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3 Ao meu orientador, o Professor Doutor Rui Póvoas, pelo apoio e tempo disponibilizado. Ao Professor Nuno Valentim, pela primeira ajuda na definição do tema de trabalho. À arquiteta Diana Martins, da Porto Vivo, SRU, pelo fornecimento de dados. Aos funcionários do Arquivo Histórico Municipal do Porto, pela paciência e ajuda. À senhora do 2º piso do nº173 da Rua de Trás, que muito gentilmente me abriu as portas de sua casa e me forneceu hilariantes momentos de conversa, dando tempo para falar de tudo menos para lhe perguntar o seu nome. Aos meus amigos que colaboraram no primeiro projeto de reabilitação de uma casa portuense, uma das razões da escolha do tema deste trabalho. Aos meus pais e irmã, que durante dois meses aturaram a desarrumação da minha mesa de trabalho, colocada temporariamente na sala de estar. E por fim, à minha maravilhosa cidade, o Porto, que desde sempre me serviu como tema de inspiração.
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5 “A história da arquitetura é, antes de mais nada e essencialmente, a história das concepções espaciais. O julgamento arquitetônico é fundamentalmente um julgamento sobre o espaço interior dos edifícios. Se ele não pode ser expresso pela falta de espaço interno, como acontece com os vários temas construtivos já mencionados, o edifício – quer seja o Arco de Tito, a Coluna de Trajano, ou uma fonte de Bernini – excede os limites da história da arquitetura e passa a integrar, como conjunto volumétrico, a história do urbanismo, e, como valor artístico intrínseco, a história da escultura. Se o julgamento sobre o espaço interior for negativo, o edifício faz parte da não-arquitetura ou da má arquitetura, mesmo que, mais tarde, os seus elementos decorativos possam ser abrangidos pela história da arte escultórica. Se o julgamento sobre o espaço de um edifício for positivo, este entra na história da arquitetura, mesmo que a decoração seja ineficaz, quer dizer, mesmo que o edifício, considerado integralmente, não seja satisfatório. Quando, por fim, o julgamento sobre a concepção espacial de um edifício, sobre sua volumetria e seus prolongamentos decorativos, for positivo, encontramo-nos então diante das grandes e íntegras obras, em cuja excelsa realidade colaboram os meios expressivos de todas as artes figurativas. Concluindo: se podemos encontrar na arquitetura as contribuições das outras artes, é o espaço interior, o espaço que nos rodeia e nos inclui, que dá o lá no julgamento sobre um edifício, que constitui o ‘sim’ ou o ‘não’ de todas as sentenças estéticas sobre a arquitetura. Se pensarmos um pouco a respeito, o fato de o espaço, o vazio, ser o protagonista da arquitetura é, no fundo, natural, porque a arquitetura não é apenas arte nem só imagem de vida histórica ou de vida vivida por nós e pelos outros; é também, e sobretudo, o ambiente, a cena onde vivemos a nossa vida.” Bruno Zevi Saber ver a arquitetura
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7 Resumo No seio de um mundo contemporâneo, o Porto destaca-se por uma identidade própria, uma imagem medieval num centro histórico que outrora serviu de principal ponto habitacional. Constantemente a perder os seus habitantes para os concelhos vizinhos, a cidade tornou-se envelhecida, servindo como um centro de emprego e um polo de ensino para aqueles que se mudaram para fora dos seus limites. Tal como as pessoas, a arquitetura também foi envelhecendo e aos poucos foi deixando de satisfazer as necessidades da sociedade, resultando num Porto destruído e vazio. Reabitar o centro é imprescindível e, para que tal aconteça, é necessário a tomada de medidas de intervenção e reabilitação dos seus edifícios, tornando-os de novo habitáveis e adaptados às necessidades contemporâneas, a fim de seduzir uma população que há muito os trocou por novos espaços. A casa portuense serviu uma sociedade já desaparecida, a Burguesia, numa época de mudanças sociais, económicas e políticas. Mas porque reabilitar não é apenas a reestruturação de um espaço, é fundamental compreender a relação da arquitetura da casa com o contexto em que foi construída, percebendo de que maneira a habitação respondeu às vontades do burguês. Esta dissertação pretende estabelecer um contraponto entre a sociedade do passado e a sociedade atual, entre o séc. XIX e o séc. XXI, numa tentativa de descobrir o que manter, o que eliminar e o que acrescentar, construindo o contemporâneo em continuidade com estruturas do passado, mantendo a identidade característica dos interiores. Palavras-chave: Porto, Burguesia, Contemporaneidade, Habitação, Identidade, Diálogo, Espaço interior, Reabilitação
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9 Abstract Within a contemporary world, Porto is notable for its own identity, a medieval picture in an historic center that once served as primary housing area. Constantly losing their inhabitants for neighboring municipalities, the city became aged, serving as an employment center and a pole of education for those who have moved out of its limits. Like people, the architecture was also aging and gradually was leaving to meet the needs of society, resulting in a Porto destroyed and empty. Rehabilitate the center is essential and for make this happen, it is necessary to take measures of intervention and rehabilitation of their buildings, making them habitable again and adapted to contemporary needs in order to seduce a population that has long left them for new spaces. The typical house of Porto served a society now defunct, the Bourgeoisie, in a time of social, economic and political changes. But because rehabilitation is not only the restructuring of a space, it is essential to understand the relationship between the architecture of the house with the context in which it was built, realizing how the habitation responded to the wishes of the bourgeois. This dissertation intends to establish a counterpoint between past society and current society, between the century XIX and XXI, in an attempt to figure out what to keep, what to eliminate and what to add, building contemporary structures in continuity with the past, and keeping the characteristic identity of the interiors. Keywords: Porto, Bourgeoisie, Contemporary, Housing, Identity, Dialogue, Interior space, Rehabilitation
16 na noção de família e, especialmente, o que se alterou na cidade do Porto numa altura em que os concelhos vizinhos assumem-se como as principais zonas de habitação. Apesar de uma certa versatilidade, a casa portuense apresenta limitações no que diz respeito à introdução de novos programas e de novos equipamentos. É o caso do estacionamento, do elevador e das zonas de serviço. O quarto de banho deixou de estar no alçado tardoz, integrando-se no interior da habitação, bem como se introduziu um espaço destinado para a lavandaria. Os acessos verticais também são uma limitação. Devido à sua localização no centro do edifício, a caixa de escadas ocupa a sua largura quase por completo, dividindo os pisos entre frentes e traseiras nos edifícios mais estreitos. A reabilitação destes espaços pode ser executada de diversas maneiras respondendo a diferentes atitudes. Pode-se reabilitar mantendo o existente tal como está ou pode-se introduzir algumas alterações para uma melhor adaptação à atualidade sem, no entanto, retirar ao espaço a sua identidade. Em alternativa a esta atitude, encontra-se a reconstrução, onde o espaço é reformulado por completo de raiz. Numa altura em que um número significativo das intervenções de reabilitação levadas a cabo destroem por completo os interiores que caracterizam a casa burguesa, o Porto arrisca-se a perder a sua classificação como Património Mundial da Humanidade. Porque não é suficiente manter-se apenas a fachada, dado que a própria organização interna da casa burguesa é o maior testemunho do passado e o que mais reflete a sociedade que em tempos a habitou e que “pode documentar, em cada momento histórico, o sentido mais profundo em que determinada comunidade evoluiu.”2 Nos seus interiores encontram-se as memórias do passado, as marcas da vivência de uma sociedade e de um tempo próspero e de grande desenvolvimento urbano, económico, social e comercial que caracterizou o Porto ao longo do século XIX. O desafio deste trabalho é procurar saber se a simples reabilitação onde se mantem o máximo de elementos do interior é suficiente para adaptar as casas aos dias de hoje, ou se são necessárias medidas que destruam a identidade do espaço habitacional burguês. É preciso descobrir o que se pode manter e o que há para introduzir, num diálogo positivo entre o antigo e o atual, resultando num espaço que, 2 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, Porto: FAUP Publicações, 1999,p. 30
1. INTRODUÇÃO 17 apesar de contemporâneo e de reflexo de uma nova sociedade, continua o que há muito tempo foi iniciado. “Deste modo, é fundamental entender a relação da obra produzida pelo Homem com o seu contexto, com a preexistência natural.”3 Saber o que reformular e acrescentar é conhecer as diferenças entre o tempo em que estas casas foram construídas e o século XXI, entre a burguesia e a população atual. A sociedade contemporânea portuense é o fruto da evolução da população na cidade ao longo dos tempos. Os seus valores, as suas necessidades e as suas leis foram concebidos na continuidade do que existia anteriormente, reformulando-se ideias e acrescentando-se novas. Tal como as pessoas, a arquitetura desenvolveu-se de uma forma contínua, moldando-se às pessoas. Reabilitar a casa burguesa portuense implica partir de bases já estruturadas, procurando-se perceber qual a melhor maneira de as moldar à atualidade. A análise do contexto histórico e social, bem como a evolução urbana e arquitetónica ocorridas no séc. XIX, é fundamental para o entendimento das formas de habitação burguesas, projetadas nos interiores da casa portuense. Porque sabemos que é impossível adaptar a casa burguesa portuense a todas as necessidades contemporâneas e aos novos regulamentos, resta demonstrar a sua versatilidade, percebendo quais as tipologias que melhor se adaptam à sua estrutura. Numa última parte, o desafio do trabalho é esgotar todas as opções de distribuição funcional interior num modelo que reúna as principais características do tipo de edificado que compõe as áreas mais sensíveis e degradadas, dentro dos limites que definem a zona classificada como Património da Humanidade desde 1996. Uma intervenção de reabilitação menos intrusiva conduzirá a uma diminuição dos custos, daí a importância do estudo das várias possibilidades de organização espacial mantendo-se ao máximo a estrutura e os componentes que caracterizam a casa do Porto. Desta forma, a reabilitação da cidade pode ser um fenómeno mais rápido e contar com a participação de mais cidadãos, possibilitando a execução destas intervenções por parte de pessoas com menos possibilidades financeiras. Consequentemente, o preço das habitações poderá ser mais baixo criando a possibilidade da sua aquisição por parte de famílias da classe média que ao longo dos anos foram trocando o centro pelos arredores. 3 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, obra já citada, p. 58
18 Não obstante disto, e apesar da existência de mais do que uma estratégia de reabilitação, a intervenção menos intrusiva parece ser, também, a que melhor respeita o valor patrimonial da casa burguesa do Porto. 1.2. Objeto “Habitar é construir um lugar, prolongar-se a si mesmo sobre o lugar para que ele responda como um eco às nossas ações e pensamentos.”4 Perceber os espaços da casa burguesa é perceber a burguesia, a maneira como habitavam, como conviviam e, acima de tudo, perceber o seu papel na sociedade. Ora, a fim de criar um espaço de habitação contemporâneo, é importante compreender a sociedade contemporânea, a maneira como se vive, como se convive com os outros, como é o mundo do trabalho e, mais fundamental ainda, perceber como a família funciona na atualidade. Com este trabalho, procura-se perceber não só o contexto histórico do Porto de Oitocentos, a burguesia e a evolução da sua casa, mas também perceber a população atual e as suas noções de habitar, contrapondo os dois tempos e as duas sociedades a fim de conceber propostas de intervenção que demonstrem de que maneira o espaço da casa burguesa portuense se pode adaptar à contemporaneidade sem perder a sua identidade. O interior da casa burguesa portuense define-se como o objeto de estudo deste trabalho, onde se procura responder a questões de disposições espaciais que resolvam as novas necessidades habitacionais. E porque reabilitar a casa burguesa não é apenas manter a fachada exterior e reconstruir por completo o espaço interior, é fundamental perceber quais são os maiores desafios a ultrapassar. Importa explorar as tipologias que melhor se adaptam a esta distribuição funcional, procurando manter o máximo de elementos caracterizadores da identidade da casa burguesa. 4 Cf. FUERTES, Magda Maria, As formas de Habitar in Arquitectura Ibérica, consultado em 24 de Agosto em http://upcommons.upc.edu
1. INTRODUÇÃO 19 1.3. Objetivos O principal objetivo deste trabalho é o estudo refletivo sobre as formas de intervir e de reabilitar os interiores das casas burguesas portuenses, procurando-se estabelecer um diálogo entre as estruturas do passado e as necessidades habitacionais da sociedade contemporânea. Como tal, visa-se estabelecer um prévio contraponto entra a sociedade burguesa e a sociedade contemporânea, entre a história da cidade no séc. XIX e no presente século, criando as bases de conhecimento necessárias à elaboração de um exercício prático de exploração da versatilidade interior, onde o espaço habitacional burguês permanece na casa contemporânea. Em suma, os objetivos do trabalho orientam-se segundo os seguintes pontos: - Conhecer a época e a sociedade para a qual a casa portuense foi construída, constatando de que maneira a habitação pode ser desenvolvida como resposta a determinadas necessidades. - Compreender o Porto e a sociedade contemporânea, percebendo a sua evolução e as razões que conduziram à desadequação da casa do Porto à realidade atual; - Refletir sobre a maneira como a arquitetura do passado pode acompanhar a evolução da sociedade ao longo dos tempos; - Fomentar a criação de juízos de valor sobre as melhores maneiras de reabilitação que visem não só a permanência da linguagem das fachadas exteriores, mas também dos espaços interiores; - Procurar as condições favoráveis para a criação de estratégias de reabilitação que surjam em continuidade com as estruturas do passado, assegurando a sua identidade e possibilitando intervenções menos destrutivas e, consequentemente, mais baratas, de modo a facilitar e acelerar a reabilitação do centro histórico. 1.4.Método e Estrutura A fim de explorar, numa última fase do trabalho, a versatilidade da organização interior da casa burguesa, é fundamental a produção de uma primeira parte de análise do
20 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA, URBANA, ARQUITETÓNICA E SOCIAL CARACTERÍSTICAS DA HABITAÇÃO O ESPAÇO HABITACIONAL DA CASA BURGUESA PORTUENSE XIX x x x XXI x x ? 1.APRESENTAÇÃO DO TRABALHO 1.INTRODUÇÃO II.ANÁLISE 2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 2.1. A cidade do Porto até ao séc. XIX CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA 3.1. Das últimas décadas à atualidade CONTEXTUALIZAÇÃO URBANA 3.2. A distribuição populacional na Área Metropolitana do Porto 2.2. A evolução da casa portuense 2.2.1. Período Mercantilista 2.2.2. Período Iluminista 2.2.3. Período Liberal 2.2.4. Do unifamiliar ao plurifamiliar CONTEXTUALIZAÇÃO ARQUITETÓNICA 3.3. A habitação contemporânea na Área Metropolitana do Porto 2.3. A Burguesia 2.3.1. Integração e papel na sociedade e na cidade do Porto CONTEXTUALIZAÇÃO SOCIAL 2.3.2. O espaço habitacional burguês CARACTERÍSTICAS DA HABITAÇÃO O ESPAÇO HABITACIONAL DA CASA BURGUESA PORTUENSE III. INTERPRETAÇÃO 4. A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 4.1. Estratégias de reabilitação 4.2. Versatilidade e limitações – principais problemas de intervenção 4.3.Caso de estudo IV.SÍNTESE E CONCLUSÃO 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Fig.2 – Esquema de comparação entre os dois tempos a estudar no trabalho, onde a incógnita e o principal objetivo do trabalho reside na exploração de formas de organização do espaço habitacional burguês em resposta às necessidades contemporâneas N Fig.3 – Esquema de estrutura do trabalho N
1. INTRODUÇÃO 21 trabalho, que desenvolva e crie as bases teóricas para a elaboração do exercício final (fig.2). Como se pode verificar no quadro da página ao lado (fig.3), na primeira fase teórica e analítica, que procede o capítulo introdutório onde o tema a desenvolver é devidamente explicado, bem como o objeto, objetivos e método do trabalho, procederse-á à elaboração de um contraponto entre os dois tempos e as duas sociedades a estudar, mais precisamente, entre a sociedade burguesa do séc. XIX e a sociedade contemporânea atual, organizadas nos capítulos 2 e 3, respetivamente. A partir daqui, serão desenvolvidos temas capazes de fundamentar a tomada de uma posição relativamente a estratégias de reabilitação interior, abordadas posteriormente sobre a forma de uma componente mais prática e projetual. Assim, os capítulos 2 e 3 visam estabelecer uma comparação entre os dois tempos, abordando temas relacionados com o contexto histórico, o desenvolvimento urbano e arquitetónico, o contexto social e, mais importante, as características habitacionais. Porque a habitação é o reflexo da sociedade num tempo, ou seja, da soma destes pontos, é fundamental a compreensão das características habitacionais do século XIX, a fim de perceber, no capítulo 2, como foram reunidas e como se refletiram e condicionaram a construção da casa burguesa portuense. Quanto ao capítulo 3, o objetivo será a compreensão do que se alterou e do que se manteve, relativamente ao tempo passado, e que poderá vir a ser refletido na reabilitação do espaço interior da casa construída no séc. XIX. E é este ponto de comparação que compreenderá a parte prática do trabalho, como síntese e interpretação dos capítulos anteriores. Desta forma, o capítulo 4 procura perceber as estratégias de reabilitação que podem ser levadas em conta, explorando a versatilidade do espaço interior da casa. Partindo da análise de um conjunto de edifícios que ilustram a situação vivida no centro histórico do Porto, pretende-se a seleção daquele que reúna as características mais comuns e que possa servir como modelo e base de desenho para a exploração da organização da habitação, segundo as tipologias e necessidades contemporâneas. Como síntese do trabalho desenvolvido, o capítulo 5 vai dar espaço à conclusão do tema da “Casa Burguesa do Porto no séc. XXI”, levantando-se questões relevantes para o futuro.
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23 2. 2 A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS N
24 Fig.4 – Vista sobre a cidade do Porto (desenho de H. Duncalf, 1736, www.portopatrimoniomundial.com) Fig.5 – Vue de la Ville et du Port de Porto (desenho de H.L. Eveque, 1817, Biblioteca Nacional Digital)
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 25 2.1. A cidade do Porto até ao século XIX Uma boa arquitetura “é a que incorpora em seus espaços os anseios da sociedade no tempo.”5 Compreender a casa burguesa portuense é compreender a sua história e a sua gente, é conhecer o passado da cidade do Porto. Porque perceber uma arquitetura não é só analisar os seus materiais e as suas formas, mas sim compreender as razões que estiveram por trás da sua conceção. É perceber que a sua arquitetura surgiu como um reflexo dos acontecimentos que marcaram uma época e da sociedade burguesa que ganhava cada vez mais um papel primordial na cidade. O século XIX trouxe diversas mudanças a vários níveis, mas tais alterações sucederam-se na continuidade de acontecimentos iniciados nos séculos anteriores, designadamente os séculos XVII e XVIII. O início do século XVII ficou marcado por um período de instabilidade política, fruto de uma série de problemas e revoluções internas que culminaram na perda da independência de Portugal com Espanha. Contudo, a ocupação filipina trouxe benefícios, melhorando as condições de vida das classes superiores e reforçando o poder civil através da implantação de reformas administrativas. A zona portuária (figs.4 e 5) tornou-se uma área merecedora de maior atenção, promovendo-se obras na zona ribeirinha, visando melhorar a circulação e o tráfego no rio Douro. A segunda metade do século começou com prosperidade após a Restauração, em 1640, que conduziu a um aumento da produção agrícola e, consequentemente, à intensificação do comércio internacional, transformando a cidade num importante polo comercial. Rapidamente se instalaram em território urbano comerciantes estrangeiros, na sua grande maioria ingleses, bem como membros das populações rurais mais próximas do Porto, preparados para trabalhar no ramo portuário, assistindo-se quase a uma duplicação do número de habitantes da cidade. No entanto, com o aumento da população e das construções não surgiram novos polos de urbanização, assistindo-se antes à densificação dos núcleos já existentes. No interior da muralha, as construções cresceram atingindo o seu ponto máximo, bem como 5 Cf. MEZERANI, Nadir Curi, Arquitetura é arte e ciência in TQS News, Edição nº 27, consultado em 29 de Julho de 2013 em www.tqs.com.br
32 Fig.13. – Principais tipos de “ilhas” (Habitação popular na cidade oitocentista) N 1. Ilha construída num único lote 2. Ilha construída em dois lotes com corredor central 3. Ilha construída em dois lotes, com as casas dispostas costas com costas e dois corredores laterias de acesso 4. Ilha construída em terreno de traseiras correspondendo a vários lotes. Filas Sucessivas de casas construídas costas com costas. N Fig.14 – Exemplo de uma tipologia com o logradouro ocupado por uma “ilha” de piso térreo (Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 85, p. 209) N Fig.12 – Ilhas na cidade do Porto (Rua de S. Victor) N
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 33 às “ilhas”, “pequenas casas operárias, densamente organizadas no interior de quarteirões existentes”9(fig.12 a 14). No final do século XIX e início do século XX, assiste-se a uma melhoria das redes infraestruturais da cidade, com a instalação de água e saneamento, melhorando-se desta maneira a qualidade de vida da população, e à criação de uma rede de transportes coletivos. No entanto, estas alterações são fruto de ações isoladas e não integradas numa estratégia global de melhoria do espaço público, um reflexo de um período politico mais conturbado. Apesar disso, “a nova cidade liberal surge no imaginário burguês como um espaço carente de valores monumentais capazes de afirmar à escala urbana uma nova ordem.”10 9 Cf. TEIXEIRA, Joaquim, Descrição do Sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX, obra já citada p.21 10 Cf. NONELL, Anni Gunther, TAVARES, Rui, Atlas histórico de ciudades europeas, Barcelona: Salvat Editores, 1994.
34 Fig.15 – Diferentes fases de desenvolvimento da cidade do Porto (Transformação e permanência na habitação portuense, p.84, fig.1) N Mercantilista Iluminista Liberal Contemporâneo N
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 35 2.2. A evolução da casa portuense “(…) a casa estreita e alta, que, na sua forma e sentido originários, além de derivar das construções próprias dos burgos amuralhados ou, de um modo geral, dos locais onde se verifica a necessidade ou a conveniência do adensamento da população em áreas limitadas, constitui um tipo híbrido funcional de residência urbana e estabelecimento comercial ao mesmo tempo, referidas à mesma família, estritamente utilitário, de acordo com as necessidades profissionais e a mentalidade da gente que lhe é própria.”11 Percebemos na secção anterior a evolução histórica, política, económica e social da cidade do Porto e, consequentemente, o respetivo desenvolvimento urbanístico e arquitetónico. É justamente neste clima perturbado e marcado por diversos acontecimentos que a casa burguesa dá os primeiros passos. E porque a casa burguesa portuense também foi evoluindo, acompanhando a sociedade e os acontecimentos da época, é fundamental a compreensão de todas as suas fases, desde a construção mais remota às construções que ainda perduram nos dias de hoje. Como tal, a evolução da casa burguesa será dividida em três fases, segundo o trabalho de Francisco Barata Fernandes intitulado “Transformação e Permanência na Habitação Portuense – As formas da casa na forma da cidade”. Francisco Barata Fernandes divide a habitação burguesa em três tipos: a do Porto mercantilista, a do Porto iluminista e a do Porto liberal, existentes em diferentes partes da cidade (fig.15), “(…)um tipo de edifício de habitação na área da RibeiraBarredo, na baixa de Miragaia e nos quarteirões da Sé e da Vitória, que é distinto daquele com que se realizará a expansão almadina”, em zonas como a Rua do Almada e a Rua de Cedofeita, diferindo-se “de um terceiro tipo de edifício de habitação que se consolidará a partir da segunda metade do século XIX e cuja construção perdurará até às primeiras décadas de século XX.”12 11 Cf. OLIVEIRA, Ernesto Veiga de, GALHANO, Fernando, Arquitectura tradicional portuguesa, Lisboa: Dom Quixote, 1992. 12 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, obra já citada, p.68
36 Os parâmetros de análise utilizados por Francisco Barata são: “-Relação dominante do lote com o relevo e com o traçado viário: -Relação entre dimensionamento do lote, edificação e logradouro: -Matriz de organização interna do edifício e usos: -Época e processo de formação do lote; parcelamento da propriedade: -Materiais de construção e elementos de identidade arquitetónica.”13 No que diz respeito ao terceiro ponto de análise que descreve a disposição dos interiores, este tema será tratado na secção 2.3.2. da dissertação, após a descrição do quotidiano e da vida social da Burguesia, na tentativa de fazer corresponder os modos de vida à distribuição espacial dos diferentes compartimentos, ou seja, correspondendo à forma interna dos edifícios. Quanto à análise construtiva da casa do Porto, este tópico não assume uma grande importância ao longo do trabalho, uma vez que a maior preocupação reside na organização interna dos edifícios. 13 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, obra já citada, p.67
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 37 2.2.1. Período mercantilista O tipo de edifício de habitação burguesa correspondente ao período mercantilista desenvolveu-se nas áreas históricas da cidade de formação mais antigas como as da Ribeira-Barredo, Sé, Vitória, Cimo de Vila e Miragaia (fig.16). Nestas áreas distinguem-se dois tipos de lotes, que apesar de apresentarem semelhanças no que diz respeito à dimensão das frentes estreitas, que podem variar entre 3 e 6 m, diferem na profundidade, oscilando, num caso, entre 20 e 30 m, e no outro, entre 10 e 15 m. Devido às diversas características do terreno, os lotes correspondiam a perímetros retangulares irregulares, apoiando-se em arruamentos abertos segundo o modelo orgânico da cidade medieval. O tipo mais antigo destes edifícios de habitação caracteriza-se pela existência de uma só frente aberta diretamente para a rua, e pela inexistência do logradouro, uma vez que a implantação ocupa a totalidade do lote (fig.17). Variando entre 2 ou 3 pisos, a fachada começou por ser composta, por duas aberturas por piso, situadas junto às paredes de meação, evoluindo para uma composição com “três vãos espaçados entre si respeitando uma mesma distância.”14 Este tipo de construções tinha uma grande capacidade de adaptação a diferentes terrenos, desde zonas com elevadas pendentes, onde a parede posterior do edifício se encosta ao terreno, como um muro de suporte ou mesmo de parede cega, até terrenos planos onde, neste caso, a parede posterior funcionava como uma parede de meação com outro edifício nas traseiras. Quanto à caixa de escadas, este elemento de ligação entre os vários pisos localizava-se transversalmente, junto à parede posterior, no caso de edifícios com mais de dois pisos, podendo-se encontrar, nos edifícios de apenas dois pisos, a utilização de uma escada lateral e de tiro entre o piso térreo e o primeiro. Além da dimensão dos lotes ter sido condicionada pelos primeiros aglomerados medievais, também os materiais e os processos construtivos estiverem na origem destas medidas. A associação da habitação com outras funções conduziu à necessidade da existência de duas entradas independentes, o que resultou na construção de, pelo menos duas portas. O piso térreo podia ser ocupado com uma oficina, armazém ou loja, 14 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, obra já citada, p.123
38 Fig.16 – Edifícios do período mercantilista (Ribeira, Miragaia e morro da Sé) N Fig.17 – Edifício de habitação de uma só frente, sem logradouro, localizável em quarteirão compacto ou contra a pendente; caixa de escadas nas traseiras; fachada com dois vãos; piso térreo com uso misto; 1º e 2º pisos para habitação (Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 33, p. 132) N Fig.18 – Edifício de habitação com duas frentes, com logradouro, localizável em quarteirões de ocupação menos densa; caixa de escadas central; wc acrescentado no final do séc. XIX, com solução para dois vãos (Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 40, p. 139) N
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 39 enquanto os restantes pisos se destinavam apenas à habitação. Também a caixa de escadas foi importante neste processo de dimensionamento, na medida em que era preciso garantir a área mínima para o seu desenvolvimento. Os materiais utilizados são, na sua maioria, o granito e a madeira. As paredes do piso térreo são sempre em granito, assim como as fachadas até 2 ou 3 pisos. A madeira é utilizada na execução dos pavimentos e cobertura, bem como das paredes divisórias interiores nos pisos superiores. Nos casos de acrescentos de pisos sobre os préexistentes em granito, opta-se pela sua construção em madeira. No período do Porto mercantilista é ainda possível distinguir um outro tipo de edifícios, com duas frentes, “que parecem decorrer da duplicação da primeira tipologia descrita”15(fig.18). Neste caso, os lotes necessitavam de pendentes menos acentuadas, a fim de possibilitar o acesso às duas frentes. Com a introdução da segunda fachada permitiu-se a introdução do logradouro, duplicando-se em profundidade a dimensão do edifício. A localização da caixa de escadas alterou-se para o centro do edifício, passando a “desempenhar um papel estruturador na caracterização formal do espaço interior arquitetónico.” 16 Com o aumento da área, possibilitou-se um maior número de compartimentos e introduziu-se o conceito de privacidade, distanciando-se as divisões mais íntimas dos locais mais públicos da casa e terminando-se com a ideia medieval de habitar, onde na divisão dos espaços pouco ou nada se atendia a algum tipo de especialização. Pode-se concluir que, apesar das semelhanças quanto à dimensão da frente do lote, a composição da fachada, a existência de duas entradas independentes para a habitação e piso térreo e a mesma relação com o espaço público, os dois tipos de habitação burguesa características do período mercantilista diferem no número de frentes e a consequente alteração da localização da caixa de escadas, bem como na profundidade do lote e na possibilidade da existência do logradouro. 15 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, obra já citada, p.124 16 Cf. idem, p.125
40 Fig.20 – Edifício de habitação com duas frentes e logradouro, localizado em quarteirão de interior amplo; caixa de escadas central com iluminação vertical, com dois ou três vãos na fachada; as cozinhas localizam-se no último piso e nas traseiras (Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 49, p. 156) N Fig.21 – Edifício tipologicamente idêntico ao anterior; aumenta a profundidade, o que permite duas alcovas, uma de cada lado da caixa de escadas (Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 51, p. 158) Fig.19 – Edifícios do período Iluminista (Rua de Cedofeita, Rua dos Clérigos e Rua do Almada) N
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 41 2.2.2. Período iluminista Se no período anterior as edificações correspondiam a traçados medievais que acompanhavam o terreno e não contavam com qualquer tipo de planeamento urbano, o período iluminista vai-se caracterizar pela introdução de estratégias de intervenção e gestão urbanística, que contava, agora, com a colaboração da Junta das Obras Públicas. O crescente aumento demográfico conduziu a um sobrepovoamento da cidade dentro dos limites da muralha Fernandina e à consequente expansão radial urbana, traçando-se novas artérias e espaços públicos, melhorando-se o existente e projetando-se desenhos de alçados de conjunto para os edifícios que deveriam ser construídos, o que contribui para “uma mudança qualitativa no modo de se fazer a cidade.”17 Com os novos traçados viários, os lotes ganharam mais área mas, em vez de se proceder à projetação de edifícios mais largos e plurifamiliares, a fim de facilitar o desenvolvimento interior, permaneceu o edifício de frente estreita (fig.19 a 21). “O burguês portuense sempre preferiu manter a tradicional habitação unifamiliar. Independências de acessos, privacidade e ligação à terra.”18 O novo tipo de habitação burguesa passou a ter frentes com dimensões que variavam entre 5 e 7 m, mas em questão de profundidade, nomeadamente na sua relação com o logradouro, os edifícios passaram a dividir-se entre os que apresentavam aproximadamente 12 m de profundidade, e os que tinham 22 m. O logradouro apresenta várias dimensões, assumindo o papel de saguão ou de um pequeno pátio quando o lote se insere num terreno muito acidentado. A conclusão que se pode retirar é que a rua se apresentava como o principal elemento de planeamento urbano, ao invés do quarteirão. “De facto, a grande adaptabilidade destas tipologias e a forma como facilmente erguem fragmentos da cidade decorrem da versatilidade com que aceitam qualquer arruamento, inclusivamente os curvilíneos.”19 Agora com 3 a 5 pisos, estes edifícios continuavam a tradição do período mercantilista, anteriormente estudado, com o piso térreo com entrada independente e destinado a outras funções, como comércio e armazéns, podendo, por vezes, funcionar como arrumos da habitação. 17 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, obra já citada, p.142 18 Cf. idem, p.143 19 Cf. idem, p.144
48 Fig.25 – Edifício na R. de S.ta Catarina. Transformação de habitação plurifamiliar da primeira metade deste século (XX); criação de uma passagem independente no patamar das escadas; introdução de um saguão para a ventilação das novas casas de banho (Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 101, p. 235)
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 49 Nos casos onde a caixa de escadas apresentava uma integração central no edifício, a sua adaptação era mais complexa e o patamar das escadas era simultaneamente público e privado, como único ponto de ligação entre as frentes e as traseiras, assegurando a circulação para os restantes pisos. Nos edifícios mais largos era possível a existência de uma passagem interna do lado oposto das escadas que assegurava o seu carácter independente como ponto de acesso público aos diferentes pisos. No processo de transformação plurifamiliar, foi o modelo almadino que mais se impôs e que demonstrou uma maior capacidade de adaptação aos novos programas (fig.25). “O facto de possuir uma relação directa do rés-do-chão com a rua e a falta de especialização dos seus compartimentos revelaram uma capacidade de adaptação às exigências progressivas de conforto e modo de vida da população da época.”28 A habitação plurifamiliar portuense nasceu, assim, da adaptação de modelos anteriores unifamiliares, ao contrário do que acontecia noutras cidades da Europa, onde se criaram desde cedo condições para a sua construção com o aumento da frente dos lotes, permitindo a distribuição para os dois lados da caixa de escadas. Foi apenas na primeira metade do século XX que se procedeu à construção sistemática dos primeiros tipos de habitação plurifamiliar portuense, segundo os modelos tradicionais. Eram, por isso, edifícios com 3, 4 ou 5 pisos de habitação e piso térreo destinado a comércio ou garagens. Mantendo as mesmas dimensões das frentes, entre 6 e 9 m, duplicam-se na sua largura como uma variante do “esquerdo/direito” e distribuíam-se ao longo das principais e antigas vias de acesso à cidade e nas áreas de expansão almadina até aos extremos do Porto, como em Foz do Douro e Campanhã. 28 Cf. MILHAZES, Fábio Machado Cadeco, O reflexo da contemporaneidade na reabilitação do edificado corrente portuense, Porto: FAUP, 2009/2010, p.51
50 Fig.26 – Visual usado no séc. XIX (www.istoedinheiro.com.br) N Fig.27 – Alta burguesia urbana em Lisboa nos inícios do séc. XIX (www2.iict.pt) N
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 51 2.3. A Burguesia “Classe social que, no regime capitalista, é a dominante na divisão do trabalho e nas relações de produção, pois domina os meios de criação e circulação de riqueza. É detentora do capital, quer industrial quer financeiro. Historicamente, é originária do povo e afirmou-se politicamente com o derrube do Antigo Regime. 29 Até ao aparecimento da teoria marxista30, a burguesia era considerada como o conjunto de cidadãos da classe média das cidades. Devido à posse crescente dos meios de produção e ao facto de se construir como entidade empregadora de trabalhadores, a burguesia aparece no epicentro das lutas sociais, dos choques de interesses na sociedade”31(fig.26 e 27). Nos temas anteriores conhecemos o contexto histórico da cidade do Porto no século XIX e os fatores que condicionaram os planos urbanísticos como ponto de partida para a arquitetura da casa burguesa. Mas mais do que isso, é necessário compreender a sociedade que a habitava. É neste século de instabilidades que a Burguesia vai alcançar um papel primordial na vida da cidade, não só a nível económico como também a nível arquitetónico, transformando por completo as noções de habitação. Não importa conhecer apenas as razões que levaram à conceção formal de um modelo arquitetónico que perdura na atualidade, como os materiais existentes ou as técnicas de construção conhecidas na altura, ou até o tipo de mão-de-obra. O estudo da classe burguesa ajudará na compreensão da distribuição funcional dos interiores, dos tipos de espaço e as suas dimensões, a organização e compartimentação em função dos pisos e em função das fachadas. É perceber de que maneira a arquitetura serviu a sociedade naquele tempo, de que maneira os seus habitantes se refletiram na sua casa e como a transformaram e adaptaram às suas necessidades. Porque a arquitetura é o reflexo de uma sociedade num tempo, é fundamental conhecer a burguesia a fim de encontrarmos as razões que levaram às formas interiores e à distribuição programática e funcional. 29 Antigo Regime refere-se ao sistema social e político aristocrático, centralizado e absolutista, estabelecido em França entre os séculos XVI e XVIII, que detinha todo o poder nas mãos do rei. 30 O Marxismo é o conjunto de ideias filosóficas, económicas, politicas e sociais elaboradas por Karl Marx e Friedrich Engels, que compreende o homem como um ser social histórico, com capacidade para trabalhar e através disso se transformar a si mesmo. Como solução, visava uma nova sociedade, na qual todos os homens tinham a possibilidade de desenvolver as suas capacidades de uma forma plena. 31 www.infopedia.pt, definição de “burguesia”
52 “A redefinição burguesa do espaço privado e dos direitos individuais resultou na despolitização da vida doméstica, no fechamento do indivíduo em si mesmo e na família.”32 É importante perceber o papel da classe burguesa na cidade, as funções e cargos que ocupavam e as principais zonas onde viviam e trabalhavam. De igual importância é o entendimento do seu papel no seio da sociedade portuense, é o conhecimento do seu tipo de vida social, do papel do homem e da mulher na época e da sua noção de família. Só com este conhecimento se pode entender como esta classe se apoderava da sua habitação, como “um lugar idealizado que se oferece em alternativa à crueza da realidade associada ao local de trabalho”33 e só através deste processo é que se poderá avaliar o modo como a habitação burguesa portuense serviu, de facto, as necessidades da época. 32 Cf. D’ANGELO, Martha, A modernidade pelo olhar de Walter Benjamin in Estudos Avançados, vol. 20, nº56, São Paulo: 2006, p.240 33 Cf. MOTA, Nelson, At home com a burguesia do Porto in Família, Espaço e Património, Porto: CITCEM, 2001, p.523
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 53 2.3.1. Integração e papel na sociedade e na cidade do Porto Para começar, será importante definir o conceito de Burguesia. Afinal quem era essa classe social? Segundo várias fontes, tal como explica Maria Antonieta Cruz na sua obra intitulada “Os burgueses do Porto na segunda metade o séc. XIX”, sempre existiram grandes dificuldades na definição da classe burguesa, abarcando tanto “hoje, como no século XIX, múltiplos significados.”34 “Ao deixarem de ser terceiro estado, os burgueses adquiriram rostos e nomes,…a produção literária passaria a ocupar-se privilegiadamente dos seus problemas, das suas necessidades, dos seus sonhos.”35 A Burguesia aos poucos começava a afastar-se da classe social mais pobre, o povo, aproximando-se dos mais nobres, mantendo, no entanto, uma forte austeridade e uma moral muito rígida. Outros autores consideravam mesmo a classe burguesa como sendo rotulada de “incultos, grosseiros, sem gosto e também de sóbrios e recatados.”36 Apesar dos variados aspetos negativos descritos por vários autores, a Burguesia alcançou um papel primordial na cidade do Porto durante o século XIX, passando a estar à frente da vida económica, social e política portuense, contribuindo para uma superação da crise vivida na época. Inicialmente nascida a partir dos trabalhadores do povo, distinguiu-se pelo seu desenvolvimento em ramos como o comércio, a agricultura e as indústrias, bem como o seu elevado conhecimento noutras áreas como as artes e as ciências e a cultura, ganhando cada vez mais importância na vida quotidiana. ” (…) a burguesia portuense, de meados de Oitocentos, procurou, nos diversos ramos de ensino, os conhecimentos que lhe permitissem exercer a profissão desejada mas interessando-se também pela cultura como formação que permitia o reconhecimento social.”37 Para a classe burguesa tornou-se fundamental manter um certo estatuto na sociedade e para a devida integração na vida social e a perfeita distinção de um indivíduo era essencial o conhecimento de regras e a ostentação de elementos materiais, 34 Cf. CRUZ, Maria Antonieta, Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, obra já citada, p.23 35 Cf. SANTOS, Maria de Lourdes Lima dos, Para uma sociologia da Cultura Burguesa em Portugal no século XIX, Lisboa: Presença, 1983, p.8 36 Cf. CRUZ, Maria Antonieta, Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, obra já citada, p.25 37 Cf.idem, p.430
54 Fig.29 – Progressão da mancha do edificado portuense: 1812, 1892, 1930 e 1961 (Estudos sociais) N Fig.28 – Real Teatro de São João, primeiro edifício construído em 1794, por determinação de Almada e Mendonça, segundo o projeto do arquiteto italiano Vicente Mazzoneschi (blasfémias.net) N
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 55 bem como a adoção de um correto comportamento, reflexo de uma educação familiar mais esmerada. O convívio em sociedade era, por isso, preponderante para a burguesia e rapidamente se manifestaram em convívios no Teatro S. João (fig.28), no Baquet, em clubes ou em círculos mais restritos. O gosto pela música e a dança refletia-se na introdução do piano nas habitações e na frequência do baile, como um momento de conhecimento e afirmação na sociedade. Contudo, a participação nestas atividades pressupunha a posse de mais dinheiro e de uma maior disponibilidade de tempo, impedindo a integração dos mais pobres e humildes que cada vez mais se distanciavam da elite social composta pelos mais abastados, abundante em regras e maneiras. “Para participar numa festa onde estavam presentes as pessoas mais prestigiadas da cidade era necessário possuir uma educação global refinada, maneiras cuidadas. O ócio, fruído por vezes de forma sumptuária, patenteava a diferença entre a elite burguesa e aqueles que não tinham criados, salão de festas, instrumentos musicais e todos os componentes das atividades mundanas.”38 O dinheiro e a posse de bens materiais ditavam o estatuto de um indivíduo na sociedade, bem como as suas habilitações literárias, indicadores do nível de intelectualidade. Além destes indivíduos com mais conhecimento, como médicos, destacam-se profissões como negociantes e proprietários capitalistas de entre as mais ricas do Porto. Esta diferença de estatutos na sociedade trouxe consequências para o espaço urbano da cidade. O grande impulsionamento do comércio, das indústrias e das instituições financeiras no século XIX 39 contribuíram para um aumento do número de população na cidade do Porto (fig.29). Por todo o norte do país começaram a surgir trabalhadores e operários prontos para trabalhar nas novas e grandes indústrias. Do estrangeiro apareceram mais comerciantes seduzidos pelos mercados e pelas trocas marítimas que a cidade albergava e também surgiram capitalistas atraídos pelos novos bancos que abriam portas na cidade. 38 Cf. CRUZ, Maria Antonieta, Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, obra já citada, p.436 39 Entre finais de 1830 e os últimos anos de 1850 o Capitalismo começou a dar os primeiros passos em Portugal, fomentando a criação de novas indústrias e das primeiras instituições bancárias.
56 Fig.33 – Idade dos eleitores portuenses 1848-18601880 (Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, gráfico nº 8, p. 93) N Fig.34 – Estado civil dos eleitores portuenses 18471860-1880 (Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, gráfico nº 7, p. 91) Fig.30 – Percentagem de eleitores nas freguesias da cidade do Porto (Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, p. 85) N Fig.32 – Percentagem de eleitores analfabetos e com habilitações superiores, respetivamente, em relação ao total de eleitores por freguesia, cidade do Porto - 1847 (Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, mapas 5 e 6, p. 100) N Fig.31 – Habilitações dos eleitores portuenses - 1847 (Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, gráfico nº 9, p. 98)
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 57 Segundo o estudo efetuado pela autora já anteriormente referida, Maria Antonieta Cruz, a maior parte da população concentrava-se nas freguesias centrais da cidade observando-se uma deslocação cada vez maior para as zonas mais limítrofes. Entre 1847 e 1880, verificou-se um acentuado crescimento populacional nas freguesias mais orientais e um decréscimo de habitantes nas freguesias centrais (fig.30). Comparando estes dados com as habilitações literárias da população (fig.31), é possível perceber a influência da educação e da capacidade financeira para a definição de diferentes zonas na cidade. De facto, a quantidade de analfabetos era mais elevada nas freguesias de Campanhã e Paranhos, na parte oriental da cidade (fig.32), podendo-se concluir que o forte crescimento populacional aqui evidenciado correspondia ao elevado número de pessoas mais pobres e pertencentes à classe operária, que migraram do campo para a cidade em busca de trabalho. Já as freguesias centrais, como Santo Ildefonso e Vitória, apresentavam o maior número de indivíduos com instrução superior (fig.32). “A geografia social dos recenseados comprova a existência de um centro da cidade dominado pelo patronato, maioritariamente comercial, e de uma zona limítrofe onde era muito forte a presença de trabalhadores manuais e operários urbanos.”40 Quanto à faixa etária da população portuense na segunda metade do século XIX, a mesma autora evidencia a predominância de pessoas entre os 26 e os 50 anos (fig.33), na sua grande maioria casadas, correspondendo a um total de aproximadamente 70% do número total de eleitores da cidade entre os anos de 1847 e 1880 (fig.34). Esta elevada percentagem de casados no Porto permite perceber a importância e o papel que a família desempenhava na época, como meio de educação, de segurança e de refúgio na sociedade, num momento em que o público cada vez mais inundava o ambiente privado. 40 Cf. CRUZ, Maria Antonieta, Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, obra já citada, p.345
64 aprovação do seu desejo para sair do lar.”55 Por esta razão, a mulher sente a necessidade de transformar divisões da casa em réplicas do espaço público, atraindo o homem para o seu interior. Tornaram-se comuns na organização dos palacetes dos mais ricos espaços como salões, salas de jogos ou salas de estudo, salas de bilhar e salas de fumo, de influência da tradição inglesa do club. Entre a burguesia mais rica era comum a organização de reuniões com amigos nas próprias casas, onde se desfrutava do convívio e da dança, como os bailes, importante momento de integração social. Estes novos espaços, tanto os femininos como os masculinos, localizavam-se em locais próximos ou em contacto com o exterior, separando-se de compartimentos mais íntimos e privados. Esta invasão do público dentro do privado da habitação conduziu à necessidade de espaços onde cada pessoa pudesse preservar a sua intimidade, marcando uma nova fase na organização do espaço doméstico. Até finais do século XIX o trabalho foi-se distanciando cada vez mais da casa. A vontade de fazer do lar um espaço destinado à intimidade e à privacidade da família foi afastando o local de trabalho, processo que decorreu de uma forma mais lenta até finais do século XVIII, verificando uma evolução mais rápida ao longo do século seguinte com a afirmação da noção de família e com o papel da mulher como dona da casa. É neste momento de evolução que surge a tipologia do período liberal, como uma rutura com os modelos passados, na medida em que passa a ser um espaço único e exclusivamente destinado à habitação. Com a compartimentação e especialização dos espaços, assistiu-se a uma evolução da diferenciação programática a partir do século XVII até ao século XIX, onde a habitação se transformou num organismo cada vez mais complexo, organizado e funcional. Desta forma, possibilitou-se a criação de espaços mais íntimos, separados de divisões com um carácter mais público, por sua vez separadas por espaços de circulação e espaços de serviço. “Trata-se de um processo de especialização dos espaços, e de um crescente protagonismo da intimidade e da domesticidade como conceitos estruturadores da organização do espaço doméstico.”56 A organização da habitação segundo uma hierarquização funcional fez-se notar na passagem da cozinha para o primeiro piso e a sua conjugação com a sala de jantar 55 Cf. MARCUS, Sharon, Apartment Stories, Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1999, p.151 trad. MOTA, Nelson, At home com a burguesia do Porto, obra já citada, p. 522 56 Cf. MOTA, Nelson, At home com a burguesia do Porto, obra já citada, p.525
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 65 nas traseiras do edifício. Nos logradouros mais profundos a cozinha podia ocupar uma posição num volume autónomo, localizado na fachada tardoz e com comunicação para a sala de jantar. Desta forma, a casa do Porto concentrava as divisões mais públicas no primeiro piso, reservando os restantes para as divisões mais privadas que se afastavam cada vez mais da entrada. A sala de visitas funcionava como o espaço mais público que concentrava quem chegasse, preservando, desta maneira, a intimidade do resto dos compartimentos. Por sua vez, o primeiro piso encontrava-se mais protegido da rua devido à sua elevação em relação à cota do espaço público. A cave sobrelevada, surgida neste período, destinava-se a arrecadações ou saletas de serviço doméstico, que refletiam a importância de armazenamento de combustível, de bens alimentares, ou a necessidade de albergar outros usos. Este piso poderia compor-se das mais variadas divisões como “loja da lenha, loja do carvão, quarto das malas, quarto de costura, despensa da cozinha e despensa da mercearia, garrafeira, sala de pequenos-almoços ou copa, escritório, quarto de hóspedes (…), quarto de brinquedos (…)”57 e quartos de criados. Além do acesso através da escadaria interior, este piso podia relacionar-se diretamente com o logradouro e com a cozinha no piso superior, com a introdução de escadas exteriores. Obedecia-se a uma distribuição funcional consoante os pisos que compunham a casa, começando por uma zona mais de serviços na cave, divisões mais públicas no primeiro e quartos nos pisos superiores, ficando o sótão destinado aos quartos dos criados, que poderiam também existir na cave. O quarto de banho ficava destinado a um pequeno cubículo integrado no alçado tardoz, no canto das varandas, compondo-se, na grande maioria, apenas de equipamentos sanitários. A sala de jantar encontrava-se relacionada com a fachada tardoz e o interior do lote, não só devido à sua proximidade com a cozinha, mas também porque se tratava de uma área com um carácter mais privado onde a família se reunia num ritual quotidiano e que, por essa razão, deveria ocupar um lugar mais protegido. A religião era um assunto importante na sociedade e, como tal, era possível a existência, porém muito excecional, de um espaço adstrito em exclusivo à oração. 57 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, obra já citada, p.173
66 Fig.36 – Evolução da distribuição funcional de acordo com as tipologias de habitação portuense, refletindo a evolução da cidade e da sociedade burguesa (a partir de desenhos de Transformação e permanência na habitação portuense) Período Mercantilista (uma só frente) N Período Mercantilista (duas frentes) N Período Iluminista N Período Liberal N Adaptação unifamiliar N Quarto N Cozinha N Sala de jantar N Sala de visitas N Quarto de banho N Armazém ou comércio N
2.A BURGUESIA NO PORTO DE OITOCENTOS 67 Contudo, esta tipologia restringia-se apenas à população com mais possibilidades financeiras. “Os prédios construídos na cidade do Porto (…)parecem ter sido um bem reservado a um pequeno número de privilegiados, largamente dominado pelos patrões do comércio e da indústria.”58 Com o aumento populacional causado, na sua maioria, pela migração de pessoas mais pobres que vinham do campo para a cidade à procura de trabalho, a casa burguesa rapidamente se transformou, procurando responder à necessidade urgente de albergar o maior número de pessoas possível. Desta maneira, assistiu-se à transformação da habitação construída inicialmente como albergue para uma só família numa habitação plurifamiliar, onde cada piso passou a servir um agregado, num espaço onde as condições higiénicas, de conforto e de luz eram escassas. A edifícios pré-existentes, de preferência mercantilistas, acrescentavam-se novos pisos, na tentativa de integrar mais famílias no mesmo edifício. Nos casos dos edifícios com caixa de escadas central, o patamar passou a ser híbrido, comportando as funções de espaço público, assegurando a circulação entre os pisos, ao mesmo tempo que funcionava como único ponto de ligação privada entre a sala e a cozinha, nas traseiras, e os quartos, nas frentes. Até se admitiu a associação entre dois lotes ou horizontalmente ou na sua profundidade, onde se compartilhavam os acessos. Também o espaço livre no interior dos quarteirões foi aproveitado ao máximo para a construção das “ilhas”, pequenas casas que se desenvolviam ao longo de um corredor comum exterior, com ligação à porta de entrada de um edifício característico da burguesia, e que albergavam as pessoas mais pobres que ficavam sujeitas às condições domésticas mais precárias. Pela arquitetura é fácil de se compreender a importância que a burguesia teve na história da cidade do Porto ao longo do século XIX. A heterogeneidade dentro da própria classe conduziu à construção de uma variada tipologia de casas (fig.36), refletindo na arquitetura o tipo de vida social e as condições financeiras de cada indivíduo, que marcaram para sempre a imagem da cidade do Porto. 58 Cf. CRUZ, Maria Antonieta, Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, obra já citada, p.364
68
69 3. 3 O PORTO CONTEMPORÂNEO N
70 Fig.38 – Crescimento urbano desregulado (Campo 24 de Agosto) Fig.37 – Degradação e abandono das casas do Porto (Praça Carlos Alberto e Rua Infante D. Henrique)
3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 71 3.1. Das últimas décadas à atualidade Compreender as razões que levaram à degradação e ao consequente abandono do centro urbano do Porto (fig.37) é compreender, antes de mais, os acontecimentos que a cidade tem vindo a presenciar ao longo das últimas décadas. Para começar há que ter uma noção do contexto histórico, há que perceber que tipo de cidade é o Porto na atualidade, não só em termos económicos e sociais, mas também em termos culturais e turísticos. E não importa retratar apenas a situação vivida dentro dos limites da cidade. Hoje em dia a cidade Invicta é o centro de uma grande área metropolitana, em conjunto com os concelhos e cidades periféricas, formando o segundo maior aglomerado do país e o maior na região norte. Apesar da crescente importância a vários níveis que o Porto vai obtendo ao longo dos anos, a cidade tem vindo a perder a sua população para os arredores, na busca de casas novas, mais baratas e melhor adaptadas à realidade atual. Devido à melhoria do sistema de transportes coletivos entre o centro e a periferia ou mesmo por motivos financeiros, as habitações na zona central portuense foram abandonadas e ficaram num estado de degradação, comprometendo a segurança e a imagem da cidade. É fundamental perceber o que conduziu a esta situação, visando a criação de medidas que possam contrariar esta tendência, reabilitando o que no século XIX foi a principal zona habitacional. Na década de 50 ainda era visível a expansão da cidade, ocupando-se áreas mais rurais afastadas do centro com a construção de novos bairros, em freguesias como Campanhã, Aldoar, Ramalde, Paranhos e Lordelo do Ouro. Nos anos 60 e 70, os novos edifícios, predominantemente prédios em altura, começam a ser construídos por toda a parte sem qualquer tipo de planeamento e organização urbana, em nada enquadrados com a envolvente. A imagem unitária do conjunto de edifícios tradicionais do Porto foi aqui substituída por um quadro incoerente, onde numa mesma rua se podia observar a existência de uma mistura de prédios, fomentado pela proliferação dos blocos de betão armado (fig.38). A construção de novas urbanizações fora dos limites da cidade resultou no crescimento dos subúrbios, o que conduziu à migração de pessoas do centro para as novas áreas e a uma crescente desertificação da zona central do Porto.
72 Fig.40 – Metro do Porto no tabuleiro superior da Ponte Luís I Fig.39 – Centro Histórico do Porto - Área classificada Património Mundial (verde) (www.portopatrimoniomundial.com)
3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 73 A rápida evolução do sector terciário59depois dos anos 70, trouxe consequências para a cidade que se traduziram na criação de novos centros, como na Rotunda da Boavista, atraindo sedes de empresas e bancos. O centro histórico portuense volta a ganhar grande importância, não só no panorama nacional como também no panorama internacional, no ano de 1996, altura em que a UNESCO o classificou como Património Mundial da Humanidade (fig. 39). O Porto entrava no novo milénio como o centro da segunda área urbana mais importante do país e a primeira da região Norte, limitado pelo rio Douro – a sul -, o oceano Atlântico – a oeste - e a estrada da Circunvalação – a norte e este - onde os 42 km2 da área administrativa do município se fundem com os restantes municípios envolventes, num contínuo de edificado urbano. Nos primeiros anos do novo milénio investiu-se em grandes obras públicas. Devido a uma má gestão, as novas construções sofreram, na sua grande maioria, atrasos na sua conclusão e fortes derrapagens orçamentais, ultrapassando para além do estabelecido os prazos de tempo e os orçamentos pré-definidos. Exemplo disto foram as obras fomentadas pela Porto 2001, ano em que a cidade foi escolhida, juntamente com Roterdão, a Capital Europeia da Cultura. A iniciativa tinha como objetivos, entre outros, a recuperação e a construção do espaço público da cidade, bem como a construção de novos espaços arquitetónicos. Deste conjunto de obras destacam-se a recuperação do Jardim da Cordoaria, da Praça da Batalha e da Praça de D. João I, no âmbito urbanístico, e a construção do Edifício Transparente e da Casa da Música, que viria a ser um símbolo futuro da cidade. Também nestes primeiros anos se investiu fortemente na melhoria das condições de transporte e na circulação na cidade. Em 2002, o metro foi introduzido no sistema de transportes coletivos, sob a iniciativa da empresa Metro do Porto, apresentando-se como uma importante maisvalia, unindo a cidade com outros pontos da área do Grande Porto. A adesão ao novo meio de transporte foi bastante grande, devido à sua rapidez e eficácia, e a construção de novas linhas prolongou-se pelos anos seguintes, alargando a sua rede. A eterna marca da cidade, a ponte Luís I (fig.40), sofreu trabalhos de reabilitação e reforço estrutural a 59 Sector terciário também conhecido como serviços, no contexto da economia, envolve a comercialização de produtos em geral, e o oferecimento de serviços comerciais, pessoais ou comunitários a terceiros. Em www.wikipedia.org
80 Fig.45 – População Jovem (Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.7) Fig.44 – Pensionistas e Reformados (Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p13) Fig.46 – Total da população residente no Centro Histórico do Porto 1981-2011 (Relatório de Monitorização, 2011, tabela 31 p.66) Fig.47 – Caracterização da população residente no Centro Histórico do Porto por grupo etário 1991-2011 (Relatório de Monitorização, 2011, tabela 33, p.68)
3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 81 Este fenómeno, aliado ao aumento da esperança média de vida e à quebra da taxa de natalidade, contribuíram para o envelhecimento no núcleo histórico portuense, que se veio a acentuar desde a década de 90. Por toda a área urbana foram surgindo polos de habitantes de acordo com as suas capacidades financeiras e de acordo com a faixa etária, como é o caso da classe alta que se foi fixando em zonas como a Foz e a sua extensão para este, na Boavista, continuando até às Antas. Na zona ribeirinha e no núcleo histórico, a maior parte dos habitantes é constituída por pessoas mais velhas (fig.44), ao contrário da situação vivida no lado oriental e ocidental da cidade, onde habita uma camada mais jovem (fig.45). Fora dos limites da cidade, o mais comum é a existência de uma classe média e de famílias recém-constituídas. O Porto tem vindo a perder população para os arredores ao longo dos últimos anos, passando de um número de 302.472 habitantes em 1991, para 263.131 em 2001. Nos últimos censos, em 2011, o número de habitantes baixou novamente, atingindo 237.584 pessoas. Os maiores decréscimos foram sentidos nas freguesias mais centrais e na zona oriental da cidade. Segundo o Relatório de Monitorização efetuado em 201174, no centro histórico a população passou de 20.342 em 1991 para 9.334 em 2011 (fig.46), e o número de idosos alcançou mais do dobro do número de jovens (fig.47). Apesar da perda de população residente, “o Porto continua a surgir como um centro de emprego e um polo de ensino com uma forte capacidade atrativa sobre residentes noutros concelhos.”75 Verifica-se que a maior parte das pessoas que reside nos concelhos vizinhos, desloca-se diariamente para a cidade Invicta por motivos de trabalho ou estudo. De acordo com o estudo de 2007 acerca da população juvenil, referido anteriormente76, cerca de 40% das crianças e jovens a frequentar estabelecimentos de ensino básico e secundário no Porto residiam em concelhos vizinhos. O número de pessoas que têm o seu posto de trabalho no concelho do Porto manteve-se elevado em relação às que decidiram trabalhar no concelho onde residem. 74 PORTO VIVO, SRU, Relatório de Monitorização, 2011, Porto: Porto Vivo, SRU, 2012, p.66 75 CMP, Notas sobre a evolução demográfica do concelho do Porto, obra já citada, p.13 76 Cf. FARIA, Alexandra, FERREIRA, Célia, ROCHA, Eugénia, ROCHA, Sérgio, Retrato da população juvenil do concelho do Porto, obra já citada, p.7
82 Fig.48 – Estimativa das deslocações no Porto, entre as 7h30 e as 9h00 (Mobilidade na cidade do Porto, fig.2, p.6) Fig.49 – Famílias clássicas unipessoais (15-30 anos) residentes no Porto, por freguesias (Retrato da população juvenil do concelho do Porto, fig.7, p.10)
3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 83 De facto, “entre os que emigraram para os outros concelhos, (…) apenas 29% trabalha no novo concelho de residência, subindo para 51% a proporção dos que exercem a sua atividade no Porto.”77 Como consequência deste fenómeno, as deslocações entre o concelho do Porto e a área envolvente foram-se agravando ao longo dos últimos anos, contribuindo para a enorme densidade de circulação nas ruas da cidade e a pressão de estacionamento. Segundo um outro estudo efetuado pela CMP acerca das deslocações em transporte individual78, é possível verificar um elevado desequilíbrio entre o número de entradas e o número de saídas de veículos na cidade, na hora de ponta da manhã, entre as 7h30 e as 9h00 (fig.48). Conclui-se facilmente que existe uma forte concentração de atividades financeiras, económicas, culturais e de ensino dentro dos limites do concelho do Porto que, na opinião do CMP, fazem com que a Área Metropolitana do Porto esteja longe de constituir uma aglomeração unipolar, do ponto de vista da fixação desse mesmo tipo de atividades.79 Contudo, este desequilíbrio não é semelhante em todos concelhos. Se por um lado, Porto, Maia e Matosinhos aproximam-se em termos de atratividade de empregos, Valongo e Gondomar, por outro lado, apresentam-se como concelhos onde o maior papel é residencial. Outra conclusão é o facto de o Porto atrair mais pessoas provenientes de concelhos fora da AMP, geralmente estudantes ou indivíduos mais qualificados80. O Porto, como sede das principais instituições de ensino superior da região e com um elevado número de escolas de ensino básico e secundário, atrai todos os anos um grande número de estudantes nacionais e estrangeiros que se deslocam para um alojamento temporário no centro. Em 10 anos, o número de jovens estudantes que vivem sós aumentou mais do dobro, atingindo, no ano de 2001, o número de 4.843, crescendo principalmente em Paranhos, onde se localiza o maior polo universitário da cidade (fig.49). 77 Cf. OLIVEIRA, Carlos, Área Metropolitana do Porto: fluxos migratórios e deslocações casa/trabalho 1991-2001, Porto: CMP, 2008, p.6 78 Cf. OLIVEIRA, Carlos, NEVES, João, GOMES, Marta, Mobilidade na cidade do Porto: Análise das deslocações em transporte individual, Porto: CMP, 2007 79 Cf. idem, p.9 80 CMP, Notas sobre a evolução demográfica do concelho do Porto, obra já citada, p.12
84 Fig.50 – Desemprego (Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.14) Fig.51 – Habilitações (Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.10)
3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 85 Também o número de indivíduos com nível de estudos médio ou superior é maior no Porto, A população imigrante que apresenta níveis de instrução mais elevados corresponde a 26% do total, enquanto a percentagem de população mais qualificada dentro dos emigrantes é de apenas 19%, e de 15% no total de população residente no concelho. 81 Este facto justifica-se pela concentração de funções de direção, mais exigentes e mais qualificadas na cidade. No total da AMP, o Porto concentrava cerca de 52% dos postos de trabalho detidos por pessoas com um nível de instrução superior.82 Por outro lado, são as freguesias centrais e orientais do Porto que concentram o maior número de desempregados (fig.50) e de pessoas com menor nível de instrução (fig.51), contribuindo para o constante empobrecimento dessas zonas da cidade. 81 Cf. OLIVEIRA, Carlos, Área Metropolitana do Porto: fluxos migratórios e deslocações casa/trabalho 1991-2001, obra já citada, p.6 82 Cf. idem, p.14
86 Fig.52 – Crescimento do número de fogos nos concelhos da Grande Área Metropolitana do Porto, 1994-2004, (Evolução do mercado imobiliário no Grande Porto, fig.1, p.2)
3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 87 3.3. A habitação contemporânea na Área Metropolitana do Porto Após a análise da distribuição populacional na AMP é fácil perceber o seu reflexo na habitação e o consequente abandono do centro histórico. A fuga da maioria da população para os arredores influenciou o crescimento habitacional nestas novas áreas, preferidas em detrimento da zona mais antiga, constantemente abandonada (fig.52). Mas também os fatores arquitetónicos desempenharam um importante papel nas migrações da população. Não só os subúrbios ofereciam melhores condições de habitação como também a casa burguesa portuense deixou de satisfazer as necessidades residenciais da sociedade contemporânea. Porque com o desenvolvimento do tema em 2.3.2, acerca do espaço habitacional burguês, foi demonstrada a grande adaptabilidade da casa do Porto aos seus habitantes, podendo afirmar-se que a forma da habitação refletia e respondia às necessidades da época, é fundamental compreender o que se alterou na sociedade e na própria casa burguesa. A sociedade contemporânea traduz-se por uma variedade de pessoas, de valores, de regras e de culturas. Tal como as pessoas, a arquitetura também se diversificou. Não existe uma tipologia de casa portuense contemporânea, existe, por outro lado, uma variedade de edifícios, muitas vezes sem qualquer relação entre si e com a envolvente, caracterizando as novas áreas. “Em relação à cidade contemporânea, aquela que devemos construir, faltam os estudos de urbanismo e de planeamento territorial que apresentam uma visão global e concentrada do território e da cidade.”83 A diversidade tornou-se fruto da necessidade de novas habitações que cresceram a uma ritmo exponencial, onde o planeamento praticamente não foi utilizado. Deste modo, tornou-se impossível a caracterização de uma tipologia contemporânea típica, tal como aconteceu com a casa burguesa, que, através da sua uniformidade, transformou a imagem da cidade desde a sua construção até aos dias de hoje. É, por esta razão, muito difícil perceber qual o tipo de casa mais procurado, quando a sociedade e a arquitetura é tão variada. 83 Cf. FERNANDES, Francisco Barata, Transformação e permanência na habitação portuense, obra já citada, p.300
88 Fig.53 – Proporção de T0 e T1 construídos em 2003 e 2004 (%) (Evolução do mercado imobiliário no Grande Porto, fig. 3, p. 3) Fig.54 – Proporção de T2 construídos em 2003 e 2004 (%) (Evolução do mercado imobiliário no Grande Porto, fig. 4, p. 3) Fig.56 – Proporção de T4 ou superior construídos em 2003 e 2004 (%) (Evolução do mercado imobiliário no Grande Porto, fig. 6, p. 3) Fig.55 – Proporção de T3 construídos em 2003 e 2004 (%) (Evolução do mercado imobiliário no Grande Porto, fig. 5, p. 3)
3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 89 Resta, então, compreender as principais alterações na maneira de habitar dos tempos contemporâneos, associando as diferentes tipologias de casa nas várias zonas da AMP (fig.53 a 56), com o grande conjunto populacional que caracteriza cada uma em concreto. É fundamental o conhecimento do tipo de famílias que procura casa, a distribuição nas diferentes zonas urbanas segundo a faixa etária e as condições financeiras e a tipologia mais procurada. Adicionalmente, é necessário saber qual o tipo de contrato com mais adesão, aluguer ou venda de casa. A compreensão destes fatores é imprescindível para a explicação da organização interna das casas, como consequência das necessidades habitacionais contemporâneas, que ajudará a perceber a razão pela qual o espaço interno da casa burguesa se encontra desatualizado. “A habitação satisfaz, na sociedade em que está integrada, um conjunto de funções, como a de abrigo e reprodução da família, sendo, ainda, um elemento fundamental na construção da personalidade individual, de integração social e de socialização, para além de ser um espaço de consumo, de produção de bens e serviços, de ócio e comunicação.”84 A habitação é o lugar por excelência da família, o refúgio seguro do individuo da sociedade onde a educação das pessoas tem início. A existência de um bom ambiente familiar proporciona uma situação mais propícia ao crescimento das crianças e dos adolescentes, pessoas cuja mentalidade se encontra em constante alteração e crescimento. Com a alteração do papel da mulher na sociedade, passando de dona de casa a pessoa trabalhadora equivalente ao homem, e com a crescente importância das instituições de ensino na vida das crianças e jovens, a habitação tornou-se num espaço dormitório. Enquanto os pais trabalham durante a maior parte do dia, as crianças ocupam os seus tempos livres nos infantários ou nas escolas, regressando a casa com os seus pais no final do horário de trabalho. Regra geral, quanto mais baixo é o rendimento da família, mais os pais “despendem horas de trabalho para cuidar dos filhos”.85 No conceito de chegar a casa está implícita a ideia de chegar a um local tranquilo, longe da confusão e stress do emprego, numa reunião familiar dos membros, 84 Cf. MATOS, Fátima Loureiro de, A habitação no grande Porto, Porto: FLUP, 2011 (cap. I, p.1) 85 Cf. LAUWE, Paul-Henry Chombart de, LAUWE, Marie-José Chombart de, A evolução contemporânea da família, Lisboa: ISCUL, 1965, p.479
96 Fig.70 – Ocupação dos alojamentos (Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.27) Fig.71 – Alojamentos arrendados (Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.24)
3.O PORTO CONTEMPORÂNEO 97 Avaliando mais concretamente a situação vivida dentro da cidade do Porto, a existência de mais habitações de tipologia T0 e T1 pode ser explicada pela forte existência de famílias unipessoais, monoparentais e de pessoas mais pobres nas freguesias centrais, bem como pelo maior número de casas mais pequenas. Segundo uma das principais agências imobiliárias90, são os imóveis mais pequenos os mais procurados, especialmente por estudantes e trabalhadores liberais que recorrem ao arrendamento de pequenos espaços para uma habitação normalmente temporária. Pelo contrário, a existência de uma classe mais alta, principalmente na zona ocidental da cidade explica a razão da existência de tipologias maiores no concelho do Porto, bem como das famílias com maior agregado familiar (fig.70). Também as pessoas com mais habilitações se concentram na mesma área, contribuindo para o crescimento de uma população mais rica na zona ocidental da cidade. Quanto aos concelhos vizinhos, são as tipologias T2 e T3 que maior número alcançam, refletindo a ocupação destas áreas por um grande número de famílias pertencentes à classe média. Quanto à aquisição ou arrendamento de casa, segundo outro estudo91, verifica-se que a preferência dentro da AMP continua a ser dada à compra, correspondendo, em 2001, a cerca de 65,7% do total de alojamentos clássicos, enquanto o número de alojamentos arrendados era de apenas 30,9%. Dentro da cidade do Porto, a maior quantidade de edifícios arrendados corresponde às freguesias centrais e à área junto ao maior polo universitário, em Paranhos (fig.71), locais onde a população mais envelhecida ocupa uma grande percentagem e locais mais propícios a serem habitados temporariamente por estudantes ou por turistas. 90 Era – Porto Baixa. Em conversa informal explicaram que a maior procura está nos imóveis de pequenas dimensões, T0 e T1, principalmente por estudantes e trabalhadores liberais. 91 Cf. CONCEIÇÃO, Paulo, Dinâmicas de expansão da habitação na região norte, Lisboa: INE, 2003.
98
99 4. 4 A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE N
100 Fig.74 – Estado dos edifícios e do interior do quarteirão na fase final de obras Fig.72 – Reabilitação do Quarteirão das Cardosas. Anteriormente o quarteirão encontrava-se totalmente preenchido por edifícios secundários no seu interior. A intervenção visa a criação de um espaço amplo e livre no interior, com comércio e um parque de estacionamento subterrâneo (Porto Vivo, SRU) Fig.73 – Estado dos edifícios e do interior do quarteirão durante o processo de obras (Porto Vivo, SRU)
4.A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 101 4.1. Estratégias de reabilitação A reabilitação de um edifício é um assunto sensível, especialmente quando se trata de um tipo com uma tamanha identidade e especificidade, capaz de marcar a imagem de uma determinada cidade. A casa burguesa do Porto, como maior símbolo da Invicta, representa a maior parte do conjunto edificado do centro histórico, considerado desde 1996 como Património Mundial da Humanidade. Ao longo deste trabalho foram abordados diversos temas que explicam o constante abandono e envelhecimento da zona urbana mais antiga, o que resultou num agravamento do estado de degradação do edificado que há mais de um século caracteriza o Porto. Numa tentativa de combater este problema, vários projetos de reabilitação foram ganhando terreno nos últimos anos, intervindo-se no edificado de muitas maneiras. Contudo, algumas propostas rompem por completo com o interior das casas do Porto, transformando-o num outro espaço, onde a única memória do passado se encontra nas fachadas exteriores, que se mantêm dando continuidade à imagem urbana, como aconteceu com o Quarteirão das Cardosas (fig.72 a 74). As reduzidas dimensões da casa limitam as suas possibilidades de adaptação a novos espaços e, nalguns casos, o estado de degradação do edifício é demasiado grande e a única alternativa encontra-se na destruição do interior, substituindo-se pavimentos, telhados e escadas, mantendo-se as fachadas exteriores, e acrescentando-se, algumas vezes, elevadores e até garagens, aproveitando-se para adaptar os novos espaços aos regulamentos atuais. No campo da reabilitação da habitação burguesa portuense, além da intervenção em parcelas individuais, assiste-se a uma variedade de estratégias como a intervenção por unidade de quarteirão ou por associação de lotes, que desta forma, permitem o aumento dos espaços através de uma continuidade dos pisos. Não obstante disto, cada caso é um caso e nem todos os edifícios apresentam o mesmo grau de degradação. Para aqueles cujos materiais ainda se encontram num bom ou razoável estado de conservação, o processo de reabilitação pode passar por uma
102 simples reformulação da organização funcional e uma procura de melhoria das condições mais precárias existentes na maioria do conjunto edificado. Ora, quanto maior a intervenção, mais custos terá a obra e a identidade do espaço habitacional burguês aos poucos vai perdendo o seu lugar no edifício e na cidade. O principal objetivo deste trabalho centra-se na exploração do interior da casa do Porto, procurando estudar as possibilidades de adaptação a novos espaços, mantendo ao máximo os elementos que mais definem o interior burguês, como a localização central da caixa de escadas e a sua relação com a claraboia. Desta forma, o espaço habitacional do passado entra num maior diálogo com o habitar contemporâneo e a especificidade da casa manter-se-á, não apenas na fachada exterior, mas prolongando-se a todo o edifício. Porque o importante não é apenas assegurar a imagem urbana contínua do Porto, mas sim resgatar e salvaguardar a identidade de uma tipologia de habitação. Além disso, reduzindo-se na dimensão da intervenção, este processo poderá ter custos mais baixos, abrangendo uma maior gama de pessoas que poderão mais facilmente participar no processo de reabilitação do centro histórico, tornando-o mais rápido e eficaz. A redução dos preços poderá, da mesma maneira, atrair as famílias recémconstituídas que, como se estudou anteriormente, optaram pelos arredores por razões financeiras e que podem, desta maneira, voltar a habitar dentro dos limites da cidade do Porto. A estas famílias, onde o agregado é constituído por mais crianças, somam-se os jovens e os trabalhadores liberais que cada vez mais procuram casa no centro histórico, e que podem ser a chave para o rejuvenescimento da zona mais antiga, transformando o centro degradado, envelhecido e abandonado numa área repleta de vida.
4.A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 103 4.2.Versatilidade e limitações – principais problemas de intervenção Não é por acaso que as intervenções de reabilitação transformam por completo o espaço interior da casa burguesa. A sua especificidade e as necessidades contemporâneas muitas vezes são difíceis de compatibilizar e numa tentativa de se respeitar os novos regulamentos de habitação, a maneira mais fácil encontrada é a reformulação do interior. É fundamental, antes de procurar soluções, uma primeira compreensão dos principais problemas de adaptação à contemporaneidade. É, por isso, importante perceber, antes de reabilitar, que parte das casas já não se adapta à realidade e que parte da casa precisa de ser alterada. Para além de uma desatualização face aos regulamentos que ao longo dos anos foram surgindo, por se tratarem de habitações na sua maioria de pessoas mais pobres, e pela elevada precaridade e antiguidade dos materiais e das condições térmicas, acústicas e higiénicas, também a organização funcional dos vários compartimentos que constituem a habitação traz problemas. Devido às reduzidas dimensões da largura dos edifícios, a localização da caixa de escadas no centro divide, em muitos casos, cada piso entre frentes e traseiras, impossibilitando o desenvolvimento de um fogo ao longo do comprimento total da casa. Na transformação das casas unifamiliares em edifícios plurifamiliares, tema desenvolvido anteriormente, a zona mais privada dos quartos encontrava-se, normalmente, separada das restantes divisões, a sala e a cozinha, existindo apenas uma ligação através do patamar público das escadas. Também as grandes profundidades apresentam situações problemáticas, dando origem a espaços com pouca luz, mais afastados das fachadas com janelas. As necessidades impostas pela sociedade contemporânea dão mais importância aos compartimentos sanitários e de banho, que nestas casas ficam muitas vezes confinados a pequenos cubículos nas varandas do alçado tardoz, quando existem. São poucos os exemplos de edifícios com dimensões que permitam a introdução de espaços mais amplos e luminosos e a introdução do elevador, ou mesmo de uma garagem.
104 Parte-se, então, do princípio que é impossível adaptar todas as casas a estes novos elementos. A forma retangular da casa burguesa pode parecer de fácil adaptação, mas quando o objetivo é a procura de soluções para o espaço mantendo-se ao máximo a distribuição interior, a sua versatilidade encontra muitos obstáculos. Contudo, é importante constatar o que se pode alterar, dentro destas limitações, e que tipologias mais facilmente se integram. Ao longo do capítulo III, acerca do Porto Contemporâneo, foi estudada a evolução da cidade ao longo dos últimos anos e o seu reflexo na distribuição populacional e, consequentemente, habitacional. As tipologias que mais procura obtêm são as de pequena dimensão, T0 e T1, principalmente por estudantes e trabalhadores liberais, e as de maior dimensão, T4 ou superiores, podendo explicar a forte concentração de famílias mais ricas e numerosas no concelho do Porto. Para começar, há que procurar adaptar as casas às maiores procuras e necessidades, explorando-se as três tipologias mais requeridas. Não obstante disto, será importante explorar as tipologias T2 e T3 que foram ganhando uma maior procura nos concelhos vizinhos. Porque a população foi trocando o centro pelos arredores, é importante pensar em estratégias de adaptação destas últimas tipologias a fim de atrair uma maior gama de interessados e as pessoas que há muito preferiram os subúrbios para habitar e que podem, desta maneira, ter uma oportunidade de ficar mais perto do seu local de trabalho.
4.A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 105 4.3. Caso de estudo A fim de uma melhor compreensão da versatilidade e das limitações da casa burguesa portuense, e a maneira como nos dias de hoje os seus habitantes moldam o espaço interior, pretende-se nesta fase do trabalho, uma análise mais prática de um exemplo, estudando várias possibilidades de organização espacial. Como arquiteto, o desenho é a ferramenta principal e a melhor maneira de se dar resposta ou de se procurar novas soluções para um problema. O desenvolvimento apenas teórico deste tema ficaria incompleto se faltasse a exploração prática e projetual. Ao longo do trabalho foram estudadas três tipologias de habitação, que apesar do grande número de semelhanças entre si, como um processo de evolução ocorrido ao longo dos tempos, se caracterizam por um conjunto de variantes que as torna distintas. Compreendendo que analisar as casas do Porto mercantilista, iluminista e liberal seria um trabalho demasiado extenso, importa restringir o estudo a apenas uma tipologia. Para tal, procedeu-se à escolha de uma área de estudo em concreto, que reúne as principais características gerais e que melhor ilustra os problemas referidos anteriormente. É importante estudar um exemplo, não só para perceber como se pode explorar a organização interior, mas também, para se compreender, antes de mais, quais os principais problemas que existem nos dias de hoje que conduziram à desqualificação dos espaços interiores. É fundamental perceber que cada caso tem a sua especificidade e que a área e o edifício em concreto estudados de seguida não servem para todos os edifícios; são apenas a base usada para o desenvolvimento e o levantamento de questões, como um dos muitos casos que existem na cidade. O que se pretende neste tema não é a execução de uma forma correta de organização do interior a ser seguida, mas sim a constatação das possibilidades que um mesmo espaço pode permitir, trabalhando-se, por essa razão, numa escala menos detalhada, onde o que interessa não é o desenho do mais pequeno pormenor, mas sim uma espécie de combinações entre as várias divisões.
112 173 175 Média (característica mais comum) nº pisos (contando com o piso térreo) 4 4 (8 em 15) nº vãos 2 2 (10 em 15) Largura (m) (medida maior) 5,6 5.2 Comprimento (m) (medida maior) 15,3 12.1 173 175 Média (característica mais comum) Funcionalidade CH CH (6 em 15) Estado de conservação 2011 M M (8 em 15) Estado de conservação 2008 R R (6 em 15) Estado de ocupação 2011 T T (9 em 15) Estado de ocupação 2008 T T (7 em 15) Fig.89 – Comparação entre os dados do edifício escolhido e a média das características mais comuns no conjunto (legendas na página 112) Fig.88 – Edifício nº 173 e 175 Quarto Sala Cozinha Quarto de banho Armazém Fig.91 – Plantas, corte e alçado principal do edifício em estudo. Escala 1/150 Fig.92 – Planta de piso térreo de edifício mercantilista (Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 40, p. 139) Fig.90 – Comparação com alçado típico (Livro de Plantas de casas, nº1) 3º 2º 1º R/c
4.A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 113 4.3.3. Análise de um edifício individual 4.3.3.1.Situação existente Analisadas as principais características do conjunto, procedeu-se à escolha de um edifício-modelo, neste caso, a casa portuense com os números 173 e 175 (fig.88). Como se pode ver na fig.89, a média das características apresentadas anteriormente são, na grande maioria, iguais às do edifício escolhido, tornando-o o melhor exemplo. Além disso, o desenho da fachada é bastante semelhante a exemplos apresentados nos Livros de Plantas que se encontram no AHMP (fig.90). Olhando para as plantas e cortes (fig.91), é fácil perceber a sua posterior adaptação à habitação plurifamiliar, a situação existente mais comum no centro histórico do Porto. Cada piso corresponde, por isso, a uma habitação independente, sendo o piso térreo usado como armazém. Segundo um dos moradores, apesar de cada piso corresponder a um fogo, o edifício é todo habitado pela mesma família que lá vive há mais de 50 anos. Com as dimensões de 5,6 m de largura por 15,3m de profundidade, o edifício apresenta uma profundidade superior à média do conjunto. A claraboia alinha-se com a caixa de escadas central, organizada em dois lanços, à exceção da passagem do piso térreo para o primeiro piso, onde existe um lanço de tiro, característico das habitações mercantilistas de duas frentes (fig.92). 4.3.3.2.Principais problemas Além dos problemas relacionados com o envelhecimento dos materiais construtivos, também as adaptações das casas unifamiliares a casas plurifamiliares trouxeram diversos inconvenientes. O que outrora eram grandes habitações de burgueses com maiores possibilidades económicas, transformou-se, em finais do séc.
114 Fig.95 – Planta do 3º piso. Escala 1/150 Fig.93 – Planta do 1º e 2º piso. Escala 1/150 Público Privado Fig.94 – Patamar das escadas funciona como um espaço público de circulação, ao mesmo tempo que serve de corredor privado de união das duas frentes de cada piso e de aproveitamento de espaço Fig.96 – Exceção do último piso, onde existe uma porta nas escadas junto ao patamar do 2º, que separa os dois últimos lanços e garante a total privacidade do corredor de união entre as suas duas frentes Fig.99 – Sala sem acesso à luz natural, sendo iluminada através de uma parede de vidro que a separa da cozinha. Note-se a precaridade dos equipamentos da cozinha, como o exaustor Fig.98 – Reduzida dimensão dos compartimentos Fig.97 – Reduzida dimensão e falta de condições do quarto de banho, onde existe um pequeno chuveiro sem qualquer base e um bidé, colocado por baixo do lavatório
4.A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 115 XVIII, em edifícios plurifamiliares com pequenas habitações, com o propósito de albergar a população mais pobre proveniente do campo, que procurava emprego e melhores condições de vida na cidade. A habitação unifamiliar dividiu-se em diferentes fogos desenvolvidos em cada piso, muitas vezes divididos pelas escadas, que ocupavam a largura total do centro, como se pode observar no edifício em estudo. Neste exemplo, a reduzida largura de 5,6m na parte mais larga do edifício não permite a existência de um segundo corredor privado de um dos lados da caixa de escadas, conduzido à separação dos quartos, localizados na frente da rua, da sala e da cozinha, na parte das traseiras. A única ligação existente entre as duas frentes é o patamar das escadas, que além de assegurar a circulação pública para os pisos superiores, funciona, também, como único ponto de ligação no interior de cada fogo (figs.93 e 94). O primeiro problema em relação à organização interior é, então, a divisão de cada fogo em duas frentes, excecionado o último piso, onde existe uma porta nas escadas que transforma os últimos lanços da escada numa zona privada (figs.95 e 96). Outro grande problema diz respeito às áreas destinadas a quartos de banho. Como foi estudado ao longo do trabalho, as primeiras instalações sanitárias das casas do Porto ficavam reduzidas a pequenos compartimentos, localizados na fachada tardoz. Além de se tratarem de instalações precárias constituídas apenas por equipamentos sanitários, correspondem a áreas demasiado pequenas para integrar equipamentos de banho, como chuveiros ou banheiras e, por se localizarem na fachada tardoz, encontram-se separadas dos quartos (fig.97). Devido às reduzidas dimensões dos lotes, os compartimentos tornaram-se demasiado pequenos (fig.98) e por vezes a circulação é efetuada por entre as divisões. Em muitos casos, existem compartimentos sem acesso direto à luz natural, aproveitando-se ao máximo toda a profundidade do edifício, como acontece no caso em estudo, onde a sala se encontra afastada da fachada, recebendo luz por uma parede de vidro que a separa da cozinha (fig.99). Com isto, importa perceber que os principais problemas de organização interior foram provocados pelas adaptações do passado a casas plurifamiliares e que esta é a principal razão da desadequação da casa portuense à realidade atual.
116 1 3 5 2 4 6 1 2 3 4 5 6 1 3 3 2 3 3 1 2 1 2 3 3 1 3 3 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1 Fig.100 – ESTRATÉGIA 1 – Caixa de escadas pública, permitindo, apenas, o desenvolvimento de 6 pequenas tipologias em cada metade de piso. Também se pode desenvolver um hostel ou uma residência de estudantes. Escala 1/250 Fig.101 – ESTRATÉGIA 2 – Caixa de escadas pública no(s) primeiro(s) piso(s) de pequenas tipologias, com uma porta independente num dos lanços que permite a total privacidade do(s) último(s) piso(s). É possível a existência de 3 ou 5 fogos. Escala 1/250 Fig.102 – ESTRATÉGIA 3 – Habitação unifamiliar. Caixa de escadas completamente integrado no espaço privado. Escala 1/250 Público Privado
4.A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 117 4.3.3.3.Exploração da organização interior Em suma, os principais problemas de organização interior dizem respeito à dimensão da caixa de escadas que divide os pisos em duas metades, e à inexistência de quartos de banho maiores e com as devidas condições. O objetivo do trabalho centra-se na exploração de diversas formas de organização e distribuição programática, mantendo ao máximo a estrutura das casas e os principais elementos que caracterizam o interior burguês. Será, por esta razão, fundamental manter a posição das escadas, na relação com a claraboia, podendo-se alterar as paredes interiores existentes em cada frente de piso. Em relação ao piso térreo, neste trabalho irá manter-se com a função de armazém ou pequeno comércio, por se localizar numa zona mais central na cidade. A fim de evitar a situação existente na maioria das casas onde cada fogo é dividido pelas escadas, restam poucas soluções: ou se transforma cada frente num único fogo, ou se transforma o edifício numa única habitação, ou se usam artifícios para privatizar os últimos pisos. Visto isto, definiram-se três estratégias de intervenção: -Estratégia 1 (fig.100) – O edifício é plurifamiliar e a caixa de escadas completamente pública. Cada frente corresponde, por isso, a um fogo constituído apenas por tipologias mais pequenas como o T0 ou o T1, devido à sua reduzida dimensão. Neste caso, e porque na cidade do Porto torna-se cada vez mais comum a procura de casas temporárias por parte de jovens e turistas, poder-se-á ainda desenvolver como alternativa um hostel ou uma residência de estudantes. -Estratégia 2 (fig.101) – O edifício segue a estratégia anterior, com exceção do último ou últimos pisos onde, tal como acontece no edifício estudado, existe uma porta nas escadas que privatiza os últimos lanços e permite o desenvolvimento de um único fogo por piso. -Estratégia 3 (fig.102) – O edifício volta a ser unifamiliar e a caixa de escadas passa a ser o espaço de circulação privado entre os pisos.
118 Quarto Fig.103 – Desenvolvimento de pequenas tipologias em cada frente de piso: T0, T1, e até a possibilidade de existirem as duas no mesmo (respetivamente). Escala 1/150 Fig.104 – Desenvolvimento de hostel ou residência de estudantes, com zona comum no 1º piso, apenas numa frente, e quartos nos restantes espaços. Possibilidade de existência de um ou dois quartos em cada frente (respetivamente). Escala 1/150 Sala e cozinha WC Lavandaria 1º 2º 3º 1º 2º 3º 1º 2º 3º 1º 2º 3º 2º 3º
4.A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 119 4.3.3.3.1.Estratégia 1 – Plurifamiliar: 6 fogos, hostel ou residência de estudantes Nesta primeira estratégia é importante constatar se é possível integrar T0 e T1 devido à reduzida área de cada frente (fig.103). Em relação aos quartos de banho, estes poderão ser integrados junto à parede da caixa de escadas, não só para libertar a fachada para as restantes divisões que necessitam de acesso direto à luz natural, como também para facilitar a introdução do sistema de canalização e de courettes, que ficarão, desta forma, localizadas no mesmo espaço. Para aproveitar estes espaços para a tubagem, a cozinha pode ficar localizada junto aos quartos de banho. Quanto ao T0, a sala, a cozinha e o quarto constituem um espaço amplo, diferenciando do T1, onde o quarto se separa numa divisão autónoma. Nesta última tipologia, cada frente será dividida em duas, cada uma relacionada com um vão. Devido à reduzida largura de cada metade de frente, a sala e a cozinha poderão estar num único espaço, tornando-o mais amplo. Já os quartos resumem-se a um compartimento muito pequeno, devido á dimensão do quarto de banho. Por esta razão, o T0 apresenta-se como uma melhor solução por se desenvolver num só espaço, amplificando cada frente e aproveitando todo o espaço sem a existência de paredes divisórias. Quanto à precária instalação sanitária característica dos alçados tardoz das casas do Porto, este espaço poderá ser usado como um arrumo, devido à sua pequena dimensão e consequente incapacidade de integrar um quarto de banho completo com duche ou banheira. Devido à reduzida dimensão de cada fogo, não será possível a introdução de um compartimento para lavandaria, podendo-se integrar juntamente com a cozinha. Em relação à possibilidade de integração de um hostel ou residência de estudantes (fig.104), a única diferença é a necessidade de existência de uma zona comum, com sala, cozinha, lavandaria e um pequeno espaço de receção, que poderá ocupar apenas uma frente no primeiro piso. As restantes frentes correspondem a quartos e podem ser divididas em dois.
120 Quarto Sala e cozinha WC Lavandaria Fig.105 – Possibilidade de desenvolver um apartamento a ocupar o último piso, T1 ou T2 (respetivamente). Escala 1/150 3º 3º
4.A CONTEMPORANEIDADE NA CASA BURGUESA PORTUENSE 121 4.3.3.3.2.Estratégia 2 – Plurifamiliar: 3 ou 5 fogos Nesta estratégia há a possibilidade de se privatizar o último ou os dois últimos pisos, ficando o primeiro ou os primeiros destinados a tipologias mais pequenas no seguimento da primeira estratégia. Para o primeiro caso, é necessário comprovar se é possível desenvolver um fogo num piso (fig.105). Há semelhança da organização do hostel e da residência de estudantes, uma das frentes pode ser destinada às divisões mais públicas da habitação como a sala, cozinha e lavandaria, ficando os quartos na outra frente. Cada frente pode ser dividida em dois quartos. A sala e a cozinha são confinadas a um único espaço; além de esta ser a melhor maneira de adaptar um compartimento com dimensões mais reduzidas, reflete, por outro lado, o habitar contemporâneo, na medida em que unifica o espaço mais utilizado, a cozinha, com a sala, transformando o conjunto na zona por excelência de convívio da família, onde se passa a maior parte do tempo após as horas de trabalho ou de escola, e onde se passam as horas de refeição, momentos importantes de reunião familiar. Com a transformação de uma das frentes no espaço de convívio, os quartos podem ser mais reduzidos, destinando-se apenas às horas de dormir. No caso da privatização dos dois últimos pisos, estes correspondem a um único fogo, que pode variar entre T2, T3 ou um pequeno T4, cuja organização interior será explorada na última estratégia (fig.106). Em ambos os casos existe uma porta nas escadas, como no edifício estudado (ver fig.95 e 96 na p.114) que permite a privatização dos lanços superiores. Contudo, esta estratégia apresenta uma solução que interrompe visualmente a continuidade da caixa de escadas com a claraboia, tornando as outras duas em estudo mais adaptáveis.
128
5.CONSIDERAÇÕES FINAIS 129 O senso comum que muita gente adquire de que a habitação burguesa portuense existente no centro histórico diz respeito a prédios mais antigos, com apartamentos demasiado pequenos e condições precárias, está errado. Na verdade, os “prédios” que nos chegam até hoje foram o reflexo de uma época de extrema densidade populacional, à qual a casa do Porto se procurou adaptar. E é importante perceber que tais adaptações transformaram a casa por regra unifamiliar numa habitação plurifamiliar, que não foram executadas como medida de melhoramento dos espaços, mas sim para albergar as pessoas mais pobres que procuravam trabalho na cidade e que, devido às dificuldades financeiras, aceitavam viver em condições mais precárias. Ficou claro que a casa do Porto foi bem concebida no início e que espaço habitacional foi desenhado e pensado para responder às necessidades da sociedade burguesa do séc. XVIII e XIX, construído como uma espécie de moradias em banda, organizadas ao longo das artérias viárias. Não é a casa do Porto que não se adapta à realidade, mas sim a sua posterior adaptação a casas plurifamiliares, com a consequente desqualificação dos espaços. E é neste contexto que o conhecimento da história se torna imprescindível. Antes do julgamento de uma determinada tipologia, é fundamental conhecer a sua evolução ao longo do tempo, percebendo em que circunstância os seus espaços foram criados e adaptados; daí a importância do capítulo II. Estamos portanto, à procura de soluções atuais para as soluções encontradas no passado, ou seja, a procurar reabilitar um espaço que já sofreu transformações. Não obstante, é igualmente importante perceber quem é que continua a habitar nestas casas. Antes de procurar soluções, é necessário perceber o que está mal e o que conduziu ao envelhecimento e abandono desta tipologia. E é neste sentido que o capítulo III assume a sua importância, como fonte de conhecimento da realidade atual. Enquanto as famílias recém-constituídas procuravam e continuam a procurar casa nos municípios arredores, o centro histórico permaneceu com uma população mais pobre que habita as mesmas casas ao longo de várias gerações. Tal como aconteceu no passado, onde os mais ricos procuraram novas casas em zonas mais afastadas do centro,
130 dando origem à tipologia do período liberal, foram os mais pobres que preencheram os adaptados interiores burgueses. Os materiais foram envelhecendo ao longo dos tempos, nuns casos devido ao completo abandono dos edifícios, que os deixou à mercê da degradação, noutros casos por se tratar de habitações a cargo de senhorios que, devido ao reduzido preço das rendas dos seus inquilinos, não procuraram uma cuidada manutenção do edifício. “Mas, porque o espaço é contínuo e porque o tempo é uma das suas dimensões, o espaço é, igualmente, irreversível, isto é, dada a marcha constante de tempo e de tudo o que tal marcha acarreta e significa, um espaço nunca pode vir a ser o que já foi. (…) Podemos, talvez, considerar dois tipos de participação na organização do espaço; uma participação a que chamaremos horizontal, que se realiza entre homens de uma mesma época, uma outra a que chamaremos vertical que se realiza entre homens de épocas diferentes (…) em obra que se processa ao longo de um período de tempo que ultrapassa a dimensão da geração.”92 Segundo este pensamento de Fernando Távora, é necessário agirmos em conformidade com o passado, como um trabalho contínuo de adaptação e, como arquitetos, cabe-nos a função de procurar as melhores soluções para os espaços desqualificados. A reabilitação da casa do Porto torna-se mais do que necessária, numa altura em que cada vez mais se assiste ao fenómeno de abandono do centro histórico em benefício dos arredores, que culmina no envelhecimento e agravamento do estado de degradação. A classificação do centro portuense como Património Mundial da Humanidade é mais do que razão para a procura de soluções de reabilitação que visem a permanência da identidade da tipologia de habitação burguesa, não só no exterior, mas também no interior, como um reflexo do tempo num espaço e do trabalho contínuo que o arquiteto deve assegurar. Esse trabalho contínuo deve passar pela adoção de soluções de intervenção que privilegiem a manutenção dos elementos característicos interiores, com as inerentes 92 Cf. TÁVORA, Fernando, Da organização do espaço, Porto: FAUP Publicações, 7ªed., 2007
5.CONSIDERAÇÕES FINAIS 131 vantagens, na medida em que diminui a dimensão e os custos do processo de reabilitação. Um dos problemas atuais do Porto e um dos principais fatores de preferência pelos arredores são os elevados preços da habitação, tanto no campo da aquisição como arrendamento. Uma estratégia de reabilitação menos destrutiva, mais rápida e mais barata poderá ser a chave futura para grande parte dos problemas da cidade do Porto: - Alargamento do processo a mais pessoas, o que pode facilitar e tornar a requalificação do centro histórico mais rápida; - Diminuição dos custos de aquisição ou arrendamento com a redução dos custos da intervenção de reabilitação; - Maior procura por parte das famílias recém-constituídas, jovens, trabalhadores liberais e turistas com a diminuição dos preços; - Reversão da tendência de envelhecimento com a atração das camadas mais jovens. A comprovação realizada no capítulo IV das possibilidades de organização funcional que podem existir num mesmo espaço, mantendo-se a estrutura principal, torna esta estratégia de reabilitação cada vez mais possível. Apesar das limitações dos edifícios no que diz respeito ao cumprimento dos novos regulamentos e à introdução de novos equipamentos, como o elevador e a garagem, que se podem tornar em motivos de renúncia desta tipologia, a casa do Porto ganha caminho, na medida em que se transforma um produto adaptado às realidades que foram surgindo com o tempo, num diálogo harmonioso entre as formas de habitar contemporâneas e as estruturas e identidades passadas que permanecem, como um espaço de convívio entre a atualidade e as memórias da sociedade de uma época passada de crescimento da cidade. Foi demonstrada a viabilidade da casa burguesa portuense e, nessa medida, as soluções de organização espacial estudadas são uma efetiva possibilidade de reabilitação da cidade, assegurando-se a permanência do valor patrimonial dos edifícios, bem como uma possibilidade de rejuvenescimento de um centro histórico que, ao longo dos anos, tem vindo a ser abandonado em benefício de outros lugares.
132
133 ANEXOS
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ANEXOS 135 Anexo I Estado de conservação em 2008 e 2011 Mau estado de conservação Razoável estado de conservação Bom estado de conservação
136
ANEXOS 137 Anexo II Estado de ocupação em 2008 e 2011 Edifício devoluto Parcialmente ocupado Totalmente ocupado
144 RODRIGUES, Duarte, Pressão construtiva na Área Metropolitana do Porto in Estatísticas e Estudos Regionais – região norte – nº19, Lisboa: INE, 1999. TORRES, Sónia, PEREIRA, António Eduardo, Padrões habitacionais na Área Metropolitana do Porto in Estatísticas e Estudos Regionais – região norte – nº19, Lisboa: INE, 1999. Estudos efetuados pela Câmara Municipal do Porto (CMP) CMP, A base económica do centro histórico do Porto in Destaque Informativo, Gabinete de Estudos e Planeamento da CMP, Porto: CMP, 2009. CMP, Evolução do mercado imobiliário no Grande Porto in Destaque Informativo, Gabinete de Estudos e Planeamento da CMP, Porto: CMP, 2006. CMP, Notas sobre a evolução demográfica do concelho do Porto (1991-2005), Gabinete de Estudos e Planeamento da CMP, Porto: CMP, 2007. CMP, O Porto em números – síntese estatística, Divisão Municipal de Planeamento e Ordenamento do Território da CMP, Porto: CMP, 2013. CMP, Relatório 2011 – Sistema de monitorização da qualidade de vida urbana do Porto, Gabinete de Estudos e Planeamento da CMP, Porto: CMP, 2011. FARIA, Alexandra, FERREIRA, Célia, ROCHA, Eugénia, ROCHA, Sérgio, Retrato da população juvenil do concelho do Porto, coord. Isabel Martins, Gabinete de Estudos e Planeamento da CMP, Porto: CMP, 2009. FARIA, Alexandra, FERREIRA, Célia, ROCHA, Eugénia, LAGE, Graça, MACHADO, Idalina, ROCHA, Sérgio, Rede social do Porto – Relatório de pré-diagnóstico, coord. Isabel Martins, Gabinete de Estudos e Planeamento da CMP, Porto: CMP, 2008.
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148 www.tqs.com.br www.wikipedia.org www.wikipaintings.org www2.iict.pt Bibliografia de imagens As imagens, fotografias e desenhos são da autoria da autora, excetuando: Páginas 22 e 23 (da esquerda para a direita): -Gravura do Porto de 1789 de Teodoro de Sousa in www.portopatrimoniomundial.com (10.09.2013) -“Plano da cidade do Porto…” de 1822 ou 1823 de José Francisco de Paiva. Fonte: Arquivo Histórico Municipal do Porto in www.portopatrimoniomundial.com (10.09.2013) -Detalhe da Planta Topográfica da Cidade do Porto de 1839 de J. Costa Lima in www.portopatrimoniomundial.com (10.09.2013) -Ponte das Barcas de 1813 de Henry Smith in www.portopatrimoniomundial.com (10.09.2013) Fig.4 – www.portopatrimoniomundial.com (12.08.2013) Fig.5 – Fonte: Biblioteca Nacional Digital in www.portopatrimoniomundial.com (12.08.2013) Fig.8 – Fonte: Arquivo Histórico Municipal do Porto in www.portopatrimoniomundial.com (12.08.2013) Fig.9 – Evolução do Desenho das Fachadas das Habitações Correntes Almadinas in Reabilitação de caixilharias de madeira em edifícios do século XIX e início do século XX, fig.11, p.11 Fig.10 – Fonte: Arquivo Histórico Municipal do Porto in www.portopatrimoniomundial.com (12.08.2013)
BIBLIOGRAFIA 149 Fig.11 – Porto, 1763/1852: a construção da cidade entre despotismo e liberalismo in Tardoz. Projecto, construção e vivência da fachada posterior na casa burguesa portuense, fig.22, p.68 Fig.13 – Habitação popular na cidade oitocentista: as ilhas do Porto Fig.14 – Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 85, p. 209 Fig.15 - Transformação e permanência na habitação portuense, p.84, fig.1 Fig.17 - Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 33, p. 132 Fig.18 - Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 40, p. 139 Fig.20 - Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 49, p. 156 Fig.21 - Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 51, p. 158 Fig.23 - Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 70 e 71, p. 193 e 194 Fig.24 - Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 73, p. 196 Fig.25 - Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 101, p. 233 Fig.26 - www.istoedinheiro.com.br (12.08.2013) Fig.27 - www2.iict.pt (12.08.2013) Fig.28 - blasfémias.net (12.08.2013) Fig.29 – Estudos sociais in Reabilitação de caixilharias de madeira em edifícios do século XIX e início do século XX, fig.6, p.8 Fig.30 – Fonte: AHMP, Livros de Recenseamento Eleitoral de 1847, 1860 e 1880 in Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, p. 85 Fig.31 - Fonte: AHMP, Livros de Recenseamento Eleitoral de 1847 in Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, gráfico nº9, p.98 Fig.32 - Fonte: AHMP, Livros de Recenseamento Eleitoral de 1847, 1860 e 1880 in Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, mapas 5 e 6, p. 100 Fig.33 - Fonte: AHMP, Livros de Recenseamento Eleitoral de 1847, 1860 e 1880 in Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, gráfico nº 8, p. 93 Fig.34 - Fonte: AHMP, Livros de Recenseamento Eleitoral de 1847, 1860 e 1880 in Os burgueses do Porto na segunda metade do séc. XIX, gráfico nº 7, p. 91 Fig.35 - www.wikipaintings.org (12.08.2013) Fig.36 – Montagem e cores a partir de Transformação e permanência na habitação portuense
150 Páginas 68 e 69 (da esquerda para a direita, 2ª e 3ª imagens): -Casa da Música in www.mimoa.eu -Estádio do Dragão in pt.wikipedia.org Fig.39 - www.portopatrimoniomundial.com (12.08.2013) Fig.41 – Fonte: Porto Vivo, SRU in Plano de Gestão, anexo VI, 10 - Delimitação das 10 operações Fig.42 – Fonte: Porto Vico, SRU, in Plano de Gestão, anexo VI, 15 - Operações de reabilitação urbana Fig.43 – Fonte: INE, Dados definitivos Censos de 2011; INE, Anuário Estatístico da Região Norte (2011); INE, BGRI 2011 in O Porto em números. 2 - Demografia e Território Fig.44 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p13 Fig.45 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.7 Fig.46 - Fonte: INE in Relatório de Monitorização, 2011, tabela 31 p.66 Fig.47 – Fonte: INE in Relatório de Monitorização, 2011, tabela 33, p.68 Fig.48 - Mobilidade na cidade do Porto, fig.2, p.6 Fig.49 - Fonte: INE, Censos 1991 e 2001 in Retrato da população juvenil do concelho do Porto, fig.7, p.10 Fig.50 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.14 Fig.51 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.10 Fig.52 – Fonte: INE in Evolução do mercado imobiliário no Grande Porto, fig.1, p.2 Fig.53 - Fonte: INE in Evolução do mercado imobiliário no grande Porto, fig. 3, p. 3 Fig.54 - Fonte: INE in Evolução do mercado imobiliário no grande Porto, fig. 4, p. 3 Fig.55 - Fonte: INE in Evolução do mercado imobiliário no grande Porto, fig. 5, p. 3 Fig.56 - Fonte: INE in Evolução do mercado imobiliário no grande Porto, fig. 6, p. 3 Fig.57 – Fonte: INE, Censos 2001 in Rede social do Porto, fig. 14, p. 21 Fig.58 - Fonte: INE, Censos 2001 in Rede social do Porto, fig. 15, p. 22 Fig.59 – Fonte: INE/GEP in Relatório de Monitorização, p.82
BIBLIOGRAFIA 151 Fig.60 - Fonte: INE, Censos 2001 in Rede social do Porto, fig. 17, p. 23 Fig.61 - Fonte: INE, Censos 2001 in Rede social do Porto, fig. 18, p. 23 Fig.62 - Fonte: INE, Censos 2001 in Rede social do Porto, fig. 19, p. 24 Fig.63 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.22 Fig.64 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.23 Fig.65 – Fonte: DGEG/cálculos CMP-GEP in Relatório 2011, p. 50 Fig.66 – Fonte: Comando Metropolitano do Porto in Rede social do Porto, fig. 1, p. 106 Fig.67 - Fonte: INE in Evolução do mercado imobiliário no grande Porto, fig.8, p.4 Fig.68 – Fonte: Confidencial Imobiliário in Relatório 2011, p.146 Fig.69 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.26 Fig.70 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.27 Fig.71 - Censos 2001 - Representação cartográfica de indicadores à escala da secção estatística, p.24 Fig.72 – Fonte: Porto Vivo, SRU in Projecto Base de Documento Estratégico, fig.7, p.39 Fig.73 – Fonte: Porto Vivo, SRU in Cardosas - Quarteirão 14017 Fig.75 – Fonte: Porto Vivo, SRU in Plano de Gestão, anexo VI, 13 – Edifícios de valor patrimonial Fig.76 – Fonte: Arquivo Histórico Nacional do Porto in www.portopatrimoniomundial.com (12.08.2013) Fig.77 – Fonte: Porto Vivo, SRU in Plano de Gestão, anexo VI, 5 – Estado actual do edificado Fig.78 – https://maps.google.pt (26.08.2013) Fig.80 - Transformação e permanência na habitação portuense, p.84, fig.1 Fig.81 - https://maps.google.pt (26.08.2013) Fig.90 – Livro de Plantas de Casas, nº1, fig.162 Fig.92 - Transformação e permanência na habitação portuense, fig. 40, p. 139
152 Anexo I: (cima) Fonte: Porto Vivo, SRU in Plano de Gestão, anexo VI,4 – Planta estado de conservação (baixo) Delimitação da área de reabilitação urbana do Centro Histórico do Porto em instrumento próprio, fig.6, p.37 Anexo II: (cima) Fonte: Porto Vivo, SRU in Plano de Gestão, anexo VI, 8 – Estado de ocupação (baixo) Delimitação da área de reabilitação urbana do Centro Histórico do Porto em instrumento próprio, fig.7, p.39