Memórias Cruzadas: o 25 de Abril marco de vidas na freguesia de Paranhos
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1 Elisabete Rodrigues Ferreira Memórias Cruzadas: o 25 de abril como marco de vidas na freguesia de Paranhos Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em História e Património orientada pela Professora Doutora Amélia Polónia e coorientada pela Professora Doutora Alice Duarte Faculdade de Letras da Universidade do Porto Novembro de 2015
2 Memórias Cruzadas: o 25 de abril como marco de vidas na freguesia de Paranhos Elisabete Rodrigues Ferreira Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em História e Património orientada pelo(a) Professor(a) Doutor(a) Amélia Polónia e coorientada pelo(a) Professor(a) Doutor(a) Alice Duarte Membros do Júri Professor Doutor Helena Osswald Faculdade Letras - Universidade do Porto Professor Doutor Cristina Nogueira Faculdade de Psicologia - Universidade Porto Professor Doutor Amélia Polónia Faculdade Letras - Universidade do Porto Classificação obtida: 15 valores
3 Dedico a presente dissertação aos meus Pais. Não faria sentido dedicar esta dissertação a outras pessoas que não eles que, com esforço e vontade, me ajudaram ao longo destes dois anos de mestrado e tornaram possível chegar ao final deste percurso. Porque sem o seu apoio e incentivo nada disto teria sido possível. Devo-lhes ter chegado até aqui e ter conseguido concluir aquele que foi o ano que pôs à prova as nossas capacidades e colocou todas as emoções à flor da pele. Por tudo o que fizerem e fazem por mim, por todos os momentos de apoio, esta dissertação é para vocês!
4 Sumário Resumo .......................................................................................................................................... 6 Abstract ......................................................................................................................................... 7 Índice de Quadros ......................................................................................................................... 8 Índice de Gráficos ......................................................................................................................... 8 Índice de Imagens ......................................................................................................................... 8 Parte I – Contextualização Histórica ........................................................................................... 16 Capítulo 1 – O 25 de abril como marco histórico ....................................................................... 17 1.1. O Estado Novo em Portugal: 1926 – 1974 ....................................................................... 17 1.2. Do 25 de abril à atualidade: 1974 – 2015 ......................................................................... 30 Capítulo 2. – Resenha histórica da freguesia de Paranhos .......................................................... 37 Parte II – Memórias Cruzadas ..................................................................................................... 40 Capítulo 1. - Fontes e método de recolha e tratamento de informação ....................................... 41 1.1 Fontes escritas ................................................................................................................... 41 1.2 As histórias de vida e as entrevistas como fonte e como método ..................................... 42 1.3 Universo, recolha e tratamento da informação .................................................................. 45 Capitulo 2. – Olhares cruzados ................................................................................................... 51 2.1 A Vida em família ............................................................................................................. 51 2.2 A escolaridade ................................................................................................................... 55 2.3. O Mundo de trabalho........................................................................................................ 60 2.4 A Saúde ............................................................................................................................. 62 2.5 Como era sentida a opressão durante o regime ditatorial .................................................. 65 2.6 Da Ruralidade à Urbanização ............................................................................................ 68 2.7 Memórias do dia 25 de abril .............................................................................................. 70 Conclusão .................................................................................................................................... 72 Referências bibliográficas ........................................................................................................... 75 Apêndices .................................................................................................................................... 79 Apêndice I – Guião das entrevistas ......................................................................................... 80 Anexos......................................................................................................................................... 84 Anexo 1 – Transcrição das entrevistas .................................................................................... 85 Anexo II – Quadros das taxas de analfabetismo da Cidade do Porto (1930 – 1960) ............ 123
5 Agradecimentos Depois de um ano de intenso trabalho, chego ao final de um processo de constante aprendizagem e evolução, quer a nível pessoal, quer a nível académico. Para tal contribuíram uma série de pessoas, às quais não posso deixar de agradecer. Em primeiro lugar, quero agradecer à minha orientadora, a Doutora Amélia Polónia, que ao longo de todo este processo me orientou e incentivou sempre que alguma dificuldade surgia. À minha co orientadora, a Doutora Alice Duarte, pelo tempo dispensado em me orientar e me aconselhar. Depois, quero agradecer aos meus Pais que sempre me apoiaram em todas as decisões e em todos os momentos mais difíceis. Às minhas amigas, Estela Costa, Susana Ferreira, Mélanie Lopes, Diana Cardoso, Ana Teixeira e Carolina Pires, com quem desabafei e partilhei as minhas dúvidas e angústias ao longo deste ano, agradeço também o apoio. E, por último, mas não menos importante, ao meu namorado, que todos os dias me deu uma palavra de conforto quando surgia alguma dificuldade. A todos vocês que de alguma forma contribuíram para que este seja o resultado final, um muito obrigado!
6 Resumo “Memórias Cruzadas: o 25 de abril como marco de vidas na freguesia de Paranhos” tem como objeto de análise a perceção do 25 de abril e das suas repercussões numa comunidade, a da freguesia de Paranhos, através do recurso às memórias daqueles que viveram nesse pequeno mundo, antes e depois do 25 de abril. O trabalho foca-se em dois tipos de memórias: uma mais institucional, estatística, oficial e a outra composta de memórias de vida, captadas através de entrevistas. A dissertação é composta por duas partes: uma primeira de contextualização histórica, que pretende fornecer um quadro de compreensão geral dos depoimentos dos entrevistados. Esta componente compreende também a apresentação do perfil da freguesia de Paranhos. A segunda Parte da dissertação encontra-se dividida em dois capítulos. Um primeiro de teor mais metodológico, sobre as etapas de recolha das memórias orais e a forma de tratamento dessa informação. Um segundo capítulo, dividido tematicamente em subcapítulos, pretende focar as diversas dimensões de análise propostas: a Vida em Família, a Educação, o Mundo de Trabalho, a Saúde, como se vivia num Governo Totalitário, a passagem da Ruralidade à Urbanização e a perceção do 25 de abril enquanto acontecimento histórico. Palavras-chave: 25 de abril, Paranhos, fontes orais, entrevistas.
7 Abstract “Crossed Memories: the 25th of April as a landmark in Paranhos” aims at analyzing the perception of the 25th of April and its repercussions on the community of Paranhos, through the use of memories from those who lived in this small world, before and after the 25th of April. The dissertation focuses on two types of memories: one more institutional, including statistics and official records, while the other is composed of lifetime memories, captured through interviews. This dissertation is composed of two parts: an initial historical contextualization, which intends to deliver a general understanding of the testimonies of the interviewed. This component also encompasses the presentation of the profile of the locality of Paranhos. The second part is divided into two chapters. A first one more methodological, centered on the steps taken to collect those memories, and the way they were processed. The second chapter, divided thematically into subchapters, intends to focus on the diverse dimensions of analysis proposed: Family Life, Education, the Working World, Health, How was the daily life under a totalitarian government, the passage of rurality to urbanization and the perception of the 25 th of April as a historical event. Keywords: 25th of April, Paranhos, oral sources, interviews.
8 Índice de Quadros Quadro 1. Evolução da taxa de analfabetismo na cidade do Porto (1930 – 2011) …………......61 Quadro 2. Evolução da taxa de analfabetismo na freguesia de Paranhos (1940 – 2011) ……....61 Índice de Gráficos Gráfico 1. Evolução da taxa de analfabetismo na cidade do Porto …………………………….59 Índice de Imagens Ilustração 1. “Deus, Pátria, Família” …………...…………………………………………........55
9 «O 25 de Abril (…) traz-nos à recordação as imagens da guerra. Daquela com que fomos confrontados durante 14 anos e para a qual fomos empurrados pelo quero, posso e mando de homens que não tinham o direito de mandar porque o povo os não tinha escolhido. (…) é a lembrança da explosão da Liberdade e da Democracia que acabou com a guerra. Que instituiu o direito de escolher, o direito de dizer não, de subir a uma cadeira do café para dizer alguns porquês e, mesmo assim, não ser tolhido na sua Liberdade. Mesmo que, dizendo esses porquês, a nada nos conduza a não ser aliviar a indignação de momento. O 25 de Abril (…) ainda é a Liberdade que nos permite continuar a dizer esses porquês e não ser preso pela polícia política, julgado por um tribunal político e ficar metido na masmorra do esquecimento até que um polícia se dê ao trabalho de esquecer, que depois, da prisão efetiva, já não há lugar a medidas de segurança. (…) é o direito a escolher quem nos governa. Mesmo que aqueles que nos governam não sejam coerentes com o que prometem, se esqueçam que acima da Liberdade e da Democracia não pode haver uma economia todo o terreno que nos suga boa parte do salário em impostos e arrasa com os empregos (…) [é] ainda é o direito que todos nós temos a indignar quando assistimos aos telejornais que nos debitam na cara que a empresa X ou o banco Y ou a fábrica Z mandou para a rua mais uns milhares de empregados (…) é ainda a felicidade de poder escrever como estamos a escrever neste momento com a certeza que não haverá ninguém entre nós e o leitor que nos impeça de o fazer. De nós escrevermos e do leitor ler. A felicidade é, no fundo, saber que os nossos filhos já cresceram em Democracia. Que não sabem o que é censura, nem tribunais políticos. E que, com o seu voto, podem derrotar a incompetência e premiar o bom desempenho. No fundo, todos os que andamos na guerra, este é o bálsamo maior. Porque a guerra é, para aqueles que nela se viram envolvidos, uma ferida que nunca mais desaparece. Uma ferida que nos marcou profundamente pela violência das situações em que nos vimos envolvidos. Uma ferida pungente pela dureza das imagens que assolam a nossa existência até ao dia em que temos de fechar os olhos de vez. Mas apesar de tudo, que bom poder escrever tudo (…) depois do 25 de Abril.» (Jorge Vilas, 1999, p. 2 – 4)
16 Parte I – Contextualização Histórica
17 Capítulo 1 – O 25 de abril como marco histórico 1.1. O Estado Novo em Portugal: 1926 – 1974 Portugal, no início dos anos 1930, era uma sociedade periférica em relação aos restantes países europeus, até pelo facto de viver um regime ditatorial e ser predominantemente agrícola. As crises de 1921, a valorização do escudo, em 1924, e a Grande Depressão de 1929, afetaram a economia, os negócios e as finanças públicas, após um período de grande turbulência política, social e económica que caraterizou a I República, incluindo a participação de Portugal na I Guerra Mundial. Foi entre 1932-1933 que o Estado se consolidou de forma autoritária e ditatorial (ROSAS, 1994, p 243). O sucesso alcançado por Salazar só foi possível graças ao fraco desempenho dos restantes governantes, muitos deles militares. Mas, para tal, contribuiu também a boa relação que o ditador mantinha com a burguesia, o clero e o exército. Estas condições permitiram que em 1932 adquirisse o lugar de presidente do Conselho de Ministros, lugar a partir do qual conseguiu exercer uma ditadura que só terminou em 1968 devido a uma incapacidade física (GARCIA, 1981, p. 241). O Estado Novo só ficou legalmente instituído aquando da Constituição de 1933, segundo a qual “cabia à Assembleia Nacional eleita, coadjuvada pela Câmara Corporativa, o poder legislativo; reservavam-se ao presidente da República amplos poderes e respeitavam-se algumas liberdades.” (GARCIA, 1981, p.242) No entanto, não foi bem assim que as coisas se desenvolveram. O poder quase absoluto de Salazar foi crescendo. O Ditador, para além da chefia do Governo e da pasta das Finanças, tomou conta da pasta da Guerra e a dos Negócios Estrangeiros. Durante algumas décadas, Portugal foi marcado por um surto demográfico, resultado da expansão industrial, comercial e agrícola. As elevadas taxas de natalidade, a regressão da taxa de mortalidade e a alta taxa de crescimento natural conferiam à sociedade portuguesa um abandono definitivo do padrão demográfico pré-industrial e a entrada na chamada “transição demográfica”. Nos anos 1930, Portugal já contava com uma maior densidade populacional e com famílias mais numerosas. No entanto, o que poderia ser um bom indicador para o país revelouse na verdade um problema, pois estas condições acarretavam um elevado preço económicosocial num país pobre, incapaz de suportar com qualidade o crescimento populacional.
18 O surto urbano também prosseguia, pessoas do campo abandonaram as suas casas, atraídos pelas oportunidades de trabalho nas grandes cidades. A evolução do país é visível no que toca à taxa de urbanização, ao êxodo rural e ao poder da atração urbana (ROSAS, 1994, p. 25). As taxas de urbanização em Portugal durante a primeira metade do século XX são muito baixas. No entanto, já na segunda metade do século regista-se uma progressão constante. Em 1930, 80% da população vivia fora dos centros urbanos (situação sem alterações dez anos depois). “Nessa sociedade em lento processo de transição para a modernidade, marcada pelo peso das situações económicas e sociais intermédias, a urbanização – tal como a industrialização – era o resultado, direto ou indireto, de uma arrastada erosão e metamorfose do mundo rural, com o qual ela foi mantendo, por muito tempo, todo o tipo de interdependências.” (ROSAS, 1994, p. 25 - 26) Entre os anos de 1930 e 1968, a população aumentou mais de um terço, notando-se um crescimento mais elevado de 1930 a 1940. Havia em Portugal mais de 9 milhões de pessoas no início da década de 60 quando o rápido crescimento da emigração contrariou a tendência em vigor. A taxa de mortalidade baixou para metade. A taxa de natalidade diminuiu também, no entanto, nessa altura ainda lentamente (MARQUES, 1998, p. 491). Este crescimento demográfico possibilitou a existência de uma população jovem e o aumento da densidade populacional, o que contribuiu para conservar e até alargar a já elevada dimensão média das famílias portuguesas. É necessário entender o êxodo rural como forma de expressão da evolução económica e social do país. Tratou-se de uma fuga ao mundo rural, pobre e sobrepovoado. Aliás, este fenómeno não pára de crescer desde os anos de 1930: “Foge-se da miséria e do desemprego ou subemprego dos campos para os centros urbanos em geral, mas sobretudo para as grandes cidades industrializadas (…).” (ROSAS, 1994, p. 27) A sociedade portuguesa dos anos de 1930 é uma sociedade em progressiva transformação, contudo, é ainda dominada pelo mundo rural. Ao longo da primeira metade do século XX, o peso do sector agrícola regride muito lentamente. Esta lentidão deveu-se ao crescimento populacional sem emigração, ao moderado poder de atração dos centros urbanos e das indústrias e ao lançamento de políticas de fomento de certas culturas extensivas, que exigiam menos mão-de-obra (ex: Campanha do Trigo em 1929). Face à sociedade e à economia do país na altura havia um “excesso populacional” no que diz respeito às capacidades de produção de riqueza e de oferta de trabalho (ROSAS, 1994,
19 p.24). Nos campos assistia-se a uma sobrelotação de pessoas e ao aumento da massa de assalariados e de camponeses semiproletários. Com ou sem terra suficiente para subsistirem de forma autónoma, as pessoas desempregadas ou subempregadas eram impelidas a emigrar. O Portugal salazarista dos anos 30 apresenta um discurso ideológico, conservador e agrário sobre o mundo rural e a vida camponesa. Desde a criação do Secretariado da Propaganda Nacional, em 1933, António Ferro transforma a família camponesa, o trabalho rural, a “casa portuguesa” e esse mundo de aldeias pobres, no símbolo da harmonia social, das virtudes pátrias e da estabilidade do regime. Mas a realidade era outra. As famílias assalariadas da população rural dependiam muito dos baixos salários. O salário agrícola variava consoante a região, o tipo de trabalho, a altura do ano, o sexo, a idade ou a natureza do pagamento. Os salários viriam a cair a partir do ano de 1931 devido à política de estabilização financeira, iniciada um ano antes para atender aos efeitos da grande depressão “ (…) Na década de 30, apesar do baixo nível dos preços dos bens de primeira necessidade, da sua estabilidade e até da sua descida, o assalariado agrícola vira baixar o seu já de si diminuto poder de compra, mesmo considerando unicamente o salário médio dos homens, cerca de 50% superior ao das mulheres.” (ROSAS, 1994, p. 54). Uma das maiores preocupações, na agricultura, era a obtenção da auto-suficiência na produção de cereais. A Campanha do Trigo, em 1929, levou a que durante a década de 30 se fizesse um esforço para alargar as áreas de produção. Os resultados estavam à vista. A área de cultivo aumentou. As colheitas de 1934 e 1935 foram tão grandes que se armazenou trigo para a exportação. No entanto, vir-se-ia a perceber que afinal nem tudo era positivo. A maioria dos solos não tinha as condições necessárias para as searas. Havia problemas relativamente aos preços dos excedentes nos mercados internacionais. O aumento demográfico anulava qualquer perspetiva de tornar o país auto-suficiente em trigo. Nos anos da II Guerra Mundial, passou-se a importar o trigo do estrangeiro. Em Fevereiro de 1933 foi publicado o texto da nova Constituição, com revisão em Março. À Constituição seguiu-se o Estatuto do Trabalho Nacional, bem como uma série de medidas de organização do Estado. Os partidos políticos, as sociedades secretas e as associações sindicais foram proibidos. O Estatuto do Trabalho Nacional (entre muitas outras leis e regulamentos) definia uma organização corporativa para o setor industrial e agrícola. Os elementos primários eram os sindicatos nacionais (de empregados, de operários ou dos membros das profissões liberais), grémios (empresas, sociedades ou firmas singulares ou coletivas), Casas do Povo (uniões rurais
20 de patrões e trabalhadores), casa de pescadores (associações de gentes do mar e seus empresários). Os elementos secundários eram as Federações Nacionais, as Federações Regionais, as Uniões. Na segunda metade dos anos 1930, o Estado Novo afirma-se económica, política e institucionalmente. Assim, no plano económico e social, o nacionalismo protecionista, a autarcia e o intervencionismo estatal dão as mãos. Lança-se a organização corporativa e uma coordenação económica restrita aos setores onde se pretende a intervenção do Estado (ROSAS, 1994, p. 243 -244). Quando Salazar tomou conta da pasta das Finanças, Portugal apresentava uma preocupação crescente relativamente à questão financeira. O primeiro orçamento de Salazar concretizou um verdadeiro milagre. As receitas totalizaram 2175 mil contos e as despesas mantiveram-se em 1900 mil contos, fazendo um saldo positivo de 275 mil contos (MARQUES, 1998, p. 472). A sua estratégia era reduzir as despesas mediante economias bastante severas e aumentar as receitas, através de novos impostos e de uma melhor administração dos dinheiros públicos. A partir de 1928-29, os orçamentos e as contas públicas apresentavam-se equilibradas. O equilíbrio financeiro tornou-se, ao longo de todo o Estado Novo, uma preocupação para o regime. Era tida como uma das qualidades do Estado, pois simbolizava uma boa administração, um bom governo e progresso. Até à Segunda Guerra Mundial, as receitas estavam estagnadas, no entanto, com a Grande Depressão, as despesas sofreram um pequeno aumento. Os saldos positivos nunca voltaram a atingir o nível do primeiro ano da administração de Salazar (MARQUES, 1998, p. 474). Mas a que custo foi isto possível? Salazar teve três objetivos no seu plano de governo: o equilíbrio financeiro, a concentração do poder financeiro no Estado e, a canalização desse poder para os serviços públicos. (ROSAS; BRITO, 1996, p.271). Para Salazar o que importava era “salvar a Nação!” independentemente dos sacrifícios que fossem preciso fazer (ROSAS; BRITO, 1996, p.272). As reduções de serviços e despesas traduziram-se nas diminuições de vencimentos e no aumento dos impostos, o que levaria certamente a um encarecimento do custo de vida (ROSAS; BRITO, 1996, p.272). Este foi sem dúvida um período de austeridade nas contas públicas e representou, de facto, grandes sacrifícios, em particular, para a população urbana. Mas juntando os seus efeitos aos da crise mundial significou a estagnação e até mesmo o retrocesso da atividade económica em Portugal. (ROSAS; BRITO, 1996, p.273).
21 O processo de industrialização havia sido um processo lento. Para tal, contribuiu a falta do apoio de uma reforma agrária. Daí a debilidade industrial do Portugal da primeira metade do século XX. As protecções aduaneiras não foram suficientes para o arranque do processo de industrialização. A concorrência de manufaturas e bens de equipamento estrangeiros, fomentada por um sistema de trocas desigual, por um sistema de protecção aduaneira orientado mais por critérios fiscais do que por estímulos à industrialização, acentuavam a vulnerabilidade do tecido industrial. Mesmo nas conjunturas mais propícias, em que abrandava a concorrência de capitais e de mercadorias estrangeiras e se reforçava a proteção do estado, a indústria não teve forças e condições internas para aproveitar plenamente essas oportunidades, ou seja, não concretizou um verdadeiro arranque, substituindo este por pequenos avanços. Faltava algo que impulsionasse a economia do país. Sem as condições internas propícias ao avanço da indústria, esta não podia fazer progressos. Faltava um mercado nacional que viabilizasse o arranque de que a indústria precisava. Faltava comida, matéria-prima e a existência de mão-de-obra abundante e barata não favorecia o aumento dos consumidores e dos níveis de consumo. Apesar de não haver uma classe média rural capaz de funcionar como pilar da indústria, ou uma população rural com poder de compra, ou uma produção agrícola capaz de garantir produtividade de forma a sustentar o desenvolvimento industrial, a indústria foi-se desenvolvendo nos anos 30. Destas condições decorriam outras: uma industrialização por surtos que foi crescendo até aos anos 40; um tecido industrial com índices de produção e produtividade muito baixos; uma indústria que se desenvolveu à sombra do Estado, que protegia e garantia o mercado nacional e colonial, condicionava ou eliminava a concorrência intra e intersetorial pelo condicionamento industrial, fomentava a busca e garantia a defesa dos mercados externos, tabelava preços, distribuía matérias-primas, fixava quotas de produção. Esta indústria nacional regida pelo protecionismo do Estado Novo irá marcar ideologias, mentalidades e práticas industriais no país. Tratava-se de uma industrialização assente na sobreexploração da força de trabalho (quase sempre semi-camponesa, com largo peso de mulheres, crianças, analfabetos, sem formação técnica), salários baixos e longas jornadas de trabalho, escassas preocupações patronais com investimento tecnológico e formação de pessoal (ROSAS, 1994, p.262 - 265). Aliás, dos anos 50 para a frente, Portugal deixou de ser um país “essencialmente agrícola” (ROSAS, 1994, p. 440). A Segunda Guerra Mundial trará consigo necessidades acrescidas de produção de bens de consumo, que obrigarão a um certo laxismo adiando as
22 medidas de reorganização previstas na lei de Reorganização e Fomento Industrial. No entanto, uma vez que Portugal se manteve neutro durante o conflito, isso fez com que pudesse vender os seus produtos de forma bastante favorável, sem precisar de grandes despesas com armamento ou com defesa do território. Com o fim da Guerra, iniciou-se uma nova vaga de emigração (Brasil, Estados Unidos, Canadá, Europa). Nas décadas de 1960 e 70, grande parte dos emigrantes foi rumo a França e à Alemanha. Aqui, a falta de mão-de-obra era tão elevada que lhes proporcionava elevados salários. A emigração trouxe algumas vantagens para o país: envio de somas avultadas em moeda estrangeira; aceleração da mecanização agrícola; aumento de salários devido à falta de mão-de-obra, modernização progressiva de várias aldeias e vilas (MARQUES; 1998, p. 491). O número de emigrantes, que aumentava ano após ano, à procura de melhores salários, era a prova das más condições de vida, principalmente nas zonas rurais. As exportações de volfrâmio constituíam uma receita significativa para o Estado. A desvalorização da moeda não ultrapassava os 10%. A reserva de ouro atingia níveis elevados, o que conduziu à estabilidade monetária. Mas desde o fim da guerra que se registou uma diminuição significativa dos saldos do orçamento. Pelo contrário, as importações pouco mudaram. O País continuou a receber os produtos manufaturados (maquinaria e material ferroviário e rodoviário, têxteis, plásticos, borracha, azeite, carvão, trigo). No que diz respeito ao campo político-institucional, o regime surge como uma “ditadura do chefe de Governo”, levando a que o Presidente da República e da Assembleia perdessem os seus poderes. Estabelece-se mão forte sobre as Forças Armadas. Em 1936, o regime cria as suas próprias milícias: a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa. A Organização Nacional da Mocidade Portuguesa foi instituída em 19 de Maio de 1936 e abrangia todos os jovens, quer fizessem parte da população escolar, quer não fizessem. O seu objetivo era estimular o desenvolvimento da sua capacidade física, a formação do caráter e a devoção à Pátria. Tratava-se de uma estrutura organizacional, hierarquizada e centralizada. Na Mocidade Portuguesa ingressavam apenas os rapazes que ficavam divididos da seguinte forma: os lusitos (7-10 anos), os infantes (10-14 anos), os vanguardistas (14-17 anos) e os cadetes (+17 anos). Os vanguardistas mais habilitados podiam integrar a chamada Escola de Graduados, que era uma espécie de escola de chefes. Aos sábados, os filiados da Mocidade Portuguesa, recebiam instrução. Isso incluía içar a bandeira nacional, saudação “à romana” com o braço direito estendido, cantar do hino, marchas militares, exercícios físicos. As fardas usadas eram
23 um uniforme de calças castanhas, camisa verde-escura e um cinto simbólico que exibia um S (BRITO; ROSAS, 1996, p. 288). Para as raparigas havia também uma instituição, a Obra das Mães para a Educação Nacional. Esta tinha como objetivo explícito o estímulo das jovens portuguesas para a formação do caráter, o desenvolvimento da capacidade física, a cultura do espirito, bem como a devoção ao serviço social no amor de Deus, da Pátria e da Família. Com isto, pretendia-se formar, desde a infância, a nova mulher, uma boa católica, futura mãe e esposa obediente, através da educação moral, cívica, física e social. As raparigas eram agrupadas da seguinte forma: as lusitas (7-10 anos), as infantas (10-14 anos), as vanguardistas (14-17 anos) e as lusas (+17 anos). A partir dos 21 anos integravam o Corpo de Serviço Social. (BRITO; ROSAS, 1996, p. 288). Alguns setores do Estado defendiam a inutilidade de alfabetizar os camponeses, outros defendiam a alfabetização rudimentar, embora esta devesse ser feita em moldes legitimadores do regime. Os programas, os livros, os professores, os diretores das escolas e os alunos eram rigorosamente controlados, para evitar a “subversão” e enquadrados na Mocidade Portuguesa. O analfabetismo é um dos principais fatores do atraso da educação portuguesa. As taxas de analfabetismo são o reflexo do atraso cultural do país e advêm de problemas económicos e sociais (BRITO; ROSAS, 1996, p. 46). Para o crescimento desta taxa contribui a falta de cumprimento da escolaridade obrigatória, principalmente nas regiões rurais mais pobres, nas quais o contributo do trabalho infantil para a economia familiar era indispensável. A tardia e lenta industrialização provocara uma diminuta exigência no que diz respeito à qualificação da mão-de-obra não obrigando a preparação escolar a dar resposta. Numa primeira fase, aquando da instauração da Ditadura Militar, a alfabetização foi vista como um elemento apenas acessível às elites, cultivando, deste modo, as virtudes humildes da sociedade agrária e analfabeta (BRITO; ROSAS, 1996, p. 46). Contudo, numa segunda fase, com a subida de Salazar à Presidência do Conselho de Ministros, em 1932, a situação que se verificara anteriormente conheceu uma regressão. Embora Salazar reconhecesse os perigos que representava a extensão da escolaridade a todas as camadas sociais, pela facilidade de leitura e a circulação de obras que eram olhadas como prejudiciais, considerou mais vantajoso proporcionar escola para todos, desde que o Estado exercesse um apertado controlo sobre aquilo que era ensinado. Assim, a alfabetização seria um excelente meio de propaganda político-ideológica, permitindo divulgar o ideário do novo regime. Pretendia-se
24 uma “educação nacional” concebida para moldar a mentalidade dos jovens (BRITO; ROSAS, 1996, p. 46). Ao longo de todo o século XX, assiste-se a profundas transformações do sistema educativo português. Verificou-se um aumento significativo, do número de alunos e de professores, no espaço de trinta anos (1930 – 1960). Mas não foi apenas uma alteração em termos numéricos, tratou-se de implementar todo um novo modelo escolar (OLIVERIRA; ROSAS; FERREIRA; 1990, p. 455). Apesar de algumas ambiguidades, o certo é que se passou de um registo, em 1930, de três anos de escolaridade obrigatória, para, em 1960, quatro anos de escolaridade obrigatória para ambos os sexos. Assim se entende a relação entre a oferta institucional e a procura social da educação (OLIVEIRA; ROSAS; FERREIRA, 1990, p. 455). Não esqueçamos porém que o ensino visava apenas a inculcação ideológica e estava reduzido ao “Ler, escrever e contar”. O ensino não abrangia toda a população e o acesso ao mesmo era difícil, principalmente para a mulher. Poucas eram aquelas que conseguiam ir à escola. A taxa de analfabetismo para as mulheres regista-se até bastante tarde sempre superior à dos homens, comprovando o tradicionalismo da sociedade portuguesa. A política educativa desenvolveu-se em quatro fases. A primeira fase decorre entre 1930-1936. O seu principal objetivo é o desmantelamento das conceções, representações e práticas da escola republicana, relativamente aos setores da administração do ensino e da formação de professores. A segunda fase ocorre a partir de 1936, quando se verifica um ponto de viragem na política educativa. Esta fase estender-se-á até ao pós-guerra (1947) e é caraterizada pela tentativa da edificação da escola nacionalista. A imagem da educação no Estado Novo ficou associada a algumas medidas adotadas durante esta fase, tais como a adoção da designação de Ministério da Educação Nacional, a imposição do livro único e a criação da Mocidade Portuguesa e da Obra das Mães pela Educação Nacional. É na terceira fase (1947 – 1960) que se iniciam uma série de reformas do ensino liceal e do ensino técnico que marcam o início de um processo de acomodação do sistema educativo às realidades sociais e económicas emergentes no pós-guerra. Por último, a quarta fase (1960-1974), distingue-se por uma clara abertura do sistema educativo, resultado dos esforços de democratização do ensino do início da década de 60. É nesta altura que é tomada a consciência do atraso educacional do país que leva a um maior investimento na área da educação. (OLIVERIRA; ROSAS; FERREIRA, 1990, p. 456 - 561)
25 De um modo geral não podemos afirmar que a política educativa do Estado Novo era totalmente retrógrada, no entanto, é preciso reconhecer que em 1960, o país possuía uma taxa de analfabetismo superior a 30% e uma taxa de escolarização inferior a 50%. E que, após 1974 o país continuou a debater-se contra um elevado défice de educação, no que toca à falta de aproveitamento escolar, à taxa de analfabetismo, à falta de condições das instalações escolares, entre outros condicionalismos (BRITO; ROSAS, 1996, p. 288). A censura e a polícia política emergem como mecanismos repressivos do Estado. Cedo se percebeu a necessidade de disciplinar a circulação dos discursos. Para tal, tomaram-se uma série de medidas, de forma a assegurar o controlo do Governo sobre a imprensa, pois tratava-se do meio de excelência da oposição. Nos decretos elaborados após o “28 de Maio de 1926”, afirma-se que todos os cidadãos teriam o direito de “manifestar livremente o seu pensamento” através da imprensa e discutir os “diplomas legislativos”. Face a esses “privilégios” acarretava uma responsabilização: era punido o ultraje, às instituições republicanas, e qualquer ato conspiratório contra o Estado (OLIVEIRA; ROSAS; FERREIRA, 1990, p.439). A censura aplicada à imprensa surgiu em 24 de Junho de 1926. À medida que o tempo foi passando foi sendo tido como necessário controlar outros meios de comunicação, como o teatro, o cinema, a rádio e a televisão. De todos os mecanismos de repressão, a censura foi a mais eficaz, pois “nenhuma palavra ou imagem podia ser publicada, pronunciada ou defendida sem prévia aprovação dos censores” (MARQUES, 1998, p. 440). A censura controlou assuntos políticos e militares, morais e religiosos, normas de conduta, assim como todas as notícias que poderiam influenciar a população negativamente contra o Estado. Acontece que os censores variavam a nível de rigor e de formação, o que proporcionou rigores absurdos, ao mesmo tempo que eram deixadas passar matérias consideradas importantes e perigosas. No entanto, os censores não tinham liberdade total para usar o lápis azul, pois recebiam instruções sobre os assuntos que deveriam eliminar. Apesar de a censura não ser aplicada aos livros, estes podiam ser retirados de circulação, caso fossem considerados subversivos, assim como os livros estrangeiros podiam ser impedidos de entrar em Portugal. A Imprensa era vista como um meio de difusão dos ideais do governo e sobre ela se exercia uma apertada vigilância quanto aos seus conteúdos. Tudo o que fosse contra o Governo teria de ser retirado (MARQUES, 1998, p.440 - 443). O ano de 1940 foi um marco importante para o Estado Novo. Comemorava-se o oitavo centenário da nacionalidade e o terceiro centenário da Restauração e, neste sentido, foram organizadas cerimónias, congressos, publicações e exposições das quais se destaca a Exposição
32 Portugal adere à CEE em 1986. Esta adesão marcou o futuro da política nacional, inaugurando um novo período da vida portuguesa. A 1ª grande mudança foi originada pela pressão social que levou, nos primeiros meses, a um aumento significativo do salário, aliado a um elevado poder de compra e procura interna, acompanhados de importações e da inflação (TELO; 2007, p. 302). “Portugal era um país pequeno na periferia da Europa. Representava 0,8% do território, 1,3% da população e 1% da economia do continente. Tinha sido sempre mais pobre do que os outros países ocidentais (…) e falava uma língua confinada, na Europa, aos seus nacionais” (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 748). Esteve durante muito tempo à sombra dos outros países. A adesão à CEE, à luz de outras medidas, contribuiu e permitiu que se desse continuidade ao processo de integração de Portugal na Europa. Portugal passou a estar integrado na cimeira de chefes de Estado e de Governo, foi-lhe permitido nomear um comissário para o principal órgão legislativo e executivo da União e eleger (diretamente) deputados do Parlamento Europeu (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 749). No entanto, após o 25 de Abril os problemas económicos fizeram-se logo sentir através da inflação, a desvalorização do escudo, o aumento das despesas públicas, os deficits orçamentais, os recursos às reservas e o endividamento para os cobrir e o défice da balança de transações. “ (…) o mais importante para a economia não foram as nacionalizações e a reforma agrária, mas sim a alteração das regras e normas do seu funcionamento (…)” (TELO, 2007, p. 302). Era preciso recuperar depois da queda do Estado Novo. Nos sectores da agricultura e da pesca, Portugal registou um declínio. A Indústria teve de proceder à reconversão e especialização para que se tornasse competitiva face à indústria dos outros países europeus. O sector terciário sofreu um crescimento em consequência da reconversão e da modernização da economia e do aumento dos níveis de consumo em geral. O desemprego aumentou dada a força das exigências feitas pela CEE a Portugal. Os líderes portugueses esperavam que a entrada na CEE fizesse o país beneficiar de deslocalizações industriais, como no ramo automóvel, por exemplo. E de certa forma conseguiram, com as devidas contrapartidas (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 750). Houve também avultadas entradas de capital estrangeiro no país entre 1986 e 1989. Portugal era considerado um “caso de sucesso”. Em 1992, os portugueses, entre os europeus, eram os mais satisfeitos da União Europeia (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 750). Certo é que muita coisa mudou desde o 25 de abril. Um exemplo disso é a autoridade, a qual existia para ser obedecida e não para ser entendida e que foi subvertida. “A distância típica
33 da autoridade, distante, separada por uma série de barreiras formais do comum dos mortais, que existiam para cultivar o temor reverente, gerar a subserviência e eram tanto mais rígidas quanto maior fosse a generalizada incompetência, destronou-se em poucos dias do pedestal que demorou décadas a ser edificada.” (TELO, 2007, p. 307) A evolução da população durante o último século tem sido bastante diferenciada. Entre os anos de 1930 e 1960, a população aumentou de forma regular devido a causas naturais, com uma emigração relativamente baixa. A partir da década de 1960, a evolução da população é marcada mais pelas migrações e pelas causas naturais. Em 1950, a população residente em Portugal era de 8,4 milhões. Nas vésperas do 25 de abril os números são quase os mesmos, 8,6 milhões em 1970. A causa desta estagnação é a emigração. A seguir ao 25 de abril há um aumento significativo da população. Este aumento deveu-se a causas políticas e à queda da emigração, assim como ao aumento da imigração e do regresso das ex-colónias, os ditos “retornados” (TELO, 2007, p. 307). Existiram dois grandes momentos na História contemporânea portuguesa. O primeiro foi a Revolução Liberal de 1834 que pôs fim ao “Antigo Regime”. O segundo foi a mudança económica, social e de mentalidades na segunda metade do século XX. “Foi talvez a rutura mais radical da História social portuguesa, e pode dizer-se que com ela nasceu um país e uma sociedade novos, muito diferentes do que até então tinham sido” (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 762 – 763). Uma das principais dimensões desta grande mudança consistiu “no fim de uma sociedade de comunidades rurais, em que a maioria da população vivia ocupada na agricultura e dispersa em vilas, aldeias e casais na periferia” (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 763). O mundo do trabalho também sofreu grandes alterações. Foi instaurado o direito à greve, fixaram-se salários e as pessoas podiam agora usufruir de alguns dias de férias. A situação da mulher consistiu outro fator de mudança. Acabou-se com a ideia da mulher como “personagem” doméstica, longe da vida pública e do trabalho fora do lar (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 766). O papel da mulher na sociedade portuguesa fora tendencialmente secundarizado. Já antes da 1ª república se assistia à luta pelo direito ao voto e à igualdade política. No entanto, só na década de 1960 é que a mulher viu reconhecido o seu direito ao voto. E só após o 25 de abril é que a mulher teve igualdade política, obtida com a legislação depois de 1979 “sobre o divórcio e o igual tratamento dos elementos da família em múltiplas situações, desde as viagens ao estrangeiro à responsabilidade sobre os filhos.” (TELO, 2007, p. 320).
34 É também depois do 25 de abril que surge um leque de carreiras que para as mulheres estavam interditas, como é o caso da carreira diplomática e de algumas carreiras das forças armadas e de segurança. O acesso da mulher ao mercado de trabalho tinha surgido na década de 1960 devido à falta de mão-de-obra masculina devido ao serviço militar obrigatório. A evolução depois do 25 de abril aponta para uma crescente participação feminina no mundo de trabalho (TELO, 2007, p. 320). Em 1995, as mulheres representavam metade da mão-de-obra ativa e já constituíam a maior parte da função pública, bem como de estudantes no ensino superior (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 766). Nas últimas décadas temos assistido a importantes vitórias na luta pela igualdade entre géneros. É logo a seguir ao 25 de abril que se dá a igualdade jurídica e nas décadas posteriores a igualdade no mundo profissional, bem como no acesso ao ensino. No pós-25 de abril quase todas as profissões são abertas à mulher. Esta mudança vem “abalar” as formas de organização familiar (TELO, 2007, p. 323). A lei promoveu a paridade entre géneros, instituindo a igualdade de homem e de mulher no casamento e abriu às mulheres muitas carreiras até então vedadas (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 766). Segundo António José Telo “para ter uma estratégia de desenvolvimento económico ou de aumento da qualidade de vida bem-sucedida, é necessário apostar correctamente numa reforma de educação umas décadas antes e não em cima do acontecimento.” (TELO, 2007, p. 323). No fim do século XX, Portugal continuava a apresentar a mais alta taxa de analfabetismo e mais baixo nível de qualificações da Europa. Os resultados eram fracos e o abandono escolar era muito elevado (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 769). Quando se dá o 25 de abril, já se encontra em andamento uma das maiores reformas do ensino em Portugal. Após o 25 de abril, o sistema de ensino sofreu uma evolução importante. Em 1986 a escolaridade obrigatória passou de seis anos para nove. Atualmente, o Estado obriga que todos tenham o 12º ano (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 769). Em 1995, o número médio de escolarização aumentou de 2,2 (1970) para 7. Nos anos de 1994 e 1995 frequentavam o 3º ciclo 85% dos jovens na idade correspondente (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 769). Em 2002/2003 o número de alunos e de estabelecimentos de ensino é o dobro do existente em 1973. A educação obrigatória tornou-se mais abrangente. Portugal alcançou “as
35 médias normais na Europa Ocidental no que concorre à alfabetização e ao ensino obrigatório” (TELO, 2007, p. 338). No entanto, o acesso ao ensino superior continuou inferior à média europeia. O sistema de saúde em Portugal foi remodelado em 1971. A novidade que esta reforma trouxe consigo foi a medicina preventiva, com a criação de centros de saúde, cuja prioridade era a vacinação da população. Após o 25 de abril, o sistema de saúde, segundo o artigo 64 da Constituição de 1976, afirma que “todos têm direito à proteção da saúde”, realizada através “de um serviço nacional de saúde universal, geral e gratuito” (TELO, 2007, p. 339). As soluções que se encontram nos primeiros anos do século XXI visam procurar a reforma do sistema de saúde, reduzindo os custos sem alterar a sua essência. Atualmente existem dois serviços de saúde. Um privado, que tem vindo a ganhar cada vez mais “terreno”, e outro público, pago por todos com uma parte substancial do orçamento. A esperança média de vida à nascença aumentou. Ao longo do século XX duplicou, estando as idades estimadas em 75 anos para os homens e 81 anos para as mulheres no ano de 2007 (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 764 -765). A taxa de mortalidade infantil também diminuiu drasticamente, de valores a rondar os 134 por mil, no início do século, para valores quase residuais de 3,3 por mil antes de um ano de vida (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 764 - 765). A mortalidade, que sabemos, que antigamente afectava quase com a mesma intensidade todas as faixas etárias por causa de doenças exógenas, ficou associada a idades elevadas e a doenças degenerativas. “A morte tornou-se o fim de vidas longas e geralmente saudáveis” (SOUSA; MONTEIRO, 2010, p. 764 - 765). O 25 de abril tornou Portugal num país de proprietários urbanos, resultado da escolha pela compra de habitação ao invés do arrendamento. Entre os anos de 1970 e 2001 passou de 55% para 75% o peso dos proprietários de casas. Em contrapartida as habitações arrendadas passaram de 44,3% para 20,8% (TELO, 2007, p. 359). Esta situação deveu-se à melhoria das condições de vida e ao crescimento da classe média, mas principalmente devido à lei das rendas que inviabilizavam a sua atualização. Isto conduziu também à degradação do edificado urbano e a deterioração dos prédios antigos (TELO, 2007, p. 359). Outra grande mudança a ser tida em conta são os equipamentos básicos. Em 1970, mais de metade das casas não tinha água canalizada, mais de um terço não tinha eletricidade e quase metade não estava ligado à rede de esgotos. Já em 2001 o cenário é bastante diferente, 99,5%
36 das casas têm eletricidade, 97,9% têm água canalizada e 94,2% acesso à rede de esgotos (TELO, 2007, p. 359). Fenómenos como os bairros de lata ou aldeias sem eletricidade quase que desapareceram no período após o 25 de abril, devido também a uma ativa política de habitação social. (TELO, 2007, p. 360) Embora Portugal continue a ser tido como um país que se encontra na cauda da Europa, tendo em conta muitos indicadores de desenvolvimento, bem como os relativos à sinistralidade e à violência doméstica, podemos afirmar que após o 25 de abril as condições de vida melhoraram. No campo cultural, generalizam-se e democratizam-se os eventos e a oferta cultural. Às iniciativas particulares e às inovações tecnológicas juntou-se o apoio dos organismos públicos e das autarquias locais às redes de bibliotecas e às exposições e espetáculos que têm lugar um pouco por todo o país. “ (…) o acesso à cultura, ao lazer e aos desportos é uma das principais características da sociedade de massas (…).” (TELO, 2007, p. 369). O número de museus duplicou entre 1970 e 2002. Também os jornais e revistas sofreram uma grande evolução (TELO, 2007, p. 372). É inegável a importância que o 25 de abril teve para a sociedade portuguesa, tanto a nível político como económico e social. O 25 de abril abalou ideias e revolucionou mentalidades. No entanto, no que toca às mentalidades e aos comportamentos essas mudanças parecem ter sido mais lentas (TELO, 2007, p. 384-385). Tratou-se do fim de uma era e início de outra. Acabou a ditadura e começou a democracia. O Governo passou a ser eleito em sufrágio universal, as colónias que até então se encontravam sob o domínio português foram descolonizadas, a censura foi abolida, os presos políticos foram libertados, a imprensa é livre e o direito de opinião um direito constitucional. Podemos afirmar que Portugal deu um salto político-social após o 25 de abril. A Revolução de 25 de abril de 1974 constitui um marco inquestionável neste percurso. Como o vêem os diretos intervenientes no processo? Como memorizaram e como rememoram esses cidadãos os eventos e as mudanças ocorridas?
37 Capítulo 2. – Resenha histórica da freguesia de Paranhos “Ali, a dois passos da cidade, do movimento, da rua inundada de vida, de pregões, do troar dos tamancos e dos múltiplos odores, abria-se um mundo bem diferente onde, para o da cidade que o descobriam, até o cheiro a terra lavrada era bálsamo e a madressilva o prenúncio do êxtase.” (MARQUES; FERNANDES; MARTINS, 1990, p. 69) Antes de falarmos da freguesia urbana que é hoje Paranhos convém recordar a freguesia rural, calma e serena que foi outrora. No site da Junta de Freguesia (http://www.jfparanhos-porto.pt/, 2015) é-nos contada a origem da mesma. Ficamos a saber que a localidade de Paranhos já existia mesmo antes da fundação do Condado Portucalense. Segundo Horácio Marçal em 1837 Paranhos passou a fazer parte da cidade do Porto (1º bairro administrativo) por carta de Lei de 27 – 9 – 1837. Até então a freguesia pertencia ao antigo julgado e depois comarca da Maia (MARÇAL, 1950, p. 9). Paranhos sempre fora bastante agrícola, tanto que, ainda em finais do século XIX, a maior parte dos seus habitantes eram agricultores, dado ser uma freguesia dotada de uma enorme quantidade de águas e solos férteis. Apesar de na freguesia de Paranhos a agricultura ser a principal atividade, no sentido em que era a atividade à qual a maioria dos seus habitantes se dedicava, existiam bastantes fábricas como as de tecidos, fósforos, curtumes ou louça de ferro (http://www.jfparanhosporto.pt/, 2015). A freguesia possuía uma intensa vida comercial e industrial, pois nela estavam localizados importantes estabelecimentos. Os solos férteis e a sua localização são as características que marcam a freguesia (http://www.jfparanhos-porto.pt/, 2015). Até ao século XX a zona da Asprela, por exemplo, era maioritariamente constituída por campos. No entanto, com a construção do Hospital de São João e a edificação de diversas universidades, a freguesia ganhou traços mais urbanos (FARIA, 1994, p. 8). Mas não nos podemos esquecer que até ao ano de 1945 não era possível entrar na cidade sem que se pagasse o imposto municipal, a estrada da circunvalação servia de fronteira para o efeito (http://www.jfparanhos-porto.pt/, 2015). Durante a 1ª Guerra Mundial a população rural massificou-se e emigrou para as cidades de Lisboa e Porto, como vimos. Na cidade do Porto, nas freguesias centrais, dá-se uma intensificação dos edifícios. As freguesias da periferia continuam a destacar-se as ilhas como
38 local de residência das classes mais baixas (MATOS, 1994, p. 686). Entre 1935 e 1950, no Porto, constroem-se 12 bairros com casas económicas, fazendo um total de 1662 alojamentos. Estes bairros localizavam-se nas freguesias periféricas. O crescimento demográfico da freguesia de Paranhos está ligado à evolução demográfica da cidade do Porto. A partir da segunda metade do século XIX, a cidade assistiu a uma alteração habitacional provocada essencialmente pela fixação da indústria têxtil do algodão. Deste modo, isto contribuiu para o aumento da população. Mas tal aconteceu também com a ajuda do desenvolvimento da rede de transportes rodoviária que atravessava a cidade (http://www.jfparanhos-porto.pt/, 2015). Paranhos é a maior freguesia da segunda maior cidade do país (FARIA, 1994, p.4). O crescimento da população tem vindo a ser constante ao longo dos anos. Depois de verificados alguns censos, podemos ver uma evolução até 1981, ano em que a população chegou aos 52 206 habitantes (PT, INE, 1981). Foi devido a esse crescimento demográfico que, a nível paisagístico, a freguesia se foi alterando. São os acessos que estão na base desta mudança. Muitos dos campos que existiam deram lugar à construção de habitações, bem como de edifícios institucionais. O século XX marcou a transição da freguesia para um cariz mais urbano. Gráfico 1. Evolução da População da Freguesia de Paranhos Fonte: http://www.jfparanhos-porto.pt/ A partir de 1991 verificou-se um decréscimo. No censo mais recente (2011), a freguesia regista 44 298 habitantes, uma diminuição de quase 8 000 habitantes (PT. INE, 2011). Apesar
39 do decréscimo verificado, Paranhos continuava a ser, segundo os censos de 2011 (PT. INE, 2011), a maior freguesia do Concelho do Porto, e a 5ª maior do país. Essa redução demográfica deve-se sobretudo aos fluxos migratórios da população, que opta por se fixar nos concelhos vizinhos (http://www.jfparanhos-porto.pt/, 2015). A freguesia conheceu uma notável melhoria dos arruamentos que ligam ao centro do Porto, permitindo chegar e partilhar da vida citadina. A própria VCI veio “sacudir” a vida da freguesia ao rasgá-la a meio, o que contribuiu para apagar os últimos sinais de ruralidade que conservou até ao final dos anos 1980 (Faria, 1994, p. 9 – 10). Em termos de emprego, segundo os censos de 2011 (PT. INE, 2011) a população de Paranhos dividia-se pelos diversos setores de ocupação da seguinte forma: 0,08% da população trabalhava na agricultura/pesca; 5,4% trabalhava na indústria; 7,8% está desempregado; 14,82% são estudantes; 27,77% são reformados; 32,14% trabalha nos serviços; e, 11,99% tem outras ocupações. Pelos dados recolhidos vemos que o setor que antes era aquele através do qual as famílias mais subsistiam é hoje o que possui o menor peso, encontrando-se quase extinto. Um dos fatores que contribuiu para o desenvolvimento da freguesia foi o regresso de muitas pessoas que tinham emigrado. O seu regresso permitiu a construção de casas e a implementação de lojas e fábricas, o que levou à atração de mais pessoas (http://www.jfparanhos-porto.pt/, 2015). Até há cerca de 30 anos, Paranhos oferecia a possibilidade de “viver-se na cidade com as vantagens da ubre e, ao mesmo tempo, auferir de uma tranquilidade campestre” (Faria, 1994, p.8). A transformação da freguesia decorreu essencialmente na segunda metade do século XX. Os traços que marcavam a sua ruralidade foram quase totalmente apagados (http://www.jfparanhos-porto.pt/, 2015). De novo, a questão é a de saber como recordam os seus moradores mais idosos essas transformações.
40 Parte II – Memórias Cruzadas
41 Capítulo 1. - Fontes e método de recolha e tratamento de informação 1.1 Fontes escritas Porque se pretendem coligir memórias cruzadas sobre as vivências das pessoas antes e depois do 25 de abril, as fontes utilizadas para a concretização desta dissertação foram principalmente as entrevistas, das quais irei falar de seguida. De forma a confrontar os olhares captados através das entrevistas foram utilizadas outras fontes, capazes de transmitir outros olhares e outros indicadores, nomeadamente jornalísticos e estatísticos, sobre a realidade em análise. Entre essas fontes destacamos a recolha de dados nos jornais locais, referentes à freguesia de Paranhos, O Jornal Lusitano: Pelo Povo Português (1930 – 1966), o jornal Perfil de Paranhos (1982) e o jornal A Vida de Paranhos (1992), que foram os jornais encontrados com notícias pertinentes sobre a freguesia em estudo. A pesquisa realizada recaiu em notícias relacionadas com o 25 de abril, o Estado Novo, Salazar, o analfabetismo e a escolarização. O primeiro jornal mencionado foi editado entre os anos de 1933 e 1966, ou seja, durante o Estado Novo. Este jornal falava de todas as freguesias da Cidade do Porto, mas os números que selecionei foram os que falavam apenas de Paranhos. Em oito números do jornal analisados, sendo que o primeiro está datado 1933 e o último 1959, as notícias são praticamente as mesmas, e centravam-se nos “Melhoramentos públicos” e nas “Pretensões locais”. O jornal leva a crer que muito era feito pela freguesia e que esta evoluía graças à intervenção de Salazar na mesma. Aliás, no número 9, li uma notícia onde se elogiava a intervenção de Salazar na freguesia de Paranhos e de como esta era a que mais beneficiava. No entanto, os melhoramentos pouco existiram no espaço de 16 anos. O segundo, Perfil de Paranhos, teve início no ano de 1982, oito anos após o 25 de abril. As suas notícias apontam para o que se tinha alterado na freguesia, quais as modificações e evoluções na mesma. Por último, A Vida de Paranhos é o mais recente, com data de início para 1992 e que ainda hoje faz parte da distribuição trimestral da freguesia. A aposta na formação de adultos e o investimento em escolas, bem como no melhoramento da rede rodoviária na freguesia são, como veremos, os aspetos mais salientes desta publicação.
48 Não posso especificar o tempo médio de duração das entrevistas: cada uma teve uma duração diferente. A entrevista que demorou menos tempo foi de 50min e a que demorou mais tempo foi de 1h46min. Isto aconteceu porque nenhuma entrevista é feita de forma igual e nem os entrevistados são iguais. Temos pessoas que se sentem muito à vontade para falar, mas também aquelas que dão respostas muito diretas e que se sentem pouco à vontade para desenvolver mais reflexões ou declarações sobre determinados assuntos, mesmo quando perguntadas. Ao longo das entrevistas tive que adequar o discurso para que o entrevistado entendesse aquilo que lhe estava a ser perguntado, ou seja, por vezes foi necessário reformular as perguntas para que as compreendessem melhor. Em algumas ocasiões precisei acrescentar, trocar a ordem e, ainda, suprimir algumas perguntas. Isto porque em alguns casos, os entrevistados já me tinham respondido àquela questão anteriormente no seguimento do seu discurso. Por vezes, foi preciso reordenar as perguntas para ir de encontro ao que o entrevistado estava a falar. Noutras situações, no momento da entrevista, fui-me lembrando de perguntas pertinentes que achei por bem colocar ao entrevistado, mesmo correndo o risco de me desviar da pergunta seguinte. Note-se, porém que como se disse, o guião era apenas um meio de orientação dos assuntos a ser abordados, não uma estrutura de questionário fixo. A fluidez da conversa dependia do entrevistado. Há pessoas que compreendem logo a pergunta, mas outros não. Há pessoas com as quais percebemos que podemos esmiuçar um determinado assunto e colocar mais questões. E o contrário também acontece, existindo entrevistados que se percebe, pelas suas respostas ou fuga às mesmas, que o melhor é não aprofundar mais o assunto. Cabe ao entrevistador avaliar esta situação, ou seja, perceber de que forma estão reunidas as condições para que o entrevistado nos responda a determinada questão. Foram realizadas seis entrevistas no total, como já foi referido anteriormente, durante as seis semanas em que me pude deslocar ao Centro de Dia. E foram solicitadas a todos autorizações para o registo da entrevista e uso do respetivo material. Não pudemos estabelecer critérios muito rigorosos ou restritivos à constituição desse universo. Contamos com as caraterísticas e a disponibilidade da população residente. Entre os 6 entrevistados encontram-se dois homens e quatro mulheres. Ao longo do próximo capítulo as entrevistas irão aparecer citadas usando o nome real dos entrevistados. Uma vez que os entrevistados autorizaram a utilização no material recolhido e não existe qualquer entrave em usar o nome verdadeiro.
49 Relativamente aos homens, entrevistei o senhor Manuel Joaquim dos Santos, nascido a 27 de Novembro de 1941 (83 anos). O senhor Manuel é casado e tem um filho e ao longo da sua vida teve sempre a mesma ocupação, mecânico de automóveis. E também o senhor José Manuel Ferreira da Silva, com 77 anos (data de nascimento: 15 de Fevereiro de 1938). O senhor José é viúvo e tem um filho. Ao longo da sua vida foi sempre eletricista na EFACEC. No que diz respeito às mulheres, entrevistei a dona Maria Alice Pereira Santos, nascida a 2 de Janeiro de 1928 (77 anos), cujo estado civil é divorciada. Tem um filho. Ao longo da sua vida foi sempre empregada doméstica. A dona Maria Amélia Machado que é viúva, nasceu a 27 de Novembro de 1941 (74 anos). Tem seis filhos, três rapazes e três raparigas. Não teve mais nenhuma ocupação na sua vida para além de costureira. Entrevistei também a dona Conceição Ferreira de Sá campos, casada e com 87 anos (data de nascimento: 21 de Março de 1928). Tem um filho e ao longo da sua vida teve várias ocupações. Por último, a dona Ana Júlia Finteiro Borges, nascida a 30 de Maio de 1926 (89 anos), viúva. Não teve filhos. E foi sempre costureira. Tão importante como a recolha de depoimentos foi o tratamento da informação recolhida. As recomendações quanto às técnicas de transcrição são claras. Todas as entrevistas devem ser transcritas rigorosamente. Sabe-se que quando chegamos à fase da transcrição, esta deve ser realizada unicamente por nós. É um trabalho extremamente demorado e lento. Deve ser extremamente rigoroso e fiel à entrevista. Pode-se afirmar que colocar pontuação na transcrição já se introduz alguma alteração (POIRIER; CLAPTER-VALADON; RAYBAUT, 1995, p. 54). É através da escuta, várias vezes, das gravações, que asseguramos que o escrito é a reprodução na íntegra do que foi dito. No que toca aos erros na linguagem corrente, estes fazem parte do discurso do entrevistado e, como tal, devem estar transcritos tal e qual são ouvidos. “São elementos da personalidade do locutor, do seu meio, da espontaneidade da narrativa.” (POIRIER; CLAPIERVALLADON; RAYBAUT, 1995, p. 59). Devemos também ter em conta os gestos do entrevistado aquando da entrevista. É por isso desejável que a pessoa que analisa, ouve e transcreve a entrevista seja o entrevistador. Tudo isto constituiu a minha preocupação durante o trabalho de transcrição das entrevistas. A segunda fase é a de releitura. Esta fase é indispensável. Uma nova leitura; a indicação de palavras sem seguimento; a inclusão de pontuação que e reproduza a entoação presente na oralidade; a colocação das maiúsculas (POIRIER; CLAPIER-VALLADON; RAYBAUT, 1995, p. 61), são fases subsequentes, que segui.
50 Por fim, procedeu-se à transcrição definitiva das entrevistas e a sua compilação para apresentar em Anexo da dissertação (Anexo I). Escolhi apresentar a transcrição das entrevistas, já numa versão mais cuidada, com um discurso lógico e sem pausas, pois existe informação que não está presente ao longo da tese, mas que poderá ser interessante para o leitor, através da leitura das seis entrevistas que realizei. Com base na estrutura de tópicos definidos: Família; Rotinas familiares; Saúde; Escolaridade; Trabalho; Intervenção Política; o 25 de abril, passamos então à análise das informações proporcionadas pelas entrevistas (fonte maioritária de informação), cruzando-as com as recolhidas também em Jornais e Recenseamentos, tendo em conta os quadros de contextualização analisados na Parte I deste trabalho. Isto é, para a realização do próximo capítulo irei utilizar maioritariamente as entrevistas e em alguns casos cruzar essa informação com os censos e os jornais analisados. Algumas vezes terei de remeter para a contextualização histórica presente na Parte I da dissertação.
51 Capitulo 2. – Olhares cruzados 2.1 A Vida em família Em geral, a família de origem dos entrevistados é uma família numerosa, quase sempre com muitos filhos, o que acarreta sempre mais despesas. Por norma, os pais trabalham nos campos e as mães como empregadas domésticas, costureiras ou trabalhavam numa mercearia ou, por vezes, ambos os pais nos campos. Ao contrário de algumas famílias do Estado Novo em que o papel da mulher era ficar em casa (como iremos ver em seguida) a cuidar da mesma e dos filhos, estas famílias necessitavam que os dois pais trabalhassem. Existem também alguns casos, entre os entrevistados, em que o pai faleceu e a mãe teve de assumir o papel de sustento da família. Face a estas situações eram os familiares que tinham que os ajudar. A família funcionava como rede de apoio em caso de necessidade. Noutros casos os entrevistados foram mandados para casa de algum familiar onde passaram grande parte da sua infância e adolescência. É interessante notar que de famílias numerosas que eram os seus ascendentes, passa-se para famílias mais reduzidas, como se pode ver pelo número de filhos de cada entrevistado, conforme indicado no seu perfil. Como se sabe, a ideologia do Estado Novo assentava em três princípios: “Deus, Pátria, Família”. Esta trilogia nunca foi explícita em diplomas legais embora estivesse bem explícita nos manuais escolares permitidos nas escolas. No entanto, foi através da mesma que se tentou passar a mensagem de que a família era acima de tudo o exemplo, ou deveria ser, dos bons costumes e da moral aprovada. A Ilustração de Martins Barreto, intitulada “Deus, Pátria, Família”, evidencia isso mesmo. (MEDINA, 1995, p.15). Nessa ilustração é-nos apresentada a mensagem que Salazar queria fazer passar: a de um Portugal conservador, tradicional e, acima de tudo, defensor da ruralidade. Podemos verificar no cenário reproduzido que se trata de uma casa de camponeses, sem eletricidade nem tão pouco provida dos modernos aparelhos tecnológicos de uso doméstico. Trata-se de um lar tradicional e tradicionalista. Não existe qualquer alusão a um mundo industrial e moderno. Aqui retrata-se uma sociedade onde “não há lugar para sobressaltos, agitações, protestos, quezílias, arruaças comicieiras ou sindicais, propaganda, gazetas que turvam as mentes” (MEDINA, 1995,
52 p. 24). Ou seja, o lar ideal, bem como a sociedade perfeita era aquela que jamais poria em causa os valores propagados por Salazar, nem tão pouco se manifestava contra. Ilustração 1. “Deus, Pátria, Família” Fonte: http://biclaranja.blogs.sapo.pt/2014/02/ Salazar fazia crer, ou pelo menos tentava, que as pessoas só precisavam de viver com o estritamente necessário para uma vida “simples”. Na ilustração acima, a casa não precisava de eletricidade, tinha a luz do dia. Era, acima de tudo, humilde e limpa. A mulher e os filhos deveriam esperar pelo chefe de família em casa. A mulher não deveria trabalhar, mas sim estar em casa a cuidar da mesma e dos filhos. Mas esta ilustração não passava de uma representação de um quadro ideal, concebido pelo Regime. (MEDINA, 1995, p. 24) As pessoas não conseguiam viver nestas condições. As mulheres precisavam de ajudar a sustentar a casa, os filhos não podiam ser crianças porque tinham de trabalhar. E muitas vezes o pai estava ausente. Era preciso trabalhar para pôr pão na mesa. Os filhos não tinham direito a frequentar a escola ou a prosseguir os estudos. As prioridades concentravam-se em roupa e comida. Por isso era preciso que todos trabalhassem.
53 Tendo esta realidade como pano de fundo, uma das perguntas feitas aos entrevistados era como é que eram as suas famílias e em que é que trabalhavam os seus pais (perguntas 3 e 3.1 do Guião). O senhor Manuel tinha mais uma irmã e os pais trabalhavam na lavoura. “E eu também!”. O senhor Manuel teve que ajudar os pais muitas vezes nos campos para que tivessem comida na mesa. (Manuel Santos) “A vida era complicada naquele tempo. Muito complicada. A minha mãe passou muitas dificuldades. A minha mãe trabalhou muito” (Amélia Machado). A mãe era empregada doméstica e o pai trabalhava na construção civil. Mas arranjava muitos problemas no trabalho e por isso a mãe é que muitas vezes teve que trabalhar sozinha para poder cuidar das três filhas e manter a casa que tinham (Amélia Machado). Mais tarde a dona Amélia foi mandada para casa de um familiar onde sempre foi bem tratada e onde nunca lhe faltou nada, mas recorda o tempo de Salazar como um tempo de dificuldades. “Foi uma vida difícil. Ainda me lembro de ser pequenina e de a minha mãe ir lá pra baixo com as senhas para a bicha, para a Trindade. E na Trindade havia senhas para a cevada. Havia racionamento. Mas era muito difícil. As pessoas antigas passaram muitas dificuldades. Muitas. Sabe que o Salazar não era meigo, quem não trabalhasse não havia subsídio. Não havia nada. Não davam nada a ninguém.” (Amelia Machado) O pai da dona Conceição era músico e, naquela época, não ganhava para sustentar a família. A mãe chegou a ter uma mercearia. O pai morreu quando ela ainda era pequena e a mãe ficou sozinha com oito filhos para criar e uma casa para pagar. Foi então trabalhar para os campos. As irmãs mais velhas tiveram que ir trabalhar para ajudar a acabar de pagar a casa. A própria dona Conceição, aos 12 anos, foi trabalhar num tasco, em Vale Formoso, onde se encontra o atual centro de saúde, para ajudar a pagar a casa (Conceição Campos). A vida da dona Alice também não foi mais fácil. Contou que o pai “trabalhou aqui no Porto, na fábrica de Salgueiros. Morreu aos quarenta e quatro” e “a (…) mãe, viúva e com quatro filhos, andava nos campos de lavradores. E ao sábado ia para um tintureiro.” Afirma que “foram sempre pobrezinhos” e como a mãe não tinha possibilidades teve que vir morar para casa da madrinha ainda pequena. “ (…) Vim para aqui pequenina. A minha mãe tinha três meninas, as duas mais velhinhas eram as meninas da mamã. Eu quando vim já não me queriam… botaram-me para aqui para a minha madrinha. Ela era irmã da minha mãe, mas a minha madrinha nunca me bateu. Mas não era nada meiga, nunca teve um carinho (...) Depois tinha sete aninhos fui servir… fui servir para umas senhoras que me ensinou a ser gente” (Alice
54 Santos). Como não quis, ou não pôde, estudar, aos 7 anos começou a trabalhar como empregada doméstica. Apesar de nunca lhe ter faltado nada, teve que trabalhar muito. Mas o trabalho da mulher não era tão bem remunerado como o do homem, nem tão prestigiado (Alice Santos). E a sua família tinha problemas financeiros? “Pois teve!” Esta foi mais uma resposta, igual a tantas outras. A vida naquele tempo não era fácil e o senhor José da Silva confirma-o “a minha mãe era vendedora de fruta e o meu pai era refinador de açúcar e aos 30 e poucos anos adoeceu… a minha mãe era a única a sustentar quatro filhos, o que tornou complicado sobreviver e ajudar os próprios filhos. A nossa sorte foi que a nossa família se apercebeu do que se estava a passar e ajudou-nos muito. Puseram logo os mais novos no colégio, a mim num instituto, e a minha irmã num colégio de raparigas. Se não fossem os meus tios não sei o que teria sido de nós. Sozinha a minha mãe não conseguia sustentar-nos a nós e à casa, nem sequer pôr-nos na escola. Ainda assim foram tempos difíceis.” (José da Silva) “A minha mãe era costureira e o meu pai era segundo sargento. Tínhamos muitas dificuldades. A minha mãe costurava muitas vezes até às 3h e 4h da manhã para ganhar dinheiro para os filhos” (Júlia Borges). Todos contam as dificuldades que tiveram quando eram crianças e jovens. Muitos deles perderam a infância porque tiveram que trabalhar cedo. As mulheres não ficavam em casa. Nem podiam. O dinheiro que o marido ganhava não chegava para sustentar uma família. O ideal de família de Salazar estava longe de ser perfeito e concretizável. Todos tinham que ajudar, em grande parte devido às dificuldades em que se encontrava o país, principalmente nas zonas rurais. E não esqueçamos que Paranhos até há 50 anos atrás era uma das freguesias mais rurais da cidade do Porto. Em todo o caso, nestes depoimentos encontram-se algumas constantes que importa não deixar de lembrar: a solidariedade de algumas famílias alargadas, a morte do cabeça de casal e o papel essencial, na família, da mulher viúva ou casada, a ideia de que quem governa a casa, e administra o dinheiro é a Mãe. Numa comunidade de natureza rural, numa cidade de pendor urbano, o trabalho no campo e o serviço doméstico na cidade são duas vias paralelas, e englobam também as mulheres, mães e filhas, em simultâneo.
55 2.2 A escolaridade O Ensino, no decurso do Estado Novo, afirma-se com uma forte componente de divulgação ideológica e de instrução moral. Visto, inicialmente, de forma cautelosa, rapidamente se transformou em mais um veículo através do qual o Estado propagava e difundia os seus ideais, ainda que não abrangesse toda a população. Convém esclarecer a escolaridade que cada um dos entrevistados tem. Neste sentido, começo pelos senhores. O senhor José da Silva tem a 4ª classe e depois prosseguiu os estudos numa escola onde esteve a estudar música. O senhor Manuel Santos tem a 4ª classe. No que toca às senhoras, na família da dona Conceição, com seis irmãs e dois irmãos, apenas ela e o irmão mais novo é que frequentaram a escola, e ela tem a 3ª classe. Tanto a dona Amélia Machado como a dona Júlia Borges têm a 4ª classe. A dona Alice Santos não foi à escola como os outros utentes ainda em criança, pois teve que ajudar a mãe que ficou viúva e com uma casa para pagar. No entanto, conta que quando tinha 25 anos, saiu uma lei segundo a qual até aos 30 anos tinham que ter a 3ª classe. E assim foi. Aos 32 anos decidiu que queria tirar a 4ª classe e conseguiu. Pedi aos entrevistados que me contassem como funcionava a escola naquele tempo (pergunta 2.3 do Guião). Havia a separação rapazes para um lado raparigas para o outro? “Os rapazes não estavam juntos com as meninas como estão agora. Os rapazes estavam numa escola e as meninas noutra. Era diferente.” (Júlia Borges). Contam que havia escolas separadas para raparigas e rapazes. Era uma escola para os meninos e outra para as meninas. “Antigamente não havia o misto. Havia só raparigas e rapazes todos isolados. Havia a escola das raparigas e havia a escola dos rapazes” (José da Silva). Das pessoas que entrevistei apenas o senhor José Manuel tem mais estudos do que a 4ª classe. Alguns dizem que por opção própria, outros porque a vida assim o exigiu. Depois de ter concluído a 4 ª classe foi para uma escola de música, na qual fez parte da Mocidade Portuguesa, e já em idade adulta, tirou o 9º ano. Dos entrevistados que têm irmãos, estes também andaram na escola. No entanto, nenhum foi para além da 3ª ou da 4ª classe. O Ensino do Estado Novo afirma-se como uma forte componente de divulgação ideológica e de instrução moral. Era visto, inicialmente, de forma reprovadora, mas logo se esfumou esse pensamento, pois tratava-se de mais um veículo através do qual o Estado propagava e difundia os seus ideais. Na década de 1930, no que toca à educação, a Cidade do Porto não é exceção à tendência geral.
56 Até ao ano de 1940 a taxa global (Homens e Mulheres) de analfabetismo, apesar de alta, diminuiu quase 20% no Distrito do Porto em relação ao início do século (60,5% em 1911 e 42,1% em 1940) (PT. INE, 1940, p. 18). As taxas de analfabetismo do Porto eram consideravelmente superiores às de Lisboa, no entanto, eram inferiores às do resto do país. Ao contrário do que aconteceu em Lisboa, a diminuição da taxa de analfabetismo no Porto foi maior para as mulheres do que para os homens. Mesmo com uma taxa superior à de Lisboa, o Porto regista uma redução do analfabetismo maior do que a da capital (PT. INE, 1940, p. 18) talvez devido ao maior desnível prévio. No quadro seguinte apresentam-se as taxas de analfabetismo de 1930 a 2011, de acordo com os censos realizados. Uma análise circunstanciada destes dados está disponível no Anexo II. Quadro 1. Evolução da taxa de analfabetismo na cidade do Porto (1930-2011) 11 Censos Total da População Não sabe ler nem escrever Taxa total de analfabetismo Homem Mulher Homem e Mulher Homem Taxa de analfabetismo masculina Mulher Taxa de analfabetismo feminina Homem e Mulher 1930 84 626 106 620 191.246 16 620 19,63% 48 268 45,27% 64 888 33,92% 1940 96.219 122.172 218.391 17.963 18,66% 52.847 43,25% 70.810 32,42% 1950 102.337 134.758 237.095 9.515 9,29% 39.181 29,07% 48.696 20,53% 1960 115.194 151.722 266.916 7.895 6,85% 34.558 22,77% 42.453 15,90% 198112 726.363 783.829 1.510.192 145.981 20,09% 207.648 26,49% 353.629 23,41% 1991 137.914 164.558 302.472 2.182 1,58% 10.962 6,66% 13.144 4,34% 2001 SI SI 263.131 SI SI SI SI 20.336 7,72% 2011 108.104 129.487 237.591 4.660 4,31% 8.277 6,39% 12.937 5,44% Fonte: Instituto Nacional de Estatística Legenda: SI – Sem informação 11 No quadro não aparece nenhum dado referente ao censo de 1970, pois não tivemos acesso aos dados desagregados relativos à cidade e distrito do Porto, como ocorreu com os restantes, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística. Porque os critérios de recenseamento não foram sempre uniformes, há anos para os quais não dispomos de dados. 12 Para este recenseamento, de 1981, não conseguimos aceder a dados relativos à cidade, pelo que trabalhamos com os dados relativos ao distrito do Porto, conscientes de que estamos a trabalhar com universos com perfis diferentes, pela diversidade do perfil dos universos considerados.
57 É notória a evolução das taxas de alfabetização, pela diminuição constante das taxas de analfabetismo. No entanto, entre os anos de 1930 e 1940 a taxa de analfabetismo pouco regrediu. Podemos assumir que uma das causas dessa situação era o facto de alguns setores do Estado defenderem a inutilidade de alfabetizar os camponeses (BRITO; ROSAS; 1996: p. 46). Para o crescimento desta taxa contribui ainda a falta de cumprimento da escolaridade obrigatória, principalmente nas regiões rurais mais pobres. Com a subida de Salazar à Presidência do Conselho de Ministros a situação conheceu uma alteração. Embora Salazar reconhecesse os perigos que representava a extensão da escolaridade a todas as camadas sociais, pela facilidade de leitura e pela circulação de obras que eram consideradas prejudiciais, ao regime, acabou por reconhecer como mais vantajoso proporcionar escola a todos, desde que o Estado exercesse um apertado controlo sobre aquilo que era ensinado. Assim, a alfabetização seria um excelente meio de propaganda político-ideológica, permitindo divulgar o ideário do novo regime. Através do quadro anterior, podemos verificar que até bastante tarde a taxa de mulheres analfabetas é muito superior à dos homens. Isto parece revelar o tradicionalismo da sociedade portuguesa em relação ao papel social da mulher (BRITO; ROSAS; 1946, p. 46). Poucas eram as mulheres que tinham acesso ao ensino, uma vez que o seu papel seria cuidar da casa, do marido e dos filhos e, muitas vezes, trabalhar no campo ou em fábricas, desde muito novas. A região do Norte do país é a mais densamente povoada e, como tal, acaba por ter uma maior concentração de população analfabeta do continente. A descida da taxa de analfabetismo traduz um movimento regular nas últimas décadas que é associado a dois fatores: “a substituição progressiva de uma camada mais idosa da população, tradicionalmente com maiores índices de analfabetos, e a maior escolarização dos jovens em idade escolar” (MELO, 1993, p. 201). O Grande Porto é a sub-região mais homogénea em termos de taxas de analfabetismo, uma vez que todos os concelhos que a constituem apresentam baixas taxas. A diminuição progressiva do analfabetismo relaciona-se com a escolarização dos jovens. A evolução deste fator aponta para o alargamento do acesso das populações ao sistema escolar, tanto pelo aumento da frequência como pelos níveis de ensino atingidos (MELO, 1993, p. 209). Mas este não é o único fator que contribuiu para a diminuição da taxa de analfabetismo. A frequência do ensino primário torna-se obrigatória para os adultos, pois sem o diploma de instrução primária restringia-se o acesso ao trabalho na indústria e comércio, assim como a impossibilidade de obter a carta de condução (BRITO; ROSAS, 1996, p.47).
64 Atualmente os números são bem mais positivos: em 1975, a taxa de mortalidade infantil era de 38,9%; em 2011 era de 3,1%; em 1975, a taxa de mortalidade materna era de 42,9 por cada cem mil, enquanto em 2011 era de 5,2 por cada cem mil; em 1975, morreram 6991 crianças com menos de 1 ano; em 2011 faleceram 302. (https://bwizer.wordpress.com/2014/04/25/o-25-de-abril-e-o-servico-nacional-de-saude/, 2014) Podemos ainda analisar a esperança de vida em Portugal antes e depois do 25 de abril até a atualidade no seguinte quadro disponibilizado no site PORDATA (PORDATA, 2015): Tabela 1. Esperança média de vida em Portugal Total Masculino Feminino 1960 x 60,7 66,4 1970 67,1 64,0 70,3 1971 66,8 63,6 70,1 1972 68,5 65,3 71,5 1973 67,6 64,5 70,7 1974 68,2 64,8 71,4 1975 68,4 64,7 72,1 1976 69,0 65,3 72,6 1977 70,1 66,5 73,7 1978 70,5 67,0 73,8 1979 71,0 67,9 74,6 1980 71,1 67,8 74,8 1981 71,7 68,2 75,2 1982 72,5 69,0 76,0 1983 72,4 68,9 75,8 1984 72,6 69,1 76,1 1985 72,9 69,4 76,4 1986 73,4 69,9 76,8 1987 73,8 70,3 77,2 1988 73,8 70,3 77,3 1989 74,4 70,9 77,8 1990 74,1 70,6 77,5 1991 74,1 70,6 77,6 1992 74,4 70,8 78,0 1993 74,6 71,0 78,2 1994 75,0 71,5 78,5 1995 75,4 71,8 79,0 1996 75,3 71,7 79,0 1997 75,5 71,9 79,1 1998 75,8 72,2 79,4 1999 76,0 72,5 79,6 2000 76,4 72,9 79,9 2001 ┴ 76,7 ┴ 73,3 ┴ 80,1 2002 77,0 73,6 80,2 2003 77,4 74,1 80,6 2004 77,7 74,4 80,9 2005 78,2 74,8 81,3 2006 78,5 75,2 81,6 2007 78,7 75,5 81,8 2008 78,9 75,8 81,9 2009 79,3 76,2 82,2 2010 79,6 76,5 82,4 2011 79,8 76,7 82,6 2012 80,0 76,9 82,8 2013 80,2 77,2 83,0 Anos Ano (idade) - Média Sexo Fonte: PORDATA Legenda: ┴ Quebra de série X valor não disponível
65 Como vemos, a esperança de vida em Portugal tem vindo a crescer ao longo dos anos, sendo que a idade média de vida para a mulher é mais elevada do que para os homens. Podemos afirmar que a esperança de vida cresceu mais de 16 anos tanto para os homens, como para as mulheres, uma vez que em 1960 a esperança de vida para o homem ficava pelos 60,7 anos e para a mulher nos 66,4 anos, e em 2013 a esperança de vida para os homens ficava nos 77,2 anos e para as mulheres nos 83 anos. É uma subida bastante significativa, em 43 anos. Estes indicadores de melhoria devem-se também à implementação de um sistema nacional de saúde e à melhoria das condições de vida, cujos benefícios parecem ter passado despercebidos aos entrevistados. 2.5 Como era sentida a opressão durante o regime ditatorial Como disse anteriormente, algumas vezes foi necessário adaptar o guião conforme a entrevista decorria. O mesmo aconteceu em relação às questões. As do guião estavam sempre presentes, mas por vezes fazia todo o sentido acrescentar uma ou outra pergunta. Quando comecei a abordar assuntos como o Salazar, o 25 de abril e a PIDE, as respostas eram muito reservadas. Os entrevistados pareciam que tinham medo de falar daqueles assuntos. Por isso foi necessário colocar outras questões, umas mais concretas, outras que fizessem o entrevistado sentir-se à vontade para responder. Foi neste sentido que a dada altura questionei o senhor José do porquê de as pessoas quererem acabar com o Salazarismo. A sua resposta foi imediata: “Queríamos acabar com o Salazarismo porque a situação atual era insuportável. E já havia um descontentamento a nível oficial. Os próprios militares estavam descontentes. As pessoas queriam acabar com aquele regime ditatorial que já não fazia mais sentido, queriam terminar com as desigualdades e poderem andar na rua sem ter que olhar para todo o lado certificando-se que não estaria um agente da PIDE por perto e que, por algum motivo (bastava uma desconfiança), os prendesse. O clima de repressão era notório, as pessoas queriam libertar-se” (José Silva). Afinal nem tudo era o “mar de rosas” que Salazar sempre quisera passar. As pessoas sentiam-se reprimidas. Como disse o senhor José queriam libertar-se daquele regime, queriam andar nas ruas sem medo. Questionei os entrevistados através de que meios é que sabiam o que se passava no país. A dona Amélia, a dona Conceição e o senhor José responderam que era através da televisão e da
66 rádio que o faziam. “Eu televisão só tive depois que casei, mas tinha rádio e era por aí que ouvia as notícias” (Amélia Machado). Perguntei se notava que havia censura ao que a dona Amélia me respondeu: “Isso eu vi. Sabe porque é que eu sei que havia censura? Não era porque eu me interessasse, mas nós, as senhoras, as vizinhas dávamo-nos muito bem, e havia aquelas senhoras mais vivaças. Depois juntavam-se todos, íamos para casa de uma. Eu ainda era cachopa. E nós íamos para casa de uma e elas punham-se na rádio Moscovo. E era proibido isso. A PIDE andava pelas ruas. E essas senhoras que faziam? Punham não sei o quê em cima do rádio que assim quem passasse nas escadas não ouviam. Mas Salazar não deixava! Ai de alguém que ouvisse!” (Amélia Machado). Também a dona Conceição e o senhor José confirmam que sabiam que a censura estava presente no seu dia a dia. “Notava, notava! Não deixavam passar qualquer programa. Não podiam!” (Conceição Campos). “Na televisão também havia censura. Toda a informação era passada por uma equipa de fiscalização ao próprio texto. Havia pessoas com capacidade de avaliar se o texto podia ir para a frente ou não. Se não voltava para trás. Por isso tinha que se arranjar um meio de saber as coisas. Por exemplo, lá na EFACEC informavam-nos através de panfletos que deixavam lá no quarto de banho e quando a gente ia lá e é que víamos. Sem sabermos quem é que punha lá aquilo.” (José Silva). Posto isto, fazia todo o sentido aprofundar ainda mais um pouco o tema da censura e consequentemente a falta de liberdade de expressão, pelo que coloquei a seguinte: E sentia que havia falta de liberdade de expressão? Ao que me foi respondido o seguinte: “Não podíamos falar. Senão íamos logo para a cadeia. Aquele que desse à língua ia logo preso. Eram mais homens do que mulheres. A gente no café tinha que ter muito cuidado, porque iam para lá os polícias e a gente não sabia quem eram porque iam à civil. Eles iam para lá para ver se falávamos na política” (Júlia Borges). A dona Conceição sabia que as pessoas não podiam falar o que queriam e contou um episódio que aconteceu ao seu primeiro marido: “Ora bem, eu não sentia falta de nada, porque a gente não falava assim com ninguém. O meu primeiro marido é que foi preso pela PIDE. Não fez nada. O meu marido vinha a passar na Rua Passos Manuel e havia um comício no Coliseu. E ele queria passar e estava tudo cheio de gente e diz assim “Olha que doença! Grande doença!” e puseram-lhe logo a mão. Esteve dois meses na PIDE. Ao fim de dois meses mandaram-no embora. E depois é que soube que não se podia dizer nada. Eu nunca julguei que não se pudesse falar” (Conceição Campos).
67 Questionados sobre a atuação da PIDE (E que memórias tem em relação à PIDE?) as respostas foram bastante idênticas. O senhor José afirma que a PIDE “Foi desastrosa, para a própria sociedade! As pessoas fechavam-se em casa. Não podíamos estar numa rua, se eu encontrasse um amigo não podia estar numa rua, numa esquina, se eu demorasse mais tempo já julgavam que a gente estava a falar da PIDE. E havia muitos à civil. Por isso é que andávamos sempre de voz baixa. Para evitar que eles pudessem ouvir qualquer coisa contra o Salazar, qualquer coisa do regime e quererem averiguar se participávamos em algum partido político ou em alguma coisa desse género” (José Silva). A dona Amélia conta que agora temos liberdade para andar na rua, mas antes não era assim. “ Hoje a menina vai no passeio e encontra um monte de pessoas a falar. Naquele tempo se houvesse uma gentinha ali no meio a polícia vinha logo e mandavam dispersar “Não podem estar aí”. Não podia haver muita gente junta na rua. Não deixavam. E lembro-me que andavam sempre aos pares. Andavam sempre a vigiar. Ouvia-se dizer que eles até iam de noite buscar as pessoas a casa” (Amélia Machado). Também a dona Júlia tem memórias desta polícia que trabalhava para Salazar, “Uma vez, estávamos a almoçar e bateram à porta de um casal, queria falar com o marido dela. E ele era dos que falava muito no café. E levaram-no preso. E batiam-lhes muito… na PIDE” (Júlia Borges). Sabemos já que as pessoas estavam descontentes com aquele regime, mas de que forma é que se manifestavam? Iam para as ruas demonstrar o seu descontentamento? “No dia 1 de Maio. Dia do Trabalhador. Eramos corridos. No dia 1 de Maio, quando era o dia do Trabalhador a gente ia ali para a Praça da Liberdade. Eramos enxotados. E eu participava. Ia para lá como os outros. Nem sabia o que ia fazer, mas ia com os outros.” (José Silva). A dona Conceição sabe que existiam essas manifestações, mas afirma de imediato “Se fosse contra Salazar iam presos” (Conceição Campos). A dona Amélia conta um episódio que aconteceu durante uma manifestação dos estudantes e da atuação da PIDE perante estes casos, “Eu lembro-me uma vez, houve uma confusão muito grande, eu era nova. E depois havia polícias que desancavam a torto e a direito. E depois ainda se iam gabar do que faziam. “Eu bati, eu fiz e aconteci”. E (…) ali nos Leões, houve uma confusão. E depois veio no jornal que um polícia bateu em jovem, o filho dele chega a casa todo partido de um coça que tinha levado de um colega dele. Ele não se lembrou que também tinha um filho estudante. Ele a bater por um lado e outros colegas a bater no filho dele. Isto era muito complicado. Isso era a missão deles,
68 tinham que parar. Mas a polícia batia a torto e a direito. E havia muita gente que era contra os estudantes” (Conceição Campos) Posto isto, era necessário perguntar o que acharam do período em que Marcelo Caetano esteve no poder, uma vez que este período (também conhecido como Primavera Marcelista) se caracteriza por ser um pouco mais aberto relativamente ao Salazarismo. Era então importante perguntar se tinham lembranças sobre a Primavera Marcelista e se achavam que a situação se tinha alterado. Prontamente, o senhor José respondeu, “Lembro-me. Para mim alterou. Ele queria mudar alguma coisa. Ele dizia que os ricos tinham que apertar mais o cinto. Ele queria melhorar as coisas para os pobres. Queria melhorar as coisas a nível social. Lembro-me que ele queria melhorar os salários. Foi ele que deu mais acesso à mulher. Mas muita gente não se lembra da ideia que ele tinha para o futuro da nossa sociedade. Mas os ricos não gostaram. Eu lembro-me que na altura havia um contrato de trabalho em que nós estávamos todos satisfeitos e os grandes senhores não queriam que esse contrato saísse cá para fora. Isto tudo acabou por vir o 25 de abril. Surgir a própria sociedade, uns desenrascaram-se, outros acabaram por sofrer com as alterações. E felizmente as mulheres ganharam liberdade” (José Silva) A dona Conceição partilha da mesma opinião, “Lembro-me. E digo-lhe uma coisa eu gostava do Marcelo Caetano. Acho que não deviam fazer o que fizeram. Mas o Marcelo Caetano… era ministro lá, mas era um bocado contra, mas era o emprego dele. Mas ele quando ficou já nos fez alguma coisa. Já nos fez alguma coisa. Deu mil euros (sic), por igual, a cada pessoa. E aqueles maiores não gostaram. Começou a melhorar a situação” (Conceição Campos). 2.6 Da Ruralidade à Urbanização Como vimos na Parte I do trabalho, quando falamos da freguesia de Paranhos referimos a sua evolução e de como passou de uma freguesia extremamente rural para uma freguesia urbana. Paranhos sempre fora uma das freguesias com traços mais rurais da cidade do Porto, a par de Campanhã. Hoje já é uma freguesia dotada de equipamentos de saúde e estabelecimentos de ensino, repleta de prédios e ruas movimentadas. Esta evolução deu-se maioritariamente após o 25 de abril. No jornal da freguesia, O Lusitano: pelo povo português (1933 - 1966), publicado no tempo de Salazar, em que a censura fiscalizava tudo o que saía nos meios de comunicação,
69 muitas são as notícias sobre os melhoramentos da freguesia e as pretensões locais, no entanto, não há nada que comprove que esses melhoramentos se realizaram, pois de ano para ano mantêm-se as referências aos mesmos melhoramentos. Deixo um exemplo que sustenta o que foi dito anteriormente. No número 9 deste jornal, datado a 10 de Dezembro de 1937, existe uma série de pretensões locais mencionadas, como a construção da Avenida da Asprela. Note-se que, no número 32, datado a 28 de abril de 1941, 4 anos depois, a pretensão local mantém-se inalterada. Este é apenas um dos muitos exemplos. Contudo, após o 25 de abril assistimos à proliferação de abertura e melhoramento de ruas na freguesia. No número 3 do jornal A Vida de Paranhos (1992), surge a primeira notícia do andamento da construção da Via de Cintura Interna (a tão conhecida VCI). No número 7 do mesmo jornal, surge a notícia das obras do pólo universitário e de como o mesmo irá dinamizar a cultura da freguesia. Em 1998 já se começa a falar no Metro e em como este irá trazer pessoas e movimento à freguesia. Obras que ainda hoje são visíveis a todos. Melhoramentos que ajudaram a freguesia a ser aquilo que é hoje, um pólo universitário, um pólo dinamizador de cultura. Uma freguesia fornecida dos melhores equipamentos. Nas memórias daqueles que por aqui passaram a história não é muito diferente. Uma das perguntas que coloquei foi se na freguesia de Paranhos sentiram que houve uma evolução ao longo dos anos. E expliquei que Paranhos antes era uma freguesia de cariz rural e por isso gostava de saber que alterações ocorreram depois do 25 de abril. A dona Amélia respondeu-me que sentiu essa evolução na freguesia e refere algumas da alterações que viu acontecerem em Paranhos: “Quem vai para o cemitério, aquilo era tudo bouças. Agora há lá a universidade dentária. Do outro lado também tem muitos prédios. (…) Estradas que passam lá. Onde passa a estrada da VCI aquilo era tudo uma bouça. Tudo. Campos. (…) Mas houve, houve, sem dúvida. Aquela rua onde passa ali Faria Guimarães estreitava a rua. Não havia nada daquilo. Nada! Agora há tudo, há prédios, há as bombas de gasolina... Não havia nada daquilo. Nesse aspeto evoluiu.” (Amélia Machado) Também a dona Conceição expressou a sua opinião em relação a essa dita evolução: “Agora há muitos prédios. Está tudo mudado. Eu quando comprei a minha casa, a minha rua era uma rua estreita, não passavam lá carros, não tinha saída. Tinha lá umas escadas e não passava lá carros nenhuns. Depois fizeram a via de cintura interna e agora aquilo tem muito movimento. É a entrada e a saída para o Porto” (Conceição Campos). Contam-me também da relação que os habitantes tinham uns com os outros, principalmente a dona Conceição que o marido teve uma mercearia e a relação do comerciante
70 com o cliente era muito próxima, “Ui! Era! Eles formavam ali uma família. E depois sabe como é o meu marido tinha um coração muito grande. Havia comerciantes que não fiavam nada. Mas a maior parte fiava. Quase todos naquela altura. O meu marido tinha um coração muito mole e eles faziam o choradinho e lá ia um dinheirão. Ficamos sem muito dinheiro. Deviam vinte, davam-lhe dez e em cima desses dez levavam trinta. Era assim. E depois naquele tempo um comerciante era uma grande coisa para o comércio do Porto. Já era uma grande posição. Agora nos supermercados não é assim. Ou nos cafés” (Conceição Campos). As coisas já não são como eram, muito do que era antes conhecido já não existe. Mas temos que olhar para o presente e em tudo o que a freguesia alcançou, para os seus habitantes, mas também para a cidade do Porto. A freguesia de Paranhos continua a ser uma das mais povoadas da cidade, pela sua dimensão e porque para além dos seus residentes, acolhe muitos dos milhares de estudantes que todos os anos que frequentam os estabelecimentos de ensino aí presentes. Deslocam-se diariamente pessoas ao hospital de S. João para tratamentos ou mesmo para trabalho. Passam centenas de milhares pela Via de Cintura Interna que foi construída para ajudar o tráfego da freguesia e sem a qual o trânsito seria um caos. É notável a sua evolução! 2.7 Memórias do dia 25 de abril Todos se lembram, ou quase todos, do que aconteceu no dia 25 de abril. De como foram avisados ou mandados para casa porque se ia dar uma revolução. A pergunta que coloco é: “Lembra-se onde estava no dia 25 de abril de 1974?”. E as memórias espelham-se nos rostos dos entrevistados, alguns até se emocionam. Acabam por se recordar de toda a sua vida até aquele dia. O dia em que o país sofreu uma reviravolta. Reviravolta que de alguma forma afetou as suas vidas. “ (…) ainda me lembro do 25 de abril. Olhe até parece que foi uma quarta-feira. Parece que era uma quarta-feira. O meu marido tinha ido para o mercado. E eu fui abrir a porta, e nós recebíamos o leite da Agros, e estava lá, e o senhor entregou o leite e diz-me ele assim “Oh minha senhora está-se a dar uma revolução!”. Eu nem imaginava o que era revolução. Diz ele “Ali na Lapa está tudo cheio de tropa!”. E meu marido estava para o bom sucesso. Tinha ido buscar a fruta, as hortaliças, tudo aquilo que era preciso. O meu marido nem se apercebeu, fui eu que lhe disse quando ele chegou a casa. As escolas mandaram os meninos para casa Mas graças a deus não aconteceu grande coisa. Mas lembro-me perfeitamente desse dia.” (Amélia Machado).
71 “No dia 24 mandaram-nos embora, recebemos um telefonema da câmara, nós estávamos na Boavista, a dizer para a gente ir embora. Para deixarmos o trabalho e irmos embora. Porque já se sabia o que se estava a dar. E mandaram o pessoal embora. Depois eu cheguei a casa, liguei a televisão e dava só uma música, sempre a mesma música. Sempre, sempre, sempre. E depois é que soubemos” (Conceição Campos). “Aconteceu que no dia 25 de abril, nós levantávamo-nos cedo e chegávamos às 8 horas. Havia o autocarro, o 95, aqui na rua de Antero Quental e ia para a EFACEC. Levanto-me no dia de manhã e estou na paragem de autocarro para o trabalho. Meto-me no autocarro e já se ouvia assim qualquer coisa, ainda com o medo falávamos muito baixinho com medo de poder estar lá alguém da PIDE. Entramos no autocarro e havia um burburinho. As pessoas falavam baixinho. As pessoas tinham medo porque não sabiam o que ia acontecer. Cheguei ao trabalho e a direção mandou reunir-nos e disse-nos o que se estava a passar. Embora alguns dos trabalhadores estivessem integrados já na política, sorrateiramente, para poderem reivindicar aquilo que queriam e mudarem o sistema. E a direção informou-nos que se estava a dar uma revolução. E nós avisamos as senhoras que estavam dispensadas do trabalho para irem buscar os filhos às escolas. Se no outro dia a coisa estivesse normalizada para irem trabalhar, mas se tivessem em casa que lhes pagavam na mesma. Eu vim logo pra casa, a minha mulher aí já tinha os filhos em casa, foi buscá-los à escola. E uns trabalhadores tinham vindo para a rua, outros a reivindicar. Depois já se ouvia falar. Já podíamos falar! Que diferença de manhã no autocarro. Nós acabamos por pôr tudo cá para fora. Por lhes chamarmos fascistas. Nem sabíamos a quem chamávamos. Começou a haver os movimentos a nível político. E formaram-se os partidos oficialmente” (José Silva). Para o senhor José isto foi o 25 de abril, foi desta forma que o viveu e passou por ele. Quando pergunto: “Quais é que foram as principais mudanças que o 25 de abril trouxe à sociedade?”, as opiniões divergem. Alguns dizem que não mudou nada, que para eles está tudo igual, outros só conseguem apontar aspetos negativos, mas temos também os que se conseguem pôr numa posição neutra e encontrar mudanças positivas no país. Apesar de dizerem que o 25 de abril trouxe mais desemprego e a nível de educação, esta não ser tão boa, o aspeto positivo apresentado por quase todos é a conquista da liberdade de expressão. Poderem expressar aquilo que pensam sem terem que falar baixo, nem tão pouco terem que olhar à volta com medo que a polícia política estivesse por perto. As pessoas tornaram-se mais livres.
72 Conclusão Concluído o esforço de meses de trabalho chega o momento em que é necessário realizar o balanço daquilo que foi feito e conseguido. Um dos objetivos iniciais a que me propus era perceber de que forma é que a história contada pelos historiadores se pode cruzar com as fontes orais. Objetivo que foi alcançado e concluído com sucesso, através da realização de entrevistas, previamente estudadas e delineadas. As leituras acerca do tema e das metodologias que era necessário dominar (Estado Novo, 25 de abril, entrevistas e histórias de vida) feitas antes do início da realização das entrevistas ajudou em muito à recolha dessas memórias orais. A consolidação e aprofundamento de conhecimentos adquiridos até ao momento foi essencial para o domínio da matéria e para a condução das entrevistas. As leituras realizadas sobre as entrevistas foram sem dúvida uma mais-valia para que pudesse perceber o tipo de entrevistas que existiam, as perguntas-tipo e o tipo de resposta daí decorrentes e em que tipo de abordagem as minhas entrevistas se poderiam enquadrar. Essas mesmas leituras – de contextualização e de metodologia - permitiram-me escrever um guião com algumas pergunta-chave, a adaptar a cada entrevistado, de modo a procurar respostas ao que se pretendia saber. Gostaria de ter realizado mais entrevistas, pois acho que são um grande contributo para aquilo que fiz, mas a realização deste tipo de recolha é mais complexo, exigente e demorado do que se possa imaginar, e depende de condicionalismos institucionais e logísticos que por vezes nos ultrapassam. O processo de aprendizagem ocorreu, no entanto, de forma muito enriquecedora. A perceção de que proceder à recolha de memórias orais é muito mais do que fazer entrevistas, mas exige um trabalho de preparação e de consolidação muito mais vasto, foi a principal das aprendizagens. Foi necessário proceder a uma escuta atenta e repetida das entrevistas, bem como à transcrição das mesmas. Não foi uma tarefa fácil analisá-las, e muito menos relacionálas com as outras fontes. O cruzamento das fontes selecionadas, tendo sempre como universo central as entrevistas, foi importante, para confrontar os diversos olhares possíveis, e para evidenciar como as memórias individuais, vivenciais nem sempre são conduzidas por uma leitura objetiva da realidade que nos é fornecida por outros indicadores.
73 Se analisarmos a história do período de tempo considerado pelo ângulo da historiografia produzida, bem como pelas fontes orais (entrevistas), estatísticas (censos) e jornalísticas (jornais), percebemos que todas apontam e representam os mesmos momentos e os mesmos factos, sem todavia coincidirem necessariamente nas suas leituras. Julgo que os historiadores tentam escrever a história da forma mais fiel ao que de facto aconteceu, através de factos e datas e documentos escritos. Os jornais, à semelhança dos historiadores, relatam acontecimentos datados. Os censos trabalham mais com dados e números referentes a determinada data. As fontes orais são diferentes. É outro registo. Não relatam apenas, embora também o façam, acontecimentos históricos: relatam de que forma é que aquele acontecimento afetou a vida das pessoas que os viveram e de que modo interferiu no seu dia a dia. Contam-nos histórias, aventuras e amarguras. Nesse registo os números pouco importam. Por vezes, as fontes orais divergem das fontes escritas, pois a pessoa que nos está a falar de um determinado assunto está a projetar a sua visão, a s suas emoções, as suas perceções de determinada vivência. Curiosamente, a precariedade que o país vivia no Estado Novo, de que tanto fala a bibliografia, nem sempre é percecionado como tal pelos entrevistados. Não há um julgamento negativo do que parecem ser, em indicadores objetivos, elementos de precariedade. A educação, a saúde, a esperança média de vida, não projetam as leituras negativas que, hoje, por comparação, se esperava que projetassem. Talvez porque essa negatividade implicasse marcar esse passado vivido, com sofrimento, dor, dificuldades, que a memória não reconheceu como tal, ou não quer que prevaleçam em relação às sensações positivas. É de notar que os entrevistados fornecem todos os elementos que documentam realidades passadas, as mesmas que se projetam na historiografia, mas sem a análise que o historiador faz: eles relatam as suas experiências, não as analisam. Os entrevistados são atraídos e tentados a falar abundantemente de quotidianos: na família, na escola, no trabalho, na rua, mas não passam desses relatos, de que falam com facilidade, para uma apreensão de significados em termos por exemplo, de políticas de saúdes, ou de políticas de educação, ou de políticas laborais. São as suas memórias individuais as que povoam esta dissertação. Por vezes só perguntas cruzadas permitem trazer respostas às questões colocadas. Por vezes as respostas não são verbalizadas, mas percebidas pelo entrevistador. E tudo isto é muito difícil de se projetar numa dissertação académica. A realização desta dissertação foi uma mais-valia para o aprofundamento de conhecimentos sobre um tema que já me atraía antes. Mas o melhor foi poder conhecer a história através das pessoas que a viveram. É disso que se trata esta dissertação, conhecer a
80 Apêndice I – Guião das entrevistas Local: Data: Duração: Dados Gerais Nome: Data de Nacimento: Estado Civil: Família 1. Como era a sua família de origem? 1.1. Em que trabalhavam os seus pais? 1.2. A sua família tinha problemas financeiros? 1.3. Quais eram as suas principais dificuldades? (roupa, livros, comida) 1.4. Lembra-se de alguma vez ter passado fome por os seus pais não terem dinheiro? 1.5. Tinha irmãos? Quantos? Quais as suas idades? 1.6. Quem tomava conta de si e dos seus irmãos? 2. Como era e é a família que constituiu (se casou)? 2.1. Quantos filhos teve? 2.2. Comos os criou (foram para a creche, a pré-primária; foram para a Universidade? 2.3. Quais são as suas profissões/ ocupações agora? Rotinas familiares 3. Morou sempre em Paranhos? 3.1. Como era o local em que morava? Como era a sua casa? 3.2. Como era o seu dia-a-dia?
81 3.3. E hoje em dia: como é a sua casa? E a dos seus filhos? 3.4. Os seus filhos vivem onde? 4. Lembra-se de alguma vez ter tido muitas responsabilidades e obrigações em sua casa, quando era criança? 4.1. Se sim, gostava que me descrevesse as maiores obrigações que teve que cumprir e porque é que era assim. (cuidar dos irmãos mais novos, lides da casa, ajudar no campo ou com o gado) 5. Normalmente, como era a sua alimentação? O que é que comia às refeições? 6. Quais eram as roupas que usava naquela altura? 6.1. Usava roupas usadas ou tinha possibilidades de usar roupa nova? 6.2. Usou roupas que foram dos seus irmãos e vice-versa? 6.3. Onde comprava a roupa e em média quanto custava, lembra-se? 6.4. Quanto tempo durava um casaco ou uns sapatos? 7. Na sua infância o que fazia quando não estava na escola? 8. Na sua juventude frequentava cafés? 9. Aqui na freguesia, onde é que eram os locais de convívio e o que faziam? 10. E agora, quais são os locais de convívio aqui na freguesia? 11. Se mudou algo, a que se deve, no seu entender, essa mudança? Saúde 1. Onde se dirigiam quando ficavam doentes? 1.1. Como funcionava o sistema de saúde naquela altura? 1.2. Lembra-se de ter sido vacinado 8ª)? E os seus irmãos? 1.3. Entre os seus irmãos, familiares e amigos – alguns faleceram quando eram crianças? 1.4. Se sim – de que doença? Lembra-se? 1.5. Quando estavam doentes, que medicamentos tomavam? 1.6. Houve alguma mudança no que descreve, com o 25 de abril? 1.7. Que mudanças lhe parecem ser as mais importantes?
82 Escolaridade 2. Frequentou a escola? Qual? 2.1. Qual o seu nível de escolaridade (até que classe andou na escola)? 2.2. Como era o ambiente vivido na escola? 2.3. Conte-me como funcionava a escola naquele tempo? (separação rapazes/raparigas, recreio, castigos, horários, camaradagem, lutas) 2.4. Sei que naquele tempo nem toda a gente tinha oportunidade de ir à escola. Os seus irmãos frequentaram a escola? Se não, porquê? 2.5. Fez parte da Mocidade Portuguesa? Como era? Para si, o que mudou em termos de Educação, com o 25 de abril? Trabalho 3. Depois de ter terminado a escola foi logo trabalhar? 3.1. Se sim, em quê? Com que idade? 3.2. Ao longo da sua vida quais foram as ocupações que teve? 3.3. Quais eram as condições de trabalho? 3.4. Tinha férias? 3.5. Como eram os salários? 3.6. Tem alguma ideia se existiam sindicatos ou outras organizações laborais? 3.7. A taxa de desemprego da freguesia de Paranhos era muito elevada? 3.8. E o que aconteceu depois do 25 de abril? O que mudou no seu mundo do trabalho? 3.9. As mudanças foram positivas? Intervenção Política 4. Olhando para trás, quais eram os principais problemas que o país e a freguesia de Paranhos atravessavam, na sua juventude? 5. Como sabia o que se passava no País e no Mundo? Tinha rádio ou televisão?
83 6. Notava que havia censura? 7. Como se fazia sentir a falta de liberdade de expressão? 8. Qual é a sua opinião em relação à PIDE? Sabia que existia, antes do 25 de abril? 9. Participou em alguma manifestação antes do 25 de abril? E depois? 10. Participou em alguma greve, antes do 25 de abril? E depois? 11. Conhecia pessoas que faziam parte da oposição política a Salazar e ao Estado Novo? 12. Lembra-se da campanha eleitoral em que o General Humberto Delgado foi candidato? Que memórias tem? Sabia o que aconteceu a Humberto Delgado? Teve conhecimento da sua morte? Como se processavam as eleições no período do Estado Novo (enquanto Salazar esteve no poder)? Podia votar? E ia votar? O que acha que mudou durante a primavera Marcelista, principalmente aqui na freguesia? 25 de abril 13. Onde estava no dia 25 de abril de 1974? 14. Como sentiu a Revolução dos Cravos? 15. Como participou nela? 16. Para si, quais foram as principais mudanças que ocorreram com o 25 de abril? Se tivesse que apontar duas coisas muito boas e duas muito más, o que apontaria? 17. Em termos do seu dia-a-dia, o que mudou e o que a marcou mais profundamente? 18. Em termos da Freguesia, que alterações sentiu? Obrigada pela sua Colaboração
84 Anexos
85 Anexo 1 – Transcrição das entrevistas Entrevista 1 Local: Cruz Vermelha Portuguesa no Bom Pastor Data: Porto, 8 de Maio de 2015 Duração: 1h01minutos Nome: Manuel Joaquim dos Santos Data de Nascimento: 22-12-1932 Estado Civil: Casado Entrevistador: Diga-me o seu nome. Entrevistado: Manuel Joaquim dos Santos. Eu vou repetir calmamente, Manuel Joaquim dos Santos. Entrevistador: Em que ano é que nasceu? Entrevistado: Nasceu… 1932. (pausa) 22 de Dezembro de 32. Entrevistador: O senhor Manuel emigrou? Entrevistado: Não, não emigrei. Não emigrei nada. Então ia deixar ficar cá a minha mulher? Entrevistador: Que idade tinha quando cumpriu o serviço militar? Entrevistado: Tinha 19 anos. Entrevistador: E antes de ter ido para a tropa, antes de conhecer a sua mulher, como é que era a sua família? Os seus pais? Em que é que eles trabalhavam? Entrevistado: Na lavoura. E eu também. Antes de vir para o Porto para casa de uns tios que já faleceram. Entrevistador: E andou na escola? Entrevistado: Andei, andei. Entrevistador: E qual é o nível de escolaridade que tem? Entrevistado: Fiz a 4ª classe. Fui fazer… a Santa Maria da Feira o exame lá. Eu e os outros colegas da escola.
86 Entrevistador: Como é que era a sua escola? Por exemplo, havia a separação dos rapazes e das raparigas, ou não? Entrevistado: Não, não, era só homens. Entrevistador: Ah andava numa escola só de rapazes. Entrevistado: Porque era particular. Porque foi um professor que fez a escola, era um individuo que tinha muito dinheiro. Ele é que construiu uma escola e pôs lá os rapazes todos. Senão tinham que andar 7 km para cada lado. Ao vento, à chuva, descalço. E fomos fazer lá uns exames, e ficamos todos aprovados. Entrevistador: E o senhor Manuel tem irmãos? Entrevistado: Tinha uma irmã. Entrevistador: E ela teve oportunidade de ir para a escola? Entrevistado: Ela deixou de ir à escola. Entrevistador: Mas frequentou? Chegou a ir à escola? Entrevistado: Ia à escola, mas depois deixou de ir à escola. Antes de ir para a outra escola do outro professor era rapazes e raparigas. Só fez a 3ª classe, a minha irmã. Entrevistador: E quando terminou a escola foi logo trabalhar? Entrevistado: (Pausa) Pois… eu não era muito famoso na escola, a gente não se dava. Era diferente. (pausa) Do 25 de abril? Eu queria passar para minha casa e não me deixavam passar. Eu fui buscar a minha mulher e o meu filho e não me deixavam passar. Eu já tinha ido buscar o meu filho e não me deixavam passar. Entrevistador: Quando o senhor Manuel já não frequentava a escola nos seus tempos livres frequentava cafés e estava com os seus amigos? Entrevistado: Nada. (pausa) Vim viver para o Porto, para casa de uns tios que já faleceram, eles só tinham um filho e eu fui pra lá. A minha mãe não tinha possibilidades de me ter lá com ela por causa da guerra, no tempo da guerra. Não foi no 25 de abril. Tinha dois tios que tinham camiões, que foram usados para a guerra. Não foi para o 25 de abril. Foi para uma guerra que houve aí para o estrangeiro, não sei. Entrevistador: Então o senhor Manuel casou com a sua esposa e tiveram um filho.
87 Entrevistado: Exatamente. Entrevistador: E o seu filho já nasceu depois do 25 de abril? Entrevistado: Já era nascido. Entrevistador: E o seu filho andou na escola, frequentou a escola? Entrevistado: Sim, e depois da escola estudou num sei quanto tempo. Mas depois o meu falecido sogro tinha um escritório a Rua Ramalho Ortigão e tinha lá um empregado e o meu filho antes queria trabalhar do que estudar, mas ele fez, ele fez… e ele foi para o escritório do avô. E vendia. Era uma construtora. Como é que se chamava? Era o Ferreira dos Santos. E ele foi para a tropa. A minha mulher não queria. Entrevistador: Que mudanças é que sentiu com o 25 de abril? Em termos de trabalho. Havia mais trabalho? Havia mais emprego? Entrevistado: Acho que não. Acho que não. Entrevistador: Depois do 25 de abril as pessoas eram mais livres? Por exemplo, antes do 25 de abril notava que havia a censura. Entrevistado: Pois… Entrevistador: E a PIDE, que não podia ler qualquer tipo de livro, não podiam estar mais do que três pessoas juntas. Sentia isso? Entrevistado: Eu acho que depois do 25 de abril que mudou alguma coisa. Entrevistador: Acha que mudou alguma coisa? Entrevistado: Acho. Entrevistador: Então antes do 25 de abril notava que havia falta liberdade de expressão? As pessoas não podiam dizer o que queriam. Entrevistado: Não me lembro o que se passou. Não lhe sei dizer… não lhe vou mentir. Só lhe sei dizer que as pessoas estavam saturadas. Sim acho que o 25 de abril, havia mais liberdade. Entrevistador: Antes ou depois? Entrevistado: Depois do 25 de abril. Não foi antes, foi depois do 25 de abril. Entrevistador: E lembra-se onde estava no dia 25 de abril de 1974? Entrevistado: Eu lembro-me. Eu lembro-me. Vim pra casa! O encarregado, nós tínhamos muitas oficinas no Porto, representávamos a Volkswagen, a Audi e a Peugeot… Acho que havia mais liberdade, acho. Acho que agora, agora é uma palhaçada. Entrevistador: E acha que as coisas depois do 25 de abril mudaram para melhor ou para pior?
88 Entrevistado: Eu acho que foi para melhor. Entrevistador: Acha que sim? Entrevistado: Sim Entrevistador: E alguma vez participou nalguma manifestação contra o Estado Novo? Contra Salazar? Entrevistado: Não, não, não me metia nisso. Não me metia nisso. Entrevistador: Mas assistia a manifestações? As pessoas iam para as ruas manifestar-se? Entrevistado: Não. Não me lembro. Depois do 25 de abril aquilo parou. A PIDE parou. Quer dizer, acho que havia mais liberdade. Havia mais liberdade e havia mais educação até. Entrevistador: Antes do 25 de abril? Entrevistado: Depois do 25 de abril. Acho que sim. Depois do 25 de abril houve mais liberdade. Entrevistador: Antes do 25 de abril as pessoas não podiam falar o que queriam. Andavam reprimidas. Ninguém podia falar mal de Salazar. Entrevistado: Ia logo para a PIDE. Isso era um problema. Eu conheci colegas que falaram e foram presos. E depois quando saíam não aguentavam muito tempo, matavam-se a eles próprios. Fui um militar. Um homem de guerra. E o meu filho também. Ele dizia à mãe que o pai tinha sido tropa e que ele também o queria ser. Entrevistador: Mas quando o seu filho foi para a tropa o serviço militar ainda era obrigatório? Entrevistado: Era, era. Foi sempre. Mas já foi há muitos anos. Mas agora vê-se muitas mulheres na tropa. Mas a tropa foi feita para os homens. A tropa quer-se… A tropa quer-se para os homens, não é para mulheres. Agora já há mulheres. Muitas. Há mais mulheres que homens. Entrevistador: Não é bem assim. Vê-se muitas mulheres, mas continuam a haver mais homens. Entrevistado: Há. Mas no meu tempo não havia mulheres na tropa. Entrevistador: Mas também naquele tempo as mulheres não podiam fazer muita coisa. Entrevistado: Pois. Entrevistador: Diga-me só uma coisa para terminar, que profissões é que teve ao longo da sua vida? Entrevistado: Então fui mecânico. Mecânico de automóveis. Entrevistador: Obrigado pela sua colaboração.
89 Entrevista 2 Local: Cruz Vermelha Portuguesa no Bom Pastor Data: Porto, 15 de Maio de 2015 Duração: 1h46minutos Nome: Maria Amélia Machado Data de Nascimento: 27-11-1941 Estado Civil: Viúva Entrevistador: Diga-me o seu nome. Entrevistado: Maria Amélia Machado. Entrevistador: E a sua data de nascimento? Entrevistado: Vinte e sete do um de quarenta e um. Nasci na guerra. Entrevistador: E o seu estado civil? Entrevistado: Viúva. Entrevistador: Emigrou? Entrevistado: Não. Entrevistador: Em que é que trabalhavam os seus pais? Entrevistado: A minha mãe era, empregada… foi sempre serviçal. Sempre trabalhou lá. Criou os meninos, acabou por ser da família. Até ao fim da vida. Sabe que naquele tempo era diferente. Os empregados antes acabavam por ser como família. Antigamente era assim. Casavam de lá. Até os patrões eram padrinhos, baptizavam os filhos, havia amizade. Entrevistador: E o seu pai? Entrevistado: E o meu pai era da construção civil. Sabia jardinar. Sabia fazer um pouco de tudo. Entrevistador: E em algum momento teve que ajudar os seus pais? Entrevistado: Eu não, porque eu fui criada pelos meus padrinhos. Também era minha prima, ela, era filha de uma irmã do meu pai. Entrevistador: E a sua família tinha dificuldades? Pra comprar roupa, livros… Entrevistado: Ah isso não se fala. A vida era complicada naquele tempo. Muito complicada. A minha mãe passou muitos trabalhos. O meu pai era uma pessoa doente. Tinha muitas dificuldades de emprego, trabalho. Sabe que no tempo de Salazar era assim. A minha mãe
96 mais vivida do que eu, é homem. Ele dizia-me “Vês aqueles que vão ali?”. Iam aos pares, eram PIDE’s. Andavam a passar, a vigiar. Mas ele já os conhecia. Mas eles andavam ali de volta. Se estivesse a falar já estava. Ouvia-se dizer que eles até iam de noite buscar as pessoas a casa e tudo. Entrevistador: E na escola? Entrevistado: Ah não se falava em nada. Salazar estava ali muito bonito. O Tomás, o Carmona. Ainda me lembro, era pequenina. E lembro-me de estar de batinha branca e de ir ver o Salazar passar com a bandeirinha na mão. Mas a gente tinha que ir. A escola mandava. E não se discutia. E quando Salazar entrava toda a gente se punha de pé. Tudo direitinho. A gente sujeitase a cada coisa quando é pequeno. Que figura! Entrevistador: Nas ruas assistia a manifestações? Via que as pessoas iam para a rua manifestar-se contra o Estado Novo? Entrevistado: Eu lembro-me uma vez, houve uma confusão muito grande, eu era nova. E depois havia policias que desancavam a torto e a direito. E depois ainda se iam gabar do que faziam. Eu bati, eu fiz e aconteci”. E os jovens, ali nos leões, reuniam-se aí. E houve aí uma confusão. E depois veio no jornal que um polícia bateu em jovem, o filho dele chega a casa todo partido de um coça que tinha levado de um colega dele. Ele não se lembrou que também tinha um filho estudante. Ele a bater por um lado e outros colegas a bater no filho dele. Isto era muito complicado. Isso era a missão deles, tinham que parar. Mas a polícia batia a torto e a direito. E havia muita gente que era contra os estudantes. Entrevistador: Já me disse que não estava muito por dentro da política. Entrevistado: Não, no meu tempo de nova não. Nunca estive. Entrevistador: Então não se lembra da campanha eleitoral que o General Humberto Delegado foi candidato? Entrevistado: Não. Só hoje é que começo a conhecer, porque pronto, eu ligava muito a televisão. E era assim que ouvia falar de Humberto delgado. Entrevistador: Mas lembra-se da primavera Marcelista? Quando Salazar deixou de estar no poder e passou na estar Marcelo Caetano. Entrevistado: Sim, sim, lembro-me dessa passagem vagamente. Entrevistador: E acha que houve ali alguma mudança? Entrevistado: Eu acho que estava tudo na mesma. Entrevistador: Para si quais é que foram as principais mudanças do 25 de abril? Se tivesse que apontar duas coisas muito positivas e duas muito negativas o que é que diria.
97 Entrevistado: Sei lá. O que tinha no 25 de abril tenho agora também. E agora ainda tenho uma preocupação grande em casa que é o meu filho desempregado. Entrevistador: Então se calhar um aspeto negativo é o desemprego. Entrevistado: Exatamente o desemprego. Entrevistador: E na sua rotina, no seu dia-a-dia, naquilo que fazia durante o dia, depois do 25 de abril, houve alguma alteração? Entrevistado: Não. Continuei a trabalhar como uma negra. Mesmo em casa. Até porque eu nunca tinha máquina de lavar, imagine a menina, quem me deu a máquina de lavar foi os meus dois filhos. Eu lavei muita roupinha à mão. A minha mãe ainda me vinha ajudar muitas vezes ao fim de semana. Ela ajudava-me muito. Mas trabalhei muito. E depois vieram mais três. Mais uma fornada. Já viu a minha vida? Eu fui criada numa estufinha. Até porque agora há isso nas escolas, sexualidade. Naquele tempo não se falava nisso. E é isto a minha vida. Tive as minhas coisas boas e as minhas coisas menos boas. As coisas menos boas eram quando não havia dinheiro. Entrevistador: Naquele tempo a relação do comerciante com o cliente era muito próxima. Entrevistado: Ui! Era! Eles formavam ali uma família. E depois sabe como é o meu marido tinha um coração muito grande. Havia comerciantes que não fiavam nada. Mas a maior parte fiava. Quase todos naquela altura. O meu marido tinha um coração muito mole e eles faziam o choradinho e lá ia um dinheirão. Ficamos sem muito dinheiro. Deviam vinte, davam-lhe dez e em cima desses dez levavam trinta. Era assim. E depois naquele tempo um comerciante era uma grande coisa para o comércio do Porto. Já era uma grande posição. Agora nos supermercados não é assim. Ou nos cafés. Entrevistador: E na freguesia de Paranhos, sentiu que houve uma evolução ao longo dos anos? Por exemplo, antes Paranhos era uma freguesia muito rural e depois com o 25 de abril… Entrevistado: Sim, sim. Houve sem dúvida! Houve! Quem vai para o cemitério, aquilo era tudo bouças. Agora há lá a universidade dentária. Do outro lada também tem muitos prédios. Estas estradas que passam lá. Onde passa a estrada da VCI aquilo era tudo uma bouça. Tudo campos. Mas houve, houve, sem dúvida. Aquela rua onde passa ali Faria Guimarães estreitava a rua. Não havia nada daquilo. Nada! Agora há tudo, há prédios. Há as bombas de gasolina. Não havia nada daquilo. Nesse aspeto evoluiu. Entrevistador: E quantas horas semanais é que trabalhava?
98 Entrevistado: Entrava às nove e saía às sete. Quando tínhamos que fazer serão às vezes até à meia-noite. Mas em cada serão das sete à meia-noite ganhava. O máximo que eu ganhei como costureira foi vinte escudos por dia. Cento e vinte escudos ao fim-de-semana. (pausa) E assim foi a minha vida! (Pausa) Já está menina? Entrevistador: Já sim. Muito obrigada! Entrevistado: De nada menina!
99 Entrevista 3 Local: Cruz Vermelha Portuguesa no Bom Pastor Data: Porto, 25 de Maio de 2015 Duração: 1h22min Nome: Maria Alice Pereira Santos Data de Nascimento: 2 de Janeiro de 1928 Estado Civil: Divorciada Entrevistador: Diga-me o seu nome. Entrevistado: Maria Alice Pereira Santos. Entrevistador: E a sua data de nascimento? Entrevistado: Dois de Janeiro de mil novecentos e vinte e oito. Entrevistador: O seu estado civil? Entrevistado: Divorciada. Entrevistador: A senhora emigrou? Entrevistado: Eu não, não emigrei. Emigrei da Maia para aqui. Nasci na Maia e vim para aqui. Mas vim pequenita, pra casa onde eu estou. Vim para a minha madrinha pequenina. Entrevistador: Então veio morar para Paranhos quando era pequena?! Entrevistado: Pois. Vim para aqui pequenina. A minha mãe tinha três meninas, as duas mais velhinhas eram as meninas da mamã. Eu quando vim já não me queriam… botaram-me para aqui para a minha madrinha. Ela era irmã da minha mãe, mas a minha madrinha nunca me bateu. Mas não era nada meiga, nunca teve um carinho. Sempre fui muito infeliz. Depois tinha sete aninhos fui servir… fui servir para umas senhoras que me ensinou a ser gente. Aos catorze anos fui para a fábrica da conserva em Matosinhos. Estive lá dos catorze aos vinte e um, na conserva. E depois aos vinte um fui trabalhar nas malhas do Amial. Tive lá até aos quarenta. Aos quarenta fui reformada por causa das mãos. E então vim reformada. Vim reformada com quinhentos escudos. Tinha que pagar aluguer, água, luz… não chegava a nada. Então fui servir. Fui servir para casa de um médico. Por acaso morava lá no bairro da Azenha. Depois nunca mais me largaram. Lá estive na casa do médico uma data de anos. Hoje é a minha família. Fui para a casa deles quando eles casaram. E a senhoria era minha vizinha e ela disse-me “Oh Maria queria pedir-te uma coisa!”, “Diga”, “Olhe, agora há um casal que foram de lua-de-mel e vêm morar pra casa que eu tenho de vago, se ma fosse lá limpar” e eu está bem, e eu lá fui. Era no
100 bairro da Azenha. E eu morava no Campo Lindo, onde moro hoje. Mas a minha prima morava no bairro da Azenha e eu estava lá sempre, estive lá 23 anos na minha prima. Ela era epiléptica e tinha duas meninas pequeninas. Entrevistador: Então não frequentou a escola?! Entrevistado: Não, não fui para a escola. Eu tinha vinte e cinco anos, veio a lei que todas tínhamos até aos trinta e cinco tínhamos que ter a terceira classe. O meu patrão meteu lá uma senhora, uma hora por dia, era professora, mas já estava reformada, uma hora por dia. Nós íamos pra lá ao fim da tarde, quase à noite. E eu aprendia tudo. Então lá aprendi. Já quando estava no meu padrinho ele dizia-me “Isto é um ‘a’, isto é um ‘é’” e eu lá ia juntando as letras. E então, olhe veio a lei e eu fui. Começamos dia 4 de Maio. No dia 11 de julho fui ao exame e fiquei bem. Eramos onze mulheres e não sei quantos rapazes. Sei que eu e mais três passamos. Fomos e fiquei bem. Já tinha vinte e cinco. Já tinha o meu filho. Aos trinta dois deu-me na cabeça e fui matricular-me e fui fazer a quarta classe. Sabe quantos dias andei na escola? Onze dias! Ao fim de onze dias fiz os exames e passei. Tenho a terceira e a quarta classe dos adultos. Entrevistador: Conte-me como é que era a sua família. Em que é que trabalhavam os seus pais? Entrevistado: Olhe o meu pai trabalhava aqui no Porto, na fábrica de Salgueiros. Morreu com quarenta e quatro. Aos trinta e seis ficou em casa, com cancro. Esteve oito anos sem ganhar um pataco. Com quatro filhos. A minha mãe andava nos campos de lavradores. E ao sábado ia para um tintureiro. Dantes pintava-se, tingia-se as roupas. E a minha mãe ia lá para o tintureiro, ao sábado. E então olhe… fui sempre pobrezinha. Vim para a minha madrinha pequenina que ela teve um menino, um bebé e as filhas já eram maiores, andavam a trabalhar, e eu fui pra lá olhar pelo bebé. Entrevistador: Já me falou numa irmã que era mais velha… Entrevistado: A minha irmã mais velha quatro anos. Entrevistador: E então quantos irmãos tem? Entrevistado: Nós eramos três raparigas e um rapaz. A mais velha casou com dezassete anos. Teve quatro filhos. Eu criei as duas do meio. Entrevistador: E os seus irmãos tiveram oportunidade de ir para a escola? Entrevistado: As minha irmãs… as minhas irmãs foram, as duas. Mas a mais velha fez a terceira classe, mas a minha Ana já não fez. Não fez nenhum exame. A minha irmã quis ir vender fruta, flores. Gostava de andar a vender. Foi para a fábrica de conserva por que a minha
101 mãe a obrigou. Mas como não havia peixe todo o ano, ela vendia fruta, flores. Eu não gostava disso. Entrevistador: Olhe e lembra-se de alguma vez ter passado dificuldades? Entrevistado: Fomos sempre pobrezinhos, mas fome nunca passei. Entrevistador: E quais eram as principais dificuldades? Era comida, roupa… Entrevistado: Graças a Deus nunca me faltou nada. Entrevistador: E como é que era a família que a senhora constituiu? Entrevistado: A minha família quando morreu a minha mãe, eu fiquei só. Ainda estive na minha madrinha. Depois o meu padrinho morreu… Entrevistador: Mas casou, teve filhos? Entrevistado: Eu casei, tinha vinte e dois anos. Andei grávida. O meu filho foi o primeiro bebé de cinquenta e três, nasceu na passagem de ano. Nesse dia que eu tive o meu filho apareceu no jornal. Deu no rádio. Ainda não havia televisão. A televisão só veio em cinquenta e sete. Lá veio no jornal… E morreu no dia de todos os santos. Nunca mais tive filhos, nunca mais tive homem. Nunca mais quis ninguém. O homem foi para o Brasil, arranjou lá uma gaja e eu divorciei-me. Entrevistador: E como é que era o local onde morava? Entrevistado: É onde eu estou, travessa do Campo Lindo. Morava lá a minha madrinha, eu fui pra lá e fiquei lá até hoje. Entrevistador: Então por exemplo, aqui na freguesia, na sua juventude, não saia? Entrevistado: Não. Tive uma juventude muito estupida. Eu tive que ir pequenina para a minha madrinha e ela não era nada meiga. Entrevistador: E sabe-me dizer, aqui na freguesia, quais eram os locais de convívio? Entrevistado: Eu sei lá. Andava sempre a servir. Entrevistador: Sentiu mudanças no sistema de saúde antes do vinte e cinco de abril e depois do vinte e cinco de abril? Entrevistado: Oh, oh, oh eu nem me lembra do vinte e cinco de abril. Mesmo quando havia essas manifestações, algum dia fui? Entrevistador: Mas assistia a manisfestações? Entrevistado: Eu nunca assisti a nada dessas coisas. Entrevistador: Mas sabia que acontecia? Entrevistado: Eu sabia que acontecia, mas não lhe sei dizer nada. Nunca andei lá nessas trafulhices.
102 Entrevistador: Mas lembra-se onde estava no dia vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro? Entrevistado: Oh filha estava, sei lá… devia estar a servir também. Entrevistador: Mas antes do vinte e cinco de abril, notava que havia a censura, as pessoas não tinham liberdade? Entrevistado: Sim, mas não me lembro muito bem. Entrevistador: E como é que sabia o que se passava no país? Tinha televisão ou rádio? Entrevistado: Não sabia nada do país. Nunca liguei a essas coisas. Entrevistador: Mas tinha rádio? Depois teve televisão? Entrevistado: Olhe a gente antigamente a gente tinha lá televisão ou a minha avó torta. É como lhe digo, estive a servir toda a vida, tinha lá tempo para ver televisão. Entrevistador: Diga-me uma coisa, quando trabalhava, havia muito desemprego? Entrevistado: Não era como agora. Dantes era menos. A gente ou fazia uma coisa ou outra. Nunca estive desempregada. Entrevistador: Mas na sua juventude não podia votar, o voto não era aberto às mulheres. Entrevistado: Não, foi desde o vinte e cinco de abril que a gente começou a votar. Eu já era grande. E eu ainda fui algumas vezes, mas agora já não vou. Entrevistador: E lembra-se da PIDE? Entrevistado: Ouvia falar na PIDE. Entrevistador: E nunca assistiu a nenhum episódio? Entrevistado: Eu não. Eu às vezes via na televisão, mulheres que iam. Mas eu ia lá fazer esse papel?! Entrevistador: Mas acha que naquele tempo, no tempo de Salazar, era melhor? Entrevistado: Olhe era melhor, a gente podia andar de noite, a gente podia andar à vontade que não era assaltado. No tempo de Salazar para mim era melhor. Embora que ele fosse assim, sabe. Entrevistador: Mas não acha que houve coisas também que melhoraram? Entrevistado: Eu acho que ao menos no tempo de Salazar havia mais respeito. Entrevistador: E por exemplo as roupas que usava, tinha oportunidade comprar roupas novas? Ou já eram usadas? Entrevistado: Não, nunca quis comprar nada usado. Eu tinha duas irmãs mais velhas e nunca quis roupa delas. Antes queria a minha roupa pobrezinha, não queria nada de ninguém. Entrevistador: Obrigada por me responder a estas questões! Entrevistado: Não tem nada que agradecer menina!
103 Entrevista 4 Local: Cruz Vermelha Portuguesa no Bom Pastor Data: Porto, 29 de Maio de 2015 Duração: 1h00min Nome: Conceição Ferreira de Sá Campos Data de Nascimento: 21 de Março de 1928 Estado Civil: Casada Entrevistador: Diga-me o seu nome. Entrevistado: Conceição Ferreira de Sá Campos. Entrevistador: E a sua data de nascimento. Entrevistado: Vinte e um de Março de mil novecentos e vinte e oito. Entrevistador: E o seu estado civil. Entrevistado: Casada. Entrevistador: Emigrou? Entrevistado: Não. Entrevistador: E como é que era a sua família de origem? Como é que era constituída a sua família? Entrevistado: A minha família… era a minha mãe, o meu pai, irmãs e irmãos. Entrevistador: Quantos irmãos é que tinha? Entrevistado: Eramos seis irmãs e dois irmãos. Entrevistador: E em que é que trabalhavam os seus pais? Entrevistado: O meu pai era musico e andava antigamente, em vez de ser as camionetas TIR eram os carros de bois que andavam a trazer coisas para os comboios carregar, muitos em fila, e o meu pai andava também e era músico e a minha mãe teve uma mercearia. Mas depois o meu pai morreu, eu tinha sete anos, e a minha mãe foi trabalhar nas terras para pagar o resto da casa. Mandou fazer uma casa muito grande só que o meu pai não chegou a pagar. Entrevistador: E a sua família alguma vez teve dificuldades financeiras? Por exemplo, para comprar roupa, comida… Entrevistado: Bem… a minha mãe quando o meu pai morreu ficou com sete filhos menores. E o meu pai foi ao Brasil, não se deu lá com o clima e teve que vir embora. E depois, tinha feito a casa, fez uma casa muito grande, tínhamos quintal, e a casa ficou por dezasseis contos, naquele tempo era muito dinheiro. E as duas mais velhas vieram servir para ajudar a acabar de pagar. As
104 minha irmãs pagavam dois contos cada uma. Quando acabassem de pagar esses dois contos ficavam a ganhar para elas. As duas mais novas pagavam um conto e quinhentos. E quando acabassem de pagar começavam a ganhar só para elas. E a minha mãe ia trabalhando nas terras, vendia o leite, vendia os ovos das galinhas, vendia assim umas coisas. Ficou a trabalhar nas terras para comermos. E eu aos doze anos, nenhum andou na escola a não ser eu e o mais novo, nós é que andamos na escola. A minha mãe pôs-me na escola para eu aprender a escrever uma carta. Para não andar a pedir aos vizinhos para escrever às minhas irmãs. Na altura ninguém tinha telefone. Fui para a escola para aprender a escrever e a ler as cartas das minhas irmãs. Fiz a terceira classe e a professora queria que eu fizesse a quarta, eu aprendia muito bem, mas a minha mãe não deixou. Eu então vim, com doze anos, onde é ali o posto médico em Vale Formoso?! Era um tasco. Antigamente era um tasco. Eu fui para lá, elas punham um caixote à beira banca para eu subir acima para eu chegar à banca para lavar a louça. Eu ia pra lá puxar o lustre, mas tinha saudades da minha mãe. Depois uma menina apercebeu-se e perguntou-me o que é que eu tinha e eu disse que tinha saudades da minha mãe. E lá fui andando. Fui aprendendo. Não me pagavam. Pagavam-me um bocadito. E as minhas irmãs mais velhas é que recebiam. Compravam-me roupa e calçado para eu vestir. E assim foi a minha vida. Andei a servir. Entrevistador: E a senhora teve filhos? Entrevistado: Tenho um filho. Eu fui casada e depois divorciei-me. O meu marido dava-me maus tratos. Tenho um filho que nasceu em cinquenta e seis. Entrevistador: E diga-me, a senhora e o seu irmão mais novo é que frequentaram a escola, não foi? Entrevistado: Só nós os dois é que entramos na escola. Entrevistador: E lembra-se como é que era o ambiente na escola? Antes do 25 de abril havia a separação dos rapazes e das raparigas, na escola. Entrevistado: Havia uma escola, por exemplo, aqui, das raparigas. E a dos rapazes era, por exemplo, no Marquês. Era assim. Depois veio para lá uma professora, alugaram lá um salão, e foi que a minha mãe me pôs lá. Entrevistador: Quando terminou a terceira classe, foi logo trabalhar? Entrevistado: Vim trabalhar para aqui, para o tasco, da dona Laura. Entrevistador: E ao longo da sua vida que profissões é que teve? Em que é que trabalhou? Entrevistado: Olhe… costuma-se dizer que fui mulher dos sete instrumentos, mas eu não fui de sete, fui mais do que o dobro. Olhe, eu andei a servir, eu fui padeira, eu fui leiteira, eu andei
105 depois, andei aos dias. Eu trazia um baú lá de baixo, da estação de São Bento para aqui, para a Rua Cunha Júnior, vinha trabalhar as tardes para aí. De manhã era padeira. De tarde vinha para ali ganhar às tardes. Lavar roupa que ainda não havia as máquinas. E trazia o meu filho, trazia nos braços. E o baú à cabeça. Depois ia para a beira da casa da minha irmã que estava lá a servir. Fui pra lá trabalhar, de tarde. Ganhava sete e quinhentos na padaria, ganhava sete e quinhentos na tarde. E ganhava sete tostões no baú que trazia. Depois fui empregada de mesa, estive na Legião Portuguesa, fui empregada de mesas. Estava na cantina vinte e seis. Depois o tenente pediu-me para ir para Aveiro, para os comandos. Tinha que ficar com o bar aberto até à uma da manhã. Uma empregada de mesa ficava comigo para eu não ficar sozinha. Explicaramme como é que as coisas se faziam. Cheguei cá e ele disse-me que tinha quinze dias de férias, que ia quinze dias pra casa. Depois fui ter com ele e ele perguntou-me se queria ir como encarregada para a Lionesa. E eu disse que estava bem, eu já sabia fazer tudo. Estive lá dois anos. Depois de dois anos veio-me perguntar se eu queria ir para fiscal e que disse que queria. E lá fui eu para fiscal. Depois saí. Depois foi quando se deu o vinte e cinco de abril. Entrevistador: Disse-me que estava a trabalhar na Legião Portuguesa. Entrevistado: Já se constava isso. Estive numa casa de tintas, ali no Bomjardim. Estive no laboratório Ciclilave a entregar nas farmácias. Depois consegui ir para a câmara. Fui para os jardins. Andava a regar ervinhas e a plantar. Fazia horas extras quando vinha o verão. Saía de casa às cinco da manhã para a Boavista. Trabalhava duas horas extras. Foi assim que endireitei a minha vida. Depois fui para os quartos de banho. Mas estava a ganhar doze contos. Mas estava a ganhar doze contos e vim para dez. Baixei. Depois meti os papéis para reforma. Entrevistador: E falando ainda de trabalho. Como é que eram as condições de trabalho? Tinha férias? Entrevistado: Tinha férias. Estava muito bem. Vim mais cedo por causa da doença do meu marido, mas podia ter trabalhado mais dois ou três anos. Entrevistador: E por exemplo, depois do 25 de abril, notou alguma diferença em termos de trabalho? Entrevistado: Não, não. No dia 25 de abril estava eu nos jardins. Na Boavista. Depois veio um telefonema da câmara a dizer para a gente ir embora. Para deixar o trabalho e irmos embora. Entrevistador: No dia 25 de abril?!
112 Entrevistado: Vinham logo para aqui para a cadeia. Aqui para o pé do cemitério, em S. Lázaro. O Prado. Aquele que desse à língua ia logo preso. Mas eram mais homens do que mulheres. A gente no café tinha que ter muito cuidado, porque iam pra lá os polícias e a gente não sabia quem eram. Eles iam pra lá a ver se a gente falava na política. Entrevistador: Então tinham que ter esse cuidado pra não… Entrevistado: Íamos para o café pra ver televisão. Não tínhamos televisão. Ia ver as novelas. Entrevistador: Ia para o café para ver televisão?! Entrevistado: Ver as novelas. Mas não se podia falar em política. Eram logo enjaulados. Entrevistador: E lembra-se da PIDE? Entrevistado: Então não lembro? Uma vez estávamos a almoçar e bateram à porta de um casal, queriam falar com o marido dela. E ele era dos que falava muito no café. E levaram-no preso. E batiam-lhes muito… na PIDE. Entrevistador: E por exemplo, antes, as pessoas não podiam estar em grupo no meio da rua. Porque vinha alguém da PIDE para dispersar. Entrevistado: Porque antes a porcaria da política é que estragava tudo. Antes havia a polícia, a guarda nacional republicana, havia a guarda-fiscal, havia tudo. E depois veio o 25 de abril. Entrevistador: Lembra-se da campanha eleitoral do Humberto Delgado? Entrevistado: Do Humberto Delegado sim. Entrevistador: E lembra-se que quando Marcelo Caetano subiu ao poder que a senhora pode ir votar? Entrevistado: Sim. Entrevistador: E a senhora lembra-se onde é que estava no dia 25 de abril? Entrevistado: Estava com o meu marido em casa. Entrevistador: Mas já sabia que alguma coisa ia acontecer naquele dia? Entrevistado: Sabia porque a senhora onde eu estava a trabalhar me mandou pra casa. Entrevistador: E diga-me só mais uma coisa, notou alguma diferença antes e depois do 25 de abril no país? Entrevistado: Não, eu não notei diferença nenhuma. Antigamente não ligávamos tanto à política como agora. Entrevistador: Obrigado! Entrevistado: De nada.
113 Entrevista 6 Local: Cruz Vermelha Portuguesa no Bom Pastor Data: Porto, 11 de Junho de 2015 Duração: 1h18minutos Nome: José Manuel Ferreira da Silva Data de Nascimento: 15 de Fevereiro de1938 Estado Civil: viúvo Entrevistador: Diga-me o seu nome. Entrevistado: José Manuel Ferreira da Silva Entrevistador: E a sua data de nascimento? Entrevistado: 15 de Fevereiro de1938. Entrevistador: E o seu estado civil? Entrevistado: Viúvo. Entrevistador: E o senhor emigrou? Entrevistado: Não. Entrevistador: E cumpriu serviço militar! Entrevistado: Cumpri serviço militar. Parte. Depois vim quando estava a rebentar a Guerra do Ultramar. Entrevistador: E com que idade cumpriu o serviço militar? Entrevistado: Com 20 anos. Dos 20 anos para os 21, estive lá 6 meses. Entrevistador: E como é que era a sua família de origem? Em que é que trabalhavam os seus pais? Entrevistado: O meu pai era refinador de açúcar. Antes não eram os sacos de açúcar, vinham torrões, pedras de açúcar, e depois iam para a refinaria. Depois era colocado em sacos para fazer a distribuição para a parte comercial. Entrevistador: E a sua família teve problemas financeiros? Entrevistado: Pois teve. Entrevistador: E quais eram as principais dificuldades? Por exemplo, roupa, comida, livros… Entrevistado: A minha mãe era vendedora de fruta. O meu pai como lhe disse era refinador de açúcar e aos trinta e tal anos o meu pai adoeceu… e a minha mãe era a única para sustentar 4
114 filhos. O que se tornou complicado sobreviver e ajudar os próprios filhos. Os familiares perceberam a dificuldade da minha mãe e puseram os mais novos num colégio. A mim no instituto asilo nacional do terço, à minha irmã num colégio de raparigas. Entrevistador: Tinha mais três irmãos. Entrevistado: Sim. Eu vim para o colégio depois do meu pai falecer. Os meus tios quiseram ajudar e puseram-nos na escola. Entrevistador: Então o senhor e s seus irmãos andaram todos na escola?! Entrevistado: Andamos todos na escola. Entrevistador: Andou numa escola só de rapazes! Entrevistado: Só de rapazes. Antigamente não havia o misto. Havia só raparigas e rapazes todos isolados. Havia a escola das raparigas e havia a escola dos rapazes. Entrevistador: E frequentou a escola até que ano? Entrevistado: Frequentei a escola primária até aos 10/12 anos. Depois andei a estudar música. Lá era como na tropa. Entrevistador: E como é que era o ambiente vivido na escola naquele tempo? Entrevistado: Era uma disciplina do género militar. Andávamos alinhados com uma arma ao ombro. Era toque para levantar, era toque para irmos comer. Só tínhamos a hora do recreio. Era uma educação totalmente diferente. Agora têm mais liberdade. E ainda bem que assim é. Entrevistador: E lembra-se da Mocidade Portuguesa? Entrevistado: Lembro! Íamos nós tocar no dia 1 de Dezembro que era o dia da Mocidade Portuguesa quando era o dia da Independência. Íamos para o Rivoli. Juntavam-se todas as actividades da mocidade portuguesa. Uns faziam ginástica, outros iam fazer espectáculo. E nós íamos tocar. Fardados. Com a farda da mocidade portuguesa. Entrevistador: E que outras cerimónias havia para a mocidade portuguesa participar? Entrevistado: Tínhamos exposições, participávamos em aniversários das paróquias. Íamos todos fardados, muito pianinhos. Entrevistador: E o que é que acha que mudou em termos da educação com o 25 de abril? Entrevistado: É assim vendo os meus filhos que uma licenciou-se e outro tirou o 12º ano. Acho que a educação antigamente era melhor. Entrevistador: Mas em termos de ensino? Entrevistado: Em termos de ensino. Principalmente os professores. O ensino era muito superior ao de agora. Na quarta classe já sabíamos muita coisa. Entrevistador: E como é que era a família que constituiu?
115 Entrevistado: Espere que eu vou-lhe ler um texto. Este texto era para ter a habilitação mínima. Antes era a quarta classe. Depois passou para o 9º ano. Agora é o 12º ano. Fui tirar a escolaridade mínima porque sou muito curioso e queria saber mais. Apresentei metade sobre a minha especialidade e depois a parte de computadores. Para ter melhores conhecimentos de informática. Entrevistador: Então quis fazer o 9º ano. Entrevistado: Sim, sim. Entrevistador: E quando fez o 9º ano já tinha os seus filhos? Entrevistado: Já sim. Trabalhava na EFACEC. Entrevistador: E depois de ter terminado a escola foi logo trabalhar? Entrevistado: Fui logo trabalhar para a EFACEC. O engenheiro disse que eu para ficar efectivo tinha que ir para a escola industrial. E cheguei a fazer até ao terceiro ano industrial. O curso geral de electricidade. Faltava-me dois anos para terminar o curso. Acontece que com a revolução, depois do 25 de abril esses cursos deixaram de ter valor para a aptidão de avaliação para o grau de escolaridade. E esse grau de escolaridade deixou de existir. E por isso é que eu fui fazer o 9º ano. Entrei no trabalho aos 15 anos o que se prolongou até à reforma. Entrevistador: E trabalhou sempre na EFACEC? Entrevistado: A minha primeira experiência profissional foi bobinador eléctrico. Entrevistador: E quais eram as funções que tinha? Entrevistado: Fui electricista. Cheguei à parte de oficial qualificado. Entrevistador: Olhe e como é que eram as condições de trabalho? Tinha férias? O salário era bom? Entrevistado: Tinha férias. Quando comecei a trabalhar tinha 6 dias de férias. Depois passei para 9 dias. Depois para 18 dias. O sindicato dos electricistas de ano a ano fazia um novo enquadramento das condições e dos vencimentos. Fomos melhorando assim. Conforme os sindicatos e a empresa. Entrevistador: Acha que a taxa de desemprego é mais elevada? Entrevistado: Sim. Entrevistador: Acha que o 25 de abril veio revolucionar alguma coisa no mundo de trabalho?
116 Entrevistado: Veio revolucionar muita coisa. Veio revolucionar a aproximação da igualdade da mulher e do homem. Orgulho-me de participar dessa melhoria. Elas não tinham classificação na minha empresa, por exemplo. E trabalhavam tanto ou mais que os homens. Entrevistador: E morou sempre em Paranhos? Entrevistado: Não. Já morei em Cedofeita. Depois é que vim para cá. Quer saber como é que foi o 25 de abril? Entrevistador: Sim. Entrevistado: Aconteceu que no dia 25 de abril, nós levantávamo-nos cedo e chegávamos às 8 horas. Havia o autocarro, o 95, aqui na rua de Antero Quental e ia para a EFACEC. Levanto-me no dia de manhã e estou na paragem de autocarro para o trabalho. Meto-me no autocarro e já se ouvia assim qualquer coisa, falávamos muito baixinho com medo de poder estar lá alguém da PIDE. Entramos no autocarro e havia um burburinho. As pessoas falavam baixinho. As pessoas tinham medo porque não sabiam o que ia acontecer. Cheguei ao trabalho e a direcção mandou reunir-nos e disse-nos o que se estava a passar. Embora alguns dos trabalhadores estivessem integrados já na política, sorrateiramente, para poderem reivindicar aquilo que queriam e mudarem o sistema. E a direcção informou-nos que se estava a dar uma revolução. E nós avisamos as senhoras que estavam dispensadas do trabalho para irem buscar os filhos às escolas. Se no outro dia a coisa estivesse normalizada para irem trabalhar, mas se tivessem em casa que lhes pagavam na mesma. Eu vim logo pra casa, a minha mulher aí já tinha os filhos em casa, foi busca-los à escola. E uns trabalhadores tinham vindo para a rua, outros a reivindicar. Depois já se ouvia falar. Já podíamos falar! Que diferença de manhã no autocarro. Nós acabamos por pôr tudo cá para fora. Por lhes chamarmos fascistas. Nem sabíamos a quem chamávamos. Começou a haver os movimentos a nível políticos. E formaram-se os partidos oficialmente. Entrevistador: Pois, porque antes do 25 de abril sentia a falta de liberdade?! Entrevistado: Sim, sim! Entrevistador: Notava que havia a censura?! Entrevistado: Notava! Já sabíamos que havíamos a censura. Aqueles que estavam ligados à política vinham sorrateiramente deixar panfletos nas casas de banho [do trabalho] e a gente lia aquilo. E era assim que sabíamos as novidades e o que estava a acontecer. Entrevistador: E alguma vez assistiu a alguma manifestação antes do 25 de abril contra Salazar?
117 Entrevistado: Assisti. No dia 1 de Maio. Dia do Trabalhador. Eramos corridos. No dia 1 de Maio, quando era o dia do Trabalhador a gente ia ali para a Praça da Liberdade. Eramos enxotados. Entrevistador: Então também participava das manifestações? Entrevistado: Eu participava. Ia para lá como os outros. Nem sabia o que ia fazer, mas ia com os outros. Entrevistador: E que memórias é que tem em relação à PIDE? Entrevistado: Foi desastrosa, para a própria sociedade! As pessoas fechavam-se em casa. Entrevistador: As pessoas não podiam estar em grupo… Entrevistado: Não podíamos estar numa rua, se eu encontrasse um amigo não podia estar numa rua, numa esquina, se eu demorasse mais tempo já julgavam que a gente estava a falar da PIDE. Entrevistador: Mas havia muita polícia na rua? Entrevistado: Havia mais polícia. E havia muitos à civil. Por isso é que andávamos sempre de voz baixa. Para evitar que eles pudessem ouvir qualquer coisa contra o Salazar, qualquer coisa do regime e quererem averiguar se participávamos em algum partido político ou em alguma coisa desse género. Entrevistador: E alguma vez assistiu a alguma atuação da PIDE? Entrevistado: Não, nunca assisti. Mas assisti a algumas reacções da polícia. Entrevistador: E conheceu alguma pessoa que tenha sido presa pela PIDE? Entrevistado: Conheci. Entrevistador: Mas falavam de Salazar e da política? Entrevistado: Falavam de Salazar. Houve pessoas que trabalhavam na limpeza e que foram presas. Elas falavam do regime. Do regime actual e que nós nos queríamos libertar dele. Entrevistador: Porque é que acha que as pessoas queriam acabar com o Salazarismo? Entrevistado: Queríamos acabar com o Salazarismo porque a situação actual era insuportável. E já havia um descontentamento a nível oficial. Os próprios militares estavam descontentes. Nesse dia deu na televisão a Vila Morena. Entrevistador: E como é que sabia o que se passava no país? Tinha rádio ou televisão? Entrevistado: Por meio da televisão. Na televisão também havia censura. Toda a informação era passada por uma equipa de fiscalização ao próprio texto. Havia pessoas com capacidade de avaliar se o texto podia ir para a frente ou não. Se não voltava para trás. Por isso tinha que se arranjar um meio de saber as coisas. Por isso é que eu digo que lá na EFACEC nos informavam
118 através de panfletos que deixavam lá no quarto de banho e quando a gente ia lá e é que víamos. Sem sabermos quem é que punha lá aquilo. Entrevistador: Lembra-se da Primavera Marcelista? Entrevistado: Lembro-me. Entrevistador: Acha que Marcelo Caetano alterou alguma coisa? Entrevistado: Para mim alterou. Ele queria mudar alguma coisa. Ele dizia que os ricos tinham que apertar mais o cinto. Ele queria melhorar as coisas para os pobres. Ele queria melhorar as coisas a nível social. Lembro-me que ele queria melhorar os salários. Entrevistador: Foi ele que alargou o voto à mulher. Entrevistado: Foi ele que deu mais acesso à mulher. Mas muita gente não se lembra da ideia que ele tinha para o futuro da nossa sociedade. Mas os ricos não gostaram. Eu lembro-me que na altura havia um contrato de trabalho em que nós estávamos todos satisfeitos e os grandes senhores não queriam que esse contrato saísse cá para fora. Isto tudo acabou por vir o 25 de abril. Surgir a própria sociedade, uns desenrascaram-se, outros acabaram por sofrer com as alterações. E felizmente as mulheres ganharam liberdade. Entrevistador: Quais é que foram as principais mudanças que o 25 de abril trouxe à sociedade? Entrevistado: A liberdade de expressão, o acabar da Guerra do Ultramar… Entrevistador: E acha que o 25 de abril trouxe coisas más? Entrevistado: Trouxe coisas más a nível da Educação. Antes do 25 de abril os professores eram mais exigentes. Eramos castigados e a gente aprendia. Claro que havia castigos exagerados, mas aprendíamos. Entrevistador: E na sua juventude frequentava cafés? Quais eram os locais de convívio? Entrevistado: Antes do 25 de abril? Entrevistador: Sim. Entrevistado: Era o S. João. Arranjei a minha mulher no S. João. Entrevistador: E quando já estava casado ia ao café, ao teatro, ao cinema? Entrevistado: Eu operário, a minha mulher empregada de limpeza. Os patrões iam trabalhar e ela criou os filhos deles. Como eu aprendi no terço, gostava de teatro e de música, não me esquecia de ir com a minha mulher a um teatro no Sá da Bandeira. Nos nossos anos íamos comer à Ribeira a olhar para o rio. Depois do jantar íamos ao teatro. Era uma vez por ano. Às vezes na passagem de ano íamos ver o cantífulas. Íamos ver um espectáculo de variedades que
119 nos dava uma certa alegria. Mas era de longe a longe. Não esquecíamos a paternidade nem o convívio. Entrevistador: E quando era criança como é que eram as suas roupas? Os seus pais tinham oportunidade de lhe comprar roupa nova ou tinha que usar roupa usada? Entrevistado: Sim, sim, era. Os meus tios davam-nos roupa. E lençóis. E às vezes bacalhau. Eram os meus tios que nos ajudavam nas alturas difíceis. E a roupa que andávamos era sempre limpa. Os rapazes com uma boina. As meninas com vestidos brancos. E ao domingo estávamos todos bem vestidos. À semana podíamos andar descalços, mas ao domingo andávamos bem arranjados. Não tive muita dificuldade porque tive a ajuda dos meus tios na parte do crescimento. Mas tínhamos que usar mais uma peça de roupa. Tínhamos que ser cuidadosos. Entrevistador: Já está. Obrigado! Entrevistado: De nada!
120 Anexo II – Quadros das taxas de analfabetismo da Cidade do Porto (1930 – 1960) Quadro 1. Taxas de analfabetismo na Cidade do Porto, 1930 Idades Total Não sabe ler nem escrever Homem e Mulher Homem Mulher Taxa total de analfabetismo Homem e Mulher Homem Taxa de analfabetismo masculina Mulher Taxa de anlfabetismo feminina 10 – 19 43.591 21 055 22 536 31,16% 13 583 4 494 21,34% 9 089 40,33% 20 – 29 47.001 21 820 25 181 32,28% 15 176 4 146 19,00% 11 030 43,80% 30 – 39 35.972 15 816 20 156 30,50% 10 972 2 582 16,32% 8 390 41,62% 40 – 49 27.229 11 594 15 635 34,63% 9 430 2 054 17,71% 7 376 47,17% 50 – 59 19.294 7 772 11 522 38,80% 7 488 1 653 21,26% 5 835 50,64% 60 – 74 14.876 5 585 9 291 43,80% 6 516 1 356 24,27% 5 160 55,53% 75 + 3.283 984 2 299 52,48% 1 723 335 34,04% 1 388 60,37% Total 191.246 84 626 106 620 33,92% 64 888 16 620 19,63% 48 268 45,27% Fonte: Instituto Nacional de Estatística
121 Quadro 2. Taxas de analfabetismo na Cidade do Porto, 1940 Idades Total Não sabe ler nem escrever Homem e Mulher Homem Mulher Taxa total de analfabetismo Homem e Mulher Homem Taxa de analfabetismo masculina Mulher Taxa de analfabetismo feminina 10 - 19 50.414 24.441 25.973 21,42% 10.799 3.145 12,86% 7.654 29,46% 20 - 29 48.749 22.934 25.815 28,03% 13.668 3.644 15,88% 10.024 38,83% 30 - 39 42.620 19.064 23.556 32,95% 14.045 3.908 20,49% 10.137 43,03% 40 - 49 32.897 14.220 18.677 33,74% 11.100 3.004 21,40% 8.096 43,34% 50 - 59 23.005 9.335 13.670 38,67% 8.897 2.155 23,08% 6.742 49,31% 60 - 74 18.184 6.461 11.723 54,83% 9.971 1.739 26,91% 8.232 70,22% 75 + 4.684 1.326 3.358 49,74% 2.330 368 27,75% 1.962 58,42% Total 218.391 96.219 122.172 32,42% 70.810 17.963 18,66% 52.847 43,25% Fonte: Instituto Nacional de Estatística