A construção da santidade nos finais do século XVI : o caso de Isabel de Miranda, tecedeira, viúva e «santa» (C. 1539-1610)
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A CONSTRUÇÃO DA SANTIDADE NOS FINAIS DO SÉCULO XVI. O CASO DE ISABEL DE MIRANDA, TECEDEIRA, VIÚVA E «SANTA» (C. 1539-1610) Maria de Lurdes Correia Fernandes* 1. Articular, de um ponto de vista teórico e metodológico, os conceitos de Piedade popular e de Espiritualidade(s) na Época Moderna apresenta, à partida, múltiplas dificuldades que decorrem das próprias (e nem sempre consensuais) definições e dos enquadramentos de ambos. Mas um «estudo de caso» -respondendo ao convite dos organizadores deste colóquiopode permitir estabelecer alguns laços capazes de articular dois campos aparentemente tão diferenciados, bem como levantar diversas questões que ajudem a penetrar em domínios culturais complexos e diversificados e, em Portugal, ainda insuficientemente iluminados. Por isso, o caso que me propus apresentar e discutir foi seleccionado tanto pelo seu enquadramento social, cultural e religioso que lhe confere especial interesse, como pela relação que permite entrever entre as práticas devotas dos leigos e o complexo fenómeno da santidade protagonizada por uma «santa viva» que se foi afirmando num espaço de periferia, longe dos patrocínios e do envolvimento tanto do poder eclesiástico como do poder político, especialmente nas suas formas institucionalizadas. E este acto é, logo à partida, tanto mais singular e interessante quanto, normalmente, os «santos vivos» -não distingo aqui os que se notabilizaram mais pelo seu espírito profético -se foram afirmando ou no quadro das instituições e ordens religiosas a que pertenciam, ou com o apoio e protecção do poder político que, de certo modo, sustentava ou fortalecia a sua fama sanctitatis1. Esse caso, cujos aspectos e vectores essenciais rapidamente apresento e resumodeixando para um posterior estudo a análise mais exaustiva-, é o de uma pobre tecedeira, analfabeta, da cidade de Ponta Delgada da ilha de S. Miguel nos Açores, (mal) casada muito jovemcom apenas 15 anos-, viúva aos 33 e mãe de cinco filhos; já neste estado (viúva), fez votos privados ·Universidade do Porto. ' Gabriela ZARRI, <<Pietà e profezia alie corti padane: !e pie consigliere dei principi» e <<Le sante vive>>, in Le Sante Vive. Profezie di corte e devozione femminile tra '400 e '500, Turim, 1990, repectivamente 51-86 e 87-163. Richard L. KAGAN, Lucrecia:ç dreams. Politics and prophecy in sixteeth-century Spain, Berkeley-Los Angeles-Oxford, 1990. Para Portugal e para datas pouco anteriores às do caso de Isabel de Miranda, veja-se o estudo de José Adriano de CARVALHO, <<Um profeta de corte na corte: o caso (1562-1576) de Simão Gomes, o 'Sapateiro Santo' (1516- -1576>>, in Espiritualidade e Corte em Portugal. Séculos XVI a XVIII (actas), Porto, 1993, 233-260. 243
de castidade, solicitou com veemência a direcção espiritual do eremita agostiniano Fr. Brás Soares, então célebre confessor daquela cidade2, e tornou-se, em pouco tempo, uma «devota» (para alguns, uma «beata»3) cuja fama de virtudes, visões e outros fenómenos místicos, cedo acompanhados de milagres, dela fizeram uma santa viva, a quem, contudo, não faltaram algumas perseguições, a principal das quais a acusação de «santa fingida». Brás Soares confessou-a e dirigiu-a espiritualmente quase até à data da sua morte -ocorrida em 15 de Agosto de 16104 -, tendo contribuído não só para que, em Janeiro de 1588, se fizesse Mantelata da Ordem de S. Agostinho, como para o sustento e difusão da sua fama de santidade. E fê-lo tanto na qualidade de seu confessor a partir de 1584, como de perpetuador da sua memória através da redacção de um longo «Memorial» -assim o designa Brás Soares -sobre a vida desta «serva de Deus»5, memorial que foi a base principal da resumida "biografia" (e primeira impressa) incluída no Jardim de "?ortugal (1626) de 2 Os principais dados biográficos deste religioso, Eremita de Santo Agostinho, falecido a 11 de Maio de 1613, podem ver-se em Jorge CARDOSO, Agiologio Lusitano(. .. ), Tomo III, Lisboa, Antonio Craesbeeck de Melo, 1666, 166-7 e 193d, dados quase textualmente retomados por Fr. Francisco do Monte ALVERNE, Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores, Vol. II, Ponta Delgada, 1961, 146-148; do seu prestígio como confessor dão testemunho algumas passagens de processos inquisitorias transcritos por Isaías da Rosa PEREIRA, <<A Inquisição nos Açores. Subsídios para a sua história>>, Arquipélago (Série Ciências Humanas), n. 0 1 Uan. 1979), 184-5, 188, 190-91. 'Brás Soares, seu confessor e biógrafo, nunca se lhe referiu usando esta terminologia. Talvez porque as repercussões das vigilâncias inquisitoriais a vários grupos de beatas espanholas e portuguesas obrigasse a algumas cautelas, ou porque, a partir de Janeiro de 1588, era mantelata da Ordem de Santo Agostinho, o que lhe dava um relativo enquadramento institucional. Mas assim a chamounum tom algo acusatório -uma das suas vizinhas e clientes do seu tear (Memorial, adiante citado, fi. 45r) e assim aparece designada em alguns textos do século XVII, como o de Fr. Pedro CALVO, Segunda Parte deste Tractado [Defensam das Lágrimas dos Justos} intitulada Defensam das Sagradas Religiões(. .. ), Lisboa, Pedro Craesbeeck, 1618, 67; ou o (ms, de meados do séc. XVII) de Fr. Diogo das CHAGAS, Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores (utilizo a edição de A. Teodoro de Matos (dir.), Avelino de F. Meneses e Vitor L. G. Rodrigues, Açores, 1989), no qual aparece evocada esta <<benaventurada Beata>> (p. 203). 4 Cf. Fr. Francisco de Monte ALVERNE, Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores, Vol. II, ed. cit., 219; Francisco Afonso de Chaves e MELO, A Margarita Animada. Ideia moral, política e histórica de três estados discursada na Vida da Venerável Margarida de Chaves (Lisboa, Oficina de António Pedroso Galrão, 1723), <<Catalogo das pessoas que em S. Miguel floreceram em raras virtudes>>, 2.• ed., comentada e anotada por Nuno A. Pereira e Hugo Moreira, Ponta Delgada, 1994, 76. D. António Caetano de SOUSA, no seu Agiologio Lusitano (Tomo IV, Lisboa, 1744, 577i), embora lhe resuma a vida, não parece ter tido conhecimento destas fontes, porque diz não ter achado <<O anno em que faleceO>>. 'Esse <<memorial>> autógrafo, rubricado na cabeça de todas as folhas por Fr. Jerónimo de Mesquita, lente de Teologia e prior do convento de S. Agostinho da cidade de Angra do Heroísmo e autenticado pelo escrivão de Ponta Delgada Antonio Sanches, guarda-se hoje na secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa com o título de <<Proçesso da vida da serua de deos yzabel miranda teçedeira natural da ilha de São miguel da çidade da ponta delgada( ... )>> (B.N.L., Cod. 651). Nas citações do textoque cito por Memorialrespeito, no essencial, a ortografia original; por conveniência e clareza de leitura, apenas desdobro, em itálico, as abreviaturas e separo as palavras unidas. 244
Fr. Luís dos Anjos6, que foi por sua veze nem sequer acrescida do breve elogio que lhe fez Francisco Afonso de Chaves e Melo na Margarita Animada (1723)1a fonte de D. António Caetano de Sousa no Tomo IV do Agiologio Lusitanas. Aquele Memorial foi ainda largamente utilizado por Fr. Francisco de Monte Alveme na Vida e morte da serva de Deus Isabel de Miranda incluída nas Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores9• Tal Memorial, que abarca o período decorrente entre a quaresma de 1584, início da direcção espiritual por Brás Soares, e 1610, ano da morte de Isabel de Miranda 10 , resulta da reescrita parcial de uma primeira versão que cobria um período limitado, entre Novembro de 1584 e meados de 1592, versão que foi enviada neste ano pelo Inquisidor Jerónimo Teixeira Cabral ao Cardeal Alberto em Lisboa, juntamente com «Outro cartapacio en que tinha recolhidas muytas obras marauilhosas que deos por ela tinha obrado» 11 , mas do qual não fez cópia por ter sido «esta missão impensada». A decisão de reescrever (melhor, ir reescrevendo 12 ) e de completar tal «memorial» (porque lhe «ficou parecendo que o [original] não veria mais») terá sido tomada, segundo confissão do proprio Brás Soares que então (por 1594 13 ) contava com 6 Fr. Luís dos ANJOS, Jardim de Portugal em que se da noticia de alguas Sanctas, & outras molheres illustres em virtude, as quais nascerão, ou viuerão, ou estão sepultadas neste Reino, & suas conquistas, Coimbra, Nicolau Carvalho, 1626, 542-554. 7 Francisco Affonso de Chaves e MELLO, A Margarita Animada, ed. cit., 76. 'D. António Caetano de SOUSA, Agiologio Lusitano dos Santos, e Varões Illustres em Virtude do Reyno de Portugal, e suas Conquistas, Tomo IV, Lisboa, Regia Oficina Silviana e da Academia Real, 1744, 552-554 e 577. 'Fr. Francisco de Monte ALVERNE, Crónicas da Província de S. João Evangelista .. , ed. cit., vol. II, 215-220. 10 Isabel de Miranda morreu a 15 de Agosto de 1610, devendo contar então com 71 anos. De facto, Brás Soares disse que ela tinha, quando começou a confessá-la em 1584, 45 anos. Com a data da morte em 1610, as contas são evidentes. Com estes dados ainda se pode inferir o ano provável do seu nascimento, em 1539. E que Brás Soares a confessou durante 26 anos. Além disso, outras informações dispersas as longo do Memorial permitem saber que esteve casada 17 ou 18 anos e que quando Brás Soares começou a confessá-la em 1584 era já viúva havia 12 anos. Cf. Memorial, fis. lv, 2v e 115r. 11 Este outro «cartapacio» que incluía os milagres e factos extraordinários da vida desta «serva de Deus>> é diversas vezes referido ou evocado por Brás Soares (Memorial, fi. lr; igualmente, fi. 71r: <<E aqui aconteceo o que esta no tratado das marauilhas que o senhor obrou por ela>>; fi. 78r, em que refere alguns milagres <<de que fuy fazendo hum sumario»; fi. 96v: << ... num caderno de !lUas mãos de papel que esta cheo destas marauillas que deos por ela obrou>>; fi. 126r: << ... do quoal eu fiz hum memorial e de outras couzas marauilhosas de que jnchi hua mão de papei>>; fi. 129v: << ... quaderno donde tenho recolhido muytas couzas marauilhosas que deos por ela fez no discurso da sua vida>>). "Várias indicações do próprio Brás Soares mostram que o texto deste Memorial foi sendo escrito ao longo dos anos, desde, pelo menos, 1594 até algum tempo depois da morte de Isabel de Miranda. Como o indica no final a data do termo notarial, estava concluído antes de Setembro de 1612. 13 Começou esta reescrita possivelmente em 1594, segundo se infere da indicação do <<dia>> em que <<isto vou escreuendo na outaua de todos os santos da era de 1594 ... >> (Memorial, fi. 28r). 245
63 anos 14 , por duas razões principais. A primeira, porque continuava convencido da santidade da biografada e os «borraes» originais estavam muito «embaraçado(s)», sendo, portanto, de difícil leitura e compreensão por parte de terceiros; a segunda, e de acordo com igual parecer de «muytos e pessoas doctas e pias ( ... ) e de bons juizos», para que ficasse por sua morte «cousa com que pudesse dar satisfação aos que dela desejauão saber ... » e «para jncitamento dos descuidados e negligentes que muytas vezes acontece por semelhantes escripturas e relações serem mouidos e persuadidos huns a começarem e outros a procederem e se melhorarem nas vidas e virtudes e procurarem a perfeição delas especialmente quando a pesoa de quem se fala he mais achegada ao tempo de nossa vida» 15 · Deste modo, aliava, como diversos outros textos afins da época, o elogio e a memória daquela «serva de Deus» à finalidade exemplar e útil a admiradores e a eventuais imitadores. Mas por diversas vezes este religioso sentiu as dificuldades da reescrita, não só por ir ficando a memória mais enfraquecida e distante, mas também pela «desordenação» e até perda de alguns cadernos originais 16 • Em dado momento (tinha então 71 anos) chegou mesmo a pensar em desistir 17 • Além disso, este Memorial, mais do que um texto sequencialque não é-, pretendeu ser um repositório de memórias que outros deveriam ordenar, como o afirma em diversas passagens 18 , facto que, diminuindo-lhe o valor literário, aumenta o seu interesse documental, na medida em que ainda não está limado de muitas das arestas que o género hagiográfico na sua divulgação pública certamente excluiria ou, pelo menos, condicionaria. Como Brás Soares não se preocupou - pelo menos aparentemente -tanto com os critérios de selecção como com registar tudo o que havia ou ia observando e apontando por escrito ou na memória, o seu texto contém relatos de factos que, seguramente, uma versão mais tipicamente hagiográfica (e mais retrospectiva) não incluiria 19 • 2. É este um caso que, como facilmente se verá, suscita múltiplas questões que se reportam não só ao complexo e controverso conceito de 14 Memorial, fi. I v. 1' Memorial, fi. Ir, reiterado a foi. 28v. 16 Cf .. por ex., Memorial, fi. 9v. 17 Memorial, fi. 11 v. 1' Memorial, fi. !06r: quem ouver de ordenar e compor as couzas deste memorial.. .. >>; fi. 139v: <<quem ouver de ordenar as cousas deste Jiuro ... >>; fi. 189r: << ... quem ordenar huas ordenara as outras ... >> .. 1' Muitos aspectos relativos, por exemplo, ao mau feitio da mãe e a intrigas várias, nomeadamente em torno de um filho seu e da sua filha, estão obliquamente traçadas no manuscrito - por Brás Soares? Pelo Pe. Mesquita?- e não creio, tendo em conta os cânones do género hagiográfico, que uma posterior redação da <<vida>> desta <<Serva de Deus>> as incluísse. 246
«piedade popular»20, mas também ao culto dos santos 21 (neste caso, mais especificamente dos «santos vivos») e ao seu enquadramento tanto na vida religiosa como social e política da época. Antes de mais, porque, além de viúvaum estado a que era reconhecido, pelos teólogos e autores espirituais, o privilégio da segunda oportunidade para a «perfeição»-, Isabel de Miranda era uma mulher muito pobre 22 e mãe de vários filhos2\ o que a obrigava a um forte envolvimento com a vida doméstica e profissionaF4, impedindo-lhe, por um lado, o recato que os padrões do comportamento feminino impunham genericamente às mulheres (e em particular às viúvas) e, por outro, dificultando-lhe o recolhimento interior que o modelo tradicionalmente monástico da vida espiritual impunha; além disso, o seu analfabetismo impedia-lhe um dos modos tradicionais de orientação espiritual apoiada na leitura directa e meditação tanto de textos bíblicos e patrísticos como de diversas obras de espiritualidade. Apesar destas «contrariedades», esta pobre tecedeira logrou subir, em relativamente pouco tempo, alguns dos degraus mais visíveis da escada da santidade -tomo aqui o conceito no seu sentido histórico - e da respectiva veneração pública. É certo que essa subida foi acompanhada e apoiada por um religioso, num processo de aprendizagem controlada e de progressiva interiorização das vias do percurso espiritual. Através da mediação -pela confissão e direcção 20 Haverá que ter em conta que, enquanto <<santa viva>> que vivia no século e aí tinha obrigações familim·es e domésticascomeçando pela subsistência própria e dos seus descendentes-, o seu envolvimento com a cidade, propiciado pelo estado de viúva pobre, conduzia-a também à partilha de devoções colectivas e de actos ritualizados, em particular diversas romarias e procissões, que fazia acompanhada de/ou acompanhando outras <<devotas>> do mesmo ou de outros estratos sociais. Ocasiões e partilhasmas também pública exposiçãoque as freiras obviamente não tinham. 21 Hoje ninguém ignora, por um lado, o quanto o culto dos santos (especialmente dos santos canonizados ou de culto imemorial) marcou profundamente a vivência cristã ocidental ao longo da Idade Média e nos tempos modernos e, por outro, a sua importância (inclusivamente a dos novos santos então recém canonizados) nos programas e na afirmação da Reforma Católica, também patrocinada muitas vezes pelo poder temporal. Cf., em particular, os estudos de André VAUCHEZ, La Sainteté en Occident aux derniers siecles du Moyen Age, Roma, 1980; de Jean- -Michel SALLMANN, Naples et ses saints à l'âge baroque ( 1540-1750), Paris, 1994; de Giulio SODANO, <<II nuovo modello di santità nell'epoca post-tridentina>>, in MOZZARELLI, C. E ZARDIN, D. (a cura di), I Tempi de[ Concilio. Religione, cultura e società nell'Ew"Qpa tridentina, Roma, 1997, 189-205. 22 Tão pobre que, conta Brás Soares, <<no tempo que a mim veio ja não tinha nada mais que o tear e o vistido que trazia ben pobre nem ajnda hua caixinha en que ter seu mantimento e eu lhe dei hua en que guardase as couzas do seu oratorio>> (Memorial, fi. 16r.). 23 Brás Soares diz numa passagem que ficou viúva <<Com quatro ou cinco filhos>> (Memorial, fl.15v- -16r). Um delesque nasceu no dia da morte do paimorreu ainda criança, com apenas 3 anos (Memorial, fi. 2v). 24 Brás Soares salientou por diversas vezes o seu brio profissional, discorrendo sobre o modo como se comportava no seu ofício de tecedeira, no que queria, aliás, imitar N.-• Senhora (Memorial, fi. 22v e ss.). Contou, além disso, como ficou mais pobre ainda depois do casamento da filha e como teve de ir suprindo as diversas dificuldades económicas, que se mantinham nos últimos anos da sua vida, quando, depois da morte da filha, teve de pensar na opção de estado dos netos (Memorial, fls. 179r e ss.). 247
espiritualde Brás Soares, pôde ter conhecimento mais particularizado, por um lado, de vários modelos de santidadeé acentuado o fascínio pelas vidas e imagens de S. Francisco2 S, de S. Clara2\ de S. António 27 , de Margarida de Cortona28, de S. Catarina de Sena29, essa mística de finais da Idade Média tão influente nos comportamentos espirituais de religiosas europeias -e, por outro, de leituras espirituais que lhe fazia (e a outras «devotas») o confessor. Aliás, algumas das vivências espirituais só foram percebidas por ela própria e até pelo seu confessor, significativamente, depois da leituras das obrasparticularmente da «vida»- de S. Teresa30• E essas leituras, como adiante se verá, facultavam-lhe modelos que mimeticamente tentava seguir no seu percurso espiritual e que, simultaneamente, eram um esteio da sua ortodoxia. Deste modo, tal como alguns desses modelos, também Isabel de Miranda foi sabendo conciliar os seus anseios espirituais -manifestados em diversos raptos e êxtases -com os percursos penitenciais da vida ascética, então crescentemente valorizados na sequência, sobretudo, das desconfianças e dos medos provocados pelos excessos de diversos grupos de alumbrados espanhóis e até mesmo de portugueses 31 • Num primeiro momento, os anseios e as vivências espirituais só foram percebidos pelo confessor, mas alargaram-se depois a um grupo de «amigas», filhas espirituais daquele religioso e mulheres devotas «que frequentavam os sacramentos»32 ; às mulheres tecedeiras de sua casa e aos seus vizinhos33 ; a "Várias vezes pediu que lhe lesse <<hum pouco pola vida de são francisco>> (Memorial, fi. 19r; fi. 22r). 26 Memorial, fi. 41 v. 27 Memorial, fi. llr.: <<Dia de sancto antonio que hera sancto de sua devação que hela muyto amaua ... >>; igualmente, fi. !Ir; fi. 30r., etc. 28 Memorial, fi. 25r. 29 Memorial, fi. 13r.: <<E como eu lhe contei do tormento do fogo jnterior en que ardia sancta Caterina de sena ... »; fi. 70v.: << ... não se alembra V. R. que sancta Caterina de sena trazia consigo por donde quer que andaua alguas vezes vinte pessoas e casi sempre dous saçerdotes ... ». 30 Assim sucedeu, concretamente, com a compreensão das <<palavras interiores» (Memorial, fi. 127v). " Para Espanha veja-se, em particular, Alvaro HUERGA, Historia de los Alumbrados, 5 vols, Madrid, 1978-1995 e, para Portugal, José S. da Silva DIAS, Correntes do Sentimento Religioso em Portugal (séculos XVI a XVIII), Coimbra, 1960, Tomo I, 377-397 e Tomo II, notas XXVI a XXVIII. 32 Memorial, fi. 5v.: <<se foy chegando para hua sua amiga pesoa que frequentaua os sacramentos e minha filha espiritual con quem eu lhe tinha dado liçença que acompanhase e praticassse com certa limitação>> (e que <<era molher de muito bom entendimento e memoria e hera lida»- fi. lOOr); <<Se encontrou ela com outra amiga que hera hua de duas que eu lhe tinha dado con quem comunicasse» (fi. 5v), ambas mulheres casadas (fi. 34r); <<huas parentes e amigas suas» (fi. 6r); um dia, em sua casa, <<pasadas alguas platicas comuns con hela e a may e outras parentas que ai con hela estauão viemos por çerta occazion a tratar da paixão do senhor. .. » (fi. llr). 33 Especialmente ilustrativa deste facto é a passagem em que Brás Soares refere um episódio sucedido em sua casa: <<Estando hum destes dias na sua caza e no tear e falando de deos com a obreira que en sua caza tecia avia muytos anos e con as outras e foyse com a platica tanto jnflamando que quando quis acodir ao que vio que o espirita queria fazer ja não pode e fez o que as outras vezes e hela ficou sen o vzo dos sentidos e ficou como morta e como elas não entendião este segredo encheose a caza de gente polo rumor das obreiras ... » (Memorial, fi. 23v). 248
outros (homens e mulheres) devotos seus ou que frequentavam os mesmos locais de culto34; rapidamente a sua fama se estendeu não só a esta mas também a outras cidades 35 , nomeadamente a Vila Franca onde, uma vez em que foi com uma sobrinha sua e mais nove ou dez devotas em romaria à ermida de Santo Amaro, logo que correu entre a «a gente daquela vila que muyto dezejaua de a ver» a notícia de que ela aí se encontrava, «foy tanto o concurso da gente daquela villa no mesmo jnstante» que, durante toda a noite, «não çessou gente» que «não cabia na ermida». Foi, além disso, «muy jmportunada das freiras aas quoais não foy por lhe aver eu mandado» 36 • O auge da sua fama foi atingido em 1588, depois de ter tomado o hábito de mantelata de S. Agostinho, mas também foi esse o ano -depois do escândalo do «caso» da «monja de Lisboa» -do início das maiores perseguições e do seu crescente isolamento, só «vingado» totalmente na sua morte, a que, significativamente, acorreu a maior parte dos habitantes da cidade ... 3. Mas, antes de se tirarem conclusões, importa ter presentes os aspectos e momentos essenciais da aprendizagem e do percurso da espiritualidade e da santidade, acompanhado, orientado e controlado pelo seu confessor - curiosamente, o mesmo religioso que também havia iniciado e acompanhado, durante alguns anos, a célebre matrona Margarida de Chaves37 nos caminhos 34 Por isso, ainda nos primeiros tempos, pediu um dia a Brás Soares «iiçença para comungar en são francisco que a jnçitaua se espírito a iso e porque na igreja matrix trazião ja tanto os olhos nela e no seu comungar ... >> (Memorial, fi. 18v). Mas ela, <<não se podendo reprimir ajnda que muytas vezes a avizei que se não descuidase>> (Memorial, fi. 62v), era cada vez mais notadaatravés dos gestos, das falas com Deus em voz alta, do choro, do cheiro que saía do seu corpopelo que <<folgauam muytas pessoas de se achegar junto a hela para gozarem daquela suauidade [cheiro]>> (Memorial, fi. I 7v.; fl.-27v; fi. 40r; fi. 69v; fi. 70r; fi. 74v). Com o decorrer do tempo já não se importava que a vissem e notassem, <<mas donde ajncitaua o espírito aí vzaua estes modos de falas sen se poder reprimir>>, ficando <<as pessoas que asi a vião e ouviam fora de si e mouidas a com muyta devação e admiração a louvarem a deos>> (Memorial, fi. 66r); mas os que pela primeira vez a presenciavam ainda <<pasmauão>> (Memorial, fi. 70v) e Brás Soares continuava a temer os seus raptos em público e <<que quem aquilo visse se escandalizase>>, mas <<tanta hera sua çimpliçidade e esquecimento do mundo e dos seus huzos ... >> (Memorial, fi. 72v). 35 Em 1586, na segunda semana depois da Páscoa, vieram de Vila Franca <<en !Tomaria>> à ermida de S. Brás, onde frequentemente dizia missa Brás Soares e ela comungava <<hua may e quoatro filhas>> que <<dezejauão muito de a ver>>; era esta mãe sua devota e queria <<que todas suas filhas fosem seruas de deos>> (Memorial, fi. 66v). 36 Memorial, fi. 129v. 37 Brás Soares quis deixar neste Memorial, num tom que denota muita amargura, o testemunho dessa direcção espiritual, já que os seus grandes rivais -entre os quais se incluíam alguns jesuítas - pareciam teimar em ignorar o seu impulso inicial na condução dos destinos espirituais daquela matrona, cujo processo de beatificação corria já então em Roma. (Cf. Memorial, esp. fls. 125 e ss.). Os autores posteriores que evocaram a acção pastoral e espiritual de Brás Soares são unânimes em afirmar essa direcção. Cf. Fr. Luis dos ANJOS, Jardim de Portugal, ob. cit., fi. 531; Fr. António da NATIVIDADE, Monte de Coroas de S. Agostinho ( ... ), Lisboa, Henrique Valente de Oliveira, 1663, Monte III, Coroa Unica, § II, I. B, n. 0 40, 482; Jorge CARDOSO, Agiologio Lusitano, Tomo III, Lisboa, 1666, 193d; Fr. Agostinho do Monte ALVERNE, Crónicas da Província de S. João evangelista ... , ed. cit., vol. II, 146 e ss.; Francisco A. Chaves e MELO, A Margarita Animada, ed. cit., 33 e 40. 249
da vida espiritual - e que foi, como disse, o principal mediador na transformação daquela ignorante mulher numa «mestra do espírito»38• E este facto coloca de imediato diversas questões que deverão estar presentes e claras neste «estudo de caso». Isabel de Miranda era, repita-se, muito pobre e ignorante, o que a diferenciava de diversos santos que ela tomava como modelos e tentava imitar, mas também a aproximava de outros casos (até mesmo italianos39) de «santas vivas» do seu século 40 • Contudo, a sua aprendizagem 41 dos percursos da vida ascética e espiritual (e até dos modelos comportamentais das viúvas) foi acompanhada e orientada por um religioso minimamente informado e experimentado tanto no campo da teologia como no da espiritualidade. Mas também muito só 42 , já que a sua ordem não tinha convento na ilha e a sua actividade pastoral era muito individualizada, contando mesmo com diversos rivais, como adiante se verá. , Brás Soares hesitou muito -assim o deixou expresso43 -antes de aceitar dirigir esta pobre tecedeira, até porque receava que os interesses desta " Uma <<mestra do espírito>> também, por vezes, para o próprio Brás Soares: << ... Este dia e nesta menhã me deu alegres sentimentos en couzas tocantes a minha saluação e mi fez muy espirituais exortações a jr adiante con alguas diligencias que hia fazendo a sua jmitação de que hia dando conta couza de que hela tinha muyto contentamento o que eu tomauaja como de mestra ajnda que o mais disçimuladamente que podia ... >> (Memorial, fi. 28v); << ... daua a tais pessoas que as orações lhe pedião os conselhos meios e modos e diligencias que lhes convinha fazer pera contentarem a deos e o mouerem a lhe querer fazer a merce que lhe pedião e asi alcansauão o que pedião ... >> (Memorial, fi. 29v). Cf. igualmente fi. 68r e fi. lOOv: << .. .ficou com mais clara luz najnteligencia das Escrituras porque alguas se offreçerão depois e materias espirituais que eu não pude entender ( ... ) e hela com muita facilidade as declarou ... >>. " Gabriella ZARRI, <<Le sante vive>>, art. cit., I 02. 40 Lembro apenas que a venerável Margarida de Chaves, de muitas mais posses que Isabel de Miranda, também não sabia ler. E que, como se sabe, as <<beatas>> -tanto espanholas como portuguesas -eram quase sempre de origem e de condição humilde. " Como afirmou A. Jacobson SCHUTTE, <<'Piccole donne', 'grandi eroine': santità femminile 'simulata' e 'vera' nell'Italia deli a prima Età Moderna>>, in L. SCARAFFIA, e G. ZARRI (a cura di), Donne efede, Roma-Bari, 1994, 279), <<santi si diventa, non si nasce>>. Até porque <<I santi di tutti i tempi, luoghi, e religioni sono prodotti di un ambiente storicamente definito nel quale alcuni modelli di comportamentoparte di un repertorio moi to piu grande teoricamente disponibile nell'ambito della !oro tradizione religiosasi impongono all'imitazione>>. Daí o cuidado do confessor em a fazer <<Conformar>> com as <<doutrinas aprovadaS>>. "Brás Soares vivia na ermida de Santa Ana, que só mais tarde veio a ser, em 25 de Julho 1606, a primeira sede do convento da sua Ordem (até ao ano de 1618). Sobre as ermidas de Ponta Delgada, na época, veja-se, em particular, a sempre imprescindível fonte que é Gaspar FRUTUOSO, Saudades da Terra, esp. Livro Quarto, Vol. II, Ponta Delgada, 1981, 74-83 e Fr. Diogo das CHAGAS, Espelho Cristalino ... , ed. cit., 182 e ss. Para uma visão mais sistematizada, cf. Maria Fernanda ENES, Reforma Tridentina e Religião Vivida (Os Açores na Época Moderna), Ponta Delgada, 1991, esp. cap. VI, 233-275. 43 Conta Brás Soares que <<Tres anos avia antes que a admitisse que dezejaua de se confessar comigo( ... ) faloume muytas vezes e outras muytas me mandou falar e rogar e não foy deos seruido que a admitisse arreçeando eu que por ser molher pobre quereria mais de mim que a confição e que a ajudase a sustentar como outras aviam feito ( ... ) fez muytas romarias e devações mandou dizer missas fez outras muytas diligencias tomou diversos interçesores ... >> (Memorial, fi. 2v. e fi. 3r). 250
não fossem exclusivamente espirituais. Mas, com alguma inocência e bondadeque perpassam tão notoriamente muitas das páginas do seu Memorial -, Brás Soares rapidamente se rendeu ao «espírito» da sua confessada. Aliás, começou por notar - como sucedia em tantas outras vidas de santos - que algumas «deuações» e o «apetito das couzas espirituais a que tão jnclinada era» vinham já dos seus tempos de menina44• E mesmo depois de casada aos 15 anos, contra sua vontade e por decisão materna, com um homem «tão desproporçionado da sua idade que ja tinha muytas brancas» - um dos motivos, entre outros45 , pelos quais «nunca viueo com gosto neste estado»-, Isabel Miranda não terá perdido esse «apetite», já que, nos sete anos de ausência do seu marido (depois de 5 anos de casamento), embora tendo «muytos combates do demonio e dos seus solicitadores», viveu «tão virtuosamente que a toda pessoa que a conhécia e trataua hera hum viuo exemplo de todas virtudes e bons costumes e recolhimento confesandose as mais vezes que podia entre ano uzando alguas devações asi como deos lhe daua a entender», manifestando «a seu confessor os desejos que tinha de seruir a deos que hera hum religioso de são francisco»46• Já então fazia suas romarias a diversas igrejas e ermidas da ilha, só47 ou em companhia de outras mulheres devotas48, prática que manteve com regularidade durante muitos anos e que são um dos traços mais significativos da sua partilha de devoções com outras mulheres ou com o "povo" da cidade49• Mas esta pobre tecedeira, analfabeta, desenquadrada do ponto de vista religioso-institucional, «não tinha notiçia de exercícios espirituais» que eram «O que o seu espírito estava dezejando»50• Por isso Brás Soares logo a pôs «en 44 Memorial, fi. 2v. " Além disso, foi este marido grande gastador e <<tão negligente em prover sua caza que jamais nem a molher nem a filhos deu vistido nem calçado nem outras couzas neçecarias tudo a pobrezinha avia de suprir con o ganho do seu tear por que os filhos não andasem nus nem morresem a fome. E asi foy sua vida sempre muy cansada e acompanhada de trabalhos e sofrendo tambem sua condição que era muy forte>>. (Memorial, fi. 2r.) "Memorial, fi. 2v. 47 O gosto e a prática de diversas romarias a lugares de culto foi uma constante ao longo da sua vida: << ... asistia a são pedro a debação de sancta caterina e logo hia a são francisco e tornaua a igreja maior aos principias das missas cantadas das confrarias que se começão acabando prima ... >> (Memorial, fi. 33r); todas as manhãs ia a S. Francisco, para cumprir a sua romaria a N. Senhora da Conceição (fi. 39v, fi. Sir, 158r, etc.); fazia uma todos os dias, descalça, durante um ano, pela manhã, aos santuários de N. Senhora <<para poder comprir sua romaria que poJo padre da sua alma fazia ... >> (fi. 51 v); «corria todos os altares da igreja de sam sebastião» (fi. 65v). "Uma delas, a que fez S. Lázaro, pelas melhoras de uma perna do seu marido ausente, em companhia do ümão e cunhada <<e outra companhia onesta de molheres amigas e virtuosas>>, veio a valer-lhe a recriminação e suspeita do marido (Memorial, fi. 2r.). Cf. igualmente fi. 75v. "Participava também nas procissões (Memorial, fi, 14lr) e assistia, quando as havia, às pregações: no mosteiro de S. André (fi. 135v), no da Esperança (fi. 142r), no dos franciscanos (fi. 158v; 159v) e, claro, na igreja da sua freguesia que era a de S. Sebastião (fi. 63r, etc). '"Aliás, <<já no cabo deste tempo andava rebentando e dezejando achar confessor com que tratase o que sentia e asi en hum mes foy a sete confessores mas com nenhum pôde tratar couza algua fora do que era materia de confição .. >> (Memorial, fi. 3r). 251
claro espelho en que se via de dentro e de fora e pode entender palas lições dele como caminhaua ... » 98 A influência das leituras foi notória em muitos dos actos e práticas espirituais de Isabel Miranda, nomeadamante na da oração mental, na qual «proçedia pala ordem que as doutrinas espirituais encinão ... »99, facto tanto mais significativo quanto, no princípio, só «rezaua vocalmente muytas orações»!()(). Por isso, a sua aprendizagem dos complexos processos e dos percursos da vida espiritual não era totalmente desenquadrada dos modelos teóricos fornecidos pelas obras de espiritualidade que lhe lia o seu confessor. Pelo contrário, havia mesmo alguma conformidade-Brás Soares acentua em particular a conformidade com alguns aspectos contidos nas Obras de Santa Teresa-, o que garantia também a ortodoxia. Mesmo assim, o medo tanto da vaidade como do fingimento -que deverá ser entendido no quadro epocal de alguns fingimentos detectados naquelas décadas no espaço ibérico 101 -levou-o não só a «examiná-la» com frequência102, mas também a pedir pareceres sobre diversos aspectos a alguns religiosos e teólogos, já que o seu saberdiversas vezes o reconheceu -era em alguns casos insuficiente. Como no das «premunições» 103 • Por isso, «polo pouco que disto entendiamos e pouca confiança que en nosos pareçeres tinhamos sendo as cousas da calidade que herão fomos las sempre tratando com os theologos que a esta terra vierão como farão hum comissairo de são "Memorial, fi. 139v. Aliás, como atrás se disse, a consciência da sua santidade aumentou depois de ler as obras de S. Teresa, com que compreendeu muitos dos seus sentimentos: <<Em outras muitas duvidas fomos alumiados pala lição deste liuro e doutrinas desta sancta ( ... ) porque ela se achou em grão parte daquele liuro e hera grande a alegria de sua alma en verse levada polos paços desta sancta .... >> (fi. 107r). 99 Memorial, fi. 102v. 100 Isto <<porque o confesor>> -que <<a este tempo era hum clerigo>> - <<não na despertaua nem jncitaua as mais ... >> (Memorial, fi. 3r). 101 Veja-se, mais adiante, o caso da <<freira de Lisboa>>. Mas recorde-se também o escândalo da <<monja de Córdova>>, Magdalena de la Cruz; e o de Lucrecia de León (cf. Richard L. KAGAN, Lucrecia:ç Dreams. Politics and Pmphecy in Sixteenth-Century Spain, ob. cit.). Sobre diversos casos e questões em torno do <<fingimento>>, especialmente em Itália, vejam-se os estudos pioneiros reunidos por Gabriella ZARRI, Finzione e santità tra medioevo ed età modema, Torino, 1991; Anne Jacobson SCHUTTE, <<'Piccole donne', 'grandi eroine': santità femminile 'simulata' e 'vera' nell'Italia della prima Età Moderna>>, art. cit.; Adriano PROSPERI, <<Santità vera e falsa>> in Id., Tribwwli della Coscienza. /nquisitori, Confessori, Missionari, Torino, 1996, 431- -464. 101 Fazia-o de várias maneiras: ora <<lendolhe tais que nelas pudese uer se en algua couza hera comprendida ... >> (Memorial, fi. 130r); ou <<com diversas preguntas>> que permitiam, através das respostas que ela dava, aferir <<as suas virtudes, espirita e deuação e penitencias e ( ... ) constancia ... >> (Memorial, fi. 124r), e especialmente a sua humildade; assim, <<tanto quanto mais hia crecendo estes conheçimentos sentia tamben ir crecendo en su[a] alma a virtude da humildade e jr desminuindo e enfraqueçendo o viço da soberba ... >> (Memorial, fi. 123v. 103 Tal como o impunha, aliás, uma norma do decreto do V Concílio Lateranense sobre a pregação. Cf. PROSPERI, Adriano, <<Dalle 'divine madri' ai 'padri spirituali'>>, in Elisja Schulte VAN KESSEL (ed.), Women and Men in Spiritual CultureXIV-XVII centuries, The Hague, 1986, 73 e 75. 258
françisco e hum pregador da mesma ordem e outro guardião letrado e com o capuchinho frei francisco com que se confessou ano e meio sendo eu no Reino e outros dous pregadores da nossa ordem omens graues e mui letrados hum deles catredatico e com o padre frei pedro da conceição que lhe vestio o abito e por derradeiro com o padre frei antonio Rabelo 104 da ordem de Santo domingo que aqui veio da India ( ... ) e todos eles mostrarão ter grande satisfação do que dela e sua espiritualidade entenderão e de sua vida e virtudes e modo de proceder ... »105 ; e ainda por um padre da sua ordem, Fr. António Pacheco, que por lá passara vindo do México onde era pregador e leitor de teologia na universidade. Este, depois de a «examinar» 10 \ «nada duuidou de ser muy çerta e verdadeira sua espiritualidade», já que «no santo offiçio avia tido cargo e avia ajudado a descobrir boas faltas em molheres espirituais como de muitas me contou o companheiro que tamben era letrado .. »107• Idêntica ajuda pediu ao referido bispo da Filipinas, carmelita, que «era ornem espiritual e de oração» e que «folgou de saber o estado en que estaua ... »108• Deste modo se ia tranquilizando Brás Soares ... Não sem alguns sobressaltos, como o que viveu em Setembro de 1587 quando ela se recusou a obedecer-lhe a um pedidoHl9, desobediência que quase o fez desesperar da sua salvação. Por isso ia permanecendo atento, nomeadamente à constância da humildade, obediência e penitências da sua confessada. E vendo, além disso, que «religiosos de outra Religião por çertos modos a soliçitauão e persuadião que reçebese o seu [habito] e isto occultamente de mim», procurou que esta viúva tomasse o hábito de mantelata de S. Agostinho. Escreveu a Fr. Pedro da Conceição, prior do convento de Angra, que por sua vez escreveu ao vigário- -geral da Província e, em 20 de Janeiro de 1588, na ermida do Corpo Santo plena de gente, tomou Isabel de Miranda o referido hábito, o que deixou Brás Soares mais feliz e, sobretudo, mais «seguro»110• Isto numa época em que "M Era este Fr. António Rebelo <<grande pregador e la na India leitor de theologia muitos anos>> e, além disso, «enfadado de mulheres deste titulo de espirituais por lmas falsidades que se acharão em hua que ~le confesou e trouxe a cargo la na lndia noue anos que que naquelas mesmas naos mandarão de la os jnq11izidores a Lixboa e hera molher baça ou mulata ( ... ) e de que hele se mostraua satisfeito no tempo que a seu cargo andou mas como depois de examinada polo sancto officio acharão não ser tal quoal parecia se achou como ca o pe. Luis de granada com a freira da anunçiada e asi desta afronta tinha descredito destas espirituais nem as queria ver ... >> (Memorial, fi. 195v; ver igualmente fi. 146r). ""Memorial, fi. 139r; tb. fi. 153v. Além disso, muitos aspectos da sua espiritualidade vieram a ser «confirmados>> com a leitura das obras de S. Teresa, alimentando a consciência da sua santidade: «Em outras muitas duvidas fomos alumiados pola lição deste liuro e doutrinas desta sancta ( ... ) porque ela se achou em grão parte daquele liuro e hera grande a alegria de sua alma en verse levada polos paços desta sancta .... >> (fi. I 07r) 106 Pediu-lhe que a confessasse e lhe analisasse o espírito, o que ele fez durante 25 dias «e a cabo deste tempo se mostrou ele tão maravilhado e satisfeitO>> (Memorial, fi. 60r; fl.73r; fi. 77v) 107 Memorial, fi. 146r. 10' Memorial, fi. 99v e ss. 1119 Memorial, fi. 99v e ss. 110 Memorial, fi. 124v. 259
vinham aumentando em toda a Europa as vozes defensoras do enquadramento institucional de todos os casos de «devotas» e «beatas» que, demasiado livremente, davam largas aos seus anseios espirituais 111 • E assim ia a sua espiritualidade «sempre en augmento» 11 \ à medida que também a fama pública de santa 113 • O próprio Brás Soares a incentivou a exercitar papel de intercessora, mandando-a «fazer alguas deuações e orações que pessoas pedião por diversas neçeçidades». Ela «aceitauao prontamente e fazia tudo tão argumentado no numero e partes que [a] hela lhe pareçia podião ajudar que hera hua grande consolação» 114 • Concomitantemente, crescia também a veneração pública na esperança ou em agradecimento dos seus milagres''\ particularmente as curas de enfermos 116 • Era por isso «grande a estima en que ja a este tempo era tida e de todos muy amada e tida sua vida e sanctidade en çingular reputação», tanto pelos pobres e doentes 117 que a viam como intercessora nas 'suas dificuldades e '" Cf., em particular, o interessante artigo de Adriano PROSPERI, <<Dalle 'divine madri' ai 'padri spirituali'>>, art. cit. Para a Espanha, veja-se o estudo genérico de Angela MUNOZ FERNANDEZ, Beatas e Santas Neocastellanas: Ambivalencia de la Religión, Correctoras dei Poder (ss. X/V-XVI!), Madrid, 1994. Para França e um pouco mais tarde, Elizabeth RAPLEY, The 'Dévotes '. Women and Church in Seventeenth-CentUJy France, Chicago, 1990. "'Memorial, fi. 74v. "'Memorial, fi. 78r: <<E hera grande a estima en que ja a este tempo era tida e de todos muy amada e tida sua vida e sanctidade en çingular reputação e a alguas senhoras que em suas casas acolhião fazião dela como de hua menina olhandoa e tomandolhe huas o çilicio, outras as cordas hua lhe tomou a çinta ou faxa ajnda que velha e deulhe outra boa e casi noua outras trocauão a beitilha e somana foy que tres vezes e toleraua ela isto con tanta çimpliçidade como se fora hua menina ... tomauãolhe outros pedaçinhos de beitilha ou de outras quoais quer partes dos seus pobres vestidos que cortauão com quoaisquer couza que achauão>>; fi. 83v; fi. 87r; continuava a rezar por <<pessoas que se lhe encomendauão que herão muitas>> (fl. 125v), e as próprias freiras da Esperança lhe pediam que rezasse por elas (fi. 125r-v). "'Memorial, fi. 29v. E <<dezia de mais disto muytas devações e orações por diversas causas que se ofrecião e por pessoas que se lhe encomendauão que herão muitas ... >> (Memorial, fi. 125v) "'Memorial, fi. 78r: <<hia o senhor mostrando a gente cada dia com manifestos çinais o amor que lhe tinha e o que ela tinha a ele e quoão açeitos lhe herão seus fieis exerçicios fazendo con sua oração e tocamento de suas mãos com o sinal da cruz muytos beins a muytos sarando muytos enfermos de diversas jnfirmidades vizitandoos ela e lauandoos e curandoos com ardente charidade ... >>. '"Memorial, fi. 78r: <<...hia façilmente donde a chamauão para quoaisquer neçeçidades tratando todos genero de jnfirmidades con suas mãos sen nenhum asco nen temor e o mesmo fizera con leprosos se se offreçerão se eu se lho mandara porque nhua couza fazia senão por obediencia ... >> e <<aproveitavãose muytos enfermos de hua agua a quoal eu tocava en hum çilicio seu con o quoal sarauão muytos doentes bebendo a outros pondoa en as partes donde tinhão seu mal dores ou chagas pondo ali paninhos molhados nella ... >>; <<todos os enfermos ou sarauão de todo ou se lhe tirauão alguas doreS>> e <<finalmente todos tinhão milhorias e consolação>> (fi. 85v); cf. ainda fi. 48v; fi. 99v; fi. 53 v; fi. 56 v; fi. 71 v; 72r-v; fi. 96v; fi. 129v. "'Memorial, fi. 75v: <<foy dali vizitar hum enfermo que muyto esta vizitação estaua dezejando e estaua muyto mal e com o que lhe dixe o deixou muyto aliviado e milhorado e alegre e a toda a caza>>; fl. 84v: <<avia nestes dias muytos doentes e quoatro noites a reo não dormio en sua casa mas por casas de alguns que estauão muyto mal e mandauamna chamar porque se consolauão muito con sua vista e fala>>. Chegou a tanto esta sua actividade que quase não tinha tempo para a 260
aflições, como também por «alguas senhoras que en suas casas acolhião fazião dela como de hua menina olhandoa e tomandolhe huas o çilicio, outras as cordas hua lhe tomou a çinta ou faxa ajnda que velha e deulhe outra boa ... »l!8. Ou sejacomo sucedia com outros santos vivos-, na veneração da sua santidade e na busca do seu poder intercessório não havia, pelo menos aparentemente, distinção de grupos sociais119, embora o seu enquadramento social pudesse contribuir para uma maior acessibilidade dos mais pobres, para quem, aliás, as dificuldades da existência eram geralmente também mais dramáticas. Especialmente nas ilhas dos Açores, assoladas com frequência por intempéries e adversidades da natureza que tomavam o viver quotidiano muito imprevisível e particularmente difícil para os que tinham de se haver (directa ou indirectamente) com as tempestades marítimas ou terrestres e, naqueles anos, com a ameaça constante dos ataques tanto dos franceses como dos ingleses 120· Por outro lado, a sua oração 121 ou mesmo a sua presença era requerida em vários actos de devoção privados122 ou públicos, como na procissão em memória do terramoto de 1563123 ; ou nas orações privadas e colectivas em tempos de violentas tempestades no mar124 ; ou nas romarias que se fizeram para rogar a protecção divina para a Armada InvencíveP25 ; ou contra os ataques dos ingleses à ilha126• Além disso, a autoridade que vinha conseguido como «mestra do espírito» permitia-lhe não só aconselhar outras devotasou oração mental devido a «alguas vizitações de doentes de que estaua encarregada e tambem polos muytos doentes que a hião buscar a sua casa com que se ocupaua ate as onze da noite ... >> (fi. 78r). "'Memorial, fi. 78r. 119 Mas este era um aspecto repetidamente verificado tanto na veneração dos <<santos vivos>> como no culto dos santos canonizados ou oficialmente reconhecidos. Cf. Jean-Michel SALLMANN, Naples et ses saints ... , ob. cit. 120 Memorial, fi. 67v, fi. 95r, fi. 97v, fi. 176v, etc. 121 Porque se confiava ser mais eficaz pela sua familiaridade com Deus, <<como sempre naqueles anos viuiamos aqui com arreçeo de enemygos jngreses fazia ela sempre a oração do dia da asenção ... >> (Memorial, fi. 95r) "'Como no caso de uma devota que lhe pediu que a acompanhasse numa romaria (Memorial, fi. 177r). "' Memorial, fi. 97v. 124 Memorial, esp. fls. 133v-134r. 1" Memorial, fi. 145r: <<nestes dias se ençerraua o senhor palas ygrejas donde hia a gente rezar polo bon susçesso da nos a armada quando foy parajngraterra contra os jngrezes luteranos conforme a ordem que o prelado avia mandado ... >>; <<todo o aduento andou en muytas romarias e fazia muytas diligencias e devações ( ... ) rogando ao senhor aplacase sua ira e não consentisse vir jngreses a esta terra porque avia disto grandes aiTeceos ... >> (fi. 86v). 126 Como sucedeu quando <<ordenou o vigairo desta freiguezia de san sebastião [por sugestão de Brás Soares] que fosem alguas devotas en rromaria â ermida da Encarnação e nela comungasem por sua jntenção que ele en hua pratica que lhes fez lhe declarou que hera porque deos livrase esta terra do que temíamos que hera vinda de ingreses a hela saquealla ( ... ) fomos nos e alguas vinte devotas ... >> (Memorial, fi. 67v). Ou <<por esta sua patria rogando ao senhor aplacase sua ira e não consentisse vir jngreses a esta ten·a porque avia disto grandes arreçeos ... >> 261
alguns devotos 127 -, mas também provocar o arrependimento ou tomar mais devotas outras mulheres128• E o seu espírito profético129 -em alguns casos só muito tardiamente compreendidos ou valorizados por Brás Soares, como sucedeu no caso da Armada InvencíveP 30 ou no da «monja de Lisboa» 131 -era cada vez mais escutado132. 4. Apesar de tudo, como atrás disse, alguns iam desconfiando. Curiosamente, as desconfianças mais sérias -que Brás Soares, apesar da cautela, foi identificando com a inveja 133 -vinham de algumas «devotas» (especialmente duas) «filhas espirituais» do vigário da freguesia 13 \ as quais, em grupo ou individualmente, a acusavam, às vezes com «palavras asperas», como as que lhe dirigiu uma «das que andauão en frequençia dos sacramentos» dizendo que «andaua tentada do demonio e que tudo o que tinhà erão tentações»; e assim andava esse grupo de mulheres «rrosnando com muytos ditos e zom127 Nas suas romarias era frequentemente acompanhada de <<Um mancebo seu devoto» (Memorial, fis. 76r) que se chamava Gaspar Gomes (fi. 88r), ou mesmo de <<dous mancebos seus devotos que muitas vezes a acompanhavão>> (Memorial, fi. 144v). 1" O crescimento da fama em matéria espiritual levava diversas mulheres <<devotas>> a procurá-la ( <<teue na ygreja encontros de molheres que lhe querião falar ... >>- Memorial, fi. 72v; fi. 67v-68r), chegando a provocar o arrependimento ou a tornar mais devotas algumas delas (cf. fis. 70r, 72v. 143v. 129 r, etc.) "'Este deve ser compreendido no quadro da importância (e da diversidade e complexidade, que inclui também a diferenciação entre o masculino e o feminino) que o fenómeno teve a nível europeu entre os finais da Idade Média e o século XVII. Cf., em especial, Adriano PROSPERI, <<Da11e 'divine madri' ai 'padri spirituali'>>, art. cit.; Ottavia NICCOLI, Profeti e Popolo nell'ltalia de! Rinascimento, Bari, 1987; Gabrie11a ZARRI, <<Les prophetes de Cour dans I'Italie de la Renaissance>>, in Les Textes Profétiques et la Prophétie en Occident -XI/e-XV/e Siecle (ActesChantilly, 30-31 mai 1988), Roma, 1990, pp. [359]-[675]; Id., <<Pietà e profezia a11e corti padane: !e pie consigliere dei principi>> in LeSante Vive, ob. cit., pp. 51-85; Richard L. KAGAN, Lucrecia:ç Dreams. Politics and Prophecy in Sixteenth-Century Spain, ob. cit.; José Adriano de CARVALHO, <<Um profeta de corte na corte ... >>, art. cit. 1311 Conta Brás Soares que << .. .leuando hua tarde que fui a sua casa hua relação que viera de Lixboa das couzas desta armada para se lha ler porque trataua do numero dos galeões que hião e outros nauios grosos e dos mais e do numero da gente e de todas as mais particularidades dela ( ... ) a primeira palaura daquela Relação foi Relação da felissisima armada (. .. ) dixe ela bastara dizer relação da armada e não quizera ver ai felisissima senão depois de acabada a jornada ( ... ) (Memorial, fi. 145v). E na oração que Brás Soares quis fazer com ela para o bom sucesso da Armada o pedido foi o de que <<noso senhor modere b rigor da sua jndignação e ira que contra nos tem .. >> (Memorial, fi. 145v). 131 Ainda a propósito da Armada, <<tratandose do grande caso que se fez da freira da anunçiada e como benzera a bandeira e como por esa cauza ficauão grandes esperansas respondeo ela quietamente milhar fora que a não benzera se não o prelado maior ... » (Memorial, fi. 145v). 132 Memorial, fi84r; fi. 91r; fi. 95r; fi. 127r; fi. 145v; fi. 169r; fi. 176v; fi. 178r. 133 Memorial, esp. fi 79v e fi. 165v. 134 Brás Soares nunca refere o nome, mas, pelas datas e através de diversos indíciose não há qualquer alusão à mudança do vigário (antes de 1597) -,era muito provavelmente Sebastião Ferreira (que o era em 10 de Novembro de 1586). Cf. Fr. Agostinho de Monte ALVERNE, Crónicas da Província de S. João Evangelista(. .. ), vol. II, ed. cit., 207. 262
barias não somente dela mas tamben de quem a trazia a cargo» porque «era entrelas hum comum pareser e sentimento que era tudo vaidade e quererse mostrar sancta» 135 • Algumas diziam mesmo que «muytas mais mostras de sanctidade dera de si madalena da cruz mas que depois se achara ter feito pacto com o diabo ... » 136 , acusando-a de «feitiçeira e supersiçioneira e mentirosa ... » e procurando «quanto lhes hera posivel dezacreditala e ao que a guiava». Um dia o vigário chamou-a e «examinou-a» longamente na igreja, dando a entender não acreditar nela 137 , proibindo-a de ir a casa de enfermos e de os benzer. A tudo ela respondeu humildemente. Como muitos dos santos que lhe serviam de exemplo, a tecedeira não temia perseguições, antes as desejava 138 • E estas não faltaram, começando com uma denúncia pública, durante a pregação no dia da festa de S. Sebastião, em 1586, por um «velho cura que aqui foy mandado da terceyra penitençiado por amigo do senhor don antonio que la era vigairo de hua igreja» e que «tomou con o vigairo e suas filhas muyta amizade» 139 ; nesse sermão, aproveitando a obrigatoriedade imposta pelas constituições sinodais de denúncia de «feiticeiras, adivinhadoras, benzedeiras e superstições ... », sugeriu enquadrar-se ela nesse campo140, facto que provocou murmurações, zombarias e ditos vários na cidade 141 • Curiosa e significativamente, enquanto este «velho cura» era um partidário de D. António Prior do Cratopor isso viera desterrado da ilha Terceira-, Isabel de Miranda era «muy jnclinada as couzas do noso rei don filipe» 142 ••• Além disso, aquele «grupo», cujos nomes Brás Soares nunca identificou mas que, em diversas passagens, aproximou dos partidários de D. António ou com um grupo devoto influenciado pelos jesuítase estes «não estavão aqui muito aceitos» na época143 -, foi-se constituindo aglomerando algumas mulheres devotas «filhas espirituais» do vigário da freguesia (mas que, em tempos, haviam sido iniciadas «na frequentação dos sacramentos» e «nas couzas da oração» por Brás Soares144 ). As mesmas que por diversas vezes tentaram manchar a sua fama pública 145 e a do próprio Brás 135 Memorial, fi. 14v. 136 Memorial, fi. 79v. 137 Memorial, fi. 79r. Depois disso, ele e as suas <<devotas» <<procurauão quanto lhes hera posivel dezacreditala e ao que a guiava>>. 138 Memorial, fi. 80r; fi. 88v; fi. 90r. 139 Memorial, fls. 88v-90r. 140 O contexto epocal permitia, apesar de alguma <<brandura>> das perseguições, dar crédito à acusação. Cf. José Pedro PAIVA, Bruxaria e superstição num país sem «caça às bruchas» ( 1600- -1774), Lisboa, 1997. 141 Memorial, fi. 90r: << ... daqui como de fonte naçerão mil ditos e zombarias e não se falar noutra couza por muyto tempo enchendo a gente de mil sospeitas ... >>. 142 Memorial, fi. 189r: <<por ter sentimento de espirito serem suas obras aceitas e agradaueis a deos e por ter este sentimento o amaua e o encomendaua muy cuidadosamente a deos ... >>. 143 Memorial, fi. 165r. 144 Memorial, fi. 90r; 149r; fi. 157v. 145 Memorial, fi. 90r: <<todo seu jntento e cuydado hera de a abaterem e anichilarem e de a dezacreditarem ... >>. 263
Soares146• O que mostra como a aliança entre questões políticas e religiosas estava presente também neste caso, entretecendo redes a que não escapou esta «santa viva» e o seu confessor. As denúncias do «fingimento» de Isabel parecem ter conseguido suscitarem alguns casos alimentaro descrédito de uma parte da população em relação a esta «santa». Tanto mais que os seus principais opositores estavam também envolvidos nas diligências para a aprovação da santidade e consequente canonização de Margarida de Chaves147, outra «santa viva» que, tendo embora sido confessada de Brás Soares, se havia aproximado, nos últimos tempos da sua vida e por razões de ordem familiar, dos jesuítas. Mas cuja espiritualidade -estranhamente? -não é nunca lembrada no Memorial, nem sequer para com ela estabelecer aproximações ou coincidências, que claramente existem148 • Como atrás se disse, as acusações de «fingimehto» ganharam um fôlego quase incontrolável depois da confissão de soror Maria da Visitação, a monja da Anunciada, nos finais do ano de 1588149, altura em que a casa de Isabel «hera notauelmente frequentada de gente enferma de varias jnfirmidades espeçialmente a noite e não cabião muytas uezes en casa e estauão na rua e estauão muytas vezes ate as onze da noite nas diligencias que com eles fazia»; aí rezavam, aí lhes fazia Isabel o sinal da cruz, aí alimentavam esperanças várias que diminuíam os sofrimentos ... 150 • A sentença da monja de Lisboa foi conhecida na cidade cinco dias antes do Natal de 88, juntamente com a da perda da Armada. Ficaram todos «fora de si», parecia «aver entrado hum pasmo geral em todos mas prinçipalmente o caso da freira parece que encheo todos os corações de tristeza e 146 Memorial, fi. 90r: acusado de <<ieue e ligeiro en crer e de ignorante e outros titulas semelhantes ... >>. 147 Fr. Agostinho de Monte ALVERNE, Crónicas da Província de S. João Evangelista ... , ed. cit., vol. II, esp. 205 ss. '" Naturalmente, não cabe discutir aqui o caso e a vida de Margarida de Chaves, mas será imprescindível fazê-lo num estudo mais exaustivo que deverá ter em conta não só os seus pontos de contacto e diferenças, mas também algumas das redes de relações sugeridas por Brás Soares, que, aliás, foi também o seu primeiro biógrafo. 149 Sobre este caso veja-se, em particular, Ramón ROBRES e José RAMÓN ORTOLÁ, <<La monja de Lisboa. Sus fingidos estigmas, Fr. Luis de Granada y el Patriarca Ribera», Boletín de la Sociedad Castellonense de Cultura, 23 (1947), 182-214; 229-278; Id., <<EI proceso de Ia monja de Lisboa a través de Ia Nunciatura de Espaiía», Boletín de la Sociedad Castellonense de Cultura, 25 (1949), 671-531; Alvaro HUERGA, <<La vida seudomística y el proceso inquisitorial de Sor María de la Visitación» e <<EI proceso inquisitorial de la 'Monja de Lisboa' y Fr. Luis de Granada», Hispania Sacra., 12 (1959), respectivamente 35-130 e 333-356; Id., <<Introducción» à edição de Fr. Luís de GRANADA, Vida de sor María de la Visitación, Barcelona, 1962, 4-112. ""Memorial, fi. 126r. Já <<no mês de junho do ano de 87 andou a somana antes do domingo do saneto sacramento muyto agastada e sempre queixandose por não poder ter tanta oração mental como sohia por cauza de alguas vizitações de doentes de que estaua encarregada e tambem paios muytos doentes que a hião buscar a sua casa com que se ocupaua ate as onze da noite ... » (fi. 96v). 264
malencolia» 151 . Nomeadamente no de Brás Soares que assumiu recear que este pudesse ser um caso idêntico, apesar de o levar «compassado e confrontado con as doutrinas do sancto evangelho e con as dos sanctos que destas materias escreuerão e con hum jncansauel cuidado que en examinar suas couzas trazia ... » 152 . Mesmo assim, chamou Isabel para lhe dizer que era necessário «que nos examinemos nos ca tamben antes que nos examinem a nos e vejamos ben que caminho levamos ... » 153 • Cuidado e vigilância que sempre foi mantendo, mesmo quando diminuíram os ataques dos seus inimigos 154 . O impacto daquela notícia foi tão fortee, note-se, mais forte que a do infeliz sucesso da Armadaque «resfriou» no povo «esta deuação», revivendo as desconfianças atrás referidas 155 • Consequentemente, começou «a gente» -que incluía «muitas das que tinhão titulo de espirituais e muita gente ecclesiastica»156a <<julgar e murmurar e a ter varias determinações e dar mil sentenças sobre a vida e espiritualidade da teçedeira» 157 , criando assim as condições para futuras «perseguições que lhe fizerão de muytas maneiras en vizitações ... ». Uma delas aquando da visitação do bispo, D. Manuel de Gouveiamas quem «visitaua» realmente era o vigário-geraP 58 -, no princípio da quaresma de 1591. Como um dos «capítulos sobre que se avia de preguntar era das benzedeiras começarão logo escrupulos em pessoas de pouco saber e não faltou quem se lhos sustentase e fizese jr a muytas molheres e homens a acuzar a quem lhes avia feito ben ... » 159 . Compreensivelmente, acenderam-se 151 Memorial, fi. 147r. Uma melancolia que deve ter sido tão generalizada que o próprio Fr. Luís de GRANADA sentiu a necessidade de escrever o Sermón en que se da aviso que en las caídas públicas de algunas personas ni se pierdan el crédito de la virtud de los buenos ni cese y se entibie el buen propósito de los .flacos (Lisboa, Antonio Ribeiro, 1588) e o P. Pedro de RIBADENEIRA a teve presente no seu Tratado de la Tribulación, no Libro Segundo, en que trata de las tribulaciones gene rales y de sus remedios, ao referir «personas religiosas, ó que tenian opinion de virtud, representar con embustes y embaimentos en su cuerpo las llagas de la pasion de Cristo nuestro .Redentor, ó vender sus mm·afias y artificias por revelaciones y favores de Dios, deslumbrando y trayendo la gente embaucada y como encantada con semejantes enganos ... » (Cito pela edição de J. I. Tellechea Idígoras, Madrid, 1988, esp. 264-265, 366-375, 393-398). 152 Memorial, fl.147r. ' 153 Memorial, fi. 147v. 154 Memorial, fi. 185v: <<Levaua eu grande cuidado en examinar se avia relaxação ou descuidos no que a mim parecia que ela podia fazer e lhe pedia muitas vezes conta e a daua de mui boa vontade e folgaua do exame ( ... ) e me rogaua que não abrise mão daquele cuidado que niso ajudaua muito .. ». m Recordando a murmuração posterior à denúncia na igreja de S. Sebastião e ao parecer de 3 padres doutos que aí passaram (Memorial, fi. 88v e ss.). 156 Brás Soares especificou mais adiante serem <<duas pessoas de letras e pulpito e de autoridade que erão juntadores destas [mulheres que frequentavam os sacramentos]>> (Memorial, fi. 149). Outras referências ao longo do texto permitem supor tratar-se do vigário da freguesia e do seu cura. Contudo, também aludiu a um <<padre da companhia>> que aqueles <<tinhão muito mouido contra ela>> (fi. 149r). 157 Memorial, fi. 148r. 1" Memorial, fi. 149r. 159 Memorial, fi. 148v. 265
as murmurações que provocaram «varios juizos» e «diversas sentenças» não só sobre a tecedeira, mas também sobre «quem a trazia a cargo», pelo que «huns a sentençiauão a fogo outros a carçel perpetua outros açoutes outros a ser degradada para o brazil»160• E «ja o ser ela outra freira de Lixboa era pratica geral» 161 • Mas como o «visitador» era o vigário-geral, Brás Soares, receando que este fosse influenciado pelos seus opositores, decidiu falar pessoalmente ao bispo, rogando-lhe que tomasse a cargo o «exame» das acusações contra si e contra a tecedeira, o que o bispo prometeu fazer. Só o não cumpriu porque assuntos «trabalhosos» -em especial «hua grande diferença que começou entre ele e o gouemador»162 -o levaram a embarcar apressadamente para a Terceira. Mas antes de partir o bispo apenas parecia estar verdadeiramente preocupado com a discrição de Isabel nas atitudes em público. Por isso ordenou que, nas comunhões, ela tomasse, como todos os outros, o lavatório, sob pena de lhe não darem o sacramento; que «reçebendo o senhor logo se leuantase daquele lugar como a outra gente ... » - dois dos aspectos que se afiguravam mais difíceis para o confessor «porque sabia que [ela] o não podia fazer», razão pela qual tentava «aver liçença para a sacramentar»-; que «não fizese oração em pubrico»; finalmente, que Brás Soares «a não pubricase por sancta» nem usasse mais a água tocada em coisas suas que dava aos enfermos «a quoal alguas vezes hia bem fedorenta»163• A tecedeira tudo acatou com humildade, obediência e paciência. Esta virtude em particular exercitou-a, aliás, quase toda a vida, não só nas dores físicas e nas doenças várias, ,mas principalmente «sofrendo» quase quotidianamente o mau feitio da mãe164• Mas no ano seguinte a «tempestade» levantou-se de novo com a chegada do Inquisidor Jerónimo Teixeira CabraP 65 • Recomeçaram as investidas dos seus perseguidores -«confiando que o que não avião negociado com o bispo con hele sen falta e muito milhor o negociarião» - e «comecou de acodir gente e de tal maneira acodião com seus escrupulos que lhe foy neceçario ao jnquizidor tomar hum ajudador ( ... ) que foy o guardião de são françisco»166• As denúncias terão sido muitas167, mas «hela andaua muyto serena e conti- '""Memorial, fi. 148v. Um dos grandes acusadores, além do vigário, era um padre da companhia (fi. 149r). Mas Brás Soares confiava no bispo que sempre lhe parecera <<ser lhe devoto e afeiçoado e folgar de falar nela e dezejar tempo opportuno para uer suas couzas ... >> (fi. 150r). '"Memorial, fi. 149r; outros acusavam-na também de feiticeira e adivinhadora (fls. 137r e 148r). 162 Memorial, fi. 150v. '" Memorial, fi. 150v. '" Este aspecto foi por diversas vezes evocado e até realçado por Brás Soares. Veja-se, em particular, Memorial, fls. 114r ss. '"Memorial, fi. 157r e s. 166 Memorial, fi. 157r-v. '"Estranhamente, não as vi registadas no Livro das Denúncias e Confissões da Visita do Inquisidor- -Mór às Ilhas dos Açores (1592-93) que se guarda no A.N.T.T. (Inquisição de Lisboa, Denúncias, L.0s 786 e 787). 266
nuando suas devações e igrejas e sacramentos ... » e Brás Soares «sabia do guardião que en todas as couzas que tinha achado não avia couza que (n)os condenase ... », antes «tudo o que avia descuberto era para mais engrandeser e realsar sua fama que para a abater»168• Não foi dada qualquer sentença, nem o Inquisidor falou do caso antes da sua partida para a Terceira. Apenas quis ler o livro «de mão» sobre as «cousas» de Isabel de Miranda- «porque tinha fama no reino» -, livro que, já o disse, andava a escrever Brás Soares e que ele «mandou ao cardeal alberto sem mo dizer ... »169• Apesar de todas as perseguições e acusações, muitos continuavam a exigir a sua presença: «a gente lhe tinha tanta devação na çidade das grandes experiençias da virtude que deos nela tinha posta sofrerão isto mal e não deixauão de vir e importunar nem se podia deixar de conçeder a seus piadosos rogos ... »170• Contudo, ela, por obediênciae não por desinteresse 171 -, diminuía estas "consultas" e, percebendo-o «a gente», «forãose tamben recolhendo». A sua fama ficou profundamente afectada e em diversas ocasiões posteriorescomo na da doença e desejo de confissão do filho 172, ou na devassa ordenada pelo bispo contra ela e o seu confessor173 -sofreu murmurações, invenções, desconfianças e acusações várias, sendo «jnumeras as afrontas que en ditos lhe fizerão» e ficando «a pobrezinha posta en todos dezamparo de todos quantos amigos eu tinha e filhas espirituais»174• 5. Inevitavelmente, todos estes factos vieram contribuir para fazer crescer o medo de fingimento e, consequentemente, o descrédito dos seus devotos. E, claro, para elevar o tom das críticas dos seus perseguidores que conduziram à devassa ordenada contra ela e contra Brás Soares pelo bispo D. Diogo de Gouveia no ano de 1595. Isto numa altura em que aumentavam as rivalidades com os jesuítas, que haviam começado já com o caso da Margarida de Chaves e com ele também se alimentavam 175 ; em que Brás Soares teve de se deslocar a Lisboa (entre finais de 1595 de Março de 1598176) para fazer avançar o processo conducente à prorrogação da sua licença; em que o bispo ordenoumas, sob influência do Reitor do colégio dos jesuítas177 -o 1" Memorial, fi. 157v. 169 Memorial, fls. 157ss. 170 Memorial, fl. 126r. 171 Pelo contrário, segundo Brás Soares <<era esta serua de deos muy dezejosa de saluação de todos o que ela explicaua muytas vezes com palauras de muito encareçimento e creo sen nenhua duuida que facilmente se ofrecera a morte por saluação de almas espeçialmente dos seus deuotos e amigos espirituais aos quoais ela daua muitos avizos e conselhos para não offenderem a deos ... >> (Memorial, fl. 158v). 172 Memorial, fls. 160v e ss. 173 Memorial, fls. 165r e ss. 174 Memorial, fl. 165r. 175 Memorial, fi. 163r e ss. 176 Memorial, fls. 164r-v e ss. 177 Memorial, fl. 163v. 267