Diferentes concepções de História na Vértice durante o Estado Novo (1942-1974)
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Sérgio Campos Matos & Maria Isabel João (orgs.)
HISTORIOGRAFIA E RES PUBLICA Lisboa Centro de História da Universidade de Lisboa Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta 2017 Sérgio Campos Matos & Maria Isabel João (orgs.) NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS
Título | Title Historiografia e Res Publica Nos dois últimos séculos Direcção da Colecção | Series Editors Sérgio Campos Matos & Covadonga Valdaliso Organização | Organisation Sérgio Campos Matos & Maria Isabel João Editor | Editor Sérgio Campos Matos Assistentes de Edição | Editorial Assistants Gonçalo Matos Ramos, Ricardo de Brito Comissão Editorial | Editorial Board Luís Filipe Barreto, Valdei Araújo Capa | Frontcover Detalhe da representação da Divina Comédia de Dante Alighieri. Almada Negreiros, 1961. Pórtico da entrada da Faculdade de Letras. Arte parietal, gravuras incisas coloridas sobre parede revestida a cantaria de calcário, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fotografia de Armando Norte. Frontispício | Frontispiece Detalhe de Cabeça Mecânica (O Espírito da Nossa Era). Raoul Hausmann, c. 1920. Montagem. Paris, Musée National d’Art Moderne, Centre Pompidou. Contra-capa | Backcover Musa (Clio?) lendo um uolumen. Pintor de Klügmann, c. 435-425 BCE (Beócia?). Lekythos, cerâmica ática de figuras vermelhas, Museu do Louvre, CA 220. Historiografia – História Contemporânea – Memória | 930(469) MAT,S Editora | Publisher Centro de História da Universidade de Lisboa & Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta | 2017 Concepção Gráfica | Graphic Design Bruno Fernandes Impressão Gráfica | Printing Shop Sersilito-Empresa Gráfica Lda. ISBN 978-989-8068-22-4 Tiragem 300 exemplares P.V.P. 15.00€ Centro de História da Universidade de Lisboa | Centre for History of the University of Lisbon Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | School of Arts and Humanities of the University of Lisbon Cidade Universitária - Alameda da Universidade,1600-214 LISBOA / PORTUGAL Tel.: (+351) 21 792 00 00 (Extension: 11610) | Fax: (+351) 21 796 00 63 URL: http://www.centrodehistoria-flul.com This work is funded by national funds through FCT – Foundation for Science and Technology, under project UID/HIS/04311/2013 and project PEST-OE/SADG/UI0289/2014. This work is licensed under the Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License. To view a copy of this license, visit http://creativecommons.org/ licenses/by-nc/4.0/ or send a letter to Creative Commons, PO Box 1866, Mountain View, CA 94042, USA. Copyright for authors and editors remain as reserved according to the aforementioned license and complying with the FCT directive “Política sobre Acesso Aberto a Publicações Cientificas resultantes de Projectos de I&D Financiados pela FCT (05/05/2014)”.
ÍNDICE SOBRE A ESCRITA DA HISTÓRIA NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS Sérgio Campos Matos e Maria Isabel João I – HISTÓRIA, TEMPO, CIDADANIA O HISTORIADOR NA CIDADE: HISTÓRIA E POLÍTICA Fernando Catroga HISTOIRE GLOBALE, HISTOIRE NATIONALE? COMMENT RÉCONCILIER RECHERCHE ET PÉDAGOGIE Christophe Charle AS FORMAS DO PRESENTE. ENSAIO SOBRE O TEMPO E A ESCRITA DA HISTÓRIA Temístocles Cezar CONTINUIDADES E RUPTURAS HISTORIOGRÁFICAS: O CASO PORTUGUÊS NUM CONTEXTO PENINSULAR (C.1834 - C.1940) Sérgio Campos Matos II – DIRECÇÕES DE ESTUDO MODERNIZAÇÃO E BLOQUEIOS: PROBLEMAS DO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO NA MEMÓRIA HISTÓRICA José Luís Cardoso A HISTÓRIA SOCIAL EM PORTUGAL (1779-1974) ESBOÇO DE UM ITINERÁRIO DE PESQUISA Nuno Gonçalo Monteiro ESPIRITUALIDADE E RELIGIÕES: UNIVERSOS DE MOTIVAÇÃO E DE CRENÇA António Matos Ferreira 11 25 27 89 115 131 161 163 183 203
AS MIGRAÇÕES NA HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA (1779-1974) Jorge Fernandes Alves O IMPÉRIO E AS SUAS METAMORFOSES NA HISTORIOGRAFIA Diogo Ramada Curto A HISTORIOGRAFIA NO ÂMBITO DOS ESTUDOS REGIONAIS Maria Isabel João III – PERIODISMO E HISTÓRIA HISTÓRIA, OPINIÃO PÚBLICA E PERIODISMO José Augusto dos Santos Alves DIVULGAR O CONHECIMENTO HISTÓRICO AS PUBLICAÇÕES COLECTIVAS DA ACL SOB O LIBERALISMO (1820-1851) Daniel Estudante Protásio O CONTRIBUTO D’O PANORAMA NA DIVULGAÇÃO HISTÓRICA EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX (1837-68) Ricardo de Brito DIFERENTES CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA NA VÉRTICE DURANTE O ESTADO NOVO (1942-1974) José de Sousa OS ARQUIVOS DO CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS (1969-1993): UMA “COLECTÂNEA ERUDITA” AO SERVIÇO DA HISTÓRIA Andreia da Silva Almeida A HISTÓRIA DE PORTUGAL NA SEARA NOVA: A BUSCA NO TEMPO PASSADO PARA A CONSTRUÇÃO DE UM PRETENDIDO FUTURO Joaquim Romero Magalhães 217 241 253 283 285 309 337 355 375 403
359 lisbon historical studies | historiographica a “zona social” ou os “sectores sociais” presentes. Desse modo, “é na atmosfera de um certo «presente» que se escolhe um certo «passado» para comemorar”, concluindo que não havia uma só tradição, “o passado não é igual para todos, como o não é o presente” 12. A construção de uma memória colectiva alternativa na Vértice privilegiou certos momentos-chave do passado nacional – 1383-85, 1580, 1640, invasões napoleónicas, entre outros – onde a resistência do povo, a libertação da dominação estrangeira e a traição das classes privilegiadas se afiguravam como centrais na narrativa nacionalista e popular que pretendiam difundir. Era sobretudo ao “português anónimo”, e não apenas a um conjunto restrito de homens eminentes, a quem cabia a construção da consciência nacional13. Tinha sido o povo quem, nas grandes crises nacionais, tinha manifestado maior consciência nacional14. A nação e a sua independência eram apresentadas como obra do povo português, ao mesmo tempo que à nobreza e ao clero era frequentemente apontada a traição da consciência e independência nacionais em prol dos seus próprios interesses de classe, perspectiva enfatizada por vários colaboradores da Vértice, entre os quais Fernando Pinto Loureiro e Joaquim Namorado15. A evocação de destacadas figuras da história da cultura nacional que, como se viu, visou sobretudo legitimar o perfil intelectual que a Vértice vinha difundido através dos seus editoriais, não implicava que a elas se atribuísse especial destaque na transformação histórica. Contudo, se um dos principais combates da historiografia marxista (mas não só) era dirigido à teoria dos grandes homens enquanto agentes de mudança, tal não implicou necessariamente o abandono de ideias voluntaristas no devir histórico. Para além do materialismo histórico e do papel da luta de classes, a assunção do povo enquanto herói colectivo responsável pelo progresso e pela 12 Utiliza, entre outros, os conceitos de “lei de produção” e “regime económico feudal”. Afirma ainda nesse artigo que “será segundo as vias marcadas pelas novas forças mecânicas de produção que a evolução política, social, económica e ideológica se irá desenvolver” (J. Borges de Macedo, “A revolução de 1848 em Portugal”, Vértice, n.os 56-57, Abr. – Mai. 1948, p. 337). Este artigo esteve na origem de uma carta enviada por Luís de Albuquerque e na qual lhe chamava a atenção para a necessidade de “camuflar a pilula”, numa alusão clara à possibilidade de o artigo vir a ser censurado (ANTT/PIDE/DGS processo n.º 1151/47-SR NT 2605 Jorge Borges de Macedo). 13 “O país e as eleições”, Vértice, n.os 17-21, Novembro 1945, pp. 1-4. 14 “Povo e cultura”, Vértice, n.os 22-26, Fevereiro 1946, pp. 1-3. 15 Fernando Pinto Loureiro - “A «deputação portuguesa» a Baiona e o que pediu a Napoleão”, Vértice, n.º 47, Junho 1947, pp. 135-153; Joaquim Namorado - “No alvorecer da Restauração. A rebelião do «Manuelinho de Évora»”, n.º 76, Dezembro 1949, pp. 313-317.
360 historiografia e res publica construção da nação está presente em vários artigos da Vértice. Rui Feijó, um dos mais activos colaboradores da revista, defendia mesmo que “o herói faz a história”, ou seja, imprime um cunho específico a determinado momento histórico desde que a sua acção não “contrarie as forças colectivas onde se insere”. Todavia, na sua opinião, a história era sobretudo o resultado do “esforço colectivo do homem em marcha”16. Também Mário Braga, ao procurar compreender os diferentes desfechos em 1383 e 1580, centrava a sua explicação no papel do povo nesses dois momentos, desvalorizando um conjunto de causas explicativas que incluíam a ideia de nacionalidade, o papel da nobreza, factores económicos ou mesmo a diferente relação de forças militares em 1383 e 1580: “apenas uma análise da actuação do povo, num e noutro dos momentos, nos habilitará a formular uma resposta”17. Os exemplos até aqui referidos inserem-se numa concepção de história sobretudo com intuitos pedagógicos (de exemplos morais a seguir ou a rejeitar) e cívicos e inscrevem-se igualmente nos processos de edificação, divulgação e fundamentação dos projectos culturais marxistas em Portugal. Não obstante, a Vértice foi também um espaço privilegiado para o desenvolvimento de outro entendimento da história que, embora relacionado com o anteriormente referido, centrava-se sobretudo num conjunto de reflexões epistemológicas, abordagens metodológicas e práticas historiográficas que se assumiam como científicas e que se associavam às ideias de rigor, verdade e objectividade no estudo do passado. Não raras vezes, essa reivindicação da cientificidade da história adquiriu um cariz exclusivista, reservando aos historiadores “científicos” a missão de denunciar uma historiografia “metafísica” ou “idealista”, tida como ideológica. Neste sentido, o carácter científico da história esteve muitas vezes associado à adopção de uma teoria global que enfatizava o papel condicionante dos factores económicos e dos fenómenos “infraestruturais” sobre os fenómenos “superestruturais”, metodologia essa que incorporava igualmente o conceito de “leis económicas” e consequentes “nexos adequados entre causas e efeitos”18. Esta associação entre história científica e materialismo histórico levaria a uma releitura da tradição historiográfica nacional, 16 Rui Feijó - “A nação faz-se todos os dias”, Vértice, n.º 67, Março 1949, p. 167. 17 Mário Braga - “O povo e as crises nacionais”, Vértice, n.º 80, Abril 1950, pp. 197-205 18 Victor de Sá - “Economia e história”, Vértice, n.os 214-215, Julho – Agosto 1961, pp. 455-460.
361 lisbon historical studies | historiographica enaltecendo-se os historiadores – que iam de Fernão Lopes até Lúcio de Azevedo – que haviam atentado nos factores económicos e na história dos agrupamentos sociais. Também a historiografia contemporânea foi interpretada à luz desta concepção científica da história. Flausino Torres, por exemplo, considerava Armando Castro “o primeiro historiador científico português”19. Ao contrário do que foi até aqui destacado, com a adopção do materialismo histórico a dimensão voluntarista que explicava as mudanças no passado tendeu a ser relativizada ou, numa perspectiva mais determinista, suprimida nas interpretações historiográficas. Ao longo dos anos 40 e 50 destaca-se o caso de António José Saraiva que, numa crítica ao idealismo de António Sérgio, punha definitivamente em causa qualquer ideia voluntarista no estudo do passado: “O sujeito determina-se na medida em que conhecemos o objecto. Tudo se reduz portanto a conhecer o objecto”. A ênfase no cariz materialista do devir histórico pretendia aproximar a história dos métodos e objectivos científicos: desde que se retirasse da construção historiográfica a “nossa consciência subjectiva”, poderse-ia atribuir ao homem “um comportamento previsível, redutível à estatística”20. Curiosamente, apesar da defesa acérrima destas ideias, António José Saraiva nunca privilegiou a investigação nos domínios da história económica, partindo, ao invés, da análise de fenómenos culturais para compreender a realidade segundo o modelo teórico por ele perfilhado21. Tal como confidenciou Eric Hobsbawm sobre o seu próprio percurso inicial, mais do que a questão da transição dos modos de produção, interessava-lhe sobretudo compreender como um aspecto específico dos fenómenos superestruturais se ligava aos mecanismos fundamentais que estavam na base da sociedade22. Neste período, António José Saraiva afirmou-se também como uma das principais referências no domínio da reflexão e difusão teórica do marxismo. Noutro artigo, significativamente intitulado “Determinismo e história”, aprofundava essa sua noção científica da história ao defender que “explicar os 19 Flausino Torres - “A propósito da história do povo português”, Vértice, n.os 250-251, Julho – Agosto 1964, pp. 412-425. 20 António José Saraiva - “Sobre a 2ª edição dos Ensaios de António Sérgio”, Vértice, n.º 81, Maio 1950, pp. 279-288. 21 Ver, por exemplo, “A obra de Júlio Diniz e a sua época”, Vértice, n.º 67, Março 1949, pp.137-151. 22 Eric Hobsbawm - Interesting times. A twentieth-century life. Londres, 2010, p. 97.
362 historiografia e res publica fenómenos sociais, introduzir neles o pressuposto da previsibilidade, é afinal reduzila às leis do determinismo da matéria”. Nesse sentido, o conhecimento histórico não possibilitava apenas a identificação diacrónica dos problemas estruturais das sociedades mas igualmente a sua transformação futura, mediante a capacidade dos historiadores desvendarem as “leis” que condicionavam a acção humana, constituindo, por isso, “um instrumento de aceleração do progresso”23. Nem todos assumiram ortodoxamente o materialismo histórico divulgado pelas teses de inspiração marxista-leninista. Fernando Piteira Santos, por exemplo, saindo em defesa das críticas à “retórica do concreto”, de que se falará mais adiante, afirmava que “as ideias dos homens são também uma força”, questionando, ironicamente, se “será necessário que um materialista estreito venha lembrar à grei, discretissimamente, esse valor concreto das ideias”24. Também Borges de Macedo pôs em causa a necessidade de “expurgar” os preconceitos ideológicos de uma historiografia “idealista”. É que se a história era uma ciência, também era testemunho, na medida em que o historiador transportava para a historiografia a sua condição presente, os seus problemas e o ambiente do seu tempo. Embora esta ideia fosse comummente aceite, Borges de Macedo não considerava que essa presença do historiador fosse um obstáculo à obtenção da “verdade histórica”. Para além da psicologia histórica que agiria como “elemento corrector”, a verdade era antes o resultado das “parcialidades objectivas” e da acumulação de interpretações historiográficas que dariam uma ideia mais ampla da experiência humana25. Estas diversas reflexões teóricas não foram o único meio para afirmar o valor científico da história. A Vértice foi também um espaço onde se exerceram práticas historiográficas características do processo de profissionalização e seus correspondentes métodos que a aproximavam do intuito científico que lhe está associado. Não era raro serem publicados na Vértice documentos inéditos da história portuguesa, sobretudo correspondência de escritores do século XIX; textos de aparato erudito, com recurso a notas de rodapé, alguns dos quais eram traduções 23 António José Saraiva - “Determinismo e história”, Vértice, n.os 99-101, Novembro-Janeiro 1951-2, pp. 572-3. 24 Fernando Piteira Santos - “A retórica do concreto e outras retóricas…”, Vértice, n.º 55, Março 1948, p. 237. 25 Jorge Borges de Macedo - “Parcialidade e objectividade em história”, Vértice, n.º 123, Novembro-Dezembro 1953, pp. 655-7.
363 lisbon historical studies | historiographica de artigos publicados em revistas de história – caso, por exemplo, de um artigo de Vitorino Magalhães Godinho, publicado originalmente nos Annales26; recensões a revistas especializadas de história, sobretudo dos Annales e da Revista de História de São Paulo, realizadas ao longo de vários números por Rui Feijó; recensões a congressos científicos; publicação de excertos de capítulos de livros e de teses universitárias. Uma das práticas historiográficas privilegiadas foi a realização de críticas bibliográficas. Estas assumiam-se muitas vezes como instrumento de aproximação da teoria à prática historiográfica, como exercício ordenador do discurso. Esse intuito esteve presente em duas recensões que António José Saraiva fez a livros do seu amigo Óscar Lopes, ao lamentar uma certa propensão para a interpretação psicológica que destoava da perspectiva sociológica, dando assim um “ecletismo incongruente” a um desses livros27. Noutro sentido, na análise que Augusto da Costa Dias fez à Inquisição Portuguesa de António José Saraiva, enaltecia-se essa total conformidade entre a teoria e a prática, ao ponto de se afirmar que o conhecimento exacto das “leis do desenvolvimento social” conferia um carácter definitivo a essa história que posteriores aprofundamentos “mais não fará que confirmá-la e enriquece-la em pormenor”28. As recensões foram igualmente um instrumento de demarcação relativamente a outras formas de escrever história, nomeadamente da história erudita – um “bom arquivo de factos”, como Alberto Ferreira caracterizava uma obra do pe. Mário Martins (n.º 172, Jan. 1958, 64) – ou dos “amadores de Clio” que não cumpriam uma série de requisitos prévios que caracterizavam a “profissão de historiador”, como lamentava Joel Serrão numa dessas recensões (n.º 95, Jul. 1951, 383-4). Dessa demarcação resultava a criação de uma noção, mais ou menos precisa, de identidade historiográfica, de uma “comunidade científica” de historiadores. De facto, muitas das recensões críticas na Vértice foram realizadas sobre obras de outros 26 Vitorino Magalhães Godinho - “Criação e dinamismo económico do mundo atlântico (1420-1670)”, Vértice, n.º 92, Abril 1951, pp. 149-154. 27 António José Saraiva, [recensões críticas a “Oliveira Martins e as contradições da geração de 70” e “Realistas e parnasianos”], Vértice, n.º 48, Julho 1947, p. 235. 28 Augusto da Costa Dias, [recensão crítica à “Inquisição Portuguesa” de António José Saraiva], Vértice, n.º 151, Abril 1956, pp. 169-73.
364 historiografia e res publica colaboradores. Numa recensão de Armando Castro à Situação Económica no Tempo de Pombal de Borges de Macedo – obra também analisada na Vértice por Joel Serrão – é-nos transmitida a ideia de “uma escassa meia dúzia de autores” que, “sem o apoio de academias ou universidades”, ia trabalhando no sentido de reduzir o abismo que separava as realizações concretas do “reconhecimento da verdadeira orientação científica” (n.º 107, Jul. 1952, 378). Ao contrário da Seara Nova, foram muito poucas as polémicas que versaram sobre problemas de história na Vértice. Ainda assim, destaque-se a que ocorreu no início dos anos 50 entre Joel Serrão e Fernando Piteira Santos a propósito de Antero de Quental, dando, aliás, continuidade às polémicas iniciadas na Seara e que envolveram diversos colaboradores. De certa forma, esta polémica entre Piteira Santos e Joel Serrão opunha as duas concepções históricas acima referidas, uma com intuitos mais cívicos e pedagógicos e outra de orientação científica. Em relação ao problema central aí levantado, a divergência encontrava-se latente desde 1947, muito embora se tivesse o cuidado de não referir especificamente os nomes que sustentavam as diferentes opiniões. Essa cautela deixa de fazer sentido alguns anos depois, já num contexto de aberta polémica entre colaboradores da Vértice, nomeadamente aquela que opôs sobretudo João José Cochofel e António José Saraiva na primeira metade da década de 50, conhecida como a polémica interna do neo-realismo29. Em 1947, alguns artigos vinham denunciando o espírito retórico que se encontrava presente nos jovens intelectuais progressistas. Rui Feijó, apoiando as ideias de um artigo publicado na Seara Nova por Rui Grácio, criticava essa “retórica do concreto”, que repetia “a necessidade do estudo concreto, mas só falando dele como necessidade sem, concretamente, lhe darem realização” (n.º 43, Jan. 1947, 230). No mesmo sentido, alguns meses depois, também Joel Serrão manifestava a mesma preocupação quando questionava: “vamos, de facto, estudar os nossos problemas? Ou julgaremos, antes, que a realidade nacional se transformará ao toque mágico da varinha de condão da nossa boa ou má retórica?”30. Na resposta a estas posições, 29 João Madeira - “Os novos remexedores da história”, David Santos coord., Batalha pelo conteúdo. Exposição documental. Movimento neo-realista português. Vila Franca de Xira, 2007, pp. 304-331. 30 Joel Serrão - “Sobre a necessidade da investigação”, Vértice, n.º 50, Setembro 1947, pp. 353-5.
365 lisbon historical studies | historiographica num artigo intitulado precisamente “A retórica do concreto e outras retóricas”, Piteira Santos valorizava “a atitude como atitude”, ou seja, mesmo que as ideias não se concretizassem num conhecimento mais profundo e numa reforma efectiva da sociedade, nem por isso deixavam de ser reais e consequentes: “as ideias dos homens ganham homens para as ideias”31. Esta divergência ganha uma dimensão historiográfica na polémica de 19511952. Num artigo publicado na Seara Nova sobre “a compreensão de Antero”, Joel Serrão dava continuidade ao seu projecto de investigação sobre o oitocentismo português, muito marcado pela história das mentalidades dos Annales, que defendiam, sobretudo Lucien Febvre, a necessidade de encarar determinada época como uma totalidade em si mesma, possuidora de uma mentalidade própria, diferente da do tempo presente. Joel Serrão pretendia aplicar esse princípio ao estudo da época contemporânea portuguesa, precavendo com frequência os seus leitores dos perigos do anacronismo, especialmente sobre uma época tão próxima do presente. Alertava para o risco de se considerar Antero “nosso contemporâneo”, menosprezando-se todo o estudo cientificamente conduzido da mentalidade do homem de oitocentos, diferente, sob diversos aspectos, da mentalidade dos homens de 195032. Embora sem o referir, Joel Serrão teria visado, segundo a interpretação de Piteira Santos, algumas interpretações feitas por si e por Manuel Mendes. Na sua mordaz resposta, Piteira Santos rejeitava qualquer acusação de anacronismo na sua interpretação, pois “a noção de seriedade, a noção de coerência, a noção de honra, não eram sensìvelmente diferentes das do nosso tempo. E já então era costume, e dever, honrar os compromissos políticos”33. Pretendia, “sem violentarmos a Históriaciência”, demarcar-se da perspectiva “cientificamente conduzida” de Joel Serrão. Ao invés, era o exemplo e a validade actual de Antero que lhe interessava, acusando Joel Serrão de não ter compreendido “o verdadeiro sentido do debate em que, por mero dever cívico, andamos empenhados”. Esse dever cívico passava, como se viu, pela afirmação do modelo de intelectual interventivo, como a seguinte condenação do exemplo de duas das mais proeminentes figuras da cultura portuguesa do século 31 Fernando Piteira Santos - “A retórica do concreto e outras retóricas”, Vértice, n.º 55, Março 1948, 236-7. 32 Joel Serrão - “Para a compreensão de Antero”, Seara Nova, n.os 1226-7, 1951, pp. 533-35 e 547. 33 Fernando Piteira Santos - “Carta melancólica”, Vértice, n.º 98, Outubro 1951, p. 516.
366 historiografia e res publica XIX deixa transparecer: “nem azeiteiros em Vale de Lobos, nem suicidas numa ilha de bruma: nem fugitivos nem derrotados; as cousas e os homens desta terra lusitana merecem mais alguma coisa”. Neste aspecto, Piteira Santos era um herdeiro dos iniciais propósitos seareiros. Não por acaso, recuperava as mesmas imagens de Alexandre Herculano e de Antero de Quental já utilizadas por Raúl Proença para notar a ausência na história contemporânea portuguesa de um “grande mestre da acção moral”, de um “herói até ao fim” que “salvasse” a pátria34. Esta divergência entre Joel Serrão e Piteira Santos pode ser interpretada à luz das dificuldades de institucionalização de uma historiografia que pretendia conciliar a investigação com actividades cívicas e políticas de oposição ao Estado Novo. Na sua maioria excluídos, de forma voluntária ou forçada, das instituições superiores de investigação e ensino, estes historiadores não deixaram de procurar uma dedicação profissional ao ofício onde se tinham formado. Num tempo, sobretudo após a II Guerra Mundial, de expansão do processo de institucionalização profissional da história, associado também ao processo de democratização do ensino35, ser historiador começou a implicar fazer parte de um círculo de sociabilidades académicas que incluíam centros de investigação, revistas especializadas e encontros científicos subsidiados pelo estado. Nos anos 30 e 40, ainda que timidamente, começou-se a reforçar em Portugal este processo de institucionalização, do qual as criações da Academia Portuguesa da História e da Revista Portuguesa de História são exemplos paradigmáticos. Através da leitura de alguma correspondência destes historiadores alheados destas instituições subsidiadas pelo estado, é notória a preocupação pela abertura de bolsas de investigação, pela integração num centro de investigação estrangeiro, pela colaboração em revistas especializadas e por um lugar na docência universitária. Porém, para além daqueles que conseguiram ou optaram por prosseguir uma carreira académica no estrangeiro, essa institucionalização assumiu em Portugal traços de enorme precariedade para os historiadores acima referidos. Sistematicamente excluídos dos concursos para docentes universitários, poucos conseguiram obter as escassas bolsas promovidas pelo Instituto de Alta 34 Joel Serrão - “Aproximação do pensamento de Raul Proença”, Seara Nova, n.º 1512, Outubro 1971, pp. 23-28. 35 Lutz Raphael - La ciencia histórica en la era de los extremos. Teorías, métodos y tendencias desde 1900 hasta a actualidade. Saragoça, 2012, p. 40.
367 lisbon historical studies | historiographica Cultura e, mais tarde, pela Fundação Calouste Gulbenkian. Desempenhando outras ocupações profissionais (professorado, advocacia, jornalismo, tradução, etc.), integraram as poucas iniciativas de institucionalização historiográfica que ficaram à margem do apoio estatal. Refiram-se as efémeras Sociedade Portuguesa de História da Civilização e o Centro de Estudos do Século XIX36; alguns projectos editoriais (promovidos pelos Livros Horizonte, Cosmos, Portugália Editora, entre outras) e revistas culturais que contemplavam a história nas suas páginas. Neste contexto, a Vértice desempenhou um importante papel na divulgação de correntes historiográficas que normalmente estavam ausentes das universidades, centros de investigação e outros projectos patrocinados pelo estado. Porém, tratando-se de uma revista ecléctica, promoveu concepções de história nem sempre conciliáveis. A polémica entre Piteira Santos e Joel Serrão pode ser interpretada neste contexto. De qualquer forma, esta separação entre as vertentes cívica e científica não deve ser sobrevalorizada. Nas páginas da Vértice, Piteira Santos também associava ao seu tempo a emergência da história-ciência, superando a história artística e ética do passado37. Já nos anos 90, num artigo publicado no Jornal de Letras (nº. 524, 2127 Junho 1992, 6-7) em resposta a um artigo no qual Borges de Macedo criticava a historiografia marxista, punha sobretudo em relevo, sem negar o comprometimento ideológico, a tarefa de “construir uma história de rigor científico”. Também Joel Serrão insistentemente viria a lembrar a condição cívica do historiador, a sua irredutível condição de homens do tempo presente38. Unia-os também uma mesma experiência do tempo, de cariz prospectivo, e no qual o presente e futuro se assumiam com centrais na construção histórica. Daí que ambos se tenham também distanciado de um eruditismo sem interpretação nem problematização que o ligasse ao presente, bem como de um revisionismo que lhes parecia a restauração do passado no presente. Esta polémica enquadra-se, como se referiu, num período de graves polémicas e cisões entre alguns colaboradores da Vértice. Ao longo das décadas de 50 e 60, 36 José Neves - Comunismo e nacionalismo em Portugal (política, cultura e história no século XX). Lisboa, 2010, pp. 30912; José-Augusto França - Memórias para o ano 2000. 2ª ed. Lisboa, 2001, pp. 214-5. 37 Fernando Piteira Santos - “Sobre uma frase de Marc Bloch”, Vértice, n.º 50, Setembro 1947, pp. 356-66. 38 Joel Serrão - “Brevíssima reflexão preambular sobre historiografia, ideologia e tempo”, in A Emigração Portuguesa. Sondagem histórica. 4ª. ed. Lisboa, 1982, pp. 9-23.
368 historiografia e res publica alguns dos mais destacados colaboradores da revista suspendem ou diminuem significativamente a sua presença, muitas vezes em ruptura com o ideário marxistaleninista. Entre os historiadores, destacam-se os casos de Borges de Macedo (abandona a sua colaboração em 1955), Joel Serrão e Piteira Santos (ambos em 1957, só regressando esporadicamente muitos anos depois) e António José Saraiva (em 1965). Ainda assim, outros mantiveram a sua colaboração, mais ou menos frequente, casos de Armando Castro, Óscar Lopes e Luís de Albuquerque. A colaboração deste último deve ser realçada pela dedicação à Vértice, publicando aí várias dezenas de artigos, não só sobre história da educação e dos Descobrimentos mas também sobre outros assuntos onde mostrava a amplitude dos seus interesses científicos, culturais e cívicos. Entre 1948 e 1953, desempenhou o cargo de secretário de redacção da revista, contribuindo, sob diversos pseudónimos, para o funcionamento regular da publicação. É sobretudo a partir desta última data que começa a manifestar um especial interesse pela história dos Descobrimentos e expansão ultramarina39, vindo a publicar na Vértice, entre 1957 e 1958, a sua Introdução à história dos descobrimentos, posteriomente reunido em livro. O seu caso é relevante e excepcional uma vez que conciliou a sua activa colaboração na Vértice com a integração, a partir dos anos 1960, em alguns dos principais projectos de investigação no âmbito da história ultramarina: foi colaborador do Centro de Estudos de Cartografia Antiga, vogal do Centro de Estudos Ultramarinos da Junta de Investigações do Ultramar e participou no Congresso Internacional de História dos Descobrimentos em 196040, do qual fez alguns comentários num artigo publicado na Vértice41. A saída dos historiadores acima referidos foi sendo colmatada com a entrada de novos colaboradores. Esta mudança saldou-se numa maior atenção à história portuguesa do século XIX, sobretudo através dos artigos publicados por Flausino Torres e Victor de Sá. Dando continuidade ao interesse pelo oitocentismo português que vinha dos anos 40, começava-se a constituir um conjunto relevante de estudiosos que, segundo Flausino Torres, deveriam reunir-se para a constituição de uma 39 Luís de Albuquerque - “Apontamentos sobre os antecedentes da expansão quatrocentista portuguesa”, Vértice, n.º 121, Setembro 1953, pp. 509-513. 40 Alfredo Pinheiro Marques - “Luís de Albuquerque, historiador”, Isabel Pereira, Alfredo Pinheiro Marques e Ana Paula Cardoso (coords.) Luís de Albuquerque. O homem e a obra. Figueira da Foz, 1993, pp. 177-210. 41 Luís de Albuquerque - “Sobre alguns problemas mal esclarecidos da história dos descobrimentos”, Vértice, n.º 209, Fevereiro 1961, pp. 91-100.
HISTORIOGRAFIA E RES PUBLICA Em contacto com as suas congéneres europeias e muito marcada pela herança clássica e cristã, a historiografia portuguesa foi até meados do século XX um campo privilegiado de expressão de concepções organicistas, centradas na dicotomia progresso e outros pré-conceitos que têm permeado os discursos sobre a transformação social. Historiadores liberais e positivistas de diversos matizes contribuíram para acentuar estes enfoques. Foram-se entretanto afirmando visões críticas do evolucionismo, assinalando-se continuidades mas também rupturas, diferentes expressões de resistência ao positivismo, mediante um debate transdisciplinar que envolveu abertura a outras ciências humanas e múltiplas orientações teóricas: Annales, interpretações marxistas, estruturalismo, linguistic-turn. Pretende-se nesta obra alargar o conhecimento acerca das historiografias e dos historiadores dos séculos XIX e XX - sem esquecer os seus antecedentes e tendências recentes como a história global - nas suas relações com o espaço público e a cidadania, problematizar a sua função social e cultural, tendo em atenção as relações transnacionais e os contextos em que produziram as suas obras. A partir de tópicos-chave, tecem-se balanços críticos sectoriais sobre a historiografia portuguesa, os modos de recepção de debates históricos internacionais, o lugar dos historiadores e a forma como nas suas escritas, da Revolução liberal à actualidade, se estruturaram olhares sobre Portugal na sua relação com outros povos. Em que medida presente e futuro condicionaram a construção social do passado? Qual o horizonte diferencial que os historiadores reconheceram ao passado? Como lidaram com a aceleração das experiências do tempo?
A colecção Historiographica dá a conhecer estudos sobre historiografias e historiadores, a construção de memórias sociais e individuais e usos instrumentais do passado - a sempre complexa relação entre presente, passado e futuro, nas suas relações contextuais com problemas sociais e políticos. Abrange múltiplos tempos e geografias e incentiva a aproximação entre diversas ciências sociais e humanas.
Direcção de Sérgio Campos Matos & Covadonga Valdaliso Historiografia e Res Publica Sérgio Campos Matos e Maria Isabel João (orgs.) 2017 Historiografia, Cultura e PolítiCa na ÉPoCa do VisConde de santarÉm Daniel Estudante Protásio (coord.) 2018