Burnout e engagement em médicos e enfermeiros de unidades de saúde familiar
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BURNOUT E ENGAGEMENT EM MÉDICOS E ENFERMEIROS DE UNIDADES DE SAÚDE FAMILIAR Ana Mónica Pereira1,2,3 ,Tiago Vieira Pinto3 & Cristina Queirós1,2 1. Introdução 2. Objetivos 3. Método 4. Resultados 5. Conclusões 6. Referências A reforma dos cuidados de saúde primários em Portugal, ocorrida em 2005, conduziu a uma reconfiguração dos Centros de Saúde e à implementação das Unidades de Saúde Familiar, pequenas equipas multiprofissionais (médicos, enfermeiros e secretários clínicos), com autonomia técnica e organizacional e um sistema retributivo que premeia a produtividade, acessibilidade e qualidade (Pisco, 2007). A criação destas unidades funcionais implicou alteração nas condições de trabalho, cujo impacto nos médicos e enfermeiros pode ser estudado através do engagement e do burnout. O engagement é um estado afetivo-motivacional positivo relacionado com o trabalho, caracterizando-se pelo vigor, dedicação e absorção (Schaufeli et al., 2002). O burnout é uma resposta ao stress crónico que se caracteriza pela exaustão, despersonalização e reduzida realização profissional (Maslach, Schaufeli & Leiter, 2001). Estudos revelam que engagement e burnout são conceitos relacionados (Maslach, et al., 2001; Schaufeli & Salanova, 2011), sendo o burnout alvo de interesse crescente pelo seu efeito negativo na qualidade dos serviços prestados pelos profissionais (Ebling & Carlotto, 2012) e o engagement pelo seu efeito na performance, saúde e bem-estar dos profissionais (Bakker, 2011). Conhecer os níveis de burnout e de engagement e sua inter-relação em médicos e enfermeiros das unidades de saúde familiar (USF). Amostra: 66 enfermeiros e 108 médicos de USF de todo o país, sendo 60% de USF de tipo B; 74% mulheres, 75% casado, 9% com Mestrado e 40% a trabalhar 40h semanais; idade média de 46,1 anos (DP=11,25) e tempo médio de serviço nas USF de 4,6 anos (DP=2,69). Instrumentos: Utrecht Work Engagement Scale (UWES, Schaufeli & Bakker, 2003; Marques-Pinto & Picado, 2011) e Maslach Burnout Inventory (MBI, Maslach, Jackson & Leiter, 1996; Marques-Pinto & Picado, 2011). Procedimento: Questionrio de auto-preenchimento online, aplicado aps autorizao institucional, em 2013, preenchido de forma voluntria, annima e confidencial. Os resultados sugerem que os profissionais estudados apresentam bons indicadores de saúde ocupacional, apresentando-se motivados (engaged) para o trabalho e com baixos níveis de burnout. Alguns estudos revelam a importância das variáveis sócio-demográficas no desenvolvimento do burnout (Queirós et al., 2013), bem como a relação entre burnout e engagement (Schaufeli et al., 2002). As recentes alterações na área da saúde alertam para a necessidade de estudar as condições de trabalho e o seu impacto psicossocial, quer no profissional de saúde e organização, quer no utente. Além disso, sendo o engagement um importante indicador de bem-estar não só de profissionais, mas também de organizações (Bakker, 2011), as intervenções implementadas nos contextos de saúde deverão ser desenvolvidas no sentido da prevenção do burnout e promoção do engagement. - Bakker, A. (2011). An evidence-based model of work engagement. Current Directions in Psychological Science, 20(4), 265-269. - Ebling, M., & Carlotto, M.S. (2012). Burnout syndrome and associated factors among health professionals of a public hospital. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 34, 23-30. - Marques Pinto, A., & Picado, L. (Eds.) (2011). Adaptação e bem-estar nas escolas portuguesas: Dos alunos aos professors. Lisboa: Coisas de Ler. - Maslach, C., Jackson, S. & Leiter, M. (1996). Maslach Burnout Inventory Manual. 3ª ed. Consulting Psychologists Press, Inc. Palo Alto: California. - Maslach, C., Schaufeli, W. & Leiter, M. (2001). Job Burnout. Annual Review of Psychology, 52, 397-422. - Pisco, L. (2007). A reforma dos cuidados de saúde primários. Cadernos de Economia, 80, 60-66. - Queirós, C., Carlotto, M., Dias, S. & Pereira, A.M. (2013). Predictors of burnout among nurses: an interactionist approach. Psicothema, 25(3), 330-335. - Schaufeli, W. & Bakker, A. (2003). UWES – Utrecht Work Engagement Scale. Utrecht: Utrecht University. - Schaufeli, W. & Salanova, M. (2011). Work engagement: on how to better catch a slippery concept. European Journal of Work and Organizational Psychology, 20(1), 39-46. - Schaufeli, W., Salanova, M., Gonzalez-Roma, V. & Bakker, A. (2002). The measurement of engagement and burnout: a two sample confirmatory factor analytic approach. Journal of Hapiness Studies, 3, 71-92. Os resultados revelam baixos níveis de burnout (com valores baixos de exaustão emocional e despersonalização, e moderados na realização profissional) e valores moderados de engagement (Tabela 1), sem diferenças significativas entre médicos e enfermeiros, nem entre tipo de USF (USF tipo A ou USF tipo B). Existe correlação negativa significativa entre burnout e engagement, estando a idade dos profissionais e o tempo de serviço em USF positivamente correlacionados com o engagement e negativamente correlacionados com o burnout (Tabela 1). Na análise da regressão (Tabela 2) verifica-se que o engagement (vigor, dedicação e absorção) prediz 19 a 36% do burnout, enquanto as características sociodemográficas (idade, sexo, profissão, habilitações literárias, horas de trabalho por semana, tipo de USF, anos de experiência profissional e anos de experiência profissional na atual USF) predizem 8 a 13% do burnout, com especial relevância para a profissão (apresentando os médicos valores mais elevados de burnout). 1 Laboratório de Reabilitação Psicossocial (FPCEUP/ESTSPIPP), Porto, Portugal 2 Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto, Portugal 3 Departamento de Investigação e Conhecimento, Associação Nacional de USF (USF-AN) [email protected] [email protected] 10º Congresso Nacional de Psicologia da Saúde Porto, 6-8 Fevereiro 2014