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Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; a estação de Gonzalez Bastias.

Carolina Filipe Oliveira Castro

Abstract

Esta dissertação é motivada pela experiência pessoal de ter vivenciado o panorama posterior ao terramoto de 2010 no Chile, durante a frequência do programa Mobilidade. Após esta catástrofe surgem diversos programas de intervenção, que não passaram ao lado da Faculdade de Arquitetura da Pontifícia Universidad Católica de Chile. A aproximação à realidade é proporcionada pela disciplina de projeto, onde nos é apresentado o último Ramal em funcionamento do Chile. Na sequência da ligação pessoal ao lugar, na presente Dissertação de Mestrado, Chile: da Arquitetura Vernacular ao projeto de intervenção; A Estação González Bastías, imagina-se o projeto de intervenção de uma estação inserida num contexto patrimonial e cultural. O trabalho visa, através de uma situação e contexto reais, investigar uma oportunidade enriquecedora para a realização de um projeto de intervenção na estação da linha ferroviária Talca - Constitución. Compondo parte do património cultural e arquitetónico da zona, a estação envolve não só questões da memória histórica de um território, como também a cultura do habitar da região do Maule. Procurou-se construir uma resposta baseada na reconhecimento da análise e na interpretação do lugar à forma construída, seguindo-se princípios metodológicos. Cada obra alerta para distintas questões arquitetónicas. O desejo de compreender este lugar, para nele intervir, foi a ponte entre as questões intimamente ligadas com o valor vernacular, desde a sua importância como memória, até à sua posição na arquitetura contemporânea; e numa atitude de projeto como resposta a um programa num contexto rural. O trabalho foi regrado pela reflexão sobre as hipóteses de valorizar a relação do existente, com os padrões exigíveis de programas contemporâneos. Problematiza-se assim, o modo de adaptar a pré-existência a "novos usos", e/ou por outro lado, de adaptar novos usos à pré-existência.

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Chile: da Arquitetura Vernacular ao projeto de intervenção. A Estação González Bastías Dissertação de Mestrado Integrado | Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto | 2011/2012 Carolina Filipe Castro IdentificaçãoDissertação de Mestrado Integrado | Carolina Filipe Oliveira de Castro Chile: da Arquitetura Vernacular ao projeto de intervenção. A Estação González Bastías. Docente orientador: Prof. Doutor Pedro Duarte Santos Alarcão e Silva Docente co-orientador: Prof. Augusto Angelini Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto | 2011/2012 Aos meus pais, pelo apoio constante e por acreditarem em mim, dedico-lhes esta prova. Ao Jean-Philippe, pelo encorajamento, dedicação e presença, mesmo que à distância. Ao Professor Pedro Alarcão, pelas conversas, paciência, disponibilidade e acompanhamento. Ao Professor Augusto Angelini, pelo acompanhamento e motivação, que me levaram a continuar este trabalho. À Olguinha e ao Pedro, pelo carinho demostrado e amizade desinteressada. À Marga e ao Sá, fieis companheiros desta viagem final. À Arcelina, pelo apoio e motivação. A todos os meus amigos, pela discussão, amizade e companhia ao longo do curso. Obrigada. Agradecimentos 7 Resumo Resumo Esta dissertação é motivada pela experiência pessoal de ter vivenciado o panorama posterior ao terramoto de 2010 no Chile, durante a frequência do programa Mobilidade. Após esta catástrofe surgem diversos programas de intervenção, que não passaram ao lado da Faculdade de Arquitetura da Pontifícia Universidad Católica de Chile. A aproximação à realidade é proporcionada pela disciplina de projeto, onde nos é apresentado o último Ramal em funcionamento do Chile. Na sequência da ligação pessoal ao lugar, na presente Dissertação de Mestrado, Chile: da Arquitetura Vernacular ao projeto de intervenção; A Estação González Bastías, imagina-se o projeto de intervenção de uma estação inserida num contexto patrimonial e cultural. O trabalho visa, através de uma situação e contexto reais, investigar uma oportunidade enriquecedora para a realização de um projeto de intervenção na estação da linha ferroviária Talca – Constitución. Compondo parte do património cultural e arquitetónico da zona, a estação envolve não só questões da memória histórica de um território, como também a cultura do habitar da região do Maule. Procurou-se construir uma resposta baseada na reconhecimento da análise e na interpretação do lugar à forma construída, seguindo-se princípios metodológicos. Cada obra alerta para distintas questões arquitetónicas. O desejo de compreender este lugar, para nele intervir, foi a ponte entre as questões intimamente ligadas com o valor vernacular, desde a sua importância como memória, até à sua posição na arquitetura contemporânea; e numa atitude de projeto como resposta a um programa num contexto rural. O trabalho foi regrado pela reflexão sobre as hipóteses de valorizar a relação do existente, com os padrões exigíveis de programas contemporâneos. Problematiza-se assim, o modo de adaptar a pré-existência a “novos usos”, e/ou por outro lado, de adaptar novos usos à pré-existência. 9 Abstract Abstract This dissertation is based and motivated on a personal experience of having lived in the post 2010 earthquake panorama in Chile, as part of the Mobility program. In response to this disaster several intervention programs appeared, of which the Architecture Faculty of Pontificia Universidad Católica de Chile choose to be one of them. Getting closer to this reality was emphasized in the project course throughout the presentation of the last operating railroad in Chile. In the connecting approach, the following Master Dissertation, Chile: from Vernacular Architecture until intervention project; the station González Bastías, conceive of a project intervention to insert the rail station in a patrimonial and cultural context. This work aims, through a real situation and context, to investigate an advantageous opportunity of realizing a project intervention in the rail station on the railroad line Talca – Constitución. Being part of the area cultural and architectural heritage, this rail station raises not only the heritage issues of this territory, as well as the inhabitants’ culture of the Maule region. We look for an answer based on analyse recognition and historical interpretation of the preexisting – place as a construction - referring to methodological principles. Each work dedicates to different architectonical issues. The desire of understating the place to intervene in it, was the link between issues intimately connected with vernacular value, from its importance as an heritage, to it’s standing in contemporary architecture; and the project attitude as a response to a program in a rural context. This study was ruled by the reflection on the chances of enhancing the relationship of existing, with the required standards of contemporary programs. Here we questioned how to adapt the pre-existing to “new uses”, and on the other hand, how to adapt “new uses” to pre-existing. 16 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Problemática Intensões À priori, os problemas deste lugar que se colocam para o trabalho rementem para o estado de decadência e de degradação que se agravou após o terramoto de 2010, ou seja, o descuido de uma peça integrante no conjunto patrimonial do ramal que aporta um cariz turístico de grande potencial. O problema é lançado por uma questão: como estabelecer uma estratégia de intervenção de modo a melhorar a relação de uma estação do século IXX com os padrões exigíveis para a permanência e adaptação do programa, tendo em conta a relação com a comunidade rural atual e ainda com a paisagem envolvente? Trata-se de um exercício que constitui a utilização crítica das várias ferramentas adquiridas durante os anos lectivos anteriores, para o estudo e reflexão de uma situação única, definida pelo seu contexto histórico, cultural e morfológico. Com a finalidade de alcançar uma proposta, pressupõe-se uma consistência de parâmetros teóricos e de intenções para entender o que um projeto de intervenção de património arquitectónico no Chile questiona, juntamente com a introdução de questões sensíveis à contemporaneidade arquitectónica. Intervir num lugar de cariz rural implica uma estratégia que cruze a essência do lugar com a revitalização local e do respeito pelo existente, seja ele construído ou natural. Torna-se fulcral o estudo do ponto de vista tipológico (estrutura formal do objecto pré- -existente) bem como o conhecimento das características que prendem o edifício a um determinado lugar, tornando-o irrepetível. Procura-se uma experimentação que, apesar de solta da complexidade que um projeto profissional abarca, compreenda um objectivo real e que propicie uma aprendizagem atenta e consciente em futuras intervenções em edifícios históricos. Questionar acerca da intervenção no património (mantendo a identidade cultural local) tem-se tornado num dos temas mais presentes nos dias de hoje, uma vez que é sobre a transformação do existente que o homem se desenvolve e evita a transformação de zonas históricas em “cidades fantasmas.” Assim, a arquitetura marca testemunhos da história que passaram por várias etapas e resultam na realidade atual. São estas sobreposições adaptadas às novas necessidades ao longo do tempo que marcam a “continuidade da vida”2 do edifício e, consequentemente, do ciclo de vida do Homem. Quais os critérios arquitectónicos mais adequados a cada caso? Incluise o conhecimento do lugar, a preservação do que é importante e a ampliação do 2 Alexandre Alves Costa “Património entre a aposta arriscada e a confidência nascida da intimidade” in À la recherche du temps perdu, JA 213, p.7-13. 17 Nota introdutóriaI. necessário, a transformação, a salvaguarda do “construído” com foco no valor afectivo de memória dada a importância que acresce na construção da identidade do lugar, e na mistura da vida com a dos próprios edifícios. Pretendese assim adaptar e transformar do modo mais apropriado, de acordo com o lugar, o tempo e a cultura. Para a realização do projeto é essencial reconhecer a importância da interpretação e conhecimento do conjunto local (para poder atuar sobre eles). A intenção primordial é revisitar este lugar agora com algum distanciamento, refletir sobre a sua envolvente de modo a reforçá-la a partir de uma ideia de intervenção no construído. O termo intervenção sumaria o campo que o trabalho pretende compreender. Entende-se que no processo metodológico devam assentar etapas como a investigação teórica e propositiva do geral ao particular, ou seja, desde a visão analítica à projetual como resultado de um processo complementar e paralelo à utilização do desenho. Numa primeira parte deste trabalho, e procurando a estabilização de um território para o projeto, será feita uma abordagem histórica e territorial em dois pontos: do ponto de vista de valorização vernacular, pretende-se entender a força que a caracteriza, bem como a relevância da sua proteção. E de aproximação ao lugar, tendo em conta as especificidades locais, inseridas numa paisagem rural. Aqui, o intuito é o de esclarecer os factos históricos pré-existentes, o programa que corresponde às estações, as diferentes etapas e tipologias do edifício e o local em causa. Numa última parte da dissertação, expõe-se uma síntese projetual, iniciada com a pesquisa e a análise de um conjunto de três obras no Chile relativas ao tema projetual. O seu propósito surge pela necessidade de equacionar uma arquitetura contemporânea a vínculos de ligação à tradição a partir de contextos que foram evoluindo, ou de uma forma criada de raiz. Por fim, sobre uma base teórica de reconhecimento prévio, pretendem-se assim apontar caminhos que justifiquem a o ajustamento de um programa adequado para a Estação, revalorizando o lugar a partir da arquitetura existente. Na abordagem ao caso de estudo existe a clara noção que não se trata de uma aproximação absoluta ao real. Este ensaio, resulta de uma aproximação ao lugar, e de uma vontade de projeto interventivo, de onde se extraem conhecimentos e conteúdos que estimulam a consciência quanto à importância de valores empíricos e envolventes que se impõe quando projetamos sobre o construído. As citações utilizadas na presente Dissertação de Mestrado encontram-se traduzidas para a Língua Portuguesa (escritas em castelhano, francês e Inglês) e não nas suas respetivas línguas originais para que se mantenha a continuidade da leitura. Processos Aos meus pais, 21 II. Território Vernacular ...projectar, planear, desenhar, não deverão traduzir-se para o arquitecto na criação de formas vazias de sentido, impostas por capricho da moda ou por capricho de qualquer outra natureza. As formas que ele criará deverão resultar, antes, de um equilíbrio sábio entre a sua visão pessoal e a circunstância que o envolve e para tanto deverá ele conhecê-la intensamente, tão intensamente que conhecer e ser se confundem.3 Fernando Távora 3 Fernando Távora, 1996, p.74 1. Vernacular Arquitetura tradicional |Vernacular| Memória | Paisagem II DO ENQUADRAMENTO... 32 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 8 Casas abandonadas e vilas interiras no Pirinéus espanhóis. Os seus ocupantes emigraram para outras cidades como barcelona. Figura 7 Casas: Revolução industrial. Figura 9 Templo Budista, Tangmo, Anhui. Edifícios modernos versus carácter das vilas. 33 O Problema contemporâneo Com a industrialização surge o problema do desaparecimento vernacular. Iniciouse o despovoamento das localidades rurais, perderam-se as ocupações de trabalho, transformam-se os materiais e desaparecem as técnicas construtivas tradicionais, importam-se novos modelos de habitar, extinguindo relações únicas entre o homem e o território. A Revolução Industrial na segunda metade de século XVIII, “marca o início de uma nova era, onde a euforia tecnológica dá inicio à ruptura com as tradições.”11 Atualmente existem localidades que ainda conservam a sua arquitetura tradicional, mantidas muitas vezes pelo isolamento e esquecimento. No entanto, a falta de manutenção gerou um processo progressivo de degradação. Um dos problemas mais prejudiciais passa pelo enfraquecido entendimento do vernácular. Nestas situações, acontece regularmente uma visão ingénua do edifício, que origina uma reforma quase total dos edifícios para albergarias (ou outros programas), e destruindo parcial ou completamente os espaços interiores, apenas conservando em alguns casos as fachadas e os muros de um cenário rural original. Estes edifícios, genuinamente tradicionais “que existiram ao longo de séculos foram acreditados e reconhecidos como uma abordagem ao design juntamente com o realismo do desenho da arquitetura e o seu discurso subsequente.”12 O design, factor com grande força de mercado, também nos transporta para o problema contemporâneo, ou seja, para uma nova indústria imobiliária baseada no “brandscpape”13, uma mistura de um mundo da “marca” na paisagem. Sobre esta questão, Franci de la Cecla afirma que “numa época em que são tão definidas as questões ambientais e de sustentabilidade, não deixa de ser estranho reconhecer que a mesma se pratique maioritariamente como um estilismo, mais de que como uma coisa estruturante.”14 Porém, Pierre Frey afirma que “vários talentosos arquitetos se estão a afastar do cenário global da arquitetura - espetáculo e a renderem-se à arte da sua dignidade, ao mesmo tempo que lhes são oferecidas propostas para renovar as realizações de acordo com o seu próprio vocabulário e nele re-injetar a imensa diversidade formal e construtiva que atestam as arquiteturas vernaculares do passado.”15 A arquitetura vernacular nascida naquele lugar específico e moldada pelas suas restrições é, assim, por definição, uma arquitetura mais contextual. A sua resistência ao longo do tempo, juntamente com a sua fragilidade, vem do facto de se situar permanentemente (tradição) e não ocasionalmente ou impregnado à força (brandscape). 11 J. Fernandes, R. Mateus, “Arquitectura vernacular: uma lição de sustentabilidade”,2011, p.207. 12 Suha Ozkam, “Contemporary architectural expression”, 1986, p.278. 13 Neologismo formado pelas palavras inglesas: brand (a marca) em analogia com landscape (paisagem) in Pierre Frey, “Learning from the Vernacualar - Pour une nouvelle architecture vernaculaire”. 2010,p.34. 14 Franco La Cecla, “Contra a arquitectura”. 2011 p.14. 15 Pierre Frey, “Learning from the Vernacualar - Pour une nouvelle architecture vernaculaire”. 2010,p.22. II. Território Vernacular 34 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 12 Catástrofe no Chile. Cidade de Constitución. Figura 10 Uma das poucas casas que sobreviveram ao Tsunamo. Duao, Chile, 2010. Figura 11 Mapa de terremotos, incluindo áreas sísmicas, placas tectónicas. 35 O problema no Chile A arquitetura vernacular não passa por ciclos de modas. É quase imutável, e até, não passível de melhora, uma vez que serve o seu propósito de perfeição. Como regra geral, a origem das formas de construção indígenas e métodos de construção está perdida no passado distante.16 Bernard Rudofsky O problema da intervenção arquitetónica no Chile, remete inicialmente para questões relativas às mudanças culturais e naturais, que potenciam uma arquitetura em constante mutação, na qual a tradição se altera pela sobreposição e/ou destruição. Por conseguinte, o Património arquitectónico chileno encontra-se numa situação peculiar. Revela pouco persistência que resulta numa cultura de permanentes reposições e ainda na formação das várias “camadas” de uma identidade nacional, obtidas pelo processo de sobreposição de novas construções sobre as existentes. As condições principais que definem o Património chileno são, sobretudo, as condições geográficas, dado que estamos perante um país de vulcões, terras sísmicas e bastante propício a maremotos. São condições naturais que, desde sempre, criaram uma fortíssima instabilidade territorial. O facto da Arquitetura Indígena ter sido muito condicionada pela geografia e por uma intenção de integração na Natureza, levou ao desenvolvimento de uma arquitetura mais simples de construção efémera, em oposiçao à arquitetura muito mais persistente no tempo que encontramos actualmente. Mais tarde, a influência europeia, nomeadamente a colonização espanhola e de outros países (entre os séculos XVI e meados de XX), contribuíram para a abertura e recepção de correntes culturais e arquitectónicas, nas quais o habitante chileno passou a rejeitar a raiz indígena e identificar-se mais com as vertentes europeias. Em paralelo, a partir de meados do século XX, com influência norte americana e a globalização, fomentou-se uma arquitetura como objecto de mercado, que só se interessava pelo novo, absorvendo a pré-existência, rumo a um progresso infinito. Ao longo da história do país revelam-se na arquitetura tradicional várias fases, que se iniciam por uma ligação telúrica do território desde os primeiros povos. Posteriormente com o nascimento de novos povos, surgem novos materiais; torna-se assim um povo adepto das novas modas até aos dias de hoje onde há um grande interesse pelo novo. 16 Bernard Rudofsky, 1964. p.1 II. Território Vernacular 36 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 14 Casas de pedra e adobe, Taxco village México. Figura 13 © chedam – Rua de Pyrgos ,ilha de Santorini. Tradiçao da arquitectura grega. 37 Introdução geral O conceito de monumento histórico foi evoluindo e incorporando outros aspectos em si como por exemplo, a envolvente, o ambiente, a natureza, a cultura. Atualmente, por património entende-se o conjunto de valores culturais, artísticos e históricos, materiais e intangíveis que nos definem e nos representam. A natureza local também passou a integrar uma parte deste conceito “como habitat insubstituível do ser humano.”17 A globalização leva a uma homogeneização dos valores culturais, sendo por isso cada vez mais importante conservar o singular, todo o elemento que marca diferença e acrescenta identidade. Segundo Choay, o património edificado ou “monumento histórico” têm distintos significados. “Desde os anos sessenta do séc. XX, os monumentos históricos constituem apenas parte de uma herança que não pára de aumentar. (…) Desde então, todas as formas da arte de edificar, eruditas e populares, urbanas e rurais e todas as categorias de edifícios, públicos e privados, sumptuários e utilitários, foram acrescentadas sob novas denominações: arquitetura menor, para as construções privadas não monumentais; arquitetura vernacular, que distingue os edifícios característicos dos diversos territórios; arquitetura industrial.”18 A memória das populações não remonta apenas aos monumentos. Uma tradição não está guardada num castelo, fortaleza ou num templo, existe numa vertente de arquitetura doméstica que gera cultura. Choay, no que diz respeito ao património rural, aponta para o problema das vias de adulteração e desaparecimento deste tipo de património, resultado de uma proteção deficiente e da falta de programas respeitantes à salvaguarda da paisagem rural.19 Assim, Património é uma designação em nada definitiva e heterogénea que se expandiu tipologicamente para “um mundo de edifícios modestos, nem memoráveis nem prestigiosos, reconhecidos e valorizados por novas disciplinas, como a etnologia rural e urbana, a história das técnicas e a arqueologia medieval “20. 17 Javier Arango in AUS Valdívia 8, 2010, p. 30. 18 F. Choay, “A Alegoria do Património” 3ª ed, 2000, p.12 19 C.F. Pierre Merlin, “Dictionnaire de l’urbanisme et de l’aménagement”.1988, p.472. 20 A. Riegl, Der moderne Denkmalkultus, Viena, 1903. “O monumento é uma criação deliberada (gewolte), cujo destino foi assumido à priori e à primeira tentativa, ao passo que o monumento histórico não é desejado inicialmente (ungewolte) e criado enquanto tal. Este último é constituído à posteriori pelos olhares convergentes do historiador e do amador, que o seleccionam de entre a massa dos edifícios existentes e de que os monumentos representam apenas uma pequena parte.” in Choay Françoise, Idem, p. 24 e 25. O PATRIMÓNIO E A ARQUITETURA VERNACULAR II. Território O Património e a Arquitetura Vernacular 38 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 15 Bernard Rudofsky: Catálogo da exposição “Architecture Without Architects”. Figura 16 e 17 Hassan Fathy: Casa modelo - Ezbet elBasry.(projecto da casa-modelo em tijolo de terra) 39 Documentos Apoiado nos temas convencionados e estipulados nas Cartas Internacionais que protegem o património, a preocupação pela arquitetura vernácula surge a partir de 1964 com a Carta de Veneza21, onde a definição de património passou a incorporar temas sobre ruralidade. Assim, para uma melhor compreensão da evolução e integração da arquitetura vernacular nos desígnios de património, enumeram-se alguns factores que se foram configurando como elementos de valorização numa breve síntese da contextualização documental. No mesmo ano, Bernard Rudofsky inicia o estudo dos edifícios vernaculares com a apresentaçao da exposiçao “Arquitetura sem Arquitetos” no museu MOMA em Nova York. Em busca da essência arquitetónica, valorizando a participaçao do utente na arquitetura e considerando-a uma arquitetura imutável que serve a função na perfeição, o autor atenta a sua discriminação ao longo da história. Assim, alega que a história regista fundamentalmente os edifícios nobres, esquecendo as construções da grande parte dos habitantes, alertando deste modo para uma vontade de um possível ponto de viragem no que diz respeito às ideias arquitetónicos pré-concebidas. Na Carta de Paris de 1972, na 17a reunião da Conferência Geral das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, é definido o património natural e cultural22. Em 1975, no ano europeu do património arquitectónico, a Carta de Amesterdão23 marca de forma decisiva os temas etnográficos, insere o interesse pelos edifícios que concernem a arquitetura vernácula e de carácter pré-industrial. No ano seguinte, a Carta de Nairobi foca o conjunto tradicional, compreendendo como valor patrimonial a vida tradicional de uma povoação, como no caso dos povos nativos. No ano de 1999, manifesta-se a necessidade de instituir os princípios de conservação e proteção do património construído vernacular e, como complemento à Carta de Veneza, ICOMOS regista na Carta sobre o Património Construído Vernáculo24 a importância desta arquitetura como expressão da identidade de uma comunidade, o valor do modo 21 “O conceito de monumento histórico engloba, não só as criações arquitectónicas isoladamente, mas também os sítios, urbanos ou rurais, nos quais sejam patentes os testemunhos de uma civilização particular, de uma fase significativa da evolução ou do progresso, ou algum acontecimento histórico. Este conceito é aplicável, quer às grandes criações, quer às realizações mais modestas que tenham adquirido significado cultural com o passar do tempo.” In http://icomos.fa.utl.pt/documentos/cartasdoutrina/sppc1.pdf p.2 (Agosto2012) 22 Garantem-se e adoptam-se medidas de proteção, em que cada Estado deve, dentro das condições apropriadas a cada caso, “adotar uma política geral que vise a dar ao património cultural e natural uma função na vida da colectividade e a integrar a proteção desse património nos programas de planeamento geral”; in http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do;jsessionid=F04FBB75AEFF82C20821BB2CA5A955DC? id=244 (Agosto de 2012) 23 “O património arquitectónico europeu é formado não apenas pelos nossos monumentos mais importantes mas também pelos conjuntos que constituem as nossas cidades antigas e as nossas aldeias com tradições no seu ambiente natural ou construído.” Visitado em http://www.igespar.pt (Agosto2012) 24 “O património vernacular edificado é importante; ele é a expressão fundamental da cultura de uma comunidade, de sua relação com o seu território e, ao mesmo tempo, a expressão da diversidade cultural do mundo. A construção vernacular é o modo tradicional e natural das comunidades se abrigarem. É um processo contínuo que inclui as mudanças necessárias e uma constante adaptação em resposta às limitações sociais e ambientais.” In http://www.icomos.org.br (Agosto 2012) II. Território O Património e a Arquitetura Vernacular 40 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 18 Encosta da montanha e localização dos edifícios e dos cultivis como resposta ao local, clima e necessidade de subsistência. Nepal Central Figura 19 Celeiro com funções de um típico “Padonian” em forma de L. A água provém de um poço. Eslovénia. Figura 20 Quintas Gassho e terras cultivadas adaptadas ao lugar. Gokayama, Japan. 41 Caso Chileno natural e tradicional no qual produziram o seu próprio habitat, formando parte integral da paisagem cultural. Esclarecidas as características pelas quais o vernacular deve ser reconhecido enquanto Património, enumeram-se posteriormente alguns princípios para a sua orientação25 e algumas bases para a orientação prática26. Com a valorização dos temas do património imaterial, a arquitetura vernacular volta a requerer interesse, não só pelo seu valor arquitectónico, mas também pelos sistemas de vida que suporta. Está em causa um testemunho da história da arquitetura, palco de um acontecimento importante para a reconstituição histórica de determinado período do passado, cuja importância reside na capacidade de fazer reviver o passado, o que já foi vivído. “A arquitetura nativa (autóctone), tradicional ou sem arquitetos, com uma grande adaptação ao meio, constrói paisagens, evoca memórias e representa culturas.” 27 O século XX marcou um ponto de fratura na percepção dos ambientes naturais e construídos. Inicialmente, com o forte surgimento da modernidade, pensava-se que o progresso das populações iria implicar um desgaste ou até mesmo o desaparecimento das áreas selvagens, das zonas históricas urbanas e dos povos antigos. Tendo em vista um futuro comum e universal, sem divisões nem tolerâncias raciais, religiosas ou geográficas, em 1946, é fundada a UNESCO, no Chile. Vivia-se um tempo em que se pretendiA apagar todas as marcas culturais locais e todo o tipo de símbolos impeditivos do progresso. No fim do século a atitude altera-se. A favor da qualidade de vida física e espiritual das pessoas e da crescente indústria turística , o património tangível e intangível é reconhecido como ferramenta valiosa e como componente do desenvolvimento. Assim, no século XX, entende-se o valor da identidade como uma 25 Princípios: conciliar diferentes áreas de conhecimento de modo a admitir transformações no objecto em causa, mas que respeitem simultaneamente a sua identidade cultural; respeitar os valores culturais e o seu carácter tradicional; considerar as relações entre a paisagem cultural e a construção vernacular; ponderar não só as características físicas das construções mas também perceber como são utilizados e compreendidos, bem como o seu enquadramento nas tradições e envolvente onde se insere. In: Carisa Borges, Dissertação Do Curso De Mestrado Integrado Em Arquitectura, “Redesenhar A Memória - Intervir No Património Vernacular Da Fajã Das Almas” 2008/ 2009, p.65. 26 Bases: o estudar e registar cuidadosamente os exemplares de interesse vernacular, de modo a permitir o seu conhecimento por outros interessados; a preocupação no tipo de intervenções sobre as estruturas vernáculas, de forma a respeitarem e manterem as relações com a envolvente onde se desenvolvem; a continuidade do uso dos sistemas tradicionais na construção e o fomentar das competências artesanais associadas; a conservação da aparência construtiva (expressão, textura e forma) mesmo que se introduzam novos materiais; a introdução de novos usos resultante das atuais exigências devem ser executadas de forma a adaptar-se e respeitar as antigas estruturas bem como o seu carácter e forma; o compreender e aceitar as várias etapas do ciclo de vida das construções como parte integrante dos projetos de intervenção; a elaboração de programas que proporcionem e incentivem a conservação dos valores culturais da expressão vernacular. In: Carisa Borges, Ibidem. 27 Jocelyn González,”La Arquitectura sin arquitectos, algunas reflexiones sobre arquitectura vernacula.” In Revista AUS, 8, p. 13. II. Território O Património e a Arquitetura Vernacular 48 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 31 Valdir Zwetschin Quintas coloniais de Souzas e Joaquim Egidio. Campinas, Brasil. Figura 23 Casa Patronal Quilapilún,Chile. 49 O Património cultural rural Tendo em conta os vários componentes, não existe uma receita ou catálogo de momentos que possam ser conciliados, que, devido à sua relação única entre o habitante e a sua envolvente, resultam em sistemas irrepetíveis e singulares. Por outro lado, a arquitetura popular responde, como referiu Giorgio Grassi à “lógica do óbvio”40, à tradição racional das construções rurais, onde não pode faltar nem sobrar nada. Neste sentido, trata-se de uma arquitetura objectiva, com poucas modificações ao longo do tempo, que, sem estilo próprio, prescinde da afirmação de “uma arquitetura sem arquitetos” pela obra protagonizada por “maestros da tradição construtiva“ que perdurou com o passar dos séculos. Ao contrário da arquitetura que representa determinadas épocas, a arquitetura tradicional não tem definida uma evolução em conformidade com o avanço tecnológico, económico e cultural, continuando estagnada no tempo da sua criação. No que concerne à relação forma/função, a generalidade dos edifícios procura o modo mais adequado e simplificado para criar os espaços que congreguem múltiplas atividades. Os principais programas podem estruturar-se em dois tipos de uso: o colectivo, tendo como finalidade a produção ou equipamentos, e o privado no caso da habitação. Por se tratar de uma construção com poucos recursos, as possibilidades construtivas estão condicionadas pelo material, pela geometria das águas da cobertura, e pelos requisitos climáticos. Podemos aqui adiantar que no caso das estações estudadas, como se encontram dentro das mesmas condições cujas variantes diferem pontualmente, encontra-se uma classificação arquitectónica regular. Para a continuação do estudo dos arquétipos, focamos a “casa patronal”, o exemplo que mais define o padrão arquitectónico chileno, muito presente no Chile central que, embora se diferencie pelo programa, se apresenta como um caso de grande semelhança, relativamente ao do objecto de estudo. Casa tradicional: A casa Patronal Estas casas representam uma parte considerável do património arquitectónico rural (de carácter regional e popular) e uma parte importante do património cultural nacional, constituindo um expoente da arquitetura típica do país. 40 Termo de G.Grassi, “. La arquitectura como oficio y otros escritos”, 1980, p. 193. Citado por Alfredo B. Rodríguez in “La Arquitectura en el virreinato del Perú y en la capitanía General de Chile”, op.cit.,1988, p109. O autor expressa aquí a linguagem arquitéctónica da construção popular na sequência de uma arquitectura sem grandes mudanças espaciais no final do século XVIII: “ A composição das fachadas, os desenhos planimétricos, a escala, as espessuras dos muros, o ritmo e dimensionamento dos vãos, o uso do abobe e da telha, marcam uma continuidade que se explica pela sua condição de arquitetura popular, filha da tradição construtiva, que como muito bem viu Giorgio Grassi, responde à lógica do óbvio”. OS ARQUETIPOS II. Território Os Arquetipos 50 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 34 Tipologia de construção colonial, Venezuela. Figura 35 Maquete do edifício La Laguna, em Baeza, Jaén. Disposição dos edifícos à volta do pátio. Figura 33 Evoluçao da Casa Patronal. 51 A Casa Patronal As casas patronais definem-se como um conjunto de edifícios, instalações e espaços anexos que se organizam como uma entidade complexa que constitui o motor social e produtivo da atividade agrícola chilena. Inicialmente eram concentradas sobretudo nas grandes quintas e mais tarde em propriedades geradas pelo seu fraccionamento.41 Estas obras representam uma forma de vivenda tradicional, de construção campesina complexa, sóbria e simples. Estas construções surgem no Chile no período das colónias espanholas, consolidadas pelos habitantes índios e encomendadas pelos representantes territoriais. Entre o século XVII e início do XIX, é desenvolvida e fortalecida a arquitetura chilena, tão diferente do resto da América, e suas raízes hispânicas, adaptado à sua terra e seu povo, o clima de cada região e à disponibilidade de materiais. 42 É um sistema de propriedade de origem espanhola ( Andalucia43), sendo exportado posteriormente para a América, durante a época colonial. Geralmente, na casa patronal, o programa pode ser dividido em duas partes: uma de uso comum, e outra, de uso privado. Nas áreas comuns encontramos o caminho de acesso. Este, conecta o interior do conjunto com a via de circulação rural, marcando o ponto icónico da paisagem com a incorporação de árvores de grande dimensão. Também de uso comum, o pátio define-se por uma praça aberta de dimensões e formas variáveis, tendencialmente quadrangular ou rectangular. Este compõe o eixo do desenho, no qual convergem os caminhos de acesso, sendo o meio de controle das atividades produtivas na própria casa ou do lugar onde se reúne a comunidade. Por fim, a igreja é construída pela devoção do proprietário ao bem estar dos habitantes, aparecendo geralmente integrada no conjunto arquitectónico. Excecionalmente, é construída de modo isolado, configurando o ícone do vale. De cariz privado, apresenta-se a casa do proprietário. Este dá forma ao edifício principal, construído no centro operacional da quinta e apresenta os espaços necessários para toda a família, conformando um espaço complexo e variado. Ainda de carácter privado, a casa do inquilino é integrada nos serviços comunitários, situado-se no seu percurso de acesso e interligando-se com a passagem principal que leva interior da quinta. Por fim, ainda parte deste grupo, surgem os armazéns e as bodegas, os quais se destinavam às atividades de apoio às 41 As grandes quintas criadas no tempo da colonização, tornam-se num modelo de construçao mesmo despois de esta terminar.: “ nos inícios do século XIX, no final dos tempos da Colónia [no Chile], a vivenda tradicional continua a desenvolver um esquema de evolução gradual da casona da época inicial, A propriedade tende a subdividir-se e as soluções são portanto menos generosas ao longo na sua extensão.” in Alfredo B. Rodríguez, “La Arquitectura en el virreinato del Perú y en la capitanía General de Chile”, op.cit., p.110. 42 Corporación de Desarrollo Pro O’Higgins. “El hombre como agente cultural y factor de cambio del medio ambiente. Historia regional desde la llegada del español hasta el siglo XIX” Rancagua, Chile . In http://www. pro-ohiggins.cl/libro/cuerpo/2_2_3.html (Maio 2012) 43 Ver: Juan Benavides. “La casa patronal del fundo chileno”, in “Estudios sobre arquitectura iberoamericana”. Sevilla, Junta de Andalucia, 1990. p. 3945 Programa II. Território Os Arquetipos 52 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías 53 funções relativas à produção. A arquitetura patronal de adobe e telha, foi inicialmente fechada por questões de defesa e, mais tarde, expande-se para o exterior com grandes parques exóticos, vivenda campesina, hortas, e zonas de armazenamentos. Realizado em etapas, este era um processo que se manifestava de acordo com os requerimentos da produção agrícola ou necessidades da família. Isto é, partia-se de um edifício composto por bloco único, ao qual se iam acrescentando compartimentos resultando por último em formas de L, U, ou H (etc.) Caracteriza-se por uma arquitetura de formas/proporções simples e simétricas, na qual os materiais utilizados eram por norma os locais.44 Este facto, fundamenta a representação deste edifício como o exemplo mais aproximado ao caso de estudo. Por fim, clarificamos os elementos que fundamentam a caracterização da casa patronal: os pátios exteriores e o corredor. O primeiro resulta do crescimento gradual da construção e, o segundo, o corredor surge do prolongamento da cobertura, que protege os muros de adobe das condições climáticas, configurando lugares de circulação e de permanência. Assim, chegamos ao problema crucial que afrontam as nações, nada mais que sair do subdesenvolvimento. Com a finalidade de se manterem no caminho até à modernização, é necessário desfazerem-se do velho passado cultural que foi razão de ser uma nação? (...)45 Kenneth Frampton Como já referimos anteriormente, com o Movimento Moderno surge um especial interesse pelas questões vernaculares. Este provém da resposta crítica ao processo de industrialização46 em Inglaterra (século XIX), onde é provada a plena consciência do arquiteto, enquanto elemento interventivo na sociedade, a par da realidade que acompanha. Perante essa realidade industrial desenvolvida nas duas primeira décadas do Movimento Moderno, foi desenvolvido um “vocabulário de formas baseadas numa variedade de modelos industriais, cujas convenções e proporções não eram menos explícitas do que as ordens clássicas da Renascença.”47 É neste contexto que se desponta uma atitude 44 Materiais como barro e palha (adobes), madeira para a estrutura e lintéis e carpintaria, argila para as cerâmicas utilizadas nos telhados e nos pisos, e cal para o revestimento das paredes. Mais tarde, devido aos sismos e a mudanças culturais introduz-se o ladrilho, a madeira e o zinco como materiais alternativos. 45 Kenneth Frampton. “História crítica de la arquitectura moderna”, 1993, p.318. 46 Momento de génese na arquitetura realizada com as invasões tecnológicas e com diversas propostas urbanísticas e sociais realizadas. 47 Robert Venturi, “Aprendiendo de Las Vegas”. 1978, p. 175-176. O MODERNO E O INTERESSE PELO VERNACULAR II. Território O Vernacular e o Moderno Forma 54 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 36 Desenhos de Le Corbusier, realizados na viagem ao Este, nomeadamente pequenas habitações rurais. Figura 37 e 38 Aguarela que demostra a receptividade de Baillie Scott e Voysay à arquitectura vernacular. 1904. 55 perante estes modelos, em defesa do respeito pela natureza.48 Dentro do movimento moderno, John Ruskin retoma o respeito pelos materiais e respeita a valorização do processo de execução (recuperando assim as profissões associadas a esses fins, com o Movimento Arts and Crafts). “Dividido entre a lucidez e a sensibilidade, Ruskin vê-se obrigado a propor a renuncia ao ferro e à máquina perante a perturbadora perspectiva de uma arquitetura que abandona toda a referência do passado e renuncia a toda a aura.”49 Atendendo ao contexto das técnicas de construção industrial, é de uma forma irónica que Le Corbusier, Alvar Aalto e Frank Lloyd Wright são os principais rostos do Movimento Moderno. Pois, se um dos princípios base do modernismo era renovar a arquitetura rejeitando a anterior, estes arquitetos rompem com o panorama de ecletismo e consumista da arquitetura e da sociedade, através da sua forma simplificada de construção, com uma noção de aproximação à natureza, e à realidade local. Estes arquitetos, entre outros, utilizaram de uma forma exemplar as tradicionais técnicas de construção, procurando ensinamentos na herança vernácula, sem deixarem por isso de serem “classificados” como modernos. O próprio Le Corbusier, em Le Voyage d’Orient (1911), através da reflexão sobre as localidades visitadas, valoriza as arquiteturas tradicionais. Segundo Le Corbusier, há uma necessidade da sociedade atual se ligar ao mundo natural e de encontrar uma nova forma de experiência sagrada e espiritual para o mundo dúbio industrializado do século XX. Outro exemplo de “resgate” da tradição, e de reação às mudanças radicais do momento da produção em massa e da indústria, é a postura de Baillie Scott e Voysay ( arquiteto Baillie Scott, ou o arquiteto-decorador Voysey). Foi impulsionada por estes arquitetos que, no movimento Arts and Crafts, renasceu a arquitetura doméstica inglesa.50 Com base na casa de campo, e na quinta tradicional com os seus respectivos jardins, a “rusticidade campesina do desenho (...) de Baillie-Scott”51 procura uma recriação da sua imagem pictórica, simples e com integridade. Baillie Scott “não acreditava que moderno, industrialmente baseado numa sociedade, requer uma arquitetura que subordina toda a arte tradicional em novos métodos mecânicos”.52 Voysey apesar de ser um dos pioneiros da arquitetura moderna, rejeitava essa noção. A arquitetura doméstica inglesa desenhada pelo arquiteto, baseia-se fortemente na língua vernacular, ao contrário da tradição académica vigente. 48 Parece-nos pertinente referir que, inserido no contexto artístico e cultural do Modernismo, um dos movimentos ocorridos em meados do século XIX: o movimento Arts & Crafts. De uma forma geral, este movimento aliava as formas e conceitos do passado, a um novo caminho para o futuro encontrando no vernáculo as formas de voltar ao artesanal. Definiu também a base reguladora do que é hoje o movimento moderno.em resposta ao contexto “industrial” do Movimento Moderno. 49 P.Herreu, J.M.Montaner, J.Oliveras. “Textos de Arquitectura de la Modernidad”, 1994, p.150. 50 Baillie Scott e Voysay Desenvolveram o seu próprio estilo distinto. Progrediram numa simples forma de arquitetura, assumindo a verdade do material e da função. 51 Kenneth Frampton. “História crítica de la arquitectura moderna”, 1993, p.318. 52 James D. Kornworf. Oxford University Press, 2009 cit. in MOMA website: http://www.moma.org/ collection/artist.php?artist_id=25615 . 56 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 40 Educação arquitetónica “Aprender com os países dedenvolvidos.” Figura 39 ‘A Pattern Language’ por Christopher Alexander: Positive Outdoor Space. 57 Como último exemplo daqueles cujo trabalho exemplifica o moderno levado para a arquitetura vernacular referimos Cristopher Alexander. O autor expressa o “timelles way of builging”, ou seja, o modo intemporal do edifício, o que foi sempre a base da arquitetura tradicional. Segundo a sua teoria radical, todos os edifícios tradicionais estão baseados nos “patterns” (padrões) , termo que o autor usa para expressar um grupo de regras que lhes dá qualidade para continuarem vivos: “[a] continuidade dos métodos funcionalistas estrutura-se segundo um sistema de partes de edifícios que sempre funcionaram corretamente.”53 Não é necessário um desenhador, mas sim, deixar as pessoas gerarem o desenho: “com o método dos ‘patterns’ pretende-se recuperar a capacidade individual e colectiva do homem para desenhar o seu meio ambiente harmonicamente com o mesmo, e com a natureza circundante,”54 retomando o processo primitivo. Os modernistas abandonaram estes “padrões intemporais” dado o seu fascínio pela nova tecnologia e a sua procura pela nobreza, e é por isso que a arquitetura moderna deixa de ser confortável. O autor afirma que ao criar a nova arquitetura baseada nos os padrões da arquitetura tradicional, volta-se ao que ele chama “o modo intemporal do edifício“. Apesar de todas as adversidades inerentes à arquitetura vernacular, acaba por ser sempre proferida e resgatada como exemplo. É aqui que encontramos as bases, uma realidade de permanência, imutabilidade e intemporalidade, entre outros factores. Pois, como afirma Portas este interesse pelo essencial, pelo autêntico e pela integração da arquitetura no seu contexto, “apareceu [no movimento moderno] primariamente como saída para o cansaço derivado ou reduzido vocabulário geométrico das composições em paralelepípedos ou dos grandes envidraçados, com um sem brisesoleils.”55 A arquitetura popular é o resultado da sabedoria de muitas gerações que foram deixando o seu registo: A riqueza e a beleza das formas produzidas pela ‘nova arquitetura vernacular’ provém dos ‘genes’ vernaculares que ela contêm. Mas se elas se cruzam e se multiplicam segundo os seus ‘códigos genéticos’, é sob a liderança de jovens arquitetos e engenheiros que se reativa a tradição e a faz procriar.56 Pierre Frey 53 Kenneth Frampton. “História crítica de la arquitectura moderna”, op.cit., p.378. 54 Kenneth Frampton. “História crítica de la arquitectura moderna”, Ibidem. 55 Nuno Portas. 1963 in Portas, Nuno, “Arquitectura(s), História e Critica, Ensino e Profissão”, 2005, p.25. 56 Pierre Frey, “Learning from the Vernacualar - Pour une nouvelle architecture vernaculaire”. op.cit.,p. 23. 64 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 4 Mapa regional (localidades, rede hidrográfica, estradas principais e linha de comboioRamal) LINARES TALCA CURICO 050 100 km !"#$" %&'()*)+$*,' %+-*$, .*'"-/( %"+0+/'/( !"#$%&'() !"#$%&'() !"#$*(&+# !"#$%&,&-'",# !)."&#$/"0)+,&1#+ 2)3)+&($0)+3&+1# 456".."37 !)."&#$8"#9$8"# :+.)3,"3& Cordilheira dos AndesPré cordilheiraVale centralCordilheira da costaPlanície litoral Figura 5 Cartografia das ilhas lagunares (1718) 65 Populaçao sentido, este rio foi durante anos um testemunho do desenvolvimento das povoações, costumes e tradições da região. A região do Maule é equidistante dos três maiores centros de produção e consumo nacional: Santiago, a cerca de 252km, Valparaíso, a aproximadamente 352km e Concepción, a sensivelmente 261km. Como a identidade é a auto-compreensão que os atores têm sobre si mesmos, dos outros e da sociedade, parece relevante observar como é que os sujeitos se vêem através do trabalho, resgatando as expressões subjetivas, mas também a integração social, exclusão, afinidades e diferenças, o que está próximo, o que está distante, e capacidades. Também interessa indagar como a estrutura produtiva organiza as dinâmicas sociais e insistir na relação entre a origem da classe e o perfil que o sujeito adquire posteriormente, a fim de dar conta das mudanças estruturais ocorridas nos territórios e como estes afectam a identidade.3 Segundo o “censo 2002”, a região do Maule apresenta cerca de 908.097 habitantes e apresenta maior crescimento, comparativamente com outras regiões. Sendo esta região a mais rural do Chile, (com sensivelmente 34% da sua população a habitar no meio rural no ano de 2002), apresenta uma identidade regional fortemente vincada à sua relação com a terra, e às práticas de valores que provêm do campo. A história da economia regional baseia-se no aproveitamento dos recursos naturais, principalmente no sector agrícola. Um importante processo de desenvolvimento foi a Reforma Agrária e a Lei de Sindicalização campesina, a qual causou transformações regionais produtivas nos últimos 50 anos (nomeadamente nas décadas de 60/70 do século XX).4 Posteriormente ao golpe militar de 1973 surgiu a contra-reforma e a consolidação da indústria agro-exportadora, como resposta à mudança do modelo político e económico. O cultivo agro-industrial gera hoje metade do valor agregado industrial regional, com áreas consideráveis de plantação principalmente para exportação de frutas. É de salientar a importância do sector florestal, uma vez que esta área económica fomenta o uso da mão de obra. Durante década 70/80 do século XX esta indústria teve um grande incentivo na planície litoral da região, como consequente deterioração das terras cultiváveis e aumento dos processos de erosão e despovoamento no interior da região. Outra fonte económica na região do Maule passa pela produção de arroz, olivícola e elaboração de azeite. 3 “Identidad e identidades en el maule. Conocimiento y Apropiación de Claves para Imaginar el Desarrollo Regional” in Informe Final, 2010, p.53.54. 4 Esta lei transformou os proprietários campesinos em atores sociais, recreando a antiga estrutura de propriedade e promovendo uma transformação cultural da concepção de direitos para os campesinos, facilitando um futuro desenvolvimento da indústria agroexportadora. Economia II. Território A Região do Maule 66 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 6 Povoação rural de González Bastías Figura 7 Cidade de Constitución 67 II. Território A Região do Maule No que concerne ao turismo (cultural e histórico) também se apresenta como fonte económica regional. O Valle Central, é uma área de tradições coloniais, e “distinguese sobretudo pelo ponto de vista produtivo pelo desenvolvimento agrícola, pelas marginais dos seus rios, pelos seus pontos turísticos e pesqueiros” 5 que sumarizam um cenário de riqueza. A questão da dinâmica rural/urbano é relevante, na medida em que esta região ainda não se reencontrou com a sua matriz rural, a qual foi desvalorizada e estigmatizada ao longo dos últimos séculos. “Nas zonas urbanas começaram intensas migrações campocidade, que fizeram crescer as cidades exponencialmente até hoje, conformando a cidade neoliberal não planificada e fortemente segregada.”6 De facto, na região do Maule existem diversas formas de habitar os territórios rurais: umas isoladas com formas de vida ancoradas no passado, e outras, conectadas com os processos de desenvolvimento que foram implementados na região. Denota-se assim uma grande distância entre ambas as escalas territoriais. Enquanto que, por um lado, os processos urbanização continuam a dar suporte à formação das cidades intermédias, por outro, os procedimentos de desenvolvimento em prática nas zonas tradicionalmente rurais, dão corpo à continuidade do rural, apesar de ambos os territórios se encontrarem profundamente relacionados entre si. Compreende-se ainda a necessidade de estabelecer e reforçar um novo diálogo com a ruralidade através de uma forma distinta de a compreender; pois, embora difira nos dias de hoje, os saberes e fazeres tradicionais rurais marcam um valor importante na construção da região, e, por isso, acentuam a sua revalorização enquanto esforço simbólico, e enquanto uma nova base de material e oportunidades, que “tal é o desafio a que está confrontado ao rural e face ao qual as diversidades dos trunfos de que se dispõe e da dinâmica dos seus actores levam a diferentes sequencias de desenvolvimento e de perspectiva.”7 5 “Identidad e identidades en el maule. Conocimiento y Apropiación de Claves para Imaginar el Desarrollo Regional” in Informe Final, 2010, p.307. 6 “Identidad e identidades en el maule. Conocimiento y Apropiación de Claves para Imaginar el Desarrollo Regional” in Informe Final, Idem, p.13. 7 Jean Remi, Lilian Voyé. “A Cidade. Rumo a uma nova definição?”, 1984, p.157. Rural / Urbano Urbanidade 68 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 8 Localidades. Figura 9 Habitante da zona rural. 69 Identidade Assim, podemos afirmar que “abordar os desafios que implicam a relação rural/ urbano, requer uma nova forma de compreender e potenciar a particular maneira em que, no Maule, coexistem ambos os espaços. Se há algo que possa dar-lhe o carácter e um projeto distintivo ao Maule é justamente a forma em que o seu território se vincula ao rural e ao urbano.”8 Deslocada e não representada a nível regional, a zona rural pode ser também entendida como uma capital social, da qual se podem construir novos projetos de desenvolvimento. Por exemplo, o espaço rural começa a ser revisitado pelas pessoas “urbanas”, como um objecto de consumo da cidade, ideológico e cultural, onde se projetam segundas residências . A dicotomia entre urbano e rural dá origem à identidade “maulina” de hoje: uma identidade de fortes características agrícolas. Apresenta ainda uma imagem associada à abundância, promovida pela corrente de escritores, poetas e pintores locais, e, por outro lado, uma imagem de terra empobrecida, marcada pela cultura popular, ligada à vida agrícola e artesanal. A imagem do habitante “maulino”, passa pelo seu isolamento que leva à denominação de “chileno indígena”. Este expõe o resultado de uma modernidade seletiva de consanguinidade e do escasso contacto com os meios atuais de socialização. A convicção das pessoas locais, em não abandonar os seus lugares de origem, advém de um sentimento de pertença ao rural, isto é, de uma ligação que se vincula a um projeto de vida, onde o lugar adquire um sentimento vital: “ a terra tem um conteúdo simbólico que encerra o passado, seja em função dos seus antepassados, ou porque projetam os seus sonhos do rural. (...) Em todos eles há um projeto de vida que implica potenciar o mundo rural, questão que por sua vez é reconhecida por outros da comunidade e de alguma maneira converte-os em autoridade no lugar.” 9 Assim, torna-se fundamental compreender a identidade como projeto de desenvolvimento humano, e construção social, uma simbologia própria que reclama ser reconhecida, protegida e promovida. 8 Identidad e identidades en el maule. Conocimiento y Apropiación de Claves para Imaginar el Desarrollo Regional” in Informe Final, op.cit., p.326. 9 Identidad e identidades en el maule. Conocimiento y Apropiación de Claves para Imaginar el Desarrollo Regional” in Informe Final, Idem, p.283. Futuro 70 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 10 O Ramal TalcaConstitución 71 Significado RAMAL TALCACONSTITUCIÓN Para entender o objecto de estudo deste trabalho torna-se necessário situar toda a linha do Ramal TalcaConstituição, ou seja, todo o património, a valorização da paisagem, a arquitetura local e o património cultural das várias localidades conectadas pelo comboio. “A presença do ferro-carril no território chileno, como meio de transporte de carga e passageiros, data de meados do século XIX, fenómeno que num processo ininterrompido de construção de estações e linhas férreas, possibilitou a conexão e comunicação do país, em forma longitudinal e transversal, numa densa ramificação, que se estendeu desde o norte, sul, a costa e a cordilheira”.10 Inaugurado no século XIX, o ramal TalcaConstitución é a última linha férrea de via estreita existente no Chile e, por sua vez, marca um ponto de transição histórico, social e económico na região do Maule. Atualmente, conserva a sua estrutura ferroviária, as pontes, as estações e os túneis, bem como mantém o objectivo inicial da sua criação, ou seja, continua a permitir um sistema de mobilidade entre as zonas rurais de Talca, Pencahue e Constitución. Definido por um conjunto de factores que marcam a sua importância, “o ramal conjuga valores paisagísticos, arquitectónicos, históricos e sociais, que permitem a conversão num património vivo do mundo rural e único a nível nacional” 11.. O nome ‘Ramal’ deriva de uma linha férrea única do Chile que funciona como ‘espinha dorsal’, na qual se expandem braços, desde oeste e oriente desta via principal. O território do Ramal situa-se entre os vales Maule e Talca e compreende em si uma faixa longitudinal de assentamentos humanos que se encontram confinantes e muito próximos do trajeto definido pelo ferro-carril entre as cidades Talca e Constitución e entre os rios Maule e Claro; Abrange as comunidades de Maule, Pencahue e Constitución, da província de Talca, fazendo um percurso desde o Valle Central até à costa numa superfície de aproximadamente 88 quilómetros. Geograficamente, o território compõe parte das regiões áridas e semiáridas da cordilheira da costa, e compreende, em si, as localidades de Colín, Linares de Perales, Corinto, Curtiduría, Tanhuao, González Bastías, Toconey, Palmas de Toconey, Forel, Huinganes, Pichamán, Maquehua, Rancho Astillero. Mais especificamente, o sistema territorial do Ramal engloba outros assentamentos rurais: Sta. Rosa de Lavaderos, Linares de Perales, Colín, Unihue, e Villa Cobin, na região do Maule; Corinto, Rasquen, El Estero, El Morro, Curtiduría, González Bastias, Tanhuao, e Toconey, na região de Pencahue; e na região de Constitución, Banco de Arena, Rancho Astillero, Carrizalillo sur, Forel, Huinganes, Maquehua, Pichamán, Quebrada de Pichaman, La Verde, Los Romeros. 10 Nelson Gaete, “Expediente Técnico para la declaración de Monumento Histórico, Ramal Ferroviario TalcaConstitución.”, 2005, p.12 11 Miguel García, “ipt -ucen lanza proyecto turístico del ramal talca-constitución”, Instituto del Patrimonio Turístico. in http://www.patrimonioturistico.cl/site/ (Fev.2012). Localização geográfica II. Território O Ramal Talca-Constitución 72 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 13 Cartografia tridimensional da região do Maule. Figura 12 Os comboios do ramal TalcaConstitución. Figura 11 Vista do rio que acompanha o ramal. 73 Contexto histórico No final do século XIX e inícios do século XX os interesses agrícolas e industriais propiciaram a implementação de diversos ramais rodoviários na zona do Maule. Para além deste ramal, atualmente protegido, existiram outros como o de Curicó – Lincantén, o de TalcaMariposas, o de LinaresColbún e o de ParralCauquenes. Estes terminaram as suas operações na década de 1970 e apenas o ramal TalcaConstitución continua hoje em operações, unindo ambas as cidades com um serviço diário, essencial para a vida das localidades que conecta. Entre 1830 a 1900, a antiga Nueva Bilbao, hoje Constitución, era Porto Maior e centro turístico nacional, de onde as embarcações “mauchas”12 transportavam produtos e passageiros até às confluências dos rios Claro e Maule, onde funcionava o porto de Perales. Por um lado, o ramal veio fortificar e potencializar as cidades de Talca e Constitución, por outro, substituiu a navegação típica do Maule pelo facto de dar saída aos produtos desde o interior. A estruturação da via em 188813, surgiu num contexto paradigmático de desenvolvimento e modernização, e em 1890 é aprovada a sua construção. Destacando-se de todos os ramais ferroviários, o de Talca - Constitución é o único em funcionamento com serviço de passageiros num contexto rural do Chile. Integra valores paisagísticos, arquitectónicos, históricos e sociais, constituindo ainda um património vivo de amplas projeções para o desenvolvimento das comunidades circundantes. A construção e instalação da linha ferroviária desde Talca a Constitución marca uma mudança nos meios de comunicação da zona, provocando uma inutilidade e consequente esquecimento do porto de Perales, da navegação no Maule e dos marinheiros “Guanayes”14 que tripulavam os “faluchos”15. Como resultado, durante o século XX o serviço ferro-carril do ramal determinou fortemente a atividade das localidades, constituindo as estações como importantes centros sócio-económicos para os seus habitantes. Ao longo dos anos, o ramal perdeu força e função única de mobilidade que o caracterizava fortemente, devido à construção de mais caminhos florestais e estradas pavimentadas, e devido ao maior numero de itinerários de transporte, como camionetas rurais. Factor que, somando ao levantamento e inoperância de muitos paradeiros do ramal interno, deu lugar ao desaparecimento de algumas povoações (como, por exemplo, El Morro e Rauquén). Este factor relembra a funcionalidade extemporânea da linha férrea que supostamente permitiria criar um sistema urbano integrado pelo ferro – carril. 12 Mauchas: De Maule, prov. de Chile. 13 Ano sob o mandato do governo de José Manuel Balmaceda que encarrega Enrique Meyer e Berbabé Castillo. As obras inauguraram em 1888 e foi em Agosto 1892 que se inaugurou o serviço de comboios entre Talca y Curtiduría, com a distancia de 33km e com a construção das estacões de Colín, Rauquén, Corinto, El Morro e logicamente a de Curtiduría. As obras culminaram em 1915. 14 Denominaçao dos marinheiros da zona. 15 Faluchos maulinos: jangadas tradicionais. Importância II. Território O Ramal Talca-Constitución 80 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 27 Estação Corinto: pós-terramoto. Figura 28 Estação Colin: pósterramoto. Figura 29-30 Cidade de Constitución destruída pelo Tsunami de 2010. 81 Terramoto “ A existência do património arquitectónico tem pouca persistência no espaço-tempo do Chile, devido a uma série de condições naturais e culturais, que se foram formando através de capas, uma identidade nacional baseada num permanente processo, em que uma geração destrói o que a anterior construiu.” 24 Antes do terramoto estavam mantidas intactas a estrutura ferroviária, as pontes, as estações e os túneis, bem como o objectivo principal da sua existência e criação continua a ser uma via de transporte de passageiros das zonas rurais de Talca, Pencahue e Constitución. A imposição natural que balizou este ramal deve-se à condição geográfica, marcada pela terra sísmica e pelo oceano propício a maremotos. No dia 27 de fevereiro de 2010, na sequência de um terramoto de grandes dimensões e maremoto na zona central do Chile, com a magnitude de 8,8 graus na escala de Richter25, as povoações e aldeias campesinas ficaram praticamente destruídas, sendo que as regiões mais afectadas as de Rancagua e Maule.26 As estações do ramal encontram-se na lista dos dez conjuntos edificados patrimoniais mais importantes que ficaram bastante destruídos27. Paralisou durante vários meses e o seu património arquitectónico sofreu danos severos na sua arquitetura colonial, nomeadamente, nas estações que surgem ao longo da linha paralela ao rio Claro desde Constituición até Talca, na foz do rio. 24 Lorenzo Berg Costa in “Estado del arte del patrimonio arquitectónico de región de Los Ríos_Chile”, AUS,8, 2010,editorial. 25 O terramoto é considerado p quinto mais intenso registado em toda a hitória do mundo. In http://www. creactivistas.com/2011/01/chile-88-reconstruir-el-futuro.html 26 58% dos monumentos da VI regiao (Rancagua) e 59% da VII regiao (Maule) sofreram danos maiores. Informaçao in “ El Sismo en el Património Arquitectónico”. Universidad de Sevilla, España y Chile. p.1 . http-//www.todopatrimonio.com/pdf/cicop2010/142_Actas_Cicop2010 (Março2012). 27 lista dos edificios: na VI regiao: Igreja de Guacarhue, propriedade San José del Carmen , Zuñiga e Lolol , Igreja de San Franscisco; centro histórico de Talca, Povoações típicas da VII regiao, Ramal Ferroviário talcaConstitución, os muráis da escola México de Chilián, zona de Cobquecurq e a casa de Violeta Parra. Em “El patrimonio cultural post terremoto: Los diez Monumentos Nacionales más dañados” http-// walktheline.bligoo.cl/content/view/767629/El-patrimonio-cultural-post-terremoto-Los-diez-MonumentosNacionales-mas-danados.html (Março2012) II. Território O Ramal Talca-Constitución 82 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 31 Esquema de localização das estações. Figura 28 Esquema de localização das estações Talca Colín Corinto Gonzalez Bastías Toconey Pichamán ForelHuinganes Maquehua Constitución 88 km 74 68 62 52 48 44 34 27 12 0 km Curtiduria No início das civilizações, nascem sempre gestos de apropriação e de significação dos lugares e de elementos naturais: uma árvore que é reconhecida como maravilhosa e sagrada; um bloco de pedra ou um precipício transformado num conto mítico; pedras interpretadas como indicações ou sinais; túmulos de terra colocados para presidir lugares; eventos naturais que suscitam medo ou fascínio, e que são arrastados dentro da trama dos significados humanos. Esses sinais depositam-se no território, os quais se sobrepõem a outros eventos, tais como a divisão predial, a produção agrícola, as povoações, os caminhos que tecem a geografia, e a linhas de ferro carril que conduzem a outras cidades.28 Rafael Moneo Pretendemos agora entender as diversas características das estações procurando entender não só o que as aproxima e o que as distingue, mas também o que as valoriza, do ponto de vista rural, social, geográfico, económico e arquitectónico, para a potencialização do lugar em causa . Localidades e atividades “Quando o Chile ainda era uma pegada, quando ainda não se vivia o desejo da modernidade, o comboio foi a coluna vertebral que uniu o país que, para além de conectar os seus habitantes, lhe permitiu um desenvolvimento produtivo”.29 A existência de uma pluralidade de aglomerações humanas retrata a génese e a evolução dos conjuntos de povoações que transpuseram a dimensão espacial e temporal desde a chegada do Homem à região do Maule até ao século XXI. Geralmente de forma anónima, como consequência da construção e instalação da linha ferro-carril, a partir de finais do século XIX, deu-se lugar ao nascimento de alguns centros de povoação rural. Várias estações do ramal, anteriores à linha férrea, formaram importantes assentamentos humanos justificados pela atividades económicas que se concentravam para saída e entrada de comércio, eram pequenos portos de embarque de produtos que provinham de Constitución em pequenos “faluchos”30 de madeira. “Durante os séculos XIX e XX, as estações ferroviárias foram centros importantes da atividade das cidades e povos, dado que se converteram em pontos de encontro de pessoas e ferramentas impulsionadoras do comércio e da economia. Ao longo desse período conceberam-se diferentes tipologias de edifícios, dependendo da função ou da importância da estação dentro de uma linha ferroviária”. 31 28 Rafael Moneo Contra la indiferencia como norma, 1995 , Citado por Augusto Angelini na disciplina de projecto ,Chile, 2010. 29 Bárbara Fernandez e Alejandro Morales, “Último ramal ferroviario Tren del Maule, un viaje al Chile Profundo”, 2006. 30 Embarcação costeira de vela latina, em uso no Mediterrâneo. Novo Diccionário da Língua Portuguesa Candido de Figueiredo,1913. in http://www.lexico.pt/falucho/ (Março2012). 31 Carlos Parejo Rey, “Análisis estructural de edificios del siglo XX: la Cubierta de la Estación de Francia Catalunha”,2009,p.5. AS ESTAÇÕES II. Território As Estações Apropriaçao de lugares 83 84 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 35 Estações | habitantes. Figura 32,33 e 34 Apropriação das estações pela população. 85 No surgimento da linha ferro-carril, estas povoações, disputavam o “privilégio” de albergar as novas estações justificado pelo interesse nas acessibilidades e conectividades. A posterior criação dos paradeiros deu origem a alguns “núcleosestação”, os quais se tornaram focos de atração populacional e comercial, até se converterem em circunstanciais vilas mercantis, permitindo desenvolver legítimos “centros de recolha de armazenamento comercial e de serviços”, que criaram a capital do vale central, com as cidades portuárias do rio Maule. Praticamente todos os habitantes das localidades são pequenos agricultores independentes ou assalariados, que trabalham para antigas quintas ou empresas agrícolas e florestais próximas, mas afastados destes mesmos centros. Cerca de setenta por cento destes residentes encontram-se em condições de pobreza e numa situação de marginalidade rural, dado que sobrevivem da venda da sua produção de frutas, vegetais e cereais nas feiras de Talca e Constitución. Desta situação, importa salientar a importância do ramal TalcaConstituición, promovendo a conexão entre os pontos de comercialização regional, bem como a ligação à vida moderna da cidade, uma vez que as péssimas condições de acesso (devido ao relevo acidentado característico da cordilheira da costa), causam aos habitantes uma acessibilidade deficiente com a restante região.32 Estes factores negativos contribuem para uma migração do campo para a cidade, para o empobrecimento das condições de vida dos agricultores e comerciantes, resumindo-se num círculo inevitável empobrecimento cultural e educacional.33 Apesar de haver grandes variações a nível da densidade populacional, em geral, as localidades do território do Ramal apresentam características bastante homogéneas relativamente às condições básicas e iniciativas produtivas, o que se torna relevante, considerando o potencial económico e turístico, e que várias delas contam com as estações do ramal Talca – Constitución. “Cada estação converteu-se num foco de vida que permitiu o crescimento das cidades, a migração das famílias, o surgimento do comércio. Apesar dos avanços do novo século, e do desaparecimento deste meio de transporte, há regiões onde o ferro-carril ainda vive”. 34 32Alejandro Morales Yamal, “Juventude, museos y património, II congresso de educación, museos y património”,2007, p.110. 33A nível de educação e apesar dos problemas envolvidos, as escolas básicas rurais existentes na área ( a de Toconey, Curtiduría, Tanhuao, Colín, Manquehua e Las Palmas de Toconey), tranformaram-se em verdadeiros centros de irradiação cultural, educação e capacitação no sector. O que somado ao funcionamento do Ramal permite conectar com a vida moderna da cidade que conduz o acesso ao progresso, à informação, aos serviços e ao bem estar cultural e social destas famílias campesinas. 34Bárbara Fernandez y Alejandro Morales. “último ramal” ferroviario TREN DEL MAULE, un viaje al Chile Profundo. editada por el Museo O’Higginiano y de Bellas Artes de Talca. op.cit. Estações fundadoras de povoações Habitantes II. Território As Estações Vasura Oficina Figura 36 Formas e tipologias das estações do ramal. 87 Arquitetura das estações As estações, para além do papel protagonista na vivência quotidiana dos habitantes, viabilizam aspectos arquitectónicos, programáticos, construtivos e bioclimáticos, o qual permite determinar tipologias construtivas próprias de cada contexto social; “modelos que representam regionalmente cada simbiose cultural entre os modelos trazidos pelos colonos europeus, assim como os gerados através de tipologias particulares, geralmente de auto-construção, que respondem a parâmetros locais de adaptação e vinculação com o meio natural construído.” 35 A tipologia encontrada no ramal Talca-Constitución enquadra-se num panorama histórico específico. Depois dos períodos colonial (até 1810),36 republicano(até 1850), que passaram por esta região, e outras, segue-se o período auge, com a implantação de “políticas de ocupação do território e expansão do território produtivo, pelo qual chega o comboio e os seus ramais e, portanto, o surgimento de povos no contorno das linhas férreas.” 37 A sua adaptação à geografia “permite-nos comprovar um feito notável da arquitetura, que é a persistência de um esquema similar e a sua variação, produto dos diferentes contextos de onde se coloca.”38 As pequenas estações do ramal (os paradeiros), são sempre constituídas por um volume paralelo à linha ferroviária, nas diversas povoações. Os mesmos são uma conjugação entre natureza e artifício, entre paisagem e arquitetura, que se conforma e dá origem ao lugar, como nos recorda Rafael Moneo: O lugar, o solo, que o arquiteto dispõe, está sempre expectante, sempre à espera do acontecimento que supõe construir sobre ele. Através da construção, uma vez que esta se consuma e o ato de posse do lugar chega ao fim, a história começa. Trata-se simplesmente de afirmar que a arquitetura pertence ao lugar. Assim se explica porque é que a arquitetura deve ser apropriada, por que é que deve reconhecer os atributos do lugar. Entender quais são esses atributos, entender o modo em que se manifestam, é o primeiro movimento do processo que o arquiteto continua quando começa a planificar o edifício. Não é fácil descrever como é este processo. E, no entanto, não seria inconveniente dizer que aprender a ouvir o murmúrio, o rumor do lugar, é uma das experiências mais necessárias para quem pretende alcançar uma educação como arquiteto. 39 35V. Vasquez Fierro e T. Barria Catalan. “Estado del arte del patrimonio arquitectónico de región de los ríos_chile”. aus (valdivia) 8,2010, p.10. 36O período colonial no Chile, foi um dos mais densos da história nacional. Estende-se desde o século XVI até meados de 1819 com a formação do primeiro governo. in www.icarito.cl.(Março2012) 37. Vasquez Fierro e T. Barria Catalan. “Estado del arte del patrimonio arquitectónico de región de los ríos_chile”. aus (valdivia) 8, op.cit, p.11. 38ANGELINI, Augusto. Texto na disciplina de projecto. Santiago de Chile. 2010 39 Rafael Moneo, Contra la indiferencia como norma, 1995. Texto da disciplina de projecto de Augusto Angelini. Santiago do Chile. 2010 Tipologia arquitectónica e elementos endógenos II. Território As Estações 88 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 38 Estação de Talca. Figura 30 Cobertura da estaçao de Talca. Figura 37 Esquema de localização das estações. 89 Assim, lugar e arquitetura são intrínsecos e assinalam a história do lugar. Enquanto o ferro-carril foi um “feito na história da humanidade, a estação exercia também uma grande influência na história da arquitetura e da construção que a abriria a novos horizontes, e na planificação das cidades, profundamente alteradas por esta nova realidade.”40 Neste caso particular, as estações que marcam o final da linha foram, de facto, uma central de desenvolvimento em ambas as cidades (Talca e Constitución), enquanto as estações intermédias, construídas de forma vernacular, de acordo com os materiais e recursos locais, recriam uma imagem única de relação entre a arquitetura e o lugar, formando um conjunto modelos arquitectónicos vernaculares, que será abordado posteriormente. Entre os projetos dos onze edifícios ferroviários da linha, existe uma homogeneidade significativa nas soluções do seu aspecto volumétrico e funcional. As funções dos edifícios ferroviários eram compostas na sua origem pelos seguintes elementos: uma plataforma de embarque e desembarque de passageiros e mercadorias, (localizada junto à via férrea e elevada de forma a permitir o embarque no comboio); um abrigo de passageiros e mercadorias afastado da zona de embarque; uma área administrativa, bilheteira, zona de espera para os passageiros, e um ou dois armazéns de cargas e mercadorias. Exteriormente ao corpo da estação, destacamos o reservatório de água suspenso. Das categorias apresentadas, destaca-se uma tipologia muito própria, que apresenta algumas variações ao nível dos materiais, da estrutura e da dimensão da estação. Separemos as estações modernistas das coloniais e, atentando que as segundas apresentam uma maior relevância para o projeto, dada a sua forte ligação ao contexto local, analisemos mais especificamente a sua variabilidade. São duas e justamente as de maior porte, as estações terminais: a estação de Talca e a de Constitución. Encontram-se nas grandes cidades, onde incorporavam a função de terminal ferroviário e administrativo. As dimensões proporcionam um amplo ambiente de acesso dos passageiros e um elevado movimento comercial. A estação que dá início ao transbordo é a de Talca, construída em 1877, foi destruída pelo terramoto em 1928. Em 1929 foi substituída por uma construção austera, simples e sóbria, de expressão moderna, com uma imponente cobertura própria da arquitetura industrial, realizada em aço e betão. É constituída por um volume principal, com estrutura de betão armado, e por uma zona de embarque coberta por uma estrutura também de betão e tecto de zinco. Foi recuperada em 2000 e, atualmente, apresenta graves danos devido ao terramoto de 2010; A estação de Constitución datada de 40Mercedes López García. “MZA Historia de sus Estaciones, Colegio de Ingenieros de Caminos, Canales y Puertos”, 1986. Programa base II. Território As Estações Estações modernas 96 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 48 Paisagem de González Bastías. Figura 49,50 e 51 Estação e envolvente: Praia e materias. Figura 52 González Bastías. 97 ferroviárias, promovendo o comércio de todas as localidades do Ramal.44 Este local caracteriza-se pelas suas plantações de vinha, principalmente para a produção de vinhos próprios da costa árida e pela grande transformação na paisagem ao observar as montanhas com grandes extensões de plantação de pinheiros, substituindo na paisagem o bosque maulino. “O ferrocarril vai-se detendo em cada estação, onde sobem os paroquianos e outros descem do comboio. Não há pressas, as pessoas estão contentes, o vaivém do ferrocarril é relaxante, apreciam-se as velhas casas de adobe, as pessoas nas suas tarefas diárias. De repente, já estamos na estação González Bastías. Os seus muros de adobe pintados em amarelo forte, dão uma agradável impressão. Ao descer do comboio encontramonos com as mulheres que levam nos seus cestos pão amassado e ovos duros, que oferecem para o pequeno almoço. Elas são pessoas simples, amigáveis e acolhedoras. Conversamos sobre as suas tarefas e sobre como correm as vendas. Encontramos turistas estrangeiros carregados com as grandes mochilas, câmaras, mapas e diversas informações.” 45 Enquanto complemento do valor histórico e cultural do elemento construído estão os elementos naturais, destacando-se o primeiramente inicial o rio Maule. O facto do rio, nessa zona, apresentar uma largura de 271 metros ( entre os dilatações de 525 e 640 metros), faz com que tenha um grande peso na leitura e na organização do aglomerado, bem como as suas praias de areias negras e ondas vigorosas e pedras monumentais, esculpidas pela natureza, marcando o panorama paisagístico desta localidade. As qualidades paisagísticas da aldeia, tal como as virtudes da sua envolvente natural contribuem para a valorização de todas as riquezas arquitetónicas, culturais e sociais que o ramal possui. “A paisagem é também a forma espacial do presente, porém testemunho de formas passadas, que ainda persistem. Revelaria, assim, um dinamismo diacrónico, confirmando a evolução estrutural do processo espacial, demonstrando fases que poderão ser de estabilidade, de reformulação parcial ou de completa remodelação, engendrando novos espaços.”46 44 Eram comercializados: os tomates de Colín, os cereais e os vinhedos de Rauquén, as melancias e melões de Corinto, a uva rosada e vinhos de Curtiduría, e as tortilhas, ovos duros vendidos aos passageiros pelas mulheres de González Bastías. Também oferecia tijolos e telhas de Toconey, madeiras e quilhas para as embarcações de Forel, o carvão vegetal de Huiganes, os vinhos e frutas secas de manquehua. 45 Annemarie Balde “El Ramal: columna vertebral entre Talca y Constitución”. in http://www.ablturismo. com/el-ramal-columna-vertebral-entre-talca-y-constitucion (Jan.2012). 46 Cf. Marcello Martinelli, 2007, p. 196. Elementos envolventes: Paisagem Rio II. Território González Bastías Envolvente do edifício 98 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 53-54 e 55 Enquadramento. Figura 56-57 Forma construída. 99 Apresentação do conjunto edificado O valor dos elementos envolventes que contornam o edifício, passa por entender os valores internos que definem e caracterizam este território rural, que surtem aqui como recursos capazes de estabelecer relações de interesse que interligam a aldeia a outros territórios, fomentando novos usos e reforçando os já existentes. O edifício que configura a estação, localiza-se no lado sul da linha. Exibe no seu lado este os restos oxidados de dois depósitos de água em ferro fundido muito altos que se tornaram, associados à estação, o símbolo deste lugar. A norte, a estação abre-se para um campo de desporto, que funciona como praça e centro de reunião, incorporando o corredor alargado da estação. A oeste existe outra área que se representa por um conjunto de vivendas. E, a este, a estação “visiona” um grande pátio em plataformas escalonadas, com vista privilegiada para o rio entre as videiras, fruteiras e pequenas hortas que limitam um caminho até ao rio Maule. Na parte de trás da estação e em direção ao rio (com uma distância aproximada de 70 metros) encontra-se a praia, área propícia para acampar e desfrutar do rio e a sua ribeira norte marcada por grandes rochedos, na qual se situa um pequeno porto de embarcações, e onde os barcos flutuam sobre as águas tranquilas do rio Maule. A arquitetura vernacular e a demostração de adaptação ao meio, resultam de uma prática ancestral de sedimentação de conhecimentos arquitectónicos, em que as soluções dependiam diretamente dos recursos naturais existentes na proximidade. Estes foram importantes testemunhos para o entendimento da relação entre o quotidiano, os costumes e atividades dos habitantes. Sem dúvida, a estação González Bastías apresenta um forte carácter social: os espaços maiores converteram-se em espaços de uso local, para festas e reuniões. Procura-se entender as camadas que o edifício foi sofrendo. Uma forma original cresce de acordo com os conceitos ideológicos modificada pelos locais, e intensifica uma desintagração cultural e desenraizamento no contemporaneo. “Um compromisso intelectual para re-simbolizar a cultura de hoje. Deve ser enfatizado a sua independência de espírito e força de caráter.”1 Embora o programa original – uma estação de comboios - se tenha mantido ao longo do tempo, o edifício sofreu alterações ao nível da apropriação e acrescentos dos espaços por parte do administrador, o morador. Isso percebe-se pelas transformações, possivelmente inconscientes, produto de um processo rural onde há falta de recursos para manter o edifício no estado original, e a necessidade de albergar mais família. Atualmente, a área total da estação é de aproximadamente 308 m2 , dos quais cerca de 93 m2 foram acrescentados posteriormente à construção original e apenas se mantém a entrada e a sala de “recepção”, o escritório do “chefe”. 1 Suha Ozkam, “Contemporary architectural expression”, 1986, op.cit., p.278. Forma construída: construção vernacular Evoluçao volumétrica/ programática II. Território González Bastías 100 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 58 “Camadas” de González Bastías Original Adega Of. Chefe estaçao Cozinha Adnimistraçao e serviços Adega Adega Sanitários Sanitários Sanitários Adega Adega Corredor Sanitários Adega Fase 2Fase 1 Fase 1 Fase 2 Fase 3 Fase 4 215 m2 + 57 m2 + 36 m2 Acrescentado 101 A primeira fase comporta a volumetria de base rectangular do edifício, originalmente estruturada por um volume paralelepipédico bastante comprido, funcionava como uma espécie de comboio onde se tornava necessário passar num compartimento para chegar a outro. Esta conforma a fachada principal do edifício, um ícone do ramal, enquadrada por uma galeria com pilares de madeira em base de pedra que suportam o tecto de chapa ondulada. Este é o espaço de espera dos passageiros do comboio, bem um dos espaços de reunião dos habitantes .É ainda o único momento de construção em adobe, que remete ao esquema colonial presente na região do Maule, nomeadamente nas quintas (como no caso exemplar das casas patronais). Na segunda, apesar deste espaço partilhar o mesmo muro da fachada principal, deteta-se a sua construção posterior pelo acrescento de uma extremidade em paredes de madeira na parte tardoz, e pelo seu telhado tenuemente elevado em relação ao anterior. Trata-se de uma adega, estruturada pelas travessas de madeira dos caminhos de ferro. Foi disposta e ligada imediatamente depois do escritório do chefe da estação, evoluindo como o principal espaço social da comunidade para lugar de reuniões e festas familiares. Torna-se duvidoso definir como uma fase o “L” desenhado do lado sul da volumetria inicial. Tanto se apresenta numa continuidade perfeita com a fase I (quer nas suas cérceas, quer na geometria do telhado e ainda na própria imagem), como ostenta um material de construção díspar, o tijolo. Deste modo, não chamaremos fase, e assumiremos o “L” como parte da pré-existência número um. Podemos considerar a fase III a volumetria anexa, construída posteriormente para a criação de sanitários de apoio à estação e arrumos. Também construída em tijolo, esta é configurada por paredes e cobertura consideravelmente mais baixas em relação à restante volumetria. Porém, adopta a mesma linguagem de caixilharias da volumetria inicial. Como última etapa deste processo de construção evolutivo, que, tal como no caso referencial das casas patronais, os proprietários ( apesar de serem apenas encarregados de serviços básicos da estação) transformaram a galeria tardoz numa espécie de marquise (uma galeria exterior que foi apropriada), de forma a criar um corredor de acessibilidade e distribuição interior. Como é utilizado o edifício, e como se relaciona com o espaço exterior? No caso da estação González bastías, todas as funções de concentram num único edifício, com a exceção dos depósitos de água, uma construção em ferro. A circulação externa surge através de uma conjuntura de factores, tais como as oportunidades de relacionamento social, restrições de movimento, acessos ao interior do edifício e localização e orientação na paisagem. A contornar a estação, a galeria coberta define a circulação exterior que está em contacto com o edifício. A galeria projetada da estação que recebe o movimento social proveniente do transporte, é o lugar de espera principal, o mais confortável, aquele que define a imagem da estação. II. Território González Bastías 102 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 59 Desenhos de estudo do sistema construtivo. Figura 60 Funcionamento estrutural da estação. 103 Uma galeria não é um corredor, normalmente apenas partilha algumas funções, neste caso, como a estação não dispõe de um corredor interior, este espaço assume a sua posição, articulando a sua relação com os diferentes usos. No lado virado ao rio, existe uma casa anexada ao volume principal, cujo acesso também só poderá ser feito a partir do exterior. No interior, a organização é simples, há uma circulação horizontal interrompida pelas sucessivas as salas, ou seja, uma passagem possível entre elas, e um corredor repartido tardoz que apenas distribui para algumas salas. A construção vernacular da estação González Bastías “caracteriza-se pela sua simplicidade e austeridade, por robustas proporções e uma escala ampla. Características influenciadas pelo baixo custo dos terrenos e frequência dos tremores.”2 São utilizados recursos locais como o adobe, e o emprego o zinco e a madeira. Domina um piso único, que, embora ritmado, apresenta pouca simetria nos vãos do alçado, como consequência natural e cultural do contexto em que se encontra. A estação, é construída numa primeira fase em abobe, material cuja utilização varia em todas as regiões do mundo3. Não há uma regra ou fórmula para a utilização do adobe, este “não é (ainda) manufacturado e não pode ser aplicado de igual modo e de uma forma sistemática, em todo o património tangível”4, só depende do saber local (o Knowhow), tornando-o de algum modo singular, marcando “um dos patrimónios mais diversificados e universais da Humanidade” 5 e empregada nas mais variadas edificações. O mais notável deste material é “o facto de ser um material natural, reciclável, ecológico e sustentável”, apresentar “ propriedades acústicas, na absorção do som” e uma“ excelente massa térmica associada ao muro de terra, o que permite, no Inverno, conservar o calor no interior da habitação e no verão, ter no espaço interior ar fresco.” 6 A galeria que completa este modelo, chamada de “corredor de expansão”, expressa a extensão dos beirais originais para proteger a parede de adobe acabada com um tipo de cal débil. As paredes exteriores exercem a função estrutural, construída em adobe com 30cm de espessura. Enquadra-se na época, sendo que existem duas estações com este tipo de construção e uma grande parte das cidades mais próximas. O mais comum era pedra, mas nesta zona mais argilosa proporciona-se mais este tipo de material, factor que a torna mais peculiar. A tradição é marcada pelos tabiques nas paredes interiores, que são cobertos neste caso da fusão travessas de madeira recobertas pelos materiais também utilizados para 2 “Historia regional desde la llegada del español hasta el siglo XIX” in http://www.pro-ohiggins.cl/libro/ cuerpo/2_2_3.html (Jun.2012) 3 “considera-se que um terço da população mundial, que habita em particular em regiões rurais, vive em estruturas construídas em terra.” Sendo a sua utilização “identificada em seis dos sete continentes, o que também é exemplificativo da sua grande diversidade cultural, a nível mundial.”M.Correia e J.Vítor in Terra : forma de construir : arquitectura, antropologia, arqueologia, 2005,p.18. 4 M.Correia e J.Vítor, “Terra : forma de construir : arquitectura, antropologia, arqueologia”, op.cit.,p.17 5 M.Correia e J.Vítor, “Terra : forma de construir : arquitectura, antropologia, arqueologia”, op.cit.,p.12. 6 M.Correia e J.Vítor, “Terra : forma de construir : arquitectura, antropologia, arqueologia”, op.cit.,p.18. Aspetos construtivos O adobe II. Território González Bastías Paredes exteriores Paredes interiores 104 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 61-65 Interior e exterior da estação. 105 o adobe (barro com palha) e coberto posteriormete com reboco. O atual material de cobertura, presente no caso de estudo, consiste em zinco. Acreditamos quse se trata de uma consequência cultural, que substitui a telha cerâmica original. Inicialmente, na estrutura eram utilizadas madeiras nativas (notáveis na prevenção de térmitas), porém, a estação apresenta madeira de álamo unida com parafusos de ferro, material adoptado no século XIX. Neste caso, trata-se de uma estrutura elaborada de asnas simples , sistema que permite o travamento dos movimentos horizontais das paredes estruturais, materializando o fecho do sistema estrutural. O contacto entre as paredes e o tecto é feito através de uma trave de madeira para que estas não se toquem diretamente ou de outra forma danificaria a parede de adobe. As peças de cantaria como os lancis de soleira, parapeito, ombreira e padieira são todas em madeira. Tradicionalmente seria de azulejos em cerâmica, o mesmo material que as telhas originais, de forma quadrada ou rectangular, cozidos em fornos (primitivamente feitos em adobe), porém, em González Bastías, o piso é executado em soalho de madeira sustentados por uma estrutura em madeira de vigas usualmente de secção rectangular, espaçados em intervalos de 60cm. Estas suportam o piso e estão ligados à parede para que haja uma força bi-direccional travadas por tarugos. Em tom de conclusão, entende-se que a estação não correspondeu ao desenvolvimento económico-social da região. Na verdade, o processo evolutivo da estação baseou-se na auto-construção por parte de quem a habitava. Neste sentido não foram realizadas intervenções de valorização que defendam as tradições chilenas e a importância vernacular subjacente. Considerando o seu valor patrimonial e a sua potencialidade turística, a intervenção revela-se emergente. Madeira Soalho II. Território González Bastías 112 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 6 Casa Patronal, Lo Contador. Exterior e interior. (2008) Figura 2 e 3 Comparação da casa Casa Lo Contador no ano da Venda à Universidade 1958 com o ano de 1994. Data que a faculdade já adquiria seis casas circundantes ao edifício Patronal. Figura 4 e 5 Casa Patronal, Lo Contador: Exterior e interior. (2008) Figura 7 Estudo 113 Casa Patronal Lo Contador A casa original A Casa Patronal Lo Contador, é um dos raros casos de sobrevivência desta construção rural (as casas patronais). Resistiu à passagem do tempo e foi absorvida pelo tecido urbano da cidade. Atualmente encontra-se camuflada a relação entre a casa e a área urbana, resultado de um longo processo,pois, durante séculos, sofreu contínuos processos de transformação. A casa segue o modelo das casa patronais referidas no primeiro capítulo, embora apresente dois pisos. É constituída por um corpo longitudinal, com corredores exteriores (as galerias) ao longo do seu comprimento e por escadas de acesso que excedem o volume do edifício. As áreas do primeiro piso estavam destinadas aos serviços de atividade rural - arrumos e bodegas - e o programa principal localizava-se no segundo. Lo Contador representa a manifestação de um saber construtivo local que alcançou bastante maturidade, pois, com poucos meios e recursos, apenas com adobes e madeira nativas foram criadas soluções com grande potencial dadas as dimensões e a sua escala. A própria casa teve uma forte evolução dentro dos próprios limites desde 1799 a 1920: inicialmente apenas assumia os espaços relativos ao trabalho do campo e quartos no piso superior. Mais tarde passou a incorporar também a capela, aposentos de exercitantes e refeitório, bodegas, arrumos e mais serviços de apoio à vida ligada ao trabalho no campo. A extensão da casa a partir do núcleo da quinta e da sua dupla função (trabalho e residência) que serve, deixa as suas pegadas na estrutura da casa. Na totalidade, as volumetrias da quinta formam-se em torno de um pátio com uma certa independência, de acessos autónomos. Com o tempo, a casa e a sua área envolvente expandiu-se com variadas volumetrias, formando-se uma teia de pátios, edifícios e jardins onde convivem simultaneamente marcas e vestígios de um modelo rural antigo. Com a compra deste lugar por parte da Universidade Católica do Chile, a faculdade investe em inúmeras remodelações, alterações e demolições dada a sua condição residencial, com a respectiva adequação e transformação em faculdade de arquitetura, urbanismo e desenho. Depois da etapa de urbanização que loteou os terrenos envolventes, este campus universitário incorpora outras casas adjacentes ao quarteirão que define a casa original. Assim, entre 1962 até ao momento atual a faculdade encontra-se em constante readaptação às necessidades programáticas. Em 1974 a casa Lo Contador é declarada monumento nacional. A partir deste loteamento, a faculdade começa a explorar o terreno envolvente numa densificação do campus, onde se criam as dependências necessárias para as escolas de arquitetura e desenho, mantendo a casa sem transformações substanciais. A direção instalou-se no corpo sul da casa, o mesmo que passou a assumir a entrada principal na casa. A antiga cozinha, posteriormente garagem, constituiu e foi ampliado para a cantina até à sua demolição com a construção da nova biblioteca a norte da casa, recuperando assim o sentido original. A conformação é gerada numa disposição segundo a geometria ortogonal da casa original. Evolução da casa original Expansão III. Síntese Três casos no Chile 114 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura8, 9 e 10 Vistas do pátio e projecto do Centro de informação construído em 1997 na primeira etapa e 2003 na segunda etapa. Figura 11 e 12 Edifício de Alejandro Aravena e Lierna Andrade construído em 2004. E escola de desenho de Sebastián Irarrávával contruído entre 2007 e 2008. Figura 13 Estudo 115 As novas construções em torno da casa, surgem com estruturas de um piso e uma estrutura leve e metálica, pensadas inicialmente como provisórias embora algumas das quais tenham permanecido. Estas novas infraestruturas destinam-se a salas de aulas ou dependências administrativas. Vão-se somando edifícios, e intenções de os fechar em pátios passando da forma em “L”, para a forma “U” ou O””. A iniciativa mais notável verifica-se no novo Centro de Informação Sergio Larrain García–Moreno, uma obra de Teodoro Fernández, Cecilia Puga y Smiljan Radic que data o ano de 1994. Esta desenvolve-se paralelamente à antiga quinta, enfatizando a direção oriente-poente consolida um novo subsolo. Através de uma topografia totalmente artificial, a solução é adoptada devido a uma regularização municipal que proibia a construção ao nível do terreno. Desenvolve-se nos dois pisos escondidos no solo, albergando a biblioteca, salas de computadores, uma livraria, sanitários um grande e um pequeno auditório, camuflados por uma cobertura de madeira, com jogos de movimentos que proporcionam um intervalo dinâmico aos alunos. Este espaço renovou radicalmente a espacialidade da faculdade, agora com uma nova centralidade no seu interior, inclusive, conquista o protagonismo necessário para adquirir no seu lado oeste a nova entrada principal. Apenas em 2003 é começada a segunda etapa da construção, cuja premissa passou por manter a primeira etapa válida tendo em conta as modificações programáticas que ocorreram. Consolida-se assim um sistema de pisos que se articula no piso-1, com os terrenos do lado oriente que formam parte da faculdade desde o ano 2000. Posteriormente, em 2004, é projetada remodelação e ampliação da volumetria da década de 90 ( a que se localiza de frente à casa patronal e ao pátio), a cargo dos arquitetos Alejandro Aravena e Lorena Andrade. É pretendido adequar o programa a um tempo atual, com novas salas de trabalho e redesenhar acessos. Não se tratando de um novo edifício, e localiza-se numa envolvente especial e difícil devido à diversidade de edifícios que encontra à sua volta, e nomeadamente, às exigências de articulação entre todos os níveis, como a integração à biblioteca enterrada, para além de enfrentar construções de adobe e telha (usadas no final do século XVIII). Resulta num edifício simples, com uma geometria bastante clara. Entre 2007 e 2008, o arquiteto Sebastián Irarrávával projeta o novo edifício para a escola de desenho, contíguo com uma série de espaços destinados ao centro de documentação e informação e informação Sergio Larrain García-Moreno. São introduzidas salas de aulas, laboratórios e salas de professores. A estrutura do edifício combina betão e fachadas em aço oxidado, com intuito de marcar a sua presença. Denota-se o processo evolutivo de Lo Contador, inicialmete na prórpia casa rural, e a mais tarde, sua integração na cidade de Santiago do Chile. O seu crescimento demostra a compelxidade e a riquesa das relações oscilantes entras as diversas escalas que atualmente formam um complexo adequado às necessidades da contemporaneidade, valorizando características exemplares dos bens patrimoniais que a arquitetura pode oferecer , neste caso, à cidade. Nota III. Síntese Três casos no Chile 116 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 14 e 15 Hotel Atacama, Exterior e interior, muros de adobe até à entrada. Matias Gonzalez & Rodrigo Searle , em colaboração com Teresa Moller, paisajista Atelier Chile 2008, Figura 16 e 17 Vista dos espaços de estar e exterior dpos quartos. Figura 18 O vulcão, os quartos, o pátio e uma horta. Figura 19 Estudo 117 Nota Paisagem Programa O Hotel Tierra Atacama, localizado em San Pedro de Atacama, a segunda região do Chile, é uma obra de colaboração entre Matias Gonzalez e Rodrigo Searle, em colaboração com a paisagista Teresa Moller, datada do ano de 2004 e realizada para acolher os turistas que procuram este destino extremo que inclui o famosas lagoas salgadas do solar, os geiseres e o Valle de la Luna. O acesso à chegada, marcado pelos muros de adobe, foi transformado o antigo curral de touros em ponto de partida do percurso, que através de uma rampa conduz à entrada. Este caminho culmina num de três momentos do grande volume horizontal que consta o Hotel Tierra Atacama: aqui estão contidos os espaços comuns, representados pelo restaurante, bar, salas de multiusos, terminando num espaço de estar exterior em forma de “boomerang”, o qual é dividido em três zonas pelos muros de pedra e pátios de água. Ainda parte desta área comum segue-se e a piscina e spa, num jogo distributivo bastante geométrico, direcionada para o vulcão Lincacabur. Este percurso atravessa a área dos serviços, com as respectivas áreas destinadas aos funcionários do Hotel, como os balneários e zona de alimentação, e também os serviços de apoio ao restaurante, bar e aos quartos. O terceiro momento destina-se à plataforma dos quartos dos hóspedes, a qual se divide em duas alas: uma com 16 quartos de um piso e outra com os restantes 16 também de um piso, porém elevada de forma a não perder o contacto visual com a paisagem. Formando assim um pátio interior, escolhido precisamente por se localizar numa zona que apresenta vestígios arqueológicos. Para diminuir o impacto ambiental foram construídos muros exteriores de adobe, focalizando a perspectiva para o vulcão. Quanto às paredes internas, algumas foram forradas com placas de ferro oxidado para mimetizar as tonalidades da paisagem. Neste hotel, há um forte investimento na integração da paisagem. O projeto de paisagismo procura recuperar o carácter produtivo do terreno, através da plantação de diversos produtos regionais, É propiciada uma construção rústica, que preserva o estilo e as cores da região. Segundo Teresa Moller, o paisagista procura recuperar o carácter agrícola do terreno e convida os passageiros a viver a experiencia de estarem imersos num oásis do deserto. Pretende-se neste hotel distintos ambientes que ofereçam aos hóspedes espaços com uma certa intemporalidade. Da composição do seu programa destaca-se a “independência” dos módulos destinados aos hóspedes, quer pelos pátios privados, quer pelo próprio acesso, onde sobressai sem dúvida o chuveiro exterior provocando a sensaçao de constante mutação entre o exterior e o interior. Hotel Tierra Atacama III. Síntese Três casos no Chile 118 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 20 e 21 Hotel Arrebol Articulaçao entre as volumetrias e percursos exteriores. Figura 22 e 23 Materialidade do edifício e vista exterior do restaurante e bar. Figura 24 Estudo 119 O Hotel Arrebol, construído no limite urbano da cidade de Puerto Varas no Chile entre 2007 e 2008, é uma obra da autoria do arquiteto Harald Optiz Jurgens. Localizado na ribeira sul-este do lago Llanquihue, o terreno encontra-se numa superfície bastante irregular, pela existencia do bosque nativo e lagoas que o envolvem. Pertende-se a integraçao deste edifio na paisagem quer pela sua volumetria, quer pela materialidade escolhida para revestir o edifício. O edifício está conformado por dois volumes que se interligam por um percurso exterior, um caminho pré-existente apropriado pela circulação rural e apenas por um ponto articulador interior. O primeiro, desenvolvido numa cota superior, delimita a chegada ao hotel e alberga o programa privado, os quartos dos hóspedes. O segundo, abrange todo o programa de cariz público. Encontra-se a sala de estar que se prolonga até ao restaurante e ao bar através de uma escada de 2.5 metros de largura, numa relação direta com as três grandes árvores que se incorporam no espaço. Ainda neste volume, encontra-se no piso térreo do restaurante, um acesso independente ao público externo. O acesso principal ao hotel acontece no volume privado dos quartos, onde se estabelece um hall de entrada que articula os dois volumes, com um pé direito duplo. Nesse piso, seguem-se metade dos 22 quartos do hotel, rematados no fina do seu percurso por um espaço de estar. No piso superior comunicante com este hall, inclui-se a sala de estar principal que permite a ligação ao bar, aos serviços do hotel às instalações sanitárias e administração (este também com uma entrada independente pelo exterior), respectivamente consoante o percurso. O bar expõe de para uma varanda sobre o piso do restaurante. Este piso conectado ao exterior apresenta os serviços necessários para o funcionamento do mesmo. A implantação localiza-se na área superior do terreno, zona que apresenta uma forte pendente com uma vista privilegiada para a paisagem (cidade, bosque e o seu horizonte). Foram protegidas neste projeto as quatro árvores nativas existentes, e tornaram-se em elementos protagonistas no desenho, conformação e distribuição dos volumes do edifício. Para a construção do hotel, resgatam-se elementos próprios do sul do país para a sua integração no hotel. Para além dos materiais estruturais utilizados como o betão e o aço, a madeira local é utilizada na fachada em tiras verticais, uma alusão à morfologia das cercas. Programa Hotel Arrebol Paisagem III. Síntese Três casos no Chile 120 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 25-27 Envolvente da Estação González Bastías. 121 Estratégia geral Intervir no património vernacular de Gonzalez Bastías Nos edifícios, nas cidades ou no território sempre humanizado, a arquitetura dos próximos anos será marcada pela prática da recuperação. Recuperação e criação serão complemento e não especialidades passíveis de tratamentos autónomos. Reconhecerse-á que não se inventa uma linguagem. Reconhecer-se-á que a linguagem se adapta à realidade e para lhe dar forma. Tudo será reconhecido como património colectivo e, nessa condição, objecto de mudança e de continuidade. Os instrumentos de reconhecimento do real chamam-se História, a arte de construir a transformação chamase Arquitetura. Uma sem a outra chama-se fracasso da arquitetura contemporânea, dizemos nós.1 Álvaro Siza Vieira O valor patrimonial ligado à construção das estações encontra-se numa realidade distante dos valores culturais associados a aspectos da vida contemporânea. Intervir neste lugar evitará o risco da sua transformação em “lugares de passagem”, que nos remetem a uma possível leitura incompleta do seu passado, em detrimento de olhar o passado desde o presente e deste modo contribuir para um conhecimento real. O encanto do percurso quer para os viajantes, quer para os locais, as tradições coloniais e a atribuição da designação de património cultural, o monumento histórico têm vindo a atrair cada vez mais turistas. Analisada a área de intervenção é necessário expor as reflexões e as ideias intrínsecas à formulação do exercício de projecto e à sua elaboração. Deste modo, perante este lugar de indiscutível potencial num contexto rural que se encontra com uma construção a degenerar , e num país cada vez mais preparado a reações pós catástrofe e em constante reinvenção, aspira-se um projeto. Através de uma estratégia que desempenhe um papel regenerador pretende-se restituir a dignidade e a essência do edifício e à zona envolvente e, ainda, uma valorização desta pequena localidade que tanto acolhe o turista no seu momento de troca de comboio. A decisão relativa ao programa mais acertado para o lugar em questão, foi umas das preocupações primordiais, tratando-se de uma questão sensível e alicerce para a intervenção. 1 Álvaro Siza citado por Alves Costa in Identidade nacional e património construído - arquitectura, cidade e território na comunicação efectuada a 18 de Abril de 2009, no Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios sob o tema geral “O Património como Oportunidade e Desígnio”, consultado em http://home.fa.utl.pt/~jaguiar/documentos/2009/AAC2009Identidadenacionalepatrimonio.pdf (Agosto2012) 2. ESTRATÉGIA DE INTERVENÇÃO III. Síntese Estratégia de intervenção 128 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 30 Hortas e rio. Figura 31 Restaurante existente. Figura 32 Entre o “novo e o velho”. 129 Recursos naturais 4. MEMÓRIA DESCRITIVA Deste modo, estamos perante uma função atual de Viajar (estação), Habitar (por parte do administrador) e Conviver ( local de reuniões comunitárias), à qual se acrescentará Experienciar (restaurante) e ampliará o Habitar para receber os viajantes. Forma-se assim, neste conjunto, uma plataforma turística e social onde se cruzam habitantes e visitantes. Com a introdução de novos usos pretende-se consolidar a identidade local, proporcionando um contacto direto e dinâmico com a tradição e a história, com a criação de uma plataforma útil para todos os habitantes locais. Outro factor de relevo para o projeto passa pela manutenção dos cultivos existentes, pela produção de produtos típicos e tradicionais e pela criação espaços de reunião e postos de trabalho e, útil também, para os turistas. São potenciados os recursos naturais locais como o sector agrícola e as hortas, nas quais os proprietários e os turistas se tornam em atores sociais. Dinamiza-se ainda a povoação, gerando empregos relacionados com a restauração tradicional o turismo patrimonial. Associado à promoção da cultura tradicional, a inclusão do turismo é também uma alternativa efetiva de desenvolvimento sustentável. Deste modo, pretende-se combater o problema do distanciamento entre rural e urbano, uma vez que a sua essência rural se encontra a desvalorizar nos últimos séculos no Chile devido ao crescimento das grandes cidades. Onde se cruza a vida ancorada no passado e se mistura com uma nova realidade, atenuando a distância entre as escalas territoriais. “Quando falamos de identidade não só nos referimos ao folclore, à festa tradicional ou ao património. A identidade não é um olhar fixo no passado. É, antes de tudo, um processo social dinâmico, que se dá em contextos históricos específicos e que se sustenta na memória (quem somos) e se projeta no futuro (quem queremos ser).”1 Assim se criou uma estação/hotel, um lugar de encontro que gera canais de distribuição dos produtos locais, onde um grupo de produtores menores de vários sectores agrícolas se unem para criar, por um lado esta plataforma turística que conta a história dos seus produtos e os torna conhecidos, a qual cabe aos visitantes acompanhar os processos de criação e, por outro, a experiência de viver num hotel rural que acolhe visitantes, clientes nacionais e estrangeiros num povo integrante de um conjunto patrimonial que expõe a sua vida rural. O interesse pelo construído remonta às civilizações Grega e Romana, quando foi reconhecido valor aos objetos concebidos pelas culturas anteriores. O valor reconhecido, fruto de uma atração pela fantasia de um passado desconhecido, relaciona-se com o seu carácter pedagógico e fantasioso, uma vez que se tratavam de 1 “Identidad e identidades en el maule. Conocimiento y Apropiación de Claves para Imaginar el Desarrollo Regional” in Informe Final, 2010, p.324. III. Síntese Memória descritiva 130 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 33 Vista da “praça”. Figura 34 Rio com práticas desportivas. Figura 35 Campo de futebol. Figura 36 Envolvente: 1 - Linha de ferro 2 - Campo de futebol 3 - Hortas 4 - Rio Maule 5 - Areal 6Parque infantil 8Estação 0 7 areal 6 1.00 1 2 3 3 4 5 6 8 131 Atitudes testemunhos valiosos de uma civilização anterior. Esse valor baseava-se, em vez de uma postura histórica, no gosto e desejo de embelezar o presente e não de recordar o passado. Há um encanto pelas proporções e dimensões, pela história que reúnem, e pelas características que tornam o edifício conectado ao tempo da sua construção. Como ponto de partida para a análise da questão da intervenção na pré-existência, estabelece-se de imediato um diálogo com o antigo. Entendemos que não se pode criar algo novo, desconhecendo a realidade atual, ou seguindo as mesmas ideias que deram origem às estruturas no passado. Deste modo, “todas as hipóteses se puseram desde o início: introduzir o novo no velho; não tocar no velho (ideia característica do romântico); reconstruir o velho de acordo com a arqueologia e a história; recriar o velho.”2 Lançam-se pistas orientadoras aliadas às primordiais, que já se encontram no lugar. A paisagem verde montanhosa e azul do rio, marcadas pela morfologia rural surge como base orientadora da estratégia geral da intervenção. São os elementos circundantes que a vão definir, sendo o rio e a topografia atribulada, os limites do campo de futebol e os caminhos pré-existentes, os principais factores a considerar, mantendo desta forma a integridade rural. Da mesma importância há outros factores indissociáveis que originam as decisões de projeto. Restaurar, recuperar ou reutilizar, para o arquiteto Fernando Távora, é a procura de um compêndio que reúna a passagem do tempo e consiga acolher tranquilamente o futuro. Encontramo-nos assim numa dupla noção, “(…) neste aparente paradoxo, [onde] se constrói o conceito para cada projeto, sendo que este será sempre decorrente da exaustiva análise formal e histórica de cada objecto arquitectónico. É evidentemente uma leitura pessoal, porque tem implícita uma vontade artística de formalizar uma transformação.3 Exalta-se assim o conceito, a leitura própria e o estudo do lugar, pois, segundo Távora “(...) estuda o edifício, percebe-o e entende-o, e percebe o que o edifício quer ser. E é, nesse sentido, (é um sentido muito à Louis Khan, que é um dos mestres da arquitetura moderna), o que ele faz é pegar na própria lógica do que existe e tentar transformá-la sem nenhum preconceito em relação a isso.”4E na intervenção deveremos mostrar como o fizemos, respeitando a carta de Veneza5, destacando a 2 Alexandre Alves Costa “Património entre a aposta arriscada e a confidência nascida da intimidade” in À la recherché du temps perdu, JA 213, p.7-13. 3 Alexandre Alves Costa “Património entre a aposta arriscada e a confidência nascida da intimidade” in À la recherché du temps perdu, JA 213, p.7-13. 4 Alexandre Alves Costa transcrição de TSF “Fernando Távora, entre a inquietude e a serenidade” , in“Encontros com o Património” - Edição de 11 de Fevereiro 2012 5 Na Carta de Veneza (1964), aprovada no II Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos de Monumentos Históricos, apontam-se quais as atitudes mais sensatas de intervenção no património, considerando o respeito pelos elementos originais do edifício, tratando-se (essencialmente de edifícios monumentais), desaconselhando uma intervenção que pudesse alterar a sua imagem original e afirmando que uma nova intervenção deveria diferenciar-se da antiga - “...qualquer trabalho complementar, que se reconheça indispensável por causas estéticas ou técnicas, fica condicionado a uma conciliação ou harmonia arquitectónica e terá que acusar a data da intervenção ” In CARTA VENEZA, 1964 III. Síntese Memória descritiva 132 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 37 Questão da identidade. Figura 38 e 39 Alçado. Construção do novo e analogia com o antigo. Figura 40, 41e 42 Métodos distintos de intervir nas diferentes salas. Figura 43 e 44 Cortes: longitudinal e pelos pátios; Neus Museam [ Berlim, Alemanha: 19972009 ] Neste museu,David Chipperfield intervêm segundo três métodos complementares perante a pré-existência: restauro integral, preservação das marcas do tempo e reconstrução total. 133 diferença? Ou devemos ocultá-la? A intervenção atravessa momentos distintos, e naturalmente, por diferentes métodos complementares vinculados às visões tradicionalistas/ conservacionistas e interpretativas/inovadoras [fig. 38-42]. Procede-se a uma recuperação integral dos elementos essenciais que se pretende valorizar, preservando o que existe como defende Ruskin6; à demolição de elementos que prejudicam a inteligibilidade do conjunto espacial e de identidade da estação, resultado sobreposições, recriando a imagem original, segundo o pensamento de Viollet-Le-Duc7; bem como a reconstrução livre da parte que se encontra bastante danificada, adequando o que chegou aos dias de hoje a um futuro, tal como Rossi8, sem renunciar o presente pelo passado; e à adição de novos elementos que melhoram as condições existentes, de acordo com a necessária atualização (os novos usos e o novo programa). Estes, são procedimentos que respondem aos distintos problemas suscitados pelo edifício original, em que todos se relacionam no mesmo objectivo: recuperar a identidade deste lugar. Introduzem-se transformações no plano formal, tipológico, material e estético que serão explicadas passo a passo, de acordo com as próprias etapas de construção do pré-existente e, posteriormente, novos elementos. No fundo, a nossa dificuldade enquanto intervenientes “consiste em saber optar, distinguir, hierarquizar, no fundo, em desenvolver a sensibilidade capaz de encontrar o equilíbrio possível entre o que se restitui, o que se transforma, o que se omite ou coloca em evidência, que nos garanta a consciência de ajudar naquilo que falta fazer, sem estragar o que estava feito”.9 6 John Ruskin (1819-1900), inglês: para aprender com o passado será necessário preservá-lo exactamente de acordo com a imagem original. acredita que o monumento é o suporte da memória, parte integrante da natureza e como tal não deverá ser destruído. “o restauro...significa a destruição mais completa que pode sofrer um edifício...destruição acompanhada de uma falsa descrição do monumento destruído” numa clara negação das maisvalias trazidas pela Revolução Industrial e defesa de uma autenticidade baseada no passado. John Ruskin, “Las siete lâmparas de la Arquitectura”, 1987, pág. 227. 7 Viollet-Le-Duc (1814-1879): arquitecto e teórico de arquitectura, surge no panorama francês logo após a queda de Napoleão e seguidamente às destruições do património que a Revolução Francesa provocou. Recusa a mera conservação do monumento: “restaurar um edifício, repará-lo, ou refazê-lo corresponde ao restabelecimento de um estado completo que pode jamais ter existido”. reconstitui a forma primitiva, restaurando as áreas danificadas de acordo com o que acreditava ser o original, e completa o que está ‘em falta’ segundo o que ele acreditava ser a ideologia e vontade do autor do projecto. In Viollet-le-Duc, cit. por F. Choay, “A Alegoria do Património” 3ª ed, 2000, p.131 8 “a arquitectura, nascida da necessidade, é, actualmente, autónoma; na sua forma mais elevada, cria peças de museu que os técnicos utilizarão, para transformar e adaptar às múltiplas funções e exigências que devem cumprir...” analisa a ruína recuperando aquilo que é importante e transforma o que é necessário, isto é dálhe novo uso. sensível a todos os factores que caracterizam um determinado sítio, que o fazem pertencer à própria história. in Aldo Rossi, “Arquitectura para os Museus”, in Para uma arquitectura de tendência, 1972, pág. 210. 9 Giorgio Grassi, “Arquitectura, lengua muerta y otros escritos”, 1989, pág. 112. III. Síntese Memória descritiva 134 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 46 Área de intervenção. Figura 47 Camadas da Estação. I II III IV 135 Alterações volumétricas Trata-se portanto de um edifício classificado como parte integrante de um conjunto patrimonial e, por sua vez, o grau de transformação permitido é substancialmente menor relativamente a uma estrutura não classificada ou protegida. Dado este ponto de partida para o projeto, a abordagem a uma interpretação mais fiável será exequível quando conseguirmos deixar o “edifício falar”, manifestando as suas potencialidades, as carências, os problemas e o modo como integrará novos elementos. Parece-me que se se deve formular hoje alguma orientação do tema da intervenção, convinha fazê-lo segundo estas duas coordenadas. Por um lado, reconhecendo que os problemas de intervenção na arquitetura histórica são, primeira e fundamentalmente, problemas de arquitetura e, neste sentido, a lição da arquitetura do passado é um diálogo desde a arquitetura do presente e não desde posturas defensivas, preservativas, etc. A segunda lição seria a do positivismo pós-hegeliano: consistiria em entender que o edifício tem uma capacidade de expressar-se e que os problemas de intervenção na arquitetura histórica não são problemas abstractos nem problemas que possam ser formulados de uma vez por todas, mas que se colocam como problemas concretos sobre estruturas concretas. Talvez por isso, deixar falar o edifício é ainda hoje a primeira atitude responsável e lúcida ante um problema de restauração.10 Solà-Morales Resultado de condições naturais e culturais, foram-se formando camadas, um processo a partir do qual cada geração vai sobrepondo alterações. Serão estas camadas parte da identidade do edifício? Devemos mantê-las ou retiramo-las? Ao longo do estudo do edifício percebemos que a identidade se reflete fundamentalmente na força visual fachada, na sua cor amarelada, ritmo marcado pelos pilares de madeira e com uma longa cobertura sob a qual se cruzam os habitantes e os viajantes. A sua fachada tardoz, escondida ao público, camufla-se por detrás das redes que interditam a sua visita. Deste modo, e sabendo que a sua alteração não vai interferir na identidade do lugar, apenas é removida a parte que consideramos “anexa”, dada a sua construção frágil e posterior, bem como a sua incoerência volumétrica, conforme a tipologia das restantes estações. Volumétrica e relativamente à evolução tipológica referida anteriormente [pag.100], procurar-se-á manter a primeira fase de construção na sua totalidade, à exceção de duas novas paredes que subsituem as de madeira, que atualmente se encontram a servir de solução temporária. Esta nova construção imposta no edifício vernacular mantém o material já existente. O processo de intervenção aqui definido visa conservar a estação 10 Solà-Morales. cit. in Gracia. “Construir en lo construido : la arquitectura como modificación”, 2001, p.183. III. Síntese Memória descritiva Removido Preservam-se algumas marcas Nova construção mas mantêm o mesmo material Figura 48 Camadas da Estação. Figura 49 Estudo volumétrico Figura 50 Anagia com a Casa Patronal. 137 Proposta de intervencão pré-existente e restituir na totalidade a imagem original, atribuindo-lhe usos novos e complementares, com o principal intuito de impedir a sua avançada degradação . A partir dos elementos envolventes, o sítio e o programa é criada uma nova organização, sumarizando três volumetrias associadas e, simultaneamente, identificáveis. Duas destas construções são completamente novas (relativas ao restaurante e hotel), uma que “agarra” o antigo ao novo, através da associação deste novo elemento a um novo pátio foi uma ideia indissociável que surgiu logo à partida, no sentido de criar uma separação e comunicação identificável dos elementos. Somam-se diferentes atitudes que contribuem para esta plataforma turística, através da conexão entre as diferentes linguagens entre o que existe e as novas estruturas, entre as memórias e as histórias, de forma a “restabelecer correspondências antigas e vitais.”11 Tal como Távora, procuramos focar-nos nas soluções que o lugar sugere, indagar sobre as tradições arquitectónicas locais (como a casa patronal), sem, no entanto, pretender uma réplica, mas antes atenuar as discrepâncias entre o passado e o presente. Para esta intervenção, contribuem as analogias entre os sistemas construtivos, os jogos de proporções, a escolha dos materiais e das dimensões. Assim, a nova arquitetura nasce dos símbolos transmitidos pelo local, pelo terreno e pelas memórias. O objetivo deste projeto visa colocar em prática a marca da casa patronal (colonial chilena), agora perdida. Pretende-se ainda a representação do pátio, considerando o seu papel dentro da sua organização, dos seus usos, e das suas qualidades espaciais que potenciam este tipo de casas. O lugar12 é a primeira condição do projeto de arquitetura, condicionando-o de forma determinante. Como afirma Giorgio Grassi, “o projeto forma parte da história do lugar e, formando parte dela, reescreve-a. Esta é a responsabilidade do projeto, a sua responsabilidade mais completa. E também a sua dificuldade, porque já aqui se compreende, por exemplo, que o projeto nunca poderá ser um gesto definitivo. Mas para formar parte com êxito – por assim dizer – da história do lugar, é necessário, no meu modo de ver, que o projeto trate primeiramente de tomar posse, não só daquilo que mais nos seduz, do que parece chegar a nós como emanação do lugar, da aura, da fascinação, do génio (genius loci), como também precisamente do poder técnicoprático que o lugar custodia [...] isto quer dizer, então, que o lugar é sobretudo um dado racional, elemento técnico-prático do projeto”13 Tendo em conta a circulação irregular pretende-se manter a mesma imagem e memória quando se chega a González Bastías. O ponto principal, o de entrada, neste 11 Adaptado ao caso pois a intervenção pretende rejuvenescer o lugar: “restabelecer correspondências anti-Adaptado ao caso pois a intervenção pretende rejuvenescer o lugar: “restabelecer correspondências antigas e vitais, traumaticamente cortadas e mal perceptíveis”. Siza Vieira, “Imaginar a Evidência”, 2000, p.99 12 “O objecto do projecto é, principalmente, o seu lugar, o seu lugar físico”. Giorgio Grassi, “Arquitectura, lengua muerta y otros escritos”, 1989, pág. 129. 13 Giorgio Grassi, “Arquitectura, lengua muerta y otros escritos”, po.cit., pág. 129. III. Síntese Memória descritiva 144 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 61 Esquema de circulaçao da volumetria que remata o pátio de uma forma permeável. sala de estar 15m2 entrada 7m2 arquivo da estaçao 17m2área administrativa 15m2 quarto administrador 19m2 adega 17m2 bilheteira 16m2 6.30 4.10 4.10 7.30 4.10 8.20 kitchenette 3m2 sala 9m2 inst.sanit. 3.5m2 biblioteca / wi-fi 14m2 Inst. sanit. fem. 11m2 Int. sanit. masc. 10.5m2 Inst. sanit. mob.red. 3.9m2 12.90 7.30 6.30 N Figura 62 e 63 Domumetaçao gráfica: Planta e corte pelo interior na nova reconfiguração. 145 A nova volumetria Intervenção na parte anexa do préexistente também o uso pelos próprios habitantes da aldeia, fortalecendo a interação como forma de revitalização. Na construção “anexa” posterior à construção original da estação, que se encontra no tardoz, toma-se, com um cuidado especial, este caso como um elemento neutro. Trata-se de um anexo agarrado ao edifício principal pela sua linguagem, porém de menor altura e de materiais construtivos mais frágeis. Focamos a ideologia interventiva de Camilo Boito, que nos parece ser pertinente para este ponto de projeto. Este autor, defende “a lei da mínima intervenção no edifício como primeiro critério de conservação. Um segundo critério será o de conservar não só a matriz essencial do edifício, e com este programa se separa claramente das doutrinas de Viollet-le-Duc (...) em terceiro lugar (...) toda a nova intervenção, se há de produzir-se, tem que ser absolutamente neutra relativamente ao edifício existente. Deverá ser diferenciada para que se note que foi uma intervenção à posteriori e, portanto, deverá fazer-se de materiais e texturas diferentes.”16 Deste modo, redesenham-se as suas paredes e a cobertura, de acordo com a altura do edifício original, mas mantendo o seu desenho em planta, mantendo a mesma cobertura do edifício original, porém assume-se as novas abertura e materialidades. Assume-se que a vontade inicial de distinguir claramente o novo do antigo, pode ter sido dissolvida neste momento. Aqui aproveitase para fazer o acrescento das instalações sanitárias que servem a estação e a área polivalente, inclui-se uma zona de acesso à internet (sempre importante para o viajante contemporâneo), e zona de biblioteca, onde podemos ter acesso à história do local. A principal característica desta nova intervenção é a sua permeabilidade de circulação e intercâmbio entre o pátio e a zona exterior comunitária. Pessoalmente, este foi o ponto mais estimulante de todo o projeto. A questão cultural e o tema da reconversão vêm introduzir na arquitetura a tensão entre o novo e o antigo, o presente e o passado. É necessário um diálogo que os entrecruze, numa continuidade mais ou menos evidente. A questão que me levou a entender a essência da construção, debate sobre como relacionar ou não, o novo e o antigo, e a construção típica vernacular e colonial. Seguindo os alinhamentos referidos anteriormente, a implantação “do novo” surgiu pela composição de uma volumetria sensível à escala do edifício existente. A localização da nova volumetria, surge de acordo com necessidades do terreno e a fragmentação do programa em partes duas basilares (divididas em dois pisos distintos para melhor enquadramento topográfico [Fig.64-66] e ainda de uma vontade de não impor a nova construção à existente, e neste sentido, não se torna visível da aldeia, 16 Solá-Morales. “Intervenciones”, po.cit., p.27. III. Síntese Memória descritiva Figura 64-66 Hotel Douro 41 Castelo de Paiva, Portugal: em construção) Arquitecto João Pedro Serôdio. 7.30 6.60 3.10 12.90 6.60 6.30 4.10 7.30 12.90 Figura 67 e 68 Alçados do projeto. 147 Entre o “novo e o velho” apenas de quem visita o rio. O primeiro volume, no mesmo piso da estação, nasce da preocupação de rematar o conjunto tardoz da estação , localizado a sul e em contacto direto com o Maule. Atendendo às relações métricas e geométricas, tornaram-se essenciais para o desenvolvimento do projeto três fatores arquitectónicos: o primeiro diz respeito aos percursos e a sua continuação espacial entre o rural e o contemporâneo segundo as casas patronais típicas no Chile; o segundo, é relativo ao pátio também utilizado nas casas patronais, que serve aqui de elemento articulador entre o antigo e o novo. E por fim, o desenho das coberturas e a sua continuidade altimétrica. Todas estas questões tornam o projeto dissociável de qualquer outro. Porém, uma reconversão desfruta quase sempre do privilégio de trabalhar com lugares únicos, que contam uma história, especificam uma memória e identidades próprias. Aqui a preocupação assenta em criar uma nova intervenção que não tire protagonismo ao antigo, mas antes a complemente. Alois Riegl17, o historiador que procurou definir uma política de proteção do monumento, constrói a sua análise na oposição de dois grupos de valores; um ligado ao passado e à memória, e outro, ligado à contemporaneidade. Perante as exigências simultâneas e contraditórias entre os grupos que regem o conceito de monumento histórico, o valor de antiguidade rejeita o valor da novidade e, por isso, intimida igualmente o valor da utilização e o histórico. Embora sejam possíveis de harmonizar e resolver ajustando-se caso a caso, estes valores dependem do estado do monumento e do contexto em que se insere. 18 17 Alois Riegl (Linz, 1858 – Viena, 1905) historiador de arte vienense, jurista e filósofo. desenvolvimento de uma análise crítica da noção de monumento histórico. 18 O autor constrói a sua análise com base na oposição de dois grupos de valores: os valores de rememoração, ligados ao passado e à memória, e os de contemporaneidad, ligados ao presente. Ver: A. Riegl, Der moderne Denkmalkultus, Viena, 1903, in F. Choay, “A Alegoria do Património” 3ª ed,op.cit., p.12 Linhas orientadoras III. Síntese Memória descritiva Figura 68-71 Maison Van MiddelemDupont. Álvaro Siza Oudenburg, Belgium 19972003. sala de estar 15m2 entrada 7m2 arquivo da estaçao 17m2área administrativa 15m2 quarto administrador 19m2 adega 17m2 bilheteira 16m2 6.30 4.10 4.10 7.30 4.10 8.20 kitchenette 3m2 sala 9m2 inst.sanit. 3.5m2 biblioteca / wi-fi 14m2 Inst. sanit. fem. 11m2 Int. sanit. masc. 10.5m2 Inst. sanit. mob.red. 3.9m2 Inst. sanit. 11m2 Copa 10m2 Escadas de serviço Restaurante 53m2 Sala de estar 20m2 Acesso Hotel 7.30 12.90 N Figura 70-71 Nova volumetria. 149 Linguagem | programa A nova volumetria_ piso -1 Composto pelos alçados pré-existentes e pelas galerias, desenvolve-se um “claustro” com a nova volumetria. Procurando fechar um pátio interior de transição entre as duas distintas volumetrias (a nova e a antiga) o novo volume desenvolve-se em forma de L, de modo semelhante à antiga. [Fig.68-71] Neste piso relacionado com a estação, o objectivo foi incorporar “o novo no velho” em continuidade, sem tirar o protagonismo do edifício original. Sem pastiches ou dramatizações, foi criado um jogo entre a galeria antiga, a galeria nova, o pátio antigo, o pátio novo e ainda a cobertura, a antiga e nova. A nova estrutura, desenhada pelo alinhamento das galerias, paredes e coberturas, e pela proporção da fachada do edifício pré-existente, leva a uma comunhão entre ambos. A nova fachada (que faz frente ao rio Maule), traz a opacidade através da proporção da fachada do volume antigo que lhe é paralelo (opacidade que corresponde aos espaços do topo do edifício, nas zonas se serviços e de entrada principal do hotel) e é rasgada no restante restaurante privilegiando as vistas para o rio. Voltado para o novo edifício, desenha-se ainda uma galeria. Sendo esta uma característica das casas tradicionais, foi essencial dar continuidade às existentes no edifício antigo, contornando todo o novo edifício até interceptar as pré-existentes. No novo volume do restaurante e hotel rural, procura-se assegurar que na nova arquitetura estejam presentes as raízes remetentes para uma linguagem familiar, presente na memória coletiva. Este corpo abarca dois pontos programáticos principais: a entrada para o hotel (também relacionada com o restaurante) consignada pela sala de chegada/espera; e o restaurante, que apresenta uma entrada no ponto articulador, servindo também o viajante que utiliza a estação González Bastías. Aqui, toma-se uma atenção peculiar à escala [Fig.68-71] propiciando uma analogia ao antigo, continua-se com a utilização de elementos como é o caso dos pilares de madeira (embora neste caso internos). A nova intervenção, muda a materialidade do antigo para o novo, mas mantém-se a linguagem formal. Tentamos uma aproximação à arquitetura vernacular local, através dos métodos de construção local de recursos locais. Desta forma, remetemos para a utilização da madeira. A nova construção concentra dois pisos : um, diretamente relacionado com o préexistente que se tenta aproximar à arquitetura vernacular nos pontos volumétricos e na escolha dos materiais; e outro, camuflado na paisagem, que assume uma linguagem mais contemporânea de cobertura plana. Deste modo, a nova volumetria, procura o aproveitamento tipológico na paisagem, como se de uma adaptação contemporânea ao estilo vernacular se tratasse. Volumetricamente III. Síntese Memória descritiva 150 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 74 Esquissos de estudo do módulo. Figura 76-77 Planta do Piso inferior. Alçado_ vista rio. 7.30 12.90 Lavandaria 8.5m 2 Máquinas 4.5m 2 Lixos 3.5m 2 back office 12m2 beng. 5m 2 bar 51m 2 Cozinha 20m 2 adminis. 11m 2 Arrumos 12m 2 Balneários 24m 2 Zona de leitura 30m 2 recepçao 9m2 Escadas de serviço Inst. sanit. 11m 2 4.00 3.00 2 4.00 5.00m Hortas quarto tipo 22m2 quarto mob.reduzida 22m2 quarto comunicante 22m2 N Desenhos do módulo | escala_ 1/100 Planta Corte transversal Corte longitudinal Corte longitudinal Corte entrada para dois módulos Corte transversal Figura 75 Módulo. 151 Nota O novo corpo funde-se na topografia, uma preocupação de integrar um conjunto. Denota-se aqui uma analogia conceptual e morfológica. Optou-se por enterrar este programa, de forma a reduzir o seu impacto na paisagem e respeitando a referência à arquitetura vernácula desenhada no piso superior e deste modo, garantindo o contacto direto desde o hotel para o exterior. Quando intervimos neste piso desenvolvido para os serviços de hotel e para os quartos, a cobertura ajardinada camufla os quartos do hotel, sujeita às mesmas transformações da natureza à sua volta, permitindo com que a intervenção se misture na envolvente. Às necessidades programáticas de uma estação, aliaram-se as necessidades de um turismo rural, incorporando-se assim uma sala de estar e de leitura, uma zona de bar e uma vista privilegiada sobre as hortas e a envolvente Maulina. Neste piso reservado ao hotel, o programa é separado em três zonas diferenciadas: uma zona central com os serviços de recepção e zonas comuns, conectando por um lado com aérea dedicada aos serviços, e por outro, com a parte privada dos quartos. O edifício desenvolve-se ao longo da topografia com uma nova direção relativamente ao edifício original e ao piso superior, definido pelo muro de suporte do corredor das habitações. Este interrompe o pátio superior de forma a articular as duas direções em dois pátios e procurando ainda garantir luminosidade na zona de recepção do hotel. Assim, integra-se um pátio neste piso, que mantem o contacto visual para o pátio préexistente configurado pelos volumes. O volume relativo às zonas comuns do hotel, apesar de integrado na paisagem, destacase e afirma-se na sua natureza artificial, transformando a galeria do piso de cima num momento de tensão e de equilíbrio entre o edifício e a topografia. Acompanhando a encosta como um socalco construído, este abre-se num envidraçado enorme para as zonas de lazer comuns. Seguem-se nesta direção os quartos: encontram-se recuados relativamente às restantes áreas, permitindo o usufruto do espaço exterior e da paisagem envolvente. De forma a contribuir para um lugar em que o turista possa sentir que pertence ao mundo rural, escolhemos a zona de menor movimento, afastada da chegada e partida do comboio, e do lado oposto ao acesso público à praia. A solução final ambiciona apresentar um equilíbrio em que diferentes momentos construtivos conseguem coexistir, assumindo uma estrutura possivelmente mutável que se transforma com o tempo e com os seus utilizadores. Opta-se por localizar os quartos numa zona de implantação mais calma, onde o visitante pode descansar em contacto pleno com a natureza. Respeitando a escala do lugar, desenham-se nove quartos de carácter intimista. O acesso aos quartos escavados na topografia é criado através de um longo corredor, saliente da cobertura praticável, e interrompido por uma luz zenital ritmada à medida que surgem as entradas nos mesmos. Cada um destes quartos possui uma área de entrada, ainda com a mesma Quartos III. Síntese Memória descritiva 152 Chile: da Arquitectura Vernacular ao projecto de intervenção; A Estação González Bastías Figura 78 Textura_ Luis Barragán. . Figura 79,80 e 81 Imagens finais. 153 A forma final altura do corredor, que esconde o primeiro contacto com a paisagem. Este momento caracteriza-se como hall distribuidor onde se pousam as malas e se acede aos sanitários. Com uma mudança substancial de altura chega-se finalmente à zona de descanso. Todas as partes se comunicam, o que podemos comprovar pelo envidraçado entre os sanitários e o quarto. Cria-se uma passagem ténue do “mundo do conforto” para o mundo exterior, através de um pátio que permite o acesso direto ao exterior. Continuase com alguma intimidade no pátio, não o expondo completamente. E cria-se um espaço de chuveiro, útil para quando se chega do rio. No interior pretende-se uma linguagem vinculada à madeira, e no exterior, uma fachada com reboco texturado, de forma a relembrar as texturas rurais [fig.78]. Relativamente à forma resultante, a vontade pretende lembrar os edifícios contemporâneos que referenciando manifestações arquitetónicas de índole mais popular, ligadas aqui à produção de pequena escala, considerando que “ [todas] as formas de arquitetura vernacular são construídas para ir ao encontro de necessidades específicas, albergar valores, economias e modos de vida das culturas que a produzem.”19 A solução final engloba vários gestos pontuais que respondem não só às necessidades particulares de González Bastías, como formam vários pontos que convergem e compõem uma plataforma turística local. Soma-se assim, a cuidadosa subordinação à pré-existência na intervenção da estação, a adição de um corpo de restaurante. Este segundo, procura duas relações: uma de elementos vernaculares e coloniais no piso em comum, e outra através de um piso independente da estação, dissimulado nos socalcos. Criam-se alguns patamares de acordo com a topografia natural existente, que não definem concretamente os limites para que mantenha uma continuidade na atmosfera de ligação entre esta plataforma e a paisagem. O novo projeto pretende contribuir para o dinamismo rural local, destaca a memória da estação, e relaciona novos elementos articulados numa subtil afinidade linguística. Pretende-se tornar o edifício num motor social e um ícone local, no sentido em que a obra procura dar um novo impulso ao desenvolvimento rural .O objectivo primordial do projeto, resume-se na questão de que preservar o património cultural não significa apenas intervir na sua infraestrutura para preservar a memória do lugar, para fortalecer a identidade e autenticidade cultural, significa antes a sustentabilidade de sobrevivência, dos habitantes e trabalhadores que serão os responsáveis por garantir a vida deste lugar como património vivo. Tendo em conta que o património cultural edificado deve ser um contentor da memória da cidade, do passado e do presente, pretende-se sobretudo construir o seu futuro.20 19 Paul Oliver, “Encyclopedia of Vernacular Architecture of the World”, 1997, p.XXIII 20 Ver: Silvia de los Ríos Bernardini, “Patrimonio en Riego a Patrimonio Vivo: casa de las Columnas, Lima, Perú”. Documentación y Asesoría Poblacional – CIDAP.