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Lina Bo Bardi e o teat(r)o oficina.

Pedro Vaz Felizes

Abstract

O trabalho resulta do cruzamento entre o Teatro e o projecto de Arquitectura. Desenvolve as relações particulares entre o Ar-­‐ quitecto Lina Bo Bardi e o teat(r)o OGicina. Propõe procurar di-­‐ recções para o aprofundamento do diálogo entre a especiGicidade da Arquitectura de Lina e a disciplina do Teatro, recorrendo às mais diversas fontes e referências bibliográGicas de áreas como a FilosoGia, a Antropologia, a Psicanálise e a Sociologia. A investi-­‐ gação faz-­‐se em torno da dimensão do projecto para um teatro. Analisam-­‐se as componentes consideradas essenciais - na Linha, no Diagrama, no Território e no Tempo - para as reverter ao sen-­‐ tido estruturador do teat(r)o OGicina e o que ele implica na obra de Lina Bo Bardi.

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!LINA!BO!BARDI!E!O!TEAT(R)O!OFICINA Prova&Final¶&Mestrado&Integrado&em&Arquitectura&& Faculdade&de&Arquitectura&da&Universidade&do&Porto,&ano&lectivo&20012/2013 Pedro&Vaz&Felizes Prova&Final¶&Mestrado&Integrado&em&Arquitectura& Faculdade&de&Arquitectura&da&Universidade&do&Porto,&ano&lectivo&2012/2013 Lina&Bo&Bardi&e&o&Teat(r)o&OGicina &Pedro&Vaz&Felizes Orientado&pelo&Professor&Doutor&Joaquim&Moreno 2 Agradecimentos Tiago&Costa Pedro&Brandão Joaquim&Moreno Sílvia&Lopes Pedro&Loureiro Patrícia&Pereira e&a José&Celso Cristiane&Cortilio Ion&De&Las&Heras Fernanda&Drummond Marcelo&Drummond Marília&Gallmeister Carila&Matzenbacher Carolina&Mesquita Ana&Rúbia e&a&todos&os&outros&que&&formam&a&história&do&Teat(r)o&OGicina. 3 4 RESUMO O&trabalho&resulta&do&cruzamento&entre&o&Teatro&e&o& projecto&de& Arquitectura.& Desenvolve& as& relações& particulares& entre& o& Ar\ quitecto& Lina& Bo& Bardi& e&o& teat(r)o& OGicina.& Propõe& procurar& di\ recções¶&o&aprofundamento&do&diálogo&entre&a&especiGicidade& da&Arquitectura&de& Lina& e& a& disciplina& do& Teatro,& recorrendo& às& mais&diversas&fontes&e&referências&bibliográGicas&de&áreas&como&a& FilosoGia,& a& Antropologia,& a& Psicanálise&e&a& Sociologia.& A& investi\ gação& faz\se&em& torno& da& dimensão& do& projecto& para&um& teatro.& Analisam\se&as& componentes& consideradas&essenciais&–&na&Linha,& no&Diagrama,&no&Território&e&no&Tempo&–¶&as&reverter&ao&sen\ tido&estruturador& do& teat(r)o& OGicina&e&o&que&ele&implica&na&obra& de&Lina&Bo&Bardi.&& 5 ABSTRACT This%dissertation%is%a%result%of%the%intersection%between%the%Theater% and% the% Architectural% project.% It% develops% the% speci9ic% relations% between%the%Architect%Lina%Bo%Bardi%and%the%teat(r)o%O9icina.%It%pro? poses%to%seek%directions%towards%the%deepening%of%the%dialog%between% the%speci9icity%of%Lina’s%Architecture%and%the%discipline%of%the%Theater% by%resorting%to%multiple%%sources%and%bibliographical%references%from% areas% such% as% Philosophy,% Anthropology,% Psychoanalysis% and%Socio? logy.%The%research%develops%around%the%project%for%a%theater.%The%es? sential%elements% are%analysed% –% in%the%Line,% in%the% Diagram,% in%the% Territory%and%in%Time% –% so% that%they%may%be% reversed%towards%the% structural% sense%of%the%teat(r)o%O9icina%and%to%what%it%means%in%the% work%of%Lina%Bo%Bardi. 6 ÍNDICE Preâmbulo&.........................................................................................................................11 Capitulo&I & A&dimensão&da&linha&.....................................................................................&23 & O&gesto&da&linha&segundo&J.&Lacan&e&G.&Deleuze&..................................26 & A&linha&em&Lina&Bo&Bardi&............................................................................&30 & O&sentido&crítico&da&linha&de&Lina&Bo&Bardi&........................................&33 & A&linha&no&Teat(r)o&OGicina&........................................................................&35 & Primeira&proposta:&Linha&do&teatro&Nô&................................................&36 &Porposta&Ginal & & &A&potência&da&linha&no&Teat(r)o&OGicina&...............................&38 Capitulo&II & Da&linha&ao&diagrama&....................................................................................&47 & ConGiguração&do&território&.........................................................................&48 & O&diagrama&e&o&território&no&Teat(r)o&OGicina&...................................&50 & Formação&histórica&do&território&no&Teat(r)o&OGicina & & O&Gim&do&palco&italiano&..................................................................&52 & & A&assimilação&das&vanguardas&e¶lelismos&...................&66 & & O&tropicalismo&e&a&antropofagia&................................................82 & Construção&do&Teat(r)o&OGicina&................................................................94 Capitulo&III & Do&diagrama&à&realidade&...........................................................................107 & O&problema&da&identiGicação&....................................................................109 & A&causa&do&tempo&.........................................................................................112 & O&tempo&em&Lina&Bo&Bardi&.......................................................................118 Epílogo&.............................................................................................................................133 BibliograGia&.....................................................................................................................135 7 8 A%Danilo%Moreno 9 dade%e%contingência,% estrutura%e%multiplicidade,%clausura%e%inacaba? mento,%forma%e%estilo%são%binómios%que%antecedem%a%prática%da%arqui? tectura,%que%em%Lina%fazem%parte%de%um%signo%total%para%a%a9irmação% de%um%determinado%bem%estar%comunicante%entre%os%desejos%e%as%in? quietações%?%captados%pelo%pensamento%da%história.% % No%Brasil%o%impacto%da%obra%de%Lina%Bo%Bardi%faz?se%associado% às%artes%plásticas%e%à%musica,%sobretudo,%com%as%manifestações%surgi? das%nas%décadas%de%cinquenta,%sessenta%e%setenta.%Da%era%de%artistas% como%Lygia%Clark,% Hélio% Oiticica,% Glauber%Rocha,%Flávio%Império% ou% José%Celso%Martinez%Correa.%Época%das%querelas%entre%a%arte%concep? tual% e%o% formalismo% popular,% do% movimento% tropicalista,% da%poesia% barroca%concreta,%das%grandes%doses%radicais%de%resistência%a%um%oci? dente%cada%vez%mais%hegemónico.% % Lina%viu%a%arte%moderna%a%partir%do%território%Brasileiro,%des? de%de%um%%ponto%de%vista%dos%povos%da%Bahia%ou%do%Sertão.%Seja%na%ar? quitectura,%no%teatro,%nas%exposições%ou%nos%pequenos%manifestos%ela% ensaia,% constantemente,% uma% vontade% anacrónica% de% solidariedade% com%a%história% de%um% território,% rea9irma%toda%uma%constelação% de% tempos,% de%povos%e%de%geogra9ias%diferentes%que%actualizam%e%fazem% parte%da%expressão%Brasileira.% % Com%efeito,%Lina%distancia?se%do%positivismo%nacional%?%desen? volvimentista%?%do%milagre%económico%Brasileiro%das%décadas%de%qua? renta%a%sessenta.%Golpeia%a%industrialização%massiva,%contraria%a%men? talidade%taylorista,%associada%ao%progresso%e%às%práticas%da%constru? 16 ção,%cujo%emblema%era%a%modernização%e%a%diversi9icação%dos%modelos% de%consumo.%Por%isso%mesmo%é%que%os%projectos%de%Lina%Bo%Bardi%ne? gam%a%linguagem%endurecida,%alienada%a%si%mesmo%e%que%não%con9iam% à%sua%própria%concepção%a%sequência%móvel%das%aproximações%vitais% ao%lugar.% % Aqui,%nesta%investigação,%examinamos%uma%das%suas%arquitec? turas.% Aproximamo?nos% para% entender% o% projecto,% a% arquitectura,% como%ela%funciona%e%a%quem%é%que%serve.%Escolhemos%o%teat(r)o%O9ici? na%como%o%ponto%de%convergência%transdisciplinar,%como%o%reduto%de? positário%da%espessura%da%existência%da%obra%de%Lina%Bo%Bardi.%Parti? mos%da%força%mística%do%teatro,%da%forma%do%ritual,%que%fascina%e%faz% estremecer% as%razões%de%signi9icação,%para%chegar%nos%fundamentos% que%compõem%um%território% de%arquitectura% e%poder%vislumbrar%as% suas%formas%de%evolução%frente%aos%desdobramentos%da%sociedade%e% da%cultura.% %"Do%ponto%de%vista%da%arquitectura",%escrevia%Lina%em%1982 1% ,"o% O9icina%vai% procurar% a%verdadeira%signi9icação% do% teatro% ?% sua% es? trutura%9ísica%e%táctil,% sua%não?abstracção."%O%teat(r)o%O9icina%projec? tado%e%construído,%em%conjunto%com%Edson%Elito,%durante%os%anos%de% 1980%e%1992%é%um%marco%importantíssimo%na%história%do%teatro%Brasi? leiro.%Representa%o%culminar%do%percurso% de%um%grupo,% formado% no% largo%de%São%Francisco%na%faculdade%de%Direito%de%São%Paulo%em%1958,% 17 1 Bo&Bardi;&Lina;&Lina%Bo%Bardi%Teatro%O.icina%198041984;&Blau;&Lisboa;&1999& que%revisita%as%grandes%vanguardas%teatrais%do%século%vinte%e%que%re? posiciona%a%questão%da%cultura%e%das%técnicas%artísticas%no%seio%da%so? ciedade% Brasileira.% De% um% teatro% que%conectou% sempre% as% práticas% dramatúrgicas%à%vida%do%dia%a%dia%numa%voragem%que%se%arrasta%numa% espécie%de%movimento%elíptico%com%a%história,%em%caminhos%de%auto% destruição%e%auto%ressurreição%permanente.%Um%pouco%se%quisermos% como%a%imagem%de%um%prometeu%constantemente%nu.%Devorado%e%de? vorador.%De%órgãos%apontados%a%todo%um%processo%múltiplo%de%signi? 9icados,%permeável%e%crítico%daquilo%que%compõem%a%história%global%e% territorial%implícita%no%teatro.% % %%A%ideia%do%O9icina%seria%reinventar%uma%arte.%Opor?se%ao%blo? co%negro%do%laboratório%cénico,%da%tradição%do%palco%italiano%e%da%sua% natureza%funcional.%Pensar%um%outro%teatro:%um%teatro%sem%especta? dores%em%que%a%relação%óptica%passiva,%implicada%pela%própria%pala? vra,% seja%submetida%a%uma%outra%relação%?%a%relação% do%drama%e%da% disposição%dos%corpos%no%recorte%dos%espaços%e%dos%tempos%singula? res.%Lina%eleva%precisamente%esta%exigência%espacial%a%uma%estética%da% recon9iguração% dos% enquadramentos% sensíveis,% de% ruptura% com% as% evidências%da%ordem%natural,%no%sentido%em%que%a%forma%de%circula? ção%da%cena%e%dos%corpos,%as%passagens%do%visível%para%o%invisível%e%a% produção%dos%afectos,%são%subvertidos%e%adquirem%os%valores%da%sen? sualidade%e%da%coerção.%O%lado%do%furor%e%do%mistério. % A%arquitectura%assume,% no%O9icina,%a%linguagem%de%expressão% da%existência,%no%qual%cada%elemento%deve%ser%entendido%num%conjun? 18 to%orgânico%de%detalhes,% de%matérias,% paredes%e%transparências% que% encerram%em%si%o%seu%próprio%labirinto.%Importa,%por%isso,%decompor% o%gesto% por%detrás%da%obra,% o% gesto% signi9icativo%de%arquitectura%no% seu%impulso%quase%de9initivo%para%interpretar%os%modos%de%existência% dos%seres%com%o%mundo,% ou%melhor,% os%modos%de%existência%entre%a% permanência%do%ser%e%a%mobilidade%do%mundo.% %Para%olhar%a%arquitectura%de%Lina%Bo%Bardi%e%do%teat(r)o%O9ici? na%recorremos,% sobretudo,%a%textos,%fotogra9ias%e%desenhos%do%arqui? tecto,%além%de%outros%textos%e%fontes%bibliográ9icas%dos%mais%diversos% pensadores%dentro%e%fora%do%teatro%e%da%arquitectura.%Sobretudo%Gil? les%Deleuze,%António%Gramsci,%Jacques%Lacan%e%Manfredo%Tafuri.%Par? timos%de%elementos%gerais%sobre%a%arquitectura%de%Lina,%percebemos% as%questões%imanentes%aos%seus%procedimentos%projectuais%e%utiliza? mos%a%pesquisa%histórica%para%aprofundar%os%sentidos%que%envolvem%a% sua%acção%e%formam%o%seu%território.% % Sendo%assim,%procuramos%organizar%este%documento%na%forma% de%três%capítulos: % O%Primeiro%capitulo%analisa%a%dimensão%do%gesto%da%arquitec? tura%no% seu%momento% elementar% ?% a% linha%?% e%no% modo% como% esta% mede%a%profundidade%da%natureza%e%das%con9igurações%que%possibili? tam%a%criação%de%um%projecto.%Deste%pressuposto,%montamos%o%gesto% da%linha%de%Lina%Bo%Bardi%para%o%teatro%O9icina,%o%que%nos%leva%tecer% uma%série%de%intercâmbios%possíveis%entre%temas%de%contágio%da%ar? quitectura,% da% psicanálise%e% do% teatro.% Apontamos% alguns% aspectos% 19 considerados% relevantes% na% linha% característica% de% Lina% para% o% teat(r)o%O9icina%durante%as%suas%várias%propostas.%Mais%do%que%apre? sentar%ou%descrever%a%construção%do%teatro,%procuramos%um%ponto%de% vista%que%permitisse%desencadear%as%potencialidades%geradas%em%vol? ta%da%discussão%do%gesto%da%arquitectura.% % O%segundo%capitulo%explora%os%domínios%do%diagrama%do%pro? jecto%?%do%conjunto%das%linhas%?%e,%por%consequência,%do%território.%Re? tomando%noções%9ilosó9icas,%antropológicas,%e%sociológicas%avança?se% no% sentido%de%classi9icar%as%concepções%que%formam%o%território% do% teat(r)o%O9icina.%Para%tal,%é%preciso%extrapolar%sobre%as%mais%diversas% pesquisas%do%espaço%cénico,%principalmente,%nas%vanguardas%ociden? tais%do%século%vinte:%desde%das%criticas%ao%formato%do%palco%italiano%e% ao%jargão%naturalista%do%teatro%burgês,%por%Antoine%ou%Gerog%Fuchs,% até%ao%totaltheater%de%Gropius%e%Erwin%Piscator,%passando,%por%Appia% ou%pelos%Futuristas.%Para%aprofundar%as%implicações%da%prática%teatral% no%O9icina%ao%longo%dos%anos,%examinamos%as%suas%encenações%mais% determinantes%e%a%maneira%como%estas%se%revertem%nas%respectivas% referências.%"Os% pequenos% burgueses"%de%Gorki,% "Na%selva%das%cida? des"%de%Brecht%ou%"Gracias%Señor"%são%apenas%alguns%dos%exemplos% citados.%Depois%voltamos%o%olhar%para%a%inserção%do%teat(r)o%O9icina% dentro%da%realidade%Brasileira%através%das%peças%o%de%Oswald%de%An? drade%"O%rei%da%vela"%ou%os%"Sertões"%de%Euclides%da%Cunha.%Para%ter? minar,%lançamos%a%evolução%das%sucessivas%con9igurações%espaciais%do% 20 O9icina%no% interior% daquilo% que%se%pode%ensaiar% como% sendo% a%sua% formação%territorial. % O%terceiro% capitulo% fala?nos%da%arquitectura%fora%da%folha%de% papel,%fora%das%linhas%e%dos%diagramas.%Bene9icia?se%de%toda%a%série%de% questões%expostas%anteriormente%para%se%prender%na%problemática%da% arquitectura%no%confronto%com%a%realidade,%com%o%outro%e%com%o%tem? po.% Discutimos%as%relações%de%transferência%e%de%ideologia.%De%quem% projecta,%do%sujeito%projectado%e%em%que%medida%o%tempo%afecta%essa% relação.%Tentamos%encaixar%a%história%da%obra%de%Lina%Bo%Bardi%den? tro%do%teat(r)o%O9icina%e%vice%versa.%Percorremos%as%casas%do%chame% chame%e%Valéria%Cirell,%penetramos%os%muros%do%MASP%e%do%SESC%da% Pompeia,%partimos%o%teatro%Castro%Alves%e%o%Teatro%Gregório%de%Ma? tos,% para%no% 9inal% entender% as%forças%transdisciplinares% que%conver? gem%para%o%campo%da%arquitectura. % Estes%são%os%nossos% instrumentos%e%ideias% de%abordagem%ao% cadáver%de%que%falávamos%no%início.%Imaginemos%agora%cada%uma%das% suas%partes%para%além%do%nosso%olhar%solto.%Com%uma%vontade%indis? ciplinada% de% despi?lo% continuamente,% de%descobrir% constantemente% novas%camadas%e%super9ícies.%Tudo%para,%simplesmente,%conseguirmo? nos%comover%e%isolar%daí%a%nossa%própria%9igura.%Dizer%que%as%formas% dos% pedaços% de%corpo% que%vimos%são%imemoráveis,% são%o% totem%de% uma%indivisível%gramática%para%alcançar%a%persuasão%lenta%que%mora% no%intelecto,%na%loucura%móvel%de%cada%um,%no%lado%do%compromisso% entre%uma%liberdade%e%uma%memória. 21 % %%%%%%% 22 CAPITULO!I "Deus%escreve%direito%por%linhas%tortas E%a%vida%não%vive%em%linha%recta Em%cada%célula%do%homem%estão%inscritas A%cor%dos%olhos%e%a%argúcia%do%olhar O%desenho%dos%ossos%e%o%contorno%da%boca Por%isso%te%olhas%ao%espelho: E%no%espelho%te%buscas%para%te%reconhecer Porém%em%cada%célula%desde%o%início Foi%inscrito%o%signo%veemente%da%tua%liberdade Pois%foste%criado%e%tens%de%ser%real Por%isso%não%percas%nunca%teu%fervor%mais%austero Tua%exigência%de%ti%e%por%entre Espelhos%deformantes%e%desastres%e%desvios Nem%um%momento%só%podes%perder A%linha%musical%do%encantamento Que%é%teu%sol%tua%luz%teu%alimento" Sophia%de%Mello%Breyner%em%o%"Búzio%de%Cós" 23 24 Sequencialmente% desenha?se% a% linha.% Larga?se% a% mão% numa% fantasia,%numa%emoção%distribuídas%pelo%movimento.%É%o%“correlato% essencial%da%passagem%ao%acto”2.%De%nós%parte%o%desejo%do%traçado.%A% ele%impomos%uma%lei%exterior%que%nos%guia%sobre%a%super9ície%plana:% arrancamos%um%pedaço%de%carne%de%nós%mesmos,%de9inimos%os%seus% limites,% as%suas%sanções%e%as%suas%possibilidades.%Carne%viva%que%cir? cula%no%formalismo%lógico%da%ideia%sensível,% que%se%relaciona%com%a% emoção,%que%constrói%suportes,%que%guia%a%vontade%autêntica%de%toda% e%qualquer%causa%do%desejo%da%mão%de%fazer%linhas.%Porém,%essa%mão% não%é%livre%de%errar%ou%borrar%sobre%a%folha.%Lentamente,%no%raio%da% acção%com%o%cotovelo,%os%seus%músculos%alinham?se%num%gesto%de%ex? trema%precisão.%Risca?se%com%a%irrepetível%intenção%de%ferir%o%desenho% e%de%colocá?lo%ao%serviço%de%uma%radical%conexão:%de%nós,%laços%e%vec? tores%que%sintetizam%a%vontade%de%uma%estética%transcendental.% 25 2&A&descoberta&de&Jacques&Lacan&sobre&o&objecto&de&desejo&e&a&causa&de&desejo&expõe\nos&em&suas& diversas&etapas&e&vicissitudes&o&que&se&signiGica&a&passagem&ao&acto:&“Esse%largar%de%mão%é%o%correla4 to%essencial%da%passagem%ao%ato.%Resta%ainda%precisar%de%que%lado%ele%é%visto.%Ele%é%visto%justamente%do% lado%do%sujeito.%Se%vocês%quiserem%referir4se%à%fórmula%da%fantasia,%a%passagem%ao%ato%está%do%lado%do% sujeito%na%medida%em%que%este%aparece%apagado%ao%máximo%pela%barra.%O%momento%da%passagem%ao% ato%é%o%do%embaraço%maior%do%sujeito,%com%o%acréscimo%comportamental%da%emoção%como%distúrbio%do% movimento.”&Lacan,&Jacques;&L'%Seminaire%Livre%X:%L'%Agoisse;&Éditions&du&Seuil;&Paris;&1994&traduzido& pela&Jorge&Zahar;&2004;&Pág.&129 Sob%um%ponto%de%vista%mais%atento,%a%linha%e%a%mão%que%a%de? senha%devem%então%ser%consideradas%dentro%duma%realidade%de%rela? ções%equivalentes.%Isto%leva?nos%a%a9irmar%que%seria%um%erro%acreditar% que%a%mão,%antes%de%expressar%a%linha,%se%encontra%perante%uma%su? per9ície%branca.% O%paradoxo%do%formalismo%puro%decorre%desse%erro.% Se,%por%ventura,%fosse%o%nosso%gesto%encontrar%o%plano%imaculado%da% folha%vazia,% poderia%reproduzir%aí%qualquer%forma%ou%9igura%em%fun? ção%de%uma%natureza%já%preparada,%mais%ou%menos%estanque,%num%re? forço%do%gesto%em%si%mesmo.%Afastamo?nos%disso.%.%De%uma%maneira% voluntária,%todas%as%possibilidades,%tudo%aquilo%que%acontece%antes%de% desenhar?mos%a%primeira%a%linha,%já%está%de%algum%modo%na%folha,%en? quanto% virtualidade%acessível,% sempre%em%actualização12.% Tudo% está% presente%na%densidade%da%mão%como%um%corpo%de%prescrições%do%re? al.%A%missão,%é%por%isso,%muito%mais%profunda%do%que%aquela%de%preen? cher%uma%super9ície%branca,%inócua.%Consiste,%antes,%no%limpar%ou%no% esvaziar%dessa%mesma%super9ície%?%desimpedindo?a%–%para%tornar%vi? sível%uma%proposta13.%Vontades%e%sentimentos%impressos%na%alma%só% 32 12&Voltemos&à&análise&de&Deleuze&sobre&a&pintura&de&Bacon:&"O&Pintor&tem&muitas&coisas&na&cabeça,& à&volta&dele&ou&no&seu&estúdio.&Ora&acontece&que&tudo&o&que&tem&na&cabeça&ou&à&sua&volta&está&já&na& tela,&mais&ou&menos&enquanto&virtualidade,&mais&ou&menos&como&actualização,&&antes&de&começar&o& seu&trabalho.&Tudo&isto&está&presente&na&tela,&enquanto&imagens&actuais&ou&virtuais."&Deleuze,&Gilles;& Francis%Bacon%4%Lógique%de%la%Sensation;%Éditions&du&Seuil;&2002;&tradução&pela&Orfeu&Negro;&2011;& Pág.&151 13&Remetemo4nos%para%uma%frase%de%Klee:&“Não%se%trata%de%dar%o%visível,%mas%sim%de%tornar%visível”;& Klee,&Paul;&Notebooks%vol.%1;%Wittenborn&Art&Books;&1973;&pag.&133 por%si%não%são%mais%que%subtis%inutilidades%comparados%com%a%com? plexidade%dos%agentes%da%realidade.% Apenas%quando%nos%comprome? temos%em%agregar%as%distâncias%entre%os%sentidos%e%a%realidade%mate? rial,%em%desmantelar%as% relações%formais%e%em%consolidar%as%desco? bertas%de%novos%signi9icados%é%que%poderemos,% então,%provocar%a%in? venção%do%espaço. %Quem% desenha%linhas,% toca%todas%as% super9ícies% do% objecto% desenhado.%Do%vértice%do%lápis%faz%uma%extensão%das%pontas%dos%de? dos,% imagina%o%objecto% e%sustem?no%mentalmente%no%tecido% nervoso% da%mão.% Tacteia%na%pele%o%espaço% projectado.% Ocupa%os%lugares%fan? tasmagóricos%que%experimenta%nas%linhas%inscritas.%Dá?se%à%descober? ta%de%outras%linhas,%de%outras%subtilezas.%Lá%onde%a%visão%está%próxi? ma,%o%espaço%não%é%mais%visual,%ou%antes,%o%próprio%olho%e%a%própria% mão%adquirem%uma%função% háptica.%Esvanece%a%linha%que%separa%os% horizontes.% Não%há%fundo,%nem%limite,%nem%centro,%nem%contorno%ou% forma.%Sobra%o%pó%da%libido%que%se%espalha%no%labirinto%vivo,%sem%pa? redes%estáticas%que%retenham%os%membros%e%as%sensações. Neste%caso%estamos%a%ver%Lina%Bo%Bardi% a%desenhar%?%a%fazer% linhas.% De%metamorfoses% articuladas% faz% o% seu% gesto.% Apresenta?se% sob%a%forma%de%imagens,%esquissos,%projectos,%maquetas,%paredes,%tec? tos%e%chão% que%falam%da%sua%arte%com%todos%os%cuidados%e%conheci? mentos% que%ela%requer.% Ligar%a%experiência%do%espaço% à%experiência% do%corpo%–%é%este%o%decreto%de%sua%consciência%atenta.%Ainda%que%pos? sa%parecer%transitório%e%vago,%o%carácter%da%sua%arquitectura%esconde% 33 um% propósito% grandioso:% de%comover%para%assimilar%as%sensibilida? des,%de%alimentar%o%pensamento%com%a%ideia%da%possibilidade%de%uma% arquitectura%subversiva,%longe%da%norma,%que%se%faça%ouvir%através%da% respiração%compassada%da%imaginação%inquieta. Sob%o%ponto%de%vista%de%quem%imagina%a%linha,%Lina%Bo%Bardi,% torna?se% um% ser% de% extraordinária% precisão.% Consegue% dar% o% raro% exemplo%de%uma%dialéctica%conjugada%ao%mundo%exterior.%Entre%con? 9litos%políticos%e%culturais,%discriminações%e%opressões,%Lina%é%sempre% contestatária%das%ideologias%dominantes%?%misti9icadoras%de%uma%de? terminada%concepção%social%?%das%maneiras%de%estar%e%de%ser%.%Neste% sentido,%desenha%com%o%rigor%objectivado%na%liberdade%ontológica%de% cada%indivíduo.%De%facto%nas%suas%obras%existe%um%convite%pelo%direito% à%vida%participativa,% não%só%pelo%carácter%de%como%ela%convoca%e%in? terpreta%o%desejo%de%arquitectura%mas,%sobretudo,%pela%constante%von? tade%de%se%tornar%imperceptível%a%todos%os%que%habitam%os%seu%edi9í? cios.%"%Um%templo,"%escreve%Lina14%"um%monumento,%o%Parthenon%ou% uma%igreja%barroca%existe%em%si%por%seu%peso,%sua%estabilidade,%suas% proporções,% volumes,% espaços,% mas% até%que% o% homem% não% entre% no% edi9ício,% não%suba%os%degraus,%não%possua%o% espaço%numa%"aventura% humana"%que% se%desenvolve% no%tempo,% a%arquitectura%não% existe,% é% frio%esquema%não%humanizado.%O%homem%cria%com%o%seu%movimento,% 34 14&Bo&Bardi,&Lina.%Arquitectura%como%movimento.%Nota%sobre%a%síntese%das%artes%(Manuscrito%da%con4 ferencia%sobre%Dança%e%Arquitectura);&Salvador;&1858 com%os%seus%sentimentos.% Uma%arquitectura%é%criada,% "inventada%de% novo"%por%cada%homem%que%nela%anda,%percorre%o%espaço,%sobe%uma% escada,% se% debruça% sobre% uma% balaustrada,% levanta% a% cabeça% para% olhar,%abrir,% fechar%uma%porta,%sentar%e%levantar?se%é%um%tomar%con? tacto% íntimo% e%ao% mesmo%tempo% criar%formas% no% espaço,% expressar% sentimento;%o% ritual% primogénito%do% qual% nasceu%a%dança,% primeira% expressão%daquilo%que%será%a%arte%dramática.%Mas%este%contacto%ínti? mo,%ardente,% que%era%percebido% pelo%homem%no%começo,% é%hoje%es? quecido.%A%rotina,%o%lugar%comum%9izeram%esquecer%ao%homem%a%bele? za%natural%do%seu%"movimentar?se%no%espaço",%movimentar?se%"cons? cientemente",%nos%mínimos%gestos,%na%menor%atitude.%O%homem%per? deu%o%sentido%da%sua%harmonia%interior,%estranho%num%mundo%por%ele% criado,%as%situações%fogem%das%mãos%dele.%Um%ver%"grosso%modo"%afo? gou%a%sensibilidade%viva,%cancelou%a%vida;%e%subir%uma%escada,%levan? tar%a%cabeça%para%olhar%uma%forma,% abaixá?la,% não% são% mais% gestos% conscientes,%mas%uma%triste%rotina%que%não%desperta%mais%no%homem% a%maravilha,%a%felicidade."% A%mão%de%Lina%desenha%como%pensa.%Perante%aquilo%que%pro? jecta% não% existem% as% preocupações% de% um% arquitecto% tradicional:% como%projectar,%que%género%escolher,%como%fazer%uma%grande%obra%de% arquitectura.%Não%existe%nela%nenhuma%diferença%entre%as%várias%ca? madas%da%obra,%nem%um%amor%especial%pelo%edi9ício%em%si%–%magni9i? camente%projectado,%solto.% 35 Esta%ausência%de%uma%visão%estilística,%continua%e%facilmente% identi9icável%não%se%deve%às%ideias%de%um%pós%–%modernismo%escatoló? gico%face%à%negação%do%movimento%moderno%e%sim%a%um%sentido%apu? rado%de%tirar%a%arquitectura%das%caixas15%e,%de%concentrar,%em%cada%um% dos%fragmentos%dos%seus%projectos,%a%essência%de%um%todo.%Por%esta% razão,%o%gesto%de%Lina%transpõe%a%barreira%do%visível%para%se%9ixar%na? quele% ponto% interno% do% pensamento% que%vai% desde%do% problema%a% mediatizar%até%à%sua%solução.%Também%é%esta%a%razão%que%a%leva%a%con? verter% a%essência% multidimensional% da%arquitectura% em%relações%de% afecto. É%assim%que%experimentamos%Lina%Bo% Bardi.% Lina%seca,% Lina% atenta,%Lina%maciça.%Lina%de%braço%dado%com%a%sua%arte,%com%a%di9icul? dade%daquilo%que%é%ser%humano,%com%a%sua%vontade%autêntica%e%indis? ciplinada% de%se%transcender%perante% aquilo% que% sente% e% aquilo% que% pode.%Lina%impossível%de%se%quanti9icar.%Lina%em%potência%e%inesgotá? vel%perante%o%nosso%olhar%de%inevitáveis%testemunhas%de%suas%paisa? gens%concretas.% Só%fora%de%um%obscurantismo%mimético%conseguimos%testar%a% fusão% entre%a%mão% de% Lina%que%desenha% e% aquilo% que% ela% pretende% transmitir%ao%seu%toque%tangente.%Só%com%os%sentidos%despertos%para% outras%particularidades%além% daquelas% alcançadas% pelo% olhar% é%que% podemos,%en9im,%chegar%à%clareza%das%suas%propostas.% 36 15&Expressão&usada&por&José&Celso¶&caracterizar&a&atitude&de&Lina;&Martinez&Corrêa,&José;&Tea4 tro%O.icina%osso%duro%de%roer%in%Lina%Bo%Bardi%Teatro%O.icina%19804%1984;%Paraíso;&1999; "Para%atirar%longe%de%nós%o%complexo%do%arquitecto%individua? lista,%criador%quase%exclusivamente%de%formas%bonitas,%quero%mostrar% aos%senhores%uma%série%de%casas%populares%de%antes%da%guerra%;%cozi? nhas,%quartos,%soluções%mínimas.%É%um%problema%que%ocupou%a%cons? ciência%dos%arquitectos%do%início%do%movimento%moderno%e%é%uma%he? rança%que%temos%que%recolher%e%guardar,%saindo,%como%disse,%das%elu? cubrações%dos%arquitectos%"criadores%de%formas%bonitas"%(nem%sem? pre)%que%constrangem%a%imagem%do%homem%às%formas%(digo%formas,% não%criações)%do%próprio%individualismo%egoísta,%ao%invés%de%compre? endê?lo%e%acompanhá?lo%com%a%ajuda%de%sua%e9iciência%humana,%técni? ca% e,% naturalmente,% artística."16 %A& dinâmica& descrita& nestas& palavras& permite&Gixar&o&forte&sentido&crítico&do&pensamento&e&por&consequência& das&linhas&projectadas&por&Lina&Bo&Bardi.&Isto&deve\se,&de&certo&modo,&a& uma& leitura& atenta& da&obra& de& António%Gramsci17.% Talvez%seja%através% dele%que%Lina%vai%fundamentar%a%interdependência%do%arquitecto%com% o%homem%que%habita%o%espaço.%Arquitecto%esse,%conhecedor%da%reali? dade%material% da%história,%do%juízo%histórico% determinado%pelo% pre? sente;%que%conduz%a%sua%acção%com%o%propósito%de%questionar%as%de? 37 16&Bo&Bardi,&Lina;&Teoria%e%.iloso.ia%da%arquitectura:%textos%escolhidos%de%Lina%Bo%Bardi%194341991;& Cosacnaify;&São&Paulo;&2009;&Pág.&86 17&Segundo&Carlos&Nelson&Coutinho&Lina&foi&a&primeira&a&falar&de&Gramsci&no&Brasil&introduzindo&o& livro&Il%materialismo%storico%e%la%.iloso.ia%di%Benedetto%Corce terminações%que%in9luenciam%uma%prática%universal%da%arquitectura18.% Noutras%palavras,%a%função%de%um%conhecimento%(a%praxis%da%.iloso4 .ia19)%deixa%de%ser%a%de%uni9icar%as%diversas%expressões%humanas,%re? sultantes%de%processos%históricos%distintos,%sob%uma%só%representação% acabada,%passando%a%ser%precisamente%o%contrário:%a%de%multiplicar%o% número%dessas%mesmas%expressões%através%da%problematização%ine? rente% às% representações% que%dela% decorrem20.% É% por% isso% que% Lina% quando% projecta% abandona,% de% certa% forma,% a% arquitectura,% tenta% compulsivamente%emancipá?la,%na%medida%que%põe%em%causa%todas%as% relações%de%objecto%para%com%o%ser%e%da%forma%para%com%o%signi9icado. Serão%estas%as%características%elementares%da%linha%de%Lina%Bo% Bardi%?%desenhada%no%intervalo%de%tempo%do%pensamento%com%o%im? pulso%muscular%da%mão.%Uma%linha%que%dobra,% permanentemente,% o% 38 18&"&A%compreensão%crítica%de%si%mesmo%é%obtida,%portanto,%através%de%uma%luta%de%"hegemonias"% políticas%de%direcções%contrastantes,%primeiro%no%campo%da%ética,%depois%no%da%política,%atingindo% .inalmente,%uma%elaboração%superior%da%própria%concepção%do%real.%A%consciência%de%fazer%parte%de% uma%determinada%força%hegemónica%(isto%é%a%consciência%política)%é%a%primeira%fase%de%uma%ulterior%e% progressiva%auto4consciência."&Gramsci,&António;&Il%materialismo%storico%e%la%.iloso.ia%di%Benedetto% Corce;%Giulio&Einaudi&Editore;&Roma;&1955&traduzido&pela&Civilização&Brasileira;&Pág.21 19&A&Praxis&.iloso.ia%segundo&a&análise&de&Gramsci&servia¶&combater&as&ideologias%modernas&na& sua&forma&mais&reGinada&com&o&Gim&a&construir&um&grupo&de&intelectuais&críticos&capazes&de&educar% as&massas&populares:&"A.irma4se%que%a%.iloso.ia%da%praxis%nasceu%sobre%o%terreno%do%máximo%desenvol4 vimento%da%cultura%da%primeira%metade%do%século%dezanove,%cultura%representada%pela%.iloso.ia%clássi4 ca%Alemã,%pela%economia%clássica%Inglesa%e%pela%literatura%e%prática%política%Francesa."%Ibidem;&Pág..& 112 20&Ver&o&primeiro&capítulo:&Introdução&ao&estudo&da&GilosoGia&e&do&materialismo&histórico;&Ibidem;& Pág.9&a&91& sujeito%em%possibilidades,%que%o%impele%à%descoberta%de%uma%lingua? gem%gestual%própria,%activa,%sobre%a%realidade%material. Estamos%agora%perto%para%ver%o%caso%particular%da%conversão% da%linha%de%Lina%Bo%Bardi%ao%teat(r)o%O9icina.%Há%qualquer%coisa%de% assustadoramente%enérgico%e%perturbante%na%maneira%de%Lina%requa? li9icar%este%teatro.%Como%se%as%suas%linhas% estivessem%possuídas%por% uma%energia%cinética%transformadora%a%partir%do% momento%em%que% são%desenhadas,% num%trabalho% persistente,% sempre%em% movimento,% em%direcção%a%um%lugar%ainda%não%estabelecido. Na%cidade%de%São%Paulo,%no%antigo%bairro%do%Bexiga,%projecta? do% para% as% classes% trabalhadoras% imigrantes% da% Itália,% situa?se% o% teat(r)o%O9icina.%Foi%lá,%perto%do%Teatro%Brasileiro%de%Comédia%de%Ca? cilda%Becker,% na% rua%Jaceguay21,% que,% em% 1964,% o% grupo% de%actores% ocupou%a%antiga%usina%de%ferro%reconvertendo?a%num%teatro.%Mais%tar? de,%em%1980,%depois%de%um%longo%trajecto,%Lina%Bo%Bardi%e%Edson%Elito% seriam%chamados%a%projectar%a%sua%con9iguração%9inal. %"Simplicidade% e%clareza%como%num%Nô".%É%o%que%Lina%escreve% num%dos%seus%primeiros%estudos%em%aguarela%para%o%teatro.%Nele%ob? serva?se% a%expressão% imobilizada%de% um% grande%canteiro% de%obras.% Dá?se%a%impressão% que% o% arquitecto% é%detentor%de% outros%segredos% sobre%a%jovialidade%das%linhas.%Assume%uma%particularidade%solidária,% uma%individualidade%substâncial.% 39 21&O&nome&Jaceguay&deriva&de&uma&antiga&tribo&de&Tupí&de&características&antropofágicas&\&chama4 dos%de%os%comedores%de%cabeça;%Ver&Bueno,&Eduardo;&Brasil%uma%história;%Ática;&São&Paulo;&2003& Nesta%primeira%proposta,% Lina%opta%por%uma%lona%plástica%de% cor%amarela,%com%um%grande%pórtico%no%centro%que%substituí%a%estru? tura%em%madeira%da%antiga%cobertura%do%teatro.%Existe%a%intenção%de% se%abrirem%pátios%e%romperem?se%paredes%para%acomodar%árvores%e% símbolos%de%cenogra9ia%?%Furos%da%guerra%de%Espanha%foi%a%maneira%de% denominar%os%vãos%das%janelas.%Não%deixamos%de%notar,%a%indestrutí? vel%vontade%de%plenitude%que%Lina%vai%procurar%na%dramaturgia%cénica% Japonesa,% em%especial%no%Nô%(Noh,% (能).% Sobretudo,% na%essência% do% princípio%que%informa%o%poder%simbólico%do%teatro%com%a%clareza%cé? nica%do%lugar. % O%Nô%como%género%teatral%surge%intimamente%combinado%com% a%sensibilidade%estética%do%Bushido%(武士道)%e%a%poética%do%Haiku%(俳 句)22.% Em%essência%consiste%naquela%formulação%para%um%gesto%breve,% para%aquele%poder%táctil%da%emoção.%De%qualquer%coisa%que%faz%e%diz% mais%que%o%sujeito%e%o%mundo%?%muda%as%condições%retóricas%da%orga? nização%do%pensamento%e%do%espaço.%Suscita%delicadamente%ao%invés% de%expressar%abertamente.%Nenhuma%linha%é%demasiado% brusca,%ne? nhum%gesto%é%excessivo,%ambos%efectivam%a%qualidade%com%que%a%at? mosfera%representa%os%estados%da%alma,%ambos%visam%o%absoluto%vo? 40 22&“%Haiku%é%a%forma%exemplar%da%anotação%do%presente,%uma%forma%ultrabreve,%átomo%de%frase%que% anota%(marca,%cinge,%glori.ica)%–%um%elemento%ténue%da%vida%real”%Barthes,&Roland;&La%préparation%du% roman%I%et%II.%Cours%et%séminaires%au%Collège%de%France%197841979%et%197941980;&Editions&du&Seuil;& 1995&tradução&pela&Martins&Fontes;&Pag.&87 luntário% de%coordenar%e%depois%harmonizar%o%pensamento.% O%teatro% do%Nô%preserva%todos%esses%equilíbrios.%Geralmente%tem%a%con9igura? ção%de%um%quadrilátero%?%o%Butai%?%ao%qual%se%intersecta%uma%estrutura% de%madeira,%com%pilares%assentes%nos%quatro%vértices,%que%suportam%a% cobertura%em%lona%ou%em%madeira23.%Economicamente%decorado%e%de% cenogra9ias% simples% o% palco%serve%de% veículo% para%uma%austeridade% espiritual%carregada%de%iconogra9ias%e%signi9icados%precisos.%Distante% de%traduzir%uma%lógica%discursiva%e%realista,%o%Nô%procura%antes%o%la? birinto%geométrico%virtual%como%vocabulário%de%poses%e%movimentos% capazes%de%rasgar%serenamente%a%latitude%e%a%longitude%daquilo%que% envolvem24.% % Uma%legibilidade%total,%É%isto%que%Lina%pretende%extrair%do%tea? tro%do%Nô.%Um%acordo%instantâneo,%fugidio%e%sereno%do%fazer%e%do%pra? zer%pelo%lugar%da%arquitectura.%Poder%comunicar%um%conceito%de%tea? tro%pelo%ímpeto%secreto%da%linha%silenciosa;%na%sinuosidade%da%perfei? ção%interior%que%subsiste%na%harmonia%de%um%edi9ício%desenhado%en? tre%os%membros%humanos.% 41 23&“Pois%bem,%dentro%daquilo%que%se%diz%um%bom%Nô,%devem%ser%considerados%os%de%primeira%categoria% aqueles%que%são%correctamente%baseados%numa%fonte%clássica,%com%um%estilo%continuo,%na%qual%exista% um%ponto%culminante%e%naqueles%em%que%o%ar%seja%delicado.”&Zeami;&Fushikaden;&Yashima;&Hanjo;& Ayanotsuzumi&Hagoromo;&Tratado%sobre%la%práctica%del%teatro%Nö%y%cuatro%dramas%Nö;&tradução&pela& The&Japan&Foundation,&Trotta,&Madrid;&1999 24&“Mãos%que%hoje%plantam%arroz%/%outrora%ágeis%desenhos%/%imprimiam%como%uma%pedra”%Bashô,& Matsuo;&Excerto&de:&“O&Caminho&Estreito”;&Trilha%estreita%ao&con.im;&Iluminuras;&São&Paulo;1997 torno%de%um%pedaço%de%terra.%A%linha%é%uma%ponte%com%a%mandíbula% aberta%para%as%possíveis%passagens%do%sujeito%ao%mundo30. % % %%%% %% % 48 30&“Neste%teatro%,%não%representação%exclusiva%dos%Deuses,%ou%vossa.%O%teatro%é%a%representação%do% mundo%inteiro.%Fala4se%aí%de%dever,%de%jogos,%de%dinheiro,%da%paz,%do%riso,%de%combate,%de%amor%e%de% morte.%Ele%ensina%o%dever%àqueles%que%o%ignoram,%o%amor%àqueles%que%a%ele%aspiram.%Ele%pune%os%maus,% aumenta%o%domínio%dos%que%são%disciplinados,%dá%coragem%aos%cobardes,%energia%aos%heróis,%inteligên4 cia%aos%fracos%de%espírito,%e%sabedoria%aos%sábios.%(...)%O%teatro%que%inventei%é%uma%imitação%das%acções% e%das%condutas%dos%homens.%É%rico%em%emoções%variadas,%e%descreve%diferentes%situações.%As%acções%dos% homens%que%ele%relata%são%boas,%más%ou%indiferentes.%Ele%dá%coragem,%divertimento,%felicidade%e%conse4 lhos%a%todos.%(...)%Não%há%máxima%de%sabedoria,%ciência,%arte,%o.icio,%procedimento,%acção%que%não%se% encontre%no%teatro.%É%por%isso%que%imaginei%um%teatro%em%que%se%reúnem%todas%as%provocações%do% saber,%das%artes%e%das%acções%mais%variadas.%Assim%oh%maus%espíritos,%vós%não%devereis%ter%cólera%algu4 ma%contra%os%deuses,%porque%a%imitação%do%mundo%é%uma%regra%do%teatro.”&Bharata;&Natya;&Shastra;& Tratado%do%Teatro&in:&The%Natayasastra,%a%treatise%of%acient%indian%dramaturgy%and%history;&Mano\ mohan&Ghosh;&Caluta;&1987 % %%%% CAPITULO!II "Os%ricos%de%impulso%que%se%pronti.icam%a%uma%reacção%agressiva%ou% escandalosa,%esses%são%associais%especialmente%di.íceis.%Todo%o%revolu4 cionário%é%associal,%se%o%impulso%for%nele%um%desvio%da%vida%instintiva,%e% não%uma%atitude%de%homem%capaz%de%obedecer%e%mandar%no%mundo." Agustina%Bessa%Luis%em%"Alegria%do%Mundo" 49 50 Passamos%a%linha.% Deixamos%para%trás%o%elemento%estrutura? dor%do%desenho%para%ascendermos%ao%diagrama31%do%projecto.%No%iní? cio%9icou%a%geometria%abstracta%da%razão%pura.%%A%mão%abandona%a%es? trutura%neutra%situada%além%das%agências%da%arquitectura%para%ganhar% uma%nova%consistência.%O%curso%do%tempo%conduz% a%uma%tomada%de% posição.%Já%não%é%apenas%a%comunicação%ou%uma%forma%de%expressão% que%preocupa.%Interessa?nos,%também,%agora,%a%criação%de%um%vínculo% de%ultrapassar?mos%a%própria%linguagem%imposta%à%priori%e%estabele? cer%um%diálogo%com%a%história.% As%linhas%tornam?se%operatórias.%In? troduzem%o%efeito%da%problematização%sensível,%servem%à%consciência% factual%do%modo%de%pensar%como%ligação%de%signi9icados%distintos.% O%% seu%peso%9igurativo%no%desenho%desaparece,%deixa%de%ser%perceptível% enquanto%elemento%único%para%se%estabilizar%numa%molécula%do%pro? jecto.% Desfaz?se,% de% uma%vez% por% todas,% o% sentido% óptico% aparente,% para%9inalmente%se%chegar%a%uma%co?pertença%que%dê%medida%aos%in? comensuráveis,%às%vértebras%que%movem%as%parcelas%da%participação% por%um%lugar%comum.%É%nessa%altura%que%reconvertemos%plasticamen? te%o%fundamento% entre%o%homem%e%o%seu%devir.%Que%podemos%9inal? mente%materializar,%sem%di9iculdade,% a%evolução%de%uma%modalidade% especi9ica%da%existência%com%a%minúcia%da%efusão%do% ser%no%espaço% 51 31&Aqui,&a&noção&de&diagrama&remete¶&aquela&que&foi&exposta&por&Gilles&Deleuze&mas&com&a& diferença&de,&ao&invés&de&falar&da&pintura&nos&seus&aspectos&particulares,&fala&do&diagrama&especiGi\ camente&no&projecto&de&arquitectura.&Ver&Deleuze,&Gilles;&Francis%Bacon%4%Lógique%de%la%Sensation;% Éditions&du&Seuil;&2002;&tradução&pela&Orfeu&Negro;&2011&&&& qualitativo.%E%ver%estabelecer%uma%outra%ordem,%espessa%de%signos,%no% pensamento%de%quem%inventa%o%espaço.% Tudo%isto%corresponde%à%efectivação%de%uma%personalidade%do% lugar.% Fala%à%sua%9inalidade%coerente%de%se%auto?determinar%em%rela? ção%a%uma%norma%do%vivido%que%traz% a%natureza%e%a%cultura%às%suas% dimensões%próprias%e%assegura%uma%ideia%geométrica%activa%no%mun? do. O%diagrama%vai?se%construindo%em%proporção% a%uma%prática% de%identidade%que%confere%à%intuição%o%sentimento%de%apreço%pela%pe? netração%no%desconhecido%?%de%descobrir%e%ser%descoberto.%Porque%o% mistério%é,% justamente,% a%pequena%parcela%do%potencial% interminável% do%espaço%que%permite%reconhecer%na%imaginação%de%cada%um%a%9ibra% afectiva% do% corpo% prestes% a% recon9igurar?se.% Máquina% de% mistério,% para%utilizar%o%cunho%de%Dédalo,%localizada%na%memória%locomotora,% produtora%de%um%resíduo%que%a9irma%a%sua%peculiaridade%na%osmose% entre%o%espaço%intimo%e%o%espaço%indeterminado. Esta%ideia,%por%si%só,%não%signi9ica%que%o%diagrama%9ixa%a%impo? sição%de%um%estado%progressivo%de%constituição%do%homem%e%do%seu%% meio%relacionado.%Apenas%pretende%o%desdobrar%e%a%abertura%para%a% transformação%das%condições%de%existência.%%% Posto% isto,%podemos% dizer%que%os%momentos% subjectivos% em% que%o%diagrama%toma%forma%confundem?se%com%os%momentos%objec? tivos%de%onde%brota%o%território.%Território%que%tal%e%qual%o%diagrama%% estabelece?se%no%conjunto%de%afastamentos%e%aproximações%que%resul? 52 tam%na%eleição% de%um%lugar%caracterizado%pelo%desenrolar%do%modo% colectivo%do%ser%e%da%natureza32. Antes% de%mais% é%importante% recordar% as% diversas% de9inições% que%o%conceito%de%território%adquire%consoante%a%disciplina%que%o%ana? lisa.%%Por%exemplo%na%geogra9ia%o%território%relaciona?se%a%uma%divisão% administrativa,%com%a%porção%dum%espaço%terrestre%identi9icada%pela% posse,%sendo%ele%a%área%de%um%domínio%de%uma%comunidade%ou%esta? do33.% Na% sociologia%o% conceito% de% território% liga?se% directamente%à% ideia%de%poder,%de%dominação%social%através%de%uma%propriedade%pri? vada,%no%seu%sentido%amplo,%ou%seja,%nas%suas%diversas%manifestações% e%origens%focadas%na%projecção%do%espaço34.%Por%sua%vez%a%história,%ou% melhor,%o%materialismo%histórico,%percebe%o%território%como%um%pro? cesso%que%se%manifesta%no%presente,% um%espaço%dotado%de%heranças% de% um% determinado% estado% de% cultura% e% de% produção% social,% que% guarda%os%con9litos%de%classe35.% Para%a%9iloso9ia%e,%em%certa%medida,% 53 32&Ver&Deleuze, Gilles e Guatari, Felix; Miles Plateaux; Editions Minuit; Paris; 1972 traduzido pela Assirio e Alvim; 2007 33&O&conceito&de&território&na&geograGia&clássica&advém&do&Alemão&Friederich&Ratzel,&das&suas&deGi\ nições&deterministas&de&espaço%vital;&Ver&Ratzel&Friederich;&Die&Erde&in&24&Vortragen;&1881& 34&Usamos&aqui&a&concepção&de&território&proposta&por&Michel&Foucault;&ver&Foucault,&Michel;&A% micro.ísica%do%poder;&Grall;&Rio&de&Janeiro;&1995;&Pág.&157 35&Recorremos&às&noções&de&materialismo&histórico&na&sua&base,&na&concepção&de&Karl&Marx;&Ver& Marx,&Karl;&Engels,&Friederich;&A&ideologia&Alemã;&Boitempo;&São&Paulo;&2007& para%a%antropologia%o%território%é%uma%composição%que%se%dá%no%eter? no%retorno%das%reciprocidades. No%conjunto%destas%análises%o%território%reparte?se%dentro%dos% investimentos% sociais,% culturais% e% cognitivos,% no% entanto% está% ainda% longe%de%esgotar%as%suas%possibilidades%de%interpretação.%Apreender% os%termos%relativos%sob%os%quais%o%território%se%faz%comunicar%permite% ilustrar%a%riqueza%e%a%diversidade%apegadas%à%sua%con9iguração% que% pertence%a%um%domínio%transversal%a%qualquer%especi9icidade.%%% As%matérias%de%contágio%entre%o%território%e%o%diagrama%ope? ram,%acima%de%tudo,%nesta%reversão%primordial%a%partir%da%qual%cada% um%deles%vêm%a%existir%numa%lógica%anterior%à%disciplina%que%os%anali? sa.%Ou%seja,%o% diagrama%é%transdisciplinar%no% momento%em%que%de? termina%os%modos%de%conhecimento%do%território%e%vice%versa.% Sob%este%aspecto,%por%intermédio%de%um%gesto%preciso,%o%agen? ciamento%de%repartição%das%forças%informais%do%território%vai%dar?se% nas%passagens%dos%modos%subjectivos%do%desejo%aos%modos%objectivos% do% político.% Assim% aparece%a%territorialização36.% Feita% no% ângulo% da% justaposição% das% linguagens,%lidas% no%seu%sentido%múltiplo.%Produto% 54 36&"A noção de território tem um sentido amplo que ultrapassa o uso que fazem dele a ecologia e a etnologia. Os seres existentes organizam-se segundo territórios que os delimitam e articulam a outros existentes e ao fluxo cósmico. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio da qual um sujeito se sente em casa." , Guatari, Felix e Rolink, Suely; Micropolítica: cartografias do desejo; Vozes; Petrópolis; 1996; Pág. 320 de%um%impulso%essencial%para%a%transcendência%dos%signos%e%dos%sen? tidos%capazes%de%reformular%o%par:%indivíduo%e%meio.%% %%%Em%resumo,%parece?nos%que%o%trabalho%signi9icativo%sobre%o% diagrama%readquire%uma%dignidade%sensível%através%do%seu%poder%de% decretar%o%território%e%de%diluir%nele%uma%linguagem%genuína%de%um% modo%epidérmico%do%espaço,%da%arquitectura.%Seria%o%território%exte? riorizado,% despojado,% pelo% diagrama,% quando% assume% a% indisciplina% das%trocas%com%o%propósito%de%traçar%uma%micro?política%das%catego? rias%do% desejo37.% O%território% 9ixo%no% momento% mas%dependente%da% vontade%humana%de%mover?se%nas%atmosferas%da%história.% % É%sem%duvida%di9ícil%elaborar%uma%evidência%que%explique%de% uma%forma%unívoca%as%relações%de%intimidade%entre%quem%concebe%o% diagrama%e%o%território%sobre%o%qual%concebe.% No%entanto%é%possível% supor%uma%complementaridade%produtiva%entre%os%dois%que%contribui% para%a%descoberta%das%dimensões,%das%escalas%e%dos%estilos%associados% à%modelação%de%uma%arquitectura%integrada.% 55 37&“Ainda%não%temos,%todavia,%um%Território,%que%não%é%um%meio,%nem%sequer%mais%um%meio,%nem%um% ritmo%ou%passagem%entre%meios.%O%território%é%de%facto%produto%de%uma%territorialização%dos%meios%e% dos%ritmos.%Equivale%ao%mesmo%perguntar%quando%é%que%os%meios%e%os%ritmos%se%territorializam,%ou% qual%é%a%diferença%entre%um%animal%sem%território%e%um%com%território.%Um%território%serve4se%de%todos% os%meios,%arranha4os,%pega4lhes%a%meio%do%corpo%(se%bem%que%continue%frágil%às%intrusões).%Constrói4se% com%aspectos%ou%porções%dos%meios.%Compreende%em%si%mesmo%um%meio%exterior,%um%meio%interior,%um% intermediário,%um%anexo.%Tem%uma%zona%interior%de%domicilio%ou%de%abrigo,%uma%zona%exterior%de% domínio,%limites%ou%membranas%mais%ou%menos%retracteis,%zonas%intermediárias%ou%mesmo%neutraliza4 das,%reservas%ou%anexos%energéticos.” Deleuze, Gilles e Guatari, Felix; Miles Plateaux; Editions Minuit; Paris; 1972 traduzido pela Assirio e Alvim; 2007;&Pág.399 % Colocada%assim,%as%questões%associadas%ao%território%e%ao%dia? grama%despertam%o%interesse%para%a%maneira%de%Lina%Bo%Bardi%se%ligar% ao%teat(r)o%O9icina%e%de%compreendê?lo%como%a%concessão%de%uma%lin? guagem% espacial% voltada% para% a% queda% encenada% dos% encontros.% Numa%reinterpretação%das%tendências%que%rompem%com%a%sujeição%a% um%espaço%pré?determinado,%sem%segredo,%e%o%tornam%num%processo% exposto%à%devoração%imediata%de%tudo%aquilo%que%consome,% de%tudo% aquilo%em%que%consiste%o%obsceno%da%obliteração%da%cena%e%da%drama? turgia.% % A%substância%do%diagrama%de%Lina%Bo%Bardi%no%teat(r)o%O9icina% ensaia%uma%concepção%territorial.% Trabalha%sobre%as%pesquisas%céni? cas%de%maior%relevo%na%história%que%permitiram%ao%teatro%expandir?se% numa%arte%colectiva%onde%pessoas,%arquitecturas%e%cidades%amadure? cem%em%conjunto.% Desenvolve%competências%em%nome%da%evolução% libertadora% ao% associar% horizontes% artísticos% distintos.% Estabelece% uma%condição% artesanal% e%mantém%ininterrupto% o% desenvolvimento% duma%identidade%subjectiva.%O%diagrama%de%Lina%que%vai%interpretar%o% território%do%O9icina.%Mais%do%que%a%de9inição%de%ideias%estanques%ou%a% identi9icação%de%um%estilo%característico,% imagina?se%uma%grande%in? surreição% que%ateste%os%desejos%dos% insubordinados,% sobre%os%insu? bordinados%e%para%os%insubordinados. % O%objectivo%é%desenvolver%a%competência%despótica%nas%mãos% que%projectam%para%desdobrar%o%painel%dos%sistemas%simbólicos%que% 56 determinam%as%alianças%entre%as%múltiplas%referências%do%passado%e%a% promessa%de%utopia%do%futuro.% % A%partir%daqui%interessa?nos%analisar%as%vanguardas%desde%do% moderno%ao% pós?moderno,%no% mundo%e%no%Brasil,% que%contribuíram% para%a%formação%territorial%do%O9icina%e%que%guiou%o%seu%diagrama%de% forças.%Recorremos,%sobretudo,% aos%estudos%de%Manfredo% Tafuri38 %e% Jean%Jacques%Rubine39%para%assimilar%estas%vanguardas,%exactamente,% nas%suas%diferenças:%de%poder%ver%o%9im%do%palco% Italiano%enquanto% inauguração%da%praxis%moderna,%de%ler%a%praxis%moderna%como%ana? morfose%do%teatro%Brechtiano,% de%compreender%o% teatro%Brechtiano% através%da%retina%de%Antonin%Artaud,%de%viver%o%teatro%de%Antonin%Ar? taud%no%meio%da%rua%duma%revolução%situacionista%e%9inalmente%atra? vessar%tudo%isto%mergulhado%na%época%da%Tropicália,%vestidos%com%o% Parangolé%de%Hélio%Oiticica.% % “É%possível%que%desde%Sófocles%todos%nós% sejamos% selvagens% tatuados.%Mas%na%arte%existe%alguma%outra%coisa%além%da%rectidão%das% linhas%e%do% polido% das% super9ícies.% A% plástica%do% estilo% é%tão% ampla% como% toda% a% ideia...% Temos% coisas% demais% para% as% formas% que% possuímos.”40 %Com%isto%Gustave%Flaubert%expressava,%por%volta%de% 57 38&Tafuri,&Manfredo;&La&esfera&y&el&laberinto&Vanguardias&y&arquitectura&de&Piranesi&a&los&años&se\ tenta;&Gustavo&Gili;&Barcelona;&1984& 39&Rubine,&Jean&Jacques;&Thèâtre&et&mise&en&scène&\&1880\1980;&Universitaires&de&France;&Paris;& 1980&traduzido&pela&Jorge&Zahar;&1998 40&Flaubert,&Gustav;&Préface%à%la%vie%d’ecrivain;&Éditions&du&Seuil;&Paris;&1963,&Pág.55 nico%que%não%permite%atender%a%todas% as%exigências%do%teatro%ideal.% Noutras% palavras,% não% se%trata%de% suprimir% a% indispensável% relação% frontal%entre%espectador%e%a%cena,%trata?se%de%fazer%com%que%uma%re? volução%técnica%interna%possibilite%o% palco%Italiano% a%ser%um%instru? mento%adequado%a%uma%revolução%estética48. A%utopia%de%teatro%sonhada%em%Craig%liberta?se%das%múltiplas% limitações%impostas%pelo%dramaturgo,%pelo%actor,%pelas%técnicas%e%pelo% texto%em%detrimento% duma%encenação% espacial%em%constante%muta? ção.% Seria%toda%a%técnica%cenográ9ica%a%trabalhar%para%conseguir%ao% mesmo%tempo%manter%a%continuidade%da%cena%e%dar%ao%encenador%a% plasticidade%de%modi9icar,%a%qualquer%momento%e%sem%impedimentos,% as%estruturas%da%imagem%da%peça%–%abertura%da%passagem%de%um%“pal4 co%estático%a%um%palco%cinético”49.%Estava%concluída%a%inauguração%do% quinto% palco% (sendo,% para%Craig,% os% quatro% anteriores:% o% an9iteatro% Grego,%o%teatro%Isabelino%medieval,%os%tablados%da%comedia%dell’arte%e% o%teatro%à%Italiana).% O%sistema%não?9igurativo%das%perspectivas%e%dos%volumes%e%a% inteligência%teatral%com%que%Craig%reinventa%as%geometrias%do%palco% 64 48&“O%primeiro%passo%de%um%novo%movimento%que%é%destinado%a%revolucionar%a%encenação%moderna%do% drama%poético%(...)%O%espírito%de%cada%cena%era%representado%por%um%esquema%de%cores%que%buscava% acentuar%o%signi.icado%emocional%de%cada%cena.”&Ibidem;&Pág.&23 49&“Essa%inovação%técnica,%que%permitiria%passar%de%um%palco%estático%a%um%palco%cinético,%é%julgada% por%Craig%tão%fundamental%que%ele%considera%inaugurar,%com%ela,%um%novo%espaço%de%representação,%o% quinto%palco”&Rubine,&Jean&Jacques;&A&linguagem&da&encenação&teatral;&Jorge&Zahar&editor;&Rio&de& Janeiro;&1998;&Pág.&89 são%marcas% que%o% O9icina% transporta%para%o% seu%teat(r)o,% principal? mente,% no%que%diz% respeito%à%sua%linguagem%despojada.% Contudo%os% compromissos%intelectuais%que%proporcionaram%a%Adolphe%Appia%e%a% Gordon%Craig%uma%de9inição%tranquilizadora%de%um%teatro%pós4natura4 lista%possuí%ainda%estímulos%da%era%barroca%da%conciliação%entre%“a% alma%e%as%formas”50. O% ponto% de% viragem% só% aconteceria% com% os% movimentos% de% vanguarda%do%início%do%século%vinte%quando%o%teatro%se%volta%para%a% cidade.% Contra%a%liturgia%da%beleza%da%caixa%teatral%Italiana;%contra%o% lugar%imóvel% do%espectador%adorador,%os%movimentos%da%vanguarda% interpretam%a%cidade.%Impõem?lhe%a%acção%verdadeira%?%onde%nenhu? ma%forma%estática%se%poderá%conciliar%com%ela,% e%onde%se%celebrará% mais%do%que%a%grotesca%anulação% da%alma.% O%cabaret%expressionista,% futurista%ou%dadaista%é%essa%célula%misteriosa%do%sofrimento%moral,%do% pandemónio%desprendido%de%9inalidade,%apenas%dado%à%colisão%de%ob? jectos%incendiados,%provocatórios%de%uma%introspecção%total%nas%arei? as%movediças%da%estrutura%criativa.%Estes%movimentos%apresentam?se% em%agrupamentos% colectivos,% uni9icados%pelos% manifestos% ou%textos% 65 50&Ver&a&concepção&de&Schiler&ou&Nietzche&respectivamente&nos&textos&“Da%causa%do%prazer%que%nos% tornou%em%objectos%trágicos”;&Schiller,&Friedrich;&Über%die%ästhetische%Erziehung%des%Menschen%in% einer%Reihe%von%Briefen;1794;&e&“A%origem%da%tagédia”;&Nietzche,&Friedrich;&Die%Geburt%der%Tragödie% aus%dem%Geiste%der%Musik;%1872;&traduzido&em&Estética%teatral;&Fundação&Calouste&Gulbrnkian;&1996 programáticos.% Apelam%para%a%necessidade%de%uma%vanguarda%euro? peia%que%sentisse%a%revolução%industrial%como%tragédia%cósmica. No%“manifesto%dell%teatro%di%varietà”51,%de%Filippo%Marinetti,% a% destruição%do%tempo%e%dos%espaços%cénicos%corresponde%a%um%encan? tamento%pelo% choque%eléctrico,%aos%câmbios%frenéticos%do% real% e%do% arti9icio%baseados%no%súbito%desproporcionado.%O%teatro%adquire%ou? tros%objectivos%além%da%prática%e%dos%hábitos%mentais%da%cena%enve? lhecida%da%rotina%literário?teatral.%É%inegável%a%nostalgia%por%um%futu? ro%que%ainda%não%existe.%Por%uma%síntese%de%humanidade%capacitada% para%recriar%a%dor%material%e%moral%em%idolatria%mecânica%da%lingua? gem%da%loucura%face%ao%quotidiano%mais%simples.%Acidentes,% monta? gens,% distâncias,% presenças%gritantes,% tempo% e%velocidade%são% para% Filippo%Tommaso%Marinetti%e,%mais%tarde%para%o%teatro%dadaista,%pe? ças%límpidas,%genuínas%sujeitas%a%rotações%sem%desenlace%num%discur? so%dos%movimentos%perpétuos,%inacabados. O%teatro%a%par%da%cidade%é%lido%como%agente%anárquico?maquí? nico%no%9luir%de%acções,%aparentemente,%sem%lugar%nem%sentido;%guia? das%devido%a%um%traumatismo%moral%da%tradição.%Os%ruídos,%as%explo? sões%e%os%vapores%são%exaltados%enquanto%única%realidade%metropoli? tana%que%somente%se%sabe%exorcizar%através%da%mecânica%infrene%ou% através%de%uma%infantilidade%crua.%Diante%deste%novo%entendimento% do%universo%da%cidade,%reunindo%num%só%lugar%as%representações%tea? 66 51&Publicado&no&Daily\Mail&em&Novembro&de&1913& trais,%as%maravilhas%da%ciência%e%as%atracções%supranormais,%o%teatro% de%palco%Italiano%torna?se%numa%relíquia%do%passado.% A% seu% tempo% Hugo% Ball,% no% Cabaret% % Voltaire% de%Zurich,% de% 1916,%assume%as%rédeas%desta%alegria%pelo%lúdico.%No%meio%da%primei? ra%grande%guerra%o%vitalismo%que%informa%o% cabaret%dadaista%vai%de% encontro%à%incondicional%eliminação%da%alma%no%estado%de%alienação.% Participa% da% decomposição% urbana% rindo?se% de% toda% a%sua% miséria% descontrolada.%O%cinismo%alegre%e%desgarrado%converge%num%espaço% fora% do% eixo% natural:% inde9inidamente% maleável% às% representações% caóticas,%convidando?se%a%realizar%os%limites%de%sua%própria%condição% citadina52. Demasiado%cínico%para%ser%trágico,%demasiado%trágico%para%ser% teatral,%demasiado%performativo%para%ser%encenado,%demasiado%poé? tico%para%ser%reivindicativo,%o%Cabaret%Voltaire%revela?se%pela%catarse% dos%restos%de%ideais%humanistas,%momentaneamente%expressos%pelas% sensações%opostas%de%esperança%e%desespero. Hugo% Ball,% Tristan% Tzara,% Hans% Richter%e%Max% Oppenheimer% são,%simultaneamente,%construtores%e%destruidores%de%qualquer%rela? 67 52&Sobre&Hugo&Ball&e&a&actividade&do&cabaret&Voltaire&ver:&Melzer,&Annabelle&Henkin;&Dada%and%Sur4 realist%performance;&The&Johns&Hopkins&University&Press;&1994 ção% espacial% sólida% ao% longo% das% suas% performances53.% Funcionam% numa%espécie%de%dúvida%metódica%radical%que%deixa%de%lado%todas%as% concepções%existentes%para%actuarem%no%momento%instantâneo%e%re? conduzir%o%gesto%provocador%directamente%à%sua%origem%–%o%centro% dramático%da%cidade%em%todas%as%suas%contradições.%Está%rompida%a% relação%ambígua%entre%espaço%de%acção%e%o%espaço%vivido.%O%especta? dor%obtém%o%vigor%emblemático%de%se%insurgir%sobre%a%realidade. As%fundações%do%teatro%de%palco%Italiano%sofrem%uma%inversão,% ampliam%o%seu%espaço%de%sensibilidade.%O%tradicional%foco%da%era%da% cena%barroca%transita%para%uma%nova%época%de%recon9igurações%cons? tantes.%Cruzam?se%novas%disciplinas%à%prática%teatral%como%a%psicaná? lise,%a%antropologia,%a%sociologia%e%a%engenharia.%Os%domínios%da%men? te,% do% corpo%e%dos%objectos% ganham%outros%contornos.% Apesar%disto% tudo%será%apenas%com%os%exames%de%Erwin%Piscator%e%de%Walter%Gro? pius%que%o%palco%à%Italiana%tradicional%sofrerá%o%seu%derradeiro%golpe.%% Vai%ser%o%teatro%político%de%Erwin%Piscator,%muito%in9luenciado% por% práticas% da% vanguarda%Soviética,% especi9icamente%por% Vsevolod% 68 53&“Destruo%as%gavetas%do%cérebro%e%as%da%organização%social:%desmoralizar%por%toda%a%parte%e%lançar% a%mão%do%céu%até%ao%inferno,%levantar%os%olhos%do%inferno%até%ao%céu,%restabelecer%a%roda%fecunda%dum% circo%universal%sobre%os%reais%poderes%e%sobre%a%fantasia%de%cada%indivíduo. A%.iloso.ia%é%a%questão:%por%que%lado%começar%a%olhar%para%a%vida,%para%deus,%para%a%ideia%ou%seja%para% o%que%for.%Tudo%o%que%se%olha%é%falso.%Não%julgo%que%o%resultado%relativo%seja%mais%importante%que%a% escolha%entre%o%bolo%e%as%cereja%à%sobremesa.%Ao%modo%de%olhar%rapidamente%para%o%outro%lado%duma% coisa,%para%impor%indirectamente%a%nossa%opinião,%chama4se%dialéctica,%ou%seja,%regatear%o%espírito%das% batas%fritas%dançando%o%método%em%redor.”&Tzara,&Tristan;&Sept%Manifestes%DADA;&Jean\Jacques&Pau\ vert;&1963;&tradução&pela&Hiena;&1987;&Pág.15 Meyerhold,%permeável%à%ideia%do% actor%acrobata%dos% palcos%móveis,% que%dominará%a%regeneração%dos%modelos%de%produção%teatral.%É%de? baixo%do%signo%do%povo%que%se%desenvolve%a%recon9iguração%das%técni? cas% da% cenogra9ia.% Semelhante% ao% que% acontece% com% os% exercícios% dramáticos%do%pós%guerra,%Piscator%não%alude%a%um%formalismo%esté? tico%sólido,%programático%e%entregue%a%fundamentos%ideológicos.%Pro? cura%antes%o% concretismo% dialéctico% das% lutas%sociais% da% sua%época% para%gerar%um%outro%palco%que%subjaz%outros%vínculos%entre%especta? dores%e%intérpretes,%entre%arte%e%política54.%Palcos%giratórios%e%rolan? tes,%projecções%estáticas%e%cinematográ9icas,%fotomontagens%de%textu? ras%e%cores%e%luzes%9lexíveis%e%colunas%sonoras%complementam%a%ma? gistral%recriação%do%problema%político%na%peça55.%A%discussão%contin? gente%e%lúcida,%enquanto%condição%elementar%do%teatro,%substitui%uma% teoria%do%espectador%separado%do%território%dramatúrgico,%através%de% 69 54&“Não%que%o%teatro%como%uma%instituição%em%si%vai%sobreviver%a%si%mesmo,%o%que%sobreviveu%foram% suas%formas%dramáticas.%Um%teatro%para%atacar%os%problemas%do%nosso%tempo,%que%atende%à%necessi4 dade%do%público%de%viver%no%teatro%a%sua%própria%existência,%sem%solenidade%ou%qualquer%voyerismo% teve,%que%desperta%em%todos%o%maior%interesse”&Piscator,&Erwin;&The%Political%Theater;&Methuen;&Lon\ dres;&1980;&Pág.102 55&”Escusado%será%dizer%que%o%actor%acostumado%com%as%decorações%.ixas%representação%do%cenário% burguês%terá%de%adaptar4se%até%encontrar%o%estilo%certo%para%o%meu%dispositivo%cénico.%É%uma%questão% de%muitos%anos%de%educação,%formação%e%experiência.%Ao%actor%acostumado%com%o%cenário%burguês%o% meu%dispositivo%parecerá,%até%certo%pronto,%um%artefacto%estranho%e%até%hostil.%Ele%sentir4se4á%perdido% nas%gigantescas%instalações%mecânicas,%mas%despoletará%um%trabalho%brilhante%(...)%A%procura%é%sim4 plesmente%desmaterializar%o%cenário%por%meio%de%uma%técnica%total,%para%converte4lo%num%instrumen4 to%ligeiro%dócil.”&Ibidem;&Pág.130/142&& um%dinamismo%orgânico%da%comunhão%da%dramaturgia%com%o%espaço% total. %Walter%Gropius%junta?se%a%esta%desenvoltura%de%Erwin%Pisca? tor%e,% possuído%pelo% vivo% da%multiplicidade,% projecta%o% Totaltheater% que%permitiria%9inalmente%a%integração%completa%entre%público%e%ar? tista.%Um%“instrumento%construído%à%maneira%de%uma%máquina%de%es? crever%dotada%de%todos%os%meios%de%iluminação%com%deslocações%gira? tórias%no%sentido%vertical%e%horizontal,%com%um%número%ilimitado%de% cabines%de%projecção.”56%Pasmado%pela%concepção%de%um%teatro%peda? gógico,% de% reconstruir% o% homem%total% de% consciência%harmonizada% com%o%que%o%rodeia,%Walter%Gropius%articula%a%si%as%concepções%da%an? tiga%Bauhaus%e%encaixa%a%quarta%dimensão%do%espaço%no%teatro. Ligeiramente%oval%no%seu%interior,%o%Totaltheater,%seria%capaz% de%desdobrar?se%nas%três%con9igurações% clássicas% do% teatro:%o% palco% Italiano,%o%an9iteatro%Grego,%e%o%palco%de%arena%reconvertidos%e%rever? síveis%à%cinética%de%experimentos%diferenciados,%bem%como%erradicar% de%vez%a%bidimensionalidade%que%o%palcos%tradicionais%produziam%ao% emoldurarem%a%cena%no%quadro%do%palco.%Este%novo%proscénio%julga? se% nas% correspondências% de% minorias% e% maiorias% numa% espécie% de% contra%cidade%completada%em%si.% No%Totaltheater%de%Gropius%e%de%Piscator%o%artista,%o%pensador,% o% proletário% são% todos% convidados% a%tomar%partido% da%comunidade% 70 56&Gropius,&Walter;&Gropius%teatro%total%1927;%Rueda;&Madrid;&1997;&Pág.45 dramática%electrizante.% Enfeitiçados% do% ressentimento% dos% con9litos% do%mundo%exterior%sacodem%a%inércia%e%conjugam?se%nas%sucessivas% posições%do%cenário%que,%por%sua%vez,%se%pretende%desembaraçado%do% esforço%braçal57.%% Embora%o%projecto%de%Gropius% e%Piscator%nunca%sair%dos%pa? péis%e%das%maquetes,%é%um%marco%importantíssimo%para%o%teatro%en? quanto%alma%colectiva.%Conseguiu%rasgar%a%constituição%que%o%prendia% à%tradição%teatral%clássica%e%naturalista%do%palco%Italiano%e%reconstruir% um%espectáculo%total%que%consciencializa%o%homem. Despegar%a%tratadistica%da%arquitectura%do%palco%Italiano%é%ob? jecto%de%re9lexão%central%no%Teat(r)o%O9icina%e,%nesse%sentido,%honra%a% tradição%vanguardista%–%mira%friamente%dentro%do%seu%pedestal%e%roça% carinhosamente%as%suas%compaixões.%Quer%classi9icar%as%vitórias%inex? cedíveis%e%incontestáveis%do%teatro%moderno%europeu%a%um%nível%su? perior%da%resistência%nervosa.%Profetizando%e%aperfeiçoando%as%analo? gias% re9lexivas% das% metamorfoses% cénicas% para% poder% construir% um% território%próprio%espelhado%sobre%uma%realidade%de%potências%criati? vas. A%evolução%dos%palcos%entendida%num%processo%de%amadure? cida%re9lexão%histórica,%fora%das%atitudes%redutoras%das%imagens%e%das% 71 57&"Na%sua%origem,%o%teatro%nasceu%de%uma%nostalgia%meta.ísica,%servindo%portanto%à%realização%de% uma%ideia&abstracta,%onde%a%força%de%sua%in.luência%sobre%as%almas%do%espectador%e%do%ouvinte%depende% do%sucesso%de%uma&transposição%da%ideia%num%espaço%perceptível%e%compreensível%óptica%e%acustica4 mente”. Gropius,&Walter;&La&scène%au%Bauhaus;&in&Aujourd‘hui,%Art%et%Architecture%nº&17;&Paris;&1958,& Pág.14 formas%que%anulam%a%sensibilidade,%é%o%que%permite%ao%O9icina%e%a%Li? na%ver%o%teatro% numa%totalidade%e%extrudir%destas% vanguardas%uma% concepção%territorializadora%perturbada%pelo%efémero%e%pelo%eterno.% Um% destino% ameaçador% que% insere% a% conversão% teatral% numa% raça% maldita,%que%o%O9icina%vai%aspirar,%desviar%e%requali9icar,%para%a%partir% dele%erguer%a%grandeza%do%rigor%e%da%roda%do%dever%poético%sem%ida? de.%Não%é%um%logos%para%a%possibilidade%de%uma%crise%que%chega%a%im? por%a%paixão%pelo%teatro,%pela%diversidade,%mas%a%dolorosa%e%fria%avali? ação%da%ruga%das%comparações%com%outros%sistemas%de%gostos%e%valo? res. Ao%9im%do%palco%Italiano%como%parte%essencial%do%território%do% O9icina%agrega?se%o%pensamento%de%autores%?%charneira%do%século%vin? te.%É%a%partir%deles%que%se%dá%a%elaboração%de%uma%especi9icidade%plás? tica%na%construção%para%uma%territorialidade%dramatúrgica. A%primeira%encarnação%dá?se%pela%via%dos%autores%Soviéticos.% Foi%sem%duvida%no%teatro%de%Anton%Tcheckhov,%que%tira%um%tão%subtil% partido%das%relações%entre%actor,%trama%e%espaço,%das%insinuações%tex? tuais% de%Máximo% Gorky,% do% retrato%das% desigualdades% da%sociedade% Soviética,%e%de%Constatin%Stanislavski,%na%formação%do%actor%moderno% que%o%O9icina%chega%ao%poder%sugestivo%daquilo%que%tomaria%parte%da% responsabilidade%do%teatro%na%sociedade.% Eugénio% Kusnet% carregou% para% o% Teat(r)o% O9icina% o% método% Stanislavski%que%culminaria%na%peça%“Pequenos%Burgueses”%de%Máxi? mo%Gorky,% encenada%pelo% grupo%em%meados%da%década%de%sessenta.% 72 Stanislavski%coloca%no%baú%nefasto%da%teatralidade%a%inautenticidade,% a% representação% estereotipada,% o% automatismo% da% rotina% e% todos% aqueles%tiques%defeituosos%que%simulam%emoções%ou%sentimentos%e% que%disfarçam%o%íntimo.%Para%ele%só%a%partir%das%emoções%do%próprio% actor%se%pode%estabelecer%uma%interpretação%autêntica%que%molde%e% oriente%a%encenação%a%9ins%éticos%58.%% O%O9icina%vai%a%Constantin%Stanislavski%perceber%a%materializa? ção%do%actor,%o%acordo,%ou%a%discordância%que%o%conecta%ao%persona? gem59.%Isto%permite?lhe%alcançar%o%domínio%técnico,%necessário%ao%fe? nómeno%teatral,%ao%seu%compromisso%com%a%verdade%e%com%a%tenaci? dade,%o%que%não%andará%muito%longe,%daquilo%que,%anos%mais%tarde,%foi% a%ânsia%das%encenações%de%Tennessee%Williams. Depois%da%queda%inoportuna%da%fachada%positivista%dos%musi? cais%dos%anos%trinta:%que%queriam%a%todo%o%custo%negar%a%grande%de? pressão% Norte?Americana;% o%universo%simbólico%de%Clifford%Odets%e% 73 58&“A%expressão%exterior%de%um%papel%é%ela%própria%grandemente%in.luenciada%pelo%subconsciente.%De% facto,%nenhuma%técnica%arti.icial%pode%rivalizar%com%as%maravilhas%que%opera%a%natureza.”&Stanis\ lavski,&Constatin;&A%formação%do%actor;&Estética%teatral;&Fundação&Calouste&Gulbrnkian;&1996;& Pág.374 59&“Ao%mesmo%tempo%Gorki%mostra%o%aparecimento%tanto%através%do%pânico%de%alguns%personagens% como%através%do%entusiasmo%de%outros,%de%uma%classe%ainda%em%estado%inicial%de%formação,%ainda%se% compreensão%exacta%de%suas%possibilidades,%mas%evidenciando%rectidão%de%principio,%ânsia%de%justiça%e% liberdade,%pureza%de%sentimentos,%entusiasmo%contagiante%pela%vida%e%pelo%trabalho,%profunda%crença% na%desigualdade%e%no%futuro%do%homem.”&Jafa,&Van;&Gorki%e%os%pequenos%burgueses;&Correio&da&Manha;& Rio&de&Janeiro;&1965 seus%teatros,%um%clima%de%luta,%de%a9irmação%e%descoberta%das%formas% de%cultura%e%da%participação%cívica.%Encena%novas%propostas%teatrais.% Enquadrar%o%drama%no%âmbito%das%ciências%sociais%é%palavra%de%or? dem%para%o%seu%teatro%épico.% Na%espacialidade%dramática:%homem%e% sociedade%são%embutidos%nos%tubos%de%ensaio%multifacetados%das%rá? pidas%transições%que%os%modernismos%oferecem.%A%atitude%do%actor%na% peça%está%no%centro% da%dialéctica%teatral,%é%tão%importante%quanto%o% enunciado%teórico%do%discurso,%estimulante%em%elos%de%ligação%do%in? divíduo%com%a%comunidade. O% Buhnenbauer% de% Brecht,% que% signi9ica% o% “construtor% da% cena”% ou%o% “arquitecto% da%cena”,% encara%a% ideia% do% palco?tribuna%e% condena%a%ideia%da%desigualdade%e%da%relação%alucinatória%instaura? das%pelos%espectáculos%classicistas.%O%mesmo% se%pode%dizer%para%as% evoluções% da%percepção%e%do%gosto%da%sua%proposta%polivalente%nas% condições%para%que%se%dê%o%conhecimento%de%um%certo%teatro%que%re? tém%nas%consciências%dos%seres%que%o%habitam%as%consubstancias%da% lâmina%9ina%da%crítica.%“Nada%deve%ser%imutável%aos%olhos%do%arquitec? to”%escreve%Brecht65 %”nem%a%localização%nem%a%utilização%habitual%do% palco.%Cumprida%essa%condição,%ele%é%um%verdadeiro%arquitecto%céni? co”. Talvez% em% Lina%Bo% Bardi% e% no% Teat(r)o% O9icina %o% conceito% do% Buhnenbauer% tenha%adquirido,% como% em%mais% nenhum% outro,% pro? 80 65&Brecht,&Bertolt;&Gesammelte%Werke;&1967;&Suhrkamp&Verlag;&Frankfurt;&1967;&traduzido&Estética% teatral;&Fundação&Calouste&Gulbrnkian;&1996;&Pág.480 porções%tão%despretensiosas%e%duráveis.%Exemplo%disso%é%a%adaptação% da%peça%“Na%selva%das%cidades”%do%jovem%Brecht.%Depois%da%experiên? cia%no%Teatro%Castro%Alves,%na%Bahia,%da%“Ópera%dos%três%tostões”%tam? bém%de%Brecht,%Lina%entraria%de%pé%direito%no%O9icina%com%o%projecto% ostentoso%para%o%cenário%–%ringue%de%box,%aliás%muito%querido%do%au? tor%alemão,%num%protesto%contra%a%autoridade%da%cidade%de%São%Paulo% (substituindo% Chicago)%que%sintetiza% destruição% da% cultura.% Seria% a% primeira%vez%que%o%teat(r)o%O9icina%e%Lina%trabalhavam%juntos.%Nesta% peça%todos%os%excessos,%tudo%aquilo%que%é%supér9luo%é%retirado%da%ar? quitectura%da%sala%de%Flávio%Império%e%Rodrigo%Lefèvre,%para%dar%%lu? gar%aos%elementos%incorporados%da%ruína%que%ameaça%o%bairro%do%Be? xiga.%Exactamente%no%meio%das%arquibancadas%o%palco%giratório%é%tro? cado%pelo%ringue%de%boxe%onde%os%actores%iam%round%por%round%cons? truindo%os%seus%cenários%com%objectos%da%cidade%que,% num%passo%de% magia,%modi9icavam%toda%a%percepção%e%intensidade%da%cena.%Violên? cia%comestível%por%um%público%de%insaciados,%espatifados%pela%efeme? ridade%da%arte%imanente%do% palco66.% Destroços%de%toda%uma%civiliza? ção%transpirada%e%vomitada%pela%betoneira,%do%4º%round.%Uma%matéria% teatral% aterradora,% mesmo%quando% já%nada%sobra%que%arruinar,% dei? xando%os%lutadores%nus,%erectos,%encostados%com%tal%força%cénica%que% 81 66&“E&o&cabaré&não&acontecia&no&boxe,&ele&acontecia&rodeando&todo&o&espectáculo,&com&uma&série&de& entulhos.&E&em&cada&entulho&tinha&uma&mesinha&com&uma&vela,&como&se&fosse&um&cabaré,&mas&era& um&cabaré,&assim,&que&parecia&uma&coisa&chiquérrima,&mas&era&um&cabaré&da&miséria,&assim,&do& serão&urbano,&da&selva&das&cidades&mesmo.”&Corrêa,&José&Celso&Martinez;&Depoimento&a&Mateus& Bertone&da&Silva;&Lina%Bo%Bardi%–%Arquitectura%cénica;&EESC;&São&Carlos;&2004;&Pág.308 chegava%a%sugerir,%mesmo%por%um%momento%que%seja,%a%dimensão%do% deslumbramento% daquilo% que% é% o%homem%encontrado%no% outro% ho? mem%?%a%folia%das%identidades.%À%porta%lia?se:%“São%Paulo%a%cidade%que% se%humaniza%numa%Sátira%arrancada”. Completam?se%as%inquietações%do%jovem%Bertolt%Brecht%espan? tadas%pelas% mãos%de%Lina%e%por%uma%tamanha%dedicação%do% instru? mento%–%corpo%–%humano%do%grupo%O9icina,%a%pensar%no%relevo%a%meio% caminho%da%sabedoria%colectiva. Voltamos% ao% caminho% percorrido% na% epigrafe% de% Flaubert,% rumo%à%essência%da%experiência%das%formas,%das%“coisas%demasiadas”% que%a%excedem%e%lhe%resistem.%São%já%fantasma%de%energia,%ideias%para% um%território%“mais%amplas%que%a%plástica%do%estilo”.%A%tensão%liberta? dora%quando%se%denunciam%as%relações%dissonantes,%quando%se%desi? gnam%os%momentos%da%passagem%das%formas%aos%conteúdos,%quando% se%estabelece%um%campo%de%forças%nas%razões%historicistas%de9inem%o% território%articulado. Vimos%as%consequentes%ondas%de%alucinações%e%transes%retor? cidos,%as%corporizações%espirituais%do%teatro%ocidental%moderno.%Falta% examinar% os% paralelismos% dos% movimentos% contemporâneos% ao% teat(r)%O9icina,%aprofundar%as%recorrências%territoriais%das%décadas%de% cinquenta,%sessenta%e%inícios%de%setenta.%Décadas%férteis%nas%apropri? ações%urbanas%que%se%9izeram%plurais%em%emancipações%deliberadas% por%todos%aqueles%que,% de%uma%maneira%ou%de%outra,% fazem%da%vida% diária%um%ensinamento%para%a%insurgência%rebelde. 82 O%género%de%crítica%à%sociedade%do%pós%segunda%guerra%e%ao% embrutecimento%da%percepção%humana%encalhada%num%sistema%cul? tural% de%massas,%do% entretenimento%puro%e%da%passividade%total% dos% espectadores%aparece%nos%manifestos%empíricos%do%Provos,%nos%com? pêndios%Situacionistas%ou%ainda%na%poesia%de%Allen%Ginsberg.% Dos%grandes%e%pequenos%protagonistas%desta%temporada,%das% luzes% mais% ou% menos% incandescentes,% os% Provos,% certamente,% são% aqueles%de%quem%menos%se%fala.%Envolvem?se%nas%brumas%das%lendas% dos%Países%Baixos.%De%alguém%que%pintou%todas%as%bicicletas,%da%cida? de%de%Amesterdão,% de%branco% ou%que%protagonizou%happenings% em% escala%nacional:%desde%do%fumo%da%carruagem%real%ao%crânio%perfura? do%de%Bart%Huges.%Será%por%aqui%que%o%conceito%de%happenig%surge67.% Um%grupinho%de%visionários,%de%artistas%de%vanguarda,%Magos,%vânda? los,%ex?situacionistas,%estudantes,%anarquistas%deprimidos%que%tinham% por%sombra%delirante%um%“duende%extravagante%e%exibicionista68”%que% dá%pelo%nome%de%Robert% Jasper%Grootveld.% Xamã%insatisfeito,% provo? cador%de%reboliços%pela%rua%afora%como%meio%de%assalto%para%mudá?la% 83 67&Simon&Vinkenoog,&autor&de&“Necrófago%bilingue%e%multinacional”&redigia&os&dez&mandamentos&do& happening,&em&1962,&mesmo&sabendo&que&isso&não&teria&qualquer&sentido,&porque¶&ele&o& happening&sendo&um&mito&moderno&poli&–&interpretativo&é&capaz&de&explicar\se&sozinho.&Eis&a&lista& de&mandamentos:&1.&O&happening&não&é&arte,&a&arte&é&um&happening;&2.&Pode&acontecer&a&você&tam\ bém;&3.&Está&a&acontecer&aqui&e&agora;&4.&O&happening&responde&a&todas&as&perguntas;&5.&O&happe\ ning&responde&a&todos&os&desejos;&6.&Toda&a&palavra&é&um&happening;&7.&Toda&a&pessoa&é&um&happe\ ning;&8.&Aconteça&agora,&seja&humano;&9.&As&pessoas&são&um&happening&bem&aceite;&10.&Torne\se&um& happening&respondendo&imediatamente&à&pergunta:&O&QUE&É&UM&HAPPENING 68&Ver&Guarnaccia,&Matteo;&Provos;&Conrad;&São&Paulo;&2010;&Pág.&42 e%in9luenciar%o%ego%de%homens%e%mulheres%a%abandonar%qualquer%ro? tina.%Não%é%a%cidade%mas%a%urbanidade%que%se%torna%palco%e%potência,% em%acto% para% poder% inverter% a% ordem% duma% cultura%envelhecida% e% substituí?la% por% uma% cultura% de% feras.% A% doce% tirania% dos% sentidos% toma%o%lugar%ao%tecido%mental%da%suspensão%passiva. O%Provos%toma%a%loucura%frívola%para%contestar%política%vigen? te%e%a%alienação%das%sociedades%de%consumo.%Contestações%que%o%O9i? cina%usou%como%arma%dramática%para%arrancar%o%cinismo%da%normali? dade.% Se%de%um%ponto% de%vista%histórico,% da%dita%contra4cultura,%o% Provos%deu,%ao%O9icina,% a%forma%9ísica%e%a%farpela%revolucionária,%os% Situacionistas%deram?lhe%a%mente,%a%habilidade%intelectual%e%o%corpo% crítico. %A%I.S.%(internacional%Situacionista),%herdeira%legítima%do%gru? po%Letrista%de%Isadore%Isou,%liderada%por%Guy%Debord,%uma%espécie%de% enfant%terrible%que%se%quer%libertar%do%mal%de%vivre,%reúne?se%em%volta% da% ideia%de% uma% acção% revolucionária%magnetizada%num%“estilhaça4 mento%da%cultura%moderna”%para%libertar%as%populações%da%alienação% 84 que%os%estado%de%bem%estar%as%havia%encerrado.69%Nos%seus%primeiros% anos%de%actuação,% especialmente%entre%1957%e%1962,%e%domados%dos% termos%Marxistas,%o%grupo%teve%no%espaço%urbano%o%seu%alvo%privile? giado.%Denuncia%a%sua%lógica%reprodutiva,%acumulativa%e%suas%implica? ções%políticas%?%de%uma%cultura%pedante%que%se%imita%para%não%ter%de% se%inventar%a%si%mesma.% Inútil%será%demonstrar%a%importância%para%a%arquitectura%dos% conceitos%elaborados%nesta%altura%de%détournement%(desvio),%dos%ma? pas% psicográ9icos% ou% do% urbanismo% unitário% de% Constant% Nieuwe? nhuys.%Basta%dizer%que%eles%se%limitam%à%vocação%poética%de%alterar%o% sentido%perverso%do%indivíduo%e%a%autorizar%o%extravagante%como%re? novação%do%espírito%de%um%povo.% %O%projecto%situacionista%consolida%um%novo%modo%de%pensar%a% cidade,% contraria% a% lógica% anatómica% herdada% da% cidade% moderna% através%de%um%apelo%à%imaginação.%Está%na%origem%dum%grande%núme? 85 69&A%construção%de%situações%começa%após%o%desmoronamento%moderno%da%noção%de%espectáculo.%É% fácil%ver%a%que%ponto%está%ligado%à%alienação%do%velho%mundo%o%princípio%característico%do%espectáculo:% a%não%participação.%Ao%contrário,%percebe4se%como%as%melhores%pesquisas%revolucionárias%na%cultura% tentaram%romper%a%identi.icação%psicológica%do%espectador%com%o%herói,%a%.im%de%estimular%esse%espec4 tador%a%agir,%instigando%suas%capacidades%para%mudar%a%própria%vida.%A%situação%é%feita%de%modo%a%ser% vivida%por%seus%construtores.%O%papel%do%‘público’,%se%não%passivo%pelo%menos%de%mero%.igurante,%deve%ir% diminuindo,%enquanto%aumenta%o%número%dos%que%já%não%serão%chamados%actores%mas,%num%sentido% novo%do%termo,% vivenciadores”&Debord,&Guy;&Relatório%sobre%a%construção%de%situações%e%sobre%as%condições%de%organi4 zação%e%de%ação%da%tendência%situacionista%internacional;&Apologia%da%deriva:%escritos%situacionistas% sobre%a%cidade;&Casa&da&Palavra;&Rio&de&Janeiro;&2003;&Pág.57 ro%de%empreendimentos,%de%contestações%torrenciais,%por%vezes%bem% sucedidas,%tendo%no%Brasil%as%suas%repercussões%mais%fortes%na%“Esté4 tica%da%fome”70%de%Glauber%Rocha%ou%nas%obras%de%Ruben%Gerchman,% Cildo%Meireles%e%Lygia%Clark.% %Foi% uma%das%bases%para%o%movimento% tropicalista. %Por%outro%lado%os% Beatniks,% Allen%Ginsberg,% William%S.% Bur? roughs%e%Jack%Kerouac,%as%coreogra9ias%de%ruptura%dos%anos%sessenta% de% Trisha% Brown,% Steve%Paxton%e% Carolee%Shneemann,% e%a%corrente% atribulada%do%Living%Theater%fundam%a%meticulosa%e%maníaca%antítese% da%descontextualização% dos%elementos%institucionais%na%cidade.% Vão% ajudar% à% estética% descomplexada% do% território% do% teat(r)o% O9icina.% Semelhante%ao%que%os%dadaistas%faziam%com%os%objectos%ready4made,% esta%geração,% sublinha%o%carácter%fossilizado%das%massas.% Punham%o% gozo% enquanto% matéria% demiúrgica% das% diferenças,% independente? mente%das%suas%pretensões%originais%no%que%respeita%à%autenticidade% e%à%universalidade.% Da% cosmologia% Norte% Americana% o% Living% Theater% é% quem% mais% peso% exerce% sobre% a% consciência% formativa% do% grupo% O9icina.% Com%eles%redescobre?se%o%teatro%da%crueldade%de%Antonin%Artaud.%Po? tenciam%uma%arquitectura%susceptível%de%se%adaptar,%sem%di9iculdade,% a%qualquer%espaço% improvisando%sem%limites%9ixos,% quase%pagão% da% teatralidade%fechada%e%romântica.%“Paradise%Now”%ou%“Frankenstein”% 86 70&Ver&Xavier,&Ismail;&Sertão%mar:%Glauber%e%a%estética%da%fome;&Brasiliense;&São&Paulo;&1983 são%provas%de%como%a%cena%pode%desaguar%das%plataformas%para%a%as? sistência%através%do%convite%galvanizado%dos%actores. Evidentemente%que% para% o% grupo% Brasileiro% os%paralelismos% com%os%movimentos%Europeus%e%Norte?Americanas%dos%anos%cinquen? ta,%sessenta%e%setenta%não%são% apenas%esquema%escolar%de%um%qual? quer% exercício% proto?revolucionário,% acima%de% tudo,% eles,% sistemati? zam%o%desdobramento%duma%dramaturgia%extrovertida%voltada%para%a% crítica%aos%espectáculos%vazios%que%a%vida%quotidiana%das%grandes%ci? dades%implica.%E%no%caso%de%São%Paulo%não%há%excepção.%Nela%o%O9icina% funda%o%seu%território%imóvel,% coloca?a%constantemente%em%situação% de%confronto%saudável%e%levanta%a%sua%esquizofrenia%com%o%objectivo% de%criar%novas%identidades%e%consecutivamente%novos%alfabetos%urba? nos. "Gracias%Señor”%foi%o%exemplo%mais%evidente%destas%atitudes.% Em%1972,% novamente%com%a%colaboração%de%Lina%Bo% Bardi,% o%grupo,% partindo%da%necessidade%de%extrapolar%o%espaço%restrito%das%salas%do% teatro,%sai%à%rua,%ou%melhor,%ao%país,%tendo%por%pressuposto%a%intensa% participação%do%público%durante%a%realização%de%acções%em%zonas%de% tensão%improvável.%Na%forma%de%pequenos%happenings%o%“grupo%O.ici4 na%Brasil%em%re4bolição”%nega%o%teatro%segundo%um%reduto%das%criatu? ras%mortas,% dos%túmulos% dos%mecanismos%de%dominação% ideológica.% Tira%as%máscaras%e%a%armadura%e%tornar?se%capaz%de%actuar%e%partici? par%num%processo%de%comunicação%completo,%em%que%os%intervenien? 87 tes% recebem%e%apropriam%para%si% todos%os% imprevistos71.% Lina% opta% por% uma%cena%limpa,% com%poucos% objectos%cénicos% mas%dotados%de% grande%potencial%expressivo%e%interactivo%?%caso%da%grande%camisa%de% forças,%na%ocupação%do% Teatro%Ruth%Escobar,% que%se%solta%no%espaço% liso%para%estreá?lo%na%união%dos%corpos%e%dos%espíritos,%de%actuadores% e%fruidores,%que%9itam%de%alto%a%baixo%ao%“humano%futuro”72. O%glossário%de%in9luências%internacionais%deram%ao%território% do%teat(r)o%O9icina%o%espírito%pelas%preocupações%globais.%Acredite?se% ou%não%todas%estas%corporizações%sucessivas%que%constituem%o%teatro% 88 71&“&Uma%peça%forte%e%muito%bonita.%Uma%não%peça.(...)%A%destruição%da%Babilónia.%O%apocalipse,%a% salvação%dos%escolhidos,%depois%que%caírem%as%estrelas%do%céu.%Eles%não%param%um%instante%de%atiçar%o% pessoal.% Gracias%señor%não%grati.ica%o%espectador%nem%pretende%faze4lo.%O%espetáculo%é,%isto%sim,%uma%divulga4 ção%das%ideias%do%grupo,%que%analisa%seriamente%o%problema%da%esquizofernia%colectiva.%O%tom%inicial4 mente%antiteatral,%dando%a%impressão%de%uma%conferência%ilustrada%de%sociologia%evolui,%pouco%a%pou4 co,%até%alguns%momentos%bastante%intensos,%muito%bonitos,%por%sinal,%cuja%envolvência%chega%até%a% entrar%em%choque%com%a%proposta%básica%do%grupo%de%“não%fazer%teatro”(...)%O%espetaculo%termina,%sem% que%eles%voltem%para%agradecer.%Alguns%estudantes%gritavam:%“Voltem,%voltem”.%Um%mostrou%com%mui4 to%humor%repetindo%com%garra%uma%das%falas%de%Zé%Celso:%“Para%onde%vai%tanta%energia? Não%há%duvida%que%a%proposta%básica%é%válida:%uma%integração%do%publico%que%é%chamado%a%participar% da%própria%criação%do%teatro,%num%ritual%em%que%todos%são%autores,%actores,%directores%e%cenógrafos.”& Tumiscitz,&Gilberto;%Gracias%Señor%ou%Re4volição;&O&Globo;&Rio&de&Janeiro;&1972 72&“Os%únicos%autores%que%me%tocam%são%os%autores%de%obra%aberta.%A%arte%para%mim%só%está%completa% quando%ela%desperta%em%quem%a%vê%um%processo%re4criativo.%Assim,%um%quadro%só%me%impressiona%se% eu,%ao%vê4lo,%elaboro%quase%um%outro%em%minha%mente.%Uma%peça%então,%só%presta,%só%atinge%seus%objec4 tivos%quando%quem%a%assistiu%vai%para%casa%com%uma%interpretação%pessoal,%ou,%melhor%dizendo,%vai% para%casa%com%a%sua%peça.”&Corrêa,&José&Celso&Martinez;&Depoimento&a&Mateus&Bertone&da&Silva;&Lina% Bo%Bardi%–%Arquitectura%cénica;&EESC;&São&Carlos;&2004;&Pág.308 do%mundo%ocidental%são%um%bisturi%de%gume%invertido,%um%motor%de% busca%de%auto?penetrações,%que%o%O9icina%usa%como%prática%do%%desejo% para%calcar%o%doméstico%e%imaginar%palcos%de%pessoas%exteriorizadas% num%enredo% que%dê%um%conhecimento% psicológico% e%social% sobre%o% homem.%Mas%ainda%é%preciso%descobrir%uma%especi9icidade%maior%do% território% do% O9icina,% que% compartilhe% paixões%com% as% escalas% mais% próximas%especi9icas%da%realidade%imediata%e%elabore%novas%experiên? cias% libidinais% que% funcionem% como% válvulas% de% escape.% É% isso% que% agora%estudamos. Enfrentar%este%problema%da%especi9icidade%de%um%teatro%nun? ca%foi%tarefa%fácil.%No%Teat(r)o%O9icina%isto%tem%um%sentido%que%equiva? le%a%um%valor%orgânico%e%psíquico%de%ligar%o%homem%à%sua%terra,%de%um% golpe%por%uma%cultura%possível.%A%ambição%de%identidade,%a%ambição% de%união,%a%ambição%de%auto?determinação% são%exigências%que%leva? ram% o% grupo% a% partir% de%determinada% altura%a%forjar%um% manifesto% contra%a%conformidade%senil%da%inibição,%produto%da%cultura%ocidental% representativa,% e%contra%a%redução%da%raiz% cultural%Brasileira%a%ima? gens%9ixas%enquanto%formas%de%opressão.%Um%manifesto%feito%por%uma% meta9ísica%refundada%que%troca%a%economia%do%ser%pela%economia%mi? nuciosa%da%absorção.%Seria%a%tomada%de%posse%das%minorias%que%res? gatam%ao%espírito%as%linhas%canónicas%de%um%mundo%primitivo,%rebel? de%à%aliança%e%à%equidade%instituída;%um%outro%agente%político%que%se% funda%no%índio%e%no%escravo%negro%?%nos%seus%géneros%de%poesia%sinte? tizada.%Isto%é%a%matéria%da%cultura%Brasileira%contraposta%à%civilização% 89 cobertura,%são%estandartes%simbólicos%da%união%porosa%e%monumental% dos%órgãos%de%todas%as%raças. % Por%seu%lado%o%O9icina%tenta%pôr%a%limpo%a%inevitável%extrapo? lação% que%ocorre%com%a%digestão%do%discurso% crítico.%No%dia%vinte%e% nove%de%Setembro%de%1967,%o%grupo%de%actuadores%de%José%Celso%e%Re? nato%Bohrgi%estreiam%“O%rei%da%vela”%e%com%ele%diz?se%que%estreia%tam? bém%o% tropicalismo.% O%Teat(r)o% O9icina% ascendia%ao% momento% mais% alto%do% processo%teatral% Brasileiro.% O%impacto% desta%montagem%visa% uma%reformulação%estético?ideológica%impar.%Sua%agressividade,%o%seu% carácter%inusitado%e%a%sua%polémica%in9lamada%foi%ponta%de%lança%de% toda%uma%arremetida%artística.%Converteu?se%na%estridente,%ainda%não% programada,%manifestação%da%tragicomédia%musical%de%uma%ópera%de% carnaval.%% Resumidamente% “O% rei% da% vela”,% texto% de% Oswald% de% Andrade%de%1932,% trazia%ao% público% por%intermédio% de%uma%lingua? gem%possante%e%implacável%as%contradições%do%subdesenvolvimento%e% a% dependências% económicas% em% que% vivem% as% sociedades% Latino? Americanas.%Um%golpe%às%famílias%tradicionais%da%classe%média%de%São% Paulo.%É%o%deboche%que%se%concretiza%na%sátira%ao%conclave%político%ou% à%cínica%aliança%das%classes%sociais.%O%estilo%circense%e%a%paródia%traba? lham%em%desenlaces%provocatórios,%grotescos,% antilusionistas.% A%lin? guagem%cénica%de%Flávio%Império%era%um%dicionário%de%signos%e%signi? 9icados%meticulosos%que,%em%cada%acto,%eram%bombardeados%à%plateia% 96 numa% sobreposição% articulada% que%tatua%impiedosamente%os% estig? mas%Brasileiros82.% Com%este%novo%método%de%expressão%o%programa%das%análises% críticas% da% realidade% social,% proposto% pelo% O9icina,% radicalizava?se,% tornava?se%mais%metafórico,%menos%parametrizado%e%comportado.%Era% mais%agressivo,% de9lagrador%das%inteligências%recalcadas,% dos%esque? mas%de%beleza%atro9iados,%das%teorias%abstractas%que%somente%levam%à% ine9icácia,%em%suma,%queria%dirigir%aos%estômagos%e%9ígados%do%públi? co%o%teatro%grosso,%anárquico%que%testa%o%particular%e%atinge%o%univer? sal. Apesar% das% características% aparentemente% tradicionais% da% montagem%de%“O%Rei%da%Vela”,%da%relação%palco%plateia%ainda%no%mode? lo%italiano,%a%peça%não%perdia%a%sua%e9icácia%obscena%de%ferir%o%confor? to%do%espectador%cara%a%cara%com%a%miséria%do%seu%privilégio.%O%ataque% indirecto% da%forma%de%“O%rei%da%Vela”%atingiria%com%“Roda%Viva”,% de% Chico%Buarque,%o%limite%invasivo%da%plateia%para%atingi?la,%de%maneira% 97 82&“Acho%que%dentro%de%quase%toda%a%história%do%O.icina,%tive%uma%atitude%colonizada,%inteiramente% submissa%à%opinião%critica,%sabe?%(...)%No%Rei%da%vela%resolvi%encerrar%essa%transa%de%colonizado.%Então% eu%.iz%uma%coisa%que%ninguém%esperava%de%mim.%No%Rei%da%Vela%eu%estava%falando%do%Brasil%que%conhe4 ço%–“Te%conheço%te%identi.ico%homem%recalcado”.%Eu%te%conheço%mesmo,%eu%te%vi%porque%transei%com% eles%e%até%hoje%transo.%As%pessoas%que%entram%na%posse%da%fortuna,%essa%coisa%que%o%Oswald%diz:%“Ama4 nha%Febrônio,%quando%entrares%na%posse%da%fortuna,%defenderás%também%a%sagrada%instituição%da% família.”(...)%Sabe%esse%arquétipo?%Eu%nasci%com%ele,%desenvolvidíssimo.%Eu%podia%encarar%ao%mesmo% tempo%Getulismo,%Lacerdismo,%Janguismo%(...).%Eu%precisava%de%encontrar%isso,%porque%era%estilo.%Real4 mente%eu%não%tenho%nada%que%ver%com%esse%padrão%de%outro%teatro.”&Borhi,&Renato;&Entrevista%à%Bon4 dinho;&Jornalivro&nº4 contundente,%nos%comodismos%e%nos%resguardos%das%cadeiras.%O%actor% passa%rapidamente%a%ser%um%elemento%extremamente%perigoso,%cau? sador%de%distúrbios,%caótico%na%sua%posição%em%cena.%O%cenário,%a%ar? quitectura%cénica,%acentua%amplamente%essa%profanação,%agita%o%vale4 tudo%do%drama%no%que%diz%respeito%às%suas%naturezas%não%só%do%teatro% mas% da% cidade?assembleia% transcrita% na%cidade?arena83.% Não% havia% receio%de%nada.%Aquilo%que%fora%prensado%debaixo%dos%pés%da%bigorna% do%O9icina%–%a%larga%assimilação%das%correntes%cénicas%modernas,%os% elementos%colhidos%da%chanchada%brasileira,%as%histórias%populares,%a% semana%da%arte%de%vinte%e%dois%–%viu?se%submetido%a%um%singular%pro? cessamento%?%ao%vocábulo%catalisador%de%Oswald%de%Andrade%–%A%an? tropofagia. % A%antropofagia%é%metáfora%ao%mesmo%tempo%terapêutica%e%do? entia.%Inspirada%na%cerimónia%guerreira%da%imolação%do% inimigo%va? lente,%forte%no%combate,%pelos%Tupis%–%deglutido%pelas%goelas%indíge? nas%num%ritual%liderado%por%um%Murubixaba.%Um%género%de%profecia% simbólica%dos%regimes%alimentares%e%culinários%do%“Le%Cru%et%le%Cuit”% 98 83&“&Roda&viva&é&disforme&e&indigesta&(...)&Do&espectáculo&redundam,&concretos,&apenas&exacerbados& incitamentos&à&agitação.&A&exortação&consubstancia\se&em&slogans&do&jaez&de&“&só&o&povo&armado& derruba&a&ditadura”,&e&em&violências&investidas&contra&a&mesma&burguesia&de&corpo&presente.&Tais& agressões&materializam\se&em&obscenidades&mímica&e&cenográGica&(...)&Em&Roda&viva&&inexiste&amor& adulto.&Em&contrapartida,&o&infantilismo&verbal&vem&à&tona,&pujante&e&indisciplinado”&Carvalho,&Au\ gusto;&Freud%explica%isso;&O&Estado&de&São&Paulo;&23/08/1968 de%Claude%Levi?Strauss%de%196484.%Da%ideia%de%uma%prática%alimentar% ou%de%abstinência%de9inidora%dos%grupos%de%substância,%da%classi9ica? ção%básica%dos%seres%nos%termos%das%suas%diferenças%no%consumo%de% nutrientes.%Aconchega?se%ao%horizonte%predicativo%da%condição%onto? lógica%de%comensalidade:%da%condição%relativa%de%presa%objecto%e%pre? dador% sujeito% à% omnipresença% do% canibalismo% –% antropofagia%–%en? quanto%suporte%de%toda%a%relação%com%o%outro,%seja%ela%matrimonial,% manducatória%ou%guerreira.%É%a%proximidade%emergente%da%identida? de% e% da% diferença% descolonizada% –% a% causa% de% acesso% ao% desejo.% Oswald%de%Andrade%vai% compenetrar?se%nos%relativos% elásticos,% que% mobiliza%negações%numa%só%negação,%a%devoração%antropofágica%onde% engloba%tudo%aquilo%que%deveríamos%repudiar,%superado%para%a%con? quista%de%uma%autonomia%como%símbolo%cruento,%"misto%de%insulto%e% de%sacrilégio,%de%menosprezo%e%martírio%público". % O%corpo%do%humanóide%colonial%e%repressivo%no%qual%está%se? diada%a%civilização%Brasileira,%o%patriarcado% político%e%religioso%das% nítidas% condutas% morais% são% contidos% numa% espécie% de% esperança% messiânica%de%retórica%infalível.%No%Brasil%que%imita%a%metrópole%e%se% curva%ao%estrangeirismo,%o%índio%nativo%e%o%Africano%oprimido%surgem% untados%de%conteúdos%de%uma%violência%transcendental%que%consome% 9isicamente%um%inimigo%de%muitas%faces,%imaterial,%sublimado.% 99 84&Ver&Levi\Strauss,&Claude;%Mythologiques%I:%Le%Cru%et%le%Cuit;%Plon;&Paris;&1964;&traduzido&pela& Cosac&Naify;&2002 %A%picada%sintética%da%vacina%do%“Manifesto%Antropófago”85 %é% furiosa,%obscura%na%alma%dos%convertidos,%preparada%para%traduzir?se% na%tónica%reconstituinte%do%paganismo%intelectual%do%país%–%emblema% activo%do%seu%desenvolvimento%futuro.% % Aproximadamente%trinta%e%oito%anos%depois%do%“Manifesto%An4 tropófago”%ter%visto%a%luz%do%dia%o%Teat(r)o%O9icina%auto%coroa?se%her? deiro%legítimo%e%directo%do%conceito%Oswaldiano.%Nenhum%outro%antes% e%depois%de%Oswald%de%Andrade%exercerá%tanta%in9luência%sobre%o%có? digo%genético%do%território%do%grupo.%O%encontro%com%os%seus%textos% atendiam%plenamente%às%proposições%do%elenco%tanto%no%fundo%como% na%forma.%Com%ele%aprenderam%a%desempenhar%súbitas%intervenções% em%anticlimaxes% grosseiros,% a%utilizar%a%voz%chula%do% humor% a9iado% das%vias%do%trocadilho.%Comeram%o%texto%do%teatro%Vicentino%espetado% na%vara%do%padre%Anchieta%ao%mesmo%tempo%que%despem%o%índio%Perí% da%ópera%de%José%de%Alencar.%Recolonizaram%a%espiral%jesuíta%e%cate? quista%%revista%pelos%olhos%de%expatriado.%Escolheram%o%pandemónio% de%ressabiados%à%precisão%de%uma%uniformidade%estilística%qualquer.% % À%custa%das%ideias%de%Oswald%de%Andrade%os%participantes%da% galáxia%territorial%do%teat(r)o%O9icina%suturaram%todas%as%falhas,%todas% as%diferenças.%De9initivamente%restituem%o%primitivismo% roubado.% A% montagem%da% “Macumba% Antropófaga”%é%a% cifra%da% presença% dessa% constituição.%Evidência%da%identi9icação%mágica%da%formação%do%super% 100 85&Em&Andrade;&Oswald;&A%utopia%antropofágica;&Editora&Globo;&São&Paulo;&1990;&Pág.67&a&75 ego%Brasileiro%tragado,% que%ao%longo%da%encenação%baixa%na%cena%na% cabeça%de%seus%ilustres%personagens:%Sigmund%Freud,%Pierre%Clastres,% Jean%Jacques% Rousseau,% Michel% de%Montaigne,% Vladimir% Mayakovsy,% Luis%Buñel,%D.%Pedro%I%do%Brasil,%entre%outros.%Corrói%a%tradição%no%ar? qui?rito%que%quali9ica%a%rede%de%relações%espaciais%e%expressa%aquilo% que%a%própria%cultura%contem%de%irrepresentável86.%A%“Macumba%An? tropófaga”%encaixa?se%na%epistemologia%humanística%da%pequena%fra? se%de%Oswald%de%Andrade:%“Só%me%interessa%o%que%não%é%meu.”%?%no%sen? tido% em%que%só%me%interessa%o%que%não%sou%eu,%na%condição%de%não% meu%–%pronto%a%ser%absorvido. %“A%dança%e%por%consequência%o%teatro%ainda%não%começaram%a% existir.”87% Lemos%num%dos%últimos%escritos%de%Antonin%Artaud.% Está% para%nascer,%adiado%nos%movimentos%da%origem,%da%vida%como%morte% 101 86&Só%a%Antropofagia%nos%une.%Socialmente.%Economicamente.%Filoso.icamente.%/%Única%lei%do%mundo.% Expressão%mascarada%de%todos%os%individualismos,%de%todos%os%colectivismos.%De%todas%as%religiões.%De% todos%os%tratados%de%paz.%/%Tupi,%or%not%tupi%that%is%the%question./%Contra%todas%as%catequeses.%E%contra% a%mãe%dos%Gracos.%/%Só%me%interessa%o%que%não%é%meu.%Lei%do%homem.%Lei%do%antropófago.%/%Estamos% fatigados%de%todos%os%maridos%católicos%suspeitosos%postos%em%drama.%Freud%acabou%com%o%enigma% mulher%e%com%outros%sustos%da%psicologia%impressa.%/%O%que%atropelava%a%verdade%era%a%roupa,%o%im4 permeável%entre%o%mundo%interior%e%o%mundo%exterior.%A%reacção%contra%o%homem%vestido.%O%cinema% americano%informará.%/%Filhos%do%sol,%mãe%dos%viventes.%Encontrados%e%amados%ferozmente,%com%toda%a% hipocrisia%da%saudade,%pelos%imigrados,%pelos%tra.icados%e%pelos%touristes.%No%país%da%cobra%grande.%/% Foi%porque%nunca%tivemos%gramáticas,%nem%colecções%de%velhos%vegetais.%E%nunca%soubemos%o%que%era% urbano,%suburbano,%fronteiriço%e%continental.%Preguiçosos%no%mapa4múndi%do%Brasil.%/%Uma%consciên4 cia%participante,%uma%rítmica%religiosa.” Estrato&do&manifesto; Ibidem&Pág.67e68 87&Arataud,&Antonin;&Le&Théâtre&et&son&double;&Gallimard;&Paris;&1966;&traduzido&pela&Fenda;& 2006;Pág.&110 e%da%morte%como% vida.% Assim%se%pode%caracterizar%a%membrana%que% amassa%e%afaga%as%várias%origens%do%território%de%gigantes%e%de%quime? ras%do%Teat(r)o%O9icina.%Desde%daqueles%que%contribuíram%para%o%9im% do%palco%Italiano%enquanto%hegemonia%teatral,%aos%profetas%das%van? guardas%a%martelar%os%crânios%para%um%sentimento%de%responsabili? dade%social%dentro%do%teatro%até%à%emancipação%cultural%das%realida? des%Brasileiras,%o% território% de%O9icina%forma?se%à%volta%de% um%con? traste%de%espelhos,%cozidos%com%a%precisão%de%uma%cirurgia%plástica.% Faz?se%a%partir%duma%entrada%livre%e%activa%na%ciência%do%caos,%numa% multiplicidade%de%factos%soltos%que%somados%resulta%numa%esfera%cor? relacional.%Das%arcadas%da%faculdade%de%direito%do%largo%de%São%Fran? cisco%para%o%teatro%de%Arena%da%avenida%Ipiranga%para%depois%entrar% na%cede%da%rua%Jaceguai,%ocupá?la%e%ser%expulso%e%9inalmente%regres? sar%outra%vez%encarnado%no%projecto%de%Lina%Bo%Bardi,%o%teat(r)o%O9i? cina%viu%o%seu%território%material%queimado%e%purgado%mas%também%o% viu%renascer%vezes%sem%conta%das%cinzas.%O%território%material%do%O9i? cina%acontece%nessa%trajectória%intolerável%da%fatalidade%sem%nunca% ter%verdadeiramente%nascido,%sem%nunca%se%ter%realmente%completa? do. % No%início,%na%fase%amadora,%era%a%componente%auto?biográ9ica% particular%das%dúvidas%existenciais.%Depois%foi%a%era%do%Teatro%Arena% voltado%às%preocupações%sociais,% sob%a%in9luência%de%Augusto%Boal%?% mais% tarde% fundador% do% género% teatral% conhecido% por% “Teatro% do% Oprimido”.% Os% cruzamentos% com% a% dramaturgia% Soviética% e% Norte% 102 Americana%já%na%sede%que%hoje%se%chama%teat(r)o%O9icina%Uzyna%Uzo? na,%na%altura%projectada%por%Joaquim%Guedes,%trazia%no%bolso%a%pro9is? sionalização%do%grupo%agora%composto%de%um%elenco%de%actores,%en? cenadores%e%cenógrafos.%Era%a%tenacidade%do%grupo%a%9lorescer.%Mes? mo%o%incêndio%de%1966%funcionou%como%pretexto%para%o%laboratório% dos%testes%cénicos%típicos%de%um%grupo%em%transição.%Destaque%para%a% substituição%de%uma%das% arquibancadas%por%um%palco% giratório% por% Flávio%Império,%que%além%de%abrir%um%novo%conceito%espacial%aos%ac? tores%introduz%um%outra%temática%nos%espectáculos.%Chegava%então%o% Brasil%da%cobra%grande%a%tomar%e%a%domar%as%feições%teatrais%da%ponta% do% cabelo%às%unhas% dos%pés.%As%exaltações%da%raiz% Tupi%a%lamber%as% línguas%das%capacidades%inventivas.%Tempo%dos%espectáculos%manifes? to%?%"O%rei%da%vela"%e%"Roda%Viva"%?%do%devorar%e%ser?se%devorado,%das% entranhas% a%endurecer% através% do% jogo% de%espelhos% deformados%da% realidade%Brasileira.%Seguia?se%Bertolt%Brecht,%via%Berliner%Ensamble,% de%“Galileu%Galilei”%e%de%“Na%selva%das%cidades.%Dava?se%a%primeira%par? ceria%do%arquitecto%Lina%Bo%Bardi%com%o%O9icina.%Inseriam?se%as%expec? tativas%de%um%teatro%reaparecido%nas%contradições%da%cidade%de%São% Paulo,%na%ânsia%do%excepcional%que%convida%o%público%a%ser%o%seu%pró? prio% destruidor.%Processo%que%se%apuraria%com%“Grácias%Señor”%–%fe? nómeno%teatral%que%nasce%e%se%concentra%na%co?autoria%entre%actores% e%público,%muito%próximo%aos%universos%da%“contra4cultura”%da%época.% É%claro%que%nestas%circunstâncias%os%exercícios%de%caracterização%no% O9icina%começaram%a%enveredar%por%um%caminho% que%se%pode%desi? 103 gnar%de% ateatral,% inundado% por%impulsos% de%confrontação% que%têm% por%objectivo%repelir%o%fascínio%da%mentira.%Com%isto%a%tríade%elemen? tar%das%peças%de%teatro%desequilibrava?se%por%completo,%abalada%pela% decomposição%da%representação%da%máscara%dramática.%Pelos%vistos% foi%demais.%Não%faltou%muito%até%a%companhia%ser%dilacerada%e%vanda? lizada%pela%censura%do%governo%militar%de%Emílio%Garrastazu%Médici.% No%dia%vinte%e%um%de%Abril%de%1974,%dia%de%Tiradentes,%a%polícia%inva? de%o%Teat(r)o%O9icina.%José%Celso%director%da%companhia%é%preso,%tor? turado%e%depois%exilado%em%Portugal%e%Moçambique.% Nestes%países%o% O9icina,% reduzido,% envolve?se%nos%emaranhados%criativo?revolucioná? rios%com%os%protagonistas%locais.%Ocupa%fábricas,%casernas,%campos%e% até%o% palácio%da%policia%política%da%ditadura%Salazarista.%Volta%9inal? mente% ao% Brasil% para% se% refundar% na% companhia% Teat(r)o% O9icina% Uzyna%Uzona%e%ver%o%seu%terreiro%electrónico%em%ruína%ser%classi9ica? do%património%cultural%do%governo%do%estado%de%São%Paulo.%Dava?se%a% passagem%à%actividade%projectual%da%“personalidade%total%integrada”,% para%citar%Erich%Fromm88,%do%o9icina%por%essa%mão%de%Lina%Bo%Bardi. % Paredes%sujas%transtornadas%dos%múltiplos%fogos.%Cortinados,% revestimentos,%pinturas%que%um%dia%esconderam%a%alvenaria%de%tijolo% e%serviram%de%argamassa%à%antiga%usina%de%ferro%arruinados.%Lina%de? senha%o%diagrama%?%síntese%das%múltiplas%referências%territoriais% do% O9icina.%Cai%nessa%con9issão%espontânea%de%tudo%aquilo%que%represen? 104 88&Ver&Fromm,&Erich;&The&Anatomy&of&human&destructiveness;&Fawcett&Crest;&New&York;&1973 ta%um%teat(r)o%voltado%ao%mundo%a%partir%do%Brasil.%Atreve?se%a%con? templar% a%ruína%diante%de% si% no% seu%aspecto% inacabado,% ainda% não% vivo.% % O%diagrama%adivinha%as%grandiosas%medidas%que%já%lá%não%es? tão.%Avalia%a%gratidão%de%um%gesto,%da%pertinência%do%território%da%ar? quitectura%e%o%que%ele%pode%trazer%ao%processo%de%consolidação%do% O9icina%e%do% teatro.%Não% seria%a%primeira%chama%territorial% que%Lina% reacende%num%teatro,%tinha%já%a%experiência%da%reconstrução%do%teatro% Castro%Alves,%em%1958%e%voltaria%a%ter%no%Teatro%Polytheama.%Os%ecos% de%piromaníaca%invertida%justi9icam%o%seu%vodoo.% % No%O9icina%o%diagrama%de%Lina%rasga%a%pista%ladeada%por%duas% bancadas%de%andaime%metálico.%Expõe%a%cidade%ao%olhar%alheio%numa% parede%de%vidro.%Planta%a%árvore%totem%do%terreiro%O9icina%–%Cezalpina% –que%avança%os%muros%do%edi9ício%para%abrir%sua%copa%ao%exterior.%Fis? sura%o%céu%com%uma%cobertura%retráctil.%Rompe%a%antiga%atmosfera% sem%no%entanto,%sequer,%tocar%nela.% %Lina%propõe%um%território%que%tende%a%ser%um%outro%palco,%um% outro% teatro,% manifestação% revolucionária% da% igualdade% na% qual% as% performances% heterogéneas% traduzem?se% umas% nas% outras% porque% tratam%de%juntar%o%que%se%sabe%com%o%que%se%ignora;%e%chamar%à%deli? cadeza% dos% sujeitos% para% serem% num% só% tronco% actuadores% –% que% põem%em%cena%as%suas%habilidades%e%astúcias%–%e%espectadores%?%que% observam%estas%habilidades%e%as%reinterpretam.%Uma%arquitectura%de% 105 112 CAPITULO!III "Quando%passa%o%tempo,%as%coisas retornam%aos%elementos.%E%as%cria4 turas.%Para%a%transformação% .inal.%Mas%nem%o%.im permanece.%O%cardume%dos%lagos que%morre%embranquecido por%.im%é%de%água.%Os%boquilobos multicolores%na%beira%das%áleas caem%na%terra%e%são%terra." Fiama%Hasse%Pais%de%Brandão%em%"Três%Rostos%4%Ecos" 113 114 O%rectângulo%da%folha%de%papel%não%é%emancipação,%não%é%rea? lidade%da%arquitectura.%Não%vivemos%morremos%e%nos%relacionamos% num%espaço%neutro,%plano,%achatado,%imaculado%das%linhas%e%dos%dia? gramas%projectuais%que%competem%ao%exercício%da%arquitectura%–%na% página%branca%enquadrada%a%uma%escala.%O%dilema%é%mais%denso.%Re? velam?se%outras%componentes:%zonas%de%claros%e%escuros,%regiões%du? ras% e% friáveis,% lugares% penetráveis% e% porosos,% comportamentos% in? compreensíveis%e%imprevisíveis.%No%espaço,%cada%pedaço% construído,% cada%partitura%de%gestos%é%uma%totalidade%em%condições%de%reconhe? cer%o%sensível%enquanto%sensível,%o%transitório%enquanto%transitório%e% o%9inito%de%modo%9inito.%Só%quando%percebemos%as%diferenças%degrau% por%degrau,% parede%por%parede,% laje%por%laje%é%que%podemos%extrair% um%signi9icado% –%uma%hetro?topologia94 %–%feita%pela%consciência%co? mum%na%inteligência%forti9icada%que%dobra%sempre%o%mundo%em%dois:% o%real%e%o%representado%–%ambos%espelhados%entre%si,%duma%incomen? surabilidade%congénita%que%penetra%o% juízo,% modi9icando?o.% Chame? mos%a%isto%o%vício%de%imaginação. 115 94&Ver&Deleuze,&Gilles&e&Guatari,&Felix;&Miles%Plateaux;&Editions&Minuit;&Paris;&1972&traduzido&pela& Assírio&e&Alvim;&2007;&Pág.&305&a&348 A%natureza%do%projecto,%na%folha%de%papel% riscada,%explora%as% indeterminações%da%autonomia%do%sujeito%humano,%quer%na%auto?pro? dução%dos%seus%desejos%inconscientes%quer%na%mobilidade%do%seu%de? vir%futuro.%Os%desenhos%são%reactores,%válvulas,%turbinas,%tentativas%de% organizar%racionalmente%um%organismo.%O%seu%traço%faz?se%do%centro% para%o%limite%e%do%limite%para%o%centro%em%escalas%sucessivas.%Recor? rem%a%junções%e%cortes%voluntários%sem%catástrofes%nem%quedas%aci? dentais.%Equilibram?se%nas%vias%médias%operatórias%do%espaço%contro? lado,% claro,% preciso.% Contudo% continua% a% ser% pura% virtualidade% da% mente%do%projectista.%A%intrusão%da%complexidade%de%outros%mundos% de%sensações,% de%disjunções%referenciais%e%de%outros%territórios%dão% testemunho% da%impossibilidade%efectiva%de%qualquer% projecto% dese? nhado.% Ao%irromper%no%quadro% caótico%das%possibilidades%dos% usos% até%o%mais%prudente%desenho%resvala%na%perversidade%do%tempo%e%da% história.%O%conceito%de%tensão%do%desenho,%entre%o%diagrama%e%a%reali? dade,%denuncia%as%experiências%dissonantes%e%as%relações%antinómicas% do% projecto% materializado,% designa%o% momento% preciso% da%forma%na% qual%esta%se%torna%conteúdo%em%virtude%do%seu%campo%de%forças%sus? penso% na%objectivação% de%um%determinado% momento95.% O%volume,% o% rolo%de%papel%introduz?se%furtivamente%no%manto% da%realidade%num% 116 95&"O%sujeito%de%enunciação%rebate4se%sobre%o%sujeito%do%enunciado,%com%o%risco%que%este%volte%a%forne4 cer,%por%sua%vez,%o%sujeito%de%enunciação%para%outro%processo.%O%sujeito%do%enunciado%tornou4se%o%"res4 pondente"%do%sujeito%de%enunciação,%sob%uma%espécie%de%eucalália%redutora,%numa%relação%biunívoca.% Esta%relação,%este%rebatimento,%também%é%precisamente%o%da%realidade%mental%sobre%a%realidade%do4 minante.%Há%sempre%um%apelo%à%realidade%dominante%que%funciona%de%dentro."&Ibidem;&Pág.&175 movimento%quase%animalesco,% vivo,% silencioso,% bestial% à%maneira%de% um%parasita%ou%de%uma%chaga%amada%e%aspirada%por%milhões%de%pes? soas%marcando%as%suas%veias%de%buracos%sem%cura.%Impõem?se%a%lógi? ca%da%metáfora%na%mão%que%deixa%o%seu%vestígio%pegajoso%nas%formas% intervenientes. Frente%à%distancia%com%a%complexidade%dos%objectos%projecta? dos%no%real,%inventa?se%um%estar,%um%hábito%mundano%especi9icamen? te%ético%e%político96.%Armazém%de%prazeres%e%de%terrores,%de%formas%e% de%linhas,%9ios%de%um%passado%que%ainda%está%próximo%e%que,%em%certo% aspecto,%ainda%não%foi%realizado,%característico%dos%fenómenos%domi? nantes. A%geogra9ia%da%memória%deve%a%sua%elegância%ao%desejo%que%o% homem%tem%de%se% realizar% transformando% o% mundo,% provando,% ao% mesmo%tempo,%todas%as%sensações,%possibilidades%e%graus%de%consci? ência.%O%desejo%da%criação%enquanto%base%do%projecto%de%realização,%o% desejo%da%paixão%enquanto%base%do%projecto%de%comunicação,%o%dese? jo%do%poder%enquanto%base%do%projecto%de%participação.%Em%diferentes% 117 96&"Porque%é%que%a%sociedade%não%se%organizou%para%satisfazer%os%desejos%mais%naturais,%se%é%verda4 deiramente%dela%que%surgem%as%dimensões%do%recalcamento%e%da%censura?%Esta%nota%poderia%conduzir4 nos%um%pouco%mais%longe,%isto%é,%que%as%necessidades%da%vida,%do%grupo,%as%necessidades%sociológicas,% não%são%exclusivas%para%explicar%este%interdito%pelo%qual%surge%nos%seres%humanos%a%dimensão%do%in4 consciente.% É%tão%insu.iciente%que%foi%preciso,%para%explicar%o%principio%de%recalcamento,%que%Freud%invente%um% mito%original,%pré4social,%pois%ele%é%que%funda%a%sociedade,%isto%é,%totem%e%tabu."&Lacan,&Jacques;& Shakespeare,&Duras,&Wedekind,&Joyce;&Assírio&e&Alvim; níveis%de%ascensão%e%e9icácia,%todos%vão%depender%duma%unidade%co? lectiva%que%esses%desejos%e%vontades%atingem,%sem%perder%a%sua%mul? tiplicidade.%Num%combate%de%povoar%identidades,%movimento%diame? tralmente%oposto%ao%da%identi9icação.%Aqui%a%identi9icação%é%imagem,% iconoclastia%onde%se%perde%a%coesão%própria%da%pluralidade%das%inter? pretações. A%subjectividade%radical%–%a%busca%permanente%de%si%no%devir% dos% outros% ?%transforma% o%poder%num%9luxo% temporal% único.% Numa% exigência%para%estabelecer%o%projecto,%o%desenho%em%direcção%ao%ou? tro,%para%alem%do%outro,%para%utilizar%a%formula%Lacaniana97.%No%dis? curso,%que%não%é%mais%para%o%outro,%mas%o%discurso%do%outro%nas%ime? diações%quebradas%dos%signi.icantes%do%inconsciente98. Eis%onde%se%deve%avançar%com%o%projecto%construído%no%tempo,% no%encontro%do%outro%re9lexo%do%encontro%consigo%próprio%com%o%seu% querer%voltado%no%pensamento%do%outro.% A%ser%assim,%querendo%isto%signi9icar%que%a%relação%homologa% do%desejo%é%o%desejo%sensível%no%outro,% um%desa9io%é%imputado.%Lina% Bo%Bardi%tenta%responder%a%este%desa9io.%Ela%sublinha%a%tendência%de% uma% arquitectura% assente% num% pressuposto% de% semelhança,% neste% 118 97&Ver&Lacan,&Jacques;&Le%Séminaire%Livre%VIII:%Le%Transfert;&Éditions&du&Seuil;&Paris;&1991&traduzido& pela&Jorge&Zahar;&1992;&Pág.&169&a&197&"&E%é%na%medida%em%que%o%sujeito%se%identi.ica%à%fantasia%fun4 damental%que%o%desejo%como%tal%assume%consistência,%e%pode%ser%designado,%que%o%desejo,%também,%de% que%se%trata%para%nós%está%enraizado,%por%sua%própria%posição,%na%Horigkeit;%isto%é,%para%utilizar%a% nossa%terminologia,%que%ele%se%coloca%no%sujeito%como%desejo%do%outro,%grande%A."&Pág.&171& 98&Ibidem;&Pág.&180&a&220 caso%entre%ela,%o%sujeito%que%projectou,%e%o%outro,%o%sujeito%para%o%qual% foi% projectado.% Os%dois%são%entidades%da%mesma%espécie%e%condição:% ambos%são%humanos%e%ambos%estão%instalados%no%seio%das%suas%cultu? ras%respectivas%que%pode%eventualmente%ser%a%mesma.%Porém,% nesta% relação% e% por% intermédio% do% projecto,% existe% uma% destruição,% uma% perda% essencial% no% outro% na% sua% própria% visão% narcisista99.% Ainda% quando%o%sujeito%e%o%outro%partilham%a%mesma%cultura,%o%mesmo%ter? ritório,%os%sentidos%entre%os%dois%discursos%?%o%projecto%que%o%arqui? tecto% desenhou%e%o% projecto%que%o%outro%retém%na%mente%?%não%é%o% mesmo.%Há%uma%perda%irrecuperável,%nunca%recíproca.%Um%peso%real,% de%uma%grandeza%intensiva,%dolorosa%concentrada%num%ponto%especi? 9ico%–%que%puxa%os%corpos%em%queda%livre.%Noção%de%infelicidade%duma% insatisfação%constante,%messiânica,%devido%à%sua%transitoriedade%e%ao% contraste%do%tempo%nos%estados%do%homem.%Por%um%lado%o%sujeito%que% projectou%não%está%situado%no%mesmo%plano%do%que%o%outro%projecta? do,%é%ele%quem%detêm%os%sentidos,%quem%explica%e%interpreta,%textuali? 119 99&"Para%dizer%tudo,%em%nenhum%lugar%aparece%mais%claramente%que%o%desejo%do%homem%encontra%seu% sentido%no%desejo%do%outro,%não%tanto%porque%o%outro%detêm%as%chaves%do%objecto%desejado,%quanto% porque%seu%primeiro%objecto%é%de%ser%reconhecido%pelo%outro."&Lacan,&Jacques;&Écrits;&Éditions&du& Seuil;&Paris;&1966;&tradução&pela&Perspectiva;&Pág.&132 za% e% contextualiza,% quem% possui% a% matriz% racional% hélio?mór9ica100.% Por%outro%lado%o%outro%projectado%põe%9iguras%no%olhar.%Não%detêm%o% sentido%do%seu%próprio%sentido,%luta%constantemente%por%diluir%den? tro%de%si%a%lógica%severa%das%leis%e%das%regras%por%uma%identi9icação%da% vida%colectiva. Lina% traduz?se% nesta% psicanálise% apegada% à% estratégia% de% acompanhamento%nas%partilhas%de%um%conhecimento%que%modi9ica%a% matéria%implícita%das%relações% subconscientes,% entendida%no%direito% para%se%inquietar%com%as%continuidades%epistémicas%da%prática%da%ar? quitectura,%e%exercer%uma%contaminação%comum. Será,% então,%necessário%organizar%a%deformação%estrutural%do% drama%existencial%que%condiciona%a%natureza%e%a%torna%em%desejo%con? creto,%determinado%e%não%arbitrário,%e%passar%para%os%blocos%históri? cos%do%tempo%nas%suas%formulações%subjectivas%e%objectivas,%penden? tes%no%raciocínio,%para%compreender%a%necessária%reciprocidade%entre% o%sujeito%e%o%outro. %A%linha%encarregada%de%estabelecer%os%limites%no%desenho%é% desfeita%pela%agitação%da%matéria%no%tempo.%O%diagrama%adquire%efei? 120 100&O%conhecimento%não%é%uma%conexão%entre%uma%substância4sujeito%e%uma%substância4objecto,%mas% uma%relação%entre%duas%relações,%das%quais%uma%está%no%domínio%do%objecto,%e%a%outra%no%domínio%do% sujeito;%(…)%a%relação%entre%duas%relações%é%ela%própria%uma%relação.%(...)%podemos%chamar%de%relação%a% disposição%dos%elementos%de%um%sistema%que%está%além%de%uma%simples%visada%arbitrária%do%espírito,%e% reservar%o%termo%%conexão%para%uma%relação%arbitrária%e%fortuita%[…]%a%relação%seria%uma%conexão%tão% real%e%importante%como%os%próprios%termos;"&Ver&Simondon,&Gilbert;%L'%Individu%et%sa%genèse%physico4 biologique;&Milon;&Paris;&1964;&Pág.&66 tos%que%o%extravasam,%desarticulados%em%combinações%ou%em%correla? ções%novas%e%complexas%desa9iantes%da%ideia%inicial%de%arquitectura.%O% poder% manual% desencadeado% por% quem% projectou% age% ressentido.% Consciente%da%infelicidade%insuperável%que%não%perdoa%a%beleza%afec? tiva%do% tempo%teimado% em%desfazer%tão% cuidadosamente%a%imagem% signi9icativa%do%outro.%O%gesto%do%desenho%9ica%semelhante%a%uma%pau? ta%musical,%muda,%9ixa%a%exibir%signos%sobre%um%corpo%abstracto.%O%vi? vido,% a%atitude,% a%descarga,% a%necessidade%de%amor,%a%agressividade% latente,%a%armadura%do%carácter%fazem%parte%das%fantasias%psicológi? cas%que%se%dinamizam%e%se%multiplicam%no%tempo.%Reconstroem%a%dis? ciplina%da%arquitectura%na%história%que%vem%a%acontecer%“salvo%impe4 dimento%dos%heróis”101. No%princípio%era%a%acção,%o%acto%e%os%verbos.%Ou%seja,%o%tempo% não% pulsado% próprio%dos%fenómenos% puros% ou%das%sistematizações.% Enunciava%velocidades%e%lentidões%relativas%independente%dos%valores% cronológicos%ou%crono?métricos.%Alojava?se%no%presente%como%activi? dade%harmonicamente%alinhada%no%devir%futuro,%sem%sistema,%em%ins? tantes% aleatórios% guiados% pela% causalidade.% Na% dobra% do% momento% presente,%diz?se,%nasce%e%morre%tudo.%A%seguir%o%tempo%desarticula?se% numa%partilha%sem%simetrias.%De%um%lado% o%futuro% deixa%de%ser%um% presente%futuro%e%o%passado%deixa%de%ser%um%presente%passado.%Do% 121 101&Referência&à&expressão&utilizada&por&Luis&Bonaparte&num&discurso&em&1852;&ver&Marx,&Karl;& Der%achtzehnte%Brumaire%des%Luis%Bonaparte;&Dietz;&Berlim;&1960&traduzido&pela&Boitempo;&2011;& Pág.&37 A%arquitectura%de%Lina%sai%da%folha%de%papel,%dos%diagramas,% das% linhas% na% vertigem% de%um% compressor% de% tempo,% num%objecto% inacabado.% A% sua%obra%vai?se%dimensionar%num%conjunto% de%dados% casualmente%ordenados,% ao% invés,% duma%série%de%edi9ícios%acabados% numa%linha%cronológica%evolutiva.%Os%temas%essenciais%desenvolvidos% na%sua%arquitectura%?%percepção%e%movimento,% substancias%e%materi? ais,%cultura%e%território%?%convidam?nos%a%ler%todos%os%seus%edi9ícios% simultaneamente%sem%o%apodrecimento%de%uma%objectivação.%A%casa% do%chame%chame,%o%museu%de%arte%de%São%Paulo,%o%teatro%Polytheama,% o%SESC%da%Pompeia,%o%solar%do%Unhão,%o%teatro%Castro%Alves,%as%expo? sições,%os%cenários%e%o%teat(r)o%O9icina%são%uma%só%arquitectura%mas% com%várias%%mentalidades%e%pressupostos.%Não%sabemos%se%Lina%pro? jectava%para%se%contemplar%ao%tempo%ou%para%se%radicar%face%às%suas% mecânicas%destrutivas.%O%que%sabemos%é%que%o%que%ela%queria%era%ter% história.111 %Queria%que%as%juntas%das%suas%pedras%e%a%cofragem%do%seu% betão%se%trans9igurassem%num%glossário%de%uma%ode%à%memória%dos% vivos,%à%provocação%dos%movimentos%e%dos%hábitos%em%bailes%constan? temente%reinventados.% História,% para%Lina,% tem%o%signi9icado% de%pre4 128 111&"&Eu%nunca%quis%ser%jovem.%O%que%eu%queria%era%ter%história.%Com%vinte%e%cinco%anos%queria%escrever% memórias,%mas%não%tinha%matéria."&Bo&Bardi,&Lina;&Curriculum%Literário%in%Lina%Bo%Bardi;%Instituto& Lina&Bo&e&P.M.&Bardi;&São&Paulo;&1989;&Pág.9& sente% histórico112.% Passado% virtual,% presente%virtual% e% futuro% virtual% ocorrendo%ao%mesmo%tempo%–%colocado%à%disposição%por%intermédio% da%memória%pessoal%que%conduz%os%instrumentos%expressivos%do%ar? quitecto% a% um% desdobramento% das% linguagens.% História% em% vez% do% cemitério% foragido,% perpetuado% nas% dimensões% do% luto% saudosista% História%oposta%à%nostalgia%do%museu%das%coisas%mortas,%àquela%teo? logia%que%tanto%foge%ao%misticismo%como%à%era%revolucionária113.% Quer% isto% dizer% que% Lina% entende%a% arquitectura% no% tempo,% para%além%da%sua%função%essencial.% Enche?a%de%preocupações%huma? nas,% comunitárias,% comportamentais.%Actua%à%frente%das%esperanças% no% perfeito% equilíbrio% das% entranhas.% As% aberturas% das% portas,% os% pormenores%das%escadas,% os%remates%dos%corredores%fazem?se%adap? táveis%às%medidas%dos%acontecimentos%que%não%receiam%expatriar?se% dos%padrões%e%despertar%anseios.%Nada%é%extravagante.%“Só%via%o%mun? do%em%volta%de%mim%como%realidade%imediata,%e%não%como% exercita? 129 112&"Na%prática%não%existe%o%passado.%O%que%existe%ainda%hoje%e%não%morreu%é%o%presente%histórico.%O% que%você%tem%que%salvar:%aliás,%salvar%não%preservar%–%são%certas%características%de%um%tempo%que% pertence%ainda%à%humanidade."%Bo&Bardi,&Lina;&Uma%aula%de%arquitectura%in%Lina%por%escrito:%textos% escolhidos%de%Lina%Bo%Bardi%194341991;&Cosacnaify;&São&Paulo;&2009;&Pág.&83& 113&"Um%recanto%de%memória?%Um%tumulo%para%múmias%ilustres?%Um%depósito%ou%um%arquivo%de% obras%humanas%que,%feitas%pelos%homens%e%para%os%homens,%já%são%obsoletas%e%devem%ser%administrados% com%um%sentido%de%piedade?%Nada%disso.%Os%museus%novos%devem%abrir%as%suas%portas,%deixar%entrar%o% ar%puro,%a%luz%nova.%Entre%passado%e%presente%não%há%solução%de%continuidade."Bo&Bardi,&Lina;&Museu% de%arte%4%Rio%in%Lina%Bo%Bardi;%Instituto&Lina&Bo&e&P.M.&Bardi;&São&Paulo;&1989;&Pág.&43 çãoliterária%abstracta”114.%Escreve?nos%porque%tem%apreço%em%contar% aquilo%em%que%acredita%e%de%descrever,% no%seu%jeito%particular,% as%di? mensões%da%arquitectura%que%são%as%casas,%as%pessoas%e%a%cidade.%Fala% de%hábitos,%dos%objectos%quotidianos,%dos%encontros,%das%viagens,%crí? tica%preconceitos%e%ideologias.%É%arquitecto%realista.%A%realidade%é%tão% indispensável%para%ela%quanto%o%riscador%que%tem%na%mão.%Talvez,%Li? na%possa%caber%nas%categorias% do%“regionalismo%crítico”%de%Kenneth% Frampton115%ou%nas%ideias%dos%grandes%mentores%do%Team%X%ao%lado% de%Alison%e%Peter%Smithson%e%Aldo%Van%Eyck.%Mas%acima%de%tudo%quer% convencer?nos%da%necessidade%de%uma%rigorosa%projecção% da%huma? nidade%dada%na%máxima%distinção%ontológica%de%todos%os%povos%e%de% todas%as%minorias.% O%teat(r)o%O9icina%é%uma%componente%do%percurso%de%Lina%Bo% Bardi.%Parte%da%sua%obra.%E,%no%entanto,%contém,%em%si,%uma%totalidade.% No%nosso%caso%só%ele%interessa,%só%ele%admite%resumir?se%no%todo%das% obras%de%Lina.% Inserimos% o% discurso%do%teat(r)o% O9icina%dentro%do% conjunto% das%arquitecturas%de%Lina%para%poder%produzir,% a%partir%dele%e%reci? procamente,%o%efeito%de%um%conhecimento%da%sua%totalidade.% Quere? mos%compreender%como%a%forma%intrínseca%do%discurso%do%teat(r)o% 130 114&Bo&Bardi,&Lina;&Curriculum%Literário%in%Lina%Bo%Bardi;%Instituto&Lina&Bo&e&P.M.&Bardi;&São&Paulo;& 1989;&Pág.&10 115&Ver&Frampton,&Kenneth;&História%critica%da%arquitectura%moderna;%Martins&Fontes;&São&Paulo;& 2008 O9icina%modi9ica%a%matéria%explícita%na%forma%do%discurso%da%totalida? de%das%obras%de%Lina%Bo%Bardi%?%a%sua%história.%Ora%reivindicar%uma% igualdade%activa%entre%todos%os%tipos%de%discurso%da%arquitectura%de% Lina%é%essencial%para%uma%prática%de%sentido%no%teat(r)o%O9icina.%Não% para%fulmina?lo%ou%exorcizar%o%seu%exotismo,% nem%para%minar%a%sua% substância%intelectual.%Mas,%simplesmente,%para%fazer%ver%outra%coisa.% Outra%coisa%não%só%que%a%linguagem%arquitectónica%do%O9icina,%e%sim% outra%coisa%para%além%das%formas%sussurradas%que%Lina%anuncia%sobre% si%mesma.% Tentar%reconhecer%uma%passagem%secreta%que,%sem%gran? des% rodeios,% fale%da% loucura% da% sua%arquitectura.% Daí% o% interesse%à% compreensão%dessas%ulcerações,%dos%temas%de%contágio%que%o%O9icina% produz%no%conjunto%da%obra%de%Lina%Bo%Bardi. No%âmbito%do%percurso%de%Lina%o%teat(r)o%O9icina%situa?se%en? tre%os%seus%últimos%projectos.%Numa%aproximação%retroactiva%vemos%o% MASP,%o%SESC%da%Pompeia,%as%casas%e%as%intervenções%noutros%teatros% enquanto%elementos%transitivos%e%heterogéneos%do%monologo%interior% de%Lina.%O%sentido%profético%do%O9icina%dispersa?se%ao%acaso. Comecemos%por%analisar%estas%contaminações%na%temática%da% habitação%unifamiliar%de%Lina%Bo%Bardi,%em%especial%na%casa%do%chame% chame,%em%Salvador%da%Bahia,%e%na%casa%Valéria%Cirell,%em%São%Paulo. %Nestas%casas%Lina%actualiza,%sob%um%certo%ponto%de%vista,%a% metódica% atitude%dos% mestres% modernos.% Abandona% o% branco% e% os% grandes%vãos%de%janela%para%assumir%as%atitudes%da%terra,%do%minério% 131 e%da%vegetação.% Ultrapassa%a%casa%de%vidro116,% relíquia% bárbara% do% modernismo% arquitectónico% Europeu,% para% se%deixar% encantar%pela% sombreada% elegância% do% trópicos.% Tanto% na%casa% do% chame% chame% como%na%casa%Valéria%Cirell%a%ortogonalidade%clássica%da%racionaliza? ção%moderna%é%substituída%por%uma%aritmética%serena%voltada%para%a% expressão% de% uma% territorialidade.% Sentimento% transversal% ao% teat(r)o%O9icina. Ao% examinarmos%de% perto% estas% casas%de%Lina,% assistimos%a% momentos%de%contracção%e%expansão.% Vemos%as%paredes%da%casa%do% chame%chame%dobrarem?se%para%acomodarem%as% árvores,% para%ex? pandirem%novas%cotas.%Pressagia?mos%a%a9inidade%da%casa%Valéria%Ci? rell%em%relação%ao%elemento%da%água%num%nexo%de%pintura%expressio? nista117.%Reparamos%na%generosidade%assombrosa%que%as%duas%casas% dão% à% dimensão% dos% espaços% comuns% em% detrimento% das% células% ?% dormitórios%e%na%posição%surpreendente%da%escada%enquanto%motivo% organizador.%Lina%responde,%com%alguma%ironia%até,%às%necessidades% funcionais%do%agregado%familiar.%Contraria%qualquer%possibilidade%de% 132 116&Referimo\nos&à&casa&de&vidro&que&Lina&Bo&Bardi&projectou&juntamente&com&Pietro&Maria&Bardi& em&1951& 117&"Montanhas,%bosques,%mar,%rios,%rochas,%prados%e%campos%são%os%factores%determinantes%da%forma% da%casa;%o%sol,%o%clima,%os%ventos%determinam%sua%posição,%a%terra%ao%redor%oferece%o%material%para%a% sua%construção;%assim,%a%casa%surge%ligada%profundamente%à%terra,%as%suas%proporções%são%ditadas%por% uma%constante:%a%medida%do%homem;%e%ininterruptamente,%com%profunda%harmonia,%ali%.lui%sua%vida."& Bo&Bardi,&Lina;&Arquitectua%e%natureza:%a%casa%na%paisagem%in%Lina%por%escrito:%textos%escolhidos%de% Lina%Bo%Bardi%194341991;&Cosacnaify;&São&Paulo;&2009;&Pág.&47&e&48 seriação%e%de%multiplicação.%Dá?lhe%um%tratamento%singular%que%só%é% possível%dentro%da%casa%e%para%ela118.%% Despidas%do%melodramático%espírito%universalista,%as%casas%de% Lina%tornam?se%paisagens,%passam%a%submeter?se%á%sombra,%ao%silen? cio,%ao%negativo.%Estabelecem?se%no%intervalo%da%casa%moderna%com%a% casa%tradicional%mescladas%nas%melhores%qualidades%de%uma%e%de%ou? tra.% Coesão% di9icílima.% Separam?se%radicalmente%do%populismo% neo? realista,% exaltador% da% maestria%de% uma% concepção% de% arquitectura,% fruto%de%um%artesanato%intelectual%que%serve%de%instrumento%repres? sivo%às%ideologias%dominantes.%Isto%não%signi9ica%que%Lina%negasse%os% postulados%racionalistas%em%prol%de%um%regionalismo%nacional?popu? lar,%antes%pelo%contrário.%O%que%Lina%procurava%era%um%equilíbrio,%uma% convivência% real% com% uma% vanguarda% diversi9icada.% Ideia% mais% ou% menos% aproximada% àquela% adoptada% pelo% grupo% de% arquitectos% do% pós%guerra,%que%na%Califórnia%participaram%do%programa%Case%Studies% Houses:%Eero%Saarinen,%Charles%e%Ray%Eames,%Richard%Neutra,%Pierre% 133 118&"Tenho%horror%em%projectar%casas%para%madames,%onde%entra%aquela%conversa%insípida%em%torno% da%discussão%de%como%vai%ser%a%piscina,%as%cortinas...%Tenho%feito%mais%obras%publicas,%sempre%em%traba4 lhos%colectivos.%(...)%O%arquitecto%deverá%ser%também%e%sobretudo,%o%projectista%da%casa%do%homem,%e%até% mesmo%o%mentor%que,%em%certo%momento,%poderia%se%tornar%um%autor%da%rebeldia%contra%a%"prisão",%e% perceber%que%muitíssimos%de%seus%colegas,%talvez%inconscientemente,%vão%reduzindo%a%vida%humana%a% uma%aventura%sem%fantasia,%alheia%à%natureza,%num%divórcio%que%não%pode%ser%normal,%que%contradiz% as%necessidades%orgânicas,%tendendo%para%uma%arrogância%suspeita,%como%que%num%desa.io%às%origens% das%quais%não%podemos%nos%esquecer."&Bo&Bardi,&Lina;&Casa%Valéria%Cirell%in%Lina%Bo%Bardi;%Instituto& Lina&Bo&e&P.M.&Bardi;&São&Paulo;&1989;&Pág.&117&e&120 Koening,% entre% outros;% debruçados% a%uma% 9iloso9ia% de% desenho% em% sintonia%a%uma%ética%entre%o%racional%e%o%empírico119.% Aquilo%que%constituiu%a%exigência%inexorável%da%multiplicidade% é%de9inida%por%uma%orla%da%casa%como%do%teatro,%feita%a%partir%da%prá? tica%do%gesto%tematizador.% Dormir,% comer,% relacionar?se%são% o%centro% móvel.%As% casa%de%Lina%inventam%a%plataforma%habitável% do%O9icina,% possibilitam% a% intimidade% experimental,% inerte,% que% se% prende% nos% braços%e%nas%coxas,%deixando%de%ser%estranha.% Por%outro%lado%nos%museus:%o%museu%de%arte%de%São%Paulo,%o% museu%do%SESC%da%Pompeia,%o%museu%de%arte%da%Bahia,%os%percursos%e% os% organigramas% são% as% 9iguras% capazes% para% descrever% a% rotação% plástica%do%O9icina.%Numa%ressurreição,%os%seus%interiores%abandonam% as%paredes,%as%divisórias%e%os%pilares.%Ficam%leves,%mexidos%na%aragem% ampla,%única%de%convivência,%nítida%dos%perfumes%do%ar,%da%água%e%da% luz.%Semelhante%ao%que%acontece%com%o%O9icina%quebrante%do%gelo%da% noção%clássica,%aburguesada,%de%teatro%à%italiana,%os%museus%de%Lina% rompem%o%percurso%contínuo,%linear%e%unidireccional% %do%museu%tra? 134 119&"&A%in.luência%da%arquitectura%poderá%ser%o%futuro,%ainda%mais%essencial%que%no%passado%e,%natu4 ralmente,%diversa.%Arquitectura%como%espaço%habitado,%humano;%é%uma%realidade%potente%responsável% pelo%comportamento%do%homem,%responsável%até%pela%sua%felicidade.%E%neste%sentido%o%movimento% moderno%continua."&Bo&Bardi,&Lina;&Lina%Bo%Bardi;%Instituto&Lina&Bo&e&P.M.&Bardi;&São&Paulo;&1989;& Pág.&86 dicional120.%As%salas%sucessivas,%repletas%de%decoração%sobre%as%pare? des%do%museu%do%Louvre%ou%do%museu%do%Prado%aspiram%ao%aniquilar% total%e%rápido.%Nos%museus%de%Lina,%os%quadros%do%museu%clássico%le? vitam%da%parede%para%vir%ocupar%o%espaço%livre%em%todas%as%suas%di? mensões.% Passam% a%caminhar% lado% a% lado% com%o%visitante,% contem? plando?se%com%ele.%Gostam%de%articular%o%espaço%com%a%ingenuidade% ou%a%sabedoria%de%não%se%aprisionar%a%sistemas%ou%classi9icações.%Von? tade%do%arquitecto%que%imagina. No%MASP,%por%exemplo,%nada%é%empecilho.% Com%um%despren? dimento%estremecido,%vagaroso%quase%extra?terrestre%ele%eleva?se%no% ar%da%cidade%de%São%Paulo,% deixa?lhe%uma%praça%a%servir%de%entrada,% solta,%susceptível%aos%azares%das%trocas%políticas.%Por%cima,%a%9lutuar% está%a%pinacoteca%longitudinal,%digna%dos%cavaletes?sanduíche?de?vi? dro%onde%se%colocam%as%pinturas.%Há%também%dois%pisos%no%subsolo% rodeados% de%jardins% e%musgo.% Lá% estão%auditórios,% administração%e% outras%salas%de%exposições121.%Deste%museu%de%Lina%advém%o%carácter% 135 120&&"&Tirar%do%museu%o%ar%de%igreja%que%exclui%os%iniciados,%tirar%dos%quadros%a%"aura"%para%apresen4 tar%a%obra%de%arte%como%trabalho,%altamente%quali.icado,%mas%trabalho;%apresentá4lo%de%modo%que% possa%ser%entendido%pelos%não4iniciados."&Bo&Bardi,&Lina;&explicações%sobre%o%museu%de%arte;%Habitat& nº&4;&1951;&Pág.&50 121&“Setenta&metros&de&luz&livre&no&sentido&longitudinal&por&vinte&e&nove&metros&de&profundidade,& com&cinco&metros&de&balanço&a&cada&lado&das&vigas&longitudinais,&distanciadas&dezanove&metros.& Tudo&isto,&a&oito&metros&de&altura,&repousa&quatro&pilares&extremos,&ligados&por&duas&traves&de&con\ creto&protendido&na&cobertura”&Bo&Bardi,&Lina;&O%novo%Trianon,%1957/%67%in%Lina%por%escrito:%textos% escolhidos%de%Lina%Bo%Bardi%194341991;&Cosacnaify;&São&Paulo;&2009;&Pág.&128 monolítico%que%o%teat(r)o%O9icina%desenha%para%perverter%a%condição% dos%usos.%%% No%SESC%da%antiga%fábrica%da%Pompeia,%território,%também%ele% ocupado%por%Lina,%remete,%por%sua%vez,%para%um%restauro%liso,%incisi? vo,%intermitente%duma%antiga%fábrica%de%tambores.%Copia%a%vida%fabril% retornada%agora%em%vida%cultural.%A%arquitectura%é%aqui%considerada% num%pacto%com%a%história.%O%edi9ício,%aos%olhos%de%Lina,%torna?se%num%% documento%valioso%da%morfologia%urbana%de%São%Paulo.%Porque%a%al? venaria%de%tijolo% das% paredes,%as%estruturas%de%betão%e%madeira%e%a% distribuição%minuciosa%no%terreno%dos%galpões%merece%vencer%a%des? truição%por%cima%e%preservar?se%enquanto%peça%urbana,%vendo%a%9isio? nomia%do%seu%mundo%adaptar?se%ás%leis%do%universo%lúdico%da%cultura% e%do%desporto122.%As%regras%demarcadas%são% simples:%os%edi9ícios%da% antiga%fábrica%acomodam%salas%de%exposições,%ateliers,%um%an9iteatro,% laboratórios,%cozinhas,%restaurantes,%bibliotecas%e%administração;%de? pois% num% novo% edi9ício% projecta?se% uma% caixa% forte% auto?portante% onde%se% vão% inserir%campos% desportivos,% associados,% através% duma% composição% de%passarelas% betonadas,% a% uma% torre%de% balneários.% A% partir%disto,%torna?se%fácil%despertar%o%olhar%distraído%e%rotineiro%para% 136 122&"&Entrando%pela%primeira%vez%na%então%abandonada%Fábrica%de%tambores%da%Pompeia,%em%1976,%o% que%me%despertou%a%curiosidade,%em%vista%de%uma%eventual%recuperação%para%transformar%o%local%num% centro%de%lazer,%foram%aqueles%galpões%distribuídos%racionalmente%conforme%os%projectos%ingleses%do% começo%da%industrialização%Europeia,%nos%meados%do%século%XIX."&Bo&Bardi,&Lina;&O%projecto%arquitec4 tónico%in%Lina%por%escrito:%textos%escolhidos%de%Lina%Bo%Bardi%194341991;&Cosacnaify;&São&Paulo;&2009;& Pág.&147 os% intercâmbios,% impregnados%de%possibilidades,% de%pessoas,% arte% e% desporto.%Veri9ica?se%a%suspeita%da%intimidade%que%Lina%Bo%Bardi%es? tabelece%com%o%pensamento%de%Aldo%Van%Eyck,%seja%no%modo%de%pro? jectar%a%arquitectura%urbanisticamente%e%o% urbanismo%arquitectóni? camente,%seja%na%abordagem%às%agitações%elementares%e%humanas%que% estimulam%a%imaginação123.% A%exaltação%pela%autonomia,%tão%cantada,%de%uma%cidade%den? tro%de%outra,%favorece%a%democratização%do%conhecimento%–%reduto%de% resistência%de%transformação% das%relações%de%produção.% Os% códigos% pensantes%do%SESC%confundem?se%com%o%teat(r)o%O9icina.%A%geologia% dos%materiais%construtivos,%a%geometria%das%escadas%e,%acima%de%tudo,% o%facto%de%ser%um%sistema%energicamente%instável%e%constantemente% mutável%pontua%percurso%descontinuo%do%palpável%que%se%reúne%nes? ses%dois%momentos%da%obra%de%Lina. %Nos%teatros,%todas%estas%relações%a9iguram?se%mais%estreitas.% A%primeira%questão%diz%respeito%aos%usos.%Desfazem?se%as%hierarquias% de%valores%entre%a%plateias%e%os%palcos.% Dos%trabalhos%desenvolvidos% no% teatro% Castro% Alves,% nomeadamente%nas% peças% “A%ópera%dos%três% tostões”%de%Bertolt%Brecht%e%“Calígula”% de% Albert% Camus,% ao% teatro% Gregório%de%Matos%na%Bahia,%a%utilidade%propriamente%dita,%interiori? 137 123&"Não%há%espaço%para%o%imponderável,%nenhum%lugar%onde%ele%possa%se%aninhar,%nem%tampouco% para%as%coisas%que%escapam%às%limitações%das%melhorias%efectuadas%pelo%arquitecto.%Em%vez%dos%incon4 venientes%da%corrupção%e%da%confusão,%alcançamos%agora%o%tédio%e%a%higiene."%Van&Eyck,&Aldo;& Smithson,%Alison%team%X;%Primer;&Londres&Pág.&44 BIBLIOGRAFIA % HEGEL,%G.W.L.%;%A%Razão%na%História;%edições%70;%Lisboa;%1992 HEGEL,% G.W.L.% ;% %Enciclopédia%das% Ciências% Filosó9icas%em%Epítome% Vol.I,II%e%III;%edições%70,%Lisboa;%1993% HEGEL,%G.W.L.%;%Estética;%Guimarães%editores;%Lisboa;%1993 MARX,% Karl;% ENGELS,% Friedrich;% A% ideologia% Alemã;% Boitempo;% São% Paulo;%2007 MARX,%Karl;%O%18o%Brumário%de%Luís%Bonaparte;%Boitempo;%São%Paulo;% 2011 GRAMSCI,%António;%Os%intelectuais%e%a%organização%da%cultura;%Civili? zação%Brasileira;%Rio%de%Janeiro;%1982 GRAMSCI,%António;%Concepção%Dialética%da%História%;%Civilização%Bra? sileira;%Rio%de%Janeiro;%1982 ADORNO,%T.H.;%Teoria%Estética;%edições%70;%Lisboa;%2012 DELEUZE;%Gilles,% GUATTARI,%Félix;% O%Anti?Édipo%–%Capitalismo%e%es? quizofrenia%1;%Assírio%e%Alvim;%Lisboa;%2004 DELEUZE;%Gilles,% GUATTARI,%Félix;%Mil%Planaltos%–%Capitalismo%e%es? quizofrenia%2;%Assírio%e%Alvim;%Lisboa;%2004 144 DELEUZE;%Gilles;%Francis%Bacon:%A%lógica%da%sensação;%Orfeu%Negro;% Lisboa;%2011% BARTHES,%Roland;%Critica%e%verdade;%Edições%70;%Lisboa;%2007 LACAN,%Jaques;%Escritos;%Perspectiva;%São%Paulo;%2002 LACAN,% Jaques;%O%seminário%livro% 4:%A%relação%de%objecto;%Jorge%Za? har;%Rio%de%Janeiro;%1995 LACAN,%Jaques;%O%seminário%livro%8:%A%transferência;%Jorge%Zahar;%Rio% de%Janeiro;%1992 LACAN,%Jaques;%O%seminário%livro%10:%A%angustia;%Jorge%Zahar;%Rio%de% Janeiro;%2005 LÉVI?STRAUSS,%Claude;%La%pensée%sauvage;%Plon;%Paris;%1962 LÉVI?STRAUSS,%Claude;%L'homme%nu;%Plon;%Paris;%1971 CLASTRES,% Pierre;%A%sociedade%contra%o%estado:%pesquisas%de%antro? pologia%política;%Cosac%Naify;%São%Paulo;%2003 CLASTRES,% Pierre;%A%sociedade%contra%o%estado:%pesquisas%de%antro? pologia%política;%Cosac%Naify;%São%Paulo;%2003 SIMONDON,%Gilbert;%;%L'%Individu%et%sa%genèse%physico?biologique;%Mi? lon;%Paris;%1964 145 VANEIGEM,% Raul;%A% Arte%De%Viver%Para%as% Novas% Gerações;% Conrad;% São%Paulo;%2009 DDEBORD,%Guy;%A%sociedade%do%espectáculo;%Contraponto;%Rio%de%Ja? neiro;%1997 RANCIÈRE,%Jacques;%O%espectador%emancipado;%Orfeu%Negro;%Lisboa;% 2010 AGAMBEN,% Giorgio;% O% que% é% o% contemporâneo;% Argos;% São% Paulo;% 2009 ECO,% Umberto;% Interpretação%e%Superinterpretação;%Martins%Fontes;% São%Paulo;%2005 HARVEY,%David;%A%condição%pós%moderna;%LOYOLA;%São%Paulo;%1999 SANTOS,%Milton;%Da%totalidade%do%lugar;%EDUSP;%São%Paulo;2008 SANTOS,%Milton;%Técnica%Espaço,%Tempo;%EDUSP;%São%Paulo;2005 SOLÀ?MORALES,% Ignasi;!Diferencias% Topogra9ía% de% la% arquitectura% contemporánea.;%Gustavo%Gili;%2003 ARANTES,%Otília;%O%lugar%da%arquitectura%após%os%modernos;%USP%Pu? blicações;%São%Paulo;%2002 146 MCLEOD,% Mary;% PROPHYRIOS,% Demetri;% LIORENS,% Thomas;% JAMESON,% Frederic;%KARAHAN,% Beyham;%Architecture%Criticism%Ide? ology;%Princeton%Architectural%Press;%Princeton;%1993 TAFURI,%Manfredo;%Teorias%e%História%da%Arquitectura;%Presença;%Lis? boa;%1979 TAFURI,%Manfredo;%Projecto%e%Utopia;%Presença;%Lisboa;%1985 TAFURI,%Manfredo;%La%esfera%y%el%laberinto%Vanguardias%y%arquitectu? ra%de%Piranesi%a%los%años%setenta;%Gustavo%Gili;%Barcelona;%1984 TAFURI,%Manfredo;%Social%democracia%e%cidade%na%republica%de%wei? mar;%Contropiano%1;%Veneza;%1971 TAFURI,%Manfredo;%Austromarxismo%e%a%cidade.%“Das%rote%Wien”;%Con? tropiano%2;%Veneza;%1971 FINO,%Crinstina%Org.;%Lina%Por%Escrito:%Textos%Escolhidos%de%Lina%Bo% Bardi;%Cosac%Naify;%São%Paulo;%2009 OLIVEIRA,%Olivia;%Lina%Bo%Bardi:%Subtis%substâncias%da%arquitectura;% Gustavo%Gili;%São%Paulo;%2006 FERRAZ,%Marcelo%Carvalho%Org.;%Lina%Bo%Bardi;%Instituto%Lina%e%P.%M.% Bardi%e%Imprensa%o9icial;%São%Paulo;%2008 147 BORIE,% Monique% Org.;% Estética% teatral:% Textos% de% Platão% a% Brecht;% Fundação%Calouste%Gulbrnkian;%Lisboa;%1996 BROCKETT,%Oscar;%FRANKLIN,%Hildy;%Allyn%and%Bacon;%Londres;%2002 ROUBINE,%Jean?Jacques;%A%linguagem%da%encenação%teatral;%Jorge%Za? har;%Rio%de%Janeiro;%1998 PEIXOTO,%Fernando;%Teatro%O9icina%(1958,%1982):%Trajectória%de%uma% rebeldia%cultural;%Brasiliense;%São%Paulo;%1982 DA%SILVA,%Armando%Sérgio;%O9icina:%Do%teatro%ao%te?ato;%Perspectiva;% São%Paulo;%1981 ARTAUD,%Antonin;%O%teatro%e%o%seu%duplo;%Fenda;%Lisboa;%2006 ANDRADE,%Oswald;%A%utopia%antropofágica;%Editora%Globo;%São%Paulo;% 1990 ANDRADE,%Oswald;%Ponta%de%Lança;%Civilização%Brasileira;%Rio%de%Ja? 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