scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Permanência e poder. Acção de Mitterrand na arquitectura em Paris

Mélanie Christine Henriques de Oliveira

Abstract

Esta dissertação desenvolve uma análise sobre o protagonismo dos Grandes Trabalhos parisienses na afirmação cultural e social da cidade de Paris e na sua expressão francesa. Essa análise, desenvolvida de forma evolutiva, parte da constatação de que uma política da Cultura se foi afirmando em França depois da Segunda Guerra Mundial. Contudo, o foco deste trabalho será essencialmente no período dos dois mandatos do Presidente da Vª República, François Mitterrand, entre 1981 e 1995. Para perceber melhor as intenções e as ambições deste mandatário, será apresentado outros exemplos na Europa, durante o século XX. Este trabalho é uma exploração do que conduz, ao indivíduos e as sociedades, a construir e como o fazem, percebendo qual o significado dos seus edifícios e os usos que lhes dão. Estes edifícios podem ser muito reveladores, acerca dos símbolos que servem para definir uma sociedade. Um dos pontos da tese é perceber os diferentes objectivos e as vontades íntimas, nas várias obras, relativo às questões processuais. Será feito uma apresentação dos processos de cada projecto para poder formar um ponto de vista sobre este período intenso de construções da parte de Mitterrand cujas obras tinham como objectivo oficial melhorar o acesso à cultura. O intuito do estudo é provar que a Cultura foi um pretexto para exprimir a prática e a permanência de um poder político num Estado democrático. Deste modo, para esta demonstração, será exposto vários casos de estudo, todos eles situados em Paris, O Grande Louvre (1983-1993), o Arco de La Défense (1983-1989), o Instituto do Mundo Árabe (1983-1987), o parque de La Villette (1982-1992), o Ministério das Finanças (1984-1988), a Ópera da Bastilha (1985-1989) e a Biblioteca Nacional de França (1990-1995).

Full text

Dissertação para a Prova Final de Mestrado Integrado em Arquitectura Mélanie Christine Henriques de Oliveira - FAUP 2014/2015 Docente orientador Professor Luís Soares Carneiro PERMANÊNCIA E PODER Acção de Mitterrand na arquitectura em Paris “Le vieux Paris n’est plus (la forme d’une ville Change plus vite, hélas ! que le coeur d’un mortel) “ Charles BAUDELAIRE, Le Cygne Cette dissertation développe une analyse sur le protagonisme des Grands Travaux parisiens dans l’affirmation culturelle et sociale de la ville de Paris et dans son expression française. Cette analyse, écrite de manière évolutive, part de la constatation qu’une politique de la culture s’est affirmée en France après la Seconde Guerre mondiale. Cependant, ce devoir sera essentiellement centré sur les deux septennats du Président de la 5ème République, François Mitterrand, entre 1981 et 1995. Pour mieux comprendre les intentions et les ambitions de ce mandataire, d’autres exemples européens du XXº siècle seront présentés. Ce travail est une exploration de ce qui conduit, aux individus et aux sociétés, à construire et comment le font-ils, en essayant de comprendre quelle est leur signification et leur utilisation. Ces édifices peuvent être très révélateur sur leurs symboles qui servent à définir une société. Un des points de cette dissertation est de saisir les differents objectifs et volontés intimes, dans les travaux, dans le point de vue du processus. Une présentation des étapes de chaque construction sera faite pour former une opinion sur cette période intense de construction , voulu par Mitterrand. L’objectif inicial et officiel était d’améliorer l’accès à la culture mais le but de cette étude est de prouver que la culture a été un pretexte pour exprimer la pratique et la permanence d’un pouvoir politique dans un état démocratique.Ainsi, pour cette démonstration, plusieurs cas d’étude seront exposés: le Grand Louvre (198393), l’Arche de la Défense (1983-89), l’Institut du Monde Arabe (1983-93), le parc de la Villette (1982-92), le Ministère des Finances (1984-88), l’Opéra de la Bastille (1985-89) et la Bibliothèque Nationale de France (1990-1995). This dissertation is a review about the relevance of all the Grand Travaux parisians on the social and cultural affirmation in Paris and in the French expression. In this analysis we can understand that a Cultural policy was emerging after World War II. Meanwhile, the primary focus in this investigation it will be essentially in the gap between 1981 and 1985 when Mitterrand was the President of France. A better way to understand all the intentions and ambitions of this period, it will be described with other examples that occurred in Europe in the XX century. In this dissertation we can understand what makes people rise all kind of buildings, why they made it and the meaning of the constructions. These buildings can reveal about their symbolism in the society that they belong. I also try to understand all the different goals and intimate wills, concerning all the constructions works and referring to all the questions concerning the procedures. It will be presented a description about all the procedures of each project so I can shape a general point of view about this intense period of constructions that Mitterrand implemented, in order to enhance the culture access for everyone. The intention of this investigation is to prove that Culture was an excuse so that Mitterrand could express his political power on a democratic way. In order to do so, it will be described several case studies, all of them located in Paris. The Grand Louvre (1983-1993), the Arche de La Défense (1983-1989), the Institut du Monde Arabe (1983-1987), the parc de La Villette (1982-1992), the Ministère des Finances (1984-1988), the Opéra de la Bastille (1985-1989) and the Bibliothèque Nationale de France (1990-1995). RÉSUMÉABSTRACT Esta dissertação desenvolve uma análise sobre o protagonismo dos Grandes Trabalhos parisienses na afirmação cultural e social da cidade de Paris e na sua expressão francesa. Essa análise, desenvolvida de forma evolutiva, parte da constatação de que uma política da Cultura se foi afirmando em França depois da Segunda Guerra Mundial. Contudo, o foco deste trabalho será essencialmente no período dos dois mandatos do Presidente da Vª República, François Mitterrand, entre 1981 e 1995. Para perceber melhor as intenções e as ambições deste mandatário, será apresentado outros exemplos na Europa, durante o século XX. Este trabalho é uma exploração do que conduz, ao indivíduos e as sociedades, a construir e como o fazem, percebendo qual o significado dos seus edifícios e os usos que lhes dão. Estes edifícios podem ser muito reveladores, acerca dos símbolos que servem para definir uma sociedade. Um dos pontos da tese é perceber os diferentes objectivos e as vontades íntimas, nas várias obras, relativo às questões processuais. Será feito uma apresentação dos processos de cada projecto para poder formar um ponto de vista sobre este período intenso de construções da parte de Mitterrand cujas obras tinham como objectivo oficial melhorar o acesso à cultura. O intuito do estudo é provar que a Cultura foi um pretexto para exprimir a prática e a permanência de um poder político num Estado democrático. Deste modo, para esta demonstração, será exposto vários casos de estudo, todos eles situados em Paris, O Grande Louvre (1983-1993), o Arco de La Défense (1983-1989), o Instituto do Mundo Árabe (1983-1987), o parque de La Villette (1982-1992), o Ministério das Finanças (1984-1988), a Ópera da Bastilha (1985-1989) e a Biblioteca Nacional de França (19901995). RESUMO Ao Professor Luís Soares Carneiro que tornou este ano muito interessante e enriquecedor. Ao Filipe, pela paciência, pelas correcções e pela atenção incansável. À Luisa, pela sua amizade, experiência e ajuda. À Filipa, por passarmos pelo mesmo e aconselharmo-nos uma a outra. Uma especial atenção ao David e ao Alex, que sempre tiveram por perto nos bons e maus momentos durante os longos anos do curso. Sem eles, o curso nao teria tido tanto encanto. Aos meus pais e ao meu irmão que me apoiaram nesta grande etapa da minha vida. Para todos os meus amigos e familiares que me perguntaram: “então e a tese?”, cá está a resposta. AGRADECIMENTOS I II IV V III Introdução [p.09] Poder e Monumentalidade [p.15] 1. Conceitos 2. Arquitectura totalitária 3. Paris e a sua arquitectura François Mitterrand [p.45] Permanência e Poder [p.107] Considerações finais [p.121] Bibliografia [p.127] Grands Travaux de Mitterrand [p.57] 1. Grande Louvre 2. Grande Arco de La Défense 3. Instituto do Mundo Árabe 4. La Villette, Parc, Cité da Música e o Zénith 5. Ministério das Finanças em Bercy 6. Ópera de la Bastille 7. Biblioteca Nacional de França SUMÁRIO Introdução 9 O tema desta dissertação está inevitavelmente associado à minha experiência em Paris. Mais do que em nenhuma outra cidade, Paris é a minha casa. Foi onde nasci, estudei, vivi e experienciei, até chegar ao Porto para me formar na FAUP. Sempre tive a convicção que esta cidade estaria relacionada com a minha prova de final de curso. É uma cidade onde a história transborda, continua permanente, se discute e surpreende a cada dia que passa. Esse desejo confirmou-se quando fiz o meu estágio curricular num gabinete situado em frente ao Centre George Pompidou. Passei as minhas horas de almoço e parte do meu verão na biblioteca do centro a fazer pesquisas para encontrar um possível tema para a tese. Depois de algumas conversas com vários professores, comecei a interessarme pelo próprio edifício onde me encontrava, o Centro Pompidou, o que me levou a questionar a história dos Grands Travaux em Paris. A escolha do tema foi mais interessante dado que estava relacionada com diversos assuntos: arquitectura, política, poder, encomenda pública e vários arquitectos de renome são temáticas que estão ligadas quase que por obrigatoriedade. Apesar de conhecer as obras, o que era uma vantagem, sabia que ia aprender todos os pormenores envolventes dando um outro encanto à pesquisa. Quanto mais explorava esta temática mais ficava óbvio que tinha tomado o passo correcto. Aquando do meu regresso a Portugal e depois de muita pesquisa, fui percebendo com o meu orientador que o foco seria o período de François Mitterrand. A meta era perceber as suas intenções, como agiu e com que objectivos, ou seja, como a arquitectura o ajudou. Grande parte das minhas pesquisas foram feitas enquanto ainda estava em Paris mas tive uma grande facilidade em voltar para recolher mais bibliografia importante para poder escrever este estudo, assim como ver e (re)visitar as obras. INTRODUÇÃO Poder e Monumentalidade 17 “Monumento” e “poder” são alguns dos conceitos associados ao nosso tema. Pelo que pareceu importante estabelece-los com clareza para apoiar melhor o resto do estudo. Vários autores questionaram-se sobre estes conceitos, como Max Weber. O seu livro “Conceitos sociológicos fundamentais” expressa a sua definição de poder: “toda a probabilidade de, dentro de uma relação social, impor a vontade própria mesmo contra a resistência, seja qual for o fundamento dessa probabilidade”1. Desde sempre a arquitectura esteve associada a uma marca de poder no território. Ao longo da história, o homem serviu-se da construção de formas que estruturassem e reflectissem a vida colectiva e assim à imagem da sociedade. Os edifícios singulares, de excepção, erguem-se como monumentos, marcos, que representam o poder dominante da época. A função do Poder é de exercer uma vigilância contínua sobre o indivíduo. O que caracteriza o poder moderno, não é agir por intermitência, como antigamente o Rei sobre os seus sujeitos, mas um controlo permanente. A questão não é quem detém o poder: o Presidente, os Juízes, os Capitalistas mas como exercem esse poder que toca cada um de nos que sejamos simples cozinheiro ou Presidente. O poder é omnipresente e universal. Ninguém escapa a essa influência. É nomeadamente em “Surveiller et Punir“2 e “La Volonté de Savoir“3, escritos respectivamente em 1975 e 1976, que Michel Foucault desenvolve essa lógica do Poder. As ciências do homem impõem-se ao individuo e tornaram-se o discurso do poder. Podemos notar isso nos Ministros evocando os especialistas técnicos em direito, economia, saúde, etc, sendo estratégias de poder. A arquitectura está ao serviço da cidade, logo, ao serviço do poder. A expressão do poder político na arquitectura vai produzir-se fundamentalmente ao nível da produção simbólica. 1. Conceitos 2. FOUCAULT, Michel, Surveiller et Punir, Paris, Gallimard, 1975 3. FOUCAULT, Michel, La Volonté de Savoir, Paris, Gallimard, 1976 1. WEBER, Max, Conceitos Sociológicos Fundamentais, Lisboa, Edições 70, 1997, p.81 Permanência e Poder 18 Quando falamos na expressão simbólica na arquitectura é fundamental falar no conceito de monumento e monumentalidade do historiador Sigfried Giedon nos Nove Pontos sobre Monumentalidade: “1. Os monumentos são marcos, pelos quais os homens criaram símbolos para os seus ideais, finalidades e actos. Destinam-se a eternizar a época em que nasceram e representam um património para as gerações vindouras, formando o elo de ligação entre o passado e o futuro. 2. Os monumentos são as expressões das mais altas necessidades culturais do Homem. Os monumentos têm de satisfazer o eterno anseio do povo de transformar a sua força colectiva em símbolos. [...] 7.O povo exige mais do que uma mera solução funcional dos edifícios que devem satisfazer a sua necessidade de monumentalidade, de alegria e de elevação interior”4. As grandes obras monumentais são referências que ficam eternizadas numa sociedade. A sua imponência fica gravada na memória de todos consoante a sua dimensão, grandeza e localização na paisagem. Temos também a definição de monumento por Françoise Choay: “O sentido original do termo é do latim monumentum, ele próprio derivado de monere (advertir, recordar), o que interpela a memória. A natureza afectiva do destino é essencial: não se trata de fazer verificar, de fornecer uma informação neutra, mas de excitar, pela emoção, uma memória viva. Neste primeiro sentido, chamar-se-á monumento a qualquer artefacto edificado por uma comunidade de indivíduos para se recordarem, ou fazer recordar a outras gerações, pessoas, acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças. A especificidade do monumento prende-se então, precisamente, com o seu modo de acção sobre a memória. Não só ele a trabalha, como também a mobiliza pela mediação da afectividade, de forma a recordar o passado, fazendo-o vibrar à maneira do presente.”5. Os monumentos pontuam a paisagem da cidade, organizam-na e orientam-na espacial e temporalmente em virtude do contraste que estabelecem com a envolvente. No entanto, nem toda a edificação contrastante ou qualquer lugar que se destaque na paisagem é um monumento. O conceito de monumento é fundamentalmente traduzido pela atribuição de significado. Todas as comunidades têm, pois, os seus monumentos que são como âncoras onde se cimenta a memória das pessoas e a linhagem das comunidades, marcos da sua identidade. Estes monumentos oferecem segurança às comunidades, servem-lhes de referência, ajudam a delinear os seus itinerários e incitam a perspectivar o futuro. Estes monumentos são a tradução em termos espaciais de uma ideia, conceito, concepções. Assim, destaca-se que monumentalidade é um conceito de carácter simbólico, que representa e valoriza as ideias, acções e concepções, actuando ao nível visual e da percepção, tendo assim um forte significado na estruturação do espaço urbano. 4. GIDEON, Siegfried, Arquitectura e Comunidade, Lisboa, Livros do Brasil, 1958, p.42-43 5. CHOAY, Françoise, Alegoria do Patrimônio, Lisboa, Edições 70, 2010, p.17 Poder e Monumentalidade 19 A vaidade de querer deixar um marco na sociedade fez com que quem estivesse no poder quisesse construir este tipo de obras. Sem o saber, fizeram com que actualmente as grandes construções sejam um ponto turístico e uma atração da cidade onde está inserida. A arquitectura é moldada pelo ego, pelo medo do esquecimento, assim como por impulsos políticos e religiosos. E, por sua vez, serve para lhes dar forma. Para além da vaidade, a auto glorificação era algo intrínseco nestes líderes aquando da elaboração destes monumentos. Neste caso podemos falar de monumentalismo, no sentido de gigantismo quando se trata de sobredimensionamento de escala e extensão territorial. Temos assim presente, a forma como se traduz na arquitectura: a escala/dimensão, a relação visual, grandes eixos, perspectivas, arquitectura para ser admirada de fora e do exterior, a relação espacial, os percursos, os materiais, na qualidade e durabilidade. A monumentalismo relacionase não só com o edifício mas também com o local onde está inserido. A paisagem, os sentimentos que transmitem, assim como os materiais usados estabelecem uma relação com o indivíduo. Sempre existiu a necessidade de expressão simbólica, todas as épocas sentiram o impulso de erigir monumentos e os políticos dispõem da capacidade e dos meios para osfazer. A arquitectura monumental é um meio de exprimir grandeza do poder e uma tentativa de sedução das masas por ideias defendidas por estes regimes políticos. Poder e Monumentalidade 21 Os regimes fascistas usavam a arquitectura como ferramenta para demonstrar o seu poder e a sua imponência na sociedade, como foi o caso da Itália e da Alemanha. Os ditadores moldavam a arquitectura consoante as suas ideias, uma característica que é identificável não só nestes tipos de regimes mas também nos regimes comunistas, como é o caso da união Soviética. Todos eles tiveram como características comuns a repressão e a censura dos meios de comunicação, o culto ao líder, a centralização das tomadas de decisão, etc. A arquitectura também revela vários aspectos em comum. ”Ao nível dos edifícios públicos, por uma monumentalidade retórica, como expressão do poder do Estado, e inculcando o sentido da autoridade e da ordem, como recurso frequente a um vocabulário clássico”4. As soluções formais passaram por apelar a escalas monumentais, expressando a ambição de grandes impérios directa ou indirecta glorificando o regime e os seus líderes. O monumentalismo seria então uma das características mais expressivas destes regimes. A arquitectura simbólica e ideológica sobrepõe-se à arquitectura funcional e utilitária. 4. PEREIRA, Nuno Teotónio; FERNANDES, José Manuel, A Arquitectura do Fascismo em Portugal, Lisboa, A Regra do Jogo, 1982, p.533 2. Arquitectura totalitária Permanência e Poder 22 Fig.4: Imagem tirada por Golomshtock Igor, do Novo Moscovo 1933-35 [in GOLOMSHTOCK Igor, L’art totalitaire : Union Soviétique – IIIème Reich - Italie fasciste - Chine, Paris, Carrée, p. 283] Fig. 1: Cartaz de propaganda por B. Belopolski. “Gloria a Estaline, o grande arquitecto do comunismo” 1951 [in https://www.flickr.com/ photos/bpx/136411638/ sizes/o/in/photostream/] a direita: Fig. 3: Comparação do Palácio dos Sovietes com a Torre Eiffel e o Empire State Buildins in Mechanix illustrated de Setembro 1939 [in http://blog. modernmechanix.com/ worlds-tallest-building/] a esquerda: Fig. 2: imagem dos Palácio dos Sovietes [in KOPP, Anatole, L’architecture de la période stalinienne, Grenoble, presse universitaire, p.273] Poder e Monumentalidade 23 Staline A arquitectura de Staline (Fig.1) não está só ligada ao poder, ela é um puro produto desse poder. Apareceu aquando da sua chegada ao poder e desapareceu com a sua morte. Tal como o carácter e a personalidade de Staline que não mudaram depois da sua tomada de posse, a arquitectura estaliniana ficou intacta dos seus primeiros esboços às suas últimas realizações. A história dessa arquitectura é reveladora do poder comunista. Desse modo, todas as decisões tomadas durante os 25 anos da sua existência foram decisões arbitrárias tomadas pelo partido. A arquitectura estaliniana foi um dos inúmeros produtos do estalinismo, utilizada não para servir os proletários e o socialismo mas os próprios interesse do Partido, da burocracia e de Staline em pessoa. Dessa forma, condenados a celebrar a grandeza do regime e as suas realizações, os arquitectos e os artistas em geral trabalharam só para o “serviço do povo” num estilo monumental. A arte tornou-se um simples instrumento de propaganda. Em 1932, já sob o comando de Staline (1878-1953), o Comité Central do Partido Comunista da União Soviética decretou a extinção de todos os grupos artísticos autónomos e foram criadas uniões de artistas directamente tuteladas pelo Estado, o que implicou o fim do mercado privado da arte. Uma das grandes obras que Staline planeava realizar desde 1931, era o Palácio dos Sovietes (Fig.2). Para a sua construção, Staline decidiu destruir uma importante marca da identidade russa: a Catedral ortodoxa do século XIX. Foi construído para celebrar a Rússia moderna, para demonstrar o triunfo do dirigente totalitário e pretendia ser o centro do poder soviético. Em 1931, o governo russo lançou um concurso internacional para o projecto. Foram recebidas participações de muitos nomes associados ao Movimento Moderno, mas foi B. M. Iofan que foi escolhido, com um projecto que incluía uma torre monumental sobre a qual se erguia uma gigantesca estátua de Lenine, “una estructura que habría sido más alta que el Empire State Building y coronada com una representación colosal de Lenine mayor que la Estatua da Liberdade, para demostrar su triunfo sobre los viejos bolcheviques y sobre el capitalismo”5. (Fig.3) Contudo os projectos de monumentos isolados ameaçavam tornarse um caos de edifícios de vários estilos e tamanhos. Em Julho 1935, o Estado avaliou a situação e foi aprovado o plano regulador de Moscovo que previa um eixo monumental de mais de vinte quilómetros de extensão, ladeado de praças e palácios imensos, mais um exemplo que revelava a vontade de mostrar a grandiosidade russa (Fig. 4). Esse plano, entre outras coisas, indicava claramente algumas directivas urbanísticas requeridas 5. SUDJIC, Deyan, Arquitectura del Poder, Barcelona, Ariel, 2007, p.48 Permanência e Poder 24 Fig. 5: Capa de jornal, Mussolini dando a primeira martelada de escavaçao nas obras do forum,1935 [in POUTHIER Jean-Luc, La pensée de midi nº1, 2000, p.40] Fig. 6: Fotografia de Roma, antes e depois das obras [in Archittetura del mondo, janeiro 2013, p.5] Poder e Monumentalidade 25 por Staline. As novas reestruturações tinham que proceder por partes e não por edifícios isolados, aumentar o tamanho dos quarteirões, limitar a densidade a 400 habitantes por hectare e construir os prédios com pelo menos seis andares a mais se estivessem localizados nos grandes eixos prestigiosos. A arquitectura foi usada pelos soviéticos como demonstração da potência e do poder. Os arranha-céus estalinianos não são excepção à regra. Depois da segunda Guerra mundial, Joseph Staline decidiu representar a força de Moscovo projectando a construção de oito arranha-céus para celebrar os 800 anos da cidade em 1947. Somente em 3 anos, sete dessas torres foram construídas para serem baptizadas as Sete Irmãs de Moscovo. De facto, a oitava irmã, imaginada por Chechulin nunca chegou a ser construída. Contudo, quatro outros arranha-céus de arquitectura estaliniana erigiram-se noutros estados socialistas: Varsóvia, Xangai, Riga e Praga. Mussolini Mussolini fundou, em Novembro 1921, o Partido Nacional Fascista, o primeiro partido na Europa ocidental abertamente não democrático. O Fascismo é um regime político que tem um programa político nacionalista, autoritário e anti-sindicato. O regime fascista tende em fazer a nação uma comunidade única junta atrás de um só homem. Havia um culto da personalidade organizada à volta de Mussolini, ele era chamado o “Duce” que significa chefe ou guia (Fig. 5). Quando em 1922 tomou posse do poder, deu uma importância capital à arquitectura de Roma, para fazer uma cidade de poder, capital do regime fascista. “À mon avis, déclarait Mussolini dans ses conversations avec Ludwig, l’Architecture est le plus grand des arts, car elle les contient tous”6. Roma não ia ser só um lugar de memória mas um projecto político concreto que era a unificação do país. Contudo, Roma era inapta para o que Mussolini tencionava fazer. Era uma cidade onde regia o caos e onde os serviços públicos eram inexistentes. Para além disso, as ruínas do passado dificultavam as obras de construção para a nova Roma. Roma devia estar à imagem do fascismo, grande, potente e destacar-se em comparação com as outras cidades europeias. Depois da Roma imperial e da Roma da cristandade, a cidade tinha que resplandecer através de uma Roma “Nacional”. A Itália tinha que estar reunida num só povo compacto e num sentimento de identidade cultural. Mussolini queria tornar a cidade bonita, devolver-lhe a dignidade do seu estatuto 6. BORSI, Franco, L’Ordre Monumental, Europe 1929-1939, HAZAN, 1986, p.23 Permanência e Poder 32 Como escreve Benevelo18, os Reis de França que, até ao Renascimento, residiam nas cidades perto do rio Loire, instalaram-se definitivamente em Paris, em 1528, quando François I iniciou as obras de restauração do velho Castelo do Louvre (Fig. 11). No século XVI, Paris continuou a desenvolver-se, estendendo-se para além das muralhas. Contudo, as guerras de religião danificaram muito a cidade. Em 1954, Henri IV recuperou a capital em ruínas e despovoada. Durante os quinze anos seguintes e até a sua morte, em 1610, o Rei lançou um grande programa de obras públicas. Uma parte considerável dessas obras foram concentradas em Paris, de modo a acentuar a importância da capital. Estas foram as principais iniciativas tomadas no início do século XVII: o crescimento das muralhas de Charles V na margem direita para abranger os bairros situados a Oeste até ao jardim das Tuileries; a reestruturação das ruas e dos equipamentos (aquedutos e esgotos); a abertura de novas praças de forma regular; o crescimento do Palácio Real do Louvre. Esse projecto realizado em parte por Louis XIII e Louis XIV sendo apenas concluído no século XIX por Napoleão III. Depois de 1610 e até ao reinado de Louis XIV, em 1661, o programa de Henri IV manteve-se, levando cidade de Paris a desenvolverse rapidamente. Louis XIII, Richelieu e Mazarin, comprometidos numa série de guerras, não tinham meios para desenvolver um programa de obras públicas, por consequência foi o sector privado que se encarregou de realizar bairros inteiros como o da ilha da Cité. Em Paris, os recursos do Roi Soleil não chegavam para transformar, em grandes proporções, a antiga aglomeração. Durante todo o seu reino, permitiram simplesmente a inserção de algumas sequências arquitectónicas no tecido existente como o novo ordenamento do Louvre, a place des Victoires, a place Vendôme, os Invalides e a formação de uma nova periferia descontínua. De facto, as antigas fortificações foram abatidas e na sua localização foram construídas largas avenidas com árvores, os Boulevards. Napoleão III, mandatário das obras do Barão Haussmann em Paris, tinha como objectivo modernizar essa cidade de prestígio, em meados do século XIX, por causa da sua sobrepopulação, insalubridade e falta de organização, como já tinha sido feito em Londres. No vocabulário usual do urbanismo, falamos de eixos “Haussmanniens” para designar essa rede de largas vias rectilíneas e arborizadas que estruturam o espaço parisiense. Na realidade, Haussmann inspirou-se em dois modelos. “Il s’est constitué tout seul, à partir de deux types de projets originaux existant qui relevaient de l’art du paysage et non de l’art Urbain”19. Um desses dois modelos, foi a grande alameda do jardim à francesa. Vaux-le-Vicomte20 constituiu o protótipo do castelo clássico 18. BENEVOLO, Leonardo, Histoire de la ville, Parenthèses, tradução do italiano por Catherine Peyre, clamecy, 1995 19. LACAZE, Jean Paul, Paris, Urbanisme d’État et Destin d’une Ville, Paris, Flammarion, 1993, p.106 20. Vaux-le-Vicomte: Castelo do século XVII em Maincy, para Nicolas Fouquet, desenhado pelo arquitecto Louis Le Vau e pelo paisagista André Le Nôtre. Poder e Monumentalidade 33 francês, rigorosamente organizado à volta de um eixo simétrico comum à arquitectura do castelo. Esse primeiro modelo, foi retomado por Le Nôtre quando teve de reabilitar o jardim des Tuileries no Louvre. Para além do que é, de hoje em dia, a praça da Concorde, ele plantou uma quadrupla fila de ulmeiros organizando a perspectiva até ao Monte de Chaillot fechando dessa maneira o horizonte. “Selon les principes de composition baroque qui dominaient l’architecture française, la ligne initiale de cet axe monumental crée aux confins de la ville devait au cours des années suivantes se développer et s’élaborer d’elle-même”21. O Monte Chaillot, que mais tarde, viria a ser a praça de l’Étoile. O outro modelo, criador dos eixos parisienses, foram as estradas reais. A criação, no século XVIII, de uma rede nacional de estradas largas e rectilíneas constituiu um acto importante de governo. Ele correspondeu a inúmeros objectivos simbólicos e políticos, como reforçar a unidade do reino, afirmar a autoridade monárquica e económica e tornar mais rápido e menos dispendioso o tráfego comercial e estratégico. As instruções da época convidavam os engenheiros a equipar essas vias com plantações de árvores de alinhamento, para oferecer sombra aos viajantes, para consolidar as vias e dar, desta maneira, uma forte ideia da munificência Real. Em 1753, no reinado de Louis XV, houve um concurso de arquitectura para a construção de uma praça comemorativa em honra do Rei. O vencedor sugeria uma extensão da lógica do Louvre-Tuileries, situando a nova praça, que se tornaria depois a praça da Concorde, entre o jardim des Tuileries e a via dos Champs-Élysées. Os Castelos de Saint-Germain, a Oeste, e o de Versailles, a Sudoeste de Paris, pediam um prolongamento dos Champs-Élysées para além das fronteiras de cidade. Para responder a esse pedido, a ponte de Neuilly, pela qual a ligação axial atravessava o rio, foi desenhada, em 1772, pelo engenheiro Perronet. Mais tarde, em 1774, o Marquês de Maragny mandou destruir o Monte Chaillot para criar uma rotunda paisagista. O nome de Étoile, ou seja estrela, ficará como nome da rotunda, contudo, em 1970, com a morte de De Gaulle, foi rebaptizada com o nome dele para o homenagearem. Foi feito, depois, um projecto de uma avenida que ultrapassava o rio Sena até à Montagne du ChanteCoq, em que, mais tarde, viria a chamar-se rotunda de la Défense. Ali, “Sur la colline du Chante-coq, à environ sept kilomètres de l’Étoile, fut dressée en 1875 une statue appelée La Défense, qui commémorait les défenseurs de Paris durant la guerre franco-prusienne. Ce monument, érigé au centre d’un rond-point où se rencontraient plusieurs rues circulaires, devint le pôle occidental de l’axe monumental de Paris”22. Em 1806, quando Napoleão I começou a construção do Arc de Triomphe, 21. EVENSON, Norma, Paris: Les Héritiers d’Haussmann Cent Ans de Travaux et d’Urbanisme, 18781978, Paris, ensba, 1983, p.48 22. EVENSON, Norma, Paris : Les Héritiers d’Haussmann Cent Ans de Travaux et d’Urbanisme, 18781978, Paris, ensba, 1983, p.49 Permanência e Poder 34 Louvre Île de la cité Jardins des Tuileries Place de la concorde Place de l’Étoile Porte Maillot La Défense Fig. 12: “La voie Triomphale” antigamente os nomes eram: île de la cité - Lutetia Place de l’Étoile - Mont Chaillot Rondpoint de la Défense - Colline du Chante-coq [Imagem editada pela autora] Fig. 13: Le Caroussel, l’Obélisque et l’Arc de Triomphe, Janine Niepce, 1950 [in http://mimbeau. tumblr.com/ post/61617572571/ the-carrousel-the-obeliskand-the-arc-de] Poder e Monumentalidade 35 para o enaltecimento das glórias e conquistas do primeiro Império francês, l’Étoile marcava a fronteira da cidade. Esse monumento parecia, graças à sua altura, coroar a avenida des Champs-Élysées e dotar a cidade de uma entrada solene quando se aproximava pelo Oeste. Ao fim de um certo tempo, o termo “Voie Triomphale” (Fig. 12) foi aplicado à enfiada de ruas que começava pelos Champs-Élysées e se prolongava pelo Oeste pela avenida de la Grande Armée, até a Porte Maillot. Para além dessa porta, que representava uma abertura às fortificações na extremidade Nordeste do Bois de Boulogne, o Eixo continuava na avenida e na ponte de Neuilly, e depois estendia-se da Avenida de la Défense até à rotunda do mesmo nome. Cada cidade tem à sua imagem, um símbolo representativo de carácteres peculiares da sua história, traduzida pela sua arquitectura e pelo seu urbanismo. O “Paris contemporâneo” possui nas suas características mais marcantes, uma rede de grandes avenidas rectilíneas, ornamentadas de árvores, fazendo a ligação entre as grandes praças, monumentos históricos ou equipamentos públicos. De todas as vias de Paris, a mais celebre é a Avenida des Champs-Élysées que se estende desde a praça da Concorde até a praça de l’Étoile. Enquanto muitos Boulevards parisienses foram criados como vias de circulação puramente utilitárias e depois embelezadas para adquirir uma função estética, os Champs-Élysées, na origem, serviam simplesmente para o passeio, e apenas, mais tarde, na era do automóvel, se tornou numa importante artéria de circulação. Apesar dessa via fazer parte de uma composição monumental e de ligar dois pólos ricos em história, a avenida em si foi marcada pelo século XIX. O seu aspecto espontâneo comercial fez com que se tornasse uma das ruas mais conhecidas do mundo, o conceito de “via triunfal” favorecia a ideia desse grande eixo com as suas avenidas, as suas portas e as suas rotundas merecendo um tratamento arquitectónico que fosse conforme a sua natureza monumental. Um dos problemas do eixo era o entroncamento Maillot e do tráfego que o atravessava. Em 1929, um empresário, Léon Rosenthal, organizou um concurso arquitectónico para estruturar essa via de acesso. No meio dos projectos apresentados destacavam-se os dos arquitectos modernistas Mallet-Stevens, Auguste Perret e Le Corbusier. “Les projets de ces trois architectes se ressemblait par leur symétrie d’ensemble et leur volonté commune de construire en hauteur. Perret entourait la porte Maillot de bâtiments horizontaux uniformes, ponctués de tours à chaque extrémité, dessinant ainsi deux grands blocs qui devaient encadrer la vue sur l’Arc de Triomphe. Mallet-Stevens et Le Corbusier plaçaient au centre, face à face, de hautes tours symétriques, de chaque côté de l’avenue de la Permanência e Poder 36 Fig. 14: “Vue du jardin des Tuileries comme il est á présent”, os jardins des Tuileries e a perspectiva dos futuros Champs-Élysées depois da intervenção de Le Nôtre, Gravura de Pérelle, XVIIº, museu Carnavalet [in PINON Pierre, Les traversées de Paris, Paris, Moniteur, 1989, p.130] Fig. 15: Fotografia dos Champs-Élysées no fim do século XIX, Henri Roger-Viollet, [in PINON Pierre, Les traversées de Paris, Paris, Moniteur, 1989, p.99] Fig. 16: Estátua La Défense, Escultor Barrias 1879 [in PINON Pierre, Les traversées de Paris, Paris, Moniteur, 1989, p.99] Poder e Monumentalidade 37 Grande Armée. Selon le projet de Mallet-Stevens, l’avenue était flanquée de tours jumelles reliées par une gigantesques arche ronde, tandis que celui de Le Corbusier, dans lequel l’entrée de l’avenue était également signalée par des tours, prévoyait une place piétonnière surplombant la rue”23. Os representantes da câmara decidiram, no entanto, que o programa da porte Maillot tinha que se integrar num plano global da via triunfal. Paris organizou, em 1931, outro concurso, para a reestruturação do eixo Étoile-Défense. Embora este concurso ter sido definido como um concurso de ideias com poucas probabilidades de ver as realizações construídas de imediato, o concurso indicava que propostas práticas eram desejadas. O primeiro prémio foi atribuído a Bigot que redesenhou a porta de Maillot colocando uma praça semicircular dedicada a Clemenceau24. Não é surpreendente que esta grandiosa via tenha inspirado muitos projectos. O conceito de via triunfal (Fig. 12) implicava a extensão e o embelezamento de uma das mais célebres estruturas urbanas. Do Louvre ao Arc de Triomphe (Fig. 13), esse eixo monumental integrou uma sequência arquitectónica magistral, uma paisagem formalizada e duas grandes praças evocando eventos importantes na História de França. Era natural que os seus conceptores tenham procurado igualar a grandeza do passado (Fig. 14). Entre as noções de escala utilizadas, aquela que pertence mais ao conjunto de componentes do eixo histórico é a escala dita “monumental”. A importância histórica do conjunto dos monumentos que compõe o eixo é notável pelas suas grandes dimensões (Fig. 15). Para marcar o fim desse grande eixo, houve, em 1960, um plano de reestruturaçao, um projecto para o “quartier de l’avenir” que iria da rotunda de La Défense até a porta de Maillot. Esse bairro seria um novo centro de negócios da cidade. Um projecto, de que iremos falar mais adiante, veio cloturar essa via triunfal e ordenar esse bairro. No contexto do anos 1930, os projectos da via triunfal aproximamse de uma tendência universal à arquitectura monumental tradicional. Embora os programas de via triunfal tenham sidos interrompidos pela crise dos anos 1930, o eixo monumental de Paris inspirou em Adolf Hitler o desejo de construir em Berlim uma estrutura análoga. O desejo de rivalizar com a capital francesa sempre obcecou Hitler, como quando ele comenta com Speer: “Paris est beau n’est ce pas? Mais Berlin doit devenir encore plus beau. Autrefois je me suis souvent demandé s’il fallait que nous détruisions Paris. Mais quand nous aurons achevé la construction de Berlin, Paris ne sera plus qu’une ombre. Alors pourquoi le détruire?”25. Actualmente, esse eixo tornou-se um verdadeiro alinhamento de monumentos do Oeste parisiense (Fig. 15). Começa pelo Louvre com a Pirâmide de vidro, passando pelo arco do Carrousel, o alinhamento 23. EVENSON, Norma, Paris : Les Héritiers d’Haussmann Cent Ans de Travaux et d’Urbanisme, 18781978, Paris, ensba, 1983, p.53 24. George CLEMENCEAU: (18411929) Homem político francês Permanência e Poder 38 Fig. 18: Projecto da praça da Bastilha, projecto com o elefante no meio J.A. Alavoine 1808, [in PINON Pierre, Les traversées de Paris, Paris, Moniteur, 1989, p.84] Fig. 17: Canal Saint-Martin, Parte subterrânea por baixo da praça da Bastilha, 1862 [in http://fr.wikipedia.org/ wiki/Canal_Saint-Martin#/ media/File:Le_Canal_ Saint-Martin_-_vue_de_ la_voûte_souterraine.jpg] Fig. 19: Place de la Bastille, Litografia de Benoist [in PINON Pierre, Les traversées de Paris, Paris, Moniteur, 1989, p.87] Poder e Monumentalidade 39 continua através do jardim des Tuileries até à Praça da Concorde, com um obelisco no seu centro. O eixo prossegue na avenida dos ChampsÉlysées até ao Arco do Triunfo e, sem parar, estende-se até ao último monumento: o arco de La Défense. Paris e nomeadamente essa via triunfal sempre inspiraram os arquitectos e os representantes do poder. Muitos contribuíram para a expansão e modernização da capital, muitas vezes para marcar a monumentalidade da cidade. Não nos podemos admirar que ainda hoje Paris fascina mais do que qualquer outra cidade em França e que ainda haja uma vontade de participar na sua visibilidade perante os outros países. Paris é um bom caso para exemplificar o uso do poder e da monumentalidade para se afirmar e ficar na história. Em Paris, existe outro marco simbólico, onde ainda hoje se reúnem as manifestações: a praça da Bastille. Independentemente dos eventos históricos, o fim do século XVIII selou o destino da Bastilha. Era um forte obsoleto há vários séculos e uma prisão quase vazia há vários anos. Sem utilidade e um obstáculo para a circulação, o velho castelo teve de desaparecer. Estava claro, há décadas, que o espaço situado entre o Faubourg, o Sena e os fossos de l’Arsenal seria destinado à navegação. Não podemos perceber a génese dessa praça sem conhecer o problema do abastecimento na capital. Era necessário dar a Paris uma estação de água. Desta forma, em 1778, houve a ideia de criar um canal de água entre a Bastilha e o Arsenal (Fig. 17). Depois da tomada da Bastilha, enquanto o castelo foi lentamente destruído, vários projectos foram apresentados. Só em 1792 é que uma lei ordenou “une place sur le terrain de la Bastille”26. O projecto para a praça da Bastilha só começou a ter consistencia com a lei da abertura do canal Saint-Martin até ao Sena, passando por baixo da praça. Essa praça circular tornou-se o ponto de reunião dos Boulevards interiores de Paris. Depois questionou-se qual o monumento para ornamentar a Bastille. Foi pensado um arco com duas aberturas, o imperador Napoleão I queria um elefante (Fig. 18), mas a decisão final foi para uma coluna, em 1835 (Fig.19). 25. EVENSON, Norma, Paris : Les héritiers d’Haussmann cent ans de travaux et d’urbanisme, 1878-1978, Paris, ensba, 1983, p.57 26. PINON, Pierre, Les Traversées de Paris, Paris, Moniteur, 1989, p.82 Permanência e Poder 40 Os presidentes O poder absoluto ou, pelo menos, o poder largamente predominante permitiu muitas vezes a quem o deteve, impor a sua marca na capital, quer seja modificando a estrutura (operações urbanísticas) ou construindo edifícios destinados a servir o prestígio da cidade e do seu construtor: “le monument glorifie – ou accuse – le prince qui l’a fait naître”27. Os chefes de Estado franceses que mais se interessaram por Paris foram: Philippe Auguste, Charles V, Henri IV, Louis XIII, Louis XIV, Louis XV, Louis-Philippe e os dois Napoleão. Nenhum dos Presidentes da IIIª e IVª República tinham nem a vontade, nem o poder mas foi, sobretudo, o sistema de governo da época que os afastou desse tipo de iniciativas. É de notar que, entre 1871 e 1914, os governos deixavam os chefes com as mãos livres sobre a política estrangeira mas teriam recusado qualquer elevação de um edifício de prestígio. Apenas depois da Segunda Guerra Mundial é que houve condições para o fazer. O primeiro que o poderia ter feito era o General De Gaulle graças à opinião pública da época, mas ele sempre recusou aproveitar-se dos seus privilégios, além de que, esse domínio de acção não o interessava. Foram os quatro Presidentes seguintes que herdaram da tradição construtora dos reis e imperadores, primeiro com uma certa tímidez e desafiando a opinião pública e depois, com François Mitterrand, com um à-vontade desconcertante. Essa escolha deliberada dos Presidentes a favor dos Grands Travaux culturais parisienses representa talvez um compromisso entre interesse público e prestígio pessoal. Nesses chefes de Estado, com sensibilidades políticas diferentes, a mesma vontade de monumentalidade levou a sucessos arquitectónicos e a alguns erros. Os trinta e três anos de mandato de George Pompidou, Valery Giscard d’Estaing, François Mitterrand e Jacques Chirac, viram devolver à arquitectura parisiense o seu aspecto de objecto de poder sem medo da monumentalidade que ostenta (Fig.20). Os monumentos de cultura parecem ser mais justificáveis a uma época de grande desenvolvimento económico, sociável e psicologicamente mais propício a uma nova arquitectura. 27. POISSON, George, Les Grands Travaux des Présidents de la République, Paris, Parigramme, 2002, p.5 Poder e Monumentalidade 41 28. André Malraux, (1901-1976) Ministro da Cultura entre 1959 e 1969. De Gaulle Apesar de, diferente dos seus sucessores da Vª República, o General de Gaulle não ter tido esse desejo de impor a sua marca monumental no território, foi o primeiro Presidente a criar um ministério inteiramente dedicado à cultura. André Malraux28, Ministro da Cultura contribuiu muito nesse sentido. Contudo, as obras culturais eram desinteressantes ao Presidente, devido à sua visão do Estado. Mostrava-se mais interessado nas grandes empresas industriais, com futuro: televisão a cores, Concorde, empresas espaciais, nucleares, informáticas, ou seja, De Gaulle não construiu nenhuma obra parisiense, mas aprovou o projecto da Torre Montparnasse e facilitou a mudança do mercado abastecedor des Halles do coração da cidade para os arredores. Esse último foi uma operação de urbanismo necessária e pedida há bastante tempo pelos cidadãos. Em 1960, depois de ter tomado essa decisão, vários estudos foram feitos para encontrar os locais ideais, onde um terreno de 200 hectares, em Rungis, foi aprovado. As obras duraram de 1964 a 1968. Esse projecto conduziu ao aumento da especulação fundiária ao torno das antigas Halles. Pompidou Foi preciso esperar pelo sucessor de Charles de Gaulle para ver verdadeiramente a era dos Presidentes construtores e da concepção dirigista que a acompanha. Tirando de parte o caso dos Halles, o último chefe de Estado que interveio nas transformações de Paris foi Napoleão III. O seu décimo oitavo sucessor, George Pompidou, em 1969, decidiu construir, no terreno de Beaubourg, um conjunto de monumentos consagrando à cultura contemporânea. “l’idée de Beaubourg se résume en quelques propositions. D’abord un centre culturel largement ouvert à toutes les formes d’expression de notre temps qui soit en même temps un lieu de loisirs et de jeux. La culture triste est morte. Un centre ouvert à tous les publics qui soit un instrument visant a élever le niveau culturel de la Nation qu’il s’agisse de l’aptitude à créer ou de la capacité de comprendre et de goûter”29. Para a construção desse museu, o Presidente decidiu dedicar um monumento inovador para a criação contemporânea. 29. DELARUE, Marie, Un Pharaon Républicain, Paris, Grancher, 1999, p.22 Permanência e Poder 48 resultados foram brilhantes. Obteve o diploma de Direito em 1937 e o de Ciências Políticas em 1938 com louvores e nos primeiros lugares do ano. Apesar da sua estadia em Paris e do curso, o jovem não perdeu a fé. Residia num lar com estudantes católicos, gerido por padres marxistas onde se praticava o retiro e onde se dava a missa. François Mitterrand assistia e participava em todas as actividades. Aliás, ele continuava a corresponder-se com os padres da sua vila natal, para obter conselhos. Todas as semanas contribuía para obras sociais, sendo mesmo nomeado Presidente de uma das associações, em 1936. Ou seja, não podemos ocultar o facto do catolicismo o guiar nas suas acções em inúmeras coisas. Desde a sua chegada a Paris, teve uma participação política activa e aderiu a um grupo jovem de um movimento de direita. Contudo, não se misturou com os monárquicos e os fascistas. Viveu o seu verdadeiro encontro com a literatura quando conheceu Claude Roy, um grande escritor francês daquela época. Mitterrand leu intensamente e de modo diversificado, o humanismo da literatura permitiu-lhe satisfazer a sua curiosidade. É sem dúvida essa curiosidade que o levou, apesar do seu posicionamento à direita, a alguns desfiles da Frente Popular e a alguns encontros com os seus líderes. Os cinco anos passados na capital reforçaram a personalidade de François Mitterrand, mas não foram a experiência decisiva da sua vida. Obviamente o jovem de Jarnac cresceu. Com vinte e dois anos, os seus gostos e escolhas afirmaram-se. Com os seus diplomas, pode esperar uma grande carreira. Infelizmente, como muitos da sua geração, a Guerra decidiu dar-lhe outro destino. Durante o tempo do conflito, François Mitterrand combateu na linha da frente até ficar ferido e passou a lutar pela vida num hospital militar. Foi nesse momento que os alemães o fizeram refém e levaram-no para um campo de prisioneiros na Alemanha durante quase dois anos. Quando Mitterrand foi preso, o campo encontrava-se num estado de pobreza extrema e as condições de vida eram deploráveis. Os prisioneiros, entregues a si próprios, viram instalar-se a lei do mais forte mas por pouco tempo. De facto, François Mitterrand assistiu a um evento que o marcou para a vida: o nascimento de uma sociedade onde regia a regra da partilha. Os homens que não eram obrigatoriamente do mesmo meio, reuniram-se e as leis criaram-se. Essa experiência afectou os seus ideais políticos, os seus valores e as suas crenças. “Par le hasard de la petite histoire, j’ai connu successivement, en l’espace de ces quatre à cinq ans, les camps de prisonniers de guerre en Allemagne, la France occupée, l’Angleterre, l’Afrique du Nord, de nouveau l’Angleterre et de nouveau la France, quelques mois avant la libération de mon pays. Tout cet itinéraire François Mitterrand 49 a préparé, il faut bien le dire, tout naturellement, une nouvelle étape de réflexion”3. Nesse campo, ele não tardou a dar-se a conhecer. Ele era apreciado pelo seu espírito e as suas análises. A eloquência funcionou uma vez mais. Participou em todos os tipos de actividades intelectuais e criou uma rede de amigos que o ajudou mais tarde na resistência e na sua vida política. Ele tentou fugir duas vezes desse campo, num espaço de sete meses mas foi sempre apanhado, uma vez perto da Suíça e outra perto de França. Contudo, na segunda fuga, que foi melhor preparada com papéis falsos, dinheiro alemão e bilhetes de comboio, ele e o seu companheiro conseguiram esquivar-se dos alemães, poucos quilómetros antes da fronteira. Foi a seguir a isso que ele iniciou a sua longa carreira de político. Encontramo-lo depois como funcionário na administração francesa, em Vichy, durante um ano. Começou no regime de Vichy para conseguir ter papéis legais e deixar de ser um fugitivo. Apesar ser um regime de coabitação que colaborava com os nazis, ele tinha o apoio de amigos da família e de antigos amigos. Por fim, tornou-se resistente clandestino, durante mais de um ano e foi representante de um movimento de refugiados de guerra antes de ser secretário geral do efémero governo de De Gaulle no fim da guerra. Tudo se precipitou para ele. Em conjunto com várias pessoas e servindo-se dos seus contactos do meio prisional, pôs de pé um movimento de resistência de grande amplitude, para a libertação do país. Mitterrand rompeu definitivamente com Vichy. Ele partiu para Londres onde se encontrou com de Gaulle e recebeu a ordem de fundir o seu movimento com o movimento gaulista, tornando-se um dos três líderes. Assim começou a carreira política de François Mitterrand. Três meses depois, o país é libertado dos Alemães. A pior prova desses anos negros de Mitterrand, não foi Vichy mas a sua experiência no meio dos prisioneiros. Com a libertação, a vida de François Mitterrand mudou, nomeadamente a sua vida privada. De facto, ele casou com Danièle Gouze, filha de uma família de resistentes, em Outubro 1944. Dessa união, nasceram três filhos, Pascal, Jean-Christophe e Gilbert. O primeiro faleceu com três meses, Mitterrand ficou devastado. A segunda dificuldade foi a morte do seu pai em 1946. Em 1945, François Mitterrand já não é Ministro porque de Gaulle substituiu-o. Durante alguns meses, ele procurou viver da sua escrita, colaborou com vários jornais e também publicou o seu primeiro livro. Em Novembro 1946 e durante quase duas décadas, tornou-se deputado da Nièvre. Fino estratega e brilhante orador, foi nomeado onze vezes Ministro entre 1947 e 1957. A IVª República estava na agonia, roída pelo cancro 3. Discurso pronunciado por François Mitterrand durante a cerimónia de abertura do ano académico do colégio da Europe, 13 Outubro 1987- [in www.Mitterrand.org 22/01/2015] Permanência e Poder 50 argelino. No 1º de Junho de 1958, de Gaulle redigiu uma nova constituição e conseguiu que os Franceses a adoptassem. François Mitterrand, que pediu para votarem contra, não tardou a pagar por essa oposição. Nas legislativas seguintes, ele foi derrotado. Por consequência, 1959 e o início dos anos sessenta foram péssimos para ele. Mas não desistiu e conseguiu ser eleito Presidente da Câmara de Château-Chinon, de 1959 até 1981, e também senador da Nièvre. Houve uma grande caminhada até ao poder entre 1965 e 1981. A derrota de 1965 contra de Gaulle que ganhou com 55% e o afastamento à corrida da esquerda à presidência em 1968 acabaram por convencer Mitterrand da utilidade de estar à frente de um grande partido que juntaria toda a esquerda não comunista. Dessa maneira, ele tornou-se líder do PS. A primeira etapa foi dotar o partido de um programa para o governo mas o calendário foi subitamente transtornado pela morte inesperada do Presidente Pompidou. A campanha foi curta, menos de um mês, o candidato Mitterrand falhou uma vez mais. Nas legislativas seguintes, em 1978, o partido de esquerda não conseguiu enfrentar a direita e perdeu na segunda volta. A campanha presidencial de 1981 foi lançada logo no inicio do ano. A noite de 10 de Maio de 1981, com quinze milhões de votos, François Mitterrand ganhou contra Valéry Giscard d’Estaing. Na Praça da Bastille, debaixo de chuva, o povo da esquerda reuniu-se. A multidão gritava um slogan que iria significar muito na conduta da sua presidência : “Mitterrand du soleil”4 em referência ao Roi Soleil5. François Mitterrand fez da cultura uma prioridade quando entrou para a presidência em 1981. Com Jack Lang6, lançaram inúmeras iniciativas: a Festa da Música, o preço único do livro e do disco, a lei sobre rádios livres, as grandes reformas audiovisuais, etc. Foi logo em 1982 que iniciou a política de grandes projetos culturais do Estado que muito rapidamente tomava a designação de Grands Travaux. Controversas num primeiro tempo, fazem agora integrante do património arquitectónico francês. A província não foi esquecida, mas foi sobretudo Paris que obteve a marca: Opéra de la Bastille, La Villette, Grand Louvre, Grande Arche de la Défense, Institut du Monde Arabe, etc. Mais tarde foi a Bibliothèque Nationale de France que, hoje em dia, tem como alcunha o nome do antigo Presidente francês. Quatro meses após a sua eleição, dia 24 de Setembro de 1981, durante a sua primeira conferência de imprensa, o novo presidente anunciava alguns dos Grands Travaux que, dizia ele, seriam “l’occasion d’un renouveau de la création architecturale en France”7. De facto, Mitterrand deu uma grande importância à arquitectura nos seus dois mandatos de sete anos entre 1981 e 1995. Essas obras não estavam mencionadas nas 4. http://www.mitterrand. org/1965-1981-Unelongue-marche-vers.html [8/02/2015] 5. REI SOL: Alcunha dada a Louis XIV por ser um rei absoluto com um poder intenso 6. Jack LANG, (1939-) Ministro da Cultura entre 1988 e 1993. 7. POISSON, Georges, Les Grands Travaux des Présidents de la Vº République, Paris, Parigramme, 2002, p.66 François Mitterrand 51 cento e dez propostas eleitorais. Se a cultura foi, pela primeira vez, um dos elementos importantes na campanha presidencial de 1981, ninguém podia imaginar que a grandeza arquitectónica seria um dos traços marcantes do novo Presidente socialista. No entanto, a ideia dessas obras devia já existir, mas ele absteve-se de comentar com quem quer que seja, nem com os seus Ministros nem com o partido socialista. Em campanha, o candidato não tinha de facto referido os seus projetos, mas tinha-os sem dúvida há algum tempo em mente. No seu livro La paille et le grain, publicado em 1975, ele escrevia “dans toute ville, je me sens empereur ou architecte. Je tranche, je décide et j’arbitre”8. A criação destes projectos conduz à outra invenção, em 1988, do ministério dos Grands Travaux. Durante a sua primeira entrevista de imprensa em setembro de 1981, François Mitterrand declarou que teve em conta o desenvolvimento do Museu de Orsay, o de La Villette e o projecto de la Défense. Obras que, diz ele, iriam marcar a estética moderna ao mesmo tempo que o urbanismo. Ele anunciou então que o Louvre voltaria a ter inteiramente o seu destino. Enumerando o que pretendia realizar, evocou também a criação de uma Cité Internationale de la Musique, de uma “Maison pour l’Islam”9 e uma fundação para a cultura europeia. Ele indicou, para finalizar, que já tinha avançado com algumas conversas para que fosse feita uma Exposição Universal em França em 1989. O objectivo era claro, era necessário festejar em condições o bicentenário da Revolução francesa. A realização desse grande programa, cuja primeira parte foi rapidamente definida e iniciada, ia, contudo, enfrentar duas das maiores dificuldades durante toda a década. Por um lado, a situação financeira, que se desmoronava ao ponto de provocar em 1982-1983, o abandono do projecto da Exposição Universal. O programa dos Grands Travaux teve repercussões com atrasos e amputações. Por outro lado, as dificuldades políticas devido às incertezas da opinião geral modificaram a acção da dupla presidência por três vezes: vitória legislativa da direita em 1986, reeleição de Mitterrand em 1988 seguido do regresso da esquerda para depois voltar para a direita em 1993. Esses períodos pesaram no programa e no calendário das obras, impondo supressões, abrandamento ou acelerações. Apesar deste contexto, o Presidente, durante esses quatros períodos, incluindo duas coabitações, conseguiu concluir os seus projetos. Alguns indivíduos, só homens de confiança, preparavam as iniciativas arquitectónicas do Presidente. No fim do ano de 1981, foi instituído o “grupo dos quatro”: Paul Guimard10, Jack Lang, Robert Lion11 e Roger Quilliot12. Designados pelo Elysée13 para desenvolver o programa do grande equipamento público, que deveria ser construído 8. POISSON, Georges, Les grands Travaux des présidents de la Vº republique, Paris, Parigramme, 2002, p.67 9. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands travaux à Paris 1981-1995, La dispute, Paris, 2007 p.23 10. Paul GUIMARD, (1921-2004) Escritor e Conselheiro do Presidente da República, Mitterrand. Permanência e Poder 52 em La Défense, mas viram-se rapidamente confrontados com um conjunto de projetos já mais ou menos definidos que trataram de agenciar e de estruturar: encontrar terrenos, pensar nas formalidades da designação de arquitectos, avaliar os custos da obra, pensar na possibilidade de nomear responsáveis. Na origem, os Grands Travaux do Presidente não tinham como finalidade ser exclusivamente culturais. A arquitectura foi de um certo modo posta ao serviço de edifícios que não eram destinados a abrigar instituições de carácter artístico. Essa preocupação era muito profunda. François Mitterrand, em 1981, estava tão motivado pela tradição de democratização cultural vinda da Revolução Francesa e da Convention que criou o Louvre como museu do povo, assim como pela ideia de liberdade. A emancipação dos cidadãos é inseparável da sua educação. Essa educação não pode ser assegurada sem que o património nacional seja posto à disposição do conjunto da colectividade. Ele tanto tinha a inquietação de continuar a tradição da Convenção como a decepção de constatar o estado de abandono da maior parte das instituições culturais: redução sucessivas, falta de orçamentos de funcionamento, redução dos funcionários, enceramento de algumas instalações ou de parte delas. Por exemplo, em 1981, o Louvre era obrigado a fechar por turnos perto de metade das suas salas, por falta de condições de funcionamento. No mesmo ano, a Biblioteca Nacional tinha à disposição um orçamento igual a um terço do orçamento da British Library que tinha a mesma importância a nível de colecções e visitas. Por exemplo, o Presidente respondeu ao porquê do seu interesse pelo Louvre que lhe foi feita durante a inauguração da ala Richelieu e François Mitterrand respondeu que pela sua própria experiência do museu, sempre teve vontade de mudar a organização para proporcionar um melhor desempenho e trazer mais visitantes a esse edifício que faz parte da história francesa. Os Grands Travaux respondiam no espírito do Presidente, à vontade de pôr um fim à negligência que sofriam os grandes equipamentos culturais do país e de favorecer o seu acesso à um maior número. A mudança de todo o espaço urbano teve uma grande ajuda dado que indirectamente a população necessitava de mais espaços culturais. Com esta estratégia delineada colmatou-se uma falha existente e foram idealizados espaços revitalizantes para a cultura populacional. ”Faciliter l’accès de tous aux œuvres, aux savoirs, d’hier et d’aujourd’hui, telle est la première ambition des grands projets ”15. Algumas iniciativas já tinham sido tomadas, nos governos do General de Gaulle, com André Malraux e, depois, de Georges Pompidou, com Jacques Duhamel17. Contudo, o verdadeiro salto quantitativo foi feito no início dos anos 1980. O orçamento da cultura 11. Robert LION, (1934-) Director do gabinete do Primeiro Ministro Pierre Mauroy entre 1981 e 1982 12. Roger QUILLIOT, Ministro do urbanismo e do alojamento de 198183 13. ÉLysée: Residência oficial do presidente da república francês 15. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, La dispute, Paris, 2007 p.24 16. POISSON, Georges, Les Grands Travaux des Présidents de la Vº République, Paris, Parigramme, 2002, p.67 François Mitterrand 53 aumentou consideravelmente, tal como novos processos administrativos e específicos foram impostos graças a uma forte vontade política. Jack Lang costumava dizer “qu’avec François Mitterrand la culture passait de la nuit à la lumière”18. Podemos afirmar que os Grand Travaux estavam inseridos numa nova geração de equipamentos nos quais as ideias e o futuro são sublinhados a cada passo. Todas as obras e planos elaborados são uma montra para a Ciência, a Cultura e a Arte, tendo em vista a época e a sociedade presente. Todos estes espaços que nasciam levavam a que as relações pessoais da população tivessem uma coexistência cultural no centro da cidade de Paris, isto é, era finalmente possível admirar uma arquitectura rica e grandiosa. Para além do impacto visual causado por todas as obras, também o impacto do modo de vida das pessoas seria alterado dado que a cidade ganharia uma nova e melhor vida com todos os trabalhos de arquitectura que foram elaborados. No fim do seu segundo mandato, François Mitterrand estava muito fraco devido ao seu cancro, estava doente e sabia desta realidade desde 1980, ou seja, antes de ser eleito Presidente. Ele conseguiu esconder durante quase catorze anos o seu estado de saúde e falsificar os relatórios para continuar a representar a França. Ele sabia que as suas capacidades não seriam afectadas para a presidência, o que foi uma realidade até o fim do seu segundo mandato. Mitterrand estava com falta de tempo para acabar os seus planos. Ele queria ver acabado o mais rapidamente possível as obras para poder assistir ainda às inaugurações e ver as obras realizadas e alcançadas. Ele morreu dia 8 de Janeiro de 1996, meses depois de concluir o último ano de mandato e de sair do Palais de l’Élysée. A lição que se pode tirar disto é a diversidade dos móbeis do Presidente da República: nos quais, o desejo de renovação, de desenvolvimento de equipamentos saturados e obsoletos: o que é verdade para o Louvre, Biblioteca e o Museu de História Natural cuja a grande galeria esteve fechada durante anos. Havia sempre a preocupação de democratização de acesso à cultura. Para François Mitterrand, a cultura é um elemento inseparável de toda a liberdade, de toda libertação individual. Sente-se que Mitterrand tinha uma vontade de actuar de forma activa e inovadora na cidade , o que permitiu a chegada e implantação de um novo programa urbano com modelos de gestão diferentes. O inovador programa dos Grands Travaux tornou-se inevitavelmente um dos mais reconhecidos períodos da história da reestruturação da cidade de Paris. Hoje em dia as cidade lutam, incontestavelmente, por se diferenciar através dos seus factores de competitividade e inovação. 18. POISSON, Georges, Les Grands Travaux des Présidents de la Vº République, Paris, Parigramme, 2002, p.66 17. Jacques DUHAMEL (1924-1977) Ministro da Cultura entre 1971 e 1973 Permanência e Poder 54 Ora, através de princípios de desenvolvimento urbano importantes para a sociedade parisiense e estrangeira, os Grands Travaux apostavam em projetos capazes de construir vantagens competitivas. Sabemos que a capital francesa apresenta actualmente uma enorme notoriedade graças ao contributo destes grandes projetos urbanos. A ideia inicial que aspirava à continuação da integração de Paris numa dinâmica de competição entre as diferentes metrópoles mundiais nasce da necessidade de atracção dos fluxos que começavam na altura a divergir para outros territórios internacionais. Essa ideia de atracção que se pretendia desenvolver é o resultado do esforço de conciliação entre a sociedade e a sua cidade, através da ideia de conjunto proporcionada pela integração de edifícios culturais no centro de Paris. O grande destaque dos Grands Travaux é incontestavelmente Mitterrand. A sua vontade, a mentalidade inovadora e a dedicação foram os factores que levaram a que fosse possível a realização deste inovador conceito arquitectónico. A reestruturação da cidade, a diferenciação que Paris conseguiu em comparação com outras cidades e sem dúvida a notoriedade que trouxe é algo de extraordinário. Sem dúvida que a política teve um papel muito importante neste tema e sem a vontade de todos os envolvidos nada conseguiria ser realizado. A transformação do quotidiano parisiense foi parte da transformação idealizada e o papel do Presidente foi fulcral. A vontade de impor as ideias e opiniões foram uma grande força. Podemos afirmar que o Estado e arquitectura andaram de mãos dadas e sem isso nada seria concretizado. François Mitterrand 55 Fig. 24: François Mitterrand em 1984 [in http://www.portugues. rfi.fr/node/67841 Fig. 23: François Mitterrand durante guerra. [in http:// www.gqmagazine. fr/mode/le-style-de/ diaporama/le-stylemitterrand/2327#lestyle-mitterrand] Capítulo III Os Grands Travaux de Mitterrand Permanência e Poder 64 que menos espaço ocupa. “La pyramide fortifie l’entrée unique. Celle-ci justifie la pyramide”9. A vontade de ter escolhido a transparência era uma solução para dois problemas, o da iluminação do piso enterrado previsto ”épicentre de ce redéploiement, la pyramide. Signal visible et fruit épuré de la nécessité, elle participe au dialogue des formes et y intègre la lumière“10 e para poder continuar a ver os edifícios do interior. Entre 1985 e 1988 vimos a pirâmide levantar-se. Ela representa, em mais pequena, as proporções da pirâmide de Khéops : 21 metros de altura, 34 metros de aresta na base e com arrestas de 50,7 graus. Ainda foram construídas mais três pequenas pirâmides para iluminar o novo piso subterrâneo. A pirâmide de vidro foi montada graças a uma estrutura de um material utilizado no avião Concorde, mais sólido que o aço. O vidro tinha uma nova composição, inventada pela Saint-Gobain, para torná-lo ainda mais transparente. Assim foi utilizado tecnologia do século XX para construir uma forma sugestiva da antiguidade. Pei explicou os seus sentimentos sobre a obra, ”pour les Français, le Louvre n’est pas seulement une collection de chefs-d’œuvre, il est au cœur de leur histoire et souvent de leur vie quotidienne. […] J’ai compris qu’il était impossible d’imposer une rupture dans l’architecture du Louvre car celuici est doté d’une personnalité si forte que tout édifice qui lui serait ajouté et surtout attaché, serait rejeté par l’œil”11. Essa pirâmide compõe-se de 673 módulos de vidro. Pei inspirou-se de Le Nôtre mais do que qualquer outro. A geometria própria do módulo que ritma a pirâmide é francesa. O vidro que reflecte o Louvre e o céu vão brincar com a luz de Paris, luz que está constantemente a mudar. Pei defedeu que a sua intervenção foi muito discreta: intervenção mínima para uma transformação máxima. “Enveloppe faite de quatre-vingt mille mètres cubes de béton rosé, “doux de décoffrage”, coulé dans du pin d’Oregon minutieusement assemblé: Pei surveillait lui-même la composition de ce béton, qu’il n’hésitait pas à qualifier de “ plus beau du monde”, et la façon de le couler”12. O povo francês, que interpretou essa ideia como monumental e agressiva, iniciou la bataille de la pyramide13, a contestação mais violenta de sempre sobre um monumento de Paris. Mas sem esse projecto, nunca se teriam descoberto as ruínas. De facto, as obras foram precedidas, a partir de 1984, da mais importante escavação realizada em França e que obteve resultados espectaculares. Descobriram a antiga torre de Philippe Auguste, com 18m de diâmetro, as alas norte e este das Tuileries e objectos que pertenciam a Charles VI. Como tinha aventurosamente prometido Mitterrand:“Rendre le Louvre à l’Histoire de France”14 Algumas dessas ruínas estão visíveis no museu e Pei adaptou os seus desenhos para tal. Numa das primeiras reuniões, convocada para os membros da 10. CHAINE, Catherine, Le Grand Louvre : du Donjon à la Pyramide, Paris, Hatier, 1989, p.1 11. CHAINE, Catherine, Le Grand Louvre : du Donjon à la Pyramide, Paris, Hatier, 1989, p.2 12. POISSON, George, La Grande Histoire du Louvre, Paris, Perrin, 2013 p.435 13. Nome de um filme dedicado a esse episodio por Frédéric Compain. 14. POISSON, George, Les Grands Travaux des Présidents de la Vº République, Paris, Parigramme, 2002, p.97 Grands Travaux de Mitterrand 65 Comissão Superior dos Monumentos Históricos, Pei foi alvo de insultos. A sua proposta não foi, de todo, aceite nesse dia. Os media reagiram rapidamente sobre o assunto com palavras assassinas. Foi depois, noutra reunião com os sete conservadores do museu, em Arcachon, que foi dado o devido valor ao projecto, tirando crédito ao que fora dito anteriormente. Ainda faltava convencer Jacques Chirac, o Presidente da Câmara de Paris e para tal, foi construído, em 1985, uma amostra de pirâmide em escala real com a ajuda de cabos e de uma grua no Pátio do Louvre, como já tinha sido feito para o projecto de La Défense em 1983. Jacques Chirac ficou convencido depois dessa demonstração. O grande contratempo nas obras no Louvre foi a resistência do Ministro Balladur em sair dos locais do Louvre, atrasando o calendário. Essa atitude indignou o arquitecto do Grand Louvre: “Le ministre des Finances n’est pas là pour l’éternité... Il n’y aura pas de Grand Louvre sans l’aile Richelieu, et tout le monde s’en apercevra peu à peu. L’évolution du Louvre vers le Grand Louvre est inéluctable”15. De facto, Mitterrand mandou destruir, prematuramente, os escritórios do Ministério das Finanças alojados na Ala Richelieu, com intuito de tornar a operação irreversível, apesar de nunca ter tido o consentimento do Ministro. Os novos gabinetes em Bercy ainda não estavam prontos e Balladur recusava mudar-se temporariamente para outro edifício. Isso fez com que mandassem reconstruir tudo da mesma forma na Ala Richelieu para que assim, Balladur pudesse voltar ao seu gabinete. Foi uma perda de tempo e de dinheiro considerável. Podemos acrescentar que as obras, perto das instalações do Ministro, tinham que ser controladas devido ao barulho e tiveram que ser realizadas de noite para não incomodar. Em consequência, houve duas inaugurações, uma sem a Ala Richelieu, em 1989, e outra com todo o espaço do Louvre dedicado ao museu, em 1993. O Grand Louvre possibilitou que o museu passasse de trinta mil metros quadrados de salas de exposição para cinquenta e dois mil e finalmente, com a abertura da Ala Richelieu passasse a ter sessenta mil metros quadrados, em 1997, distribuídos em 15 km de galerias. “Le musée d’aujourd’hui épouse sans restriction le palais. Des collections mieux présentées, des services mieux installés, des visiteurs mieux accueillis”16. É comum dizer que o eixo histórico de Paris começa no Louvre mas não propriamente nos edifícios do Louvre. Inicia na estátua em bronze de Luís XIV, de Bernini, situada no pátio Napoleão. O Louvre está desviado do eixo da via triunfal e o arquitecto Pei decidiu alinhar a pirâmide com o seu museu (Fig. 25). Ou seja, a pirâmide situa-se num marco importante de Paris mas não corresponde perfeitamente ao alinhamento, o que não deixa de ser uma localização simbólica para Mitterrand. 15. BIASINI, Emile; PEI, Ieoh Ming, L’invention du Grand Louvre, Paris, Odile Jacob, 2001, p.112 16. CHAINE, Catherine, Le Grand Louvre : du Donjon à la Pyramide, Paris, Hatier, 1989, p.1 Permanência e Poder 66 Fig. 25: Planta do eixo da pirâmide com o Louvre e a Via triunfal BIASINI, Emile, L’invention du Grand Louvre, Paris, Odile Jacob, 2001, p.5 Fig. 26: Desenho em relevo de Pei, 1983, in BIASINI, Emile, L’invention du Grand Louvre, Paris, Odile Jacob, 2001, p.6 Fig. 27: Programa do novo piso subterrâneo in [BEZOMBE, Dominique, Le Grand Louvre : Histoire d’un Projet, Paris, Grand Louvre, 1993, p.51] Circulação Espaços de atendimento ao público Vazio do hall Napoleão Salas de história do Louvre Espaços não públicos Grands Travaux de Mitterrand 67 Fig. 28: Transparência da pirâmide in [http:// fancy-lifestyle.tumblr. com/post/61217691759] Fig. 29: Hall Napoleão, piso subterraneo in [http://www. juzaphoto.com/galleria. php?t=271422&l=en] Permanência e Poder 68 Fig. 31: François Mitterrand na inauguração do Grande Louvre em 1990 in [ http://www.lexpress.fr/ diaporama/diapo-photo/ actualite/politique/ francois-mitterrand-undestin-francais_950612. html?p=16#content_ diapo] Fig. 30: Escala da pirâmide em relação aos edifícios in [https:// www.pinterest.com/ pin/4946923402934 66484/] Grands Travaux de Mitterrand 69 A história de La Défense está intimamente ligada à nascença do eixo histórico de Paris. Uma perspectiva única partindo do Louvre, atravessando a Concorde, os Champs-Élysées, o Arc de Triomphe e acabando em La Défense. Cada época tem, desde aí, contribuído para a construção dessa via rectilínea, única no mundo e hoje com oito quilómetros. No conjunto desse encaminhamento, o eixo majestoso é pontuado regularmente por formas puras e carregadas de um grande simbolismo: a Cour Carrée, a Pirâmide, o Arco de Carrousel, o Obelisco e o Arco do Triunfo. Foi antes da Segunda Guerra Mundial que nasceu a ideia de prolongar a via triunfal até à floresta de Saint-Germain-en-laye e de fazer um eixo de urbanização, para abrandar a anarquia do desenvolvimento da periferia parisiense. Durante muito tempo, La Défense resumiu-se a uma rotunda com uma estátua de Napoleão no seu centro. Durante a ocupação de 1870, essa estátua desapareceu sem que houvesse alguma explicação, sendo mais tarde encontrada no fundo do rio Sena, perto da ponte de Neuilly. A base da estátua serviu de ponte de mira para a artilharia e assim garantir a defesa de Paris. Em 1883, uma estátua “La Défense de Paris”17 em nome da glória dos defensores da cidade foi erguida na rotunda da butte Chantecoq, e foi assim que La Défense encontrou o seu nome de baptismo. Entre as duas guerras, foram lançados dois concursos de arquitectura sucessivos para estruturar o eixo entre a Porte Maillot e a rotunda de La Défense. Esses concursos de ideias ficaram sem efeito mas contribuíram para convencer que algo tinha que ser feito para lá da ponte de Neuilly. Um eixo urbano não é um universo unidimensional, nem um simples corredor. O relevo, a história da cidade e a presença de traçados complementares transformam-no numa série de estruturação. De perfil e no comprimento, a praça de l’Étoile separa o eixo Oeste de Paris em duas sequências, de maneira a que o Arco de Triunfo seja visível ao longo do eixo. 17. TORRES, Félix, Paris La Defense: Métropole Européenne des Affaires, Paris, Moniteur, 1987, p.21 2. Grande Arco de La Défense Esquisso de capa de capítulo, esquisso do concurso para o Arco de La Défense, in [REITZEL, Erik, La Grand Arche - sur l’Axe de Paris, Paris, archibooks, 2011, p.40] Permanência e Poder 70 Hoje, La Défense é o primeiro centro de negócios europeu graças à sua capacidade de reunir grandes escritórios. Contudo, La Défense, que iniciou essa concentração de torres nos anos de 1960, está longe de ser uma zona isolada, é um bairro misto com escritórios, alojamentos e um centro comercial, onde o sector terciário está muito desenvolvido. O EPAD, Établissement Public pour l’Aménagement de la Défense, foi criado em 1958, pelo Estado, para construir, gerir e animar a zona. O primeiro órgão do seguimento para Oeste fora da capital e que marcou o início das construções de escritórios foi o Centro Nacional das Indústrias e das Técnicas (CNIT), ao qual foi dada a licença de construção em 1954. Um observador situado no pátio do Louvre e olhando para a perspectiva dos vazios dos dois arcos do Carrousel e de l’Étoile, vê o aparecimento de dois conjuntos de torres de La Défense de um lado e de outro do Arco do Triunfo. La Défense, composta por uma vasta esplanada, continuava inacabada enquanto os dois grupos de torres não ficassem resolvidos por uma forma arquitectónica para dar uma unidade a esse conjunto, composto também pelo CNIT e pelo centro comercial. A procura de uma solução necessitou de uma dezena de anos, período bastante razoável para a escala do tempo de uma metrópole, continuando o problema de quem iria decidir o futuro das construções de La Défense. “Le grand axe ouest de Paris est en effet un véritable livre d’or de l’histoire de France, et nul autre qu’un chef d’État n’a la légitimité pour choisir la signature nouvelle à y apposer”18. Em 1969, o arquitecto Ieoh Ming Pei tinha sugerido a ideia de uma construção como marco desse lugar para um dos vários concursos lançado pelo EPAD. O seu projecto não chegou a desenvolver-se, mas a ideia de estabelecer a coerência de La Défense por uma construção com grande porte simbólico tornou-se o principal objectivo. Em 1973, Aillaud19 apresentou outro projecto que propunha duas torres em vidro espelhado e parabólicas que reflectiam o eixo ao contrário. A sua vontade era fechar a via porque partia do facto que a paisagem urbana acabava ali e que depois as estruturas urbanas mudavam radicalmente: “Une perspective qui a huit kilomètres, ne peut durer jusqu’à la mer.. Au delà d’une certaine mesure, la voie “royale” ou “triomphale” n’est plus qu’une route et passe du domaine monumentale à celui de la voirie”20. O projecto nunca foi realizado por falta de financiamento. Um outro projecto foi escolhido em 1980 mas que também ficou sem efeito devido à mudança de presidência no ano seguinte. Com a eleição de François Mitterrand, começou-se a falar em grandes projectos de arquitectura culturais. A última escolha para La Défense foi posta de parte mas um concurso internacional foi lançado logo 18. LACAZE, Jean Paul, Paris, Urbanisme d’État et Destin d’une Ville, Paris, Flammarion, 1993 p.132 19. Émile AILLAUD, (1902-1988) Arquitecto francês que foi depois designado para acabar a obra do arco de La Défense 20. SPRECKELSEN, Johan Otto; ANDREU, Paul, La Grande Arche, Paris, Hervé, 1997, p.4 Grands Travaux de Mitterrand 71 em 1982. Depois de uma tentativa infrutuosa de atrair para ali a nova ópera, cuja localização em la Bastille foi preferida, um programa concretizava-se: o edifício devia abrigar quatro pólos de actividade: Carrefour International de la Communication (45 000m2), organismos associados a esse Carrefour (30 000m2), os Ministérios do Urbanismo, do Alojamento e do MeioAmbiente (75 000m2) e por fim, comércios e serviços (10 000m2). O programa foi depois revisto por falta de empenho nesse Carrefour e por mudanças de local para o Ministério. Já havia esquissos do edifício mas continuava sem ter um programa definido. Aliás, Mitterrand estava “plus intéressé par la forme du monument que par son contenu”26. Ninguém se preocupou, na altura, sobre as falhas do programa. Repararam depois que as instalações dos escritórios eram demasiados estreitas. Mitterrand continuava hesitante sobre o projecto e pediu, em 1983, uma amostra em ponto real para poder visualizar e assim decidir. Um plataforma de 400 metros, desenhada em falso mármore branco, foi levantada à altura necessária graças a uma grua. Foi dessa maneira que o Presidente ficou convencido e mandou avançar com o projecto. O edifício foi acabado em 1989 e foi seguir que decidiram vender os espaços de um dos pilares à empresa Axa e deixaram o outro pilar para o Ministério do Equipamento, “ce monument n’a pas reçu une affectation digne de sa situation et de son élégance”27. O programa sugeria um monumento, uma porta à escala do eixo e um marco no eixo. Faltava ainda saber se era melhor fechar esse eixo ou deixa-lo em aberto. O concurso obteve 419 projectos, representados por 41 países que foram atentamente examinados. Depois de uma primeira selecção ficara 171 propostas; na segunda selecção sobraram 58 e depois 25 candidatos ficaram em concorrência. Por fim, 4 soluções foram apresentadas ao Presidente da República. Dia 25 de Maio 1983, a decisão final foi: “Le Président de la République a apprécié le haut niveau architectural des projets qui lui ont été soumis. Parmi ceux-ci, il a décidé de retenir la proposition de M. Spreckelsen, dont le projet est apparu remarquable par sa pureté, par la force avec laquelle il pose un nouveau jalon sur l’axe historique de Paris et par son ouverture”21. A força, a elegância e a pureza que se destacavam do arco de M. Spreckelsen, sem fechar a perspectiva, encantaram o júri: “Le jury a primé ce projet pour la clarté de son concept, pour sa force symbolique, pour la simplicité de son expression et pour l’exactitude, en même temps que la poésie, qui se dégagent de l’architecture proposée. La silhouette de ce portique vue des principaux points de l’axe historique a paru au jury heureusement proportionnée“22. A escolha final do Presidente da República não levantou nenhuma crítica por parte dos arquitectos parisienses que foram quase todos unânimes. 21. SPRECKELSEN, Johan Otto; ANDREU, Paul, La Grande Arche, Paris, Hervé, 1997, p.6 22. SPRECKELSEN, Johan Otto; ANDREU, Paul, La Grande Arche, Paris, Hervé, 1997, p.6 23. McCLURE Bert, Architectures Capitales Paris 1979-1989, Paris, Electra, 1989, p17 Permanência e Poder 72 Símbolo de Paris, o Arco é também uma nova etapa no eixo que começa nas Tuileries. Ele abre-se sobre o futuro da cidade para os seus subúrbios. O Arco vê-se de longe em todas as direcções. As dimensões são impressionantes: “La composition d’ensemble est monumentale par ses dimensions: Notre-Dame pourrait tenir, avec sa flèche, dans le volume libéré au centre entre le socle et le toit”23. No lugar escolhido para implantar o Arco, o subsolo está escavado com três túneis do RER, duas vias de autoestrada, o parque de estacionamento do centro comercial e uma parte da estação de comboios. Com isso tudo, só uma possibilidade de implantação era possível com um desvio em comparação ao eixo histórico. Esse ângulo de 6,33º com o eixo, completamente aleatório, foi interpretado de diversas maneiras como transposição da inclinação semelhante ao pátio do Louvre (e a pirâmide) ou por causa de uma vontade, de um desejo afirmado de brincar com as convenções da perspectiva: pôr o edifício de maneira oblíqua é a única maneira de ver a espessura. “En étant légèrement désaxé, le bâtiment devient accueillant, il fait signe aux gens, les invite à rentrer”24. Com uma altura de 110,90m, ele implanta-se em cima de fundações de 30,10m. A grande construção necessitou de alguns “híper-betões” que foram criados e usados para a ocasião, com uma resistência muito superior à média e de uma maior elasticidade para ser transportado até 100 m de altura sem acidentes. O edifício assenta em cima de 12 pilares de fundação. Existe uma camada de neopreno entre esses pilares e o edifício em si. (Se houvesse uma grua gigante, o edifício poderia ser levantado pelo facto de não estar preso mas simplesmente pousado.) Os melhores materiais foram escolhidos com cuidado pelo arquitecto, que fazia questão de dar um outro brilho ao vidro, ao mármore, ao alumínio e ao betão. Alguns foram inventados para satisfazer a sua exigência técnica e estética nomeadamente para as fachadas, os elevadores e a “nuvem” estendida nos dois lados do arco. Os modos de construção deviam estar em perfeita sincronia para evitar qualquer perda de tempo. Na sua concepção e nos seus princípios construtivos, a obra de la Grande Arche acumulou proezas técnicas e inovações. Também se encontra, na realização dos elevadores exteriores, uma grande proeza técnica com um grande nível de exigência estética. Spreckelsen queria não só que fossem meios de transporte mas também objectos de animação. Johann Otto von Spreckelsen soube encontrar uma bela resposta urbanística e arquitectónica ao problema. “Il s’en dégage une étonnante leçon de planification urbaine car nous sommes là, incontestablement, au niveau de ces permanences qui traversent les siècles en retrouvant, à chaque période, des significations nouvelles d’une très grande force. Car 24. POISSON, George, La Grande Histoire du Louvre, Paris, Perrin, 2013 p.81 25. LACAZE, Jean Paul, Paris, Urbanisme d’État et Destin d’une Ville, Paris, Flammarion, 1993 p.137 Grands Travaux de Mitterrand 73 l’histoire du grand axe ouest de Paris est loin d’être terminée. […] le rondpoint de Perronnet, l’Arche de Spreckelsen, gestes de pure créativité, peuvent avoir une influence décisive sur le destin d’une métropole“25. A escala do bairro, o Grande Arche conseguiu ligar os dois conjuntos vizinhos do eixo, mantendo a simbólica de abertura. À escala do eixo, a proeza técnica que constitui, enriquece a simbólica da capital inscrevendo um tema contemporâneo no seguimento dos vazios dos arcos de triunfo. A reacção do público revelou-se totalmente positiva durante a inauguração do edifício. O centro de negócios ganhou uma grande afluência turística que rompe com a sua extrema funcionalidade. A grande escadaria de mármore branco, apesar da sua dimensão colossal, seduz os passantes. Com o Arco como plano de fundo, ele oferece um cenário apreciado em dias de festas e nos eventos ao ar livre. Os jovens do bairro adoptaram também este sitio que, dessa maneira, ganhou uma autêntica centralidade. Mais do que nenhuma outra operação de urbanismo, La Défense testemunhou das hesitações do Estado confrontado com as decisões de arquitectura, da tentação de marcar um sítio, uma época, por alguma coisa de “grande” e a incapacidade de escolher. Mitterrand agiu tão rapidamente e conscientemente que os seus sucessores poderiam não continuar o que ele empreendia. Acelerou, no limite do possível, o esforço da administração, os gabinetes de engenharia e as empresas, para não poderem voltar atrás. Financeira e comercialmente, a operação foi um sucesso incontestável. As receitas, alimentadas principalmente pela venda das taxas dos escritórios, fizeram mais do que cobrir o custo das obras e de funcionamento. O Arco foi inaugurado dia 14 de Julho de 1989, durante o bicentenário da Revolução Francesa e durante a ocasião do G728. O Arco foi baptizado Arche de la Fraternité. Spreckelsen faleceu a 16 de Março 1987 sem ter visto o acabamento da sua obra. Foi então o arquitecto Aillaud é que foi responsável pela obra. 26. POISSON, George, La Grande Histoire du Louvre, Paris, Perrin, 2013 p.82 27. POISSON, George, La Grande Histoire du Louvre, Paris, Perrin, 2013 p.89 28. G7: Grupo de discussão e sociedade económica de sete países dos quais fazem parte as maiores potencias económicas : USA, Japão, Alemanha, França, Reino-Unido, Itália e Canada Permanência e Poder 80 da intensidade da luz (Fig.38). Esses diafragmas apresentam formas geométricas inspiradas na arte decorativa árabe. À época, os custos associados à sua construção geraram uma enorme polémica, no entanto, ainda assim, este é um óptimo exemplo que remonta a uma das mais gloriosas épocas da arquitectura, marcada por fachadas monumentais. Também são notórios no IMA, os jogos de espaços relacionados com a dilatação e contração, uma sala hipostila que evoca as grandes mesquitas e um trabalho de reflexos, refracção e contraluzes que atribui a sua magia ao lugar. A característica geral do edifício é a transparência, em que a luz chega por todos os lados, o que justificoza ausência de cores. “Ce qui, pour moi, caractérise l’architecture arabe, c’est l’utilisation de la lumière comme matériau de cette architecture. [...] J’ai donc voulu que la première matière de l’Institut du monde arabe soit la lumière: le mur sud est constitué comme une sorte de moucharabieh. [...] Les diaphragmes permettent de réaliser en les dosant ces figures, de faire en sorte que, suivant la saison, on laisse entrer plus ou moins de lumière”31. O concurso organizado para a realização desse primeiro dos Grands Travaux do duplo mandato de François Mitterrand, marca uma mudança radical da política arquitectónica. Pela sua implantação, dimensão, desafios e complexidade, o IMA aparece imediatamente como um projecto teste e foi necessário um trabalho árduo e uma sorte milagrosa para ele ganhar. O Instituto, mais que um museu, é um diálogo entre tecidos urbanos, entre os tempos e entre as culturas. Da cultura árabe, Jean Nouvel reteve a ciência dos números, o prazer da geometria, propensão à interioridade, o refinamento das luzes, da cultura ocidental, privilegiou a fascinação pelo futuro, a modernidade, a novidade, o gosto da velocidade, o sentido da organização e a destreza mecânica. A arquitectura desenvolvida no Instituto do Mundo Árabe, edificado entre 1983 e 1987, amplia a mudança de visão em França sobre a cultura árabe. O edifício, que atrai um milhão de pessoas por ano, foi muito bem recebido e até já foi celebrado. Vinte anos depois, podemos contudo constatar que as ligações com a arquitectura árabe são escassas: ninguém, percorrendo a “falha” pensa numa rua de uma Medina tal como devia supostamente fazer lembrar (Fig. 39), os moucharabiehs electrónicos não lembram os verdadeiros moucharabiehs, o edifício tem uma altura desconhecida da arquitectura oriental e não tem jardins, um acompanhamento obrigatório para qualquer residência árabe. 31. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, Paris, La dispute, 2007, p.191 Grands Travaux de Mitterrand 81 Fig. 36: Plantas do Instituto do Mundo Árabe in [McCLURE, Bert, Architectures Capitales Paris 19791989, Paris, Bilingual, 1989, p.83] Fig. 37: Implantação do Instituto do Mundo Árabe in [http:// architous.1fr1.net/t1692l-institut-du-mondearabe-paris-france] Fig. 38: Moucharabieh do Instituto do Mundo Árabe in [NOUVEL, Jean, Institut du Monde Arabe, Paris, Demicercle, 1995, p.25] Permanência e Poder 82 Fig. 39: Moucharabieh do Instituto do Mundo Árabe in [LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, Paris, La Dispute, 2007, p.75] Fig. 40: Fachada do Instituto do Mundo Árabe in [http://www. imarabe.org/architectureinstitut-du-monde-arabe] Grands Travaux de Mitterrand 83 O terreno de La Villette, o qual o canal Saint-Martin atravessa a meio, estava abandonado. Em 1956, houve a ideia de construir uns matadouros de grande amplitude e assim aproveitar aquela zona. Dessa forma, em 1969, abriam os novos matadouros e a sala de vendas, muito modernos. Mas no mesmo ano percebeu-se que foi um investimento em vão. Foi o maior falhanço do Estado. De facto, as matanças efectuam-se cada vez mais nas aldeias de modo a evitar o transporte dos animais vivos. Foi então que sucedeu, em 1979, a ideia de transformar os matadouros e o edifício da sala de vendas porque já não tinham razão de ser. A sala de vendas reconvertida serviu para um Museu das Ciências e da Indústria. No mesmo ano, foi lançado um concurso nacional com 24 participantes e 7 finalistas, Fainsilber ganhou, propôs aumentar a sala de vendas e fazer o maior museu científico do mundo com 120000m2. O museu estando finalmente em construção, devia abrir fins de 1984. Entretanto, Mitterrand foi eleito Presidente e tudo podia ainda mudar, mas decidiu manter o programa, alargando-o consideravelmente: “on créerait la un centre vivant d’activités et d’échanges dans ce quartier défavorisé”32. O complexo de La Villette seguiu um caminho caótico e dispendioso mas o que importava na altura era reagir. Faltava completar o conjunto, com um parque, uma sala de concerto e uma cité dedicada à música. A ideia global, à escala do terreno, era um espaço cultural urbano com funções múltiplas. Para Fainsilber, “le parc était le prolongement légitime du musée, ils formaient un paysage global “33. Uma esfera espelhada. A Géode, a sala de projecção esférica de La Villette, já tinha sido adoptada no projecto de Fainsilber, mas, durante a presidência de Giscard d’Estaing, foi escrita uma nota da parte do Eliseu pedindo expressamente a deslocação dessa “protubérance disgracieuse, contraire au goût français”34 para o interior do museu. Foi depois com Mitterrand, que a Géode voltou ao sítio 32. POISSON, George, Les Grands Travaux des Présidents de la République, Paris, Parigramme, 2002, p.45 33. CHASLIN, François, Les Paris de François Mitterrand, Paris, Gallimard, 1998, p.86 4. um parque, uma cité da música e um Zénith, La Villette 34. POISSON, George, Les Grands travaux des Présidents de la République, Paris, Parigramme, 2002, p.119 Esquisso de capa de capítulo, 1989, in McCLURE, Bert, Architectures Capitales Paris 1979-1989, Paris, Bilingual, 1989 Permanência e Poder 84 de origem, isso é, no exterior ao lado do museu (Fig. 42). Concebido por Fainsilber em 1980 é realizado entre 1983 e 1985 pelo engenheiro Gérard Chamayou no eixo de entrada sul do museu. A Géode é uma construção perfeitamente esférica de 36 metros de diâmetro composta por duas estruturas independentes: uma em betão com as bancadas (370 lugares), face ao ecrã hemisférico de 1000 metros quadrados; uma outra, envelope de aço inoxidável, polido e reflector, feito por 6433 triângulos curvos (Fig. 43). O público foi seduzido por essa imensa bola-espelho reflectora da envolvente. Inaugurada no dia 6 de Maio 1985, ela obteve um grande sucesso. Rock no Zénith. Logo em 1982, Mitterrand anunciou, ideia lançada por Jack Lang, a construção de uma sala de rock por cima da autoestrada de Bagnolet. A concepção atrasou-se de tal maneira que a sala nunca chegou a desenvolver-se. Foi, então, decidido a edificação rápida de uma sala de música popular em La Villette. Estamos a falar do Zénith, construído em menos de seis meses por Philippe Chaix e Jean-Paul Morel, composto por uma estrutura metálica de 80 metros de vão sem apoios intermédios (Fig. 48). Foi concebido de maneira a que possa ser transferido para outro sitio. Essa sala de 6300 lugares, que foi a primeira obra acabada no programa dos Grands Travaux, foi inaugurada por Mitterrand dia 14 de Janeiro 1984. Desta maneira, o pólo que desde sempre foi posto de parte e desvalorizado, começava a tornar-se num pólo cultural do nordeste parisiense. Loucuras do parque. Em Março 1982, foi retomado o desenvolvimento dos 35 hectares envolvendo os edifícios de La Villette. Um concurso internacional de paisagistas foi lançado, estabelecido sobre um programa ambicioso: articular Paris e os seus subúrbios, reaproximar a cidade da natureza. Concurso dotado, pela primeira vez desde Beaubourg, de um júri completamente soberano presidido pelo paisagista brasileiro Burle Marx. Esse júri, reunido em Paris em Dezembro 1983, foi incapaz de se acordar e acabou por designar 9 vencedores, nos quais Koolhaas era favorito. Por consequência, foi pedido a esses 9 laureados de aprofundar os seus desenhos e foram a votos de novo. Dia 25 de Março de 1983, Bernard Tschumi vence contra Koolhaas. O terreno está espalhado de “folies” sistemáticas dispostas numa malha quadrangular de 120 metros (Fig. 41). O objectivo era desenvolver um simbolismo próprio ao parque de La Villette, uma identidade reconhecível, tão forte como as cabines telefónicas de Londres ou as entradas de metro parisiense (Fig. 42). Grands Travaux de Mitterrand 85 Uma cité para a Música. Valery Giscard d’Estaing teve uma sugestão de inserir no programa de La Villette um auditório e uma escola de dança. Depois da eleição de Mitterrand, Jack Lang informou-o dessa ideia amplificando-a para a construção de uma Cité Internationnale de la Musique. E assim, durante uma conferencia de imprensa em Setembro 1981, Mitterrand anunciou a sua intenção. Tratava-se de reunir em 23000 metros quadrados, uma ópera, um auditório gigante, um conservatório, salas de concerto e de música, salas de aulas, estúdios, um museu instrumental, uma mediateca, alojamentos para estudantes e uma livraria. Seria um agrupamento inédito de lugares consagrados à música e às práticas instrumentais (Fig 45), a Cité teria o objectivo de juntar os artistas e os públicos, nomeadamente os jovens. Tal como o Louvre, o projecto fez a unanimidade no seu lançamento mas a época estava economicamente sombria. Foi então decidido esperar. Só em Julho 1983, depois do encerramento do projecto de Exposição Universal é que foi decidido, em La Villette, a construção do “Beaubourg de la musique”, enquanto a ópera iria para la Bastille. O júri do concurso para a Cité reúniu-se em 1984 e seleccionou 6 projectos que foram submetidos a Mitterrand. Em Janeiro 1985, o projecto de Portzamparc foi laureado. Foram necessários dez anos para a construir, incompleta, depois de mudanças políticas sucessivas. Portzamparc concebeu, para agrupar os diversos edifícios do programa, dois volumes assimétricos de 23000 metros quadrados ao solo (Fig. 46). O da esquerda estava consagrado ao ensino e o da direita à difusão. A Este, o conservatório, inaugurado em Dezembro 1990, punha 120 salas à disposição de 2000 alunos. O conjunto, a Este, agrupa salas de concertos, o museu da música, uma residência de estudante e ateliers pedagógicos. Christian de Portzamparc foi o primeiro francês a receber o prémio Pritzker graças a esse projecto. Infelizmente a Cité de la Musique continua inacabada. O maior museu científico do mundo, de La Villette, foi inaugurado em 1986 por Mitterrand e seu sucesso é notável com mais de um milhão de entradas por ano. Apesar do edifício envelhecer e não conseguir acompanhar as inovações tecnológicas, graças a Giscard d’Estaing, La Villette conseguiu dar uma reviravolta ao falhanço dos matadouros. Permanência e Poder 86 Fig. 41: Perspectiva geral do parque com as “folies” a vermelho in [McCLURE, Bert, Architectures Capitales Paris 1979-1989, Paris, Bilingual, 1989, p.125] Fig. 42: As “Folies” do parque in [McCLURE, Bert, Architectures Capitales Paris 19791989, Paris, Bilingual, 1989, p.128] Grands Travaux de Mitterrand 87 Fig. 43: Corte da Géode in [McCLURE, Bert, Architectures Capitales Paris 1979-1989, Paris, Bilingual, 1989, p.160] Fig. 44: A Géode espelhada, em frente ao Museu das Ciências e da Indústria in [https://s-media-cacheak0.pinimg.com/ originals/49/e2 /08/49e2083af9888c2b 21ce3196b57948ba.jpg] Permanência e Poder 88 Fig. 48: O Zénith de Chaix & Morel em La Villette in [http://www. chaixetmorel.com/fr/ cat/4/105/] Fig. 45: Vista geral da Cité da Música em La Villette in [http:// philharmoniedeparis.fr/fr/ la-philharmonie/] À direita: Fig. 47: O interior da Cité da Música em La Villette in [http://www.pritzkerprize. com/1994/works] À esqerda: Fig. 46: A Cité da Música de Portzamparc em La Villette in [http:// abduzeedo.com.br/diado-arquiteto-christian-deportzamparc] Grands Travaux de Mitterrand 89 Desde o século XIX que o Ministério da Economia e das Finanças estava situado na rua de Rivoli, mais precisamente na Ala Richelieu do Louvre. Morada central e próxima dos outros lugares de poder, ou seja, um quadro sumptuoso. Ao longo dos anos, a falta de espaço fez espalhar os serviços pela cidade e arredores, mas os ministros e directores continuaram alojados aí, durante mais de cento e vinte anos, entre as estátuas dos grandes artistas e o museu. Como a ala teve que ser entregue a um dos maiores projectos de François Mitterrand, houve a necessidade urgente de construir um novo Ministério. Foi um motivo para reagrupar de todos os serviços. De facto, essa transferência e a criação do Grand Louvre é a dupla decisão mais importante e espectacular de François Mitterrand, em relação aos Grands Travaux. Em Julho de 1981, dois meses depois da sua eleição, falava pela primeira vez em transferir o Ministério das Finanças da rua de Rivoli “dans un lieu aussi noble qu’il le mérite”35 e assim dedicar todo o Louvre ao museu, apesar de nunca ter sido previsto para esse efeito. Em primeiro lugar, era necessário encontrar um terreno. O quai Branly foi destacado por ser um dos únicos terrenos disponível no centro da cidade. Jacques Chirac, Presidente da Câmara de Paris, propôs outro terreno, em Bercy, que não fosse alagável como o primeiro, com 5 hectares e que correspondia ao desejo de reequilibrar o Este da cidade. Apesar da vontade dos serviços financeiros que preferiam uma implantação mais burguesa, a Oeste, Mitterrand aceitou, em Março 1982, o terreno de Bercy. Os funcionários e o sindicato tiveram que se render mas exigiram que ninguém ficaria a menos de 5 metros de uma janela, assim como outras exigências. Foi lançado um concurso reservado a arquitectos nacionais, por razões de urgência e de simplicidade, durante o primeiro mandato. Embora o programa aceitasse mudanças de regras de urbanismo, o futuro edifício não podia ultrapassar uma altura de 31 metros, de modo a não ofuscar 35. POISSON, George, Les Grands Travaux des Présidents de la Vº République, Paris, Parigramme, p.91 Esquisso de capa de capítulo in [CHEMETOV Paul, Bercy, Ministère de l’économie, des Finances et de l’Industrie, Paris, Alternatives, 2007] 5. Ministério das Finanças de Bercy Permanência e Poder 96 e inconveniente de cada uma das possibilidades foram estudados com precisão. A exiguidade do terreno em la Bastille era o motivo da hesitação mas o terreno já estava em haute surveillance urbanistique pela APUR porque esse projecto representava uma mais valia para o reequilíbrio e dinamização do Este da cidade parisiense e foi por essa razão que Jacques Chirac cedeu uma parte do terreno ao Estado. Para o urbanista Gérard Charlet, representante da APUR na altura, a praça da Bastilha era um lugar que nunca tinha sido ordenado, que se tinha modelado com a história, urbanizada desde a época Gallo-romana, um “Carrefour toujours informe que l’on tentait d’équilibrer en le meublant d’éléphants et de génies volants”45. As vantagens da praça eram inúmeras; a centralidade geográfica, acessibilidade em transportes públicos, posição cruzada com grandes vias da cidade e ponto de contacto entre as diversas zonas. Entretanto, a escolha da praça da Bastilha implicava necessariamente que só um equipamento previsto poderia ser instalado e o elemento mais dissociável da cidade da música era a ópera. Mas isso entrava perfeitamente de acordo com a ideia do urbanista Charlet que estava extremamente atraído pelo aspecto simbólico da praça, um argumento que salientou para justificar a escolha: a junção da inauguração da Ópera com a celebração do bicentenário mas também o marco de Maio 1981 com a vitória da esquerda no poder. O grupo dos quatro, Jack Lang, Roger Quillot, Paul Guimard e Robert Lion, encarregado da coordenação dos Grands Travaux tinham consciência do poder da associação das palavras “Ópera” e “Bastille”. No dia 9 de Março 1982, o Presidente oficializou a decisão de construir uma ópera moderna e popular na praça de la Bastille e uma cidade musical em la Villette. Esse edifício tinha que ter no máximo 3000 lugares mas todos com uma grande qualidade (Fig. 54) tanto no aspecto acústico como no visual (em 1991 lugares na ópera Garnier, 500 são ditos cegos). A abertura ao público foi uma componente essencial para a futura ópera. Para tal, foi preciso compensar a limitação voluntária da capacidade da sala, com um acréscimo anual do número de representações, diversificação dos programas, propondo uma maior escolha de obras e um aumento de números de lugares e, paralelamente, uma diminuição significativa dos seus preços. Poder representar tantas vezes para um número elevado de pessoas necessita de ferramentas eficientes de produção e de representação. Essas ferramentas têm que beneficiar de todas as técnicas modernas, mas sobretudo oferecer espaços susceptíveis de responder especificamente às mais altas exigências de qualidade, tanto para a preparação dos espectáculos pelos artistas e técnicos como para a representação em frente ao público. Outra missão seria reaproximar a arte 45. in Le monde, 13 de Julho 1989 Grands Travaux de Mitterrand 97 46. CHASLIN, François, Les Paris de François Mitterrand, Paris, Gallimard, 1998, p.195 47. in Nouvel Observateur, 14 décembre 1984, Entrevista a François Mitterrand lírica ao público e para tal, pôr à sua disposição todos os complementos indispensáveis ao espectáculo. O projecto tinha que propor tanto largos espaços de acolhimento abertos sobre a cidade durante o dia (informação, exposições, projeções de filmes etc.) como uma inserção no contexto urbano. O programa exigia duas salas de capacidades e de natureza diferentes articuladas de maneira a ter manobras rápidas e simplificação das encenações, ateliers de fabricação dos cenários, fatos e acessórios, espaços de acolhimento do público dando acesso às salas, um grande número de camarins adaptados a cada grupo de artistas, um importante conjunto de estúdios individuais de trabalho e uma sala de repetição do tamanho da sala de representação. Organizou-se um concurso com 1647 inscritos e 756 projectos anónimos foram recebidos. O desafio do concurso era consequente. Tratava-se de inserir nesse velho sector urbano, uma parcela restrita e em comprimento, um objecto extremamente complexo e volumoso. A isso, acrescentava-se o objectivo de remodelar a praça da Bastille tendo em conta o aspecto simbólico do lugar e criar um monumento digno da celebração do bicentenário fazendo ao mesmo tempo uma homenagem à antiga Revolução. O júri mostrou a sua decepção depois da reunião que se realizou entre dia 26 de Junho e 3 de Julho 1983. “Le jury avait correctement fait son travail, mais le concours était un échec”46. Houve a hipótese de desistir do concurso mas, em Julho, o júri teve que apresentar os seis selecionados ao Presidente. Apesar de nenhum dos projectos terem sido convincente, foi pedido a dois deles a apresentação de maquetas. Esperava-se que um deles fosse de Richard Meier dada a perfeita funcionalidade e a assinatura branca, mas era de Carlos Ott, desconhecido na altura. Depois de meses de hesitações, o Presidente não se decidia até que o projecto foi salvo. No dia 17 de Novembro 1983, um comunicado oficial anunciou, por exclusões de partes, a escolha do projecto de Carlos Ott. A proposta vencedora, ao contrário das outras três, tinha claramente afirmado a sua aptidão ao dominar os desafios impostos, ter sido estudado tecnicamente, respeitava as limitações urbanísticas, era eficaz e susceptível de ser empreendido rapidamente. O fiasco do concurso desiludiu imenso François Mitterrand, ele que era tão apaixonado por arquitectura e queria deixar a sua marca na paisagem parisiense. “Plusieurs des projets que j’ai choisis ne reflètent pas mon inclination personnelle. D’autres que moi, que je consulte, ont des avis fondés sur l’expérience et sur des jugements esthétiques qui valent d’être considérés (...) dans son état initial par exemple, je n’aurai pas choisi le projet de l’Opéra Bastille, maintenant, j’y suis rallié”47. Desde a origem, o edifício, que se destaca do exterior pelo seu Permanência e Poder 98 48. DELARUE, Marie, Un Pharaon Républicain, Paris, Grancher, 1999, p.75 49. GUITTARD JeanMichel, Opéra Bastille : un opéra moderne et populaire?, Clermont ferrand, service université culture, 2008, p.20 carácter massivo, suas formas geométricas e a transparência das fachadas, suscitou algumas reservas (Fig. 53). Segundo disse Hugues Gall, director das óperas de Paris, em 1990: “l’Opéra Bastille est la mauvaise réponse à une question qui ne se posait pas”48. É desproporcionado em relação à praça onde se insere, no entanto foi o projecto que mais respeitava minuciosamente as dificuldades do terreno. Contudo, o êxito da área técnica foi particularmente apreciada, assim como os equipamentos cénicos e as salas de ensaio. No que diz respeito às dimensões, trata-se do terceiro maior edifício parisiense depois da Bibliothèque de France e o Ministère des Finances em Bercy. A grande sala de 2703 lugares (Fig. 52), de estrutura clássica, representa 5% do volume total do edifício. Essa ultima teve como referência os equipamentos cénicos do Deutsche Oper de Berlim, acabada em 1961. Quanto à sua estética no geral, “on dénote une certaine réminiscence du Bauhaus des années 1920 à Berlin, période au cours de laquelle Walter Gropius avait conçu des théâtres pour le grand rénovateur de la mise en scène allemande de l’époque, Erwin Piscator”49. Era importante inaugurar para a festa do bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, mas os prazos foram difíceis de manter. Portanto, realizou-se a inauguração com a sala principal e com o espectáculo de apresentação no dia 13 de Julho 1989, até fechar novamente para acabar o resto das salas. A ópera voltou a abrir as portas ao público no dia 17 de Março 1990. Em França, os amadores de ópera nunca ultrapassaram os 3%. Comparando os preços dos bilhetes de concerto e de ópera, em 1998, os da Ópera Bastille são o dobro do preço. De facto, isso prova-nos que foi uma tentativa falhada de fazer uma ópera moderna e popular. Serviu de pretexto para a culture pour tous, tantas vezes repetida por Mitterrand. A sua localização na Bastille era o ponto forte do Grand Projet, foi mais uma forma de Mitterrand se inscrever na cidade num local tão cheio de simbolismo como o da Revolução Francesa. Não é por a caso que esse foi o terreno escolhido para acolher essa ópera, local de manifestações e ajuntamentos preferido pelos franceses. Mal concebido e pouco desejado, a Ópera não foi o filho querido do Presidente. Ela até faz figura de mal amada perante os Grands Travaux. Grands Travaux de Mitterrand 99 Fig. 53: Ópera da Bastilha in [McCLURE, Bert, Architectures Capitales Paris 19791989, Paris, Bilingual, 1989, p.113] Fig. 54: Sala de espectáculos da Ópera da Bastilha in [http:// www.skyscrapercity. com/showth1ead. php?t=462856&page=3] Fig. 55: Antiga estação de comboios da praça da Bastilha, onde agora está inserido a ópera in [http:// fr.wikipedia.org/wiki/ Gare_de_Paris-Bastille#/ media/File:Gare_de_la_ Bastille_-_Aerial_view. jpg] Grands Travaux de Mitterrand 101 Pensava-se que depois do primeiro mandato, Mitterrand tinha acabado com a sua vontade construtiva. Ele sabia que o cancro o podia levar a qualquer momento, mas ainda havia uma obra que ele queria edificar. Depois da sua eleição para um segundo mandato, rapidamente afirmou o seu desejo de construir a Bibliothèque Nationale de France ou BnF, nomeada assim em 1994. Foi inaugurada dia 30 de Março 1995 e a estação de metro foi baptizada Bibliothèque François Mitterrand em homenagem ao seu mandatário. Depois de cinco séculos de existência, obsoleta e saturada, com falta de meios, a Biblioteca Nacional da rua Richelieu, explodia. “Des milliers de livres tombaient en poussière”50. Estava demasiada estreita nas suas paredes há mais de um quarto de século, devido ao crescimento cada vez mais rápido das suas coleções e do desenvolvimento da pesquisa. Situada perto do Palais-royal, rua Richelieu, ela tinha dificuldades em cumprir as suas missões de recolha, catalogação, conservação e comunicação do património nacional. François Mitterrand foi um homem de livros e até um bibliófilo assumido. Como aconteceu anteriormente no Louvre, ele fez questão de reabilitar a Biblioteca Nacional para lhe permitir enfrentar os novos desafios que surgiam. A Biblioteca de França chegou tarde nas decisões presidenciais, apesar de corresponder sem dúvida a um dos primeiros objectivos e respondeu às maiores necessidades para o futuro da cultura francesa. O grande sonho era, antes de mais, construir um lugar como nunca visto, para colectar, conservar e transmitir todo o saber ao mundo. ”Je souhaite que mon deuxième septennat permette d’amplifier et de parachever l’œuvre accomplie…et d’aller plus loin par la création d’une très grande bibliothèque, d’un type entièrement nouveau, en inscrivant ce projet dans le cadre des grands travaux. Cette grande bibliothèque devra couvrir tous les champs de la connaissance, être à la disposition de tous, utiliser les technologies les plus modernes de transmission de données, pouvoir être consultée à distance et entrer en 50. POISSON George, Les Grands travaux des présidents de la République, Paris, Parigramme, 2002, p.147 7. Biblioteca Nacional de França Esquisso de capa de capítulo, 1989, in [https://urbsurbisf.files. wordpress.com/2011/05/ croquis-bnf_417.jpg] [26/03/2015] Permanência e Poder 102 relation avec d’autres bibliothèques européennes…“51. Em 1988 foi decidido a criação de um novo edifício no 13º Arrondissement, na zona de Tolbiac. Foi um terreno cedido por Jacques Chirac, o Presidente da Câmara de Paris, onde ele tencionava fazer uma zona modelo. Pensou-se em deslocar a estação de comboios de Austerlitz mas essa ideia foi rapidamente abandonada. Ainda assim havia outras duas hipóteses mas fora de Paris dito intramuros, uma em Saint Denis no lugar da fábrica de gás (onde está agora o Estádio de França) e outro em Fort de Vincennes (de onde seria necessário deslocar os militares). Tolbiac apresentava mais vantagens para além de ser dentro da capital, tinha óptimos acessos, não havia necessidade de relocalizar uma actividade e era uma mais valia para a cidade ao dinamizar a parte Este da metrópole em conjunto com o Ministério das Finanças e o Pavilhão Multiusos de Bercy. Esse novo edifício para além de ser Biblioteca Nacional, teria um livre acesso e uma forma de partilha. “Non seulement Bibliothèque nationale, la TGB, serait aussi bibliothèque publique de recherche, de libre accès. Elle devrait acquérir entre 500 000 e un million de volumes”52. A ideia era dotar o país de uma ferramenta intelectual, a mais moderna do mundo incluindo livros, audiovisual e informática, e da maior biblioteca do mundo. Mitterrand nomeou Emile Biasini como Secrétaire d’État e como responsável dos Grands Travaux, nomeadamente deste projecto (Fig.54). Estabeleceu-se então um calendário para não haver atrasos na construção e poder inaugurar o edifício em Abril de 1995, data fixada desde o início para François Mitterrand poder ver a sua obra acabada no momento em que o seu segundo mandato terminava. Apesar de: “L’essentiel, m’a-t-il toujours dit, est que ce soit fait. Inaugurer ne m’intéresse pas”53. O concurso foi então lançado: Concours International d’Idées sur Invitation. O júri, presidido por I. M. Pei e Joseph Belmont, pediu aos vinte arquitectos, escolhidos entre as 244 candidaturas do mundo inteiro, para apresentar um pré-projecto. Alguns arrependeram-se depois da sua participação, Álvaro Siza é um exemplo. “Je me rappelle par exemple la Grande Bibliothèque de Paris. Un concours pour un projet énorme qui va modifier le visage d’un arrondissement entier de Paris et peut-être davantage. Nous avons disposé de trois mois seulement pour présenter une maquette. Ça n’est pas possible. Je me suis laissé tenter mais je n’aurai pas dû participer à ce concours”54. Desses vinte, escolheram quatro para serem submetidos ao voto do Presidente da República o qual se orientou para o projecto monumental do jovem arquitecto francês Dominique Perrault, de 36 anos, como vencedor deste concurso internacional. “Pour saisir toute l’importance du sujet, et son sens le plus profond, rappelons ce qu’écrivit 52. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, Paris, La dispute, 2007, p.92 53. BIASINI, Émile, Grands Travaux: de l’Afrique au Louvre, Paris, Odile Jacob, 1995, p.280 51. Extrato de uma carta de M. François Mitterrand para M. Michel Rocard, Primeiro Ministro, Julho 1989. 54. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, Paris, La dispute, 2007, p.101 Grands Travaux de Mitterrand 103 le grand architecte français Étienne-Louis Boullée à propos d’un projet de bibliothèque: “s’il est un sujet qui doive plaire à un architecte et en même temps échauffer son génie, c’est le projet d’une bibliothèque publique. À l’occasion de développer les talents, se joint le précieux avantage de les consacrer aux hommes qui ont illustré leur siècle””55. Da ideia ao concurso passaram oito meses, do conceito à forma levaram onze semanas. A seguir foram precisos quinze meses para finalizar o projecto em conjunto com o programa. Um ano, foi o tempo necessário para a procura dos mercados e depois levaram três anos para a construção. O projecto, no seu conjunto, tentou resolver várias perguntas completamente diferentes: por um lado, encontrar uma organização interna capaz de responder ao programa de Biblioteca Nacional; por outro lado, estabelecer uma relação com o seu contexto próximo e a cidade no seu todo. Para tal, o arquitecto compõe o projecto como se fosse duas partes sobrepostas, uma forma de cidade baixa e uma de cidade alta (Fig. 57). Dessa forma, ele imagina uma ilha rectangular em que só os quatros cantos estão construídos. Na sua parte inferior, o projecto é organizado à volta de um grande pátio que acaba por ser o coração de toda a intervenção. A biblioteca está organizada à volta de uma base, isto é, a ampla plataforma horizontal que constitui a esplanada e as quatro torres de vidro em forma de livros abertos (Fig. 57x) situadas nos quatro cantos. Consiste em sete andares de escritórios protegidos por persianas de madeira e onze andares de arquivo. O acesso à esplanada, revestida de madeira do Brasil, dura e imputrescível, faz-se por grandes degraus face ao rio (Fig. 56). Os arquivos de livros situam-se em parte perto da base, próximo das salas de leitura e outra parte nos andares superiores das torres. Uma larga rede de oito quilómetros permite o transporte dos documentos entre os arquivos e as salas de leitura. As duas entradas da biblioteca situam-se a Oeste e a Este. Simetria, claridade, rigor, equilíbrio e monumentalidade são os adjectivos que podem definir a arquitectura do edifício, nos quais os materiais fazem parte do vidro, do aço e da madeira. Os Grands Projets do Presidente da República já realizados estão todos ligados a um sítio, uma história. A Bibliothèque de France encontrase num terreno industrial abandonado, no cais do rio Sena a Este de Paris e constitui o ponto de partida para uma reestruturação total dessa parte no 13º arrondissement. Um lugar de referência para o Este parisiense, lugar que se inscreve na continuidade da sucessão dos grandes vazios agarrados ao Sena, tais como a praça da Concorde, o Champs de Mars e os Invalides. Dessa forma, o lugar do rio torna-se importante com a construção de uma praça. Com essas quatro torres de ângulo como quatro livros abertos que se enfrentam e que delimitam um lugar simbólico, a biblioteca de França, 55. PERRAULT, Dominique, Bibliothèque de France 1989 1995, Paris, Birkhauser, 1995, p.25 Permanência e Poder 104 um lugar mítico, marca a sua presença e a sua identidade à escala da cidade com os seus quatro cantos. A instalação de uma praça implementa a noção de tesouro, as torres permitiram orientá-la e identificá-la como cultural. O espaço público oferece o contacto físico, directo e natural entre a instituição sagrada e por quem ali passa. A implantação do jardim (Fig. 58) oferece um espaço calmo ao abrigo dos ruídos da cidade. A biblioteca é assimilada a um projecto de urbanismo e de arquitectura simbólica. O projecto é composto por três elementos arquitectónicos fundamentais: os quatros colossos, a esplanada e a floresta. Os colossos são pontos de referência na escala da cidade inteira, tal como o Arco do Triunfo, a Torre Eiffel ou a Torre Montparnasse. As suas fortes imagens oferecem um princípio de orientação aos visitantes. É um lugar simbólico e a biblioteca mantém uma forte relação com a sua implantação, à escala da cidade. Uma das principais intenções no projecto é fazer com que o edifício seja o principal motor da urbanização do vasto terreno em curso de expansão onde ele se eleva, o que constitui uma difícil tarefa. Podemos dizer agora que a biblioteca teve força suficiente para agregar a cidade à volta dela. A biblioteca teve tanto impacto na cidade e na zona do 13º Arrondissement que agora já o chamam de nouveau quartier latin56. Várias Faculdades implantaram-se ao redor do edifício assim como uma escola de arquitectura: ENSA-Val de Seine. 56. http://www.nql13.fr [19/11/2014] Grands Travaux de Mitterrand 105 Fig. 57: Edifício da Biblioteca Nacional de França como um livro aberto in [LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 19811995, Paris, La Dispute, 2007, p.76] Fig. 56: Dominique Perrault, François Mitterrand e Emile Biasini na obra da Biblioteca Nacional de França, Novembro 1992, in [PERRAULT, Dominique, Bibliothèque Nationale de France : 1989-1995, Paris, Birkhauser, 1995, p.9] Permanência e Poder 112 Paris como ponto central dos Grands Travaux Com os Halles, Charles de Gaulle distanciou-se do território parisiense e das criações culturais. Não foi o caso das construções dos seus sucessores que, todos, dotaram Paris de equipamentos culturais, como o Beaubourg de Pompidou, o museu d’Orsay, de Giscard, do Grand Louvre, de Mitterrand, ou do Musée des Arts Premiers, de Chirac. Paris é a França: a única cidade em França à altura de representar o Estado. O único lugar que tem a importância da grandeza do território. A centralidade, em conjunto com o centralismo, fizeram de Paris o local eleito para o poder de Estado. A capital é então um símbolo político: uma cidade-monumento e uma cidade monumental. Ao seu poder social real, temos que acrescentar um peso político simbólico: é como um retrato da nação francesa. Como Biasini o diz: “Paris n’est pas seulement Paris. Paris n’est pas parisien, mais appartient á la France entière“6. O facto dos Grands Travaux serem simbolicamente só parisienses obedecem em definitivo a um triplo argumento segundo o livro de Seloua Luste7. O argumento de proporção: Paris é uma grande cidade e não fazia sentido construir grandes obras numa pequena cidade. O argumento de conveniência: Paris é uma anti Ville Nouvelle8, é uma cidade histórica onde encontramos um todo, várias histórias para uma mesma geografia. E o argumento de adequação: Paris é a capital, ou seja, o centro político, de modo que para grandes obras de Estado só podem estar nesse centro. “Le Paris d’aujourd’hui est le résultat de nombreuses interventions sporadiques, fortes et irrégulières, coïncidant à des périodes de l’histoire ou un certain nombre de conditions favorables se sont trouvées réunies et notamment: une volonté politique affirmée par un homme seul, jamais par une assemblée, l’existence d’un exécutant tenace et compétant, enfin la mise a dispositions e moyens financiers adapté à l’objectif “9. A possibilidade de grandes operações na província também foi considerada: “pour donner à cette politique de commande publique la dimension et l’équilibre qui conviennent, le président de la République a demandé au ministre de la Culture de lui soumettre, avant le 30 mars, une liste de propositions tendant à réaliser dans les régions de France, au cours des années à venir, des projets de portée nationale ou internationale”10. Seis projectos de província já estavam programados. Tratava-se da Escola Nacional de Dança em Marselha, do Conservatório Nacional de Música em Lyon, do Museu de Banda Desenhada em Angoulême, a Escola de Fotografia em Arles, o Museu de Escultura em Montpellier e um Centro Nacional de Arte Contemporânea em Grenoble. Contudo, apesar da 6. BIASINI, Emile, Grands Travaux: de l’Afrique au Louvre, Paris, Odile Jacob, 1995, p.274 7. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, Paris, La dispute, 2007 8. Ville Nouvelle: Cidade nova planeada por uma vontade política, nos arredores de Paris, construida em pouco tempo. 9. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, La dispute, Paris, 2007 p.28 10. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, La Dispute, Paris, 2007 p.24 Permanência e Poder 113 11. SUDJIC, Deyan, Arquitectura del Poder, Barcelona, Ariel, 2007, p.150 vontade proclamada de respeitar a dimensão nacional e o equilibro ParisProvíncia, as operações nas regiões foram menos valorizadas nesta política, num ponto de vista simbólico. Por conseguinte, inicialmente, apenas houve grandes obras em Paris. As outras operações eram secundárias. Em 1982, as obras de Haussmann serviram de modelo para transformar a cidade capital. Um dos objectivos desses Grands Travaux era a integração dos diferentes edifícios arquitectónicos numa ideia de conjunto para a cidade. Estes investimentos públicos foram usados como elementos de revitalização com implicações diferentes e directas num espaço da cidade, mas com uma lógica integradora, atribuindo a Paris um novo simbolismo e uma nova representação urbana. O desenvolvimento urbano resultante de todas as obras foi um espelho da necessidade do desenvolvimento humano assim como da evolução e modernização do urbanismo. Mitterrand faz assim indirectamente uma jogada de marketing e publicidade da sua cidade, isto é, através da construção destas obras a arquitectura e toda a economia envolvente são favorecidas e a cidade é enriquecida em várias áreas. “Tal como Napoleão III, Napoleão I e Luís XIV antes dele, Mitterrand estava empenhado em converter Paris na capital indiscutível da Europa, e necessitava criar instituições que estivessem à altura das suas ambições. O Louvre devia eclipsar o Museu Britânico como museu mais visitado do mundo, do mesmo modo que o aeroporto Charles de Gaulle estava a desafiar Londres e Frankfurt na sua tentativa de converter o centro de transporte aéreo mais transitado na Europa. Antes da ascensão da Al Qaeda, o Instituto do Mundo Árabe, a estrutura em forma de colher de Jean Nouvel, como a sua gloriosa vista para Nôtre-Dame, devia converter Paris na janela da Europa do mundo Muçulmano...”11. Permanência e Poder 114 AD B G C F E Lugares de poder Eixo da via Triunfal Grands Travaux: A. Arco de La Défense B. Grande Louvre C. Instituto do Mundo Árabe D. Parque de La Villette E. Ministério das Finanças F. Ópera da Bastilha G.Biblioteca Nacional de França Ministérios AD B G C F E Lugares de poder Eixo da via Triunfal Grands Travaux: A. Arco de La Défense B. Grande Louvre C. Instituto do Mundo Árabe D. Parque de La Villette E. Ministério das Finanças F. Ópera da Bastilha G.Biblioteca Nacional de França Ministérios Fig. 59: Esquema de Paris, com os Grands Travaux e os altos lugares de poder à volta do rio Sena [Imagem produzida pela autora] Permanência e Poder 115 Posições estratégicas em Paris François Mitterrand decidiu impor, logo nos primeiros meses do seu primeiro mandato, a sua marca em vários pontos da capital. Pouco a pouco, as representações da cidade modificaram-se. Uma geografia simbólica desenvolveu-se e é característica desta presidência particular. A política arquitectónica dos Grands Travaux foi, de facto, na quinta República, a montra da presidência de François Mitterrand. Ele não foi o único em “croire en la force des symboles”12, segundo as suas próprias palavras, mas foi o único Presidente a dar crédito à pedra e ao betão de um tal poder. “L’homme politique est éphémère. L’architecture a une durée de vie supérieure. L’homme politique, le constructeur croient se perpétuer au travers de l’architecture, comme on se perpétue au travers un enfant ou au travers d’une œuvre”13. Foi atribuído um papel especial e simbolicamente essencial ao centro da cidade, para onde todas as principais actividades da cidade convergem e onde o poder económico se concentra. Uma nova paisagem se desenhou, com os seus marcos importantes, os seus novos espaços, numa conquista do território. Com a Ópera da Bastilha, a Biblioteca e o Ministério das Finanças, os bairros antigamente deserdados do Este parisiense foram revalorizados, dos dois lados do rio. O Arco de La Défense foi edificado para estruturar o centro financeiro a Oeste, fora de Paris. O parque de La Villette, tão complexo com a sua cidade da música, a Géode, o Zénith e o museu deram ao Norte, o polo cultural que lhe fazia falta. Pouco a pouco, as representações da cidade mudaram. “Naît un nouveau Paris, une nouvelle géographie urbaine par la grâce des Grands Travaux présidentiels, réglée par l’aménagement du territoire destine à rééquilibrer la ville, à partir d’un double axe majeur: la perspective historique et la Seine”14. O projecto em La Villette permitiu dinamizar toda a zona norte da cidade. Foram então projetadas, concebidas e realizadas transformações e construções ao longo do eixo histórico até La Défense e de um lado e de outro do rio Sena. Para além de valorizar Paris, a função de todas essas edificações é clara, ajudar o Presidente da República a inscreverse no tempo. “Il est dans doute plus difficile de laisser une trace dans l’Histoire aujourd’hui que dans le passé, car le pouvoir tend à se banaliser, l’Histoire à s’internationaliser, et les évènements à s’accélérer”15. Vimos anteriormente a história da construção da via triunfal de Paris e ao construir ao longo da perspectiva parisiense, Mitterrand tinha uma vontade de dar a sua participação ao mesmo nível que François I e Napoleão III na cidade, e nomeadamente num dos marcos importante desta. Temos que salientar 13. ANDRIEUX, Jean-Yves, Pratiques Architecturales et Enjeux Politiques, France 19451995, Paris, A&J Picard, 2000, p.289 14. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 19811995, La dispute, Paris, 2007 p.163 15. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 19811995, La dispute, Paris, 2007 p.26 12. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 19811995, La dispute, Paris, 2007 p.12 Permanência e Poder 116 que acontece o mesmo caso com o Louvre, onde sempre foram os reis a intervir no edifício e Mitterrand conseguiu desta maneira fazer parte da vida num dos museus mais antigos do mundo. Temos outro exemplo desse desejo de continuar a obra do seus antecessores, com a construção da ópera e do projecto em La Villette. Situam-se nos extremos do canal Saint-Martin, obra de Napoleão I, para dar mais acessos à cidade, onde mais uma vez, os terrenos escolhidos tinham sempre um propósito. Vimos no primeiro capítulo que os edifícios de poder se situam principalmente à volta do rio Sena. O Instituto do Mundo Árabe, o Ministério das Finanças e a Biblioteca Nacional de França, os quais não são exceção. O museu e a biblioteca não são um edifício de poder, mas são equipamentos públicos que pertencem ao Estado. Os terrenos adquiridos para essas obras não foram escolhidos por acaso, a relação com o rio é bastante forte há muitos séculos e Mitterrand perpetuou assim a tradição francesa. A inauguração da Ópera da Bastilha inscreveu-se totalmente no quadro simbólico do bicentenário. Essa ópera moderna e popular foi construída na mesma praça onde começou a Revolução Francesa, no dia 14 de Julho 1789. Apesar do edifício ainda não estar acabado, foi, ainda assim, dado um espetáculo para altas figuras políticas internacionais em nome da comemoração e a seguir voltou a fechar as portas ao público até o fim das obras. Essa praça que já possuía uma grande carga histórica, foi o local escolhido para os festejos da eleição de Mitterrand em 1981. Estes projectos, que se impuseram, até ao fim do século XX, tiveram grande impacto na capital, e o papel social que lhe era atribuído manifestou-se pela escolha da sua implantação, pela sua concepção arquitectónica, assim como pelo tratamento da sua envolvente. De facto, apesar da singularidade de cada um dos projectos arquitectónicos, a forma como os edifícios determinam e se relacionam com os espaços públicos que lhe são agregados é bastante interessante. Contribuindo para o seu desenho urbano, estes edifícios atribuem-lhes um verdadeiro sentido e significado na ideia do conjunto da cidade. Permanência e Poder 117 As influências sobre as obras “Oui, j’aime l’histoire et m’inscrire dans l’histoire, dans une certaine histoire. On se souvient tout juste de Toutânkhamon. Que dirat-on même du général de Gaulle, de Pompidou, de Giscard d’Estaing, de moi et du prochain dans quelques milliers d’années?“16. Essas frases ditas por François Mitterrand durante uma entrevista televisiva no dia 15 de Abril 1995, já no fim da sua vida política e vida real mostram qual era a sua principal preocupação alguns meses antes da sua morte. Mitterrand queria assegurar um lugar nos livros de história. Os Grands Travaux foram construídos em duas partes, em função dos dois mandatos. Não se sabia se ia ser reeleito em 1988 e depois já se sabia que não voltava a candidatar-se em 1995, por causa do cancro. O Presidente não ia deixar a paternidade das obras a mais ninguém, como foi o caso de Pompidou e Giscard, portanto fez questão de inaugurar todos edifícios antes do fim dos mandatos. De facto, o que importava era a inauguração mais do que o fim das obras, como por exemplo a Ópera que foi inaugurada à pressa sem estar concluída. Inaugurar antes das eleições de 1988, permitiu-lhe visibilidade para a sua campanha e ganhar votos, para assim ser eleito para mais um mandato. A mensagem que essas obras transmitiram foi que a França dava uma importância à cultura e dessa maneira se preocupava com o povo. Os projectos são realizados com muita pressa, o Presidente estava gravemente doente e já não tinha muito tempo. Ele sabia dessa realidade apesar ter escondido a sua doença e falsificado os boletins de saúde durante mais de catorze anos. Houve etapas que foram esquecidas, cortaram na qualidade dos materiais, mudaram as plantas originais, entre outros. Os edifícios foram construídos em tempo record. Assombrado pela doença, a morte e o medo do esquecimento, ele corria contra o tempo, e a ele faltava-lhe tempo. ”Il reste que François Mitterrand, se sachant engagé dans une lutte à mort, transforma ses deux septennats en une course de vitesse. Y compris et surtout dans sa hâte de bâtir”17. Vários projectos tiveram ajuda da própria vontade pessoal do Presidente da República. Como vimos anteriormente, ele tinha uma grande paixão por livros e deu origem à construção da biblioteca de França tal como no Louvre faltavam todo o tipo de condições para ser uma grande obra. ”J’habite Paris depuis déjà longtemps, quoique je sois un provincial invétéré, j’étais choqué par la manière dont était organisé le Louvre. J’en ai parlé avec un de mes amis, qui lui-même était aussi passionné que moi, même peut-être plus encore, pour ces choses, Louis-Gabriel Clayeux, qui a fait partie du petit groupe en question et il m’a dit : « Il faut absolument 16. DELARUE, Marie, Un Pharaon Républicain, Paris, Grancher, 1999, p.40 17. DELARUE, Marie, Un Pharaon Républicain, Paris, Grancher, 1999, p.8 Permanência e Poder 118 que le ministère des Finances quitte les locaux du Louvre. Il faut faire un vrai, un grand et un seul musée, il faut récupérer des milliers de mètres carrés, il faut en faire un des plus beaux musées du monde. » J’étais acquis à cette idée déjà depuis longtemps naturellement, puis voilà que soudain j’en avais la possibilité !”18. Temos a prova que os seus desejos íntimos foram importantes nestas construções em nome da cultura mas sobretudo para satisfazer a vontade de um homem megalómano. 18. http://www. mitterrand.org/ Architecture-lepremier-des-arts.html [12/12/2014] Permanência e Poder 119 Seguir os passos de outros Mitterrand estava convencido que os monarcas franceses citados inúmeras vezes no mundo, François I e Louis XIV, por exemplo, eram antes de tudo, grandes construtores. Ele vê nos Grands Travaux uma maneira de passar, sem dúvida, para a posterioridade. É uma das razões pelas quais ele, para garantir o seu renome internacional, dava ordens expressas para a escolha dos laureados dos concursos de arquitectura. Por exemplo, no caso da Biblioteca Nacional de França, desenhada por Dominique Perrault, a ordem era a escolha um arquitecto francês, apesar de Mitterrand dar por vezes preferência aos candidatos estrangeiros para dar mais visibilidade à França. Poucos arquitectos de êxito podem evitar desenhar edifícios com uma dimensão política em algum momento das suas careiras, querendo-o ou não. E quase todos os dirigentes políticos acabaram por usar os arquitectos para fins políticos. É uma realidade que se repete em quase todos os regimes. É por essa razão que vemos tantas fotos de Presidentes, ditadores, empresários de sucesso e capitalistas multimilionários inclinados sobre as suas maquetas arquitectónicas. Versalhes foi construído de raiz, onde o esplendor arquitectónico e a localização deviam neutralizar o poder da nobreza nas províncias francesa. Mais tarde, Napoleão III voltou a usar a arquitectura como instrumento de poder político, quando contratou Haussmann para reconstruir Paris numa escala monumental. Para François Mitterrand, a transformação do Louvre e a construção do Grande Arche de La Défense fizeram parte essencial da sua estratégia para converter Paris numa capital indiscutível para uma Europa moderna. Para esses três dirigentes, o aspecto semelhante dos monumentos formaram parte da sua estratégia tanto como o seu conteúdo. Mitterrand adoptou uma arquitectura agressiva, de formas geométricas simples de aço e cristal, para simbolizar o compromisso francês com a modernidade, como quando o Rei Sol converteu Versalhes num templo ao culto do regente para dar testemunho dos direitos divinos dos reis. É praticamente impossível encontrar um autocrata do século XX que esteve no poder que não se tenha lançado numa campanha de construção: desde Hitler e Mussolini até Staline, Mao, Saddam Hussein e Kim. Mitterrand apostou numa grandiosidade francesa como os ditadores costumam fazer. Staline com Moscovo, Hitler com Berlim, Mussolini com Roma. O presidente afirmava-se socialista mas essas construções mostraram atitudes quase royalista ou, pelo menos, como se tivesse o poder absoluto. Permanência e Poder 120 Afirmação do poder pela pedra Essa política singular permitiu uma visibilidade ao que hoje é um passado político: o “reinado” de Mitterrand e a chegada, inédita, na quinta república, de socialistas ao governo. Os novos monumentos parisienses foram, para esse homem, uma maneira de ficar inscrito na memória de uma colectividade, uma forma de continuar presente. “Réussirons-nous à inscrire dans l’espace et à sculpter dans la matière notre projet de culture? De toute mon énergie, je m’y emploierai. À la réussite d’une architecture se juge une civilisation”19. Foi em 1981, que François Mitterrand fez essa promessa solene. Ele esforçou-se em fazer ver o que era, para ele, o poder político. O crédito que ele deu à arquitectura inscreve-se numa longa tradição francesa. Mais concretamente, François Mitterrand fundouse, talvez sem o saber, num traço nacional dominante da política francesa. Há séculos, que em França, a política é governada pelo visual. É o império da visão que ordena ao contrário da Inglaterra. “La forme de doctrine des deux corps du roi est verbale en Angleterre, et “relève du dire”, elle est visuel en France, et “relève du voir (ou du faire voir)”.20” A lição foi bem estudada: não há nenhum poder forte sem grandes projectos arquitectónicos e não há nenhum poder novo sem novidade arquitectónica, falamos do poder da arquitectura e da arquitectura do poder. A grandeza política tinha que se mostrar e ser representados pela arquitectura. O processo normal quer que o Presidente tenha a maioridade perante os eleitos, para as grandes decisões. É uma regra na democracia. O Presidente só tem poder total no poder de indulto e no poder das armas nucleares. Mitterrand acrescentou os Grands Travaux a essas decisões. “Afin de bien marquer que le Grand projet relève, comme le droit de grâce et la commande du feu nucléaire, des pouvoirs régaliens que le chef d’état exerce seul et sans consulter sa majorité”21. Mitterrand era um amante de arquitectura e deu-lhe ainda mais prazer em usar isso no seu programa político “premier des arts, l’architecture est le seul en effet qui affronte directement le public, sans médiation”22. Essas obras foram destinadas a durar, e o arquitecto, neste caso o mandatário, pode imaginar que a sua obra ficará, durante uma centena de anos, o testemunho da sua época. “L’ordre monumental assure à l’architecture sa valeur déclamatoire, ce besoin de rhétorique qui l’identifie aux symboles du pouvoir “23. 19. LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, La dispute, Paris, 2007 p.13 20. DELARUE, Marie, Un Pharaon Républicain, Paris, Grancher, 1999, p.120 21. POISSON, Georges, Les Grands Travaux des Présidents de la Vº République, Paris, Parigramme, 2002, p.67 22. DELARUE, Marie, Un Pharaon Républicain, Paris, Grancher, 1999, p.18 23. BORSI, Franco, L’Ordre Monumental, Europe 1929-1939, HAZAN, 1986, p.196 Capítulo V Considerações finais Permanência e Poder 128 CHASLIN, François, La Grande Arche de la Défense, Paris, Electa, 1989 CHAUDOIR, Philippe, Culture et Politique de la Ville, Paris, l’Aube, 2005 CHEMETOV, Paul, Bercy, Ministère de l’Économie, des Finances et de l’Industrie, Paris, Alternatives, 2007 CHOAY, Françoise, Alegoria do Patrimônio, Lisboa, Edições 70, 2010 COHEN, Jean-Louis, Paris: Architecture 1900-2000, Paris, Norma, 2000 DELARUE, Marie, Un Pharaon Républicain, Paris, Grancher, 1999 DEVILLARD, Valérie, Architecture et Communication: les Médiations Architecturales dans les Années 80, Paris, Panthéon assas, 2001 EPAD,,De la Seine à la Seine, un axe, une ville : prolongement de l’axe historique de Paris, Paris, epad, 1992 EVENSON, Norma, Paris: Les Héritiers d’Haussmann Cent Ans de Travaux et d’Urbanisme, 1878-1978, Paris, ENSBA, 1983 FAVIER, Jean, Paris: Deux Mille Ans d’Histoire, Paris, Fayard, 1997 FERMIGIER, André, La Bataille de Paris, Paris, Gallimard, 1991 GIDEON, Siegfried, Arquitectura e Comunidade, Lisboa, Livros do Brasil, 1958 GUITTARD, Jean-Michel, Opéra Bastille: un Opéra Moderne et Populaire?, Clermont ferrand, service université culture, 2008 JENGER, Jean, Orsay, de la garre au Musée, Paris, RMN, 2006 LACAZE, Jean Paul, Paris, Urbanisme d’État et Destin d’une Ville, Paris, Flammarion, 1994 LACROIX, Hugo, Institut du Monde Arabe, Paris, Architectures la Difference, 2007 LAVEDAN, Pierre, Histoire de l’Urbanisme, Michigan, Henri Laurens, 1959 LUCAN, Jacques, Architecture en France (1940-2000), Paris, Le Moniteur, 2001 Bibliografia 129 LUSTE, Seloua Boulbina, Grands Travaux à Paris 1981-1995, Paris, La Dispute, 2007 MARCHAND, Bernard, Paris, Histoire d’une Ville, Paris, Le Point, 1993 McCLURE, Bert, Architectures Capitales Paris 1979-1989, Paris, Bilingual, 1989 NOUVEL, Jean, Institut du Monde Arabe, Paris, Demi-cercle, 1995 PEI, Ieoh Ming, Les Grands Desseins du Louvre, Paris, Hermann, 1989 PEREIRA, Nuno Teotónio; FERNANDES, José Manuel, A Arquitectura do Fascismo em Portugal, Lisboa, A Regra do Jogo, 1982 PERRAULT, Dominique, Bibliothèque Nationale de France : 19891995, Paris, Birkhauser, 1995 PIANO, Renzo, Du Plateau Beaubourg au Centre Pompidou, Paris, Centre Georges Pompidou, 1987 PINON, Pierre, Les Traversées de Paris, Paris, Moniteur, 1989 POISSON, George, La Grande Histoire du Louvre, Perrin, Paris, 2013 POISSON, George, Les Grands Travaux des Présidents de la République, Paris, Parigramme, 2002 POIX, Pierre, L’état Architecte, Paris, Syros la Découverte, 1991 REITZEL, Erik, La Grand Arche - sur l’Axe de Paris, Paris, archibooks, 2011 ROSMANINHO, Nuno, O Poder da Arte, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2006 SAURA, Joachim, Architectures et Pouvoir, Paris, Imbernon, 1997 SENNEVILLE, Gérard, La Défense, Expressions des Arts Urbains, Paris, Albin Michel, 1992 SILVER, Nathan, The Making of Beaubourg: A Building Biography of the Centre Pompidou, Paris, MITT Press, 1994 SUDJIC, Deyan, Arquitectura del Poder, Barcelona, Ariel, 2007 TINNISWOOD, Adrian, Visions of Power: Ambition and Architecture from Ancient Rome to Modern Paris, London, Mitchell Beazley, 1998 Permanência e Poder 130 TORRES, Felix, Paris La Défense : Métropole Européenne des Affaires, Paris, Moniteur, 1987 URFALINO, Philippe, Quatre Voix pour un Opéra: l’Opéra Bastille, Paris, Metaillé, 1990 WEBER, Max, Conceitos Sociológicos Fundamentais, Lisboa, Edições 70, 1997 WEILL, Georges, La Perspective de la Défense dans l’Art et l’Histoire, Nanterre, Archives départementales des Hauts-de-Seine, 1983