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Algumas notas sobre o «amor», o «desengano» e o «artifício» nas Obras Métricas (1665) de D. Francisco Manuel de Melo

Santos, Zulmira

Abstract

Este artigo estuda, no contexto das «Obras métricas» (1665) de D. Francisco Manuel de Melo, o «engenho» exibido como a novidade das «invenções» e o efeito de maravilha sobre o leitor, quase privilégios aristocráticos de um grupo que, na afirmação dos ideais de corte, identifica a superioridade intelectual e cultural da consciência literária com a hegemonia social e o nascimento.

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Francisco Manuel de Melo Autor(es): Santos, Zulmira Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra; Ediciones Universidad URL persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/31525 DOI: DOI:http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0245-5_14 Accessed : 13-Aug-2015 08:44:24 digitalis.uc.pt pombalina.uc.pt 2 Edição Imprensa da Universidade de Coimbra Ediciones Universidad Salamanca CoordEnação Editorial Imprensa da Universidade de Coimbra URL: http://www.uc.pt/imprensa_uc Vendas online: http://www.livrariadaimprensa.com ConCEpção gráfiCa António Barros rEvisão tExto Sara Augusto pré-imprEssão, imprEssão E aCabamEnto www.artipol.net isbn 978-989-26-0044-4 (Portugal) 978-84-7800-194-1 (Espanha) dEpósito lEgal 311680/10 obra publiCada Com o apoio dE: A presente publicação insere-se no Grupo “Poéticas” (coordenação de Marta Teixeira Anacleto) do Centro de Literatura Portuguesa, Unidade de I&D financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, ao abrigo do Programa Operacional Ciência e Inovação 2010. © agosto 2010 imprEnsa da univErsidadE dE Coimbra EdiCionEs univErsidad dE salamanCa Marta Teixeira Anacleto Sara Augusto Zulmira Santos Coordenação 3 marta teixeira Anacleto sara Augusto Zulmira santos coordenação • C O I M B R A 2 0 1 0 Francisco Manuel de Melo e o Barroco Peninsular D. P ARTE III M ODALIDADES DE E SCRITA DO B ARROCO EM D. F RANCISCO M ANUEL DE M ELO 285 Zulmira Santos Universidade do Porto ALGUMAS NOTAS SOBRE O «AMOR», O «DESENGANO» E O «ARTIFÍCIO» NAS OBRAS MÉTRICAS (1665) DE D. FRANCISCO MANUEL DE MELO, No início das «Segundas Três Musas de Melodino», na edição das Obras Métricas, de Lyon, 1665, os editores, Horacio Boissat e George Remeus, acentuavam: Posso afirmar-vos da parte de quem o melhor sabe que, se bem o seu autor (como muitas vezes escreve) nunca de seus versos teve gosto, porque os mais foram escritos com desgosto e emendados sem tempo, todavia, se para alguns se mostrou inclinado, foi para estes, ou porque os compôs mais vizinho às últimas raias da mocidade, ou porque por isso mesmo tivessem maior desengano que artifício. Entendi vos devia fazer esta advertência, porque falta nela o autor na introdução que faz, assi às pessoas a quem dedica, como às que entrega suas Obras. Agora avisados dela, não estranheis, antes estimai a rara mudança do estilo, que de todo parece alheio, e diverso do que até agora deste autor tendes ouvido; louvável cousa sempre, ou seja abundância ou melhora, e concedida a poucos, ser grande mais que uma vez. Para o último terno castelhano vos convido, que não tardará em estampar-se.1 A passagem em causa, sobretudo pelo que se prende com a «inclinação» do autor pelas composições integrantes das Segundas três Musas, ele que «nunca de seus versos teve gosto», porque compostas «às últimas raias da mocidade» ou «porque tivessem maior desengano que artifício» - D. Francisco entende-os nas Cartas Familiares como esses «versos portugueses» que «parecem escritos há duzentos anos»2 - convida à compaginação com a conhecida passagem do Hospital das Letras que brevemente evoco, na voz de Lípsio: __________________ 1 Citaremos sempre pela edição das Obras Métricas (dir. por Maria Lucília Gonçalves Pires e José Adriano de Freitas Carvalho). Braga: APPCDM, 2006. 2 «Eu tenho aqui um volume de versos portugueses, e tanto, que parecem escritos há duzentos anos. Desejo estampa-los limpamente e com o meu nome, à diferença dos castelhanos, que creo sairão à luz brevemente com algum suposto. Muito quisera que a impressão se fizesse nessa terra, mas à falta de correcção me detenho. Se a assistência de V. M. desse lugar à emenda e a alcançar o fim da obra, não me seria dificultoso mandar lá o original, 286 as Musas são donzelas louçãs em a flor da idade porque verdadeiramente ela [a Poesia] é uma arte florida que pede sujeitos floridos em anos florescentes.3 Não vou, porém, centrar-me no desenvolvimento deste filão da ligação da praxis poética aos anos de juventude, de larga tradição secular, bastando recorrer, para atestar tal afirmação, à célebre passagem do Marquês de Santillana, no Prohemio e Carta ao Condestável D. Pedro: Porque, señor, así como el Apóstol dize, Cum essem parvulus, cogitam ut parvulus, loquebar ut parvulus. Ca estas tales cosas alegres e jocosas andan e concurren com el tiempo de la nueva hedad de juventud, es, a saber: com el vestir, com el justar, con el dançar e con otros tales cortesanos exercícios. E asy, señor, muchas cosas plazen agora a vos que ya no plazen o no devem plazer a mí.4 No sentir dos editores, inspirado, com toda a certeza, pela opinião do autor, que seguiu com toda a atenção este processo editorial, os versos das «Segundas três Musas» - «A Tuba de Calíope», «A Sanfonha de Euterpe» e «A viola de Talia» - teriam «maior desengano que artifício», o que poderia levar-nos a concluir, nem que seja apenas como motivo de reflexão sobre a poesia de D. Francisco, que os outros versos, de outras «musas», teriam mais «artifício» que «desengano». Aliás, na «Dedicatória que se achou com estas obras manuscritas», texto que, de resto, praticamente coincide com o de uma carta, datada de 28 de Outubro de 1648, com a indicação «A um amigo com os versos portugueses», o autor sublinha o carácter pouco «artificioso» desta produção, na moldura de uma «imitação» que o texto se encarregará de precisar: V. S. é tão português, e tão bom português, que não enjeitará a conversação destes consoantes, o[s] quais, ainda que meus, postos com pouco artifício e pesados em breves considerações, não sei se diga que (sobre serem os mais mimosos da casa) muito se parecem com aqueles a quem quiseram imitar.5 Versos, assim, feitos «com pouco artifício», mas «pesados em breves considerações», que D. Francisco integra na senda da evocação do «grave estilo de nossos antepassados», que pretende «ressuscitar»: __________________ bem castigado, para que V. M. dispusesse sua estampa; e com ele faria ir os efeitos do seu dispêndio» (Cartas Familiares. Prefácio e notas de Maria da Conceição Sarmento. Lisboa: 1980, p. 432). Ver também Antonio Bernat Vistarini, Francisco Manuel de Melo (1608-1666). Textos y contextos del Barroco peninsular. Palma: 1992. 3 A. Correia de Oliveira lembra a passagem que Cervantes no Quijote dedica a este tema, apresentando a poesia e as musas como donzelas. (D. Francisco Manuel de Melo, As Segundas três Musas. Ensaio crítico, selecção e notas de A. Correia de Oliveira. Lisboa: 1945, p. 39). 4 Marquês de Santillana, Comedieta de Ponza, sonetos, serranillas y otras obras. Ed. de Regula Rohland de Langbehn. Estúdio Preliminar de Vicente Beltrán. Barcelona: Crítica, 1997, pp. 12-13. 5 Obras Métricas, p. 437. 287 Não aquele cuja aspereza já para muitos foi desagradável, como no antigo Mena condenou o grande Sá; mas aqueloutro donde, como o diamante que reluz por entre os golpes da luva, vai cintilando por entre as frases naturais, engraçadas e facilíssimas.6 Numa leitura que presumimos que o texto suporta, até porque a argumentação ocorre repetida, seria legítimo concluir que D. Francisco entende os versos «portugueses» como menos «artificiosos», porque feitos de «frases naturais, engraçadas e facilíssimas», na imitação do «grave estilo dos nossos passados» - que a alusão a Sá de Miranda contribui para enquadrar no século XVI7 - interpretação que os editores corroboram, ao acentuarem, como no início referi, em contexto de «advertência», que os versos das «Segundas Três Musas» possuíam «maior desengano que artifício» e que, alusão não menos importante, tal se entendia como uma «rara mudança de estilo, que de todo parece alheio, e diverso do que até agora deste autor tendes ouvido». Tendo em conta que «o que até agora» se tinha ouvido só poderia ser, numa interpretação restritiva, a parte referente às primeiras três musas ou, quando muito, a edição prévia de «Las tres musas» de 1649 (Lisboa, na Oficina Craesbeeckiana, por Henrique Valente de Oliveira) que, pela coincidência textual, devem, neste enquadramento hermenêutico, funcionar como a mesma obra, as «musas portuguesas» representariam, assim, uma «mudança de estilo» concretizada em mais «desengano» que artifício», na senda da evocação do estilo dos poetas portugueses do século XVI, com toda a probabilidade, sobretudo de Sá de Miranda e de Camões, se recordarmos que D. Francisco estava ligado por laços de amizade a dois editores do épico - Faria e Sousa e António Álvares da Cunha - e seguiu de muito perto a edição das obras do poeta da Tapada, em 16518. Convirá não ignorar que a configuração das Obras Métricas, na esteira de uma prática de organização dos versos que o Canzoniere de Petrarca havia divulgado, materializada, como é óbvio de diferentes e várias maneiras, parece implicar, pela ordenação paratextual, uma sintaxe narrativa que aqui se materializa numa espécie de movimento ascendente de «perfeição» de musa para musa: os dois paratextos que acompanham «Las tres musas del Melodino» anunciam - embora não tendo sido expressamente redigidos para a edição das Obras Métricas, pois que o primeiro, «Al Señor Juan Rodriguez de Vasconcelos y Sosa, embora assinado «El impressor», repete a dedicatória da edição de 1649, e o segundo, intitulado «Con el original de estos versos se halló esta carta que sirva de sú introduction», passa por ter sido aproveitado para a função prologal - um programa poético que salienta a dificuldade discursiva em fazer versos, «vos sabéis cuánta sazón pide la plática de las musas […]», «Si os dijese no hay en todo letra a mi gusto […]», sobretudo, nas palavras de D. Francisco, em «lenguaje extrangero» que «tampoco es favorable al que compone», __________________ 6 Obras Métricas, p. 439. 7 V. Maria Lucília Gonçalves Pires, «Ecos Literários nas Obras Métricas», Obras Métricas, p. XXVII. 8 A. da Costa Pimpão, «A Lírica camoniana no século XVII. Faria e Sousa e Álvares da Cunha», Escritos diversos. Coimbra: Acta Universitatis Conimbrigensis, 1972; V. Aguiar e Silva, «Notas sobre o cânone da lírica camoniana (II)», Camões. Labirintos e Fascínios. Lisboa: Cotovia, 1994, pp. 73-100; Maria Lucília Gonçalves Pires, «Ecos Literários nas Obras Métricas», Obras Métricas, p. XXVII; Rita Marnoto, «O ’livro de poesia’. O cancioneiro petrarquista e a edição das Obras de Sá de Miranda de 1595», Revista Portuguesa de História do Livro, VIII, nº 15. Lisboa: 2004. 288 sublinhando alguma juvenil inconsciência que o teria levado a imitar o estilo «cândido de los Vegas, lo severo de los Leonardos, lo culto de los Góngoras y Hortensios». Esta interpretação permite perceber que os editores expendam sobre as «musas portuguesas» as considerações acima equacionadas. Enquanto o «estilo» das primeiras três musas seria «artificioso», o das segundas sê-lo-ia menos, «[…]consoantes, os quais, ainda que meus, postos com pouco artifício e pesados em breves consideração […]» - por isso os editores solicitavam aos leitores que não estranhassem antes estimassem a diferença - e, enquanto estas teriam mais «desengano», as terceiras, «El tercer coro de las musas del Melodino», apelidadas pelo editor de «joya de mi oficina», embora escritas pelo mesmo autor - «Escribiolas el próprio Melodino y con la mesma pluma, mas tan superiormente cortada […]» - atingiriam tal grau de perfeição que parece que todas as outras teriam servido de ensaio para chegar à redacção destas9. A existência de uma sintaxe paratextual pode, assim, explicar que o texto da «Epístola a los lectores por un aficionado del autor y del estudio poético», que as antecede, subscrito por «El Cándido, Académico Generoso», nome usado na Academia dos Generosos por Frei André de Cristo, enfatize «los conceptos sutiles, las locuciones altas, las voces selectísimas que no podrán escurecer los más desaficionados, si hay algunos […]10, ostentando um conceito de poesia tributário da agudeza verbal e de um sábia e «discreta» forma de exercer e exercitar a capacidade de «engenho»11. Aliás, esta espécie de «Prólogo» ecoa, de algum modo, as palavras, ou as preocupações, do livreiro Estêvão Lopes, ao editar, em 1598, pela segunda vez, as Rimas de Camões. Aqui, apelando à qualidade poética de um texto produzido por «admiravel engenho», o editor enfatiza o quanto «espanta a agudeza de seus cõceitos, como obriga propriedade das palavras, como enleva o encarecimento das razões. Que alteza tem de sente ças, que metaphoras, que hipérboles, que figuras tã Poéticas?»12, visando não apenas a «novidade» da presença de composições que justificavam a indicação «Accrescentadas nesta segunda impressão», mas também o enaltecimento de uma técnica retórico-compositiva que elevava Camões ao estatuto de autor modelar. Talvez não seja sem razão que Frei André de Cristo evoca, no final dos comentários sobre o virtuosismo poético de D. Francisco Manuel de Melo, o verso de Camões: «Porque quem não sabe a arte não a estima»13, aludindo a uma espécie de __________________ 9 «Son otras las obras que ofrezco a V. Excelencia, mas no es el autor otro ni otro el animo que se las dedica. Escribiolas el proprio Melodino y con la mesma pluma mas tan superiormente cortada que, según el juicio de los práticos, parece que el poeta solo para escribir estas ha escrito las otras». Obras Métricas, p. 804. 10 Obras Métricas, p. 805. 11 Permitimo-nos remeter para Zulmira C. Santos, «O conceito de poesia de D. Francisco Manuel de Melo», Obras Métricas, pp. XXIX-XXXVI. 12 Rimas de Luís de Camões acrescentadas nesta segunda impressão. Dirigidas a D. Gonçalo Coutinho. Em Lisboa, por Pedro Crasbeeck, Anno de MDXCVIII. A custa de Estêvão Lopes mercador de libros (cito pela rep. fac-similada da ed. de 1598, com Estudo Introdutório de Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Braga: Universidade do Minho, 1980, «A D. Gonçalo Coutinho». 13 Obras Métricas, p. 809: «Con lo que solo acreciento que estimes este libro, porque parezcas persona digna de estimación, según la sentencia de nuestro Camoens: Porque quem não sabe a arte não a estima». Lucília G. Pires, «Ecos literários nas Obras Métricas», Obras Métricas, p. XXVI. 295 composições pareçam efectivamente relevar mais do «artifício», como diziam os editores das «Segundas três Musas», na acepção do elaborado, de uma «agudeza» gracianesca, ou como dirá Emmanuele Tesauro, numa espécie de expansão do título de Il Cannocchiale Aristotélico, de «l’ ldea dell’arguta et ingeniosa elocutione che serve à tutta l’Arte oratoria, Lapidaria e simbolica». Por tudo isso, estas composições merecem ser revisitadas, ainda que não pareçam tão envolvidas por aquele pessimismo antropológico, para usar uma expressão de Maria Lucília Gonçalves Pires, que torna outras obras mais atractivas, pela mundividência, pela náusea do fluir do tempo, ou, na muito presente poesia «sacra», pelo arrependimento, pela culpa, pela preocupação com a salvação ou ainda, na poesia que José Adriano de Carvalho designou como «circunstancial», com o quotidiano, com a rede de relações, também clientelares, feita de parentes, amigos ou conhecidos. Esta poesia em que o amor se faz tema - hoje de difícil leitura - porque joga simultaneamente na produção e recepção do conceito, identificando, por vezes, um com outro à primeira vista inconciliável, comporta um duplo processo que vela e desvela, fragmenta e reúne, quase obrigando o leitor a participar da capacidade inventiva do autor, experimentando o prazer decifratório, para citar de novo Tesauro, «d’involar col proprio ingegno cio che l’ingegno altrui furtivamente nasconde». O «engenho» exibido com a novidade das invenções e a consequente maravilha do leitor são quase privilégios aristocráticos de um grupo que, na afirmação dos ideais de corte, identifica a superioridade intelectual e cultural da consciência literária, chamemos-lhe assim, para simplificar, com a hegemonia social e o nascimento. Série Documentos • Imprensa da Universidade de Coimbra Coimbra University Press 2010