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As “fontes inexauríveis dos escritores da Antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins

Nobre, Ricardo Miguel Guerreiro

Abstract

Inserida na “Biblioteca das Ciências Sociais” (de que viria a ser o último volume, publicado em 1885), a História da República Romana responde ao objectivo específico delineado por Oliveira Martins: difundir conhecimento por um vasto público. Será, porventura, esse propósito que justifica alguma contenção e certa simplicidade com que se citam ou referem autores antigos, capacidade que neste ensaio se estuda para concluir acerca do proveito que Oliveira Martins tirou dos testemunhos da literatura greco-latina: verificar-se-á que a insistência com que se recorre a Valério Máximo ou Suetónio como fontes históricas é uma singularidade admirável, sobretudo em contraste com a parcimónia com que são mencionados quer historiadores como Tito Lívio, Dionísio de Halicarnasso ou Plutarco, quer testemunhos contemporâneos da última parte da História da República Romana como o de Júlio César; citações de Tácito e dos Evangelhos parecem deslocados do contexto e cronologia, enquanto Cícero configura um caso inteiramente à parte, pois a sua convocação é frequente, sobretudo para demonstrar antipatia pela personagem; identificam-se versões latentes de Apiano, Díon Cássio ou Séneca; e assinalam-se discursos poéticos de Horácio, Propércio, Virgílio e de Catulo usados como fonte histórica. Em muitos casos, porém, os contextos originais foram distorcidos ou manipulados.

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Nuno Simões Rodrigues Ália Rodrigues (Coords.) Identidade Romana e Contemporaneidade HVMANITAS SVPPLEMENTVM • ESTUDOS MONOGRÁFICOS ISSN: 2182-8814 Apresentação: esta série destina-se a publicar estudos de fundo sobre um leque variado de temas e perspetivas de abordagem (literatura, cultura, história antiga, arqueologia, história da arte, filosofia, língua e linguística), mantendo embora como denominador comum os Estudos Clássicos e sua projeção na Idade Média, Renascimento e receção na atualidade. Breve nota curricular sobre a Coordenação do volume Nuno Simões Rodrigues é Doutor em Letras, na especialidade de História da Antiguidade Clássica, é Professor Associado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leciona matérias relacionadas com a Antiguidade Clássica, em graduações e pós-graduações. Investigador dos Centros de História e de Estudos Clássicos da ULisboa e de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, tem dedicado a sua investigação à História Cultural da Grécia Antiga (mito, religião e teatro) e à História Social e Política da Roma Antiga (finais da República e inícios do Principado). A receção da Antiguidade Clássica no cinema e na banda desenhada tem também merecido a sua atenção como investigador. Traduziu Eurípides (Alceste e Ifigénia entre os Tauros), Plutarco (Coriolano) e algumas da vidas da História Augusta. De momento, trabalha na tradução da Vida de António de Plutarco. Ália Rodrigues é doutorada pela Universidade de Coimbra em Estudos Clássicos e é atualmente investigadora pós-doutoranda no Projecto BioRom sediado no Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos. Nos últimos anos tem trabalhado sobretudo na área de história intelectual das ideias políticas, focando-se nas tradições políticas grega e romana. Série Humanitas Supplementum Estudos Monográficos ESTRUTURAS EDITORIAIS Série Humanitas Supplementum Estudos Monográficos ISSN: 2182-8814 DIRETOR PRINCIPAL MAIN EDITOR Delfim Leão Universidade de Coimbra REVISÃO REVIEW Guilherme Marques Universidade de Coimbra COMISSÃO CIENTÍFICA EDITORIAL BOARD Antonio Duplá Ansuategui (Universidad del País Vasco) Cláudia A. Teixeira (Universidade de Évora) Fernando Wulff Alonso (Universidad de Málaga) José Cardoso Bernardes (Universidade de Coimbra) José Damião Rodrigues (Universidade de Lisboa) Maria Alexandre Lousada (Universidade de Lisboa) Maria Cristina de Sousa Pimentel (Universidade de Lisboa) Maria João Baptista Neto (Universidade de Lisboa) Maria Manuela Tavares Ribeiro (Universidade de Coimbra) Martin M. Winkler (George Mason University) Paola S. Salvatori (Scuola Normale Superiore – Pisa e Università degli Studi Roma Tre) Paula Morão (Universidade de Lisboa) Raquel Henriques da Silva (Universidade Nova de Lisboa) Sérgio Campos Matos (Universidade de Lisboa) Todos os volumes desta série são submetidos a arbitragem científica independente. Nuno Simões Rodrigues Ália Rodrigues (coords.) Identidade Romana e Contemporaneidade Título Title Identidade Romana e Contemporaneidade Roman Identity and Contemporaneity Coord. Ed. Nuno Simões Rodrigues Ália Rodrigues Editores Publishers Imprensa da Universidade de Coimbra Coimbra University Press www.uc.pt/imprensa_uc Contacto Contact [email protected] Vendas online Online Sales http://livrariadaimprensa.uc.pt Coordenação Editorial Editorial Coordination Imprensa da Universidade de Coimbra Conceção Gráfica Graphics Rodolfo Lopes, Nelson Ferreira Infografia Infographics Jorge Neves Impressão e Acabamento Printed by  ISSN 2182-8814 ISBN 978-989-26-2479-2 ISBN Digital 978-989-26-2480-8 DOI https://doi.org/10.14195/978-989-26-2480-8 © Outubro 2023 Trabalho publicado ao abrigo da Licença This work is licensed under Creative Commons CC-BY (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/pt/legalcode) POCI/2010 Imprensa da Universidade de Coimbra Classica Digitalia Vniversitatis Conimbrigensis http://classicadigitalia.uc.pt Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Série Humanitas Supplementum Estudos Monográficos Trabalho produzido no âmbito do projeto Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and the Shaping of Identity(ies) (PTDC/LLT-OUT/28431/2017). Financiado pelo Projeto Geral do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra (UIDB/00196/2020 e UIDP/00196/2020) Identidade Romana e Contemporaneidade Roman Identity and Contemporaneity Coordenadores editors Nuno Simões Rodrigues Ália Rodrigues Filiação Affiliation Universidade de Lisboa Universidade de Coimbra Resumo Este conjunto de ensaios e de estudos pretende oferecer ao leitor uma perspectiva sistematizada da presença e influência da cultura romana, sobretudo ao nível das problemáticas da identidade, na contemporaneidade, entendendo-se aqui por “contemporânea” a realidade histórica que se segue à Revolução Francesa, no final do século XVIII. Deste modo, reúnem-se estudos que abrangem realidades políticas e institucionais, mas também historiográficas e artísticas, da Literatura, às Artes Plásticas e ao Património. Os textos reunidos centram-se sobretudo na realidade portuguesa, mas incluem-se também reflexões mais abrangentes que têm como horizonte a Europa e os EUA. Palavras-Chave Identidade Romana, Estudos de Receção, Roma Antiga, Contemporaneidade Abstract This set of essays aims to offer the reader a systematized perspective of the presence and influence of Roman culture, especially at the level of identity issues, in contemporaneity, “contemporaneous” being understood here as the historical reality that followed the French Revolution, at the end of the 18th century. The studies brought together cover political and institutional realities, but also historiographical and artistic topics, from Literature to Fine Arts and Heritage. The collected texts focus mainly on the Portuguese reality, but also include broader reflections such as Europe and the USA. Keywords Roman Identity, Reception Studies, Ancient Rome, Contemporaneity 6 Coordenadores Nuno Simões Rodrigues Doutor em Letras, na especialidade de História da Antiguidade Clássica, é Professor Associado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leciona matérias relacionadas com a Antiguidade Clássica, em graduações e pós-graduações. Investigador dos Centros de História e de Estudos Clássicos da ULisboa e de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, tem dedicado a sua investigação à História Cultural da Grécia Antiga (mito, religião e teatro) e à História Social e Política da Roma Antiga (finais da República e inícios do Principado). A receção da Antiguidade Clássica no cinema e na banda desenhada tem também merecido a sua atenção como investigador. Traduziu Eurípides (Alceste e Ifigénia entre os Tauros), Plutarco (Coriolano) e algumas da vidas da História Augusta. De momento, trabalha na tradução da Vida de António de Plutarco. Ália Rodrigues Ália Rodrigues é doutorada pela Universidade de Coimbra em Estudos Clássicos e é atualmente investigadora pós-doutoranda no Projecto BioRom sediado no Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos. Nos últimos anos tem trabalhado sobretudo na área de história intelectual das ideias políticas, focando-se nas tradições políticas grega e romana. Contents Índice Introdução 9 Nuno Simões Rodrigues, Ália Rodrigues I. DA HISTÓRIA Building a New Political Model: Lessons from the Roman Republic 19 Clelia Martinez Maza O regresso às origens do cristianismo no alvor do protestantismo português: a problemática da identidade romana na imagética protestante oitocentista 39 Rita Mendonça Leite Imperialismo, Latinidade e Romanidade no Norte de África francês e italiano 67 Vasco Mantas II. DA HISTÓRIA E DA HISTORIOGRAFIA Os historiadores oitocentistas portugueses e a romanização 133 André Teixeira A apropriação de Viriato (e dos Lusitanos) no séc. XIX em Portugal 163 Amílcar Guerra III. DA HISTÓRIA, DA LITERATURA E DA FILOLOGIA As «fontes inexauríveis dos escritores da Antiguidade» na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins 191 Ricardo Nobre Estudos da vida romana e notas memorialísticas em Os dois Plínios de Júlio de Castilho 219 Virgínia Soares Pereira Catão – Uma Memória na Ribalta. Abordagem de Catão, uma Tragédia de Joseph Addison 243 Adelaide Meira Serras A tragédia Catão de Almeida Garrett. O seu débito a Plutarco 265 José Ribeiro Ferreira 196 As “fontes inexauríveis dos escritores da antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins dos “subsídios” da “erudição contemporânea” e das “fontes inexauríveis dos escritores da Antiguidade”19. Nesta tomada de posição, Oliveira Martins parece ter seguido a sugestão que Antero de Quental lhe dera em Março de 1875; o poeta, a propósito de um artigo acerca “Da Moral Religiosa entre os Gregos” (impresso nesse ano na Revista Ocidental), declarara: “sou de parecer que tire as citações de 2.ª mão, e deixe só as dos antigos”20. A História da República Romana, no entanto, não está isenta de remissões bibliográficas. Dos estudos críticos, apenas são mencionadas, por norma em rodapé, obras da própria “Biblioteca das Ciências Sociais”21, porventura com o intuito de cimentar os conceitos de Oliveira Martins sobre os fenómenos históricos tratados. Para isso, concorre a ideia de que “Situações análogas produzem sempre resultados idênticos; a natureza humana é uma e a mesma, e o romano do vii século da sua era tornara-se, sob o ponto de vista social e político, idêntico ao europeu ocidental do xix século da era de Cristo”22. Assim, tais remissões para outras obras da “Biblioteca das Ciências Sociais” surgem em momentos em que se pretende criar uma ligação entre o passado romano e o presente (ou passado próximo): os Romanos, no tempo da tomada de Veios, eram “uma gente bisonha, crente e pertinaz, que nos parece assimelhar-se à nossa gente portuguesa até ao xv século, aos burgueses que fizeram rei D. João I e aos soldados que conquistaram a África marroquina”23; aspectos da expansão portuguesa servem para explicar o papel de Cartago nas vésperas da primeira guerra contra Roma: “Lisboa foi no século xvi da nossa era a Cartago da Europa”24. Multiplicam-se exemplos com a França (“Olhe-se para qualquer sociedade moderna colocada em situação análoga à da França no período 1851-70 e ter-se-á, mudando os nomes, o quadro inteiro dos partidos políticos romanos neste período”25), a Alemanha (“Roma […] tem uma situação análoga à da Prússia de hoje no império germânico”26), a Inglaterra (“As reivindicações anárquicas dos comícios perante uma constituição desconjuntada vinham […] preparando assim, com o caos constitucional, uma situação análoga à que em 19 Martins 1885: I. xxxvii. 20 Quental 2009: I. 404. 21 O único autor moderno efectivamente citado, a propósito de Júlio César, é Montesquieu: “Nunca se ofende mais os homens […] do que quando se lhes atacam os seus usos e cerimónias. Oprimir é muitas vezes uma prova de consideração, ferir os usos é uma prova de desprezo” (Martins 1885: II. 409-410). A fonte não é identificada, porém a primeira obra indicada na bibliografia final é Grandeur et décadence des romains, de Montesquieu. 22 Martins 1885: II. 7. 23 Id.: I. 106-107. 24 Id.: I. 185. 25 Id.: II. 144. 26 Id.: I. 172. 197 Ricardo Nobre Inglaterra Cromwell resolveu dissolvendo o Longo-parlamento (1653)”27) ou a Espanha (“Os romanos falavam da Gália como os espanhóis modernos do México e do Peru”28). Outra estratégia semelhante a esta é a identificação de figuras antigas com modernas: Mário esteve numa situação idêntica ao do “nosso Saldanha em 1835”29, Gaio Graco é um Danton30, Quinto Róscio um Talma31, Marco Crasso um Rotschild32, Catão um Alexandre Herculano33, Cícero um Chateaubriand, um Thiers ou um Garrett34, entre muitos outros exemplos possíveis35. Em simultâneo, as referências aos autores antigos na História da República Romana são muito comedidas e sem particular elaboração: numas ocasiões são feitas por paráfrases difusas, noutras por meio de citações em português, raramente apenas em latim, havendo exemplos em que se apresenta a citação latina (amiúde com erros de ortografia36) acompanhada de tradução portuguesa. Muitas vezes não se menciona a obra e, excepto num caso, nunca se indica o passo37. É, ainda assim, notório que existem muitos outros momentos em que a narrativa da História da República Romana é subsidiária de versões antigas. Este ensaio procura estudar o proveito que Oliveira Martins tirou dos autores antigos para a elaboração da sua obra. O itinerário a percorrer não ignora que, dos itens omitidos na “Bibliografia”, se encontram “Os autores clássicos, que serão eternamente lidos como escritores, mas que hoje não podem em grande parte tomar-se como texto histórico; sendo porém as suas obras e muitas das dissertações com que vêm acompanhados nas edições modernas a principal das fontes para o historiador”38. 27 Id.: II. 11. 28 Id.: II. 43. 29 Id.: II. 69. 30 Id.: II. 22. 31 Id.: II. 128. 32 Id.: II. 149. 33 Id.: II. 146, 263. 34 Id.: II. 202, 247, 251. 35 Id.: II. 185, 201-202, 209, 225, 234-235, 236, etc. 36 Claro que os erros podem ser interpretados como gralhas, mas, neste ensaio, as citações latinas são corrigidas de acordo com as edições referidas na bibliografia. A minha única intervenção unificadora é a de utilizar o v ramista em todas as citações. Além disso, são minhas as traduções cuja autoria não esteja assinalada. 37 A excepção é uma citação da Eneida, como mais à frente se indica. 38 Martins 1885: II. 457. Considero que as citações portuguesas dos textos antigos, não indicando autor (e sem que eu tenha identificado nenhuma tradução na História da República Romana com as existentes em 1885, como depois se particularizará), são da responsabilidade de Oliveira Martins (será pouco relevante se foram feitas a partir do original grego ou latino ou de traduções estrangeiras). 198 As “fontes inexauríveis dos escritores da antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins Valério Máximo exemplifica bem todos estes tipos de utilização: no capítulo sobre o senado, este é definido (no corpo do texto, em tradução) como “a alma da república, arca fiel dos pensamentos mais profundos, protegido por um segredo impenetrável”39; em rodapé, surge o original latino acompanhado da autoria, mas não do passo40. No início do capítulo sobre Pirro, a origem da citação é silenciada: Quando os embaixadores romanos foram a Tarento pedir satisfação pelo assalto brutal da esquadra, a turba que reinava à solta na cidade apinhava-se nas ruas e praças para os ver passar, cumprimentando-os com assobios prolongados. O senado tarentino deu-lhes um banquete que terminou por um insulto imundo: um grego levantou-se rindo, aos pulos, e urinou sobre a toga dum embaixador. “Ri”, disse-lhe este, sereno e terrível; “ri tu, que ainda me hás-de ver a toga lavada com o sangue dos teus”41. O episódio (acontecido em 282 a. C.42) é mencionado por Valério Máximo43, que não logra ser, porém, a principal fonte do que acaba de se citar; a resposta transmitida por Apiano, que nomeia o tarentino como Filónides e o romano como Lúcio Postúmio, adequa-se mais literalmente à versão de Oliveira Martins: “κλετε ἔ ττ αματ λλ ττ ρεσκμε γλωσ”44. Outra possibilidade menos aceitável seria a história de Díon Cássio45. No entanto, como nem Apiano nem Díon Cássio falam em urina, a mediação de Valério Máximo parece influenciar o contexto da declaração. Como se vê, quando não se identificam as fontes, é possível que as narrativas sejam contaminadas por vários testemunhos (seleccionando os pormenores a descrever). Outro exemplo desse processo é o seguinte; ao narrar um episódio da vida de Mário, em Minturnas, Oliveira Martins escreve: 39 Martins 1885: I. 52-53 40 Val. Max. 2.2.1: Fidum erat et altum rei publicae pectus curia silentique salubritate munitum (“a cúria era o peito fiel e ilustre do estado e protegido pela salubridade do silêncio”). 41 Martins 1885: I. 146. 42 Recorde-se que esta cronologia corresponde à porção perdida da obra de Tito Lívio. 43 Val. Max. 2.2.5: cum gravissimas ibi iniurias accepissent, unus etiam urina respersus esset (“tendo aí recebido gravíssimas injúrias, tendo até um sido salpicado com urina”). 44 App. Sam. 7.2: “‘lavareis isto’, disse, ‘com muito sangue, vós que estais gratos com os risos’”. 45 A resposta do embaixador romano em Díon Cássio (9.8) é: “γελτε ἔ γελτε ω ἔεστ μ κλασεσθε γρ  μακρτατ τα τ σθτα τατ τ αματ μ λτε” (“‘Ride’, disse, ‘ride enquanto vos é possível! Por muito longo tempo chorareis enquanto lavardes esta veste com o vosso sangue’”). 199 Ricardo Nobre Pobre Mário sozinho e perdido nos atoleiros, vendo a barca da sua salvação afastar-se ao largo! Caído sobre o lodo, chorar lágrimas de dor e raiva! Todo ele é lama! Chafurda, tropeça, rasga-se, fere-se, desespera, cai, levanta-se… Serei cônsul uma vez ainda! Cônsul? não: um demónio!… Ia cismando desvairado, arrastando o seu corpo miserável até à cabana que além descortina ao longe… Chega, bate, abrem-lhe: Quem és tu? Mário!… O camponês cai-lhe aos pés: era um veterano d’África. Esconde-o; mas já era tarde. A gente amotinada vem correndo, toma-o, deita-lhe uma corda ao pescoço e leva-o como se leva um boi laçado, perante o tribunal de Minturnas que o sentenceia à morte…46 Surgem assim amalgamadas informações que se encontram tanto em Valério Máximo (2.10.6) como em Plutarco (Mário, 38-39). Inserido no subcapítulo “A Vida Airada” da sociedade no fim da república, o acontecimento que está na origem de um dos ditos célebres de Júlio César tem como protagonista Clódio, que, vestido de mulher, “disfarçado em tocadora de lira”, se imiscuiu na casa daquele para celebrar a Bona Dea junto de Pompeia, a quem amava: Reconheceram-no: que escândalo! um homem no gineceu! Aurélia[,] a sogra[,] gritava açodada, as cerimónias interrompiam-se, Clódio fugia a esconder-se no quarto de uma escrava, onde as mulheres o foram achar expulsando-o. Não se falava em Roma noutra cousa no dia seguinte: os caturras pediam o castigo do sacrílego; mas o povo, inteiramente ímpio, ria da farsa, indiferente ao sacrilégio, com a sua simpatia indistinta pelos frascários. Ainda assim, para se obter a absolvição do réu[,] que era tão rico como atrevido, foi necessário comprar os juízes austeros enchendo-lhes os bolsos e saciando-lhes a luxúria: diz Valério Máximo que as noutes desses juízes custaram rios de dinheiro.47 Com efeito, em Valério Máximo, encontra-se este testemunho sobre o julgamento: P. autem Clodi iudicium quanta luxuria et libidine abundavit! in quo, ut evidenter incesti crimine nocens reus absolveretur, noctes matronarum et adulescentium nobilium magna summa emptae mercedis loco iudicibus erogatae sunt. 48 Quão abundante de luxúria e lascívia foi o julgamento de P. Clódio! Nele, para que o réu fosse considerado culpado pelo crime de incesto, com magnas somas, foram gastas para os juízes noites de matronas e de jovens nobres como mercadorias compradas. 46 Martins 1885: II. 91. 47 Martins 1885: II. 228. 48 Val. Max. 9.1.7. 200 As “fontes inexauríveis dos escritores da antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins A citação do dito que justificou o repúdio da mulher – “Porque é necessário que a mulher de César nem sequer seja suspeitada”49 – não traz identificação da fonte. Suetónio, que também o menciona em discurso directo, apresenta uma formulação diferente: “quoniam”, inquit, “meos tam suspicione quam crimine iudico carere oportere”50. Plutarco, que narra o acontecimento com bastante pormenor51, cita a resposta que César deu no julgamento quando lhe perguntaram porque se tinha divorciado – “τ ἔ τ μ  μ θα”52 –, e esta versão parece estar mais próxima textualmente da de Oliveira Martins53. Quando, depois da morte de Cícero, a sua cabeça foi enviada a Marco António, segundo Oliveira Martins, este terá exclamado ao examiná-la: Hunc ego notum non habui (com a curiosa tradução “Quem te conhecer que te compre”54). A expressão, que se encontra em Valério Máximo (9.5.4), diz todavia respeito ao senador Cesécio Rufo. Valério Máximo volta ainda a ser citado no mesmo subcapítulo: Catilina, perdido de amores por Aurélia Orestila, quis desposá-la e, como o filho desta se opusesse, corria que Catilina o envenenara, “acendendo na pira do filho o facho do himeneu com a mãe”, assim o conta Valério Máximo que também diz como em 651 Valério Valentino fora acusado por um poema pornográfico em que eram cantados o estupro de uma virgem e o desfloramento de um rapaz, com uma lubricidade genuinamente realista.55 As referências são a 9.1.956 e 8.1.abs.857, respectivamente, mas poderia ainda mencionar-se Salústio58 (que deverá ser, pelo menos em parte, fonte de Valério Máximo). 49 Martins 1885: II. 228. 50 Suet. Caes. 74: “porque penso que é preciso que os meus estejam tão longe da suspeita quanto do crime”. 51 Caes. 9-10; v. também Plu. Cic. 28-29. 52 Plu. Caes. 10: “‘Porque’, disse, ‘pensava que ela não devia estar sob qualquer suspeita’”. 53 A versão de Díon Cássio, em discurso indirecto, é mais genérica: τ γρ σρα ρα μ μ μ μαρτάε λλ μ’  α ασρ κεσθα (“é necessário que uma mulher casta não só não cometa um erro, mas também não chegue a uma desonrosa suspeita”). 54 Cf. Plu. Cic. 49. 55 Martins 1885: II. 234. 56 9.1.9: vesano amore Aureliae Orestillae correptus, cum unum impedimentum videret quominus nuptiis inter se iungerentur, filium suum […], veneno sustulit protinusque ex rogo eius maritalem facem accendit ac novae maritae orbitatem suam […] erogavit (“tomado pelo louco amor de Aurélia Orestila, tendo visto como único impedimento que se unissem por núpcias entre si o filho dela, submeteu-o ao veneno e da pira funerária dele simultaneamente acendeu a tocha nupcial e pagou à nova esposa com a sua falta de descendência”). 57 8.1.abs.8: Valeri Valentini accusatoris eius recitatum in iudicio carmen, quo puerum 201 Ricardo Nobre 58 São poucas as citações em discurso directo no corpo do texto (com versão latina e eventualmente o autor em rodapé): a citação de uma frase do actor Dífilo59 não identifica Valério Máximo (6.2.9), mas, na síntese dos ataques a Pompeio, lêem-se os seguintes episódios, com identificação sistemática da fonte em rodapé: “Um orador60 verberava-o da tribuna e o povo aplaudia com frenesi: ‘Aclamai, cidadãos, aclamai, enquanto sois livres!’ Um dia Pompeu apareceu com uma ligadura branca na perna e Favónio disse logo: ‘Que importa o lugar onde põe o diadema?’”61 Referem-se, respectivamente, Valério Máximo 6.2.6 e 6.2.7, e as traduções são fiéis. A insistência com que se recorre a Valério Máximo como fonte histórica é uma singularidade admirável, sobretudo em contraste com a contenção com que, para o mesmo fim, é mencionada a obra de historiadores como Tito Lívio, autor de uma obra que narra a história de Roma, com algum pormenor, desde as origens até ao triunfo de Emílio Paulo em Pidna (considerando apenas os livros completos que restam62), na qual se incluem relatos de grandes acontecimentos históricos como a sedição da plebe, em 494 a. C., a segunda e a terceira guerras púnicas, entre outros. Contudo, Tito Lívio é meramente parafraseado63, citado em latim sem identificação (nem de autor nem de passo64) e, ao discorrer sobre o ambiente em que vai decorrer a corrupção de Verres, evocado nestes termos: “Tito Lívio disse que onde quer que um publicano entrava, a justiça e a liberdade fugiam logo corridas. Era que atrás dos exércitos marchava o pelotão praetextatum et ingenuam virginem a se corruptam poetico ioco significaverat (“foi recitado em tribunal um poema do acusador dele, Valério Valentino, no qual exprimira com uma graça poética que um moço de pretexta e uma menina de condição livre haviam sido corrompidos por ele”). Sublinhe-se que a expressão “lubricidade genuinamente realista” parece querer traduzir poetico ioco. 58 Sal. Cat. 15.2: Postremo captus amore Aureliae Orestillae, cuius praeter formam nihil umquam bonus laudavit, quod ea nubere illi dubitabat timens privignum adulta aetate, pro certo creditur necato filio vacuam domum scelestis nuptiis fecisse (“Por fim, cativo pelo amor de Aurélia Orestila, de quem jamais alguém honesto louvou senão a beleza, porque ela hesitava em casar-se, temendo um enteado de idade adulta, crê-se por certo que, morto o filho, deixou a casa vazia para as criminosas núpcias”). 59 “São as nossas desgraças que o tornam grande” (Miseria nostra magnus est) (Martins 1885: II. 258). 60 O orador mencionado era o próprio cônsul. 61 Martins 1885: II. 272. 62 Recorde-se que estão igualmente em falta os livros que contavam a história dos anos 293 a 219 a. C., incluindo, portanto, a guerra contra Pirro, a conquista de Tarento e a primeira guerra púnica. 63 A formulação “O cônsul, interrogando no silêncio da noute (oriens nocte silentio) o segredo dos agouros indica o ditador (dicit dictatorem); o ditador escolhe o mestre da cavalaria (magister equitum) dando-lhe poderes de cônsul, e goza de uma autoridade absoluta e irresponsável” (Martins 1885: I. 58) é uma paráfrase de Liv. 8.23.15. 64 Martins 1885: I. 156; a expressão delecta manus imperatoris encontra-se em Liv. 2.20.5. 202 As “fontes inexauríveis dos escritores da antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins dos homens de negócio caindo como vampiros sobre as populações, explorando-as como uma ciência certa”65. Igualmente motivo de admiração é a referência a Tácito numa obra que nada diz acerca da época sobre a qual este historiador escreveu, isto é, a partir da morte de Augusto66. O autor do início do século ii da nossa era, além de lograr de Oliveira Martins um elogio ético ao compará-lo a Catão, é merecedor de uma citação: Os povos enfeixados pelo cesarismo sob o mando de um império protector respiraram afinal da tirania republicana. Di-lo o próprio Tácito, por cuja pena falava ainda o espírito de Catão, quando nos afirma que “enquanto às províncias a nova ordem de cousas estava longe de lhes desagradar: o governo do senado e do povo tinha-lhes pesado assaz, com a rivalidade dos grandes e a cobiça dos magistrados; as leis da república nunca as tinha protegido, impotentes como eram contra o dinheiro, contra as brigas, contra o despotismo”. Nunca mais nas províncias houve sedições; as alterações posteriores são apenas pronunciamentos militares. Nunca mais os povos buliram67. Citam-se os Annales68, em contexto da aceitação geral do regime imperial imposto por Augusto; na História da República Romana, no entanto, as afirmações que as palavras de Tácito sustentam dizem respeito à política de Júlio César. Autor de biografias da maior parte das personalidades mencionadas na História da República Romana, seria de esperar que Plutarco fosse referido como autoridade em diversos momentos da obra de Oliveira Martins. Além de uma referência sem menção da obra69, existem citações únicas da Vida de Camilo70, 65 Martins 1885: II. 180. 66 Lamentavelmente, a “Biblioteca das Ciências Sociais” foi descontinuada antes de se publicar o volume da História do Império Romano, anunciado desde cedo na colecção, pois o subsídio de Tácito para a composição de tal obra seria hoje um excelente tema de estudo. 67 Martins 1885: II. 372. Numa outra situação, apresenta-se a damnatio memoriae dos Gracos – “a memória dos tribunos proscrita, e sua mãe, chorosa, proibida de deitar luto” –, a que se acrescenta uma observação ética que faz lembrar Tácito: “eis aí a sentença do Senado que, não contente com vencer no presente, queria governar o futuro, para sempre, condenando a memória dos heróis” (Martins 1885: II. 31); cf. Tac. Ann. 4.35: quo magis socordiam eorum inridere libet qui praesenti potentia credunt extingui posse etiam sequentis aevi memoriam (a propósito do caso de Cremúcio Cordo). 68 Ann. 1.2. Oliveira Martins não recorre à tradução de José António Canuto de Forjó (1821) nem à de José Liberato Freire de Carvalho (1830). 69 Martins 1885: I. 72. 70 “Camilo via que o cerco de Faleros (358) duraria largo tempo, mas agradava-lhe ter os romanos fora da cidade a fim de lhes tirar a ocasião dessas revoltas em que eles se empenhavam durante a paz, à voz dos seus demagogos. Pois era esse o remédio que empregavam quási 203 Ricardo Nobre da Vida de Crasso71 e da Vida de Bruto. Esta última é a que recebe o tratamento retórico mais interessante: nas vésperas de Filipos, Bruto começa a sentir remorsos por causa do assassínio de César e a ter sonhos e visões: “O fantasma que lhe aparecera logo em seguida ao assassinato de César tornou a visitá-lo. […] De manhã, aterrado, contou a visão a Cássio, que lhe respondeu serem ilusões dos sentidos, recomendando-lhe que não tivesse medo”72 – esta resposta de Cássio é um resumo de Plutarco, que Oliveira Martins cita em rodapé73, depois de fazer uma observação em que sublinha que tais palavras são “dignas de qualquer psicólogo contemporâneo” e testemunhas “do estado de lucidez a que o espírito humano tinha chegado antes da Idade Média”74. Por seu turno, Suetónio é um escritor muitas vezes mencionado e textualmente citado nos capítulos de que Júlio César é, pode dizer-se, protagonista. Da obra do biógrafo dos Césares, aproveitam-se sobretudo ditos célebres, por vezes citados, sem espanto, em contextos diferentes daqueles em que as fontes antigas os colocam. Um exemplo é o da reacção de Júlio César ao facto de os seus soldados andarem perfumados; em Oliveira Martins tal surge antes da narrativa da guerra contra Vercingétorix, como descrição do ambiente dos acampamentos de Inverno do general, que “trazia todos [os soldados que recebia na tenda] contentes: dava-lhes dinheiro quanto queriam, dava-lhes armaduras riquíssimas, e quando algum veterano cabeçudo lhe objectava o mal de os rapazes se perfumarem tanto, César retorquia ‘que importa que se perfumem, se se batem bem?’”75 Em Suetónio, a circunstância é outra, sem veteranos cabeçudos como sujeito das objecções: Ac nonnumquam post magnam pugnam atque victoriam remisso officiorum munere licentiam omnem passim lasciviendi permittebat, iactare solitus milites suos etiam unguentatos bene pugnare posse76. sempre os patrícios, quais médicos hábeis, para purgarem o corpo político dos humores viciosos que lhe perturbavam a economia” (Martins 1885: I. 119) é citado de Plu. Cam. 9.2. 71 “Era o exército do general Surena, apresentando aos romanos a sua frente de cavaleiros couraçados de ferro ‘como as víboras e cítalas’, diz Plutarco, ‘célebres pelo seu exterior terrível, mas cujo ventre só tem podridão e venenos’” (Martins 1885: II. 309); a referência diz respeito a Plu. Crass. 32.4. 72 Martins 1885: II. 433. 73 Cito um pouco desta versão de Plutarco: “Nem sempre sentimos ou vemos realmente o que acreditamos ver e sentir, pois os nossos sentidos, abertos a todas as impressões, são enganadores e a nossa imaginação, mais móbil ainda, excita-os sem cessar e imprime-lhes uma soma d’ideas que nunca existiram… Disto são testemunho as diversas imagens que se nos apresentam em sonhos durante o sono: a imaginação excita-as com o mais leve movimento; depois faz-lhes tomar toda a sorte de feições ou figuras fantásticas…” (Martins 1885: II. 433-434). 74 Martins 1885: II. 433. 75 Martins 1885: II. 300. 76 Suet. Caes. 67: “Por vezes, após uma grande batalha e uma vitória, desobrigando os seus homens de todo o serviço, deixava-os, inteiramente livres, dispersar-se a abandonar-se 204 As “fontes inexauríveis dos escritores da antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins Também para descrever diversos acontecimentos que testemunham a sátira anónima feita a decisões políticas (como a admissão de Gauleses no senado77) e à conduta sexual (tanto a protagonizar adultérios78 mas também a ter relações homossexuais79) de Júlio César, Oliveira Martins socorre-se amiudamente de Suetónio, que é citado em tradução (com o latim em rodapé). De igual modo, a mesma fonte é convocada para referir tentativas anónimas de despertar Bruto para a liderança da resistência à ascensão de César80. Contudo, o episódio da insurreição das legiões que se recusavam a partir para a campanha em África (em 47 a.C.) encontra-se cheio de pormenores (incluindo descrição de movimentos, gestos e diálogos). Embora não sejam referenciadas fontes historiográficas antigas, Oliveira Martins produz uma narrativa81 (a que não faltam considerações sobre a psicologia de Júlio César motiaos prazeres, pois costumava dizer ‘que os seus soldados, mesmo perfumados, sabiam bater- -se’” (tradução de João Gaspar Simões). 77 “Corriam no ar as cantigas: “César trouxe os gauleses à Cúria: despiram as bragas para sobraçar o laticlávio”“ (Martins 1885: II. 361-362) é baseado em “cantava-se por toda a parte: / Depois de ter triunfado dos gauleses, César abre-lhes a cúria / Os gauleses largaram os cueiros, para vestirem o laticlave” (Suet. Caes. 80, tradução de João Gaspar Simões); “os pasquins diziam: “Aviso. Recomenda-se que ninguém ensine aos senadores novos o caminho da Cúria”“ (Martins 1885: II. 362) remete para “Salve a todos! Roga-se que ninguém indique ao novo senador o caminho da cúria” (Suet. Caes. 80, tradução de João Gaspar Simões). 78 A informação de que “Havia pasquins pelas esquinas. ‘Cuidado com as esposas, cidadãos: trazemos connosco o calvo galanteador que pagou com o vosso dinheiro as suas tropelias gaulesas” (Martins 1885: II. 375) tem como fonte “Ao que parece, nem mesmo respeitou o tálamo das mulheres dos provinciais, como o faz crer, por exemplo, esse dístico, igualmente entoado pelos seus soldados durante o triunfo das Gálias: / Cidadãos, cuidado com as vossas mulheres: aqui vai o calvo adúltero. / O ouro que na Gália despendestes em folias, a Roma o viestes buscar” (Suet. Caes. 51, tradução de João Gaspar Simões). 79 A partir de “durante o triunfo das Gálias, entre os versos satíricos que os seus soldados, como de costume, cantaram à volta do carro do vencedor, entoaram, mesmo, estes, muito conhecidos: / César submeteu as Gálias, Nicomedes submeteu César, / Eis que hoje César triunfa, por ter submetido as Gálias, / Mas não triunfa Nicomedes por ter submetido César” (Suet. Caes. 49, tradução de João Gaspar Simões), Oliveira Martins escreve: “e os soldados alegres cantavam em coplas grotescas e obscenas como César conquistara as Gálias, depois de Nicomédio o conquistar a ele, e como César triunfava e Nicomédio não” (Martins 1885: II. 375). 80 “Uma manhã no Foro apareceu a estátua do Bruto antigo com esta legenda: ‘Fosses tu vivo!’ e a estátua de César com esta outra: “Bruto, o que acabou com os reis, foi o primeiro cônsul; este que acabou com os cônsules é o último rei” (Martins 1885: II. 408) tem por base “Houve quem inscrevesse por baixo da estátua de Lúcio Bruto: ‘Ah! Se tu fosses vivo!’ e por baixo da do próprio César: / Bruto, por ter expulso os reis, foi o primeiro a ser cônsul; / César, por ter expulso os cônsules, é o último a ser rei” (Suet. Caes. 80, tradução de João Gaspar Simões). 81 Imediatamente antes, declara-se que “Mandou [César] Salústio (o historiador) de Roma à Campânia com vários senadores para convencerem as legiões; mas elas insultaram o emissário, mataram alguns dos senadores, e marcharam para Roma a reclamar de César 205 Ricardo Nobre vadas pela sua própria interpretação82) aparentemente mais conforme Apiano do que Suetónio: Júlio César “perguntou às legiões o que queriam. ‘As baixas!’ clamaram a uma voz muitos mil soldados. Ele então disse-lhes com desprezo que as tinham já e teriam tudo, absolutamente tudo o que lhes prometera –mas no dia do seu triunfo… com outras tropas!”83. O momento climáctico do episódio acontece quando os soldados são chamados quirites – que Oliveira Martins traduz e interpreta como “burgueses, com desdém”84 –, pois a seguir os soldados pedem desculpa, repondo a disponibilidade para a campanha militar no território onde estava a mobilizar-se a resistência senatorial ao poder de César. Suetónio afirmara que, ao dirigir-se às legiões, o general “não lhes chamava ‘soldados’, mas nome bem mais lisonjeiro: ‘companheiros de armas’”85, em nítido contraste com o que, ao descrever este levantamento, o mesmo biógrafo refere acerca do discurso de Júlio César: “não hesitou em apresentar-se diante deles, […] licenciando-os; mas bastou-lhe uma palavra – chamou-lhes ‘quirites’ em vez de ‘soldados’ – para os vergar”86. Oliveira Martins entende o vocativo da mesma forma, pois deduz que “o nome de cidadão é uma ofensa”87. Apiano, por seu lado, acrescenta que a estratégia retórica era “sinal de que tinham sido libertados do serviço e eram cidadãos privados”88. O mesmo hisas baixas e as terras prometidas” (Martins 1885: II. 349). Díon Cássio (42.52) refere que os soldados “quase mataram Salústio, que fora nomeado pretor”, e que acabariam por matar dois senadores. 82 A propósito deste levantamento militar afirma-se que “O general não perdeu o ânimo: para cada crise inventava um expediente novo; era um grande psicólogo e por igual sabia o meio de torcer um homem, de vencer um obstáculo e de dominar uma multidão impondo-se-lhe com a arte de actor consumado de que dera provas em Ravena ao começar a guerra” (Martins 1885: II. 348). Noutros momentos, é evidente a incisão nos pensamentos da personagem: “César pensativo, de pé, com o punho cerrado contra os lábios e a testa toda em rugas, cismava… Depois, num gesto de decisão, dando um passo violento, dizia consigo: ‘Assim o quiseram, assim o tiveram… Era impossível deixar de realizar os meus planos, porque um visionário [Catão] e um vaidoso [Pompeio] se lhes opunham… Os meus planos são grandiosos, são nobres, são excelentes…’” (Martins 1885: II. 359). Esta última citação, depois da batalha de Farsalo, encontra paralelo em Suetónio: “Assim o quiseram: após tão grandes feitos eu, Caio César, teria sido condenado, se não pedisse socorro ao meu exército”“ (Caes. 30, tradução de João Gaspar Simões); cf. Plutarco, Vida de César, 46. 83 Martins 1885: II. 349. Esta afirmação em App. BC 2.93. 84 Martins 1885: II. 349. 85 Suet. Caes. 67 (tradução de João Gaspar Simões). 86 Suet. Caes. 70 (tradução de João Gaspar Simões); cf. Luc. 5.357 e Tac. Ann. 1.42. 87 Martins 1885: II. 349. Díon Cássio (42.53) considera que “quirites” foi um termo vexatório e humilhante ao ser dirigido aos militares. 88 BC 2.93; Díon Cássio (42.53) cita a frase integrando o vocativo logo no início da resposta de Júlio César aos soldados (“falais correctamente, Quirites”), a quem se dirige “como se não tivesse necessidade deles”. 212 As “fontes inexauríveis dos escritores da antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins Plínio-o-Velho pelo uso da expressão “imensa majestade da paz romana”129 e de Políbio, que, descrevendo os grupos etários do exército romano, é citado em latim130. Para lá destes autores, há a registar os raros testemunhos poéticos que são também usados como fonte historiográfica, sendo identificados Horácio131, Propércio132, Virgílio133 e Catulo134. Sobre o último, considere-se a simpatia com que Oliveira Martins faz uso da poesia para delinear um estilo de vida galante no tempo de César: Catulo, o poeta que não adulava ninguém, nem estendia a mão pedindo esmola […], arruinado pela vida dissipada que levou com Clódia, a ex-amante de Célio “achando no bolso teias d’aranha em vez de dinheiro”; Catulo […] deixava-se ir à toa na corrente da devassidão, afundando-se nela, mas rindo-se e conhecendo-a: “Vivamos! amemos! minha Lésbia, rindo-nos das caturrices dos velhos severos e graves. Morre o sol para renascer; mas nós, quando se nos apaga a nossa vida breve, deitamo-nos a dormir um sono eterno de que se não desperta… Dá-me tu mil beijos, depois cem, depois mil, mais cem ainda, por cima outros mil, e no fim um cento… E quando nos tivermos abraçado um ao outro muitas mil vezes, baralhemos a conta para esquecermos o número e para que os ciumentos não tenham um pretexto de nos invejar quando souberem os beijos que trocámos…”135 As citações reportam-se aos poemas 13136 e 5 (respectivamente) e dão um bom prisma da qualidade de tradutor Oliveira Martins. O povo estrebuchava!” (Martins 1885: II. 167). Em nota de rodapé surge a citação latina das falas em discurso directo, provenientes de Pompeio Festo (285M.), cuja fonte não se indica. 129 Nat. Hist. 27.1: inmensa Romanae pacis maiestate. 130 Martins 1885: I. 155. Dando indicação de que se trata de Políbio não se identifica o passo (6.21). 131 “Horácio diz: ‘Em Roma não se conheceu durante séculos outro prazer nem outro divertimento que não fosse o abrir a porta ao romper do dia, explicar a lei aos clientes, e empregar rendosamente os dinheiros em empréstimos com bons penhores. Inquiria-se dos velhos e ensinava-se aos moços a arte de engrossar as economias e de fugir às loucuras ruinosas’” (Martins 1885: I. 24-25). A citação é de Epist. 2.1.103-107: Romae dulce diu fuit et sollemne reclusa / mane domo vigilare, clienti promere iura, / cautos nominibus rectis expendere nummos, / maiores audire, minori dicere per quae / crescere res posset, minui damnosa libido. A tradução não é de António Luís de Seabra (1846). 132 Prop. 4.1.13 citado em rodapé em Martins 1885: I. 60. 133 Verg. A. 8.685-695 citado apenas em latim em Martins 1885: II. 447. 134 Há ainda uma referência a Pacúvio, mas num contexto diverso daquele que aqui se analisa (Martins 1885: II. 418). 135 O poema é citado em latim no rodapé; Martins 1885: II. 229-230. 136 Catul. 13.7-8: nam tui Catulli / plenus sacculus est aranearum. 213 Ricardo Nobre O cenário que acabou de se descrever revela que, embora o autor tenha informado o leitor de que a História da República Romana foi escrita com base na historiografia mais recente, esse contributo permanece latente, sendo apenas reveladas fontes da Antiguidade. Este estudo problematizou semelhante método, realçando que a obra de historiadores tem uma utilização bastante acessória na História da República Romana, ao mesmo tempo que outros autores da Antiguidade merecem mais insistentemente referência (como Valério Máximo, Suetónio, César, Cícero, passando por Séneca, Catulo, Virgílio e Propércio), sugerindo o recurso a estas fontes uma forma de manipulação ou distorção dos contextos originais. Este desequilíbrio nas referências das fontes é, nos dias de hoje, a maior fragilidade da História da República Romana, que só com uma significativa descontracção do rigor que uma obra desta natureza impõe, se poderá considerar “uma peça da cultura europeia”137, pelo menos seguindo os actuais padrões científicos. As críticas que têm sido expostas ao longo destas páginas são comuns a algumas considerações que, no seu tempo, fizeram Antero de Quental138, Lobo de Moura139 ou Eça de Queirós. Na correspondência deste encontram-se, aliás, algumas observações que descrevem com pertinência o trabalho de Oliveira Martins enquanto historiador140 – e que constituem, provavelmente, o que com melhor intuição e acuidade se tem dito sobre ele: numa carta escrita em Paris a 23 de Julho de 1891, Eça de Queirós fala d’Os Filhos de D. João I como “reconstrução do sentir passado, como arte, e como insuflação de vida a esse punhado de pó seco de que se compõe as nossas crónicas. Recriaste homens […]! O teu D. Pedro, o teu D. Duarte são criações superiores. Eram assim? Se eram, bendita seja a tua arte de ressuscitar! Se não eram, honra à alma nobre que pôde inventar tais almas”141. A 26 de Abril de 1894, acerca d’A Vida de Nun’Álvares, o 137 Martins 2003: 51. 138 Antero tinha sugerido em 1880 correcções a obras como História da Civilização Ibérica (Quental 2009: II. 226-227). 139 João Lobo de Moura enviara a Oliveira Martins uma lista de erros e problemas na História de Portugal (Moura 2002: 50, 54, 58-66, 68-75), obra acerca da qual demonstra muitas reservas. Sobre a História da República Romana, afirma: “O 1.º volume tem coisas de primeira ordem, entre as quais citarei […] os primeiros capítulos da origem e formação da cidade – o triunfo de Paulo Emílio – Catão o justo (carácter muito bem estudado assim como o homem romano em geral) e os últimos capítulos sobre finanças e constituição. É necessário porém corrigir graves incorrecções, erros de citações, erros de cálculo na redução da moeda romana aos nossos valores monetários, e falta de estilo que se tornam mais salientes numa obra clássica como esta: assim o triunfo de Paulo Emílio que é uma peça superior está desonrado pela frase vulgar ou comum que a musa da história não admite” (Moura 2002: 96). 140 É, por isso, legítimo que se alarguem essas considerações, feitas a obras posteriores, à História da República Romana, já considerada uma obra de maturidade (Martins 2003: 51). 141 Queiroz 2008: II. 131. 214 As “fontes inexauríveis dos escritores da antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. P. Oliveira Martins romancista, sem economizar elogios, insiste na ideia de que tais obras ressuscitam os mortos: A sua beleza está em não ser quase um “livro”, uma coisa impressa, mas uma grande realidade viva, em que nada é de papel e tudo de substância viva. É mesmo mais que uma dessas ressurreições históricas, nas quais se sente sempre a cada linha a maestria do ressuscitador. Através da Salambô, nunca se perde de vista o génio e a ciência de Flaubert. No Nun’Álvares, a personalidade do historiador-artista desaparece na primeira impressão, e fica-se, ou pelo menos fiquei, em comunicação directa, numa comunhão de contemporâneo, com as coisas e os homens evocados142. Outras questões que são referidas por Eça de Queirós dizem respeito à perspectiva demasiado fim-de-século que caracteriza algumas personagens: “o Andeiro me parece ter traços demasiados do Mariano de Carvalho […]. O ilustre chefe da Casa dos Castros, o pobre D. Álvaro, também me parece um pouco poussé à caricatura”143. E adianta que “Decerto, já no século xv havia Prudhommes: mas D. Álvaro é, antes do Conselheirismo, quase um Conselheiro”, para concluir: “E aí está o que é um grande historiador chafurdar na Política: insensivelmente transporta para os homens do passado a ironia ou o desdém que lhe inspiraram os homens na véspera – e desabafa nas costas dos mortos!”144. E no momento mais famoso da carta, que tem sido citado amiúde, tanto pela graça da exposição como pela importância do problema que levanta, Eça questiona: Também não me agradam muito certas minudências do detalhe plástico, como a notação dos gestos, etc. Como os sabes tu? Que documento tens para dizer que a Rainha num certo momento cobriu de beijos o Andeiro, ou que o Mestre passou pensativamente a mão pela face?… Estavas lá? Viste? Esses traços, penso eu, não dão mais intensidade de vida, e criam uma vaga desconfiança145. Menos citada é a carta com que Oliveira Martins responde a Eça de Queirós a propósito deste tópico: “Tens toda a razão e quando reimprimir o Nun’Álvares eliminarei essas excrescências que vêm do meu processo psicológico. Eu vejo, sinto e vivo as cenas que escrevo. Por isso talvez o Nun’Álvares, esgotan142 Queiroz 2008: II. 260-261. 143 Id.: II. 261. 144 Ibid. 145 Ibid. A carta continua com elogios à arte e à composição de personagens, que fazem Oliveira Martins quase igualar um dos mais importantes romancistas da época (ibid.). É evidente que esta perspectiva se centra mais na criação e ficcionalidade do que na redacção da história. 215 Ricardo Nobre do-me os nervos me deu esta doença, epílogo de muitos meses de sofrimento lento”146. Mais adiante, defende uma ideia a que já aludi: o homem não se estuda senão in vivo. A natureza é pouco fértil em combinações e com a diferença dos tempos os tipos repetem-se. Os homens de qualquer época têm na actualidade os seus retratos. Por isso, tomar a observação dos indivíduos vivos como critério para a apreciação dos mortos é processo aconselhado e seguido pelos mestres: Mommsen, Renan147. Depois de publicada a História da República Romana, Oliveira Martins suspendeu a Biblioteca das Ciências Sociais para se dedicar à política. Eça de Queirós estranha a transição numa carta148 e voltaria a recordar essa transição no In Memoriam de Antero de Quental (publicado em 1896): Oliveira Martins vivia então na sua linda e recolhida casa das Águas-Férreas […] – enquanto não veio bater à porta a Política […]. A biblioteca ficava em baixo, abrigada no silêncio propício de vielas desertas: aí viveu Oliveira Martins os seus dias mais doces, e escreveu os seus livros mais fortes, numa regra e concentração de Beneditino, cortadas às vezes por tumultuosas inspirações de artista, como quando ao reviver a História da República Romana, durante quarenta horas, sem descanso, sustentado a café, ele foi empurrando com pena magnífica, através das ruas de Roma, da porta Carmental ao Capitólio, o triunfo de Paulo Emílio.149 Deste modo, é possível ler a História da República Romana como uma ressurreição de Roma Antiga, das mais remotas origens até à batalha de Áccio, e considerar vivas as personagens descritas e vibrantes os acontecimentos narrados – para esse sucesso concorreram certamente as muitas leituras, distorcida e criativamente interpretadas, dos autores da Antiguidade. 146 Martins 1926: 265. 147 Id.: 265-266. 148 Enviada de Bristol a 5 de Maio de 1885: “quando tiveres tempo, dize-me pois porque é que, vindo uma tarde pela via Flamínia abaixo, de braço dado com César, – abandonaste bruscamente o ilustre autor dos Comentários e largaste a correr como um perdidinho para o Largo de Camões” (Queiroz 2008: I. 360). 149 Queirós 2011: 315. 216 As “fontes inexauríveis dos escritores da antiguidade” na História da República Romana (1885), de J. 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Este conjunto de ensaios e de estudos pretende oferecer ao leitor uma perspectiva sistematizada da presença e influência da cultura romana, sobretudo ao nível das problemáticas da identidade, na contemporaneidade, entendendo-se aqui por “contemporânea” a realidade histórica que se segue à Revolução Francesa, no final do século XVIII. Deste modo, reúnem-se estudos que abrangem realidades políticas e institucionais, mas também historiográficas e artísticas, da Literatura, às Artes Plásticas e ao Património. Os textos reunidos centram-se sobretudo na realidade portuguesa, mas incluem-se também reflexões mais abrangentes que têm como horizonte a Europa e os EUA. OBRA PUBLICADA COM A COORDENAÇÃO CIENTÍFICA