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Abstract
"Será que estas coisas te parecem agradáveis, Teeteto, e quando as provas, te satisfazem?-Eu cá não sei, Sócrates, pois de ti não sou capaz de perceber se as dizes por achares que são assim, ou me estás a pôr à prova." (Platão, Teeteto)"Desorientou-me, primeiro, este homem que cantava alegremente coisas que, acreditadas ou supostas, não dão senão pena ou horror a todos -a materialidade, a morte, o não-além." (Álvaro de Campos, Notas para aRecordação do Meu Mestre Caeiro)"Pedro disse-Lhe: 'Explica-nos esta parábola.' Jesus respondeu-lhes: 'Também vós estais ainda sem compreender?'" (Mateus, Evangelho)
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(...) Pedro Eiras Universidade do Porto - ILC Resumo: “Será que estas coisas te parecem agradáveis, Teeteto, e quando as provas, te satisfazem? - Eu cá não sei, Sócrates, pois de ti não sou capaz de perceber se as dizes por achares que são assim, ou me estás a pôr à prova.” (Platão, Teeteto) “Desorientou-me, primeiro, este homem que cantava alegremente coisas que, acreditadas ou supostas, não dão senão pena ou horror a todos – a materialidade, a morte, o não-além.” (Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro) “Pedro disse-Lhe: ‘Explica-nos esta parábola.’ Jesus respondeu-lhes: ‘Também vós estais ainda sem compreender?’” (Mateus, Evangelho) Palavras-chave: citação, montagem, Fernando Pessoa, modernismo Abstract: “I do not know what to say, Socrates; for, indeed, I cannot make out whether you are giving your own opinion or only wanting to draw me out.” (Plato, Theaethetus) “In the beginning he confused me, this man who joyfully sang things that, should you believe them or not, only sadden or horrify everybody – materiality, death, the non-beyond.” (Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro) “Peter answered him, “Explain the parable to us.” So Jesus said, “Do you also still not understand?”“ (The Gospel according to Matthew) Keywords: quotation, montage, Fernando Pesssoa, Modernism “Certos livros recebem um destino muito antes de existirem como livros: é o caso das Passagens, a obra inacabada de Benjamin sobre a qual se teceram muitas lendas desde que Adorno falou dela pela primeira vez num ensaio publicado em
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 1950.” (Rolf Tiedemann, “Introdução” a Walter Benjamin, Paris, Capital do Século XX. O Livro das Passagens, 1989: 11) “Deste projecto temos milhares de páginas, estudos de material que ficaram escondidos em Paris durante a ocupação. Mas não é possível reconstruir o conjunto. A intenção de Benjamin era renunciar a toda a interpretação manifesta, fazendo com que as significações se impusessem apenas através da contrastada montage do material. (...) Para coroar o anti-subjectivismo, toda a obra tinha de constar de citações.” (Theodor W. Adorno, “Caracterização de Walter Benjamin”, 1955: 23) “Por muito benjaminiana que esta concepção possa parecer, o editor está persuadido de que Benjamin não tinha intenção de proceder assim. Nenhuma carta corrobora esta afirmação e as duas notas das próprias Passagens (...) em que Adorno se apoia dificilmente podem ser interpretadas neste sentido.” (Rolf Tiedemann, “Introdução” a Walter Benjamin, Paris, Capital do Século XX. O Livro das Passagens, 1989: 12n) “Como vai acontecer muitas vezes eu citar assim, pois bem, volta a ser uma citação de Benjamin por Adorno que me encoraja a pensar que o meu uso das citações deveria ser aqui tudo menos académico, protocolar e convencional, mas antes, mais uma vez, inquietante, desorientador, ou mesmo unheimlich.” (Jacques Derrida, Lixados / Xailes, 2002: 21-2) “Uma citação, mesmo quando literal, é sempre uma interpretação.” (Luís Miguel Nava, “Intertextualidade na poesia portuguesa contemporânea”, 1991: 80) “Há um contar de si no escolher, no buscar-se entre o que dos outros” (João Cabral de Melo Neto, Museu de Tudo, 1974: 113) “Estou a afastar-me do tema, como sempre...” (Jacques Derrida, “O lugar dito: Estrasburgo”, 2004: 38) “O nosso triplo paradigma – a destruição do discípulo pelo Mestre, a traição do Mestre pelo discípulo, o arco eléctrico da fé partilhada e da paternidade – é ubíquo.” (George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 111) 118
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “A vida de Caeiro não pode narrar-se pois que não há nela de que narrar.” (Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 46) “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.” (Fernando Pessoa / Alberto Caeiro, Poesia, 2001: 110) “Caeiro não é essa resposta efectiva, essa inversão miraculosa da visão poética anterior a ele, como Pessoa, vitalmente interessado nela, a autointerpreta. Só o mito Caeiro – e em particular na boca de Campos – cumpre essa função real e impossível que o seu criador lhe atribui.” (Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, 1973: 43) “para si e para os seus iguais forjou, ludicamente, essa outra religião para que inventou um Mestre com seus Discípulos, que farão as vezes de Evangelistas. Sim, porque depois da morte prematura de Caeiro, em 1915, são esses Discípulos que vão dar ao Mestre, evocando a sua presença, comentando os seus ensinamentos, a verdadeira dimensão mítica.” (Teresa Rita Lopes, “Notas prévias” a Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 24-5) “É inútil fazer observar quão longe estava do pensamento de Jesus a ideia de um livro religioso que contivesse um código e artigos de fé. Não só não escreveu, mas até era contrário ao espírito da seita nascente a composição de livros sagrados. Todos se julgavam em vésperas da grande catástrofe final.” (Ernest Renan, Vida de Jesus, 1863: 271) “a mais insignificante partícula de vida tem mais valor que tudo o que escrevi.” (Vladímir Maiakovski, “A nuvem de calças”, 1915: 83) “Acontece que Pessoa apenas realizou o monólogo dramático em verso que cada heterónimo foi segregando de si ao longo de sua vida (deles e dele). O diálogo que, ‘todos juntos’, entretêm não foi fixado. Ficou apenas o desafio feito ao leitor, a quem finalmente incumbe a encenação dos esparsos monólogos.” (Teresa Rita 119
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 Lopes, “Notas prévias” a Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 18) “Mas nem mesmo Lévi-Strauss seria capaz de ler os textos como o próprio Omnipotente.” (Terry Eagleton, Teoria Literária. Uma introdução, 1983: 105) “este texto terá que ser sempre uma montagem” (Teresa Rita Lopes, “Notas prévias” a Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 21) “Caeiro inesperadamente, com a sua costumada prontidão divina.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 60) “Ora, João, no cárcere, ouvira falar das obras de Cristo. Enviou-Lhe os seus discípulos com esta pergunta: “És Tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?”“ (Evangelho segundo S. Mateus, 11: 2-3) “havia uma quantidade quase infinita de pássaros; S. Francisco ficou maravilhado e disse aos companheiros: ‘Esperai por mim aqui na estrada, pois vou pregar aos meus irmãos pássaros’.” (Florilégio, s/d: 68) “O seu comentário a S. Francisco de Assis dá tudo. Li-lhe uma vez, traduzindo rapidamente, parte das ‘Florinhas’. Não li mais porque ele, indignado ou quase, me interrompeu com incómodo próprio. ‘É bom homem, mas está bêbado’, disse o meu mestre Caeiro. Pareceu- -me isto, no repente, um impulso sem expressão apropriada; mas, logo a seguir, reparei na deliquescência de enternecimento do Santo, na candura da sua alma por trás desse e reconheci a fotografia.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 87) “A força de uma ética julga-se pelo comportamento dos santos” (Umberto Eco, Cinco Escritos Morais, 1997: 95) “Todo o regime de santos terá de ser horrível. Porquê? Porque a natureza humana não é santa.” (D. H. Lawrence, Apocalipse, 1930: 26) “Os factos a que me refiro como sendo graves são de outra ordem. Este, por exemplo: Que se deve abandonar pai e mãe para seguir Cristo. (Não que este seja, também, dos pontos mais em risco de que muita gente o cumpra) Mas repare120
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 se como briga com a moral cristã normal, que recomenda afeição e carinho pelos progenitores.” (Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 248) “Quem amar o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim. (...) Aquele que tenta conservar para si a vida, perdê-la-á.” (Evangelho segundo S. Mateus, 10: 37, 39) “– Por Zeus! – respondeu Meleto – Eu sei de pessoas às quais convenceste a que te obedecessem mais a ti do que aos próprios pais. – Concordo – anuiu Sócrates –. Pelo menos, no que diz respeito à educação, pois sabem que esse é a área pela qual me interessei.” (Xenofonte, Apologia de Sócrates, s/d: 108) “Estava Ele ainda a falar à multidão, quando apareceram Sua mãe e Seus irmãos, que do lado de fora procuravam falar-Lhe. Disse-Lhe alguém: ‘A Tua mãe e os Teus irmãos estão lá fora e querem falar-Te.’ Jesus respondeu ao que Lhe falara: ‘Quem é a Minha mãe e quem são os Meus irmãos?’ E, indicando com a mão os discípulos, acrescentou: ‘Aí estão Minha mãe e Meus irmãos; pois todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe’.“ (Evangelho segundo S. Mateus, 12: 50) “Famílias, eu vos odeio! lares encerrados; portas trancadas; posses ciumentas da felicidade. – Por vezes, invisível na noite, fiquei debruçado sobre uma janela, a observar demoradamente a rotina de uma casa. O pai jazia junto do candeeiro; a mãe cosia; o assento de um ancião permanecia vazio; uma criança, junto do pai, estudava; – e o meu coração encheu-se do desejo de a levar comigo, pelas estradas.” (André Gide, Os Alimentos Terrestres, 1897: 67) “Uma criança que ainda não sabe escrever diz que odeia os pais. E quer escrever isso no papel: que odeia os pais. Sabe algumas letras, mas ainda não sabe escrever. Pergunta à mãe como se escreve o nome dela e o do pai. A mãe diz-lhe, soletra, explica. Depois o menino pergunta como se escreve odeio-vos. A mãe hesita, mas depois soletra, explica, ajuda a desenhar as letras.” (Gonçalo M. Tavares, Short Movies, 2011: 77) 121
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, 1931: 38) “Os próprios gregos da grande Grécia, criadores do Objectivismo, não atingiram o Objectivismo Transcendente do assombroso português, a quem a Fama nada deu, porque ele nada lhe pediu” (Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 63) “Hölderlin e Nietzsche, diferentemente dos seus contemporâneos, não escreviam sobre os Gregos, mas podiam, ocasionalmente, ser eles próprios gregos.” (Roberto Calasso, A Literatura e os Deuses, 2001: 61) “O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. (...) Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, 1931: 42) “A célebre frase ‘o grande Pã morreu’ queria talvez anunciar, não o desaparecimento da idolatria, mas a morte de Cristo – sendo Cristo o grande Pã, o grande Todo. Platão no Crátilo diz que Pã é o ‘logos’. No Timeu ele dá esse nome à Alma do Mundo.” (Simone Weil, Carta a um Homem Religioso, 1951: 29) “Quando e onde morreu a última pessoa que ainda acreditava na existência de Zeus?” (David Markson, Isto não é um Romance, 2001: 162) “Porque também os deuses, pelo menos os poucos que restavam, acabaram por entrar na fila.” (Roberto Juarroz, Poesia Vertical, 1998: 37) “Para Caeiro, objectivista absoluto, os próprios deuses pagãos eram uma deformação do paganismo. Objectivista abstracto, os deuses já eram a mais no seu objectivismo. Ele bem via que eles eram feitos à imagem e semelhança das coisas materiais; mas não eram as coisas materiais, e isso lhe bastava para que nada fossem.” (Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 134) “olhando-me com uma formidável infância” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, 1931: 44) 122
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “Sou um selvagem, uma criança – ou um maníaco; ponho de lado todo o saber, toda a cultura, abstenho-me de ser herdeiro de um outro olhar.” (Roland Barthes, A Câmara Clara, 1980: 77) “Se o homem aprendesse a falar a linguagem original da inocência, não recuperaria assim um estado de inocência dentro de si próprio? Bastaria olharmos para o exemplo de Cristo, argumentava Dark, para compreendermos que assim era. Pois não era Cristo um homem, uma criatura de carne e sangue? E não falava Cristo essa linguagem pré-Queda?” (Paul Auster, Cidade de Vidro, 1985: 54) “Naquele momento, os discípulos aproximaram-se de Jesus, e perguntaram-Lhe: ‘Quem é o maior no reino dos céus?’ Ele chamou um menino, colocou-O no meio deles e disse: ‘Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como a criancinhas, não podereis entrar no reino dos céus. (...) Quem receber um menino como este, em Meu nome, é a Mim que recebe. (...)’” (Evangelho segundo S. Mateus, 18: 1-7) “Jesus viu crianças que mamavam. Disse aos seus discípulos: Estas crianças que mamam são semelhantes aos que entram no Reino. Disseram-lhe: Então, se nos tornarmos crianças entraremos no Reino?” (Evangelho de Tomé, s/d: 86) “O que realmente recebemos daqueles versos é a sensação infantil da vida, com toda a materialidade directa dos conceitos da infância, e toda a espiritualidade vital da esperança e do crescimento, que são do inconsciente, da alma, do corpo, da infância.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 84) “Ao contrário de cientistas menores, que costumavam se perder na matemática, Einstein pensava imagens físicas simples – trens em alta velocidade, elevadores em queda, foguetes e relógios em movimento. Essas imagens mentais o conduziriam, de forma infalível, às maiores ideias do século XX. Ele escreveu: ‘Todas as teorias físicas, apesar de sua expressão matemática, deveriam se prestar a uma descrição tão simples que até uma criança pudesse entender’.” (Michio Kaku, O Cosmos de Einstein, 2004: 34) 123
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “Todos os grandes poetas são simples. E, se são difíceis de compreender, é que a sua simplicidade envolve princípios novos, uma noção nova das coisas” (Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 58) “Primeiro, os olhos azuis de criança que não tem medo” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, 1931: 38) “Sócrates, olhando-nos penetrantemente como era seu costume fazer, sorriu” (Platão, Fédon, s/d: 104) “Toda a coisa que vemos devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. (...) É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, 1931: 41) “O processo de singularização em L. Tolstoi consiste no facto de ele não chamar o objecto pelo seu nome, mas em o descrever como se o visse pela primeira vez” (Victor Chklovski, “A arte como processo”, 1917: 82) “O criador, um dia, procurou companheiros que fossem filhos da sua própria esperança; e eis que surgiu que não os podia encontrar a menos que ele próprio os criasse primeiro.” (Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, III, 1884: 178) “Sinto a ausência de um mestre para as minhas constantes interrogações. Alguém terá de vir.” (Maria Gabriela Llansol, Finita, 1987: 34) “Por mim, antes de conhecer Caeiro, eu era uma máquina nervosa de não fazer coisa nenhuma. (...) Conheci Caeiro em 1914. Já tinha escrito versos (...) E de aí em diante, por mal ou por bem, tenho sido eu.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 74) “Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus, sentado ao telónio, e disse-lhe: “Segue-Me!” E ele levantou-se e seguiu-O.” (Evangelho segundo S. Mateus, 9: 9) 124
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “Caeiro, reconstrutor do Paganismo, ou, melhor, fundador dele no que eterno, trouxe-lhe a matéria de sensibilidade que lhe faltava. E Ricardo Reis encontrou-se o pagão que já era antes de se encontrar. Antes de conhecer Caeiro, Ricardo Reis não escrevera um único verso, e quando conheceu Caeiro tinha já vinte e cinco anos.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 73) “SÓCRATES (...) muito mais bela se torna a ocupação nestas matérias, quando alguém, no uso da arte dialéctica, toma uma alma apta e nela planta e semeia discursos com entendimento – discursos capazes de vir em socorro de si mesmos e de quem os plantou, não improdutivos mas possuidores de gérmen, de que mais discursos nascem em outros temperamentos e podem tornar para sempre essa semente imortal, e assim conceder ao seu detentor o mais alto grau de felicidade que um ser humano pode ter.” (Platão, Fedro, s/d: 125) “Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: ‘Vinde após Mim e Eu farei de vós pescadores de homens.’ E eles, imediatamente, deixaram as redes e seguiram-n’O.” (Evangelho segundo S. Mateus, 4: 18-20) “o efeito em mim foi de receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, 1931: 39) “Para que as armas do nosso ego, ou os nossos próprios brinquedos escondidos sejam tirados das nossas caixas-de-ilusão, das nossas caixas-defantasia, é necessário que as nossas cabeças sejam cortadas, não por nós mesmos, mas por um mestre, ou mestres autênticos. O ego não pode ser cortado pela espada do próprio ego.” (Hôgen Yamahata, Folhas Caem, um Novo Rebento, s/d: 49) “O recém-iniciado (...), o que contemplou largamente as realidades de outrora, quando vê uma face divina ou alguma forma do corpo, que imitam bem a beleza, sente primeiro um estremecimento e invadem-no alguns dos 125
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 pois que desde sempre, é unicamente em virtude da tua natureza que me susténs, ou mais exactamente que me manténs em teu poder.” (Franz Kafka, Carta ao Pai, 1919: 62) “Se o mestre deve ser a oportunidade para despertar a recordação do discípulo, como pode contribuir para que este se recorde, quer dizer, para que saiba a verdade, se um discípulo é a não-verdade? O que o mestre pode então permitir-lhe recordar é que, com efeito, ele é a não-verdade. Mas é precisamente este voltar-se do discípulo sobre si mesmo que o exclui da verdade, mais do que o ignorar, anteriormente, que ele é a não-verdade. Assim o mestre, através deste mesmo despertar da recordação no discípulo, afasta-o de si mesmo, com a única diferença de o discípulo, por este voltar-se sobre si próprio, em vez de descobrir que sabia a verdade, descobrir a sua não-verdade” (Søren Kierkegaard, Migalhas Filosóficas, 1844: 489) “Mau aprendiz, não mereço ser mestre; é árduo o que conheço, e não é meu, nem nunca, nesta estrada, apareceu um fantasma celeste que me desse o mapa da verdade revelada” (António Franco Alexandre, Aracne, 2004: 42) “Não é preciso morrer para se estar morto.” (Marina Tsvietaieva, Meu Irmão Feminino (Carta à Amazona), 1934: 48) “Ao escravo foi dado poder. É mais do que a natureza dele pode suportar.” (Karl Kraus, Os Últimos Dias da Humanidade, 1922: 42) “Quem quiser comandar, medite nestas palavras terríveis antes de decidir se não foi feito, afinal, para obedecer.” (Élie Faure, Nietzsche, 1911: 73) “Que pode um chefe contra um exército de supersticiosos? Deixa-me em paz, disse eu.” (Christa Wolf, Cassandra, 1983: 69) “Depois de engolir, com dificuldade, parte do pão molhado, levantou os olhos para eles. Viu-os tal como eram: limitados, de vidas mesquinhas, sem qualquer esplendor de gestos ou coragem. Mas eram o que eram, partes lentas e inevitáveis do mundo natural. Nobreza não tinham, mas o medo gerava neles compaixão.” (D. H. Lawrence, “O homem que morreu”, 1920: 132-3) 132
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “Pedro disse-Lhe: “Explica-nos esta parábola.” Jesus respondeu-lhes: “Também vós estais ainda sem compreender? (...)”“ (Evangelho segundo S. Mateus, 15: 15-20) “TEET. – Pelos deuses, Sócrates, como me espanto muitíssimo com o facto de ser assim e, por vezes, quando verdadeiramente olho para isso, fico tonto.” (Platão, Teeteto, s/d: 212) “SÓCRATES (saindo de casa, furioso) Pela Respiração! Pelo Caos! Pelo Ar! Nunca vi homem nenhum tão bronco como este, tão azelha, tão desajeitado e tão esquecido. Em pleno aprendizado, dumas coisitas de chacha, pumba: varrem-se-lhe da memória, mesmo antes de as ter aprendido.” (Aristófanes, Nuvens, 423 a.C.: 379) “Primeiro, falei-vos em parábolas e não entendestes. Agora também falo-vos abertamente e não compreendeis.” (Apócrifo de Tiago, s/d: 287) “Ao ouvirem isto, os discípulos caíram por terra, muito assustados.” (Evangelho segundo S. Mateus, 17: 6) “– Senhor: temos medo de pronunciar perante ti um sem número de palavras.” (Actos de Pedro e dos Doze Apóstolos, s/d: 231) “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.” (Fernando Pessoa, carta a Ofélia Queirós, 1920: 361) “Era muito voraz. Devorava os discípulos e depois cuspia só aquela grainhazinha deles, quer dizer, aquela mínima porção que não lhe interessava.” (Ana Hatherly, O Mestre, 1963: 58) “ao Mestre o que serviram foi os olhos da Discípula num prato, num prato de osso” (Ana Hatherly, O Mestre, 1963: 59) “Mais exacto será que os Mestres hoje em dia se parecem com aquele jardineiro que manobrasse uma aperfeiçoada máquina de cortar a relva: os Mestres apontam as lâminas da máquina para as cabeças dos discípulos e passam por cima delas até ficarem todas absolutamente no mesmo nível. As que estiverem acima ou as que estiverem abaixo do nível desejado serão eliminadas ou modificadas: às primeiras 133
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 tira-se-lhes altura, às segundas põe-se-lhes uma altura postiça. O que é preciso é que o relvado fique bem liso para depois os Mestres passearem por cima dele sem o perigo de tropeçarem nas elevações ou caírem nalgum buraco. Mas não são os discípulos que pedem: Cultivai! Cultivai o nosso Jardim! Cultivainos!?” (Ana Hatherly, O Mestre, 1963: 67) “À frente de Plume havia um homem, e quando deixava de fixar o rosto desse homem ele desfazia-se, decompunha-se num esgar e o maxilar caía sem força. Ah! Ah! – pensava Plume. – Ah! Ah! Como a criação por aqui ainda é mole! Mas que responsabilidade a nossa! Preciso de ir para uma terra onde as caras estejam fixadas de uma forma mais definitiva, onde seja possível fixar e desviar olhares sem haver catástrofe.” (Henri Michaux, Um Certo Plume, 1930: 40) “– Sim, sim! disse o comerciante de olhos de vidro – os seus olhos vêse que não são seus, o senhor usa-os muito mal! (...) – Tudo isso são acidentes irrelevantes, retorquiu o comerciante de olhos, com entusiasmo – o senhor não deve insistir neles. O facto importante é que os seus olhos são do seu pai. O senhor precisa de escolher um de dois caminhos: ou se transforma realmente no seu pai, ou adquire novos e propriamente seus, olhos de vidro. A escolha é inteiramente sua, meu amigo. Não pense nem por um momento que lhe desejo vender olhos novos. Além disso o desajuste é mínimo e só eu com a minha longa experiência de olhos de vidro posso notar e impressionar-me com tal facto…” (E. M. de Melo e Castro, Antologia para Inici-antes, 2003: 200) “Não nos tornamos nós professores por não termos conseguido deixar a escola?” (Antoine Compagnon, Para que Serve a Literatura?, 2007: 9) “No final, um verdadeiro Mestre deve estar só.” (George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 88) 134
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “os verdadeiros discípulos do grande artista não são os seus imitadores, mas os que se tornam semelhantes às suas obras, os que conseguem recriarse tão plásticos como na Grécia antiga” (Oscar Wilde, O Declínio da Mentira, 1889: 46-7) “Discípulo, como comovidamente sou, do meu mestre Caeiro, sou discípulo com inteligência, e portanto com crítica. Nem ele quereria ser seguido de outra maneira, pois não gostava de animais.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 67) “Frederico N. está próximo de mim (...) Ele diz: Mas não escrevo o que ele diz.” (Maria Gabriela Llansol, Finita, 1987: 66-7) “Não volteis ao que haveis vomitado para comê-lo.” (Evangelho da Verdade, s/d: 154) “DADA duvida de tudo. Dada é tatu. Tudo é Dada. Desconfiem de Dada.” (Tristan Tzara, “Dada manifesto sobre o amor débil e o amor amargo”, 1924: 41) “FILHA: (...) agora prefiro jogar este jogo. Só que não sei que tipo de jogo é este. Nem que regras tem. PAI: E mesmo assim estamos a jogá-lo há já bastante tempo.” (Gregory Bateson, Metadiálogos, 1972: 34) “ninguém tem a certeza de continuar até ao fim na graça de Deus.” (Florilégio, s/d: 30) “Será que estas coisas te parecem agradáveis, Teeteto, e quando as provas, te satisfazem? TEET. – Eu cá não sei, Sócrates, pois de ti não sou capaz de perceber se as dizes por achares que são assim, ou me estás a pôr à prova.” (Platão, Teeteto, s/d: 215) “Desorientou-me, primeiro, este homem que cantava alegremente coisas que, acreditadas ou supostas, não dão senão pena ou horror a todos” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 83) 135
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “’Isso é um bocado confuso para mim’ hesitou Caeiro” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 60) “’(...) A pedra é só pedra.’ ‘E o que quer isso dizer?’ ‘Não sei (...)’” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 61-2) “’V. sabe, Caeiro’, disse o F. reflectivamente: ‘v. está a elaborar uma filosofia um tanto ou quanto contrária ao que v. pensa e sente. (...)’” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 62) “Jesus já não era livre; pertencia ao seu papel, e de certa maneira à humanidade. Poderia dizer-se que algumas vezes se perturbava a sua razão. Tinha uma espécie de agonias e agitações interiores. Causava-lhe vertigens a grande visão do reino de Deus, que continuamente flamejava diante dos seus olhos. Por momentos os seus amigos julgaram-no louco. (...) Os seus discípulos às vezes nem o compreendiam já; e tinham na presença dele uma espécie de sentimento de receio.” (Ernest Renan, Vida de Jesus, 1863: 288-9) “– Não tenha medo, disse ele sorrindo, não tenha medo de meu silêncio... Sou um louco mas guiado dentro de mim por uma espécie de grande sábio...” (Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, 1969: 60) “Alguns Mestres destruíram os seus discípulos (...) Em contrapartida, alguns discípulos, pupilos, aprendizes subverteram, traíram e arruinaram os seus Mestres.” (George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 11) “CLAIRE Adiante. Passemos o prelúdio. Aos insultos. SOLANGE A senhora encanta-me. Nunca serei capaz. CLAIRE 136
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 Insultos, disse eu. Não pensa que me mandou pôr este vestido para me ouvir a cantar a minha beleza. Cubra-me de ódio! De insultos! De escarros!” (Jean Genet, As Criadas, 1968: 99) “E, pela primeira vez na minha inocente e recatada vida, senti em mim uma potencialidade para a corrupção que me cortou a respiração.” (Angela Carter, O Quarto dos Horrores, 1979: 15) “Talvez uma fotografia nos diga tudo: Mestre e discípulo passeiam no campo, em 1921. De chapéu de aba larga e bengala, Husserl é a imagem do Herr Ordinarius envelhecido, a sua ascendência judia quase indisfarçável. De braços firmemente cruzados, em traje de montanhês da Floresta Negra, o jovem Assistent parece absorvido num qualquer imperioso monólogo. Heidegger não olha para Husserl, que se inclina muito ligeiramente na direcção dele.” (George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 73) “Não, não aceitei nunca o critério de Caeiro sobre” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 68) “Assim, nunca aceitei aquele critério que há em Caeiro” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 67) “culpo-o, e severamente o culpo (como severamente, em pessoa, o culpei)” (Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 153) “No exterior, toda essa educação produziu um primeiro efeito: comecei a fugir de tudo o que, mesmo de longe, pudesse fazer-me pensar em ti.” (Franz Kafka, Carta ao Pai, 1919: 30) “Meu mestre e meu guia! A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou, Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente, Natural como um dia mostrando tudo, Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade. Meu coração não aprendeu nada. (...) Porque é que me chamaste para o alto dos montes Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar? 137
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 (...) Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, poema sem título, iniciado pelo verso “Mestre, meu mestre querido!”, 1928: 2467) “E quando se restitui a vista ao cego, ele vê na terra demasiadas coisas mas maldiz aquele que o curou.” (Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, II, 1883: 153) “voltou a dar saúde a um doente: // que se enforcou depois com o próprio cinto.” (Ulla Hahn, Fogo de Alegria, 1985: 121) “Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes: “Quanto me dareis se eu vo-Lo entregar?”“ (Evangelho segundo S. Mateus, 26: 14-5) “Amanhã ou depois de amanhã vou perguntar-lhe com que é que sonhou hoje, domingo, exactamente à uma e um quarto da madrugada. Eu sonhei consigo morto.” (Marina Tsvietaieva, “Noites Florentinas”, 1933: 62) “E ela olhou-o de novo e viu que não era o Messias. O Messias não se erguera. (...) O homem erguido era a morte do seu sonho.” (D. H. Lawrence, “O homem que morreu”, 1920: 138) “Nos ‘Poemas Inconjuntos’ há cansaço, e portanto diferença. Caeiro é Caeiro, mas Caeiro doente. Nem sempre doente, mas às vezes doente. Inédito mas um pouco alheado.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, 1997: 70) “Agora, pelo contrário, se a minha idade continuar a prolongar-se, sei que será necessário que sofra as consequências da velhice: ver pior, ouvir menos, ser mais lento a aprender e mais esquecido do que aprendi.” (Xenofonte, Apologia de Sócrates, s/d: 102-3) “Depois disso, nada igualou a paz e a serenidade dos seus últimos dias, tanto mais que, por especial e extraordinária concessão do eleitor, foi o cárcere onde se encontrava aberto de modo a permitir que os muitos 138
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 amigos que tinha na cidade o visitassem livremente de dia ou de noite.” (Heinrich von Kleist, Michael Kohlhaas, o Rebelde, 1885: 148) “Depois, quando os companheiros quiseram tirá-lo da cadeia às escondidas, não o consentiu, e até pareceu zombar deles ao perguntar-lhes se conheciam algum lugar fora da Ática que não estivesse ao alcance da morte.” (Xenofonte, Apologia de Sócrates, s/d: 109) “– Mas onde encontraremos, Sócrates – replicou ele –, um virtuoso esconjurador de tais medos, posto tu nos vais deixar? – (...) é preciso procurar também entre vós, pois talvez não encontreis homem mais hábil para pronunciar esses esconjuros do que vós.” (Platão, Fédon, s/d: 83) “Chamaram-no os Deuses, ainda tão novo” (Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 146) “E quanto às circunstâncias da sua morte, Fédon? Que se disse e que se fez? E quais dos seus fiéis amigos estiveram a seu lado?” (Platão, Fédon, s/d: 31) “Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.” (Evangelho segundo S. Mateus, 26: 56) “era como se ficássemos privados de um pai e vivêssemos como órfãos o resto da nossa vida.” (Platão, Fédon, s/d: 168) “Bem, eu experimentei estranhas emoções ao encontrar-me ali. Não me invadiu um sentimento de piedade como poderia naturalmente ter ao assistir à morte de um amigo íntimo; pois ele parecia-me um homem feliz, Equécrates: feliz tanto pelo procedimento como pelas suas palavras, indo ao encontro da morte com tanta coragem e serenidade.” (Platão, Fédon, s/d: 32-3) “Nunca vi triste o meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria possível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa da morte ou de como ele a teve.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, 1931: 46) “EQUÉCRATES – Quem eram, Fédon, os que estavam presentes? 139
Pedro Eiras Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 FÉDON – Dos Atenienses estavam esse Apolodoro, Critóbulo e seu pai, e também Hermógenes, Epígenes, Ésquines e Antístenes; também estava Ctesipo, o de Peanea e Menéxeno e mais alguns atenienses. Platão, julgo que estava doente.” (Platão, Fédon, s/d: 33) “Nenhum dos discípulos estava então ao pé de Jesus.” (Ernest Renan, Vida de Jesus, 1863: 379) “João, contudo, declara ter estado presente e ter permanecido sempre ao pé junto da cruz.” (Ernest Renan, Vida de Jesus, 1863: 382) “Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida – das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias – que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim. Eu estava em Inglaterra. O próprio Ricardo Reis não estava em Lisboa; estava de volta no Brasil. Estava o Fernando Pessoa, mas é como se não estivesse.” (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, 1931: 46) “No momento da morte de Edmund Husserl, em Abril de 1938, Heidegger ‘estava doente de cama.’ De modo chocante, no seu protocolo de desnazificação, de 1945, Heidegger exprime remorsos por não ter enviado à viúva uma carta de condolências.” (George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 74) “– Preparámos apenas, Sócrates – disse – a quantidade que cremos ser conveniente beber. – Compreendo, – respondeu ele – mas ao menos é permitido, e é mesmo um dever dirigir uma prece aos deuses, para o feliz sucesso desta mudança de residência, daqui para o Além. Esta é pois a minha prece: que assim seja!” (Platão, Fédon, s/d: 171) “E até então, a maioria de nós, para guardar as conveniências, tinha sido capaz de conter-se para não chorar, mas quando o vimos beber, já não; as minhas lágrimas corriam em fio, a ponto de tapar a cara para chorar à vontade, por mim, porque não era pelo seu infortúnio, mas pela minha própria desdita, de ficar privado de um tal companheiro!” (Platão, Fédon, s/d: 171-2) “disse estas palavras, as últimas que pronunciou: – Críton, devemos um galo a Asclépio. Paga esta dívida e não te descuides.” (Platão, Fédon, s/d: 172) 140
(…) Nº28 – 6/ 2013 | 117-147 – ISSN 2183-2242 “E assim acaba o mundo E assim acaba o mundo E assim acaba o mundo Não com uma explosão mas com um soluço.” (T. S. Eliot, Os Homens Vazios, 1925: 41) “Como morre um homem? Estranho ninguém reflectiu nisso. (...) Todavia a morte é algo que é feito; como morre um homem? Todavia alguém ganha a sua morte, a sua própria morte, que não pertence a nenhum outro e este jogo é a vida.” (Yorgos Seferis, Diário de Bordo, 1940: 89) “Qual foi o destino que fez perecer Édipo, não há mortal que o saiba dizer, excepto o nobre Teseu. Não foi um raio, portador do fogo divino, a exterminá-lo, ou uma tempestade que então se erguesse do mar. Foi antes um emissário dos deuses; ou os sombrios fundamentos da terra, o reino dos mortos que se abriram diante dele, num acto de benevolência.” (Sófocles, Édipo em Colono, s/d: 141-2) “Alguns doentes tinham passado para uma galeria, sedentos do ar da primavera, e ouviram os patos: – Aonde é que vão? aonde é que vão? (...) – Vamos para onde não há dor nem sofrimento. – Deixem-nos ir convosco! – Este ano, não; este ano, não! – gritou Nils.” (Selma Lagerlöf, A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, 1906: 193) “O que é o “sentido da vida”? É uma coisa que só podemos captar nas vidas dos outros que, por serem objecto de narração, se nos apresentam como consumadas, seladas pela morte.” (Ítalo Calvino, Seis Propostas para o Próximo Milénio, 1990: 157) “de cada vez, e de cada vez singularmente, de cada vez insubstituivelmente, de cada vez infinitamente, a morte é nada menos do que um fim do mundo. Não apenas um fim entre outros, um fim de alguém ou de alguma coisa no mundo, o fim 141