A teoria verbal nas duas edições portuenses da Gramática inglesa de José Urcullu : pistas para uma abordagem contrastiva do Português e do Espanhol
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Dos Autores de Manuais aos Métodos de Ensino das Línguas e Literaturas Estrangeiras em Portugal (1800-1910) Sónia Duarte Fátima Outeirinho Rogelio Ponce de León Luís Alberto Marques Alves Ausenda Babo Luzia Blard Maria Hermínia Amado Laurel Daniel Coste Sónia Duarte Juan F. García Bascuñana Monica Lupetti Fernando Carmino Marques Fátima Outeirinho Alicia Piquer Desvaux Rogelio Ponce de León Romeo Maria José Salema ORGANIZAÇÃO: ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA PARA A HISTÓRIA DO ENSINO DAS LÍNGUAS E LITERATURAS ESTRANGEIRAS Dos Autores de Manuais aos Métodos de Ensino das Línguas e Literaturas Estrangeiras em Portugal (1800-1910) A.P.H.E.L.L.E. CENTRO DE LINGUÍSTICA DA UNIVERSIDADE DO PORTO Dos Autores de Manuais aos Métodos de Ensino das Línguas e Literaturas Estrangeiras em Portugal (1800-1910) Sónia Duarte; Fátima Outeirinho; Rogelio Ponce de León O manual escolar no quadro da História Cultural Luís Alberto Marques Alves O ensino das línguas estrangeiras em Portugal, do século XVIII ao início XX, através da análise de anúncios publicitários em jornais da época Ausenda Babo L’importance de l’expérience personelle et des sens dans l’apprentissage du français. Introduction aux livres Le français par l’observation sensible et Le français par l’observation réfléchie, de G. Rudler e N. Berthonneau Luzia Blard e Maria Hermínia Amado Laurel Quelques aspects historiques et synchroniques des forces en jeu dans le domaine de la didactique e de l’enseignement des langues Daniel Coste A teoria verbal nas duas edições portuenses da Gramática inglesa de José Urcullu: pistas para uma abordagem contrastiva do Português e do Espanhol Sónia Duarte Regard sur la démarche relative à l’elaboration d’un répertoire historique de manuels pour l’enseignement du FLE en Espagne Juan F. García Bascuñana O Thesouro de Antonio Michele: tradição e inovação metodológica na didáctica do italiano para portugueses Monica Lupetti Discursos e métodos nos livros para o ensino das línguas estrangeiras publicados em Portugal (1840 e 1900) Fernando Carmino Marques Selectas francesas na segunda metade do século XIX: estratégias pedagógicas e contextos socioculturais Fátima Outeirinho La présence de textes littéraires dans les manuels de français langue étrangère publiés en Espagne au XIXe siècle: critères de choix des auteurs retenus Alicia Piquer Desvaux Breves considerações sobre o Curso de lingua hespanhola (Porto 1888) de Henrique Brunswick Rogelio Ponce de León Romeo Teixeira Botelho e a renovação do ensino das línguas modernas estrangeiras em Portugal no início do século XX Maria José Salema ORGANIZAÇÃO: ISBN 978-989-8648-32-7 9 789898 648327
FICHA TÉCNICA TÍTULO Dos Autores de Manuais aos Métodos de Ensino das Línguas e Literaturas Estrangeiras em Portugal (1800-1910) ORGANIZADORES Sónia Duarte, Fátima Outeirinho, Rogelio Ponce de León EDITOR Faculdade de Letras da Universidade do Porto Centro de Linguística da Universidade do Porto LOCAL Porto ANO DE EDIÇÃO 2014 CAPA José Osswald CONCEPÇÃO GRÁFICA Sersilito-Empresa Gráfica, Lda. ISBN 978-989-8648-32-7 DEPÓSITO LEGAL 383201/14 TIRAGEM 150 exemplares
A teoria verbal nas duas edições portuenses da Gramática inglesa de José Urcullu: pistas para uma abordagem contrastiva do Português e do Espanhol sóniA duArte Centro de Linguística da Universidade do Porto Conforme informa Inocêncio Silva, no quinto volume do seu Diccionario Bibliographico Portuguez, (2001 [1858-1923]: 149), José Urcullu foi um militar espanhol que, por motivos políticos, se refugiou em Portugal, onde casou e publicou parte da sua diversificada obra1, da qual a vertente aqui em foco é parte minoritária. Com efeito, a sua obra gramatical consta apenas de uma gramática inglesa em versão para portugueses (com três edições, todas em território nacional) e em versão para espanhóis (com treze edições, dispersas pela Europa e América), segundo informação recolhida em Jenny Brumme (2005: 327-332). Da versão para espanhóis há uma única edição publicada em Portugal da qual aqui se tratará numa abordagem comparativa com a versão para portugueses. O presente trabalho visa, portanto, o cotejo entre as duas edições portuenses: Gramática Inglesa reducida a veinte y cinco lecciones (Porto 1840) e Grammatica Ingleza para uso dos portuguezes reduzida a vinte e sete lições (Porto 1848) 2 . Há entre estes textos uma estreita relação suportada pelo facto de que, não obstante os seus destinatários explícitos serem diferentes, de certa forma, o seu público é o mesmo, pois, ao serem editadas na mesma casa editorial (Typographia Commercial), na mesma cidade (Porto) e num intervalo de tempo bastante curto (oito anos), as duas gramáticas partilham um mesmo contexto de receção. Essa proximidade entre as obras e as implicações da mesma são assumidas pelo próprio autor, que justifica o aparecimento de uma segunda edição para portugueses como resultado do facto de a edição de 1840 para espanhóis ter suplantado qualitativa e quantitativamente a primeira edição para portugueses, datada de 18303. De 1 Esta diversidade é atestada na informação paratextual encontrada nas obras do autor e ainda no estudo de Jenny Brumme (2005: 327-332), no qual é possível encontrar uma enumeração exaustiva do conjunto da obra de Urcullu e respectiva localização. 2 Da edição de 1848, foi consultado o exemplar conservado na Biblioteca Pública de Braga, com a cota L. 22, e, da edição de 1840, o exemplar guardado na Biblioteca Pública Municipal do Porto, com a cota I-5-42. 3 O autor refere-se ao desejo de intervir sobre este texto no sentido de o melhorar para, em suas palavras, a “pôr ao nível da minha GRAMMATICA INGLEZA para uso
70 Sónia Duarte facto, a edição para o público espanhol teve um êxito editorial que ultrapassou largamente o da edição para portugueses: no ano de 1848, a edição para espanhóis contava já com oito edições reimpressas por várias vezes, enquanto que a edição para portugueses apenas contava com uma impressão da sua primeira edição. Acresce ainda que a edição para espanhóis apresenta, relativamente à de 1830, um mais elevado grau de desenvolvimento, situação que se procura compensar na edição para portugueses de 1848, onde se contam já trezentas e sessenta e três páginas organizadas em vinte e sete lições versus as duzentas e noventa e seis páginas organizadas em vinte e cinco lições, na edição anterior. Em palavras do autor, a edição de 1848 apresenta, relativamente à de 1830, as seguintes particularidades e vantagens: A GRAMMATICA INGLEZA para uso dos Portuguezes, fica n’esta nova Edição dividida em três partes. Na parte grammatical tem-se feito alterações de bastante consideração tanto nas regras como nos exemplos. Uma lista alfabética das principaes partículas inglezas, accompanhada de numerosos exemplos; uma explicação de palavras latinas e francesas introduzidas na lingua ingleza, e mais de trezentas abreviaturas que usam os Inglezes na conversação e por escrito, distingue esta Edição da anterior (URCULLU 1848: V). Pode assim concluir-se que, de certo modo, a edição de 1840 para espanhóis é o fator impulsionador da edição para portugueses de 1848, tal como, anteriormente, o sucesso da edição de 1825 para o público espanhol, já tinha estado na base da redação da primeira edição para portugueses, como, aliás, se lê no prólogo da mesma (URCULLU 1830: V)4. Partindo desta ideia de que estas duas edições se encontram fortemente ligadas, procurar-se-á aqui desenvolver um estudo comparativo das mesmas, não para pôr em evidência o potencial contrastivo explícito (Espanhol/Inglês e Português/Inglês), mas sim o implícito (Português-Espanhol). Desta forma se tentará levar a cabo uma abordagem que contribua para recolher informação sobre uma área concreta da história dos estudos contrastivos que ainda hoje se revela particularmente carenciada e que é a que incide sobre as duas línguas ibéricas aqui em foco. Como é do conhecimento geral, no que concerne ao estudo das línguas modernas, os estudos contrastivos desenvolvem-se precisamente no século XIX enquadrados nas diferentes correntes linguísticas que marcam este período (SÁNCHEZ PÉREZ 1992: 193) e entre as quais importa aqui destacar a dos Hespanhoes, da qual se tem feito muitíssimas edições em Londres, na América, em Barcelona, no Porto em 1840, em Cádiz em 1845 e no presente anno de 1848” (URCULLU 1848: V). 4 Para mais informação sobre a forma como se procedeu à revisão e ampliação da edição de 1830 através da edição de 1848, cf. DUARTE 2010: 149-150.
71A teoria verbal nas duas edições portuenses da Gramática inglesa de José Urcullu Gramática Comparada. Contudo, em relação ao foco contrastivo Português-Espanhol, a situação difere da que encontramos, por exemplo, nos estudos contrastivos anglo-castelhanos ou mesmo anglo-lusitanos, sobre cujos antecedentes já escreveram outros autores (CARDIM 1929 1931; TORRE 1985). No caso das duas línguas ibéricas, assiste-se a uma situação carencial que, guardadas as distâncias, ainda marca a atualidade5. Neste contexto de escassez de estudos contrastivos entre as duas línguas, revela-se útil, para os estudos historiográficos, rentabilizar a informação encontrada a este respeito em materiais com diferente orientação em termos de foco contrastivo. É a essa luz que este trabalho se aproxima das duas gramáticas de José Urcullu aqui em estudo, destacando determinados traços contrastivos entre as duas línguas aos quais se pudesse chegar isolando aqueles que não são partilhados por ambas no contraste com o Inglês. Não descurando o facto de as duas versões desta gramática estarem imbuídas de motivações e propósitos marcadamente didáticos, bem como marcadas por pressupostos metodológicos igualmente merecedores de análise, neste estudo, o foco de atenção orientar-se-á para a teoria gramatical e, mais especificamente, para a teoria verbal, em resultado de ser esta a matéria que o texto parece destacar, quer pelo número de páginas que lhe é dedicado, quer pelas considerações que tece sobre a dificuldade que a esta mesma matéria oferece. No âmbito da teoria gramatical, observando a proporção entre as considerações de carácter sintático e as de carácter morfológico, é notório que, como era comum na tradição gramatical hispânica6, a sintaxe é relegada nas duas 5 Sobre esta escassez e/ou sobre as razões da mesma existem já vários estudos (MESSNER inédito; ÁLVAREZ 2005: 39; SALAS 2005: 799-801; PONCE DE LEÓN & DUARTE 2005: 373-375; PONCE DE LEÓN 2005: 675-676, inédito, 2007: 59-60; GARCÍA MARTÍN & SERRA 2007: 272-274 e 287-292; DUARTE 2008: V-X). 6 Tal é o que demonstra Gema Garrido Vílchez, na sua tese de doutoramento, conforme se transcreve seguidamente. “Hemos visto (cf. capítulo 4) que la GRAE defiende una concepción de la disciplina más morfológica que sintáctica. La propia Institución reconoce en los prólogos de algunas ediciones de la GRAE la mayor atención prestada al apartado de Analogía frente al de Sintaxis, y da las razones de este proceder: “se ha dado á la primera parte, esto es, á la Analogía, más extension que á la segunda, ó sea á la Sintaxis, porque en aquella están las más notables anomalías, y por consiguiente las mayores dificultades del castellano”(GRAE-1854: IX y GRAE-1858: VI). En este tratamiento desigual de las materias relativas a las categorías verbales (materia privilegiada) y a la sintaxis (materia relegada a segundo plano), los textos académicos no constituyen excepción ni dentro de nuestra tradición ni fuera del ámbito hispánico [...]. En efecto, hasta el siglo XIX (excluidas contadas excepciones del ochocientos [...]), la sintaxis es poco atendida en nuestros tratados de Gramática” (GARRIDO VÍLCHEZ 2008: 324-325).
72 Sónia Duarte edições. Tal é o que, abaixo, se pode observar no quadro 1, onde se apresenta a estrutura tripartida do texto. Com efeito, depois de algumas considerações sobre pronúncia e ortografia, ambas as obras se orientam para a análise das partes da oração, realizando acerca das mesmas considerações de caráter predominantemente morfológico. O referido quadro ilustra o peso de cada parte relativamente às outras e particularmente o peso das secções respeitantes ao verbo relativamente à totalidade da obra (sem considerar os textos preliminares). Quadro 1 1840 1848 Pronúncia e ortografia 21 páginas (pp. XVIII-XXXIX) 20 páginas (pp. 1-21) morfologia 122 páginas, num total de 272 (pp. XIV-XVIII e 1-118) 162 páginas, num total de 363 (pp. 22-184) material complementar 123 páginas (pp. 149-272) 142 páginas (pp. 221-363) teoria verbal 49 páginas (pp. 54 a 103) + 77 de material complementar: – Vocabulario de los adverbios, adjetivos, verbos, y nombres más usados para empezar a hablar inglés (pp. 154-157). – Lista de los verbos que rigen diferentes preposiciones que en Castellano (pp. 197-270) TOTAL: 126 páginas 67 páginas (pp. 99 a 174) + 77 de material complementar: – Exercícios para pôr em prática as lições anteriores (pp. 205-216) – Lista de mais de quinhentos e cincoenta verbos inglezes com as particulas que os acompanhão (pp. 314-357) – Vocabulario dos adverbios, adjectivos, verbos e nomes mais usados para começar a fallar inglez (pp.229-234) TOTAL: 144 páginas No que toca à perceção da relevância e complexidade do verbo, observe-se como e por que razão em cada uma das edições se acentuou o investimento nesta categoria relativamente à edição precedente com a mesma orientação em termos do público-alvo. A edição de 1840 apresenta, relativamente à anterior em vinte e duas lições (Nova Iorque, 1839), uma ampliação no número de lições em que se encontra organizada, o que tem, naturalmente, implicações no tratamento da matéria gramatical, conforme põe de manifesto o próprio autor na Advertencia sobre esta nueva edición (o sublinhado é meu). Divido ahora la Gramática en XXV Lecciones en lugar de XXII, por haber introducido nuevas reglas, y dado mayor extensión á otras. Por ejemplo, es nueva
73A teoria verbal nas duas edições portuenses da Gramática inglesa de José Urcullu enteramente la Lección IX: la doctrina de la Lección XVIII exijia una explicacion mas detenida, para tratar con la debida claridad, uno de los puntos más difíciles de la lengua inglesa (URCULLU 1840: VII). Uma das lições que sofre alterações significativas, e para as quais Urcullu chama a atenção neste ponto, é precisamente a relativa ao uso dos verbos ingleses (Lección XVIII). A razão para tal intervenção é, como esclarece o autor no mesmo lugar, a complexidade e dificuldade deste tema. No prólogo à primeira edição recuperado na de 1840 (pp. IX-XII), Urcullu, para além de justificar as opções metodológicas e teóricas mais controversas7, chama ainda a atenção para aquilo que considera mais valioso do ponto de vista do seu contributo relativamente ao dos autores que o precederam e entre o que se destaca, no âmbito deste trabalho, a lista alfabética dos verbos e preposições por eles regidas e ilustrada com exemplos, a qual, na edição de 1848, sobressai também entre as alterações sublinhadas pelo próprio autor (URCULLU 1848: V). Sublinhe-se ainda que, da primeira para a segunda edição para portugueses, regista-se uma ampliação dos capítulos dedicados ao verbo, através da adição de dois capítulos sobre os verbos auxiliares “to be” e “to have” (capítulos XVI e XVII respetivamente), de mais um capítulo (o XXI) complementando a lição sobre os usos dos diferentes verbos ingleses e da introdução de dois capítulos (XXV e XXVI) sobre a sintaxe dos referidos verbos, capítulos esses que aparecem em lugar do capítulo único que, na edição de 1830, se intitula “Varias Observações sobre os Verbos”. Começaremos por uma abordagem do ponto de vista da gramática geral, já que, não obstante orientada para o ensino da língua estrangeira, a gramática de Urcullu revela preocupações teóricas das quais são exemplo as passagens, seguidamente transcritas, dedicadas à definição, acidentes e tipologia verbais . El verbo es una palabra que expresa accion, estado, acto, relativamente á personas, tiempo y modo; tiene personas, modos, y tiempos Los verbos tienen dos números, singular y plural, y cada número tres personas. Hay varias clases de verbos; a saber: activo, pasivo, neutro, reflexivo ó reciproco, defectivo é impersonal (URCULLU 1840: XVI-XVII). 7 São estas as seguintes: a opção pela não inclusão de um capítulo especificamente sobre a pronunciação inglesa (justificada por razões didáticas, dado o autor só conferir eficácia a um modelo “de viva voz”); a omissão de um tratado de versificação (justificada por razões pragmáticas, dado tal se tornar redundante perante a existência de materiais mais adequados para o efeito); a inclusão de diálogo e nomenclatura orientados para a ilustração dos casos mais comuns entre as diferentes classes de palavras (justificada por razões didáticas suportadas pela sua própria experiência como aprendente).
74 Sónia Duarte O verbo é uma palavra, cujo uso principal é affirmar: tem pessoas, modos, e tempos. Na oração, a virtude é amavel, affirma-se que a qualidade amavel pertence á virtude. Os verbos tem dous numeros, singular e plural; e cada número tres pessoas. Ha varias classes de verbos; a saber: activo, passivo, neutro, reflexivo, ou reciproco, defectivo, e impessoal (URCULLU 1848: 23) Comparando o disposto a este respeito nas duas gramáticas, podemos observar um quase decalque no que se refere à consideração das diferentes classes de verbos e dos acidentes verbais. O que particulariza uma gramática relativamente à outra é o próprio conceito de verbo, que, se bem que conciliando em ambos os casos traços formais e traços semânticos8 e não diferindo relativamente aos formais (tempos, modos, pessoas, número), por outro lado, apresenta diferenças significativas relativamente aos traços semânticos. Enquanto que a edição de 1840 segue a linha conceptual do discurso académico posterior a 1796, no qual predominam, segundo Mercedes Quilis (2006: 1325-1326), os conceitos de “ação” e “estado”, por outro lado, a edição de 1848 constrói a definição de verbo com base no conceito de “afirmação” presente nas edições da GRAE de 1771 e 1796. Como evidencia José Gómez Asencio (1981: 189), tal marca semântica (a afirmação) denuncia um determinado enquadramento teórico, pois carateriza a definição de verbo na generalidade do discurso gramatical de entre finais do século XVIII e meados do século XIX conotado com o pensamento racionalista de Port-Royal. A mesma sintonia geral entre as duas gramáticas se observa relativamente às subclasses verbais –ativo, passivo, neutro ou intransitivo, reflexivo, ou recíproco, ou pronominal, defetivo e impessoal, ou unipessoal, para além, da classificação paralela em regulares e irregulares9, conforme observável no quadro 2. 8 A esta combinatória de traços formais e semânticos assiste um carácter eclético, já comentado noutro lugar (DUARTE 2010: 153) a respeito da edição de 1848. Se bem que, como evidencia Mercedes Quilis (2005: 1234), a tradição da Academia espanhola arranca com uma definição de verbo marcadamente formal, a verdade é que a mesma evolui no sentido inverso, acabando por dar predominância, em meados do século XIX, aos traços semânticos (ASENCIO 1981: 186; QUILIS 2005: 1234-1235). A esta luz, para o enquadramento de Urcullu nas ideias linguísticas do seu tempo, parece significativo que a vertente semântica da definição proposta por si seja não só a primeira na ordenação da mesma como também a mais presente, pois é a única que tem ilustração em exemplos concretos. 9 Não se incidirá aqui sobre esta última proposta (regulares e irregulares), já que, tanto segundo Mercedes (2006: 1327) como José Gómez Asencio (1985: 95), esta proposta de base morfológica praticamente não provocou dissensão entre os gramáticos.
75A teoria verbal nas duas edições portuenses da Gramática inglesa de José Urcullu Quadro 2 1840 1848 Verbo activo es aquel cuya accion y significacion abraza otro objeto, que es su término, con preposición ó sin ella, como: amar á Dios; aborrecer el vicio. El objeto de esta accion se llama réjimen. Tambien se puede decir que espresa una accion que pasa del ajente al paciente, y en este caso se llama transitivo. – El verbo pasivo espresa sufrimiento ó recepcion de una accion del ajente, como: el ladron será castigado por la Justicia. La forma pasiva es suplida en nuestra lengua por el verbo Ser. – El verbo neutro ó intransitivo es aquel cuya accion ó significación no pasa á otra cosa; es decir que no admite sustantivo despues de él; como: el niño duerme: no tiene réjimen como el activo. – El reflexivo, recíproco ó pronominal es el que se conjuga con dobles pronombres personales en todos sus tiempos; como: yo me arrrepiento, &c. – El defectivo es aquel á quien faltan algunos tiempos ó personas, que el uso no admite; como: plugo, pluguiera, placer, yacer, &c. – El impersonal, ó unipersonal es el que solo se emplea en las terceras personas del singular; como: llueve, tronó, amanecerá. (pp. XVI-XVII) Verbo activo é aquelle, cuja acção, e significação passa a outra cousa, que é o termo, com preposição ou sem ella; como: amar a Deos; aborrecer o vicio: o objecto desta acção chama-se regime. Tambem pode dizer-se, que expressa uma acção que passa do agente ao paciente, e neste caso chama-se transitivo. – O verbo passivo expressa soffrimento ou recepção d’uma acção do agente; como: o ladrão será castigado pela Justiça. – O verbo neutro ou intransitivo é aquelle, cuja acção ou significação não passa a outra cousa; isto é: que não admitte substantivo depois delle; como: a creança dorme: não tem regime como o activo. – O reflexivo, ou reciproco, ou pronominal é aquelle, que se conjuga com dobrados pronomes pessoaes em todos os seus tempos; como: eu me visto, etc. – O defectivo é aquelle, a quem faltão alguns tempos ou pessoas, que o uso não admite; como os verbos Prazer, Feder, etc. – O impessoal, ou unipessoal é aquelle, que não se emprega senão nas terceiras pessoas do singular, como: chove, troveja etc.” (pp. 23-24) No que respeita à primeira proposta, observa-se que há classes cuja definição assenta em critérios exclusivamente formais (as três últimas: reflexivo, defetivo e impessoal), enquanto outras (as cinco restantes) conciliam critérios formais (morfossintáticos) com critérios semânticos. Procurando integrar esta proposta no quadro da tradição precedente, concluímos, segundo os dados apresentados por Mercedes Quilis (2006: 1327), que, no que respeita aos critérios usados para identificar os verbos impessoais, Urcullu segue a tendência predominante. Com efeito, a respeito dos verbos impessoais, a autora em questão observa que as definições por si consultadas evidenciam, no seu conjunto, a preponderância dos traços formais. Já a classificação dos verbos