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Memórias e contra-memórias do império e do colonialismo no espaço público de Lisboa

Peralta, Elsa

Abstract

Focando-se no caso de Lisboa, este artigo aborda a forma como a experiência do imperialismo moderno deixou fortes marcas sociais e materiais no espaço urbano das antigas capitais dos centros imperiais europeus. Apesar do fim formal do colonialismo, estas marcas continuam ativas, e permanentemente ativadas, em tempos pós-coloniais, mantendo-se geralmente um sentido apologético relativamente à experiência imperial europeia e adaptando-o às novas exigências das cidades globais do mundo contemporâneo. Neste processo, as “heranças difíceis” do colonialismo, a escravatura, o trabalho forçado, a violência racial e de género, são relegadas ao esquecimento. Contudo, em tempos recentes, tem-se verificado um questionamento de fundo sobre os legados da experiência colonial, dinamizando-se o debate e a intervenção no espaço público através da ação do movimento anti-racista global e também através de várias ações de memorialização dos legados problemáticos do colonialismo. O objetivo deste artigo é abordar esta dinâmica no espaço público da cidade de Lisboa e está dividido em duas partes: numa primeira é analisado o processo de impressão ao longo do tempo de uma memória do império no espaço da cidade de Lisboa; numa segunda parte, são analisadas as ações de memorialização contra-hegemónicas que se afirmam no campo institucional e no das formas culturais alternativas, muitas vezes pela mão daqueles que são eles próprios objeto das estratégias representacionais das políticas e das instituições.

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113 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 En iado em: 24/03/2022 Acei o em: 28/06/2022 MEMÓRIAS E CONTRA-MEMÓRIAS DO IMPÉRIO E DO COLONIALISMO NO ESPAÇO PÚBLICO DE LISBOA MEMORIES AND COUNTER-MEMORIES OF EMPIRE AND COLONIALISM IN THE PUBLIC SPACE OF LISBON Elsa PERALTA Uni e sidade de Lisboa (UL) RESUMO: Focando-se no caso de Lisboa, es e a igo abo da a o ma como a expe iência do impe ialismo mode no deixou o es ma cas sociais e ma e iais no espaço u bano das an igas capi ais dos cen os impe iais eu opeus. Apesa do im o mal do colonialismo, es as ma cas con inuam a i as, e pe manen emen e a i adas, em empos pós-coloniais, man endo-se ge almen e um sen ido apologé ico ela i amen e à expe iência impe ial eu opeia e adap ando-o às no as exigências das cidades globais do mundo con empo âneo. Nes e p ocesso, as “he anças di íceis” do colonialismo, a esc a a u a, o abalho o çado, a iolência acial e de géne o, são elegadas ao esquecimen o. Con udo, em empos ecen es, em-se e i icado um ques ionamen o de undo sob e os legados da expe iência colonial, dinamizando-se o deba e e a in e enção no espaço público a a és da ação do mo imen o an i- acis a global e ambém a a és de á ias ações de memo ialização dos legados p oblemá icos do colonialismo. O obje i o des e a igo é abo da es a dinâmica no espaço público da cidade de Lisboa e es á di idido em duas pa es: numa p imei a é analisado o p ocesso de imp essão ao longo do empo de uma memó ia do impé io no espaço da cidade de Lisboa; numa segunda pa e, são analisadas as ações de memo ialização con a-hegemónicas que se a i mam no campo  Dou o ada em An opologia pela Uni e sidade de Lisboa (UL) e é a ualmen e In es igado a P incipal no Cen o de Es udos Compa a i os (CEC) da mesma uni e sidade, onde coo dena a Linha de In es igação “Legados do Impé io e Colonialismo em Pe spec i a Compa ada”. É ambém In es igado a Associada do Ins i u o de Ciências Sociais (ICS-UL). O seu abalho é in e disciplina e cen a-se na in e secção en e os modos p i ado e público de eco dação de e en os passados, em pa icula do passado colonial. O seu abalho inclui á ios a igos, capí ulos e li os e oi ambém cu ado a da exposição Re o na T aços de Memó ia, p oduzida pela Câma a Municipal de Lisboa em 2015. Email: [email p o ec ed] 114 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 ins i ucional e no das o mas cul u ais al e na i as, mui as ezes pela mão daqueles que são eles p óp ios obje o das es a égias ep esen acionais das polí icas e das ins i uições. PALAVRAS-CHAVE: Impé ios Coloniais; Eu opeus; Memó ia; Con a-memó ia; Lisboa. ABSTRACT: Focusing on he case o Lisbon, his a icle discusses how he expe ience o mode n impe ialism le s ong social and ma e ial ma ks in he u ban space o he o me capi als o he Eu opean impe ial cen e s. Despi e he o mal end o colonialism, hese ma ks emain ac i e, and pe manen ly ac i a ed, in pos colonial imes, gene ally main aining an apologe ic sense in ela ion o he Eu opean impe ial expe ience and adap ing i o he new demands o he global ci ies o he con empo a y wo ld. In his p ocess, he “di icul he i ages” o colonialism, sla e y, o ced labo , acial and gende iolence, a e le behind. Howe e , in ecen imes, he e has been a deep ques ioning abou he legacies o he colonial expe ience, s imula ing deba e and in e en ion in he public space h ough he ac ion o he global an i- acis mo emen and also h ough a ious ac ions o memo ializing he p oblema ic legacies o colonialism. The pu pose o his a icle is o add ess his dynamic in he public space o he ci y o Lisbon and is di ided in o wo pa s: in he i s , he p ocess o imp in ing a memo y o he empi e in he space o he ci y o Lisbon is analyzed; in a second pa , he coun e -hegemonic memo ializa ion ac ions ha asse hemsel es in he ins i u ional ield and in ha o al e na i e cul u al o ms a e analyzed, o en h ough he ini ia i e o hose who a e hemsel es he objec o he ep esen a ional s a egies o policies and ins i u ions. KEYWORDS: Eu opean colonial empi es; memo y; coun e -memo y; Lisbon INTRODUÇÃO Como nos em dado em e idência a ampla li e a u a sob e o ema, as he anças do passado são componen es cen ais na cons ução das iden idades cole i as, sejam es as de âmbi o nacional, local, ou ou as, o necendo na a i as exp essi as ao se iço de uma de e minada comunidade assim imaginada de aco do com uma o igem e um des ino comuns (Renan 1882 apud Hu chinson e Smi h 1994). Seguindo o pad ão consolidado pelos p ocessos mode nos de cons ução das nações do século XIX (Ande son 1983; Hobsbawm e Range 1983), es e p incípio base da ida em comum é cons uído e ep oduzido 115 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 publicamen e a a és da celeb ação da his ó ia colec i a, dos seus ei os, iun os, gló ias e he óis, e legi imado a a és da sua ma e ialização e publici ação a a és de museus, monumen os, es a uá ia e ou as o mas de cul u a pública (Handle e Gable 1997; Macdonald 2013). Mas o século XIX não oi apenas a e a dos Es ados-nação; oi ambém a e a dos impé ios e do nacionalismo, chamando-se a a enção pa a a impo ância do p oje o impe ial no seio dos p ocessos de cons ução das nações mode nas (Coope 2005; Be ge e Mille 2015). Em oda uma sé ie de á eas, o nacional es á in imamen e en edado com o impe ial: nas ligações económicas e nos sis emas de comunicação, nas ins i uições, nas mig ações e deslocamen os de populações, nos á ios aspe os da ges ão do espaço, incluindo as geog a ias imaginadas dos e i ó ios nacionais (Domingos e Pe al a 2013), nos concei os sob e o “Ou o” e nas noções de cidadania que se es endem a é ao pe íodo pós-colonial. Sendo pa e in eg an e da cons ução dos Es ados-nação eu opeus, os p oje os impe iais se i am ambém como on es incon es á eis de o gulho nacional pa a os países colonizado es, assim imaginados a a és das suas ex ensões impe iais. Com e ei o, oda a expe iência do impe ialismo mode no moldou p o undamen e as iden idades nacionais eu opeias de manei as que con inuam a se impo an es nos empos pós-impe iais. Es e ambém é o caso de Po ugal: sendo o p imei o e o mais du adou o impé io colonial eu opeu, o seu im não apagou a au oimagem do país como nação impe ial. Embo a emodelada em e mos de es ilo e con eúdo, as p incipais ep esen ações públicas da iden idade cole i a da nação pe manecem anco adas na memó ia do impé io. Es a memó ia o icial combina uma o e ên ase no pe íodo das “Descobe as Ma í imas” com a ep esen ação de Po ugal como pionei o do diálogo cul u al à escala global e dos po ugueses como “in en o es” do mundo mode no. Em Lisboa, al como acon ece em ou as an igas me ópoles impe iais, como Lond es ou Pa is (Gilbe e D i e 1999; 2000; Pe al a 2017), a o e a imp essão social e ma e ial do colonialismo no espaço u bano ai mui o além do im o mal do colonialismo. As cidades globais do mundo con empo âneo são he dei as de a anjos espaciais e de mo ologias sociais ins i ucionalizadas pelo colonialismo mode no (King 1990; Jacobs 1996; Eade 2001). 116 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 Con udo, a his ó ia dos impé ios é ambém uma his ó ia de explo ação do homem pelo homem, de iolência acial e de géne o, de massac es e de deslocamen os populacionais, de esc a a u a, de gue a. Os impé ios p essupuse am o uso da iolência como es a égia de pode sob e e i ó ios e populações, es abelece am es u u as e ins i uições de esc a ização económica e de explo ação de ecu sos na u ais, des uí am sis emas de c enças, línguas e economias locais e ins i uí am o acismo e o sexismo bem como ideias de eu ocen ismo e de supe io idade acial, de classe e cul u al. A ideia da “nação impe ial” é, po an o, uma ideia exclusi amen e e e en e ao p oje o de cons ução da nação que oi concebido e implemen ado no cen o impe ial, nunca incluindo os sujei os do impé io den o da nação. Es es legados do colonialismo, não se enquad ando nas na a i as épicas de conquis a, he oísmo e expansão que açam o de i das nações impe iais, são a i ados pa a debaixo do ape e da g ande his ó ia nacional-impe ial, empu ados pa a as ca es poei en as dos museus ou omi idos dos li os de his ó ia, na en a i a de expu ga as suas emba açosas cono ações com a iolência colonial. Assim sendo, pouca a enção oi p es ada às consequências ne as as do impé io, inclusi amen e pa a as p óp ias nações eu opeias, e, como consequência, a iolência do passado colonial eu opeu ainda é pouco econhecida. São “he anças di íceis” como as designou Sha on Macdonald (Macdonald 2009), “he anças dissonan es”, na e minologia de Tunb idge e Ashwo h (1996), de gue as e massac es, de his ó ias de abuso, explo ação e jugo. Es as he anças são an o mais p oblemá icas quan o maio o a sua capacidade de deses abiliza ou deses u u a na a i as es abelecidas e indispu adas sob e a iden idade cole i a, azendo à supe ície as suas ambiguidades, os seus pon os cegos e os seus bu acos neg os. Tal acon ece de o ma pa icula men e exp essi a com os legados do impé io e do colonialismo, cujas consequências ne as as não se enquad am no sen ido ge al apologé ico que o senso-comum da his ó ia eu opeia lhe a ibui. Apenas ecen emen e, e seguindo a endência e i icada a pa i dos anos 1990 de econhecimen o público e musealização de legados p oblemá icos (Williams 2007), é que as an igas nações coloniais eu opeias êm indo a abo da as he anças di íceis dos espec i os colonialismos no espaço público. A ins au ação da “e a do Holocaus o” como o ma memo ial pa adigmá ica do século XX, jun o com impac o da eo ia pós-colonial e eminis a 117 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 p oduzida nos úl imos 50 anos, êm con ibuído pa a uma p og essi a abe u a de um campo c í ico ela i o à o ma ep esen acional dominan e da expe iência colonial eu opeia, assim con ibuindo pa a o econhecimen o público dos males do colonialismo. Na Bélgica, po exemplo, o Royal Musem o Cen al A ica em concebido exposições que abo dam os ho o es da his ó ia colonial do país. Enquan o na Holanda, na F ança, e na G ã-B e anha, á ios museus êm pa en eado exposições sob e o ema da esc a a u a e do á ico neg ei o. No momen o a ual, o mo imen o global an i acis a, do qual o Black Li es Ma e é o exponen e máximo, êm indo a o ça um ques ionamen o de undo sob e os legados da expe iência colonial, dinamizando o deba e e a ação no espaço público. O obje i o des e a igo é abo da es a dinâmica no espaço público da cidade de Lisboa e es á di idido em duas pa es: numa p imei a é analisado o p ocesso de imp essão ao longo do empo de uma memó ia do impé io no espaço da cidade de Lisboa; numa segunda pa e, são analisadas as ações de memo ialização con a-hegemónicas que se a i mam no campo ins i ucional e no das o mas cul u ais al e na i as, mui as ezes pela mão daqueles que são eles p óp ios obje o das es a égias ep esen acionais das polí icas e das ins i uições. 1 Lisboa e a memó ia do impé io Enquan o “complexo de memó ia” (Macdonald 2013; Pe al a 2013), Lisboa concen a no seu espaço ísico um conjun o de elemen os simbólicos e ma e iais que eme em pa a uma ep esen ação da cidade enquan o de en o a de uma pa icula his o icidade associada à expansão ma í ima e ao impé io po uguês. Es a his o icidade es á imp essa na ma e ialidade da paisagem cons uída da cidade, na sua o ganização espacial, nos manei ismos exó icos da sua a qui e u a, na linguagem a e i a do seu enquad amen o na u al, na sua o namen ação ege al a a és de espécies opicais, na p esença quo idiana de populações o iundas (ou descenden es delas) das an igas colónias, na ep esen ação o necida po museus e po monumen os. Po ezes de o ma explíci a e po ou as de o ma la en e, a a és de o mas mnemónicas ine es e/ou não decla adas, a memó ia do impé io colonial po uguês es u u a a imaginação da cidade de Lisboa enquan o an iga capi al do impé io ago a concebida como cidade global pós-colonial. Uma imaginação que, em a sua p óp ia 118 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 genealogia e cons an emen e se ein en a ao longo do empo, so endo al e ações à medida que as exigências ep esen acionais de cada momen o assim o de e minam, mas man endo ela i amen e in ac os os mesmos mi os e icções da nação impe ial, num “complexo de memó ia” que, embo a maleá el, se e ela p o undamen e esis en e à c í ica da his ó ia. Es e complexo de memó ia es u u a-se com mais igo a pa i do úl imo qua el do século XIX e du an e os úl imos anos da mona quia po uguesa. Em 1985, Po ugal ap esen a a à Con e ência de Be lim 1 ⎯na qual se o ganizou a pa ição e di isão e i o ial da Á ica en e as po ências eu opeias⎯o p oje o do amoso Mapa Co -de-Rosa. Es e p oje o consis ia na eclamação da sobe ania po uguesa e na ocupação e e i a de odo o e i ó io en e Angola a Moçambique, assegu ando a comunicação e es e en e as duas colónias, e acili ando assim o comé cio e o anspo e de me cado ias. As ambições po uguesas o am, po ém, go adas pelo adicional aliado⎯a G ã-B e anha⎯que, em 1890, comina o Go e no de Lisboa a ecua nes a ambição sob ameaça de co e de elações diplomá icas e de e en uais ep esálias mili a es. Face ao Ul ima um b i ânico o Go e no de Lisboa ecua, e imedia amen e se gene aliza a ideia de que a G ã-B e anha inha aído Po ugal, espoliando- o do imenso e i ó io a icano que lhe pe encia po di ei o his ó ico. Na e dade, nessa al u a Po ugal de inha em Á ica apenas pequenos encla es e a pa ilha de Á ica acabou po a ibui ao domínio po uguês á eas bem mais ex ensas do que aquelas que o país de inha e e i amen e. No en an o, no plano simbólico o Ul ima um b i ânico despole a ia uma au ên ica “paixão” nacionalis a e impe ial no co ação da nação, alimen ada po uma e ó ica de decadência, humilhação e i imização que, jun amen e com a c ise económica que se azia sen i , conduzi ia a um ambien e de o e agi ação polí ica. Nes e ambien e, a legi imidade da mona quia e a cada ez mais pos a em causa pelos epublicanos, cujas ambições polí icas são sus en adas na cons ução de uma ideologia ul ama i imis a, que con amina ia a memó ia cole i a nacional a é aos dias de hoje. 1 A Con e ência de Be lim, ambém conhecida como con e ência da Á ica Ociden al ou Con e ência do Congo, ealizou-se em Be lim, de 15 de no emb o de 1884 a 26 de e e ei o de 1885. Tinha em is a a pa ição e di isão e i o ial de Á ica pelas po ências eu opeias. O ganizada pelo Chancele do Impé io Alemão, O o on Bisma ck, o e en o con ou com a pa icipação de países eu opeus (Alemanha, Áus ia- Hung ia, Bélgica, Dinama ca, Espanha, F ança, G ã-B e anha, I ália, No uega, Países Baixos, Po ugal, Rússia e Suécia) mas ambém do Impé io O omano e dos Es ados Unidos. 119 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 No âmbi o da polí ica colonial, a u gência de p ese a a “he ança sag ada dos Descob imen os” esul a na o ganização de campanhas mili a es pa a a ocupação e e i a dos e i ó ios a icanos, bem como a o ganização de expedições geog á icas pa a explo a o in e io a icano, em espos a ao mo imen o ge al de pesquisa do con inen e ealizado pelas ou as po ências eu opeias. Os no os conquis ado es e explo ado es⎯Sil a Po o, Robe o I ens, B i o Capelo, Se pa Pin o e, sob e udo, Mouzinho de Albuque que⎯são con e idos em he óis nacionais e econhecidos como os e undado es dos “Descob imen os”. Nes e cená io de exal ação pa ió ica, os discu sos des inados a di undi uma ideologia nacional- impe ialis a mul iplicam-se. Podem se obse ados na consag ação de monumen os emblemá icos e espaços ligados à e a das “Descobe as”, na edi icação de es á uas, na oponímia⎯com no as uas ba izadas com os nomes dos no os conquis ado es e explo ado es como Sil a Po o, Robe o I ens, B i o Capelo, Se pa Pin o, An ónio Ma ia Ca doso, Ví o Co don, Pai a de And ade, Al es Roçadas, Pai a Cou ei o⎯na o ganização de comemo ações e em ou os momen os icónicos de socialização, sob e udo em Lisboa, mas um pouco po odo o país. Em ou ub o de 1910, a mona quia cons i ucional é depos a em Lisboa, após anos de mobilização epublicana e de insu eições alhadas. Tendo po base a ques ão impe ial, as eli es epublicanas ealizam en ão uma decisi a “nacionalização de massas”, que se conc e izou na c iação de símbolos nacionais e espec i a disseminação po ia dos apa elhos de socialização escola es. É c iada uma no a li u gia ci il, uma no a bandei a nacional, cujo símbolo cen al é a es e a a mila manuelina, e um no o hino, ancamen e de pendo nacionalis a e impe ial (Pin o 2000: 4). O b e e pe íodo epublicano é, po ém, ca ac e izado po uma o e ins abilidade polí ica e po uma g a e c ise inancei a, o que mui o con ibui pa a a c escen e si uação de ulne abilidade das possessões a icanas ace ao ambém c escen e pode io das demais po ências impe iais. Su gem de no o inquie ações quan o ao u u o das colónias, o que, jun amen e com a pe manen e c ise polí ica e inancei a que assola a o país, con ibuiu decisi amen e pa a a queda da I República e consequen e ins au ação da Di adu a Mili a em 1926. No início da década de 1930 An ónio de Oli ei a 120 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 Salaza 2 en a pa a o Go e no da Di adu a como Minis o das Finanças, a ibuição que acumula po um b e e pe íodo com a de Minis o In e ino das Colónias, de inindo uma polí ica impe ial que se aduz, po um lado, numa o e cen alização adminis a i a e num igo oso equilíb io o çamen al, e, po ou o, numa exal ação eu ó ica da eição impe ial da nação po uguesa. No plano da socialização das massas, o Es ado No o não deixou ambém de c ia odo um apa a o cul u al elacionado com o ideá io do nacionalismo impe ial. A “Exposição do Mundo Po uguês” ealizada em Lisboa en e junho e dezemb o de 1940 se á po en u a o exemplo mais con unden e des a p opaganda nacional-impe ialis a do egime. 3 Tendo le ado dois anos a cons ui , a “Exposição do Mundo Po uguês” p essupôs um p o undo ea anjo do espaço monumen al e u bano da zona de Belém, deixando ma cas du adou as na paisagem u bana de Lisboa. O Mos ei o dos Je ónimos, já en ão legi imado como símbolo nacional, é o elemen o cen al em o no do qual o espaço da exposição se concebe, sublimando-se a eição monumen al des a zona da cidade, simbolicamen e alusi a à emá ica dos “Descob imen os” e à “idade de ou o” da his ó ia po uguesa. Também no plano da oponímia que a ação do egime oi igo osa no sen ido de insc e e espacialmen e uma memó ia ab angen e o impé io. Mesmo com maio ên ase do que no pe íodo an e io , du an e o Es ado No o as ma cas do impé io o am inco po adas nas “geog a ias imagina i as” da cidade, numa celeb ação pe ene dos ei os e dos he óis impe iais da his ó ia nacional. Em 1948, são ba izadas, em Belém, as P aças de Damão, Diu e Goa, assim como mais á ios ou os opónimos ligados à Expansão Po uguesa: a A enida da Índia e a A enida Dom Vasco da Gama, P aça Dom Manuel I, a Rua São F ancisco Xa ie , a Rua Fe não Mendes Pin o, a Rua Damião de Góis, en e ou os. Quan o à p á ica de insc ição de 2 Líde indiscu í el do egime do Es ado No o po uguês, An ónio de Oli ei a Salaza , p o esso ca ed á ico da uni e sidade de Coimb a, en a pa a o Go e no da Di adu a Mili a que an ecedeu o Es ado No o em 1928 como Minis o das Finanças, p opondo-se a sana a g a e c ise das inanças públicas nacionais. É ambém na qualidade de especialis a em inanças públicas que acei a ocupa -se da g a e si uação inancei a das colónias, acumulando as unções de Minis o das Finanças com as de Minis o in e ino das Colónias, acabando po ede ini oda a polí ica colonial nacional. Foi um ul aconse ado , c í ico do clima de laicização e mode nização que ca ac e iza a a 1.ª República. 3 Ou os exemplos são o Cong esso Nacional Colonial (1930), o Cong esso Nacional Impe ial (1933), a Exposição Colonial do Po o (1934), a Celeb ação da Re olução Nacional de 1926 (1936), a P imei a Con e ência Económica do Impé io Colonial Po uguês (1936) e o Cong esso da Expansão Po uguesa no Mundo (1937). 121 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 opónimos geog á icos do impé io, es a inicia-se logo em 1933, quando se a ibuem os nomes de localidades do impé io aos a umamen os do denominado Bai o das Colónias, en ão ecen emen e cons uído no cen o da cidade de Lisboa, su gindo as uas de Angola, Cabo Ve de, da Ilha do P íncipe, da Ilha de São Tomé, de Macau, de Moçambique, de Timo , do Zai e e de Angola 4 . Es es são alguns exemplos de insc ições oponímicas alusi as às geog a ias do impé io ealizados du an e o Es ado No o e que se pe pe uam, a é hoje, na paisagem memo ial da cidade de Lisboa. Após 13 anos de gue as coloniais a adas con a os mo imen os independen is as a icanos, iniciadas em 1961 em Angola, e endo-se es endido à Guiné-Bissau (1963) e a Moçambique (1964), o mo imen o e olucioná io lide ado pelos “capi ães de Ab il” de ubou o egime. No pe íodo imedia o após o 25 de Ab il de 1974, a emá ica do passado impe ial po uguês é deslegi imada e á ios equipamen os cul u ais c iados pelo Es ado No o com cono ações com a sua polí ica colonial são p a icamen e o ados ao abandono, como oi o caso do Pad ão dos Descob imen os. Con udo, à medida que a jo em democ acia po uguesa se consolida e o país se encaminha pa a a adesão à Comunidade Económica Eu opeia (CEE), o que se da ia em 1986, a memó ia do passado impe ial po uguês é ena a i izada e eabili ada de modo a enquad a -se no espaço iden i á io eu opeu e no no o con ex o polí ico e cul u al das democ acias libe ais. Nes a e o mulação, uma ên ase quase exclusi a na memó ia his ó ica associada ao que se con encionou chama de “Descob imen os ma í imos” po ugueses⎯co esponden es às iagens de explo ação ma í ima iniciadas no século XV e à “idade de ou o” da his ó ia nacional⎯é aliada à imagem de um país mode no e cosmopoli a, que é e a ado como pionei o do diálogo cul u al à escala global e os po ugueses como “descob ido es” do mundo mode no. Es a eabili ação e e início em 1983 com a classi icação pela UNESCO do Mos ei o dos Je ónimos e da To e de Belém como Pa imónio Mundial. A UNESCO jus i ica es a classi icação pelo ac o de es es monumen os se i em como “lemb ança das g andes 4 Com o 25 de Ab il de 1974 e consequen e descolonização po uguesa, o Bai o é eba izado pa a Bai o das No as Nações, embo a coloquialmen e nunca enha deixado de se designado Bai o das Colónias. 128 Re is a Moa a, n. 61, ago-dez 2022 ISSN: 0104-0944 es a égias, do pode e das possibilidades dos seus agen es p omo o es, e da sucessi a imaginação de u u os sob e as uínas do passado. Impo a, po isso, es a mos a en os a que o dem e que u u o se c ia pa a as pessoas en ol idas, pa a a sociedade po uguesa como um odo, ou mesmo pa a a epis eme pós-colonial, a pa i das no as p opos as de e isão do passado impe ial e colonial po uguês que ago a se começam a desenha no espaço público da cidade e do país. Ainda é di ícil p e e como os mi os da nação po uguesa ão se adap a a es e no o cená io con es ado. No a ual cená io de c ise global, an igos mi os e men alidades impe iais pa ecem e ganhado uma segunda ida, mui as ezes como es emunhos de uma e são nos álgica e conse ado a do passado colonial. Mas ambém se ab iu um espaço pa a um deba e mais complexo sob e os legados de colonialismo, econhecendo o quan o es e ainda exe ce in luência nas cul u as, nas elações sociais e na polí ica dos es ados pós-coloniais os quais o am, como disse Benoi De L'Es oile (2008), moldados obje i a e subje i amen e pela expe iência colonial. REFERÊNCIAS Ande son, Benedic (1983). Imagined Communi ies. Lond es e No a Io que: Ve so. Assmann Aleida (2010). “F om Collec i e Violence o a Common Fu u e: Fou Models o Dealing wi h a T auma ic Pas ”. In Con lic , Memo y T ans e s and he Reshaping o Eu ope, ed. Helena Gonçal es da Sil a e al. Newcas le upon Tyne: Camb idge Schola s Publishing, pp. 8–23. Be ge , S e an e Alexei Mille (2015). Na ionalizing Empi es. 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