ÁREA TEMÁTICA: Arte, Cultura e Comunicação [ST] AS ‘CENAS’ PUNK EM PORTUGAL (1977-2012): UM OLHAR SOCIOLÓGICO A PARTIR DA ANÁLISE DAS REDES DE PRODUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO E CONSUMO DE FANZINES E EZINES QUINTELA, Pedro Doutorando em Sociologia, Faculdade Economia da Universidade de Coimbra pedroquinte[email protected]t GUERRA, Paula Doutoramento em Sociologia FLUP/IS-UP/CEGOT/GCCR
[email protected] FEIXA, Carles Doutoramento em Antropologia Cultural Universidad de Lleida
[email protected] FARRAJOTA, Marcos Autor/Editor/Bibliotecário, Bedeteca de Lisboa / Chili Com Carne m[email protected]t
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3 de 14 Palavras-chave: fanzines; e-zines; punk; subculturas; do-it-yourself. Keywords: fanzines; e-zines; punk; subcultures; do-it-yourself. COM0629 Resumo Embora a prática de produção, distribuição e consumo de fanzines seja anterior à emergência do fenómeno do punk no Reino Unido e E.U.A., a verdade é que foi com ele que ganhou relevância, assumindo-se como um espaço de liberdade de pensamento e criação, bem como de alternativa aos media convencionais. Desde a década de 1970 o universo das fanzines expandiu-se de forma clara, a diversos níveis: em termos temáticos e de abrangência estilista, mas também em termos de abrangência territorial e dos suportes comunicacionais utilizados. Neste artigo propomo-nos a apresentar os resultados preliminares da investigação em curso (inserida no contexto de um projeto de investigação mais amplo sobre a função, desenvolvimento e consolidação do movimento punk em Portugal, entre 1977-2012) sobre o surgimento, desenvolvimento e transformação de práticas punk, subterrâneas e do-it-yourself, do qual as fanzines e, mais recentemente, as e-zines constituem um exemplo particularmente interessante. A partir de um conjunto alargado de fanzines e e-zines associadas ao movimento punk português, produzidas ao longo das últimas décadas (com particular enfoque nos anos 1990, 2000 e 2010), bem como da análise qualitativa de entrevistas que têm vindo a ser realizadas com alguns atores envolvidos na produção e consumo de fanzines, serão analisados alguns dos aspetos mais relevantes associados às suas redes de produção, distribuição e consumo Procuraremos compreender qual a sua relevância (atual e passada) no contexto da ‘cena’ punk/hardcore em Portugal, quais os principais traços do seu desenvolvimento e transformação e, por fim, identificaremos algumas tendências de evolução e mudança, sempre que possível estabelecendo alguns pontos de comparação com estudos internacionais de cariz similar, de modo a identificar aspetos de convergência, mas também de diferenciação das fanzines e e-zines produzidas em Portugal relativamente às que são produzidas em outros países. Abstract Although the production, distribution and consumption of fanzines is prior to the emergence of punk in the UK and USA, it was with this phenomenon that it became relevant, as an area of freedom of thought and creativity, and alternative to conventional media. Since the 1970s the fanzines scene clearly expanded, at different levels: thematically, graphically, but also in terms of territorial coverage and the kind of medium used. In this paper we present the preliminary results of an ongoing research on the emergence, development and transformation of punk, underground and do-it-yourself practices, in which the fanzines and, more recently, e-zines are interesting examples. This research was made in the context of a broader research project on the role, development and consolidation of the punk movement in Portugal, between 1977 to 2012. In this paper we came from a broader set of fanzines and e-zines associated with the Portuguese punk movement , produced over the past decades (particularly between 1990, 2000 and 2010), as well as qualitative analysis of interviews that have been conducted with some actors involved in the production and consumption of zines. We analyze some of the most relevant aspects related with the Portuguese punk fanzines’ networks of production, distribution and consumption. The paper seeks to understand the fanzines’ relevance (past and present) within the context of the punk / hardcore 'scenes' in Portugal, identify some of the main trends of evolution and change, establish some points of comparison with international studies of similar nature, in order to identify aspects of convergence, but also differentiation between punk fanzines and e-zines produced in Portugal and those produced in other countries.
4 de 14 1. Introdução Este artigo centra-se na análise dos fanzines e e-zines punks portugueses que tem vindo a ser realizada no âmbito do projeto de investigação “Keep it simple, make it fast! Prolegómenos e cenas punk, um caminho para a contemporaneidade portuguesa (1977-2012)”. Trata-se de um projeto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência Tecnologia (PTDC/CS-SOC/118830/2010) que está a ser desenvolvido no Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob coordenação da Professora Paula Guerra, em parceria com o Griffith Centre for Cultural Research (Austrália), a Universitat de Lleida (Espanha), a Faculdade de Economia da Universidade do Porto, a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, a Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, as Bibliotecas Municipais de Lisboa, entre outras. Pretende-se analisar a génese, desenvolvimento e consolidação do movimento punk em Portugal, tendo em consideração as mudanças que ocorreram na sociedade portuguesa contemporânea entre 19772012. Estamos, portanto, a estudar os diversos contextos e a ouvir diferentes atores sociais, numa perspetiva diacrónica e sincrónica, que procura cruzar tempos e espaços. Uma vez que ainda existem poucos em Portugal estudos académicos que, de forma séria, se debrucem em profundidade sobre este tema, um dos grandes objetivos deste projeto tem sido proceder à recolha sistemática de dados empíricos existentes sobre mais de três décadas de manifestações do punk em Portugal. Ao longo dos últimos dois anos temos vindo a realizar: • entrevistas com vários elementos-chave que estão ou estiveram ligados às cenas punk em Portugal em diferentes períodos históricos; • observação etnográfica em eventos punk; • recolha e catalogação de diversos materiais ligados às cenas punk/hardcore portuguesas, incluindo registos sonoros, cartazes, flyers, fanzines, etc. É importante sublinhar, desde já, que a recolha, sistematização e análise de fanzines e de e-zines, ainda está em curso, pelo que ainda não é possível partilhar e discutir resultados definitivos resultantes deste trabalho. O presente artigo tem por objetivo apresentar e discutir algumas conclusões preliminares que resultam da análise dos dados que foram já recolhidos, sistematizados e analisados. Em especial, pretende-se discutir: Qual é o papel dos fanzines e e-zines nas cenas punk em Portugal? De que modo estes objetos contribuíram para fomentar e impulsionar o movimento punk em Portugal? O artigo encontra-se estruturado do seguinte modo: • Primo, tecemos algumas considerações, de âmbito mais genérico, acerca da relevância dos fanzines e e-zines no contexto do movimento punk internacional; • Centrando-nos nas especificidades do caso português, procura-se, de seguida, discutir qual a importância dos fanzines e e-zines na cena punk nacional. • Apresentam-se, assim, alguns aspetos relacionados com a metodologia de recolha e análise da informação, sistematizando, de seguida, alguns resultados que resultam da análise em curso sobre fanzines e e-zines punks portugueses. • Finalmente, concluiu-se sistematizando algumas questões que resultam da análise preliminar realizada, salientando alguns aspetos sobre os quais consideramos ser relevante refletir. 2. Punk e fanzines Embora o surgimento dos primeiros fanzines tenha acontecido nas décadas de 1920-30 associado aos fãs de ficção científica, a verdade é que a produção, distribuição e consumo de fanzines ganhou relevância global com a emergência do fenómeno do punk no Reino Unido e E.U.A., durante os anos de 1970-80, assumindose como um espaço de liberdade de pensamento e criação do-it-yourself, e de alternativa aos media convencionais. Como refere Teal Triggs (2006), a propósito do caso inglês, desde cedo os fanzines se assumiram como uma parte muito importante da construção das ‘cenas’ punk – a par das bandas, dos discos,
5 de 14 dos concertos –, contribuindo ativamente para a criação e consolidação de um determinado sentido de comunidade. “Fanzines adopted the DIY, independent approach that punk musicians had espoused. With the rise of newly formed bands came the establishment of impromptu clubs, small, independent record labels and record stores (…). In the same way, fanzines offered fans a ‘free space for developing ideas and practices’, and a visual space unencumbered by formal design rules and visual expectations.” (Triggs, 2006: 70) Os fanzines são normalmente objetos caseiros, produzido de forma artesanal e que têm, em geral, uma circulação limitada. Os fanzines punk tendem a ser escritos e publicados, individual ou coletivamente, por elementos ligado ao movimento punk e são objetos dirigidos aos seus pares (isto é, os conteúdos dos fanzines punk são dirigidos a outros aficionados punk). Como Julia Pine (2006) refere, os fanzines são formas materiais de representação. São objetos construídos de um modo coletivo e voluntário que permitem aos indivíduos que participam neste processo (ao nível da edição, das contribuições e da distribuição) afirmarem sua existência social e participarem culturalmente; simultaneamente, os fanzines materializam-se num movimento local. “Unlike other publications, like books, which address the anonymous individual, or magazines, which seek to inform but also to entice and sell, punk zines were always written by insiders for insiders. They were often collective volunteer projects in terms of editing, contributions and distribution, and for the most part they invited feedback (although not always what you would call “warmly”). Belying the frequent “fuck you” attitude, they allowed their producers, (who, not incidentally, often lived at the periphery of the city or beyond or where otherwise house-bound), to declare their own existence, participation and stance, while at the same time helping to reify the local movement through concrete forms of representation. Zines were about conjuring up, connecting to and being part of the scene.” (Pie, 2006: 42). Parece-nos, por isso, ser particularmente interessante analisar os conteúdos dos fanzines visto que, ao longo das suas páginas, encontramos frequentemente uma declaração das perspetivas ideológicas dos seus autores; do seu posicionamento político-social; do apoio a determinadas causas (direitos dos animais, por exemplo); entrevistas com bandas e outros elementos que integram as ‘cenas’ punk; recensões críticas de discos e demo-tapes, de concertos, de filmes, de livros ou mesmo de outros fanzines. Mas em muitos fanzines há também uma componente muito importante de artigos com conteúdos mais pessoais e até mesmo com um cariz mais introspetivo. Como Stephen Duncombe (1997) evidenciou os pensamentos e a ética pessoal ocupam um lugar central neste tipo de publicações independentes autoeditadas. Alguns destes fanzines - que Duncombe define como "zines pessoais" e que são frequentemente designados pelo temos “perzine” – são lugares especialmente interessantes para compreendermos o modo como são ativamente construídas as noções de identidade, de juventude, entre outras, estabelecendo importantes demarcações simbólicas que visam distinguir os seus autores. “These personal zines are testimony that regular people think about themselves, about their experience, about politics, and about their role as creators and consumers of culture” (Duncombe, 1997: 29). À semelhança de outras dimensões do movimento punk, a componente gráfica dos fanzines desempenha um papel tão ou mais importante do que os textos escritos. Na verdade, acontece muito frequentemente que as componentes escritas e visuais dos fanzines estejam tão profundamente misturadas que se torna praticamente impossível analisar separadamente cada um destes dois elementos. Inspirada nos trabalhos de Beverly Best e Michel Foucault, Teal Triggs (2006) destaca como os fanzines punks desenvolveram uma "linguagem gráfica de resistência", tornando-se num fórum para o discurso político e até mesmo para a ação política. “For punk fanzines, language is communicated graphically through a system of visual signs and specifically in the conveyance of a message of ‘resistance’. (…) Punk fanzines are sites for oppositional practice in that they provide a forum for cultural communication as well as for political action, which should be included in any broader political discourse.” (Triggs, 2006: 73). Analisando os conteúdos de muitos destes fanzines encontrarmos um debate recorrente acerca da ideia de uma cultura underground/alternativa – presente na defesa de questões relacionadas como a independência, o do-it-yourself, a ação direta, a autodeterminação, entre outras – que é colocada em confronto com uma ideia de cultura mainstream, que está evidentemente associada ao sistema capitalista vigente e uma visão
6 de 14 recorrentemente sustentada de que a sociedade contemporânea se encontra estruturada em torno do consumo de massas – e que inclui a crítica e a desconstrução de questões relacionadas com a ideia de "desenvolvimento", de "indústria da música", etc. Ora, é importante salientar aqui que todos estes diferentes elementos – quer ao nível das temáticas abordadas nos textos, quer em termos da linguagem gráfica utilizada – já estavam presentes em fanzines como a Panache, Sniffin’ Clue e a Ripped & Tom que, como sabem, assumiram um papel pioneiras na altura em que o movimento punk estava a surgir em Inglaterra, durante a segunda metade da década de 1970. Deste modo, podemos considerar que estes primeiros fanzines punk deram uma contribuição decisiva para a criação de certa uma "linguagem", com caraterísticas especificas quer em termos estéticos, como editoriais, que acabou por ser determinante na criação de uma espécie de "cânone subcultural". Nas últimas décadas, essa "linguagem" foi-se generalizando e globalizante, levando à reprodução de uma ética do-it-youself e de uma certa maneira punk de "fazer" fanzines que, como iremos ver, continua a persistir hoje em dia. Efetivamente, a análise que temos vindo a realizar dos fanzines punk produzidas em Portugal, desde finais dos anos 1970 até aos nossos dias evidencia, de uma forma bastante clara, o modo como esta espécie de "cânone subcultural” tem sido sucessivamente mantido e reproduzido também entre nós. No entanto, sem dúvida que o papel desempenhado pela tecnologia deve ser aqui tomado em consideração. Com o desenvolvimento das chamadas Tecnologias de Informação e de Comunicação e, em especial, com o crescente uso do computador pessoal e o alargamento do acesso à Internet, há uma série de mudanças importantes no modo como os fanzines punk são produzidos, distribuídos e consumidos. Por um lado, constata-se que os fanzines tradicionais – impressos – são muitas vezes substituídos por fanzines eletrónicos (os chamados e-zines); assiste-se, por outro lado, a uma presença generalizada de e-zines em múltiplos espaços online: em websites, em blogues ou em redes sociais, como o MySpace ou o Facebook. Para além disso, é ainda importante notar que, como aponta justamente Ruben Ramirez Sánchez (2012: 42), a ascensão da Internet veio permitir uma notável aceleração dos contactos internacionais entre diferentes ‘cenas’ punk locais. “Punk networks comprise diverse mechanisms that facilitate local and international relations in the service of a punk ideology, and their reliance on DIY as a mode of production is primarily made possible by the creation and development of social networks that power media making. (...) the emergence of technologies of interconnectedness has greatly contributed to the international growth of punk media infrastructures. Self-production hardware and software, such as digital recording and self-publishing technologies, have enriched the punk media infrastructure by facilitating the punk cultural production that is circulated through its networks.” (Sánchez, 2012: 42). Recorde-se, contudo, que, já antes do advento da Internet, as fanzines desempenhavam um papel muito importante no estabelecimento de redes de contactos internacionais entre aficionados da ‘cena’ punk, feito através da troca postal não só de fanzines, mas também de discos, demo-tapes, patches, etc. O desenvolvimento recente da Internet tem sido muito importante, na medida em que veio permitir expandir mundialmente as relações entre bandas, fanzines e editoras dentro do especto punk (mas não só, uma vez que este é fenómeno extensível a outras ‘cenas’ estéticas e musicais). Em todo o caso, o que gostaríamos de frisar aqui é que, apesar deste conjunto de profundas transformações, possibilitadas por evoluções técnicas e tecnológicas recentes, constata-se a persistência de uma série de elementos e de temáticas que permanecem centrais no imaginário punk global e que, portanto, não deixaram de aparecer em quase todos os fanzines punks. Eles são parte integrante do tal "cânone subcultural" sobre como deve ser produzido um fanzine punk do-it-yourself que especifica, ainda que de um modo não declarado, qual o tipo de linguagem gráfica a utilizar ou o tipo de temas que merecem ser aqui abordados. 3. Metodologia O conjunto de breve considerações gerais sobre os fanzines punk – a sua origem, relevância, mudanças recentes –, anteriormente tecidas, parece-nos ser importante para discutir alguns aspetos mais especificamente relacionados com o caso português.
7 de 14 Contudo, é importante salientar, desde já, que não encontramos na literatura científica internacional orientações específicas em matéria de análise de conteúdo de fanzines. Por esse motivo, temos procurado desenvolver, no quadro do projeto de investigação em que se insere esta pesquisa, uma metodologia própria para a análise de conteúdo dos fanzines e e-zines. Vale, por isso, a pena começar por fazer uma breve introdução aos procedimentos de recolha, sistematização e análise de dados. Importa, assim, começar por referir que, com a notável exceção da Bedeteca de Lisboa – entidade parceira neste projeto de investigação e que é uma instituição pública com caraterísticas únicas em Portugal na medida em que dispõe de um interessante acervo de fanzines de diversos géneros –, a generalidade das bibliotecas portuguesas habitualmente não compram nem catalogam fanzines (punk ou não). Deste modo, foi necessário começar por recolher fanzines punk portugueses, utilizando principalmente as seguintes vias de recolha de informação: • Compra de fanzines diretamente aos editores, ou indiretamente em concertos, eventos políticos, em centros comunitários e em okupas (squatters), etc.; • Doação ou empréstimo de fanzines para digitalização, geralmente através dos entrevistados (elementos ligados ao movimento punk); • Disponibilização do acesso à coleção pessoal de fanzines de alguns dos investigadores do projeto; • Disponibilização do acesso ao acervo da Bedeteca de Lisboa, facultando ao projeto a digitalização de exemplares de fanzines ligadas ao movimento ou à estética punk; • Pesquisa online de fanzines e, sempre que possível, o download (total ou parcial) dos conteúdos disponíveis. Relativamente aos e-zines, a recolha de informação tem sido essencialmente realizada através do recurso a pesquisas online. No caso em que os e-zines estavam disponíveis na Internet mas que foram entretanto removidos, temos procurado identificar os editores, de modo a entrar em contacto com eles para pedir permissão para ter acesso a esses conteúdos. No que diz respeito à sistematização dos dados recolhidos, foi criada uma base de dados tendo em vista cumprir dois objetivos distintos, embora complementares: por um lado, permitir à equipa de investigadores realizar uma análise sistemática de documentos recolhidos; e, por outro lado, criar um arquivo inédito sobre punk em Portugal, que estará alojado na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Esta base de dados, bem como todos os fanzines, registros sonoros, cartazes, flyers, fotografias e outros documentos e elementos iconográficos recolhidos vão estar disponíveis para consulta de todos aqueles que queiram posteriormente prosseguir com o estudo do movimento punk em Portugal. Ainda que de um modo necessariamente abreviado, interessa aqui descrever e explicitar como temos vindo a organizar os conteúdos das fanzines que constam desta base de dados: • Nome/designação • Data de emissão • Tipo (individual/coletivo) • Editor do Fanzine – nome/designação • Origem Geográfica do Editor Fanzine – Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos (NUTS) de nível 3 (grupos de municípios) • Custo (pago/gratuito) • Preço (em Euros) • Moeda
8 de 14 • Número total de Fanzine de páginas • Aspeto Gráfico (cor, preto e branco) • Impressão (Industrial - papel; Industrial - digital; fotocopiadas - papel; fotocopiadas - digital; Fanzines impressos em casa) • Tipo de fanzine – embora todos os documentos incluídos na base de dados são fanzines, pretende-se através deste campo catalogar diferentes formatos: Jornal; Magazine; Fanzine; Portal/Website (quando o fanzine é apresentado como um website e não um PDF ou outro tipo de aplicação); E-zine (fanzines que estão exclusivamente hospedados na Internet); Graphzine (fanzines apenas/principalmente de ilustração); Boletim informativo; Livro; Flyer; etc. • Assunto de incidência analítica (por vezes não temos acesso a todo o fanzine, por isso é importante explicitar que cada registro refere-se aspetos específicos do objeto: capa, todos os conteúdos, apenas um artigo) • Tipos de artigos (entrevistas, críticas/recensões de discos, DVD/filmes, concertos; artigos de opinião/crónicas; publicidade; notícia, cartas de leitores; cartoons; editoriais; outros) • Tipo de Imagens (Gravura/Desenho/Pintura; Banda Desenhada; Cartoon/Caricatura; Fotografia; Colagem) • Temáticas discutidas (Musica; Atitude; Saúde; Política; Humor; Outros) • Nomes de bandas mencionadas/discutidas (em entrevistas, reportagens de concertos, críticas/recensões de discos; outro tipo de comentários/registros) • Cenas que são referidas/mencionadas (em entrevistas, reportagens de concertos, críticas/recensões de discos, artigos de opinião) O trabalho de recolha e análise de fanzines e e-zines punks portugueses iniciou-se há cerca de um ano e encontra-se ainda em curso, conforme foi já referido anteriormente. Como seria talvez expetável, a equipa de investigadores tem encontrado maiores dificuldades na recolha de fanzines publicadas entre finais da década de 1970 e durante os anos 80; pelo contrário, tem sido bastante mais fácil encontrar e recolher fanzines punk editadas nas décadas posteriores (desde os anos 1990 até à atualidade). Estas dificuldades estão estreitamente relacionadas com a escassa perceção, durante as décadas de 1970 e 80, da importância da preservação dos fanzines enquanto documentos que relevância para a futura memória histórica do movimento punk em Portugal. Ao contrário de muitos dos discos punk pioneiros desta época, que foram preservados e são hoje objetos raros, cobiçados por colecionadores e aficionados (como, por exemplo, o primeiro e único LP dos Corpo Diplomático, “Música Moderna”, editado em 1979), no caso dos fanzines tem sido difícil identificar muitas destas publicações. Estamos, contudo, confiantes de que ainda existem exemplares de alguns destes fanzines punk pioneiros em Portugal, importando prosseguir com os esforços para identificar e contactar os detentores de fanzines punk portugueses, de diferente épocas, sensibilizando-os para o interesse e relevância deste projeto de investigação. Até este momento foi possível recolher, digitalizar e analisar perto de 90 fanzines punks portugueses (alguns deles com vários números). Para além destes, importa acrescentar que outros fanzines punks portugueses foram já entretanto recolhidos mas que estão ainda em processo de digitalização e catalogação. 4. Fanzines punk em Portugal: considerações preliminares Partindo da análise realizada até este momento, este capítulo do artigo procura apresentar, de forma breve, algumas considerações preliminares. Trata-se de um primeiro exercício de tipificação dos cerca de 90 fanzines que constituem atualmente o nosso corpus de análise, entrecruzando uma leitura das temáticas abordadas e das técnicas e estética gráfica, com a análise do tempo histórico em que as diversas históricas foram produzidas.
9 de 14 Finais dos anos 70: os pioneiros dos fanzines punk em Portugal Os primeiros fanzines punk surgem em Portugal a partir de finais dos anos 1970, na zona de Lisboa. É o caso do fanzine Desordem Total, editada por Nuno Esterco, Luís Bosta e Pedro Merda, com seis números publicados entre 1978 e 1979, e do fanzine Estado de Sítio, editado por Paulo Borges – que também era membro dos Minas e Armadilhas, banda punk pioneira em Portugal –, que publicou pelo menos seis números do fanzine ao longo do ano de 1978. Em ambos os casos, os editores assumiram uma orientação estética do-it-yourself, assente numa mistura de técnicas de cut-and-paste, recorte, desenho/ilustração, textos escritos à mão e dactilografados, manipulação de fotografias o que, como vimos antes, é perfeitamente coerente com a generalidade dos fanzines punk ingleses e norte-americanos deste período. Numa época em que o movimento punk em Portugal estava ainda num estádio de desenvolvimento embrionário, encontramos nestes primeiros fanzines essencialmente um espaço de comentário sarcástico acerca da realidade político-social nacional e internacional. São também frequentes referências a bandas punk anglo-saxónicas (essencialmente através de fotos dos elementos de bandas, nem sempre identificadas). Anos 80: um primeiro ‘boom’ de fanzines punk em Portugal Acompanhando o desenvolvimento das ‘cenas’ punk no nosso país, assiste-se durante os anos 1980 a uma certa proliferação de fanzines, mantendo-se ainda nesta fase uma certa concentração nas áreas de metropolitanas de Lisboa e Porto. Neste período, identificam-se fanzines punk relevantes como o Subversão (1982), o Subúrbios (1985), o Tosse Convulsa (1985), O Cadáver Esquisito (1986), o Lixo Anarquista (1986-87), o Suicídio Colectivo (1987), o Anarkozine (1987), o Post Scriptum (1987-88), o Morte à Censura (1988) ou o Culto Urbano (1988-89), entre outros. Imagem 1 – Capa e contracapa do fanzine Cadáver Esquisito (Abril/Maio/Junho de 1986). Embora se mantenha presente uma dimensão fundamental de crítica político-social, a dimensão musical ganha uma clara relevância a partir deste período, evidenciando-se a relevância dos fanzines enquanto espaço de divulgação de bandas, quer nacionais, quer internacionais. Tornam-se, por isso, frequentes os