Arquitectura e Modos de Habitar: Manuel Correia Fernandes
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“(...) Não sei se é da idade, mas começo a ter alguns receios de que de facto as coisas vão no mau sentido. E o mau sentido é a cidade começar a compartimentar-se em excesso, a espartilhar-se novamente: a zona dos ricos e a zona dos pobres, as zonas caras e as zonas baratas, as zonas que se cuidam e as zonas que não são cuidadas.” EDIÇÕES CIAMH MANUEL CORREIA FERNANDES 03Arquitectura e modos de habitar Conversas com arquitectos Carlos Nuno Lacerda Lopes
EDIÇÕES CIAMH MANUEL CORREIA FERNANDES 03Arquitectura e modos de habitar Conversas com arquitectos Carlos Nuno Lacerda Lopes
7 Arquitectura e modos de habitar Arquitectura e Modos de Habitar | Conversas com Arquitectos A edição deste livro é produzida através dos trabalhos realizados no Centro de Inovação em Arquitectura e Modos de Habitar (CIAMH), integrado no Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. O CIAMH actua preferencialmente como um observatório sobre os fenómenos de inovação na arquitectura centrada nos novos modos de projectar, novos modos de construir e novos modos de habitar os espaços arquitectónicos na contemporaneidade. Tem como foco de estudo a Arquitectura segundo três linhas de investigação que se procuram interligar com vista à compreensão dos fenómenos contemporâneos da produção arquitectónica na sua relação com (i) o projecto e com as novas metodologias de concepção, (ii) com a construção e a introdução de novas e velhas tecnologias, materiais e processos construtivos, e, por fim, (iii) com a compreensão dos fenómenos de utilização, ocupação e adaptação desta arquitectura aos modos de vida nas suas complexas realidades, quer geográficas e urbanas, quer políticas e sociais, quer tecnológicas e materiais, ou seja, com a realidade multíplice que nos conforma e que a Arquitectura também forma. NOTA PRÉVIA
8 A colecção que decidimos agora editar tem por base um conjunto de entrevistas, conversas e reflexões com alguns dos mais representativos arquitectos da mais reconhecida escola de arquitectura portuguesa, geralmente referida como “Escola do Porto” que, mais do que um local de ensino, designa sobretudo um modo especial de ver o mundo, de estar no mundo e, sobretudo, de actuar e construir esse mundo. Este é apenas um exemplar desta colecção e nessa medida é, tão-somente, um elo de uma cadeia maior que ganhará outra identidade e expressão numa leitura global que convidamos o leitor a realizar. Diríamos que é uma parte de um discurso que se deve compreender no seu todo, de modo a enquadrar melhor os fenómenos da criação, da construção e da produção da arquitectura através das palavras de alguns dos seus protagonistas, os seus autores e assim podermos perceber as variantes e invariantes de um modo de ver e de fazer arquitectura no início do séc. XXI em Portugal. Deste modo, procuramos cumprir um dos objectivos presentes em qualquer trabalho científico: o de promover, partilhar, divulgar e, sobretudo, disseminar, para além do conhecimento produzido, as conclusões, os dados obtidos ou, tão apenas, o material recolhido. Num primeiro olhar, é exactamente disto que se trata: divulgar, dar a conhecer, permitir que outros desenvolvam e aprofundem as suas pesquisas e os seus modos de ver a Arquitectura que Portugal, em dado momento, realizou sem qualquer interferência ou interpretação.
9 Arquitectura e modos de habitar O que pensam os nossos arquitectos, como vivem, como são as suas casas e como se relacionam com a profissão, com as obras que produzem e como as produziram, como eram e são os seus clientes, o que lhes pediam, como resolviam os seus problemas e, sobretudo, como participam e se interligam com a sociedade, são alguns dos temas que estas conversas visitam sem subterfúgios e em discurso directo. O facto de muitas destas entrevistas terem sido realizadas há quase uma década, com alguns nomes de referência no panorama da arquitectura nacional, e alguns deles já não se encontrarem entre nós, reforça o valor e a importância documental deste trabalho, permitindo um distanciamento esclarecedor que o tempo já ajudou a filtrar. Ao longo destas páginas e desta pequena colecção procuramos compreender o processo evolutivo da construção de um ideal de arquitectura, de profissão, de sociedade e de escola que, de um modo claro e objectivo, estas “conversas com arquitectos” nos oferecem, tendo por base uma reflexão pessoal e aberta sobre a arquitectura e os modos de habitar e construir Portugal no início de um novo século que se adivinhava portador de novos e complexos desafios à sociedade e à arquitectura. Talvez por isso, a pertinência desta colecção que nos permite esclarecer e entender as inquietações teóricas e práticas bem como as circunstâncias que fundamentam a arquitectura portuguesa dos dias de hoje.
11 Arquitectura e modos de habitar INTRODUÇÃO Manuel Correia Fernandes, uma outra direcção. Manuel Correia Fernandes é um arquitecto multíplice. A sua extensa actividade abrange outras áreas para além da exclusiva prática profissional, como arquitecto de grande e qualificada produção. São notáveis os diversos edifícios que projectou ao longo de uma carreira de mais de 50 anos estendendo-se por várias temáticas e programas: dos equipamentos públicos às singulares habitações unifamiliares, até aos grandes complexos de habitação colectiva para inúmeras cooperativas de habitação que nos anos 80 se construíram. Das suas palavras, percebemos que o seu ofício resulta de uma exigência e de uma responsabilidade que coloca no seu modo de fazer, o carácter público, social e interventivo que a Arquitectura deve realizar nos projectos que desenha, nos edifícios que constrói e na cidade que organiza, ou seja, o carácter essencialmente cívico da Arquitectura na sociedade. Por isso, não podemos separar o seu trabalho de arquitecto do seu trabalho como professor, primeiro da antiga Escola de Belas Artes do Porto, depois da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Não podemos esquecer a sua participação na criação de um corpo de escola e
Manuel Correia Fernandes 12 de um modo de ver e pensar a arquitectura, próxima das pessoas, próxima da realidade, “olhos-nos-olhos” de quem vai utilizar e de quem vai construir, num processo contínuo de questionamento e de aprendizagem mútua. Podemos perceber ao longo das suas palavras o que Álvaro Siza defende ao definir a arquitectura como um espaço de infinita relação. Relação que sobretudo esta geração experimentou e (de um modo muito particular) fomentou, criando “escola“. Nesta medida, esta entrevista sobre arquitectura e os modos de habitar – entendido estes “modos de habitar” no sentido genérico da Arquitectura, cidade e da sociedade e não apenas no sentido doméstico da unidade residencial, do fogo ou, se quisermos, da casa – apresenta-se como um espaço de livre reflexão e de avaliação de um percurso, de uma adesão e também de uma crítica a um pressentido afastamento e a um reescrever da história, (pouco rigoroso talvez!) e com outros actores que, ao que parece, não se encontravam em primeira linha e que, segundo nos diz, importa repor verdades para que a história se compreenda e, sobretudo, se faça. Melhor terá dito Tolentino de Miranda quando referiu que “a verdade corresponde ao menor dos nossos gestos em vez da eloquência da palavra que nos socorre” e é neste sentido que esta conversa com Manuel Correia Fernandes se faz, sem eloquência e na senda de uma verdade. Por tudo isto, percebemos o seu mundo de arquitecto para além da arquitectura e esta não é mais do que a sua própria visão, do seu entendimento de “ser” arquitecto –
13 Arquitectura e modos de habitar um profissional responsável por uma participação activa na sociedade. E, na sua visão, tudo isto não se inscreve apenas na realização de projectos, ou da melhor arquitectura que tão bem faz, mas sobretudo na sua intervenção pública, política e social que realiza em diferentes níveis de participação. Também ao nível do ensino, da formação, da investigação que desenvolve como professor catedrático na FAUP e em outras instituições e, sobretudo, do exercício de uma cidadania que, pedagógica e exemplarmente, nos provoca com as suas visões, responsável por tudo o que por vezes queremos não ver à nossa volta. Manuel Correia Fernandes tem desempenhado um papel crucial na caracterização, produção e compreensão dos fenómenos da arquitectura portuguesa, sua evolução e transformação, sobretudo no último quartel do século XX, marcando de um modo profundo algumas das páginas da arquitectura nacional. Para isso, terá contribuído a sua formação, experiência, os escritórios por onde passou e para quem trabalhou, mas sobretudo terá sido o modo de compreender a profissão de arquitecto na sociedade e o papel social que lhe terá fornecido as bases ideológicas para fundar a sua própria ideia de Arquitectura. Há em todo o seu discurso uma procura de explicar a sua produção para além dos edifícios que desenha e constrói, enquadrando os fenómenos de origem, as encomendas, as volições, sem esquecer para quem se dirige o seu trabalho. Numa leitura mais atenta, percebemos na sua linguagem um permanente apelo a um modo de ver a arquitetura que está para além da matéria, levando-nos a perceber que são
Manuel Correia Fernandes 14 as pessoas – as suas capacidades e circunstâncias, as suas interligações e os diferentes fenómenos de vizinhança, ou seja, que é através de um trabalho sobre a compreensão dos espaços e das relações de vida que aí se estabelecem – que poderão justificar e criar uma melhor arquitectura. Tal como não há edifício sem terreno, sem lugar, não há arquitectura sem pessoas e sem contacto social, económico ou cultural e o arquitecto é, nesta sua visão, um agente social de grande importância na construção de uma sociedade mais justa e democrática. Da sua prática, podemos perceber o quanto não podemos esquecer as raízes da nossa arquitectura. Há em todo o seu discurso um apelo a uma consciencialização dos fenómenos de “evolução”, transformação ou distração de uma ideia de arquitectura que se faz, pratica e desenvolve, ou se promove e que importa constantemente avaliar. Para Manuel Correia Fernandes, essa parece não ser a solução nem o caminho. Pelo menos, esse não tem sido o seu caminho! O exercício da arquitectura compreende um conjunto de valores, uma consciência crítica da sua capacidade de criação de valor, de cultura, do bem colectivo, e não um produto de edifícios ou projectos que não participam de um todo, que é sempre mais validado quando colectivo e, por isso, plural. Nessa medida, se compreende que há um ideal de democracia quase vinculativa no seu modo de projectar e conceber a arquitectura, num constante apelo à participação, à discussão, à intervenção, à “coisa pública” que esta sempre encerra. A sociedade, a política, a economia,