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Arquitectura de intervenção. Repensando o papel social do arquitecto através de modelos alternativos de prática

João Carlos Teixeira Alves

Abstract

A crise económica e a consequente falta de encomenda na arquitectura, após um período de crescimento, enunciam a necessidade de uma adequação da disciplina acompanhada por uma redefinição do papel social do arquitecto. Reconhecendo esta necessidade, este trabalho apresenta práticas contemporâneas de arquitectura marcadas por um compromisso social e por abordagens não convencionais ao projecto. A partir da apresentação de uma selecção de trabalhos de arquitectos e colectivos, centrada no contexto português, expõem-se as motivações, estratégias e reflexões inerentes a uma abordagem menos convencional à prática de arquitectura. Os casos de estudo apresentados diferenciamse pela sua(s) metodologia(s) de trabalho que abrangem conceitos como a arquitectura participativa, a arquitectura de código aberto, a arquitectura não solicitada, o trabalho em rede e a acção cívica, política e social. Estes trabalhos questionam ainda os limites da disciplina através da expansão do seu campo de acção e do estabelecimento de um trabalho em rede com diferentes agentes disciplinares e com a comunidade. Não descurando as referências teóricas e os precedentes históricos necessários para enquadrar e melhor perceber os modelos de prática apresentados, é colocada a tónica nos modelos de trabalho e nas estratégias arquitectónicas implícitas com vista a encontrar caminhos práticos para a arquitectura, resgatando o papel social do arquitecto e questionando o lugar da disciplina nos dias de hoje.

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ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO REPENSANDO O PAPEL SOCIAL DO ARQUITECTO ATRAVÉS DE MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁTICA João Carlos Teixeira Alves Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura Sob a orientação do Professor Doutor Joaquim Teixeira Sob a co-orientação do Professor Doutor Jorge Manuel Fernandes Figueira Ferreira Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto - 2013/2014 A presente dissertação não segue o novo Acordo Ortográfico. As referências bibliográficas estão de acordo com a Norma Portuguesa 405, sistema (autor, data). As citações transcritas em português referentes a edições de língua não portuguesa foram sujeitas a uma tradução livre pelo autor. Ao orientador, Professor Doutor Joaquim Teixeira, por ter aceite o desafio e pelo apoio ao longo deste percurso. Ao co-orientador, Professor Doutor Jorge Figueira, pelo estímulo e pela crítica. Aos Arquitectos José Paixão, António Louro e Tiago Mota Saraiva pelas entrevistas concedidas. Ao Miguel pela casa. Ao Tiago e à Marta pelas conversas iniciais. À minha família, e em especial à minha madrinha pelo apoio no percurso até aqui. À Liliana, pela paciência, pela dedicação, pelas infindáveis conversas e pelas revisões que foram fundamentais, mas em particular, por estar ao meu lado neste esforço final. A ti a quem um simples agradecimento nunca será justo. Por fim, quero deixar um especial agradecimento ao Sistema Social Português, pela oportunidade, pela garantia de igualdade e pelo seu indispensável contributo para a minha formação pessoal e académica, sem o qual este percurso nunca teria sido possível. AGRADECIMENTOS A crise económica e a consequente falta de encomenda na arquitectura, após um período de crescimento, enunciam a necessidade de uma adequação da disciplina acompanhada por uma redefinição do papel social do arquitecto. Reconhecendo esta necessidade, este trabalho apresenta práticas contemporâneas de arquitectura marcadas por um compromisso social e por abordagens não convencionais ao projecto. A partir da apresentação de uma selecção de trabalhos de arquitectos e colectivos, centrada no contexto português, expõem-se as motivações, estratégias e reflexões inerentes a uma abordagem menos convencional à prática de arquitectura. Os casos de estudo apresentados diferenciamse pela sua(s) metodologia(s) de trabalho que abrangem conceitos como a arquitectura participativa, a arquitectura de código aberto, a arquitectura não solicitada, o trabalho em rede e a acção cívica, política e social. Estes trabalhos questionam ainda os limites da disciplina através da expansão do seu campo de acção e do estabelecimento de um trabalho em rede com diferentes agentes disciplinares e com a comunidade. Não descurando as referências teóricas e os precedentes históricos necessários para enquadrar e melhor perceber os modelos de prática apresentados, é colocada a tónica nos modelos de trabalho e nas estratégias arquitectónicas implícitas com vista a encontrar caminhos práticos para a arquitectura, resgatando o papel social do arquitecto e questionando o lugar da disciplina nos dias de hoje. RESUMO Nowadays, the economic crisis and the subsequent lack of demand in the architectural field require an adjustment of the discipline as a redefinition of the social role of the architect. Recognizing this need, this paper presents contemporary practices marked by unconventional approaches followed by a social commitment. Through the presentation of a selection of works, this paper exposes the motivations, the strategies and the thoughts inherent in an unconventional approach to the practice of architecture, focused in architects and collectives working on the Portuguese context. The case studies presented are distinguished by their(s) method(s) of work covering concepts such as participation, open-source architecture, unsolicited architecture, networking and civic action. These works bring into question the limits of the discipline through the expansion of its field of action and the establishment of a networking system with different professionals. Not forgetting the theoretical references and the historical precedents needed to frame and better understand the pratices presented, this paper puts emphasis on the working models and on the architectural strategies proposed. The goal is to find possible paths for architecture in the socio-economic context in which we live, reinventing the role of the architect. ABSTRACT INTRODUÇÂO 1. CRISE: ARQUITECTURA E SOCIEDADE 1.1. Uma leitura do contexto social actual 1.2. Redução, abstracção e mediatização da arquitectura 2. ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO 2.1. Definição do conceito 2.2. Enquadramento histórico 2.3. Revisão dos conceitos para um modelo alternativo de prática 3. MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁTICA 3.1. Ateliermob 3.1.1. Processos participativos em arquitectura 3.2. Santiago Cirugeda 3.2.1. Prática de código-aberto 3.3. Atelier MOOV 3.3.1. Práctica Interdisciplinar 3.4. Arrebita!Porto 3.4.1. Um modelo de trabalho em rede 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS Referências Bibliográficas Fonte das imagens ANEXOS 11 25 27 35 49 51 53 67 75 77 83 99 105 119 125 139 143 155 177 179 187 SUMÁRIO 193 17 INTRODUÇÃO saber instrumental à mercê das flutuações do mercado; a arquitectura é uma forma de conhecimento útil nas mais variadas circunstâncias. Só que a falta de encomenda, depois de anos de excesso da mesma, deixa a profissão num impasse que a fragiliza. Será que os arquitectos só servem para desenhar edifícios ou para coordenar planos de urbanização?” Esta situação não pode ser dissociada do processo de industrialização que a sociedade ocidental atingiu e de um sistema económico baseada no crescimento infinito, que incentiva ao consumo e resulta em excedentes que, no caso do edificado, dificilmente são descartáveis, face aos profundos impactos ambientais e económicos que daí resultariam. Será assim importante referir que os modelos que se apresentarão nesta investigação procuram, não só retomar o papel social do arquitecto, mas também ampliar o seu campo de acção, procurando novos caminhos para a disciplina, que respondam à falta de encomenda. A partir de uma selecção de arquitectos e colectivos, centrada no contexto português, com referência a outros países europeus, particularmente Espanha, expõem-se as motivações, estratégias e reflexões inerentes a uma abordagem menos convencional à prática de arquitectura, procurando igualmente compreender como são postas em prática. Quem são os arquitectos socialmente empenhados? Quais são as suas preocupações? Quais são as suas formas de trabalhar e que ferramentas utilizam? Que paralelismos se podem estabelecer com outros momentos na história da arquitectura, e que conclusões se podem retirar sobre o actual estado da disciplina? Como reformular o papel do arquitecto perante o actual contexto? Estas são algumas das questões para as quais esta investigação procura resposta. Partindo das premissas acima apresentadas, expõe-se de seguida a estrutura da presente investigação. No primeiro capítulo, Crise: Sociedade e Arquitectura, é feita uma aproximação ao actual panorama social europeu e português, enunciando que se assiste a um momento de “transição”. Comparando “a sociedade de transição” identificada por Nuno Portas (1964), 19 INTRODUÇÃO com a actualidade, enuncia-se os motivos e os factores que conduzem hoje à necessidade da redefinição da arquitectura e do papel social do arquitecto, como, noutras circunstâncias tinha já sido proposto por Portas. No segundo capítulo, Arquitectura de Intervenção, é definido o conceito de arquitectura de intervenção proposto por esta investigação, expondo as diferentes abordagens ao projecto que lhe estão inerentes, como a prática participativa, prática interdisciplinar e a prática não-solicitada. A arquitectura de intervenção é apresentada como uma resposta para o momento actual caracterizado no primeiro capítulo. É ainda abordado o papel social do arquitecto ao longo da história, apresentando as referências teóricas e os precedentes históricos necessários para enquadrar e melhor perceber os modelos de prática apresentados. Por último, caracteriza-se o trabalho de uma nova geração de arquitectos que retoma alguns dos temas, correntes de pensamento e modelos de abordagem de projecto anteriormente expostos. No terceiro capítulo, Modelos Alternativos de Prática, são apresentados os trabalhos do arquitecto espanhol Santiago Cirugeda e dos colectivos portugueses Ateliermob, MOOV e Arrebita!Porto. Os casos de estudo seleccionados assumem-se, por um lado, como mote para discutir, através dos diferentes modelos de trabalho, a possibilidade de uma arquitectura de intervenção e, por outro, como modo de averiguar de que forma esses modelos são postos em prática e quais os resultados obtidos. Mais do que o resultado final de cada projecto, interessa analisar o processo. Desta forma, não se procura investigar detalhadamente cada projecto, mas antes os temas e as questões inerentes às diferentes abordagens e as suas implicações, tanto para a arquitectura, como para o arquitecto e para a sociedade. Embora muitos dos modus operandi expostos neste capítulo, e os temas que lhe estão inerentes sejam transversais aos quatro casos de estudo, a discussão e a análise que se faz, a cada um deles, centra-se nos modelos de trabalho que mais os definem. De modo a melhor compreender de que forma estes modelos têm vindo a ser postos em prática, a análise a cada caso de 21 INTRODUÇÃO estudo faz-se em torno de quatro temas específicos. O primeiro colectivo apresentado é o Ateliermob, analisando, a partir dos seus projectos, as possibilidades, os mecanismos e os problemas de uma prática de arquitectura participativa em Portugal. Tendo em conta o contexto espanhol, próximo geográfica, social e economicamente ao português, a partir do trabalho de Santiago Cirugeda explora-se a prática de arquitectura de código-aberto e a forma como as plataformas online e as tecnologias de informação têm, não só auxiliado este modelo de prática, mas também contribuído para estabelecer uma rede com o objectivo de divulgar e estimular o desenvolvimento de práticas semelhantes. O trabalho de Santiago Cirugeda e a prática de arquitectura de códigoaberto, entendida como uma derivação da arquitectura participativa, são aqui analisados pela pertinência dos temas que levanta e por se constituírem como uma referência para muitos dos colectivos portugueses com trabalhos neste âmbito. Com o trabalho do atelier MOOV é analisada uma prática de arquitectura que expande os limites da disciplina ao aproximar-se das artes plásticas e performativas, resultando essencialmente de uma prática interdisciplinar e da integração de saberes de outras disciplinas na abordagem ao projecto de arquitectura. Por fim é apresentado o projecto Arrebita!Porto com o objectivo de discutir as possibilidades de um trabalho em rede na arquitectura com vista à realização de um projecto social. Através da sua análise visualizam-se diversas possibilidades de acção, contrariando a ideia de que a arquitectura é dispensável ou vê a sua acção limitada em tempos de crise. Interessa ainda referir que estes não são os únicos temas que se poderiam explorar em cada um dos casos apresentados mas são aqueles que mais interessaram a esta investigação de forma a reunir os instrumentos necessários para que a arquitectura possa não só encontrar uma alternativa, mas também dar resposta para alguns dos problemas de hoje. 23 INTRODUÇÃO Partilhando as mesmas premissas e uma identidade comum, a articulação experimental que cada um faz destes modelos de prática, origina processos e projectos muito diversos. A identidade que caracteriza a variedade deste conjunto de trabalhos está no facto de estarem a ser desenvolvidos, com maior relevância, por um conjunto de arquitectos mais jovens como forma de contornar o constrangimento económico, na aproximação às questões sociais, no envolvimento do utilizador no processo de projecto e construção e na integração de saberes de outras disciplinas. Uma identidade que está também no seu carácter crítico e na reflexão que os trabalhos propõem. “Se por um lado devemos exigir a renovação da cultura institucional, por outro lado também existem soluções e tácticas de projecto capazes de responder com singeleza e eficácia às condições de escassez com que somos confrontados. No plano de uma prática convencional do projecto, esta adequação é cada vez mais urgente, sobretudo quando o confronto com uma realidade construtiva cruel e com recursos limitados já tornou perceptível que os esforços de desenho e de exuberância formal ou tecnológica estão condenados ao fracasso.” (Jornal Arquitectos, 2013, Editorial) Há a ideia de que uma nova maneira de encarar a prática de arquitectura emerge. Este é também um tempo de oportunidades para uma revisão dos modelos, para uma procura de soluções, para a experimentação. CRISE: SOCIEDADE E ARQUITECTURA “As crises, devem ser, como defende Richard Florida o “Grande Reset” que promove novas formas de viver e trabalhar para impulsionar a prosperidade de novas cidades, devendo ser o ponto de inflexão para o surgimento de novas ideias e novas pautas tanto para o desenvolvimento urbano como para a regeneração do que já existe.” Marian Leboreiro 4. Cámbielo Todo Publicidade da Caixa Catalunya 33 CRISE: SOCIEDADE E ARQUITECTURA que José Saramago metaforicamente também assinalou nas suas obras Ensaio sobre a Lucidez e Ensaio sobre a Cegueira. Neste contexto, e face à actual crise, a família, a unidade fundamental da sociedade, tem estado sujeita a novas dinâmicas impulsionadas pelo aumento do desemprego jovem, o envelhecimento da população, acompanhado com uma baixa taxa de natalidade. Por um lado, verifica-se uma diminuição do número de casamentos, um aumento do número de divórcios e uma diminuição da taxa de natalidade que veio reduzir o tamanho das famílias. Por outro lado, devido a vários factores como as uniões entre pessoas do mesmo sexo, o aumento da mobilidade e a incerteza do posto de trabalho, cada vez mais amigos, colegas de trabalho, ou mesmo desconhecidos, por questões práticas e económicas partilham o mesmo espaço, o que contribui para um aumento da diversidade e da complexidade estrutural familiar. As famílias são hoje multigeracionais com o aumento da esperança média de vida e a emancipação tardia dos filhos. Uma nova realidade tecnológica veio, também, alterar a forma como o indivíduo se relaciona com o espaço. Facilitado pela Internet, que torna possível um trabalho e um convívio virtual em qualquer lugar, hoje, com um computador e uma ligação à rede, facilmente se acede a outras partes do mundo, possibilitando, por exemplo, exercer uma profissão a partir de casa. Este acesso facilitado às redes de comunicação e aos programas de mobilidade possibilita, ainda, a troca de ideias e o intercâmbio de culturas, o que resulta numa cultura global, numa partilha da informação e do conhecimento. Tudo isto acontece num mundo cada vez mais globalizado, com uma maior interdependência das nações e um aumento de trocas de bens e serviços. A comida, a roupa, o trabalho, a informação, quase todos os aspectos da vida do quotidiano têm alguma componente global. A globalização acentua estas diferenças nas dinâmicas sociais e a nova imigração que se está a generalizar, feita por jovens, é mais um factor a contribuir para a diversidade dos núcleos familiares. novas dinâmicas familiares globalização 5. Temos de parar de construir de forma desmedida e insustentável 35 CRISE: SOCIEDADE E ARQUITECTURA Porém, segundo Luís Santiago Baptista (em Arqa, 2009, p.6-7), talvez mais do que a globalização e o acesso facilitado à informação ou à tecnologia, a “realidade comunicativa” ou a “realidade mediática”, é a velocidade e a escala a que tudo isto acontece que constitui a novidade e que conduziu a uma alteração nas estruturas produtivas, sociais, económicas. As distâncias são cada vez mais curtas e os ritmos cada vez mais acelerados, com os acontecimentos, as transformações sociais e económicas a ocorrerem cada vez mais rapidamente. A sociedade contemporânea é, assim, palco de rápidas transformações, resultado, não só dos avanços nos domínios da ciência e da tecnologia, mas também de uma alteração nos valores e nas normas em que se baseiam as relações sociais e o comportamento humano. Isto influi, necessariamente, sobre os programas arquitectónicos, que estão sujeitos a novas e múltiplas dinâmicas, alterando a forma como o indivíduo percepciona o tempo e o espaço. Assim, tendo em conta estas mudanças na sociedade, parece ser essencial uma pausa para repensar o papel do arquitecto. Mas estarão os arquitectos conscientes disso? “Saberiam os arquitectos que sentido imprimir às suas arquitecturas ou, por outras palavras, como tecer nos seus projectos o melhor serviço possível à sociedade e à cultura, se as condições locais de progresso permitissem empregar a fundo as virtualidades que seria legítimo esperar da sua intervenção?” (Portas, 1964, p.V) 1.2. Redução, abstracção e mediatização da arquitectura Franco La Cecla (2011), antropólogo, descreve, embora com algum pessimismo, na sua obra Contra a Arquitectura, o estado da disciplina. Para este autor, a arquitectura parece ter-se afastado da sua essência, de uma prática de consciência e responsabilidade social, procurando transmitir uma ideia de prosperidade baseada em grandes soluções tecnológicas, com elevados custos e um enorme consumo de recursos, servindo essencialmente, o poder económico mundial e o poder político. A construção pouco planeada, 6. Crisis? What Crisis? Supertramp 37 CRISE: SOCIEDADE E ARQUITECTURA caracterizada pela especulação, com o preço da habitação convertida em mercadoria e investimento, a que as cidades assistiram, “a ascensão da arquitectura como instrumento de puro marketing” (La Cecla, 2011, p.19), são alguns dos sintomas deste modelo de sociedade, assegurado por um consumo, promovido pela imagem, que o autor identifica. Luís Tavares Pereira (em Arqa, 2009, p.38) acrescenta outros, como a ascensão do arquitecto a figura mediática, a desregulação do ensino da arquitectura e um mercado de trabalho saturado, como reflexo da promoção de uma sociedade de consumo. “Com maior rigor eu diria talvez que mais do que se pôr em abstracto o problema da responsabilidade social do arquitecto, hoje se põe em concreto, o problema da (ir)responsabilidade social dos arquitectos.” (Almeida, em Filgueiras, 1985, p.3) Ilustro esta afirmação de Pedro Vieira de Almeida com a imagem da capa do álbum Crisis? What crisis? da banda britânica Supertramp, para descrever a separação, simplificação e abstracção da realidade em que vive parte da arquitectura que se faz actualmente. Perante as diferentes dificuldades com que se depara hoje a sociedade ocidental, a arquitectura vai-se afirmando através de exercícios formais, estilos e tendências. Na verdade, os arquitectos já foram socialmente motivados, particularmente nas décadas que se seguiram à Primeira e à Segunda Guerras Mundiais, com a reconstrução da Europa e com a preocupação em responder às necessidades de habitação para as massas, através dos diversos programas de habitação social que se espalharam por todo o continente europeu. Foi um tempo de compromisso social, no qual a arquitectura desenrolou um papel activo e privilegiado, de exploração de ideias e mudança de paradigmas. Também as décadas de sessenta e setenta, como se expõe no segundo capítulo, estiveram marcadas por um renovado compromisso social e pela introdução de princípios metodológicos e científicos, próprios das ciências sociais, na concepção da arquitectura. Em Portugal, nestas décadas, Nuno Portas, como já foi referido, e Octávio Lixa Filgueiras são dois dos arquitectos que 7. Burj Khalifa, Dubai O edifício mais alto do mundo 39 CRISE: SOCIEDADE E ARQUITECTURA desenvolveram estudos sobre o papel social da arquitectura. No entanto, até o final do século XX a disciplina foi-se esvaziando desse seu carácter. Segundo Lisbet Harboe (2012, p.15), autora da tese de doutoramento Social Concerns in Contemporary Architecture, as preocupações dos arquitectos nas décadas de oitenta e noventa centraram-se sobretudo no aperfeiçoamento da forma e na exploração dos sentidos na arquitectura. A arquitectura foi-se promovendo através da imagem e, nas publicações da especialidade, revistas, blogues, websites, esvaziou-se de qualquer conteúdo humano. Prevaleceram as formas e as superfícies na procura pela imagem perfeita. Para Andres Lepik (2010, p.12), curador da exposição Small Scale, Big Change: New Architectures of Social Engagement1 e autor do livro com o mesmo nome, este facto não pode ser dissociado da rápida proliferação da arquitectura de “alta qualidade” nas economias emergentes, em cidades como o Dubai e com a ascensão do arquitecto a figura mediática. “A retina é o posto de venda: ver é comprar. No moderno capitalismo de casino a cidadania é um cartão de crédito, a democracia um jogo de sorte.” (Sorkin, Cit. por La Cecla, 2011, p.39) Para Franco La Cecla (2011, p. 31-32) os arquitectos mediáticos são artistas ao serviço do capital, e as suas intervenções encenações, pensadas como se fossem grandes cartazes publicitários. Com a arquitectura transformada em moda, numa marca ou numa assinatura, as cidades competem entre si para atrair investimento capaz de gerar um maior fluxo de turismo. A arquitectura é vista como uma marca de diferenciação, um símbolo de modernidade, e o edifício ou uma intervenção no espaço público de um “arquitecto-estrela” é quase sempre o investimento que se procura. “Mas mais grave, no entanto, do que o escape da mortificação crítica, é a tentação constante da desistência a que essa mesma conjuntura sujeita os melhores: quando as contradições são tão fortes que a sensação de inutilidade 1. A exposição Small Scale, Big Change: New Architectures of Social Engagement esteve patente no MoMA entre 3 de Outrubro de 2010 e 3 de Janeiro de 2011 mediatização 8. Heydar Aliyev Center Zaha Hadid 41 CRISE: SOCIEDADE E ARQUITECTURA da arquitectura, o quase-dever de a pôr entre parêntesis, ganham irrecusável evidência.” (Portas, 1964, p. VIII) Contudo, e perante as diversas disciplinas, os interesses, as entidades, os regulamentos e as dinâmicas envolvidas na prática da arquitectura, parece haver pouca margem para a actuação do arquitecto. Enquanto agente social, o trabalho do arquitecto parece ser praticamente inútil, com o seu papel reservado a um simples prestador de serviços. Luís Santiago Baptista (em Arqa, 2009, p.8) lembra, ainda, que o grande número de arquitectos, a falta de concursos públicos e o cada vez menor número de encomendas inviabilizam uma arquitectura que antes se praticava, essencialmente, através da encomenda pública. “O experimentado arquitecto-autor, que se movimenta no sector da encomenda pública, vê-se hoje obrigado a responder a encomendas lançadas por agentes económicos que lideram a promoção imobiliária. A prática de autor começa a integrar um sistema de economia de mercado e estabelece-se o diálogo e a negociação com a encomenda privada interessada no lucro, no aspecto comercial e no potencial da arquitectura, enquanto símbolo de ascensão de estatuto social e económico.” (Melaneo, em Arqa, 2009, p.24) Um outro problema, identificado por Paula Melaneo, é a generalização do trabalho dos arquitectos em contextos que lhes são completamente estranhos, muitas vezes através de concursos internacionais. O tempo investido nestes projectos é normalmente insuficiente para uma aproximação à realidade local, impossibilitando uma aproximação entre o arquitecto que projecta e o indivíduo que o vai usar, valorizando o formalismo e a imagem para que o projecto sobressaia entre os muitos candidatos. Deste modo, os arquitectos deixam de se ocupar em procurar dar resposta ao seu contexto particular que conhecem melhor, deixando-o à acção arbitrária de olhos que lhe são estranhos. Finalmente, “um grave problema educacional prevalece, uma vez que os arquitectos, geralmente, parecem pouco aprender com os seus próprios ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO “A arquitectura é o desejo de uma época traduzida em espaço” Mies Van der Rohe 51 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO 2.1. Definição do conceito Após expostos, no primeiro capítulo, os fundamentos que justificam a necessidade de uma arquitectura mais interventiva socialmente, definemse neste capítulo os conceitos e os temas que lhe estão subjacentes. Nesta investigação entende-se como arquitectura de intervenção uma prática que procura soluções não convencionais para a problemática social e urbana, questionando o papel do arquitecto na sociedade contemporânea. Deste modo, o arquitecto não se foca apenas num grupo de clientes, aqueles que são capazes de pagar por um serviço de arquitectura, actuando sobretudo em contextos marcados por problemas sociais e económicos. A arquitectura de intervenção não se centra somente na forma e no desenho ou em conceitos abstractos, mas organiza-se através de padrões sociais. Uma arquitectura atenta à realidade social, cultural, económica e política do contexto onde actua, não só procurando melhorar o ambiente construído mas também a situação social das pessoas que nele habitam. Esta dimensão social da arquitectura implica, quase sempre, modelos alternativos de trabalho, fazendo-se acompanhar pela expansão do seu campo de acção, a partir das diferentes relações que se estabelecem com outras disciplinas. Está, desta forma, marcada por um trabalho em rede, com a conceito 12. Te kogo ia nikogda ne videl Vladimir Mayakovsky 13. Plakat mayakowski gross Vladimir Mayakovsky 53 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO comunidade e com diferentes agentes disciplinares, baseando-se num sistema de código-aberto e promovendo a participação dos usuários ou, mesmo, a autoconstrução. Esta prática engloba várias metodologias de trabalho e abrange diversos conceitos, entre os quais, a arquitectura participativa, a arquitectura de código aberto, arquitectura não solicitada, o trabalho em rede e a acção cívica, política e social. 2.2. Enquadramento histórico A arquitectura assenta no princípio de proporcionar espaços para o Homem viver, consolidando a relação entre este e o seu ambiente físico, de forma a melhorar as suas condições de vida. Assim, sempre foi um dos seus objectivos constituir-se como ferramenta para responder a alguns dos problemas que afectam a sociedade, relacionados com a organização do espaço. Na arquitectura, o debate em torno destas questões teve particular relevância em finais do século XIX e em momentos particulares do século XX, como resultado de fortes transformações sociais, iniciadas por novas correntes de pensamento ou fruto de novas circunstâncias sociais, económicas ou políticas. Os novos pensamentos e movimentos que surgiram no século XIX, como as teorias de orientação socialista e as vanguardas artísticas, abriram o debate sobre a sociedade industrial. Além das novas possibilidades tecnológicas, do progresso científico e de uma modificação nos métodos de produção, o século XIX trouxe consigo uma transformação na forma e nas condições de viver. A polarização dos centros urbanos e o seu rápido crescimento conduziu a condições precárias de vida que vieram sublinhar o problema da habitação e acelerar a necessidade de um planeamento urbano mais inclusivo. O surgimento das vanguardas artísticas, marcado pela busca de novas formas de expressão, pelo progresso e pela humanização da sociedade industrial, integrando a arte e a tecnologia no mundo construído, foi relevante para definir o ideal do arquitecto do século XX. As vanguardas, como o o papel social do arquitecto Vanguardas Europeias 14. The New Man (Neuer) El Lissitzky 55 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO Cubismo, o Futurismo, o Construtivismo, De Stijl, entre outros, marcados por um forte pensamento ideológico e político, manifestavam a vontade de definir novos códigos temáticos e expressivos, bem como novos valores sociais. Ideias que resultaram de uma forte actividade intelectual de reflexão sobre os problemas da sociedade e da cidade industrial. Estes movimentos chamaram a atenção para as desigualdades sociais e os consequentes problemas urbanos, vistos como o resultado de uma estrutura social e económica que concentrava a riqueza numa pequena parte da população. Com a convicção de que a arquitectura devia atingir o maior número de indivíduos possível, e não apenas a elite favorecida, ambicionavase que os arquitectos fossem capazes de assumir um papel de transformação da sociedade. Estes movimentos foram possíveis porque se inseriam no contexto político de transformação social do comunismo e da social-democracia, em países como a Rússia, Alemanha, França e Holanda Inspirado pelas teorias socialistas e pela revolução russa de 1917, o Construtivismo definiu uma nova relação entre a sociedade, o artista e a sua obra. De acordo com Christina Lodder (1988, p1-2), os princípios básicos do Construtivismo, reconheciam que os conceitos convencionais da arte e do artista, que os punha em prática, impossibilitavam o vínculo entre a arte e a vida. Pretendendo estabelecer esse vínculo, este movimento incentivava o artista a entrar na fábrica, reconhecendo-a como capaz de fazer avançar o mundo. Segundo o lema de El Lissitzky: “uma arte construtiva que não decora, mas organiza a vida” (Cit. por Abrantes, 2013, p.27), a produção em massa e a indústria era usada como resposta para uma fusão entre a vida e a arte, ideia mais tarde abraçada pela Bauhaus. O Construtivismo estabeleceu-se como impulsor para que fosse dado o salto para uma cultura humana e universal, que constituiria uma nova ordem política, assente num compromisso social, industrial e ideológico. Segundo Josep Maria Montaner (2001, p.7), o que estava a ser 15. Reunião dos CIAM em Otterlo, 1959 57 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO procurado desde de meados do século XIX, “uma nova arquitectura para uma nova sociedade”, viria a ser alcançado com plenitude no Movimento Moderno. Rompendo com as formas anteriores de arte, que considerava estarem ultrapassadas, o Movimento Moderno estabeleceu uma crítica à sociedade, que considerava imoral, corrupta e centrada na aparência. Os arquitectos do Movimento Moderno, influenciados pelos desenvolvimentos da indústria, a tecnologia, o rápido crescimento das cidades e a Primeira Guerra Mundial, estabeleceram um intenso debate sobre as artes e a sociedade, através dos seus trabalhos, da troca de ideias e de uma abertura ao mundo. Embora tenha sido enunciada nas vanguardas artísticas que lhe sucederam, foi no Movimento Moderno que a questão do papel social da arquitectura foi amplamente colocada. “O novo cliente, poderoso, anónimo, dos arquitectos-percursores foi, junto com as fábricas industriais, a massa enorme dos novos habitantes da cidade, foi a multidão agitada que tinha criado as metrópoles. O surgimento da arquitectura moderna identifica-se com a pressão e com a consciência do problema urbanístico. O arquitecto moderno, por ser arquitecto-engenheiro, é arquitecto urbanista, o seu cliente não é só aquele só aquele que quer construir um palácio ou uma villa, e muito menos o mecenas ou o ditador que deseja abrir uma avenida monumental, senão a massa inteira de cidadãos tida em toda a sua complexidade social e psicológica.” (Zevi, Cit. por Filgueiras, 1985, p.92) Arquitectos que viviam e trabalhavam em diferentes contextos começaram a reunir-se para debater ideias e discutir um caminho para a arquitectura. À medida que se ia definindo o Estilo Internacional, esta atitude progressista e de reformulação social foi ganhando forma. Surgiram os CIAM (Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna) e com eles a vontade de usar a arquitectura como veículo para uma mudança, para a melhoria de vida das pessoas, para as tornar modernas. Contudo, considera Montaner (2001, p.7-8), o Movimento Moderno tendeu para a abstracção, ao tentar estruturar a sociedade segundo novos Movimento Moderno 18. Spacebuster Raumlabor 65 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO influenciando outros grupos e arquitectos, que surgiram posteriormente, um pouco por todo o mundo. Posteriormente, nas décadas de oitenta e noventa do século XX, segundo Lisbet Harboe (2012, p.15), as motivações dos arquitectos centraramse sobretudo na procura pelo aperfeiçoamento das formas, pela tectónica e pela exploração dos sentidos. José Capela (2007, p.9) considera mesmo, que a partir da década de setenta, nem no contexto internacional nem no contexto nacional, as questões do domínio social na arquitectura tiveram particular relevância, se não em contextos de extrema pobreza ou em situações de emergência em países em desenvolvimento. O debate em torno das questões sociais e políticas na arquitectura ressurgiria, então, nos anos noventa do século XX, motivado pelo um novo conjunto de trabalhos de jovens estudantes e arquitectos. Entre estes, no panorama europeu, Lisbet Harboe (2012, p.15), destaca, a dupla francesa Lacaton e Vassal, o grupo italiano Stalker, o arquitecto espanhol Santiago Cirugeda, o colectivo alemão Raumlabor, entre outros. Estes arquitectos focavam-se em temas, espaços e grupos de pessoas que não eram normalmente servidos pela prática de arquitectura. Alguns destes trabalhos, que surgiam à margem da tendência geral da época, começaram, inclusive, a expressar-se em projectos cuja iniciativa partiu dos arquitectos, sistematizando-se o conceito de arquitectura não solicitada. O conceito de arquitectura não solicitada foi originalmente explorado por Ole Bouman no estúdio Unsolicited Architecture do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde foi professor, e numa série de artigos, mais tarde compilados na revista Volume (2007). Bouman define uma arquitectura não solicitada como uma prática activa, de procura e pesquisa, transgressora, que se constitui como uma alternativa. Activa, de procura e pesquisa porque propõe que seja o arquitecto a identificar os problemas, a levantar as questões, a propor uma solução, a traçar um plano, a definir um orçamento e a procurar um cliente, ao invés de esperar pela solicitação de um cliente, com lugar, prática não solicitada 19. Trienal de Arquitectura de Lisboa 2013 67 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO programa e orçamento definidos. Transgressora, porque não cumpre pelo menos um dos quatro princípios, que o autor considera serem os “pilares tradicionais” da arquitectura - o programa, o cliente, o lugar, o orçamento. Nesse sentido, pressupõe a rejeição, a reinterpretação, a recontextualização e a reclamação. (Bouman, em Volume, 2007) 2.3. Revisão dos conceitos para um modelo alternativo de prática “O papel do arquitecto deste princípio do século parece querer reaproximar-se ao do princípio do século XX, onde outra mudança de paradigma o lançou à procura de uma nova identidade da sociedade, imprimindo à arquitectura um papel interventivo, pró-activo e visionário relativamente ao desenvolvimento humano.” (Bonaccorso, em Arqa, 2009, p.44) Actualmente assiste-se a um renovado interesse social na arquitectura, através de um crescente número de projectos, eventos, publicações e exibições que se tem desenrolado ao redor do tema, entre os quais a Trienal de Arquitectura de Lisboa de 2013, com o nome de Close, Closer. Incentivando à reflexão e à crítica, Close, Closer questionou as diversas abordagens ao projecto de arquitectura na actualidade e as condições em que estas se processam. Centrou o debate em trabalhos que se distinguem do convencional, apresentando uma leitura alternativa para a prática de arquitectura contemporânea, focada mais nos usos/vivências/modos de vida que caracterizam cada espaço e menos nos edifícios. Este evento levantou importantes discussões sobre a disciplina na actualidade, enunciando alternativas para a arquitectura contemporânea. No entanto, algumas considerações se podem tecer relativamente ao alcance, ao sucesso, à organização e à comunicação da Trienal de 2013, tendo sido, no seu balanço, alvo de diversas críticas. Segundo Inês Moreira (2014), um evento cultural de arquitectura deve ser capaz de levantar problemáticas culturais e sociais, o que implica considerar a arquitectura para lá do objecto, encarando-a como uma “proposta 20. Exposição Metaflux 9ª Bienal de Arquitectura de Veneza, 2004 69 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO social, política e económica”. Desta forma é necessário um trabalho preciso sobre as diversas problemáticas e temáticas da arquitectura contemporânea, bem como uma análise cuidada sobre os factores que condicionam a prática profissional. Embora este tenha sido o objectivo declarado da Trienal de 2013, Inês Moreira, na sua crítica, deixa implícito que o contributo da Trienal de 2013, enquanto evento cultural, para a problematização da arquitectura e da sociedade é questionável.4 Contudo, ficou claro que uma nova tendência emerge, particularmente entre os arquitectos mais jovens, marcada por uma diversidade de abordagens à prática de arquitectura e um investimento em campos não convencionais, à margem da disciplina. Tendência que, no panorama português, indica uma ruptura mais acentuada entre o trabalho de uma nova geração e o das anteriores, assinalada pela revista Arqa, nos seus três números dedicados à Geração Z. A exposição Metaflux de Pedro Gadanho e Luís Tavares Pereira, realizada para a 9ª edição da Bienal de Arquitectura de Veneza em 2004 introduziu o tema das gerações na arquitectura portuguesa. A exposição abordou o processo de transformação que se tem verificado na prática disciplinar, revelando os factores, influências e referências que estão na base das mudanças que ocorrem na arquitectura portuguesa mais recente. Também a revista italiana Domus, no artigo Portugal: micro-scale interventions, onde constam os trabalhos de alguns dos casos de estudo apresentados no terceiro capítulo, retractou esta mudança de panorama dos ateliers em Portugal. 4. Considerando a Trienal de Arquitectura de Lisboa de 2013 como uma exposição de trabalhos, de “experiências” e processos, envolvendo áreas disciplinares desde a sociologia às artes que omitiu os objectos construídos, poder-se-á colocar a questão: o que caracteriza a prática disciplinar de arquitectura que a Trienal expôs? Segundo Jorge Figueira (2013) o que caracterizou esta Trienal foi a própria negação da arquitectura. Embora encontrando fundamentos para um desvio disciplinar, Jorge Figueira (2013), considera que este evento se fez à margem da arquitectura, tendo inclusive enveredado por uma luta de gerações. Nuno Grande (em Arqa, 2013, p.27) fala, inclusive, num “insucesso crítico e mediático” ao referir-se à Trienal de Arquitectura de Lisboa de 2013, 21. Pavilhão Russo na Bienal de Arquitectura de Veneza de 2012 71 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO Ao abordar o tema da questão geracional na arquitectura portuguesa, Luís Santiago Baptista (em Arqa, 2009, p.7), afirma que os jovens arquitectos portugueses “assumem um posicionamento mais contaminante e híbrido, adoptando estratégias criativas mais eficazes e expeditas” acrescentando que esta atitude se reflecte “nas mudanças nos modos de estruturação dos ateliers, quase todos adoptando a forma de colectivo, e no desenvolvimento de colaborações, que atravessam múltiplos interesses e campos disciplinares.” Para Luís Santiago Baptista (em Arqa, 2009, p.6), as práticas emergentes podem ser entendidas como sintomas de uma transformação na sociedade, de uma realidade dinâmica e em mudança. Nesse sentido, considera, o autor, os novos modelos de prática, não são a causa em si da mudança, senão a resposta a uma mudança nas actividades sociais, impulsionadas pelas novas ferramentas tecnológicas, pela globalização e por uma nova realidade económica. Também em Espanha, Jorge García de la Cámara (2010), director do BIArch (Barcelona Institute of Architecture), assinalou esta tendência. Ao escrever sobre uma nova geração de arquitectos espanhóis, este autor considera que uma das suas características é a forma como se posicionam perante outros profissionais e as demais disciplinas. Para García de la Cámara, estes arquitectos, quer seja, motivados por um compromisso social ou pelas dificuldades profissionais impostas por uma nova realidade económica, situam a sua prática nas fronteiras da disciplina. Através de uma arquitectura interdisciplinar, estabelecem ligações com outros profissionais e integram nos seus trabalhos conteúdos de áreas como a sociologia, antropologia, arte, design, entre outras, de forma a procurar ampliar e redefinir os limites da sua acção. “Esta tendência por projectos de curto prazo, muito controlados na sua execução, ligeiros, fugazes, onde se busca a cumplicidade do utilizador através das relações que estes propiciam, a participação na construção de bens colectivos e o humor frequente, poderia entender-se como uma reacção crítica à realidade que tem determinado boa parte da produção arquitectónica destes últimos anos.” 73 ARQUITECTURA DE INTERVENÇÃO (Cámara, 2010) Uma tendência que se repete noutros países europeus, mesmo em diferentes contextos económicos. Também em 2010 o RIBA (Royal Institute of British Architects, 2010, p.38-39) apresentou o relatório The Future for Architects referindo que uma prática de arquitectura mais dinâmica e criativa, integrando competências e saberes de outras áreas profissionais é a solução encontrada pelos estudantes e recém-formados em arquitectura, insatisfeitos com as suas perspectivas de trabalho e com a falta de práticas atractivas na disciplina. Em perspectiva, a crise do Movimento Moderno trouxe para o debate arquitectónico temas que até então tinham sido menosprezados. Começou a ser procurada uma arquitectura mais próxima do utilizador, mais participativa, não só incluindo-o no processo de concepção, como motivando processos de autogestão da cidade. A arquitectura voltou-se outra vez para as massas, agora com uma pluralidade de discurso, própria do reconhecimento da diversidade cultural da sociedade. Estes pensamentos procuraram uma arquitectura mais democrática, reflectindo sobre o papel social da arquitectura e do arquitecto. Hoje a arte deixou de ser apenas representação para ser também espaço vivido e a arquitectura pode apropriar-se dela para acentuar o seu carácter crítico e o seu impacto. Também, ao estabelecer pontes com os outros saberes e disciplinas, a arquitectura pode, como foi afirmado pela história, apresentar soluções mais adequadas ao contexto social, político e cultural. Assim, este percurso pela história lembra a importância das ideias e dos conceitos que estão agora a ser reciclados para responder ao contexto actual. Lembrando Mies Van der Rohe, “a arquitectura é o desejo de uma época traduzida em espaço” sublinha-se a necessidade de adaptar estes conceitos à realidade vigente, quando se começa a assistir a uma proliferação de práticas de arquitectura, exposições e debates, com um renovado interesse social. 23. Prodac Norte Fotografia da assembleia de moradores com o Ateliermob 81 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA Neste contexto, o objectivo do Ateliermob foi legalizar as casas, num trabalho de proximidade com a Associação de Residentes e o Município, levantando e identificando os potenciais riscos e partilhando o seu conhecimento com os moradores. O financiamento foi conseguido através de uma candidatura ao programa público BIP-ZIP7. A parceria com a Câmara Municipal de Lisboa foi determinante porque possibilitou ainda contornar a lei portuguesa para acelerar um processo de legalização que, de outra forma, seria mais demorado e com mais custos.8 Ainda que no início a aproximação à comunidade tenha sido dificultada pelo facto de esta não ter sido a primeira tentativa de legalização das habitações, cedo se criou uma relação forte entre os arquitectos e os habitantes, através do diálogo, do empenho e da clareza com que a equipa explicou o processo que pretendia começar. Este processo participativo resultou também num fortalecimento dos laços entre as pessoas da comunidade, ao manifestarem a vontade de melhorar as condições físicas do bairro. Daí resultou a criação de uma assembleia de representantes para analisar os problemas existentes ao nível do espaço público, definindo um plano e candidatando-se a um novo programa de financiamento. A possibilidade do arquitecto, enquanto detentor de conhecimentos, capazes de afectar a sociedade, de os disponibilizar, contornando as tradicionais vias de uma prática arquitectónica, é uma das vantagens do processo participativo. Ao fornecer ferramentas aos moradores para que o projecto não acabe quando o atelier abandona o local, estimula o investimento individual e a auto-iniciativa. 7. O BIP-ZIP (Bairros de Intervenção Prioritária / Zonas de Intervenção Prioritária) é um programa de financiamento da Câmara Municipal de Lisboa, que na sua primeira edição em 2010, financiava, num total de 1 milhão de euros, projectos que visassem a recuperação de áreas urbanas assinaladas como prioritárias pelo município. 8. Este projecto lembra que as parcerias com as instituições públicas são fundamentais, uma vez que no contexto português, como reflexo do estado social, as entidades públicas continuam a ser as maiores responsáveis pelas grandes reformas urbanas e sociais. Os programas de revitalização urbana dos centros históricos, os projectos de reabilitação dos bairros sociais, a recuperação de infra-estruturas urbanas são quase exclusivamente promovidos e desenvolvidos pelas entidades estatais. 24. Arquitectura espontânea, Marrocos Exposição Architecture Without Architects, Bernard Rudofsky 83 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA 3.1.1. Processos participativos em arquitectura “(…) os arquitectos precisam de aceitar alterações nos métodos e valores da prática e, em particular, encarar as questões que a participação levanta não como uma ameaça, mas como uma oportunidade, conduzindo a uma forma de arquitectura que amplia as possibilidades. Isto é conseguido aceitando – ou, esperemos, acolhendo – os aspectos políticos do espaço, os caprichos dos usuários, os diferentes modos de comunicação e de representação, ampliando a definição do conhecimento arquitectónico e aceitando a inevitável contingência da prática.” (Till, em Jones, Petrescu e Till, 2005, p.39) A participação em arquitectura visa a inclusão do utilizador nos processos de decisão e concepção, desenho e construção. Mais do que a liberdade criativa do arquitecto, a força motriz do projecto é a vontade do utilizador. Intrínsecas a este modelo de trabalho estão duas ideias fundamentais. Primeiro, a ideia de que a participação dos destinatários da arquitectura permite mais facilmente à disciplina tomar-se, não apenas como uma resposta às encomendas do poder, mas como um meio de intervenção social. Segundo, a vontade de substituir os mecanismos de decisão, tendencialmente autocráticos, por um modelo mais democrático, facilitando uma comunicação ascendente entre a população e os decisores. Um dos momentos que marcou e que ajudou a difundir este pensamento na arquitectura foi a exposição, comissariada por Bernard Rudofsky e inaugurada pelo MoMA, em Novembro de 1964, Architecture Without Architects, a Short Introduction to Non-Pedigreed Architecture. Contrariamente a uma prática de autoria, artística e financeira, a exposição mostrava exemplos de arquitectura vernacular desenvolvida em diferentes culturas pelas comunidades. Segundo Bandeirinha (2007, p.29), a exposição de Rudofsky ajudou a caracterizar uma nova época e assinalar o declínio de outra. Da exposição emergiram conceitos que consideravam a obra arquitectónica como um feito colectivo. origens da prática participativa 25. Housing by People John Turner 85 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA “A ideia de uma participação mais activa dos destinatários da Arquitectura surgia, pela via das ciências sociais, como uma forma de conferir maior base de credibilidade à disciplina, alargando a sua capacidade de interferência social, tradicionalmente limitada ao papel de resposta às encomendas do poder.” (Bandeirinha, 2007, p.30) Numa altura em que intensificava a crítica ao Movimento Moderno, a participação surgia em conjunto com outras ideias, como a humanização da arquitectura e a integração de outros saberes na disciplina. Estas ideias estabeleciam-se como a resposta a uma cada vez mais latente passividade da arquitectura perante os problemas sociais de então, e um afastamento em relação ao que deveria ser a sua preocupação central: os seus destinatários. Entre as propostas abstractas do Movimento Moderno e os interesses especulativos em torno da habitação, a arquitectura esquecia-se da sua dimensão social. Entre os autores que promoveram esta prática destacam-se, o italiano Giancarlo De Carlo e o britânico John F. C. Turner. Para Giancarlo De Carlo, um dos pioneiros a promover processos participativos em arquitectura, os modelos e esquemas propostos pelo Movimento Moderno eram demasiado abstractos, não reflectindo a complexidade e diversidade cultural da sociedade de então. Como alternativa propunha a participação dos utilizadores no processo de desenho e construção, cabendo ao arquitecto a responsabilidade de ajudar a configurar uma habitação de acordo com a forma de vida, memórias e aspirações de cada utilizador, bem como mediar as vontades destes com as da administração pública. Giancarlo De Carlo concebeu, assim, o processo participativo de acordo com três fases: identificação das necessidades dos habitantes; formulação de uma ou várias hipóteses a serem discutidas com os habitantes; análise dos usos e avaliação dos resultados. Para De Carlo estas não eram fases distintas e independentes, sendo a presença do utilizador indispensável em todas as 26. Villaggio Matteoti De Carlo: exposições, reuniões e entrevistas com os moradores 27. Prodac Norte Ateliermob: reuniões e entrevistas com os moradores 87 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA etapas do processo para o sucesso do projecto.9 Postura semelhante foi adoptada pelo Ateliermob no Prodac Norte, lembrando o processo utilizado por De Carlo no bairro operário Villaggio Matteotti (1970-1975) em Terni, onde também o primeiro passo foi a realização de uma assembleia de moradores. De Carlo pretendia perceber as necessidades reais dos moradores tanto ao nível do espaço público como ao nível da habitação. Giancarlo De Carlo propôs várias soluções para serem apresentadas aos habitantes, em conjunto outros projectos residenciais de outros países, com vista a gerar novas ideias e alargar a discussão. A apresentação de outros projectos era considerada por De Carlo fundamental no processo participativo, vista pelo arquitecto como uma oportunidade de educação e desenvolvimento cultural da comunidade. A participação, foi considerada por De Carlo como o espaço de reflexão, sendo da responsabilidade do arquitecto revelar, através do diálogo e dos meios de representação (desenhos, maquetes, fotografias etc.), as memórias e sonhos que podem ter em comum os habitantes de uma comunidade. Neste caso os arquitectos antes de projectar o espaço, programam o método participativo, ou seja, organizam a informação, a forma como intervêm os participantes e a ordem pela qual se realizarão as actividades. A partir da ideia de uma prática participativa, alguns arquitectos começaram, inclusive, a promover e a prestar assistência em processos de autoconstrução, como John Turner. Este autor defendia que a habitação é melhor concebida e gerida por aqueles que a utilizarão, sendo que, dessa forma, a estes deveria ser dada a responsabilidade de organizar e gerir os seus 9. Giancarlo De Carlo, enumerando os passos que envolvem a maioria da produção arquitectónica, concluiu que o único papel que o utilizador desempenha na arquitectura é o de usar a estrutura. A definição da função, a localização, o financiamento, a manutenção, a reutilização/reciclagem, demolição e substituição são da responsabilidade do proprietário. O arquitecto é responsável pela definição da organização espacial, pelo desenho da forma e da estrutura e pela supervisão da construção. Ao usuário cabe fazer uso da estrutura. Para De Carlo, entre as três fases que constituíam o processo de arquitectura, a “definição do problema”, a “elaboração da solução” e a “avaliação dos resultados”, havia uma cada vez maior separação. (Hatch, 1984, p.3-4) autoconstrução 28. Construir juntos Guimaraes 2012, CuratorsLab 89 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA espaços. (Turner, 1991) Apesar destes processos de autoconstrução terem sido realizados maioritariamente em países subdesenvolvidos, particularmente na América Latina, onde Turner trabalhou entre meados dos anos cinquenta e meados dos anos sessenta, assiste-se actualmente à proliferação de experiências idênticas em diferentes contextos, nomeadamente em países europeus. Talvez o apelo que Turner fez, ao assinalar a necessidade dos países desenvolvidos aprenderem com as experiências daqueles, então, considerados subdesenvolvidos, esteja hoje a ser respondido. Na aldeia Cova do Vapor, em Portugal, foi realizada recentemente uma experiência de autoconstrução pelo colectivo de arquitectos franceses Exyzt. Este é um atelier sediado em Paris que conta com o contributo de uma série de profissionais desde arquitectos, a construtores, cozinheiros, jardineiros, fotógrafos e outros, desenvolvendo situações, acções e instalações em meios urbanos. Os Exyzt desenvolvem um trabalho de pesquisa a partir de situações e práticas experimentais, construindo os seus próprios projectos, a partir de uma rede alargada de colaboradores e sempre com um carácter temporário. O seu projecto em Portugal, na aldeia Cova do Vapor, surgiu da vontade de reutilizar o material utilizado num outro projecto do grupo, desenvolvido no âmbito de Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012. O projecto consistiu na construção de um centro cultural temporário, Casa do Vapor, elaborado em conjunto com o colectivo ConstructLab, com a comunidade local e ainda com voluntários de outras partes do país, combinando esforços, ideias e competências de diferentes áreas. O programa albergava uma residência para artistas, uma biblioteca, uma cozinha comunitária, uma escola de surf e um espaço para workshops, bem como espaços exteriores para usos múltiplos. Este era, no entanto, um programa aberto às propostas dos moradores e, à medida que o projecto foi evoluindo, outros espaços foram tomando forma, como um skatepark e uma oficina de bicicletas. A Cova do Vapor, aldeia com cerca de 200 habitantes, é caracterizada por Exyzt Casa do Vapor 32. Moradores e profissionais na Casa do Vapor Cova do Vapor 97 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA “Por isso, todas as barreiras entre os construtores e os utilizadores devem ser abolidas, para que a construção e utilização se tornem duas partes diferentes do mesmo processo de planeamento. Portanto, a agressividade intrínseca da arquitectura e a passividade forçada do utilizador devem-se dissolver numa condição de equivalência criativa e de decisão onde cada – com impacto diferente – é arquitecto, e cada evento arquitectónico – independentemente de quem o concebe e o desenvolve – é considerado arquitectura.” (De Carlo, em Jones, Petrescu e Till, 2005, p.11) 99 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA 3.2. Santiago Cirugeda “Desde o início da sua carreira Santiago Cirugeda tem concebido as suas acções e propostas como ensaios realistas, empíricos e divulgadores que, à margem das suas conquistas, podem proporcionar um conhecimento que pode ser usufruído por todos.” (Benitez, em Cirugeda e outros, 2010, p.24) No contexto de uma nova geração de arquitectos espanhóis que procuram, soluções para as carências que encontram na sociedade, Santiago Cirugeda destaca-se pelo carácter crítico e arrojado dos seus trabalhos.12 A partir da observação e da análise da cidade e da sua envolvente social, Santiago Cirugeda propõe um modelo alternativo para a forma como é feito o planeamento urbano. Em 2003 fundou o atelier Recetas Urbanas onde desenvolve estratégias de ocupação urbana, cujo denominador comum é o uso de procedimentos arquitectónicos com vista a rentabilizar espaços desaproveitados em favor 12. Em 2010 a revista 2G publicou uma edição “2GDossier. Jóvenes Arquitectos Españoles” expondo o trabalho que estes arquitectos têm desenvolvido, as suas ideias e motivações. Também em 2010, o jornal espanhol EL PAÍS publicou o artigo “Arquitectos com nuevas respuestas” onde são exploradas as motivações, ideias e características desta geração. Além de Santiago Cirugeda, são apresentados Adriana Cantis (FreshMadrid), Andrés Jaque, José Selgas e Lucía Cano, Enrique Krahe, Eva Morales, Rubén Alonso e David Cañavate (La Panadería), Victoria Garriga e Toño Foraster (AV62 arquitectos). Recetas Urbanas 33. Contenedores de espacio publico Santiago Cirugeda, Recetas Urbanas 101 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA da comunidade. Baseado em pressupostos como a reutilização, economia de meios e em serviços autogeridos pelos cidadãos, o atelier Recetas Urbanas tem vindo a conceber pequenas intervenções e a fornecer serviços de assessoria e aconselhamento para que o cidadão possa intervir no seu ambiente construído. O trabalho de Cirugeda não incide maioritariamente sobre a prática de projecto na sua forma convencional, mas antes sobre a definição de estratégias de acção, que, quase nunca, constituem uma solução definitiva ou única e cujo objectivo principal é gerar o debate público. Neste sentido, e tendo em conta, o carácter temporário e de intervenção cívica dos seus trabalhos, mais do que intervenções arquitectónicas, estes podem ser entendidos como “acções” ou “receitas” para a apropriação de espaços desocupados, instalação e transformação de estruturas temporárias em espaços a serem habitados. Em 1997, após identificar um problema de falta de parques infantis no centro histórico de Sevilha, e perante a imobilidade de município que não atendia às reivindicações da comunidade, Cirugeda desenvolveu o projecto Contenedores de espacio público. A sua estratégia consistiu na solicitação de uma autorização para a instalação de um contentor na via pública, com o pretexto de o utilizar para o depósito de escombros de uma pequena obra, transformando-o, posteriormente, em espaço de recreio. O contentor esteve instalado em vários locais, durante o Verão de 1997, tendo sido usado de forma activa pelos membros da comunidade como espaço de recreio, como palco para representação teatral e dança. Por último, serviu como lugar de reflexão sobre o espaço público, ao acolher uma exposição onde se apresentaram outras possibilidades para o seu uso, como pequenos jardins, através da plantação de árvores e pequenos arbustos, ou até uma pequena piscina. No projecto Hacia una arquitectura dinámica y ligera, a estratégia adoptada por Cirugeda passou por “vandalizar” um edifício, escrevendo na fachada a sigla “S. C.” com o objectivo de pedir uma licença para a instalação de um andaime na via pública de forma a poder pintar a fachada. Depois prática 34. Hacia una arquitectura dinámica y ligera 35. Andaime instalado por Santiago Cirugeda Rua Divina Pastora, Sevilha 103 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA de autorizado e instalado o andaime, Cirugeda fechou a parte superior do mesmo com perfis metálicos e placas de PVC. O andaime foi usado como espaço de refúgio, configurando uma habitação mínima durante o período de três meses concedido pela licença. Como afirma Santiago Cirugeda esta acção pode ser vista como uma possibilidade de ampliação de uma habitação no centro histórico, que estaria de acordo com as normas de construção neste contexto.13 Ambas as intervenções surgem da vontade de dinamizar e adaptar a cidade histórica às necessidades actuais dos seus cidadãos. Ao referir-se à cidade de Bath, como a cidade “preservada”, Kevin Lynch (1975, p.13-14) escreveu: “para os turistas ou profissionais que a visitam, é um cenário magnifico, mas a cidade, como palco, carece de profundidade histórica e presença viva que devem ser sentidas numa urbe activa e completa.” As acções de Cirugeda questionam se, ao restringir consideravelmente a actuação que se pode exercer sobre o património, não se estarão a transformar as cidades, em museus e cenários magníficos que não se adequam às necessidades reais dos seus cidadãos. Em ambos os projectos, a intervenção do arquitecto foi mínima, no entanto capaz de gerar um considerável impacto sobre a comunidade. A pequena intervenção toma-se como uma forma de regeneração urbana, enunciando que a revitalização de uma determinada área da cidade, nem sempre necessita de grandes planos e intervenções que quase sempre implicariam grandes custos. Além disso, mostra como pequenas estruturas podem ser adaptadas para desempenhar outros usos para os quais não foram pensadas. Subvertendo as normas para resolver um problema e expor o seu ponto de vista, a lei, que à partida seria um impedimento para intervir, foi contornada de forma a desacreditar o argumento utilizado pelo município, demonstrando que a cidade beneficiaria pela introdução destas estruturas. 13. Os andaimes, como estruturas baratas, flexíveis e ligeiras, poderiam constituir-se como uma solução para um crescimento urbano feito pelos cidadãos, e compatível com as exigências impostas pela preservação do património. (Cirugeda, 2007) 36. “En construcción!” Plataforma online Recetas Urbanas 105 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA Um dos traços mais característicos do trabalho de Cirugeda, é, assim, a sua estreita relação entre a legalidade e a ilegalidade, na procura por vazios legais e situações ambíguas na lei, que aproveita a seu favor e da comunidade. Além de procurar responder aos problemas que encontra na cidade, os seus trabalhos constituem-se como crítica ao actual estado da disciplina, procurando reavivar o envolvimento social e político da arquitectura, reafirmando a sua relevância. “As genealogias, então, serão diferentes, feitas não de corporativismo senão de interdisciplinaridade, porque além de essa disposição em concentrarse em questões como a optimização e a adequação - aspectos que podemos encontrar noutras práticas arquitectónicas - o que destaca o trabalho de Cirugeda é a existência de uma dimensão crítica. Uma dimensão critica que realça as implicações da especulação sobre o solo e a casa.” (Torres, em Cirugeda e outros, 2010, p.16) A dimensão crítica, que David Torres (em Cirugeda e outros, 2010) assinala, não reside apenas no campo teórico, uma vez que Cirugeda, através de acções práticas de subversão de normas e leis que regulam a planificação urbana, tem activamente contribuído para o debate sobre a cidadania, a economia, a política e a ideologia na arquitectura. Verifica-se ainda um distanciamento da arquitectura da necessidade imperativa de ser objecto construído. “Num contexto de mobilidade de referências, perante a cada vez maior intangibilidade da grande encomenda, perante a própria crise de permanência dos valores, a arquitectura deixa de estar necessariamente subjugada à ideia do objecto construído. Como consequência desta condição, as ideias e táctitas arquitectónicas também se expressam através de objectos temporários ou acções efémeras.” (Gadanho, em Arqa, 2009, p.30) 3.2.1. Prática de código-aberto Cirugeda disponibiliza gratuitamente informação detalhada sobre os subversão da lei 40. Projecto Obus para Argel Le Corbusier 113 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA Tafuri (1985, p.90) afirmou ainda que esta liberdade concedida ao público não pode ser considerada senão como forma de explicar aos “participantes” o seu “mau gosto”, assumindo-se a arquitectura “como acto pedagógico e instrumento de integração colectiva.” Entendendo a prática de Santiago Cirugeda como um convite à intervenção activa do cidadão, o papel do arquitecto passa não só por gerir os instrumentos técnicos e humanos, percebendo, através das suas competências, que opiniões são válidas e a que vontades atender mas, simultaneamente, o de educar o cidadão. Neste sentido, é indispensável um conhecimento abrangente, não só do ambiente físico, mas também do contexto social sobre o qual se intervém. “Na actualidade os cidadãos não estão habituados a participar activamente na construção do contexto onde vivem. Seria necessário idealizar novas estratégias para motivá-los a tomar iniciativas independentemente da administração.” (Cirugeda, 2007, p.28) Ao analisar os factores que conduziram ao fracasso do projecto de Le Corbusier para Argel, Tafuri (1985, p.91) aponta que a indefinição das suas propostas não se enquadrava com as mentalidades que pretendia despertar.17 A questão que se coloca então é a de saber se as pessoas realmente respondem a este tipo de estímulos e se não se trata esta prática, de um “modelo de laboratório” sem a possibilidade de ser posto em prática. Nos projectos de Cirugeda, um dos principais objectivos, que seria o de motivar os cidadãos a repetirem as suas acções, não se verificou, quer tenha sido pelo medo de subverter as normas ou de se envolverem num processo demasiado complexo. Partindo desta lógica de disponibilização dos projectos aos cidadãos que queiram intervir na cidade, o atelier Recetas Urbanas tem vindo a construir colectivamente com outros ateliers de arquitectura, associações e 17. Sobre o trabalho de Corbusier, Tafuri escreveu ainda: “Ele «inventa» a sua encomenda, generaliza-a, está disposto a pagar pessoalmente o seu papel activo. Isto faz com que todos os seus modelos assumam as características de experiências laboratoriais: e não se dá a um modelo de laboratório qualquer possibilidade de traduzir-se tout-court na realidade. (..) O carácter genérico das hipóteses esbarra contra as estruturas retrógradas que pretende estimular.” (Tafuri, 1985, p.91) plataformas online 41. Colonización esqueleto para residencia-taller Todo por la praxis inserido no projecto “Increasis” 115 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA outros profissionais, a plataforma Arquitecturas Colectivas. Esta plataforma é, assim, destinada à troca de informações, estabelecimento de protocolos e promoção de encontros entre todos aqueles que queiram intervir sobre o seu ambiente físico18. São neste momento 91 colectivos associados a esta rede de trabalho e partilha, entre os quais o grupo Todo por la Praxis. Partilhando características com o trabalho de Santiago Cirugeda, Todo por la Praxis promove acções de subversão, insubordinação e ocupação espontânea do espaço público, na procura por modelos alternativos de organização e gestão da cidade, contrários aos modelos que promovem a especulação, a gentrification e a segregação ou controlo social. Através do seu projecto Increasis19, apresentado em Junho de 2013, propõe-se divulgar online estratégias de activação e revitalização de estruturas que se encontram desocupadas, seguindo a lógica de reabitação do património imobiliário inacabado ou sem uso.20 Nesse sentido, Increasis assume-se como uma base de dados online onde será disponibilizada informação sobre as fases do processo de construção, e os requerimentos legais necessários para essa ocupação. Esta prática de partilha de conhecimento e experiências entre colectivos e outros profissionais, vai além de uma arquitectura de código-aberto, ao estabelecer uma rede de contactos entre colectivos partilhando informação entre eles e com o público com o objectivo de promover o seu trabalho e difundir um modelo de acção que tem questionado a maneira como se trabalha em Espanha. Ao incorporar as potencialidades das novas tecnologias de comunicação no seu trabalho ampliam a sua eficácia, admitindo que não podem chegar a todo o lado e que uma atitude de promoção e troca de ideias 18. Disponível em: http://arquitecturascolectivas.net 19. Increasis está disponível na Internet: http://increasis.org/ 20. Em Portugal, José Aguiar assumiu esta crítica no seu artigo para o I Congresso da Ordem dos Arquitectos, em 2000, considerando que, face ao excesso de construção, a cidade do futuro já existe hoje. José Aguiar assinala que as actuais oportunidades para os arquitectos estão na rentabilização do património construído. (Aguiar, 2000) 42. Hacia una arquitectura dinámica y ligera Santiago Cirugeda, Recetas Urbanas 117 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA levará a um sucesso mais alargado.21 A humanização da arquitectura e a integração do indivíduo no processo de concepção e construção a partir de modelos de participação, autoconstrução e autogestão, bem como a promoção de uma arquitectura de código-aberto são temas transversais ao trabalho de Santiago Cirugeda e de outros colectivos que recorrem a estas plataformas de partilha de informação. Neste sentido, como afirmou S. Giendion (Cit. por Filgueiras, 1985, p.93): “a arquitectura deixou de ser já um monopólio de especialistas agnósticos e negociantes que construíam tudo quanto os seus clientes desejavam. Abandonou a sua indiferença; adquiriu o valor necessário para enfrentar decisivamente a vida, contribuindo para a moldar.” 21. O projecto FreshMadrid é um outro exemplo de uma publicação na Internet que surgiu em 2006 com a vontade de divulgar e promover o trabalho destes jovens arquitectos, particularmente de ateliers de Madrid. Adriana Cantis, comissária FreshMadrid, em entrevista à revista Arqa, explica que o projecto surgiu depois de ter sido detectado, entre os finais dos anos 90 e princípios dos anos 2000, na Escola Superior Técnica de Arquitectura de Madrid, um novo posicionamento do arquitecto perante o projecto, acompanhado por uma expansão dos limites do discurso da disciplina. Contrapondo-se com as plataformas tradicionais da especialidade, FreshMadrid pretende, simultaneamente, estimular e apoiar a produção de novos projectos e difundir os trabalhos que evidenciem a transformação e evolução que ocorre na arquitectura, dando lugar para o protagonismo dos jovens arquitectos. Desde 2006 a 2009, anualmente, e em 2012, FreshMadrid organizou exposições de trabalhos de alguns ateliers de Madrid e ibero-americanos e debates sobre os novos paradigmas da arquitectura actual. 119 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA 3.3. Atelier MOOV “Os arquitectos não são os únicos que enfrentam os problemas de hoje e devem misturar-se da maneira mais simples com os outros especialistas empenhados no apetrechamento do cenário construído: técnicos de todos os sectores, administradores, juristas, etc. Para esse encontro devem levar, não uma mensagem superior, mas uma liberdade de abordagem para criar as modificações necessárias às pessoas, para fazer com que as opções colectivas aconteçam numa base suficientemente ampla.” (Benevolo, 1998, p.115) O atelier MOOV, composto pelos arquitectos António Louro, José Niza e João Calhau, define-se como um estúdio de arte e arquitectura que opera nos limites da disciplina.22 Os MOOV identificam o seu processo de trabalho como adisciplinar, uma abordagem ao projecto que permite uma contaminação dos processos de trabalho e das ideias, cruzando diferentes modos de pensar e actuar ao recorrer a ferramentas próprias de outras disciplinas. Indo ao encontro das palavras de Leonardo Benevolo, António Louro (em entrevista ao autor, 2013) define esta prática como “um conjunto 22. Disponível na Internet: http://www.moov.pt/ prática 43. Seta Amarela Fotografias da instalação/performance no Festival Lugar à Dança’06, Lisboa 121 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA de pessoas que têm uma formação qualquer mas que estão todos em pé de igualdade e, idealmente, todos a pensar num campo disciplinar que não é o seu”. Contrariamente à ideia de abstracção, o seu trabalho surge de uma mistura, atitude que António Louro compara ao conceito musical do remix. Recorrendo a instrumentos e metodologias que, tradicionalmente, não estão associados à prática de arquitectura, os trabalhos do atelier MOOV procuram, também, constituir-se como uma crítica à disciplina. Exemplos destes trabalhos, que assinalam uma mudança na abordagem à disciplina, bem como a expansão dos seus limites, são os projectos Seta Amarela e SWARS. O projecto Seta Amarela surge como resposta a um concurso para um festival de artes performativas em Lisboa, que apelava aos artistas a intervirem no espaço público. A partir de uma reflexão sobre o significado e forma de ocupação dos dispositivos urbanos contemporâneos, o projecto consistia em seis setas espalhadas pelo espaço público, expostas em diferentes sítios e dispostas de diferentes formas. A ideia era intervir no espaço público com um número reduzido de objectos, deixando que a imaginação das pessoas possibilitasse estas diferentes apropriações. Estas intervenções efémeras, que situam entre a intervenção arquitectónica e as artes visuais e performativas, têm o potencial de, ao possibilitar diferentes usos, atribuir múltiplos significados a um espaço. Como consequência, como refere José Capela (2007), o uso sobrepõe-se à função prevista para determinado espaço. “O uso, tal como se sobrepõe à lógica funcional que pode ter determinado ou caracterizado os espaços, sobrepõe-se também ao seu simbolismo social – facto evidente nas deliberadas subversões de uso promovidas sob a designação de ‘détournement. Neste sentido, caberá à boa arquitectura potenciar o uso, mais do que determinar formas.” (Capela, 2007, p.7) O projecto SWARS, realizado em conjunto com o estúdio Dass, integrou a exposição Arquitecturas Digitais da primeira edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Partindo de uma selecção de edifícios mediáticos de 46. Urban Re-Identification Grid ALison e Peter Smithson 129 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA complexa, capaz de responder a mudança e ao crescimento e capaz de se revitalizar socialmente. Através da célebre Urban ReIdentification Grid analisaram os elementos de transição entre os espaços, os actos quotidianos levados a cabo pelos habitantes e a relação entre a cultura dos vários lugares, recorrendo a associações sócio-espaciais entre a casa, a rua, o bairro e a cidade. A arquitectura procurou, assim, uma prática interdisciplinar aliandose a outras disciplinas, não só no campo artístico como também no campo das ciências sociais, como a sociologia e a antropologia, incorporando métodos científicos, como a investigação sociológica e modelos matemáticos, para ser capaz de responder aos problemas da época. Os eventos, as situações e os acontecimentos que resultam deste reposicionamento são marcados por uma certa irreverência, não só pelo facto de se assumirem como uma alternativa de abordagem ao projecto em relação a um modelo de trabalho mais convencional, que só por si seria um sinal de ousadia, mas também porque estes trabalhos são quase sempre acompanhados por um forte discurso crítico. Grupos como o The Independent Group e os Archigram em Inglaterra, os Metabolistas no Japão, ao estabeleceram novas formas de expressão e linguagem, romperam com os modelos vigentes, questionando a ordem dos sistemas estabelecidos. Os seus trabalhos, marcados por um carácter experimental, e por vezes utópico, além de contribuírem para a reflexão e o debate em torno de questões que inquietavam a sociedade de então, reposicionavam a prática arquitectónica como um meio para a crítica. Com as suas propostas visionárias, os Archigram sublinhavam a necessidade de transformar a maneira de pensar a disciplina para que esta pudesse traduzir as mudanças que a sociedade impunha. O limite disciplinar, marcado pela experimentação, pode ser então considerado como um lugar intermédio entre dois territórios, desencadeando novas linguagens e modos de expressão. Embora este não seja um fenómeno 47. Walking City Archigram 48. Plug-in City Archigram 131 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA novo, um novo conjunto de tecnologias e uma nova realidade económica têm-no potenciado, abrindo caminho a diferentes modos de projectar o espaço e fazer arquitectura. Características de uma prática que se define na ambiguidade entre a arte e a arquitectura, exprimindo uma ideia, uma crítica ou uma ideologia. José Capela (2007, p.14), ao se indagar sobre a utilidade da arquitectura, põe a possibilidade de esta não se destinar a servir, mas antes à acção crítica. Lembrando o texto Interventions in the Relations of Production, or Sublimation of Contradictions? On Commitment Then and Now de Hilde Heynen e as referências que este autor faz a Theodor Adorno e Walter Benjamin, José Capela (2007, p.15) considera que fazer arquitectura com a única intenção de passar uma mensagem, seria “prescindir de fazer projectos para serem construídos (o que seria criar modelos) ou de enunciar uma ética (o que seria entrar no âmbito racional) para, em vez disso promover uma acção crítica ficcional.” Pondo em causa esta forma de fazer arquitectura, Capela (2007, p.17) vê a possibilidade de conjugar a acção crítica com um projecto de arquitectura, quando conciliadas “uma operatividade vocacionada para o questionamento do programa disciplinar – com um sentido político que assim não se refugia exactamente na política – e, por outro, o processo criativo, definidor da condição artística da arquitectura.” “A minha resposta parcial, muito parcial, enquanto um educador de arquitectos é (re)politizar a arquitectura e aceitar a sua fragilidade diante das forças contingentes.” (Till, Cit. por Harboe, 2012, p.11) Quando Jeremy Till escreve sobre a necessidade de (re)politizar a arquitectura refere-se à necessidade de recuperar a carga ideológica que a caracterizou nas épocas passadas. De acordo com esta ideia, assim como uma política define orientações e acções a serem tomadas segundo determinada ideologia, também a arquitectura o pode fazer, definindo os princípios, objectivos e ideias que lhe sirvam de guia. arquitectura como acção crítica 49. Project for a Painted Wall Projecto de Jason Crum na exposição do MoMA “9+1 Ways of Being Political” 133 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA Entre Setembro de 2012 e Junho de 2013 esteve patente no MoMA a exibição 9+1 Ways of Being Political: 50 Years of Political Stances in Architecture and Urban Design comissariada por Pedro Gadanho. Através de um olhar histórico, a exposição investiga as diferentes esferas de acção política que foram ocupadas pela arquitectura desde meados do século XX até à actualidade. Integrado na exposição estava o projecto IKEA Disobedients do arquitecto espanhol Andrés Jaque.24 Este arquitecto defende que as imagens e o slogan que a marca de mobiliário IKEA utiliza para caracterizar o ambiente doméstico não reflectem a heterogeneidade da sociedade actual: “tudo o que a IKEA fabrica é com o objectivo de transformar a esfera doméstica numa vida feliz, ensolarada, num espaço despolitizado, habitado por pessoas jovens, contentes e saudáveis.”25 Questionando os modelos familiares e os espaços domésticos que a marca sueca promove, o arquitecto espanhol concebeu uma instalação/ performance, a partir de um conjunto de móveis IKEA, dispostos no espaço, não seguindo as instruções de instalação fornecidas pela empresa. Neste espaço, um grupo de actores representou várias ambiências domésticas atípicas, reflexo de um estudo realizado durante quatro meses na cidade de Nova Iorque. Ao visitante é, ainda, dada a possibilidade de interagir com a obra, alterando-a pouco a pouco. Esta peça é um exemplo de uma nova forma de desenvolver a prática arquitectónica, neste caso, através de acções performativas de envolvimento do público com a arquitectura de uma maneira não-tradicional. Neste caso a arquitectura não se trata de construir um edifício, mas antes representar as diversas situações que nele se geram e questionar, assim, a forma estandardizada como se constrói. 24. IKEA Disobedients foi pela primeira vez apresentado em Madrid em Novembro de 2011, integrado na exposição Performance y Arquitectura comissariada por Ariadna Cantis. 25. Disponível na Internet: http://www.andresjaque.net/cargadorproyectos.php?variable=38# Andrés Jaque IKEA Disobedients 50. IKEA Disobedients Andrés Jaque 135 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA Estes trabalhos, ao situarem a prática da arquitectura entre a crítica, a acção política e a arte, ou mesmo ao aproximar-se das ciências sociais, questionam os limites da disciplina. Segundo Bernard Tschumi (1994a, p.102103) a acção da arquitectura começa e acaba na resposta a uma necessidade. Porém, este autor considera ainda, que a arquitectura, acima de tudo, é uma forma de saber e, enquanto tal, não se limita à produção de objectos com relação directa com a utilidade. “É evidente, a partir de episódios isolados – frequentemente postos de lado no passado - que a natureza da arquitectura não se encontra sempre em edifícios. Eventos, desenhos e textos expandem os limites das construções socialmente justificáveis.” (Tschumi, 1994a, p.112) Tschumi (1994a, p.102-103) afirma ainda que, perante a tentadora vontade de centrar a crítica de arquitectura em questões formais, funcionais e racionais, são os trabalhos situados na fronteira da disciplina, que podem, mais do que os edifícios construídos, dar uma indicação sobre o estado da disciplina e que têm o poder de fazer avançar o pensamento arquitectónico. Este encontro de diferentes disciplinas fomenta a evolução dos procedimentos, das formas, dos formatos e das representações do pensamento arquitectónico. À medida que se incrementam conhecimentos e metodologias de outras disciplinas na prática de arquitectura, assiste-se a uma reinvenção, reformulação e inovação das ordens e dos padrões estabelecidos. Neste sentido, os trabalhos aqui expostos são importantes não apenas pelo resultado final mas mais pelo processo e intenções que os motivaram, isto porque, uma vez expostos, revelam possibilidades que a obra arquitectónica em si mesma não poderia transmitir. “Aqueles que dizem que a arquitectura se torna impura se tiver de pedir argumentos emprestados a outras disciplinas, não só esquecem as inevitáveis interferências da cultura, da economia e da política, como subestimam a própria capacidade da arquitectura de estimular o desenvolvimento da cultura limites disciplinares 137 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA contribuindo para a sua polémica. Enquanto prática e enquanto teoria, a arquitectura deve importar e exportar.” (Tschumi, Cit. por Capela, 2007, p.12) 53. Primeira intervenção Arebita!Porto. Primeiros trabalhos no edifício da rua da Reboleira, 42, Porto 145 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA profissionais, com a criação de um banco de conhecimento, de experiências, de recursos e práticas de colaboração, tanto na concepção como na execução de projectos. É esta rede de relações que permite encontrar soluções e viabilizar este modelo de intervenção. Na medida em que supõe que todos os parceiros trabalhem em cooperação, permite que a informação e as ideias sejam partilhadas promovendo, desta forma, a formação de uma cultura de participação, de colaboração e de responsabilidade. É neste sentido que o trabalho em rede permite, não só, que o objectivo do projecto seja alcançado, mas também, beneficiar os parceiros que o apoiam, aumentando assim o seu impacto. Inerente a esta organização em rede, está também a ideia da arquitectura como espaço de encontro de outras áreas, na promoção de uma prática interdisciplinar. O projecto Arrebita!Porto reforça a ideia, exposta nas outras partes deste capítulo, que para resolver um problema social é necessário não só o empenho de diversos indivíduos e entidades, como também de diversas disciplinas. A sua mais valia está em conseguir agregar os diferentes parceiros em torno de um objectivo e dessa forma criar um modelo de trabalho, que pode ser encarado como forma de aproximar as empresas, as universidades, as entidades públicas, permitindo com limitados recursos económicos, responder a um problema. Neste sentido pode conduzir ao debate sobre uma acção interdisciplinar com vista a melhorar a qualidade dos espaços marginalizados das cidades, debate que esteve muito presente nos anos sessenta e setenta do século XX mas com pouco reflexo nos exercícios práticos de arquitectura. “Como é possível relacionar a multiplicidade dos aspectos do espaço examinados dentro das várias disciplinas, perspectivas e metodologias: ‘espaço arquitectónico’, ‘espaço gestual’, ‘espaço de habitantes’, ‘espaço vivido’?” (Stanek, 2011, p.137) Entre 1960 e 1970 esta questão trazia para o debate uma maior preocupação com as diferenças sociais e culturais dentro do espaço urbano. 54. La Production de l’espace Henri Lefebvre 147 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA Uma preocupação que enunciou que os problemas sociais da cidade não ficavam resolvidos somente através de uma resposta programática e funcional. Assim, as preocupações sociais e culturais não deveriam terminar quando começava o projecto de arquitectura, sendo necessário uma reunião de esforços e um diálogo maior entre os diversos agentes. Em França, na segunda metade do século XX, este debate em torno desta questão ganhou um maior destaque através do trabalho de um conjunto de sociólogos. “Não se limitando a discussões teóricas, a questão sobre a unidade e a multiplicidade de espaço chegou ao centro dos debates franceses sobre arquitectura e urbanismo no final da década de 1960 e o início da década de 1970. O que à primeira vista parecia estar muito longe de preocupações práticas, eventualmente, resumia-se a uma pergunta sobre a possibilidade de uma cooperação interdisciplinar entre os arquitectos, urbanistas, geógrafos e sociólogos nas áreas da educação, pesquisa e design. O conceito de espaço - espaço urbano, o espaço social, ou espaço ‘tout court’ - desenvolvido desde 1950 pelo Chombart, Ledrut e Lefebvre, foi investido com a capacidade de se tornar um ponto de encontro entre estas disciplinas.” (Stanek, 2011, p.136-137) Henri Lefebvre contribuiu para a investigação sobre a produção do espaço através da execução de estudos e da organização de seminários onde reuniu profissionais do campo das ciências sociais, bem como arquitectos e urbanistas, promovendo a constituição de equipas interdisciplinares para execução de projectos. As teorias de Lefebvre, expostas na sua obra La Production de l’espace de 1974, estão hoje na base de teorias de pensamento urbano que anunciam alternativas para a organização da cidade. Lefebvre propunha que se encarasse a arquitectura como um estímulo para a produção de relações sociais, opondo-se à instrumentalização da disciplina como consequência do capitalismo. Desse modo, propunha a interacção do arquitecto com outros agentes profissionais, acreditando que, desta forma, a arquitectura poderia não só dar resposta às necessidades funcionais mas também contribuir na prática para o debate social, cultural e 55. Free Park-in OUA. Possibilidade de divisão do parque 149 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA político. Ao promover este diálogo entre os vários agentes profissionais, o projecto Arrebita!Porto, pode ser analisado dentro de uma esfera de acção interdisciplinar. Este projecto questiona a maneira o posicionamento da disciplina, explorando os seus limites de actuação. Ao abstrair-se do formalismo e da forma tradicional de projectar, o arquitecto assume uma abordagem mais operativa, prática, e contundente com a condição económica vigente. Ao actuar mesmo quando não solicitada, a arquitectura toma-se como um agente activo na requalificação urbana e social. Como forma de mitigar o problema dos sem-abrigo e de rentabilizar as estruturas que têm um funcionamento parcial, um modelo (de troca de serviços) idêntico foi proposto pelo atelier OUA (Office for Unsolicited Architecture) no seu projecto Free Park-In. OUA propõe a instalação de estruturas ligeiras em parques de estacionamento cobertos, habitualmente desocupados durante a noite, para que estas acolham os sem-abrigo da cidade. A partilha de espaço supõe que os programas não se sobrepõem, uma vez que durante o dia estas estruturas são removidas para que o parque possa servir a sua função.28 Como faz em todos os projectos que desenvolve, OUA propõe uma estratégia de financiamento para viabilizar a proposta. Neste caso, para suportar os custos que estas estruturas teriam, cada residente concordaria em prestar serviço durante o dia nos parques, estacionando, lavando carros e prestando apoio noutras tarefas. Desta forma, os parques poderiam cobrar taxas adicionais por estes serviços de forma a financiar o projecto. Esta pode ser também considerada uma forma de conceder uma ocupação para os semabrigo durante o dia, ao inseri-los na dinâmica da sociedade, potenciando a diminuição da exclusão social. 28. Ao final do dia, quando o parque se esvazia, as estruturas são transportadas por um caminhão que contém todo o equipamento necessário para a montagem das “habitações” que estão já delimitadas no chão. Ao sem-abrigo são providenciadas desde estruturas de suporte para as “tendas”, a casas-de- -banho, comida e algum mobiliário de apoio. OUA Free Park-In 56. San Pedro Apóstol Open Architecture Network 151 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA Da mesma forma que o projecto Arrebita!Porto, a mais-valia do Free Park-In não está no objecto em si, mas antes no modelo que sugere. Esta troca de valor baseada numa rede de parcerias é, segundo José Paixão (em entrevista ao autor, 2013), o grande potencial do Arrebita!Porto. Este, aliás, é um modelo de trabalho que as organizações não-governamentais têm vindo a desenvolver com sucesso. Pode-se referir, a título de exemplo, o caso da organização Architecture for Humanity e o seu projecto Worldchanging/Open Architecture Network. Este projecto nasce da vontade de criar oportunidades para os arquitectos ajudarem as comunidades em crise. Desta forma foi criada uma plataforma online que oferece aos arquitectos, designers, construtores, utilizadores, a possibilidade de partilhar ideias e projectos de arquitectura num sistema de partilha livre e gratuita. Worldchanging é dedicado a projectos que tenham como objectivo melhorar as condições de vida da população e do ambiente construído. Através desta partilha de ideias, planos e desenhos, pretendem-se divulgar os projectos e estimular o debate e a colaboração em rede para a resolução de diferentes desafios entre pessoas das mais diversas áreas, desde arquitectos, engenheiros, políticos, membros da comunidade, organizações sem fins lucrativos, entre outros. “Afinal, se estamos a responder de forma significativa os desafios da construção de um futuro sustentável, precisaremos de (muita) ajuda de pessoas de todas as esferas.”29 Em última análise, a mais valia de projectos como o Arrebita!Porto, é a forma pragmática como se propõem soluções para a resolução de problemas específicos, neste caso, a degradação dos centros urbanos. Tomando uma atitude diferente de Santiago Cirugeda, este projecto enquadra-se no sistema para nele encontrar os meios para a sua viabilização. Todavia, até que ponto 29. Disponível na Internet: http://openarchitecturenetwork.org/about 57. Trabalhos de reabilitação Arrebita!Porto 153 MODELOS ALTERNATIVOS DE PRÁCTICA se pode tomar este modelo como uma fórmula a generalizar? O sucesso do Arrebita!Porto resulta da sua singularidade e carácter inovador. A solução para a arquitectura não parece ser a generalização deste modelo, isto porque, à semelhança dos exemplos anteriormente expostos, a sua relevância está também na sua diferenciação. No entanto, não deixa de ser ainda necessário, que mais iniciativas destas surjam para que o debate possa continuar e a arquitectura resgate, de novo, o seu papel social.