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Mickael Gonçalves Rodrigues TOULOUSE, LE MIRAIL: A INFLUÊNCIA DA CULTURA MAGREBINA NA APROPRIAÇÃO DO HABITAT EM BELLEFONTAINE Dissertação de Mestrado. FAUP. 2011/2012 Orientação: Professores Rui Jorge Garcia Ramos (FAUP) e Remi Papillault (ENSAT)
RESUMO Esta dissertação tem por objectivo principal determinar as relações existentes entre a cultura Magrebina e as apropriações do habitat realizadas pelos habitantes no bairro de Bellefontaine, em Toulouse – Le Mirail. Com uma população maioritariamente oriunda dos países do Norte de África, este bairro torna-se o palco de recomposições, destruições e reconstruções de uma cultura de origem dos habitantes, que são fermentadas, ou pelo contrário travadas, pelos próprios elementos que constituem este habitat. Para responder a este tema, o habitat foi divido em três escalas de análise. A primeira é a escala do Bairro e faz referência às transformações e apropriações das ruas, dos espaços públicos etc. A segunda escala diz respeito à envolvente próxima dos edifícios. São compostos pelos jardins comuns aos habitantes de um mesmo edifício, aos átrios de entrada e aos corredores exteriores. Por fim a última. A terceira escala de análise corresponde à casa propriamente dita, onde a apropriação atinge o seu valor mais elevado. Esta análise foi realizada através de vários métodos. Observações objectivas da realidade, efectuadas em diversos dias permitiram compreender as transformações das diversas escalas estudadas ao longo do tempo. A participação em diversas reuniões de moradores permitiu interrogar os habitantes deste bairro e questioná-los directamente sobre o tema desenvolvido. A participação em duas sessões de apresentação que reuniram habitantes, arquitectos e representantes do munícipe, organizadas pelo gabinete de arquitectura responsável pela requalificação do bairro de Bellefontaine permitiram ouvir as opiniões dos diversos habitantes e arquitectos relativamente aos projectos realizados ou a serem desenvolvidos. As influências exercidas pelos habitantes sobre as diversas escalas do habitat - e vice-versa - centram-se geralmente em torno das questões da sexualização do espaço. A cultura Magrebina dita regras de conduta e modos de utilização do espaço para cada um dos sexos, os quais os habitantes tendem a aplicar, entrando por vezes em confronto com a realidade idealizada pelos arquitectos e urbanistas. Para estes, uma melhor compreensão dessa cultura permitiria introduzir nos projectos elementos que poderiam melhorar as condições de vida de todos os habitantes.
ABSTRACT The purpose of this thesis is to determine relationships between Maghrebians culture and appropriations of the habitat performed by residents of Bellefontaine, in Toulouse - Le Mirail. Being the population mainly native from countries of North Africa, this neighborhood becomes the scene of recompositions, destructions and reconstructions of the culture of origin of the inhabitants, which are fermented or otherwise delayed by the elements that constitute this habitat. To answer this question, the habitat was divided into three levels of analysis. The first level is related to the neighborhood and refers to the transformation and appropriations of streets, public spaces etc. The second refers to the outside space, near buildings. The former level is related to common gardens of residents living in the same building, entrance lobbies and access corridors. The third and final level of analysis is the house itself, where ownership is reached in its greatest extent. This analysis was conducted through several methods. Objective observations of reality made over several days helped to understand the transformations of various scales of the habitat through time. Participation in several neighborhood meetings allowed to question directly the inhabitants regarding the subjects of this work. The participation in two sessions that gathered residents, architects and managers of the municipalities gived the possibility of hearing the point of views of both residents and architects concerning the finalized or ongoing projects in Bellefontaine. The influence exercised by residents in the several levels of the habitat - and vice versa - is mainly concentrated on the sexualization of space. The Maghrebian culture dictates rules of conduct and behaviors inherent to each gender, which are followed by local residents, and occasionally lead to a confrontation with the idealized vision of architects and urbanists. To the former, a better understanding of this culture would introduce new elements to projects, which could improve the way of living of all residents.
RESUME Ce mémoire a pour objectif déterminer les relations existantes entre la culture Maghrébine e les appropriations de l’habité réalisées par les habitants du quartier de Bellefontaine, à Toulouse – Le Mirail. Possédant une population majoritairement issus des pays d’Afrique du Nord, ce quartier est l’objet de recompositions, de destructions et de reconstructions de la culture d’origine des habitants, qui sont facilitées, ou au contraire difficultées, par les propres éléments qui constituent cet habitat. Pour répondre à cette question, l’habité a été divisé en trois échelles d’analyse. La première est l’échelle du quartier et fait référence à la transformation e aux appropriations des rues, des espaces publics etc. La seconde fait référence aux abords de l’habitation qui correspondent aux jardins communs aux habitants d’un même édifice, aux halls d’entrée et aux coursives extérieures. La troisième et dernière échelle d’analyse correspond à la maison proprement dite, où l’appropriation atteint sa plus grande ampleur. Cette analyse a été réalisée au travers de plusieurs méthodes. Des observations objectives de la réalité, effectuées sur plusieurs jours, ont permis de comprendre les transformations des diverses échelles de l’habité en tenant compte de la temporalité. La participation à plusieurs réunions de quartier a permis d’interroger directement les habitants sur plusieurs thèmes abordés dans ce travail. La participation à deux sessions de présentation de projets qui ont réunis habitants, architectes et responsables de la Municipalités ont permis d’entendre les opinions des habitants et des architectes concernant les projets qui ont été ou qui seront réalisés à Bellefontaine. L’influence exercée par les habitants sur les diverses échelles de l’habité - et viceversa - se concentrent majoritairement autour des questions de la sexualisation de l’espace. La culture Maghrébine dicte des conduites à avoir ainsi que des modes d’utilisation de l’espace pour chacun des sexes, que les habitants tentent d’appliquer, et qui se confrontent parfois aux visions des architectes et urbanistes. Pour eux, une meilleure compréhension de cette culture permettrait d’introduire dans les projets de nouveaux éléments qui pourraient améliorer la vie de tous les habitants.
Dedico esta dissertação aos meus pais e irmã, como forma da minha gratidão.
1.INTRODUÇÃO 17
3. Situação de Le Mirail – a vermelho - em relação à restante cidade de Toulouse. Fonte: GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.49. 18
INTRODUÇÃO A construção deste bairro, de uma modernidade excepcional 1 para a sua época, foi o resultado de um contexto social, politico e económico bem particular. No final dos anos cinquenta, Toulouse (imagem 1) foi confrontada a uma expansão demográfica sem precedentes na sua história 2 . Ao forte aumento do êxodo rural, juntou-se o final da guerra de Argélia, devido ao qual se previa a chagada massiva dos “pieds-noirs” que se iriam instalar no sul de França 3 . A lotação excessiva da cidade de Toulouse, que conduziu a uma grande falta de alojamento, levou o Socialista Louis Bazerque, (imagem 2) então Presidente da Câmara, a criar em 1960 uma Zona a Urbanizar em Prioridade (ZUP). Tratava-se de um procedimento administrativo que pretendia a criação de um novo bairro que contivesse não só habitações mas também equipamentos, comércios e infra-estruturas que permitissem a sua ligação à cidade existente. O objectivo deste procedimento era por isso responder a uma forte necessidade de habitações, mas também de corrigir a falta de alguns serviços, que conduziam ao isolamento de famílias em “bairros dormitórios”. Não se tratava apenas de encontrar um lugar para o homem, tratava-se de lhe dar a sua dignidade e o seu lugar numa nova sociedade 4 . Em Toulouse, o sítio destinado à criação desse novo bairro chamavase Le Mirail. Com uma superfície de cerca de 700 hectares, situado a sul do rio Garonne e delimitado, a Norte pelo canal, a Sul por uma estrada nacional e a Leste por uma estrada existente, deveria acolher cerca de 25000 habitações, para receber 100000 pessoas. (imagem 3) 1 COHEN, Pierre. In, GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008. 2 GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.40. 3 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.245. 4 MARRET, Mario. Filme, Le Mirail année zéro : 1970-1971. 2. Louis Bazerque. Fonte: Artigo, Un pari tenu: Le Mirail. Entreprise nº744, Dezembro 1969, p.2. 1. Vista aérea sobre França. A vermelho: a cidade de Toulouse. Fonte: Mickael R. 19
6. Fotografia da maqueta apresentada pela equipa de Georges Candilis. Fonte: Artigo, Un pari tenu: Le Mirail. Entreprise nº744, Dezembro 1969, p.5. 7. A forma tripartida de Toulouse-Le Mirail aplicada à cidade antiga de Toulouse. Fonte: GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.82. 20
Para a construção do Mirail, participaram ao concurso lançado pela Câmara Municipal e apoiado pelo Estado, 53 equipas das quais uma composta por arquitectos locais dirigidos pelo próprio Le Corbusier. (imagem 4) O concurso foi vencido por uma equipa dirigida pelo arquitecto grego Georges Candilis (imagem 5) (Bakou, 1913 – Paris, 1995) associado aos arquitectos Alexis Josic e Shadrach Woods, em Janeiro de 1962. (imagem 6) Os vencedores reintroduziram neste projecto noções esquecidas como por exemplo as de centralidade de um bairro, de hierarquia dos espaços, de continuidade do construído, de ruas, transcrevendo-as em dispositivos originais tais como o “Cluster” (agrupamento), o “Stem” (centro linear) e o “Web” (trama) 5 , que foram objecto de um longo estudo no passado por parte da equipa de Georges Candilis e que foram sintetizados no projecto do Mirail. A ideia principal do projecto partiu de uma pesquisa sobre o passado da identidade de Toulouse 6 . (imagem 7) Esta identidade consistia numa espécie de coluna vertebral da cidade 7 constituída pelos canais, as avenidas, as ruas, as praças, os jardins, etc. O projecto do Mirail reforçava essa ideia de coluna vertebral de modo a reforçar o facto de que esta nova zona pertencia efectivamente à cidade de Toulouse. Tendo em conta as particularidades do sítio, uma nova coluna vertebral foi traçada. Tratava-se de um centro linear (imagem 8) que percorria a totalidade do projecto, de modo a ligar todos as zonas (5 no total) deste novo bairro e ao longo do qual se articulavam prédios agrupados. Graças a esse centro linear, todos os habitantes beneficiavam das mesmas condições de vida e da mesma quantidade de equipamentos de modo a evitar o isolamento de algumas zonas. Uma das particularidades do projecto está na clara separação entre o Homem e o carro. Ao longo desse centro linear e na base dos edifícios, encontra-se uma dalle 8 que assegura essa separação. (imagem 9) 5 PAPILLAULT, Rémi. Toulouse 1945/1975 ; la ville mise à jour. Edições Loubatieres, Toulouse, 2009, p.145. 6 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.246. 7 Ibid. 8 Optar-se à por utilizar neste trabalho o termo francês deste elemento por não haver na língua portuguesa nenhuma palavra que possa corresponder à tradução exacta. Trata-se de uma laje, que cobre uma vasta extensão por baixo da qual se efectua a circulação automóvel bem como o estacionamento, e por cima da qual se situa o espaço público onde se efectuam as circulações pedonais. 4. Maqueta da proposição da equipa de Le Corbusier. Fonte: GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.58. 5. Fotografia Georges Candilis. Fonte: Artigo. M. Louis Bazerque aux promoteurs toulousains: “C’est le moment d’intervenir au Mirail”, Officiel du bâtiment et des travaux publics de Toulouse, nº67, Fevereiro 1970, p. 24. 8. Esquema: a estrutura do centro linear. Fonte: Documentos apresentados no concurso, Candilis, Josic, Woods. Março 1961, p.1. 21
12. Planta da primeira parte da construção de Le Mirail que deveria ser composta por 3 bairros. Destaca-se o bairro de Bellefontaine que correspondeu ao primeiro a ser construído. Fonte: Artigo, Un pari tenu: Le Mirail. Entreprise nº744, Dezembro 1969, p.1. 22
Sobre essa dalle, encontra-se os equipamentos, e por baixo, os carros, de modo a permitir aos habitantes percorrer a pé a totalidade da zona de modo seguro sem cruzar os automóveis. (imagem 10) O funcionamento dessa dalle não correspondeu, infelizmente, às ambições dos arquitectos e a sua utilidade foi posta em causa, o que conduziu à destruição quase total dessa dalle. Várias tipologias de habitação foram também criadas: grandes prédios 9 , edifícios de tamanho médio 10 (imagem 11) e moradias individuais (imagem 12) organizavam-se em torno de amplos espaços verdes, idealizados em conjunto de modo a satisfazer a maior quantidade de pessoas. A primeira parte do projecto foi realizada em 1964, antes mesmo do final do estudo definitivo. A municipalidade já adquirira uma parte do sítio, chamada Bellefontaine, (imagem 12) que permitiria acolher cerca de 20000 pessoas. Essa parte, agora chamado bairro de Bellefontaine, foi o único a ser construído sob a direcção dos arquitectos e conforme aos princípios iniciais de Candilis 11 , e é por essa razão que o presente estudo se limitará a esse bairro piloto. Inicialmente concebido com o objectivo de acolher a grande quantidade de populações derivadas do êxodo rural bem como as populações vindas do norte de África, o bairro de Bellefontaine viu a sua população modificar-se ao longo dos últimos trinta anos. Até aos anos 80, as políticas de alojamento social presentes nesse bairro conduziam à concentração de populações com grandes dificuldades financeiras. As famílias de classe média, que trabalhavam nas empresas e fábricas próximas do bairro, acabavam por investir em habitações próprias na periferia e, fermentado pelos valores de agrupamento familiar, as populações derivadas da imigração começaram a chegar massivamente a Bellefontaine 12 . A população de Bellefontaine é assim, na sua maior 9 Considerar-se-á como grandes prédios, todos os edifícios cuja laje inferior do último piso se situe a mais de 28 metros acima do nível de piso utilizável pelos meios de serviço público e de combate ao incêndio na época da sua construção. Neste caso de estudo, considerar-se-á como tal, todos os edifícios cuja altura se situe entre 9 e 14 pisos acima do nível do solo. 10 Considerar-se-á como edifícios de tamanho médio todos os edifícios cuja altura não ultrapasse os 6 pisos para 12 habitações. 11 PAPILLAULT, Rémi. Toulouse 1945/1975 ; la ville mise à jour. Edições Loubatieres, Toulouse, 2009, p.145. 12 Revista bissemestral. Revue Urbanisme. Grand Toulouse, métropole en projets, nº40. Paris, Publications d’Architecture et d’Urbanisme, 2011, p.31. 9. Esquema: o conceito de dala. Fonte: Artigo, Une ville nouvelle, Toulouse – Le Mirail. Documentation Géographique pédagogique, nº 183, Fevereiro 1971, p. 6. 10. Esquema. A organização das circulações automóveis a vermelho e pedonais a preto. Fonte: Artigo, Paris parrallèle, Achitecture d’aujourd’hui, nº 101, Abril e Maio de 1962. . 11. Fotografia aérea. À direita: os edifícios de grande dimensão; à esquerda: os edifícios de tamanho médio. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 80. 23
13. Projecto original de Georges Candilis para Toulouse – Le Mirail. A vermelho: a zona que corresponde à primeira fase da construção. Fonte: GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.79. 24
parte derivada da imigração de primeira ou segunda geração. Segundo um estudo realizado em 2004 pelo Centro Interdisciplinar de Pesquisas Urbanas e Sociológicas 13 , encontram-se neste bairro habitantes oriundos de todos os continentes, no entanto, a população Magrebina representa cerca de 60% dessa população. Os nomes inscritos nas caixas de correio, bem como os idiomas falados nas ruas e nos edifícios desse bairro são testemunhos da forte presença dessa população em Bellefontaine. Com quase meio século de história e de vida, a diferença entre o projecto original de G. Candilis, (imagem 13) que pretendia criar o habitat de uma comunidade de 20000 pessoas, vivendo nas mesmas condições, ao abrigo de qualquer segregação 14 , e a realidade de hoje, é bem diferente. Le Mirail é hoje um “quartier sensible” 15 , marginalizado na realidade e nas representações dos habitantes de Toulouse 16 . Uma das grandes riquezas desse bairro encontra-se ao nível dos espaços do habitat – os edifícios mas também a sua envolvente próxima – e é nesses espaços que as diferenças entre o projecto vencedor e a realidade de hoje parecem maiores. Ao observar a sucessão de espaços que levam à habitação, a influência do habitante na apropriação e na transformação dos espaços é notável. A forte presença da cultura Magrebina em Bellefontaine abre assim a possibilidade de que as transformações e as apropriações dos espaços do habitat podem estar directamente ligadas à cultura de origem do habitante. 13 DESBORDES, F ; JACQUIN, J ; JAILLET, M.C ; LAUMIERE, F ; et DE SORBIER, P. Infléchir les politiques de peuplement dans les quartiers de Reynerie et de Bellefontaine. Relatório realizado pelos finalistas de 2003-2004 do DESS : Habitat e políticas de planeamento., Centre interdisciplinaire de Recherches Urbaines et Sociologiques, Toulouse, 2004. 14 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.254. 15 Designação utilizada em França para designar os bairros problemáticos das cidades. 16 Revista bissemestral. Revue Urbanisme. Grand Toulouse, métropole en projets, nº40. Paris, Publications d’Architecture et d’Urbanisme, 2011, p.32. 12. Fotografia das moradias individuais. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 80. 25
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A segunda possibilidade consiste em utilizar os elevadores que, devido a razões económicas, se encontram apenas nos ângulos tripartidos dos edifícios (imagem 18) e que servem os “andares rua” 25 . (imagem 19) Esta tipologia de circulação consistia na utilização de passagens horizontais, ruas que ligavam os edifícios entre eles, no 5º, no 9º e no 13º andar. Estas ruas elevadas permitiam não só aos habitantes aceder às suas habitações como também lhes davam a possibilidade de passar de um edifício para outro. Facilitavam assim as comunicações sem ter de passar novamente pelo rés-do-chão 26 . Hoje, as ligações entre os diversos edifícios efectuadas através desse sistema foram quase todas encerradas por diversas razões. A envolvente próxima dos edifícios de Bellefontaine é constituída por lugares cuja definição enquanto espaço é ambígua. Esses espaços comuns de caracter privado agem como espaços-tampão, são uma partição clara entre o público e o privado, nascidos de uma preocupação tanto ao nível de gestão como de segurança 27 . Para os arquitectos, esses espaços são uma passagem progressiva entre o espaço público e o limiar da habitação. Conduzem lentamente do exterior para o interior ou viceversa, abrem a habitação para a rua e tornam-se então numa espécie de “entre dois” comumente chamados “espaços intermédios”. Em Bellefontaine, estes espaços parecem à primeira vista um prolongamento da habitação para o exterior. Os limites do apartamento parecem estender-se para o exterior, onde o homem tenta aos poucos conquistar um espaço que não lhe pertence. As apropriações desses espaços parecem vastas e trata-se não só a transformações físicas, mas dizem também respeito à esfera social da habitação. São também lugares de encontros e permanência muitas vezes estigmatizados. Na cultura Magrebina, a frequência dos espaços exteriores confirma a maior prática do espaço de proximidade pelos homens, e a clausura das mulheres pontuada de raras saídas ao centro da cidade 28 . De facto, 25 Noção utilizada por Georges Candilis na memória descritiva do projecto datada de 1965. 26 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.256. 27 Ibid, p.256. 28 BEKAR, Rabia ; BOUMAZA, Nadir e PINSON, Daniel. Familles maghrébines en France, l’épreuve de la ville. Presse Universitaires de France, Paris, 1999, p.84. 19. Fotografia do “andar rua”. Fonte: Mickael R. 18. Excerto da imagem 16. Os elevadores – a vermelho - situavam-se unicamente nas articulações dos edifícios. Fonte: Arquivo Municipal de Toulouse. 33
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os espaços do habitat serão, na cultura Magrebina distinguidos entre espaços masculinos e espaços femininos. Poderíamos falar, no caso das mulheres, de um certo encerramento dentro do espaço doméstico 29 enquanto os homens que frequentam demasiado este espaço seriam mal vistos dentro da comunidade. Várias perguntas se colocam então: Qual a importância desses espaços para os habitantes? De que modo são esses espaços apropriados em função da cultura de origem do habitante? Serão os espaços do habitat espaços sexuados? E que importâncias devem ter esses espaços no pensamento dos arquitectos, na hora onde se multiplicam os projectos de renovação urbana em Le Mirail? A casa A terceira escala do habitat analisada é a própria casa. Parece necessário analisar as transformações e as apropriações efectuadas pelos habitantes nas suas habitações porque, mesmo sendo a influência dos habitantes notável nas diversas partes comuns dos edifícios, é no seu meio mais privado, que esta apropriação atinge o seu valor mais elevado. De facto, a habitação pressupõe sempre a apropriação, ….E não faz referência apenas ao que se encontra entre as suas paredes ou à organização que é própria ao habitante deste espaço. Faz também referência à consciência do habitante da sua própria interioridade, à sua vida familiar e doméstica, …em suma, à sua intimidade 30 . No projecto de Georges Candilis, os apartamentos deveriam permitir aos habitantes tornarem-se arquitectos nas suas próprias habitações, e alojar-se “à medida” 31 . Através de um sistema de painéis deslizantes, o arquitecto pretendia dar à habitação um espaço flexível 32 , capaz de se adaptar às alterações constantes das famílias. No entanto, mais uma vez, o desejo do arquitecto parece não corresponder à realidade, uma vez que essa “flexibilidade” da habitação é na maioria dos casos posta em causa 29 BEKAR, Rabia ; BOUMAZA, Nadir e PINSON, Daniel. Familles maghrébines en France, l’épreuve de la ville. Presse Universitaires de France, Paris, 1999, P.150. 30 SERFATY – GARZON, Perla. Le Chez-soi : habitat et intimité. In BRUN, Jacques ; DRIANT, Jean-Claude e SEGAUD, Marion. Dictionnaire critique de l’habitat et du logement. Edições Arnand Colin, Paris, 2003. P.69. 31 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.257. 32 Ibid 35
´ 21. Vista aérea sobre o bairro de Bellefontaine antes da campanha de renovação urbana que levou à destruição de alguns edifícios. A vermelho: o edifício Louis Pergaud. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse. 22. Vista aérea sobre o bairro de Bellefontaine depois da campanha de renovação urbana que levou à destruição de alguns edifícios. A vermelho: o edifício Louis Pergaud que foi divido em duas partes. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse. 36
pelos habitantes. Cada apartamento torna-se assim ao longo dos anos um lugar de práticas, apropriado e transformado pelos habitantes, de modo a responder eficazmente às suas reais necessidades. Para Georges Candilis, a classificação dos apartamentos por tipologias como por exemplo T3 ou T4 não fazia sentido. Considerava que as habitações não eram compostas de quartos mas sim de lugares que, independentemente do seu caracter flexível, são também o cenário de uma recomposição da cultura de origem 33 , e parece então necessário para compreender a habitação, compreender também os habitantes. Partindo então da ideia de que as habitações evoluem para acompanhar as transformações das famílias, essas transformações tornam-se então um tema de estudo. De que modo os habitantes se apropriaram as habitações? Que transformações físicas ou funcionais dos espaços realizaram? Que relações têm essas transformações com a cultura de origem dos habitantes? De que modo as habitações de Bellefontaine se adaptam aos habitantes de origem Magrebina? Será a arquitectura de Bellefontaine uma barreira à recomposição da cultura de origem na habitação? Partindo da hipótese de que existe uma serie de mecanismos de transformações aplicados em diversos casos pelos habitantes, seria então possível desenvolver uma nova tipologia de habitação que hoje, poderia satisfazer a maior parte dos habitantes derivados dessa população. TERRITÓRIO DE ESTUDO De modo a poder desenvolver este estudo, é necessário seleccionar alguns edifícios que caracterizem o bairro de Bellefontaine e cujas observações possam, enquanto exemplo, ser aplicadas aos outros edifícios do bairro. A maior parte dos edifícios deste bairro são habitações sociais, os chamados HLM 34 . É por essa razão que este estudo se limitará às habitações que beneficiem da ajuda do estado. Os edifícios HLM do bairro de Bellefontaine foram o resultado de um concurso ao 33 BEKAR, Rabia ; BOUMAZA, Nadir e PINSON, Daniel. Familles maghrébines en France, l’épreuve de la ville. Presse Universitaires de France, Paris, 1999, p.187. 34 Designação para Habitation à Loyer Modéré. Trata-se de habitações sociais cuja renda é estabelecida pelo Estado. 37
23. Planta do apartamento tipo do edifício Louis Pergaud. Arquitecto G. Candilis. Escale: 1/150 Fonte: Mickael G. Loggia Loggia Sala Espaço “flexível” Quarto Quarto 38
qual participaram várias equipas de arquitectos. Distinguem-se neste bairro as realizações de dois importantes escritórios de arquitectura daquela época, l’APA 35 e o escritório do próprio Georges Candilis 36 . As realizações destes dois escritórios representam a quase totalidade das habitações presentes no bairro de Bellefontaine. Dado ao facto de que as habitações assim como o sistema distributivo é idêntico para cada um dos edifícios de um mesmo escritório de arquitectura, parece óbvio a necessidade de escolher um edifício que represente cada um dos gabinetes. Assim, dois grandes edifícios de habitação social foram seleccionados como amostra característica do bairro de Bellefontaine. O edifício Louis Pergaud Situado a este da rua de la Tourasse, este edifício (imagem 20) cujo projecto data de 1965 e cuja construção se iniciou em 1966, foi o resultado de uma ampla pesquisa por parte do seu arquitecto, G. Candilis. Composto hoje por 247 habitações, contendo tipologias que variam entre o T0 e o T4, e cuja altura varia entre 6 e 10 pisos de modo ao escapar ao gigantismo uniforme 37 , é hoje administrado pela sociedade Patrimoine SA languedocienne e fazia parte, durante a sua construção, de um edifício maior. As campanhas de renovação urbana deste bairro conduziram à destruição de parte deste edifício, dividindo-o assim em duas partes. (imagens 21 e 22) O complexo sistema de distribuição utilizado neste edifício corresponde àquele idealizado pelo seu arquitecto, contendo “ruas aéreas” que o ligavam aos outros edifícios. Uma das grandes riquezas deste edifício situa-se sem dúvida ao nível das habitações que constituem uma das células de habitação mas sábias daquela época 38 . Estes apartamentos (imagem 23) são não só o resultado de inúmeras pesquisas por parte do arquitecto G. Candilis, mas também de inúmeras restrições regulamentares e orçamentais 39 que deram a estas 35 Association Paritaire d’Architectes. 36 Em colaboração com os arquitectos MM. Allet, Barbu, Castaing, de Noyers, Gardia, Genard, et Valle. 37 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.256. 38 PAPILLAULT, Rémi. Toulouse 1945/1975 ; la ville mise à jour. Edições Loubatieres, Toulouse, 2009, p.147. 39 Sendo estas habitações sociais, foram submetidas a uma legislação própria que influenciaram o resultado final. Uma das grandes alterações do projecto teve a ver com a 20. Fotografia aérea do edifício Louis Pergaud. Fonte: Bing Maps. 39
26. Vista aérea sobre o bairro de Bellefontaine A vermelho: o edifício Le Tintoret. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse. 40
habitações qualidades nunca antes atingidas em habitações sociais. Nestas habitações, G. Candilis introduziu noções de espaços flexíveis e maleáveis, tal como o espaço ligado à sala que poderia ser um quarto, um escritório ou uma extensão da própria sala. Assim, paneis deslizantes permitiam ao habitante transformar o espaço consoante as suas necessidades. Outra característica fundamental destas habitações é a utilização de uma elevação de 50 centímetros que divide a parte baixa dedicada à reunião da família, e a parte alta, dedicada ao recolhimento e ao descanso 40 . As duas fachadas destas habitações abrem para lógias que, graças aos painéis deslizantes da fachada, permitem à loggia transformarse numa nova divisão exterior. (imagem 24) O edifício Le Tintoret Este edifício, (imagem 25) cujo projecto é da autoria da Association Paritaires d’Architectes – APA – data de 1968. Dado ao facto de este edifício se estender sobre uma superfície muito elevada, este estudo limitar-se-á à parte situada na rua Cheminement le Tintoret e administrada pela sociedade HLM SA Les Chalets. (imagem 26) Este edifício, ao contrário do edifício de G. Candilis acima referido, possuía uma laje – que G. Candilis chamava de centro linear - no rés-dochão cuja maior parte foi destruída ao longo dos anos. Encontramos, no que diz respeito ao sistema de distribuição e das fachadas compostas por painéis deslizantes, grandes semelhanças em relação ao edifício Louis Pergaud do arquitecto G. Candilis. superfície dos apartamentos. A legislação estipulava uma área máxima, e o arquitecto Georges Candilis teve por isso de reduzir a largura da trama central para 2.40m e reduzir também a dimensão da loggia. 40 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.258. 24. Fotografia dos painéis deslizantes das fachadas. Fonte: Artigo, Un pari tenu: Le Mirail. Entreprise nº744, Dezembro 1969, p.9. 25. Fotografia aérea do edifício Le Tintoret. Fonte: Google Maps. 41
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2. O BAIRRO DE BELLEFONTAINE 49
2. Corte esquemático sobre um edifício de Toulouse – Le Mirail com a dala e a rua aérea assinalada. Fonte: Artigo, Un pari tenu: Le Mirail. Entreprise nº744, Dezembro 1969, p.7. 50
O BAIRRO DE BELLEFONTAINE A EVOLUÇÃO DE UM PROJECTO DESMEDIDO Para compreender as utilizações e as apropriações – realizadas pelos seus habitantes - dos diversos elementos que constituem o bairro de Bellefontaine, é necessário numa primeira fase entender de maneira objectiva o funcionamento da sua estrutura e das suas formas urbanas, bem como a sua relação com a restante cidade de Toulouse. O projecto, tal como o conhecemos hoje, que satisfaz amplamente alguns habitantes e pelo contrário revolta muitos outros - como veremos mais à frente - evoluiu e transformou-se ao longo das últimas décadas. Várias razões - sejam elas sociais, políticas ou económicas - levaram o bairro de Bellefontaine a afastar-se drasticamente do projecto original de G. Candilis. Assim, parece legítimo para compreender a situação actual e talvez antecipar uma situação futura, perceber também o passado deste bairro. O projecto construído Como já foi referido anteriormente, o projecto original previa a construção de 5 bairros (imagem 1) – que por razões económicas deveriam ser construídos em diversas fases - que estariam ligados entre si através de uma dispositivo de circulações complexo, composto por uma dalle contínua, pedonal na sua superfície superior e destinada à circulação automóvel na sua parte inferior, associada a “ruas aéreas” que ligavam os diversos edifícios entre si. (imagem 2) Para Georges Candilis, esta proposição, ao contrário do que muitos afirmavam naquela época, não era uma obra de arte abstracta saída da imaginação dos arquitectos, mas sim uma construção ligada à realidade, e cada elemento, cada pormenor, possuía uma razão de existir. 1 No entanto, à medida que as construções iam sendo realizadas, alguns dos elementos eram postos em causa, comprometendo assim toda a lógica e unidade do projecto original. 1 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.250. 1. Planta do projecto de ToulouseLe Mirail. À direita a primeira parte que previa a construção de 3 bairros e à esquerda a 2 fase. Fonte: GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.89. 51
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A realização deste bairro exigia verbas consideráveis, estudos gigantescos e esforços incalculáveis 2 e enquanto toda a equipa de Georges Candilis, especialmente transferida para Toulouse, se dedicava a desenhar as centenas de elementos que constituíam o projecto de execução, Louis Bazerque – então presidente da câmara de Toulouse – insistiu em dar início à construção do bairro experimental de Bellefontaine (imagem 3) antes mesmo da conclusão do estudo prévio. Foi então que começou não só a construção dessa subtil, gigantesca e exaltante improvisação sobre um tema inédito 3 , mas foi também aí que apareceram as primeiras oposições ao projecto. As soluções propostas pela equipa vencedora eram demasiado inovadoras para aquela época e não correspondiam nem aos hábitos e costumes das populações, nem às normas em vigor 4 assim, a primeira versão do projecto foi imediatamente recusada e continuaria a sê-lo até que todas as normas fossem respeitadas. Essas questões regulamentares tinham na maioria dos casos a ver com questões de propriedades públicas e privadas 5 . Foi então que Georges Candilis percebeu dolorosamente que, mesmo sendo a sua proposta estudada em diversas escolas de arquitectura e publicada em grandes revistas internacionais, a sua construção constituía uma tarefa bem mais complexa do que teria imaginado. 6 Aos problemas ligados à legislação, juntaram-se outros ligados a interesses políticos. O então ministro da Construção Jacques Maziol era também um adversário político de Louis Bazerque o que, segundo Georges Candilis, era uma catástrofe. 2 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.252. 3 Ibid. 4 Ibidem. 5 Um dos elementos problemáticos era a dalle. Na sua parte superior existia uma grande superfície de espaço público, enquanto na parte inferior existiam parques de estacionamento privados, o que colocava problemas ao nível de limites de propriedades. O mesmo acontecia nos edifícios projectos pela equipa de Georges Candilis que previam comércios no rés-do-chão e nos andares que possuíam “ruas aéreas”. Ora, naquela época, a regulamentação em vigor exigia que os edifícios HLM fossem compostos exclusivamente por habitações. 6 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.253. 3. Planta do bairro de Bellefontaine. Fonte: Artigo, Un pari tenu: Le Mirail. Entreprise nº744, Dezembro 1969, p.8. 53
5. Planta do projecto original de Bellefontaine. Assinalados a vermelho: as três tipologias de habitação existentes em Bellefontaine. À medida que as construções se afastam do centro linear, a densidade diminui. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 78. 6. Fotografia das habitações individuais. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 80. 7. Fotografia dos grandes prédios de habitação. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 80. 8. Fotografia dos pequenos edifícios colectivos. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 80. 54
Durante os anos seguintes, percebendo que todo a integridade do projecto estava posta em causa, a equipa vencedora teve apenas um objectivo: salvaguardar o essencial, preservar tanto quanto possível o espírito daquela proposta, não por questões de orgulho, mas sim porque todos se tinham comprometido perante os habitantes de Toulouse e por isso sentiam o peso da responsabilidade 7 . Depois de terem efectuado as alterações necessárias, sacrificando alguns elementos do projecto inicial, de modo a obter as autorizações necessárias, iniciou-se finalmente a construção da primeira fase, constituída pelo bairro de Bellefontaine. A construção das habitações e dos equipamentos, situados em cima da dalle (imagem 4) que constituía um centro linear contínuo, iniciou-se ao mesmo tempo. Sendo naquela época a casa individual, a tipologia de habitação favorita da maioria dos Franceses, Georges Candilis pretendeu no seu projecto balançar e equilibrar três tipologias de habitações de modo a que as pessoas com possibilidades financeiras para adquirirem uma casa individual não vivessem em condições superiores àqueles que não podiam. Assim, cada uma das formas de habitação presente em Bellefontaine possuía características, vantagens e inconvenientes que lhe eram próprias. (imagem 5) Os grandes prédios de habitação (imagem 7) – cuja altura variava entre seis, dez e catorze pisos que possuíam acessos rápidos como elevadores e ruas aéreas, estavam directamente ligados às circulações viárias e aos parques de estacionamento, e beneficiavam de todas as vantagens de equipamentos socioculturais, educativos e comerciais presentes no centro linear 8 . A segunda tipologia de habitação era constituída pelos pequenos edifícios de habitação colectiva (imagem 8) compostos por oito a doze apartamentos, e cuja densidade era mais baixa. A escala desses pequenos edifícios era segundo o seu arquitecto mais “humana”. No entanto, eles eram afastados do centro linear e consequentemente, dos serviços e equipamentos. 7 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.253. 8 CANDILIS, Georges. In, GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.250. 4. Fotografia de Bellefontaine. À direita: os edifícios, ao centro: os equipamentos sobre a dalle. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 75. 55
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Por fim, a ultima tipologia de habitação, reservada aos solitários e àqueles que procuram a tranquilidade e o isolamento 9 , era constituída pelas habitações individuais, (imagem 6) com os seus jardins-pátio. Estas habitações encontravam-se mais afastadas do centro linear do que as anteriores, e para aceder aos equipamentos, tornava-se já necessário atravessar estradas e parques de estacionamento tornando os percursos mais longos e perigosos do que para aqueles que viviam nos grandes edifícios colectivos. (imagem 9) Esta distribuição das diferentes tipologias de habitação permitia, segundo Georges Candilis, evitar as distinções entre as diversas classes sociais, permitindo assim às pessoas coabitar a um nível de igualdade, num conjunto concebido para todos 10 mas, rapidamente essas noções de coabitação e de igualdade se esvaneceram. Os primeiros investimentos financeiros obtidos para a realização de Bellefontaine destinavam-se à construção das habitações sociais - os chamados HLM - o que rapidamente levou este projecto a ser considerado um “escândalo”. Aos olhos da opinião pública, Toulouse-le Mirail iria tornar-se a referência daqueles que vivem nos HLM 11 . Devido à opinião negativa que aos poucos se formava acerca de Bellefontaine, rapidamente os promotores privados, que previam a construção de várias habitações nesse território, foram anulando os seus investimentos por medo dessa inquietante promiscuidade com os habitantes dos HLM. A construção de Bellefontaine terá durado dez anos, ao longo dos quais novas condições económicas, atrasos nos pagamentos, alterações de financiamentos e modificações na legislação 12 , obrigaram a equipa de Georges Candilis a efectuar inúmeras alterações ao projecto inicial. No entanto, fiel às convicções iniciais, o arquitecto rejeitou sistematicamente todas as contrapropostas impostas por alguns técnicos que iriam destruir o projecto e afirmou até ao final da sua vida que em Bellefontaine, salvou-se o essencial. 13 9 CANDILIS, Georges. In, GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.250. 10 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.255. 11 Ibid, p.254. 12 Ibid, p.263. 13 MARRET, Mario. Filme, Le Mirail année zéro : 1970-1971. 9. Esquema. A preto: a zona de grande densidade, associada ao centro linear. À cinzento: a zona de baixa densidade. Fonte: GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.84. 57
16. Planta dos 3 bairros construídos. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 78. 64
por vias de circulação primária que acabaram por isolar o bairro. A única ligação entre estes era efectuada através de viadutos que atravessavam as perigosas vias automóveis. Georges Candilis pretendia que Toulouse –Le Mirail fosse construído de modo a que não houvesse nenhum bairro isolado e que todos os habitantes vivessem nas mesmas condições 28 . Na realidade, este projecto ambicioso, e sem dúvida desmedido, resultou na construção de três bairros separados, isolados, e cujos habitantes - de diversas classes sociais - viviam em condições bem diferentes. (imagem 16) As campanhas de renovação urbana Durante os anos que se seguiram à conclusão das obras, pouco ou nada mudou em Toulouse-Le Mirail. A década de 80 viria no entanto marcar uma grande mudança a nível de população residente. Foi nessa década que os habitantes de classe média que viviam em Toulouse-Le Mirail e que trabalhavam em fábricas e empresas na periferia de Toulouse, tiveram a oportunidade de aceder à compra habitações particulares nos arredores da cidade e as políticas de repartição de habitações sociais levaram à concentração, em Toulouse-Le Mirail, de famílias com grandes dificuldades económicas 29 o que conduziria a um empobrecimento definitivo das populações residentes neste bairro. A década seguinte viria marcar uma revolução em Toulouse – Le Mirail. Em meados dos anos 90, a chegada da linha A do Metro de Toulouse aos bairros de Mirail-Université, Reynerie e Bellefontaine, viria ligar estas zonas ao centro da cidade, o que até agora só era possível graças ao automóvel. De facto, a questão dos transportes públicos nunca fora abordada pela equipa de Georges Candilis 30 . O metro não fora inicialmente planeado para esta zona e os autocarros não podiam circular sob a dala. No entanto, esta revolução chegaria tarde demais. A acumulação de famílias com grandes dificuldades económicas e a cristalização, comum neste tipo de bairros, das relações entre os jovens 28 CANDILIS, Georges. Bâtir la vie. Un architecte témoin de son temps. Stock., 1977, p.246. 29 Revista bissemestral. Revue Urbanisme. Grand Toulouse, métropole en projets, nº40. Paris, Publications d’Architecture et d’Urbanisme, 2011, P.31. 30 GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.177. 65
18. Fotografia sobre a dala e os dois níveis de circulação. Jean Dieuzaide. Fonte: Artigo, Une ville nouvelle, Toulouse – Le Mirail. Documentation Géographique pédagogique, nº 183, Fevereiro 1971. 66
e as forças policiais, que levariam à morte de um jovem no final da década de 90 e consequentemente a violentas revoltas 31 , que se alastraram em todo o país 32 , acabariam por marginalizar definitivamente os habitantes de Toulouse – Le Mirail no pensamento dos habitantes da restante cidade. Estes fenómenos acabariam por isolar ainda mais os habitantes deste bairro. Toulouse – Le Mirail, que deveria inicialmente ser uma extensão da cidade de Toulouse, parecia tornar-se aos poucos, numa cidade independente, isolada e problemática. Face a estes problemas, a Municipalidade dos finais da década de 90 limitou-se a realizar algumas destruições de partes do centro linear, que pouco ou nada mudaram à situação. O centro linear – ou dalle– era, nas décadas de 70 e 80, apreciado pelos seus habitantes. (imagem 17) De facto, os moradores que vivem há várias décadas neste bairro recordam a dalle como sendo um espaço de convívio, até ao momento em que a Municipalidade parou de gerir esse espaço. Permitia a separação entre as pessoas e os automóveis e era um espaço agradável, que pertencia e era gerido pelo Munícipe 33 . No entanto, esta separação, (imagem 18) que constituía naquela época um verdadeiro avanço, era na realidade uma utopia demasiado cara 34 . Os custos para o Munícipe eram demasiado elevados o que rapidamente conduziu ao abandono por parte da Câmara das suas responsabilidades. O centro linear tornou-se assim num espaço deserto e sujo que os habitantes deixavam aos poucos de utilizar. Este fenómeno conduziu então na década de 90 à destruição de grande parte desta dala. Foi necessário esperar pelo início do século XXI para que grandes mudanças fossem realizadas. 31 Revista bissemestral. Revue Urbanisme. Grand Toulouse, métropole en projets, nº40. Paris, Publications d’Architecture et d’Urbanisme, 2011, P.32. 32 Em 1998, a morte de um jovem habitante de Le Mirail, abatido enquanto tentava fugir às autoridades provocou uma série de revoltas e acidentes – nomeadamente incêndios de automóveis – que se alastraram por todo o país e levaram à aplicação de medidas de segurança extraordinárias. 33 BRUZY, Bernard. In, GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.173. 34 LECLERC, Daniel. In, GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.173. 17. Fotografia sobre a dala. Fonte: Artigo, Ville ou quartier? Toulouse – Le Mirail. Bâtir nº162, Dezembro 1967, p. 79. 67
19. Fotografia aérea do bairro de Bellefontaine antes da realização do GPV. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse 20. Fotografia aérea do bairro de Bellefontaine actualmente. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse 68
Para Claude Touchefeu 35 , as cidades precisam de bairros sociais capazes de acolher as populações em dificuldades, mas isso não tem de ser sinónimo de ghettos. É necessário favorecer as circulações entre os diversos bairros e favorecer as “misturas” sociais 36 . Esta é a ambição do novo Grand Projet de Ville – GPV 37 - que tem vindo a incluir Toulouse – Le Mirail nas suas prioridades. Assim, desde 2003, dois escritórios de arquitectura, AARP 38 e Urbane 39 , têm vindo a desenvolver projectos de renovação urbana para todo o conjunto de Le Mirail, que a longo prazo visam devolver a todo o conjunto qualidades necessárias para os habitantes. Até agora, o GPV conduziu sobretudo à destruição de alguns edifícios e de partes do centro linear ainda existentes. (imagens 19 e 20) Mais de 50 anos passaram, e Toulouse – Le Mirail atravessa uma nova fase da sua história. A RELAÇÃO COM O ESPAÇO PÚBLICO Os dados que de seguida serão apresentados foram obtidos através de três métodos. O primeiro consistiu na observação directa e objectiva da realidade do bairro de Bellefontaine – ao qual este estudo se limita. Estas observações foram efectuadas a diversas horas e em vários dias da semana, de modo a compreender a evolução dos hábitos, das utilizações e das apropriações dos diversos espaços ao longo do tempo. O segundo método consistiu em questionar directamente os habitantes do bairro. Uma vez por mês, uma reunião de bairro é organizada pelos habitantes de modo a discutir alguns temas e problemas ligados à habitação. Essas reuniões constituíram uma base importante do trabalho, já que permitiram questionar directamente vários habitantes sobre os temas abordados neste trabalho. O terceiro método consistiu na participação a duas reuniões de apresentações de projectos, realizadas pelo gabinete de 35 TOUCHEFEU, Claude. Adjunta do Presidente da Camâra de Toulouse. In. Revista bissemestral. Revue Urbanisme. Grand Toulouse, métropole en projets, nº40. Paris, Publications d’Architecture et d’Urbanisme, 2011, p.32. 36 Ibid. 37 O objectivo deste procedimento é de redefinir os projectos existentes em diversos bairros da cidade – incluindo Bellefontaine – em diversas escalas temporais – 1, 5, e 15 anos – de modo a efectuar uma renovação urbana ao serviço da transformação social. 38 Gabinete de Arquitectura de Rémi Papillaut. 39 Gabinete de Arquitectura de Françoise Favarel. 69
Planta 1. Vista aérea do bairro de Bellefontaine com o parque e a praça de Bellefontaine assinalados. 1 – Edifício Louis Pergaud; 2 – Edifício Le Tintoret; 3 – Praça de Bellefeontaine; 4 – Parque de Bellefontiane. Fonte: Mickael R. 1 2 3 4 70
arquitectura AARP 40 , responsável pelo projecto de renovação urbana do bairro de Bellefontaine. Nestas reuniões, a equipa de arquitectos, os responsáveis do Munícipe e os chamados bailleurs sociaux 41 , apresentavam aos habitantes de Bellefontaine várias propostas para a renovação do bairro de modo a que sugestões pudessem ser feitas pelos moradores. Estas reuniões permitiram não só conhecer as opiniões dos habitantes sobre os diversos espaços que constituem Bellefontaine, mas também saber quais as alterações que os habitantes querem ou não ver realizadas. Bellefontaine: uma cidade dentro de outra Com uma área de cerca de 100 hectares para 10000 habitantes, Bellefontaine possui uma das maiores densidades populacionais de Toulouse. No entanto, sendo cerca de 98% da habitação do tipo colectiva 42 , cuja atura pode alcançar os 14 pisos, é também um dos bairros de Toulouse que possui a maior área de espaço não construído. É precisamente nesta área não construída, constituída na maioria por espaço públicos, que reside um dos grandes potenciais de Bellefontaine 43 . Para os seus habitantes, o pequeno parque de Bellefontaine (imagem 21) e a pequena praça situada perto da estação de metro (imagem 22) constituem espaços que estruturam não só o bairro mas também os modos de vida dos habitantes (planta 1) – como veremos mais à frente. De acordo com os seus habitantes, a elevada quantidade de infraestruturas e equipamentos – metro, escolas, centro comercial, mesquita, etc… - é também uma das características mais apreciadas em Bellefontaine. 40 Gabinete do arquitecto Rémi Papillaut. 41 Trata-se das entidades dependentes do estado que têm por missão gerir as habitações reservadas a pessoas com recursos pouco elevados. 42 DESBORDES, F ; JACQUIN, J ; JAILLET, M.C ; LAUMIERE, F ; e DE SORBIER, P. Infléchir les politiques de peuplement dans les quartiers de Reynerie et de Bellefontaine. Centre interdisciplinaire de Recherches Urbaines et Sociologiques, Toulouse, 2004. 43 Revista GPV. Grand Projet de Ville. Agence Nationale pour la Rénovation Urbaine, Toulouse, 2011. 21. Fotografia do parque de Bellefontaine. Fonte: Mickael R. 22. Fotografia da praça de Bellefontaine. Fonte: Mickael R. 71
1 2 3 4 Planta 2. Vista aérea sobre a praça de Bellefontaine. 1 – Estação de Metro de Bellefontaine; 2 – Rampa de acesso ao parque de estacionamento subterrâneo; 3 e 4 – Edifícios de comércios e restauração construídos recentemente. É possível ver na planta situada abaixo que os passeios foram alargados de modo a instalar esplanadas. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse. Vista aérea sobre a praça de Bellefontaine antes da construção dos novos edifícios. Fonte: Google Maps. 72
Com estas características, a maioria dos habitantes interrogados afirma que raramente necessitam de se deslocar fora dos limites do bairro, excepto para trabalhar, embora a percentagem de desempregados atinja os 34% 44 . O bairro de Bellefontaine torna-se assim, no pensamento dos seus habitantes, numa espécie de cidade independente, com todos os serviços e equipamentos necessários. A praça de Bellefontaine: um território masculino Pouco depois de ter iniciado este estudo, começaram a surgir noções pouco usuais, tanto no vocabulário português como no francês. Essas noções dizem respeito à sexualização dos espaços, aos seus utilizadores e ao território que cada um pode ou não frequentar. Embora não haja regras “oficiais” afirmando que um determinado espaço seja destinado ao sexo masculino ou feminino, os comentários e afirmações dos habitantes de origem Magrebina – aos quais diz respeito este estudo – bem como as observações efectuadas, demonstraram que nos seus pensamentos, estas noções estão bem presentes. É importante acentuar o facto de que as distinções que possam existir nos diversos espaços consoante o género do seu utilizador, em nada constituem numa discriminação, e em nada têm a ver com a superioridade ou inferioridade de um dos sexos. Estas distinções são o resultado de uma cultura dos habitantes que, de modo consciente ou inconsciente, dita os seus comportamentos. O primeiro espaço estruturante do bairro de Bellefontaine, claramente apropriado e utilizado pelos habitantes - e que poderemos também apelidar de espaço sexuado - é a praça de Bellefontaine. Situada imediatamente em frente à estação de metro do bairro e à principal paragem de autocarros, esta praça é o primeiro espaço público com o qual somos confrontados ao chegar a Bellefontaine. (planta 2) 44 Revista GPV. Grand Projet de Ville. Agence Nationale pour la Rénovation Urbaine, Toulouse, 2011. 73
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Esta hipótese foi reforçada numa das reuniões de consultoria à qual foi possível assistir. Actualmente, um projecto de restruturação da praça de Bellefontaine está a ser desenvolvido pelo gabinete do arquitecto Remi Papillault. Este projecto tem por objectivo reduzir a presença dos automóveis e facilitar a travessia da praça. No dia 7 de Agosto de 2012, uma reunião foi então convocada pelo gabinete AARP, à qual participaram vários habitantes do bairro, bem como alguns representantes das associações de moradores. Ao apresentar a primeira versão do projecto aos habitantes, surgiram imediatamente comentários relativos ao percurso a efectuar para atravessar a praça, o qual deveria ser corrigido. Várias pessoas, essencialmente mulheres, fizeram referência às suas amigas ou vizinhas de origem Magrebina que se recusam a passar em frente aos homens presentes na praça de Bellefontaine 50 . Este “domínio” do espaço público e especialmente do ponto estratégico que constitui a praça de Bellefontaine parece assim confirmar-se. Este espaço é, no pensamento dos habitantes de origem Magrebina, destinado aos homens, e com essa ideia interiorizada, as mulheres tendem a preferir outras alternativas para evitar o contacto com o sexo masculino. O parque de Bellefontaine: um espaço feminino Rapidamente foi possível perceber que em geral, as mulheres de origem Magrebina optam por um percurso alternativo. A razão que as leva a optar por esse percurso estará então ligada à tentativa de evitar o contacto com os homens presentes na praça de Bellefontaine. Algumas horas de observações demonstram que o percurso escolhido por estas habitantes para atravessar o bairro consiste em passar pelo parque de Bellefontaine. (imagens 24 e 25) Este parque é um dos maiores da cidade de Toulouse, e faz parte de uma complexo esquema desenvolvido pela equipa vencedora. Esse esquema consistia em criar massas de árvores, aproveitar as fontes de 50 Uma dessas afirmações foi feita pela Sra. Pierrette, de origem Francesa, que vive em Bellefontaine há mais de 30 anos. Referiu-se à sua vizinha e amiga de origem Argeliana que, ao saír da estação de metro, prefere efectuar um percurso bem mais longo, atravessando o pequeno parque, para evitar o contacto com os homens. 24 e 25. Fotografias de várias mulheres de origem Magrebina no parque de Bellefontaine. Fonte: Mickael R. 81
Planta 5. Vista aérea sobre a praça de Bellefontaine. Ao deslocar a rampa de acesso ao parque de estacionamento, a saída para Sul seria directa. Fonte: Mickael R. 82
água e parques já existentes – como por exemplo o parque do pequeno palácio de Reynerie – de modo a criar uma estrutura para o bairro. Esta ideia resultou numa das mais belas ideias do projecto realizado: a liberdade de circulação entre a grande densidade do centro linear e o passeio em plena natureza 51 . (imagem 26) Durante uma das reuniões de moradores, uma dessas habitantes de origem Magrebina do edifico Le Tintoret afirmou que gostava de passar pelo parque e que não se importava de percorrer uma maior distância. A ideia de percurso alternativo era na realidade um desejo da equipa de G. Candilis. No entanto, hoje em dia esse percurso é pouco cómodo e obriga a grandes desvios. É de facto possível sair pelo piso superior da estação de metro e, para evitar a praça de Bellefontaine, é necessário passar por um viaduto (imagem 27) – construído depois da destruição da dala em 2007 e que deveria ser demolido pouco depois – para depois descer uma rampa estreita e muito inclinada, (imagem 28) de modo a poder atravessar o parque de estacionamento de um supermercado e finalmente aceder ao parque de Bellefontaine. Ora, numa época em que a praça de Bellefontaine está a ser alvo de um projecto de restruturação, uma alternativa a este percurso difícil poderia ser realizada tendo em conta as necessidades dessa cultura. Como já foi dito, a praça de Bellefontaine é rasgada pela rampa de acesso a um parque de estacionamento subterrâneo. Uma das soluções possíveis seria então deslocar a entrada para o parque de estacionamento que se situa por baixo da praça alguns metros para Oeste. Desse modo, a totalidade da praça seria liberta, e à saída da estação de metro seria possível seguir directamente para sul, sem ter de passar em frente a todos os moradores do sexo masculino que se situam do lado Este da praça. (planta 5) Este tipo de soluções sem dúvida poderia satisfazer as necessidades dos habitantes de várias culturas, pois não impede a utilização do espaço público e mantém a ideia de percurso alternativo que G. Candilis pretendia, sem que este seja desagradável. 51 PAPILLAULT, Remi. In, GRUET, Stéphane et PAPILLAULT, Rémi. Le Mirail, Mémoire d’une ville. Edições Poiésis, Toulouse, 2008, p.187. 26. Esquema. A verde: as zonas vegetalizadas que acompanham o centro linear. Fonte: Artigo, Paris parrallèle, Achitecture d’aujourd’hui, nº 101, Abril e Maio de 1962. 27. Fotografia do viaduto frente à estação de metro de Bellefontaine. Fonte: Mickael R. 28. Fotografia da rampa. Fonte: Mickael R. 83
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É por isso sem dúvida importante ter em conta os utilizadores, bem como a sua relação com o espaço, de modo a poder planear eficazmente a tarefa difícil que constitui uma intervenção num bairro como o de Bellefontaine. 85
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3. OS ESPAÇOS INTERMÉDIOS 87
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OS ESPAÇOS INTERMÉDIOS Depois de abordar a ampla escala que representa o domínio público do bairro de Bellefontaine, e antes de abordar a esfera privada da habitação, é necessário reflectir e analisar a escala intermédia composta pela envolvente próxima dos edifícios. Vários termos são susceptíveis de definir esses espaços, no entanto, optaremos por lhes chamar “espaços intermédios”, em referência à designação utilizada por Christian Moley no seu livro “Les abords du chez-soi, en quête d’espaces intérmediaires” 1 . Estes espaços, que permitem a passagem entre a escala urbana e a escala doméstica 2 , ganham neste estudo uma dimensão particular já que, na cultura Magrebina, permitem também a passagem entre o “espaço masculino” e o “espaço feminino”. Os espaços intermédios são o testemunho dos amplos esforços de recomposição, de extensão ou de protecção das fronteiras do privado realizadas pelos habitantes 3 , e a sua análise na temática da apropriação torna-se por isso essencial na medida em que permitem compreender as consequências da sua criação - ou destruição – para os habitantes. Os dados que de seguida serão apresentados foram obtidos através dos mesmos métodos que os dados apresentados no capítulo anterior. Esses métodos correspondem, como já foi dito, à observação directa e objectiva da realidade, ao questionamento directo de alguns habitantes, e à participação em várias reuniões de bairro e de apresentação de projectos aos habitantes que permitiram ouvir diversas opiniões de moradores, arquitectos e representantes da câmara. 1 MOLEY, Christian. Les abords du chez-soi, en quête d’espaces intermédiaires. Edições de la Vilette, Paris, 2006. 2 Ibid, p.6. 3 NAVEZ – BOUCHANINE, Françoise. Habiter la ville marocaine. Edições l’Harmattan, Paris, 1997, p.75. 89
2. Fotografia aérea do bairro de Bellefontaine antes da realização do GPV. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse 3. Fotografia aérea do bairro de Bellefontaine actualmente. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse 96
Ao questionar os utilizadores deste espaço, foi possível perceber que alguns não eram habitantes do edifício Louis Pergaud, mas sim moradores do edifico situado do outro lado da rua. Não tendo nenhum campo de desporto nesse edifício, optavam por utilizar o do edifício Louis Pergaud. Por fim, o último espaço que parece amplamente utilizado pelos habitantes é sem dúvida o mais improvável. Trata-se do parque de estacionamento situado a Sudeste do edifício. As observações demonstraram que, à semelhança dos outros espaços, este encontra-se quase sempre vazio durante o dia. No entanto, tal como a praça de Bellefontaine, é a partir das 18h, amplamente utilizado por habitantes do sexo masculino. Ao interrogar esses habitantes sobre a razão que os levaria a permanecer neste espaço austero, destinado aos automóveis, nenhum parece ter de facto uma explicação, apenas afirmam em geral que gostam de se juntar aqui com os seus vizinhos e amigos depois do trabalho, sem saber exactamente porquê. Apesar de possuir espaços envolventes bem diferentes a nível de forma e de tratamento, no edifício Le Tintoret, este tipo de utilizações do espaço parecem repetir-se. Situado na cota mais baixa do bairro de Bellefontaine, o edifício Le Tintoret estava, no momento da sua construção, ligado a outros edifícios através de uma dala continua. Em 2007, o projecto de restruturação do bairro de Bellefontaine, (imagens 2 e 3) realizado pelo arquitecto Rémi Papillault, levou à destruição de vários edifícios que estavam directamente ligados a Le Tintoret. Quatro anos depois, em 2011, parte da dalle que ligava esses edifícios foi também destruída. (imagens 4 e 5) O objectivo dessas destruições era permitir as travessias do bairro de Bellefontaine de Este para Oeste 7 , o que antes não era possível. Por essas razões, o espaço em torno do edifício Le Tintoret caracteriza-se, de alguma forma, pela sua falta de coerência. Actualmente, este espaço está a ser alvo de um projecto que visa a devolver-lhe as qualidades perdidas devido às destruições. 7 Revista GPV. Grand Projet de Ville. Agence Nationale pour la Rénovation Urbaine, Toulouse, 2011. 4. Fotografia aérea do edifício Le Tintoret antes da realização do GPV. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse 5. Fotografia aérea edifício Le Tintoret actualmente. Fonte: Câmara Municipal de Toulouse 97
Planta 3. Vista aérea sobre a zona de estudo do edifício Le Tintoret. 1 – Dalle conservada com parque de estacionamento subterrâneo; 2 – Parque de estacionamento; 3 – Parque infantil; 4 – Infantário. Fonte: Mickael R. 1 4 2 3 98
A Sul do edifico Le Tintoret, encontra-se um jardim no centro do qual se situa um infantário. Entre este jardim e o edifício, encontra-se um parque de estacionamento e uma antiga via de circulação que foi fechada ao trânsito nos últimos anos. Ao lado do infantário situa-se também, á semelhança do edifício Louis Pergaud, um pequeno parque infantil. Este amplo espaço, limitado em toda a sua área por altas construções, e ao qual o acesso é feito através de uma perfuração no edifico, revela assim uma total falta de hierarquia, na medida em que mistura espaços de lazer, espaços de aprendizagem e espaços destinados ao parqueamento de automóveis. Por fim, a Norte do edifício encontra-se parte da dalle inicial. (imagem 6) Em 2011, optou-se, no projecto de restruturação de Bellefontaine, por conservar parte da dala por duas razões. A primeira deve-se ao facto de que esta não impede a travessia do bairro no sentido Este – Oeste, não era por isso necessário destruí-la. A segunda razão deve-se ao facto de existir um parque de estacionamento por baixo dessa dala, que se revela muito útil para este edifício. (planta 3) A nível de utilização e de apropriação destes espaços pelos habitantes, encontram-se pontos comuns em relação ao edifício Louis Pergaud. Mais uma vez, os comportamentos dos habitantes parecem aqui organizados, hierarquizados consoante as idades e os sexos dos utilizadores. A partir das 17h, tal como no edifício anterior, o pequeno parque infantil passa a ser utilizado por crianças que habitam este edifício. No entanto, uma diferença em relação ao caso anterior aparece aqui. No edifico Le Tintoret, as crianças parecem não estar acompanhadas pelas suas mães, ao contrário do que já foi visto, onde o parque infantil se tornava um ponto de encontro para as mulheres. Numa reunião de bairro à qual foi possível participar, foi perguntado duas mães de família, a razão que poderia levar a esta situação. A resposta foi muito simples, os apartamentos deste edifício possuem duas frentes, uma das quais virada directamente para o parque infantil. As mães de família podem assim observar os seus filhos desde a varanda do apartamento. 6. Fotografia da dala conservada no edifício Le Tintoret. Fonte: Mickael R. 99
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Entre um jardim e o edifício, no espaço destinada aos automóveis, a situação assemelha-se à do edifício Louis Pergaud. A partir das 18h, vários homens encontram-se aqui para conversar, geralmente durante cerca de uma ou duas horas. Passado esse tempo, voltam para as suas casas para jantar 8 . Por fim, o último espaço claramente ocupado pelos habitantes é a dalle. Ao contrário dos outros espaços, não parece haver aqui nenhum “horário” específico de utilização. Ao longo do dia, vários jovens do sexo masculino encontram-se aqui onde permanecem durante várias horas. (imagem 7) Quando interrogados sobre a causa dessa presença na dala, apenas respondem que estão desempregados então passam aqui grande parte do dia. De facto, em Bellefontaine a percentagem de desemprego atinge os 33,2% 9 contra 9,9% 10 de média em Toulouse. Apesar de muitos habitantes não conseguirem explicar com precisão as razões que os levam a utilizar determinado espaço, ou vice-versa a evitá-lo, parece haver, em ambos os edifícios, uma organização social que determina a utilização do espaço consoante o sexo e a idade dos utilizadores. Essa utilização poderá por sua vez, ser influenciada pelo próprio espaço. É então necessário procurar nos modus vivendi das culturas Magrebinas possíveis explicações para estes acontecimentos, de modo a poder planear ou simplesmente alterar estes espaços sem entrar em confronto com os habitantes. A segregação sexual do espaço é como já vimos, uma realidade nos países do norte de África, e os espaços femininos nem sempre coincidem com os espaços masculinos. Esta divisão sexual do espaço é, nos países de origem, transmitida às crianças através da educação, feita essencialmente pelas mulheres 11 . Esta educação parece de facto manterse mesmo em situação de imigração. 8 Foi possível constatar em diversas ocasiões que os habitantes do sexo masculino que se encontram no exterior da habitação, são chamados por telefone pelas suas mulheres para ir para casa. Alguns habitantes chegaram a abandonar uma das reuniões de consultoria à qual estavam a participar afirmando que as suas mulheres estavam à espera. 9 Revista GPV. Grand Projet de Ville. Agence Nationale pour la Rénovation Urbaine, Toulouse, 2011. 10 Dados do Instituto Nacional de Estatística. 2011. 11 BEKKAR, Rabia, Usages différenciés et pratiques de cohabitation. In, La prise en compte de l’usage. Comment mettre les habitants, clientes, citoyens, usagers au coeur des décisions. Actes de séminaire CSTB, Ministère de l’Équipement et des Transports, 5 Octobre 1999, p.117. 7. Fotografia da dala do edifício Le Tintoret ocupada por um grupo de jovens. Fonte: Mickael R. 101
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O espaço doméstico em França é sem dúvida invadido pela esfera pública, devido à escolarização das crianças, à televisão, às práticas de desporto etc… Mas, os modelos de educação do país de origem que os adultos aprenderam enquanto crianças, continuam actualmente a ser ensinados aos jovens. Ora, a transmissão dos valores do país de origem apoia-se sobre o respeito dos limites do território das mulheres e dos homens 12 . Segundo Rabia Bekkar 13 , aos jovens do sexo masculino, ensina-se a importância do espaço público e a importância simbólica que possui o facto rodeado de outros jovens do mesmo sexo. Às jovens do sexo feminino, pelo contrário, ensina-se não só a obrigação de permanecer em casa mas também os perigos decorrentes de uma presença no espaço público. Constantemente encorajados a permanecer o maior tempo possível no exterior, os jovens rapazes são ejectados para fora do espaço das mulheres 14 . Os espaços intermédios, tal como o espaço público, são por isso espaços de socialização para os moradores do sexo masculino de origem Magrebina. No que diz respeito à utilização dos espaços exteriores pelos mais jovens, é importante acentuar o facto de que não se trata de um desleixe por parte dos pais no que diz respeito à educação. Trata-se na realidade de uma divisão social e sexual do espaço claramente estabelecida 15 . Na cultura Magrebina estas modalidades de ocupação do espaço possuem uma grande coerência. No longo processo que constitui a aprendizagem da importância da prática do espaço público para os rapazes, são os irmãos ou primos mais velhos que possuem o papel de acompanhantes, e não os pais 16 . 12 BEKKAR, Rabia, Usages différenciés et pratiques de cohabitation. In, La prise en compte de l’usage. Comment mettre les habitants, clientes, citoyens, usagers au coeur des décisions. Actes de séminaire CSTB, Ministère de l’Équipement et des Transports, 5 Octobre 1999, p.117. 13 Socióloga do urbano e da imigração. É Professora na Universidade de Paris Oeste. Possui Doutoramento cujo tema é centrado sobre as mulheres Magrebinas, e é autora de vários estudos sobre a internacionalização do Islão. 14 BEKKAR, Rabia, Usages différenciés et pratiques de cohabitation. In, La prise en compte de l’usage. Comment mettre les habitants, clientes, citoyens, usagers au coeur des décisions. Actes de séminaire CSTB, Ministère de l’Équipement et des Transports, 5 Octobre 1999, p.117. 15 Ibid 16 BORDET, J. In BEKKAR, Rabia, Usages différenciés et pratiques de cohabitation. Actes de séminaire CSTB, Ministère de l’Équipement et des Transports, 5 Octobre 1999, p.118. 103
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Parece então óbvio que este contexto sociológico justifica a presença massiva de jovens e homens do sexo masculino no espaço público e nos espaços intermédios. No que diz respeito à forte utilização de determinados espaços tais como o parque de estacionamento do edifício Louis Pergaud, ou a dala do edifício Le Tintoret, e à não utilização do jardim situado a Oeste do edifico Louis Pergaud por exemplo – que permanece vazio ao longo de todo o dia e mostra claros sinais de não utilização (imagem 8) – poderá explicar-se, tal como na praça de Bellefontaine, por questões estratégicas de visibilidade. De facto, o jardim situado ao Oeste do edifico Louis Pergaud encontra-se totalmente encerrado e afastado do domínio público propriamente dito, enquanto o parque de estacionamento e a dalle possuem uma visão directa sobre a rua, o que poderá permitir aos homens reforçar o seu domínio sobre o espaço público através de relações visuais. Esta hipótese poderá também explicar a utilização inversa desses espaços por parte das mulheres. De facto, as causas da permanência no parque infantil do edifício Louis Pergaud e da não permanência das mulheres Magrebinas no parque infantil do edifico Le Tintoret, poderão na realidade ultrapassar a questão da visibilidade através das varandas dos apartamentos mencionada mais acima. Na realidade, o parque infantil do edifico Louis Pergaud é totalmente isolado do resto dos espaços comuns, enquanto no edifico Le Tintoret, este encontra-se frente a um espaço amplamente utilizado pelos habitantes do sexo masculino. As questões relacionadas com a evitação do contacto com os homens que levam as mulheres a utilizar determinados percursos – como foi referido no capítulo anterior - poderão também levá-las a não utilizar determinados espaços – como por exemplo o parque infantil - de modo a não entrarem em contacto, de maneira prolongada, com elementos do sexo masculino. 8. Fotografia do jardim do edifício Louis Pergaud. Este encontra-se vazio na maior parte do tempo. Fonte: Mickael R. 105
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como também poderá levar alguns jovens a ultrapassar os limites do espaço que lhes é destinado e a apropriar-se os espaços de circulação, em busca de espaços que lhes possam ser destinados. Depois desta análise, parece então evidente que estes “modelos” culturais possuem algumas características que influenciam directamente a utilização do espaço bem como o seu tratamento por parte dos habitantes. O bairro de Bellefontaine tem sido nos últimos anos objecto de várias intervenções por parte de arquitectos. Parece então óbvio que o conhecimento desses modus vivendi poderá ajudar na definição e no tratamento desses espaços. A reflexão sobre os espaços de socialização que rodeiam os edifícios, e consequentemente o seu tratamento poderá na realidade passar por uma hierarquização e uma distinção clara dos espaços: espaços de jogos para as crianças, lugares de encontro onde os jovens poderiam conversar e eventualmente praticarem desporto 21 , e por fim, espaços mais “íntimos”, e resguardados como por exemplo jardins infantis dos quais qualquer mulher, seja qual for a sua origem, poderia desfrutar. Este tipo de abordagem não pretende satisfazer unicamente os habitantes de origem Magrebina, já que estas formas de hierarquização dos espaços são totalmente aceitáveis na cultura ocidental e poderiam por isso permitir aos habitantes viver numa única comunidade, tal como pretendia Georges Candilis. 21 BEKKAR, Rabia, Usages différenciés et pratiques de cohabitation. In, La prise en compte de l’usage. Comment mettre les habitants, clientes, citoyens, usagers au coeur des décisions. Actes de séminaire CSTB, Ministère de l’Équipement et des Transports, 5 Octobre 1999, p.118. 113
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4. A CASA 115
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A APROPRIAÇÃO DA HABITAÇÃO A última escala de análise deste trabalho diz respeito à habitação propriamente dita. É aqui, no meio mais privado do habitante, que a apropriação atinge o seu nível máximo. De facto, a habitação constitui um “conservatório das culturas”, um espaço privado protegido das influências exteriores, uma “cidadela doméstica” particularmente defendida nas culturas Magrebinas 1 . Compreender o habitat através das práticas dos seus habitantes, pressupõe que os modos de apropriação possuem um papel activo e inovador nas formas de habitat. Essas formas, sejam elas boas ou más, são um recurso essencial que permite ser alterado. O utilizador, que efectua a acção de habitar, apoia-se assim nas potencialidades que essas formas oferecem e procura neutralizar as suas deficiências 2 . São precisamente essas deficiências, esses conflitos, que se tornam objecto deste estudo porque são eles que evidenciam a existência de duas acções: conceber e viver o habitat. A primeira diz respeito a uma concepção doutrinal que integra diversos componentes relativos à arquitectura, ao urbanismo, e à gestão económica e social. A segunda diz respeito à prática dos habitantes que integram modelos culturais e dinâmicas de apropriação específicas 3 . Neste caso de estudo, é precisamente a compreensão da acção de viver o habitat, e consequentemente as suas apropriações por parte dos habitantes de cultura Magrebina, que poderá permitir “melhorar” a acção de o conceber por parte dos arquitectos e urbanistas. 1 BEKKAR, Rabia, Usages différenciés et pratiques de cohabitation. In, La prise en compte de l’usage. Comment mettre les habitants, clientes, citoyens, usagers au coeur des décisions. Actes de séminaire CSTB, Ministère de l’Équipement et des Transports, 5 Octobre 1999, p.111. 2 NAVEZ – BOUCHANINE, Françoise. Habiter la ville marocaine. Edições l’Harmattan, Paris, 1997, p.1. 3 PINSON, Daniel. Modèles d’habitat et contre-types doméstiques au Maroc. Ecole d’architecture de Nantes. Nantes, 1989, p.7. 117
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AS CÉLULAS DE HABITAÇÃO DO BAIRRO DE BELLEFONTAINE A tipologia de Georges Candilis O edifício Louis Pergaud, da autoria de Georges Candilis, é constituído por vários módulos de dois apartamentos associados entre eles cuja tipologia de base é a junção de dois apartamento tipo T3. Esta tipologia que constitui uma das células de habitação mais inovadoras para aquela época 4 , foi o resultado não só de uma longa pesquisa por parte do arquitecto, mas também de várias imposições regulamentares – nomeadamente em relação à superfície máxima das habitações sociais – e limitações financeiras 5 , contra as quais que Georges Candilis lutou de modo a manter os elementos que caracterizam esta tipologia. Ao longo de toda a sua carreira, Georges Candilis manteve um certo afastamento face às normas e aos regulamentos. Tal como o seu “mestre” Le Corbusier – com o qual teve a oportunidade de trabalhar – Georges Candilis atacava constantemente nas suas publicações as imposições regulamentares que não se adequavam à modernidade. Para ele, as normas eram por natureza atrasadas em relação ao seu tempo. Era e é normal para um arquitecto tentar de modo constante transgredi-las 6 . Como já foi dito, esta célula de habitação foi o resultado de vários estudos e projectos realizados por Georges Candilis nas décadas de 50 e 60. Curiosamente, todo este processo que conduziu a esta tipologia iniciou-se precisamente em Marrocos. 4 PAPILLAULT, Rémi. Toulouse 1945/1975 ; la ville mise à jour. Edições Loubatieres, Toulouse, 2009, p.147. 5 Carta de Georges Candilis ao Presidente da Câmara Louis Bazerque, na qual relata as alterações efectuadas ao projecto de modo a reduzir os custos da construção. 1964. Arquivo Municipal de Toulouse. 6 PAPILLAULT, Rémi. Toulouse 1945/1975 ; la ville mise à jour. Edições Loubatieres, Toulouse, 2009, p.148. 119
1. Edificio de habitação em Casablanca. G. Candilis, e S. Woods. 1952. Fonte: CAPANNINI, Letizia. Habitat collectif méditerranéen et dynamique des espaces ouverts. Cas d’étude en Europe et en Afrique du Nord. Labortoire ACSUniversidade de Paris VIII. 120
Em 1951, Georges Candilis chega a Casablanca e conhece Michel Ecochard 7 , que o convida a trabalhar sobre a questão urgente da habitação para a grande quantidade de habitantes derivados do êxodo rural em Marrocos e que até ao momento se viviam em péssimas condições nas periferias das grandes cidades. Foi nesse momento que Georges Candilis, em conjunto com o ATBAT-África 8 iniciaram os seus estudos sobre o habitat em Marrocos - cujos resultados foram publicados em Janeiro de 1953 9 – e que conduziram a concepção de uma nova tipologia de habitação chamada Sémiramis. Para os arquitectos, segundo a ética e as condições climáticas, a habitação de uma família marroquina é composto de quartos que abrem para um pátio interior, inundado de luz. Este pátio é o verdadeiro “lar”, o espaço de convívio da família, ele responde à função de “reunir”, e é rodeado por paredes altas de modo a salvaguardar a intimidade da vida familiar. O problema que se colocou aos arquitectos foi o de encontrar uma solução similar na vertical onde o pátio seria também inundado de luz natural de modo a fornecer iluminação aos quartos 10 . A solução proposta consistia por isso na organização das várias células de habitação às quais se acedia através de uma galeria. Estas células organizavam-se em torno de pátios suspensos cuja posição se alternava de piso para piso de modo a obter um pé-direito duplo propício à boa iluminação e ventilação da casa. 11 (imagem 1) Encontramos nas células de habitação de Bellefontaine o mesmo sistema de distribuição através de galerias bem como a dupla orientação das habitações, também presente na tipologia Sémiramis. 7 Michel Echochar. (1905-1985). Foi Director do Urbanismo em Marrocos. 8 ATBAT – Atelier des Bâtisseurs: Foi criado por Le Corbusier e Vladimir Bodiansky em 1947. Este escritório pretendia definir uma nova relação entre arquitectos, engenheiros e empresas. Em 1949, ao convite de Michel Ecochard, Vladimir Bodiansky e Marcel Iods criam a filial do ATBAT-Africa à qual Georges Candilis se junta em 1951. 9 CANDILIS, Georges; WOODS, Shadrach; PIOT, Henri; com a supervisão de BODIANSKY, Vladimir. Habitat collectif marrocain. In, Architecture d’Aujourd’hui, nº46. Janeiro 1953, pp. 98-99. 10 Ibid, p.98. 11 PAPILLAULT, Rémi. Toulouse 1945/1975 ; la ville mise à jour. Edições Loubatieres, Toulouse, 2009, p.149. 121
7. Planta do apartamento tipo do edifício Le Tintoret. Escritório APA. Escale: 1/150 Fonte: Mickael G. Loggia Loggia Sala Quarto Quarto Quarto 128
A tipologia da APA O edifício Le Tintoret da autoria do gabinete de arquitectura APA é, à semelhança do edifício anterior, constituído por associações de módulos cuja base é a associação de dois apartamentos tipo T3. O programa para a construção deste edifício foi definido em 1967 pelo arquitecto G. Candilis e possuía uma série de regras a respeitar – tais como os sistemas de distribuição por “ruas aéreas”, a presença de varandas nos apartamentos ou os painéis deslizantes nas janelas – que condicionavam de maneira importante as possibilidades do gabinete APA. Assim, o projecto desses arquitectos aproxima-se, de maneira geral, da composição já realizada pelo arquitecto G. Candilis, apesar de ter simplificado essa tipologia. Este módulo de base (imagem 7) é constituído por 5 tramas – 2.7m, 3.6m, 2.7m, 3.6m e novamente 2.7m. Ao contrário dos apartamentos projectados por G. Candilis, aqui as distribuições verticais situam-se na trama central de 2.7m, que correspondem também aos quartos suplementares que se podem adicionar ou subtrair a ambos os apartamentos, de modo a criar uma associação de um T2 com um T4. As tramas de 3.60m correspondem às salas e a um quarto mas também a uns arrumos e as últimas tramas de 2.7m correspondem às cozinhas, quartos e salas de banho. Ao contrário dos apartamentos projectados por G. Candilis, estes possuem apenas um nível, e a sua organização demonstra também uma grande simplicidade. A partir da entrada acede-se a um ou dois quartos consoante a tipologia, aos arrumos e à sala, através da qual se efectua a restante distribuição. Mais uma vez, os apartamentos possuem dupla orientação – que era uma das regras definidas pelo programa de G. Candilis – mas o sistema de loggia é alterado. Os painéis deslizantes situam-se ao nível das janelas, o que impede os habitantes de “fechar” a varanda em relação ao exterior. Cada apartamento possui assim uma área exterior de 16m2 ou seja 18.6% da sua superfície total. Ao contrário do projecto anterior, aqui a profundidade dos espaços exteriores variam consoante o espaço que servem. 129
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A nível construtivo, estes apartamentos possuem, devido a razões económicas, o mesmo sistema de paredes portantes do que o edifício anterior, e os problemas que daí resultam são similares. A CASA: UM TERRITÓRIO PROIBIDO PARA O HOMEM “ESTRANGEIRO” Ao longo deste trabalho tem-se confirmado o facto de que é quase impossível realizar um estudo sobre o habitat e a sua relação com a cultura Magrebina, sem efectuar também uma referência à noção de “família”. As questões relativas à sua importância na sociedade, ao lugar que cada individuo ocupa e a relação que estabelecem ambos os sexos, têm-se revelado essenciais para este estudo. Vários autores fazem referência, no que diz respeito à cultura Magrebina, à clausura inerente à habitação, lugar de assignação da mulher, que possui o papel de protectora da família e essencialmente da descendência 18 . Ao longo do desenvolvimento deste trabalho, várias situações iam confirmando a existência dessa clausura. De maneira consciente ou inconsciente, os habitantes de origem Magrebina demonstravam - como veremos mais à frente – que a habitação é de facto um território feminino. Essa condição da habitação gerou várias dificuldades, na medida em que este trabalho é realizado por uma pessoa do sexo masculino, exterior às famílias residentes nessas habitações. Limitações do estudo Ao iniciar este estudo foi possível perceber dolorosamente que a análise das habitações, do território mais privado, seria uma tarefa complicada. Ao longos das diversas reuniões de moradores às quais foi possível participar, vários moradores do sexo masculino – pois geralmente as mulheres não participam nessas reuniões – aceitaram abrir as portas da sua intimidade de modo a poder realizar este estudo. No entanto, em inúmeras ocasiões, estes recusavam depois de terem 18 PINSON, Daniel. Modèles d’habitat et contre-types doméstiques au Maroc. Ecole d’architecture de Nantes. Nantes, 1989, p.42. 131
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conversado com as suas mulheres, que não aceitavam receber um convidado “estranho” em casa. Um dos habitantes do edifico Le Tintoret, presidente da associação de moradores – de origem Paquistanesa – informou-me de que as mulheres de origem Magrebina recusariam sem dúvida receber uma pessoa do sexo masculino em suas casas. Esta dificuldade parece resultar mais uma vez do papel que a cultura Magrebina atribui às mulheres. Excluídas do poder político e do poder económico, o papel social das mulheres está claramente definido: são consignadas a um serviço doméstico, sexual e sobretudo procriador. Apenas uma mulher que tiver resalizado de maneira correcta este serviço merece o reconhecimento masculino e apenas uma mulher que dê à luz um rapaz será a única reconhecida pelos homens 19 . Este papel social fundamental para a mulher faz com que a habitação se torne num espaço sagrado e excessivamente protegido pois ela é o lugar onde se realiza o acto de procriação e de educação da descendência essencial para as famílias Magrebinas. Ao mesmo tempo, este papel essencial da mulher e a protecção da habitação que daí deriva contribui para valorizar a mulher neste tipo de funções domésticas centradas sobre a procriação que tendem a agir de modo voluntário para proteger esse estatuto 20 . Assim, o espaço doméstico torna-se de algum modo num território proibido, dificultando a análise da escala da habitação. Algumas famílias aceitaram no entanto abrir as portas das suas habitações para a realização deste estudo, o que permitiu observar alguns fenómenos repetidos. Mais uma vez a participação em diversas reuniões de moradores permitiu interrogar os habitantes de origem Magrebina de modo a perceber quais os pontos mais negativos das suas habitações, que constituem uma verdadeira oposição às suas culturas. Por fim, foi também possível interrogar o arquitecto Benoît Chansson que foi encarregue da reabilitação de vários edíficos de Bellefontaine. 19 BOURDIEU, Pierre. Le sens pratique, p.97. In, PINSON, Daniel. Modèles d’habitat et contre-types doméstiques au Maroc. Ecole d’architecture de Nantes. Nantes, 1989, p.58. 20 PINSON, Daniel. Modèles d’habitat et contre-types doméstiques au Maroc. Ecole d’architecture de Nantes. Nantes, 1989, p.58. 133
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A experiência deste arquitecto e os inúmeros casos de transformações das habitações dos quais foi testemunho permitiram confirmar algumas situações visíveis nos apartamentos visitados ou referidos pelos habitantes nas reuniões de moradores. AS TRANSFORMAÇÕES DAS CÉLULAS DE HABITAÇÃO Os espaços de estar: o desnível posto em causa Apesar das duas tipologias de habitação analisadas possuírem uma organização funcional praticamente semelhante, uma das maiores distinções situa-se ao nível do seu perfil, pois a habitação desenvolvida por Georges Candilis desenvolve-se sobre dois níveis enquanto que a habitação desenvolvida pelo escritório APA desenvolve-se sobre um único nível. Ora, este desnível presente na tipologia de Georges Candilis é sem dúvida um dos elementos mais contestados e contrariados pelos habitantes de origem Magrebina presentes em Bellefontaine, que tentam, através de diversos dispositivos, “apagar” ou anular o impacto desse desnível no espaço. Ao questionar, nas diversas reuniões de moradores, os habitantes sobre as qualidades e defeitos das suas habitações, os comentários variavam consideravelmente consoante o edifício no qual nos encontrávamos. No que diz respeito às salas de estar, o espaço central da casa, os habitantes do edifício Le Tintoret, projectado pelo escritório APA tendiam a valorizar a sua dimensão. Com uma área de 24,5m2, estas possuem sem dúvida uma superfície superior à média desses espaços nos edifícios de habitação social em Toulouse, que geralmente ronda os 19m2. O único motivo de descontentamento referido pelos habitantes acerca desse espaço diz respeito ao pavimento de linóleo – já desgastado pelo uso - que alguns habitantes gostariam de ver substituído. Este elemento não parece no entanto ser relevante para este estudo. 135
8 e 9. Fotografias do interior de dois apartamento do edifício Le Tinoret. Fonte: Mickael G. 136
Durante as visitas efectuadas em diversos apartamentos do edifico Le Tintoret, foi possível constatar que de facto não existia qualquer tipo de transformação visível desse espaço, o que traduz de algum modo uma certa adequação às necessidades dos habitantes. A organização espacial dessas salas revelou-se, em todos os casos visitados idêntica. O mobiliário escolhido pelos habitantes para estes espaços é sistematicamente do tipo “oriental”. Longos sofás encontram-se encostados às paredes laterias da sala e uma ou duas mesas 21 situam-se em posições aleatórias e permitem ser movidas consoante as necessidades. (imagens 8 e 9) No caso do edifico Louis Pergaud, da autoria de Georges Candilis, a situação revela-se mais complicada. Ao serem questionados sobre as qualidades e defeitos das suas habitações, a questão do desnível é imediatamente colocada. Na maioria dos casos, os habitantes de origem Magrebina que foi possível interrogar, não conseguem perceber a utilidade desse desnível na sala, chegando até a questionarem-se sobre a razão que levaria um arquitecto a projectar uma sala que consideram disfuncional. Segundo os habitantes interrogados, o desnível que divide a sala não permite a colocação de determinado tipo de mobiliário – referindo-se claramente aos longos sofás orientais. Ao contrário do caso anterior, nestas habitações, as marcas de transformação são claramente visíveis, confirmando assim uma inadequação aos modos de vida das culturas Magrebinas. O primeiro tipo de transformação deste espaço parece consistir numa tentativa de anulação do desnível. Ao projectar esta célula de habitação, Georges Candilis pretendia uma continuidade entre o espaço “flexível” e a sala, que ao abrir o painel deslizante poderiam estar directamente ligados. Ora, é precisamente a situação contrária que parece acontecer. Não foi possível encontrar nenhum apartamento onde o painel deslizante ainda estivesse presente. Ao longo dos anos, os habitantes parecem ter sistematicamente encerrado o espaço “flexível” em relação à sala 21 Em diversas ocasiões foi possível constatar que os habitantes instalam rodas nas pernas das mesas de modo a poder movê-las consoante as suas necessidades. Assim, esse mobiliário serve não só para refeições mas também como banca para a preparação dos alimentos quando as “matriarcas” decidem acompanhar a restante família enquanto se dedica à preparação. 137
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A questão da privacidade parece por isso estar na origem dessa utilização que de alguma maneira contrasta com a utilização dos espaços exteriores nos países do norte de África. Na cultura Magrebina, os espaços exteriores possuem uma importância fundamental para as mulheres. São para o sexo feminino não só espaços de trabalho mas também de reunião com outras mulheres, espaços de descanso, de contacto com o céu e com o sol 28 . A importância deste espaço nos países do Norte de África para o sexo feminino está sem dúvida relacionado com a clausura domestica a que as mulheres estão sujeitas, imposta pelas regras sociais da sociedade. Assim, para Daniel Pinson, esses espaços exteriores podem na realidade ser compensatórios da clausura feminina 29 . Uma outra característica desses espaços exteriores nas habitações do norte de África tem a ver com a protecção que estes oferecem em relação ao exterior. Segundo Georges Candilis, o espaço exterior tradicionalmente Marroquino – que corresponde a um pátio – é rodeado por altos muros que salvaguardam a intimidade da família 30 . Esta questão da intimidade aproxima-se das críticas efectuadas pelos habitantes acerca da visibilidade excessiva das loggias através do exterior. Este tipo de análise dos espaços exteriores poderá sem dúvida levar os arquitectos a questionarem-se sobre a utilidade destes espaços, de facto, dois cenários são possíveis. O primeiro consistiria em integrar nos projectos espaços exteriores íntimos e resguardados, dos quais tanto os habitantes de origem Ocidental como de origem Magrebina poderiam usufruir. O segundo corresponderia a uma supressão total dos espaços exteriores que, num país como França, não são muito relevantes de um ponto de vista climático. A primeira hipótese poderia no entanto fermentar os comportamentos de clausura do sexo feminino inerentes às culturas Magrebinas que atribuem o espaço exterior ao sexo masculino, 28 PINSON, Daniel. Modèles d’habitat et contre-types doméstiques au Maroc. Ecole d’architecture de Nantes. Nantes, 1989, p.282. 29 Ibid, p.284. 30 CANDILIS, Georges; WOODS, Shadrach; PIOT, Henri; com a supervisão de BODIANSKY, Vladimir. Habitat collectif marrocain. In, Architecture d’Aujourd’hui, nº46. Janeiro 1953, p.98. 145
13. À esquerda: o estado original do apartamento. À direita: alterações efectuadas na casa de banho de um dos apartamentos do edifício Le Tintoret. A entrada passou a ser efectuada pela lateral, e o acesso é fechado através de uma cortina Fonte: Mickael G. 12. À esquerda: o estado original do apartamento. À direita: alterações efectuadas pelos habitantes que consistem em encerrar o espaço flexível e retirar as caixilharias existentes aumentando a superfície da sala. Fonte: Mickael G. 146
os quais se afastam drasticamente dos comportamentos Ocidentais. A segunda hipótese corresponderia a uma quebra total com as tradições e com a cultura Magrebina, que não só poderia gerar críticas e controvérsias, como também poderia em oposição levar as populações a aproximar-se da cultura ocidental atribuindo como espaços exteriores ao sexo feminino unicamente o espaço público. (imagem 12) Os espaços de higiene intima Por fim, o último espaço da habitação que parece entrar em conflito com a cultura de origem dos habitantes de Bellefontaine corresponde aos espaços dedicados á higiene intima. Este conflito só é no entanto visível numa das tipologias. Nenhum habitante fez referência a esses espaços ao longo deste estudo no entanto, as suas atitudes em relação a eles demonstram uma certa inadequação face a esta cultura. No edifico Louis Pergaud, da autoria de Georges Candilis, não foi possível constatar nenhuma alteração significativa das casas de banho propriamente ditas nem da sua relação com as restantes divisões da habitação. No entanto, no edifico Le Tintoret, da autoria do escritório APA, parece haver por parte dos habitantes uma tentativa de “apagar” a existência desse espaço face às restantes divisões da habitação. Na tipologia desenvolvida pelo APA, acede-se à casa de banho através de um pequeno átrio directamente ligado à sala. Ao contrário da tipologia desenvolvida por Georges Candilis, não existe aqui nenhuma porta que separe a sala e o átrio de distribuição. Constata-se que a maioria dos habitantes colocam cortinas opacas que separam esses dois espaços anulando assim a visão directa entre a sala e a casa de banho. Num caso mais extremo que foi possível visitar, os moradores optaram por destruir a parede lateral da casa de banho, criando um novo corredor de modo a efectuar a entrada para a casa de banho através da lateral, reduzindo assim a superfície dessa divisão. (imagem 13) Na cultura Magrebina, os espaços reservados à higiene íntima tais como a casa de banho ou o WC – que em França se distinguem em dois espaços – são considerados de algum modo como espaços proibidos. Na cultura do Norte de África, estes possuem uma conotação escatológica, 147
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ou até sexual 31 . Lugares de purificação, de evacuação das impurezas, possuem um aspecto contraditório na medida em que se penetra neles de uma forma impura e sai-se de lá purificado 32 . Segundo Daniel Pinson, estes espaços situam-se, nos países do Norte de África, afastados na maioria dos casos das divisões principais, porque uma porta de casa de banho ou de WC demasiado visível, seria amplamente criticada pelos habitantes 33 . Esta conotação negativa dos espaços associados à higiene íntima poderá justificar as alterações realizadas pelos habitantes do edifício Le Tintoret que através de cortinas opacas ou da destruição de uma parede com já vimos, tentam anular o impacto da porta da casa de banho visível através do espaço de convívio, o que já não acontece no edifício Louis Pergaud. De facto, ao comparar as duas tipologias analisadas, a diferença entre elas consiste unicamente na colocação de uma porta entre a sala e o átrio de distribuição no caso da tipologia desenvolvida por Georges Candilis. Essa simples porta, sem dúvida adaptada aos modos de vida ocidentais, torna também esta tipologia aceitável aos olhos dos habitantes de cultura Magrebina. Uma delimitação clara de cada espaço, permitindo o seu encerramento por parte do habitante consoante as suas necessidades, seria sem dúvida mais adaptada aos moradores de Bellefontaine. 31 PINSON, Daniel. Modèles d’habitat et contre-types doméstiques au Maroc. Ecole d’architecture de Nantes. Nantes, 1989, p.286. 32 Ibid. 33 Ibid, p.287. 149
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5.CONCLUSÃO 151
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CONCLUSÃO Ao longo deste estudo foi possível concluir que um determinado modelo de habitat não determina necessariamente um modo de habitar. O processo de adaptação aos novos modelos de habitat, composto por recomposições, destruições e reconstruções de determinados modos de habitar pelo qual passam famílias derivadas da imigração é sem dúvida longo, e transmite-se de geração para geração. Num momento em que Toulouse-Le Mirail é objecto de várias campanhas - que visam não só melhorar a qualidade de vida dos habitantes através de requalificações urbanas, mas também atrair outros tipos de populações construindo habitações destinadas à venda a particulares - cabe agora sem dúvida aos arquitectos e urbanistas em Bellefontaine projectarem novos modelos, tendo em conta as particularidades da cultura Magrebina, sem no entanto os adaptar totalmente a essa cultura. Neste caso de estudo, o tratamento de alguns espaços estruturantes do bairro – como por exemplo a praça de Bellefontaine – permitiria a livre escolha de percursos por todos os habitantes. Em relação aos espaços intermédios, é sem dúvida necessária a criação de espaços cuja função esteja claramente definida e cuja posição em torno dos edifícios seja hierarquizada de modo a que cada habitante pudesse usufruir de um espaço que lhe seja destinado. No caso da habitação, como foi possível constatar, cada tipologia possui vantagens e inconvenientes. Enquanto que o edifício Le Tintoret se revela facilmente transformável pelos habitantes devido à sua grande simplicidade funcional, as particularidades do edifício Louis Pergaud geram na realidade barreiras para essas transformações. Apesar de existir uma divisão “flexível”, a presença de um desnível condiciona a organização espacial da célula por parte dos habitantes. A criação de um modelo de habitat destinado a habitantes de origem Magrebina não poderia corresponder de maneira alguma aos modos e vida Ocidentais e sem dúvida fermentaria a segregação e a estigmatização. Do mesmo modo, um modelo de habitat demasiado adaptado à cultura Magrebina poderia também fermentar atitudes que em pouco ou nada se aproximam dos comportamentos Ocidentais, o que prejudicaria a integração dessas famílias. No caso do espaço público, dar aos habitantes a possibilidade de escolher diversos percursos livremente permitiria uma utilização do 153