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Memórias de professoras: os significados da escolha profissional

Isabel Cristina Corrêa Roesch,Valeska Fortes,Fátima Pereira

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TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014251 MEMÓRIAS DE PROFESSORAS: OS SIGNIFICADOS DA ESCOLHA PROFISSIONAL Isabel Cristina Corrêa Röesch Valeska Fortes de Oliveira Universidade Federal de Santa Maria (Brasil) Fátima Pereira Universidade do Porto Essa é uma bela imagem para um professor: alguém que conduz alguém até si mesmo. É também uma bela imagem para alguém que aprende: não alguém que se converte num sectário, mas alguém que, ao ler com o coração aberto, voltase para si mesmo, encontra sua própria forma, sua maneira própria. (Jorge Larrosa) RESUMO O objetivo deste estudo é o entendimento dos subterrâneos da formação docente como uma construção político cultural da escrita (auto)biográfica. Assim, a proposta do texto é mostrar os processos pelos quais me constitui como docente negra e pesquisadora. A metodologia utilizada, para obter maiores informações dos participantes da pesquisa, foram os relatos orais e autobiográficos. Os sujeitos que participaram da pesquisa, ao narrarem suas lembranças auferidas de experiências ocorridas ao longo de suas vidas, utilizam-se da memória. Assim, novas vivências estarão sempre contribuindo para a modificação do conteúdo da memória, na construção de novos sentidos e significados. PALAVRAS-CHAVE Narrativas de experiências – reflexões - formação docente - histórias de vida - imaginário. ABSTRACT The objective of this study is the understanding of groundwater teacher education a construction political and cultural of writing (auto)biographical. Thus, the proposed text is to show the processes by which constitutes me as a teacher and researcher black. The applied methodology, in order to have more information of the research participants, was oral and (auto)biographical reports. The participants use their memories to report the recalls of the experiences which occurred in their lives. So, new experiences will always contribute to the change of the memory content, in the construction of new meanings and senses. KEY WORDS Narratives of experiences – reflections - teaching training - life stories - imaginary. IsabelCristinaCorrêaRöesch,ValeskaFortesdeOliveirayFátimaPereira  TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014252 1. INTRODUÇÃO A pesquisa (auto) biográfica, no contexto de formação de professores, possibilita compreender os modos como estes profissionais dão sentido ao seu trabalho e atuam em seu universo docente. Ela permite explicitar as dimensões do passado que pesam sobre as situações atuais e sua projeção em formas desejáveis de ação. De fato os professores, como pessoas, realizam o ensino com um conjunto particular de habilidades e conhecimentos pessoais, obtidos ao longo de sua história de vida. Então, o professor encontra-se num cenário em que é pertinente refletir sobre si, como profissional e como pessoa, pois são dimensões inseparáveis. Diante desse contexto, compreende-se que os relatos (auto)biográficos podem auxiliar na identificação dos novos sentidos que os professores atribuem ao seu pensar, fazer e sentir. Castoriadis (1998) na perspectiva da história cultural refere que as representações são vistas como matrizes geradoras de sentidos, condutas e práticas sociais. São como uma rede de sentidos e significados que levam a (re) significações, de seus saberes e conhecimentos proporcionando a integração dos sujeitos frente a algo que explique, expresse ou traduza o real. Indivíduos e grupos dão sentido ao mundo através das representações, tornando possível decifrar o passado por meio destas, utilizando imagens, símbolos e também discursos com o intuito de construir uma realidade plausível. Dessa forma, o objetivo deste estudo é o entendimento dos subterrâneos da formação docente como uma construção político cultural da escrita (auto) biográfica. Assim, a proposta do texto foi estudar as questões que envolvem a identidade do professor e o seu desenvolvimento profissional conhecendo os processos pelos quais me constitui como docente negra e pesquisadora. 2. INÍCIO DA FORMAÇÃO Durante os doze anos que ministro as aulas no ensino universitário, curso Formação de Professores em Pedagogia, coloquei em prática os ensinamentos e os envolvimentos em pesquisa anteriores dentre as quais: participação no Grupo de Estudo e Pesquisa no Imaginário Social (GEPEIS) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (Dissertação - Mestrado em Educação) e também no Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Os temas de pesquisa realizados nesses dois grupos de estudos referem-se à formação de professores e o desenvolvimento profissional envolvendo os fenômenos culturais, étnicos, raciais e linguísticos. Durante esse período comecei a me questionar sobre os processos de formação pelos quais me constituíram como docente negra. Nasci na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul / Brasil, sou a quarta filha de uma família negra. Meu pai era militar e minha mãe professora. Por meio da convivência com algumas mulheres queridas de minha família, fui influenciada em minha escolha profissional, pois sou filha, irmã, sobrinha e afilhada de Memóriasdeprofessoras:ossignificadosdaescolhaprofissional  TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014253 professoras. Essas quatro mulheres1 foram minhas primeiras referências de professoras negras. Os vários exemplos de professoras ocorridos na minha família mostram como essas professoras são percebidas e, nos apropriamos de algumas características importantes e por elas valorizadas, para irem construindo-se como sujeitos e profissionais - a pessoa e o professor. Nóvoa (1992:16) refere que: A construção de identidades passa sempre por um processo complexo graças ao qual cada um se apropria do sentido da sua história pessoal e profissional. É um processo que necessita de tempo. Um tempo para refazer identidades, para acomodar inovações, para assimilar mudanças. (NÓVOA, 1992:16) Esses momentos vivenciados por esses professores que participaram desta investigação nos mostram o quanto suas histórias são singulares, são únicas e que, a cada instante, suas identidades vão se construindo. Segundo Oliveira (2001:19), "as histórias de vida dos professores explicitam relações com as suas formas de se reproduzir sujeito no mundo e, as suas formas de inserção e atuação na docência". Estes acontecimentos são reconstruídos pela memória com uma riqueza de detalhes como podemos ver a seguir. Casei muito cedo, tinha 15 anos, à medida que os filhos foram chegando fui adiando os meus estudos. Após ter criado os meus 4 filhos, resolvi fazer o supletivo e logo em seguida fiz o magistério. Gostava muito de estudar e ao ajudar meus filhos em suas tarefas da escola foi surgindo o gosto pelo magistério. Lembro que na minha infância eu brincava de ser professora com os carretéis de linha de costura de minha mãe. Também percebi o quanto minha primeira filha, também professora, gostava de lecionar. Penso que escolhi ser professora por eu gostar de ensinar, pela oportunidade de ter uma profissão, e por ter uma independência financeira com meu salário no final do mês. (Professora O.) A escolha profissional, também influenciada por meio de outros fatores, como o financeiro, aconselhamento de professores ou de pessoas próximas da família. A perspectiva de ter um emprego imediato e garantir um futuro com mais oportunidades também aparece como forte razão para terem escolhido o magistério. No Ginásio, por volta de 1977, estudei na Escola Medianeira. Lembro que nessa década de 70 foi marcada por uma forte influência do tecnicismo. Com a Lei 5.692/71 a escola torna-se um instrumento de preparação para o trabalho e de mão-de1 Para manter o anonimato, a identidade das quatro professoras serão preservadas. Dessa forma, as mesmas, serão identificadas apenas por letras do alfabeto. IsabelCristinaCorrêaRöesch,ValeskaFortesdeOliveirayFátimaPereira  TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014254 obra especializada. Então, já nos preparávamos para o trabalho e quando fui para o segundo grau resolvi fazer magistério. Eu iniciei bem cedo a dar aulas, queria um independência financeira e nessa época, quem cursava o magistério fazia inscrição na secretaria do município para dar aulas no ensino fundamental. E foi assim que eu iniciei minha carreira. (Professora N.) Verificamos também que a vivência experienciada na escola deixa marcas não só dos professores, mas de um contexto como um todo, desde as conquistas até os fracassos, tudo o que aconteceu neste espaço tem um sentido para nós. Esta apropriação se articula também com o futuro, ou seja, as experiências vividas pelos professores no passado, hoje, estão sendo (re)significadas no presente, como poderemos ver a seguir: [...] eu tive o professor A., excelente professor, que também me incentivava muito a ler e dizia que a minha letra era excelente. Então ele dava uma atividade todos os dias da aula de Redação, a gente tinha que levar uma página de um texto copiado. Quando terminasse a última linha do caderno, a gente colocava reticências e parava ali onde estava sabe. Assim, a hora que eu mais gostava era a de fazer cópia, escolher textos lindos que eu gostasse para levar e ler. Lia um por um, e botava um "V" e uma nota, e eu tinha sempre 10 no caderno. Ele sempre me mandava no quadro e me elogiava sempre, isso me marcou muito em minha escolha profissional. (Professora L.) Os professores, ao revisitarem as imagens do passado por meio da memória, buscam nesse passado os fatos mais significativos da produção de seus professores, (re)significando estas representações no momento presente. Estas influências podem estar direta ou indiretamente ligadas à família, como podemos constatar no seguinte relato: Outro dia, conversando com uma prima da minha mãe, que tem setenta e poucos anos e que a mãe passou a vida inteira me dizendo, assim:“- Eu tenho uma prima que fez Línguas Neogermânicas”. Na época, nem era Letras. Então, a mãe achava aquilo bonito e me chamava atenção pra isso que eu sou negra e preciso estudar para ter uma profissão e ter um salário melhor. Outro dia, estava dizendo pra essa prima dela que eu acho que eu também fui influenciada por ela, quer dizer, uma influência um pouco externa. (Professora A.) Nesse depoimento, a professora revela que para sua família, a escolarização significa uma das possibilidades de ascensão social imediata para os alunos negros e o Magistério se apresenta como uma possibilidade de escolha profissional que pode oportunizar mais rapidamente o ganho de seu Memóriasdeprofessoras:ossignificadosdaescolhaprofissional  TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014255 sustento. Então, a partir das histórias de vida, os processos de formação dos professores são revelados. Josso (2004:39) refere que, “a formação no centro das narrativas de vida: contribuição para uma teoria da formação na perspectiva do sujeito aprendente”, propõe que se pense a formação do ponto de vista do aprendente em interação com outras subjetividades. Ainda segundo a autora, formar-se é “integrar-se numa prática o saber-fazer e os conhecimentos, na pluralidade de registros”, sendo estes: o psicológico, o psicossociológico, o sociológico, o político, o cultural e o econômico. Registros colocados em evidência a partir da construção, pelo sujeito, da narrativa de sua história de vida, uma vez que tal construção se constitui como um recurso importante para evocar as “recordações-referências”; recordações que contam o que se aprendeu com a própria vida. Em outras palavras, é narrar para si a própria história pois Josso (2004:45) diz que “a narrativa de formação obriga também a um balanço contábil do que é que se fez nos dias, meses e anos relatados, ela nos permite tomar consciência da fragilidade das intencionalidades e da inconstância dos nossos desejos”. Com isto, é possível aprender com a própria experiência, proporcionando ao próprio sujeito questionar-se acerca das suas escolhas, dinâmicas, saberes, faltas, enfim, pensar sobre a sua própria existencialidade. Um embate entre o passado e futuro para questionar o presente, afinal, como e por que me tornei o que sou hoje? Uma vez que descreve os processos que afetam nossa identidade e nossa subjetividade, A partir desses questionamentos, a identidade profissional vai se construindo nas experiências dos alunos, dos incentivos recebidos de diferentes professores durante a escolarização, nas aulas lúdicas, nas oportunidades, nos gestos, no modo como os professores interagiam com a turma de alunos, o respeito pela diferença, enfim, tudo é lembrado detalhadamente, deixando marcas muito fortes em suas memórias. Assim, o campo da investigação e da produção do conhecimento tem procurado como esses profissionais com vêm desenvolvendo sua profissão e, para isso, se faz necessário pesquisar a vida cotidiana com suas emoções e lutas que acabam por constituir os processos identitários de cada docente, pois cada um tem seu modo de organizar suas aulas, de utilizar os meios pedagógicos, de resolver problemas, de enfrentar o imprevisível do cotidiano. Esta maneira própria de ser e de se constituir de cada profissional da educação é, no entender de Nóvoa (1992:16-17) o que se constitui uma espécie de segunda pele profissional e, desta forma, “[...] a literatura pedagógica foi invadida por obras e estudos sobre a vida dos professores, as carreiras e os cursos de formação, as biografias e (auto)biografias docentes ou o desenvolvimento pessoal e profissional [...]”. Partimos do pressuposto de que a formação do sujeito se inicia no seu cotidiano, na interação com a família, grupos, escolas e outras instituições, e tem continuidade por toda a sua vida. Quando os sujeitos docentes chegam à universidade, já trazem memórias dos processos educativos (suas experiências, concepções, atitudes, valores, vividos em espaços escolares e/ou outros espaços) que devem ser consideradas, explicitadas e analisadas, à luz de novas discussões e referenciais. Essas memórias trazem saberes que não são tomados apenas como narrativos ou ilustrativos, mas também como fontes de entendimento do IsabelCristinaCorrêaRöesch,ValeskaFortesdeOliveirayFátimaPereira  TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014256 que foi vivido por eles, retomando o que já é conhecido, porém na perspectiva de novas possibilidades de leitura. Realizei meus estudos desde o ensino fundamental ao ensino médio em escolas públicas. Durante o meu período de escolarização, durante as aulas no ensino fundamental, senti falta de colegas e professores negros na construção da minha identidade. Lembro-me de ter tido apenas duas professoras negras no ensino médio. Ao falar de identidade social, estou referindo como uma construção simbólica que se dá em relação ao outro e se constitui num processo histórico e cultural que, operando com o passado, com a ancestralidade e a hereditariedade, processa o presente e transforma-se a cada momento e a cada contexto da história (Silva, 2002). Berger e Luckman (1976), que referem que “socialização” é uma construção do sujeito e sua interação com o mundo, ao interiorizar a realidade. Esses estudiosos diferenciam dois processos básicos de socialização: socialização primária e socialização secundária. O trabalho privilegia o processo de socialização primária no qual as pessoas são submetidas na infância, o que as possibilita tornar-se um membro da sociedade, em um ser social típico, pertencente a um gênero, a uma classe, a um bairro, a uma religião, a um país. A socialização secundária provém da divisão do trabalho e, portanto, da necessária e inevitável distribuição do conhecimento, ou seja, consiste em todo o processo subsequente de inserção das pessoas já socializadas em novos setores institucionais. Para Berger e Luckman (1976:176), a socialização representa mais do que aprendizado puramente cognitivo: Ocorre em circunstâncias carregadas de alto grau de emoção [...]. A criança se identifica com os outros significativos por uma multiplicidade de modos emocionais. Quaisquer que sejam, a interiorização só se realizam quando há identificação. A criança absorve os papéis e as atitudes dos outros significativos, isto é, interioriza-os tornando-os seus. (BERGER e LUCKMAN, 1976:176) Embora valioso para este estudo, o entendimento é insuficiente para que se compreenda a experiência de ser negro na sociedade brasileira. Esse processo – a internalização do “mundo” – ocorre quando o socializado se identifica com os mediadores “pais ou responsáveis”. Isso faz com que a socialização primária aconteça num contexto de fortes laços afetivos. Como resultado, ao interagir com outros, a criança aprenderá os hábitos, os usos, os costumes, as atitudes, as opiniões e os valores predominantes na sociedade ampla, e especialmente, no espaço de inserção de seu grupo social. Então, meu interesse por trabalhar pesquisa com histórias de vida, originou-se de observações em uma escola pública de Ensino Fundamental, quando cursava a graduação em Pedagogia, pois era necessário realizar observações nas escolas, subsidiar o conhecimento da realidade escolar e viabilizar um contato mais direto com a prática pedagógica. Memóriasdeprofessoras:ossignificadosdaescolhaprofissional  TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014257 Durante esta prática, percebi que, embora a população2 que morava naquele bairro fosse, na grande maioria, composta de negros e mestiços, na escola, o número de crianças brancas era superior ao de crianças negras. Pesquisei, então, quantas crianças negras haviam sido matriculadas e, destas, quantas haviam dado continuidade aos seus estudos. Assim, minha história de vida profissional foi marcada, desde o início, pelos desafios e pelo prazer de conhecer e vivenciar o novo. Dentro do ambiente escolar quando eu lecionava nos anos iniciais, muitas histórias foram relembradas e compartilhadas... Marcas foram expostas para que fossem elaboradas internamente... Processos, das mais diversas naturezas, foram vivenciados... Mas, principalmente, convivi com pessoas que sonhavam com um futuro melhor para si e que viam na escola a possibilidade, e às vezes o único caminho, de sentirem-se dignificadas como gente, como sujeitos da história. A cada diferente manifestação nos olhares, no gestos, na escritas ou nas leituras, via nos alunos o desejo de superar-se, de sentir-se alguém importante, de reencontrar algo que ficou perdido em algum momento de suas histórias pessoais. Nessa época, eu tinha uma bolsa de trabalho na pediatria do Hospital Universitário desta cidade. Gostava muito do meu trabalho, só que sentia a necessidade de pesquisar mais sobre a prática docente e suas implicações. Então, como já possuía alguns dados sobre prática docente, questões raciais e cotidiano escolar, resolvi organizar um projeto que falava sobre estas questões, mais direcionado ao aluno negro. Para minha surpresa, dentre os professores que eu conhecia naquela época, foi difícil encontrar algum que aceitasse orientar-me nesse projeto. Todos eles, quando liam o tema que eu queria desenvolver, admiravam-se, dizendo: “Crianças negras? Não tem outro tema?” e me davam sugestões de temas que eles gostavam de trabalhar, os quais, certamente, seriam aprovados para uma bolsa de pesquisa. Sendo recente o estudo sobre a temática do negro, certamente não se achavam devidamente preparados para assumir comigo a responsabilidade pelo trabalho. Muito triste, guardei meu projeto, mas não desisti de pesquisar sobre o negro, apenas o adiei para uma próxima oportunidade. 3. EXPERIÊNCIAS EM PESQUISAS Ao conhecer a professora Helenise Sangoi Antunes, que nessa época, estava fazendo sua docência orientada do Mestrado, na disciplina de História da Educação, contei-lhe sobre meu interesse em realizar pesquisa. Entusiasmada com a ideia, perguntou-me qual o tema. Sem coragem de confessar que queria pesquisar sobre a criança negra, disse-lhe que era sobre alfabetização. Gostou do tema e dos objetivos de minha pesquisa e, nas férias, montamos o projeto e em julho de 1997, consegui uma bolsa de pesquisa pelo CNPq-PIBIC como é lembrado pela professora Helenise em seu depoimento, Ah, conheci a Isabel quando fazia minha docência orientada no meu mestrado com a professora Valeska na disciplina de 2 População da escolaNo total de 128 alunos no diurno, destes, 87 são brancos, sendo 67,96% dos alunos, em meio a 41 alunos negros e mestiços, totalizando 32,03%. IsabelCristinaCorrêaRöesch,ValeskaFortesdeOliveirayFátimaPereira  TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014258 História da Educação do curso de pedagogia. Convidamos todos os alunos da turma para participarem do GEPEIS e a única que teve interesse em participar foi ela. Durante a sua participação no grupo de estudos mostrou interesse em pesquisar sobre os processos de alfabetização montamos um projeto nesse tema obtendo êxito com uma bolsa do PIBIC, aliás ela foi minha primeira bolsista. Depois, por conta do seu curso de especialização, eu a orientei em sua monografia também sobre o tema de alfabetização. Quero ressaltar que foi com ela que tive a minha primeira experiência de orientação na especialização. (Professora Helenise) Verifica-se que por meio dessa investigação e das discussões com a referida orientadora, que comecei a entrar em contato com a realidade educacional enfrentada também por crianças negras no complexo e desafiante processo de alfabetização. Na escola, percebi, segundo as informações coletadas com a Supervisora Pedagógica da escola, que, na escola onde realizava as observações, o índice de abandono por alunos negros era superior ao das crianças brancas, e desses, menos da metade chegava ao Ensino Médio. O Ensino Superior, para grande maioria, é um sonho a ser realizado num futuro muito distante. De posse destas informações, comecei a pesquisar sobre quais os motivos do insucesso dessas crianças na escola. Observei, diretamente, como eram tratadas as questões raciais pelos professores no cotidiano escolar e quais as atitudes das crianças diante da diversidade cultural. Percebi que os professores procuravam não falar dessas questões, eles evitavam falar desse assunto. Quando algum aluno negro reclamava que um colega havia lhe ofendido por não querer ele por perto, como: " sai daqui, negro fedorento! " ou quando errava ao responder a questão solicitada em aula "só podia ser coisa de negro!", os professores diziam que não era hora de ficar brigando e que não era para dar bola ou, simplesmente, calavam-se diante dos fatos, e os alunos ficavam tristes, quietos, encolhidos no seu canto, mutilando, cada vez mais, sua autoestima. Todas essas questões me angustiavam muito e, progressivamente, crescia em mim a vontade de estudar os significados da formação docente e suas implicações na prática pedagógica. Fui, então, convidada pelas professoras Valeska e Helenise a participar de um grupo de estudos, o GEPEIS. Nessa momento, o grupo desenvolvia um projeto de pesquisa interinstitucional através da pesquisa intitulada: "Imagens de Professor: significações do trabalho docente", cujo objetivo principal era conhecer por, meio das narrativas, o imaginário social dos professores em relação ao trabalho docente. A realização deste trabalho contou com a participação de pesquisadores de Santa Maria, Ijuí e Pelotas, formando, assim, uma rede de estudiosos a respeito dos significados de diversos segmentos de atuação docente como: os professores da rede municipal de Santa Maria, professores do movimento sem-terra da região noroeste, acadêmicos do Curso de Pedagogia (sistema de férias) da UNIJUÍ e professoras negras da região de Pelotas. Memóriasdeprofessoras:ossignificadosdaescolhaprofissional  TENDENCIASPEDAGÓGICASNº242014259 Em 1997, quando começamos os eventos de história oral ainda eram poucos, e esta abordagem ainda tímida na educação, não acolhia muitos trabalhos nos eventos conhecidos da área. Com o passar dos anos, há uma número expressivo de pesquisas realizadas com a história oral, configurando um movimento de uso para diferentes modalidades de pesquisa / formação, organizando no país a riqueza e diversidade através de uma Associação - a Biograf. (Professora Valeska) Em Santa Maria, a pesquisa foi realizada em duas escolas municipais durante o ano de 1997, mas, devido ao objetivo proposto inicialmente ter-se ampliado, foi necessário um maior tempo disponível para os encontros com os professores. Como é difícil as escolas disporem desse tempo, conseguimos dar continuidade a nossas pesquisas em apenas uma escola. Em 1997, quando realizamos a primeira pesquisa sobre o imagináro dos professores sobre a docência como escolha profissional, elegemos as narrativas de vida como metodologia para uma aproximação dos trajetos de vida dos professores do Estado do Rio Grande do Sul, pois a investigação foi realizada por vários pesquisadores de instituições do estado. Nossa incursão nos eventos de História Oral, num primeiro momento, foi pela valorização das fontes orais, especialmente de outra versão da história. Para nós, conhecer a história da docente na voz dos professores, constituiu uma forma privilegiada de produzir um protagonismo entre pessoas que fazem o cotidiano das escolas, mas vivem num anonimato e falta de reconhecimento social do lugar simbólico do professor na nossa sociedade. Ainda, inscrevemo-nos numa tendência de investigação intitulada pesquisa - formação, onde os professores configuram-se como pesquisadores de si e de seus trajetos, acionando um processo de autoformação, tão desejada, na apropriação e decisão do que fazemos com as nossas vidas a partir do que outros fizeram conosco. Uma dimensão ética e estética da vida, potencializada pelo conhecimento das histórias orais dos professores. (Professora Valeska) Comecei a participar da pesquisa em 1998, no seu 2º ano. Nessa época, as entrevistas com os 17 professores que participaram dos relatos orais sobre suas histórias de vida já haviam sido realizadas. Os relatos foram feitos a partir de uma entrevista semiestruturada em que os professores contemplaram suas experiências escolares, sua formação acadêmica e, posteriormente, sua prática docente. Nestes relatos, a questão da formação docente, a escolha profissional e a questão de gênero foram aparecendo, de maneira muito significativa, compondo as nossas categorias de análise. Nesse período, a escola necessitava de um auxílio para a construção da sua proposta pedagógica, propondo ao grupo uma assessoria para a