Reabilitação estrutural de um edifício antigo
Full text
REABILITAÇÃO ESTRUTURAL DE UM EDIFÍCIO ANTIGO JOÃO MIRANDA Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de MESTRE EM ENGENHARIA CIVIL — ESPECIALIZAÇÃO EM ESTRUTURAS Orientador: Professor Doutor João Miranda Guedes JULHO DE 2014
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 2 MESTRADO INTEGRADO EM ENGENHARIA CIVIL 2013/2014 DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL Tel. +351-22-508 1901 Fax +351-22-508 1446 [email protected] Editado por FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO Rua Dr. Roberto Frias 4200-465 PORTO Portugal Tel. +351-22-508 1400 Fax +351-22-508 1440 [email protected] http://www.fe.up.pt Reproduções parciais deste documento serão autorizadas na condição que seja mencionado o Autor e feita referência a Mestrado Integrado em Engenharia Civil - 2012/2013 - Departamento de Engenharia Civil, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal, 2013. As opiniões e informações incluídas neste documento representam unicamente o ponto de vista do respetivo Autor, não podendo o Editor aceitar qualquer responsabilidade legal ou outra em relação a erros ou omissões que possam existir. Este documento foi produzido a partir de versão eletrónica fornecida pelo respetivo Autor.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 3 Á minha família e amigos, Nunca serás capaz de atravessar o Oceano se não tiveres coragem para te afastares da costa Cristovão Colombo
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 4 AGRADECIMENTOS Agradecimento muito especial ao meu orientador – Professor Doutor João Miranda Guedes e ao Tiago Ilharco por toda a ajuda disponibilizada.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 5 RESUMO Este trabalho tem por objectivo estruturar uma metodologia de diagnóstico e intervenção estrutural num edifício antigo (rés-do-chão + 1), construído há cerca de dois séculos atrás no Norte de Portugal, assim como criar condições para efectuar intervenções semelhantes em edifícios que foram construídos com tecnologias similares, utilizando as metodologias identificadas neste documento Dar-se-á especial destaque a anomalias que afectam sistemas estruturais em madeira assim como às diferentes técnicas de reforço e reabilitação disponíveis para este tipo de estruturas. A estratégia de base que presidiu à elaboração deste trabalho incluiu uma fase de inspecção de diagnóstico em que foram identificados todos os problemas de que a estrutura padecia, passando-se de seguida ao estudo de estratégias de intervenção e definição de soluções mais adequadas para intervir num edifício que foi construído com sistemas de construção típicos e muito em voga no início do século XX, essencialmente no Norte de Portugal. Palavras-Chave: Reabilitação Estrutural, Estruturas de Madeira, Reforço Estrutural, Construção em Madeira
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 6 ABSTRACT The goal of this thesis is to streamline a series of techniques and methodologies to refurbish the structural system of an old one-storey residential building, which has been built nearly two centuries ago in the North of Portugal, as well as to pave the way to deploy the methodologies identified in this document to similar buildings that were built using analogous technologies. Special highlight will be given to all pathologies that affect wood structures, as well as to a wide array of rehabilitation and improvement techniques that can be deployed in this type of intervention. The base strategy behind this thesis included a thorough inspection of the existing building with the aim of identifying all structural problems, followed by the definition of the most adequate strategies for intervening a building of this kind, one that showcases structural solutions and other building systems that are paradigmatic of an era. Key-words: Structural Rehabilitation, Wood Structures, Wood Construction, Structural Repair and Strengthening
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 7 ÍNDICE GERAL AGRADECIMENTOS .................................................................................................................... 4 RESUMO ..................................................................................................................................... 5 ABSTRACT .................................................................................................................................. 6 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 10 CASO EM ESTUDO – INSPECÇÃO ................................................................................. 11 2.1 GERAL ...................................................................................................................... 11 2.2 FUNDAÇÕES ............................................................................................................. 12 2.3 PAREDES ................................................................................................................. 14 2.4 TETOS ...................................................................................................................... 17 2.5 COBERTURA ............................................................................................................. 18 2.6 SOBRADO ................................................................................................................. 20 2.7 ESCADAS ................................................................................................................. 23 DIAGNÓSTICO ...................................................................................................................... 24 3.1 SOBRADO ................................................................................................................. 24 3.2 TECTOS E ESTRUTURA DO TELHADO ..................................................................... 28 TECNOLOGIAS DE REABILITAÇÃO ESTRUTURAL .................................................... 30 4.1 REFORÇO DE PAREDES DE ALVENARIA COM CINTAS METÁLICAS E PREGAGENS 31 4.2 INSTALAÇÃO DE SEGUNDO FORRO DE SOALHO .................................................... 31 4.3 REFORÇO COM INSTALAÇÃO DE SOLUÇÃO MISTA MADEIRA-BETÃO ................... 32 4.4 SUBSTITUIÇÃO E/OU REFORÇO COM PERFIS E CHAPAS METÁLICAS ..................... 34 4.5 INTRODUÇÃO DE FRECHAIS OU OUTROS ELEMENTOS DE APOIO EM PAREDES.. 35 4.6 REFORÇO COM PRÓTESES DE MADEIRA LIGADAS POR ELEMENTOS METÁLICOS 36 4.7 REFORÇO COM PERFIS METÁLICOS INTERCALADOS COM VIGAS DE MADEIRA EXISTENTES ......................................................................................................................... 37 INTERVENÇÃO E SOLUÇÕES A ADOPTAR .................................................................. 38 5.1 SOBRADO ................................................................................................................. 38
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 8 5.1.1. PINTURA QUÍMICA PARA ELIMINAÇÃO DE INSECTOS XILÓFAGOS ................. 38 5.1.2. VERIFICAÇÃO DA ESTRUTURA DE MADEIRA DE ACORDO COM O EC5 APÓS MONTAGEM DE UM SEGUNDO FORRO DE SOALHO EM DIRECÇÃO PERPENDICULAR AO EXISTENTE E INSTALAÇÃO DE TARUGOS ........................................................................ 38 5.1.2.1. VERIFICAÇÃO À FLEXÃO .............................................................................. 44 5.1.2.2. VERIFICAÇÃO AO CORTE ............................................................................. 44 5.1.2.3. VERIFICAÇÃO AO CORTE NO PLANO PERPENDICULAR AO FIO ................. 44 5.1.2.4. VERIFICAÇÃO À TORÇÃO ............................................................................. 45 5.1.2.5. VERIFICAÇÃO À INSTABILIDADE LATERAL TORSIONAL .............................. 45 5.1.2.6. CONTROLO DE DEFORMAÇÕES - ESTADOS LIMITES DE UTILIZAÇÃO ....... 47 5.1.2.7. CONTROLO DE VIBRAÇÕES – ESTADO LIMITE DE UTILIZAÇÃO ................. 48 5.1.3. MONTAGEM DE VIGAS METÁLICAS PARALELAS AO VIGAMENTO SECUNDÁRIO – VERIFICAÇÃO SEGUNDO O EC3 .................................................................................. 50 5.1.3.1. DEFINIÇÃO DA CLASSE DE SERVIÇO DO AÇO ............................................ 51 5.1.3.3. VERIFICAÇÃO AO CORTE ............................................................................. 53 5.1.3.4. CONTROLO DA DEFORMAÇÃO A MEIO VÃO – ESTADO LIMITE DE UTILIZAÇÃO 54 5.1.4. DIMENSIONAMENTO DE SISTEMA DE VIGAS EM MADEIRA LAMELADA DE PINHO NÓRDICO .............................................................................................................. 58 CONCLUSÕES ...................................................................................................................... 65 BIBLIOGRAFIA ...................................................................................................................... 67
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 9
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 16 Figura 7 – Mapa de paredes do primeiro andar O revestimento interior das paredes consiste em argamassa de cal e areia, revestido com estuque. Já o revestimento exterior é efectuado com argamassa de cimento de enchimento e regularização, com subsequente pintura ou caiagem, dependendo da parte do edifício em questão. Figura 8 – Esquerda: parede de tabique e pormenor de cachorro em madeira ornamentado; Centro: parede de blocos de tijolo e argamassa; Direita: Pormenor de cachorro em argamassa Em geral as paredes encontram-se em excelente estado de conservação padecendo apenas de patologias de fácil resolução que podem ser tratadas com relativa facilidade: - Elevada humidade superficial no pano interno; - Desagregação da argamassa de revestimento exterior e existência de pequenos orifícios; - Perda de plasticidade da pintura exterior que igualmente permite a passagem de humidade, Alvenaria de Blocos de Granito Pano duplo Tabique Alvenaria de Blocos de Granito Pano Simples Alvenaria de Tijolo e Argamassa
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 17 contribuindo ainda mais para o desequilíbrio higrométrico do interior do edifício, com elevados níveis de humidade; - Ausência de isolamento térmico o que conduz a variações de temperatura significativas num período reduzido de tempo, origina condensações, e aumenta de forma substancial o consumo energético do edifício – elevadas perdas de energia utilizada para o aquecimento do edifício durante os meses de Inverno. - Portas e janelas de vidro simples com estrutura em madeira sem resistência térmica adequada contribuem para o agravamento dos problemas já referidos nos pontos anteriores, além de não garantirem os níveis de isolamento acústico necessários. 2.4 TETOS Os tetos desta habitação são particularmente ricos em detalhe e ornamentados, com acabamentos em gesso. A estrutura de suporte dos elementos ornamentados consiste em ripas trapezoidais de pequena dimensão – fasquios, dispostos em forma de grelha, apoiados em vigamento secundário que por sua vez se encontram suspensos das asnas de suporte da cobertura: Figura 9 – Esquerda: pormenor do fasquiado e vigamento secundário; Direita: Asnas, suporte do vigamento secundário e tarugos É de salientar a inclusão de tarugos na estrutura de suporte do tecto, os quais estão alinhados com a direcção das asnas, e de forma perpendicular ao vigamento secundário. Os tarugos são utilizados na generalidade para conferir maior rigidez a vigamentos, e que se correctamente instalados, geram um efeito de diafragma capaz de distribuir de forma considerada uniforme a aplicação de cargas pontuais, diminuindo assim os esforços a nível local e assegurando que a estrutura colabora localmente na distribuição de cargas. Isto é particularmente importante no caso de pavimentos acessíveis, onde os tarugos desempenham um papel fundamental não só na redistribuição de cargas, mas também na diminuição de vibrações, pelo referido efeito de diafragma e também devido ao aumento da rigidez da estrutura.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 18 Figura 10 – Detalhes dos ornamentos em gesso Figura 11 – Planta de caracterização das lajes de teto do 1º andar 2.5 COBERTURA A cobertura do edifício apresenta duas partes distintas – um telhado de duas águas e uma segunda cobertura com uma estrutura distinta de quatro águas: O telhado de duas águas encontra-se assente em duas asnas com pendurais e escoras nas zonas intermédias e em dois paramentos de alvenaria de blocos cerâmicos e argamassa nas extremidades Nascente e Poente. Vigas e fasquiado de madeira com acabamento em gesso Laje de betão armado com acabamento em argamassa de cimento de regularização
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 19 Figura 12 – Esquema das asnas de suporte da cobertura A fotografia seguinte demonstra por um lado o bom estado de conservação da madeira, por outro há a salientar a evidente falta de protecção ao fogo, bem como a ausência de tratamento térmico e acústico desta parte do edifício. É visível também uma estrutura de suporte secundário não utilizada* que serviria de suporte a parte da cobertura antes da introdução das asnas de pendural e escoras. Figura 13 – Aspecto das asnas de suporte da cobertura O esquema de suporte e localização das várias asnas é mostrado na planta seguinte em que também se mostra o posicionamento relativo de cada um dos elementos estruturais da cobertura em relação à laje de betão armado que foi construída ao nível da cobertura aquando de uma das intervenções anteriores.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 20 Figura 14 – Estrutura de suporte da cobertura 2.6 SOBRADO Um dos elementos centrais deste edifício é o sobrado de madeira do primeiro andar, uma estrutura constituída por dois níveis de vigamento e soalho de madeira na zona 1 e vigamento simples nas zonas 2 e 3 (figura 15) Viga Base das Asnas de Cobertura - Linha Viga de Topo das Asnas de Cobertura - Fileira Vigamento Secundário das Asnas de Cobertura - Madres Estrutura Piramidal – Conjugação de Três Asnas
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 21 Figura 15 – Mapa do sistema de vigas de suporte do sobrado O soalho de madeira tem uma espessura de três centímetros e encontra-se apoiado num sistema de vigas de secção 100 x 120 cm2 com um espaçamento de 50 cm entre si. Na zona 1 do edifício, e por os vãos a vencer serem de maior extensão, existe um segundo nível de vigamento inferior que os divide de forma a minimizar os esforços de flexão e corte das vigas de topo. Este vigamento inferior inclui apenas três vigas de secção aproximadamente rectangular de 250 x 250 cm2 com um revestimento de tábuas de madeira, de forma a omitir as irregularidades das vigas originais, que são nada mais do que troncos rolados de pinheiro com tratamento mínimo de irregularidades e pintura de impregnação à base de alcatrão, em grande parte completamente desgastada por mais de um século de exposição a um ambiente agressivo de elevada humidade e que posteriormente criou condições para que se desencadeasse um ataque biótico em larga escala. Vigamento de Base – 250 x 250 cm2 Vigamento de Topo – 100 x 120 cm2 1 2 3
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 22 Figura 16– Vigamento Base – Viga V2 (Figura 18) Um dos aspectos interessantes deste sobrado é o facto de o apoio na extremidade Sul se realizar através de um frechal de madeira destinado a assegurar uma distribuição uniforme das cargas transmitidas pelas vigas à parede. Figura 17 – Vigamento Secundário e Frechal
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 23 2.7 ESCADAS A singularidade e elegância das escadas de madeira deste edifício é outro aspecto de elevado interesse a preservar. Suportada por duas vigas de madeira apoiadas no vigamento secundário e por uma parede de tabique com uma viga de topo a Poente, as escadas desempenham um papel central na moradia pela forma simples mas estruturalmente eficiente como asseguram a ligação entre o piso térreo e o primeiro andar. Figura 18 – Escadas – Vigas de Suporte e Parede de Tabique
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 24 3 DIAGNÓSTICO 3.1 SOBRADO O sobrado do primeiro andar deste edifício apresenta actualmente duas anomalias importantes que devem ser corrigidas de forma a conferir à habitação um grau de conforto aceitável. O primeiro problema desta laje é a vibração excessiva quando o pavimento é sujeito a acções dinâmicas simples, como o caminhar humano, acções que se traduzem em vibrações de frequências inferiores a 8 Hz, as quais seriam menos expectáveis caso o sobrado possuisse contraventamento adequado. Este problema resulta essencialmente do seguinte: a) Baixa espessura do soalho – 3cm apenas b) Inexistência de tarugamento de travamento no plano perpendicular às vigas de topo c) Diminuição da secção útil de vigas por ataque de insectos xilófagos d) Eventual sub-dimensionamento das vigas de suporte e) Fenómenos de fluência em que a aplicação quase sistemática e prolongada de cargas contribui para deformações permanentes de elementos estruturais e a uma flexibilização da estrutura Figura 19 – Inexistência de travamento no plano perpendicular às vigas secundárias
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 25 O segundo problema desta componente do edifício é também uma das causas das vibrações excessivas já descritas – o ataque de insectos xilófagos (xilo - do Grego, madeira; fago – do Grego, comer). Estes insectos consomem a madeira da estrutura e contribuem para a redução de secções, diminuindo a capacidade de funcionamento estrutural dos vários elementos. Este ataque de insectos xilófagos é generalizado e estende-se à totalidade da estrutura: vigas e soalho. O não tratamento deste ataque biológico poderá conduzir à inutilização total da estrutura. Além do tratamento químico disponível hoje em dia para este tipo de problema, importa notar que estes insectos proliferam em ambientes de humidade elevada e deficientes condições de ventilação. Este edifício, por ter sido desenhado sem preocupações higrotérmicas, providencia um ambiente propício para a multiplicação deste tipo de insectos. Qualquer intervenção futura deverá não só quimicamente assegurar o fim desta colónia mas também garantir condições de temperatura e humidade aceitáveis que não propiciem este tipo de ataque. Viga V1 – Perfurações de Insectos Xilófagos Viga Vd1 – Idem Viga V1 – Fendas de Secagem e Perfuração Causada por Insectos Xilófagos Viga Vc5 – Ataque de Insectos Xilófagos em Estado Bastante Avançado Figura 20 – Pormenor Do Ataque De Insectos Xilófagos no Soalho e Vigamento
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 32 Uma variante deste tipo de intervenção consiste em adicionar chapas ou barras metálicas pregadas ao soalho e ligadas às paredes por um sistema de ferrolho para rigidificar ainda mais o pavimento, de forma a maximizar a resistência ao corte. Figura 27 – Pregagens Longas ou Tirantes 4.3 REFORÇO COM INSTALAÇÃO DE SOLUÇÃO MISTA MADEIRA-BETÃO Outra solução que poderá ser pontualmente utilizada neste edifício, mas que não é de todo ideal, é a criação de um pavimento misto madeira-betão. Este tipo de reforço possui algumas virtudes como o facto de contribuir para uma melhor redistribuição de cargas, rigidificação do pavimento, melhoria no comportamento do pavimento a vibrações de baixa frequência e impermeabilização de zonas húmidas. Como aspectos negativos há a salientar que este tipo de pavimento agrava o peso do sistema estrutural, o que contribuiria para uma deterioração do comportamento do pavimento a esforços horizontais. Neste tipo de solução, o soalho de madeira funciona como cofragem perdida sobre o qual se deve aplicar uma tela ou outro material impermeabilizante de forma a garantir isolamento total face a água do betão em fase de betonagem e também face a toda a humidade subsequente já em fase de utilização. Em seguida, poderá ser instalada uma armadura construtiva em rede electrossoldada ou varões de pequena dimensão de forma a acentuar o efeito de diafragma que se pretende que esta nova camada venha a proporcionar ao pavimento.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 33 Figura 28 – Solução Mista Madeira Betão Um dos aspectos mais importantes desta solução prende-se com a ligação madeira betão, a qual deve ser efectuada por elementos como pregos, cavilhas, parafusos, chapas dentadas, entre outros. O EC5 dedica alguns capítulos a este domínio e estabelece algumas regras que deverão ser observadas aquando do dimensionamento e instalação. Neste âmbito, existem duas metodologias de cálculo diferenciadas: uma primeira em que se assume como hipótese base que a ligação madeira betão é rígida e uma outra em que é dado que esta mesma ligação é flexível, existindo escorregamento entre ambos os materiais, o que introduz maior complexidade no cálculo, uma vez que se torna necessário considerar coeficientes de escorregamento entre materiais. Vários autores propõem a adopção quer de um quer de outro método o que resulta em pequenas diferenças a nível de cálculo, sendo que porém o método em que se assume haver deslizamento ser considerado como capaz de gerar resultados mais credíveis e de implementação mais fácil. A importância das ligações madeira betão prende-se também com o facto de ser necessário garantir que os esforços de compressão sejam absorvidos pelo betão e que os esforços de tracção sejam transmitidos à madeira, pelo que importa considerar uma série de factores importantes: - A estrutura de betão deve ser dimensionada de acordo com o EC2 sem qualquer tipo de consideração para a resistência deste material à tracção, de forma a optimizar o potencial de resistência à tracção da madeira. - Para efeitos de cálculo, deve efectuar-se um estudo detalhado de pontos da estrutura em que possa haver um agravamento localizado do nível de tensões em virtude de alterações significativas das propriedades dos materiais ou presença de cargas concentradas que levam a que haja uma concentração de tensões em determinada área. - O atrito entre materiais ou qualquer outro tipo de factor de aderência entre superfícies deve ser menosprezado para efeitos de cálculo de ligações Em geral, este tipo de solução permite ganhos de resistência estrutural significativos, essencialmente à flexão, bem como uma melhoria do efeito de diafragma que se traduz em
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 34 menos vibrações e maior capacidade de carga. É também de realçar que quer o isolamento térmico quer acústico são beneficiados por esta solução dada a maior espessura deste pavimento, o que acaba também por ser um dos seus pontos fracos, uma vez que o aumento de peso que embora possa ser minimizado com o uso de betões leves, acaba sempre por influir significativamente e negativamente no peso da estrutura, com as implicações já notadas anteriormente. 4.4 SUBSTITUIÇÃO E/OU REFORÇO COM PERFIS E CHAPAS METÁLICAS A introdução de perfis metálicos pode ser efectuada de várias formas, sendo que as mais relevantes para este tipo de construção obedecem essencialmente a duas estratégias: uma primeira em que se procede à solidarização entre a madeira e o aço de forma a aproveitar parte da capacidade resistente residual das viga de madeira, e uma outra em que se procede à substituição total das vigas de madeira no caso da madeira já não preencher os requisitos mínimos de resistência estrutural, em virtude de um processo de deterioração avançado. No primeiro caso importa salientar a importância de ventilar os apoios da viga metálica adjacentes aos apoios existentes da viga de madeira de forma a evitar a sua fragilização por patologias associadas a elevado teor de humidade. Em ambos os casos importa realçar o facto de que é importante que os apoios da nova viga metálica se integrem perfeitamente na alvenaria existente, e que estes sejam efectuados com fragmentos de alvenaria de pedra em mistura com uma argamassa compatível com o material constituinte das paredes, de forma a garantir o bom comportamento dos apoios e prevenir assentamentos indesejados em fase de carga. Figura 29 – Substituição de Parte do Vigamento por Perfis Metálicos A utilização de chapas metálicas pressupõe a conservação das peças de madeira existentes e manutenção da secção existente, sendo que idealmente todas as peças de madeira deverão ser tratadas antes da anexação das chapas metálicas. Esta técnica possui algumas condicionantes, nomeadamente um elevado impacto visual e também o facto de requerer manutenção constante, uma vez que os parafusos de fixação à madeira requerem aperto/ajuste regular de
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 35 modo a eliminar folgas geradas pela variação volumétrica da madeira, sendo por isso uma técnica com um espectro de uso algo limitado. Figura 30 – Esquema típico de reforço de Vigas de Madeira com Chapas Metálicas O contacto entre as vigas madeiras e metálicas deve também ser devidamente tratado de forma a evitar a amplificação de vibrações e ruídos de percussão que podem ser transmitidos caso não haja um elemento passivador entre as superfícies metálicas e de madeira. 4.5 INTRODUÇÃO DE FRECHAIS OU OUTROS ELEMENTOS DE APOIO EM PAREDES O frechal – um elemento de suporte fixado às paredes do edifício ao nível do pavimento, funciona como um apoio contínuo ao longo da parede e permite uma melhor distribuição na transmissão das cargas de pavimentos às paredes. Os sistemas de apoios convencionais concentram as cargas das vigas em zonas pontuais das paredes, o que as fragiliza e não permite activar outras zonas da parede em caso de solicitações mais fortes. Abaixo encontrase um exemplo de um frechal tradicional em madeira: Figura 31 – Frechal de Madeira Estes elementos são tipicamente apoiados em cachorros de pedra com o seguinte esquema de apoio: Figura 32 – Cachorros em Pedra e Frechal – Corte e Alçado 1 1 2 2 1 Legenda: 1 – Cachorro 2 – Frechal
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 36 Os frechais podem no entanto originar outro tipo de problemas nas paredes de alvenaria uma vez que as cargas por eles transmitidas são-no de uma forma excêntrica, podendo por isso dar origem a esforços de flexão excessivos que podem não ser suportados por paredes fragilizadas ou de pouca resistência. Uma solução alternativa ao frechal de madeira mas em todo semelhante do ponto de vista estrutural é a fixação de uma cantoneira de aço à parede. Esta solução, pelo facto de a cantoneira metálica assegurar uma melhor distribuição de cargas, dado o bom desempenho do aço à flexão e tracção, é mais desejável do que a anterior, embora também levante algumas preocupações a nível arquitetónico uma vez que nem sempre é possível minimizar o seu impacto visual. Figura 33 – Cantoneira Metálica Antes de Aparafusamento a Parede de Alvenaria 4.6 REFORÇO COM PRÓTESES DE MADEIRA LIGADAS POR ELEMENTOS METÁLICOS Esta solução deve ser utilizada sempre que haja partes da estrutura de madeira bastante fragilizadas, como seja no caso de fendas em vigas ou diminuição significativa da sua secção útil por ataque biótico, entre outros. As ligações entre elementos devem ser dimensionadas de acordo com o EC5, sendo que segundo vários autores, a altura das peças a instalar deve ser igual à das vigas existentes e ter uma extensão igual a pelo menos metade da peça a reforçar de forma a assegurar um funcionamento estrutural eficaz em que existe integração total entre materiais.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 37 Figura 34 – Reforço com Peças de Madeira em Ambas as Faces e Fixação com Parafusos Metálicos Uma das pricipais preocupações em relação a este método e uma das principais razões que contribuem para reduzir a sua fiabilidade é o facto de as peças novas de madeira se encontrarem em contacto e expostas a madeira degradada e alterada por agentes susceptíveis de a deteriorarem. De forma a prevenir potenciais danos deve remover-se a componente afectada da madeira antiga, sendo a espessura de material a adicionar determinada em obra em função da dimensão da área contaminada. 4.7 REFORÇO COM PERFIS METÁLICOS INTERCALADOS COM VIGAS DE MADEIRA EXISTENTES Esta é uma solução interessante a vários níveis uma vez que o novo vigamento é introduzido paralelamente ao existente e de forma intercalada. Tem como principais vantagens: - O facto de ser um método pouco intrusivo que se integra bem com o vigamento existente é um factor positivo do ponto de vista arquitetónico; - Contribui para um aumento significativo da rigidez do pavimento de madeira e diminui o nível de vibrações e deformabilidade; - Reduz o nível de carga das vigas existentes; Por outro lado esta solução acarreta normalmente um certo tipo de problemas: - Diferenças importantes entre o módulo de elasticidade da madeira e do aço implicam que ambos os materiais funcionem de forma diferenciada, podendo levar a que, no limite, apenas o aço receba todas as cargas depois de a madeira ter sofrido um processo de deformação irreversível ou de difícil reversabilidade. Figura 35 – Perfis Metálicos Intercalados com Vigas de Madeira Existentes
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 38 5 INTERVENÇÃO E SOLUÇÕES A ADOPTAR 5.1 SOBRADO As soluções a adoptar para tratar as anomalias identificadas na fase de diagnóstico passam por: a) Pintura química para eliminação de insectos xilófagos; b) Montagem de um segundo forro de soalho em direcção perpendicular ao existente; c) Montagem de vigas metálicas paralelas ao vigamento de base (zona 1 apenas); d) Montagem de tarugos de travamento horizontal na perpendicular ao vigamento de topo e) Melhoria do comportamento higrométrico do edifício por introdução de isolamento térmico de paredes e cobertura, assim como de portas e janelas de vidramento duplo (estudo térmico detalhado para avaliar necessidades de isolamento deve ser preparado) 5.1.1. PINTURA QUÍMICA PARA ELIMINAÇÃO DE INSECTOS XILÓFAGOS Este tratamento pode ser efectuado com um produto de preservação em base de solvente orgânico, destinado ao tratamento preventivo e curativo de madeiras de construção e mobiliário. O produto deverá ser insecticida, fungicida e termiticida, destinado ao tratamento preventivo e curativo, e deverá ser aplicado por aspersão, pincelagem ou injecção em todas as madeiras atacadas, tanto no interior como no exterior. Várias empresas disponibilizam uma gama completa de produtos que permitem um tratamento eficaz deste tipo de patologias. 5.1.2. VERIFICAÇÃO DA ESTRUTURA DE MADEIRA DE ACORDO COM O EC5 APÓS MONTAGEM DE UM SEGUNDO FORRO DE SOALHO EM DIRECÇÃO PERPENDICULAR AO EXISTENTE E INSTALAÇÃO DE TARUGOS Após o tratamento químico anterior, uma das soluções a implementar é a instalação de um segundo forro de soalho de 30mm de espessura, numa direcção perpendicular ao tabuado existente. Uma maior espessura aliada ao facto de o fio da nova madeira se encontrar disposta numa direcção perpendicular à da madeira existente proporciona uma melhor distribuição de cargas e uma melhoria do comportamento do pavimento a acções dinâmicas susceptíveis de gerar vibrações de baixa frequência.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 39 Figura 36 – Aplicação de um Segundo Forro de Soalho em Direcção Perpendicular ao Existente Para a zona 1 do edifício, a verificação deste pavimento irá ser efectuada tendo em conta que o nível de vigamento inferior irá manter a mesma configuração, e irá continuar a suportar as vigas secundárias do nível superior. No entanto, as vigas de madeira do vigamento secundário, embora se encontrem num estado razoável de conservação, serão substituídas na íntegra uma vez que se encontram sujeitas a um ataque biológico que motivou a sua deterioração com destruição permanente de secções transversais resistentes, uma anomalia para a qual não é possível garantir um tratamento completamente eficaz e que poderá levar à contaminação dos novos elementos de madeira a ser instalados. Por suas vez as vigas de madeira principais do nível inferior encontram-se submetidas não só a um severo ataque biológico mas também apresentam fendas de secagem pelo que deverão ser substituídas por perfis em aço S235 HEB 220, perfis que possuem uma altura de secção semelhante às vigas existentes e que como tal se enquadrarão perfeitamente a nível arquitetónico. As vigas metálicas serão verificadas de acordo com o EC3 no ponto seguinte. As vigas originais de madeira de pinho irão ser retiradas e analisadas por pessoal especializado em obra de forma a avaliar a extensão dos danos e eventualmente reutilizadas na substituição de vigas danificadas nas zonas 2 e 3, zonas onde igualmente se manterá o sistema estrutural original, adicionando apenas contraventamento a meio vão, com vigas de altura semelhante. Quadro 2 - Acções a Considerar – Combinações e quadro de entrada Elemento Carga (KN/m) Tipo Nota de quantificação Soalho 0.22 Permanente – Peso Próprio e=6cm; M=600kg/m3; Largura de Influência = 0.6m Viga 0.07 Permanente – Peso Próprio A=0.1*0.12m2; M=600kg/m3; Sobrecarga 1 1.2 Sobrecarga RSA (geral – habitação) q = 2 kN/m2; Largura de Influência=0.6m Sobrecarga 2 0.8 Sobrecarga RSA (paredes divisórias); tabique=1.3KN/m3; htabique=2.6m; q=0.4g; Largura de Influência=0.6m
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 40 Quadro 3 - Combinações de Acções Estados Limites Últimos Acções Variáveis q = 1.5 Acções Permanentes Desfavoráveis g = 1.5 Acções Permanentes Passíveis de Determinação Rigorosa g = 1.35 Acções Permanentes Favoráveis g = 1.0 Estados Limites de Utilização g = 1.0 Quadro 4 - Coeficientes de Redução de Acções Variáveis Tipo de Utilização 0 1 2 a) Edifício de habitação para uso de carácter privado 0.4 0.3 0.2 Quantificação da carga distribuída actuante (p) actuante na viga p = g ∑ i 0=i Gi + q ∑ i 0=i (i0x Qi) = 1.35 x (0.22 + 0.7) + 1.5 x (0.4x(1.22 + 0.8)) = 1.5 kN/m Caracterização da viga e apoios Cada uma das vigas secundárias possui quatro vãos e encontra-se simplesmente apoiada em apoios intermédios – vigamento principal inferior, e paredes de alvenaria. Através de princípios de cálculo estrutural e de equilíbrio estático da viga foi possível obter os seguintes diagramas de esforço transverso e momentos:
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 41 VV MM A validação verificação segundo o EC5 irá incidir sobre os Estados Limites Últimos e Estados Limites de Utilização. Dentro dos limites últimos, a análise irá focar nos seguintes aspectos: 1. Flexão simples 2. Instabilidade lateral torsional 3. Corte 4. Compressão perpendicular ao fio 5. Torção Nos estados limites de utilização serão analisados: 1. Deformação 2. Vibração A madeira é um material cujas propriedades mecânicas variam em função de determinadas variáveis: - Temperatura - Teor de Água - Humidade do Ar - Fluência - Outras O EC5 define diferentes classes de serviço em função destes parâmetros:
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 48 w = 2 4 25 24 1 384 5 L h G E EI Lq Quadro 11 – Coeficiente de Tensão Crítica de Encurvadura Tipo de Carga Quantificação da carga (kN/m) Deformação w g – permanente 0.4 wcreep = 3.3E-6 q – variável 1.1 winst = 9E-6 Com base nos valores calculados é possível obter que wnet,fin = 1.2E-5 ou 0.012 mm. O EC5 impõe as seguintes restrições em termos de deformação: Quadro 12 – Comparação Entre Deformações Regulamentares e de Cálculo Deformações winst wnet,fin wfin Regulamentar (mm) l/500<winst<l/300 l/350<wnet,fin<l/250 l/300<wfin<l/150 5.4<winst<9 7.7<wnet,fin<11 9<wfin<18 Cálculo (mm) 0.009 0.012 0.012 O controlo de deformações tem por objectivo minimizar eventuais danos em elementos não estruturais como paredes divisórias de tabique, ou evitar que elementos acoplados à estrutura como canalizações sejam afectados por deformações excessivas que afectem o seu funcionamento. 5.1.2.7. CONTROLO DE VIBRAÇÕES – ESTADO LIMITE DE UTILIZAÇÃO O EC5 estabelece que no caso da frequência fundamental de um pavimento de madeira ser inferior a 8 Hz, então este deve ser alvo de um estudo pormenorizado. Caso contrário, para frequências superiores a 8 Hz, frequências tipicamente superiores às geradas pelo caminhar humano, o pavimento deve verificar as seguintes condições: v b (f1-1) Em que v é o valor máximo inicial da velocidade de vibração do pavimento, quando estimulado por um impulso equivalente a (1 Ns), aplicado no ponto do pavimento capaz de produzir resposta máxima. b é calculado a partir do gráfico 7.2 do EC5:
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 49 Figura 39 – Determinação do factor “b” segundo o EC5, consoante o tipo de pavimento Em que a tendência 1 é característica de um pavimento com bom desempenho enquanto que a gama de valores associados com a tendência 2 está tipicamente relacionada com pavimentos de baixo desempenho. No cálculo deste pavimento irá ser considerado um valor intermédio – 100. é o coeficiente modal de amortecimento do pavimento, um factor que varia mais significativamente com as condições de apoio. O EC5 define que o valor a adoptar para este parâmetro deverá ser 0.01, no caso de não se encontrarem disponíveis valores mais específicos relacionados directamente com a estrutura em estudo. f1 é a frequência fundamental do pavimento e é calculada da seguinte forma: m EI L flong )( 2 12 m – massa do pavimento por unidade de área l – vão do piso EIlong – rigidez do pavimento do piso na direcção do eixo perpendicular à direcção das vigas (N/mm2) Por sua vez, a velocidade de vibração v deve ser calculada da seguinte forma: v = 200 )6.04.0(4 40 lbm n em que n40 é o número de modos de primeira ordem com frequências naturais até 40 Hz. Por sua vez n40 deve ser calculado da seguinte forma: n40 = 25.0 4 2 1 1 40 b l EI EI l b f As frequências fundamentais calculadas para este tipo de pavimento são baixas, pelo que a metodologia descrita no EC5 não é adequada para este tipo de verificação. O facto do pavimento possuir uma espessura de soalho considerável, aliado a um tarugamento simples poderão ser factores que influirão no desempenho favorável do pavimento no capítulo das vibrações.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 50 5.1.3. MONTAGEM DE VIGAS METÁLICAS PARALELAS AO VIGAMENTO SECUNDÁRIO – VERIFICAÇÃO SEGUNDO O EC3 O dimensionamento das vigas metálicas que passarão a suportar o soalho será realizada de acordo com o Eurocódigo 3 – Estruturas de Aço. De forma a reduzir o impacto no sistema estrutural do edifício e de forma a replicar o mais possível a estrutura existente, os perfis metálicos a dimensionar/verificar segundo o EC3 terão uma altura de 220mm, o que permitirá posicioná-los ao mesmo nível do vigamento existente. Quadro 13 - Acções a considerar – Combinações e quadro de entrada Elemento Carga (KN/m) Tipo Nota de quantificação Soalho 1.44 Permanente e=6cm; M=600kg/m3; Largura de Influência = 4m Vigas de Madeira Secundárias 0.4 Permanente A=0.1*0.12m2; l=10m; M=600kg/m3; 10 vigas; 7.8kN Largura de Influência = 4m Tarugos de Madeira 0.18 Permanente A=0.1*0.1m2; M=600kg/m3; Largura de Influência cada viga absorve cargas de 3 tarugos Viga Metálica em perfil HEB 200 0.72 Permanente – peso próprio Sobrecarga 1 8 Sobrecarga RSA (geral – habitação) q = 2 kN/m2; Largura de Influência = 4m Sobrecarga 2 5.8 Sobrecarga RSA (paredes divisórias) tabique=1.3KN/m3; htabique=2.6m; q= 0.4g; Largura de Influência = 4m Quadro 14 - Combinações de Acções Estados Limites Últimos Acções Variáveis q = 1.5 Acções Permanentes Desfavoráveis g = 1.5 Acções Permanentes Passíveis de Determinação Rigorosa g = 1.35 Acções Permanentes Favoráveis g = 1.0 Estados Limites de Utilização g = 1.0
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 51 Quadro 15 - Coeficientes de Redução de Acções Variáveis Tipo de Utilização 0 1 2 a) Edifício de habitação para uso de carácter privado 0.4 0.3 0.2 Quantificação da carga distribuída actuante (p) actuante na viga p = g ∑ i 0=i Gi + q ∑ i 0=i (0 x Qi) = 1.35 (1.44+0.6+0.18+0.72) + 1.5 (0.4 (8 + 5.8)) = 12.3 kN/m Msd,max = m.kN4.55= 8 63.12 = 8 lp 22 Vsd,max = kN37= 2 63.12 = 2 lp A quantificação das cargas de cálculo incluiu os seguintes parâmetros: Gk – Acções Permanentes – Peso do soalho, vigamento secundário, tarugos e peso próprio da viga metálica Qk – Acções Variáveis – Sobrecarga Para Edifícios de Habitação e sobrecarga de paredes divisórias Todas as vigas a instalar ficarão simplesmente apoiadas nas paredes de alvenaria de granito de Norte e de Sul, o que resulta num vão total de 6m. 5.1.3.1. DEFINIÇÃO DA CLASSE DE SERVIÇO DO AÇO Tensão Característica fy = 235 Mpa De acordo com a tabela 5.2 do EC 3 isto traduz-se num factor de cálculo de secção = 1.0 De forma a definir a classe de funcionamento do aço há que considerar a geometria e esbelteza da secção de forma a antecipar o seu comportamento. Perfis demasiado esbeltos tendem a encurvar no plano perpendicular ao de carga, ou fora do plano de carga, ainda antes de atingirem o limite de carga resistente da secção. Importa por isso classificar o perfil em estudo em função da sua geometria de forma a garantir que o dimensionamento é realizado de forma adequada.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 52 Quadro 16 - Classe de Serviço do Aço em Função de Rácios Geométricos do Perfil Para uma secção HEB 220 há que considerar os seguintes parâmetros: tw = 9.5mm – Espessura da Alma tf = 16 mm – Espessura das Abas r = 18 mm Abas/flange c = ( b– tw – 2 × r ) / 2 = (220 – 9.5 – 2 x 18) / 2 = 87.25 c/tf = 87.25 / 16 = 5.4
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 53 Alma/web c = ( h– 2 × tf – 2 × r ) / 2 = (220 – 2 x 16 – 2 x 18) / 2= 76 c / tw = = 76/9.5 = 8 E que resulta nos seguintes rácios: c/tf = 5.4 10 x = 10 => Classe 1 d/tw = 8 72 x = 72 => Classe 1 Logo o perfil é de classe 1. 5.1.3.2. VERIFICAÇÃO À FLEXÃO Da equação 6.12 do EC3 vem que: MEd Mc,Rd, ou seja o momento de cálculo deverá ser inferior ou momento resistente da secção em estudo. O cálculo do momento resistente vem então que: MC,Rd= Mpl,RD= Wpl× fy / γMO = 736 x 10-6 x 235 x 103 / 1.0= 173KN.m Logo, MEd Mc,Rd, ou seja 55.4KN.m 173 KN.m, e o perfil preenche claramente os requisitos necessários para resistir a solicitações de flexão. Em alternativa, Como Msd = 55.4 kN.m Então, MC,Rd > 55.4 => Wpl× fy / γMO > 55.4 => Wpl > 55.4 / 235 x 103 Wpl > 236 cm3 Dentro da gama HEB, o perfil HEB160 é o que preenche os requisitos mínimos. 5.1.3.3. VERIFICAÇÃO AO CORTE VEd ≤ Vpl,Rd Vpl,Rd = 0M yv γ 3 fA Cálculo da área de corte Av: Av = A – 2btf + (tw + 2r)tf Av = 9100 – 2 x 220 x 16 (9.5 2 x 18 ) x 16 = 2788 mm2
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 54 Logo, Vpl,Rd = (Av x fy x 3 -0.5 ) / γMO = 2788 x 10-3 235 x 3-0.5 / 1.0 = 378.3 KN Logo VEd ≤ Vpl,Rd, ou seja 37 ≤ 378.3 kN Em alternativa, Como Vsd = 37 kN Vem que Vpl,Rd > 37 kN Av x fy / 3 > 37 => Av > 37 x 3 / 235 x 103 Av > 2,72 cm2 Como se verifica por este cálculo, o esforço não é o factor condicionante deste dimensionamento, pelo que mesmo o perfil de entrada da série HEB verificaria os requisitos do dimensionamento ao corte. 5.1.3.4. CONTROLO DA DEFORMAÇÃO A MEIO VÃO – ESTADO LIMITE DE UTILIZAÇÃO A flecha máxima admissível calcula-se com base em valores limites recomendados para os deslocamentos verticais em dmax = d1 + d2 - d0 dmax - flecha no estado final d1 - variação da flecha da viga devida às acções permanentes d2 - variação da flecha da viga devida aos valores reduzidos das acções variáveis utilizados nas combinações características: d0 - contra-flecha Segundo a NP EN 1993-1-1 2008 a flecha máxima não pode exceder l/250 de forma a que não se produzam danos em revestimentos ou divisórias flexíveis. Com l = 250 vem que dmax = 6 / 250 = 2.4 cm d = )EI(384 Lp5 Quantificação da carga distribuída actuante (p) na viga em estados limites de utilização: p = g ∑ i 0=i Gi + q ∑ i 0=i (k x Qi) = 1.35 (1.44+0.6+0.18+0.72) + 1.5 (0.3 8 + 0.2 5.8)) = 9.3 kN/m
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 55 d = )_*( ** 880919210384 693005 EE = 0.04 mm Ou, 0.024 > )*( ** IE9210384 693005 => I > 14.4 cm4 Logo o perfil HEB 220 com uma inércia claramente superior a este valor garante que a flecha a meio vão será claramente inferior aos limites especificados pelo EC3 5.1.3.5. VERIFICAÇÃO À ENCURVADURA EM PLANO TRANSVERSAL AO DE APLICAÇÃO DE CARGAS O EC3 define no ponto 6.3.2.1 que: MEd < MB,Rd Em que MEd representa o valor do momento flector de cálculo na secção segundo o eixo em estudo e MB,RD é o valor de cálculo do momento resistente à encurvadura da secção. Para o momento resistente vem que: MB,Rd = LT × WPl,y × M1 γ fy Em que, dependendo da classe da secção, o momento estático segundo o eixo forte assume os seguintes valores Wy = Wpl,y para Secções das classes 1 e 2 Wy = Wel,y para secções da classe 3 Wy = Weff,y para secções da classe 4 LT é o factor de redução para encurvadura latero-torsional 1≤ 1 50 2 2 . _ LT LTLT LT onde 2 _ LT _ LTLTLT λ+0.2λα+10.5=φ os valores de LT (factor de imperfeição) são dados em função da curva de encurvadura da secção: Quadro 17 – Factor de Imperfeição em função da curva de encurvadura do perfil
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 56 Quadro 18 – Definição de curvas de encurvadura tipo para perfis laminados e soldados As secções laminadas incluem as curvas tipo a e b, enquanto as secções soldadas incluem curvas tipo c e d. Para secções laminadas o valor de cálculo normalmente adoptado é 0.21. LT _ λ é o valor da esbelteza normalizada: 0.5 W 1 LT 0.5 cr ypl.yW LT _ β λ λ = M .f.Wβ =λ e em que: 50 1 . . y f E e, w = 1, para secções transversais de Classe 1 ou 2 w = Wel.y / Wpl.y, para secções transversais de Classe 3 w = Weff.y / Wpl.y, para secções transversais de Classe 4 Já Mcr é calculado da seguinte forma: 0.5 z 2 t 2 z w 2 w 2 z 2 1cr EIπ GI(kl) + I I k k (kl) EIπ C=M Em que O valor de C1 são retirados da tabela F.1.2 mediante as condições de apoio da viga, de carregamento e valores de comprimento efectivo. L – Comprimento de encurvadura; K – Factor de comprimento efectivo; k – Factor de forma; kLT – Factor de forma normalizado; C1 – Coeficiente de flexão
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 57 Em que C1 é calculado da seguinte forma: 702≤5204018812 1.... C representa o rácio entre os momentos mínimos e máximo, o que neste caso se traduz em: = 0 uma vez que as vigas se encontram simplesmente apoiadas. O que resulta em C1 = 1.88 Substituindo todos os valores vem que: MB,Rd = LT × WPl,y × M1 γ fy = 0.62 x 736E-6 x 235E6 = 107.2 kN.m > 55.4 kN.m Logo o perfil HEB 220 verifica e possui também capacidade para suportar o máximo momento flector expectável sem que ocorra qualquer tipo de fenómeno de instabilidade lateral.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 64 Este sistema será apenas equacionado como alternativa, sendo que a solução de base passa por manter a configuração estrutural existente através de reforço e substituição com perfis metálicos, como detalhado nos pontos anteriores.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 65 6 CONCLUSÕES Embora inicialmente o objectivo fosse manter a estrutura de madeira da laje do primeiro andar na íntegra, os resultados da fase de inspecção e diagnóstico ditaram que o vigamento existente não oferece garantias de funcionamento estrutural adequado, pelo que deverá ser em grande parte substituído. A estratégia global de reabilitação estrutural deste edifício irá assentar nos seguintes princípios: Zona 1 - Substituição do vigamento inferior de base por perfis metálicos; - Substituição do vigamento superior por vigas de madeira de secção idêntica; - Tratamento químico-biológico do soalho existente e aplicação de segundo forro em direcção perpendicular para melhorar rigidez, isolamento e distribuição de cargas – efeito diafragma; - Instalação de tarugos de contraventamento a meio vão; Zonas 2 e 3 - Substituição do vigamento existente por vigas de madeira de secção semelhante com reaproveitamento de secções/segmentos da zona 1; - Tratamento químico-biológico do soalho existente e aplicação de segundo forro em direcção perpendicular; - Instalação de tarugos de contraventamento a meio vão; Procurou-se sempre que possível respeitar a identidade do edifício, o que apesar da substituição realçada no ponto anterior se traduziu na retenção do sistema estrutural original, em que as novas vigas se encontram localizadas na mesma posição e transmitem esforços de uma forma similar às paredes de alvenaria existentes, minimizando assim qualquer tipo de redistribuição de esforços que possa ocorrer em fase de construção ou em fase posterior. Materiais tradicionais como a madeira foram privilegiados em detrimento de soluções construtivas mais pesadas que envolvem o uso de betão armado, um material que conduz a soluções passíveis de afectar negativamente o comportamento estrutural global do edifício. A coordenação com outras especialidades como térmica, componentes electro-mecânica, e hidráulica é fundamental ainda na fase de projecto. O dimensionamento térmico deverá ter como objectivo manter a temperatura e humidade do edifício dentro de parâmetros aceitáveis para garantir a salubridade do todo e em particular dos elementos de madeira.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 66 As diversas redes do edifício devem ser projectadas em coordenação estreita com a componente arquitetónica de forma a assegurar que a riqueza visual do património antigo não é afectada por um posicionamento e instalação inadequadas. Em fase de construção é importante assegurar a intervenção de mão-de-obra qualificada e experiente, nomeadamente para os trabalhos de carpintaria e de reparação de tectos em estuque, uma vez que estes elementos são extremamente sensíveis e largamente interligados com a restante estrutura. A eliminação em fase de construção de alguns elementos de suporte pode ditar o colapso de partes mais frágeis do edifício, o que importa como tal prevenir e evitar. Seria desejável que a reabilitação de edifícios continue a assumir cada vez mais preponderância no mercado de imobiliário em Portugal e como tal interessa garantir o sucesso desta intervenção de forma a que esta possa ser replicada em edifícios similares da região, com o apoio e com a base de conhecimento disponível na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.
Reabilitação Estrutural de Edifício Antigo 67 7 BIBLIOGRAFIA [1] Pavimentos de Madeira em Edifícios Antigos; Ilharco, Tiago – 2005 -2007 [2] Manual de Apoio ao Projecto de Reabilitação de Edifícios Antigos; Freitas, Vasco Peixoto – 2012 [3] Reabilitação de Edifícios Antigos; Appleton, João – 2003 [3] A Sustentabilidade nos Projectos de Reabilitação de Edifícios; Appleton, João – 2011 [4] Projectos Especiais e Dimensionamento Estrutural; Carriço, Alexandre – 2003 [5] Propriedades da Madeira Como Material de Construção; Lança, Pedro – 2004 [6] Projecto de Estruturas Metálicas; Reis, António – 2010 [7] Recuperação de Pavimentos Antigos Em Madeira Com Lajes Mistas Madeira-Betão; Cardoso, Luís – 2010