráfico 2, foi estabelecida a relação entre os questionários distribuídos, devolvidos e não devolvidos por empresa. As letras indicadas correspondem às empresas envolvidas no estudo. As primeiras 6 letras observadas (D, H, I, K, R e U) correspondem às empresas que solicitaram a entrega dos questionários por correio eletrónico e as restantes às que solicitaram a entrega dos questionários em papel. O tratamento dos dados foi realizado com recurso ao programa Microsoft Office Excel. As respostas das 13 secções foram codificadas em 213 variáveis. Foi utilizado um sistema de codificação binário em grelha, em que foi estabelecido, numa primeira fase, se o item foi ou não respondido utilizando 1-sim e 0-não, respetivamente. Posteriormente determinou-se se a resposta obtida por cada item é ou não válida, sendo estas codificadas com 1-válido e 0-não válido. Os critérios utilizados para aceitação da resposta a cada um dos requisitos estão sumariados na tabela 14. Tabela 14 - Critérios para aceitação das respostas Critério Codificação Resposta não aceite Resposta rasurada/corretor 0 Resposta dupla Em branco Não correspondência com o número de itens solicitados Não correspondência com o solicitado na pergunta Resposta aceite Resposta não rasurada/ sem corretor 1 Uma única opção assinalada Correspondência com o número de itens solicitados Correspondência com o solicitado na pergunta D H I K R U A B C E F G J L M N O P Q S T V W X Y Distribuídos 10 10 725 10 12 20 50 30 10 10 20 15 45 30 10 18 20 14 40 810 25 50 10 Devolvidos 10 0 0 11 1 8 16 29 14 10 10 16 15 28 15 016 14 814 810 15 27 10 Não Devolvidos 010 714 9 4 4 21 16 0 0 4 0 17 15 10 2 6 6 26 0 0 10 23 0 0 10 20 30 40 50 60 Nr. de questionários por empresa Relação questionários entregues/devolvidos por empresa Figura 4 - Questionários distribuídos, devolvidos e não devolvidos por empresa Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 50 Objetivos e Metodologia Após determinação das respostas válidas por item, foi determinado o número de respostas válidas por questionário. Os questionários foram ainda caracterizados com base no total de respostas consideradas válidas. Os critérios para os questionários não válidos como um todo assentaram nos indicados na tabela 15. Tabela 15 – Critérios utilizados para a classificação dos questionários como não válidos Não válidos Aspetos físicos Número de páginas incompleto Danificados (ex.: rasgados ou tingidos de forma a que as respostas não sejam percetíveis) Conteúdo Todo em branco Foi ainda considerada a possibilidade de existência de 8 perfis de resposta ao questionário, conforme indicado na tabela 16. Estes podem oscilar entre as 199 respostas válidas e as 207, consoante as experiências diretas ou indiretas indicadas pelos respondentes. Tabela 16 – Possíveis respostas para questionários corretamente preenchidos Condição Valor de respostas válidas Nunca viu ou experienciou acidentes e quase-acidentes 199 Viu um acidente mas nunca sofreu acidente ou quase-acidente 200 Experienciou Quase-Acidente 201 Experienciou um quase-acidente e viu alguém ter um acidente 203 Sofreu um acidente 204 Sofreu um acidente e viu alguém ter um acidente 205 Experienciou Quase-Acidente e acidente 206 Experienciou Quase-Acidente, acidente e viu alguém ter um acidente 207 Para proceder à análise das respostas de cada questionário para um universo de 110 questionários devolvidos, estas foram inseridas e valoradas de acordo com o número de itens constituintes de cada escala. Os Anexos D e E, consistem nas folhas de cálculo Excel onde consta a base de dados construída para as respostas obtidas e respetivo tratamento. O anexo D corresponde à primeira fase do tratamento de dados em que estão os dados referentes a N=509 e N=110. No anexo E, consta a folha de cálculo que serviu ao tratamento de dados para N=110. Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria 51 Resultados 4 RESULTADOS Na presente secção são apresentados alguns dos resultados obtidos após tratamento das respostas ao questionário aplicado na componente prática. 4.1 Análise dos dados obtidos Na primeira fase de análise, foram considerados os 509 questionários distribuídos. Conforme indicado na figura 5, podemos verificar que destes, 204 correspondem a questionários não devolvidos, 10 correspondem a questionários em branco, 194 foram considerados como não estando completamente respondidos (respostas <199) e 101 como completos. Figura 5 - Classificação dos questionários após análise das respostas obtidas As respostas indicadas na figura 5 dizem respeito à primeira fase da análise em que apenas foi valorado a existência de resposta. Representadas na figura 6 estão as respostas por questionário, dos 305 devolvidos. A média de respostas obtidas por questionário foi de 185,7. Figura 6 - Respostas obtidas por questionário (N=305) 0 100 200 300 204 10 194 101 Triagem 1: N=509 Não devolvidos Em branco Não totalmente respondidos Completos 0 50 100 150 200 250 300 0 50 100 150 200 250 300 0-30 31-60 61-90 91-120 121-150 151-180 181-210 Frequência de respostas Nr de Respostas por Questionário (por classes) Respostas por Questionário (N=305) Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 52 Resultados As percentagens de respostas obtidas por item estão representadas na figura 7. Ainda para N=305, a média de respostas por item correspondeu a 265,9. Figura 7 - Respostas obtidas por item para N=305 É possível observar na figura 7 que as secções que obtiveram menor número de respostas foram as secções XI e XII, correspondentes ao intervalo de itens entre 172 e 194 (à exceção dos itens 178 (92,79%), 190 (90,82%) e 192 (88,52%)). Nestas secções são encontradas perguntas de resposta condicionada e de resposta aberta. Na segunda fase de análise, foi utilizada uma amostra de 155 questionários, correspondente a 7 empresas. Foi realizada a seleção das respostas destes, considerando-as como válidas ou não válidas. O número máximo de questionários obtidos de uma empresa foram 28 e o mínimo 10. Conforme apresentado na figura 8, do universo de 155 questionários analisados, 45 correspondem a não devolvidos, 92 não estão totalmente respondidos (respostas válidas <199) e 18 estão completos, não existindo questionários em branco. Figura 8 - Respostas obtidas por questionário para N=155 0 50 100 150 200 0,00 20,00 40,00 60,00 80,00 100,00 1 9 17 25 33 41 49 57 65 73 81 89 97 105 113 121 129 137 145 153 161 169 177 185 193 201 209 Número de Item Percentagem de respostas Itens % resposta % não resposta 0 50 100 45 0 92 18 Triagem 2: N=155 Não devolvidos Em branco Não totalmente respondidos Completos Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 53 No figura 9, estão representadas as respostas válidas por questionário. Do questionário número 17 ao 20, do 50 ao 70, do 85 ao 100 e do 147 ao 150, são questionários não devolvidos. Figura 9 - Respostas válidas obtidas por questionário Na figura 10, estão representadas as respostas válidas e não válidas por item, não considerando os 45 questionários não devolvidos, sendo N=110. É possível verificar que a maioria das respostas obtidas são válidas. Estas perfazem uma média de 97,18 respostas válidas por item. À semelhança do verificado na primeira fase da análise, o número de respostas não válidas aumenta nos itens correspondentes às secções XI e XII (entre o item n.º 172 e o 194). Figura 10 - Respostas válidas obtidas por item (N=110) 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0 1 9 17 25 33 41 49 57 65 73 81 89 97 105 113 121 129 137 145 153 Número de questionário Percentagem de respostas Percentagem de respostas válidas por questionário (N=155) Respostas Válidas por Questionário Nr Questionário 0 20 40 60 80 100 120 1 9 17 25 33 41 49 57 65 73 81 89 97 105 113 121 129 137 145 153 161 169 177 185 193 201 209 Nr de Respostas obtidas Item Respostas válidas e não válidas por item (N=110) Não Válidos Válidos Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 54 Resultados A organização do tratamento das respostas do questionário foi realizada de acordo com os intervenientes do sistema, nomeadamente, o fator indivíduo, o fator local de trabalho e o fator gestão da organização. Assim passa a analisar-se as respostas obtidas possíveis de relacionar com os riscos designados nas tabelas 6, 7 e 8 resultantes dos fatores componentes do sistema, da relação entre estes e os restantes componentes assim como entre estes e o ambiente externo. A leitura dos dados foi efetuada com referência à frequência de respostas válidas por pergunta. Das perguntas analisadas, o número de respostas válidas mínima foi de 98 (para o item VI.3) e o número máximo de respostas válidas por pergunta foi de 109 (para os itens II.2 e IV.2). Fator indivíduo – riscos inerentes ao indivíduo/ resultantes das relações interpessoais Discriminação As perguntas apresentadas na figura 11 são referentes ao apoio que os trabalhadores sentem que podem ter dos seus colegas (livre de qualquer preconceito). Para a pergunta XIII.2 “Qual o apoio que obtém dos seus colegas em relação ao seu trabalho?” 22% dos trabalhadores referiram “bastante”, 49% “muito” e 27% “algum”. A pergunta XIII.9 “Acha que pode falar com os seus colegas se tivesse um problema relacionado com o trabalho?” foi também mencionado por 18% dos trabalhadores “bastante”, 43% indicou “muito” e 28% “algum”. A pergunta XIII.13 “Se tiver um problema pessoal, acha que pode falar com os seus colegas?” apenas 6% respondeu “bastante”, 31% respondeu “muito”, 30% “algum”, 16% “pouco” e 15% “nenhum”. Os trabalhadores sentem ter mais apoio dos colegas ou maior abertura para discutir assuntos relacionados com o trabalho ao invés de assuntos pessoais. Figura 11 - Respostas obtidas para as perguntas XIII. 2, XIII, 9 e XIII 13 Comunicação Relativamente à capacidade de comunicação foram selecionadas as perguntas II.2, II.15, II.17 e II.18, conforme apresentado na figura 12. A maioria dos trabalhadores concorda que a comunicação estabelecida é boa. Quer seja nas instruções dadas pelo supervisor (II.2 – 52% “concordo” e 29% “concordo fortemente”), na forma como é informado do que ocorre na refinaria (II.15 – 48% “concordo” e 28% “por vezes”), na comunicação entre o pessoal XIII. 2 XIII. 9 XIII.13 0% 20% 40% 60% 123456 Item Percentagem de respostas Escala XIII: 1Bastante; 2Muito; 3Algum; 4Pouco; 5Nenhum; 6Não tem tais pessoas Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 55 da manutenção e o de fábrica (II.17 – 46% “concordo”) ou na passagem de uma tarefa (II.18 – 55% “concordo”). É de notar que 39% dos trabalhadores indicou que a comunicação entre o pessoal da manutenção e o de fábrica é “por vezes” boa, assim como 36% consideram a comunicação existente na passagem de uma tarefa. Figura 12 - Respostas obtidas em percentagem para o item II.2, II.15, II.17 e II.18 Fator indivíduo – interações com o ambiente físico Sobrecarga cognitiva e sensorial As perguntas II.3 “Desempenho várias tarefas em simultâneo” e II.12 “O meu trabalho é exigente”, apresentadas na figura 13, foram relacionadas com a possibilidade de na interação com o ambiente físico, surgir um risco com origem na sobrecarga cognitiva e sensorial do trabalhador. A maioria dos trabalhadores (44%), indica “por vezes”, desempenha tarefas simultâneas, 29% “concordo” e 15% “concordo fortemente” enquanto 52% responde “concordo” com o facto de o seu trabalho ser exigente (II.12), 24% “por vezes” e 22% “concordo fortemente”. Figura 13 - Respostas obtidas em percentagem às perguntas II.12 e II.3 Perceção dos erros e capacidade de aprender com os mesmos Os trabalhadores (40%) concordam em parte que a maioria dos acidentes são causados por erros humanos (IX.13) e 51% concorda totalmente com o facto de muitos acidentes e lesões de menor gravidade serem sinal de que podem vir a ocorrer acidentes mais graves (IX.7), conforme é possível verificar na figura 14. II. 2 II. 15 II.17 II. 18 0% 20% 40% 60% 12345 Item Percentagem de Respostas II. 12 II.3 0% 20% 40% 60% 12345 Item Percentagem de Respostas Escala II: 1Concordo fortemente; 2Concordo; 3Por vezes; 4Discordo; 5Discordo fortemente Escala II: 1Concordo fortemente; 2Concordo; 3Por vezes; 4Discordo; 5Discordo fortemente Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 56 Resultados Figura 14 - Respostas obtidas em percentagem ao item IX.7 e IX.13 Fator indivíduo – Interação com gestão organizacional A interação com a gestão organizacional pode trazer ao indivíduo diversos fatores de risco como stress ou fadiga, resultantes das mudanças de turno, sobrecarga horária, tarefas monótonas e ambiguidade entre papéis. Nas figuras 15 e 16, estão apresentadas perguntas possíveis de relacionar com estes fatores de risco. Dos respondentes, 46% concorda com o facto de a sua carga de trabalho ser equilibrada “por vezes”, não tendo períodos muito ocupados e stressantes (II.11) e 29% concorda com este item, revelando uma concordância com as respostas à pergunta “O meu trabalho é stressante” (III.11). Nesta, 45% referem que, no quotidiano, o seu trabalho é “por vezes” stressante e apenas 28% consideram o trabalho stressante no dia-a-dia, indicando “concordo”. As tarefas monótonas podem ser relacionadas com as perguntas alusivas à variedade das mesmas. Com a análise das perguntas II.10 “As minhas tarefas são variadas” e II.13 “As minhas tarefas são aborrecidas”, respetivamente, pode verificar-se que 48% refere “concordo” considerando ter tarefas variadas e 37% indica que “por vezes”. No item II.13, verifica-se a existência de uma ligeira discrepância sendo que 40% não concorda com o facto de as suas tarefas serem aborrecidas mas 40% refere “por vezes”. Figura 15 - Respostas obtidas às perguntas II.10, II.13, II.11 e III.11 Ainda para este ponto foram considerados os itens VII.13 “Número de horas de trabalho” e VII.14 “Variedade do seu trabalho”. Os respondentes indicaram estar “muito satisfeito” IX. 7 IX. 13 0% 20% 40% 60% 12345 Item Percentagem de Respostas Escala IX: 1Concordo totalmente; 2Concordo parcialmente; 3Não concordo nem discordo; 4Discordo parcialmente; 5Discordo completamente II. 10 II. 13 III. 11 II.11 0% 20% 40% 60% 12345 Item Percentagem de Respostas Escala II e III: 1Concordo fortemente; 2Concordo; 3Por vezes; 4Discordo; 5Discordo fortemente Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 57 (35%) com o número de horas de trabalho e 49% “moderadamente satisfeito”. Ao item VII.14, 41% indicam “moderadamente satisfeito” e 33% “muito satisfeito” considerando a variedade do seu trabalho. Figura 16 - Respostas obtidas em percentagem às perguntas VII.13 e VII.14 Responsabilidade por ações para as quais não tem autoridade Neste item foram consideradas as perguntas II.5 “Sei o que os outros esperam de mim no meu trabalho” e VII.6 “Responsabilidade que lhe é atribuída”, conforme representadas na figura 17. Dos respondentes, 52% indicaram saber o que é esperado deles no trabalho (“concordo”), 23% concordaram fortemente e 18% indicaram “por vezes”. Quando inquiridos sobre a satisfação relativamente à responsabilidade que lhes é atribuída, 47% referem “muito satisfeito”, 27% “moderadamente satisfeito” e 12% “extremamente satisfeito”. Figura 17 - Respostas obtidas em percentagem para as perguntas II.5 e VII.6 Incertezas na carreira O item VII.10 “Oportunidade de promoção” pode ser relacionado com a possibilidade de incertezas na carreira. A este foi respondido por 30% como “não tenho a certeza”, 26% dos trabalhadores indicaram estar “moderadamente satisfeito”, 13% “muito satisfeito” e 11% “moderadamente insatisfeito”, conforme observável na figura 18. VII.13 VII. 14 0% 20% 40% 60% 1234567 Item Percentagem de Respostas Escala VII: 1Ext. Satisfeito; 2Mt. Satisfeito; 3Mod. Satisfeito; 4Não tenho a certeza; 5Mod. Insatisfeito; 6Mt. Insatisfeito; 7Ext. Insatisfeito VII.6 II. 5 0% 20% 40% 60% 1234567 Item Percentagem de Respostas Escala II: 1Concordo fortemente; 2Concordo; 3Por vezes; 4Discordo; 5Discordo fortemente Escala VII: 1Ext. Satisfeito; 2Mt. Satisfeito; 3Mod. Satisfeito; 4Não tenho a certeza; 5Mod. Insatisfeito; 6Mt. Insatisfeito; 7Ext. Insatisfeito Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 64 Resultados Figura 27 - Percentagem das respostas obtidas aos itens III.8, IV.13 e VI.10 Ainda na figura 28, considerando o item VI.15 “Movimentação mecânica de cargas”, 39% dos trabalhadores sentem-se seguros, 18% nem seguros nem inseguros, 9% muito seguros e 6% inseguros, sendo este item não aplicável a 27% dos trabalhadores. Figura 28 - Respostas obtidas aos itens IV.17, V.7, V’.14. VI. 9 e VI.15 Fator local de trabalho - Interação com a gestão organizacional Não testar equipamentos de segurança e alarme Os trabalhadores demonstram estar satisfeitos no geral, em relação aos sistemas de alarme e de deteção de gás e fogo. Conforme indicado na figura 29, a maioria está “satisfeito” (61%) com a fiabilidade dos sistemas de alarme (VIII.12), 20% “nem satisfeito nem insatisfeito” e 16% “muito satisfeito”. À semelhança das respostas obtidas no item VIII.12, 54% estão III. 8 IV. 13 VI. 10 0% 20% 40% 60% 123456 Item Percentagem de Respostas IV. 17 V. 7 V'. 14 VI. 9 VI. 15 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 123456 Item Percentagem de Respostas Escala III: 1Concordo fortemente; 2Concordo; 3Por vezes; 4Discordo; 5Discordo fortemente Escala IV: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro Escala VI: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro; 6Não aplicável Escala IV: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro Escala V: 1Prob. Muito Alta; 2Prob. Elevada; 3Prob. Média; 4Prob. Baixa; 5Improvável Escala V’: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro; 6Não aplicável Escala VI: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro; 6Não aplicável Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 65 satisfeitos com os sistemas de deteção de gás/fogo (VIII.13), 27% referem “nem satisfeito nem insatisfeito” e 15% “muito satisfeito”. Figura 29 - Percentagem das respostas obtidas aos itens VIII.12 e VIII.13 Escassez de manutenção de equipamentos Os trabalhadores indicam estar seguros (49%) enquanto realizam operações de inspeção (V.10), “muito seguro” é referido por 19% e “nem seguro nem inseguro”, por 17%. Também enquanto realizam manutenção preventiva (VI.11) se verifica que 40% se sente seguro, 16% “nem seguro nem inseguro” e 13% “muito seguro” não sendo esta tarefa aplicável a 29% dos trabalhadores. A figura 30 é referente às respostas obtidas para estes itens e tal como é possível observar, o comportamento é bastante homogéneo. Figura 30 - Percentagem de respostas obtidas aos itens V’.10 e VI.11 Não reparação dos equipamentos Na sua maioria (45%), os trabalhadores indicam o item “seguro” enquanto realizam trabalhos de reparação (VI.12), 27% não realizam trabalhos de reparação, 17% não estão seguros nem inseguros e 9% estão muito seguros. Já durante a realização de testes de equipamentos (VI.16), 27% referem “seguro”, 14% “nem seguro nem inseguro” e 9% “muito VIII. 12 VIII. 13 0% 20% 40% 60% 80% 12345 Item Percentagem de Respostas V'. 10 VI. 11 0% 10% 20% 30% 40% 50% 123456 Item Percentagem de Respostas Escala VIII: 1Muito Satisfeito; 2Satisfeito; 3Nem Satisfeito nem Insatisfeito; 4Insatisfeito; 5Muito Insatisfeito Escala V’: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro; 6Não Aplicável Escala VI: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro; 6Não Aplicável Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 66 Resultados seguro”. Dos respondentes, 42% referiu não participar em testes de equipamentos, conforme ilustrado na figura 31. Figura 31 - Respostas obtidas em percentagem para os itens VI.12 e VI.16 Procedimentos inseguros com vista ao aumento da produção Foi solicitado aos trabalhadores que indicassem a concordância com as afirmações dos itens IX.1 “Por vezes é necessário ignorar regras de segurança para manter o nível de produção”, IX.2 “Por vezes há pressão para colocar a produção antes da segurança pessoal”, IX.4 “Regras e procedimentos referentes à segurança pessoal dificultam atingir os objetivos de produção” e IX.6 “Por vezes é necessário arriscar para terminar uma tarefa”, conforme figura 32. Dos respondentes, ao item IX.1, 43% refere “discordo completamente”, 23% “concordo parcialmente”, 16% “não concordo nem discordo”. Por sua vez, 34% concorda em parte com o facto de por vezes haver pressão para colocar a produção antes da segurança pessoal, 30% discorda completamente e 15% não concorda nem discorda. Relativamente ao item IX.4, 31% indica “concordo parcialmente” com regras e procedimentos de segurança dificultarem atingir os objetivos de produção e as restantes respostas são distribuídas entre os 18% (“concordo totalmente”, “não concordo nem discordo” e “discordo parcialmente”) e 16% para “discordo completamente”. Figura 32 - Respostas obtidas em percentagem aos itens IX.1, 2, 4 e 6 VI. 12 VI. 16 0% 10% 20% 30% 40% 50% 123456 Item Percentagem de Respostas IX. 1 IX. 2 IX. 4 IX. 6 0% 10% 20% 30% 40% 50% 12345 Item Percentagem de Respostas Escala VI: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro; 6Não aplicável Escala IX: 1Concordo totalmente; 2Concordo parcialmente; 3Não concordo nem discordo; 4Discordo parcialmente; 5Discordo completamente Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 67 Fator local de trabalho - Interações com ambiente externo Stress térmico, exposição ao frio e UV Relativamente à possibilidade de stress térmico, exposição ao frio e a radiação ultravioleta foram selecionados os itens III.5, III.6 e IV.15. Quando inquiridos sobre a exposição a correntes de ar e frio (III.5), os trabalhadores concordam (41%) estar expostos no dia-a-dia, 36% indicam “por vezes” e 15% referiram “concordo fortemente” com a exposição diária. Já relativamente à exposição ao ar poluído, má ventilação e temperaturas elevadas (III.6), 49% indicaram estar expostos “por vezes” no trabalho diário, 22% referiram “concordo” e 13% “discordo”. Relativamente à segurança sentida perante a possibilidade de sofrer uma lesão a partir de condições climatéricas (IV.15), 41% afirma não se sentir seguro nem inseguro, 35% referem o item “seguro” e 14% “inseguro”. As respostas aos itens III.5, III.6 e IV.15 estão indicadas na figura 33. A análise do gráfico permite verificar que no geral há exposição a correntes de ar, frio, ar poluído, má ventilação e temperaturas elevadas, sendo esta mais ou menos constante. Figura 33 - Percentagem de respostas obtidas aos itens III.5, III.6 e IV.15 Terrorismo Através dos itens IV.18 e V.8, representados na figura 34, é possível verificar a segurança sentida perante a possibilidade de sofrer lesão decorrente de um ato de sabotagem e a probabilidade de sofrer um acidente grave, resultante do mesmo. Os trabalhadores sentemse na sua maioria seguros (38%), 36% “nem seguro nem inseguro” e 10% “inseguro”. Considerando a probabilidade de sofrer um acidente grave decorrente de um ato de sabotagem (V.8), 28% classifica a probabilidade como “baixa”, 24% como “improvável”, 21% como “média” e 19% “elevada”. Origem na gestão da organização - Indivíduo/local de trabalho Falta de consulta É possível verificar a perceção dos trabalhadores sobre a importância da sua opinião, através dos itens II.16 e VII.12 referentes à consulta dos trabalhadores antes de serem tomadas decisões e à atenção que é dada às suas sugestões, respetivamente. Os trabalhadores sentem, III. 5 III. 6 IV. 15 0% 10% 20% 30% 40% 50% 12345 Item Percentagem de Respostas Escala III: 1Concordo fortemente; 2Concordo; 3Por vezes; 4Discordo; 5Discordo fortemente Escala IV: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 68 Resultados na sua maioria, que são consultados antes das tomadas de decisão, com 37% a responder “por vezes” e 31% a responder “concordo”. Discordam 19% dos trabalhadores e 6% concordam ou discordam fortemente (6%). Figura 34 - Percentagem de respostas obtidas para os itens IV.18 e V.8 É ainda possível verificar que, para o item VII.12, 33% dos trabalhadores está “moderadamente satisfeito” com a atenção dada às suas sugestões, 32% está “muito satisfeito”, 21% para “não tenho a certeza”, 5% das respostas indicadas correspondem a trabalhadores moderadamente insatisfeitos, outros 5% a “extremamente insatisfeito” e 4% a “extremamente satisfeito”. Analisando a figura 35, é possível verificar que no geral, os trabalhadores sentem que são consultados antes de ser tomada uma decisão e estão satisfeitos com a atenção dada às suas sugestões. Figura 35 - Percentagem de respostas obtidas aos itens II.16 e VII.12 Supervisão inadequada No que respeita à supervisão dos trabalhos, é possível aferir pela pergunta VII. 5, indicada na figura 36 que, 42% dos trabalhadores afirma estar “muito satisfeito”, 27% indica estar “moderadamente satisfeito” e 15% mostra estar “extremamente satisfeito” no que à chefia imediata diz respeito. Há ainda a registar que 6% respondeu estar “moderadamente insatisfeito” e 1% respondeu estar “extremamente insatisfeito”. IV. 18 V. 8 0% 20% 40% 12345 Item Percentagem de Respostas II. 16 VII. 12 0% 10% 20% 30% 40% 1234567 Item Percentagem de Respostas Escala IV: 1Muito Seguro; 2Seguro; 3Nem Seguro nem Inseguro; 4Inseguro; 5Muito Inseguro Escala V: 1Prob. Muito Alta; 2Prob. Elevada; 3Prob. Média; 4Prob. Baixa; 5Improvável Escala II: 1Concordo fortemente; 2Concordo; 3Por vezes; 4Discordo; 5Discordo fortemente Escala VII: 1Ext. Satisfeito; 2Mt. Satisfeito; 3Mod. Satisfeito; 4Não tenho a certeza; 5Mod. Insatisfeito; 6Mt. Insatisfeito; 7Ext. Insatisfeito Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 69 Figura 36 - Percentagem de respostas obtidas para o item VII.5 Falhas de compreensão do processo, problemáticas em situações de emergência Relativamente à compreensão do processo de segurança, é possível verificar a perceção dos trabalhadores através dos itens VIII.6 “Caminhos de evacuação”, VIII.7 “Mecanismos de evacuação”, VIII.8 “Formação em primeiros socorros”, VIII.10 “Marcação e sinalização”, VIII.16 “Pontos Encontro”, VIII.18 “Formação em respostas de emergência” e VIII.19 “Competência do Responsável de Segurança e Brigada de Emergência”, referentes às falhas de compreensão do processo em situações de emergência. O conjunto de itens referidos evidencia, nas respostas dadas pelos trabalhadores que, no geral, estes se sentem satisfeitos (VIII.6 e VIII.7 – 68%; VIII.10 – 61%; VIII.16 – 58%, VIII.18 – 57% e VIII.19 – 48%) com a prestação da empresa, no que toca a falhas de compreensão do processo de segurança em situações de emergência. Tal como é possível visualizar pelo comportamento da figura 37. O item VIII.8 registou 44% de respostas no item “satisfeito” e 34% para “nem satisfeito nem insatisfeito”. Figura 37 - Respostas obtidas em percentagem aos itens VIII. 6, 7, 8, 10, 16, 18 e 19 VII. 5 0% 20% 40% 60% 1234567 Item Percentagem de Respostas Escala VII: 1Ext. Satisfeito; 2Mt. Satisfeito; 3Mod. Satisfeito; 4Não tenho a certeza; 5Mod. Insatisfeito; 6Mt. Insatisfeito; 7Ext. Insatisfeito VIII. 6 VIII. 7 VIII. 8 VIII. 10 VIII. 16 VIII. 18 VIII. 19 0% 30% 60% 90% 12345 Item Percentagem de Respostas Escala VIII: 1Muito Satisfeito; 2Satisfeito; 3Nem Satisfeito nem Insatisfeito; 4Insatisfeito; 5Muito Insatisfeito Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 70 Resultados Interação com a cultura organizacional Desvalorização da segurança Em relação à desvalorização da segurança, é possível analisar a perceção dos trabalhadores através dos itens IX.3 “A maioria dos acidentes pode ser evitada se se der atenção às medidas de prevenção” e IX.10 “Boas propostas de como melhorar a segurança são muitas vezes impedidas pelo custo elevado”. O conjunto de itens referidos evidencia, nas respostas dadas pelos trabalhadores, que estes se sentem satisfeitos com a prestação da empresa, tal como é possível visualizar pelo comportamento da figura 38, que demonstra que os resultados se aproximam dos valores 1 (“concordo totalmente”) e 2 (“concordo parcialmente”) com a maior percentagem. À questão IX.3, 63% dos trabalhadores respondeu “concordo totalmente” e 26% “concordo parcialmente”. No entanto, na questão IX. 10, 43% dos trabalhadores responderam “concordo parcialmente” e 24% “concordo totalmente”. Ainda neste item, 17% refere “não concordo nem discordo”, 9% “discordo parcialmente” e 8% “discordo completamente”. Figura 38 - Respostas obtidas em percentagem aos itens IX.3 e 10 Interações com a própria gestão Faltas de competência Em relação à falta de competência, respeitante à própria gestão, é possível analisar a opinião dos trabalhadores através do item VII. 11, referente à forma como a empresa do trabalhador é gerida. O conjunto de itens referidos evidencia, conforme apresentado na figura 39, um comportamento mais homogéneo das respostas “muito satisfeito”, “moderadamente satisfeito” e “não tenho a certeza”, com percentagens de resposta de 28%, 26% e 21%, respetivamente. IX. 3 IX. 10 0% 50% 100% 12345 Item Percentagem de Respostas VII. 11 0% 10% 20% 30% 1234567 Item Percentagem de Respostas Figura 39 - Percentagem de respostas obtidas ao item VII.11 Escala IX: 1Concordo totalmente; 2Concordo parcialmente; 3Não concordo nem discordo; 4Discordo parcialmente; 5Discordo completamente Escala VII: 1Ext. Satisfeito; 2Mt. Satisfeito; 3Mod. Satisfeito; 4Não tenho a certeza; 5Mod. Insatisfeito; 6Mt. Insatisfeito; 7Ext. Insatisfeito Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria 71 Discussão 5 DISCUSSÃO Uma estratégia de gestão do risco deve considerar a importância da adoção de metodologias de avaliação e monitorização dos fatores de risco centradas não numa intervenção reativa mas sim na investigação para a prevenção, ou seja, para a ação que vise a melhoria contínua e o aumento do desempenho e comportamento seguros. É também de considerar a influência do desempenho e comportamento seguros na rentabilidade do trabalho individual, na criação/manutenção de um ambiente de trabalho seguro, na prevenção de atitudes de risco e na vigilância da saúde do trabalhador. Tudo isto irá contribuir para a melhoria das condições de trabalho assim como do serviço prestado, aumentando a capacidade competitiva e de produção da empresa/instalação. Na Galp Energia – Refinaria de Matosinhos, o processo de identificação e avaliação de riscos é realizada com recurso a métodos qualitativos e quantitativos As probabilidades de um determinado evento ocorrer são calculadas por comparação com índices de acidentes de bases de dados mundiais como a Major Hazard Incident Data Service (MHIDAS) e é estimada a gravidade para determinar o nível de risco. O método de avaliação de riscos utilizado para os trabalhos de manutenção, nomeadamente, durante a paragem técnica, é o determinado na norma 8800, emitida pelo British Standard (BS), matriz de avaliação qualitativa. Na tabela 17, apresentam-se alguns métodos de avaliação de riscos. Tabela 17 – Métodos de Identificação e Avaliação de riscos e medidas preventivas Exemplos de métodos de identificação e avaliação de riscos Exemplos de medidas preventivas - HAZID - Fase de projeto / Fase de obra - HAZOP - BS 8800 - Índice de Mond - Inspeção baseada no risco - Bow-tie e camadas de proteção - Ações de acolhimento; - 5 Minutos de conversa no início do trabalho; - Auditorias às atividades/obras; - Exercícios de simulacro de situações de emergência; - Autorizações de trabalho; - Autorizações de entrada em espaços confinados; - Aprovação da utilização de equipamentos e viaturas de trabalho; - Aprovação de documentos referentes às empresas e trabalhadores; - Formação básica em segurança (ex.: passaporte de segurança); - Reuniões semanais com os diretores de obra e técnicos de segurança - Formação avançada de SST aplicada à atividade do trabalhador - Simulações de tarefas com reajuste no plano de atividades A perceção do risco é um conceito heterogéneo pelo facto de que o mesmo risco não é percecionado da mesma forma pelos trabalhadores. Não obstante, para cada trabalhador, a sua perceção seja, a sua interpretação do risco, é real e condicionadora dos seus atos (Areosa, 2012b). As perceções do risco não são reflexo absoluto dos riscos a que os trabalhadores Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 72 Discussão estão, de facto expostos mas, são sempre interpretações da realidade ocupacional assimilada por estes (Areosa, 2012a). Nesta perspetiva e considerando-se a necessidade da integração da perceção do risco na avaliação do mesmo, propõe-se um modelo em que, é realizada uma avaliação de riscos com base no modelo de organização de riscos de Makin & Winder (2008). Figura 40 – Metodologia proposta para a avaliação de riscos A metodologia proposta de avaliação de riscos integra a estimativa da probabilidade do trabalhador com a análise do técnico de segurança, conforme ilustrado na figura 3. Contemplando o perfil de riscos passíveis de existirem numa organização, com origem em cada um dos intervenientes, pretende-se com este modelo: - O trabalhador estima a probabilidade dos riscos se materializarem através das respostas dadas no questionário; - O técnico de segurança efetua a avaliação de riscos com base no método qualitativo proposto na BS 8800, estimando a probabilidade de um determinado evento ocorrer e a sua gravidade. - Com base no modelo de Makin & Winder (2008) de organização de riscos de um sistema, o técnico de segurança pode identificar os mesmos nos itens do questionário. - Considerando as respostas dos trabalhadores a determinados itens referentes a um risco, o técnico de segurança calcula as percentagens e analisa a curva obtida. - A perspetiva dos trabalhadores, refletida na curva pode influenciar a estimativa da probabilidade efetuada pelo técnico de segurança. Na figura 41, é analisada a segurança sentida pelos trabalhadores relativamente à possibilidade de sofrer um acidente por choque elétrico. É possível verificar que 90% dos trabalhadores não se sente inseguro. Contributo para a Avaliação de Riscos Ocupacionais no Setor Petrolífero: Estudo de caso numa Refinaria Cardoso, Ana 73 Figura 41 – Risco de sofrer um choque elétrico Neste caso, na maioria das respostas, os trabalhadores sentem-se seguros face à possibilidade de ocorrência do evento analisado. Se a análise do técnico de segurança quanto à probabilidade de este evento ocorrer for Muito Pouco Provável (MPP), então esta mantémse. Se a maioria das respostas dos trabalhadores fosse “inseguro” relativamente a sofrer um choque elétrico, então o técnico de segurança deveria reconsiderar a sua estimativa e alterála, aumentando a probabilidade para, por exemplo, Pouco Provável (PP). Na figura 42 consta um outro exemplo, agora referente ao risco de discriminação. Se for utilizada a pergunta “Se tiver um problema pessoal, acha que pode falar com os seus colegas?”, a leitura das frequências acumuladas, deve ser feita de acordo com a fórmula 𝑃(𝐴)= 1 − 𝑃(𝐴), sendo A um determinado acontecimento. Deste modo obtemos a seguinte representação gráfica: Figura 42 - Probabilidade de Discriminação Neste caso, verifica-se que 33% dos indivíduos sente que não pode falar com os colegas acerca de problemas pessoais. Tal inferência é possível considerando a fórmula acima referida, pelo facto de os valores apresentados corresponderem ao contrário da frequência acumulada. Assim sendo, no ponto 3 obtém-se a percentagem de trabalhadores que não 1; 5% 2; 56% 3; 90% 4; 96% 5; 100% 0% 20% 40% 60% 80% 100% 120% 0 1 2 3 4 5 6 Risco de Choque Elétrico 1; 94% 2; 63% 3; 33% 4; 17% 5; 3% 6; 0% 0% 20% 40% 60% 80% 100% 01234567 Probabilidade de Discriminação 80 Bibliografia Brazil. International Journal of Environmental Research and Public Health, 9(7), 2362-2377. 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Anexo A – Ciclo de vida do petróleo Anexo B – Regime Jurídico de licenciamento e segurança e higiene no trabalho Anexo C – Questionário “Offshore Risk Perception Questionnaire”, Questionário aplicado e itens adaptados Anexo D – Folhas de Cálculo Excel realizadas para primeira análise e tratamento dos dados Anexo E – Folhas de Cálculo Excel realizadas para análise e tratamento dos dados para N=110