Tratamento do Carcinoma da Próstata Resistente à Castração
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2013/2014 Rui Paulo Filipe Magalhães Tratamento do Carcinoma da Próstata Resistente à Castração março, 2014
Mestrado Integrado em Medicina Área: Urologia Trabalho efetuado sob a Orientação de: Professor Doutor Paulo Dinis dos Santos Oliveira Trabalho organizado de acordo com as normas da revista: Arquivos de Medicina Rui Paulo Filipe Magalhães Tratamento do Carcinoma da Próstata Resistente à Castração março, 2014
1 Tratamento do Carcinoma da Próstata Resistente à Castração Terapêutica atual e agentes em estudo Rui Paulo Magalhães*, Paulo Dinis† Instituição: Faculdade de Medicina da Universidade do Porto *Aluno do 6º ano do Mestrado Integrado em Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; †Professor Associado Convidado da disciplina de Urologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Correspondência para: Rui Paulo Filipe Magalhães Rua Dr. Francisco Pinto Balsemão, nº 212, 5370-427, Mirandela Telefone: 278261338 E-mail: mimed08169med.up.pt [email protected] Contagens: Resumo em português: 250 palavras Resumo em inglês: 242 palavras Texto principal: 4999 palavras
2 RESUMO O carcinoma da próstata manifesta-se geralmente como uma doença localizada e indolente. Contudo, alguns doentes desenvolvem progressão bioquímica ou metastização da doença. Uma vez alcançada resistência à hormonoterapia convencional, ela passa a designar-se por carcinoma da próstata resistente à castração (CPRC). Tem decorrido uma profunda investigação em abordagens terapêuticas capazes de melhorar a sobrevida e qualidade de vida destes doentes. Como tal, o objetivo desta revisão é analisar a literatura atual sobre o tratamento do CPRC, com particular ênfase na quimioterapia, hormonoterapia, imunoterapia, agentes com ação no metabolismo ósseo e novos agentes terapêuticos. A quimioterapia com docetaxel é o tratamento-padrão do CPRC metastizado, com uma sobrevida geral média (SGM) de 18.9 (versus 16.5) e 17.5 (versus 15.6) meses, relativamente a regimes sem docetaxel, nos ensaios clínicos TAX327 e SWOG9916, respetivamente. Outros agentes aprovados, com superioridade na SGM relativamente aos respetivos regimes de comparação, incluem o cabazitaxel (15.1 versus 12.7 meses), a abiraterona (15.6 versus 11.2 meses), a enzalutamida (18.4 versus 13.6 meses) e o sipuleucel-T (25.8 versus 21.7 meses), bem como agentes com ação no metabolismo ósseo, tais como o ácido zoledrónico, o denosumab e o rádio-223. Outros agentes não se revelaram eficazes, enquanto alguns são alvo de ensaios clínicos atualmente em curso. Os recentes avanços terapêuticos têm revolucionado o tratamento do CPRC. Os desafios atuais passam por compreender como melhor usar os agentes recentemente aprovados, continuar a desenvolver novas estratégias terapêuticas e testá-las em fases mais precoces da doença. Palavras-chave: CPRC, quimioterapia, hormonoterapia, imunoterapia, metástases ósseas, novos agentes
3 ABSTRACT Prostate cancer usually manifests as a localized and indolent disease. However, some patients develop biochemical progression or metastatic disease. Once resistance to conventional hormonal therapy is achieved, the disease shall be known as castration-resistant prostate cancer (CRPC). A thorough investigation has taken place in therapeutic approaches capable of improving both the overall survival and quality of life of these patients. The purpose of this article is to review the current literature on the treatment of castration-resistant prostate cancer, with emphasis on chemotherapy, hormonal therapy, immunotherapy, bone agents and new therapeutic agents under investigation. Chemotherapy with docetaxel is the first-line treatment of metastatic CRPC, with a median overall survival (OS) of 18.9 (vs. 16.5) and 17.5 (vs. 15.6) months in the clinical trials TAX327 and SWOG9916, respectively. Other agents currently approved, which showed improvement in OS in relation to the respective comparison regimens, include cabazitaxel (15.1 versus 12.7 months), abiraterone (15.6 versus 11.2 months), enzalutamide (18.4 versus 13.6 months) and sipuleucel-T (25.8 versus 21.7 months), as well as bone agents such as zoledronic acid, denosumab and radium-223. Some agents haven’t proved effective, while others are the subject of ongoing clinical trials. Recent therapeutic advances have revolutionized the treatment of CRPC. Current challenges include understanding how best to use the recently approved agents, continuing to develop new therapeutic strategies and testing them on earlier stages of the disease where cure is still possible. Keywords: CRPC, chemotherapy, hormonal therapy, immunotherapy, bone metastasis, novel agents
4 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CP – Carcinoma da próstata PSA – Antigénio específico da próstata TPA – Terapia de privação androgénica GnRH – Hormona libertadora de gonadotrofinas CPRC – Carcinoma da próstata resistente à castração SGM – Sobrevida geral média FDA – Food And Drug Administration mCPRC – Carcinoma da próstata resistente à castração metastizado TRP – Taxa de redução do PSA TMP – Tempo médio para progressão EMA – European Medicines Agency SLP – Sobrevida livre de progressão GM-CSF – Fator estimulador de colónias de granulócitos e monócitos ARs – Recetores androgénicos AA – Acetato de abiraterona EO – Eventos ósseos APCs – Células apresentadoras de antigénios PAP – Fosfatase ácida prostática RANK-L – Recetor ativador do ligando fator nuclear kB CTLA-4 – “Cytotoxic T lymphocyte antigen-4 molecule” VEGF – “Vascular endothelial growth-factor” VEGFR – “Vascular endothelial growth-factor receptor” TKI – Inibidor de tirosina-cinases ET – Endotelina TGF-β – Fator de crescimento transformador β EGFR – Recetor do fator de crescimento epidérmico
5 INTRODUÇÃO O carcinoma da próstata (CP) é reconhecidamente um dos mais graves problemas de saúde da população masculina. É a segunda neoplasia maligna mais frequentemente diagnosticada no homem, depois do carcinoma pulmonar. Em 2012, aproximadamente 1.1 milhões de homens foram diagnosticados com CP. Constitui, ainda, a quinta causa mais comum de mortalidade por cancro nesta população, representando cerca de 307.000 mortes, a nível mundial, no mesmo ano(1). Na maioria dos doentes é uma doença localizada e indolente, tratada eficazmente por radioterapia ou cirurgia locais. Contudo, alguns acabam por desenvolver progressão bioquímica, com base no valor sérico de antigénio específico da próstata (PSA), ou CP metastizado. O tratamento-padrão passará, nesta fase, por terapia de privação androgénica (TPA), que consiste em orquiectomia bilateral (castração cirúrgica) ou tratamento com agonistas da hormona libertadora de gonadotrofinas (GnRH) em monoterapia ou em combinação com antiandrogénicos (castração química)(2). Apesar de inicialmente eficaz, a resposta à TPA é apenas temporária. Todos os doentes viverão, eventualmente, tempo suficiente para que haja progressão da doença, apesar de níveis androgénicos de castração, num espaço de um a dois anos. A doença é denominada, nesta fase, carcinoma da próstata resistente à castração (CPRC)(3). O mau prognóstico do CPRC, acrescido à pobre qualidade de vida destes doentes, torna necessária terapêutica sistémica eficaz. Na última década, um melhor conhecimento dos mecanismos envolvidos na resistência androgénica e dos mecanismos comuns às patologias oncológicas tem-se revelado fundamental na identificação de novos alvos terapêuticos no tratamento do CPRC. Nesta revisão são apresentados os principais agentes terapêuticos atualmente disponíveis no tratamento do CPRC, bem como novos agentes e alvos moleculares em estudo com potencial eficácia na sobrevida geral, no alívio sintomático e na qualidade de vida destes doentes, minimizando a morbilidade e mortalidade a eles associada.
12 tolerado em todos os três estudos randomizados. A maioria dos efeitos adversos resolveram num intervalo de um a dois dias, sendo os calafrios, fadiga, lombalgia, náuseas, febre e cefaleias os mais comuns(27). Postos os resultados anteriores, O sipuleucel-T teve aprovação pela FDA em abril de 2010 e pela EMA em setembro de 2013 para o tratamento de doentes com mCPRC (sem evidência de metástases viscerais) assintomáticos ou minimamente sintomáticos. A ausência de benefício significativo no TMP e de reduções consistentes no nível sérico de PSA, bem como os custos terapêuticos elevados e a natureza desconfortável da infusão, constituem dificuldades em considerar o tratamento com sipuleucel -T eficaz e passível de ser iniciado. A capacidade de prever quem responderá melhor e em que ponto se atinge uma resposta imune eficaz poderá aumentar a aceitação do tratamento do mCPRC com sipuleucel-T(29). AGENTES COM AÇÃO NO METABOLISMO ÓSSEO A doença metastática permanece um problema clínico importante no que respeita à qualidade de vida, morbilidade e mortalidade dos doentes com CPRC. As lesões ósseas osteoblásticas são o foco mais comum de metástases. Cerca de 90% dos doentes com CPRC desenvolverão metástases ósseas, altura em que a sobrevida média é de aproximadamente 20 meses. São frequentemente sintomáticas, cursando com dor óssea, EOs (como fraturas ósseas ou compressão medular) e défice funcional. As metástases ósseas observadas no CPRC têm, também, um componente osteolítico significativo. A inibição dos osteoclastos por bifosfonatos ou pelo denosumab pode atrasar a progressão destas metástases e prevenir o surgimento de EO em doentes com CPRC e metástases ósseas(30). O ácido zoledrónico é um bifosfonato que obteve aprovação pela FDA, em fevereiro de 2002, no tratamento de doentes mieloma múltiplo e metástases ósseas secundárias a vários tumores sólidos, incluindo o CP. A sua eficácia no mCPRC foi demonstrada num estudo com a participação de 643 doentes com progressão do CP após TPA. A infusão endovenosa de 4mg de ácido zoledrónico, a cada três semanas, reduziu em 36% a incidência de EOs (38 versus 49%), o tempo para a ocorrência de EOs (488 versus 321 dias) e a dor óssea, comparativamente ao placebo. Contudo, não foram encontradas diferenças relativamente à qualidade de vida ou progressão da doença. É mandatório o cálculo do
13 clearance de creatinina antes de cada administração, pelo risco de deterioração severa da função renal, e a dose deve ser ajustada de acordo com os níveis séricos de cálcio, pelo risco de hipocalcemia(31). O denosumab é um anticorpo monoclonal humanizado contra o recetor ativador do ligando fator nuclear kB (RANK-L), fundamental na formação, diferenciação e ativação dos osteoclastos(32). Foi aprovado pela FDA em novembro de 2010 na prevenção de EO em doentes com metástases ósseas por tumores sólidos, tais como o CP. Um estudo de fase III comparou a eficácia do denosumab, administrado por via subcutânea, a cada 4 semanas, numa dose de 120 mg, com o ácido zoledrónico, em doentes com mCPRC e metástases ósseas. O tempo decorrido até ao primeiro EO foi de 20,7 meses com o denosumab, versus 17,1 meses com o ácido zoledrónico (p=0.002). Contudo, não foram encontradas diferenças na SGM (19,4 versus 19,8 meses) ou no TMP (8,4 meses em ambos). O denosumab pode ser administrado em doentes com deterioração severa da função renal, contrariamente ao bifosfonato. Contudo, exibe maior risco de osteonecrose da mandíbula (2,3% versus 1,3%) e de hipocalcemia (13% versus 6%)(33). Foi igualmente comprovada a eficácia do denosumab na redução de fraturas osteoporóticas decorrentes do tratamento com TPA. Contudo, carece de aprovação no atraso do aparecimento de metástases ósseas em doentes com CPRC nãometastizado(34). O rádio-223 é um radiofármaco emissor de radiação α, de alta energia e curto alcance, e mimético do cálcio, que induz rotura do dsDNA após captação pelo tecido ósseo (particularmente por metástases osteoblásticas). Contrariamente a radiofármacos emissores de radiação β (estrôncio-89 e samário-153), exibe menor penetração nos tecidos circundantes(35). No estudo de fase III ALSYMPCA foi testada a eficácia do rádio-223 em 921 doentes com mCPRC e metástases ósseas, que tinham recebido anteriormente docetaxel ou que não eram candidatos a tratamento quimioterápico. Um grupo de doentes foi tratado com um máximo de seis administrações endovenosas de rádio-223 e outro com placebo, sendo cada administração intercalada por um intervalo de quatro semanas, durante seis meses. O rádio-223 evidenciou um aumento de 30% na SGM (14.9 versus 11.3 meses;p<0,0001) e atraso no tempo para o primeiro EO, com um perfil de segurança favorável(36). O rádio-223 foi aprovado pela FDA em maio de 2013 e pela EMA em novembro de 2013 para o tratamento de CPRC com metástases ósseas sintomáticas e na ausência de metástases viscerais.
14 NOVOS AGENTES TERAPÊUTICOS A eficácia modesta dos agentes até hoje aprovados torna vital o desenvolvimento de novos fármacos com futuro promissor. Decorreram e estão em curso ensaios clínicos com o propósito de aprofundar o conhecimento sobre a biologia tumoral e identificar e avaliar novos alvos sobre os quais possam atuar novos agentes com potencial terapêutico e perfil de segurança aceitável. O sucesso da inibição da CYP17A pelo AA levou ao desenvolvimento do Orteronel (TAK700), um inibidor reversível e seletivo de uma das duas reações enzimáticas catalisadas pela CYP17, a 17,20-liase. Dada a fraca inibição da 17-hidroxilase, o efeito sobre a síntese de glicocorticóides é negligenciável, sendo desnecessária a co-administração de prednisona(37). Estão concluídos dois ensaios de fase III para avaliar a eficácia do orteronel, combinado com prednisona, em doentes com mCPRC com ou sem quimioterapia prévia, ainda sem resultados disponíveis(38,39). Outro estudo de fase III em curso pretende testar o orteronel (sem prednisona) em doentes de alto risco com CP e em tratamento por radioterapia e TPA(40). O ARN-509, um antagonista puro dos ARs, mostrou taxas e duração de resposta encorajadoras em ensaios iniciais(41). Estão em curso ensaios clínicos para avaliar o ARN-509 em doentes com CPRC não-metastizado(42), e mCRPC com ou sem tratamento prévio por AA(43). Outros antagonistas puros dos ARs incluem o galeterone (TOK-001) e o ODM-201. O galeterone é, também, um inibidor da CYP17. Ambos estão, ainda, em desenvolvimento(44). No âmbito da imunoterapia, o Ipilimumab é um anticorpo monoclonal que bloqueia o “cytotoxic T lymphocyte antigen-4 molecule” (CTLA-4), aprovado pela FDA no tratamento de doentes com melanoma avançado. Esta molécula co-estimuladora sinaliza a inibição da interação entre o recetor CD28 dos linfócitos T e o B7 das APCs, responsável pela ativação destes linfócitos. O ipilimumab liga-se ao CTLA-4 dos linfócitos T e bloqueia esta sinalização inibitória, aumentando a ativação linfocitária. Um estudo inicial mostrou bons resultados do ipilimumab no que respeita à resposta objetiva e ao PSA sérico(45). Estão em curso dois estudos de fase III para testar a eficácia do ipilimumab doentes com mCPRC com e sem tratamento prévio com quimioterapia(46,47).
15 O PROSTVAC-VF é uma vacina composta por dois vetores víricos recombinantes, cada um codificante para transgenes do PSA, e três moléculas co-estimuladoras (B7.1, ICAM-1 e LFA-3), capaz de estimular a resposta imune local(48). Num estudo de fase II, 82 doentes com mCPRC sem tratamento quimioterápico prévio receberam PROSTVAC-VF combinado com GM-CSF e 40 receberam vetores-controlo apenas com GM-CSF, durante 24 semanas. Não obstante a ausência de diferenças estatisticamente significativas (p=0.6) na SLP e na TRP entre ambos os grupos, a SGM foi superior em 8,5 meses (25,1 versus 16,6 meses;p=0.006) no grupo tratado com PROSTVAC-VF(49). Estes resultados catapultaram o início do estudo de fase III PROSPECT, que está em curso para determinar se o PROSTVAC-VF em combinação com GM-CSF é eficaz no prolongamento da SG em doentes com mCPRC assintomáticos ou minimamente sintomáticos, comparativamente ao PROSTVAC-VF com um GM-CSF placebo ou com um vetor vazio(50). Outros agentes imunoterapêuticos inicialmente promissores, como a lenalidomida, que também exibe função de antiangiogénico, e o GVAX, uma vacina composta por células prostáticas tumorais geneticamente modificadas para secretar GM-CSF, foram alvo de estudos de fase III com resultados que se revelaram desfavoráveis(51,52). Os inibidores da angiogénese parecem ser os agentes em estudo de maior potencial terapêutico. Um dos mais promissores é o cabozantinib, aprovado em 2012 pela FDA no tratamento de carcinoma medular da tiróide(53). Atua como inibidor oral do MET e do “vascular endothelial growth-factor (VEGF) receptor-2” (VEGFR2), recetores tirosina-cinase com papel importante na progressão do CP e metastização óssea(54). Um estudo de fase II em 171 doentes com mCPRC evidenciou um aumento da SLP (23,9 versus 5,9 semanas), melhoria dos achados radiográficos em 68% dos doentes, redução das lesões de tecidos moles, dos marcadores de turnover ósseo e da dor em doentes que receberam cabozantinib, comparativamente ao placebo. Os efeitos adversos mais comuns incluíram fadiga, hipertensão e desidratação, controláveis após redução da dose(55). Estão em curso dois ensaios de fase III. Um deles (COMET1) pretende avaliar a eficácia do cabozantinib comparativamente à prednisona em doentes com mCPRC previamente tratados com docetaxel e AA ou enzalutamida(56). Outro estudo (COMET2) pretende comparar o cabozantinib com mitoxantrona e prednisona combinadas, em doentes com CPRC sintomáticos e cuja doença progrediu após tratamento
16 com docetaxel e AA ou enzalutamida(57). O tasquinimod, uma quinolina-3-carboxamida antiangiogénica e imunomoduladora, demonstrou prolongamento da SLP (7.6 versus 3.3 meses) e da SGM (34.2 versus 30.2 meses) comparativamente ao placebo, num estudo de fase II(58). Estes resultados conduziram ao início de um estudo de fase III em doentes com mCPRC assintomáticos ou minimamente sintomáticos(59). O bevacizumab é um anticorpo monoclonal contra o VEGF-A, ligando do VEGFR. Apesar de resultados encorajadores de ensaios iniciais(60), um estudo de fase III (CALBG 90401), que comparou a eficácia da terapêutica docetaxel e prednisona com e sem bevacizumab, obteve resultados desapontantes. Não houve benefício relativamente à SGM e constatou-se uma maior toxicidade e número de mortes relacionadas com o tratamento, com a adição de bevacizumab(61). O sorafenib, um inibidor de tirosina-cinases (TKI), incluindo os VEGFR-1, 2 e 3, evidenciou, em ensaios iniciais em doentes com mCPRC, prevenção da progressão radiológica e regressão de metástases ósseas, sem declínio nos valores de PSA(62). Um segundo ensaio fase II do sorafenib em combinação com bicalutamida em doentes com CPRC sem tratamento prévio por docetaxel mostrou declínio do PSA ≥ 50% e doença estável por seis ou mais meses em 32% e 47% dos doentes, respetivamente(63). Atualmente está a ser alvo de um ensaio de fase III em doentes com CPRC pós-tratamento com docetaxel(64). O sunitinib é outro TKI que inibe, entre outros, o VEGFR. Apesar de resultados encorajadores de um estudo inicial em doentes com mCPRC sem quimioterapia prévia(65), um estudo de fase III (SUN1120) em doentes com mCPRC e progressão da doença após tratamento com docetaxel foi prematuramente interrompido por falta de eficácia(66). O aflibercept é uma proteína recombinante composta pela porção Fc de uma IgG1 humana combinada com os domínios de ligação extracelular 2 e 3 do VEGFR-1 e VEGFR-2, como que armadilhando o VEGF e atenuando a sua ação(67). Um estudo de fase III (VENICE) testou, em 1200 doentes com CPRC, a eficácia do docetaxel e prednisona com e sem aflibercept. Não se verificou um benefício estatisticamente significativo do aflibercept no que respeita à SGM (22.1 versus 21.2 meses;p=0.38), à SLP (6.9 versus 6.2 meses;p=0.31) ou outros parâmetros secundários(68). Os antagonistas da endotelina (ET) bloqueiam as ações mediadas pela ET-1 libertada pelas células tumorais prostáticas. A ET-1 parece ter um papel na indução da proliferação e sobrevivência celulares, na angiogénese e na formação de metástases ósseas. A expressão dos recetores da endotelina está correlacionada com o
17 grau e estadio tumorais e, particularmente o ET-A, com o desenvolvimento de metástases ósseas osteoblásticas(69). O atrasentan é um antagonista ET-A-seletivo que mostrou, num estudo de fase II em doentes com mCPRC, resultados vantajosos no TMP e TRP(70) e, num estudo de fase III, ausência no atraso da progressão da doença, apesar de benefício na qualidade de vida, scores álgicos e níveis de PSA e fosfatase alcalina(71). Recentemente, um estudo de fase III (SWOG S0421), que avaliou a eficácia do docetaxel e prednisona com ou sem atrasentan, foi interrompido por ausência de benefício estatisticamente significativo na SGM e na SLP(72). O zibotentan é outro antagonista altamente seletivo do ET-A. Apesar de ter demonstrado um aumento significativo da SGM em ensaios iniciais, sem melhoria da progressão da doença(73,74), o ensaio de fase III ENTHUSE M1C não mostrou benefício da terapêutica com zibotentan em doentes com mCPRC sem tratamento prévio com docetaxel(75). Uma proteína essencial na angiogénese e, portanto, um alvo promissor no tratamento antiangiogénico é a endoglina/CD105. Trata-se de uma glicoproteína do endotélio vascular que forma um complexo transmembranar homodimérico com alta afinidade para os fatores de crescimento transformadores β (TGF-β) 1 e 3, participando na via de sinalização por eles mediada(76). Atualmente está em estudo um anticorpo monoclonal anti-endoglina (TRC105) em monoterapia ou em combinação com quimioterapia ou inibidores do VEGF no tratamento de vários tipos de carcinoma avançado, incluindo o CP(77). As cascatas de sinalização mediadas por fatores de crescimento desempenham um papel importante na progressão, migração e invasão das células tumorais prostáticas e na resistência à terapêutica antitumoral. Novas terapêuticas moleculares que atuam nestas vias, pela inibição quer dos próprios fatores, quer dos seus recetores ou de componentes da sinalização intracelular por eles mediada, têm sido estudadas recentemente(78). O gefitinib, o erlotinib e o lapatinib são inibidores do recetor do fator de crescimento epidérmico (EGFR). O gefitinib não evidenciou declínio no PSA nem melhoria clínica em doentes com CPRC(79). O erlotinib mostrou algum benefício clínico num estudo de fase II em 29 doentes com mCPRC(80). O lapatinib poderá ter algum benefício em doentes com mCPRC sem quimioterapia prévia, de acordo com um estudo de fase II, se bem que apenas foram observadas algumas respostas em termos de valores de PSA (81). O cetuximab, um anticorpo monoclonal contra o EGFR, e o imatinib, um TKI com papel essencial no tratamento da leucemia,
18 evidenciaram, em estudos de fase inicial, resultados pouco encorajadores(82,83). O figitumumab e o cixutumumab são anticorpos monoclonais humanizados contra o receptor-1 do “insuline-like growth factor” (IGF1R). O figitumumab mostrou resultados desapontantes num estudo de fase II(84), ao passo que o cixutumumab está atualmente a ser alvo de ensaios clínicos seja em combinação com o temsirolimus em doentes com CP metastizado(85), seja em doentes com mCPRC, assintomáticos, sem tratamento quimioterápico prévio(86). O dasatinib é um inibidor oral do Bcr/Abl e das cinases da família Src, sobrexpressas no CP. A inibição destas cinases reduz a proliferação, invasão e migração tumoral(87). Depois de estudos iniciais terem demonstrado atividade e segurança aceitáveis do dasatinib combinado com docetaxel, um estudo de fase III (READY) concluiu que adição do dasatinib ao docetaxel em doentes com mCPRC não melhorou a SGM nem outros parâmetros secundários(88). As proteínas de choque térmico (Hsp) são chaperonas com função protetora sobre a desestruturação proteica sob condições de stress. Participam na sinalização celular e regulação transcricional e são co-ativadoras dos ARs. Encontram-se sobrexpressas, em particular as Hsp27 e Hsp90, em vários tumores sólidos, incluindo o CP, promovendo a sobrevivência das células tumorais(89). Têm sido estudados inibidores da Hsp90, como a geldanamicina, e da Hsp27, como o OGX-427, que se encontra a ser avaliado, em combinação com prednisona, num estudo de fase II em doentes com CRPC que não receberam previamente quimioterapia(90). O custirsen (OGX-011) é um oligonucleotídeo “antisense” que bloqueia a produção de clurestina, uma proteína semelhante a uma Hsp com ação antiapoptótica através de mecanismos que incluem a inibição do Bcl-2, molécula próapoptótica. Níveis elevados de clusterina, presentes em vários tipos de carcinoma, estão associados a progressão tumoral, resistência ao tratamento e menor sobrevivência. Num estudo de fase II, 80 doentes com mCPRC receberam docetaxel e prednisona com ou sem custirsen. A SGM foi superior com o esquema que incluía o custirsen (23,8 versus 16,9 meses;p=0.06), apesar da semelhança das TRP e SLP nos dois grupos(91). Estão em curso dois estudos de fase III. O estudo SYNERGY pretende comparar a eficácia do custirsen com ou sem docetaxel em 1000 doentes com mCPRC(92). O estudo AFFINITY pretende comparar a eficácia do custirsen combinado com cabazitaxel comparativamente a do cabazitaxel isolado, em 630 doentes com mCPRC que progrediram após quimioterapia com docetaxel(93).
19 CONCLUSÃO Nos últimos anos, estratégias terapêuticas no tratamento do CPRC têm sido desenvolvidas e estudadas em vários ensaios clínicos. Algumas evidenciaram um benefício clínico objetivo e têm sido aprovadas na prática clínica e eventualmente estudadas em estadios mais precoces da doença (tabela 1), enquanto outras não evidenciaram eficácia suficiente em ensaios de maior escala (tabela 2). Novos agentes e alvos moleculares estão em estudo, com resultados promissores em ensaios pré-clínicos e testados atualmente em ensaios de fase mais avançada, alguns deles em combinação com agentes já aprovados. Um desafio importante passa pelo estabelecimento de critérios de seleção capazes de orientar o tratamento mais adequado para um determinado doente. Há, portanto, uma necessidade imperial em definir biomarcadores diagnósticos que escalonem os doentes por populações que poderão beneficiar de um tratamento específico, bem como marcadores de prognóstico que avaliem de forma mais conclusiva a sua eficácia.
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32 ANEXOS Tabela 1 – Ensaios de fase III decisivos na aprovação de agentes para o tratamento do carcinoma da próstata resistente à castração. Fármaco Ensaio clínico Mecanismo de ação Esquema(s) comparativo(s) Critérios de inclusão Resultados Aprovação Docetaxel TAX327(7) Inibidor dos microtúbulos Docetaxel + prednisona versus mitoxantrona + Prednisona mCPRC* ↑ SGM† (18.9 versus 16.5 meses; HR‡:0.76) FDA||: maio de 2004 EMA¶: novembro de 2004 SWOG 9916(8) Docetaxel + prednisona + estramustina versus mitoxantrona mCPRC ↑ SGM (17.5 versus 15.6 meses; HR:0.80) Cabazitaxel TROPIC NCT00417079(11) Inibidor dos microtúbulos Cabazitaxel + prednisona versus mitoxantrona + prednisona mCPRC Tratamento prévio com docetaxel ↑ SGM (15.1 versus 12.7 meses; HR: 0.70) FDA: junho de 2010 EMA: março de 2011
33 Acetato de Abiraterona COU-AA-301 (NCT00638690)(19} Inibe CYP-17 Abiraterona + prednisona versus placebo + prednisona mCPRC Tratamento prévio com docetaxel ↑ SGM (Análise intermédia: 14.8 versus 10.9 meses HR: 0.646; Análise final: 15.6 versus 11.2 meses; HR: 0.74) FDA: abril de 2011 EMA: setembro de 2011 COU-AA-302 (NCT00887198) (21,22) Abiraterona + prednisona versus placebo + prednisona mCPRC Assintomáticos ou minimamente assintomáticos Sem tratamento prévio com docetaxel ↑ SLP§ (16.5 versus 8.3 meses; HR: 0.53) Tendência a ↑ SGM, não estatisticamente significativo. atualização dos resultados em fevereiro de 2013: ↑ SGM (35.3 versus 30.1 meses; HR: 0.79) FDA: dezembro de 2012 EMA: novembro de 2012
34 Enzalutamida AFFIRM (NCT00974311)(24) Bloqueia recetores androgénicos Enzalutamida versus placebo mCPRC Tratamento prévio com docetaxel ↑ SGM (18.4 versus 13.6 meses HR: 0.631) FDA: agosto de 2012 EMA: junho de 2013 Sipuleucel-T IMPACT (NCT00065442)(27) Vacina dendrítica Sipuleucel-T versus placebo mCPRC Assintomáticos ou minimamente assintomáticos Sem tratamento prévio com docetaxel ↑ SGM (25.8 versus 21.7 meses; HR: 0.775) FDA: abril de 2010 EMA: Setembro de 2013 Rádio-223 ALSYMPCA (NCT00699751)(35) Radiofármaco emissor de radiação α e mimético do cálcio Rádio-223 versus placebo mCPRC Metástases ósseas sintomáticas Sem doença visceral Não candidatos ou tratados previamente com docetaxel ↑ SGM (14.0 versus 11.2 meses; HR: 0.699) FDA: maio de 2013 EMA: novembro de 2013
35 *mCPRC: carcinoma da próstata resistente à castração. †SGM: sobrevida geral média. ‡HR: Hazard ratio. §SLP: sobrevida livre de progressão. || FDA: Food And Drug Administration. ¶ EMA: European Medicines Agency.
36 Tabela 2 – Ensaios de fase III negativos com novos agentes, no tratamento do carcinoma da próstata resistente à castração metastizado Fármaco Ensaio clínico Mecanismo de ação Esquema(s) comparativo(s) Critérios de inclusão Resultados Lenalidomida MAINSAIL (NCT00988208)(51) Antiangiogénico Efeitos imunomoduladores Lenalidomida + docetaxel + prednisona versus placebo + docetaxel + prednisona mCPRC Sem tratamento quimioterápico prévio Terminado precocemente em novembro de 2011 GVAX VITAL-2 (NCT00133224)(52) Efeitos imunomoduladores GVAX + docetaxel versus docetaxel + prednisona mCPRC Sintomáticos Sem tratamento quimioterápico prévio Terminado precocemente em agosto de 2008 por maior número de mortes nos doentes tratados com GVAX Bevacizumab CALGB90401 (NCT00110214)(61) Antiangiogénico (anticorpo anti-VEGF*) Bevacizumab + docetaxel + prednisona versus placebo + docetaxel + prednisona mCPRC† Sem tratamento quimioterápico prévio SLP‡: 9.9 versus 7.5 meses, sem benefício em termos de SGM§
37 Sunitinib SUN1120 (NCT00676650)(66) Antiangiogénico Sunitinib + prednisona versus prednisona mCPRC Com tratamento quimioterápico prévio Terminado precocemente em setembro de 2010 Aflibercept VENICE (NCT00519285)(68) Antiangiogénico Aflibercept + docetaxel + prednisona versus placebo + docetaxel + prednisona mCPRC Sem tratamento quimioterápico prévio Sem benifício Aumento da toxicidade em doentes tratados com aflibercept Atrasentan SWOG 0421 (NCT00134056)(72) Antagonista do recetor da endotelina ET-A Atrasentan + docetaxel + predninosa versus placebo + docetaxel + prednisona mCPRC Sem tratamento quimioterápico prévio Terminado precocemente em abril de 2011 Zibotentan ENTHUSE M1C (NCT00617669)(75) Antagonista do recetor da endotelina ET-A Zibotentan + docetaxel + predninosa versus placebo + docetaxel + prednisona mCPRC Sem tratamento quimioterápico prévio Sem benefício
ARQ MED 2010; 24(5):167-70 normas de publicação 170 Carta de apresentação Deve incluir a seguinte informação: 1) Título completo do manuscrito; 2) Nomes dos autores com especificação do contributo de cada um para o manuscrito; 3) Justificação de um número elevado de autores, quando aplicável; 4) Tipo de artigo, de acordo com a classificação dos ARQUIVOS DE MEDICINA; 5) Fontes de financiamento, incluindo bolsas; 6) Revelação de conflitos de interesse ou declaração da sua ausência; 7) Declaração de que o manuscrito não foi ainda publicado, na íntegra ou em parte, e que nenhuma versão do manuscrito está a ser avaliada por outra revista; 8) Declaração de que todos os autores aprovaram a versão do manuscrito que está a ser submetida; 9) Assinatura de todos os autores. É dada preferência à submissão dos manuscritos por e-mail ([email protected]). O manuscrito e a carta de apresentação devem, neste caso, ser enviados em ficheiros separados em formato word. Deve ser enviada por fax (225074374) uma cópia da carta de apresentação assinada por todos os autores. Se não for possível efectuar a submissão por e-mail esta pode ser efectuada por correio para o seguinte endereço: ARQUIVOS DE MEDICINA Faculdade de Medicina do Porto Alameda Prof. Hernâni Monteiro 4200 – 319 Porto, Portugal Os manuscritos devem, então, ser submetidos em triplicado (1 original impresso apenas numa das páginas e 2 cópias com impressão frente e verso), acompanhados da carta de apresentação. Os manuscritos rejeitados ou o material que os acompanha não serão devolvidos, excepto quando expressamente solicitado no momento da submissão. CORRECÇÃO DOS MANUSCRITOS A aceitação dos manuscritos relativamente aos quais forem solicitadas alterações fica condicionada à sua realização. A versão corrigida do manuscrito deve ser enviada com as alterações sublinhadas para facilitar a sua verificação e deve ser acompanhada duma carta respondendo a cada um dos comentários efectuados. Os manuscritos só poderão ser considerados aceites após confirmação das alterações solicitadas. MANUSCRITOS ACEITES Uma vez comunicada a aceitação dos manuscritos, deve ser enviada a sua versão final em ficheirto de Word©, formatada de acordo com as instruções acima indicadas. No momento da aceitação os autores serão informados acerca do formato em que devem ser enviadas as figuras. A revisão das provas deve ser efectuada e aprovada por todos os autores dentro de três dias úteis. Nesta fase apenas se aceitam modificações que decorram da correcção de gralhas. Deve ser enviada uma declaração de transferência de direitos de autor para os ARQUIVOS DE MEDICINA, assinada por todos os autores, juntamente com as provas corrigidas.