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Vivências religiosas femininas medievais: entre clausura, pobreza evangélica e poder

Rodrigues, Ana Maria S. A.

Abstract

Introdução à secção monográfica homónima do volume em causa da revista.

Full text

11 Lusi ania Sac a . 31 (Janei o-Junho 2015) 11-14 Vi ências eligiosas emininas medie ais: en e clausu a, pob eza e angélica e pode ANA MARIA S . A . RODRIGUES CEHR; CHUL A secção monog á ica des e núme o de Lusi ania Sac a p e ende o e ece uma amos a, pequena mas signi ica i a, dos caminhos que, em anos ecen es, êm indo a se ilhados po quem, na Península Ibé ica, se em in e essado pelo enómeno eligioso medie al na pe spe i a do eminino. É que, se o es udo das múl iplas conexões es abelecidas en e as mulhe es e a eligião c is ã na Idade Média não é, de o ma alguma, inédi o, no as são as abo dagens que desde a his ó ia das mulhe es e do géne o lhe êm sido ei as, p ocu ando en ende em quê e po quê as i ências eligiosas emininas o am di e en es das masculinas. O nosso obje i o oi, pois, da isibilidade e aze à discussão alguns exemplos dessas abo dagens. A a és da igu a de Ma ia de Ce elló, Blanca Ga i az‑nos en a no ambien e de in enso e o eligioso eminino que se i ia na Ba celona do século XIII e deu o igem à undação de aiz de di e sos con en os emininos, bem como à eme gência de enómenos indi iduais de eclusão olun á ia e à cons i uição de comunidades in o mais de mulie es eligiosae que, mais a de, pude am i a ans o ma ‑se em con en os de Te ciá ias F anciscanas ou mesmo de Cla issas e Me cedá ias. Com e ei o, a exis ência de pequenos g upos de mulhe es laicas que, de o ma au ónoma e seduzidas pelo ideal de ida e angélica, punham em comum os seus ha e es e se dedica am a ob as ca i a i as e assis enciais, assim como à o ação, à medi ação, ao aconselhamen o mo al e a é à edação de ob as de espi i ualidade, pa ece e cedo incomodado as au o idades eclesiás icas, que não cessa am de p ocu a enquad á‑las, pe seguindo‑as e condenando‑as à oguei a quando não o conseguiam1. 1 Veja-se, a í ulo de exemplo, o caso da beguina ancesa Ma gue i e Po e e, es udado ambém po Blanca Ga i – In oducción . In Ma ga i a Po e e – El espejo de las almas simples . Edición y aducción de Blanca Ga i . Mad id: Si uela, 2005, p . 9-33 . 12 ANA MARIA S. A. RODRIGUES No caso de Ma ia, a sua p oximidade à O dem da Me cê, que ísica – a casa onde se ecluiu si ua a‑se jun o do espe i o con en o – que espi i ualmen e – o seu con esso , F ei Be na Co be a, e a me cedá io –, deu azo a que a di a O dem se apode asse da sua memó ia, azendo dela uma espécie de “san a undado a” do espe i o amo eminino. Con udo, lendo nas en elinhas dos ex os esc i os no século XVII pa a o p ocesso de canonização e azendo apelo a ou os exemplos de mulie es eligiosae da época de Ma ia, Ga i suge e que a elação dela com a di a O dem e á sido bem mais lassa e in o mal do que os documen os que sob e i e am a é hoje azem c e . E a sua espi i ualidade mais p óxima da das mís icas do séc. XIII, suas con empo âneas, do que as suas supos as Sen enças, compiladas ambém nessa ocasião, deixam ape cebe . Ma ia Filomena And ade az‑nos ou a ealidade da mesma época: a das mulhe es que escolhiam i e a sua eligiosidade de uma o ma eg ada, no eca o de um claus o. Apesa de e sido undada po uma mulhe e dispo de uma eg a p óp ia, a O dem de San a Cla a oi desde o início colocada sob a p o eção e igilância da sua congéne e masculina, a O dem dos F ades Meno es, assim como de um Ca deal P o e o . Tal ez dos seus mos ei os “espaços de obediência”, como e e e And ade, de ido ao con olo que esses homens podiam exe ce não só sob e os espí i os das Cla issas, a a és do exe cício da con issão e da isi ação, mas ambém sob e as condições ma e iais da sua exis ência, dado que, de ido à clausu a, eles e am mediado es necessá ios en e as ei as e o ex e io . Toda ia, a eg a u banis a não deixou de delimi a , ambém, “espaços de au onomia”, uma ez que e am as ei as que decidiam, em cabido, sob e o seu quo idiano e podiam escolhe en e elas, li emen e, a sua supe io a. Analisando a documen ação Ducen is a e T ecen is a dos mos ei os de damiani as po ugueses, And ade encon ou es ígios abundan es do apoio p es ado às ei as an o pelos seus “p o e o es” na u ais, os ades meno es, como po ou os eclesiás icos e mesmo leigos, que consoan e os casos lhes se iam de capelães, p ocu ado es, esc i ães, ísicos. Sem a coope ação de odos esses homens, que no dia‑a‑dia con en ual que nos momen os mais agudos de con li o, a ins i ucionalização das ágeis comunidades p imi i as de Cla issas e, depois, a sua sob e i ência não e iam sido, p o a elmen e, possí eis. Com os con ibu os de João Luís Inglês Fon es e Ma ia del Ma G aña Cid, a ançamos pa a a cen ú ia de Qua ocen os, quando se deu um no o su o de undações de con en os e comunidades in o mais emininas em mui as ilas e cidades peninsula es. A pob eza e angélica oi, uma ez mais, o seu mo e, pa en e a é no nome po que as mulhe es de o as de É o a e am conhecidas – as pob es ou da pob e ida –, apesa de algumas se em o iundas da nob eza ou das camadas mais ele adas da sociedade u bana e aze em consigo os bens pa imoniais que pe mi iam ga an i mais acilmen e a sob e i ência dessas comunidades. Es es dois au o es di e gem, po ém, na o ma de a alia a ins i ucionalização a que o am, pos e io men e, subme idas. 13 Vi ências eligiosas emininas medie ais: en e clausu a, pob eza e angélica e pode Pa a Fon es, a con en ualização acabou po se a única saída, impos a de o a pelas au o idades eclesiás icas e ci is, pa a aquelas a quem os po os eunidos nas Co es de 1481‑1482 começa am a denomina , pejo a i amen e, de beguinas, e elando que a bene olência de que essas mulhe es não subme idas a uma eg a inham gozado a é en ão es a a a esgo a ‑se. O ac o de as o dens eligiosas, e em especial as mendican es, es a em a a a essa nesse mesmo pe íodo um p ocesso de e o ma in e na o emen e incen i ado pela ealeza p opiciou a con e são de alguns desses bea é ios em con en os dominicanos da Obse ância, endo ou os op ado po dis in as cong egações. G aña, po seu u no, a i ma que o p ocesso de con en ualização pa iu das p óp ias mulie es eligiosae, que ans o ma am os seus bea é ios em con en os de Te ciá ias e depois em mos ei os, ou sal a am di e amen e pa a a e cei a e apa sem passa em pela segunda. Se, num ou nou o caso, al ans o mação pode á e sido ei a po in e enção de um homem, azendo a ás de si uma linhagem a is oc á ica com in enções de pa ocínio, na sua esmagado a maio ia ela oi p o agonizada po mulhe es, conscien es de o se em e com p oje os p óp ios de e o ma que incluíam o eg esso a um momen o p imigénio de pob eza e igualdade en e os sexos. Tais p oje os encon a am, inicialmen e, acolhimen o jun o dos amos masculinos das O dens e a é de p elados. Toda ia, na década inal de Qua ocen os, começou a no a ‑se uma c escen e p essão sob e as eligiosas po pa e que da hie a quia eclesiás ica que da oliga quia u bana, que se o na á i esis í el a pa i de 1495, com a p omoção da e o ma pelos Reis Ca ólicos. Segundo G aña, as undações ei as pelas eli es u banas nos anos inais do século XV e no início do século XVI, seguindo o modelo da Obse ância, subme e am as mulhe es à clausu a e à au o idade dos amos masculinos das O dens, azendo delas, ademais, simples ins umen os ao se iço das suas linhagens de o igem. O a igo de Nú ia Sille as‑Fe nández eme e pa a um ipo de i ência eligiosa eminina comple amen e dis in o daqueles que a é ago a nos ocupa am. Com e ei o, nele não acompanhamos mulhe es que p ocu a am, no século ou o a dele, ap oxima ‑se de Deus a a és da o ação, da medi ação, da ansmissão da Sua pala a e das boas ob as. Assis imos, sim, à cons ução de uma mulhe de pode – uma ainha – a a és da manipulação do simbólico sag ado. Com e ei o, os abalhos que, nas úl imas décadas, o am dedicados à análise do Queenship – es a u o, unções e pode es das ainhas2 – pe mi i am e idencia que as esposas dos sobe anos não se limi a am a da à luz u u os eis mas e am e dadei as pa cei as dos ma idos, pa ilhando a sua au o idade. Analisando a O denação que Ped o IV de A agão elabo ou pa a a co oação da sua e cei a mulhe , Leono de Sicília, Sille as‑Fe nández suge e que o mona ca e elou comunga de al opinião ao op a po inicia o e e ido i ual com a ci ação do passo do Génesis em que Deus a i ma que não é bom que o homem ique 2 De que se pode encon a uma excelen e sín ese em The esa Ea en igh – Medie al Queenship . New Yo k: Palg a e, 2013 . 14 ANA MARIA S. A. RODRIGUES só, c iando‑lhe uma ajudan e semelhan e a ele. Aliás, o es o do i ual isa ambém, pela escolha dos ges os, das es imen as, das co es, que a ainha es á acima de odos os ou os homens e só em como supe io , pa a além do p óp io Deus, o ei seu esposo. É ce o que, ao e ‑se co oado a si mesmo anos an es e ao decidi co oa , po suas p óp ias mãos, a ainha, Ped o IV a i mou que o seu pode inha di e amen e de Deus sem necessi a da mediação de nenhuma en idade eclesiás ica, e que e a dele que a ainha ecebia pa e desse pode . Toda ia, como assinala Sille as‑Fe nández, ao acei a se ungido, e que Leono ambém osse ungida, pelo a cebispo de Sa agoça, o mona ca ambém admi iu que esse pode inha uma componen e ca ismá ica que só a Ig eja podia con e i . Há quem conside e que e a, p ecisamen e, o i ual da unção que, consag ando a ainha a um minis e ium, a do a a de es a u o e unção p óp ios3. Como que que seja, em oca da caução eligiosa dada ao seu pode , a ainha inha de se mos a , a odo o momen o, uma boa c is ã, piedosa, iel ao ma ido, capaz de in e cede jun o dele pelos súbdi os como ha ia ei o a ainha bíblica Es e jun o de Assue o pelo po o heb eu e como a Vi gem Ma ia azia jun o de seu Filho po odos os iéis. Acen uando ainda mais o ínculo en e a Ig eja e a Mona quia. 3 Jane L . Nelson – Ea ly Medie al Ri es o Queen-Making and he Shaping o Medie al Queenship . In Queens and Queenship in Medie al Eu ope . Ed . Anne Duggan . Woodb idge: The Boydell P ess, 2002, p . 301-315 .