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"Trabalham de livre vontade": estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica

Ana Sofia Pires Reis da Fonseca

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Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica Investigação qualitativa com participantes da indústria pornográfica portuguesa Ana Sofia Pires Reis da Fonseca Junho de 2015 Dissertação apresentada no Mestrado Integrado de Psicologia, na área de especialização de Comportamento Desviante e Justiça, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, orientada pela Professora Doutora Alexandra Maria da Silva Oliveira (FPCEUP) “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica ii Avisos Legais O teor desta dissertação reflete as interpretações, as perspetivas e o trabalho do autor no momento da sua entrega. A mesma pode conter incorreções, tanto a nível metodológico, como conceptual, que podem ter sido identificadas num momento posterior ao da sua entrega. Por conseguinte, qualquer utilização dos seus conteúdos deve ser exercida com a necessária cautela. Ao entregar esta dissertação, o autor declara que a mesma é resultante do seu próprio trabalho, dispõem de contributos originais e são identificadas todas as fontes utilizadas, encontrando-se as mesmas devidamente citadas no corpo do texto e identificadas na secção de referências. O autor declara, ainda, que não divulga na presente dissertação quaisquer conteúdos cuja reprodução esteja vedada por direitos de autor ou de propriedade industrial. “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica iii Agradecimentos Primeiramente, quero agradecer à Prof. Doutora Alexandra Oliveira pela sua compreensão, disponibilidade e prestabilidade ao longo de todo o processo de orientação. Profissional com um percurso inspirador, à qual quero agradecer pela dedicação, que permitiu a realização desta investigação. A todos os entrevistados que se disponibilizaram prontamente a responder às minhas questões curiosas, partilhando comigo as suas experiências nas suas carreiras profissionais, possibilitando a conclusão deste estudo. À minha família, sem exceção, pela paciência, pelo carinho e incentivo, por me fazerem acreditar e nunca me deixarem desistir, mas principalmente por me permitirem chegar cada dia mais longe e por me entenderem como ninguém. Acima de tudo por me permitirem ser um “Elmer”. Contudo, em especial à minha mãe e irmã, pelo apoio neste projeto de dissertação de mestrado. Aos meus amigos, a quem encontrei pelo caminho, que me fizeram observar o mundo de perspetivas bastante diferentes, que me ensinaram a ser eu própria. A todos os companheiros de jornadas incessantes em busca de alcançarmos os nossos sonhos. A todos um muito obrigada e um bem-haja por terem aparecido no meu percurso ajudando-me a alcançar momentos de conquista como é o caso da conclusão do curso que escolhi para o meu futuro, e que tanto gosto e ambicionei. “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica iv Resumo O trabalho sexual tem sido um fenómeno cada vez mais estudado, contudo, de acordo com a revisão da literatura, tem focado menos certas populações de trabalhadores sexuais, como é o caso dos participantes da indústria pornográfica. Assim, a presente investigação, sendo um estudo exploratório, pretende conhecer as características da carreira e da indústria pornográfica portuguesa, bem como os significados que os participantes da mesma atribuem à sua profissão e a forma como a vivenciam ou ainda as motivações para a permanência. Recorrendo à metodologia qualitativa, aplicaram-se entrevistas semiestruturadas a uma amostra de sete indivíduos de nacionalidade portuguesa, quatro do género masculino e três do género feminino, com idades compreendidas entre os 23 e os 52 anos, entre novembro de 2014 e março de 2015. Procedeu-se, posteriormente, à análise de conteúdo, baseada em cinco temas: carreira/percurso na indústria pornográfica, significados atribuídos à carreira, impacto da carreira na indústria pornográfica, perceções sobre as imagens existentes em relação à indústria e aos seus participantes e composição da indústria. Em conclusão, verificou-se que a carreira na pornografia é uma escolha dos próprios indivíduos e que a permanência na mesma se deve a fatores monetários e de realização profissional. Em Portugal, a indústria não tem muita expressão e os/as trabalhadores/ras são, sobretudo, freelancers, sendo que as mulheres auferem mais do que os homens, e o aspeto apontado como mais negativo foi o do estigma, do preconceito e da crítica social. Este trabalho de investigação parece ser um contributo para colmatar a pouca investigação existente sobre esta temática e para melhor compreender os motivos de permanência na carreira e as características da indústria pornográfica portuguesa, podendo assim constituir um incentivo para futuras investigações nesta área. PALAVRAS-CHAVE: Pornografia; indústria pornográfica; motivações; carreira pornográfica; significados. “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica v Abstract Sex work has been an increasingly studied phenomenon, however, according to literature review has focused least certain populations of sex workers, such as pornography industry participants. Thus, the present research, an exploratory study, aims to know the career characteristics and the Portuguese porn industry as well as the meanings that participants attach to the same profession and how the experience or the motivations for staying. Using a qualitative methodology , were applied semi-structured interviews with a sample of seven Portuguese individuals, four males and three females, aged between 23 and 52 years, between November 2014 and March 2015. Subsequently was realized the content analysis, based on five themes: career/route in porn industry, meanings attributed to career, career in the porn industry impact, perceptions of the images relative to the industry and its participants and composition of the industry. In conclusion, it was found that a career in pornography is a choice of the individuals themselves and staying in the porn career is due to monetary factors and professional achievement. In Portugal, the industry is not expressive and the workers are mostly freelancers wherein women earn more than men, and the most negative aspect appointed was the stigma, prejudice and social criticism. This research work seems to be a contribution to bridge the little investigation on this topic and to better understand the reasons of permanence in this career and features of the Portuguese porn industry, and thus can provide an incentive for future research in this area. KEYWORDS: Pornography; porn industry; motivations; porn career; meanings. “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica vi Résumé Le travail sexuel a été un phénomène de plus en plus étudié, cependant, selon revue de la littérature a porté certaines populations de travailleurs sexuels, comme les participants de l'industrie de la pornographie. Ainsi, la présente recherche, une étude exploratoire, vise à connaître les caractéristiques de carrière et l'industrie du porno en Portugal ainsi que les significations que participants attachent à la même profession et comment l'expérience ou les motivations pour rester. Aide la méthodologie qualitative ont été appliquées entretiens semi-structurés avec un échantillon de sept personnes de nationalité portugaise, quatre hommes et trois femmes, âgés entre 23 et 52 années, entre Novembre 2014 et Mars 2015. Une procédure par la suite, l'analyse de contenu, basé sur cinq catégories: carrière/itinéraire dans l'industrie du porno, les significations attribuées à la carrière, la carrière de l'impact de l'industrie du porno, les perceptions des images par rapport à l'industrie et de ses participants et de la composition de l'industrie. En conclusion, il a été constaté qu'une carrière dans la pornographie est un choix des individus eux-mêmes et rester le même est due à des facteurs monétaires et la réussite professionnelle. Au Portugal, l'industrie est pas expressive et les travailleurs sont pour la plupart des pigistes, où les femmes gagnent plus que les hommes, et l'aspect le plus négatif a été nommé comme la stigmatisation, les préjugés et la critique sociale. Ce travail de recherche semble être une contribution pour combler le peu d'investigations sur ce sujet et de mieux comprendre les raisons de rester et les caractéristiques de l’industrie pornographique Portugaise, et ne peut donc fournir une incitation pour la recherche future dans ce domaine. MOTS-CLES: Pornographie; industrie du porno; motivations; carrière porno ; significations. “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica vii Siglas e Abreviaturas IST – Infeções Sexualmente Transmissíveis AVN Porn Awards – Óscares Pornográficos atribuídos pela revista Adult Vídeo News WWW – World Wide Web EUA – Estados Unidos da América CMAJ – Canadian Medical Association Journal “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica viii Índice Introdução ................................................................................................................................ 1 I. Revisão de Literatura ....................................................................................................... 4 1. Abordagem histórica da pornografia .............................................................................. 4 2. Indústria pornográfica da atualidade – atitudes sociais e representações sobre a pornografia ........................................................................................................................... 11 3. Os/as atores/atrizes dos filmes pornográficos: características, motivações e posicionamento sobre a carreira ........................................................................................... 14 II. Estudo Empírico ............................................................................................................. 20 1. Objeto e objetivos ......................................................................................................... 20 2. Método .......................................................................................................................... 21 2.1. Participantes........................................................................................................... 22 2.2. Instrumento: a entrevista ....................................................................................... 23 2.3. Procedimentos de recolha de dados ....................................................................... 24 2.4. Procedimentos de análise de dados ....................................................................... 25 III. Apresentação e Discussão dos Resultados .................................................................... 26 3.1. Carreira/Percurso na indústria pornográfica .......................................................... 26 3.2. Significados atribuídos à carreira .......................................................................... 31 3.3. Impacto e consequências da escolha de carreira na indústria pornográfica .......... 33 3.4. Perceções sobre as imagens em relação à indústria pornográfica e os seus participantes ...................................................................................................................... 38 3.5. Composição da indústria ....................................................................................... 40 IV. Conclusão e Considerações Finais................................................................................. 43 Bibliografia ............................................................................................................................. 47 “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica ix Anexos ..................................................................................................................................... 50 Anexo 1: Tabela de caracterização dos/as participantes do estudo ...................................... 51 Anexo 2: Guião da entrevista semiestruturada ..................................................................... 52 Anexo 3: Apresentação e consentimento informado verbal................................................. 55 Anexo 4: Tabelas de categorização das respostas ................................................................ 56 4.1. Tabela 1: Carreira/percurso na indústria pornográfica .......................................... 56 4.2. Tabela 2: Significados atribuídos à carreira .......................................................... 59 4.3. Tabela 3: Impacto da carreira na indústria pornográfica ....................................... 62 4.4. Tabela 2: Perceções sobre as imagens existentes em relação à indústria pornográfica e aos seus participantes ............................................................................... 64 4.5. Tabela 2: Características da indústria pornográfica portuguesa ............................ 65 “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 7 Na segunda etapa histórica defendida por Neves (2009), do renascimento, muitos artistas, nomeadamente interessados pela arte clássica, usavam a mitologia para justificar a arte erótica, fazendo enfraquecer as tentativas da Igreja de repressão e criando maior aceitação pelo nu. Também a Bíblia serviu como auxiliar na criação de tal arte. Segundo Costa (2008, p. 211), “o conceito de ‘pornografia’ vem reforçar um conjunto de ações repressivas às representações sexuais livres”. A palavra pornografia quase não existia quando Rétif de la Bretonne referiu o termo “pornográfico” numa obra de 1769, defendendo-o como um sistema legal de prostituição e, aliás, “porne” é a palavra grega para a palavra prostituir (Steintrager, 2006). Na realidade, depois deste início de repressão, a pornografia assume um papel de sátira social, pois as suas representações assumiram um importante papel ao utilizar a nudez para sátira e crítica sociais (Barcan, 2004 citado por Garlick, 2011), uma vez que a pornografia é política e tem sido uma importante maneira para satirizar aqueles que estão no poder (Bullough, 2003). Este cariz de sátira social que fez com que a pornografia se tornasse numa “medida de ilegalizar toda a literatura ou gravura com conteúdo sexual.” (Costa, 2008, p. 216). O surgimento da imprensa no século XV marca a terceira etapa defendida por Neves (2009), apelidada de pós-renascimento e marcada pela tentativa de repressão de obras de cariz sexual. Historiadores como Hunt (1993 citado por Costa 2008), consideraram que, anteriormente ao século XIX, a pornografia não se dissociava da representação. Já no século XVI, as sociedades europeias modernas e a cultura impressa, com textos e imagens de crítica social e religiosa, marcaram o início da representação sexual semelhante à pornografia contemporânea (Costa, 2008), até então apenas acessível a uma parte seleta da população (Bullough, 2003). Ainda no século XVI, depois de publicadas várias obras que expunham a vida sexual das elites, responsáveis pelas proibições, houve uma “irradiação de normas e leis em reação “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 8 aos romances e gravuras que ousavam trazer a público a vida íntima da elite” (Costa, 2008, p. 216). Por outras palavras, pode-se dizer que Numa ação desesperada e conveniente, a igreja católica junta-se à aristocracia que trava uma verdadeira guerra reforçada pela Inquisição na busca de padronizar a vida sexual, criando manuais de conduta em que até mesmo as posições sexuais entre casais eram aceites ou condenadas por leis que podiam levar à fogueira numa condenação por infração. (Costa, 2008, p. 216). A repressão então imposta fez com que a pornografia ganhasse expressão, ao intensificar o desejo de aquisição de tal material e Os esforços da Inquisição e do Índex, em vez de erradicar este tipo de literatura, deram-lhe um status especial ao dificultar a sua aquisição. Nas áreas reservadas das livrarias, os livreiros mantinham uma literatura erótica burguesa para um público ávido. (Hunt, 1999 citado por Costa, 2008, p. 216). Todavia, a imprensa erótica tornou-se uma importante parte das vendas de livros, assim como a pornografia desempenha, hoje em dia, um grande papel com a globalização da Internet (Bullough, 2003). Foi no século XVIII que a pornografia se tornou uma indústria de maiores proporções, nomeadamente em Inglaterra, fruto de uma maior liberalização (Bullough, 2003) ou, de acordo com Steintrager (2006), em França, no período libertário, com as “red light” ou a escrita de livros de cariz sexual. Até ao século XIX, este tipo de obras era essencialmente inglês e francês, sendo que, no final deste século e início do seguinte, houve um aumento de publicações por toda a Europa, devido “à implementação da democracia e da política de massas” (Neves, 2009, p. 17). As obras então editadas referem que as pessoas sabiam muito mais sobre as diferenças de género e sexualidade do que aquilo que Foucault e outros teóricos pensavam, ainda que “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 9 em termos históricos da sexualidade, a maioria dos registos tivesse sido escondido e não lido até quase ao final do século XX” (Bulloug, 2003). Garlick (2011) defende que, ainda no século XVIII, a rejeição das moralidades convencionais e religiosas ortodoxas, advindas de uma sensibilidade iluminista, induziram a que as publicações assumissem um tom cada vez mais político, nomeadamente entre as classes mais educadas e abastadas. Este autor considera que, embora na pornografia do século XIX ainda pudessem ser analisados os efeitos das ansiedades culturais sobre sexualidade, género, raça e classe, a mesma perdeu o seu papel de crítica social e, em vez disso, criou-se uma dialética entre a maior disponibilidade de pornografia (muito devido à invenção da fotografia) e o movimento para restringir a sua circulação como forma de preservar a moralidade pública da “threat of ‘obscenity’” (Garlick, 2011, p. 225). É neste contexto que Marcus (1967 citado por Steintrager 2006, p. 200), fala no conceito de “‘pornotopia’: the unbelievable and detached world that historians of the genre have generally agreed is the mark of nineteenth-century pornography”, mais ainda “the historical irony would be that, in wresting bodies and pleasures from social organization and physical limitations, libertinage ended by not only defending pain, but also becoming merely dirty books” (Steintrager, 2006, p. 201). A massificação da imprensa, a quarta etapa de acordo com Neves (2009), contribuiu para o aparecimento das revistas para adultos, nomeadamente a Playboy, iniciada em 1953 com uma foto da famosa Marilyn Monroe, e de sucesso e expansão mundiais, a Penthouse ou a Hustler. A pornografia como forma de regulamentação foi inventada de modo a responder à ameaça da democratização da cultura (Hunt, 1993 citado por Garlick, 2011). Neste contexto, inicialmente a censura estava atenta à pornografia como uma ameaça para a ordem social e não tão preocupada com a representação explícita do sexo em si (Garlick, 2011), tendo em conta que “é no espaço real das cidades onde a sexualidade é mais reprimida e onde se estabelece as mais consolidadas formas de poder” (Costa, 2008, p. 214). Por outro lado, “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 10 Steintrager (2006, p.196) sustenta que a “intimacy is meant to serve as a type of control on behavior and guarantor of social order”, estabelecendo-se, para isso, uma intimidade familiar funcional organizacional da sociedade. Estes acontecimentos históricos poderão, de certa forma, explicar a estigmatização e o preconceito de que parecem sofrer os atores da indústria pornográfica, tão cheia de controvérsias. McNair (2002 citado por Garlick 2011), alude a uma democratização dos desejos sexuais e da exaltação de uma cultura sexual, o que se liga às perspetivas feministas de sexopositivo, nas quais a pornografia heterossexual é entendida como uma forma de mostrar a mulher e o seu desejo sexual em pleno, expressando formas de sexualidade até então reprimidas. Neste ponto de vista, voltou-se à ideia de pornografia como sátira, ou seja, na opinião de Kipnis (1999 citado por Garlick 2011), uma crítica cultural por transgredir as normas sociais. Neves (2009) refere, ainda, uma quinta etapa, a da imagem em movimento, marcada pela origem dos filmes pornográficos em bordéis clandestinos, e, posteriormente, com a “comoção social e moral libertária de 1968” (Neves, 2009, p. 20) houve uma liberalização da pornografia no Ocidente com trabalhos como “Garganta Profunda”, que arrecadou avultados valores monetários. A pornografia assumiu um papel contrário ao do restante cinema, opondo-se às imposições conservadoras, e na qual o argumento perde qualquer importância. Neste âmbito, foram inventadas as cassetes de vídeo que permitiam uma visualização mais privada e íntima levando, assim, à sexta etapa defendida por Neves (2009), em que os consumidores mantinham o anonimato, bem como a possibilidade de os gravarem e reverem. Os anos 60 do século XX foram uma década de revolução sexual, nomeadamente nos EUA, mais uma vez imbuída do espírito de crítica social e cultural. Neste decénio, apareceu a Internet que trouxe consigo a proliferação da pornografia, semelhante à que hoje conhecemos, pois as representações sexuais sempre estiveram muito ligadas às tecnologias, “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 11 desde a imprensa, à fotografia, ao filme, ao vídeo e, mais recentemente, a variadas formas de ‘cibersexo’ (Garlick, 2011). A sétima etapa, a da banalização do conceito segundo Neves (2009), é marcada pela disponibilização de material pornográfico em diversos locais, como quiosques, livrarias, lojas multimédia, e/ou meios, como a televisão ou os sítios da Internet. Surgem, neste contexto banalizador, prémios para quem opta pela carreira pornográfica (os AVN Porn Awards), anúncios comerciais de cariz sexual e ocorre a organização de eventos que difundem esta indústria, como é caso do Salão Erótico iniciado em Lisboa e que hoje toma lugar no Porto, conhecido como ErosPorto. Toda esta banalização cresceu exponencialmente, sobretudo em 1991, com o início da WWW, atingindo um maior número de consumidores, e também com a disponibilização de serviços móveis. Castells (2001 citado por Garlick, 2011), afirma que as comunidades online, que despontaram nos anos 1970 e 1980 devido aos boletins informativos precoces e que foram importantes para o desenvolvimento da Internet, tiveram as suas origens nos movimentos anticulturais e formas alternativas de vida que emergiram da revolução sexual. 2. Indústria pornográfica da atualidade – atitudes sociais e representações sobre a pornografia Antes de aprofundar mais esta secção do estudo apresentado, convém mencionar que os “stereotypes of female pornography actors (..) are used to justify or condemn pornography” (Evans-DeCicco & Cowan, 2001, p. 352), sendo que, para além disso, pouco tem sido estudado, segundo os mesmo autores, para conhecer os estereótipos públicos acerca dos atores e atrizes pornográficas. Perceber as representações e atitudes relativas à pornografia implica conhecer os estudos feitos quer com os seus consumidores, quer com a população em geral que não tem qualquer contacto com a indústria pornográfica. Porém, ao “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 12 ler um conjunto de artigos sobre esta temática verifica-se que a maioria das pesquisas se foca nas consequências que a pornografia tem para os seus consumidores, sobretudo as negativas. Nestes estudos, o consumo da pornografia é quase sempre associado a adolescentes com fracas relações parentais ou com depressões (Svedin, Ǻkerman & Priebe, 2011), e também a fatores mentais de risco e a uma menor qualidade de vida (Weaver et al., 2011). O consumo da pornografia, na opinião de Wright & Randall (2012), aparece relacionado com a diversificação de parceiros sexuais, o sexo pago, o sexo extraconjugal, mas, curiosamente, não conotado com o sexo desprotegido. A pesquisa tem demonstrado como efeitos da pornografia o facto de esta ser um catalisador da agressividade masculina contra as mulheres (Wright & Randall, 2012) e um motor de objetificação e degradação da mulher e de violência social, principais temáticas no estudo da pornografia, de acordo com Štulhofer et al. (2010). Todavia, a pesquisa de Garlick (2011) refere também uma visão redutora dos homens na pornografia, como dominador das mulheres, conferindo-lhes um cariz mecanizado de comportamentos, sem emoção, o que também é alvo de crítica. Algo que também tem sido comum na literatura é a perceção de que a pornografia é feita para homens (Wright & Randall, 2012) e talvez isto explique o porquê de se considerar a pornografia como degradante da mulher. Paul e Shim (2008), pesquisaram sobre quais os motivos de visualização da pornografia por homens e por mulheres, com o objetivo de descobrirem diferenças de género. Verificaram que existem quatro motivações para o consumo da pornografia: os relacionamentos, a gestão emocional, o hábito e a fantasia, sendo que os homens têm motivações mais fortes que as mulheres. Uma outra preocupação social que tem surgido com o crescimento da utilização da pornografia é o uso do preservativo. Embora a sua utilização na indústria pornográfica portuguesa seja obrigatória em países como EUA, este hábito não é fácil de se implementar, “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 13 pois os consumidores não querem ver sexo seguro, os atores e atrizes preferem não o usar e os produtores profissionais, se cumprirem estas normas, ficam em desvantagem relativamente aos amadores (CMAJ, 2011). No âmbito das representações e atitudes sociais atribuídas à pornografia, não se pode descurar as perspetivas feministas sobre o tema. Posições antipornografia argumentam que as imagens pornográficas ao invés de celebrarem a sexualidade feminina, exploram-na (EvansDeCicco & Cowan, 2001). Mais ainda, Evans-DeCicco & Cowan (2001), citando diversos autores, mencionam que as imagens pornográficas reduzem a mulher a um estado infantil em que não consegue tomar decisões, nem afirmar a sua sexualidade (Strossen, 1995), muitas atrizes são coagidas (Dworkin, 1989), e “all pornography is made under conditions of inequality based on sex, overwhelmingly by poor, desperate, homeless, pimped women who were sexually abused as children” (MacKinnon, 1993) (p. 352). Já os defensores da pornografia consideram que esta “liberates women by allowing them to explore less traditional aspects of their sexuality and reject the view that women are coerced into the pornography industry” (Strossen, 1995 citado por Evans-DeCicco & Cowan, 2001, p. 352). Segundo Evans-DeCicco e Cowan (2001), a discrepância entre as crenças (tais como, saúde mental, consumo de drogas, inteligência, autoestima, entre outras) sobre as atrizes pornográficas e as mulheres em geral são maiores do que o que se verifica no caso masculino. Isto é, as atrizes são vistas mais negativamente pela população em geral que os atores. Ainda de acordo com estes autores, as próprias mulheres classificam pior as mulheres atrizes pornográficas, enquanto as pessoas do sexo masculino classificam homens e mulheres da pornografia da mesma forma. Assim sendo, as atrizes são vistas como vindas de famílias mais disfuncionais. enquanto que as motivações mais positivas para a pertença a esta indústria são atribuídas aos atores. Polk e Cowan (1996 citados por Evans-DeCicco & Cowan, 2001) concluíram que as atrizes são consideradas mais positivamente que as “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 14 prostitutas e mais negativamente que as estrelas de cinema e mulheres em geral, pois “negative attitudes toward pornography have been shown to be positively related to the attribution of negative characteristics to female pornography actors” (p. 352). 3. Os/as atores/atrizes dos filmes pornográficos: características, motivações e posicionamento sobre a carreira A investigação nesta área, embora seja pouca, revela algumas conclusões e padrões principalmente no que respeita às características e motivações dos atores e atrizes dos filmes pornográficos. Importa referir que os estudos realizados são maioritariamente centrados em um dos sexos, e raras vezes focam ambos. Tentar perceber as características dos atores e atrizes envolvidas na indústria pornográfica, não é fácil, principalmente pela dificuldade de se aceder ao público-alvo. Esta é a razão pela qual muitos estudos têm incidido sobre os consumidores, a população em geral ou, ainda, em comparações entre alguns atores/atrizes e grupos de controlo. Exemplo deste último, é o estudo de Griffith et al. (2012b), onde os autores, citando Stoller & Levine (1993), afirmam que atores, produtores e escritores pornográficos são pessoas que têm falta de oportunidades de trabalho, não aceitam normas sociais e foram abusados sexualmente, mas, no entanto, concluem que os atores pornográficos do sexo masculino relativamente a um grupo de controlo iniciaram a sua vida sexual mais cedo, têm mais parceiros sexuais, têm uma maior permissividade sexual, desfrutam mais do sexo, são mais preocupados com a possibilidade de contraírem alguma doença, costumam usar menos o preservativo num primeiro encontro e, finalmente, não revelam diferenças relativamente ao grupo de controlo quanto ao abuso experienciado na infância. Ainda nesta comparação, mas a nível psicológico, o mesmo estudo demonstra que o grupo experimental tem uma maior autoestima e mais indicadores de qualidade de vida e no que respeita à utilização de drogas, usaram mais “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 15 estupefacientes que o grupo de controlo. Abbott (2000 citado por Griffith et al., 2012b), concluiu que os próprios atores pornográficos consideram necessitar de certos atributos ligados à masculinidade (força, poder, porte atlético, vontade sexual insaciável) e que quem tem dificuldades em certas cenas acaba por ter pouco trabalho. O próprio comportamento sexual dos atores passa para lá das câmaras e passa a fazer parte da sua própria vida pessoal (Griffith et al., 2012b). Evans-DeCicco & Cowan (2001) referem que os atores se percecionam como sendo menos saudáveis quando comparados com os homens em geral. Griffith et al. (2013), numa reflexão sobre o sexo feminino, compararam atrizes pornográficas bissexuais e heterossexuais e concluíram que as primeiras iniciaram a sua atividade sexual mais cedo, têm mais parceiros sexuais, gostam mais de sexo, mostram mais sentimentos positivos e altos níveis de espiritualidade e usaram mais de três tipos de drogas diferentes e apresentam um melhor bem-estar. Por outro lado, os mesmos autores suportam ainda que a utilização de mais drogas ou as implicações no bem-estar físico e emocional estão relacionadas com o facto de serem um grupo minoritário estigmatizado. É importante indicar que, contrariamente ao esperado, o estudo de Griffith et al. (2013) não mostrou justificação para a questão do abuso na infância, embora o estudo de Austin et al. (2008 citado por Griffith et al., 2013), revele que as mulheres mostram mais níveis de abuso sexual na infância. Contrariamente às diferenças entre as atrizes, este estudo menciona que as mulheres bissexuais da população em geral têm um bem-estar psicológico mais pobre do que as heterossexuais e também têm níveis mais altos de sentimentos positivos e espiritualidade. Uma explicação para estas conclusões é que na indústria pornográfica a bissexualidade feminina é mais bem aceite. Importa referir que, se os estudos sobre as questões de género já são sensíveis e bastante recentes na sua maioria, analisar subculturas ainda é pouco explorado. Abbott (2000 citado por Griffith et al., 2013), expõe que as atrizes pornográficas são um grupo insular e de suporte, passam muito tempo profissional e pessoal juntas e “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 16 partilham estilos de vida, atitudes e práticas sexuais alternativos. Assim, para o autor, as atrizes bissexuais demonstram os mesmos níveis de suporte social porque o grupo é o mesmo e não sofrem do estigma que as mulheres bissexuais sentem, nem do estigma do trabalho sexual noutras áreas, como prostituição ou dança exótica, que exige contacto com a população em geral. Os níveis de uso de álcool e drogas foram similares nos grupos em análise, embora num estudo de Bolton e Sareen (2011 citados por Griffith et al., 2013), com população em geral, as mulheres bissexuais consumiam mais. Em relação às construções de masculinidade e feminilidade, Abbott (2003) deduziu que, na pornografia heterossexual, estão intimamente ligadas aos estereótipos de género culturais. No que respeita às mulheres, elas são meigas, são generosas, são cooperativas, recebem bem diretrizes, expressam sexualidade quando exigido e nunca em demasia e têm controlo sobre os seus ganhos e ambição, delegando o papel de controlador, muitas vezes, num agente. Já os homens revelam-se poderosos, atléticos, viris, onde a aparência é o que mais importa juntamente com o facto de conseguir manter as ereções. Dada natureza do estudo em questão, parece pertinente ressalvar que, ao rever a literatura apresentada, verifica-se que a entrada na indústria pornográfica tem sido associada com o abuso sexual sofrido na infância, o que foi suportado por autores referidos em pesquisas de Griffith et al. (2012a, 2012b, 2013). Por outro lado, estudos de Evans-DeCicco e Cowan (2001) e Griffith et al. (2012a, 2012b, 2013) mencionam como condição de entrada naquela indústria o consumo de drogas. Ou ainda, Dworkin (1989) e MacKinnon (1993), citados por Griffith et al. (2012b) justificam a entrada nesta carreira com base em explicações ligadas com a problemáticas de drogas, de abusos sofridos na infância, de pobreza, de semabrigo ou de proxenetismo. Já Abbott (2000 citado por Griffith et al., 2012b), ao examinar as motivações de entrada nesta indústria, destaca: o dinheiro, a fama/glamour, a liberdade/independência, a “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 23 participante homossexual, ator de filmes pornográficos homossexuais, uma vez que tinha experiência na pornografia heterossexual e que a entrevista não se tornava, em qualquer parte, exclusiva à heterossexualidade. Tendo este fator em consideração, poderão, possivelmente, existir diferenças nas respostas. 2.2.Instrumento: a entrevista O emprego da entrevista qualitativa para mapear e compreender o mundo dos respondentes é o ponto de entrada para o cientista social que introduz, então, esquemas interpretativos para compreender as narrativas dos atores em termos mais concetuais e abstratos (…) pois, fornece os dados básicos para o desenvolvimento e compreensão das relações entre os atores sociais e a sua situação. O objetivo é uma compreensão detalhada das crenças, atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das pessoas em contextos sociais específicos (Bauer & Gaskell, 2011, p. 65). A partir desta ideia foi selecionada a entrevista semiestruturada como instrumento e recolha de dados, uma vez que, em investigações desta natureza é positivo que seja utilizada uma técnica bastante flexível e, o facto de ser semiestruturada, retira à entrevista a rigidez de seguir um guião e de se utilizar palavras específicas e questões determinadas (Bauer & Gaskell, 2011). Isto permite tanto ao participante divagar nas suas respostas, como ao entrevistador fazer outras perguntas consoante o que o entrevistado lhe vai dizendo, ainda que sempre de acordo com uma linha orientadora, o que enriquece todo o processo de pesquisa. Tal como Walliman (2005) afirma, a entrevista semiestruturada deixa tempo para o desenvolvimento das respostas. Lidamos então como uma fala relativamente espontânea (…) encenação livre daquilo que esta pessoa viveu, sentiu e pensou a propósito de alguma coisa. (…) Qualquer pessoa que faça entrevistas conhece a riqueza desta fala, a sua singularidade “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 24 individual, mas também a aparência por vezes (…) contraditória (…) Discurso marcado pela multidimensionalidade das significações exprimidas. (…) Uma entrevista é, em muitos casos, polifónica (Bardin, 2011, p. 89). Consequentemente, elaborou-se um conjunto de tópicos a serem abordados, ou seja, um guião de entrevista, sendo que cada um deles se subdividiu em algumas questões mais específicas, numa perspetiva, também, de não “perder” o respondente, pois sabia-se à partida que as entrevistas iriam ser aplicadas em contextos de alguma confusão/agitação e em curtos espaços de tempo. Foi então realizado um pré-teste desta entrevista semiestruturada a uma atriz de filmes pornográficos, o que contribuiu para o melhoramento das questões, e, consequentemente, o guião final que foi aplicado. Este é constituído por três grandes temas, subdivididos em várias questões, sendo eles: a carreira/percurso e os significados/sentidos que o/a participante lhes atribui, a perceção sobre as imagens existentes em relação à indústria pornográfica e aos/às seus/suas participantes e, por fim, a composição da indústria pornográfica portuguesa (cf. Anexo 2). 2.3.Procedimentos de recolha de dados Sabendo-se de antemão da dificuldade de acesso a esta população, a existência de um contacto pessoal para conseguir a comunicação com o primeiro entrevistado constituiu uma mais-valia para, desta forma, solicitar informação sobre possíveis pessoas disponíveis para colaborar. Assim, foi elaborada uma rede de alguns contactos, embora tivesse sido nas Feiras Eróticas do Porto, mais conhecidas como ErosPorto, que, em 2014 e 2015, se estabeleceram a maioria dos contactos e se realizaram a maioria das entrevistas. Deste modo, foi utilizado o método de snowball, uma vez que, após a primeira abordagem a uma participante e a primeira visita à Feira Erótica, surgiram os restantes contactos e no ano seguinte se deu a realização das entrevistas. Em algumas das vezes, foram os/as próprios/próprias participantes “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 25 a pedir a colegas, dentro da Feira Erótica, que aceitassem ser entrevistados. Todas as entrevistas foram, portanto, presenciais, mesmo as duas que se realizaram fora deste espaço, uma delas, a primeira, realizada em casa do entrevistado e, a segunda, num outro espaço de diversão noturna. Inicialmente procedeu-se a uma apresentação (cf. Anexo 3), na qual se explicava ao/à participante quem era o entrevistador, em que contexto estava a fazer a sua investigação, no que se iria basear a entrevista e ainda as questões de garantia de anonimato, sendo pedido um consentimento informado verbal para o prosseguimento da entrevista e, no caso da primeira entrevista, a sua gravação. As restantes entrevistas não foram registadas em formato áudio devido à falta de condições sonoras dos locais onde decorreram. Este constrangimento fez com que se optasse pelo registo escrito, tendo em mente que se poderia perder informação verbal importante, bem como informação não verbal crucial, principalmente ao nível de interjeições e expressões. Todavia, houve uma preocupação rigorosa em manter o registo o mais próximo possível do discurso dos/as entrevistado/as. A recolha de dados ocorreu em três momentos. O primeiro em dezembro de 2014, o segundo em janeiro de 2015 e o terceiro em março de 2015. Efetuou-se um total de sete entrevistas, com uma duração média de 40 minutos. Durante a realização das entrevistas não ocorreu qualquer imprevisto e todos/as os/as entrevistado/as se mostraram interessados em ser contactados posteriormente para conhecerem o trabalho final realizado a partir das suas respostas. 2.4. Procedimentos de análise de dados Para se analisar os dados, recorreu-se à análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), dado o cariz qualitativo e exploratório da investigação, sendo geradas hipóteses através dos dados obtidos mediante as questões orientadoras. Para esta autora, a análise de “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 26 conteúdo revela-se como um conjunto de técnicas de análise das comunicações utilizando procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. Desta forma, após uma leitura flutuante de todas as entrevistas, procedeu-se a uma análise categorial. Uma vez que não foram criadas categorias a partir das respostas dos/das participantes, esta foi uma análise por caixas, isto é, com categorias definidas a partir do guião da entrevista. Os temas de análise das entrevistas foram cinco: carreira/percurso na indústria pornográfica, significados atribuídos à carreira, impacto da carreira na indústria pornográfica, perceções sobre as imagens existentes em relação à indústria e aos/às seus/suas participantes e composição da indústria. Estes temas foram divididos, posteriormente, em categorias e subcategorias (cf. Anexo 4). Categorias essas que, segundo Bardin (2011), organizam indicadores significativos para a inferência de conteúdo implícito e explícito que se procura compreender. Após tudo isto realizou-se novamente uma leitura das entrevistas, mas, desta vez, de forma interpretativa dos dados obtidos, de modo a perceber o que se podia concluir em cada categoria e articular o conteúdo dos resultados tanto com os objetivos da investigação, como, mais ainda, com a literatura revista. III. Apresentação e Discussão dos Resultados 3.1.Carreira/Percurso na indústria pornográfica Neste tema, relativamente à categoria da forma de entrada na indústria, verificou-se uma distinção entre quem entrou diretamente na representação em filmes pornográficos e quem fez um percurso mais longo. Um participante e uma participante que relataram ter entrado diretamente em filmes pornográficos fizeram-no por iniciativa própria, isto é, de “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 27 forma espontânea e autónoma. Ainda que não se saiba o background do participante e da participante em questão, parece clara a sua procura pela pertença a esta indústria, o que demonstra, também, que estes se afastam de alguns fatores de entrada como, por exemplo, problemas com drogas, abusos sofridos na infância, pobreza, sem-abrigo ou proxenetismo, apontados por Dworkin (1989) e MacKinnon (1993), citados por Griffith et al. (2012b). Ainda nesta subcategoria da entrada diretamente em filmes pornográficos, uma participante disse que o fez através de uma pessoa já envolvida na indústria que a convidou a participar. Neste sentido, o participante P2 respondeu algo que ilustra bem a procura específica para entrar na indústria quando fez alusão às mensagens eletrónicas trocados entre si e agentes de outros países “Vêm mesmo para este [tipo de trabalho], até lhe posso mostrar aqui”. Analisando todas estas respostas, conclui-se que os/as participantes não se enquadram no que é defendido por Evans-DeCicco e Cowan (2001); Griffith et al. (2012a); Dworkin (1989) e MacKinnon (1993), citados por Griffith et al. (2012b); Abbott (2013); e Griffith et al. (2013), que aliam a entrada na indústria a problemas de vida ou faltas de alternativas. Ainda na categoria de entrada na indústria, salienta-se os/as quatro participantes que mencionaram um ingresso envolvendo a passagem por outras áreas, ligadas, muitas vezes intimamente, à indústria do sexo. A participante P1 iniciou o seu percurso na pornografia através de revistas e o participante P6 através de filmes amadores. Após esse primeiro contacto, ambos começaram a realizar filmes pornográficos. Note-se que o estudo, por incidir em atores, atrizes e produtores pornográficos, fez com que os entrevistados associassem a sua entrada ao início da representação, e, ainda que este tenha sido o caso dos três primeiros entrevistados, anteriormente descritos, não se pode dizer que tenha sido o primeiro contacto destes dois últimos, pois o participante P1 considerou que a sua experiência na pornografia não estava relacionada com o posar para revistas deste cariz e sim com o iniciar a realização de filmes. Nestes percursos de entrada que passaram por outras áreas, encontramos uma “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 28 forma diferente nos resultados obtidos que é o da gestão de outros negócios, aludido por dois participantes, sendo eles os produtores entrevistados. Enquanto o indivíduo P2 relatou a sua experiência de ter aberto, inicialmente, um espaço de striptease e, consequentemente, ter começado a produzir filmes e lutas eróticas, que também são filmadas e disponibilizadas online; o participante P7 contou ter sido gestor de produto da SporTV, Playboy e SexyHot na empresa TVCabo, o que o levou a aceitar uma proposta para dirigir uma produtora de pornografia. Pode-se, então, concluir que, neste estudo, a forma de entrada dos produtores, uma vez que foram estes que se enquadraram na subcategoria descrita anteriormente, foi diferente da dos atores. Relativamente ao vínculo laboral nesta área, os respondentes foram unânimes ao expor que o fazem em regime de freelancer, ou seja, sem contrato. Uma das participantes mencionou que trabalhava com contrato sobre a exclusividade de imagem. Já o estudo de Abbott (2003) defende que, nesta carreira, se opta pelo regime freelancer, embora a contratação por parte de uma produtora assegure a proteção da sobre-exposição de imagem, principalmente das atrizes, apesar de influenciar os ganhos. O consenso de que todos, quer na sua experiência quer na opinião que têm acerca da maioria dos/das atores/atrizes da indústria, trabalham em regime de freelancer, encontra uma justificação nas respostas de dois participantes, sendo eles, uma vez mais, os produtores entrevistados, que dizem que a indústria não é suficiente para “prender” os atores a uma produtora. Quanto à capacidade para recusar ofertas de trabalho, no presente estudo as respostas dividiram-se em duas ideias. Uma delas aponta para que não é fácil recusar (“recusar não é fácil, quase não acontece, nós é que procuramos porque a oferta é muita”, P6). A outra ideia sustenta que é fácil recusar propostas de trabalho embora dois dos respondentes, cujas respostas encaixam nesta categoria, tenham referido especificamente as mulheres como tendo capacidade para fazer essa recusa, com frases como “a mulher vai vender, se não gostar da “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 29 imagem recusa” (P4). Uma das participantes expressou ainda uma perspetiva muito clara de como se processam as propostas de trabalho nesta indústria: “antes de uma filmagem enviamnos um email com todas as indicações, tipo de cena, com quem, a história do filme, roupa, maquilhagem, aceitamos ou não. Porno é como modelo, atriz ou jogador de futebol, há mais conhecidas, menos” (P4). Deste modo, os dados parecem contestar o defendido por Weitzer (2010), segundo o qual, nos EUA, existem diferenças na liberdade para recusar propostas de trabalho entre os atores pornográficos e a população em geral, sendo que o primeiro grupo sente mais dificuldade que o segundo. Acerca dos rendimentos auferidos nesta carreira, as respostas dadas pelos/as entrevistados/as não permitiram definir categorias relevantes. Contudo, é importante salientar que a opinião geral foi de que as mulheres auferem mais do que os homens, nomeadamente indiciaram que aquelas recebem cerca do dobro destes. Isto vem ao encontro das conclusões do estudo de Abbott (2003), no qual o autor refere que a pornografia é uma carreira onde as mulheres auferem mais que os homens, o que é raro em quase todas as classes laborais. No entanto, este autor também defende que como os homens se envolvem em mais projetos ao longo da carreira acabam por ganhar mais dinheiro a longo prazo. Através da resposta da participante P1: “Eu por exemplo, quando fui para o filme eu não sabia qual era o tema do filme. Eu sabia o que e que iria fazer no filme. Há duas situações que eles dizem: ou fazes uma situação com um indivíduo, ou seja uma situação de casal, com uma pessoa, oral e vaginal, ou fazes uma situação com uma pessoa também, situação de casal, oral, vaginal e anal. Ou seja, é mais bem pago se fizeres anal, é menos bem pago se fizeres só oral e vaginal. Depois há outras… Eles colocam as coisas assim, não colocam as coisas com olha este é um determinado filme, com este nome e tu vais ser atriz principal, não. Eles colocam as cenas de sexo, o tema não interessa do filme, o que “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 30 interessa é: vais foder com…, neste caso, vais fazer sexo com um indivíduo oral e vaginal ou vais fazer sexo com um indivíduo completo, ou seja, o convívio completo com anal ou então vais fazer uma situação de ménage e é sempre assim…” foi ilustrado o processo de descrição que é feita aos atores para que aceitem ou não um projeto, acabando por revelar que o que as mulheres recebem muda consoante as práticas sexuais que desempenham, isto é, se fizerem apenas vaginal e oral é menos bem pago do que se fizerem também anal. Embora não tenha ficado claro pareceu também haver uma distinção entre situações de casal ou de ménage, bem como não foi percetível se com os homens também existem alguns padrões de pagamento consoante as cenas. Por fim, no que diz respeito à categoria dos motivos para permanecer nesta carreira, importa dizer que a questão remetia também para os motivos de entrada, contudo, uma vez que os/as participantes já tinham referido a forma como haviam entrado, cingiram a sua resposta, maioritariamente, aos motivos que os fez permanecer. No entanto, alguns deles acabaram, mesmo que ao longo da entrevista, por revelar que a curiosidade e diversão os tinham levado a entrarem na carreira pornográfica, nomeadamente os/as participantes P4 e P5, tendo sido estes que enunciaram ter entrado na indústria de forma autónoma. Ainda a este respeito importa lembrar que, mesmo não tendo sido a respeito dos próprios, alguns/mas entrevistados mencionaram que o gosto pela área, bem como o dinheiro movia muito mais as pessoas a procurarem entrar na indústria do que propriamente outras componentes. Isto encontra-se de acordo com o estudo de Griffith et al. (2012a), que resultou acerca das motivações dos atores pornográficos, nas seguintes: o dinheiro, a curiosidade e a mudança e a diversão e a aventura. No caso dos homens foi ainda referido o exibicionismo como fator motivador de entrada. Todos os/as entrevistados/as referiram motivos de permanência, embora uma participante tenha salientado que não permaneceu na indústria. No estudo que agora se “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 31 apresenta os motivos de permanência mais referidos pelos/as participantes foram a realização profissional e o dinheiro, qualidade de vida e viagens. Em ambas as subcategorias o total de respondentes foi de três. Acrescentam-se a estas duas subcategorias as de reconhecimento público, com a resposta de duas participantes e o sentimento de pertença com a resposta de um participante. Para este homem o sentimento de pertença é um fator de permanência (“Terminei oficialmente em abril, em setembro voltei, é quase uma família, sente-se saudades”, P6). Este motivo remete para as conclusões de Abbott (2000 citado por Griffith et al., 2012b), quando refere que as atrizes pornográficas são um grupo insular e de suporte, passam muito tempo profissional e pessoal juntas e partilham estilos de vida, atitudes e práticas sexuais alternativas, demonstrando um bom nível de suporte social. Embora, no caso desta investigação se trate de um participante do sexo masculino, parece revelar-se o mesmo tipo de situação que é referido no estudo. Alguns destes motivos surgem também nas investigações de (Abbott, 2000 citado por Griffith et al., 2012b), nomeadamente o nome/fama, a estratégia de carreira ou o dinheiro e qualidade de vida. É relevante notar que dos/as participantes que referiram a realização profissional todos/as eles são produtores de filmes pornográficos. Mais ainda, é de salientar que um deles é do sexo feminino, embora tenha começado por ser atriz, pois, como refere Abbott (2003), dirigir está relacionado mais com estatuto do que representar, pois acredita-se que são precisas mais capacidades para tal. Contudo, defende o autor, embora o mesmo número de mulheres e homens tenha como objetivo progredir para produtor/diretor, é mais fácil para os indivíduos do género masculino. 3.2.Significados atribuídos à carreira Relativamente ao tema dos significados que os/as próprios/próprias participantes deste estudo atribuem à indústria pornográfica, surgiram algumas respostas relevantes. Antes de “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 32 mais, é importante salientar que dos/as seis entrevistados que responderam a esta questão cinco apontaram características positivas, isto é, dinheiro, amizade e “espírito de equipa” (onde se engloba o respeito, a compreensão e o companheirismo), acesso a cultura e conhecimento, poder e estatuto e liberdade e autonomia. Estes resultados estão relacionados com o encontrado por Griffith et al. (2012a), quando refere que as motivações dos atores pornográficos são o dinheiro, a vida social (crescimento de amizades, comunidade coesiva, suporte e aceitação dos parceiros) e a liberdade, sendo que os aspetos positivos se podem considerar relacionados com os motivos de permanência. Acerca dos aspetos negativos associados à carreira na indústria pornográfica que foram encontrados neste estudo, ou sejam, o estigma/preconceito, a discordância por parte da família, o excesso de horas de filmagens e as suas consequências físicas, a interferência nas relações pessoais e a carreira curta para as mulheres, o que recebeu maior destaque foi o estigma e o preconceito com a resposta de três participantes. Para Griffith et al. (2012a), a estigmatização social também aparece como uma desvantagem desta profissão, e Abbott (2013) refere que a carreira feminina é considerada mais curta, o que se relaciona com o último aspeto negativo destacado por um participante deste estudo, anteriormente mencionado. No que respeita aos significados foram encontradas duas subcategorias. Uma que engloba os sentimentos relativos ao facto de participarem na indústria pornográfica e outra que é relativa à forma como vivenciam a profissão. Assim, três dos/as entrevistados relataram como se sentiam ao fazer ou produzir pornografia, sendo que uma delas declarou não gostar de fazer pornografia, pois sente-se gozada (“…não gostei nada (…) senti-me gozada, não me senti nada bem.”, P1) e os/as restantes dois relataram que gostam de estar na carreira pelo reconhecimento do seu trabalho, seja este na representação ou na produção. Os/as restantes quatro referiram a forma como vivenciam a sua profissão, tendo um participante e uma “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 39 atrizes e mulheres em geral. Embora a concordância tenha sido pouca, quem assente fala do abuso de drogas a fim de alcançar um melhor rendimento na representação dos filmes. Referindo agora a possibilidade de existir exploração sexual na indústria pornográfica, importa referir que autores como Evans-DeCicco e Cowan (2001), Griffith et al. (2012) ou Abbott (2013) mencionaram a sua existência. Contudo, dos/das participantes do estudo em questão, todos afirmaram perentoriamente que tal não acontece, ainda que a indústria seja um negócio que explora a sexualidade, tal como o participante P7 lembra ao referir: “Se me perguntares se o meu negócio explora sexualmente os meus atores, sim, estou a registar em vídeo, mas não os obrigo a nada, ou sem serem pagos…”. Ou ainda o participante P2, que lembra que nestas áreas o desemprego é inexistente ao dizer que “neste negócio não há santos, mas eu acredito que haja muito mais assédio noutros ramos, acredito que nenhum patrão vai fazer pressão…”. Apenas uma participante apontou que poderia existir, mas frisou que seria algo a acontecer fora do país, e numa tentativa de enganar pessoas, aliciando-as para um trabalho que na verdade não existiria, na qual as empresas oficiais não estariam envolvidas. Quanto à questão da valorização/desvalorização dos atores e atrizes que participam na indústria foram encontrados resultados bastante pertinentes, reparando que a maioria dos/das participantes não considera existir desvalorização, o que contraria os dados de Garlick (2011), que vê o homem como reduzido na pornografia, ou Evans-DeCicco e Cowan (2001); Griffith et al. (2012a); ou Abbott (2013) que indicam que a entrada é condicionada por aspetos relacionados com a valorização/desvalorização e/ou desumanização das pessoas. Por último, mas não menos interessante, existem dois entrevistados que veem as mulheres como valorizadas e mais bem tratadas quando fazem filmes de cariz pornográfico, ainda que em muitas situações tenham de esconder essa sua profissão. Desta forma as respostas do participante e da participante em questão vão ao encontro dos defensores da pornografia “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 40 quando estes dizem que a mesma é libertadora da sexualidade feminina e que não veem a mulher como coagida, como lembra Strossen (1995 citado por Evans-DeCicco & Cowan, 2001). Ao mesmo tempo, contrariam as posições antipornografia que autores como EvansDeCicco e Cowan (2001) mencionam ao defenderem a sexualidade feminina não valorizada neste âmbito, ou ainda, citando MacKinnon (1993) e Dworkin (1989), visualizam a realidade da pornografia como desigual e coerciva para a mulher. 3.5.Composição da indústria Relativamente a este tema, pode-se dizer que a indústria pornográfica é constituída maioritariamente por mulheres, pelo menos na opinião de seis dos/as entrevistados neste estudo. Embora nem sempre seja explícito, é transversal a quase toda a literatura que os consumidores da pornografia são maioritariamente homens, e que, por isso, as mulheres tendem a precisar de ser novidade recorrentemente, tal como refere Abbott (2003) e como a participante P1 lembra ao dizer que “Os homens são quase todos os mesmos. No canal que eu fiz existem para aí cinco homens. (…) As mulheres convém serem novidade”. Isto pode exatamente justificar o facto da indústria pornográfica ser constituída por mais mulheres. No entanto, houve um participante que realçou a existência de um número igual, sendo que “…elas não querem ser conhecidas, se não fosse isso havia mais mulheres…” (P2). Isto também vai ao encontro da questão da crítica social, referida anteriormente acerca das consequências e impactos na vida dos/das participantes da indústria. Provavelmente, só se obteve uma resposta de que o número de homens e mulheres é igual, porque existe ainda um grande estigma social que impede as pessoas de escolherem esta como uma possível carreira, e, tendo em conta, a quantidade de vezes que os/as participantes mencionaram que fora de Portugal a indústria é maior e menos estigmatizada, poder-se-ia dar o caso de, se “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 41 considerassem que era igualmente normativo, não existir esta resposta de um número igual em termos do sexo dos atores. Analisando as idades que compõem os/as participantes da indústria, é importante realçar que os respondentes focaram-se nas idades dos atores e atrizes, distinguindo quase sempre entre homens e mulheres. A maior distinção reside na idade de saída, sendo que, a entrada para homens e mulheres se dá entre os 18 e os 25 anos, mas as mulheres por volta dos 35 terminam a sua carreira como atrizes, enquanto os homens se mantêm na indústria até quererem, ou, mais especificamente, até o conseguirem em termos físicos, até estarem aptos a manterem a ereção e a ejacularem quando necessário. Este acontecimento pode estar associado ao fator, referido no parágrafo anterior, da necessidade de renovação de atrizes no mercado, ou a questões relacionais das próprias atrizes, tal como, por exemplo, Abbott (2003) refere que, muitas vezes, as mulheres abandonam a profissão a fim de terem estabilidade numa relação. Focando a categoria da orientação sexual dos atores e atrizes pornográficos, os dados obtidos foram bastante díspares. Desta forma apuraram-se três subcategorias, sendo elas: mulheres bissexuais e homens heterossexuais, com um participante a concordar com isto; mais heterossexuais, embora alguns sejam bissexuais, com três participantes a concordarem com esta afirmação; e mais bissexuais, suportado pela opinião de um participante e uma participante. É pertinente realçar que um participante refere que “todos são bissexuais no seu valor”, isto é, uma vez que pelo valor monetário certo todos fazem filmes com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto. Contudo, importa referir que este era o único elemento homossexual da amostra, bem como a outra participante que concordou com esta subcategoria é bissexual. Poderá pensar-se que exista uma relação entre a orientação sexual dos/das participantes da indústria e a forma como a veem, ou quem conhecem dentro da mesma que lhes permita tirar ilações da sua composição. “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 42 Acerca das produtoras, contrariamente ao ponto anterior, as respostas foram muito consensuais, sendo que três participantes relataram a existência de apenas uma produtora nacional e os/as restantes afirmaram serem duas ou mais. Esta questão poderá estar relacionada sobre a forma como cada participante define o que é uma produtora, sendo que por exemplo o participante P7 nos diz “…para ser produtora tem de se produzir, distribuir e vender”. Sobre a difusão, foi comum a quase todos/todas os/as participantes referirem que a Internet é a forma de difusão mais utilizada pela pornografia, tendo ainda quatro participantes referido a televisão ou o participante P6 ter feito alusão às feiras como o ErosPorto onde estava a decorrer a própria entrevista. Finalmente, quando questionados acerca do seu posicionamento sobre Internet e o impacto que esta teve na indústria pornográfica, tendo em conta que a pornografia desempenha, hoje em dia, um grande papel com a globalização da Internet (Bullough, 2003), encontraram-se três participantes com um posicionamento desfavorável. Todavia, embora esta tenha sido a maioria das respostas, certo é que houve dois participantes que analisaram a internet como um meio de fazer evoluir a indústria, ou ainda a participante P4 que focou aspetos negativos (o acesso facilitado e gratuito aos filmes não havendo um retorno monetário justo) mas também positivos da mesma (o facilitar do acesso à entrada na indústria por parte de quem quer ser ator/atriz). Tal como Garlick (2011) lembra, a pornografia sempre acompanhou em grande escala a tecnologia, sendo muitas vezes uma das primeiras a utilizar novas formas de difusão, chegando a mais consumidores, o que se coaduna com as respostas dos dois participantes que consideram que este é um meio de fazer evoluir a indústria pornográfica, sendo esta última, na opinião do participante P7 “muito evolutiva e atenta e que dá exemplos às outras indústrias”. “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 43 IV. Conclusão e Considerações Finais Nesta parte do presente trabalho apresentar-se-ão os principais resultados encontrados, bem como se fará uma integração destes com os objetivos da investigação, tal como anteriormente descritos. Ainda nesta secção final efetuar-se-á uma análise reflexiva da investigação referindo as principais limitações e propostas para estudos futuros. Com esta investigação conclui-se que a carreira na pornografia é uma escolha dos próprios indivíduos, mais do que uma imposição pela falta de emprego noutras áreas, ou, ainda, por situações desagradáveis vividas no passado, como abusos sofridos na infância. Ainda que, muitas vezes, seja o dinheiro a mover os/as participantes da indústria pornográfica, foi encontrado um outro fator de permanência igualmente pertinente, a realização profissional. Verificou-se ainda que os/as entrevistados/as consideram que, em Portugal, esta indústria não é extensa, sendo que alguns deles nem sequer consideram que exista uma indústria, devido à escassez de projetos e de produtoras a trabalhar nesta área. Tal facto leva a que muitos dos/das participantes da indústria pornográfica precisem, paralelamente, de ter outro emprego. Também por este motivo, o vínculo laboral destes/destas atores/atrizes é de freelancer. Um dado interessante, e que não se nota à primeira vista, é de que quase todos/todas os/as participantes são casados ou se encontram numa relação, manifestando um bem-estar ao nível das relações amorosas e, demonstrando, também, uma aceitação por parte dos seus cônjuges na sua escolha profissional. Isto parece importante para a realização profissional dos/as participantes no estudo, bem como para perceber que nem toda a população olha para a carreira na pornografia de forma preconceituosa e estigmatizada, aceitando que os seus próprios parceiros pertençam à mesma. Mais ainda, segundo os relatos dos/as participantes no estudo, os/as seus/suas parceiros/parceiras apoiam-nos no que respeita aos projetos pornográficos que integram, tal como sucede com indivíduos em outras áreas de trabalho, o pode levar, uma vez mais, a uma “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 44 perspetiva de escolha profissional aceite como igual às restantes opções laborais, quer pelos/pelas participantes, quer pelos/as seus/suas parceiros/parceiras. Foi, também, claro ao longo do estudo, e interessante, que os/as participantes, de forma espontânea, mencionaram, por diversas vezes, as atrizes, sem que as perguntas tivessem sido direcionadas para o sexo feminino. Isto está de acordo com a composição da indústria pornográfica, que é maioritariamente constituída por mulheres, podendo justificar exatamente a necessidade dos/das participantes focarem as mulheres para responderem a algumas questões, como, por exemplo, a questão dos rendimentos. Sobre este tópico, é interessante verificar que ele se coaduna com o encontrado no estrangeiro, ou seja, as mulheres recebem mais do que os homens e existem mais atrizes na indústria. Outro aspeto que é transversal a todos os/as participantes do estudo foi a perceção de que fora de Portugal esta é uma carreira melhor aceite, com mais ofertas de trabalho e onde se auferem melhores rendimentos. As questões que os/as entrevistados/as destacaram como sendo as mais negativas são relativas à crítica social, ao estigma e ao preconceito. Referidas ao longo de várias entrevistas, e em algumas mais do que uma vez, estas questões pareceram constituir as experiências mais negativas vividas pelos/as participantes da indústria pornográfica que entrevistamos. Embora não se pretendesse a generalização das conclusões obtidas, por se tratar de uma investigação de caráter qualitativo, é de referir que, dado o número de entrevistas conseguidas e as condições em que as mesmas foram realizadas não se concretizaram totalmente alguns dos objetivos propostos. Ainda assim, foi possível consubstanciar, em parte, esses mesmos objetivos, ainda que uns tenham sido mais concretizados do que outros. Deste modo, no caso do conhecimento das carreiras/percursos dos/das participantes da indústria ou da caracterização dos/das participantes e da indústria, parece que se conseguiu “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 45 uma melhor concretização dos objetivos propostos, do que no caso do conhecimento dos significados e sentidos que os/as participantes da indústria atribuem à sua carreira pornográfica ou do impacto, dos riscos e das consequências que a carreira na indústria pornográfica portuguesa tem nas suas vidas. Ainda assim, este estudo pode ser uma boa base exploratória para investigações futuras, nomeadamente pelo aprofundamento de algumas questões como por exemplo, os motivos de entrada na carreira, a questão do estigma e da forma como lidam com ele, os significados da sua experiência na indústria pornográfica ou a gestão da manutenção da carreira com outros empregos em simultâneo. Ao nível das limitações do estudo apresentado, de notar que o número de entrevistas foi reduzido, tendo implicações nos resultados obtidos e na interpretação dos mesmos, nomeadamente quando se tratavam de questões mais sensíveis, como a do estigma. As diferentes referências ao estigma tornaram interessantes os dados obtidos, mas a reduzida quantidade de respostas não permitiu que se aprofundasse mais este tema, nomeadamente compreender a questão de que para comportamentos similares houve diferentes posicionamentos quanto à existência ou não do fenómeno de estigmatização dentro da própria indústria. Mais do que o número reduzido de questões, foi também um constrangimento os contextos onde as mesmas foram realizadas, ambientes ruidosos, fazendo com que fosse impossível proceder à gravação, perdendo-se conteúdo verbal extremamente importante, ainda que se tenha tentado escrever tudo o que foi dito. Acrescentando-se ainda que o facto de as entrevistas terem sido realizadas num local onde os/as participantes estavam a trabalhar, tendo, por isso, reduzida disponibilidade de tempo, fez com que provavelmente algumas questões não tivessem sido tão aprofundadas, ou, pelo menos, da mesma forma que, talvez, se conseguisse aprofundar noutro contexto. Contudo, devido à dificuldade em aceder a esta população, esta foi a forma possível para se proceder à realização do estudo. Tudo isto, “Trabalham de livre vontade”: estudo exploratório sobre a realidade da indústria pornográfica 46 dificultou, por exemplo, a emergência de categorias, enfraquecendo a riqueza do estudo em questão. Finalmente, considera-se que se conseguiu dar uma visão desta indústria de uma forma menos estigmatizante, mostrando que as formas de entrada podem ser as mais variadas, mas não relacionadas com fatores negativos, antes pelo contrário, muitas vezes, relacionadas com uma progressão profissional. Além disso, verificou-se também a existência de consequências positivas ligadas com o ser-se atriz/ator/produtor/a pornográfico, o que, mais uma vez, aparece como um contributo para a diminuição do estigma associado a estas profissões. Tal pode contribuir para que se comece a reconhecer esta profissão como uma escolha normativa de carreira, sem que seja associada a abusos, ao consumo de drogas e a famílias desestruturadas, entre outros fatores, podendo ainda levar a que, no futuro, esta possa ser uma indústria com expressão significativa em Portugal e sem que os seus/suas participantes tenham de se esconder atrás dos seus empregos paralelos ou possam manter sem segredo uma carreira na pornografia. 47 Bibliografia Abbott, S. (2003). The glass headboard: Gender stratification in the porn industry. In Annual Meeting of the American Sociological Association, Atlanta Hilton Hotel, Atlanta, GA, 16 Bardin, L. (2011). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70. Bauer, M. & Gaskell, G. (2011). Pesquisa qualitativa, com texto, imagem e som (9.ª ed.). Petrópolis: Editora Vozes. Clarke, V. & Braun, V. (2013). Successful qualitative research: A practical guide for beginners. Londres: Sage. Bullough, V. L. (2003). On the history of pornography. Sexuality and Culture – Book Reviews, Winter 2003, p. 77-81. Canadian Medical Association Journal (CMAJ) (2011). Public health advocates push for safer sex in pornographic film industry. Canadian Medical Association Journal, March 22, 183 (5), p. E261-E262. Costa, R. (2008). Arte, cidade, erotismo e pornografia. Revista Cultura Visual, 11, p. 211219. Esteves, A. & Azevedo, J. (org.) (1998). Metodologias qualitativas para as ciências sociais. Porto: Instituto de Sociologia. Evans-DeCicco, J. A. & Cowan, G. (2001). Attitudes toward pornography and the characteristics attributed to pornography actors. Sex Roles, 44 (5/6), p. 351-361. Garlick, S. (2011).A new sexual revolution? – Critical theory, pornography, and the internet. 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Londres: Sage Publications. 55 Anexo 3: Apresentação e consentimento informado verbal Apresentação e consentimento informado verbal Boa tarde, o meu nome é Ana Sofia Fonseca, sou estudante da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, e no âmbito da minha dissertação de mestrado, orientada pela Professora Alexandra Oliveira, decidi investigar a indústria pornográfica portuguesa, a fim de perceber algumas questões relacionadas com esta carreira. A importância deste estudo prende-se com o facto de que não existem estudos portugueses deste cariz e a nível internacional, nos poucos estudos relacionados, tem-se incidido em questões relacionadas com o âmbito da saúde e das motivações para entrada, geralmente associados a problemas na infância, o que me pareceu redutor e me fez querer procurar outras respostas. Olhando para a indústria pornográfica como mais uma carreira de muitas que qualquer ser humano pode escolher, tendo como qualquer outra profissão vantagens e desvantagens, consequências e benefícios, entre muitas outras características, gostaria de conversar consigo e colocar-lhe algumas questões, sendo a sua participação voluntária, e por isso, livre de responder ou não a qualquer questão, podendo também cessar a entrevista a qualquer momento. É importante lembrar que os dados são anónimos. Gostaria assim de ter a sua autorização para proceder à entrevista. Gostaria ainda de lhe perguntar se me permite gravar a mesma, só e apenas para permanecer mais concentrada na conversa, contudo se não quiser tomarei notas. Tem alguma questão que gostaria de ver esclarecida? Podemos começar? 56 Anexo 4: Tabelas de categorização das respostas 4.1.Tabela 1: Carreira/percurso na indústria pornográfica Categoria Subcategoria Exemplos de respostas dos/das participantes 1. Formas de entrada na indústria (N=7) 1.1. Diretamente em filmes pornográficos (N=3) 1.1.1. Por iniciativa própria (N=2) “…vimos no jornal uma reportagem de uma nova produtora, procurámos na net, inscrevemo-nos como casal por brincadeira passado uma hora ligaram, dois dias fizemos o casting e numa semana o primeiro filme.” (P4) 1.1.2. Através de outra pessoa (N=1) “Entrei através de um colega.” (P3) 1.2. Passando por outras áreas (N=4) 1.2.1. Revistas (N=1) “…a Penthouse fez-me uma proposta na altura, (…) houve uma votação, o público votou em mim para ser miss Penthouse e a miss Penthouse, como as misses Penthouse internacionais têm que fazer um filme pornográfico associado à segunda Penthouse que vai sair.” (P1) 57 1.2.2. Filmes amadores (N=1) “Aos 15 anos já via porno e já queria fazer, fazia filmes caseiros, aos 18 anos consegui fazer upload dos meus filmes amadores. Fiz-me famoso daquela forma (…), então os nãos que levei são hoje para quem trabalho depois dos meus vídeos se tornarem famosos.” (P6) 1.2.3. Gestão de outros negócios (N=2) “Após trabalhar na TV Cabo, como gestor de produto da SporTV, Playboy e SexyHot, e ver os números de venda, aceitei uma proposta da HotGold, tornei a empresa líder enquanto diretor geral e gestor, abri o canal e a Penthouse, ao fim de cinco anos abri a PornLowCost da qual sou dono.” (P7) 2. Vínculos (N=7) 2.1. Sem vínculo: freelancers (N=7) “Podem trabalhar para vários porque não há produção suficiente para prender ninguém” (P2) 3. Facilidade para recusar ofertas de trabalho (N=6) 3.1. Não é fácil recusar (N=2) “Recusar não é fácil, quase não acontece, nós é que procuramos porque a oferta é muita. Recusei apenas uma vez.” (P6) 3.1. É fácil recusar (N=4) “Toda a gente pode recusar a ter aquela roupa ou maquilhagem. A mulher vai vender, se não gostar da imagem recusa. Antes de uma filmagem 58 enviam-nos um email com todas as indicações, tipo de cena, com quem, a história do filme, roupa, maquilhagem, aceitamos ou não.” (P4) 4. Motivos para permanecer na carreira (N=7) 4.1. Reconhecimento público (N=2) “Sempre gostei de ser conhecida e mantenho-me porque gosto (…) Não faltam amigos porque sou conhecida, é mais fácil ter namorado. Gosto que me conheçam...” (P3) 4.2. Realização profissional (N=3) “Quando entrei, entrei a 100%, quando fiz o primeiro filme gostei, decidi fazer carreira, ganhar prémios, (…), ser produtora” (P4) 4.3. Dinheiro, qualidade de vida e viagens (N=3) “… a revista a nu, é uma coisa que eu voltaria a repetir, é uma situação pontual que eu gosto de fazer exatamente porque eu gosto de mim, porque ganho dinheiro com isso…” (P1) “E pela qualidade de vida que nos proporciona.” (P6) 4.4. Sentimento de pertença (N=1) “Terminei oficialmente em Abril, em Setembro voltei, é quase uma família, sente-se saudades …” (P6) 59 4.2.Tabela 2: Significados atribuídos à carreira Categoria Subcategoria Exemplos de respostas dos/das participantes 1. Aspetos positivos (N=6) 1.1. Dinheiro (N=3) “Positivo é o cachê e a diversão.” (P5) 1.2. Acesso a cultura e conhecimento (N=1) “Aprendes muito de sexualidade, (…) a cultura com as viagens.” (P6) 1.3. Poder e estatuto (N=1) “… na indústria porno é a mulher que manda, porque o que vende é a mulher logo tem poder e estatuto.” (P4) 1.4. Liberdade e autonomia (N=1) “Carreira em que tu (…) fazes a tua própria agenda de trabalho.” (P4) 1.5. Amizade e “Espírito de equipa” (N=2) “…mas a nível positivo é o respeito, o companheirismo, a compreensão entre a equipa que é criada no filme.” (P1) 2. Aspetos negativos (N=7) 2.1. Estigma/Preconceito (N=3) “Negativo é a crítica social, seres considerada “puta” (P1) 2.2. Discordância por parte da família (N=1) “Negativo… A família não concorda.” (P3) 2.3. Excesso de horas em filmagens e as suas consequências físicas (N=2) “Às vezes são 8 a 12 horas de filmagens, às vezes os produtores são mais lentos, não se conseguem explicar bem. A nível sexual 60 depende do tamanho, pode magoar, também vai de aceitar ou não, ficas dorida. (P4) 2.4. Interferência nos relacionamentos pessoais (N=1) “Inter e intra relações afetadas, relação sexual abanada, relações amorosas difíceis, acabam.” (P6) 2.5. Carreira curta para as mulheres (N=1) “Negativo a carreira ser curta para as mulheres, para os homens pode durar até o membro funcionar.” (P5) 3. Significados (N=7) 3.1. Sentimentos relacionados com a participação na indústria pornográfica (N=3) 3.1.1. Não gosta (N=1) “…quando saíram não gostei da reação, sentime gozada, não me senti nada bem.” (P1) 3.1.2. Gosto pelo reconhecimento (N=2) “Dá-me gosto aparecer um filme (…) produzido por nós, não é diferente de um de animação, e de haver quem o veja.” (P2) 3.2. Como vivencia a profissão (N=4) 3.2.1. Dedicação (N=2) “Aqui em Portugal é mais um orgulho, (…) é uma missão, já não é uma brincadeira, é para “despreconceituar”.” (P6) 3.2.2. Como um negócio (N=2) “Podia-me esconder mas para [a empresa] ser entendida como negócio tinha de dar a cara” (P7) 4. Visão sobre a 4.1. Não há indústria (N=1) “Não há indústria por assim dizer, as pessoas que o fazem têm outras profissões.” (P2) 61 indústria pornográfica portuguesa (N=7) 4.2. Positiva (N=2) “Aqui é tudo feito com muita calma, as pessoas devem pensar que é uma “badalhoquice” mas não é. (…) Ou seja é tudo muito respeitador. “ (P1) 2.3. Em crescimento (N=4) “Mundo está a crescer, investidores estão a aumentar, lentamente vai andar, provavelmente só daqui a dez anos é que vai ser igual a lá fora.” (P6) 62 4.3.Tabela 3: Impacto da carreira na indústria pornográfica Categoria Subcategoria Exemplos de respostas dos/das participantes 1. Dificuldade em mudar de carreira (N=3) 1.1. Grande dificuldade (N=2) “Mudar de carreira é complicado, são despedidos de outros empregos muitas vezes.” (P7) 1.2. Não acontece a mudança de carreira (N=1) “…cada um deles tem a sua carreira profissional fora da indústria” (P2) 2. Ao nível pessoal (N=2) 2.1. Aumento de autoestima (N=2) “Autoestima aumenta, tens fãs, aprendes a relacionar-te com os outros (…) aprendes a não criticar tanto os outros.” (P4) 2.2. Maior nível de competências sociais (N=1) 3. Nas relações interpessoais (N=3) 3.1. Impacto positivo (N=1) “Não faltam amigos porque sou conhecida, é mais fácil arranjar namorado…” (P3) 3.2. Impacto negativo (N=2) “Tem impacto, as pessoas julgam-te sempre, embora possam confiar em ti dificilmente vão ser teus namorados porque todos os amigos e pessoas vão falar disso” (P1) 4. Riscos para a saúde psicológica (N=5) 4.1.Stress (N=5) “Stress é não haver um ordenado fixo, hoje estás na Alemanha, amanha em Espanha, a agenda é feita com um ano de antecedência. (P4) 4.2. Desgaste psicológico (N=1) “Depende da pessoa, mas há quem se deixe levar, imagina que 63 deixam de atuar, pensam que estão velhas, ou que há algum problema, desgaste psicológico” (P4) 5. Riscos para a saúde física (N=6) 5.1. IST (N=2) “As doenças a probabilidade é mínima porque fazem bateria de testes para fazerem sexo com alguém que não seja o parceiro.” (P2) 5.2. Relacionados com o consumo de drogas (N=2) “Drogas sim, principalmente nos colegas mais velhos, injeções para a ereção. (…) Cuidamos muito de nós, tomar drogas para crescer, o que tem consequências.” (P6) 5.3. Dores (N=2) “Agora dores físicas sim. É preciso gostar, não é para qualquer um.” (P5) 6. Estigma (N=7) 6.1. Entre os participantes da indústria (N=3) “Também existe, mas não é pelo que fazem, é por serem mulheres e as mulheres medem-se” (P2) 6.2. Estigma de fora da indústria (N=6) “És rotulada, e muitas vezes pelo nome do filme.” (P1) 64 4.4.Tabela 2: Perceções sobre as imagens existentes em relação à indústria pornográfica e aos seus participantes Categoria Subcategoria Exemplos de respostas dos/das participantes 1. Entrada na indústria e abuso sexual na infância (N=7) 1.1. Não está relacionado (N=7) “Se todas as pessoas abusadas fizessem filmes tínhamos muitos mais atores.” (P2) 2. Associação entre o consumo de drogas e a indústria pornográfica (N=6) 2.1. Não existe (N=4) “… é como os atores na televisão, há quem consuma e não, não tem a ver com a pornografia mas sim com a pessoa” (P4) 2.2. Existe (N=2) “Concordo plenamente, eu mesmo tomo.” (P6) 3. Existência de exploração sexual (N=7) 3.1. Não existe em Portugal (N=7) “Não existe exploração sexual. (…) nunca vi ou ouvi. Pode ter a ver com o amador, mas no profissional não, até têm agências.” (P7) 4. Valorização/desvalorização de quem trabalha na indústria (N=7) 4.1. As mulheres são valorizadas (N=2) “Elas são valorizadas por quem vê os filmes, normalmente os homens…” (P1) 4.2. Existe quem valorize e quem desvalorize (N=5) “Tens os que valorizam e os que desvalorizam.” (P6)