Violência nas relações de namoro juvenis e ideação e comportamentos suicidas
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Violência nas relações de namoro juvenis e ideação e comportamentos suicidas Sara Marques Barros Dissertação de Mestrado em Medicina Legal 2014
Violência nas relações de namoro juvenis e ideação e comportamentos suicidas Sara Marques Barros Dissertação de Mestrado em Medicina Legal 2014
Sara Marques Barros Violência nas relações de namoro juvenis e ideação e comportamentos suicidas Dissertação de Candidatura ao grau de Mestre em Medicina Legal submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto. Orientador – Sónia Caridade Categoria – Professora Doutora Afiliação – Universidade Fernando Pessoa
Aos meus pais e ao meu irmão
“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” (Arthur Schopenhauer)
I Agradecimentos O pequeno espaço que tenho, seguramente não me permite agradecer, como queria e devia, a todas as pessoas que acompanharam este meu percurso. Estas pessoas ajudaram-me direta ou indiretamente a cumprir todos os meus objectivos e a concluir mais uma etapa na minha formação académica. Desta forma, deixo algumas palavras, poucas, mas com muito significado àqueles que me acompanharam nesta longa caminhada. À Professora Doutora Sónia Caridade, expresso o meu profundo agradecimento pela orientação e apoio incondicional que estimularam o meu desejo de querer aprender mais e a vontade constante de querer fazer melhor. Obrigada por todo o encorajamento nos momentos menos bons e por toda a paixão e sabedoria que demonstra pelo tema. À Professora Doutora Maria José Pinto da Costa, agradeço a oportunidade e o privilégio que tive em frequentar este Mestrado que muito contribuiu para o enriquecimento da minha formação académica e científica. Aos meus pais, um enorme obrigado por acreditarem sempre em mim e naquilo que faço. Espero sinceramente que o final desta etapa, de alguma forma, retribua e compense todo o carinho, apoio e dedicação que, constantemente me ofereceram. Ao meu irmão do mundo, o meu mais sincero agradecimento por estar sempre do meu lado nos momentos menos bons e que sempre transmitiu confiança e força para que nunca desistisse. Para mim, és e serás sempre o meu maior orgulho e espero que com mais uma nova etapa concluída na minha vida seja o teu maior orgulho também. À Sara Beça, um agradecimento especial por toda amizade e por todo o
II caminho que traçamos juntas há cinco anos. Obrigado também por todos os momentos de divertimento, partilha de desabafos ao telemóvel e ao mesmo tempo de apoio que me proporcionaste. À Sofia Caetano, pela preocupação e carinho demonstrados durante o meu percurso académico e por todos os momentos de boa disposição. À Ana Couto, pelos momentos de boa disposição, de longas conversas, das nossas saídas e pela amizade sincera que nos une há anos. À Rita Coimbra, por todas as vezes que me motivou e me apoiou para agarrar esta investigação com a maior força do Mundo e por todos os momentos de descontração proporcionados. A Deus por me ter dado forças quando eu pensava que elas não existiam para poder continuar esta longa caminhada. À Pintas e à Pintas Júnior por todos os momentos de brincadeira e alegria. A toda a minha família e amigos que de um modo especial estiveram sempre do meu lado. E a todos aqueles que nesta importante fase da minha vida tropeçaram no meu trilho!
III Resumo A violência nas relações de namoro e o suicídio têm sido identificados como problemas sociais que interferem com o normal desenvolvimento de muitos jovens. Pese embora o conhecimento que dispomos actualmente acerca da prevalência do fenómeno da violência nas relações íntimas juvenis, são escassos ou mesmo inexistentes, estudos portugueses que procurem analisar a associação entre este tipo de abuso íntimo e o suicídio em jovens. O presente estudo procura assim colmatar, em parte, esta lacuna da investigação ao analisar a relação entre a violência ocorrida nas relações íntimas juvenis e a ocorrência de ideação e comportamentos suicidas. Para tal recorreu-se a dois questionários de autorrelato, a Escala Tática de Conflitos (CTS-2) para avaliar a prevalência de diferentes tipos de abuso íntimo e o Inventário de Ideação e Comportamentos Suicidas, os quais foram disponibilizados numa plataforma online – Google Docs . A amostra do estudo é constituída por 262 jovens (24.8% do sexo masculino; 75.2% do sexo feminino), cuja média de idades é de 23.7 (D.P. = 4.14), que admitiram estar envolvidos numa relação de namoro no último ano e terem mais de 16 anos de idade. Os resultados revelaram que em termos de perpetração (51.1%) e vitimação (45.4%), o abuso psicológico assume maior preponderância sobre todos os outros tipos de abuso, seguindo-se a coerção sexual, tanto na perpetração (22.5%) como na vitimação (24.4%),o abuso físico sem sequelas (17.9% perpetração e 16% vitimação) e por fim o abuso físico com sequelas (3.4% perpetração e 3.4% vitimação). As únicas diferenças de sexo encontradas situam-se ao nível da coerção sexual, em que os rapazes assumem recorrer maioritariamente a este tipo de abuso (45.8%), mas também se identificam como sendo as principais vítimas (32.3%). As análises de associação revelam, em termos
X Índice de Anexos Anexo 1. Escala de Táticas do Conflito Revisada (CTS2)..................................74 Anexo 2. Escala de Ideação e Comportamentos Suicidas................................79
XI Índice de Siglas APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima CTS2 - Revised Conflict Tatic Scale ECCV - Escala de Crenças da Criança sobre a Violência IVC-2 - Inventário de Violência Conjugal MP – Ministério Público SANI - Escala de Sinalização do Ambiente Natural Infantil UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta VC – Violência Conjugal VD – Violência Doméstica VRI - Violência nas Relações de Intimidade
1 Introdução O fenómeno da violência nas relações de namoro não é uma problemática recente (Caridade, 2011). O estudo da violência íntima em concreto iniciou-se com o estudo da violência conjugal e dos maus-tratos a menores (Lewis & Fremouw, 2001), desvalorizando-se outros possíveis contextos de ocorrência da violência, como o caso da violência nas relações juvenis de intimidade (Caridade, 2011). A investigação científica realizada nesta área assumiu maior destaque na década de 60, sendo que em território nacional a violência nas relações íntimas juvenis assume maior visibilidade a partir da década de 90 (Caridade, 2011). Atualmente o estudo da violência nas relações de namoro juvenis encontram-se amplamente disseminadas, contudo o investimento científico nesta área tem-se cingido apenas à caracterização da extensão do fenómeno e da identificação dos fatores preditores do fenómeno, deixando de parte estudos que abordem esta temática numa vertente mais fenomenológica (Caridade, 2011). Neste sentido, uma das áreas que ainda não foi explorada em Portugal foi a ideação e os comportamentos suicidas associados à violência nas relações íntimas juvenis. A nível internacional, existem vários estudos neste âmbito (e.g., Bossarte, Simon, & Swahn, 2008; Buttar, Clements-Nolle, Haas & Rees, 2013; Roberts, Klein & Fisher, 2003), havendo mesmo já um estudo intercultural sobre esta matéria conduzido pela equipa de investigação dirigida por Murray Straus, uma autor de referência no estudo deste fenómeno (Chan, Straus, Brownridge, Tiwari & Leung, 2008). De uma forma geral, a grande maioria dos estudos vem confirmar que a ideação e os comportamentos suicidas estão positivamente associados à experienciação de violência nas relações íntimas juvenis. Segundo Borges e Werlang (2006),
2 evidenciam que a fase da adolescência é muito intensa em termos de conflitos e mudanças o que pode levar o adolescente a recorrer a comportamentos agressivos numa tentativa de solucionar os seus problemas. Em território nacional, e pese embora comecemos a assistir a um franco desenvolvimento e progresso da investigação sobre a violência nos relacionamentos íntimos juvenis, não se conhecem ainda estudos que procurem explorar a relação entre a ocorrência de violência nas relações de namoro e a ideação e os comportamentos suicidas. O presente estudo pretende assim dar um contributo útil na investigação neste âmbito ao explorar a relação entre violência no namoro e ideação e comportamentos suicidas, com vista a auxiliar as políticas de prevenção e intervenção neste domínio. Esta dissertação está organizada dois capítulos distintos: um referente ao enquadramento teórico da temática em estudo e outro ao estudo empírico. No primeiro capítulo será feita uma breve reflexão sobre as relações de namoro na adolescência e só depois avançamos para a violência no namoro começando pelo enquadramento concetual e legal do fenómeno, dando a conhecer também alguns dos estudos de prevalência, quer nacionais quer internacionais, os fatores de risco sobre a violência no namoro, o impacto e as consequências provenientes da temática em estudo e por fim abordamos as questões da ideação e dos comportamentos suicidas associados à violência nas relações íntimas juvenis. No segundo capítulo será feita uma descrição do estudo, expondo os objetivos, o método (amostra, instrumentos, procedimentos e análise de dados), os resultados obtidos e a discussão dos mesmos. Terminámos este capítulo tecendo algumas notas conclusivas acerca das potencialidades e limites do presente estudo, procurando ainda extrair pistas para a investigação futura neste domínio.
3 Capítulo I – Enquadramento teórico 1. As relações de namoro na adolescência A adolescência constitui, segundo White (2009), uma fase em que os jovens procuram obter a sua independência em relação aos seus pais e em que se verifica um deslocar das ligações para o grupo de pares. Esta necessidade de estabelecer novas relações fora do contexto familiar parece estar sobretudo associada ao aumento da importância da sexualidade e da formação da sua identidade. E ainda segundo este autor, constitui também um período em que se estabelecem as primeiras relações amorosas e se verifica um maior investimento nas experiências relacionais, assistindo-se ainda a um desenvolvimento de certos valores e as crenças que permitem ao adolescente criar novas relações com indivíduos de ambos os sexos (White, 2009). A adolescência é, pois, um período que impõe constantes desafios para o indivíduo, tratando-se por isto mesmo de uma fase desenvolvimental propícia para o envolvimento em comportamentos de risco, ainda que possa constituir também um período de exploração e experimentação (Saavedra, 2010). O período de namoro carateriza-se por se estabelecer uma relação entre duas pessoas em que há partilha emocional, romântica e/ou sexual que ultrapassa o campo da amizade, sem que se verifique contudo uma formalização do vínculo (Murray & Kardatzke, 2007). A adolescência tem início na puberdade, com o aparecimento de algumas alterações biológicas que anunciam a maturação, e prolonga-se até à idade adulta, onde se espera uma identidade já estabelecida (Sampaio, 1991). Tratase de uma fase crítica em relação às mudanças e aos conflitos de papéis,
4 constituindo igualmente um período de grandes transições e mudanças importantes para o desenvolvimento dos jovens e em que os adolescentes apostam nas relações fora do contexto familiar com objetivo de encontrar a sua autonomia e afirmarem a sua identidade e personalidade (Caridade & Machado, 2006; Duarte & Lima, 2006). Na adolescência, o jovem procura obter respostas na sociedade estabelecendo relações, procurando obter experiências sociais e sexuais e envolver-se em esforços educativos e de trabalho, no sentido de perceber o que é aceitavél para o seu consciente e para os seus ideias (Laufer, 2000). É na adolescência que os jovens começam a desenvolver um pensamento mais elaborado conseguindo deste modo distinguir as suas opiniões das opiniões dos que os rodeiam; já são capazes de se questionarem sobre si próprios e sobre os outros (Bradley, 2003). É nesta fase também que os jovens escondem as experiências dos pais, nomeadamente, a primeira relação sexual, o primeiro beijo, o primeiro cigarro ou a primeira experiência com drogas, no entanto em situações de aflição o jovem tende a dar inconscientemente sinais aos adultos (Rodrigues & Machado, 2002). Alguns autores salientam que na adolescência são mais evidentes as diferenças entre os papéis de género, sendo nesta fase aceitável por parte dos jovens a violência como um ato de amor ou um comportamento “admissível” em certos casos. Em alguns casos, ainda é frequente associar o amor ao sofrimento, associação esta de extrema preocupação (Black & Weiz, 2003). Por isto mesmo, o estudo da prevalência da violência no namoro durante a adolescência tem sido alvo de vários estudos, que apresentaremos mais à frente.
5 2. Violência no namoro 2.1. Enquadramento concetual e legal da violência no namoro Segundo a APAV (2011), a violência no namoro consiste num “ato de violência, pontual ou contínua, cometida por um dos parceiros (ou por ambos) numa relação de namoro, com o objetivo de controlar, dominar e ter mais poder do que outra pessoa envolvida na relação”. Não obstante, o conceito de violência no namoro tende a diferir de autor para autor, o que se traduz numa disparidade de dados em termos de prevalência. Apesar do número de investigações realizadas nesta área ser considerável, Caridade e Machado (2013) defendem que há um menor investimento em abordagens teóricas explicativas da violência no namoro. Durante muito tempo, a violência na intimidade em geral era legitimada pelos povos e só recentemente assistimos a um proliferar da consciencialização social e científica para a dimensão e impacto do fenómeno. Primeiramente, a comunidade científica dedicou-se ao estudo da violência exercida no contexto marital apercebendo-se posteriormente que existiam outras dimensões de violência e outros contextos relacionais, como é o caso da violência no namoro (Caridade, 2011) que estariam a descoberto e que justificavam uma maior investimento científico. O fenómeno da violência na intimidade juvenil era desconhecido, não por não existir, mas sim por vergonha de admitir e também por considerarem os comportamentos abusivos como uma manifestação de amor e/ou ciúmes. Efetivamente, vários trabalhos produzidos (e.g., Barroso, 2007; Caridade & Machado, 2006; Duarte & Lima, 2006) neste âmbito têm vindo a demonstrar que os jovens, perante situações de violência nas relações amorosas tendem para uma certa legitimação deste
6 tipo de abuso. Só a partir da década de 60 é que este fenómeno da violência, começa a tomar novos rumos e é encarado como um problema social específico, apesar desta prática ser transversal a todas as épocas (Caridade & Machado, 2006). De acordo com O’Keefe (2005), a violência no namoro surgiu como um problema de saúde pública e social. Para Manita, Ribeiro e Peixoto (2009), a noção de violência nas relações de intimidade (VRI) adquiriu novas proporções no sentido de alargar os conceitos de Violência Doméstica (VD) e de Violência Conjugal (VC), de modo a abranger a violência existente entre parceiros envolvidos em diferentes tipos de relacionamentos íntimos que não a conjugalidade (e.g., violência entre namorados, violência entre casais homossexuais). Nos dias de hoje, a violência no namoro é um conceito cada vez mais compreendido e enraizado na sociedade. Esta temática tem sido reconhecida como um problema social que abrange jovens de diferentes níveis formativos, socioeconómicos e raciais e tem atingido patamares muito preocupantes e alarmantes (Caridade, 2013). A evidência empírica qualifica a violência nas relações de intimidade como um fenómeno à escala mundial e transversal a todos os tipos de relacionamentos amorosos (Caridade, 2013; Lehrer, Leher, & Zhao, 2010). A violência no namoro ocorre em contexto íntimo ou romântico podendo expressar-se numa relação entre adolescentes ou entre jovens adultos. Este tipo de violência pode começar durante a adolescência e pode estender-se até à idade adulta (Teten, Ball, Valle, Noonan, & Rosenbluth, 2009). O código penal português comtempla o crime de violência no namoro, que se integra no quadro legal da violência doméstica, no artigo 152º, número 1, alínea b) conforme se pode verificar: "Quem, de modo reiterado ou não,
7 infligir maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais a pessoa de outro ou do mesmo sexo com quem o agente mantenha ou tenha mantido uma relação de namoro ou uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação. " A violência no namoro ao integrar o tipo legal violência doméstica constitui um crime público, sendo que nestes casos o procedimento criminal instaura-se, desenvolve-se e conclui-se com a intervenção autónoma do titular público da ação penal (Dias, 2004). Nos crimes públicos, logo que o Ministério Público (MP) tenha conhecimento da ocorrência, este procede ao início do inquérito, dando início à investigação dos factos. Deste modo, sendo o crime de violência doméstica de natureza pública, a vítima mesmo que queira desisitir do procedimento criminal, legalmente o MP é obrigado a dar seguimento ao inquérito (Manita et al ., 2009). 2.2. Estudos de prevalência: internacionais e nacionais Os estudos realizados na área da violência na intimidade juvenil tendem a focalizar a atenção apenas na violência física. Deste modo, o interesse empírico pela agressão psicológica é escasso e por esta razão o fenómeno da violência no namoro apresenta um viés na investigação (Jackson, 1999). Mais recentemente têm sido desenvolvidos estudos mais centrados na agressão psicológica na intimidade juvenil concluindo-se que este tipo de agressão é um percursor do abuso físico (Hydén, 1995). De igual modo e apesar da agressão de carácter sexual ser frequentemente marginalizada nos discursos sociais e educativos, trata-se de um tipo de agressão que tem recebido
8 atenção por parte da comunidade científica, comprovando-se a sua ocorrência nas relações de namoro (Caridade, 2011). A violência no namoro comporta três grandes tipos de violência: física, psicológica e sexual. A APAV (2011), acrescenta a estes três tipos de violência a violência verbal e a violência social. A violência física implica o uso de força física como por exemplo empurrar; agarrar ou prender; atirar objetos; dar bofetadas, pontapés e/ou murros e ameaçar usar a força física ou agressão de forma a magoar e marcar a vítima. A violência psicológica está intimamente ligada ao uso de ameaças e agressões verbais. Este tipo de violência é o mais difícil de detetar pois não deixa marcas visíveis a olho nu. É um tipo de violência em que o ofensor parte ou estraga os teus objetos ou roupa; controla a tua maneira de vestir; controla o que fazes nos tempos livres e ao longo do dia; te liga constantemente ou envia mensagens e ameaça terminar a relação como estratégia de manipulação. No que diz respeito à violência sexual esta caracteriza-se sobretudo pela prática de atos sexuais ou forçados, ou seja, o agressor obriga a vítima a ter relações sexuais com este contra a sua vontade. Trata-se de um tipo de violência que deixa sequelas físicas e psicológicas na vítima (Redondo, Pimentel, & Correia, 2012). Este último tipo de violência está previsto no artigo 164º (Violação) do Código Penal Português. Como já foi referido, a APAV (2011), apresenta mais dois tipos de violência presentes nas relações de namoro: verbal e social. Estamos perante violência verbal quando o(a) namorado(a) chama nomes e/ou grita; humilha, através de comentários negativos e quando intimida e ameaça. A violência social está implícita quando o(a) namorado(a) humilha, envergonha ou tenta denegrir a tua imagem em público, especialmente junto dos teus familiares e amigos; mexe, sem o teu consentimento, no teu telemóvel, nas tuas contas de
15 contando para tal com uma amostra de 227 participantes do ensino universitário com uma média de idades de 24 anos. Em termos de resultados obtidos, as autoras constataram que nas relações presentes, 52% dos participantes admitiram ter adotado comportamentos agressivos, pelo menos uma vez, para com o seu companheiro(a) amoroso(a) e 42% reconheceram ter sido vítimas de pelo menos um ato abusivo. Nas relações passadas, verificaram que 33% dos participantes já teriam praticado pelo menos um ato abusivo e 41% reconheceu ter sido vítima, de pelo menos um ato abusivo, por parte do seu companheiro(a) amoroso(a). No que respeita às diferenças de género, este estudo comprovou que os rapazes usam mais a violência nos seus relacionamentos íntimos presentes (27.8%), mas também surgem como os mais vitimados (23.9%), relativamente às mulheres (21%). A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima desenvolveu o projeto IUNO II durante o ano letivo de 2005/2006, contando com 11 escolas dos concelhos do Porto, Matosinhos, Santo Tirso, Paredes, Paços de Ferreira, Vila do Conde e Vila Nova de Gaia. Este projeto envolveu uma amostra de 578 participantes do ensino secundário, com idades compreendidas entre os 14 e os 21 anos. Este estudo apurou que a agressão emocional e verbal pontual variaram entre 7.1% - 31.9%, enquanto que os relatos de vitimação emocional e verbal pontual variaram entre os 4.7% - 29.6%. Nos casos em que a agressão emocional e verbal era continuada, as percentagens variaram entre os 1.0% - 28.5%, sendo que nos casos de vitimação continuada os valores oscilaram entre os 6.1% - 33.9%. Relativamente à agressão física, os casos de agressão pontual variaram entre os 2.6% - 7.2% e os relatos de vitimação variaram entre os 2.6% - 8.5%. Nas situações de agressão física continuada as percentagens oscilaram entre os 0.2% - 2.8% enquanto que, nos casos de vitimação continuada os valores variaram entre os 0.8% - 4.8%. No que diz respeito ao comportamento
16 ameaçador, os relatos de agressão pontual, apontaram para valores entre os 2.6% - 4.9% sendo que, os relatos de vitimação pontual se situaram entre os 1.2% - 7.1%. O abuso relacional integrou o projecto IUNO II sendo considerado uma forma de violência social na sua natureza (APAV, 2006). Os relatos de agressão relacional pontual oscilaram entre os 1.4% - 2.6%, enquanto que os relatos de vitimação relacional pontual variaram entre os 3.3% e os 4.6%. No que concerne aos relatos de perpetração continuada os valores variaram entre os 0.6% - 2.2% e nos casos de vitimação continuada oscilaram entre os 2.0% - 6.8%. Este projeto verificou ainda que, as raparigas assumiram mais frequentemente serem agressoras nos casos de agressão emocional e verbal, agressão física e comportamento ameaçador. Em relação ao abuso relacional, as diferenças de género não foram relevantes (APAV, 2006). Costa e Sani (2007) desenvolveram um estudo procurando demonstrar a prevalência, frequência e severidade dos vários tipos de abuso em termos de perpetração e vitimação. A aplicação do Revised Conflict Tatic Scale (CTS2) foi feita a uma amostra de 345 participantes do ensino universitário com idades compreendidas entre os 18 e os 40 anos de idade. Tendo em conta a perpetração o estudo concluiu predominância da agressão psicológica (69% dos casos), depois do abuso físico sem sequelas (28% dos casos), seguindo-se a coerção sexual (19.8% dos casos) e por fim o abuso físico com sequelas (5.6% dos casos). De acordo com o padrão de vitimação, a violência psicológica (61.4% dos casos) predomina, seguindo-se o abuso físico sem sequelas (26.7% dos casos), depois a coerção sexual (24.4% dos casos) e por fim o abuso físico com sequelas (5.9% dos casos). O estudo desenvolvido por Dixe, Rodrigues, Freire, Rodrigues, Fernandes e Dias (2010), teve como objetivo determinar a prevalência de comportamentos de violência na relação de namoro e comparar as práticas e
17 comportamentos de violência em estudantes do ensino superior consoante o sexo. Dos 240 estudantes do ensino superior questionados, 29 eram do sexo masculino, 208 do sexo feminino e 3 não revelaram o sexo. Decorrente do estudo, 9.1% dos inquiridos afirmaram ter sofrido violência na relação de namoro, sendo que 1.3% do sexo masculino e 7.9% do sexo feminino. Dos inquiridos, 1.3% dos rapazes e 3.9% das raparigas admitiram ter sofrido violência física e sexual na sua relação de namoro. Tendo em conta a violência psicológica, 1.3% dos rapazes e 3% das raparigas assumiram sofrer este tipo de violência. Importa ainda salientar, que 1.6% dos rapazes e 3.7% das raparigas demonstraram ter sido vítimas de stalking. A União de Mulheres Alternativa e Resposta no ano de 2010 desenvolveu um Projeto intitulado “Mudanças com Arte” por forma a analisar a prevalência da violência física e psicológica nas relações de namoro. Para tal, selecionaram uma amostra constituída por 413 jovens com idades compreendidas entre os 11 e os 18 anos de idade em escolas do 1º, 2º ciclos e secundário. Este estudo constatou que 5% das raparigas e 2% dos rapazes inquiridos já sofreram violência física no namoro, sendo que 25% das raparigas e 24% dos rapazes afirmam ter sido vítimas de violência psicológica no namoro. Neste estudo, a violência psicológica incluir comportamentos tais como: “chamar nomes”, “pegar no telemóvel sem autorização para controle das chamadas e mensagens”, “proibir de estar ou falar com algum amigo”, “proibir de sair sem o namorado/a”, “ameaças”, “proibir vestir alguma peça de roupa”, “obrigar a fazer alguma coisa que o outro não queria e fazê-lo sentir mal por isso”, “humilhar, dizendo coisas que rebaixam”. Neste estudo, as raparigas surgem como sendo o alvo preferencial deste tipo de violência psicológica (UMAR, 2010).
18 Um estudo mais alargado conduzido por Sónia Caridade (2011) junto de jovens envolvidos em relações amorosas, de diferentes graus formativos (desde ensino secundário, profissional e universitário) e provenientes de diferentes zonas geográficas (Norte, centro, sul e ilhas) envolveu uma amostra de 4667 jovens, entre os 13 e os 19 anos de idade. Em termos globais, este estudo apurou que 25.4% dos inquiridos afirmaram ter sido vítimas de pelo menos um acto abusivo no último ano e 30.6% admitiu ter adoptado este tipo de acto em relação ao seu companheiro(a). De forma mais específica, a autora constatou uma preponderância da violência emocional registada em 19.5% dos casos, seguindo-se a violência física (13.4%) e as agressões físicas severas (6.7%). Esta diferenciação é igualmente manifesta no padrão de agressão, em que 22.4% dos participantes admitiram ter recorrido a comportamentos emocionalmente abusivos, 18.1% a violência física e 7.3% a agressões físicas severas (Caridade, 2011). Oliveira (2014), desenvolveu um estudo com o objectivo de aprofundar o conhecimento do fenómeno da transmissão intergeracional da violência, tendo em conta o contexto familiar, as relações de intimidade e as crenças evidenciadas pelos jovens. A amostra contou com 1.476 jovens, com idades compreendidas entre os 15 e os 20 anos, dos distritos de Aveiro, Braga, Bragança, Porto, Viana do Castelo e Vila Real e que frequentavam o ensino secundário e profissional. O estudo utilizou três instrumentos: o Inventário de Violência Conjugal (IVC-2); a Escala de Crenças da Criança sobre a Violência (ECCV) e a Escala de Sinalização do Ambiente Natural Infantil (SANI). O estudo revelou que dos 1.476 participantes, 693 (46.5%) mantinham um relacionamento íntimo atualmente. Analisados os comportamentos dos jovens nos seus relacionamentos constatou-se que 172 indivíduos (24.8%) assumiram ter adotado um qualquer comportamento violento, pelo menos uma vez, para
19 com o seu/sua parceiro/a. Tendo em conta o sexo, 92 (53.5%) raparigas admitem o cometimento de comportamentos violentos e 80 (46.5%) rapazes também o admitiram. Os outros participantes (795) referem que nunca ter exercido qualquer comportamento violento para com o(a) seu/sua parceiro/a nas suas relações de namoro. No que respeita ao padrão de vitimação, 155 participantes (22.4%) referiram já ter sofrido atos abusivos por parte do(a) seu/sua parceiro/a. Os restantes 538 (77.6%) dizem nunca ter sido vítimas de agressões nas relações de namoro atuais. Relativamente à vitimação no presente, verificou-se que 66 (42.9%) eram rapazes e 88 (57.1%) eram raparigas. A passagem em revista da literatura internacional e nacional mostra que a violência nas relações de namoro é uma realidade transversal a jovens de diferentes faixas etárias, podendo assumir diferentes expressões abusivas (desde a violência psicológica, física e sexual). Fundamenta-se assim a importância de procurar perceber quais os factores de risco que surgem frequentemente associados a este fenómeno de modo a poder delinear estratégias de combate desta realidade. 2.3. Fatores de risco sobre violência no namoro A literatura tem vindo a identificar diversos fatores de risco para a ocorrência de violência no namoro e os quais tem sido agrupados em diferentes categorias: familiares, ambientais, sociodemográficos, intrapessoais, interpessoais e situacionais (cf. Caridade, 2011). A violência experienciada no seio familiar é de todos os fatores aqueles que tem sido mais referenciado ao nível da literatura de especialidade
20 (Caridade, 2011). Segundo Wolfe, Wekerle e Scott (1997), testemunhar violência interparental ou ser-se vítima de abuso durante a infância constitui um poderoso fator de risco para o envolvimento numa relação violenta. A investigação realizada na área da transmissão intergeracional de violência tem por base a teoria da aprendizagem social. A teoria da aprendizagem social indica que a observação da violência no seio familiar de origem pode desencadear atitudes, ideias e normas agressivas (Corvo & DeLara, 2010). Esta teoria parte do princípio de que as crianças irão imitar o comportamento demonstrado pelos adultos pois consideram os adultos um modelo a seguir (Bandura, Ross, & Ross, 1961). Deste modo, as crianças inseridas num seio familiar violento podem comprometer o desenvolvimento de relações saudáveis, pois o seu ambiente familiar promove comportamentos violentos, logo reduzidas oportunidades de socialização adequadas com os pares (Wolfe, Wekerle & Scott, 1997). A teoria da modelagem explica a relação existente entre a violência interparental e a violência no namoro. Esta teoria defende que o jovem tende a imitar ou tolerar determinadas práticas sendo assim, o jovem pode entender como correcto o uso da violência para a resolução de problemas (Riggs & O’Leary, 1996). A investigação comprova ainda que o historial de violência no seio familiar tem diferentes implicações nas raparigas e nos rapazes. As raparigas expostas à violência familiar têm maior probabilidade de serem vítimas de violência no namoro enquanto que os rapazes que testemunham a violência interparental têm maior tendência em agredirem as suas namoradas (Straus, 1992; Straus, Kaufman & Kantor, 1994 citado por Rosen, Bartle-Haring, & Stith, 2001) No âmbito dos fatores de risco ambientais inserem-se essencialmente as características dos grupos de pares e a exposição à violência na comunidade (Caridade, 2011). A interação com o grupo de pares é um fator de
21 risco importante porque é a partir daqui que o jovem adquire novas normas, valores e comportamentos relacionais, negativos ou positivos, que são aprendidos através da observação. Como já foi referido anteriormente, o adolescente tende a imitar os comportamentos observados e por isso poderá haver um aumento da probabilidade dos jovens imitarem comportamentos violentos/agressivos e transportá-los para as relações amorosas (Arriaga & Foshee, 2004). Os fatores de risco sociodemográficos têm sido alvo de diversos estudos no âmbito das relações amorosas (Caridade, 2011). Das variáveis sociodemográficas, o género tem sido alvo de maior estudo como variável potenciadora de agressão nas relações de namoro (Archer, 2000). De acordo com O’Keefe (1997), o uso da violência pelo género masculino está associado ao seu “background” individual, enquanto que no género feminino, o uso da violência surge ligado a fatores situacionais, como o conflito relacional e o grau de envolvimento amoroso. O’Keefe e Treister (1998) desenvolveram um estudo, no qual encontraram em função do género diferentes padrões ao nível dos preditores. O género masculino, tendo em conta a variável “infligir violência” surge como a única com potencial preditivo da vitimação. O género feminino tem propensão a experienciar mais violência na sua intimidade quando infligem violência, quando consideram que a violência perpetada pelo sexo masculino é legítima, quando existe grande conflito na sua relação de namoro, quando experienciam maior envolvimento relacional e menor satisfação e quando durante a fase de namoro teve diversos companheiros amorosos. O nível socioeconómico também tem sido alvo de alguns estudos embora os resultados encontrados sejam pouco consistentes (Caridade, 2011). Enquanto que alguns estudos (e.g., Rivera–Rivera, Allen-Leigh, Rodríguez-
22 Ortega, Chávez-Ayala, & Lazcano-Ponce, 2007) sustentam que o nível socioeconómico enquanto fator de risco para violência nas relações de namoro tem uma associação positiva entre a perpetração masculina de violência íntima e níveis socioeconómicos médios e elevados outros estudos (e.g., Castro & Ruíz, 2004) verificaram exatamente o contrário, associando a violência na intimidade a níveis socioeconómicos mais baixos. Ainda tendo em conta o nível socioeconómico baixo, O’Keefe (1997,1998) afirma que as pessoas com estatutos económicos baixos têm tendência a experenciar mais violência nas suas relações íntimas. As famílias mais carências encontram-se mais expostas ao stress tendo em conta situações de desemprego, problemas financeiros e capacidades de coping limitadas e por isso mais propícias à experienciação de violência nas suas relações (O’Keefe, 1997,1998) Como fatores de risco sociodemográficos podemos ainda identificar a idade, as minorias étnicas e a área residencial. Apesar dos diversos estudos realizados no sentido de perceber se existe uma relação entre a idade e a violência nas relações de namoro, estes apontam a idade com sendo uma variável irrelevante (Cyr, McDuff & Wright, 2006; Howard, Qiu, & Boekeloo, 2003; Noland, Liller, McDermott, Coulter, & Seraphine, 2004). Tal como a idade, as minorias étnicas também são pouco coerentes nos resultados. Sendo que alguns estudos apresentam elevados níveis de violência nos jovens afroamericanos em comparação com os caucasianos (e.g., O’Keefe, 1997) e outros estudos dizem precisamente o contrário (Lane & Gwartney-Gibbs, 1985). Por fim, a área residencial (urbana, suburbana ou rural) assume um papel importante na violência no namoro. Os jovens que residem em zonas urbanas apresentam indicadores mais elevados de violência (Lane & Gwartney-Gibbs, 1985). Por outro lado, o estudo de Glass, Fredland, Jacquelyn, Michael, Phyllis
23 e Joan (2003) evidencia que os jovens que vivam em bairros pobres, com elevados níveis de violência e de desorganização social estão mais expostos a relações de namoro violentas. Os fatores de risco intrapessoais foram os primeiros a emergir para explicar a violência na intimidade. Segundo Caridade (2011), as variáveis intrapessoais associadas à vitimação no namoro são: a depressão, os comportamentos suicidas e a baixa autoestima. Um estudo realizado por Roberts, Klein e Fisher (2003), salienta que os sintomas depressivos e os comportamentos suicidas podem ser consequências da violência gerada na intimidade dos jovens. Os jovens que já tentaram o suicídio são mais vulneráveis no sentido de poderem pelo menos vivenciar um ato de violência em contexto íntimo. A baixa autoestima no sexo feminino aumenta a probabilidade desta ser vítima nas suas relações de namoro. Por outro lado, a elevada autoestima no sexo masculino pode levar à vitimação e perpetração de violência psicológica. Deste modo, salienta-se assim que a autoestima está relacionada com a vitimação e com a perpetração (Sharpe & Taylor, 1999). O envolvimento em violência física nas relações de intimidade poderá também estar aliado à conduta antisocial na idade jovem (Roberts, Klein, & Fisher, 2003). Em relação aos fatores de risco psicológicos de ordem interpessoal, atribui-se especial atenção à satisfação relacional, às estratégias de resolução de problemas e às competências de comunicação (Lewis & Fremouw, 2001). Estas variáveis poderão ter impacto no sucesso das relações de namoro (Lewis & Fremouw, 2001). A satisfação relacional configura um efeito bidirecional visto que poderá despoletar a vitimação e/ou perpetração (Lewis & Fremouw, 2001). As investigações evidenciam que a promoção de competências de comunicação poderá reduzir a violência na medida em que a expressão de
24 sentimentos e intenções por ambos os companheiros, poderá diminuir as interpretações erróneas que por vezes podem dar inicio a comportamentos violentos (Avery-Leaf & Cascardi, 2002 citado por Mahlstedt & Welsh, 2005). O controlo interpessoal é um fator da violência no namoro sendo que o sexo feminino apresenta maior tolerância ao controlo, logo mais probabilidades de serem vítimas de violência numa relação amorosa (Follingstad, Rutledge, Polek & McNeill-Hawkins, 1988 citado por Caridade, 2011). Murray e Kardatzke (2007), identificam a dependência, a duração e a seriedade da relação como fatores de risco interpessoais, comprovando-se que que a violência tende a ocorrer sobretudo nas relações de namoro mais sérias e de maior duração. Com o aumento da seriedade e duração da relação, tende a verificar-se um aumento da dependência emocional, os sentimentos de encurralamento e a tolerância por parte da vítima (Murray & Kardatzke, 2007). Por fim, os fatores de risco situacionais têm sido largamente comprovados pela investigação tendo em conta a relação existente entre o consumo de substâncias e a violência nas relações amorosas (Roberts & Klein, 2003). Os primeiros estudos desenvolvidos sustentavam a ideia de que o uso de susbstâncias estava diretamente associado à perpetação da violência pelo sexo masculino (Testa, Livingston, & Leonard, 2003). No entanto, a literatura tem vindo a demonstrar que as mulheres que apresentam elevados consumos de substâncias constituem um grupo de risco para a experienciação de violência íntima (cf. Caridade & Nunes, 2014). Testa, Livingston e Leonard (2003), sustentam que o uso de drogas, por ambos os géneros, poderá provocar um aumento da irritabilidade e da volatilidade na interação social, que por sua vez poderá levar à violência. Alguns autores sustentam que as raparigas que consomem mais álcool têm maior probabilidade de se envolverem em situações de risco, podendo aliar-se
31 dificuldade de aprendizagem, entre outros. Segundo Anderson e Smith (2003), os suicídios na adolescência tiveram um crescimento alarmante e encontram-se classificados como a terceira principal causa de morte entre os 15 e os 24 anos de idade. De acordo com o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (2013), as taxas de suicídio jovem em Portugal não são muito significativas, sendo que neste século a taxa foi sempre inferior a 5 por 100.000. No final da adolescência, a taxa de suicídio e tentativas de suicídio tem maior incidência (Santos & Sampaio, 2013). De acordo com a OMS (2002), nas últimas décadas o suicídio tem vindo a aumentar no seio da população jovem sendo que os jovens são o grupo de maior risco. Bridge, Golstein e Brent (2006), realizaram um estudo em 15 países europeus com jovens entre os 15 e os 24 anos e verificaram que Portugal apresentava as taxas de suicídio mais baixas para homens (5.5%) e mulheres (1.3%). No entanto, entre os 15 e os 29 anos o suicídio era a segunda causa de morte. Segundo Ullman (2004), a grande maioria das tentativas de suicídio no sexo feminino, tendo em conta a vitimização sexual feminina estão associadas a desordens psiquiátricas (70%), à violação sexual (12%) e a abusos (7%). Um estudo realizado por Vieira e seus colaboradores (2008), constatou que a principal razão das tentativas de suicídio, que deram entrada no hospital de emergência, em contexto sociocultural é o amor não correspondido, tendo esse amor uma conotação do afetivo, do namoro, do caso, da primeira entrega; no entanto, não foi só nesse sentido que o “amor não correspondido” foi reportado. Decorrente deste estudo, os indivíduos referiram a fragilidade dos vínculos no relacionamento familiar, as escassas demonstrações de carinho, as ausências do respeito entre os membros da família, a falta de valorização do
32 adolescente, do seu físico e estética como outras razões para terem atentado contra a própria vida (Vieira et al., 2008). Segundo Vieira e seus colaboradores (2008), alguns adolescentes quando tentam o suicídio, a sua verdadeira intenção não é acabar com a sua própria vida mas interromper uma fase de grande sofrimento. Os adolescentes tendem a solucionar o seu sofrimento interno atentando contra a sua própria vida, sem imaginarem as possíveis consequências deste ato, as possibilidades de fracasso como forma de se livrarem da dor psíquica (Vieira et al., 2008). Um estudo conduzido por Chan, Straus, Brownridge, Tiwari e Leung (2008), envolveu 15.927 estudantes universitários de 21 países procurando demonstrar a prevalência da agressão física, da coerção sexual e da ideação suicida entre os estudantes universitários. Este estudo comprovou que, em média, 32% (8–48%) dos estudantes universitários inquiridos admitiram ter tido ideias suicidas. Portugal integrou este estudo, tendo-se constatado que 6.3% dos rapazes e 6.9% das raparigas afirmaram ter ideias suicidas. Do estudo conclui-se ainda que os países (China, Hong Kong, Índia, Israel, Singapura, Austrália, Nova Zelândia, Bélgica, Alemanha, Grécia, Lituânia, Holanda, Portugal, Rússia, Suíça, Suécia, Inglaterra, Brasil, México, Canadá e Estados Unidos da América) com índices de ideação suicida mais elevados do que a média, tiveram taxas de violência no namoro superior à média. Em 2013, Buttar, Clements-Nolle, Haas e Reese desenvolveram um estudo com uma amostra de 305 adolescentes do sexo feminino envolvidos com o sistema de justiça juvenil em Nevada, com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos de idade, de forma a analisar a prevalência da violência no namoro, os problemas psicológicos e as tentativas de suicídio em adolescentes do sexo feminino. Verificaram que 18% das adolescentes já teriam tentado o suicídio com intenção de morrer e que em 40% dos casos a violência no
33 namoro está associada a problemas psicológicos e em 27% dos casos está associada a tentativas de suicídio. Segundo Helman (2003), o suicídio trata-se de uma resposta extrema a fatores de stress psicológico em que o indivíduo não perceciona qualquer resolução para o “seu problema”. Os estudos internacionais comprovam, desta forma, que a ideação e comportamentos suicidas constituem uma das consequências da experienciação de violência no âmbito das relações íntimas. Não obstante, importa referir que há estudos que comprovam que estas variáveis poderão apresentar um efeito bidireccional na violência. A título exemplificativo cita-se o estudo longitudinal desenvolvido por Roberts, Klein e Fisher (2003), o qual sustenta que os sintomas depressivos e os comportamentos suicidas poderão constituir quer percursores quer consequências da violência na intimidade dos jovens. Também Kreiter e colaboradores (1999) evidenciaram que as adolescentes com história de tentativa de suicídio apresentavam mais probabilidades de virem a experienciar pelo menos um acto de violência física na sua relação amorosa, do que as adolescentes sem estes percursores. Assim e face a escassez de estudos neste âmbito desenvolvidos no nosso país, o estudo que a seguir se descreve pretende precisamente colmatar uma lacuna da investigação neste âmbito, ao procurar analisar a relação entre experienciação de violência íntima e a ideação e comportamentos suicidas.
34 Capítulo II Componente Empírica
35 1. Objetivos do estudo O presente estudo tem como principal objetivo analisar a relação/associação entre a violência ocorrida nas relações íntimas juvenis e a ocorrência de ideação e comportamentos suicidas. De forma mais específica, pretende-se: 1. Caracterizar a prevalência de abuso íntimo (físico com e sem sequelas, psicológico e sexual), em termos dos indicadores de perpetração e vitimação; 2. Analisar a relação entre o padrão de agressão e vitimação do abuso íntimo (físico com e sem sequelas, psicológico e sexual) e o sexo dos participantes; 3. Caracterizar a prevalência da ideação e dos comportamentos suicidas; 4. Analisar a relação entre a ideação e os comportamentos suicidas e o sexo dos participantes; 5. Analisar a relação entre a experienciação de diferentes tipos de abuso íntimo e os indicadores de ideação e comportamentos suicidas; 6. Analisar a relação entre a experienciação de diferentes tipos de abuso íntimo, os indicadores de ideação e comportamentos suicidas e o sexo dos participantes. 2. Método A presente investigação contempla um estudo quantitativo de cariz essencialmente exploratório, descritivo e correlacional, baseado no autorrelato, com recurso ao inquérito através da técnica do questionário.
36 2.1. Amostra A investigação no âmbito da violência nas relações íntimas tem vindo a comprovar que esta é uma realidade presente em diferentes faixas etárias, podendo iniciar-se na pré-adolescência, atravessando a adolescência e ir até à idade adulta (Lavoie, Robitaille, & Hébert, 2000). O presente estudo contou com uma amostra final de 262 jovens que admitiram possuir experiência de namoro nos últimos 12 meses e com idades superiores a 16 anos. Dos 262 jovens que participaram no estudo, a grande maioria 197 (75.2%) pertenciam ao sexo feminino e 65 (24.8%) ao sexo masculino (cf. Tabela 1). Tabela 1. Sexo dos participantes (n=262). A idade dos inquiridos encontra-se compreendida entre os 16 e os 39 anos como podemos constatar na tabela 2, sendo que a maioria dos jovens tem 22 anos (21.8%). Cerca de metade da amostra (59.6%) encontra-se na faixa etária dos 16 aos 23 anos, 31.4% na faixa etária entre os 24 e os 29 anos, sendo os restantes 9.3% pertencentes à faixa etária dos 30 aos 39 anos de idade. A média de idades é de 23.7 (D.P. = 4.14) (cf. Tabela 2). Sexo dos participantes Frequência Absoluta (n) Frequência Relativa (%) Masculino 65 24.8 Feminino 197 75.2 Total 262 100
37 Tabela 2. Idade dos participantes (n=262). Idade Frequência Absoluta (n) Frequência Relativa (%) 16 3 1.1 17 7 2.7 18 10 3.8 19 7 2.7 20 17 6.5 21 20 7.6 22 57 21.8 23 35 13.4 24 19 7.3 25 21 8.0 26 12 4.6 27 16 6.1 28 7 2.7 29 7 2.7 30 7 2.7 31 4 1.5 32 4 1.5 34 1 0.4 35 2 0.8 36 1 0.4 37 1 0.4 38 2 0.8 39 2 0.8 Total 262 100
38 Em termos de habilitações literárias dos inquiridos é possível constatarse mediante análise do quadro 3 que a maioria dos jovens é licenciado (50.4%). Uma percentagem considerável dos jovens inquiridos referiu possuir o 12º ano (29.8%), 14.5% o mestrado, 3.4% dos participantes situou a sua escolaridade entre o 4º ano – 9ºano, 1.5% referiu possuir bacharelato e apenas 1 participante se apresentou como sendo doutorado . Tabela 3. Habilitações literárias dos participantes (n=262). Habilitações literárias Frequência absoluta (n) Frequência relativa (%) 4º ano – 9º ano 9 3.4 12º ano 78 29.8 Bacharelato 4 1.5 Licenciatura 132 50.4 Mestrado 38 14.5 Doutoramento 1 0.4 Total 262 100 2.2. Instrumentos A seleção dos instrumentos a utilizar no presente estudo foi efetuada tendo em conta a problemática em estudo, ou seja, focar-se no tópico da violência nas relações íntimas, considerando apenas a população jovem, assim como analisar a relação existente entre o abuso íntimo e a ideação e/ou comportamentos suicidas. Neste sentido, para a realização desta investigação foram utilizados dois intrumentos: Escala de Táticas do Conflito Revisada (CTS2), versão portuguesa do Revised Conflicts Tactic Scale (CTS 2) da autoria de Straus, Hamby, Boney-
39 McCoy e Sugarman (1996) e a qual foi adaptada por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo (2002) (cf. Anexo 1) e a Escala de Ideação e Comportamentos Suicidas, construída para o efeito da presente investigação por Caridade e Barros (2014) (cf. Anexo 2). O CTS-2 permite avaliar a qualidade do relacionamento íntimo e identificar os casais que vivenciam os seguintes diferentes tipos de abuso: a) abuso físico sem sequelas, b) agressão psicológica, c) abuso físico com sequelas e d) coerção sexual. Este questionário permite-nos contabilizar o número de ocorrências durante o último ano por parte do inquirido e pelo/a companheiro/a. Apresenta oito categorias de resposta, sendo as primeiras seis destinadas a determinar a incidência e cronicidade no último ano (1) uma vez no ano anterior, (2) duas vezes no ano anterior, (3) 3-5 vezes no ano anterior, (4) 6-10 vezes no ano anterior, (5) 1120 vezes no ano anterior, (6) mais de 20 vezes no ano anterior e as outras duas categorias destinadas a determinar a prevalência (7) não no ano anterior mas ocorreu anteriormente e a inexistência deste tipo de abuso (8) nunca aconteceu. O instrumento permite ainda determinar diferentes níveis de severidade do abuso, entendido no sentido do risco de sequelas para a vítima, classificando os itens em ‘ligeiro’ ou ‘severo’. Os valores da consistência interna (alpha) para a versão portuguesa da CTS-2 são os seguintes: agressão psicológica é 0.67, abuso físico sem sequelas é 0.74, coerção sexual é 0.40, abuso físico com sequelas é 0.66 (Paiva & Figueiredo, 2006). No presente estudo, foram encontrados valores mais elevados em termos de consistência interna, sendo o alpha para a agressão psicológica de 0.90, 0.81 para o abuso físico sem sequelas,0.56 para a coerção sexual e para 0.61 para o abuso físico com sequelas.. Para avaliar a ideação e comportamentos suicidas, optámos por construir uma Escala para o efeito, dada a inexistência no contexto português
40 de instrumentos de autorrelato específicos para esta população. A elaboração deste instrumento decorreu da revisão da literatura neste domínio e em que primeiramente se procurou gerar itens a partir da definição prévia de categorias gerais. Posteriormente, avançamos para a análise dos diferentes itens através do método de reflexão falada junto de 20 jovens, no sentido de verificar a adequação e compreensão do conteúdo dos diferentes itens . A escala intitulada de Ideação e Comportamentos Suicidas é constituída por quinze afirmações em que o indivíduo terá de responder em que medida nos últimos 12 meses, apresentou algum dos pensamentos e/ou comportamentos suicidas apresentados, tendo por base uma escala de likert de 5 pontos: 1. Nunca; 2. Raramente; 3. Algumas vezes; 4. Muitas vezes; 5. Sempre. A análise da coerência existente nas respostas dos sujeitos aos itens da escala, mediante o coeficiente alfa de Cronbach, evidenciou bons níveis de consistência interna (.81). Os valores da consistência interna (alpha) para o fator 1 relativo a pensamentos suicidas foi de é 0.81 e para os comportamentos suicidas (fator 2) é 0.63. Para analisar a validade de constructo procedemos à análise fatorial aos itens. A análise fatorial com rotação varimax permitiu a extração de dois fatores e os quais explicam 41.4 % da variância total dos resultados. O fator 1 é constituído por 11 itens (1, 2, 3, 4, 5, 7, 10, 12, 13, 14, 15) e explica 31.14% da variância dos resultados e é designado de Pensamentos/Ideação Suicidas; o fator 2 relativo aos Comportamentos Suicidas é constitúdo por 3 itens (8, 9 e 11) que explicam 10.32% da variância dos resultados.
47 3.3. Abuso íntimo e ideação e comportamentos suicidas e sexo dos participantes A tabela 8 apresenta a associação entre o abuso íntimo e a ideação e comportamentos suicidas e em que passaremos de seguida apenas a identificar os resultados com relevância estatística. Assim e tomando em consideração o padrão de agressão, verificámos que o abuso psicológico e o abuso físico sem sequelas apresentam uma asssociação estatisticamente significativa, quer com o total da escala (χ 2 =8.081, p <0.01; χ 2 =6.632, p <0.01, respetivamente) que avalia a ideação suicida e comportamentos suicidas, quer com o fator1 (χ 2 =8.081, p <0.05; χ 2 =6.952, p <0.05, respetivamente) e fator 2 (χ 2 =10.493, p <0.01; χ 2 =7.220, p <0.01, respetivamente). O abuso físico com sequelas surge apenas associado estatisticamente (χ 2 =8.271. p <0.01) com os comportamentos suicidas. No que respeita ao padrão de vitimação, o abuso físico sem sequelas e a coerção sexual revelam uma asssociação estatisticamente significativa com o total da escala (χ 2 =5.583, p <0.05; χ 2 =6.525, p <0.01, respetivamente), a ideação (χ 2 =5.863, p <0.05; χ 2 =5.157, p <0.05, respetivamente) e os comportamentos suicidas (χ 2 =13.648, p <0.01; χ 2 =4.282, p <0.05, respetivamente). Por sua vez, o abuso psicológico e o abuso físico com sequelas apresentam uma associação estatisticamente significativa apenas com os comportamentos suicidas (χ 2 =6.069, p <0.05; χ 2 =8.376, p <0.01, respetivamente) (cf. Tabela 8). Em suma, a experienciação de algum tipo de abuso medido pela Escala Tática de Conflitos, assim como o recurso por parte dos participantes aos diferentes tipos de abuso íntimo apresenta uma relação estatisticamente
48 significativa seja com a ideação e/ou comportamentos suicidas. Quando se considera o sexo dos participantes e o total da escala que avalia a ideação e comportamentos suicidas é possível perceber a existência de uma associação positiva com a perpetração da coerção sexual pelo sexo masculino (χ 2 =7.606, p <0.05), assim como pela vitimação desta forma de abuso pelos rapazes (χ 2 =7.457, p <0.05). Por sua vez, o total da escala apresenta uma associação estatisticamente significativa com a perpetração pelo sexo feminino do abuso psicológico e físico sem sequelas (χ 2 =9.640, p <0.05; χ 2 =4.535, p <0.05, respetivamente). A ideação e os comportamentos suicidas surgem ainda positivamente associados à vitimação feminina do abuso físico sem sequelas (χ 2 =5.307, p <0.05) (cf. Tabela 8). A análise da relação entre o sexo dos participantes e a ideação suicida (fator 1da EICS), permitiu-nos a existência de uma associação estatisticamente significativa entre os pensamentos suicidas e a perpetração e experienciação pelo sexo masculino da coerção sexual (χ 2 =7.606, p <0.05; χ 2 =5.191, p <0.05, respetivamente). Por sua vez, o recurso ao abuso psicológico e físico sem sequelas pelas raparigas surge também positivamente associado à ideação suicida (χ 2 =9.64, p <0.05; χ 2 =4.535, p <0.05, respetivamente). Ao nível do padrão de vitimação, apenas a experienciação pelo sexo feminino do abuso físico sem sequelas revelou uma asssociação estatisticamente significativa com a ideação suicida (χ 2 =5.307, p <0.05). Por fim, quando se considera a relação entre o sexo dos participantes e os comportamentos suicidas (fator 2 da EICS), verificámos que, no caso do sexo masculino, apenas a vitimação da coerção sexual surge positivamente associada com os comportamentos suicidas (χ 2 =5.673, p <0.05). Já no caso do
49 sexo feminino, apenas a perpetração e vitimação da coerção sexual não evidenciam qualquer associação estatisticamente significativa com os comportamentos suicidas (χ 2 =.698, n.s.; χ 2 =1.686, n.s., respetivamente). Em suma, a ideação e/ou comportamentos suicidas apresentados pelo sexo masculino revelam uma associação positiva apenas com a perpetração e/ou vitimação da coerção sexual. Já no caso das raparigas encontramos uma padrão de associações diferente, e em que não se verifica qualquer relação, seja no padrão de agressão, seja no de vitimação, entre a ideação e/ou comportamentos suicidas e a coerção sexual. As associações estatisticamente significativas detetadas situam-se sobretudo entre a ideação e/ou comportamentos suicidas da perpetração e vitimação do abuso psicológico, físico sem sequelas e físico com sequelas.
50 Tabela 8. Associação do abuso íntimo, ideação e comportamentos suicidas (EICS) e sexo dos participantes (Qui-Quadrado). Tipos de abuso íntimo Total EICS Ideação suicida Comportamentos suicidas Total Masc. Fem. Total Masc. Fem. Total Masc. Fem. Perpetração Psicológico 8.081** .156 9.640* 8.081* .156 9.64* 10.493** 1.073 9.440* Físico sem sequelas 6.632** 2.086 4.535* 6.952* 2.432 4.535* 7.220** .090 7.685* Físico com sequelas 0.454 .367 .155 0.488 .398 .155 8.271** .105 8.921* Coerção sexual 3.405 7.606* .715 3.405 7.606* .715 0.799 3.746 .698 Vitimação Psicológico 4.576 .206 5.074 4.576 .206 5.074 6.069* 1.041 6.093* Físico sem sequelas 5.583* .903 5.307* 5.863* 1.167 5.307* 13.648** 1.084 13.747* Físico com sequelas 2.298 .731 1.553 2.354 .790 1.553 8.376** .249 11.884* Coerção sexual 6.525** 7.457* 1.788 5.157* 5.191* 1.798 4.282* 5.673* 1.686 *p <0.05; **p < 0.01
51 3. Discussão dos Resultados Este estudo procurou analisar a relação entre a pereptração e experienciação de violência nas relações de namoro juvenis e a ideação e os comportamentos suicidas. De uma forma global, este estudo veio comprovar a existência de elevados indicadores de violência nas relações íntimas juvenis. De forma mais específica, o abuso psicológico surge como o tipo de abuso mais mencionado pelos participantes, quer ao nível de perpetração (51.1%) e vitimação (45.4%). Estes dados corroboram o que tem sido encontrado em outros estudos internacionais (e.g., Barnes, Greewood & Sommer, 1991; Doroszewicz & Forbes, 2008; Muñoz-Rivas, Goméz, O’Leary & Lozano, 2007; Ramirez, 2002; Sears & Byers, 2010) e nacionais (Caridade, 2011; Costa & Sani, 2007; Machado, Matos, & Moreira, 2003; Paiva & Figueiredo, 2004). Esta preponderância da violência psicológica nas relações de namoro não deverá conduzir a uma desvalorização do problema da violência neste contexto relacional, na medida em que a literatura tem vindo a sustentar a existência de uma escalada da violência (e.g., Wekerle & Wolfe, 1999), constituindo a violência psicológica um peditor da violência fisica e de que esta poderá acarretar consequências tão ou mais nefastas do que outras formas de violência (e.g., Shwartz, Magee, Griffin, 2004 citados por Cáceres & Cáceres, 2006). Neste estudo, a coerção sexual surge como o segundo tipo de abuso mais reportado pelos participantes quer ao nível de perpetração (22.5%), quer ao nível de vitimação (24.4%). Não obstante, outros estudos apuraram valores relativamente idênticos, sendos estes compreendidos entre os 15.9% e os 41.6% (Aldrighi, 2004; Costa & Sani, 2007; Doroszewick & Forbes, 2008; Paiva
52 & Figueiredo, 2004; Ramirez, 2002). Efetivamente, também outros estudos desenvolvidos em território nacional, mediante o recurso ao mesmo instrumentos – Escala Tática de Conflitos, apuraram uma prevalência significativa do abuso psicológico e coerção sexual quando comparadas com a violência física (Figueiredo, Bifulco, Paiva, Fernandes, Matos & Maia, 2004; Figueiredo & Paiva, 2001; Paiva & Figueiredo, 2004). O facto de estes tipos de abuso íntimo serem socialmente mais aceites e menos censurados (Paiva & Figueiredo, 2005) poderão ajudar a compreender a maior preponderância dos mesmos na nossa amostra. Já no que concerne à prevalência do abuso físico encontrada no presente estudo, 17.9% dos participantes assumiram a perpetração do abuso físico sem sequelas e 16% referiram ter sido vítima deste tipo de abuso. Estes valores afiguram-se, deste modo, algo inferiores aos obtidos por outros estudos (valores compreendidos entre os 13.4% e os 29%) (Aldrighi, 2004; Caridade, 2011; Costa & Sani, 2007; Paiva & Figueiredo, 2004; Straus, 2004). O facto de o abuso físico ser socialmente mais estigmatizado poderá ajudar a compreender o subrelato deste tipo de abuso íntimo por parte dos jovens (Paiva & Figueiredo, 2005). Por fim, os indicadores de vitimação e perpetração do abuso físico com sequelas apurados neste estudo são similares e assumem menor preponderância (3.4%) comparativamente com as outras formas de abuso. Estes dados vão de encontrado ao apurado por outros estudos desenvolvidos e que encontraram valores compreendidos entre os 3.8% e os 16% (Caridade, 2011; Costa & Sani, 2007; Paiva & Figueiredo, 2004; Ramirez, 2002; Straus, 2004). Conclui-se assim, que os dados apurados neste estudo no que respeita aos diferentes tipos de abuso íntimo são em tudo similares aos encontrados por outros estudos nacionais e internacionais. Apenas os indicadores relativos
53 aos abuso físico com sequelas se mostraram ligeiramente inferiores aos limites obtidos por outros estudos. De referir que a grande variabiliade registada nas taxas de prevalência pelos diferentes estudos conduzidos neste âmbito tem sido essencialmente atribuídas a questões metodológicas (e.g., definição de abuso íntimo, tipo de instrumentos utilizados, características da amostra, entre outros) (Caridade, 2013). No nosso estudo, apenas encontramos diferenças de sexo estatisticamente singificativas na perpetração da coerçao sexual, em que os rapazes assumem recorrer mais a este tipo de abuso, comparativamente com as raparigas. Este dado corrobora aquilo que tem sido apurado pela grande maioria dos estudos neste âmbito. Efetivamente, a literatura documenta que é no domínio da violência sexual que se verificaram maiores dissemelhanças de sexo, e em que a agressão masculina tende a apresentar índices de ocorrência consideravelmente mais elevados (cf. Caridade, 2011). Para a perpetração e vitimação dos restantes tipos de abuso íntimo medidos pela Escala Tática de Conflitos não se registaram diferenças de sexo estatisticamente significativas, apontando para a existência de alguma reciprocidade da violência entre rapazes e raparigas. Esta paridade da violência surge corroborada por um número significativo de estudos desenvolvidos neste domínio e os quais sustentam, portanto, a ausência de diferenças de género quantitativas na agressão íntima (e.g., Straus, 2004; Straus & Ramirez, 2007). Não obstante, a análise da relação vitimação, agressão e sexo tem motivado algum debate ao nível da investigação científica neste âmbito, existindo estudos que obtiveram resultados divergentes neste sentido (cf. Caridade & Machado, 2013). Assim, e se os primeiros estudos empíricos (e.g., Makepeace, 1981) apontavam o homem como principal ofensor e a mulher como a principal vítima, estudos subsequentes (e.g., Straus, 2004) sustentaram a existência de níveis similares
54 de vitimação entre rapazes e raparigas. Mais recentemente, estudos nacionais (e.g., Caridade, 2011) e internacionais (e.g., Windle & Mrug, 2009) encontraram resultados mais ambíguos em termos de sexo, evidenciando, por exemplo que os rapazes poderão experienciar níveis mais elevados de vitimação do abuso íntimo e de que as raparigas admitem mais frequentemente o recurso à violência (cf. Caridade & Machado, 2013). O nosso estudo apurou ainda a existência de indicadores significativos de ideação e/ou comportamentos suicidas entre os participantes, destacando-se uma preponderância da ideação suicida (80.42%), comparativamente aos comportamentos suicidas (13.4%). A este respeito, será de referir que alguns estudos (e.g., Silva, Oliveira, Botega, Marin-León, Barros, & Dalgalarrondo, 2006) documentam que 60% dos sujeitos que cometem o suicídio já o teriam previamente idealizado, sabendo-se ainda que a ideação suicida e os comportamentos autolesivos são importantes preditores de suicídio (Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, 2013). Concomitantemente, foi possível perceber no presente estudo a existência de uma associação entre o abuso íntimo e a ideação e os comportamentos suicidas, indo de encontro ao apurado por estudos internacionais (e.g., Chan et al., 2008; Bossarte et al., 2008; Buttar et al., 2013). No presente estudo, no caso das raparigas, ao contrário do que se verificou nos rapazes, não encontramos qualquer relação estatisticamente significativa, seja no padrão de agressão, seja no de vitimação, entre a ideação e/ou comportamentos suicidas e a coerção sexual. Não obstante, já no caso das raparigas que relataram recorrer e sofrer abuso psicológico, físico sem sequelas e físico com sequelas verificámos associações estatisticamente signitificativas com a ideação e/ou comportamentos suicidas. Em nosso entender, tais resultados poderão de igual modo ser explicados pelo facto de
55 as raparigas tenderem para uma maior valorização das relações interpessoais (e amorosas), as quais ocupam um papel central no seu autoconceito (Broidy & Agnew, 1997) e neste sentido mais facilmente admitem a sua cota-parte de responsabilidade nos problemas relacionais (e.g., Feiring, Deblinger, HochEspada, & Haworth, 2002) e as suas consequências. Note-se ainda que a literatura comprova que perante dificulades nas relações interpessoais, as raparigas propendem sobretudo para o desenvolvimento de problemas de internalização e mais concretamente adoção de comportamento autodestrutivos (Broidy & Agnew, 1997). Por oposição, os rapazes tendem mais a negar as suas dificuldades ao nível do relacionamento (e.g., Feiring et al., 2002), documentando-se ainda uma tendência masculina mais geral para minorar os sintomas e as dificuldades (e.g., Dutton & Hemphill, 1992; Pederson & Thomas, 1992 citados por Feiring et al., 2002), o que poderá ajudar a compreender os resultados encontrados no presente estudo. Tais evidências comprovam assim relevância destes resultados e a importância de os programas preventivos neste domínio considerarem estratégias de prevenção do suicídio.
56 Conclusões O problema da violência nas relações de namoro é uma realidade presente na vida relacional de muitos jovens portugueses, acarretando custos significativos para a saúde e desenvolvimento dos jovens, pelo que urge a identificação e implementação de múltiplas estratégias de intervenção para fazer face a este fenómeno (Caridade, 2013). O presente estudo ao analisar a prevalência dos diferentes tipos de abuso íntimo em jovens e da ideação e comportamentos suicidas enforma mais esforço importante na caracterização deste fenómeno. Para além disso, o facto deste estudo procurar analisar a relação entre o abuso íntimo e a ideação e comportamentos suicidas constitui, em nosso entender, um passo importante no progresso da investigação neste domínio, dada a inexistência de estudos neste âmbito no contexto português. Não obstante os seus contributos, o presente estudo não está isento de limitações que poderão ter influenciado os seus resultados e sobre os quais interessa refletir, procurando a partir destas delinear pistas para a investigação futura neste domínio. Uma primeira limitação prende-se, desde logo, com questões metodológicas e mais especificamente, o tipo de amostra. Tratando-se de uma amostra não probabilística, não permite a generalização dos resultados obtidos à população-alvo. Por outro lado, e tomando em consideração o design - correlacional - do presente estudo, apenas pudemos analisar as associações entre as variáveis estudadas (abuso íntimo e ideação e comportamentos suicidas), não sendo possível o estabelecimento de relações causa-efeito entre estas. Além disso, este estudo centra-se em variáveis específicas – ideação e comportamentos suicidas, não explorando outras variáveis (e.g., depressão, ansiedade) que a literatura (e.g., Chan et al., 2008) tem vindo a demonstrar como possuindo uma associação igualmente
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79 Anexo 2 Escala de Ideação e Comportamentos Suicidas Caridade, S. & Barros, S. (2014) Instruções: De seguidas encontrará um conjunto de 15 afirmações, às quais dever responder, assinalando a opção que melhor se adequa à sua forma de se sentir nos últimos 12 meses. 1. NUNCA 2. RARAMENTE 3. ALGUMAS VEZES 4. MUITAS VEZES 5. SEMPRE Obrigado pela sua colaboração! Indique em que medida, nos últimos 12 meses, apresentou algum dos seguintes pensamentos e/ou comportamentos: 1. NUNCA 2. RARAMENTE 3. ALGUMAS VEZES 4. MUITAS VEZES 5. SEMPRE 1 Ter pensamentos de acabar com a vida. 2 Ter pensamentos de que a morte seria a solução para os seus problemas 3 Ter pensamentos de como a vida é injusta 4 Pensar num plano para pôr fim à vida 5 Atentar contra a sua vida 6 Tomar medicamentos para pôr fim à vida 7 Cortar os pulsos 8 Arranhar-se com as unhas 9 Puxar ou arrancar o cabelo 10 Deixar de comer 11 Bater a si próprio 12 Colocar-se em situações de perigo/risco, por achar que não vale a pena viver 13 Consumir bebidas alcoólicas para aliviar o sofrimento e/ou esquecer os problemas 14 Consumir drogas para aliviar o sofrimento e/ou esquecer os problemas 15 Ter pensamentos de que as outras pessoas seriam mais felizes se eu não existisse 16. Outros: _____________________________________