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O decréscimo da motivação da leitura dos alunos do 3º CEB: o papel da biblioteca escolar

Ana Filipa Dias Leite

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setembro, 2012 ANA FILIPA DIAS LEITE Orientação: Professora Doutora Ariana Cosme Projeto Final: Leitura, Aprendizagem e Integração das Bibliotecas nas Atividades Educativas L EITURA , C OMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO O decréscimo da motivação da leitura dos alunos do 3º CEB: o papel da biblioteca escolar. “Sonho com o dia em que as crianças que leem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.” Rúbem Alves, 2004 O prazer da leitura - Rubem Alves Rubem Alves Gaiolas ou Asas – A arte do voo ou a busca da alegria de aprender Porto, Edições Asa, 2004 I RESUMO O presente estudo procura encontrar respostas para o decréscimo de hábitos de leitura dos nossos jovens adolescentes, o porquê da desmotivação para ler, avaliar os seus gostos e preferências de leitura e perceber se as leituras que realizam o fazem por prazer ou por obrigação. Este obedece a uma estrutura tripartida. Num primeiro momento encontramos um enquadramento teórico, uma revisão da literatura sobre a questão da leitura (a definição do conceito de ler; a importância da leitura na formação do indivíduo; o processo ensino/aprendizagem da leitura e as diferentes metodologias; as dimensões e finalidades de leitura; a questão da motivação e criação de hábitos de leitura). O segundo momento incide num estudo empírico sobre os hábitos de leitura dos alunos do terceiro ciclo e sua motivação, com base na metodologia do estudo de caso. O terceiro e último momento é dedicado à importância da biblioteca escolar na promoção da leitura, ao papel do professor bibliotecário como agente mediador e sua atuação através de práticas de animação da leitura. Palavras-Chave: Leitura; Hábitos de Leitura; Motivação para a Leitura; Bibliotecas Escolares; Professor Bibliotecário; Animação da Leitura. II ABSTRACT This study wants to find answers to the decline of reading habits of our young teenagers, why they are not motivated to reading activities, to evaluate their reading habits and preferences and understand if their readings are a pleasure or an obligation. This follows a tripartite structure. The first phase is a theoretical framework, a literature review on the subject of reading issue (the definition of reading, the importance of reading in the development of a person, the teaching / learning process of reading and the different methodologies; The dimensions and purposes of reading, the question of motivation and the creation of reading habits). The second phase focuses on the empirical study of the reading habits of students, in their third cycle of studies, and motivation, based on the methodology of the case study. The third and final moment is dedicated to the importance of school library in promoting of reading habits, the role of the librarian teacher as a mediator and his performance practices through reading animation. Keywords: Reading, Reading Habits; Motivation for Reading, School Libraries, Librarian Teacher; Reading Animation. III AGRADECIMENTOS A elaboração deste trabalho foi conseguida pelo apoio de todos aqueles que estiveram do meu lado, que me incentivaram em mais esta etapa da minha vida, encorajando-me a continuar e a acreditar no meu trabalho Gostaria de agradecer à minha orientadora, a Professora Doutora Ariana Cosme pelas recomendações e orientações transmitidas que foram essenciais à elaboração do projeto. Às minhas amigas e companheiras Sónia e Romi que trilharam comigo este caminho, apoiando-me em todos os momentos, o meu muito obrigado. A todas as colegas que frequentaram esta Pós-Graduação pelos bons momentos de alegria, boa disposição, partilha e entreajuda. Agradeço igualmente à Direção do Agrupamento de Escolas Monsenhor Miguel de Oliveira, à minha coordenadora e colegas pelo reconhecimento do meu trabalho e por fazerem-me crer que vale a pena continuar. Por fim, agradeço o apoio incondicional da minha família, que continuam a ser o meu pilar, que estiveram sempre do meu lado, contribuindo para que eu tivesse a estabilidade emocional necessária nesta caminhada. 1 ÍNDICE Resumo .............................................................................................................................. I Abstract ............................................................................................................................. II Agradecimentos .............................................................................................................. III Índice ................................................................................................................................ 1 Introdução ......................................................................................................................... 2 1. Os Conceitos Ler e Leitura ................................................................................... 4 2. Dimensões da Leitura ............................................................................................... 5 3. Ensino da Leitura ..................................................................................................... 6 4. Motivação para a Leitura ........................................................................................ 10 5. Hábitos de Leitura .................................................................................................. 13 Capítulo II – Estudo Empírico ........................................................................................ 16 1. Apresentação do estudo empírico ........................................................................... 16 2Contextualização do Estudo Empírico ................................................................... 17 2.1 Meio Envolvente............................................................................................... 17 2.2. O Agrupamento/Escola.................................................................................... 18 2.3. A(s) Biblioteca(s) Escolar(es) ......................................................................... 19 3. Metodologias e procedimentos ............................................................................... 20 4. Instrumentos de recolha de dados ........................................................................... 21 4.1. O questionário.................................................................................................. 21 4.1.1. A amostra .................................................................................................. 21 4.2. Estatística da frequência e empréstimos da biblioteca escolar ........................ 33 4.3. Relatórios de autoavaliação da biblioteca escolar. .......................................... 35 5. Discussão dos resultados ........................................................................................ 38 Capítulo III – O papel da Biblioteca Escolar como dinamizadora da leitura ................. 41 1. Funções da biblioteca escolar ................................................................................. 41 2. O professor bibliotecário como mediador da leitura .............................................. 42 3. Atividades de animação da leitura .......................................................................... 44 Considerações Finais ...................................................................................................... 49 Bibliografia e Webgrafia ................................................................................................ 51 Anexos ............................................................................................................................ 54 2 INTRODUÇÃO “ A criança tem uma alegria infantil de aprender a ler. Basta um estímulo dos pais. Mas aí o que acontece quando vai para a escola? A leitura torna-se uma obrigação (…). A leitura devia ser para o adolescente tão boa como comer um doce de leite. A leitura tem que ser uma coisa doce, e não algo imposto. (…) Quem não ler como criança, não vai ler como adulto”. (Bamberger, citado por Carleti, 1999) São as palavras de Bamberger que exprimem a essência deste trabalho. A elaboração deste trabalho tem como principal motor a valorização da leitura, a promoção de hábitos de leitura, ao gosto, ao prazer de ler. A leitura é um dos principais meios de acesso ao conhecimento, ao saber. Ser alfabetizado é condição essencial para se integrar na sociedade em que está inserido, ser elemento ativo, ser construtor do seu próprio futuro. Ter aptidão de leitura é condição essencial para ingressar no mundo do trabalho, cada vez mais exigente e competitivo. O indivíduo começa desde a infância a entrar em contato com a leitura, com o escrito. Os textos vão surgindo na sua vida, no seu quotidiano de uma forma natural e gradual. A família é o primeiro agente impulsionador e motivador da leitura. É importante que os pais estimulem hábitos de leitura, que proporcionem momentos de contato com os livros, com o mundo das histórias, da magia, da criatividade, da imaginação. Ao estabelecer esse contato, os pais, os educadores, estão a permitir que a criança estimule o seu pensamento, o seu poder crítico e reflexivo. “Mas o que acontece quando vai para a escola?” É aqui que reside, na maioria das vezes, o problema da desmotivação da leitura. O ensino da leitura, o ensino descontextualizado, de reduzir o processo de ensinoaprendizagem da leitura a uma mera junção de letras, à dicotomia fonema/grafema está a “matar” o prazer de ler. A criança entra na escola ávida por aprender a ler, para ter autonomia para poder ler aquelas histórias que ouviu ler na sua infância, mas depressa essa alegria de aprender a ler se desvanece. Os atos de leitura vão sendo cada vez mais iguais, o processo é sempre o mesmo. 3 Onde está o estímulo? Onde está a motivação? Os momentos de leitura na escola vão muito mais na exploração, na disseminação do texto, do que na promoção do ato de ler. A leitura vai assumindo caráter de obrigatoriedade, sinónimo de aborrecimento e não de prazer, de fruição. Os anos vão passando e à medida que a criança avança no seu percurso escolar, a vontade de ler diminui, há uma quebra dos hábitos de leitura. O aluno chega à fase da adolescência e o tempo que ele dedica à leitura resume-se ao tempo em sala de aula, à leitura das obras de caráter obrigatório. A motivação perdeu-se, o gosto de ler desapareceu. Porquê? São estas questões que suscitaram a elaboração deste trabalho. É o facto de assistir diariamente a este decréscimo dos hábitos de leitura nos jovens que me preocupa, que me faz sentir impotente no meu papel de professora bibliotecária. A biblioteca escolar, o professor bibliotecário assumem uma importância na desconstrução desta realidade, na inversão desta tendência. O papel de mediador da leitura é crucial na procura do “doce de leite”. 4 1. OS CONCEITOS LER E LEITURA Ler é a capacidade de decifrar código escrito, interpretar, fazer inferências. Ler permite ter acesso ao conhecimento, ao saber, de forma a poder ser ativo, de participar na sociedade em que se insere. A capacidade de ler permite conhecer melhor o mundo que o rodeia e responder às solicitações da sociedade nos diferentes domínios. Ler é indispensável, independentemente da técnica, transmite cultura, saber, desenvolvendo o espírito crítico e formando cidadãos A automatização da habilidade de correspondência de fonema-grafema, o ritmo, a entoação. O respeito pelas regras de pontuação são fundamentais para desenvolver competências de bom leitor. São várias as teorias e perspetivas de estudo que estão na base da definição do conceito “Ler”. Díaz (1997) traduz algumas definições, das quais destaco as que considero que melhor demonstram a amplitude, a ambiguidade e as dimensões do termo:” - “Ler é compreender.” (Thorndike, 1917); - “Ler é uma atividade cognitiva complexa, mediante a qual o leitor pode atribuir significado a um texto escrito.” (Solé, 1989); - “Ler não consiste única e exclusivamente em decifrar um código mas que, além disso e fundamentalmente supõe a compreensão da mensagem que transmite o texto.” (Alonso-Matias, 1985); - “ A leitura é um processo de efeito cambiante, de caráter dinâmico entre o texto e o leitor. Autor e leitor participam no jogo da fantasia.” (Mcguinitie, 1982); - “A leitura é um processo altamente complexo. Implica a constante interação de processos percetivos, cognitivos e linguísticos, que, por sua vez, interagem com a experiência e os conhecimentos prévios do leitor, os objetivos da leitura e as caraterísticas do texto.” (Tébar, 1996). Para o próprio Díaz “Ler” implica compreensão, atribuição de sentido, uma relação dinâmica entre autor e leitor. O ato de ler pressupõe do sujeito uma interpretação e uma intenção. (Díaz, 1997, citado por Cardório, 2001, p.18) A leitura é indispensável ao acesso ao conhecimento, instrumento indispensável para o indivíduo ativo, construtor de uma sociedade com todos os seus valores. 11 documentais), de distrações (livro de desporto, etc.)”. (Bamberger, 1975, citado por Santos, 2000, p.72). A motivação relacionada com as diferentes fases do desenvolvimento é o outo tipo de motivação defendido pelo autor. Segundo ele o jovem leitor percorre cinco fases, caraterizadas pela preferência por um assunto ou género literário: - Primeira fase (entre os dois e os cinco/seis anos), designada por “Idade do livro, das imagens e das poesias infantis”. Esta fase corresponde ao período em que a criança perceciona o mundo em relação a si própria. Os livros de imagens ajudam a separar o “eu” do meio envolvente. As poesias infantis agradam a criança pelo jogo e ritmo das palavras e de sons; - Segunda fase (dos cinco aos oito/nove anos), a “Idade do conto de fadas”. É o mundo do maravilhoso, a criança identifica-se com as personagens. À medida que se vai distanciando, a criança aprecia este mundo do fantástico enquanto jogos de imaginação. - Terceira fase (dos nove aos doze), a “Idade da história relacionada com o meio envolvente ou da descoberta dos factos pela leitura”. Nesta fase a criança manifesta curiosidade perante as coisas que a rodeiam (aproximação ao mundo real, ao mundo concreto), que devem ser expostas sob a forma de histórias ou acontecimentos vividos. Quarta fase (entre os doze e os catorze/quinze anos), “Idade das histórias de aventuras”. É nesta fase que o jovem começa a tomar conta da sua personalidade. Agrada-lhe a intriga, o sensacional e por isso interessa-lhe os livros de aventuras, os romances com enredos sensacionalistas, os livros de viagens.` É nesta fase que recai o presente estudo. Uma faixa etária que compreende a entrada na fase da adolescência, fase em que se deixa de ser criança e se passa a ser jovem. Um jovem que quer romper com tudo o que lhe liga à infância, que se quer ir libertando, aos poucos, da autoridade dos pais para conquistar o seu próprio “território”. Quer viver a aventura, a descoberta de um mundo que ele imagina que existe e que quer descobrir, vivenciando tudo com grande intensidade. O mundo exterior, o desconhecido é o que o motiva, o ser diferente e fazer o que é diferente. A quinta e última fase (entre os catorze e os dezassete anos) “Os anos da maturidade ou do desenvolvimento da esfera literária e estética da leitura”. A nível psicológico, este é o momento da “descoberta do seu próprio mundo interior de egocentrismo crítico, de formação de um plano de vida e de diversas escalas de valor” (Bamberger, 1975, citado por Santos, 2000, pp. 73-74). 12 Ao nível da leitura centra-se mais ao nível do conteúdo do que ao desenrolar da intriga. Há uma curiosidade muito maior pelo “mundo interior”, do que pelo “mundo exterior”. Uma outra classificação associando a leitura às fases de desenvolvimento é a de Appleyard. O autor estabelece uma tipologia de leitores em consonância com as caraterísticas próprias de cada idade: a primeira infância: o leitor como jogador; infância tardia: o leitor como pensador; a adolescência: o leitor como pensador; a partir do ensino secundário: o leitor como intérprete e idade adulta: o leitor pragmático. A investigação no âmbito da motivação para a leitura estende-se à identificação dos fatores que desencadeiam essa motivação. Wigfield (1997) refere ao caraterizar a motivação para a leitura, que as seguintes dimensões devem ser tidas em conta: “as autoperceções do leitor e sentimentos de eficácia que influenciam as expetativas de sucesso; os afetos associados à leitura como a satisfação e o prazer, cuja influência se irá sentir em dimensões como o valor e interesses atribuídos à leitura.” (Wigfield, 1997, citado por Mata et al, 2009, p.564). O autor considera três vertentes que são fundamentais no estudo de motivação para a leitura: i) Motivação intrínseca e extrínseca – aspetos que permitem compreender as razões que subjazem à leitura; ii) Perceções de competência e eficácia – as avaliações que os sujeitos fazem das suas capacidades para desenvolverem atividades de leitura; iii) Motivação social – a leitura é uma atividade social que pode levar à partilha de ideias. Por sua vez, Palmer, Codling e Gambrek apontam quatro fatores motivacionais para a leitura: (Viana & Teixeira, 2002). i) As experiências anteriores com livros, isto é, uma leitura leva a outra leitura; ii) As interações sociais acerca dos livros. Os dados mostram que as crianças leem sobretudo os livros que os amigos, os pais e os professores sugerem; iii) A liberdade de escolha é também responsável pelo aumento da motivação, embora seja uma liberdade condicionada, na medida em que 13 as crianças escolhem dentro de um leque de sugestões fornecidas pelos amigos ou professores; iv) A facilidade de acesso aos livros. Realça-se aqui o papel das bibliotecas de turma, escolares e municipais. De facto não se aprende a ler sozinho, nem se aprende a gostar de ler sozinho; o papel dos mediadores (pais, professores, bibliotecários) é determinante para formar leitores. Torna-se fundamental a disponibilização de tempo para a prática da leitura com mediadores que sensibilizem para os hábitos de leitura, de modo a que as crianças e jovens valorizem e aumentem a sua motivação para ler. 5. HÁBITOS DE LEITURA Saber ler é interpretar mensagens necessárias à aquisição de conhecimentos nas diferentes áreas. A leitura abre caminhos, alarga horizontes. Falar de hábitos de leitura é considerar que a leitura é uma prática repetida ou prolongada que se instala na vida de uma pessoa; uma atividade contínua integrada nas atividades do quotidiano. É importante que os hábitos de leitura se iniciem muito cedo, nos primeiros anos de vida (os estudos comprovam que a criança pode ter contato com os livros logo a partir dos seis meses). A leitura de histórias ou ouvir contar histórias permite à criança desenvolver-se quer a nível cognitivo, quer afetivo. “Os hábitos transmitem-se de geração em geração e criam-se através de modelos, por isso pais que leem e valorizam o livro levam a que as suas crianças compreendam o papel e a importância da leitura e é provável que se venham a tornar bons leitores”. (Menezes, 2010, p.27). Os primeiros incentivos à leitura começa geralmente no seio familiar, mas o jardim-de-infância assume igualmente um papel importante nesta ação, sobretudo nos casos de não ter havido, por parte dos pais, esse estímulo. A escola tem a função de ensinar a ler, de desenvolver na criança a capacidade de leitura, estimulando, promovendo-a, de modo a que a leitura se torne um hábito, uma presença no seu quotidiano 14 Sobrino et al (2000) consideram que “a consolidação dos hábitos de leitura na infância é fundamental para o êxito escolar e que, portanto, a falta desses hábitos tem efeitos negativos no percurso escolar dos alunos.” (Sobrino et al, citado por Menezes, 2010, p.28). Os autores defendem igualmente a ideia de que “o hábito de ler é adquirido pela criança que teve a sorte de encontrar um clima propício na família, ou teve a dita de “tropeçar” num professor ou em alguma outra pessoa que lhe contagiou o gosto, o vício e o hábito da leitura.” (idem, pp.28-29). O presente estudo pretende conhecer os hábitos de leitura dos jovens adolescentes na faixa etária entre os doze e quinze anos. No entanto, antes de proceder ao estudo de caso propriamente dito, torna-se relevante fazer referência a alguns estudos já realizados sobre esta questão, de forma a tentar encontrar pontos de ligação, fatores e causas comuns que permita tirar conclusões e traçar caminhos. Menezes (2010) faz uma recolha de alguns estudos realizados à população portuguesa sobre os seus hábitos de leitura, no entanto centrar-me-ei na referência aos hábitos da população estudantil. No estudo Hábitos e atitudes de leitura dos estudantes portugueses, Castro e Sousa (1996) trabalharam com uma amostra de 1651 indivíduos dos segundo e terceiro ciclos do ensino básico e do ensino secundário, originários de todo o país, tendo os dados sido recolhidos através de um inquérito por questionário. Os autores concluíram que a leitura é uma prática valorizada positivamente pelos estudantes inquiridos. No entanto, esta prática e a atitude face à leitura decrescem à medida que se progride na escolaridade; de facto, se entre os estudantes do segundo ciclo do ensino básico são apenas 16,7% os que declaram "não gostar" de ler, essa percentagem é já de 30,2% entre os estudantes do ensino secundário. As práticas de leitura refletem esse mesmo desinteresse. O estudo mostra ainda que os jovens preferem outras atividades, como estar com os amigos, fazer desporto, ver televisão ou jogar jogos de vídeo, a ler. Verifica-se, entre os alunos dos grupos etários mais avançados um decréscimo muito acentuado da leitura como forma de ocupar o tempo livre. Outro estudo “Os estudantes e a leitura” (Lages et al, 2007), realizado no âmbito do Plano Nacional de Leitura demonstra que nos primeiro e segundo ciclos os alunos são leitores mais entusiastas. No segundo ciclo, verifica-se que 9 em cada 10 alunos afirmam gostar de ler, surgindo os livros juvenis, de aventuras e de banda desenhada no 15 topo das suas preferências. No terceiro ciclo, a percentagem de alunos que diz gostar de ler desce, com 29 % dos inquiridos a afirmar gostar pouco ou nada da leitura e quase 75% a reconhecer que quotidianamente não lê outros livros que não os escolares. No ensino secundário inverte-se a tendência e o gosto pela leitura aumenta, sendo mais acentuado nos estudantes que desejam prosseguir estudos. Ao refletir sobre estes dados, pode-se concluir que, analisando a população estudantil do primeiro ciclo ao ensino secundário) os hábitos de leitura e o gosto e o prazer de ler é mais visível nos primeiros anos de aprendizagem da leitura (primeiro ciclo), prolonga-se ao longo do segundo ciclo, sendo que o visível decréscimo dos hábitos de leitura ocorre no terceiro ciclo, voltando a serem recuperados com a entrada no ensino secundário. Está comprovado, deste modo, que é na entrada na adolescência que se verifica maior quebra nos hábitos de leitura, um desinteresse pelo ato de ler. Sobrino et al (2000) afirma que “a partir dos 13 anos costuma verificar-se uma certa desorientação nos jovens leitores. Muitos deixam de ler ou não encontram a leitura adequada.” (Menezes, 2010, p.40). Apesar de se constatar este problema, é fundamental que continue a existir um trabalho sistemático dos agentes mediadores da leitura, os pais, em primeiro lugar, os professores, os bibliotecários, os educadores em geral, em torno da promoção e valorização da leitura. 16 CAPÍTULO II – ESTUDO EMPÍRICO 1. APRESENTAÇÃO DO ESTUDO EMPÍRICO O gosto pela leitura, a formação de bons leitores está intimamente ligada às etapas de desenvolvimento e aos interesses literários. Mercedes Gómez del Manzano aconselha os pais e professores que desejem incutir o gosto de ler nos seus filhos ou alunos a conhecer a literatura infantil, de modo a poderem escolher as obras, que pelos temas, pela sua acessibilidade dos textos levem a criança a descobrir o prazer da leitura. Segundo Manzano “ tornar a criança e o adolescente aptos para o encontro com a literatura, requer um encontro adequado com a literatura escrita para eles.” (Manzano, 1988, citado por Santos, 2000, pp.74-75). Antigamente a fase da adolescência não era considerada, não havendo livros para estas idades. A fase da adolescência em que recai o estudo de caso compreende a faixa etária dos doze aos quinze anos. É uma fase problemática e de grandes mudanças, sendo que as que mais preocupam os jovens são as mudanças corporais. Os jovens passam por várias alterações a nível fisiológico, cognitivo e psicológico; tentam encontrar a sua identidade, definir a sua personalidade. Neste período, os jovens tentam libertar-se da tutela dos pais, aproximando-se exclusivamente dos amigos. Os estudos comprovam que é nesta fase que se observam as quebras de leitura. Se por um lado a leitura exige momentos de silêncio e de algum isolamento, os jovens necessitam de se divertirem, saírem com os amigos, de estarem envolvidos em eventos sociais, por outro lado a escola exige que os alunos leiam e desenvolvam a expressão escrita, logo daí advém uma incompatibilidade. Os jovens demonstram assim desinteresse pela leitura, seja ela de leitura obrigatória e orientada em sala de aula, ou leitura autónoma e recreativa. Toda a investigação nesta área ilustra a realidade da diminuição da motivação para a leitura por parte dos adolescentes que se traduz no desinteresse pelos livros, pela ausência da vontade de ler, pela ausência de hábitos de leitura. 17 O que leva a um adolescente perder o gosto pela leitura? Serão outros interesses, tão próprios desta idade que ocupam um lugar prioritário no seu quotidiano? Será que a oferta literária (disponibilizada pelas bibliotecas escolares, municipais, livrarias) não corresponde às áreas ou temas do seu interesse? Será que a televisão, o cinema substituíram o prazer de ler um livro? Será que a Internet e o computador, o mundo do digital não deixa tempo para a leitura? Poderão ser todas estas questões, ou só algumas que estão na base deste desinteresse, desta desmotivação pela leitura Quem serão os responsáveis? - Os pais que não estimularam a leitura nos primeiros anos de vida dos seus filhos, que não proporcionaram o contato com os livros, que não leram histórias? - Os professores que não incentivam o gosto pela leitura, que “matam” o prazer de ler pelo caráter obrigatório da leitura, pela imposição do currículo, deixando um pouco de lado a leitura recreativa? - Os bibliotecários, os professores bibliotecários e coordenadores da bibliotecas que não promovem atividades diversificadas e interessantes que incentivem e promovam a leitura? O presente estudo, trabalho empírico, pretende encontrar respostas para todas estas questões, sendo que se estas sintetizam-se em dois grandes objetivos de análise: 1º - Avaliar os hábitos e o gosto pela leitura dos jovens adolescentes (alunos do terceiro ciclo); 2º - O papel dos mediadores de leitura, em particular, a biblioteca escolar, na motivação e promoção da leitura. 2CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO EMPÍRICO 2.1 MEIO ENVOLVENTE O Agrupamento de Escola Monsenhor Miguel de Oliveira fica situado na freguesia de Válega, extremo sul do concelho de Ovar, que é a segunda maior em área (25,09 Km2) e a terceira em população, tendo vindo a registar-se uma diminuição do número de crianças em idade escolar. 18 A freguesia é atravessada pelo caminho-de-ferro - linha do Norte, pela Estrada Nacional nº 109, pela Autoestrada A1, pela A29 e pela estrada Ovar - Pardilhó. É uma vila com um passado histórico digno de algum registo e um estilo de vida que tem sofrido alterações significativas. Até há algumas décadas atrás, a sua população estava vocacionada para a agricultura, criação de gado e produção de leite, o que proporcionava às populações um nível económico satisfatório. Ultimamente, têm vindo a verificar-se alterações que se prendem com o abandono da agricultura a desertificação do interior, e com a fixação de novos agregados familiares que vêm para trabalhar em empresas do concelho e que aqui montam residência, dado o valor acessível dos terrenos. Há ainda a registar a fixação de uma comunidade cigana que frequenta a escola EB1 da Regedoura e também a EB2/3 Monsenhor Miguel de Oliveira. Verifica-se, assim, que existem zonas sociais distintas e que influenciam os vários estabelecimentos que formam o Agrupamento: uma zona quase exclusivamente residencial; outra onde a agricultura é um meio de vida e de subsistência; outra ainda de grande risco social, associada a famílias desestruturadas; e ainda uma zona de “exclusão social”, ligada à etnia cigana. (Agrupamento de Escolas Monsenhor Miguel de Oliveira, Projeto Educativo - 2010-2013, p.4) 2.2. O AGRUPAMENTO/ESCOLA O Agrupamento de Escolas de Ovar Sul foi constituído no ano letivo de 1998/99 e assume a designação do seu patrono – Monsenhor Miguel de Oliveira a partir deste último ano letivo (2011-2012). É composto por 5 Jardins de Infância, 6 Escolas do 1º Ciclo do Ensino Básico e a Escola dos 2º e 3º Ciclos Monsenhor Miguel de Oliveira (Escola sede). O corpo docente tem sido estável o que tem favorecido o desenvolvimento de projetos, e facilitado a continuidade pedagógica e o trabalho colaborativo. Trabalharam no Agrupamento, no referido ano letivo, 78 docentes (91% dos quadros) e 10 Técnicos AEC, 32 elementos do pessoal não docente (51,4% do quadro) e um psicólogo a meio horário que, além do SPO, colabora com a CPSE – Comissão de Promoção Sócio Educativa; com o GIA – Gabinete de Informação e Apoio ao Aluno (no âmbito da Educação para a Saúde) e na Equipa Técnico Pedagógica dos Apoios Educativos. 19 (Agrupamento de Escolas Monsenhor Miguel de Oliveira, Documento de Apresentação da Escola – Avaliação Externa 2011-2012, p.3). 2.3. A(S) BIBLIOTECA(S) ESCOLAR(ES) A biblioteca é definida como um serviço técnico-pedagógico, sendo por isso necessário estabelecer a sua articulação com os restantes serviços. Por outro lado constitui um recurso ao serviço da comunidade educativa, cada vez mais entendida numa forma mais ampla enquanto comunidade envolvente. Pretende-se que a biblioteca, fonte de difusão de informação, cultura e lazer possa ser ponto fulcral de aprendizagens, de acordo com debilidades diagnosticadas, articulando o trabalho pedagógico entre os departamentos curriculares, os conselhos de turma e as diferentes estruturas educativas, constituindo-se como suporte transversal na operacionalização dos currículos. As BE/CRE devem ser concebidas como um verdadeiro centro de recursos ao dispor de toda a comunidade escolar e ser encaradas como um complemento de sala de aula e de todo o processo ensino-aprendizagem. As Bibliotecas Escolares deste Agrupamento dispõem de uma coleção variada, incluindo documentos impressos e, ainda, software de natureza didática, DVD’s, cassetes de vídeo. O agrupamento integra as BE/CRE da Escola Sede - E. B. 2,3 Monsenhor Miguel Oliveira BE/CRE da EBE/CRE da EB 1 de S. João As referidas Bibliotecas/Centros de Recursos desenvolvem em conjunto um trabalho de cooperação com o objetivo de: - Criar condições de trabalho para a promoção do desenvolvimento curricular, de forma transversal e integrada, articulando as áreas disciplinares com as curriculares não disciplinares, através da operacionalização do Projeto Curricular de Turma; - Desenvolver e manter nas crianças e nos jovens o hábito e o prazer da leitura e da aprendizagem e também da utilização das bibliotecas ao longo da vida - Desenvolver o respeito pelo uso da propriedade comum, incutindo espírito de cooperação e partilha; - Proporcionar oportunidades de produção e utilização de informação para o conhecimento, compreensão, imaginação e divertimento; 20 - Providenciar acesso aos recursos locais, regionais, nacionais e globais de modo a promover o contacto dos alunos com ideias, experiências e opiniões diversificadas; - Contribuir para a diversificação de estratégias e métodos educativos, colaborando ativamente com os professores, grupos disciplinares e departamentos curriculares; - Divulgar e defender a ideia de que a liberdade intelectual e o acesso à informação são imprescindíveis à construção de uma cidadania efetiva e responsável e à participação na democracia. (Agrupamento de Escolas Monsenhor Miguel de Oliveira, Projeto Educativo - 2010-2013, p.39) 3. METODOLOGIAS E PROCEDIMENTOS Este projeto incide num modelo de investigação-ação, em que o professor é simultaneamente investigador. Parte-se de um dado problema em contexto real, e através de abordagens quantitativas/qualitativas obtemos dados que depois de analisados visam entender o problema inicial e à consequente mudança de práticas. O investigador envolve-se no objeto de investigação, procura entender a realidade, aliando a teoria à prática, no sentido de a mudar. Este tipo de metodologia assume um caráter de continuidade, de análise reflexiva que conduz a mudanças. A metodologia adotada foi o método quantitativo, recorrendo à aplicação de um questionário com a finalidade de conhecer os hábitos de leitura dos alunos do 3º ciclo, em particular as razões pelas quais se verifica uma quebra na motivação para a leitura nesta faixa etária. Aliada à aplicação deste questionário, o estudo de caso contou com dados estatísticos da biblioteca escolar (registos internos) relativamente à frequência e requisição de documentos (durante o período de setembro de 2009 a junho de 2012) de todos os alunos do agrupamento que possuem biblioteca na sua escola. Estes dados permitem não só avaliar o número de alunos leitores em cada ciclo, bem como os hábitos de leitura autónoma/recreativa. Por fim temos a apresentação dos dados recolhidos nos relatórios de autoavaliação da biblioteca escolar (no âmbito da Rede de Bibliotecas Escolares) referentes aos anos letivos 2009/2010, 2010/2011 e 2011/2012. Esses dados resultaram da aplicação de questionários aos alunos em três grandes domínios: Gestão da Biblioteca Escolar, Leitura e Literacia e Projetos e Parcerias. 27 Questionados sobre quem os influencia a ler, os alunos referem ser os professores os principais responsáveis (63%), seguido dos pais (17%). Os dados obtidos reforçam a ideia do papel da escola, dos professores, na criação, no estímulo, na promoção de hábitos de leitura e da valorização da importância da leitura na formação dos alunos. Ilustração 14 – Incentivo à leitura A maioria dos alunos inquiridos refere não comprar livros (54%). Os livros lidos por esses alunos são requisitados em bibliotecas públicas ou escolares e os livros que referem ter em casa (questão anteriormente analisada) poderão ter sido oferecidos. O facto de não comprarem livros pode estar muitas vezes associado à falta de motivação para a leitura. Não se sentido motivado a ler, não tem vontade em adquirir livros. Ilustração 15 – Compra de livros 84% dos alunos afirma não estar a ler nenhum livro atualmente. Sobre este aspeto é importante referir que o questionário foi aplicado durante o mês de junho (2012), coincidente com o términus do ano letivo. Mais uma vez se pode inferir que os hábitos de leitura obrigatória se encontram associados apenas às leituras de caráter obrigatório, aos livros propostos pelo programa de Português. Não se sentem motivados a ler livros para além do estritamente necessário. A obrigatoriedade é superior à fruição, ao prazer de ler. 4; 7% 10; 17% 38; 63% 8; 13% Quem te incentiva a ler? Os amigos Os pais Os professores Niguém 23; 46% 27; 54% Costumas comprar livros? Sim Não 28 Ilustração 16 – Percentagem de leitores atuais Apenas 8 alunos (16%) referem estar a ler um livro, uma percentagem mínima, sendo que dois dos títulos referidos “Os herdeiros da lua de Joana” e “Meia hora para mudar a minha vida” correspondem aos livros sugerido pelo programa e pelos docentes da disciplina de Português. Ilustração 17 – Título dos livros lidos O ato de leitura é um ato solitário. Os dados obtidos (74%) comprovam que os alunos não manifestam vontade em partilhar as suas leituras, dialogarem com os colegas/amigos sobre o conteúdo desses livros, sobre os seus gostos e preferências. Ilustração 18 – Partilha de leituras 8; 16% 42; 84% Atualmente estás a ler algum livro? Sim Não 2; 23% 2; 22% 1; 11% 1; 11% 1; 11% 1; 11% 1; 11% Se sim qual o título do livro? "O Último Segredo" "Os herdeiros da Lua de Joana" "Meia hora para mudar a miha vida" "Um longo caminho para o regresso a casa" "A fonte dos segredos" "Os jogos da fome" "Jane Eyre" 13; 26% 37; 74% Costumas partilhar as tuas leituras com os teus amigos? Sim Não 29 A questão “O que é para ti ler?” é reveladora. Os alunos consideram a leitura uma obrigação (48%), leem porque têm que ler, porque o professor de Português os avaliará sobre as leituras realizadas. A imposição dos programas, do currículo é visível. 35% dos alunos vê a leitura como um passatempo, uma forma de ocupar os tempos livres. Apenas 12% considera a leitura um prazer. Ilustração 19 – Opinião sobre “Ler” Os próprios alunos consideram que a maioria dos jovens não gosta de ler (76%). Também para eles esta realidade é visível. As suas respostas refletem a análise que eles fazem das suas atitudes, dos seus hábitos de leitura, mas igualmente pela observação dos seus colegas, dos seus comportamentos. Ilustração 20 – Opinião sobre o gosto dos jovens pela leitura São quase unânimes quando referem que o motivo dos jovens não gostarem de ler são “outros interesses (computadores, Internet, televisão, jogos, etc). De facto, hoje em dia, a Internet, os jogos preenchem a maior parte da vida dos jovens. Os tempos livres não são destinados à leitura; são outros os interesses desta faixa etária. Os restantes motivos referidos no questionário praticamente não são tidos em consideração; o preço dos livros é mesmo fator nulo. 26; 48% 9; 17% 19; 35% O que é para ti ler? Uma obrigação Um prazer Um passatempo 12; 24% 38; 76% Consideras que a maioria dos jovens gosta de ler? Sim Não 30 Ilustração 21 – Motivos de não gostar de ler O papel da biblioteca na motivação da leitura é reconhecido pelos alunos. Dos 50 inquiridos, 44 consideram “Importante” e “Muito Importante” a atuação da biblioteca escolar no incentivo à leitura, o que fundamenta todo o trabalho desenvolvido pela figura do professor bibliotecário em torno da promoção da leitura e literacia. Ilustração 22 – Grau de contribuição da biblioteca escolar na promoção da leitura À questão sobre a frequência da biblioteca escolar e uso dos livros por ela disponibilizada, 40% dos alunos refere frequentar a biblioteca escolar “apenas uma vez por período”. No entanto, a percentagem obtida poderia ser outra se houvesse separação 38; 93% 0; 0% 1; 3% 1; 2% 1; 2% Se respondeste Não, quais os motivos que levam os jovens a não gostarem de ler? Outros interesses (computador, Internet, televisão, jogos, etc) O preço dos livros Falta de motivação em casa Falta de motivação na escola Os livros destinados aos jovens são pouco interessantes Nada Muito 6 32 11 0 5 10 15 20 25 30 35 Grau de Contribuição da Biblioteca Escolar na motivação dos jovens para a leitura 31 entre “frequência da biblioteca escolar” e “uso dos livros”, pois a biblioteca escolar pode ser frequentada para outros fins. Ilustração 23 – Frequência da requisição de livros 26% frequenta a biblioteca escolar e usa os seus livros “uma ou duas vezes por semana”, sendo que “todos os dias” verifica-se apenas 10% dos alunos. Ilustração 24 – Frequência da biblioteca escolar e uso de livros A requisição de livros da biblioteca escolar, é na sua maioria, de 1 por período. Mais preocupante é a percentagem de 16% dos alunos que refere nunca ter requisitado livros na biblioteca escolar. Urge a necessidade de questionar esta situação, saber as razões, os porquês. A realidade terá de mudar, as práticas terão de ser outras. 0; 0% 3; 6% 2; 4% 7; 14% 30; 60% 0; 0% 8; 16% Costumas requisitar livros na biblioteca? Diariamente Semanalmente Quinzenalmente Mensalmete Um por período Nas férias Nunca 5; 10% 13; 26% 7; 14% 20; 40% 5; 10% Costumas frequentar a biblioteca da tua escola e usar os livros que ela disponibiliza? Todos os dias Uma ou duas vezes por semana Uma vez por mês Uma vez por período Nunca 32 Ilustração 25 – frequência de requisição de livros na biblioteca Por fim os alunos mencionam quais as atividades dinamizadas pela biblioteca escolar que contribuem para o aumento dos hábitos de leitura dos jovens, das quais salientam os “concursos de leitura” (35%) e a comemoração de datas (29%). As atividades destacadas são as que imprimem maior dinamismo à biblioteca escolar e que envolvem um maior número de participantes. Ilustração 26 – Atividades dinamizadas pela biblioteca escolar que contribuem para a promoção da leitura As atividades por eles sugeridas correspondem ao prolongamento dos seus passatempos “os videojogos”, que pretendem dar continuidade no espaço da biblioteca escolar. 0; 0% 3; 6% 2; 4% 7; 14% 30; 60% 0; 0% 8; 16% Costumas requisitar livros na biblioteca? Diariamente Semanalmente Quinzenalmente Mensalmete Um por período Nas férias Nunca 13; 11% 34; 29% 10; 9% 40; 35% 9; 8% 9; 8% Quais as ativividades dinamizadas pela Biblioteca Escolar que contribuem para aumentar os hábitos de leitura dos jovens? Divulgação de novidades Comemoração de datas (dia da biblioteca escolar, dia da poesia, semana da leitura, dia mundial do livro, etc) Divulgação do escritor/autor do mês Concursos de leitura Sessões sobre os livros Projetos de leitura com a turma/professor 33 Ilustração 27 – Sugestões de atividades de motivação para leitura a dinamizar pela biblioteca escolar 4.2. ESTATÍSTICA DA FREQUÊNCIA E EMPRÉSTIMOS DA BIBLIOTECA ESCOLAR O segundo instrumento de recolha de dados deste estudo de caso são os dados estatísticos da frequência das bibliotecas escolares e os empréstimos efetuados ao nível presencial, sala de aula e domiciliária. Estes dados mostram uma visão alargada do universo de amostra, pois abrangem os vários níveis de ensino, desde o 1º ao 3ºciclos, permitindo avaliar os hábitos de leitura dos alunos, das diferentes faixas etárias. 1º Ciclo 2ª Ciclo 3ª Ciclo Ano Letivo Nº A Nº L Nº DLR Nº DLO Nº A Nº L Nº DLR Nº DLO Nº A Nº L Nº DLR Nº DLO 20092010 174 174 2436 --- 148 60 47 49 165 60 95 140 20102011 143 143 2562 --- 130 115 260 210 162 121 119 384 20112012 127 127 2492 --- 120 108 352 72 173 104 52 215 Legenda: Nº A – Nº Alunos; Nº L – Nº Leitores; Nº DLRNº Documentos de Leitura Recreativa; Nº DLO – Nº Documentos de Leitura Obrigatória Da análise deste quadro podemos observar que é, sem dúvida, no 1º ciclo onde se verifica maior número de leitores. Podemos constatar igualmente que à medida que os alunos progridem para o ciclo seguinte há um decréscimo dos hábitos de leitura, pois diminuem o número de empréstimos efetuados. 4; 45% 2; 22% 1; 11% 1; 11% 1; 11% Que outras atividades sugerias que a biblioteca escolar dinamizasse de forma a motivar os jovens para a leitura? "Video-jogos" "Nenhuma" "Não sei" "Festas diárias sobre livros" "Apresentação de livros" 34 No 1º ciclo a percentagem do número de leitores é a mesma do número de alunos (100%). Todos os empréstimos contabilizados são de leitura recreativa. Os valores obtidos revelam que neste ciclo há o empréstimo de cerca de 14 livros por aluno. Verifica-se neste ciclo uma forte motivação para a leitura; existem hábitos de leitura autónoma e recreativa; o prazer de ler está presente. No 2º ciclo os valores são ligeiramente mais baixos, mas o número de leitores tem vindo a aumentar. No ano letivo 2009/2010 o número de leitores era de 40,5%, em 2010/2011 de 88,4% e neste último ano de 90%. Não se verifica a percentagem do 1º ciclo (100%), mas existem ainda hábitos de leitura. A leitura recreativa consegue ainda ter valores superiores à leitura de caráter obrigatório (à exceção do ano letivo 2009/2010). Os alunos cultivam hábitos de leitura adquiridos na educação pré-escolar e 1º ciclo. Analisando o 3º ciclo, os dados obtidos ilustram a problemática do presente estudo. A percentagem de alunos leitores diminuiu cerca de 20% em relação ao 2º ciclo e 30% em relação ao 1º. No que concerne aos empréstimos efetuados, a percentagem dos livros requisitados destinam-se à sala de aula e às leituras de caráter obrigatório. A leitura recreativa tem ainda lugar, mas em menor percentagem. Se efetuarmos uma análise global concluímos que os hábitos de leitura, a motivação, o prazer de ler encontram-se no 1º ciclo. Os alunos leem em média 1 a 2 livros por semana, excetuando as leituras em sala de aula. No 2º ciclo os níveis de leitura são mais baixos, mas a leitura recreativa é ainda em número superior à leitura de caráter obrigatório. No 3º ciclo a situação é mais preocupante, pois não só a percentagem do número de leitores é menor, como também as leituras por eles realizadas são na sua maioria de caráter obrigatório. A leitura recreativa é deixada para segundo plano. Parece-me importante realçar aqui o enorme papel dos professores, sobretudo os de Português, do professor bibliotecário que impulsionam a leitura, que estimulam a criação de hábitos de leitura. Perante estes resultados, podemos concluir que se não fossem as leituras de caráter obrigatório (a imposição dos programas/ do currículo) muitos destes alunos não leriam um único livro por sua iniciativa/autonomia. 35 4.3. RELATÓRIOS DE AUTOAVALIAÇÃO DA BIBLIOTECA ESCOLAR. Os relatórios de autoavaliação da biblioteca escolar (elaborados de acordo com o modelo da Rede de Bibliotecas Escolares) também permitem validar alguns dados anteriores (os instrumentos de recolha já referidos) obtidos em diferentes momentos. Destes relatórios relativos aos três últimos anos letivos (2009/2010; 2010/2011; 2011/2012) foram retirados os dados que melhor ilustram a temática abordada. Os dados abrangem um universo de alunos do 2º e 3º ciclos: No ano letivo 2009/2010 a amostra compreendia 39 alunos: Frequento o ano de escolaridade seguinte: 5.º 8 20.5% 6.º 11 28.2% 7.º 9 23.1% 8.º 6 15.4% 9.º 5 12.8% No ano letivo 2010/2011 a amostra era de 34 alunos: . Frequento o ano de escolaridade seguinte: 5.º 6 17.6% 6.º 7 20.6% 7.º 9 26.5% 8.º 9 26.5% 9.º 3 8.8% No ano letivo 2011/2012 a amostra era de 45 alunos: . Frequento: Ensino Básico: 5.º 8 19.5% 6.º 8 19.5% 7.º 8 19.5% 8.º 9 22.0% 9.º 8 19.5% Relativamente à frequência da biblioteca escolar e requisição de livros e outros materiais, podemos constatar que no ano letivo 2009/2010. 59% dos alunos vai uma ou duas vezes por semana à biblioteca e 41% todos os dias. Vais à biblioteca escolar (BE): Todos os dias 16 41.0% Uma ou duas vezes por semana 23 59.0% No ano 2010/2011 há uma maior diversidade de respostas, no entanto a percentagem continua na frequência de uma a duas vezes por semana (39,5%). Vais à biblioteca escolar (BE) ou usas os livros e revistas que ela oferece: Todos os dias 10 26.3% Uma ou duas vezes por semana 15 39.5% Uma ou duas vezes por mês 2 5.3% Uma ou duas vezes por período 5 13.2% Muito raramente e de forma irregular 5 13.2% Nunca 1 2.6% 36 A requisição de livros é, na sua maioria, uma ou duas vezes por cada período (33%), o que demonstra haver consonância de resultados comparativamente aos obtidos no questionário. Requisitas livros para ler? Diariamente 2 5.6% Uma ou duas vezes por semana 5 13.9% Uma ou duas vezes por mês 11 30.6% Uma ou duas vezes durante cada período 12 33.3% Muito raramente ou nunca, porque a BE não tem os livros de que gosto 1 2.8% Muito raramente ou nunca, porque em casa arranjo os livros de que gosto 5 13.9% O período de aulas é o tempo dedicado à leitura (97%). Apenas 3% afirma fazêlo durante as férias. O período de aulas é o momento propício à leitura de caráter obrigatório e não à leitura recreativa, leitura associada ao lazer, aos tempos livres. Se requisitas livros, quando é que o fazes? Durante o período de aulas 32 97.0% Nas férias de Verão 1 3.0% Se observarmos os dados obtidos no questionário verificamos que os alunos só leem em tempo de aulas, pois o questionário foi aplicado no final do ano letivo (junho 2012) e apenas 8 dos inquiridos responderam que atualmente estavam a ler um livro, mencionando o seu título. No ano letivo 2011/2012 o panorama foi igual (59,1%) dos alunos também afirma que frequenta a biblioteca escolar uma ou duas vezes por semana. Com que frequência costumas usar a biblioteca escolar (BE) para além das atividades letivas? Todos os dias. 11 25.0% Uma ou duas vezes por semana. 26 59.1% Uma ou duas vezes por mês. 4 9.1% Uma ou duas vezes por período. 1 2.3% Muito raramente e de forma irregular. 2 4.5% Os motivos pelos quais os alunos frequentam a biblioteca são variados, sendo que a utilização da Internet é a que mais percentagem obteve (32,6%). A frequência da biblioteca para ler obteve apenas 9,3% das respostas. Com que objetivos mais utilizas a biblioteca fora do período de aulas? . Requisitar livros ou outros materiais para casa. 6 14.0% Ler o que me apetece. 4 9.3% Jogar. 5 11.6% Ver um filme. 4 9.3% Utilizar a Internet. 14 32.6% 43 uma equipa tão adequada quanto possível, trabalhando em conjunto com todos os membros da comunidade escolar e em ligação com a biblioteca pública e outras.” (IFLA, 2002, p.11). Segundo o Manifesto o bibliotecário tem como função contribuir para a missão e objetivos da escola. Trabalha colaborativamente com os órgãos de gestão, direção e administração da escola e com os professores, envolvendo-se no desenvolvimento curricular, nas literacias de informação e comunicação e na promoção da leitura. A função de professor bibliotecário foi criada institucionalmente pela Portaria nº 756/2009, 14 de julho, artigo 3º. Ao professor bibliotecário cabe a função de assegurar o serviço de biblioteca a todos os alunos; articular os objetivos da biblioteca com os projetos da escola/agrupamento (Projeto Educativo, Projeto Curricular de Escola e Projetos Curriculares de Turma); assegurar a gestão dos recursos humanos e materiais afetos à biblioteca; definir/operacionalizar uma gestão dos recursos de informação, de modo a integrá-los nas práticas de professores e alunos, apoiando as atividades curriculares, de forma a desenvolver as competências de informação e comunicação; apoiar as atividades livres extracurriculares e de enriquecimento curricular, integrando-as no Plano de Atividades e no Projeto Educativo de Escola/Agrupamento; estabelecer parcerias, trabalho colaborativo com entidades locais; implementar processos de avaliação (com a elaboração de um relatório anual); representar a biblioteca escolar em Conselho Pedagógico. “ Ao professor bibliotecário são atribuídas muitas funções, que obrigam a desenvolver uma série de competências pessoais em diversos domínios (técnico, afetivo, literário, psicologia, filosofia, informática, tentando que cada encontro com uma criança seja o início de um final feliz com a biblioteca e os seus mistérios”. (Figueiredo, 2006, p.104). O professor bibliotecário assume-se como mediador, agente motivador, promotor da leitura. Ele tem a constante missão de despertar o gosto pelos livros, o prazer de ler. É fundamental que o professor bibliotecário seja amante da leitura e dos livros, pois só assim consegue transmitir o gosto de ler. Ele terá de criar no seu espaço, a biblioteca escolar, uma relação de “intimidade” entre os alunos e os livros; uma relação que passe do simples contato a uma interação 44 constante. Essa relação deverá ser reforçada pela realização de atividades de dinamização da leitura Sobrino (2000) define um bom bibliotecário como aquele que “conversa com as crianças sobre as sua s leituras, anima, sugere e orienta, mas sem perder de vista que nunca pode cercear a liberdade de escolha dos livros, e muito menos a liberdade de ir ou não ir à biblioteca”. (ibidem). 3. ATIVIDADES DE ANIMAÇÃO DA LEITURA São vários os estudos que comprovam que a biblioteca escolar é sinónimo de promoção da leitura. Balça (2011) refere algumas conclusões dos estudos de investigação sobre a importância da existência de uma biblioteca escolar na promoção da leitura: Para Lage Fernández (1999) é fundamental o desenvolvimento de boas bibliotecas uma vez que “nelas se encarnam o embrião da formação literária dos jovens e de consolidação dos seus hábitos de leitura”. Calisto (1996) considera que é nas bibliotecas escolares que os jovens podem ganhar o gosto pela leitura e pelos livros, tornando-se um hábito quotidiano e de ocupação dos seus tempos livres. Para Silva (2002) as bibliotecas devem “enraizar” o gosto pela leitura nos alunos, tendo em conta os seus interesses e necessidades, proporcionando-lhes um ambiente que os oriente, esclareça e motive. Segundo Veiga et al. (2001) a biblioteca escolar deve não só estimular o prazer de ler nos alunos, mas também levá-los a associar a leitura e frequência da biblioteca à ocupação dos seus tempos livres. Sim-Sim e Ramalho (1993) concluíram que os recursos existentes na biblioteca, a disponibilização de livros e revistas de acesso à comunidade poderão ser fatores determinantes nos hábitos de leitura dos alunos. A dinamização da biblioteca escolar deve, entre outros objetivos, estar orientada para a promoção e estímulo da leitura. Dinamizar a leitura é dar alma, vida aos textos, ao ato de ler. Todas as atividades de animação da leitura devem ter como ponto de partida o leitor, devem ser planificadas em torno dos participantes. Elas assumem-se como encontros entre os leitores e os livros que visam a criação de hábitos de leitura. 45 As atividades desenvolvidas pela biblioteca escolar devem incentivar e estimular o gosto pela leitura, os hábitos de leitura autónoma; desenvolver o pensamento, a criatividade, a imaginação, a formação literária e cultural; desenvolver competências de expressão oral, escrita e comunicativa. Silva (2002) enumera várias atividades de dinamização da biblioteca escolar, de acordo com os seus objetivos e finalidades. De entre essas atividades realço as que melhor contribuem para a promoção e criação de hábitos de leitura: - Apoiar os projetos da escola, fornecendo bibliografia e materiais a alunos e professores; - Aproveitar os expositores ao serviço da leitura, expondo as novidades, as aquisições recentes, promovendo atividades, destacar livros, autores; - Realizar exposições temáticas, divulgando o fundo documental; - Sessões de trabalho “ O que fazer com o livro?” – sessões de esclarecimento sobre a constituição de um livro, de como tirar apontamentos, sublinhar, citar bibliografia, dar opinião sobre um livro, conhecer a sua ficha técnica; - Sessões de trabalho sobre a biblioteca, onde se promove a visita livre para requisições, empréstimo para a leitura; - Sessões de trabalho “Como ler um livro”; - Celebração de efemérides que são do interesse dos alunos, dinamizando a biblioteca escolar, criando oportunidades de leitura; Dinamização de clubes de leitura que visam desenvolver os hábitos e o gosto pela leitura. Nesses clubes poderão ser debatidos os livros lidos, as conclusões que cada leitor retira dos livros que leu; - Elaboração de fichas de leitura. Os alunos elaboram fichas de leitura dos livros que leem, registando as suas conclusões, citações; - Realização de atividades sobre temáticas pertinentes (por exemplo ligadas à saúde, ambiente, direitos humanos), convidando especialistas para abordarem esses temas, de forma a que os alunos criem hábitos de pesquisa, de consulta de documentação, recorrendo às leituras; - Elaboração do boletim informativo da biblioteca, onde se incluem as novidades, as notícias das atividades a decorrer e o balanço das já realizadas; - Sessão sobre “O livro que não me esqueci”, onde alguém falará sobre o livro que não esqueceu, que o marcou, recorrendo à sua leitura. Poderão ser convidados 46 pessoas da comunidade local, incentivando os alunos à leitura. Estes livros devem ser adquiridos e disponibilizados pela biblioteca; - Colaboração com o jornal escolar. A biblioteca deve ter um espaço no jornal da escola, divulgando notícias das atividades realizadas, das que colaborou, referir publicações recentes, documentos, de modo a incentivar a frequência da biblioteca; - Elaborar frases sugestivas sobre a leitura. Colocar frases alusivas à biblioteca nos locais mais frequentados da escola (bar, cantina, corredores); - Preparação de visitas de estudo relacionadas com as temáticas estudadas, fornecendo bibliografia sobre os locais a visitar e outra documentação. Nesses momentos poderão ser debatidos assuntos relacionados com as leituras realizadas, motivando a outras; - Realização de feiras do livro nas escolas que deverão ser alargadas a toda a comunidade, onde se promove encontros de gerações em torno da leitura; - Realização de leituras por centros de interesse. Descobrir os interesses de cada aluno, disponibilizando documentos, propostas leituras para posterior partilha; - Promoção de representações teatrais, tomando como referência obras integrais estudadas em sala de aula. A leitura de textos teatrais funcionam como motivação à leitura de outros textos; - Sessões de declamação de poesia de poesia de autores estudados nas aulas ou que se destacaram, dando realce à sua obra; - Iniciativas que promovam “o livro da semana”, “o livro do mês”; - Concursos de leitura e escrita promovidas pela biblioteca com a colaboração de toda a comunidade educativa; - Encontros com escritores e ilustradores em sessões com alunos, promovendo a interação; - Realização de sessões de leitura, seguidas de debate, recorrendo a alunos como moderadores; - Realização de encontros “Chá com livros”, destinados a toda a comunidade. Cada participante falará sobre um livro, ao mesmo tempo que é servido um chá. Estes livros devem posteriormente ser adquiridos pela biblioteca; - “Comentários de leitura”, em que cada aluno escolhe um livro para ler e durante trinta minutos fará um comentário sobre a leitura. Nesta atividade desenvolvemse não só os hábitos de leitura, como também o espírito crítico e a objetividade; 47 - Circulação de “Caixas/baús de leitura” em locais onde os livros não são tão comuns e junto daqueles que não têm acesso direto às bibliotecas; - Abertura da biblioteca a pais/encarregados de educação, promovendo a sua colaboração na dinamização de atividades conjuntas, pois eles exercem uma enorme influência na criação de hábitos de leitura dos seus filhos/educandos. O projeto SIMBE (Sistema Municipal de Bibliotecas Escolares e Formação de Leitores – Fortaleza, Brasil) sugere, para além de algumas anteriormente referidas, atividades de animação da leitura, onde se associam diferentes formas de expressão e articulação de saberes: - Dramatização de pequenos textos, recorrendo à pintura, ao desenho de personagens, ao origami; - Ouvir as histórias de vida de cada aluno; - Teatro de fantoches, de sombras, trava-línguas, lendas; - Leituras com acompanhamento musical; - Elaboração de textos através de uma sequência lógica de imagens e/ou livros só com ilustração; - Elaboração de textos coletivos (atividade de turma); - Elaboração de bandas desenhadas; - Realização de “Saraus Literários” com envolvimento da comunidade educativa; - Incentivo à elaboração de livros com textos da autoria dos alunos e posterior publicação; - Realização da atividade “Livros que viraram filmes”. Projetar esses filmes na biblioteca, disponibilizando os livros que serviram de base aos filmes, promovendo debates sobre as duas formas de se divulgar uma obra; - Ampliar e renovar o fundo documental através de campanhas de doação de livros, por exemplo “No Natal ofereça um livro à biblioteca”; - Elaboração de um mural da biblioteca, onde os alunos colocam sugestões de leitura, fazem a promoção de livros, aproximando muito mais os alunos da biblioteca; - Criação de grupos de “Contadores de Histórias”, onde os “contadores são os alunos que irão contar histórias a outras turmas; - Divulgação do “leitor do mês”, “leitor do ano, premiando-o”; - Elaboração de marcadores de livros pelos alunos (estimulando a criatividade e imaginação); 48 - Elaboração de “Caixas de Sugestão” onde os alunos deixarão as suas ideias e sugerem atividades. A esta lista de propostas de dinamização de leitura acrescento algumas atividades sugeridas por Sobrino (2000), a que autora dá o nome “técnicas de animação da leitura” que considero serem interessantes para colocar em prática com o 3º ciclo (Machado, 2012, pp.86-87) : - Álbum de cromos serve para popularizar as personagens dos livros, que deverão ser selecionados inicialmente de acordo com o gosto dos alunos. Consiste em ir formando uma coleção de cromos com diversas personagens de livros e de contos que existam na Biblioteca. Os alunos selecionam os livros e o animador organiza o álbum de acordo com as histórias escolhidas, deixando o espaço para colar os cromos ilustrativos de cada história; - O conto proibido consiste em levar para a sala um livro, mas não o expor visivelmente. A ideia é deixar os alunos intrigados até ao dia em que se começa a lê-lo, descobrindo o seu conteúdo dia após dia. - A maleta do indiano consiste em levar vários objetos vulgares e exóticos ou cartas com ilustrações, palavras e frases, dentro de uma mala e fazer com que a partir de um objeto se inicie uma história. Esta evoluirá quando outro aluno tirar outro objeto e assim por diante até a mala ficar vazia. As atividades de animação da leitura visam essencialmente incutir o gosto pela leitura, incentivar a ler, promover o contato dos alunos com os livros. Dinamizar a biblioteca em torno da promoção da leitura é transformar aquele espaço em salas de teatro, de cinema, de arte, de música, espaço onde se cruzam saberes, onde se partilham ideias, gostos, interesses, mas sempre em função de criar ambientes que despertem o prazer de ler. 49 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegada a esta última etapa do trabalho, é o momento de refletir sobre o percurso traçado neste “pequeno” trabalho de investigação. É importante registar a enorme satisfação de ter podido realizar um trabalho que viesse ao encontro da ânsia, como professora bibliotecária, em encontrar respostas para tantas dúvidas e questões que assolaram a minha mente nestes últimos três anos de exercício do cargo de coordenadora de três bibliotecas de um agrupamento de escolas. Ser profissional, eficiente, capaz de corresponder às necessidades de uma comunidade educativa em prol da leitura e da literacia me fez inscrever no Curso de Pós-Graduação “Leitura, Aprendizagem e Integração das Bibliotecas nas Atividades Escolares”. O envolvimento e entrega ao meu trabalho faz-me a todo o momento equacionar as minhas práticas, as metas traçadas, as estratégias a implementar em prol do sucesso educativo, do trabalho cooperativo e formação global dos meus alunos. São estes os princípios pelos quais me rejo e pauto a minha atuação de docente promotora das diferentes literacias. Os hábitos de leitura, a motivação, o gosto, o prazer de ler são premissas que defendo. Deste modo, a constatação diária do decréscimo dos hábitos de leitura nos alunos do terceiro ciclo, da ausência do prazer de folhear um livro, da curiosidade de chegar ao fim, de saber o final da história é para mim uma situação preocupante. Numa tentativa de encontrar respostas, de aprofundar conhecimentos sobre esta temática conduziu-me a elaboração deste trabalho, de forma a poder averiguar os verdadeiros motivos deste decréscimo de hábitos de leitura, o porquê desta situação nesta faixa etária, conhecer um pouco mais sobre as preferências de leitura destes alunos, quais os seus gostos e interesses, de que forma o seu ambiente familiar é coadjuvante no processo de estímulo à leitura, ou se pelo contrário, o professor está sozinho nesta árdua tarefa de motivar para a leitura, de reavivar velhos hábitos, que num percurso escolar foram perdidos. A revisão da literatura sobre esta temática permitiu-me aprofundar conhecimentos sobre o quão importante é a leitura, o seu enorme papel na formação de um indivíduo, do seu alcance enquanto elemento fulcral de integração e intervenção da sociedade, de sinónimo de ascensão social, enquanto meio veiculador do saber e da 50 cultura. Aqui estarão presentes as diferentes dimensões/finalidades da leitura (formativa, informativa, socializadora e lúdica). A investigação no campo da psicologia elucidou-me relativamente aos diferentes estádios de desenvolvimento da criança e da forma como estes estão intimamente ligados ao desenvolvimento da motivação da leitura. São igualmente condicionantes do processo de ensinoaprendizagem da leitura, tendo por base os diferentes modelos (“bottom-up”, “top-down” e interativos) e a forma como se operacionalizam. As questões da motivação para a leitura e a criação de hábitos de leitura foram importantes para perceber o porquê da desmotivação e da inexistência ou decréscimo de hábitos de leitura. Esta fundamentação teórica foi fundamental para a análise e interpretação de dados dos diferentes instrumentos de recolha do estudo empírico realizado. Perante situações concretas foram levantadas hipóteses e discutidos resultados, com o intuito de encontrar respostas. O estudo empírico, baseado na metodologia de investigação-ação, visa mudança de práticas, práticas enquanto professora bibliotecária, mediadora da leitura. Estas mudanças visam a definição de estratégias de forma a obter resultados concretos e interventivos. Surgem aqui as atividades de dinamização da biblioteca escolar, de animação da leitura. A motivação e a criação de hábitos de leitura só se verificam se houver um trabalho prévio de promoção e incentivo, envolvendo os alunos nesse trabalho de animação, de contato com os livros. 51 BIBLIOGRAFIA E WEBGRAFIA Antão, J. A. (1997). Elogio da Leitura. Porto: Edições Asa. Balça, Â., & Fonseca, M. A. (2012). Os docentes e a biblioteca escolar: uma relação necessária. Revista Lusófona da Educação , pp. 65-80. Baleiras, A., Almeida, É., Simões, M., & Palma, M. G. (1995). Gostar de Ler - Os Livros e a Escola Um Caminho para o Sucesso Escolar. Lisboa: Editorial do Ministério da Educação. Bastos, G. (1999). Literatura Infantil e Juvenil. 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