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Dossiê Manuel Gusmão
Revista do CESP, Belo Horizonte, v.35, n.53, p. 11-24, 2015 eISSN: 2317-2096 DOI: 10.17851/2359-0076.35.53.11-24 Manuel Gusmão – brevíssimo retrato em forma de alfabeto1 Briefest portrait in the shape of alphabet Rosa Maria Martelo Universidade do Porto, Porto, Portugal [email protected] Resumo: Todas as grandes obras poéticas propõem uma constelação vocabular que está directamente associada à singularidade de uma poiesis pessoal. Os poemas fazem funcionar essas palavras como instrumentos heurísticos, em correlações muito particulares. É nesse sentido que promessa, chama, barbárie ou écran são palavras de Manuel Gusmão. Sem deixarem de pertencer a uma língua comum e partilhada com o leitor, estes termos ganham, no contexto da sua obra, uma luz própria porque desenham um mapa conceptual particular. O que dizem tais constelações vocabulares nunca é parafraseável, pois tais palavras são como impressões digitais, operadores de um pensamento para o qual a matéria linguística nunca é irrelevante ou exterior ao processo de pensar e conhecer. Analisando este tipo de vocabulário, tentaremos compreender de que modo singularidade e alteridade se articulam na escrita de Manuel Gusmão. Palavras-chave: Manuel Gusmão; poesia e pensamento; poesia e paixão; poesia e resistência; poesia e política. Abstract: Great poetry works always propose a constellation of words that is directly associated with the uniqueness of a singular poiesis. Poems use these words as heuristic tools, in very particular correlations, and 1 Inicialmente publicado em Portugal, na revista Telhados de Vidro, nº 16, de Abril de 2012, o presente estudo é agora retomado com algumas actualizações.
Revista do CESP, Belo Horizonte, v.35, n.53, p. 11-24, 2015 12 in this sense words such as promise, flame, savagery or screen belong to Manuel Gusmão’s vocabulary. Although they also belong to the reader’s discourse, these terms acquire a particular sense in the context of Gusmão’s work because they draw the poet’s map of concepts, his “world-version”. What they mean is never paraphrasable because such words are like fingerprints, operators for thought. Analyzing this kind of words we will try to observe how singularity and alterity are articulated in Manuel Gusmao’s writing. Keywords: Manuel Gusmão; poetry and thought; poetry and passion; poetry and resistance; poetry and politics. Recebido em 2 de fevereiro de 2015 Aprovado em 17 de abril de 2015 A alegria – alucinação B beleza – barbárie C chama – canto – cartografia – cérebro – cabeça D dança – destino – desabar – despenhar-se – diálogo E épos – encontro – eixo – écran – esperança – esplendor – estrela – escravos – estações F futuro – filme – fotografia – fala – fogo G guardar H homem – humano – História I início – invenção – imagem – incendiar – intermitente J justiça – janela
13 Revista do CESP, Belo Horizonte, v.35, n.53, p. 11-24, 2015 K Karl (Marx) L leitura – língua – labirinto – linha – luz M mulher – manhã – mundo – metamorfose – mão – mapa – mesa – música – mar N nós – narrativa – noite – nascimento – não O origem – ondas – ouvidos – ou P promessa (sem garantias) – perfeição – perder-se – passado – praia – paixão – paisagem Q quem? – queimar – quebrar-se, R recapitular – ruínas – rosa – razão (apaixonada) S sonho – sangue – sílabas – sobreposto – sem – sim T tu – tempo – teatro – terra – terceiro (incluído) U universo – último V ver – viver – (o) vivo – vacilar – vibrar – voz – vento W Walter (Benjamin) X (...) Y (...) Z zapping Este alfabeto tem uma história. Em tempos, pedi a Manuel Gusmão para conversarmos um pouco sobre os livros de poemas que tem vindo a publicar e propus-lhe que o nosso ponto de partida fosse um alfabeto que eu iria construir a partir da sua poesia. A minha proposta vinha de eu pensar que, em todas as obras poéticas (no sentido forte da
Revista do CESP, Belo Horizonte, v.35, n.53, p. 11-24, 2015 14 expressão), é possível identificar uma constelação vocabular que está directamente associada à singularidade de uma poiesis pessoal. Refiro-me a certos vocábulos que os poemas fazem funcionar como instrumentos heurísticos, em correlações muito particulares, e que, neste caso, reflectem a busca do que Manuel Gusmão chama “um outro da linguagem”,2 ou seja, vocábulos que estão directamente envolvidos na tentativa de formular “algo que não pode ser concebido sem linguagem e que entretanto lhe é de certa forma ou em certa medida irredutível”.3 É nesse sentido que cálcio, osso, grão de areia são palavras de Carlos de Oliveira (e osso também faz parte das “vinte palavras sempre as mesmas” de João Cabral de Melo Neto), do mesmo modo que avesso, luz, azul ou inverso são palavras de Ana Luísa Amaral, enquanto promessa, chama, barbárie ou écran são palavras de Manuel Gusmão. Sem deixarem de pertencer a uma língua comum e partilhada com o leitor, estes termos ganham, no contexto das obras respectivas, uma luz própria porque desenham mapas conceptuais particulares. Essa luz – em rigor, deveria dizer a eficácia que lhes é própria – decorre de se ter conseguido um grande domínio sobre o campo semântico associado a cada uma dessas palavras. Não no sentido de o fechar, mas antes no de integrar a condição semanticamente expansiva que caracteriza estes vocabulários num feixe de relações semânticas a que Paul Ricœur chamou o mundo do texto. É por isso que o que dizem tais constelações vocabulares nunca é parafraseável. Se, como mantém Manuel Gusmão, a poesia pretende ser “um discurso-razão apaixonado pela materialidade translinguística, verbal e social de que se faz”,4 tais palavras são como impressões digitais, mínimos retratos do artista, pois são os operadores de um pensamento para o qual a matéria linguística nunca é irrelevante ou exterior ao processo de pensar e de conhecer. Mas voltemos à história deste alfabeto. Manuel Gusmão não só concordou com a minha proposta como trouxe com ele um outro alfabeto. E vimos então que tínhamos chegado a resultados muito semelhantes. Contudo, no alfabeto do poeta, havia algumas palavras que, embora eu não tivesse seleccionado, logo me pareceram indispensáveis, e que acrescentei ao meu texto inicial. Entre essas palavras estavam o sim e o não. Começo por destacá-las porque representam a aceitação e a recusa, 2 GUSMÃO, 2010, p. 182. 3 GUSMÃO, 2010, p. 182. 4 GUSMÃO, 2010, p. 60.
15 Revista do CESP, Belo Horizonte, v.35, n.53, p. 11-24, 2015 a liberdade de pensar e de escolher com quem pensar: de escolher uma tradição, ou melhor, um feixe de tradições (não apenas literárias) a partir das quais se fala, e de exercer o que Manuel Gusmão chama “um furioso partis pris”.5 Por exemplo, o de se assumir “como vindo naquilo que (...) Benjamin referiu como a ‘tradição dos oprimidos’”, como lemos num texto de Uma Razão Dialógica,6 no qual o ensaísta igualmente esclarece ser por esses que a sua escrita se sente interpelada, e que é ao seu apelo antiquíssimo que ela procura responder. E tratar-se-á de dizer sim à mais alta alegria 7 e não à barbárie; de dizer sim à “enorme paixão da esperança”,8 à promessa sem garantias,9 e não à injustiça, à opressão. O sim e o não sublinham a dimensão ética quer da poesia quer da ensaística de Manuel Gusmão; sobretudo sinalizam a coerência que existe entre uma e outra. E sinalizam também a coerência que existe entre a escrita e um percurso político de fundamentação marxista que em certos momentos surge teorizado e inclui uma política da escrita, embora sem subscrever a possibilidade de haver uma estética marxista. O que Manuel Gusmão observa em Carlos de Oliveira, isto é o reconhecimento de que “não há nem tem que haver uma estética marxista, mesmo que haja hipóteses marxistas em estética”,10 também se aplica à sua poética pessoal. Uma outra palavra que eu não tinha destacado era justiça. Não a tinha isolado como conceito porque, embora a ideia de justiça esteja sempre presente na escrita do poeta e do ensaísta, ela surge configurada sob muitas perspectivas. A paixão pela história e pela antropologia, que facilmente se reconhece tanto no poeta quanto no ensaísta, radica numa exigência de justiça; e conceitos que Manuel Gusmão tem usado reiteradamente na poesia e no ensaio, como os de promessa, futuro, ou mesmo terceiro incluído, são outras tantas formas de afirmar (e de firmar) a justiça como um horizonte inalienável da praxis humana. Do alfabeto de Manuel Gusmão constava ainda uma outra palavra que também acrescentei: nós. Ela traduz o sujeito da História e inclui um tu, espelha o desejo de comunidade e também diz a razão dialógica. 5 GUSMÃO, 1990, p. 178. 6 GUSMÃO, 2011, p. 355. 7 GUSMÃO, 2001, p. 16. 8 GUSMÃO, 1990, p. 130. 9 GUSMÃO, 2010, p. 16. 10 GUSMÃO, 2009, p. 87.
Revista do CESP, Belo Horizonte, v.35, n.53, p. 11-24, 2015 16 No último dos textos reunidos em Uma Razão Dialógica, um texto fundamental pela síntese notável que nele é conseguida, o ensaísta lembra: Uma das principais hipóteses marxistas acerca da linguagem e que, com as devidas mediações, é trazida ao estudo da literatura, é a do carácter primitivo do diálogo enquanto forma da linguagem em acção (neste sentido, o diálogo é anterior ao monólogo; uma frase é sempre dita por dois, pelo menos; uma palavra, enquanto unidade de sentido, é o produto de um confronto ou de uma cooperação, fruto do cálculo e do acaso, a resultante de uma negociação, cujos resultados não estão totalmente codificados ou desde sempre e para sempre assegurados ou garantidos.11 Ter em conta o diálogo, nesta perspectiva de matriz bakhtiniana, envolve uma forma complexa de pensar o tempo, no tempo: diz-nos que nós, os vivos, somos sempre os vivos e os mortos; e que desde sempre, agora, sonhamos o futuro, o qual é uma comunidade que “está sempre já presente para se poder ler, mas está também sempre ainda ausente e diferida”.12 Deleuze chamou-lhe “o povo que falta”, esclarecendo de imediato que a literatura não pretende escrever em seu lugar; escreve, isso sim, em sua intenção.13 Na poesia, o sujeito assim formulado (nós) torna o lirismo permeável ao modo dramático (eu e tu) e também à narratividade (eu e eles, eu como os outros). A todo o tempo, esses dois modos intrometemse no lirismo de Manuel Gusmão – e não penso especificamente no libreto Os Dias Levantados, refiro-me à generalidade dos livros de poesia. No entanto, o herói épico, se o houver, é, neste caso, difuso e plural; a poesia apresenta-o sob a forma de uma rede de discursos e de posições enunciativas. Numa entrevista, o poeta lembrava o étimo grego da palavra: “Épos podia ser palavra, verso, poesia épica, mas também notícia, oráculo provérbio e mesmo promessa”.14 Se a narratividade e o modo como esta é trabalhada constituem um dos traços estilísticos mais originais da poesia de Manuel Gusmão, e tanto mais quanto ela irrompe 11 GUSMÃO, 2011, p. 377. 12 GUSMÃO, 2011, p. 369. 13 Cf. DELEUZE, 2000, p. 15. 14 SILVA E OLIVEIRA, 2003, p. 296.
17 Revista do CESP, Belo Horizonte, v.35, n.53, p. 11-24, 2015 numa poesia da imagem e da figura, haverá que reconhecer-lhe a matriz política; o épos decorre de um querer falar que radica nessa “tradição dos oprimidos” que já referi, e permite escrever “segundo a promessasem-garantias de comunidades livres”.15 Como sujeito plural, nós aponta igualmente para a indiscerniblidade entre a escrita e a leitura. Porque ninguém escreve sem ter lido, sem a memória de outras escritas, sem se apropriar de uma tradição. Eliot teria dito da tradição, mas Manuel Gusmão faz questão de especificar: “a noção que Eliot dela apresenta [da tradição] pode ajudar-nos até àquele momento em que compreendemos que há tradições e não apenas uma ou a tradição”.16 Por detrás desta correcção encontramos outra vez o sim e o não e podemos identificar uma genealogia vinda da modernidade estética. Manuel Gusmão inscreve-se nessa linhagem de escritores-críticos, para os quais a arte envolve, assumidamente, técnica, trabalho, pensamento crítico e meta-reflexivo, o que implica uma certa especularidade da escrita. Tal não significa, porém, que se pretenda pôr de parte a dimensão obscura da arte, a sua relação com o que o ensaísta descreve como “uma região do corpo e das suas almas, onde os gestos e os impulsos verbais se encontram entrelaçados com imagens do mundo e dos humanos dele, agitados por uma energia violenta que estremece no acaso e na certeza”.17 Assim, leitura e escrita são entendidas como camadas de um mesmo palimpsesto dialogante, do qual não está ausente o diálogo com outras artes, como o cinema, a fotografia, a pintura, a dança e a música. Num extenso ensaio no qual reflecte sobre a literatura “enquanto configuração histórica do humano”, Manuel Gusmão explica que, se alguém escreve, [é] também alguém que leu, que lê; que recorda e esquece parcialmente aquilo que leu. E escreve numa instância de eu, aqui, agora, assim; a instância de um presente que pode parecer absoluto, ou absolutamente singular. Mas essa instância é uma configuração complexa, em que cada um dos termos se desdobra ou pode desdobrar no mundo do texto (e no próprio processo da sua génese): o eu pode distribuir-se por diferentes posições-sujeito; o aqui pode 15 GUSMÃO, 2011, p. 367. 16 GUSMÃO, 2011, p. 360. 17 GUSMÃO, 2011, p. 179.
Revista do CESP, Belo Horizonte, v.35, n.53, p. 11-24, 2015 24 Quando quem pinta é também pintado que interessa saber quem pintou e quem foi pintado. Porque é que outra vez mesmo se de outra forma voltas a essa pergunta?45 E é também isto que tenho em conta quando falo de distinguir sem desunir. Pelos mesmos motivos, no caso de Manuel Gusmão a poesia e os ensaios distinguem-se, mas não se separam: unem-se como se unem pela homonímia os dois sentidos da palavra chama, na dupla frase escolhida para abrir Tatuagem & Palimpsesto: “incerta chama”; “incerta[, ela chama]”. Referências GUSMÃO, Manuel. Dois sóis, a rosa – a arquitectura do mundo. Lisboa: Caminho, 1990. GUSMÃO, Manuel. Teatros do Tempo. Lisboa: Caminho, 2001. GUSMÃO, Manuel. Migrações do Fogo. Lisboa: Caminho, 2004. GUSMÃO, Manuel. A Terceira Mão. Lisboa: Caminho, 2008. GUSMÃO, Manuel. Finisterra – O Trabalho do Fim: reCitar a Origem. Coimbra: Angelus Novus, 2009. GUSMÃO, Manuel. Tatuagem & Palimpsesto. Da poesia em alguns poetas e poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010. GUSMÃO, Manuel. Uma Razão Dialógica. Ensaios sobre literatura, a sua experiência do humano e a sua teoria. Lisboa: Edições Avante!, 2011. GUSMÃO, Manuel. Pequeno Tratado das Figuras. Porto: Assírio & Alvim, 2013. DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Trad. de Pedro Eloy Duarte. Lisboa, Edições Século XXI, 2000. SILVA, Rogério Barbosa da; OLIVEIRA, Silvana Maria Pessôa de. Entrevista – Manuel Gusmão. Scripta, Revista do Programa de Pósgraduação em Letras e do Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros da PUC de Minas Gerais, v. 6, n. 12, 1.º sem. 2003. 45 GUSMÃO, 2013, p. 88.