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Perfis Imunofenotípicos Caraterísticos das Doenças Linfoproliferativas de Células B

Joana Maria da Gama e Melo Martins Sereno

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Perfis imunofenotípicos caraterísticos das doenças linfoproliferativas de células B Joana Maria da Gama e Melo Martins Sereno Dissertação do 2º Ciclo de Estudos Conducente ao Grau de Mestre em Análises Clínicas Trabalho realizado sob a orientação da Professora Doutora Alice Santos Silva e da Professora Doutora Margarida Lima Julho, 2014 ii É autorizada a reprodução integral desta dissertação apenas para efeitos de investigação, mediante declaração escrita do interessado, que a tal se compromete. iii Este trabalho com vista à obtenção do Grau de Mestre em Análises Clínicas foi realizado sob a orientação da Prof. Doutora Alice Santos Silva (Faculdade de Farmácia de Universidade do Porto) e da Prof. Doutora Margarida Lima (Hospital de Santo António, Centro Hospitalar do Porto e Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto). Foi desenvolvido no âmbito de um estágio feito no Laboratório de Citometria do Serviço de Hematologia Clínica do Hospital de Santo António, Centro Hospitalar do Porto, sob a orientação da Dra. Marta Gonçalves e com a coorientação da Dra. Maria Luís Queirós, técnicas superiores de Saúde deste laboratório. iv AGRADECIMENTOS No âmbito desta dissertação, quero agradecer a todas as pessoas que contribuíram para a sua realização: À Professora Doutora Alice Santos Silva, pela sua importante colaboração e sugestão de realização do estágio. À Professora Doutora Margarida Lima, diretora do Departamento de Patologia e médica responsável pelo Laboratório de Citometria, pelo seu contributo fundamental, preciosos conselhos e pelo interesse e apoio incessantemente manifestados, assim como todo o tempo disponibilizado na transmissão de conhecimentos e esclarecimento de dúvidas. À Dra. Marta Gonçalves e Dra. Maria Luís Queirós, técnicas superiores de saúde do Laboratório de Citometria, por me terem orientado durante o estágio, e também por partilharem comigo a sua experiência e conhecimento. À Dra. Inês Freitas, diretora do Serviço de Hematologia Laboratorial, pela disponibilidade e ajuda na seleção de imagens para documentação das caraterísticas morfológicas e obtenção das fotografias. Quero também agradecer a todos os professores, sem exceção, que lecionaram no Mestrado em Análises Clínicas ao longo destes últimos dois anos e cujos conhecimentos transmitidos se revelaram extremamente úteis. Por fim, quero agradecer à minha família, namorado e amigos que sempre me apoiaram e incentivaram ao longo do meu percurso académico. A todos, os meus sinceros e eternos agradecimentos. v RESUMO As doenças linfoproliferativas de células B (DLP-B) incluem várias entidades distintas do ponto de vista biológico e clínico, desde neoplasias indolentes a outras com curso clínico agressivo. Por isso, é necessário proceder à sua rápida classificação de modo a proporcionar ao doente o tratamento correto. A citometria de fluxo (CF) é uma técnica rápida, sensível e reprodutível essencial para identificação e classificação de várias doenças hematológicas, incluindo as DLP-B, sendo também útil para prever prognóstico e resposta a certos tratamentos. No entanto, a classificação definitiva destas doenças depende da conjugação de vários dados laboratoriais e da sua integração no contexto clínico. O objetivo deste estudo foi contribuir para a construção de um Atlas destas neoplasias, que possa ajudar na sua identificação e classificação, e ser usado como material de apoio para estudantes e profissionais das áreas das ciências da saúde. Este estudo foi realizado no Laboratório de Citometria do Serviço de Hematologia Clinica do Centro Hospitalar do Porto onde procedi ao acompanhamento dos casos estudados no laboratório, selecionando alguns casos representativos das DLP-B mais frequentes e caraterizando os seus aspetos clínicos, morfológicos e imunofenotípicos. O trabalho aqui apresentado está dividido em três partes em que se apresenta sucessivamente: uma breve descrição do laboratório de citometria, as principais caraterísticas das DLP-B e os casos clínicos selecionados para o futuro Atlas (Casos Clínicos). Palavras-chave: doenças linfoproliferativas de células B, citometria de fluxo, imunofenotipagem, morfologia, citogenética, genética molecular. vi ABSTRACT B-cell lymphoproliferative disorders (B-LPD) include several entities distinct both biologically and clinically, from indolent tumors to others with aggressive clinical course. Therefore, it is necessary to proceed to its rapid classification to provide the right treatment to the patient. Flow cytometry (FC) is a rapid, sensitive and reproducible technique essential for identification and classification of various hematological diseases, including B-LPD, being also useful for predicting prognosis and response to certain treatments. However, the definitive classification of these diseases depends on the combination of several laboratory data and its integration into clinical context. The goal of this study was to contribute to the construction of an Atlas of these neoplasms that can help in their identification and classification, and use as support material for students and professionals in areas of Health Sciences. This study was conducted at the Laboratory of Cytometry Department of Clinical Hematology of the Hospital de Santo António, Centro Hospitalar do Porto, where I followed the cases studied in the laboratory, selecting some cases of the most frequent BLPD and characterizing their clinical, morphological and immunophenotypic aspects. The work presented here is divided into three parts, which present successively: a brief description of the Laboratory of Citometry, the main features of B-LPD and the cases selected for the future atlas (Clinical Cases). Keywords: B cell lymphoproliferative disorders, flow cytometry, immunophenotyping, morphology, cytogenetics, molecular genetics. vii ÍNDICE AGRADECIMENTOS ....................................................................................................... iv ABSTRACT ...................................................................................................................... vi ÍNDICE DE FIGURAS ....................................................................................................... x ÍNDICE DE TABELAS ...................................................................................................... xii LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS ..................................................................... xiii 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 1 1.1 BREVE DESCRIÇÃO DO LABORATÓRIO DE CITOMETRIA ................................. 2 1.1.1 Estrutura e organização do laboratório .............................................................. 2 1.1.2 Etapas do estudo das amostras ........................................................................ 2 1.1.2.1 Receção de amostras ................................................................................. 2 1.1.2.2 Processamento de amostras....................................................................... 3 1.1.2.3 Leitura das amostras .................................................................................. 3 1.1.2.4 Análise e interpretação dos dados .............................................................. 4 1.1.2.5 Elaboração do relatório final de estudo ....................................................... 4 1.2 NEOPLASIAS HEMATOLÓGICAS .......................................................................... 5 1.3 DOENÇAS LINFOPROLIFERATIVAS DE CÉLULAS B ......................................... 11 1.3.1 Leucemia Linfocítica Crónica B / Linfoma Linfocítico ....................................... 11 1.3.2 Linfoma Esplénico de Células B de Zona Marginal .......................................... 13 1.3.3 Leucemia de Células Cabeludas / Leucemia de “Hairy Cells” .......................... 14 1.3.4 Linfoma Linfoplasmacítico ............................................................................... 16 1.3.5 Linfoma Folicular ............................................................................................. 17 1.3.6 Linfoma do Manto ............................................................................................ 18 1.3.7 Linfocitose Persistente Policlonal de Linfócitos B Binucleados ........................ 20 1.3.8 Linfoma de Burkitt ........................................................................................... 21 1.3.9 Linfoma Difuso de Células B Grandes ............................................................. 22 2 OBJETIVOS ................................................................................................................. 26 3 MATERIAIS E MÉTODOS ............................................................................................ 28 3.1 PROCEDIMENTOS TÉCNICOS ............................................................................ 29 3.1.1 Execução de esfregaços ................................................................................. 29 3.1.2 Coloração de esfregaços ................................................................................. 29 3.1.3 Imunofenotipagem de linfócitos ....................................................................... 30 3.1.3.1 Imunofenotipagem de antigénios expressos nas membranas das células 30 3.1.3.2 Imunofenotipagem de antigénios expressos no citoplasma das células .... 30 3.1.4 Procedimentos complementares ..................................................................... 31 viii 3.1.4.1 Separação de células mononucleadas em gradiente de densidade .......... 31 4. RESULTADOS/DISCUSSÃO ...................................................................................... 34 4.1 CASOS CLÍNICOS SELECIONADOS.................................................................... 35 4.1.1 LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÓNICA B .......................................................... 35 4.1.1.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 35 4.1.1.2 CASO 1. LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÓNICA B, típica ........................... 36 4.1.1.3 CASO 2. LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÓNICA B, atípica ......................... 39 4.1.2 LINFOMA ESPLÉNICO DE CÉLULAS B DE ZONA MARGINAL ..................... 42 4.1.2.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 42 4.1.2.2 CASO 3. LINFOMA ESPLÉNICO DE CÉLULAS B DE ZONA MARGINAL 43 4.1.3 LEUCEMIA DE CÉLULAS CABELUDAS / LEUCEMIA DE “HAIRY CELLS” ... 46 4.1.3.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 46 4.1.3.2 CASO 4. LEUCEMIA DE CÉLULAS CABELUDAS ................................... 47 4.1.3.3 CASO 5. LEUCEMIA DE CÉLULAS CABELUDAS ................................... 50 4.1.4 LINFOMA LINFOPLASMACÍTICO ................................................................... 53 4.1.4.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 53 4.1.4.2 CASO 6. LINFOMA LINFOPLASMACÍTICO ............................................. 54 4.1.4.3 CASO 7. LINFOMA LINFOPLASMACÍTICO ............................................. 57 4.1.5 LINFOMA FOLICULAR ................................................................................... 60 4.1.5.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 60 4.1.5.2 CASO 8. LINFOMA FOLICULAR .............................................................. 61 4.1.5.3 CASO 9. LINFOMA FOLICULAR .............................................................. 64 4.1.6 LINFOMA DO MANTO .................................................................................... 67 4.1.6.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 67 4.1.6.2 CASO 10. LINFOMA DO MANTO ............................................................. 68 4.1.6.3 CASO 11. LINFOMA DO MANTO ............................................................. 71 4.1.7 LINFOCITOSE PERSISTENTE POLICLONAL DE LINFÓCITOS B BINUCLEADOS ....................................................................................................... 74 4.1.7.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 74 4.1.7.2 CASO 12. LINFOCITOSE PERSISTENTE POLICLONAL DE LINFÓCITOS B BINUCLEADOS................................................................................................. 75 4.1.7.3 CASO 13. LINFOCITOSE PERSISTENTE POLICLONAL DE LINFÓCITOS B BINUCLEADOS................................................................................................. 78 4.1.8 LINFOMA DE BURKITT .................................................................................. 81 4.1.8.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 81 4.1.8.2 CASO 14. LINFOMA DE BURKITT ........................................................... 82 4.1.8.3 CASO 15. LINFOMA DE BURKITT ........................................................... 85 4.1.9 LINFOMA DIFUSO DE CÉLULAS B GRANDES ............................................. 88 ix 4.1.9.1 Enquadramento teórico ............................................................................. 88 4.1.9.2 CASO 16. LINFOMA DIFUSO DE CÉLULAS B GRANDES ...................... 89 5 CONCLUSÃO .............................................................................................................. 92 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................. 93 xvi 1 1 INTRODUÇÃO 2 1.1 BREVE DESCRIÇÃO DO LABORATÓRIO DE CITOMETRIA 1.1.1 Estrutura e organização do laboratório O Laboratório de Citometria (LC) do Serviço de Hematologia Clínica é um laboratório diferenciado no estudo das doenças hematológicas. Recebe anualmente cerca de 3.500 amostras, do Centro Hospitalar do Porto e de outros hospitais, maioritariamente da região Norte do País. Cerca de 65% das amostras são provenientes do exterior. As amostras são de diversos tipos: sangue periférico, aspirado medular, biopsias e produtos de punção aspirativa de gânglios linfáticos e dos mais diversos órgãos e tecidos, líquidos biológicos (ex. líquido cefalo-raquidiano) e produtos de derrame (ex. líquido pleural, pericárdico, ascítico, etc.). Entre as patologias estudadas salientam-se as doenças linfoproliferativas, as leucemias agudas, os sindromas mielodisplásicos, o mieloma múltiplo, as gamapatias monoclonais de significado indeterminado e outras doenças do plasmócito. Para além dos estudos leucocitários, são também efetuados estudos dos eritrócitos e plaquetas. O Laboratório tem 3 médicas, 2 técnicas superiores de saúde e 4 técnicas de diagnóstico e terapêutica, com reconhecida experiência na área. No equipamento disponível há a referir em especial 4 citómetros – 2 citómetros modelo FACScanto II (Becton Dickinson) e dois citómetros NAVIOS (Beckman Coulter) e um contador hematológico modelo LH780 (Beckman Coulter) Em termos funcionais, o LC encontra-se dividido em quatro setores, onde ocorre a receção das amostras, o processamento das mesmas, a análise/interpretação dos resultados, e a elaboração dos relatórios. Durante este estudo tive a oportunidade de participar em todas as fases deste processo. 1.1.2 Etapas do estudo das amostras 1.1.2.1 Receção de amostras Após a chegada da amostra, é conferida a identificação do doente e, após verificação dos dados constantes da requisição clínica, a amostra é registada no sistema informático, sendo-lhe atribuído um número de identificação. Os dados registados incluem, entre outros, a identificação do doente e do médico que solicita o estudo, o tipo de amostra, a sua proveniência, a data e hora de receção, o nome do técnico responsável pela sua receção e a informação clínica que consta na requisição. No mesmo sistema informático são inseridos, mais tarde, todos os restantes dados incluindo as análises realizadas, os respetivos resultados e o relatório final. 3 1.1.2.2 Processamento de amostras O processamento das amostras começa com a contagem de células em contador hematológico automático e com a preparação e coloração de esfregaços, sempre que aplicável (amostras de sangue periférico e de medula óssea). Os esfregaços são corados com coloração de Leishman, e posteriormente observados no microscópico ótico, para caraterização da morfologia das células. Para o processamento das amostras, a informação clínica assim como o hemograma ajudam na decisão do protocolo a seguir. O LC concebeu protocolos de imunomarcação para o estudo de diversas doenças hemato-oncológicas. Porém, este trabalho descreve apenas o protocolo referente às patologias por mim estudadas, nomeadamente, as doenças linfoproliferativas de células B (DLP-B). Sempre que se suspeita de uma doença linfoproliferativa é executado, inicialmente, o protocolo de rastreio que inclui anticorpos específicos para antigénios expressos pelos linfócitos T, pelos linfócitos B e pelas células natural killer (NK): CD3, CD4, CD5, CD8, CD16, CD19, CD20, CD56, cadeias leves kappa e lambda. O estudo é continuado, ou não, de acordo com os resultados obtidos, com a quantidade de amostra disponível e com a informação clínica. Na eventualidade do protocolo de rastreio confirmar a existência de uma DLP-B, é feito um estudo imunofenotípico complementar dos linfócitos B, usando um protocolo que permite avaliar outros antigénios como o CD10, CD11c, CD22, CD23, CD25, CD38, CD79b, FMC7, bcl2, cadeias pesadas das imunoglobulinas, entre outros. A maioria destas moléculas é expressa na membrana das células, mas algumas estão presentes apenas no interior das mesmas, nomeadamente no citoplasma, no núcleo ou nas membranas dos organelos intracelulares (ex. bcl2). Na maioria dos casos de DLP-B são usadas combinações quadruplas de anticorpos monoclonais conjugados com fluorocromos distintos, combinados de acordo com os protocolos internos do laboratório. Os procedimentos técnicos usados para a coloração dos esfregaços e para a imunofenotipagem das amostras são descritos mais à frente. 1.1.2.3 Leitura das amostras Os citómetros existentes no laboratório permitem uma análise multiparamétrica das células que inclui, para além das caraterísticas de dispersão da luz – FSC, forward scatter, e SSC, side scatter –, que dão informação quanto ao tamanho e 4 complexidade das células, o estudo simultâneo, na mesma célula, de até 8 fluorescências distintas. A leitura das amostras nos citómetros de fluxo é, sempre que possível, feita de imediato. Em caso de impossibilidade, as amostras são conservadas no frigorífico e a leitura é feita nas vinte e quatro horas seguintes. Em cada tubo são, de uma forma geral, lidas cerca de 200.000 células. A informação é armazenada em ficheiros de tipo FCS, que posteriormente são analisados. 1.1.2.4 Análise e interpretação dos dados A análise dos dados é feita no programa INFINICYT (Cytognos). A análise é feita criteriosamente de modo a obter a identificação, caraterização e classificação correta das populações estudadas. Na interpretação dos resultados são tidos em consideração vários fatores, nomeadamente o tipo de amostra e os dados clínicos. 1.1.2.5 Elaboração do relatório final de estudo O relatório final é um relatório de caráter descritivo e interpretativo onde, para além dos resultados obtidos, é, sempre que possível, proposto o diagnóstico mais provável e indicados os eventuais diagnósticos diferenciais. Sempre que necessário, é também sugerida a realização de outros estudos importantes para estabelecer um diagnóstico definitivo, nomeadamente estudos citogenéticos ou moleculares. 5 1.2 NEOPLASIAS HEMATOLÓGICAS A definição mais simples de neoplasia hematológica é a de que se origina a partir de uma única célula, e que expande de uma forma clonal e se torna neoplásica. Quando isto acontece, a célula divide-se dando origem a células idênticas (expansão clonal) e adquire as vantagens de sobrevivência e/ou proliferação em relação às outras células adquirindo autonomia (neoplasia), e, por vezes, caraterísticas que a tornam maligna (invasão de órgãos e tecidos com destruição das estruturas adjacentes, metastização à distância, etc.) (1). As neoplasias linfóides podem ter origem em células linfóides presentes nos órgãos hematopoiéticos e linfopoiéticos (como a medula óssea e o timo), nos órgãos linfóides secundários (como os gânglios linfáticos), que circulam no sangue ou que estão presentes no tecido linfóide dos diversos órgãos ou tecidos (como o tecido linfóide associado à pele e as mucosas) (1). As leucemias e linfomas são as neoplasias hematológicas mais comuns. Em anos recentes tornou-se claro que representam vários grupos de patologias que incluem um largo número de entidades distintas do ponto de vista biológico (2). Assim, foi necessário estabelecer uma classificação que permitisse distingui-las de acordo com as suas caraterísticas. A classificação atualmente aceite é a da Organização Mundial de Saúde (OMS), atualizada pela última vez em 2008 (3) (Tabela 1). 6 Tabela 1 Classificação de neoplasias hematológicas da OMS de 2008(3) 7 8 9 Uma classificação deve conter patologias que estão claramente definidas, clinicamente distintas, e, idealmente, deve incluir todas as entidades conhecidas. Para além disso, deve servir como base para futuras investigações, e deve permitir a incorporação de novas informações à medida que estas se tornam disponíveis. Não há um padrão de ouro pelo qual todas as patologias são definidas na classificação da OMS. A morfologia é muito importante e muitas entidades têm caraterísticas morfológicas únicas ou distintas. No entanto, recentemente tanto as caraterísticas imunofenotípicas como as genéticas são uma parte importante na diferenciação das neoplasias hematológicas. A classificação de OMS estratifica primariamente as neoplasias de acordo com a linhagem celular: mielóides, linfóides e histiocíticas / dendríticas (3). 16 1.3.4 Linfoma Linfoplasmacítico O linfoma linfoplasmacítico (LPL, lymphoplasmacytic lymphoma) é uma doença linfoproliferativa crónica caraterizada pela presença de linfócitos B pequenos, células linfoplasmocitárias e plasmócitos, que envolve a MO e por vezes gânglios linfáticos, baço e SP (63). A classificação da OMS, de 2008, define a Macroglobulinemia de Waldenstrom como um subtipo de LPL com envolvimento de medula óssea que tem um nível elevado de IgM monoclonal no soro (63). O LPL é uma neoplasia rara representando 1.5% dos linfomas. A idade média ao diagnóstico é de 60 anos, ligeiramente mais frequente nos homens relativamente às mulheres (64,65). A maioria dos doentes apresenta fraqueza e fadiga relacionada com anemia. Alguns casos podem apresentar adenomegalias e hepatomegalia (66). A IgM monoclonal presente no soro pode dar origem à síndrome de hiperviscosidade que cursa com o aparecimento de outros sintomas como hemorragias, distúrbios visuais e cefaleias. Outras manifestações neurológicas mais severas incluem confusão mental e défices neurológicos (67). As crioglobulinas são imunoglobulinas que precipitam a temperaturas inferiores a 37º, formando agregados moleculares complexos, constituídos por imunoglobulinas, fragmentos do complemento e fragmentos de ácidos nucleicos. A presença de níveis elevados de crioglobulinas no soro leva a manifestações clínicas, geralmente como resultado da deposição de complexos imunes nos vasos sanguíneos da pele, do sistema nervoso periférico e dos rins (68). Também podem ocorrer depósitos de IgM na pele ou trato gastrointestinal causando diarreias, e coagulopatia resultantes da ligação de IgM a fatores de coagulação (3). Nos LPL também pode existir linfocitose e as células neoplásicas são pequenas com núcleo redondo, cromatina condensada e citoplasma escasso. Coexistem com um número variável de plasmócitos, que são células de maior tamanho, forma oval, núcleo grande excêntrico e citoplasma basófilo, e com um número variável de células linfoplasmocitárias com forma intermédia entre linfócito e plasmócito. Também se observa frequentemente a presença de corpos de Dutcher, ou seja, inclusões citoplasmáticas de imunoglobulinas (69,70). A MO está quase sempre envolvida e estudos histológicos apresentam um infiltrado difuso de linfócitos pequenos, células linfoplasmocitárias e plasmócitos em proporções muito variáveis (71). Relativamente à análise por CF, não existe um perfil fenotípico específico para esta patologia. As células neoplásicas expressam os marcadores normais de linfócitos B CD19, CD20, CD22, CD79a e imunoglobulinas de membrana, geralmente IgM, com 17 restrição de cadeias leves (kappa ou lambda), e são negativas para CD5, CD10, CD23 e CD103, excluindo o diagnóstico de B-CLL e HCL. A expressão de CD25 e CD38 é variável. Os plasmócitos expressam CD38 (forte), assim como CD138, e são negativos para CD20, expressando cadeias µ de imunoglobulinas no citoplasma (3,72). Os plasmócitos também expressam PAX5, um fator de transcrição específico de células B com múltiplas funções reguladoras. Como não é normalmente expresso em plasmócitos, este marcador pode ser muito útil para o diagnóstico de LPL (73). No que respeita às alterações genéticas a análise por FISH permite detetar a del6q em 50% dos casos. No entanto, esta alteração não é específica para LPL. A doença tem um curso indolente e a sobrevida media é de 5 a 10 anos. Existem alguns casos de doença agressiva que estão associados a alguns fatores como idade avançada, valores baixos de hemoglobina (Hb) e albumina e valores altos de β2microglobulina. A presença de del6q também foi associada a doença mais agressiva e prognóstico desfavorável (67,74). 1.3.5 Linfoma Folicular O linfoma folicular (FL, Follicular Lymphoma) é uma neoplasia de células B com origem no centro germinativo dos folículos linfóides que atinge predominantemente gânglios linfáticos, podendo também envolver o baço, a MO e o SP (75). É uma patologia de curso indolente e sobrevida prolongada, representando 20% de todos os linfomas com grande incidência nos Estados Unidos da América e Europa Ocidental (76,77,78). De acordo com a classificação da OMS de 2008, consideram-se 3 graus de acordo com o número de centroblastos observados por campo de microscópio: grau 1 – 0 a 5 centroblastos; grau 2 – 6 a 15 centroblastos; grau 3 – mais de 15 centroblastos. Por sua vez o grau 3 é subdividido em: 3A – pequenos centrócitos presentes apesar de a maioria ser centroblastos; 3B – centroblastos sólidos e centrócitos completamente ausentes (79). A doença afeta tanto homens como mulheres e a idade media de diagnóstico é 60 anos (3). Os doentes apresentam geralmente adenopatias generalizadas e cerca de 10% dos doentes têm sudorese noturna, perda de peso e febre. A doença geralmente está disseminada na apresentação com envolvimento de gânglios, fígado e baço e a MO está envolvida em cerca de 40 a 70% dos casos na altura do diagnóstico (80). Na maior parte dos casos, o estudo histológico mostra um padrão de crescimento folicular com folículos neoplásicos geralmente pouco definidos e sem zonas de manto (3,81,82). Como já foi referido, as células neoplásicas típicas são de 2 tipos: centrócitos – pequenos linfócitos com cromatina densa, fenda nuclear e citoplasma escasso; 18 centroblastos – linfócitos grandes com núcleo redondo ou oval, cromatina vesicular, nucléolos periféricos e citoplasma basófilo. A percentagem destas células é extremamente variável (3). A análise imunofenotípica por CF revela um painel caraterístico em que as células neoplásicas expressam marcadores comuns aos linfócitos B normais – CD19 (fraco), CD20, CD22, FMC7 e imunoglobulinas de membrana, IgM ou IgG com restrição de cadeias leves (kappa ou lambda) (83). Carateristicamente expressam CD10 e bcl-6, duas moléculas presentes nas células B do centro germinativo e, em resultado da alteração genética subjacente – t(14;18) –, apresentam um aumento da expressão de bcl-2, uma proteína com propriedades anti-apoptóticas, que normalmente não é expressa por células do centro germinativo. Para além disso, são negativas para CD5 e CD43 (82,84,85). Relativamente à análise citogenética por FISH, existe uma alteração recorrente associada ao FL que é a t (14;18), presente em 90% dos casos (86). O resultado desta translocação é a justaposição do gene BCL-2, localizado no cromossoma 18, ao gene IGH, localizado no cromossoma 14, o que conduz ao aumento de expressão da proteína bcl-2. Esta translocação tem valor diagnóstico, mas não prognóstico (87). Existem outras alterações genéticas, sendo que algumas acarretam prognóstico desfavorável como a del6q, a del17p, e a del1p, os ganhos 12,18p e Xp; e os casos raros com t (14;18) e t (8;14); assim como outras sem valor de prognóstico, como a del10q e os ganhos 1, 6p, 7, 8 e 18q (3,87). Recentemente surgiu evidência de que os FL tipo 3B não apresentam a t (14;18) e perdem a expressão de CD10, com aumento de mutações no gene p53, do que resulta um curso mais agressivo de doença (88). 1.3.6 Linfoma do Manto O linfoma do Manto (MCL, Mantle Cell Lymphoma) é uma neoplasia de células B com origem na zona do manto dos folículos linfóides e com envolvimento predominante de gânglios linfáticos, mas também do baço e da MO, assim como do trato gastrointestinal (TGI) e do anel de Waldeyer (89,90). É uma patologia rara representando 3-10% dos Linfomas não Hodgkin (NHL). Tem um curso clínico agressivo com média de sobrevida após diagnóstico de 3 a 5 anos. Ao diagnóstico, a idade media de incidência é de 60 anos e existe um predomínio dos homens sobre as mulheres (2:1) (89,91). A maior parte dos doentes apresenta adenopatias acompanhadas por hepatoesplenomegalia e envolvimento da MO. O envolvimento do SP é comum e por vezes ocorre leucocitose com linfocitose (3). 19 Quanto à morfologia, as células neoplásicas são linfócitos de tamanho pequeno a médio com contornos nucleares irregulares, cromatina ligeiramente dispersa, nucléolo geralmente não evidente e citoplasma escasso. Também podem estar presentes histiócitos (3,92,93). Nos gânglios linfáticos, baço e anel de Waldeyer as células neoplásicas dão origem a um infiltrado com padrão de crescimento frequentemente difuso, ou nodular e raramente de zona de manto. De facto, as biopsias demonstram que estes padrões correspondem ao avanço da doença. Em fases precoces, as células neoplásicas substituem as zonas de manto, depois invadem o centro germinativo produzindo um padrão nodular e finalmente os nódulos fundem-se causando um padrão difuso (93). Além dos diferentes padrões de crescimento existem 4 variantes citológicas de MCL: tipo célula pequena – núcleo pequeno redondo ou ligeiramente dentado com cromatina densa, imitando B-CLL; tipo pleomórfico – mistura de células neoplásicas com diferentes tamanhos e formas, cromatina nuclear emplumada e quantidade moderada de citoplasma; tipo blástico – blastos pequenos a médios com cromatina dispersa e citoplasma estreito; tipo zona marginal – constituído por um foco de células com citoplasma abundante pálido semelhantes a células B de zona marginal. A importância destas variantes ainda está em debate. No entanto, pensa-se que a variante blástica tem um curso clínico mais agressivo do que a forma clássica, tornando-se importante a distinção (93,94). Análise imunofenotípica por CF revela que as células neoplásicas expressam marcadores normais de células B: CD19, CD20, CD22, FMC7 e imunoglobulinas de membrana com intensidade forte, IgM ou IgD, com restrição da cadeias leves lambda mais frequente do que kappa (92,95,96). Para além disso, expressam CD5, CD43, ciclina D1 e bcl-2 (93,96,97). O CD23 é geralmente negativo mas pode ser positivo fraco nalguns casos (98,99). As células neoplásicas são negativas para CD10 e bcl-6, marcadores associados a células B do centro germinativo (100). Recentemente, o SOX11, um fator de transcrição neuronal, tem sido usado para identificar casos MCL em que a ciclina D1 é negativa. Este marcador é expresso nas células B neoplásicas do MCL sendo geralmente negativo nos outros linfomas (101,102). Relativamente à análise citogenética por FISH, existe uma alteração genética presente em quase todos os casos de MCL que é t (11;14). Desta translocação resulta a justaposição do gene ciclina D1, no cromossoma 11, com o gene IGH, no cromossoma 14, resultando um aumento da expressão de ciclina D1, que leva a desregulação do ciclo celular e ativação de mecanismos de sobrevivência celular, contribuindo para a patogenia da doença (96). Em menor percentagem, encontram-se outras alterações genéticas com 20 ou sem valor de prognóstico associado: ganho 7p21 (16-34% dos casos), ganho 8q24 (16-36% dos casos), del1p13-p31 (29-52% dos casos), del6q23-q27 (23-38% dos casos), del11q22-q23 (21-59% dos casos), del13q11-q13 (22-55% dos casos), del13q14-q34 (4351% dos casos), del17p13-pter (43-51% dos casos) que não têm valor de prognóstico. E ganho 3q26 (31-50% dos casos), del9p21 (18-31% dos casos), trissomia 12 (25% dos casos); raros casos com t (8;14) (MYC) associados a prognóstico desfavorável (3). Esta translocação envolvendo o gene MYC, resulta na expressão aumentada da proteína MYC que afeta várias funções celulares incluindo a regulação do ciclo celular, apoptose, metabolismo, adesão e diferenciação celular (103). 1.3.7 Linfocitose Persistente Policlonal de Linfócitos B Binucleados Inicialmente descrita em 1982, a linfocitose B policlonal de linfócitos binucleados (PPBL, persistent polyclonal B lymphocytosis with binucleated lymphocytes) é uma patologia rara caraterizada por linfocitose B policlonal no SP persistente, estável e crónica sem anemia ou trombocitopenia, e níveis elevados de IgM no soro (104). Afeta predominantemente mulheres fumadoras (105). A idade média de incidência é entre os 40 e os 50 anos. A maior parte dos doentes está assintomática, sendo observada esplenomegalia ligeira em 10% dos casos. Cursa com linfocitose, enquanto a contagem de neutrófilos e plaquetas se encontram em níveis normais (106). A análise morfológica revela uma população de células linfóides composta predominantemente por linfócitos atípicos com citoplasma abundante e núcleo maduro. Uma percentagem variável destes linfócitos apresenta o núcleo bilobado, uma caraterística desta patologia (107). Estudos histológicos revelam que no baço existe expansão dos nódulos da polpa branca, à custa de linfócitos pequenos. Também é observada infiltração massiva da polpa vermelha por linfócitos com as mesmas caraterísticas, que se localizam nos cordões esplénicos e dentro dos sinusóides, onde ocasionalmente podem ser observados linfócitos binucleados com expansão de nódulos da polpa (3,108). A MO, quando envolvida, tem uma pequena infiltração de linfócitos, raramente excedendo 10-15%, geralmente presentes nos sinusoides (109). A análise imunofenotípica por CF demonstra que a linfocitose tem origem em célula B, uma vez que expressam CD19, CD20, CD22, CD79b, FMC7 e imunoglobulinas de membrana, especialmente IgM e IgD, com uma razão kappa:lambda normal. Carateristicamente expressam CD18, CD25, CD27 e bcl-2 e são negativas para CD5, CD10, CD23, CD31, CD38, CD43 e ciclina D1 (107,109). 21 A patogenia da doença não é conhecida (110) e a análise citogenética por FISH descreve a anomalia +i (3q) em 70% dos casos. Em menor percentagem também se observa rearranjos bcl-2 e trissomia 3 (106,111,112). 1.3.8 Linfoma de Burkitt O linfoma de Burkitt (BL, Burkitt Lymphoma) é uma neoplasia agressiva de células B, descrita pela primeira vez por Dennis Burkitt em 1958. Representa aproximadamente 2.5% dos NHL em adultos e envolve preferencialmente locais extraganglionares, como o intestino delgado e o maxilar. A distinção entre BL e outros linfomas de alto grau é clinicamente importante, não só porque o BL tem uma taxa de proliferação muito alta, mas também porque os doentes estão em risco de envolvimento do sistema nervoso central (SNC) (113,114). São conhecidas 3 variantes clínicas de BL: endémico, esporádico e associado a imunodeficiência. O BL endémico ocorre na África Equatorial, representando a patologia mais comum em crianças nesta área, com um pico de incidência dos 4 aos 7 anos e uma razão homem: mulher de 2:1. Cursa com tumor ósseo ou facial em 50% dos casos, mas também pode afetar outros locais como mesentério, ovários, testículos, rim, mama e meninges. Representa 30 a 50% dos linfomas em crianças e está associado com vírus EBV (Epstein-Barr virus) (3,113,114). O BL esporádico ocorre por todo o mundo, principalmente em crianças e adultos jovens. A incidência é baixa representando apenas 1-2% dos linfomas da Europa Ocidental e Estados Unidos da América. A idade média dos doentes adultos é 30 anos. A razão homem: mulher é de 2 ou 3:1, e em crianças esta razão é ainda mais acentuada. Pode envolver vários órgãos como o tubo digestivo (intestino delgado, estômago, cego), mesentério, rim, testículos, ovários e mama. Alguns casos têm envolvimento dos ossos da face (25%), e também da medula óssea e do sistema nervoso central (30 e 15% dos casos). Os sinais e sintomas podem incluir obstrução intestinal ou hemorragia gastrointestinal. Apenas 30% destes casos estão associados com EBV(3,113,114). Finalmente, o BL associado a imunodeficiência é encontrado em associação com a infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) mas não em outras formas de imunossupressão. A apresentação ganglionar é frequente, assim como envolvimento da MO (3,113,114). Além destas variantes, existem 2 formas morfológicas: o BL com diferenciação plasmocitária mais frequente no BL associado a imunodeficiência, em que as células neoplásicas núcleo excêntrico e um único nucléolo caraterístico de plasmócito e o BL 22 atípico em que as células são grandes e mais pleomórficas; esta forma é mais comum nos adultos (2). As células neoplásicas típicas são de tamanho médio com núcleo redondo, cromatina relativamente condensada, nucléolos múltiplos e citoplasma basófilo que geralmente contêm vacúolos lipídicos. Na MO, o padrão de infiltração é difuso e monótono, com uma aparência de céu estrelado caraterístico (starry sky) devido à presença de inúmeros macrófagos contendo células apoptóticas no seu interior (116,117). A análise por CF revela que as células neoplásicas expressam marcadores de linfócitos B: CD19, CD20, CD22, CD79a e imunoglobulinas de membrana, geralmente IgM com restrição de cadeias leves (kappa ou lambda). Expressam carateristicamente CD10, CD38, CD43, CD77 e bcl-6, sem evidência de rearranjos no gene BCL-6. A expressão de bcl-2 é fraca ou ausente. Além disso, são negativas para CD5, CD23, CD34 e TdT (terminal deoxynucleotidyl transferase). O CD18 e CD54 tem expressão muito fraca ou ausente e o CD44 é geralmente negativo. Pensa-se que as células neoplásicas derivam do centro germinativo, por expressarem CD10 e bcl-6 (3,118,119,120). A análise citogenética por FISH revela que todos os tipos de BL possuem translocação entre o cromossoma 8 e um de três cromossomas: 2,14 ou 22. Cerca de 80% dos casos apresenta t (8;14) que justapõe o gene MYC ao locus IGH, levando ao aumento da expressão da proteína MYC. Nos outros 20%, ocorre t (2;8) e t (8;22) que justapõe o gene MYC ao locus dos genes que codificam para as cadeias leves das imunoglobulinas, kappa (IGK) ou lambda (IGL), respetivamente (121,122). Como já foi referido, o MYC é um fator de transcrição que influencia a transcrição de uma variedade de proteínas envolvidas na regulação do ciclo celular, apoptose, crescimento, adesão e diferenciação celular (115). Em alguns casos existem outras alterações genéticas associadas: 13q, associada com prognóstico desfavorável em crianças mas não em adultos; 17p associada com prognóstico desfavorável em adultos (122,123). 1.3.9 Linfoma Difuso de Células B Grandes O linfoma difuso de células B grandes (DLBCL, Diffuse Large B Cell Lymphoma) é uma neoplasia de linfócitos B comum, representando 25-30% dos NHL nos adultos em países ocidentais e em países em desenvolvimento (1). É mais comum em idosos com idade média de incidência de 70 anos. No entanto, pode aparecer numa grande gama de idades, sendo bastante heterogénea na histologia, imunofenótipo, resposta ao tratamento e clínica. Apesar de estar associada a uma sobrevida curta em doentes não tratados, a 23 neoplasia pode ter remissão completa com tratamento adequado. Ocorre nos homens com ligeira predominância sobre as mulheres (124,125). É uma patologia que pode surgir de novo ou resultar da transformação de linfomas de “baixo grau” como a B-CLL ou o FL. Tipicamente apresenta envolvimento ganglionar, mas também pode envolver outros órgãos como TGI, ossos, testículos, baço, anel de Waldeyer, glândulas salivares, tiróide, fígado, rim e glândulas suprarrenais. O envolvimento da MO ocorre em 11 a 27% dos casos e 1/3 destes tem envolvimento de SP. O envolvimento da MO significa muitas vezes estadio avançado da doença. Quando existem, os sinais e sintomas são muito variáveis dependendo do local de envolvimento. Cerca de 30% dos doentes apresenta febre, perda de peso e sudorese noturna (3,126). A neoplasia é muito heterogénea apresentando 3 variantes morfológicas: centroblástica, imunoblástica e anaplásica. A variante centroblástica a forma mais comum. A célula predominante é o centroblasto – linfócito grande com núcleo redondo ou oval, cromatina vesicular, nucléolos periféricos e citoplasma basófilo. Nalguns casos, o tumor é monomórfico, isto é, composto inteiramente (mais de 90%) por centroblastos. Geralmente é polimórfico com mistura de centroblastos e imunoblastos. Na variante imunoblástica mais de 90% das células são imunoblastos – linfócitos B imaturos com núcleo grande, um único nucléolo central e citoplasma basófilo. A variante anaplásica carateriza-se, como o próprio nome indica, pela presença de células anaplásicas arredondadas, ovais ou poligonais, com núcleo pleomórfico e aspeto bizarro (3). Além desta divisão, existe outra de acordo com expressão genética e imunofenotípica: subtipos GCB (germinal center B cell like) e ABC (activated B cell like). O subtipo GCB está associado com expressão de CD10, bcl-6 e rearranjos bcl-2 e são frequentes os ganhos 1q, 2p, 7q e 12q. A maior parte é de variante centroblástica e está associado com melhor prognóstico. O subtipo ABC associa-se com expressão de MUM1/IRF4, um membro da família de genes de fatores reguladores que tem um papel importante na regulação da expressão génica em resposta à sinalização por interferão e citocinas, CD5 e CD138. A maior parte é de variante imunoblástica e está associado com prognóstico desfavorável. Do ponto de vista citogenético carateriza-se pelos ganhos 3q,18q e 19q e perdas 6q e 9p (127,128,129). Os estudos histológicos mostram um infiltrado difuso de células grandes. O envolvimento ganglionar parcial pode ser interfolicular ou mais raramente sinusoidal (3). A análise imunofenotípica por CF revela que as células neoplásicas expressam marcadores de linfócitos B CD19, CD20, CD22, CD79a e imunoglobulinas de membrana, geralmente IgM com restrição de cadeias leves (130). O bcl-2 é expresso em 80% e bcl-6 em 70% dos casos. O CD10 é positivo em 30 a 60% e está associado com morfologia 24 centroblástica. O MUM1/IRF4 é positivo em 35 a 65% dos casos e está associado com morfologia imunoblástica (127,128,129,131). O CD30 quando positivo é associado com a variante anaplásica. O significado deste marcador nos DLBCL permanece desconhecido (132). O CD5 é geralmente negativo, mas quando é expresso está associado com subtipo ABC, idade avançada, prognóstico desfavorável e curso clínico agressivo (133). O CD56 é positivo em menos de 10% dos DLBCL, estando associado com envolvimento extraganglionar (134). A análise citogenética por FISH não tem evidenciado alterações recorrentes específicas dos DLBCL. No entanto, foram descritos rearranjos do gene BCL6 em 30% dos casos; t (14;18) em 20% dos casos; e rearranjos do gene MYC em 10% dos casos associado com prognóstico desfavorável (135,136,137). Outras alterações que têm sido encontradas são 14q32, 18q21, 1q21, 3q27, 1q36, 8q24, 3p21, 6q21, 1p22 e 22q11 (3). 25 32 torno do tubo à medida que vai aspirando, cuidadosamente, para não misturar as fases. 7. Transferir as células mononucleadas recuperadas em tubo de plástico de 5 ml e adicionar cerca de 4 ml PBS-Az (0.1%). 8. Centrifugar Centrifugar a 300-350 xg, durante 5 minutos, à temperatura ambiente. 9. Remover o sobrenadante por decantação rápida, suspender o botão de células e lavar mais duas vezes em PBS-Az (0.1%), nas mesmas condições. 10. Remover o sobrenadante por decantação rápida e suspender o botão de células em cerca de 0.5 ml de PBS-BSA (2%) -Az (0.1%). 33 34 4. RESULTADOS/DISCUSSÃO 35 4.1 CASOS CLÍNICOS SELECIONADOS Seguidamente procede-se à apresentação de 16 casos de DLP-B selecionados do LC durante a realização deste estudo, assim como as suas caraterísticas clínicas, morfológicas e imunofenotípicas. 4.1.1 LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÓNICA B 4.1.1.1 Enquadramento teórico Clínica: A leucemia linfocítica crónica B (B-CLL, B-cell chronic lymphocytic leukemia) é uma neoplasia de linfócitos B maduros que se acumulam no sangue periférico, medula óssea, baço e gânglios linfáticos. É a leucemia mais comum em adultos nos Países Ocidentais, afetando mais homens do que mulheres e aumentando a incidência com a idade. Na maioria dos casos os doentes estão assintomáticos na data do diagnóstico e cada vez com mais frequência a patologia é descoberta em exames de rotina. Quando há sinais e sintomas, estes podem incluir adenopatias, esplenomegalia, hepatomegalia, febre, perda de peso, fadiga e infeções. Caraterísticas morfológicas: Nos casos típicos, a célula predominante é o linfócito pequeno, com núcleo redondo, cromatina condensada, e citoplasma escasso. No sangue periférico, observam-se frequentemente sombras de Gumprecht. Em alguns casos podem ser observadas células linfóides com morfologia atípica, nomeadamente prolinfócitos. Quando estas células excedem 15% dos linfócitos circulantes a B-CLL é designada "atípica". Se a percentagem de prolinfócitos for superior a 55% designa-se por Leucemia Prolinfocítica. Caraterísticas fenotípicas: As células linfóides neoplásicas são CD19+, CD20+ (fraco) e CD22+ (fraco) e expressam carateristicamente CD5 e CD23. O FMC7 e o CD79b são geralmente negativos ou positivos fracos. O CD10 é negativo. A expressão de CD38 (mais de 30% das células) e/ou de ZAP-70 (mais de 20% das células) associa-se a prognóstico desfavorável. Caraterísticas genéticas: Cerca de 80% dos casos cursam com alterações citogenéticas e algumas destas alterações permitem identificar grupos de doentes com prognóstico distinto: bom prognóstico – del 13q (mais de 40% dos casos); mau prognóstico – del 11q (3-15% dos casos); del 17p (5-12% dos casos); del 6q (3-5% dos casos); del 14q (4-10% dos casos). 36 4.1.1.2 CASO 1. LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÓNICA B, típica Informação clínica – Homem, 68 anos, com linfocitose persistente. Dislipidemia, diabetes mellitus tipo 2 e enfarte cerebral. Imunofenotipagem (sangue periférico) – Os linfócitos B representam 79% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+, CD20+ fraco, CD5+ fraco, CD10-, CD38- , CD23+, FMC7-, CD79b+ fraco, CD11c variável, CD25+, CD103-, IgD+, cadeias leves lambda+ com fraca intensidade. (Figura 1). Morfologia (esfregaço de sangue periférico) – Predomínio de linfócitos pequenos, com citoplasma escasso e cromatina condensada. Presença de sombra de Gumprecht. (Figura 2). 37 Figura 1. Dot plots representativos da imunofenotipagem dos leucócitos do sangue periférico de um doente com leucemia linfocítica crónica B típica (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 38 A B Figura 2 Esfregaço de sangue periférico de um doente com leucemia linfocítica crónica B típica (coloração de Leishman; painel A, 40x; painel B, 100x) 39 4.1.1.3 CASO 2. LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÓNICA B, atípica Informação clínica – Mulher, 67 anos. Linfocitose em estudo. Imunofenotipagem (sangue periférico) – Os linfócitos B representam 72% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+, CD20+ fraco, CD5+, CD23+, FMC7-, CD79b+ fraco, CD11c variável, IgD+, cadeias leves kappa+ com intensidade fraca, CD38+, ZAP-70+ (figura 3). Morfologia (esfregaço de sangue periférico) – Predomínio de linfócitos de tamanho médio com citoplasma relativamente abundante (figura 4). 40 Figura 3 Dotplots representativos da imunofenotipagem dos leucócitos do sangue periférico de um doente com leucemia linfocítica crónica B atípica (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 41 A B Figura 4 Esfregaço de sangue periférico de um doente com leucemia linfocítica crónica B atípica (coloração de Leishman; painel A, 40x; painel B, 100x) 48 Figura 7 Dotplots representativos da imunofenotipagem das células da medula óssea de um doente com tricoleucemia (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 49 Figura 8 Esfregaço de medula óssea de um doente com tricoleucemia (coloração de Leishman; 100x) 50 4.1.3.3 CASO 5. LEUCEMIA DE CÉLULAS CABELUDAS Informação clínica – Homem, 42 anos. Pancitopenia. Imunofenotipagem (sangue periférico) – Os linfócitos B representam 18% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+ muito forte, CD20+ muito forte, CD5-, CD10-, CD38-, CD23+, FMC7+, CD79b+, CD11c+ muito forte, CD25+, CD103+ forte e cadeias leves lambda+. (figura 9) Morfologia (esfregaço de um sangue periférico) – Presença de células de tamanho grande com citoplasma abundante, de contorno irregular com numerosas vilosidades citoplasmáticas. (figura 10) 51 Figura 9 Dotplots representativos da imunofenotipagem dos leucócitos do sangue periférico de um doente com tricoleucemia (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 52 Figura 10 Esfregaço de sangue periférico de um doente com tricoleucemia (coloração de Leishman; 100x) 53 4.1.4 LINFOMA LINFOPLASMACÍTICO 4.1.4.1 Enquadramento teórico Clínica: O linfoma linfoplasmacítico (LPL, lymphoplasmacytic lymphoma) é uma neoplasia de linfócitos B maduros, células linfoplasmocitárias e plasmócitos, que envolvem a medula óssea e por vezes os gânglios, o baço e o sangue periférico. É uma patologia rara, representando 1,5% dos linfomas. A idade média dos doentes é de 60 anos e a doença tem ligeiro predomínio nos homens. A maioria dos doentes apresenta fraqueza e fadiga relacionada com anemia. Alguns casos apresentam adenomegalias, esplenomegalia e hepatomegalia. Esta patologia está também associada à presença de IgM monoclonal no soro, o que pode aumentar a viscosidade sanguínea, dando origem à síndrome de hiperviscosidade com distúrbios visuais, problemas neurológicos, hemorragias e crioglobulinemia. Também podem ocorrer depósitos de IgM na pele ou no trato gastrointestinal, causando diarreias, e coagulopatias resultantes da ligação da IgM a fatores de coagulação. Caraterísticas histopatológicas: As células neoplásicas formam um infiltrado difuso composto por linfócitos pequenos, alguns plasmócitos e células linfoplasmocitárias. Caraterísticas morfológicas: Os linfócitos B neoplásicos, que são pequenos, têm núcleo redondo, cromatina condensada e citoplasma escasso, coexistem com um número variável de plasmócitos, que têm tamanho maior, forma oval, núcleo grande excêntrico e citoplasma basófilo, e de células linfoplasmocitárias, com forma intermédia entre linfócito e plasmócito. Também se observa frequentemente a presença de corpos de Dutcher (inclusão de imunoglobulinas no citoplasma). Caraterísticas fenotípicas: As células B neoplásicas expressam CD19, CD20, CD22, CD79a e imunoglobulinas de membrana (IgM+). A expressão de CD25 e CD38 é variável. São negativas para CD5, CD10, CD23 e CD103 (excluindo B-CLL e HCL). Os plasmócitos expressam CD38 com intensidade forte, são CD138+ e CD20-, e acumulam cadeias µ de imunoglobulinas do citoplasma. Caraterísticas genéticas: Não há alterações genéticas específicas associadas a esta patologia. No entanto, em mais de 50% dos casos, tem sido descrita a presença de del6q, associada a prognóstico desfavorável. 54 4.1.4.2 CASO 6. LINFOMA LINFOPLASMACÍTICO Informação clínica – Homem, 51 anos. Gamapatia monoclonal em estudo. Imunofenotipagem (aspirado medular) – Os linfócitos B representam 58% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+, CD20+, CD5-, CD10-, CD23-, CD38-, CD79b+, CD11c-, CD25+, CD103-, IgM+ e cadeias leves lambda+ (figura 11). Morfologia (esfregaço de medula óssea) – Presença de linfócitos de tamanho médio, citoplasma ligeiramente basófilo e nucléolo impercetível (figura 12). 55 Figura 11 Dotplots representativos da imunofenotipagem das células de medula óssea de um doente com LPL (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 56 A B Figura 12 Esfregaço de medula óssea de um doente com linfoma linfoplasmacítico (coloração de Leishman; painel A, 40x; painel B, 100x) 57 4.1.4.3 CASO 7. LINFOMA LINFOPLASMACÍTICO Informação clínica – Homem, 78 anos. Anemia e gamapatia monoclonal IgM, kappa em análise de rotina. Adenopatias. Suspeita de linfoma ou mieloma múltiplo. Imunofenotipagem (sangue periférico) – Os linfócitos B representam 70% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+, CD20+, CD10-, CD5-, CD23-, CD79b+ forte, CD11c-, CD25+ fraco, CD103-, CD38-, IgM+ forte e cadeias leves kappa+ forte (figura 13). Morfologia (esfregaço de sangue periférico) – Presença de linfócitos de tamanho médio a grande, com citoplasma relativamente abundante e moderadamente basófilo; núcleo de contorno irregular, nucléolo visível mas pouco percetível (figura 14). 64 4.1.5.3 CASO 9. LINFOMA FOLICULAR Informação clínica – Homem, 39 anos, adenopatias, sintomas B Imunofenotipagem (sangue periférico) – Os linfócitos B representam 57% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+ fraco, CD20+, CD5-, CD10+, CD38+ fraco, FMC7+, cadeias leves lambda+ e expressão aumentada de bcl2. (figura 17) Morfologia (esfregaço de sangue periférico) – Presença de centrócitos, pequenos linfócitos com cromatina densa, fenda nuclear e citoplasma escasso. (figura 18) 65 Figura 17 Dotplots representativos da imunofenotipagem dos leucócitos do sangue periférico de um doente com linfoma folicular (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 66 A B Figura 18 Esfregaço de sangue periférico de um doente com linfoma folicular (coloração de Leishman; painel A, 40x; painel B, 100x) 67 4.1.6 LINFOMA DO MANTO 4.1.6.1 Enquadramento teórico Clínica: O linfoma de células do manto (MCL, mantle cell lymphoma) é uma neoplasia com origem nos linfócitos B do manto dos folículos linfóides que envolve essencialmente os gânglios linfáticos, podendo também envolver o baço, a medula óssea e o sangue periférico. Outros sítios frequentes de envolvimento são o trato gastrointestinal e o anel Waldeyer. É uma patologia rara representando 3-10% dos linfomas não-Hodgkin. A idade média ao diagnóstico é de 60 anos e os homens são mais afetados do que as mulheres (2:1). A maior parte dos doentes apresenta adenopatias acompanhadas por hepatoesplenomegalia. É comum existir leucocitose com linfocitose. Caraterísticas histopatológicas: O proliferação linfóide tem origem na zona do manto, podendo o padrão de crescimento ser difuso ou nodular. Caraterísticas morfológicas: As células neoplásicas são linfócitos de tamanho pequeno a médio, com núcleo irregular, cromatina ligeiramente dispersa e nucléolo impercetível. Podem estar presentes histiócitos (macrófagos inativos, com os pseudópodes retraídos e aspeto ovoide). Caraterísticas fenotípicas: As células neoplásicas expressam CD19, CD20, CD22 e imunoglobulinas de membrana com intensidade forte (IgM /IgD), sendo a restrição de cadeia leve lambda mais frequente do que kappa. Carateristicamente expressam CD5, CD43, FMC7, ciclina D1 e bcl2. O CD23 é positivo fraco ou negativo. O SOX11 tem sido utilizado como marcador específico nos casos raros em que ciclina D1 é negativo. As células são negativas para CD10 e bcl6. Caraterísticas genéticas: A alteração genética presente em quase todos os casos de linfoma do manto é a t (11;14). No entanto, podem existir outras alterações genéticas associadas, com ou sem valor de prognóstico: sem valor de prognóstico: ganho 7p21 (1634% dos casos), ganho 8q24 (16-36% dos casos), del1p13-p31 (29-52% dos casos), del6q23-q27 (23-38% dos casos), del11q22-q23 (21-59% dos casos), del13q11-q13 (2255% dos casos), del13q14-q34 (43-51% dos casos), del17p13-pter (43-51% dos casos); com prognóstico desfavorável: ganho 3q26 (31-50% dos casos), del9p21 (18-31% dos casos), trissomia 12 (25% dos casos); raros casos com t (8;14) (MYC). 68 4.1.6.2 CASO 10. LINFOMA DO MANTO Informação clínica – Mulher, 67 anos. Adenopatias. Imunofenotipagem (aspirado medular) – Os linfócitos B representam 61% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+, CD20+, CD5+, CD10-, CD38+, CD23 variável, FMC7+, CD79b+ e cadeias leves lambda+ (figura 19). Morfologia (esfregaço de medula óssea) – Presença de linfócitos pequenos, cromatina ligeiramente dispersa e nucléolo impercetível (figura 20). 69 Figura 19 Dotplots representativos da imunofenotipagem das células de medula óssea de um doente com linfoma do manto (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 70 A B Figura 20 Esfregaço de medula óssea de um doente com linfoma do manto (coloração de Leishman; painel A, 40x; painel B, 100x) 71 4.1.6.3 CASO 11. LINFOMA DO MANTO Informação clínica – Mulher, 87 anos. Suspeita de leucemia aguda / linfoma leucemizado. Imunofenotipagem (sangue periférico) – Os linfócitos B representam 63% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+, CD20+ forte, CD5+, CD10-, CD38+, CD23-, FMC7+, CD79b+, IgD+, IgM+ e cadeias leves kappa+ (figura 21). Morfologia (esfregaço de sangue periférico) – Presença de linfócitos de tamanho médio com núcleo irregular, cromatina dispersa e nucléolo impercetível (figura 22). 72 Figura 21 Dotplots representativos da imunofenotipagem dos leucócitos do sangue periférico de um doente com linfoma do manto (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 73 A B Figura 22 Esfregaço de sangue periférico de um doente com linfoma do manto (coloração de Leishman; painel A, 40x; painel B, 100x) 80 A B Figura 26 Esfregaço de sangue periférico de um doente com linfocitose persistente policlonal de linfócitos B binucleados (coloração de Leishman; painel A, 40x; painel B, 100x) 81 4.1.8 LINFOMA DE BURKITT 4.1.8.1 Enquadramento teórico Clínica: O linfoma de Burkitt (BL, Burkitt lymphoma) é uma neoplasia de linfócitos B com origem no centro germinativo e curto tempo de duplicação, do qual se conhecem 3 variantes: a) BL endémico: ocorre na África Equatorial, com um pico de incidência dos 4 aos 7 anos e uma razão homem: mulher de 2:1; cursa com tumor ósseo ou facial em 50% dos casos, mas também pode afetar outros locais como mesentério, ovários, testículos, rim, mama e meninges; b) BL esporádico: ocorre por todo o mundo, principalmente em crianças e adultos jovens; a incidência é baixa representando apenas 1-2% dos linfomas da Europa Ocidental e Estados Unidos da América; a idade média dos doentes adultos é 30 anos; a razão homem: mulher é de 2 ou 3:1, e em crianças esta razão é ainda mais acentuada; pode envolver vários órgãos como o tubo digestivo (intestino delgado, estômago, cego), mesentério, rim, testículos, ovários e mama; alguns casos têm envolvimento dos ossos da face (25%), e também da medula óssea e do sistema nervoso central (30 e 15% dos casos); os sinais e sintomas podem incluir obstrução intestinal ou hemorragia gastrointestinal; c) BL associado a imunodeficiência: é encontrado em associação com a infeção pelo VIH; apresentação ganglionar é frequente, assim como envolvimento da medula óssea. Caraterísticas morfológicas: As células neoplásicas típicas são de tamanho médio com núcleo redondo, nucléolos múltiplos e citoplasma basófilo que geralmente contém vacúolos lipídicos. Em alguns casos têm basófilo e núcleo excêntrico com um único nucléolo central (BL com diferenciação plasmacitóide) e outros apresentam grande pleomorfismo celular (BL atípico). Caraterísticas fenotípicas: As células neoplásicas expressam CD19, CD20, CD22, CD79a e imunoglobulinas de membrana (IgM) com restrição de cadeias leves (mais kappa do que lambda), assim como CD10, CD38, CD43, CD77 e bcl6. O bcl2 é positivo fraco ou negativo. Não há expressão de CD5, CD23, CD34 e TdT. Caraterísticas genéticas: É típica a existência de translocação entre o braço longo do cromossoma 8 (oncogene MYC), e os genes que codificam para as cadeias pesadas (IGH) e leves (IGK e IGL) das imunoglobulinas: gene IGH no cromossoma 14 (80% os casos) – t (8;14); gene IGK no cromossoma 2 (15% dos casos) – t (2;8) – gene da IGL no cromossoma 22 (5% dos casos) – t (8;22). 82 4.1.8.2 CASO 14. LINFOMA DE BURKITT Informação clínica – Mulher, 40 anos. Informação clínica não disponível. Imunofenotipagem (aspirado medular) – Os linfócitos B representam 76% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+, CD20+, CD5-, CD10+, CD38+, CD34-, TdT-, cadeias leves lambda+ e expressão diminuída de bcl2 (figura 27). Morfologia (esfregaço de medula óssea) – Presença de células de tamanho médio com citoplasma basófilo contendo vacúolos lipídicos (figura 28). 83 Figura 27 Dotplots representativos da imunofenotipagem das células de medula óssea de um doente com linfoma de Burkitt (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 84 A B Figura 28 Esfregaço de medula óssea de um doente com linfoma de Burkitt (coloração de Leishman; painel A, 40x; painel B, 100x) 85 4.1.8.3 CASO 15. LINFOMA DE BURKITT Informação clínica – Homem, 57 anos. Informação clínica não disponível. Imunofenotipagem (aspirado medular) – Os linfócitos B representam 81% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+, CD20+ forte, CD5-, CD10+, CD38+, CD34-, TdT-, CD79a+, cadeias leves lambda+ e expressão diminuída de bcl2 (figura 29). Morfologia (esfregaço de medula óssea) – Presença de células de tamanho médio com núcleo com nucléolos e citoplasma basófilo contendo vacúolos lipídicos (figura 30). 86 Figura 29 Dotplots representativos da imunofenotipagem das células de medula óssea de um doente com linfoma de Burkitt (  linfócitos B;  restantes leucócitos) 87 A B Figura 30 Esfregaço de medula óssea de um doente com linfoma de Burkitt (coloração de Leishman; painel A, 100x; painel B, 100x) 88 4.1.9 LINFOMA DIFUSO DE CÉLULAS B GRANDES 4.1.9.1 Enquadramento teórico Clínica: O linfoma difuso de células B grandes (DLBCL, diffuse large B cell lymphoma) e uma neoplasia de linfócitos B comum, representando 25-30% dos linfomas não Hodgkin nos adultos em países ocidentais e em países em desenvolvimento. A apresentação é geralmente ganglionar, mas a doença também pode envolver outros órgãos como o trato gastrointestinal, ossos, testículos, baço, anel de Waldeyer, glândulas salivares, tiróide, fígado, rim e glândulas supra-renais. O envolvimento da medula óssea ocorre em 11-27% dos casos, sendo que 1/3 destes doentes também apresenta envolvimento do sangue periférico. É mais comum em idosos, sendo a idade média de incidência 70 anos. Também pode ocorrer em crianças e jovens adultos, tendo um ligeiro predomínio nos homens. Quando existem sinais e sintomas são muito variáveis dependendo do local de envolvimento. Cerca de 30% dos doentes tem febre, perda de peso e sudorese noturna. Caraterísticas histopatológicas: Ocorre proliferação difusa de células linfóides grandes nos gânglios linfáticos. O envolvimento ganglionar parcial pode ser interfolicular ou mais raramente sinusoidal. Caraterísticas morfológicas: São conhecidas 3 variantes morfológicas: a) Centroblástica: é a forma mais comum; a célula predominante é o centroblasto – linfócito grande com núcleo redondo ou oval, cromatina vesiculada, nucléolos periféricos e citoplasma basófilo; b) Imunoblástica: mais de 90% das células são imunoblastos – células com núcleo grande, nucléolo único central e citoplasma basófilo; c) Anaplásica: as células são redondas, ovais ou poligonais e têm núcleo pleomórfico bizarro. Caraterísticas fenotípicas: As células neoplásicas expressam CD19, CD20, CD22, CD79a e imunoglobulinas de membrana (geralmente IgM). O bcl2 é expresso em 80% dos casos e o bcl6 em 70%. Outros marcadores positivos são o CD10 (30 a 60% dos casos) e o MUM1/IRF4 (35 a 65% dos casos). Na variante anaplásica o CD30 é positivo. O CD5 é geralmente negativo, mas quando é expresso está associado a prognóstico desfavorável. Caraterísticas genéticas: Foram descritos rearranjos do BCL6 em 30% dos casos; t (14;18) em 20% dos casos; rearranjos do gene MYC em 10% dos casos. Outras alterações são: 14q32, 18q21, 1q21, 3q27, 1q36, 8q24, 3p21, 6q21, 1p22 e 22q11. 89 4.1.9.2 CASO 16. LINFOMA DIFUSO DE CÉLULAS B GRANDES Informação clínica – Mulher, 60 anos. Adenopatias Imunofenotipagem (biópsia ganglionar) – Os linfócitos B representam 61% dos linfócitos com caraterísticas fenotípicas: CD19+ fraco, CD20+ fraco, CD5-, CD10-, CD38+ fraco, CD23-, HLA-DR+ forte, bcl2+ forte e cadeias leves lambda+ forte (figura 31). 96 to the differential diagnosis with other B-cell disorders. Blood. 1994 Mar 15; 83(6):1558-62. 35. Isaacson PG, Matutes E, Burke M, Catovsky D. The histopathology of splenic lymphoma with villous lymphocytes. Blood. 1994 Dec 1; 84(11):3828-34. 36. Franco V, Florena AM, Iannitto E. Splenic marginal zone lymphoma. Blood. 2003; 101(7):2464-72. Epub 2002/11/26. 37. 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