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Universidade do Porto Faculdade de Arquitectura Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave Pedro Ricardo Gonçalves Ferreira Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto Orientador José Virgílio Borges Pereira Coorientadora Teresa Manuel Almeida Calix Augusto FAUP 2016
À memória do meu pai À minha mãe
Sumário Agradecimentos ................................................................................................................ v Siglas e abreviaturas ........................................................................................................ ix Lista de imagens ............................................................................................................ xiii Resumo da dissertação Resumo ....................................................................................................................... xvii Abstract ........................................................................................................................ xix Resumen ....................................................................................................................... xxi Introdução O estudo dos caminhos na estrutura do território: do tema ao método 1. Do tema 1.1. O objeto de estudo ..................................................................................................... 3 1.2. O espaço, a forma e o tempo ..................................................................................... 3 1.3. O problema, sua pertinência e objetivos do estudo ............................................... 4 2. Do método 2.1. Estrutura da dissertação ............................................................................................ 6 2.2. Fontes bibliográficas, cartográficas e as visitas pelo território ............................ 10 2.3. A História como um instrumento do trabalho ..................................................... 11 2.4. O desenho na representação do real ...................................................................... 12 Parte I Baixo Ave: da formação da paisagem 1. A Terra 1.1. Identificação e limites .............................................................................................. 17 1.2. Formas do relevo ...................................................................................................... 20 1.3. Solos .......................................................................................................................... 24 1.4. Rede hidrográfica ..................................................................................................... 25 1.5. O mar ........................................................................................................................ 30 2. O Homem 2.1. O povoamento proto-histórico .............................................................................. 41 2.2. A romanização e a disseminação do povoamento ............................................... 51 2.3. Da queda do Império Romano à formação da nacionalidade ............................ 65
Parte II Território singular e comum 1. O Baixo Ave entre o Minho e o Douro: origem das divisões geográficas ........... 75 2. A disseminação do povoamento e os caminhos ..................................................... 85 3. Uma organização antiga do território e o seu sistema agrário ............................ 91 3.1. O lugar no território paroquial ............................................................................... 91 3.2. Os lugares: entre a casa, o ager e o monte ............................................................. 96 3.3. O alvéolo de Bougado: um exemplo das agras do vale do Ave ......................... 100 4. A indústria no Baixo Ave: entre a permanência e a transformação .................. 105 4.1. Fixação e incremento industrial no contexto regional ...................................... 105 4.2. As disparidades concelhias como diversidade regional .................................... 107 4.3. Um novo quadro social ......................................................................................... 108 4.4. “Ao cair do pano” ................................................................................................... 112 Parte III Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 1. As primeiras redes de caminhos ............................................................................ 119 1.1. Os caminhos do pescado e do sal ......................................................................... 119 1.2. Os caminhos da romanização .............................................................................. 121 2. Os caminhos na construção Nação ........................................................................ 139 2.1. Os caminhos medievais ........................................................................................ 139 2.2. Os caminhos comerciais no contexto de quinhentos ........................................ 152 2.3. Século XIX e o Fontismo: os caminhos como imagem de progresso .............. 159 3. Século XX: os caminhos no território municipal do Baixo Ave ........................ 173 3.1. 1890-1910: os caminhos entre o declínio do Liberalismo e a instauração da República ....................................................................................................................... 173 3.2. O Plano Rodoviário Nacional ............................................................................... 174 3.3. As estradas municipais na disseminação do povoamento do Baixo Ave ......... 182 Conclusão ...................................................................................................................... 199 Referências bibliográficas ........................................................................................... 205 Créditos das imagens ................................................................................................... 211
Agradecimentos Ao longo dos últimos anos, principalmente no período dedicado à realização desta dissertação, muitos foram os contributos que, direta ou indiretamente, recebi, e que para ela muito contribuíram, materializando-se sob diversas formas no trabalho agora publicado. Terminado aquele processo, cumpre-me agradecer e reconhecer, genuinamente, todas as manifestações de apoio que fui recebendo. Em primeiro lugar, dirijo um agradecimento profundo ao Professor Doutor Virgílio Borges Pereira e à Professora Doutora Teresa Cálix Augusto pela disponibilidade em orientar e coorientar, respetivamente, esta dissertação. As palavras que aqui lhes dirijo serão, sob qualquer circunstância, manifestamente escassas para retribuir com justiça a generosa contribuição que os seus múltiplos conselhos e avisos produziram para o aperfeiçoamento dos temas aqui tratados. Mesmo nas horas mais nebulosas, em que as dúvidas e as incertezas se denunciavam, as suas pertinentes observações tiveram para mim um enorme valor. As orientações e testemunhos autorizados que me transmitiram constituem um exemplo a todos os níveis. Às câmaras municipais de Vila do Conde, da Trofa e de Santo Tirso expresso o meu reconhecimento pela disponibilidade possível no fornecimento de dados documentais importantes para o desenvolvimento do trabalho. Ao Dr. Miguel Nogueira agradeço a sempre pronta disponibilidade de todas as vezes em que, junto da Oficina do Mapa, procurei ajuda na procura de documentação cartográfica. Devo também uma palavra de agradecimento a todos aqueles que contribuíram para um alargamento das minhas capacidades e competências, em especial aos docentes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, que ao longo de vários anos partilharam generosamente o seu conhecimento. As palavras serão infinitamente escassas para agradecer a constante e paciente ajuda do Sr. Jorge Vieira. A sua boa disposição e humildade são, para mim, pilares essenciais do companheirismo e da amizade que com ele preservo. Ao Pedro Bragança, colega e amigo de todos os momentos, agradeço as suas tão ricas quanto avisadas contribuições que me ajudaram a definir com maior clareza o rumo desta dissertação. Agradeço, sobretudo, os conselhos, as sugestões bibliográficas e as inúmeras discussões que, tantas vezes fora de horas ou nas viagens pelo EntreDouro-e-Minho, enriqueceram este percurso. v
Lista de imagens i. Caminho [Vila do Conde], p. 8. ii. Campo [Vila do Conde], p. 9. iii. Baixo Ave: identificação, limites e formas do relevo, p. 21. iv. Rio Ave [Retorta, Vila do Conde], p. 26. v. Rio Ave [Maganha, Trofa], p. 27. vi. Baixo Ave: bacia hidrográfica, p. 31. vii. Vista da Serra de Santa Eufémia para oeste [Vila do Conde/ Trofa], p. 34. viii. Vista da Serra de Santa Eufémia para este [Vila do Conde/ Trofa], p. 35. ix. Mulheres apanhando sargaço junto à costa, p. 39. x. Sargaço a secar, p. 39. xi. O Monte Padrão a partir do Castro de Alvarelhos, p. 47. xii. Baixo Ave: carta do povoamento proto-histórico, p. 49. xiii. As ruínas do Castro de Alvarelhos [Alvarelhos, Trofa], p. 62. xiv. O posicionamento estratégico de Alvarelhos. Vista sobre o vale da Ribeira da Aldeia [Alvarelhos, Trofa], p. 62. xv. Província de Entre-Douro-e-Minho [gravura de Adolphe Laurent], p. 79. xvi. Esquema de povoamento disseminado, p. 82. xvii. Esquema de povoação do litoral, p. 83. xviii. Igreja e campo [Santiago de Bougado, Trofa], p. 95. xix. Lugar de Santagões [Bagunte, Vila do Conde], p. 99. xx. Vale da Ribeira da Aldeia [Alvarelhos, Trofa], p. 99. xxi. O alvéolo de Bougado [Santiago de Bougado, Trofa], p. 103. xxii. O alvéolo de Bougado [Santiago de Bougado, Trofa], p. 103. xxiii. Fábrica de Fiação e Tecidos de Santo Thyrso e Bairro do “Teles” [Santo Tirso], p. 111. xxiv. Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela [por Alberto Pimentel], p. 113. xxv. Baixo Ave: os caminhos romanos, p. 135. xxvi. Ponte D. Zamiro [Santagões, Vila do Conde], 137. xxvii. Baixo Ave: os caminhos medievais, mosteiros e locais fortificados segundo Ferreira de almeida, p. 151. xxviii. Convento de Santa Clara [Vila do Conde], p. 156. xxix. Foz do Ave [Vila do Conde], p. 157. xxx. Ponte pênsil sobre o Ave [Trofa/ Vila Nova de Famalicão], p. 170. xxxi. Ponte do caminho-de-ferro sobre o Ave [Trofa/ Vila Nova de Famalicão], p. 171. xxxii. Início da construção da N 104 [Trofa], p. 177. xxxiii. Fábrica [Santiago de Bougado, Trofa], p. 186. xxxiv. Fábrica [Palmazão, Vila do Conde], p. 187. xxxv. A7 e ligação à variante rodoviária a sul [Vila Nova de Famalicão], p. 190. xxxvi. Vila Nova de Famalicão, p, 191. xxxvii. N14 [Vila Nova de Famalicão], p. 194. xiii
xxxviii. N 13 [Póvoa de Varzim], p. 195. xxxix. Caminho [Vila do Conde], p. 203. xiv
Resumo A presente dissertação tem como objeto de estudo os caminhos do território do Baixo Ave, isto é, o conjunto de infraestruturas que, da proto-história à atualidade, se foram integrando naquele espaço regional. Por caminhos tomámos todas as nomenclaturas, tipologias e funções sob as quais estes elementos se foram desdobrando e desmultiplicando, num processo denso e muito complexo. O Baixo Ave, que aqui definimos pelos concelhos da Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Vila Nova de Famalicão, Trofa e Santo Tirso, é o espaço ao qual cingimos o nosso estudo. Este território apresenta características muito próprias, como a sua posição intermédia entre os contextos regionais minhoto e duriense ou entre o interior do vale e as terras planas situadas sobre o Atlântico. Não obstante a identificação deste carácter individualizado, devemos também sublinhar os traços que aquele território comunga com todo o Entre-Douro-e-Minho. Entre as suas planícies e os vales profundos e retalhados provocados pelos seus afluentes, o território desenvolve-se numa sucessão de espaços contidos, por onde o povoamento se disseminou. É justamente com base neste povoamento disperso pelo território que entendemos ser relevante proceder a um recuo temporal que nos ajudasse a compreender o processo de incorporação contínua dos caminhos na estrutura do espaço regional. Com base na natureza antiga dos assentamentos do Baixo Ave, esta ação metodológica organizouse, criticamente, sob momentos-chave da infraestruturação do território, onde os caminhos ocuparam lugar central: dos caminhos do pescado castrejos às viae publicae, vicinales e privatae da romanização; das vias medievais às vias transversais da Idade Moderna; das estradas reaes e distritaes, às estradas municipais ou à autoestrada. Num território há muito densamente povoado, o estudo dos caminhos e do seu contributo para a estrutura da paisagem é um ponto de partida para olharmos criticamente para a evolução do território português. xvii
Abstract This thesis has as main study object the ways of Baixo Ave’s territory, that is, the whole infrastructures that, from protohistory to present days, have become part of that regional area. By ways we considered all terminologies, typologies and functions under which these elements have been being unfolded in a dense and very complex process. The Baixo Ave region, which we defined here by the municipalities of Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Vila Nova de Famalicão, Trofa and Santo Tirso, is the area that our study focus about. This territory presents very own characteristics, such as its middle position between the regional contexts of Minho and Douro or between the interiors of the valley and the flat lands over the Atlantic. Despite the identification of this individual character, we should also emphasize the peculiarities that this territory shares with all Entre-Douro-e-Minho region. Between its plains and the deep valleys, dug by its tributaries, this territory develops itself in a sequence of contained spaces by where the settlements spread. It’s precisely basing on these settlements spread over the territory that we believe it’s useful to make a step backwards that helped us understanding the process of continuous incorporation of the ways in the regional space’s structure. Basing on the ancient nature of the Baixo Ave’s settlements, this methodological action was judiciously organized under several key-moments of the territorial infrastructuration where these ways have an essential role: from the proto-history ways to the viae publicae, vicinales and privatae of the Romanization; from the medieval ways to the transversal ways of the Modern Age; from the royal and district roads to the municipal roads or highways. In a territory since long time highly populated, the study of the ways and their contribution to the landscape structure seams a departure point for us to look thoughtfully towards the evolution of the Portuguese territory’s construction. xix
Resumen La presente tesis tiene como objeto de estudio los caminos del territorio del Baixo Ave, o sea, el conjunto de infraestructuras que, de la protohistoria a la actualidad, se fueron integrando en aquel espacio regional. Por caminos hemos adoptado todas las nomenclaturas, tipologías y funciones bajo las cuales estos elementos se fueron desenmarañando y desmultiplicando en un proceso denso y muy complejo. El Baixo Ave, que aquí definimos por los municipios de Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Vila Nova de Famalicão, Trofa y Santo Tirso, es el espacio al cual limitamos nuestro estudio. Este territorio presenta características muy propias, como su posición intermedia entre los contextos regionales miñoto y “duriense” o entre el interior del valle y las tierras planas emplazadas sobre el Atlántico. No obstante la identificación de este carácter individualizado, debemos también señalar los trazos que aquel territorio comparte con todo el Entre-Douro-e-Minho. Entre sus planicies y los valles profundos y fragmentados provocados por sus afluentes, el territorio se desarrolla en una sucesión de espacios contenidos, por donde el poblamiento se dispersó. Es justamente con base en este poblamiento disperso por el territorio que consideramos ser importante hacer un paso hacia atrás en el tiempo que nos ayudara a entender el proceso de incorporación continua de los caminos en la estructura del espacio regional. Con base en la naturaleza antigua de los asentamientos del Baixo Ave, esta acción metodológica se organizó, críticamente, bajo momentos-clave de la infra estructuración del territorio, donde los caminos ocuparon un lugar central: de los caminos del pescado a las viae publicae, vicinales e privatae de la romanización; de las vías medievales a las vías transversales de la Edad Moderna; de las estradas reales y distritales a las estradas municipales o a la autopista. En un territorio hace mucho densamente poblado, el estudio de los caminos y de su contribución para la estructura del paisaje es un punto de partida para que miremos críticamente la evolución del territorio portugués. xxi
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 6 2. Do método 2.1. Estrutura da dissertação O noroeste português tem sido unanimemente reconhecido pela remota e elevada presença humana, um “viveiro inexaurível de homens” 6, como lhe chamou Jaime Cortesão. Na região, onde foi possível que “a terra moldasse o homem e o homem moldasse a terra tão mútua e intimamente” 7, proliferou um povoamento muito intenso e disperso pelo território, desmultiplicado através de sistemas de organização com origens muito remotas que, ao longo do tempo, se foram alterando entre a permanência e a transformação. A ocupação longínqua do território do noroeste, e do Ave em particular, foi determinantes na formação da própria Nação. Como avisa Alberto Sampaio, foi na região do noroeste “que se formou o núcleo da futura nação” 8, saindo “desse inesgotável reservatório humano (...) a gente que [a] aglutinou.” 9 Por isso, é essencial para o estudo dos caminhos do território que se faça uma aproximação não só às condições naturais existentes, e que muitas vezes determinaram o seu traçado, mas de igual modo ao desenvolvimento da paisagem formada na relação dos povos com o espaço ao qual se foram apropriando. Acreditamos, coincidindo com Távora, que “no estudo do meio português deveríamos atender aos dois elementos fundamentais, o Homem e a Terra, no seu presente e no seu desenvolvimento histórico.” 10 Procurámos, por isso, dividir a primeira parte desta dissertação, Baixo Ave – a formação da paisagem, entre estes dois componentes, “factores decisivos a estudar pormenorizadamente em todas as manifestações e possibilidades e naquilo em que directamente possam interessar.” 11 Do nosso ponto de vista, é indispensável reconhecer os elementos fundamentais disponíveis neste vasto território, identificando os fatores naturais que o distinguem, lembrando também que “nem só o relevo foi elemento determinante na organização e evolução dessa paisagem, mas também o clima, a hidrografia, os solos e a vegetação.” 6. Cortesão, Jaime, Portugal – A Terra e o Homem, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1995, p. 31. 7. Idem, ibidem, p. 29. 8. Sampaio, Alberto, As póvoas marítimas - Estudos Históricos e Económicos, vol. II, Col. Documenta Historica, Lisboa, Ed. Vega, 1979, p. 166. 9. Ribeiro, Orlando, Portugal - o Mediterrâneo e o Atlântico, Col. Nova Universidade, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1986, p. 166. 10. Távora, Fernando, “O problema da casa portuguesa”, in Teoria e crítica de Arquitectura séc. XX, Lisboa, Ordem dos Arquitectos - Secção Regional Sul e Caleidoscópio, 2010, pp. 327-328. 11. Idem, ibidem, pp. 327-328.
Introdução O estudo dos caminhos da estrutura do território: tema e método 7 12 Do mesmo modo, reconheçamos os fatores humanos que determinaram a evolução da paisagem, nunca esquecendo que ela se constituiu como resultado de um trabalho constante de “gente humilde que aceitou um destino simples, exerceu com esforço o que aprendeu dos antigos, modelando a fisionomia dos lugares e prolongando no mar a obscura energia dos homens.” 13 No estudo do território, várias são as condicionantes a que devemos atender de uma forma simultaneamente objetiva e abrangente. Embora a nossa investigação seja conduzida sobre um objeto particular – os caminhos do território -, inserido num contexto espacial perfeitamente delimitado – o Baixo Ave -, não poderemos construir o nosso pensamento de uma forma isolada e simplificada. Pelo contrário, a pesquisa e o consequente discurso que dela resultará, deve contemplar, não só as diferentes, vastas e complexas condicionantes que determinam a morfologia da paisagem, mas também as características que aquele território comunga com as diversas partes da região a que se circunscreve. Só assim cremos ser possível extrair uma leitura mais rigorosa e aproximada dos temas aqui tratados. Analisar e teorizar sobre os caminhos do território do Baixo Ave exige que se faça uma leitura transversal e que se confrontem os traços de excecionalidade daquele espaço regional com os critérios identitários comuns a todo o noroeste português, ou se quisermos, a todo o Entre-Douro-e-Minho. Assim, reservámos para a segunda parte desta dissertação a identificação de um Ter ritório Singular e Comum, pautado entre as características do Baixo Ave e de todo o espaço compreendido entre os rios Douro e Minho. Por isso, procurámos, nessa parte, esmiuçar as particularidades do universo complexo de modos de habitar e de convivência social que na região se estabeleceram ao longo dos tempos, dando origem a uma ideia de unidade da paisagem. Ao estudarmos os caminhos do território, não pretendemos fazer uma simples caracterização ou um mero levantamento técnico que provavelmente poucos resultados nos permitiria produzir. “No estudo da viação o mais importante (...) não é tanto a descoberta do traçado material dos caminhos, mas sim as suas funções e as suas consequências sociais, económicas, culturais, políticas, etc..” 14 No fundo, a sua relevância na estruturação e organização do território e das comunidades que nele habitam. Queremos, acima de tudo, como esclarecemos inicialmente, partindo do estudo dos caminhos, do seu desenho ou traçado e da leitura das suas inúmeras 12. Silva, Rosa Fernanda Moreira da, “Contrastes e mutações nas paisagens agrárias das planícies e colinas minhotas” in Studium Generale - Estudos contemporâneos, nº 5, Porto, C.E.H., 1993, pp. 9-115. 13. Ribeiro, Orlando, Portugal - o Mediterrâneo e o Atlântico, Col. Nova Universidade, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1986, p. 145. 14. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Vias Medievais Entre Douro e Minho, vol. I, Porto, Ed. Autor, 1968, Dissertação de Licenciatura em História apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 5. i. Caminho [Vila do Conde]. ii. Campos [Vila do Conde].
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 8 i.
Introdução O estudo dos caminhos da estrutura do território: tema e método 9 ii.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 10 funções, entender com maior profundidade as relações entre povos, e entre estes e o seu habitat, podendo a partir delas, estabelecer um pensamento mais amadurecido sobre a disposição das formas no espaço. Assim, na terceira e última parte do trabalho - Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave -, dotados do conhecimento útil dos temas até aí tratados, selecionámos algumas épocas em que a formação e integração de caminhos na paisagem foram absolutamente determinantes. 2.2. Fontes bibliográficas, cartográficas e as visitas pelo território No estudo do objeto e dos temas que nos propusemos tratar, sentimos, desde a primeira hora, a necessidade de recolher o máximo de informações escritas, desenhadas, fotografadas etc., que nos permitissem aproximarmo-nos com algum domínio das complexas - porque diversas -, matérias sobre o território. Dessa forma, tornou-se incontornável a necessidade de recolha de fontes que nos servissem de referência e que, de certo modo, nos fossem ajudando a construir e organizar as bases do nosso pensamento e a própria estrutura da dissertação. Esse trabalho, muitas vezes invisível e demorado, nem sempre correspondeu às nossas expectativas. Se por vezes ele se desdobrou em diversas frentes que, em simultâneo, se desmultiplicavam noutras tantas ideias e na formulação de novos problemas, por outro, a recolha de peças escritas e principalmente cartográficas verificou-se, em vários momentos, inócua ou sem aparentes resultados, fruto da inexistência de informações sobre determinado assunto. Pese embora as dificuldades encontradas, foram inúmeras as referências escritas que nos ajudaram a entender, com maior rigor, o objeto e o espaço do nosso estudo. Uma parte considerável dessas fontes foi recolhida nas bibliotecas públicas locais ou, na maioria dos casos, nas bibliotecas da Faculdade de Arquitectura e da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e ainda na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Em alternativa, mas de forma não menos importante, encontrámos também um conjunto de bibliografia de interesse nas plataformas digitais da Biblioteca Nacional ou das próprias universidades do Porto e do Minho. Não podemos afirmar, com a certeza absoluta, que detemos um domínio total sobre a bibliografia produzida sobre todos os temas aqui tratados. Na verdade, não seria expectável que o tivéssemos. Embora, em determinados momentos, esta profunda pesquisa de informações escritas tenha suscitado novas dúvidas e algumas angústias que, de certo modo, bloquearam o desenvolvimento natural do trabalho, acreditamos que a nossa pesquisa resultou num interessante exercício para aferir, com maior rigor, as diversas circunstâncias e realidades que o tema nos sugere. Nesse contexto, não nos limitámos a recolher fontes que se referissem, única e exclusivamente, aos caminhos do Baixo Ave. Assim, coligimos um universo de referências variadas, distribuídas por diferentes disciplinas. Da arquitetura à história, da geografia
Introdução O estudo dos caminhos da estrutura do território: tema e método 11 humana à antropologia, da etnografia à sociologia, da economia à política, muitos foram os recursos encontrados, consultados, e em grande medida utilizados para suportamos o nosso discurso. Do vasto conjunto bibliográfico que suportou esta dissertação, alguns autores, mais do que outros, ocuparam naturalmente um lugar de importância acrescida. Falamos sobretudo das obras pioneiras de Alberto Sampaio – Vilas do Norte de Portugal e As Póvoas Marítimas -, de Orlando Ribeiro – Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico - e dos trabalhos tão completos como rigorosos de José Mattoso – Identificação de um país - de Carlos Alberto Ferreira de Almeida – Vias Medievais Entre Douro e Minho, Arquitectura Românica no Entre–Douro-e-Minho, Castelologia medieval de Entre-Douro-e-Minho e diversos artigos – e de Eugénio Andrea da Cunha Freitas – Estradas Velhas entre o Leça e o Ave. Se a pesquisa e consequente recolha de fontes bibliográficas nos ajudaram a desconstruir o nosso objeto de estudo, sugerindo novos problemas mas originando também as soluções de que necessitávamos, as hipóteses de construção do discurso encontraram na imensa dificuldade em compilar cartografia útil um desagradável obstáculo. À natural inexistência de peças desenhadas com relativo recuo histórico e, especialmente, com o rigor e o nível de informação que pretendíamos, encontrámos alguns obstáculos de teor burocrático municipal que nos negaram, em vários casos, o acesso a informação adicional que nos teria sido inteiramente proveitosa. Uma vez mais, servimo-nos dos arquivos e catálogos digitais públicos da Biblioteca Nacional, do arquivos Distrital e Municipal do Porto, da Oficina do Mapa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e ainda dos arquivos e serviços documentais de alguns dos municípios estudados. Em todos eles, a informação encontrada era escassa e, em muitos casos, repetida, resumindo-se fundamentalmente a cartas militares, cartas geológicas ou cartografia municipal recente. Não obstante a importância das fontes bibliográficas e cartográficas recolhidas, tornou-se também fundamental tomar contacto com o espaço que nesta dissertação estudamos. Por isso, as visitas pelo território, organizadas regularmente, contribuíram para um melhor entendimento das temáticas abordadas. Nessas pequenas viagens, entre outros elementos, procedemos a um levantamento fotográfico que nos ajudou a colmatar as carências de alguma informação de que as restantes fontes padeciam. 2.3. A História como um instrumento do trabalho Sendo esta uma dissertação sobre os caminhos da estrutura de um território específico, e procurando através dos seus traçados e inúmeras representações pensar sobre o povoamento regional e sobre ele elaborar um discurso que se quer claro, objetivo e rigoroso, tornou-se impreterível uma reflexão sobre as circunstâncias resultantes de um processo que oscila entre as mutações e as permanências que só o tempo é capaz de produzir. É exatamente para esta ideia que Orlando Ribeiro parece
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 12 apontar quando afirma que “uma paisagem é, na maioria dos casos, uma herança, um produto da história que o presente” – por si só, acrescentamos nós – “não explica” 15, pelo que julgamos ser necessário atender às circunstâncias do passado num território que desde cedo se apresentou densamente povoado. Embora esta necessidade nos parecesse essencial, não quisemos recorrer à história exclusivamente como forma de contextualização vaga e desprovida de sentido. Quisemos, sobretudo, suportar-nos naquela disciplina como uma das ferramentas do nosso trabalho. Nesse sentido, como sempre assumimos, não quisemos fazer do passado “uma prisão de que poucos sabem livrar-se airosamente e produtivamente” 16, reconhecendo, como Távora, que ele “vale muito, mas é necessário olhá-lo não em si próprio mas em função de nós próprios.” 17 2.4. O desenho na representação do real Se por um lado consideramos, como já dissemos, a utilidade da História e de outras disciplinas como instrumentos essenciais para uma aproximação ao nosso objeto e espaço de estudo, de modo algum descuramos a dimensão central que o desenho teve para esta dissertação. Falar dos caminhos do território, e, sobretudo, entender de que forma eles se foram integrando como um elemento estruturador da paisagem, obrigou-nos a recorrer ao desenho como forma de suportar o nosso pensamento. Desenhar é pensar ou, como apontava Távora, é, sobretudo, a procura da inteligência. O desenho, como instrumento poderoso de percepção e compreensão do que nos rodeia, não se pode limitar, no exercício da arquitetura, ao projeto. Ele deve ser, acima de tudo, recurso constante na aproximação ao real, linguagem do nosso pensamento e suporte do nosso discurso. Tentámos encontrar, como dissemos, nos arquivos físicos e digitais disponíveis, um conjunto de cartografia que compreendesse diferentes épocas por nós abordadas e que permitisse observar as transformações operadas sobre o território, na relação entre caminhos e povoamento. Naturalmente, essas fontes estavam limitadas no tempo, pois só a partir de meados do século XIX se produziram desenhos com maior rigor e informação. Se a cartografia histórica existente é francamente exígua, particularmente a que se dedica à representação da estrutura dos caminhos portugueses, a documentação mais atualizada, proveniente dos trabalhos ou relatórios 15. Ribeiro, Orlando, Cit. por Gomes, Manuel; Saraiva, António, Orlando Ribeiro – Itinerâncias de um geógrafo, Registo vídeo, Lisboa, B’lizzard – Criatividade, Comunicação e Serviços, 2011, DVD, 58 min., color. 16. Távora, Fernando, “O problema da casa portuguesa”, in Teoria e crítica de Arquitectura séc. XX, Lisboa, O. A. – S.R.S. e Caleidoscópio, 2010, p. 327. 17. Idem, ibidem, p. 327.
Introdução O estudo dos caminhos da estrutura do território: tema e método 13 municipais e regionais, de âmbito administrativo ou militar, contém, na maioria das vezes, um vasto conjunto de informações que acabam por se sobrepor mutuamente, retirando ao desenho a leitura e compreensão necessária. Partindo com estas dificuldades, tentámos produzir e reconstituir ao longo da dissertação, com base nas diversas fontes – escritas, desenhadas ou fotografadas – alguns desenhos, a diferentes escalas, que, embora em alguns casos meramente especulativos, julgámos pertinentes para auxiliar o nosso pensamento e sustentar o nosso discurso.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 22 corresponde aos maciços da Cabreira e Maroiço” 9, designada de Zona de Transição. 10 Esta área apresenta declives que variam entre os 3,8% e os 16,7%, verificando-se, nesta fase, uma descida notoriamente acentuada até à cota dos 400 metros 11 junto à Albufeira do Ermal, ainda no concelho de Vieira do Minho. A partir deste ponto, inicia-se a região das Terras Baixas 12, que se estende até ao litoral e principia com um pequeno trecho que se desenvolve em declives mais suaves, geralmente inferiores a 0,5%, até à cota dos 200 metros 13, já no concelho da Póvoa de Lanhoso. A partir daqui, o vale desenvolve-se em altitudes inferiores aos 200 metros, embora pontualmente apresente elevações acima dessa altitude. Durante largos quilómetros, o rio percorre, em encostas suaves, os concelhos de Guimarães, Vila Nova de Famalicão e Santo Tirso. No entanto, na observação de Miguel Montenegro de Andrade é referido que neste último concelho, junto à confluência com o Vizela, o Ave “apresenta características de rio jovem, de vale estreito” 14 e “profundamente encaixado no granito” 15, acrescentando ainda que as suas margens se mostram “abruptas, cortadas quase a pique”.16 É também em Santo Tirso que “o vale assume um aspecto diferente, com margens baixas, que nas grandes cheias são inundadas pelas águas.” 17 Estas assimetrias na sua configuração repetem-se, segundo aquele autor, em todo o percurso do rio, perfazendo um vale quase sempre assimétrico. Mas é, sobretudo, a partir da Trofa e Vila Nova de Famalicão, respetivamente nas margens esquerda e direita do rio, que se verifica uma estabilização das altitudes, que apenas será contraposta pontualmente ou já na aproximação ao Atlântico. Esta zona, que integra a área alvo do nosso estudo, é vincadamente marcada por “uma ampla planura de terras baixas, bastante produtivas, insinuando-se para o interior da margem direita por depressões planas, a que se dá o nome de ‘agras’.” 18 Devemos, 9. Gomes, Pedro Teixeira et al., Património natural da bacia do Ave - Relatório final do inventário do património natural da bacia hidrográfica do Rio Ave, Braga, Projecto Alba-Ter/ Ave, Departamento de Biologia - U.M., 2001, p. 19. 10. Idem, ibidem, p. 19. 11. Araújo, Ana Paula; Afonso, Odete – A bacia hidrográfica do Rio Ave, Porto, D.G.R.N., 1990. 12. Ribeiro, Orlando cit. por Gomes, Pedro Teixeira et al., Património natural da bacia do Ave - Relatório final do inventário do património natural da bacia hidrográfica do Rio Ave, Braga, Projecto Alba-Ter/Ave, Departamento de Biologia - U.M., 2001, p. 2. 13. Idem, ibidem, p. 2. 14. Andrade, Miguel Montenegro de, Terraços do Vale do Ave, Porto, Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, 1946, p. 6. 15. Idem, ibidem, p.6. 16. Idem, ibidem, p.6. 17. Idem, ibidem, p.6. 18. Idem, ibidem, p.6. iii. Baixo Ave: identificação, limites e formas do relevo.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 23 no entanto, assinalar, como avisa Rosa Moreira da Silva 19, que estas terras são também reconhecíveis na margem esquerda do rio, expandindo-se entre Santiago do Bougado, na Trofa, até ao lugar do Bicho, mais a jusante. É a partir desta zona que o vale muda de direção, desenvolvendo-se em meandros e sofrendo de novo um estreitamento notório. A partir da Maganha, em direção a jusante, o rio possui “margens em declive considerável, de quando em quando abaixando-se em campos ribeirinhos, a poucos metros acima das águas de estio.” 20 Este estreitamento é também resultado do alinhamento dos relevos mais acentuados que ali se fazem sentir – principalmente no triângulo composto por São Gens de Cidai (200 metros), na Serra de Bougado, Santa Eufémia (240 metros) e Queimado Alto (140 metros), este último na margem norte – e que integram uma grande mancha de relevo que se estende de Valongo à Serra de Rates, na Póvoa de Varzim. 21 A cerca de 1 quilómetro a sul de Queimado Alto, à cota de 60 metros, desenvolve-se um dos terraços do vale do Ave identificados por Miguel Montenegro de Andrade. Trata-se de um “extenso e perfeito planalto que, iniciando-se no lugar de Agulada, Ribeiro dos Peixes, se estende amplamente por Ferreiró e Parada até Figueiró de Baixo.” 22 Mais a jusante, numa zona onde as margens do rio se revelam ainda bastante inclinadas, dá-se, junto à Touguinha, a confluência entre o Ave e o Este. A partir deste ponto, e até ao aglomerado urbano de Vila do Conde, ambas as margens daquele rio vão-se tornando progressivamente mais suaves, sendo possível identificar zonas de declive reduzido onde existe grande aproveitamento agrícola. Na margem sul, desde Vilarinho até à faixa costeira, não se vislumbram grandes alterações de relevo, desenvolvendo-se esta zona com declives muito pouco acentuados, variando as suas altitudes entre os 60 (Vilarinho), os 40 (Árvore) e os 20 metros (Azurara), entre os 50 (Fajozes) e os 30 metros (Mindelo) ou ainda entre os 40 (Modivas) e os 20 metros (Vila Chã). 19. Silva, Rosa Fernanda Moreira da, “Contrastes e mutações nas paisagens agrárias das planícies e colinas minhotas” in Studium Generale - Estudos contemporâneos, nº 5, Porto, 1993, pp. 9-115. 20. Andrade, Miguel Montenegro de, Terraços do Vale do Ave, Porto, Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, 1946, p. 6. 21. Embora estas proeminências não possam ser diretamente comparáveis àquelas que inicialmente descrevemos e que se circunscrevem à Serra da Cabreira, ou até mesmo a outras regiões minhotas onde as altitudes ultrapassam os 1300 metros (Serras do Gerês, Peneda, Soajo e Amarela), é curioso observar que elas se situam a apenas escassos quilómetros do Atlântico, sendo por isso pontos destacados do território que usufruem geralmente de grande visibilidade. Enfaixada entre estes afloramentos e a linha da costa existe uma grande mancha de terras baixas que se estende deste o Porto até Viana do Castelo. 22. Andrade, Miguel Montenegro de, Terraços do Vale do Ave, Porto, Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, 1946, p. 8.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 24 1.3 Solos De uma forma geral, podemos afirmar que o vale do Ave se situa sobre o Maciço Hespérico, também designado de Ibérico ou Antigo, “a mais velha unidade estrutural da Península, onde predominam as rochas graníticas e xistosas.” 23 Ao longo do vale, tal como acontece nos restantes rios do norte do país, é possível encontrar também formações do Holocénico e do Plio-Plistocénico, identificadas, respetivamente, como aluviões e terraços fluviais. Do mesmo modo, são também visíveis formações de xistos e grauvaques, principalmente na fase terminal da bacia do Ave, na bacia do Vizela e nas proximidades de Braga. Assim, estas características permitem-nos concluir que o Ave apresenta também, quanto à sua constituição geológica, alguma variedade, não sendo, por isso, totalmente uniforme. 24 No Alto e Médio Ave, principalmente nas regiões acima dos 150 metros de altitude, o vale ostenta, em manchas mais denotadas, rochas eruptivas de natureza granítica, predominantemente calco-alcalinas, acompanhadas de numerosos filões de quartzo, consequência da existência de intenso metamorfismo de contacto. 25 Segundo Miguel Montenegro de Andrade, é em Pugido, Santo Tirso, que “o rio deixa a região granítica para entrar em terreno xistento, na grande parte pertencente ao Silúrico e subordinado aos xistos amplitosos” 26, embora esta variação não altere de forma considerável o aspeto do vale. Nesta observação, não podemos deixar de destacar a grande mancha do Paleozóico, à qual já aludimos anteriormente quando relatámos a existência dos relevos proeminentes que se alongam a partir de Valongo em direção a Viana do Castelo. Esta faixa montanhosa atravessa todo este território no sentido SE-NO e constitui-se, essencialmente, de xistos e grauvaques. 27 Do nosso ponto de vista, devemos fazer também referência ao prolongamento para norte do granito da região do Porto, numa mancha orientada de SSE para NNO, “que de Muro, Guilhabreu, e Modivas se prolonga até Arcos, Terroso e Aver-o-Mar.” 28 Este facto, entre outros, permitiu a Miguel Montenegro de Andrade supor que o Ave “é dos rios do norte de Portugal aquele que 23. Mendes, José Armando; Fernandes, Isabel (coord.), Património e indústria no Vale do Ave, Vila Nova de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 43. 24. Andrade, Miguel Montenegro de, Terraços do Vale do Ave, Porto, Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, 1946, p. 6. 25. Araújo, Ana Paula; Afonso, Odete, A bacia hidrográfica do Rio Ave, Porto, D.G.R.N., 1990. 26. Andrade, Miguel Montenegro de, Terraços do Vale do Ave, Porto, Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, 1946, p. 6. 27. Teixeira, Carlos; Medeiros, A. Cândido; Assunção, C. Torre de, Carta geológica de Portugal (esc. 1/50 000), Notícia explicativa da fl. 9-A, Póvoa de Varzim: estudos petrográficos, S.G.P., Lisboa, 1973. 28. Dinis, António Pereira, Ordenamento do território do Baixo Ave no I Milénio a. C., Porto, Ed. Autor, 1993, Dissertação de Mestrado em Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 14.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 25 maiores semelhanças nos revela quanto ao Douro, pelo menos no que diz respeito à parte vestibular de ambos os vales.” 29 A existência de solos predominantemente graníticos permite-nos destacar, como o têm feito diversos investigadores de várias disciplinas, a importância que aqueles adquiriram durante as primeiras ocupações do noroeste português em geral, e muito em particular do território que aqui estudamos. Na área do Baixo Ave, como adiante teremos oportunidade de verificar, as ocupações correspondentes ao I Milénio a.C. que se conhecem, estão diretamente confinadas às regiões que apresentam solos de natureza granítica. Nas zonas mais próximas à faixa costeira predominam os aluviões e as areias de praia, formações essencialmente advindas do quaternário recente, especialmente do Holocénico. Estes depósitos modernos verificam-se nos concelhos de Vila do Conde e da Póvoa de Varzim, com especial incidência entre Mindelo e Vila Chã. 30 Embora esta concentração aconteça com maior predominância junto ao litoral, é também frequente encontrar aqueles depósitos superficiais ao longo de todo o vale. No entanto, na região norte da Póvoa de Varzim e na região sul de Vila do Conde existem, pontualmente, depósitos de praias mais antigas pertencentes ao PlioPlistocénico. 31 A montante é possível identificar terraços fluviais remotos, de natureza argilosa e arenosa, que ocorrem em cotas mais elevadas em relação aos principais cursos de água, como comprovado na planura que se desenvolve entre a Trofa e o lugar da Maganha, que aqui já mencionámos, e que corresponde praticamente na sua totalidade à freguesia de Santiago de Bougado, onde “a natureza do xisto, bastante argiloso e mole” 32 parece “ter influído na morfologia deste troço do talvegue.” 33 É ainda apontada a existência de “bancos de areia muito bem rolada” 34 em Ferreiró. 1.4. Rede hidrográfica Temos vindo a enumerar os fatores naturais que de alguma forma caracterizam o território do vale do rio Ave e, em específico, a sua bacia inferior. Já aqui fizemos referência à importância que a água teve, desde tempos remotos, para a ocupação e exploração deste território, pelo que devemos incluir naquele conjunto de elementos, as características fundamentais que a sua rede hidrográfica apresenta. 29. Andrade, Miguel Montenegro de - Ter raços do Vale do Ave, Porto, Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, 1946, p. 10. 30. Dinis, António Pereira, Ordenamento do território do Baixo Ave no I Milénio a. C., Porto, Ed. Autor, 1993, Dissertação de Mestrado em Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 12. 31. Idem, ibidem, p. 12. 32. Andrade, Miguel Montenegro de - Ter raços do Vale do Ave. Porto: Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, 1946, p. 10. 33. Idem, p. 9. 34. Idem, p. 10. iv. Rio Ave [Retorta, Vila do Conde]. v. Rio Ave [Maganha, Trofa].
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 26 iv.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 27 v.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 28 Ao longo do seu percurso de aproximadamente 90 quilómetros, o rio Ave circula, numa primeira fase, com uma orientação de nordeste para sudoeste, infletindo depois, junto à confluência com o Vizela, em Santo Tirso, para oeste, percorrendo alguns quilómetros no sentido perpendicular à costa. Este percurso sofre novo desvio junto ao lugar da Maganha, na Trofa, já em pleno Baixo Ave, desenvolvendo-se em meandros no sentido noroeste até Touguinhó, freguesia de Vila do Conde 35, onde aflui o rio Este. A partir deste ponto, e por escassos quilómetros, o rio retoma a orientação inicial até à sua foz, situada entre Vila do Conde e Azurara. Para além dos rios Vizela e Este, principais afluentes do Ave - instalados respetivamente na sua margem esquerda e direita -, esta bacia hidrográfica é ainda enriquecida por outros rios de menor dimensão, entre os quais se destacam os rios Pelhe, Pele e Selho, bem como por inúmeros ribeiros e pequenos riachos existentes ao longo de todo vale. Não sendo uma bacia hidrográfica de grande destaque - ocupa apenas 1391 km2 36 -, quando comparada às bacias de outros rios que se encontram em território nacional, a bacia do Ave apresenta, ainda assim, algumas características comuns aos restantes rios do noroeste português. O contexto geomorfológico, que aqui já detalhámos, permite identificar um conjunto de vales de fratura - principalmente se tivermos em conta o modelado granítico que ocupa grande parte deste território -, onde parte do Ave e alguns dos seus afluentes se inscrevem. “Embora existindo noutros tipos de terreno, é no granito, devido à homogeneidade e à dureza da rocha – quando sã – que estes vales, instalando-se ao longo de zonas de fractura, se mostram mais vigorosos e em grande número, tendo tendência a tornar-se importantes colectores” 37 de água, contribuindo com relativa importância para as características das bacias hidrográficas que neles se instalam. A orientação dos principais vales fluviais do norte de Portugal, genericamente posicionados em sentido transversal à linha da costa, permite a penetração de correntes marítimas até às áreas mais interiores, sendo aquelas responsáveis pela introdução de elevado teor de humidade e pela moderação da temperatura, favorecendo a nebulosidade, fatores fundamentais para a diversidade da vegetação e para um intenso aproveitamento agrícola. Do mesmo modo, para além dos aspetos geomorfológicos, outros elementos existem que interferem diretamente nas particularidades daquelas bacias e na densidade da sua drenagem. Neste ponto, devemos referir, sobretudo, os fatores que apontam 35. Devido à recente reforma administrativa de que já aqui falamos, consequência da Lei 11-A/2013 de 28 de janeiro, Touguinha e Touginhó, ambas na margem direita do rio Ave, formam hoje uma união de freguesias, correspondendo à primeira o estatuto de sede daquela agregação. 36. Araújo, Ana Paula; Afonso, Odete, A bacia hidrográfica do Rio Ave, Porto, D.G.R.N., 1990. 37. Brito, Raquel Soeiro de (Dir.), Portugal – Perfil geográfico, Lisboa, Editorial Estampa, 1994, p. 74.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 29 aos níveis de pluviosidade que nesta zona do país atingem elevados quantitativos 38, encontrando nos relevos mais acentuados uma forte barreira de condensação. A conjugação destes diversos fatores, decorrentes dos mais variados acidentes naturais, resultam numa bacia hidrográfica abundante que em muito tem contribuído para as atividades humanas que ali se foram desenvolvendo ao longo dos tempos. O lavradio, por evidente relação com as condições de natureza geomorfológica, climática e sobretudo hidrográfica, encontrou naquele vale o contexto ajustado à sua difusão, apropriando-se, em grande medida, dos plainos e alvéolos que ao longo daquele se podem encontrar – alguns deles já aqui mencionados -, onde “os solos são profundos, ricos em húmus e em água.” 39 Neste contexto, lembramos, a importância que o sistema de captação das águas e o consequente processo da sua distribuição pelas inúmeras parcelas agrícolas teve junto da vida agrária, mecanismos sobejamente estudados por Jorge Dias. A abundância de água foi, assim, fundamental durante séculos, não só para a produção agrícola e, consequentemente, para a subsistência dos povos que a ocuparam 40, como avisa Carlos Alberto Ferreira de Almeida, mas também para outras atividades que ali foram surgindo e desenvolvendo. Se, por um lado, a agricultura se serviu intensamente dos recursos hidrográficos existentes – como veremos adiante -, ocupando desde há séculos as terras baixas ao longo dos vales fluviais, a partir da segunda metade do séc. XIX, e durante as primeiras décadas do séc. XX, estes recursos foram suportes essenciais para a proliferação e fixação da indústria, que fazia depender do aproveitamento hídrico a força motriz das suas unidades de produção. Com especial incidência nos concelhos de Santo Tirso, Vila Nova de Famalicão e Guimarães 41 , e também nas margens dos principais afluentes do Ave, a indústria, em especial aquela que se encontrava diretamente vinculada ao setor têxtil algodoeiro, veio confirmar a importância já longínqua da captação e utilização da água como um dos fatores primordiais para uma ocupação territorial de natureza dispersa. Como dizíamos, a água teve, assim, um papel central na evolução e ocupação da 38. Segundo o relatório dirigido por Ana Paula Araújo e Odete Afonso (“A bacia hidrográfica do Rio Ave”) a que já aludimos, a região noroeste portuguesa regista níveis médios de precipitação anual na ordem dos 1800 milímetros nas suas superfícies mais altas, descendo esses valores para os 1200 milímetros nas zonas de menor altitude. 39. Silva, Rosa Fernanda Moreira da, “Contrastes e mutações nas paisagens agrárias das planícies e colinas minhotas” in Studium Generale - Estudos contemporâneos, nº 5, Porto, 1993, pp. 9-115. 40. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, “Importância do regadio no Entre-Douro-e-Minho, nos séculos XII e XII” in Livro de Homenagem a Orlando Ribeiro, Vol. II, 1988, pp. 65-70. 41. Relembramos que até 1998 não existia o concelho da Trofa. A criação desse município, data de novembro desse mesmo ano, conforme atesta a publicação em Diário da República do DL nº 292/VII, baseada no Projeto de Lei nº 475/VII, apresentado em fevereiro do referido ano na Assembleia da República, com posterior discussão e respetiva aprovação em plenário.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 30 paisagem. Para além da cultura do linho, apontada como a primeira indústria do país, que “exige bons solos, boa exposição geográfica e abundante água para rega” 42, outras explorações agrícolas requereram, desde há muito, as vantagens de uma rede hidrográfica abundante. Por isso, embora reconheçamos, como acabámos de expor, o seu contributo para o acentuar da natureza dispersa dos assentamentos de algumas zonas do noroeste português, não podemos deixar de assinalar que esta matriz de ocupação não é, única e exclusivamente, resultado do incremento industrial mais recente. Como sublinhámos no início desta parte do trabalho, ela é, sobretudo, consequência de inúmeros fatores que historicamente se foram sobrepondo e adaptando conforme as necessidades das suas comunidades, sempre na procura diária de melhores condições de vida através de um aproveitamento inteligente do meio onde estão inseridas. Assim, torna-se ainda mais esclarecedor o discurso de Fernando Távora 43, a que já fizemos referência, e que sublinha o valor do conhecimento histórico como ferramenta provida de rigor e precisão no exercício, desmultiplicado e complexo, de pensar sobre o território. 1.5. O mar Como já tivemos oportunidade de explicar no início do presente capítulo, decidimos dividi-lo em duas partes distintas, sendo a que aqui temos desenvolvido inteiramente dedicada às condições naturais do território e ao povoamento que nele se foi disseminando. Por essa razão, temos apresentado algumas considerações associadas às características inatas à morfologia e composição naturais do vale do Ave, e muito em particular, à sua zona litoral. Este território, como vimos dizendo, apresenta-se vincadamente marcado pela aproximação marítima, característica apontada por diversos autores como fortemente determinante para a identificação de uma certa personalidade geográfica 44 de Portugal. No contexto do Entre-Douro-e-Minho, a influência do mar torna-se ainda mais importante quando considerada a dispersão do seu povoamento, como sugere Orlando Ribeiro. “Dominante no Oeste, onde a humidade e as chuvas favorecem a policultura e o regadio, e a pressão demográfica obrigou a romper os incultos, a disseminação do povoamento é um fenómeno essencialmente atlântico.” 45 Consideramos, por isso, pertinente, introduzir neste 42. Silva, Rosa Fernanda Moreira da, Paisagem agrária das planícies e colinhas minhotas - contrastes e mutações, Porto, Ed. Autora, 1981, Dissertação de Doutoramento apresentada à F.L.U.P., p. 242. 43. Távora, Fernando, “O problema da casa portuguesa”, in Teoria e crítica de Arquitectura séc. XX, Lisboa, Ordem dos Arquitectos - Secção Regional Sul e Caleidoscópio, 2010. pp. 327-328. 44. Lautensach, Hermann, 1932 cit. por Ribeiro, Orlando, Portugal - o Mediterrâneo e o Atlântico, Col. Nova Universidade, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1986, p. 123. 45. Orlando, Portugal - o Mediterrâneo e o Atlântico, Col. Nova Universidade, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1986, p. 122.
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Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 38 1945, Orlando Ribeiro avisava que “o oceano se abriu à expansão nacional” 65 e que, “apesar disso, e de o português se afeiçoar ao trabalho noutros climas e ao convívio de outras gentes, a estrutura rural da Nação permanece intacta.” 66 No entanto, reconhecendo esta afirmação, devemos sublinhar que, volvidas algumas décadas, particularmente após alterações consideráveis de natureza política, económica, social e cultural que o país atravessou, já não nos será possível comprovar totalmente aquela ideia. Embora reconheçamos, como começámos por fazê-lo, alguns aspetos que indicam a permanência de determinados traços identitários, teremos também que procurar identificar os impactos das transformações que ao longo do tempo se foram sedimentando no território. 2. O Homem 65. Idem, ibidem, p. 129. 66. Idem, ibidem, p. 129. ix. Mulheres apanhando sargaço junto à costa. x. Sargaço a secar.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 39 ix. x.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 41 2.1. O povoamento proto-histórico Sabemos, atualmente, com segurança, que o noroeste peninsular se encontra genericamente ocupado desde tempos muito remotos. Muito antes da romanização de toda a península, vários povos encontraram naquele território o ambiente ideal à sua fixação, organizando-se sobretudo nas zonas onde o relevo é mais denunciado, ocupando assim posições estratégicas de defesa e dominando visualmente os vales profundos dos vários interflúvios existentes. Por todo o território do litoral, estes povos encontraram as condições naturais que asseguram as necessárias exigências para a sua sobrevivência. Embora muitas informações a que hoje temos acesso, sejam ainda, frequentemente, motivo de algumas dúvidas e careçam de uma confirmação mais sustentada, podemos afirmar que o vale do Ave é, dentro do contexto geográfico que aqui descrevemos, uma região onde se regista uma presença humana e uma organização de povoados muito antiga. Ao longo do último século, vários foram os investigadores - principalmente no âmbito disciplinar da arqueologia -, que dedicaram os seus estudos e pesquisas ao conhecimento mais aprofundado das civilizações pré-romanas. No contexto do Ave, importa destacar o papel pioneiro de Martins Sarmento, especialmente evidenciado através dos trabalhos de escavação que realizou na Citânia de Briteiros, em Guimarães. No entanto, após a sua morte, outros trabalhos arqueológicos e historiográficos haveriam de surgir pela mão de Mário Cardoso, Ruy de Serpa Pinto, Russel Cortez, Armando Coelho da Silva, entre outros. Nos estudos dedicados à bacia inferior do Ave, destacam-se ainda as investigações de Albano Bellino, Arthur Cardoso, José Fortes, Rocha Peixoto, Ricardo Severo, e mais recentemente, Carlos Alberto Brochado de Almeida. Assim, progressivamente, os trabalhos desenvolvidos, principalmente ao longo do século XX, fomentaram e serviram de suporte a investigações distribuídas por outros campos disciplinares, oferecendo deste modo um importante contributo para o conhecimento da ocupação e organização do território de toda a região. Faseamento Com base numa sistematização de vários trabalhos realizados sobre o povoamento proto-histórico do Baixo Ave, cremos que aquele território estaria organizado, já nos finais da Idade do Bronze, em função de alguns povoados que ali se concentraram. No final do século XX, apoiados nos diversos achados resultantes das investigações que executaram, vários autores, devidamente autorizados, defendiam que a região estaria habitada por pelo menos seis povoados já no início do I Milénio a.C.. Segundo defende
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 42 Armando Coelho Ferreira da Silva 67, genericamente caracterizada por três fases de povoamento, a cultura castreja ter-se-á difundido pelo território, apropriandose estrategicamente dos locais mais propícios das encostas dos principais vales do Entre-Douro-e-Minho, como o do Ave e os dos seus principais afluentes. Este tipo de povoamento, progressivamente adaptado ao contexto regional do noroeste, permitiu o desenvolvimento de uma organização hierárquica do território razoavelmente amadurecida que, fruto da sua estratégia, seria parcialmente aproveitada e adaptada pelos romanos durante o processo de romanização. A fase I do povoamento castrejo está essencialmente enquadrada na primeira metade do I milénio a.C. e é caracterizada pela “emergência de povoados fortificados no contexto do Bronze Final Atlântico, com relações continentais e mediterrânicas.” 68 Segundo Armando Ferreira da Silva, ela poderá subdividir-se, situando-se “a sua primeira parte (...) entre 1000 e 700 a.C. e o seu desenvolvimento entre os séculos VII e VI a.C., revelando crescentes contactos interiores e meridionais.” 69 De uma forma geral, verifica-se “uma implantação ex novo dos povoados em pontos estratégicos situados segundo uma diversidade topográfica, com realce para posições em remates de esporões, de altitude média, visando primordialmente o controlo de bacias fluviais, em relação com as zonas de aptidão agrícola e a exploração de recursos naturais, nomeadamente mineiros, como o estanho e o ouro, e o acesso a vias de penetração e comercialização, revelando integração num sistema económico de largo espectro.” 70 Mas é sobretudo a partir da sua segunda fase que o habitat castrejo se afirma em fácies regionais e se hierarquiza mediante critérios de ordem fundamentalmente económica. Nesta fase, assiste-se, na sua primeira parte, “com cronologia entre 500 e 200 a.C., [a] estímulos continentais de teor post-hallstáttico ou dos Campos de Urnas da Idade do Ferro, migrações internas peninsulares, como as do Turduli Veteres, e intercâmbios por via do comércio púnico” 71, sendo que, “o seu desenvolvimento posterior, já sob os auspícios das primeiras importações itálicas, anuncia próximos contactos directos entre romanos e indígenas.” 72 Estes contactos seriam, a partir daqui, cada vez mais intensificados, resultando, durante a terceira fase do povoamento castrejo, num modelo de “proto-urbanização e reordenamento territorial [já] no quadro da romanização, com relevância para 67. Silva, Armando Coelho Ferreira da, “A evolução do habitat castrejo e o processo de proto-urbanização do noroeste de Portugal durante o I Milénio a.C.”, in História – Revista da Faculdade de Letras, vol. XII, Porto, F.L.U.P., 1995, p. 507. 68. Idem, ibidem, pp. 507-508. 69. Idem, ibidem, p. 508. 70. Idem, ibidem, p. 509. 71. Idem, ibidem, p. 508. 72. Idem, ibidem, p. 508.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 43 critérios político-militares, (...) que se terá prolongado até à segunda metade do século I d.C., com referência às reformas flavianas na região, cuja nitidez se altera a meio da fase, após a conquista e pacificação do Noroeste, com a adopção de modelos propostos pelo domínio romano.” 73 O povoamento proto-histórico no Baixo Ave No contexto regional do Baixo Ave, deve-se a Rocha Peixoto e José Fortes - que entre 1906 e 1907 realizaram diversas escavações na Póvoa de Varzim -, a descoberta de alguns vestígios relativos à primeira fase do povoamento castrejo que viriam a comprovar a existência da Cividade de Terroso. Contudo, no início do século XVIII, na Corografia Portugueza do Pe. Carvalho da Costa, aparecem já algumas referências sobre a possível existência de um antigo povoado naquela zona . 74 Durante o mesmo século, nas Memórias Paroquiais de 1758, o Pe. Luís Cardoso referese à freguesia de Terroso como estando “toda a roda cercada de campos lavradios, e sô por hua parte coazi no meyo della tem um Monte mais levantado, que sera tanto, como a tersa parte dos campos lavradios da dita freguezia e dizem os Antigos fora este Monte Cidade de Mouros, porque se chama este Monte da Cividade, bocabullo corrupto, e deste Monte se descobre terra e Mar sinco legoas thé Vianna que fica ao Norte e sinco thé o Porto, que fica ao sul.” 75 A descoberta dos achados arqueológicos deste antigo povoado, situado a cerca de 150 metros de altura em relação ao nível do mar, permitem agora saber que ele se desenvolveu no sentido norte-sul, aproveitando o declive menos acentuado do relevo que aí se evidencia. Ocupa, assim, uma posição estratégica que usufrui de grandes condições de visibilidade para sul e para norte - conforme atestam as Memórias Paroquiais - e sobretudo para todo o território espraiado que dali se desenvolve em direção ao Atlântico. Associado à Cividade de Terroso, aparecem, em vários documentos, algumas referências a um outro povoado que, em pleno Monte de S. Félix, a 200 metros de altitude, se terá desenvolvido. Trata-se do Castro de Laúndos, ocupação que poderá ter sido um posto avançado de Terroso. No entanto, apesar das muitas dúvidas que 73. Idem, ibidem, p. 508. 74. “S. Miguel, que alguns dizem Santa Maria de Terroso, he commenda de Christo , & Reitoria da Mitra [...]. Aqui houve antigamente huma cidade chamada Torroso, , a qual parecia que existia, & ai menos conserva o nome.” Costa, Pe. António Carvalho da, Corografia Portugueza e descripçam topográfica do famoso reyno de Portugal, com as notícias das fundações das Cidades, Villas, & Lugares, que contem; Varões ilustres, Genealogia das Famílias nobres, fundações de Conventos, Catalogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edifícios, & outras curiosas observaçoens, T. I, Parte I e II, Lisboa, 1706, p. 313. 75. Azevedo, Pedro A. cit. por Dinis, António Pereira, Ordenamento do território do Baixo Ave no I Milénio a. C., Porto, Ed. Autor, 1993, Dissertação de Mestrado em Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 30.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 44 sobre ele subsistem, é possível que este castro se enquadrasse na fase II do povoamento castrejo. Um pouco mais a sul, no atual concelho de Vila do Conde, ergue-se, de igual forma, a 200 metros de altitude, no centro de um monte que se desenvolve no sentido nordestesudoeste, a Cividade de Bagunte. Segundo Brochado de Almeida, “a mais antiga referência bibliográfica de que há notícia sobre este castro data de 971 e faz parte de um documento pré-nacional inserido na colectânea dos Diplomata et Chartae” 76, onde se toma como referência um “subtus monte Bagonte.” 77 No entanto, existem outras referências àquele povoado num documento de 1028, onde se faz uma menção a civitas 78, e num outro, de 1102, onde se refere, não só esta cividade, como também o vizinho Castro de Argifonso 79, situação que se verifica de igual modo na Corografia Portugueza do Pe. Carvalho da Costa onde se afirma que “junto do rio Deste acima da Ponte de Arcos estaõ vestigios de fortificaçaõ, que se comunicava por estradas encubertas com outra mayor no alto do monte, a que inda chamaõ a Cividade, & as ruínas mostraõ qual seria sua fortaleza.” 80 O conhecimento mais aprofundado deste povoado deve-se a Ricardo Severo e Artur Cardoso que, após uma primeira visita ao local feita por Martins Sarmento em 1883, ali fizeram uma escavação de onde extraíram diversos materiais. Esses primeiros estudos foram percursores de novas investigações executadas por Russel Cortez, já na década de 40 do século passado. Tal como em Terroso, a Cividade de Bagunte, fruto da sua localização estratégica, usufrui de uma grande visibilidade para o mar, permitindo também grandes condições de comunicação visual com outros povoados da região. Por estes motivos, é certo que “a cividade de Bagunte foi uma importantíssima povoação da Idade do Ferro desta parte da Gallecia meridional, que integrou o território dos Bracari e que desempenhou um papel preponderante nas ligações entre as diversas etnias que povoavam a região situada entre o Douro e o Cávado.” 81 76. Almeida, Carlos Alberto Brochado de, “Alguns apontamentos sobre a cividade de Bagunte”, in Portvalia, Nova Série, vol. 36, Porto, FLUP, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, 2015, p. 50. 77. D. Et. Ch., P.M.H., D. CIII. 78. “de illa ereditate in villa Gacin ad radice civitas Bogonti” D. Et. Ch., P.M.h., D. CCLXV. 79. Dinis, António Pereira, Ordenamento do território do Baixo Ave no I Milénio a. C., Porto, Ed. Autor, 1993, Dissertação de Mestrado em Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 46. 80. Costa, Pe. António Carvalho da, Corografia Portugueza e descripçam topográfica do famoso reyno de Portugal, com as notícias das fundações das Cidades, Villas, & Lugares, que contem; Varões ilustres, Genealogia das Famílias nobres, fundações de Conventos, Catalogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edifícios, & outras curiosas observaçoens, T. I, Parte I e II, Lisboa, 1706, pp. 321-322. 81. Almeida, Carlos Alberto Brochado de, “Alguns apontamentos sobre a cividade de Bagunte”, in Portvalia, Nova Série, Vol. 36, Porto, FLUP, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, 2015, p. 50.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 45 Ainda na margem norte do rio Ave, e entre este e o rio Este, seu afluente, vários testemunhos e procedentes escavações revelaram a existência, ainda nos finais da Idade do Bronze, de dois assentamentos pré-romanos – Castro do Facho e Castro de Penices -, ambos localizados no concelho de Vila Nova de Famalicão, respetivamente nas freguesias de Calendário e Gondifelos. O primeiro, situa-se a cerca de 270 metros de altitude, no topo de um relevo que se alonga no sentido norte-sul, dispondo assim de condições de visibilidade excecional em quase todo o seu perímetro, especialmente a este, onde o relevo granítico se desenvolve em escarpa acentuada, permitindo assim um domínio total sobre o vale do rio Pelhe. Tal como os restantes, estrategicamente bem localizado, o Castro do Facho apresenta boas condições de defesa, com exceção do seu lado norte, naturalmente mais exposto devido às condições de maior acessibilidade. O Castro de Penices assenta, por sua vez, num remate de esporão que se alonga sobre o rio Este, a uma altitude de aproximadamente 100 metros. Este povoado localiza-se junto a uma grande mancha de terrenos aluviais, fortemente propícios à exploração agrícola, evidenciando-se, sobretudo, à imagem de outros povoados que temos vindo a descrever, pelos seus terrenos acentuadamente escarpados junto à zona de contacto com o rio. Também este castro apresenta uma situação de visibilidade sobre o território bastante assinalável, principalmente para norte e oeste, lados em que é possível que se alcance visualmente os castros de Terroso e Bagunte, que aqui já referimos, e o Castro da Saia, em Barcelos, um pouco mais a norte. Na margem esquerda do rio Ave, ou se quisermos, do seu lado sul, destacamse os castros de Alvarelhos (Trofa) e do Monte Padrão (Santo Tirso), ambos correspondentes a assentamentos que remontam também, muito provavelmente, aos finais da Idade do Bronze e que terão um papel de destaque durante a romanização. O Castro de Alvarelhos, ou de São Marçal, nome pelo qual é igualmente conhecido, situa-se na Serra de Santa Eufémia, a cerca de 220 metros de altitude e a algumas dezenas de metros do topo daquela elevação onde se ergueu uma ermida, local que usufrui de uma grande visibilidade sobre toda a faixa costeira, como previamente assinalámos. De modo semelhante aos restantes povoados que aqui temos assinalado, este castro mantém uma posição destacada face ao território que o envolve, nomeadamente em relação ao vale da ribeira da Aldeia, sub-bacia do rio Ave, que naquela zona proporciona solos de grande aproveitamento agrícola. Devido ao terreno acidentado, principalmente a norte, sul e este, este castro usufruiria de um domínio total sobre o referido vale, característica que, por sua vez, lhe garantiria condições de defesa assinaláveis. Entre outros objetos encontrados nas proximidades daquele povoado, é de salientar o aparecimento de um marco miliário do imperador Adriano que corresponderia à estrada romana entre Cale e Bracara, via que passaria a uma distância muito reduzida a sudeste daquele ponto. Este e outros materiais encontrados nas proximidades daquele local, parecem corroborar algumas teses
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 46 defendidas por vários investigadores, entre os quais Armando Coelho da Silva, que defende que “o conjunto significativo de achados ocasionais do castro de Alvarelhos com índices seguros de intensa romanização apontam-nos, com efeito, para um processo de crescimento com certeza relacionado com a sua implantação junto da via romana Cale-Bracara Augusta, precisamente em sentido inverso ao ocorrido na Citânia de Sanfins.” 82 Deste modo, como dissemos, é provável que aquele castro tenha sido povoado durante um longo período, exercendo, no contexto regional, um papel de grande importância, mesmo durante o processo de romanização a que nos dedicaremos adiante. A jusante de Alvarelhos, a pouco mais de uma dezena de quilómetros em linha reta, situa-se o Castro do Monte Padrão, em pleno Monte Córdova, maciço montanhoso delimitado pelos rios Sanguinhedo e Leça, enquadrado na zona de influência do Ave. Este povoado usufruiria defensivamente da sua posição estratégica, a cerca de 400 metros de altitude, num terreno de declive muito acentuado, e vincadamente escarpado, com forte relação visual com uma parte considerável do vale do rio Ave. Devido à sua posição bastante elevada, e tendo em conta os relevos pouco acentuados da região e a depressão montanhosa que se estabelece um pouco mais a poente, vários estudiosos têm inclusivamente levantado a hipótese de, na época, haver uma relação visual permanente entre aquele castro e o de Alvarelhos. Aliás, tal como acontece com este povoado, o Castro do Monte Padrão parece ter sido ocupado durante longos séculos, posição atestada pelos vestígios ali encontrados que indicam uma apropriação desde, pelo menos, a Idade do Ferro até à Baixa Idade Média. À semelhança do verificado em Alvarelhos, Carlos Alberto Ferreira de Almeida aponta exatamente para a possível ocupação daquele lugar durante o período de domínio romano, ideia que se suporta na existência de uma estrada que ligaria Porto e Guimarães e que passaria nas suas imediações. Recentemente, em 2005, durante o processo de reestruturação da antiga linha férrea que ligava o Porto à Póvoa de Varzim, adaptada agora ao metropolitano de superfície, foram descobertos, no lugar de Corgo da freguesia de Azurara, achados arqueológicos que permitiram identificar com alguma segurança um possível povoado da Idade do Bronze Médio e Final. Contrariamente aos outros castros que temos vindo a explorar, este povoado situa-se numa suave encosta da zona litoral do vale do Ave, a pouco mais de um quilómetro da foz daquele rio. Ali, o vale apresenta-se muito fértil e com terrenos de grande aptidão agrícola, numa “área de contacto entre granitos alcalinos de grão médio e grosseiro, também conhecido como Granito da Póvoa de Varzim, e o complexo xisto-granítico-megmatítico, ambos parcialmente cobertos por depósitos antigos e atuais, nomeadamente dunas e praias, e ainda por depósitos de mistura 82. Silva, Armando Coelho Ferreira da, “Organizações gentilícias entre Leça e Ave”, in Portugalia, vol. I, Porto, F.L.U.P., 1980, pp. 87-88. xi. O Monte Padrão a partir do Castro de Alvarelhos.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 47 xi.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 54 espaços sob a forma de castros agrícolas. 101 No entanto, pese embora todo este processo moroso e alguma resistência verificada, a relativa autarcia das comunidades pré-romanas parece ter diminuído, “criando-se esferas de interacção mais amplas, por onde circulariam produtos e matérias-primas, fundamentais a uma vida económica e social mais complexa. As comunidades parecem igualmente manter uma profunda emulação competitiva, traduzida por obras que prestigiam os povoados, os seus ocupantes e os seus chefes.” 102 As transformações introduzidas pela administração romana assentaram numa lógica de permanente aproveitamento dos recursos humanos e materiais existentes, não se verificando, conforme já referido, uma ruptura completa com o período antecessor, uma vez que, para além da resistência demonstrada pelos povos indígenas, “a política romana nas províncias pautou-se quase sempre pelo respeito dos modelos estabelecidos, quando estes não colidiam com os interesses romanos. Como necessidade de alterar e transformar as estruturas organizativas dos indígenas, o que não era uma necessidade premente para os romanos, estes acabaram por respeitar as comunidades anteriores à conquista, tanto mais que alguns dos seus chefes teriam aceite a integração, colaborando mesmo com ela.” 103 Verifica-se então que aquela adaptação ao contexto particular do noroeste se exerceu também através do aproveitamento inteligente de alguns antigos assentamentos que, não sendo de todo abandonados, em virtude da sua posição e hierarquia consolidada, assumiram neste período um grande desenvolvimento. 101. “A fundação de povoados de baixa altitude, nos vales dos grandes rios do NO português, em época romana, mais especificamente no séc. I da nossa era, foi considerada por alguns autores como decorrente de um processo de adsignatio ager, a pequenas comunidades (ALMEIDA 1987, 22). Embora este processo possa ter ocorrido pontualmente, nalgumas regiões, a verdade é que este tipo de povoados tem uma cronologia mais antiga, como parece documentado no vale do Cávado (MARTINS 1988). Os chamados “castros agrícolas” do vale do Lima, fundados no câmbio da era, parecem assim reproduzir um modelo anterior, talvez generalizado na segunda metade do primeiro milénio, um pouco à semelhança do que parece ocorrer na Galiza, onde este tipo de povoados oferece uma cronologia pré-romana e consideravelmente mais ampla (CARBALLHO ARCEO 1990). Assim, se alguns povoados de baixa altitude, independentemente da sua função, se generalizam em certas áreas durante o século I, outros há, exatamente com as mesmas características, que são abandonados, nessa época, sem se romanizarem. Parece assim difícil correlacionar, de um modo linear, os povoados de baixa altitude com a romanização, com a dispersão populacional pelos vales e com uma hipotética atribuição oficial do ager.” Martins, Manuela, “A ocupação romana da região de Braga – balanço e perspectiva de investigação”, in Actas do congresso histórico dos 150 anos do nascimento de Alberto Sampaio, Guimarães, C.M.G., 1995, pp. 86-87. 102. Idem, ibidem, pp. 78-79. 103. Almeida, Carlos Alberto Brochado de, Povoamento romano do litoral minhoto entre o Cávado e o Minho, Porto, Ed. Autor, 1996, Dissertação de Doutoramento em Pré-História e Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 292.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 55 Uma nova hierarquia de povoamento Podemos genericamente afirmar que o processo de ocupação e apropriação do espaço regional do noroeste por parte dos romanos se fez de forma bastante lenta, sem prescindir das valências das populações e povoados mais antigos. Como dizíamos anteriormente, “a administração romana, ao respeitar o estatuto dos pequenos chefados indígenas, parece ter criado as condições necessárias para que fossem eles os principais agentes da paz (...) na região e os principais defensores do poder imperial.” 104 Embora este processo tenha decorrido de uma forma relativamente pacífica, foi necessário que a antiga estrutura do poder indígena fosse desmantelada e habilmente integrada na nova forma de organização administrativo-espacial que, a pouco e pouco, se foi desenhando sobre todo o território. A nova hierarquia de povoamento introduzida, manifestava-se, então, sob duas formas distintas: por um lado, assiste-se ao desenvolvimento de um povoamento de tipo concentrado, onde se integravam algumas cidades e povoados fortificados ou abertos de escala intermédia; por outro, verifica-se o surgimento de um povoamento mais disperso, resultado da criação de novos habitats, como as villae, os casais, as unidades industriais ou as mansiones. 105 É neste contexto administrativo que se dá a fundação de Bracara Augusta, núcleo urbano que viria a assumir um papel central na conjuntura regional do Ave, tal como na de todo o atual noroeste português, embora a sua formação não deva “ser entendida com um sentido restrito de criação de um núcleo populacional novo, que pudesse centralizar as populações da região envolvente, que tudo indica, se manterão dispersas pelos principais povoados indígenas.” 106 107 Parte desses antigos aglomerados são, como já apontámos, integrados nessa estrutura de povoamento concentrado, mantendo a sua posição fortificada e sobrevivendo “ao desmantelamento da estrutura sócio-política pré-romana, estruturando-se numa nova rede hierárquica, quer de âmbito local, quer regional.” 108 Alguns deles, detentores de uma posição geográfica estratégica e de uma dimensão considerável, “poderiam ter desempenhado um papel importante, funcionando 104. Martins, Manuela, “A ocupação romana da região de Braga: balanço e perspectivas de investigação”, in Actas do congresso histórico dos 150 anos do nascimento de Alberto Sampaio, Guimarães, C.M.G., 1995, p. 88. 105. Idem, ibidem, p. 82. 106. Martins, Manuela, O povoamento proto-histórico e a romanização da bacia do curso médio do Cávado, Braga, Unidade de Arqueologia da U. M., 1990, p. 218. 107. No entanto, “aceitando-se a fundação de Bracara Augusta entre o ano 3 a.C. e 4 da nossa era”, não é de descartar uma possível transferência controlada de algumas franjas dessas populações, sendo mesmo “de presumir, a partir de então, uma deslocação de mão-de-obra indígena para a cidade.” Martins, Manuela, “A ocupação romana da região de Braga: balanço e perspectivas de investigação”, in Actas do congresso histórico dos 150 anos do nascimento de Alberto Sampaio, Guimarães, C.M.G., 1995, p. 80. 108. Idem, ibidem, pp. 82-83.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 56 como lugares centrais de segunda categoria, sobretudo se a sua localização tornasse possível o desenvolvimento de alguns serviços, adequados à nova conjuntura social e económica.” 109 Paralelamente à sobrevivência destes núcleos populacionais, assiste-se, também, sob domínio romano, à criação de novos povoados que, em alguns casos, embora fundados de raiz, adoptam a antiga estrutura pré-romana. Em alternativa, surgem também povoados abertos que se inserem numa categoria igualmente intermédia “entre os grandes aglomerados urbanos e as quintas que enxameiam o campo.” 110 111 No noroeste peninsular, estes “aglomerados secundários (vici) teriam assumido um papel fundamental, em termos regionais, uma vez que seriam eles que garantiam o fluxo de matérias-primas e de excedentes da periferia para a cidade.” 112 O seu contributo no modelo de ocupação romano tornou-se, por isso, numa peça chave da mutação pacífica operada sobre o território. Do ponto de vista estratégico global, estes aglomerados, ora sobreviventes do período anterior, e agora integrados na nova hierarquia, ora surgidos de novo, estabeleciam uma espécie de mediação entre Bracara Augusta e as estruturas de povoamento local que agora se iam incorporando no território, particularmente nos vales fluviais que no noroeste abundam. No Baixo Ave, embora as informações disponíveis sejam ainda muito parcas, e em vários momentos contraditórias, é possível que tanto o castro do Monte Padrão (Santo Tirso), como o de Alvarelhos (Trofa), tenham sido fortemente romanizados, sendo muito provável que, ao contrário da citânia de Sanfins que ali bem perto se localizava, ambos tenham sofrido alterações bastante profundas. No entanto, a aculturação destes dois povoados deverá ter sido feita de forma relativamente distinta, sendo que o primeiro terá permanecido fortificado, enquanto que o castro de Alvarelhos deverá ter assumido uma posição central naquele contexto regional sob a forma de vici. “É ponto mais que assente que nem todos os castros decaíram e foram abandonados numa acção concertada, mas foram-no paulatinamente, à medida que a economia e valorização social impunham as regras no seio das comunidades até demasiado igualitárias.” 113 No entanto, é também certo que “muitos continuaram a morar nos antigos castella, alguns deles agora transformados em vici, prestando serviços às 109. Idem, ibidem, p. 84. 110. Idem, ibidem, p. 83. 111. “Desginados por aldeias, ou por pequenas cidades, quando possuem um centro cívico mais desenvolvido, estes aglomerados aparecem na Gália quase sempre referidos por vici.” Idem, ibidem, p. 83. 112. Idem, ibidem, p. 103. 113. Almeida, Carlos Alberto Brochado de, Povoamento romano do litoral minhoto entre o Cávado e o Minho, Porto, Ed. Autor, 1996, Dissertação de Doutoramento em Pré-História e Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 306.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 57 populações do ager. Mas nem todos os moradores dos castros terão enveredado pela actividade comercial e artesanal. Muitos deles terão continuado com a sua antiga profissão de agricultor-pastor, enquanto foi possível optimizar a distância entre a propriedade e a casa onde se habitava (...) porque se a sua actividade principal se baseava na pastorícia, era nos montes e quebradas sem interesse para a agricultura que os seus rebanhos encontrariam a alimentação necessária, cada vez mais difícil nos terrenos de meia encosta e vales mais enxutos, agora objecto de interesse por parte daqueles que tinham optado pela mudança.” 114 115 Embora, como esclarecemos previamente, a ocupação das áreas mais férteis dos vales fluviais não tenha constituído uma ação inteiramente original por parte da administração romana, é certo que, neste período, aquele processo conheceu uma difusão muito mais acentuada, residindo aqui, eventualmente, o carácter mais autêntico da nova estrutura de povoamento que aos poucos se iam dispersando pelo território. De acordo com Jorge de Alarcão 116 e Carlos Alberto Brochado de Almeida, dá-se, então, uma “privatização da terra de duas maneiras distintas: através de centuriações ou por ocupação de facto.” 117 Estes processos motivaram uma repartição do território, fragmentando a antiga propriedade comunitária “à medida que as famílias iam abandonando o aconchego dos velhos povoados para se instalarem junto dos campos que cultivavam. Assim terá começado a apropriação do ager” 118, principalmente substanciada através da criação e proliferação de villae e casais que, instalados nas propriedades resultantes do processo de centuriação, e conjuntamente com a formação de uma primeira rede de caminhos, constituíram, provavelmente, o maior legado que a romanização deixou nas várias províncias do império. Com inúmeras variações regionais, muito ligada à economia rural, a villa, na definição tradicional do termo, “aplica-se a uma grande propriedade, cuja exploração exigia mão-de-obra escrava e/ou assalariada, com uma produção que excedia 114. Idem, ibidem, p. 307. 115. Este aspecto na forma de ocupar o território provocou a subsistência de uma economia de tipo agro-silvo-pastoril, “que será mantida pelas populações indígenas, não se verificando à partida sinais de transformações significativas nas estruturas de produção, ainda que seja de presumir a introdução de novas culturas agrícolas, nomeadamente da vinha”, que muito provavelmente, como defende Manuela Martins, “só virão a ter alguma influência através das villae ou a partir da exploração de pequenos casais rústicos, que se desenvolverão ao longo das vias.” Martins, Manuela, O povoamento proto-histórico e a romanização da bacia do curso médio do Cávado, Braga, Universidade do Minho, 1990, 1990, p. 220. 116. Alarcão, Jorge, Portugal Romano, Lisboa: Editorial Verbo, 1974. 117. Almeida, Carlos Alberto Brochado de, Povoamento romano do litoral minhoto entre o Cávado e o Minho, Porto, Ed. Autor, 1996, Dissertação de Doutoramento em Pré-História e Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 306. 118. Idem, ibidem, pp. 306-307.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 58 as necessidades de auto-consumo dos seus moradores” 119, servindo, assim, de abastecimento às zonas urbanas. No entanto, as villae que se conhecem no noroeste, distinguem-se, nas suas dimensões, daquelas que se instalaram no sul da península, na grande maioria dos casos, visivelmente maiores. As diferenças verificadas devemse, sobretudo, às características daquela região que, embora proporcionassem uma boa rentabilidade dos solos e uma agricultura polivalente, apresentavam um relevo acidentado e uma densidade populacional que constituiriam um motivo muito pouco favorável à formação de grandes fundi. 120 No noroeste peninsular, é ainda notoriamente reduzido o número de locais de exploração agrária que se encontram devidamente escavados e catalogados, fator que não nos permite identificar com segurança absoluta as diversas componentes associadas àquela atividade. Contudo, à imagem do que aconteceria noutras províncias do império, é possível que existissem, associados às propriedades das villae, pequenos complexos agrícolas de base familiar - os casais -, detentores de uma “arquitectura mais singela e [de] objectos quotidianos mais modestos e pouco diversificados” 121, que se distinguiam de outros aedificiae in agris, como os teguria ou campanna, “simples cabanas, de ocupação sazonal, dispersas pelos campos.” 122 Nas zonas mais litorais, paralelamente à intensa exploração agrícola, os proprietários das villae desenvolviam outras atividades como a pesca e a salga que, como já aqui tivemos oportunidade de esclarecer, constituiriam resultado de uma já antiga atração exercida pelo mar. Embora objeto de difícil reconhecimento, adicionalmente às villae e às restantes estruturas de apoio à agricultura existentes por todo o Entre-Douro-e-Minho, é muito provável que, tendo em conta alguns vestígios encontrados, existissem outros tipos de ocupação territorial como pequenas unidades industriais e mansiones, estabelecimentos isolados ou integrados em algum povoado que se localizariam junto das principais vias e que funcionariam como local de descanso ou pernoita para os viajantes. Esta nova hierarquia de povoamento e a divisão progressiva da propriedade, processo que aqui temos vindo a descrever, permitiram, assim, uma maior dispersão dos núcleos de população, que agora se iam disseminando por todo o território, ocupando de forma mais intensa os profundos vales fluviais. Como no próximo capítulo teremos oportunidade de explicar, esta organização territorial apoiar-se-á numa primeira ideia de caminhos em rede que de forma inteligente se ia formando. 119. Martins, Manuela, O povoamento proto-histórico e a romanização da bacia do curso médio do Cávado, Braga, Unidade de Arqueologia da U. M., 1990, p. 94. 120. Idem, ibidem, p. 96. 121. Idem, ibidem, p. 94. 122. Idem, ibidem, p. 94.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 59 A romanização da bacia inferior do Ave Durante o período de romanização, o território do Baixo Ave permaneceu como zona intermédia entre a capital de Conventus Bracara Augusta e a civitas Calem, situadas, respetivamente, a nordeste daquela região, junto ao rio Cávado, e nas margens do rio Douro. Do ponto de vista jurídico-administrativo, o núcleo urbano de Bracara, polarizou sob si um conjunto de influências de âmbito social, político e económico, embora, durante aquele período, se tenha assistido também a um desenvolvimento assinalável de outros núcleos populacionais de âmbito administrativo intermédio, como atrás referimos. Deste modo, alguns castros, situados ora no espaço interior do vale, ora nas zonas mais litorais, terão assumido uma presumível importância em relação constante com as comunidades ruralizadas que à sua volta iam proliferando. Apoiados em alguns autores e segundo alguma unanimidade verificada, tudo parece indicar que, entre outros, os castros de Bagunte, Penices, Alvarelhos e Monte Padrão, situados nas vertentes fluviais dos rios Ave e Este, assumiram, na época romana, uma posição relativamente central no contexto do povoamento da região. No atual concelho de Vila do Conde, segundo Brochado de Almeida, durante o domínio romano naquela área, vários castros permaneceram ocupados e em plena articulação com as zonas que iam sendo progressivamente ocupadas. De acordo com aquele autor “são cerca de dezena e meia os sítios onde aparecem sinais de uma evidente presença das populações que viveram e participaram, conjuntamente com as dos castros tradicionais e agrícolas, no processo romanizador.” 123 Como dissemos, o processo de romanização no noroeste da península exprimiu-se através de uma ocupação lenta e muitas vezes tardia de novas áreas de exploração agrícola. Nesse sentido, o Baixo Ave não constituiu motivo de exceção, sendo que, como observado por Brochado de Almeida no concelho de Vila do Conde, as contrariedades encontradas pelos romanos “acabaram por se esbater à medida que se foi processando a aplicação da ‘adsignatio do ager’, isto é, a partir do momento em que se foi distribuindo o ager a ‘conductores’ particulares, a privilegiarse a individualização, o que acarretará, com a chegada dos Flávios ao poder, a desagregação do tradicional modo de vida das populações castrejas.” 124 Este moroso processo resultou então numa desigual distribuição pelo território, fomentando uma “dispersão gradual das populações [...]. Mas, contra o avanço da colonização agrária jogou muito mais [...] a situação real dos territórios que pertenciam aos castros. São posições bem concretas como a arborização, as zonas alagadas, encharcadas e 123. Almeida, Carlos Alberto Brochado de, “A romanização no concelho de Vila do Conde – alguns apontamentos sobre a ocupação do território localizado entre os rios Ave e Este”, in Actas do congresso histórico dos 150 anos do nascimento de Alberto Sampaio, Guimarães, C.M.G., 1995, p. 59. 124. Idem, ibidem, p. 59.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 60 palúdicas, as áreas pedregosas e arenosas, os terrenos onde a vegetação era indicadora de uma baixa qualidade agrária, que irão decidir e influenciar a procura de novas áreas de instalação e cultivo.” 125 Deste modo, em Vila do Conde, como em todo o Baixo Ave, a escolha dos novos locais a explorar baseou-se em princípios estratégicos muito bem definidos, principalmente tendo em conta as terras mais enxutas, agricolamente rentáveis, com boa exposição solar, situadas, ora em terrenos de meia encosta, ora nas proximidades de cursos de água - como os rios Ave, Este, Pelhe, Pele ou pequenos afluentes -, ou ainda junto à costa. As restantes áreas, principalmente as zonas alagadiças onde cresciam diversas espécies de plantas que em nada beneficiavam a fixação populacional, só serão motivo de interesse num período bem mais tardio, “quando o crescimento demográfico conduzir à procura de novas áreas de cultivo e ao consequente aproveitamento de zonas até aí marginalizadas.” 126 Durante o domínio de Roma, nascerão por toda a região villas romanas que se dedicarão sobretudo à exploração agrícola, embora, em diversos casos, outras atividades e funções lhe possam ser atribuídas, como é o caso da villa situada na zona das Caxinas. Esta unidade de povoamento, “situada nas proximidades do mar e a pequena distância da foz do rio Ave, estava estrategicamente colocada para liderar, desde bem cedo, um complexo processo económico” 127, sendo que, “os primeiros ocupantes do sítio, terão vindo, com grande dose de probabilidade, do vizinho Castro de S. João [...], que no quadro castrejo teria a missão de vigiar e controlar a navegação para o interior do Ave e o trânsito que se fazia ao longo dos caminhos que sulcavam o litoral.” 128 Esta observação permite-nos sublinhar, uma vez mais, a intensa atividade e comunicação estabelecida não só ao longo das vias naturais presentes no território, mas também através de caminhos regionais estabelecidos fundamentalmente como meio destinado à troca comercial. Assim, os habitantes daquela villa litoral dedicarse-ão, simultaneamente, “à agricultura, à pesca, à salinicultura e a actividades que lhes permitirão comerciar os seus produtos e lançar as bases de um controlo sobre todos aqueles que aportassem à foz do Ave ou que, transitando pelo litoral, pretendessem atravessar o rio.” 129 Esta posição estratégica de domínio sobre a desembocadura do Ave, permite-nos, também, imaginar a relevância que aquele lugar teria no contexto regional. Do mesmo modo, segundo Brochado de Almeida, não é em vão que o posicionamento daquela villa se verifica na margem norte do rio, uma vez que ali a costa é mais alta, menos subjugada às influências marítimas e com fácil acesso a solos de relativa 125. Idem, ibidem, p. 59. 126. Idem, ibidem, p. 61. 127. Idem, ibidem, p. 62. 128. Idem, ibidem, pp. 62-63. 129. Idem, ibidem, p. 63.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 61 qualidade. Na margem sul do Ave, estas características são completamente diferentes, onde “havia a área encharcada do sapal da Azurara, que se estendia até ao actual lugar da Areia” 130, impedindo assim um estabelecimento tão vincado como o observado na margem norte e obrigando os novos habitantes a procurarem as terras agrícolas mais férteis nas zonas situadas mais a montante. No litoral, para além da villa situada nas Caxinas, em Vila do Conde, devemos também destacar as villae do Alto de Martim Vaz e da Vila Mendo, na Póvoa de Varzim, ambas situadas em locais muito próximos ao mar. A primeira parece mesmo adquirir, tal como acontece em Vila do Conde, um posicionamento inteligentemente pensado, tendo sido encontrados diversos vestígios que comprovam atividades como a salga e a produção de dos preparados piscícolas. Em toda esta área, outras ocupações romanas parecem ter multiplicado de forma mais intensa, como constatado no lugar de Vilar ou em Bagunte, na Quinta dos Cavaleiros. “Esta enorme propriedade agrícola, murada, mas na actualidade retalhada em vários proprietários, está situada na vertente meridional do Monte da Cividade, decalcando, mais ou menos, uma anterior ocupação do Bronze Final.” 131 Aí, ao longo da vertente sul daquele monte, prolongada até às margens do rio Ave, verificam-se os terrenos de melhor aptidão agrícola, sendo por isso natural que, “com o início do povoamento do vale, tenham sido ocupados dois pequenos montes, onde surgirão os ‘castros agrícolas’ de Santa Marinha de Ferreiró e de Santagões (Bagunte) e que as áreas intermédias e marginais aos povoados em questão, sejam, em momentos cronológicos não sincrónicos, por sua vez ocupados.” 132 Assim, verifica-se “que a ocupação de época romana se situa, precisamente, numa área que podemos considerar desde já marginal aos dois povoados” 133, sendo que parece ter sido preocupação dos seus fundadores “procurarem uma área que servisse aos seus interesses, mas que estes não colidissem com a dos povoados que controlariam ainda a área envolvente.” 134 Esta evidente preocupação, salientada por Brochado de Almeida, reafirma a importância de alguns antigos povoados em todo o processo romanizador, exercendo uma influência assinalável no povoamento das áreas mais profundas dos vales fluviais. Outros vestígios arqueológicos que apontam para a existência de uma villa romana, embora mais tardia, foram encontrados em Vila Verde, Vila do Conde. Esta ocupação, que remonta presumivelmente ao século IV, terá preenchido uma área bastante extensa, de acordo com a dispersão das tégulas ali encontradas, sendo que esta multiplicação de vestígios deverá corresponder “ao edifício da ‘villa’, às instalações de 130. Idem, ibidem, p. 63. 131. Idem, ibidem, p. 65. 132. Idem, ibidem, p. 65. 133. Idem, ibidem, p. 66. 134. Idem, ibidem, p. 66. xiii. As ruínas do Castro de Alvarelhos [Alvarelhos, Trofa]. xiv. O posicionamento estratégico de Alvarelhos. Vista sobre o vale da Ribeira da Aldeia [Alvarelhos, Trofa].
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 62 xiii.
Parte I Baixo Ave: a formação da paisagem 63 xiv.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 70 e rodeados de alguns mosteiros de relativa importância. 164 Estes mosteiros, património das ordens religiosas que chegavam do exterior e que a partir do século XII introduziram em Portugal uma ideia de “europeização” 165, estabelecem-se nas zonas mais férteis dos vales do Norte, como o do Ave, e fomentam “a reorganização produtiva do País.” 166 164. Sobre este tema aconselhamos, uma vez mais, a consulta de Carlos Alberto Ferreira de Almeida que, em Castelologia do Entre-Douro-e-Minho e na sua prova de Doutoramento - Arquitectura românica de Entre-Douro-e-Minho -, faz um trabalho exaustivo de sistematização dos inúmeros lugares fortificados e dos mosteiros existentes naquela região. Pelo valor que ambos os tipos de implantação têm, reproduziremos no capítulo seguinte os dados fornecidos por aquele autor. 165. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Arquitectura românica de Entre-Douro-e-Minho, vol. I, Porto, Ed. autor, 1978, Dissertação de Doutoramento em História de Arte apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 186. 166. Ferreira, Alfredo Matos, Aspectos da Organização do Espaço Português, Pref. de Fernando Távora, Porto, F.A.U.P. Publicações, 1995, p. 26.
Parte II Território singular e comum
Parte II Território singular e comum 75 1. O Baixo Ave entre o Minho e o Douro: origens das divisões geográficas Reservando uma definição mais precisa dos limites do território do Baixo Ave para o capítulo seguinte, interessa-nos nesta fase, como apontado na introdução precedente, incorporar na aproximação àquele território, o contexto global do noroeste peninsular, isto é, da região que se desenvolve entre os rios Minho e Douro. O vale do Ave encontra-se no extremo sudoeste do noroeste português, área sobre a qual muitos autores têm refletido a partir das mais diversas disciplinas. Toda esta região possui um conjunto de condições naturais, inteligentemente aproveitadas pelos povos que nela se estabeleceram, possibilitando assim um assentamento intenso que se pode identificar desde a proto-história. Estas características têm sido genericamente reconhecidas e aceites por diversos investigadores autorizados, embora, entre eles, seja possível constatarmos diferentes leituras e interpretações no que ao reconhecimento das suas fronteiras e designações diz respeito. Assim, decidimos recolher e selecionar algumas impressões produzidas por vários autores que dedicaram parte dos seus estudos a este território e cujo contributo nos merecem toda a consideração. Os relatos documentais sobre a região, e que permaneceram até à atualidade, não se restringem apenas ao período procedente à formação da Nação. Pelo menos desde o domínio romano, através de vários testemunhos sobre as diversas divisões geográficas do território ibérico e das suas respetivas condições humanas e naturais, é possível estabelecermos um quadro aproximado da ocupação e divisão daquela região ao longo de séculos. Entre os depoimentos está, entre outros, o de Estrabão1, a partir do qual João Bautista de Castro lembra que, “antes de conquistarem, e habitar Hespanha os Cartaginezes, e Romanos, toda ella estava dividida em muitas Provincias de póvos agrestes, que debaixo do nome geral de Ibéros se dividiaõ em Turdetanos, Celtas, Cantabros, Turdulos, e infinitos outros (...).” 2 “Porém tanto que os Romanos meteram o pé em Hespanha, e começaraõ a contender com os Cartaginezes sobre o dominio das terras, que foy pelos annos 557 da fundaçaõ de Roma, dividiraõ toda ella em duas partes, a que chamaram Hespanha citerior, e Hespanha ulterior.” 3A primeira situava-se, então, na parte oriental do rio Ebro, e era aquela que, por esta época, seria habitada pelos romanos. A Hespanha ulterior, ficava naturalmente na parte ocidental daquele rio, permanecendo sob domínio cartaginês. 1. Para melhor interpretação dos testemunhos do referido autor aconselha-se a consulta do livro Estrabão: livro III da Geografia: primeira contribuição para uma edição crítica de Francisco José Velozo, José Cardoso e Luís de Pina, editado pelo Centro de Estudos Humanísticos em 1965. 2. Castro, João Bautista de, Mappa de Portugal Antigo, e Moderno, T. I, Parte I e II, Lisboa, 1762, p. 42. 3. Idem, ibidem, p. 42.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 76 No entanto, com a vitória na guerra Cantábrica, que opôs romanos e cartagineses, o domínio de Roma expandiu-se sobre todo aquele território. Então, Octávio Augusto, após a vitória “sobre aquelles Póvos, e mudando-lhes o governo, e limites, dividio a Hespanha em Provincias, a saber: Lusitanica, Betica e Terraconense.” 4 As várias divisões aqui descritas, indicam, uma vez mais, a importância secular dos vales fluviais, utilizados frequentemente como eixos de fronteira. “A Lusitanica incluía a mayor parte do que hoje chamamos Portugal” 5, destacando-se nela o rio Douro que “a separava pela parte septentrional da Terraconense” 6, que se estendia, por sua vez, para norte e este, ocupando uma boa parte do atual território espanhol e todo norte de Portugal. Ainda sob domínio imperial, a península viria a sofrer pelo menos mais uma reordenação territorial, quando, “corria o anno de Christo de 118, (...) o Imperador Elio Adriano, visitando as terras do seu Imperio, dividio a Hespanha em seis Provincias: Tarraconense, Cartaginense, Betica, Lusitania, Galiza, e Tingitania.” 7 Com esta nova distribuição, o norte do atual território nacional haveria de ficar confinado à província da Galiza que, tal como as restantes regiões administrativas, era repartida em unidades territoriais mais pequenas “a que chamavaõ Conventos Juridicos.” 8 Nesta província, destacamos o Conventus Bracarensis, com sede em Bracara Augusta (Braga), que abrangia todo a área a norte do Douro. Outros tipos de divisão administrativa deverão ter sido efetuadas pelos romanos, mas sem que delas resultassem grandes alterações às que acabamos de descrever. Estes testemunhos, aliados à descoberta de inúmeros achados materiais, permitemnos hoje compreender com maior rigor a efetiva ocupação do território noroeste português, não só sob o domínio de Roma, mas desde tempos ainda mais remotos. Interamnensis ou Duriminea, como lhe chamavam os romanos, o território entre os rios Minho e Douro constitui, por isso, um espaço repleto de temas que merecem a nossa atenção. A capacidade organizativa dos romanos permitiu a criação da primeira rede estratégica de estradas que, tornando-se de tal forma influente, serviu muitas vezes como modelo para outras infraestruturas viárias que pelo seu perímetro se foram incorporando. Com a queda do Império Romano, outros povos haveriam de ocupar a península. Deles destacamos, naturalmente, os suevos e os visigodos. A partir do século V, ainda antes das incursões árabes, estabeleceu-se sobretudo sob a região do noroeste um novo reino – suevo – que, a partir da sua capital sediada em Braga, disseminou a sua cultura, deixando inegáveis testemunhos que em muito influenciaram os séculos 4. Idem, Ibidem, p. 43. 5. Idem, Ibidem, p. 43. 6. Idem, Ibidem, p. 43. 7. Idem, Ibidem, p. 43. 8. Idem, Ibidem, p. 44.
Parte II Território singular e comum 77 seguintes. A fundação daquele reino “corresponde à reorganização administrativa e produtiva de uma vasta região com certa unidade morfológica, da Galiza à zona central do País” 9, e que viria a ser “determinante para a defesa e consolidação das cidades, loteamento rural em pequenas propriedades, que ainda hoje caracterizam tanto a Galiza como o Entre-Douro-e-Minho” 10, assumindo assim um peso significativo na formação de Portugal. Ao longo deste período, embora o mapa administrativo da península, baseado nas antigas divisões romanas, se tenha alterado quase por completo, o velho núcleo do território que se desenvolve principalmente a norte do rio Douro foi mantendo quase intacta a sua coesão administrativa, apenas quebrada quase momentaneamente com as incursões árabes que viriam a ser combatidas pelo processo de reconquista. Com a constituição do estado português e com a definitiva fixação das suas fronteiras, a região compreendida entre os rios Douro e Minho assume, assim, a sua posição confinante no extremo norte do país. As alterações de natureza geográfico-administrativas implementadas a partir deste período no território a que hoje se circunscreve Portugal, manifestaram-se sobretudo no plano interno e regional. Como dizíamos inicialmente, embora todo o território do país tenha sido subdividido, ora em grandes regiões, ora em pequenas comarcas, o noroeste foi mantendo progressivamente a sua coesão cultural e administrativa. Nos últimos séculos, vários investigadores indagaram sobre essa paisagem simultaneamente homogénea e diversificada. Por volta de 1549, cabe ao Dr. João de Barros 11 um elaborado reconhecimento da unidade territorial e cultural daquela região, baseado numa profunda descrição das suas condições não só naturais, mas também da densa ocupação que temos vindo a salientar. Na mesma linha de investigação, em 1762, João Bautista de Castro faz, após um breve reconhecimento das divisões mais remotas que aqui descrevemos, uma descrição detalhada da divisão moderna do reino português pelas suas províncias, destacando, entre elas, a do Minho, que confinava, então, aos seguintes limites: “(...) da banda do Meyo dia com o rio Douro, que a separa da Beira: da banda do Occidente parte com o mar Oceano, começando em S. João da Foz, e acabando na Villa de Caminha, onde o rio Minho divide Portugal de Galiza. Dahi para cima, que he a parte do Norte, vay pelo dito rio até o termo de Villa de Monçaõ, e alli passa o termo de Galiza o rio Minho, e se reparte por marcos até o Castello de Castro-Laboreiro, que saõ doze léguas desde a Villa de Caminha. Dalli atravessa o resto pelo monte do Gerez, que está da parte do Nascente, 9. Ferreira, Alfredo Matos, Aspectos da Organização do Espaço Português, Pref. de Fernando Távora, Porto, F.A.U.P. Publicações, 1995, p. 24. 10. Idem, ibidem, p. 24. 11. Barros, João de, Geographia d’Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, Porto, B.P.M.P., 1919, Manuscrito original de 1549.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 78 e vay pela terra de Barrozo até à ponte da Cavez, que está no rio Tamega, e dahi pelo rio abaixo até à Villa de Amarante; e deixando o rio, vay pelo monte do Bayaõ dar no Douro, donde começamos.” 12 Esta pormenorizada exposição revela, novamente, a preponderância dos vales dos principais rios na administração do território e na organização das comunidades que a partir deles subsistem. Como refere aquele autor, “conduz muito para esta geral fertilidade a grande copia de boas aguas, que, como se esta Regiaõ fora toda perenne tanque, assim brota, e rega seus campos, e pomares por vinte e cinco mil fontes, e innumeraveis rios grandes, e pequenos” 13, de onde se destaca, entre outros, o rio Ave. A condição natural daquele território permite reafirmar a sua profícua contribuição para a salvaguarda da vida dos seus povos. Entre nós, muitos têm sido os que sublinham a atenta observação de João Bautista de Castro que relata que “saõ seus habitadores de fecundissima propagaçaõ, e larga vida; e até nos tempos, que a natureza constitue estéreis, saõ aqui fecundas as mulheres. [...] Basta dizer, que da gente innumeravel, que naõ póde sustentar este Paiz, se tem povoado o mundo, e com especialidade o Brasil, e as Minas, e que he mais a gente, que a terra, onde naõ ha parte alguma, em que se naõ ouça tanger algum fino, e cantar hum galo. Parece toda a Provincia huma Cidade Continuada.” 14 Em 1878, Barros Gomes reconhece, nas suas Cartas Elementares de Portugal 15, três grandes áreas naturais - o Norte Atlântico, o Norte Transmontano e o Sul. Estabelece, a partir daí, uma divisão do território nacional em doze regiões tendo em atenção as condições de latitude e relevo verificadas em cada uma delas. Ao território adjacente às montanhas que dividem o Norte Atlântico do Norte Transmontano, e que se prolonga até às zonas baixas da costa ocidental, região a que o Baixo Ave se circunscreve, Barros Gomes atribui a designação de Alemdouro Litoral. Na viragem do século XIX para o século XX, Alberto Sampaio, homem da Geração de 70, concretiza uma reflexão sobre o território do noroeste português 16, revendo com profundidade as questões inerentes ao espaço rural minhoto e introduzindo algumas ideias sobre o seu contributo para uma ocupação da costa e para o desenvolvimento de toda a exploração marítima. Dividida em dois volumes, a obra - que pelo seu valor muito nos tem sido útil para a nossa investigação -, revisita “a filiação histórica da propriedade rural e os diversos graus de desenvolvimento” 17, bem como a navegação, 12. Castro, João Bautista de, Mappa de Portugal Antigo, e Moderno, T. I, Parte I e II, Lisboa, 1762, p. 46. 13. Idem, ibidem, p. 48. 14. Idem, ibidem, p. 48. 15. Gomes, Bernardino de Barros, Cartas elementares de Portugal, Lisboa, Lallement Frère Typ., 1878. 16. Sampaio, Alberto, As póvoas marítimas - Estudos Históricos e Económicos, vol. II, Col. Documenta Historica, Lisboa, Ed. Vega, 1979, p. 9. 17. Idem, ibidem, p. 9. xv. Província de Entre-Douro-e-Minho [Gravura por Adolphe Laurent]
Parte II Território singular e comum 79 6/2/2016 Provincia de Entre Douro e Minho http://purl.pt/1379/3/ 1/1 Imprimir xv.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 86 trabalho familiar, decadência irremissível do espírito de comunidade, individualismo que se traduz no parcelamento da terra, na multiplicação de sebes, muros e divisórias, e na disseminação das habitações, tudo o milho favoreceu, permitiu ou provocou.” 30 Esta verdadeira revolução, embora mais predominante no Entre-Douro-e-Minho, não se esgotou naquela região, pois “em menos de um século, a nova cultura ganhara as terras baixas atlânticas; a sua difusão na Montanha e nas regiões mais interiores far-se-á nos séculos seguintes, em detrimento do milho miúdo e do centeio e a favor da decadência dos soutos.” 31 Não constitui, por isso, motivo de admiração, que a ornamentação da arquitetura manuelina tenha recorrido, por tantas vezes, à representação da espiga de milho. 32 Todas estas modificações fizeram-se, porém, baseadas num profundo enraizamento das necessidades de cada lugar, adequando-se o povoamento às diversas circunstâncias particulares. Durante longo período, a apropriação do espaço, embora materializada sobre uma configuração disseminada, efetuou-se alicerçada em lógicas muito próprias da experiência vivencial, de âmbito regional e local, experienciadas através dos modos de produção agrícola – que se dividiam sobretudo entre a terra e o mar - e o culto pelo sagrado, representado na organização territorial das paróquias sob a égide da Igreja Secular. A essência dos assentamentos, embora progressivamente dispersa, desenvolveu-se através de uma adequada apropriação de cada parcela do território do Entre-Douro-e-Minho, quer esta se encontrasse na montanha, nos fundos dos vales fluviais ou na faixa arenosa do litoral. Como já expusemos, esses tipos de povoamento prevaleceram em larga escala e foram devidamente assinalados no Inquérito à Arquitectura Popular, desenvolvido ao longo da década de 50 do século XX e publicado em 1961. A “economia antiga do noroeste” 33, como lhe chamou Orlando Ribeiro, baseada numa sociedade autossuficiente, que se reforçou após a formação do reino de Portugal, organizada através de um sistema de produção de base familiar e de forma funcionante e vicinal 34, expandiu-se, então, por todo o território, exigindo, assim, uma necessidade cada vez mais urgente de comunicação prática e direta entre os diversos núcleos de povoamento. Se, por um lado, os longos e antigos caminhos imperiais romanos persistiam de forma generalizada pelo território, “para que este 30. Ribeiro, Orlando, Portugal - O Mediterrâneo e o Atlântico, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1986, p. 122. 31. Idem, ibidem, p. 115. 32. Idem, ibidem, p. 115. 33. Ribeiro, Orlando, Portugal - O Mediterrâneo e o Atlântico, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1986, p. 111. 34. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Território Paroquial no Entre-Douro-e-Minho - sua sacralização, in Nova Renascença, nº 2 , vol. I, Porto, Associação Cultural Nova Renascença, 1981, p. 203.
Parte II Território singular e comum 87 tipo de estrutura sócio-económica atingisse os fins exigidos foi imperioso criar uma orgânica que incentivasse os contactos entre as populações e constituísse consequente atractivo para a realização de trocas de produtos. [...] Para que esses contactos se realizassem pressupunha-se a existência de estruturas viárias.” 35 Dá-se, neste contexto, um fortalecimento de um conjunto de vias já existentes e que versava, sobretudo, a escala nacional. Estes caminhos percorrem genericamente todo o território no sentido norte-sul, interligando os principais núcleos urbanos medievais, servindo ora como itinerários régios 36 e comerciais, ora como trajetos de mendicidade 37 ou de peregrinações 38, e constituindo, assim, conjuntamente com as vias de cariz regional que se iam traçando no sentido transversal às primeiras, importantes nós viários. Sobre os vales fluviais estabelecem-se, então, importantes ligações que articulavam uma ainda arcaica e pouco consistente rede de estradas - de âmbito nacional -, com a progressiva, intensa e cada vez mais fina estrutura de caminhos regionais e locais que serviam de suporte ao dia-a-dia das suas comunidades. Assim, estes caminhos vão surgindo e “ramificando-se, progressivamente, por todo o território como um autêntico aparelho circulatório, como as veias e artérias de um corpo humano.” 39 A extensão e preponderância destas vias está na base do pensamento e discurso de Carlos Alberto Ferreira de Almeida na sua dissertação de licenciatura em História, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em 1968, e que muito nos tem servido de suporte. O autor faz, então, uma resenha aprofundada sobre os caminhos medievais, começando desde logo por sublinhar que “se o conhecimento dos caminhos tem interesse para a historiografia de qualquer época, podemos dizer que, para a Idade Média, o seu estudo é ainda de utilidade maior, e absolutamente, fundamental. Época de invasões, das cortes itinerantes, do comércio ambulante e das feiras, da reconquista e das peregrinações. O seu espírito e mentalidade de itineração marcam todas as suas formas de vida e os seus estilos artísticos.” 40 Assim, parece-nos 35. Silva, Rosa Fernanda Moreira da, Paisagem agrária das planícies e colinas minhotas – contrastes e mutações, Porto, Ed. Autor, 1981, Dissertação de Doutoramento apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 176. 36. Marques, José, “Viajar em Portugal, nos séculos XV e XVI”, in História - Revista da Faculdade de Letras, ser. II, vol. XIV, Porto, F.L.U.P., 1997, pp. 91-122. 37. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de. “Os caminhos e a assistência no norte de Portugal”, in A pobreza e a assistência aos pobres na Península Ibérica durante a Idade Média, Lisboa, Actas das 1as Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval, Setembro de 1972, pp. 39-57; Marques, José, “A assistência no norte de Portugal nos finais da Idade Média”, in História - Revista da Faculdade de Letras, ser. II, vol. VI, Porto, F.L.U.P., 1989, pp. 11-94. 38. Idem, ibidem, pp. 9-22. 39. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Vias Medievais Entre Douro e Minho, vol. I, Porto, Ed. Autor, 1968, Dissertação de Licenciatura em História apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), pp. 3-4. 40. Idem, ibidem, p. 1.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 88 pertinente fazermos também, adiante, uma leitura atenta destes caminhos dentro do contexto particular da bacia inferior do Ave. Formou-se, então, como dizíamos, um sistema ininterrupto de comunicações profundas por todo o contexto regional que se materializa sob diferentes tipos de vias que, por sua vez, obedecem a lógicas muito próprias, fortemente influenciadas e enraizadas na vivência social e económica local. Em conjunto com os caminhos transversais aos principais eixos medievais de sentido norte-sul, vão-se integrando por todo o território micro sistemas de comunicação, materializados ora como “caminhos de missa e (...) carreiros do monte, (...) ruas de procissões e dos cortejos” 41, ora como ligação entre povoações próximas ou entre estas e as diversas partes que compõem o seu próprio habitat. Paralelamente à disseminação do povoamento, estes caminhos tornaram-se participantes ativos no processo de divisão da propriedade, estando, por isso, intimamente relacionados e envolvidos naquele processo. A partir do seu traçado, estabeleceram-se muitas vezes, como ainda hoje se verifica em determinadas áreas, os limites das terras, estando também a eles diretamente associados alguns “regos de água de rega” 42, integrados, por sua vez, num sistema muito complexo de distribuição que servia as populações e as atividades agrícolas que todo o território se iam estabelecendo. Tal como os rios, estas pequenas vias estão também intimamente ligadas a algumas divisões administrativas do território ou a limites que definiam o espaço paroquial. A forma de organização e estruturação destes percursos, representados, entre outros, através das pequenas servidões que proliferam pela paisagem essencialmente rural, está, ainda hoje, bem presente entre nós e os seus direitos reais devidamente consagrados pelo Código Civil português. Essa complexa rede que temos descrito, que ao longo dos tempos se foi incorporando e integrando no espaço, está também presente na macro e micro toponímia atual ou subsiste, num reconhecimento de natureza evidentemente local, na memória das suas populações. Novas transformações viriam a ter efeito em todo o território nacional. Já “no contexto de oitocentos, findo meio século de instabilidades – causadas pelas invasões napoleónicas, pelas lutas liberais, e pela definição do modelo do liberalismo -, despoleta-se um importante processo de transformação (...). O ambiente político (...) é de entusiasmo geral e baseado num progresso de base ideológica, onde a Nação se constituía o objeto final da intervenção do Estado. Essencialmente a partir de 1852, data da criação do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, lança-se um plano de obras que vai sendo progressivamente marcado por uma ideia de rede 41. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, “A paróquia e seu território”, in Cadernos do Noroeste – Sociedade, Espaço, Cultura, número experimental, Braga, I.C.S. - Universidade do Minho, 1986, p.113. 42. Idem, ibidem, p.113.
Parte II Território singular e comum 89 nacional, um tecido com hierarquia e estrutura que viria a vertebrar um processo de colonização moderno do território em torno de três elementos estratégicos principais: estradas, caminhos-de-ferro e portos.” 43 Contudo, mesmo depois das grandes transformações infraestruturais que se verificaram nos últimos séculos no território nacional – e especialmente após a integração de Portugal, em 1986, na Comunidade Económica Europeia 44 – uma boa parte destas comunicações não se apagaram nem se destituíram do seu carácter funcional de apoio direto e imediato às populações locais. Embora o desmultiplicar galopante das modernas autoestradas ou das estradas nacionais, regionais e municipais tenham vindo a dificultar a compreensão de toda a rede nacional 45, é perfeitamente possível identificar a existência dos velhos e novos caminhos de cariz local e vicinal, importantes servidores do quotidiano das populações. O suporte diário que estes caminhos prestam, reveste-se de tal relevância que, ainda hoje, eles constituem um pertinente contributo na estruturação do território, participando de forma muito ativa no processo de identificação entre o lugar e quem o habita. É justamente nesta simbiose permanente que pretendemos direcionar o nosso olhar. Dessa forma, tentaremos ao longo das próximas páginas traçar uma leitura compreensiva sobre os modos de habitar e a formulação de um espaço social que se corporiza, essencialmente, na organização em torno de uma unidade territorial – o lugar. 46 43. Bragança, Pedro, Lugares de habitar entre a terra e o mar – Apontamentos sobre temas do território no Entre Douro e Minho, vol. I, Porto, Ed. Autor, 2014, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à F.A.U.P. (Ed. policop.), p. 14. 44. Inicialmente criada, após o Tratado de Roma, firmado em 1957, como uma organização internacional de um mercado europeu comum, a C.E.E. passou a adotar a designação oficial de União Europeia no seguimento da assinatura do Tratado de Maastricht, em 1992. 45. Pela leitura do Plano Nacional Rodoviário ficamos com a ideia de um sistema cada vez mais complexo, fortemente hierarquizado, tutelado, ora pelas Infraestruturas de Portugal, ora pelos próprios municípios, dando origem a uma disseminação de legislação e nomenclaturas que resulta frequentemente numa leitura confusa, enviesada e pouco rigorosa. 46. Sobre este tema aconselhamos a leitura da dissertação de Mestrado em Arquitectura de Pedro Bragança, apresentada à F.A.U.P., em 2014, sob o título “Lugares de habitar entre a terra e o mar – Apontamentos sobre temas do território no Entre Douro e Minho”.
Parte II Território singular e comum 91 3. Uma organização antiga do território e o seu sistema agrário 3.1. O lugar no território paroquial Como sublinha Carlos Alberto Ferreira de Almeida, “sem ‘onde’, não há tempo individual, nem coletivo, familiar ou profissional.” 47 Por isso, “identificamo-nos por um local de nascimento” 48 e “como correntes antropológicas acentuam, viver é pertencer a um grupo o qual, necessariamente, tem os seus lugares e/ou os seus itinerários. Os homens, em todas as suas acções e atitudes, e as coisas podem classificarse, localizando-se.” 49 Por isso, identificados os principais aspetos da disseminação do povoamento, característica muito particular do território de Entre-Douro-e-Minho, e definida a sua articulação com a proliferação de caminhos de escala nacional, regional ou local, devemos aprofundar as relações organizacionais que, social e culturalmente, se foram construindo e incorporando por todo o território. Parecenos, assim, fundamental fazer uma aproximação às profundas realidades locais, pois só dessa forma poderemos atingir os objetivos a que inicialmente nos propusemos, fazendo um reconhecimento mais profundo do território. Recorrendo de novo a Carlos Alberto Ferreira de Almeida, lembramo-nos, por isso, que “o ‘onde’ alimenta todas as raízes do nosso viver, do nosso sentir e da nossa imaginação. (...) As fundas raízes que nos prendem ao ‘nosso lugar’ são um enigma e uma constante atracção que apenas se revelam poeticamente, torguianamente” 50, mas que, no âmbito da nossa investigação, necessitam de ser devida e coerentemente clarificados. Como vínhamos dizendo, a natureza dispersa do povoamento tem as suas origens em períodos muito remotos, não decorrendo unicamente de recentes transformações no espaço do noroeste português. Estas novas mutações, embora distintas das anteriores, correspondem a uma simples repetição de processos de transformação que ao longo dos tempos se foram sedimentando no território. Após a conquista romana, a divisão da terra e as sucessivas partilhas e doações que desde aí se verificaram, alicerçadas num aproveitamento agrícola intensivo e suportado por um ecossistema muito enriquecido, permitiram, desde logo, uma distribuição disseminada dos assentamentos. Esta forma de ocupação do território, à qual nos temos dedicado ao longo das últimas páginas, viria a resultar numa organização paroquial, que se estruturou, fundamentalmente, a partir dos séculos XII-XIII. 47. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, “A paróquia e seu território”, in Cadernos do Noroeste – Sociedade, Espaço, Cultura, número experimental, Braga, I.C.S. - Universidade do Minho, 1986, p. 113. 48. Idem, ibidem, p. 113. 49. Idem, ibidem, p.113. 50. Idem, Ibidem, p. 114.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 92 A paróquia medieval minhota, “embora tenha muitas predeterminações da orgânica religiosa, social e económica da época anterior” 51, nomeadamente da paróquia de origem paleocristã ou ainda da que resulta do tempo da reconquista – embora delas se distancie de diversas maneiras – , “é o resultado de uma organização-funcionante, vicinal e dos senhorios, centrada numa igreja que assegurava a protecção de Deus e dos santos para os vivos e para os mortos, adaptada ao habitat disperso, ao clima e ao modelado granítico que dominam na região, com os seus alvéolos, com os seus multiplicados montes e montículos que tanto enrugam esta terra.” 52 Antes da constituição da paróquia medieval, implantavam-se intensamente por todo o território minhoto inúmeras villas-ecclesias, organizações religiosas imbuídas do espírito da reconquista, enraizadas no ideário do repovoamento. 53 Nesta época, existia, então, a tendência para que toda a villa, aldeamento ou lugar tivesse a sua ecclesia, pois “uma igreja era, nesse tempo, o melhor testemunho de posse e ocupação legítima – porque cristã – duma terra e uma garantia de segurança religiosa e psíquica para os habitantes (...).” 54 No entanto, a partir da reforma gregoriana, o número destas edificações começa a reduzir-se, surgindo, aos poucos, uma nova organização de caráter religioso - paróquia medieval -, que se distinguia sobretudo pela sua dimensão. Este tipo de estruturação territorial da igreja, que se vai integrando lentamente por todo o território entre o Minho e o Douro, permanece, de certa forma, na atualidade, não só sob uma matriz meramente religiosa, mas também na configuração administrativa das nossas freguesias. Na verdade, logo “a partir do século XIII, ‘paróquia’ e ‘freguesia’ passam a ser sinónimos” 55 56, tornando-se, a última, “naquilo que ela, ainda hoje, radicalmente é, nos meios tradicionais: uma comunidade de vivos e de mortos sob a égide de um campanário.” 57 51. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, “A paróquia e seu território”, in Cadernos do Noroeste – Sociedade, Espaço, Cultura, número experimental, Braga, I.C.S. - Universidade do Minho, 1986, pp. 115. 52. Idem, ibidem, pp. 114-115. 53. Idem, ibidem, p.116. 54. Idem, ibidem, p. 116. 55. Idem, ibidem, p. 115. 56. “De facto, é necessário remontar aos tempos medievais para perceber bem como a igreja e Igreja – os rituais e os valores e a acção institucional – organizam o espaço social minhoto. A consolidação do povoamento, a reunião dos vizinhos, passava centralmente por ‘fazer igreja’. A estruturação dos séculos XII e XIII, com o papel crucial da jurisdição eclesiástica no ordenamento territorial e administrativo, induz a que os dois termos, paróquia e freguesia, passem a ser sinónimos.” Silva, Augusto Santos, Tempos cruzados: um estudo interpretativo da cultura popular, Colecção Biblioteca das Ciências do Homem/ Sociologia Epistomologia, nº 16, [s.l.], Edições Afrontamento, 1994, p. 233. 57. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, “A paróquia e seu território”, in Cadernos do Noroeste – Sociedade, Espaço, Cultura, número experimental, Braga, I.C.S. - Universidade do Minho, 1986, p. 115.
Parte II Território singular e comum 93 O território paroquial e as consequentes freguesias rurais são, por isso, fontes inesgotáveis de laços culturais e antropológicos profundos. A recente reforma administrativa foi responsável pela redistribuição da gestão diária de muitas freguesias portuguesas. Sob alguma contestação popular e política local e regional, muitas daquelas estruturas foram agrupadas, administrativamente, em grandes uniões de freguesias. Como expúnhamos, a paróquia medieval materializa-se, desde então, através de limites muito bem definidos, que se estendem “pelos cumes das elevações que a cercam, por velhos caminhos ou grandes rios.” 58 59 De forma destacada, a igreja é o ponto central e referencial para toda a comunidade. Ela representa a sacralização de todo o território paroquial, símbolo físico e espiritual da proteção divina dos homens, dos mortos e também do cultivo, fonte de subsistência daquelas populações. Em muitas situações, “o nome do patrono da igreja (...) é um componente, às vezes em exclusivo, na designação particular de cada uma.” 60 Na região do Baixo Ave, e um pouco por todo o noroeste português, vários são os exemplos de freguesias que nos parecem indicar a influência do patrono paroquial na sua própria denominação: São Martinho e Santiago de Bougado ou São Mamede e São Romão do Coronado, na Trofa; São Miguel e São Paio de Seide, em V. N. Famalicão; ou ainda, São Pedro de Rates, na Póvoa de Varzim. A partir da igreja e do cemitério, dá-se, assim, uma sacralização centrífuga de todo o território paroquial, espaço que se formalizava através de “diversos lugares hierarquizados e grande número de fortes inter-relações comuns.” 61 Como refere Carlos Alberto Ferreira de Almeida, a paróquia é, nas suas infinitas representações, um território de elevada complexidade social, centralizada numa comunidade religiosa que, por sua vez, se divide num “grupo, maior ou menor, de núcleos de povoamento, os lugares” 62, pequenas unidades vicinais, de forte vivência familiar e de intensa exploração agrícola. Os lugares foram compondo, por isso, a base de todo o povoamento disperso que se foi sedimentando no Entre-Douro-e-Minho. Estes núcleos vicinais que se integraram fundamentalmente nos territórios do litoral, distinguem-se de outros tipos de organização comunitária dos lugares das regiões mais montanhosas e “têm no seu interior uma densidade de relações e de convívio 58. Idem, ibidem, p. 115. 59. Estes limites, demonstram, uma vez mais, como vimos a defender, a importância daqueles elementos na definição de fronteiras administrativas ao longo do território. 60. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, “A paróquia e seu território”, in Cadernos do Noroeste – Sociedade, Espaço, Cultura, número experimental, Braga, I.C.S. - Universidade do Minho, 1986, p. 117. 61. Idem, ibidem, p. 117. 62. Idem, ibidem, p. 119.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 94 tradicional muito mais intenso e importante que a existente ao nível paroquial.” 63 Eles distinguem-se, sobretudo, pelo seu carácter de vicinidade, como sublina Pedro Bragança, onde a “base da organização do trabalho é familiar e individual (...) e depende de uma divisão cíclica, quase permanente ao longo do ano e muito intensiva” 64, sendo, “antes de mais, unidades económicas de exploração e produção, em alto rendimento e funcionamento permanente, onde a vida é muitíssimo exigente e dura, para se obter a eficiência máxima da terra.” 65 Esta preocupação central, acompanhada pelo parcelamento da terra, fruto de sucessivas partilhas, está, por sua vez, na base de uma estruturação evidente do território paroquial. Cada paróquia contém, assim, um número variável de lugares, unidades em que as suas dimensões reduzidas “e a dispersão das suas casas não lhes favorece a expressão autonómica.” 66 No entanto, não faltarão exemplos, em que “a afirmação de determinada devoção ou promessa, próprios da Época Moderna, (...) resultam na construção de capelas próprias e na afirmação de uma certa autonomia na religiosidade” 67, contrariada, principalmente, a partir da igreja paroquial que, “tantas vezes isolada, com a exigência e o centralismo do seu culto e o monopólio dos mortos (...) lhes foi retirando a ideia de autonomia.” 68 Tal como ainda hoje se verifica em muitas das nossas paróquias – embora em franjas muito reduzidas da população -, a ida à missa, particularmente ao domingo, constitui “o ponto e o momento sistemático de encontros” de toda a comunidade dos diversos lugares.” 69 Podemos, por isso, afirmar, que o território paroquial assentou numa organização de matriz vertical, simbolizada pelo centralismo da sua igreja, mas também numa estruturação de base horizontal, reproduzida no desmultiplicar de pequenos lugares que detinham, tal como a paróquia a que pertenciam, limites bem definidos e uma 63. Idem, ibidem, p. 119. 64. Bragança, Pedro, Lugares de habitar entre a terra e o mar – Apontamentos sobre temas do território no Entre Douro e Minho, vol. I, Porto, Ed. Autor, 2014, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à F.A.U.P. (Ed. policop.), p. 53. 65. Idem, ibidem, p. 53. 66. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, “A paróquia e seu território”, in Cadernos do Noroeste – Sociedade, Espaço, Cultura, número experimental, Braga, I.C.S. - Universidade do Minho, 1986, p. 120. 67. Bragança, Pedro, Lugares de habitar entre a terra e o mar – Apontamentos sobre temas do território no Entre Douro e Minho, Vol. I, Porto, Ed. Autor, 2014, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura apresentada à F.A.U.P. (Ed. policop.), p. 54. 68. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, “A paróquia e seu território”, in Cadernos do Noroeste – Sociedade, Espaço, Cultura, número experimental, Braga, I.C.S. - Universidade do Minho, 1986, p. 120. 69. Idem, ibidem, p. 120. xviii. Igreja e campo [Santiago de Bougado, Trofa].
Parte II Território singular e comum 95 xviii.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 102 do Ave, junto às agras (...) que se nota a maior concentração habitacional; nas faldas do monte e nas colinas mais a Este, onde a água escasseia e o baldio ganha forma, o povoamento é mais rarefeito.” 92 92. Alves, Jorge Fernandes, Uma comunidade rural do vale do Ave – S. Tiago de Bougado: 1650-1849 (estudo demográfico), Porto, Ed. Autor, 1986, Dissertação de Mestrado em História Moderna apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 44; Segundo Jorge Fernandes Alves, recorrendo ao Rol de Confessados, “essa imagem é já fornecida para 1780 (...), com a distribuição do volume populacional pelos vários lugares ou aldeias que constituíam a paróquia.” Idem, ibidem, p. 45. xxi. - xxii O alvéolo de Bougado [Santiago de Bougado, Trofa]
Parte II Território singular e comum 103 xxi. xxii.
Parte II Território singular e comum 105 4. A indústria no Baixo Ave: entre a permanência e a transformação 4.1. Fixação e incremento industrial no contexto regional Se a ocupação intensa de todo o território do noroeste português se verificava desde tempos muito remotos, a partir de meados do século XIX assistiu-se à introdução e desenvolvimento de uma nova realidade que, não sendo exclusiva do vale do Ave, teve no seu espaço repercussões vincadamente profundas. O processo de industrialização, resultante da influência tardia da Revolução Industrial e de uma ideia de progresso baseada num período de grande estabilidade que se instalara no país, encontrou no vale do Ave as condições ideais para o seu incremento, tornando-se uma das marcas principais da sua caracterização. 93 “O início deste processo data fundamentalmente da segunda metade do século XIX 94 e ter-se-á consolidado plenamente (...) ao longo do século XX. Durante mais de cem anos implantaram-se nos campos retalhados da região conjuntos diversificados de unidades industriais – umas marcadamente domésticas, outras claramente fabris -, dedicadas principalmente (embora não de forma exclusiva) à actividade de produção e confecção de tecidos. Primeiro prolongamento do Porto e da sua indústria têxtil, o Ave transformou-se progressivamente, num alargado centro industrial” 95, transformação que pela sua força e afirmação viria a reforçar a ideia de uma certa individualidade e identidade socioeconómica e cultural da região. 96 Vários serão os fatores que contribuíram para a fixação e para o rápido incremento industrial verificado. Em primeiro lugar, a abundância de água, resultado de uma bacia hidrográfica fecunda, foi essencial como fonte de energia e imprescindível nas ações de tinturaria e noutras fases do processo de acabamento. Na verdade, “tem sido 93. Pereira, Virgílio Borges, “Espaço, ruralidade e industrialização do Vale do Ave: notas para uma definição estética das respectivas propriedades sociais” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE., 2002, p. 60. 94. “1845. Em Negrelos, Santo Tirso, é inaugurada a Fábrica de Fiação do Rio Vizela, a primeira unidade industrial moderna implantada na Bacia do Ave. Acontecimento incontornável no panorama histórico da região, esta data demonstra também o quanto é tardio o processo de industrialização do Vale do Ave, se comparado com o de Inglaterra ou mesmo com outros locais de Portugal.” Faro, Suzana; Cleto, Joel, “A Rota do Património Industrial do Vale do Ave: caracterização e breves considerações” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE., 2002, p. 149. 95. Pereira, Virgílio Borges, “Espaço, ruralidade e industrialização do Vale do Ave: notas para uma definição estética das respectivas propriedades sociais” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 60. 96. Mendes, José Amado, “A indústria do Vale do Ave no contexto da indústria nacional” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 14.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 106 frequentemente indicada a existência de recursos hídricos, para explicar a deslocação da indústria algodoeira da cidade do Porto para aquela área – desde a década de 1840 aos primeiros decénios do século XX -, vindo a substituir a tradicional indústria caseira do linho. 97 Por esse motivo, diversas empresas teriam instalado as suas unidades produtivas nas margens de rios, como o Ave, o Vizela, o Selho e o Ferro.” 98 Bem antes da difusão da têxtil algodoeira, “em vastas áreas do Médio Ave, sobretudo naquelas onde eram abundantes as terras limadas, situadas nas margens dos rios e fundos de vale, o cultivo do linho teve, (...) um peso significativo.” 99 Como dizíamos, embora a abundância de água seja o principal fator apontado como responsável pela instalação industrial na região, outras condições favoreceram essa realidade. Nesse sentido, foi de igual modo importante a existência de uma elevada concentração populacional que garantia uma oferta de uma “mão-deobra relativamente abundante e pouco reivindicativa” 100, resultado do “grande retalhamento da propriedade que inviabilizava a sobrevivência das famílias (muito densas) em quadros reprodutivos exclusivamente agrícolas, fomentando, por isso e através da fome, a procura de trabalho exterior à agricultura” 101 Do mesmo modo, como aponta Amado Mendes, “a mentalidade e a cultura técnica, desenvolvida e consolidada, ao longo de séculos, em múltiplas actividades artesanais; a dinâmica e o espírito empreendedor de parte da sua população; (...) a proximidade do mercado interno (Centro e Norte, com destaque para o centro urbano do Porto) e o fácil acesso aos canais exportadores, por via terrestre, via área ou marítima; as ligações afectivas 97. Segundo Teresa Sá Marques, “a segunda metade do séc. XIX e inícios do XX correspondem ao mesmo tempo à reorganização industrial da produção artesanal doméstica do linho (especialmente dispersa) e à substituição desta pelo algodão” Marques, Teresa Sá, 1988, cit. por Mendes, José Amado, “A indústria do Vale do Ave no contexto da indústria nacional” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 19. 98. Mendes, José Amado, p. 18. 99. Gonçalves, António; Costa, Francisco “O Vale do Ave: a sua geografia” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 52; Esta característica não é exclusiva daquela região, pois, na verdade, “o linho era um dos produtos da terra que, juntamente com a lã, constituía um dos rendimentos complementares da lavoura desde o séc. XI.” É, por isso, natural, que “no reinado de D. Dinis, com o incremento notável que este monarca soube dar à agricultura e ao artesanato de então, [...] tenha havido grande aumento da área dos linhares, [...] e da sua manufactura, pois sabemos que no Minho, já nesse tempo, se fabricava excelente pano de linho.” Silva, Rosa Fernanda Moreira da, Paisagem agrária das planícies e colinhas minhotas - contrastes e mutações, (2 vols.), Porto, Ed. Autora, 1981, Dissertação de Doutoramento apresentada à F.L.U.P., p. 241-242. 100. Mendes, José Amado, “A indústria do Vale do Ave no contexto da indústria nacional” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 19. 101. Pereira, Virgílio Borges, “Espaço, ruralidade e industrialização do Vale do Ave: notas para uma definição estética das respectivas propriedades sociais” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 60.
Parte II Território singular e comum 107 de muitos dos empresários e gestores à região, naturais do Vale do Ave ou nele residentes” 102 foram fatores essenciais para a fixação e proliferação da indústria que, se manifestou com maior vigor a partir das primeiras décadas do século XX. Entre 1912 e 1936, o número de fábricas algodoeiras do Ave terá crescido de 15 para 150 unidades, contabilizando um total de 8 500 operários 103, tornando-se, assim, numa grande colmeia industrial 104, que se estendia “desde o Porto, Santo Tirso, Famalicão, Braga e Guimarães até Fafe.” 105 4.2. As disparidades concelhias como diversidade regional No século XX a implantação industrial no noroeste português tem já um peso relativamente significativo, verificando-se que, a partir de meados do século, a sua “localização geográfica (...) se situa predominantemente nos concelhos do litoral e nos do eixo industrial Ave-Vizela.” 106 No entanto, na região do Ave, o desenvolvimento e fixação da indústria não corresponde a uma distribuição homogénea entre os diversos concelhos que a compõem, circunstâncias às quais não devemos estar alheios. “De facto, não obstante a similitude entre os diversos municípios, sob certos pontos de vista – por exemplo, paisagístico, climático e agrário -, o seu desenvolvimento industrial apresenta consideráveis diferenças.” 107 Segundo o Recenseamento Industrial realizado pelo INE em 1971, e referenciado por Rosa Moreira da Silva na sua dissertação de Doutoramento a que temos vindo a recorrer, os concelhos de Vila do Conde e Póvoa de Varzim apresentavam, por aquela data, um número de indústrias bastante inferior quando comparado com os de Santo Tirso, Vila Nova de Famalicão e Guimarães. Nos dois primeiros registava-se, então, um total de, respetivamente, 183 e 156 empresas 108, sendo estas 102. Mendes, José Amado, “A indústria do Vale do Ave no contexto da indústria nacional” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 19. 103. Idem, ibidem, p. 19. 104. Oliveira, Manuel Caetano d’, “A influência dos mercados ultramarinos no desenvolvimento e prosperidade da indústria nacional de tecidos de algodão”, in Indústria Portuguesa, Ano 9, nº 95, 1936, pp. 63-64. 105. Idem, ibidem, pp. 63-64. 106. Silva, Rosa Fernanda Moreira da, Paisagem agrária das planícies e colinhas minhotas - contrastes e mutações, vol. I, Porto, Ed. Autora, 1981, Dissertação de Doutoramento apresentada à F.L.U.P., p. 234. 107. Mendes, José Amado, “A indústria do Vale do Ave no contexto da indústria nacional” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 14. 108. Silva, Rosa Fernanda Moreira da, Paisagem agrária das planícies e colinhas minhotas - contrastes e mutações, vol. I, Porto, Ed. Autora, 1981, Dissertação de Doutoramento apresentada à F.L.U.P., p. 235.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 108 indústrias maioritariamente vinculadas ao sector alimentar, com pequenos focos de atividade do sector têxtil e de confecções. 109 Nos restantes três concelhos, onde este último sector estava bem mais incrementado, o número de empresas oscilava entre 530 (Santo Tirso), 433 (Famalicão) e 676 (Guimarães). 110 De acordo com o mesmo relatório, esta relação desigual era manifestamente mais perceptível quando observado o número de operários existentes em cada concelho. Por oposição a Santo Tirso, Famalicão e Guimarães, que empregavam, à época, respetivamente, 18381, 23356 e 25561 operários, em Vila do Conde, a indústria transformadora fixava apenas 6626, enquanto que na Póvoa de Varzim este número era ainda mais reduzido, não atingindo sequer a barreira dos 3000 operários. 111 Como dizíamos, analisados os números, facilmente concluímos que a preponderância de que a indústria usufrui “não é (...) uniforme e conhece uma distribuição desigual pela região. Com efeito, são os concelhos de industrialização mais consolidada e onde esta é mais antiga que registam efectivos mais relevantes de população activa na indústria, como Guimarães, Vila Nova de Famalicão e Santo Tirso, com efectivos sempre superiores a 70%, colocando-se os restantes concelhos em situações menos orientadamente industriais (...).” 112 Este facto torna-se ainda mais evidente e ainda menos surpreendente quando sabemos que, em 1981, “90% da população activa do Vale do Ave” 113 se concentrava naqueles três concelhos. “Quer isto dizer que, sendo uma região amplamente marcada pela indústria, o Vale do Ave é, não obstante esse facto, dotado de diversidade interna”, 114 um fator relevante que devemos tomar em consideração no âmbito do nosso estudo. 4.3. Um novo quadro social Durante mais de um século, as unidades fabris foram-se integrando entre os campos existentes no vale do Ave, contribuindo assim para o acentuar de uma paisagem já de si historicamente dispersa, e onde, agora, dificilmente se poderá ver refletida 109. Idem, ibidem, pp. 238-240. 110. Idem, ibidem, p. 235. 111. Idem, ibidem, p. 236. 112. Pereira, Virgílio Borges, “Espaço, ruralidade e industrialização do Vale do Ave: notas para uma definição estética das respectivas propriedades sociais” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 61. 113. Mendes, José Amado, “A indústria do Vale do Ave no contexto da indústria nacional” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 15. 114. Pereira, Virgílio Borges, “Espaço, ruralidade e industrialização do Vale do Ave: notas para uma definição estética das respectivas propriedades sociais” in Mendes, José Amado; Fernandes, Isabel (Coord.), Património e indústria no Vale do Ave, V. N. de Famalicão, A.D.R.AVE, 2002, p. 62.
Parte II Território singular e comum 109 “uma presença uniforme e intensa de uma sociedade rural de matriz camponesa e dominada por relações sociais organizadas em torno da actividade económica na agricultura -características que apenas há um século atrás serviriam para desenhar um retrato minimamente ajustado da região.” 115 Se o fenómeno da industrialização deixou marcas indeléveis na forma como o território se organiza, a sua influência foi também muito acentuada na definição de um quadro sociológico que se compôs essencialmente sobre “dois grandes processos de estruturação social e territorial: o que diz respeito ao modo como o espaço camponês se tem (re)produzido nas últimas décadas com a entrada da indústria e o que retém o modo como se têm organizado aqueles espaços que, por força da permanência centenária da indústria, há muito perderam as relações com a terra.” 116 Se durante séculos, as relações sociais da região do Ave se organizaram, à semelhança de todo o Entre-Douro-e-Minho, em torno da atividade agrícola, com a intensificação do desenvolvimento industrial, esta realidade foi-se transformando, dando origem a um êxodo intensivo dos campos. No entanto, o abandono do trabalho agrícola, “mesmo quando plenamente assumido, deve (...) ser interpretado sempre com alguma prudência” 117, pois as velhas estruturas agrárias permaneceram, ainda que organizadas e simbolizadas de forma diametralmente diferente, como um elemento característico das coletividades do Ave. “(...) Mais do que substituída automaticamente pelo trabalho fabril, a terra passa a ser mobilizada em função das inserções exteriores à agricultura dos agentes e das suas famílias, permanecendo como uma inevitável referência prática e simbólica” 118 do dia a dia das populações. O trabalho agrícola permanece ativo, não só entre aqueles que naturalmente não encontram uma posição profissional na indústria em resultado da sua idade avançada, mas também entre algumas franjas do operariado que agora se ia formando. Este último grupo, ainda que perfeitamente enquadrado no trabalho fabril, recorre à agricultura como meio adicional de subsistência capaz de satisfazer, de forma mais ou menos efetiva, as necessidades dos respetivos agregados familiares. Como dizíamos, com a introdução do universo fabril nas freguesias ruralizadas do Ave, assistiu-se a um progressivo êxodo agrícola 119 que alterou por completo as velhas estruturas de organização social estabelecidas. Em primeiro lugar, esta transformação caracterizou-se pela formação de um operariado rural “obediente, propenso à informalidade nas relações laborais, à pluriactividade no interior da indústria e à 115. Idem, ibidem, p. 59. 116. Idem, ibidem, p. 62. 117. Idem, ibidem, p. 64. 118. Idem, ibidem, p. 63. 119. Como avisa Virgílio Borges Pereira, este êxodo agrícola, não é, contudo, acompanhado por um êxodo rural maciço e definitivo. Idem, ibidem, p. 63.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 110 mudança frequente de emprego.” 120 Adicionalmente, e não menos importante, o novo contexto laboral permitiu o acesso das mulheres ao mercado de trabalho - o que rapidamente rompeu com o padrão familiar até aí consolidado – e gerou uma estrutura de posições sociais muito complexa que não se encontra necessariamente dicotimizada entre o patronato e o operariado. 121 Mas as reconfigurações observadas entre as comunidades locais, o ambiente laboral e a terra, assumem consequências particularmente intensas no que diz respeito às relações de vizinhança – com especial impacto nas práticas de entreajuda 122 - e às relações de sociabilidade que agora se estabelecem sobretudo entre os movimentos pendulares de partida e de regresso para o trabalho industrial - realizado dentro ou fora da comunidade -, as deslocações para a escola, o trabalho na agricultura - que, embora reduzido, ainda permanece -, e todas as dinâmicas inerentes ao contexto produtivo fabril. Do mesmo modo, a par deste acentuado aumento do ritmo de vivências coletivas, assiste-se a uma afirmação e “autonomização paulatina de uma esfera de tempo livre e de lazer, visível, por exemplo, nos pequenos cafés e nas novas associações desportivas e culturais (os grupos etnográficos e folclóricos produzidos para salvaguardar a tradição quando esta ameaça desaparecer...).” 123 No fundo, todas estas transformações da natureza das relações coletivas origina o surgimento do conceito de aldeia de operários defendido por Augusto Santos Silva no estudo que realizou sobre a freguesia de São Torcato em Guimarães. Como observado naquele contexto local, as mutações sociais profundas operadas pelo incremento industrial junto das freguesias rurais do vale do Ave, originaram alguns receios dos membros do clero que, não conseguindo compreender e enquadrar a nova condição de trabalho, olhavam aquele novo contexto com muita apreensão. Embora as coletividades se reconheçam “na paróquia que continua a ser alvo de uma forte participação” 124, a Igreja Católica temia o desmembramento das suas comunidades religiosas e a eliminação da sua influência pastoral como resultado do processo de proletarização. “A primeira mudança que o porta-voz doutrinário das autoridades religiosas locais identifica é a proletarização. E é, desde logo, aquela sentida como a ameaça mais forte. A seus olhos, o mundo vivido dos lavradores-caseiros e dos sapateiros domicialiários, o mundo da pequena produção familiar, está em perigo (...).” 125 Este receio assenta numa preocupação latente de que o trabalho fabril pusesse 120. Idem, ibidem, p. 64. 121. Idem, ibidem, p. 66. 122. Idem, ibidem, p. 65. 123. Idem, ibidem, p. 64. 124. Idem, ibidem, p. 65. 125. Silva, Augusto Santos, Tempos cruzados: um estudo interpretativo da cultura popular, Colecção Biblioteca das Ciências do Homem/ Sociologia Epistomologia, nº 16, [s.l.], Edições Afrontamento, 1994, p. 193. xxiii. Fábrica de Fiação e Tecidos de Santo Thyrso e Bairro do “Teles” [Santo Tirso].
Parte II Território singular e comum 111 xxiii.
Parte II Território singular e comum 119 1. As primeiras redes de caminhos 1.1. Os caminhos do pescado e do sal As características gerais que anteriormente descrevemos para cada povoado das diversas fases do povoamento pré-romano, somadas ao facto de alguns daqueles assentamentos comunicarem visualmente entre si, revelam, desde logo, que, contrariamente ao que se possa pensar, estes povos deteriam já diversas formas de comunicação - por terra, por mar ou através dos vales fluviais -, interagindo, assim, sob diferentes tipos de sistemas de relações. É perfeitamente admissível que a organização do povoamento castrejo fosse já muito desenvolvida, motivo que se traduz em duas dimensões opostas. Por um lado, esta disposição territorial hipoteticamente mais aperfeiçoada permitiu uma grande resistência à dominação de Roma, contrariamente ao sucedido nas regiões meridionais da península; por outro, parece ter também servido de suporte ao lento processo de romanização e à introdução de alterações de natureza produtiva e infraestrutural. Deste modo, é possível que alguns dos trajetos utilizados pelos povos indígenas, não só entre os diferentes povoados, mas também entre estes e os locais onde podiam extrair os recursos de que necessitavam, tivessem servido como referência para a criação da primeira rede de estradas romanas na região. Sobre esta arcaica rede de caminhos, importa destacar a importância de algumas zonas da topografia, autênticas vias naturais que facilitavam o percurso que estas comunidades realizavam, nomeadamente através dos diversos vales fluviais que abundam por todo o noroeste, e das depressões do relevo, que permitiam a ultrapassagem das maiores barreiras montanhosas. A relevância destes acessos naturais é atestada pela posição de alguns povoados que, muitas vezes, se localizavam nas suas proximidades, permitindo assim uma autêntica vigilância daquelas vias. Sabe-se que, por exemplo, o Castro de Santa Cristina, em Requião, Vila Nova de Famalicão, ocupava o topo do relevo que da Serra dos Carvalhos se estende até àquela localidade, encontrando-se, assim, numa posição privilegiada sobre o vale de São Cosme e, em especial, sobre a depressão montanhosa que se desenvolve a noroeste, por onde, já no período romano, passaria a estrada que ligava as cidades de Olissipo e Bracara Augusta. Note-se que, à semelhança de outros pontos idênticos, o topónimo daquele lugar – Portela - indica essa ideia de passagem. Analisando a distribuição territorial dos povoados do Baixo Ave, é possível teorizar sobre uma considerável proliferação de vias de comunicação, muito arcaicas, é certo, mas que poderiam estar fortemente organizadas dentro do contexto regional, enquadradas no espaço dos extensos vales fluviais, e desenvolvidas, ora sob o eixo norte-sul, ora na direção oposta, em direção ao mar. Apoiados na leitura de
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 120 Ferreira de Almeida e Brochado de Almeida, cremos que os caminhos do pescado e do sal, a que já nos referimos, orientados naturalmente no sentido do mar, e que possibilitavam a comunicação entre a costa e as regiões mais interiores, teriam tido, para os castrejos, um interesse redobrado. Embora a pesca, a extração do sal ou a atividade portuária da foz do Ave tenham também exercido um papel preponderante mais tarde, nomeadamente durante o domínio de Roma, há dados que suportam a ideia de que os principais eixos de comunicação dos povos pré-romanos estabelecerse-iam, como dissemos, regionalmente, preocupados, sobretudo, em servir as populações do interior dos vales. A grande densidade de castros 1 e a identificação de diversos achados arqueológicos, comprovam que, durante a ocupação castreja, “o sal foi procurado, recolhido e produzido ao longo da costa atlântica e provavelmente no término das bacias fluviais dos mais diversos cursos de água” 2, sendo um recurso que “interessava e muito às populações dos castros que marginavam a linha da costa” 3, que dele “precisavam (...) para as suas próprias necessidades”, usando-o, também, nas trocas comerciais que faziam com aqueles que não eram produtores. Este crescente interesse na exploração daquele recurso está na génese da necessidade de criação de um controlo apertado dos locais onde se procedia à sua extração, motivo que conduziu “à definição das áreas adstritas a cada povoado inseridas dentro dos territórios potenciais de exploração de cada um.” 4 5 A preocupação com a extração e a comercialização do sal, e eventualmente do pescado, parece “garantir a existência de caminhos comerciais” 6 entre os povoados do litoral e aqueles que ocupavam o território mais interior, para quem o sal se havia tornado 1. No Baixo Ave, Brochado de Almeida identifica diversos castros situados junto da costa que estiveram intimamente ligados à extração do sal: “ [os castros] de São João em Vila do Conde, o de nabais na Póvoa de Varzim e provavelmente ainda os povoados de Fonte Boa, Laúndos, Terroso, Beiriz e Bagunte, mais distantes é certo, mas dificilmente desligados do que se passava na costa, porque se encontram a menos de duas horas de caminho.” Almeida, Carlos Alberto Brochado de, “A exploração de sal na costa portuguesa a Norte do rio Ave - Da Antiguidade Clássica à Baixa Idade Média” in I Seminário Internacional sobre o sal português, nº1, Porto, 2004, Porto, I.H.M., 2005, p. 150. 2. Idem, ibidem, p. 147. 3. Idem, ibidem, p. 150. 4. Idem, ibidem, p. 150. 5. “Por exemplo, os castros de Terroso e de Laúndos dividiriam a praia situada entre a penedia de A-vêr-o-Mar e o Rio Alto, onde há notícia de gamelas em xisto no espaço posteriormente dependente da futura villa menendi, enquanto o pequeno castro de Fonte Boa, em frente à Barca do Lago, poderia explorar as salinas que também se documentam na praia da Apúlia.” Idem, ibidem, p. 150. 6. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Vias Medievais Entre Douro e Minho, vol. I, Porto, Ed. Autor, 1968, Dissertação de Licenciatura em História apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), pp. 13-14.
Parte III Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 121 num produto apetecível” 7. Estas transações far-se-iam, por isso, através de caminhos orientados, regionalmente, no sentido este-oeste, ligando toda a faixa costeira com o interior dos vales profundos onde uma boa parte daqueles se encontravam. Nesta época, a preocupação crescente com o acesso ao litoral atlântico é também justificada por motivos defensivos, motivados, essencialmente, pelos ataques de piratas e saqueadores que se aproveitavam das características do território litoral português que se apresenta como uma “longa faixa costeira que, em parte da sua extensão, é cortada transversalmente por numerosos rios, com um desenho, na confluência com o mar, que parece em muitos casos configurar portões de entrada.” 8 Na região a que nos temos dedicado, interessa-nos, assim, fazer também uma reflexão aprofundada sobre estes caminhos projetados sobre a costa, elementos que, embora muitas vezes secundarizados pelos estudos realizados, foram fundamentais para o povoamento de todo o noroeste e para a organização social e comercial das suas comunidades. 1.2. Os caminhos da romanização Alertámos anteriormente para a grande importância dos caminhos que se foram desenvolvendo e integrando por todo o território do noroeste peninsular durante o período de incursão e ocupação romana. Estes elementos revestiram-se de relevância acrescida no suporte à progressiva dispersão do povoamento e à divisão da propriedade. A defesa desta conjetura sustenta-se, sobretudo, pela leitura dos traçados viários romanos que atravessavam a região e que constituem sobremaneira o suporte de toda a organização ao longo do território. Embora as informações de que dispomos apenas se refiram com maior exatidão aos caminhos que ligavam os principais núcleos populacionais, é possível aferir que se deve ao período da romanização a concepção de uma primeira ideia de rede que se manteria por longo tempo, ainda que dela não restassem até hoje, pelo menos de forma aparentemente visível, testemunhos materiais em abundância. 9 De uma forma geral, os principais caminhos romanos da Península Ibérica foram 7. Almeida, Carlos Alberto Brochado de, “A exploração de sal na costa portuguesa a Norte do rio Ave - Da Antiguidade Clássica à Baixa Idade Média” in I Seminário Internacional sobre o sal português, nº1, Porto, (2004), Porto, I.H.M., 2005, p. 148. 8. Ferreira, Alfredo Matos, Aspectos da Organização do Espaço Português, Pref. de Fernando Távora, Porto, F.A.U.P. Publicações, 1995, p. 22. 9. É muito pertinente o aviso de Carlos Alberto Ferreira de Almeida que, embora reconheça a importância das vias romanas para os períodos posteriores, sublinha que é uma “terrível obsessão considerarem-se todas as calçadas velhas como romanas como se estas fossem eternas e como se depois dos romanos não se construíssem outras. [...] Como nos atestam miliários estas vias foram reparadas e reformadas muitas vezes.” Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Vias Medievais Entre Douro e Minho, vol. I, Porto, Ed. Autor, 1968, Dissertação de Licenciatura em História apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), pp. 16-17.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 122 edificados durante os primeiras contactos com os povos indígenas que ali habitavam, servindo, sobretudo, para o atravessamento de legiões. Por isso, sobre eles recaía, quase em exclusivo, uma dimensão militar e, mais tarde, administrativa, que os tornou num “fantástico factor de romanização.” 10 Estes caminhos materializamse, especialmente, sob a forma de “estradas de estado, de império, feitas para os transportes oficiais, militares, administrativos e postais (...) e prolongam-se pelo território no sentido norte-sul.” 11 Contrariamente às estradas da época medieval, as principais vias romanas não serviam de peregrinação e “só as ligações comerciais com o exército as ligam à vida económica de uma região.” 12 O seu traçado era, por norma, “muito retilíneo, visando unir cidades administrativamente importantes, encurtando distâncias, (...) desprezando os interesses locais sem se importar de servir as povoações intermediárias.” 13 No entanto, estas características poderiam ser distorcidas por fatores geográficos que, num ou noutro troço, dificultavam o seu traçado. Mas, mesmo nesses casos, o caminho romano “ignorava a curva subindo em troços rectilíneos, em linha quebrada.” 14 Por razões de segurança, visibilidade e principalmente pelas condições de solidez do terreno, o seu traçado preferencial fazia-se pelos planaltos, tornando-o, assim, nas palavras do Pe. Martins Cappella, numa via de crista. 15 A evolução técnica dos caminhos romanos, face àqueles que existiam no período anterior, era naturalmente assinalável. Em alguns casos, estas novas vias eram concebidas em profundidade, utilizando diversas camadas de vários materiais, criando assim um aglomerado sólido que permitia uma circulação de carros mais eficiente. 16 O Cursos Publicus, isto é, a rede de caminhos romana, estrategicamente pensada e traçada por todo o império, que assegurava o transporte de mercadorias, documentos oficiais e administrativos, não se resumia, contudo, às viae publicae, os grandes eixos de comunicação entre os maiores centros urbanos. Paralelamente a estes caminhos mais extensos, existiam também as viae vicinales - estradas secundárias que ligavam duas viae publicae entre si ou a povoados secundários – e as viae privatae ou agrari - caminhos agrícolas ou de acesso privado. Ao longo dos principais caminhos, sublinha-se também a existência de pequenas estruturas locais de apoio aos viajantes, 10. Idem, ibidem, p. 16. 11. Idem, ibidem, p. 17. 12. Idem, ibidem, p. 17. 13. Idem, ibidem, p. 18. 14. Idem, ibidem, p. 18. 15. Capella, Manuel Martins, Milliarios do Conventus Bracaraugustanus em Portugal – Reliquias de epigraphia romana, transladadas dos próprios monumentos, Porto, Typographia de Arthur José de Sousa & Irmão, 1895, p. 32. 16. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Vias Medievais Entre Douro e Minho, vol. I, Porto, Ed. Autor, 1968, Dissertação de Licenciatura em História apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 19.
Parte III Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 123 como as mansiones, as mutationes e as stationes. As primeiras destinavam-se ao armazenamento das mercadorias e correio, ao descanso e à pernoita no final de cada etapa de viajem, estando, tal como as segundas, separadas entre si por uma distância similar. As mutationes correspondiam ao locais onde se podiam reparar os carros, dar de comer ou trocar de cavalos. Por seu turno, as stationes eram guarnições militares, em alguns casos fortificadas, que asseguravam o controlo e a segurança das vias, sobretudo nos locais de maior perigo onde a passagem se tornava obrigatória. De acordo com a orgânica do Cursus Publicus, é possível que, para além de grandes estradas imperiais, existissem, também, outros caminhos de carácter regional no Entre-Douro-e-Minho. Com a aculturação e a pacificação da região, e tendo em conta a progressiva exploração dos solos e as já antigas atividades de extração de sal junto à costa, que à época se mantiveram, é admissível que algumas dessas hipotéticas vias se tenham posicionado transversalmente aos caminhos principais que cruzavam o território no sentido norte-sul. Referimo-nos a uma hipotética repetição dos trajetos dos caminhos arcaicos a que já aludimos anteriormente como caminhos do pescado. Embora estas pequenas vias estivessem intimamente relacionadas com os caminhos principais, mais longos e afastados da dimensão local ou regional, elas desempenhariam uma função de apoio direto às comunidades rurais que ocupavam as villas e demais estruturas agrárias dispersas pelo território. Como dizíamos, seriam caminhos traçados e percorridos, essencialmente, por razões produtivas e comerciais, enquanto suporte da intensa atividade agrícola, mineira e do interesse continuado pela exploração do sal junto à costa, destinado, particularmente, à conserva do peixe. 17 Segundo Brochado de Almeida, durante a romanização, deveriam existir inúmeros locais costeiros de exploração salina, de Matosinhos até à Póvoa de Varzim, acompanhada de uma atividade pesqueira assinalável 18, o que reforça a possibilidade de existência dos caminhos de âmbito regional. Na Península Ibérica, e especialmente no Entre-Douro-e-Minho, muito pouco se sabe sobre os caminhos romanos. Pese embora os vários marcos miliários encontrados e as pontes identificadas como pertencentes ao período, são muito poucos os documentos de onde podemos extrair informações devidamente rigorosas. Entre eles, os mais relevantes são a Tábula de Peutinger e o Itinerário de Antonino. O primeiro, embora não tenha chegado até à atualidade no seu formato original 19, identifica, no território do noroeste português, três vias principais: a estrada de Cale a Bracara, a que desta cidade seguia até Tude e a que, também dela, partia em direção a Asturica Augusta. 17. Almeida, Carlos Alberto Brochado de, Povoamento romano do litoral minhoto entre o Cávado e o Minho, Porto, Ed. Autor, 1996, Dissertação de Doutoramento em Pré-História e Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 152. 18. Idem, ibidem, pp. 152-154. 19. Como avisa Ferreira de Almeida, “a parte que dizia respeito à Península Ibérica perdeu-se e foi reconstituída por Konrad Miller. Idem, ibidem, p. 22.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 124 Por sua vez, o Itinerário de Antonino, o testemunho documental mais útil de que dispomos para a determinação dos principais caminhos romanos no Entre-Douroe-Minho, apresenta cinco caminhos naquela região, todos eles saídos de Bracara e destinados, um deles a Olissipo – passando em Cale – e os outros quatro, a Asturica Augusta – um que ia pelo Gerês, também conhecida por “estrada da Geira”, outro que seguia por Chaves, um outro que ia por Limia e Tude e outro, per loca maritima, coincidindo com o anterior numa parte do seu traçado até Tude. Relativamente ao Baixo Ave, o Itinerário de Antonino documenta apenas a passagem, naquela região, da grande via que conectava Bracara Augusta a Olissipo e que, pelo meio, passava ainda em Cale e em Aeminium. No entanto, é muito provável que existissem outros caminhos com uma importância semelhante, pois, ao que sabemos hoje com relativa segurança, aquele mapa descritivo “está longe de citar todas as vias romanas” 20, pois o seu autor não terá tido mesmo essa preocupação” 21, em virtude de se tratar de uma lista de mansiones e de distâncias miliárias” 22, elaborada “com fins estratégico-militares na época de Diocleciano. 23 Das fontes de informação existentes, aquelas que melhor contribuem para o estudo dos caminhos romanos naquela região são os topónimos e os vestígios encontrados em vários locais da região. Estes elementos serviram de base aos trabalhos mais aprofundados de Carlos Alberto Ferreira de Almeida e de Eugénio Andrea da Cunha Freitas que, pela importância dos seus contributos, se tornarão as nossas referências principais. Estes autores descrevem, com algum pormenor, pelo menos mais quatro hipóteses de trajetos romanos que atravessavam o território do Baixo Ave: a Karraria Antiqua, a via Veteris, a via per loca marítima e a via Vimaranes. Todas, tal como a via entre Bracara e Olissipo, orientavam-se no sentido norte-sul. No entanto, as três primeiras estavam relativamente mais próximas da costa, ao contrário do que acontecia com a via Vimaranes, situada mais a montante. Para além destas longas vias, e como dizíamos previamente, é possível que tenha existido um conjunto de caminhos de menor dimensão e com uma importância relativamente assinalável no contexto regional, conforme apontam também Ferreira de Almeida, Cunha Freitas e Jorge Pinho. Os dois primeiros lançam, inclusivamente, algumas ideias sobre hipotéticos caminhos, aparentemente secundários, que, no Ave, funcionariam como complemento da rede de estradas principal. 20. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Vias Medievais Entre Douro e Minho, Vol. I, Porto, Ed. Autor, 1968, Dissertação de Licenciatura em História apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 39. 21. Idem, ibidem, p. 39. 22. Idem, ibidem, p. 25. 23. Idem, ibidem, p. 25.
Parte III Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 125 O Itinerário XVI entre Cale e Bracara Augusta Como dissemos, na região do Baixo Ave é relativamente fácil identificar uma pequena parte do traçado seguido pelo Itinerário XVI que ligava as cidades de Olissipo e Bracara Augusta. Entre esta urbe romana e Cale, o esboço daquela via é especialmente documentado por vários vestígios materiais que progressivamente foram sendo descobertos, ao contrário do que acontece com o restante troço que se desenvolve para sul e que permanece muito pouco clarificado. À imagem de outras estradas romanas, este trajeto serviu, ao longo dos tempos, como orientação para novos caminhos que se foram integrando no território, persistindo alguns pontos do seu traçado até aos dias de hoje, embora naturalmente modificados, surgindo também sob diferentes terminologias. No excerto que nos importa aqui tratar, que se resumirá de forma mais concreta aos atuais concelhos da Trofa e de Vila Nova de Famalicão, o percurso desta antiga estrada romana estaria, eventualmente, próximo daquele que agora se estabelece pela N 14 e que une, precisamente, as cidades do Porto e de Braga. Foi, aliás, junto desta infraestrutura mais recente que se descobriram alguns dos materiais arqueológicos que sustentam a sua descrição mais aprofundada. Por essa razão, tentaremos detalhar com maior rigor o percurso que se apresentava entre aquelas duas cidades e, de modo a fazer coincidir a nossa descrição com as de Ferreira de Almeida e de Cunha Freitas, ser-nos-á mais fácil acompanhar aquele trajeto de sul para norte. Depois de atravessado o Douro, a via percorria os atuais concelhos do Porto e de Matosinhos, atravessando, neste último, o rio Leça na Ponte da Pedra, em Leça do Balio. 24 A partir daqui, vários são os vestígios que permitem traçar o seu trajeto com alguma segurança. Transposto o Leça, seguindo em direção a norte, o caminho dirigia-se pela crista do monte que logo a seguir se denuncia, passando, então, no centro da atual cidade da Maia, onde, mais à frente, no lugar de Pinta, “fugindo aos terrenos pantanosos da Barca, cortava à esquerda da actual estrada PortoBraga, indo por Mandim e [...] por S. Pedro de Avioso, pela parte alta, pelos limites de Guilhabreu.” 25 É precisamente a partir deste ponto que este caminho romano entraria no território que hoje pertence ao concelho da Trofa, dentro dos limites que inicialmente definimos para o território do Baixo Ave. Daquela zona alta, descia para o vale da ribeira da Aldeia, afluente do Ave, onde, a meia encosta, se localizava o Castro de Alvarelhos. Este antigo povoado teria, como assinalámos, uma grande relevância durante o processo de romanização, fruto da sua posição geográfica e, também, da proximidade a solos com uma boa aptidão 24. Assinala Carlos Alberto Ferreira de Almeida que “esta ponte, no seu estado actual, é medieval, mas tem fundamentos romanos. Na sua estrutura vêm-se ainda muitas pedras de aparelho romano, algumas almofadadas.” Idem, ibidem, pp. 26-27. 25. Idem, ibidem, p. 27.
Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 126 agrícola. Tal como defende Armando Coelho da Silva 26, parece ser evidente que este castro sofreu um desenvolvimento bastante profícuo, usufruindo, assim, de uma centralidade assinalável no contexto regional entre o Leça e o Ave. Embora tenham sido recolhidos diversos achados arqueológicos junto de Alvarelhos, subsistem ainda algumas dúvidas sobre o traçado concreto da via nesta área. Por um lado, tendo em conta a estratégia romana no esboço das suas principais estradas – ligando diretamente os principais centros urbanos e afastando-se dos povoados intermédios – e, também, os marcos miliários descobertos nos lugares da Peça Má e Carriça, a sudeste do castro, é possível que a via descesse ao sopé da serra de Santa Eufémia diretamente pelo lugar de Muro, atual sede de freguesia, evitando, assim, a passagem efetiva pelo Castro de Alvarelhos. Se esta hipótese for viável, a ligação àquele povoado far-se-ia, à imagem do que acontece noutros exemplos, por um ou dois ramais alternativos. Por outro lado, na Quinta do Paiço, do lado ocidental do castro, foi descoberto, como avisa Carlos Alberto Ferreira de Almeida, um outro miliário dedicado a Adriano, o que levou o autor a considerar a passagem da via neste local, que dali seguiria depois para Peça Má. 27 Como sublinhámos, embora não tenhamos as devidas certezas, os diversos testemunhos materiais encontrados na zona parecem indicar que ali poderiam confluir diversas vias, motivo pelo qual outros autores suportam ainda a ideia da existência de uma mansio. Assim, é possível que em Alvarelhos, ou nas suas imediações, existissem caminhos que conectariam o troço do Itinerário XVI entre Cale e Bracara diretamente à costa ou a outras estradas, como as que transitavam a poente, como a via per loca maritima, a via Veteris e a Karraria Antiqua ou a própria via Vimaranes. Ultrapassado o Castro de Alvarelhos, com as reservas que aqui descrevemos, a via percorria seguramente, como dissemos, os lugares de Peça Má e Carriça, fazendo esta parte do seu percurso sobre uma zona mais baixa – onde as altimetrias são bastante mais estáveis e, por isso, mais fáceis de transpor - e de terrenos xistosos, dirigindo-se posteriormente a Lantemil e Trofa Velha, locais onde se encontraram outros quatro miliários, um de Licínio, restos de um de Marco Aurélio e dois de Constante. 28 Logo após a Trofa Velha, o caminho cruzava o Ave presumivelmente na Ponte da Lagoncinha, estrutura que, embora seja “na sua forma atual uma notabilíssima ponte 26. Silva, Armando Coelho Ferreira da, “Organizações gentilícias entre Leça e Ave”, in Portugalia, vol. I, Porto, F.L.U.P., 1980, pp. 87-88. 27. Tal como as pontes, a descoberta de miliários reveste-se de bastante importância para o conhecimento das estradas romanas. No entanto, ao contrário das primeiras, muitos destes vestígios poderão ter sido deslocados dos seus lugares originais, pelo que deveremos ter algum cuidado na leitura que extraímos da sua localização. 28. Idem, ibidem, p. 27.
Parte III Os caminhos da estrutura do território do Baixo Ave 127 medieval, [...] o seu arco do lado sul, que é redondo e não quebrado como os outros [...] é romano e de técnica da primeira fase imperial.” 29 Entrando no atual concelho de Vila Nova de Famalicão, e diferenciando-se o seu percurso daquele que atualmente é seguido pela N14, a via subia, depois, ao lugar de Cabeçudos - “onde, em Santa Catarina, existe um miliário de Caracala” 30 -, passando, logo depois, em Santiago de Antas, localizado a oriente do centro de Famalicão, a uma curta distância dos castros do Facho e de São-Miguel-o-Anjo. Esta fase do percurso parece estar devidamente esclarecida pelos quatro marcos que por ali se encontraram. Posteriormente, o caminho iniciava uma subida mais acentuada através do vale de São Cosme, onde flui o rio Pelhe, dirigindo-se diretamente à Portela - uma ligeira depressão situada a cerca de 300 metros de altitude no topo do relevo que aí se impõe -, onde foi encontrado um outro miliário. Até esse ponto, a estrada seguia junto ao rio Pelhe, percorrendo todo o vale de São Cosme, passando muito próxima de alguns povoados que, nas zonas de relevo mais acentuado, poderão ter permanecido ocupados durante o processo de romanização. A noroeste situava-se o Castro da Bóca (c. 270 metros) e a sudeste os castros de Vermoim (c. 340 metros), das Eiras (c. 370 metros), de Santa Cristina (c. 330 metros) e do Cruito (c. 200 metros). Segundo António Pereira Dinis 31, dada a posição geográfica daqueles assentamentos e a visibilidade que teriam sobre todo o vale, é possível que um ou mais servissem mesmo de controlo à passagem do caminho que se fazia alguns metros mais abaixo. Passando a Portela, e transpondo, a norte, os limites do atual concelho de Famalicão, entrando assim no de Braga, a via descia a Santo Estevão de Penso, passando posteriormente em Lomar, até chegar, alguns quilómetros mais à frente, ao seu destino final, presumivelmente em Maximinos. Karraria Antiqua Sobre a Karraria Antiqua, e o seu traçado preciso, as informações de que dispomos são ainda bastante escassas ou, em determinados pontos, contraditórias. Eugénio Andrea da Cunha Freitas faz-lhe uma referência muito sucinta e genérica, sendo que a descrição mais pormenorizada que conhecemos foi realizada por Carlos Alberto Ferreira de Almeida em Romanização das Terras da Maia. 32 No entanto, embora possamos indicar com alguma assertividade a existência desta via, devido à carência 29. Idem, ibidem, p. 28. 30. Idem, ibidem, p. 28. 31. Dinis, António Pereira, Ordenamento do território do Baixo Ave no I Milénio a. C., Porto, Ed. Autor, 1993, Dissertação de Mestrado em Arqueologia apresentada à F.L.U.P. (Ed. policop.), p. 62. 32. Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Romanização das Terras da Maia, Maia, C.M.M., 1999.