Avaliação da representação das relações íntimas, comportamento diádico e percepção da vinculação: estudo exploratório
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ii Agradecimentos À Professora Doutora Isabel Soares um agradecimento muito especial por me ter concedido a oportunidade de conhecer mais de perto a teoria da vinculação. Agradeço a disponibilidade, a sabedoria e os ensinamentos constantes em todo o processo de orientação científica desta dissertação. Foi um privilégio ter sido sua orientanda. À Dr.ª Vânia Lima, pela amizade construída ao longo deste projecto. Todos os momentos de trabalho conjunto, o apoio e o sentido de humor sempre presentes foram essenciais na concretização deste trabalho. Pelo crescimento pessoal e profissional conquistado e partilhado o meu mais sincero agradecimento. A todos os colegas do Grupo de Estudos da Vinculação, em especial ao Professor Doutor Pedro Dias e à Dr.ª Marisa Fonseca pelo papel que tiveram na minha integração no grupo e pelo trabalho desempenhado na dinamização do mesmo. Agradeço a disponibilidade e o encorajamento constante. Aos colegas que colaboraram na recolha da amostra e na cotação dos instrumentos: Susana Tereno, Vera Ramalho, Joana Silva, Diogo Lamela, António Castro, Filipa Vasconcelos, Teresa Sofia Marques, John Klein, Anabela Lourenço. Obrigada pela vossa preciosa colaboração, sempre tão eficaz e atempada. À Rita Soares, Ana Teresa Maia, Bruno Lima e Sofia Chaves o meu agradecimento pela paciência e profissionalismo no processo tão pesado e moroso de transcrição de entrevistas. À Professora Doutora Carla Martins e ao Dr. Patrício Costa agradeço a disponibilidade e o apoio na análise estatística dos dados. À Professora Doutora Marina Prista Guerra, Professora Doutora Sandra Torres e à Professora Doutora Cristina Queirós um agradecimento muito especial pela disponibilidade, aconselhamentos e ensinamentos ao longo do meu percurso
iii académico e profissional. Agradeço a amizade e o incentivo, sempre tão reforçador, ao longo da concretização desta dissertação. À Professora Doutora Gabriela Moita por ter sido tão importante na recta final deste trabalho. É com muita admiração que lhe agradeço o estímulo sempre tão eficazmente provocador de crescimento pessoal. Ao Dr. José Luís, à Mariana, à Graça, ao João, ao Ricardo, à Joana, à Sara, à Diana, ao Vasco, à Mizé, à Susan, à Matilde. Obrigada pelo vosso incentivo, apoio e feedback sempre tão construtivo. A todos os meus amigos que me apoiaram ao longo de todo este processo, aceitando as minhas constantes ausências. À Cristina, pela sua incansável amizade a qualquer hora e em qualquer momento. Ao Tiago pela ajuda preciosa no inglês. À Susana, à Samico, à Magda, à Sandra pelas constantes manifestações de interesse e encorajamento. Aos casais um agradecimento muito especial por terem aceite participar neste projecto e por nos terem permitido “entrar” um pouco na vossa intimidade e partilharem connosco um pouco das vossas histórias. Mais do que dados estatísticos possibilitaram-nos experiências de vida muito enriquecedoras. À minha família, em especial aos meus pais, pelo apoio incondicional, compreensão nos momentos de maior indisponibilidade minha, e por estarem sempre presentes. Ao Ricardo, que em todos os momentos o sinto ao meu lado, agradeço com um carinho muito especial a presença, a partilha, a compreensão e o incentivo fundamentais no desenvolvimento deste projecto.
iv Resumo A presente dissertação, ainda que de carácter exploratório, pretende contribuir para o desenvolvimento de uma leitura mais compreensiva e multifacetada sobre a complexidade das relações íntimas à luz da teoria da vinculação. Assente nos contributos teóricos e empíricos de John Bowlby e Mary Aisnworth, considera-se o estabelecimento de vínculos emocionais, capazes de proporcionar ao indivíduo segurança e protecção, uma necessidade básica do ser humano. Neste sentido, o nosso trabalho incidiu na conceptualização das relações íntimas na idade adulta enquanto relações de vinculação. O estudo apresentado foi realizado junto de 20 casais e tem como objectivo geral a integração de diferentes métodos no estudo da vinculação no contexto das relações íntimas. Pretende-se examinar dimensões específicas da vinculação no domínio representacional, através de uma entrevista que pretende avaliar a representação da relação íntima por parte de cada um dos elementos do casal, no domínio comportamental, através de um procedimento de observação da interacção diádica, e no domínio das percepções dos sujeitos sobre a vinculação, através de uma medida de auto-relato. Os resultados encontrados apontam no sentido da pertinência da avaliação da vinculação na idade adulta, no contexto das relações íntimas, pelo recurso à combinação de múltiplos métodos, assumidos como complementares. Salientamos, a nível representacional e da percepção, a congruência entre dados empíricos encontrados e aspectos centrais da teoria da vinculação. Em termos comportamentais realçamos a forma como os sistemas de procura e prestação de cuidados, constructos basilares na teoria da vinculação, revelam ser essenciais na compreensão do comportamento diádico, apontando designadamente para a diferenciação de comportamentos dentro do casal. Os resultados são discutidos tendo em conta as suas implicações para a investigação e prática clínica, atendendo à importância do desenvolvimento desta “abordagem multi” para o estudo e compreensão das relações íntimas.
v Abstract This dissertation, although an exploratory approach, intends to contribute to the development of a more comprehensive and multifaceted perspective on the complexity of intimate relationships regarding the attachment theory. Based on theoretical and empirical contributions of John Bowlby and Mary Aisnworth, it is considered the establishment of emotional ties, which are able to provide security and protection to the individual, a basic need of human beings. In this sense, we focused our work on the conceptualization of intimate relationships in adulthood while attachment relationships. The present study reports data from 20 couples and has the integration of different methods in the study of attachment in a context of intimate relationships as its main aim. The proposal is to examine specific dimensions of representational domain, through an interview that intends to assess the representation of the close relationship for each of the elements in the couple, on behaviour domain, through an observation procedure of the dyadic interaction, and perceptions domain, through a self-report measure. The results show the relevance of the assessment of the attachment in adulthood, in the context of intimate relationships, through the use of the combination of multiple methods, as complementary commitments. The data suggest the congruence between empirical and theoretical data at a representational and perception level. Regarding the behavioural domain, the careseeking and caregiving systems, basic constructs of attachment theory, seem to be essential for understanding the dyadic behaviour, pointing to the differentiation of behaviour within the couple. The results are discussed based on its implications for research and clinical practice, given the importance of the development of this "multi approach" to the study and understanding of intimate relationships.
vi Índice Agradecimentos ...........................................................................................................................................ii Resumo ......................................................................................................................................................iv Abstract ........................................................................................................................................................v Índice ..........................................................................................................................................................vi Índice de Figuras ....................................................................................................................................... vii Índice de Quadros ...................................................................................................................................... vii Lista de Anexos .........................................................................................................................................viii Introdução...................................................................................................................................................1 PARTE A – ENQUADRAMENTO TEÓRICO................................................................................................4 Capítulo 1 – Teoria da Vinculação...............................................................................................................5 1.1. Suas origens – contributos de John Bowlby e Mary Ainsworth...............................................5 1.2.Comportamentos de vinculação ..............................................................................................7 1.3. Modelos Internos Dinâmicos .................................................................................................12 Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na idade adulta....................................................................16 2.1. Introdução..............................................................................................................................16 2.2. Vinculação na idade adulta....................................................................................................18 2.2.1. Dimensão representacional da vinculação..................................................................19 2.2.2. Relação de vinculação com pares...............................................................................22 2.3. Vinculação no contexto das relações intimas: aspectos conceptuais ...................................24 2.4. Vinculação contexto das relações intimas: métodos de avaliação........................................30 2.4.1. Medidas representacionais..........................................................................................31 2.4.2. Medidas comportamentais ..........................................................................................33 2.4.3. Medidas de auto-relato................................................................................................35 PARTE B –ESTUDO EMPÍRICO................................................................................................................38 Capítulo 3 – Objectivos e metodologia......................................................................................................39 3.1. Objectivos..............................................................................................................................39 3.2. Método .................................................................................................................................40 3.2.1. Desenho do estudo.....................................................................................................40 3.2.2. Amostra.......................................................................................................................40 3.2.2.1. Selecção da amostra.....................................................................................40 3.2.2.2. Caracterização da amostra............................................................................42
vii 3.2.3. Medidas.......................................................................................................................44 3.2.3.1. Ficha de dados sócio-demográficos..............................................................44 3.2.3.2. Representação das relações intimas: Intimate Relationship Interview - IRI..44 3.2.3.3. Comportamento diádico: Couples Interaction Task - CIT..............................49 3.2.3.4. Percepção da vinculação: Escala de Vinculação do Adulto - EVA................52 3.2.4. Procedimentos.............................................................................................................54 3.2.4.1. Recolha dos dados........................................................................................54 3.2.4.2. Formação na administração e cotação dos instrumentos..............................55 3.2.4.3. Análise computacional dos dados .................................................................55 Capítulo 4 – Resultados.............................................................................................................................57 4.1. Representação das relações intimas.....................................................................................57 4.2. Comportamento diádico nas relações intimas.......................................................................61 4.3. Percepção da vinculação.......................................................................................................67 4.4. Relações entre representação das relações intimas, comportamento diádico e percepção da vinculação.......................................................................................................69 4.4.1. Relações entre representação e comportamento nas relações intimas......................69 4.4.2. Relações entre percepção da vinculação, representação e comportamento nas relações intimas ....................................................................................................................72 Capítulo 5 – Discussão dos Resultados e Conclusões..............................................................................75 Referências Bibliográficas.......................................................................................................................87 Anexos.......................................................................................................................................................96 Listagem de Figuras Figura 1 – Estrutura hierárquica dos Modelos Internos Dinâmicos Figura 2 – Desenvolvimento dos três sistemas comportamentais no contexto de uma relação de vinculação na idade adulta Listagem de Quadros Quadro 1: Caracterização sócio-demográfica da amostra Quadro 2: Caracterização da Relação dos casais Quadro 3: Correlações item-total na IRI Quadro 4: Valores de alpha de Cronbach e correlações item-total para as dimensões avaliadas pela CIT Quadro 5: Valores do alpha de Cronbach para as dimensões avaliadas pela EVA Quadro 6: Medidas descritivas dos resultados da IRI para os elementos masculinos do casal Quadro 7: Medidas descritivas dos resultados da IRI para os elementos femininos do casal Quadro 8: Teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas relativamente às escalas da IRI
viii Quadro 9: Correlações entre escalas da IRI nos elementos masculinos do casal Quadro 10: Correlações entre escalas da IRI nos elementos femininos do casal Quadro 11: Medidas descritivas dos resultados das escalas diádicas da CIT Quadro 12: Medidas descritivas dos resultados das escalas individuais da CIT Quadro 13: Teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas relativamente às escalas individuais da CIT Quadro 14: Correlações entre escalas diádicas da CIT Quadro 15: Correlações entre escalas individuais da CIT Quadro 16: Teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas relativamente às escalas individuais da CIT para os dois elementos do casal separadamente Quadro 17: Correlações entre escalas individuais e escalas diádicas da CIT Quadro 18: Medidas descritivas dos resultados da EVA Quadro 19: Teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas relativamente às dimensões da EVA Quadro 20: Correlações entre dimensões EVA Quadro 21: Correlações entre escalas da Representação e do Comportamento – elementos masculinos do casal Quadro 22: Correlações entre escalas da Representação e do Comportamento – elementos femininos do casal Quadro 23: Correlações entre Percepção e Representação – elementos masculinos do casal Quadro 24: Correlações entre Percepção e Representação – elementos femininos do casal Quadro 25: Correlações entre Percepção e Comportamento – elementos masculinos do casal Quadro 26: Correlações entre Percepção e Comportamento – elementos femininos do casal Listagem de Anexos Anexo 1 – Ficha de Dados Sócio-Demográficos Anexo 2 – Descrição das escalas da IRI Anexo 3 – Descrição das escalas da CIT Anexo 4 – Escala de Vinculação do Adulto Anexo 5 – Inventário de Sintomas Psicopatológicos Anexo 6 – Consentimento Informado
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 7 haven), essenciais na definição de vinculação e comportamento de vinculação, como iremos ver de seguida. 1.2 Comportamento de vinculação O primeiro trabalho formal de Bowlby sobre a Teoria da Vinculação, influenciado pelos conceitos da Etologia e Psicologia do Desenvolvimento, foi apresentado à Sociedade Britânica de Psicanálise sob a forma de 3 artigos – “The Nature of the Child´s Tie to his Mother” (1958), “Separation Anxiety” (1960a) e “Grief and Mourning in Infancy and Early Childhood” (1960b) – que mais tarde deram origem à conhecida trilogia “Attachment” (1969/1982), “Separation” (1973) e “Loss”, (1980). Ao longo destes trabalhos, Bowlby formula a Teoria da Vinculação, na qual enfatiza a importância da dimensão relacional no desenvolvimento psicológico do indivíduo, realçando a necessidade humana universal de estabelecimento de uma relação de proximidade capaz de proporcionar segurança e protecção ao longo da vida (Ainsworth & Bowlby, 1991; Bretherton, 1992). O estabelecimento de vínculos emocionais é definido como uma necessidade básica, a partir da qual o indivíduo vai conhecendo o mundo, os outros e a si próprio. Na base desta teoria encontramos a referência ao conceito de sistema comportamental de vinculação, presente nos seres humanos desde o seu nascimento, constituído por uma série de comportamentos de base biológica característicos da espécie e que contribuem para a sobrevivência do indivíduo (Bowlby, 1958; Bretherton, 1992; Cassidy, 1999). Inicialmente, as crianças apresentam um reportório de comportamentos de procura de proximidade relativamente independentes uns dos outros e dirigidos de uma forma indiscriminada para os seus cuidadores. No entanto, tais comportamentos (e.g. chupar, agarrar, seguir, chorar, sorrir), geneticamente determinados, vão-se desenvolvendo e orientando em relação a uma figura principal, percepcionada como física e psicologicamente mais forte e capaz de lidar eficazmente com as dificuldades sentidas, procurando garantir a satisfação das necessidades de segurança e protecção da criança (Ainsworth & Bowlby, 1991; Cassidy, 1999). Os comportamentos de vinculação desempenham assim um papel importante na sobrevivência do indivíduo e na sua capacidade de adaptação e exploração do meio. A
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 8 exploração segura do meio envolvente é regulada pela proximidade com a figura de vinculação. Perante um estímulo percepcionado como ameaçador pela criança assiste-se à activação do sistema de vinculação. O adulto ao mostrar-se disponível e capaz de responder regularmente a estes sinais, proporcionando um sentimento de segurança através da prestação de cuidados, constitui-se para a criança uma figura de vinculação (Ainsworth & Bowlby, 1991; Bretherton, 1991, 1992). Neste contexto, Bowlby (1988) define comportamento de vinculação como “any form of behaviour that results in a person attaining or maintaining proximity to some other clearly identified individual who is conceived as better able to cope with the world” (p.29). Sroufe e Waters (1977) salientam também que “they are designated attachment behaviors because they are used by the infant in the service of proximity or physical or psychological contact. They are attachment behaviors because of their role in the development of and service of attachment and because of their organization in relation to one another” (p.6). O conteúdo de uma relação de vinculação está assim centrado na regulação de segurança (Soares, 1996b), sendo o resultado do comportamento de vinculação a obtenção ou manutenção da proximidade com a figura de vinculação e a sua função o proporcionar protecção, segurança e conforto à criança. Segundo Sroufe e Waters (1977), mais do que uma proximidade física, esta regulação de segurança procura atingir uma dimensão emocional que designaram por “felt security”. Os comportamentos de vinculação podem ser reforçados ou activados por diversos factores percepcionados pela criança como ameaçadores e que podem ser relativos à própria criança (e.g. situação de doença, fome), ao meio envolvente (e.g. situações de alarme, presença de um estranho) e à figura de vinculação (e.g. ausência, negligência nos cuidados) (Cassidy, 1999). No entanto, esta activação e consequente procura de proximidade com a figura de vinculação não acontecem automaticamente, dependendo de uma série de factores, nomeadamente da avaliação subjectiva que a própria criança faz da situação, da sua familiaridade com a mesma, do seu nível de desenvolvimento, de experiências passadas, entre outros (Sroufe e Waters, 1977). A desactivação do comportamento de vinculação encontra-se associada aos comportamentos disponíveis e responsivos da figura de vinculação, capazes de
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 9 proporcionar segurança à criança, reduzindo o medo ou a ansiedade provocada pela experiência de tensão, desconforto ou mal-estar. As condições de desactivação do sistema de vinculação variam também de acordo com a intensidade da sua activação. Numa dada situação percepcionada como ameaçadora, se a activação for muito intensa provavelmente os comportamentos de contacto físico serão os mais securizantes para a criança, fazendo desactivar o sistema de vinculação (Cassidy, 1999). Com o desenvolvimento sócio-afectivo e cognitivo, a partir da adolescência verifica-se uma mudança na forma como o indivíduo organiza e interpreta a informação e interage com o outro no contexto de uma relação de vinculação. O desenvolvimento da capacidade simbólica permite uma mudança para níveis mais internos de funcionamento, que se manifesta por exemplo numa maior capacidade de tolerar períodos de separação, perda ou ameaças e num maior controlo da expressão emocional e comportamental. Desta forma, as condições de activação e desactivação do sistema de vinculação alteram-se ao longo do desenvolvimento, adaptando-se às exigências e características de cada faixa etária. Por vinculação entende-se o sistema de controlo que organiza e orienta estes mesmos comportamentos para que atinjam os seus objectivos (Ainsworth et al., 1978; Bowlby, 1988; Cassidy, 1999). De acordo com Sroufe e Waters (1977) “attachment refers to an affective tie between infant and caregiver…” (p.2), que uma vez estabelecido tende a persistir e a ser duradouro, existindo para além da manifestação episódica dos comportamentos de vinculação. Enquanto ligação emocional, vinculação não é necessariamente sinónimo de relação. O que caracteriza uma relação é a sua componente diádica, enquanto que a ligação afectiva é uma característica do indivíduo, apesar de se desenvolver num contexto relacional (Ainsworth, 1991). No desenvolvimento de uma relação de vinculação importa salientar a qualidade das ligações afectivas entre criança e figura de vinculação. É a qualidade dessas trocas emocionais, sobretudo quando o sistema de vinculação está activado, que caracteriza a qualidade da relação de vinculação (Soares, 1996a). A teoria da vinculação destaca a este nível a sensibilidade e a disponibilidade física e emocional da figura de vinculação para dar resposta às necessidades de proximidade e protecção da criança.
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 10 Esta dinâmica entre procura de proximidade com a figura de vinculação e obtenção de protecção e segurança conduz-nos aos conceitos de base segura e refúgio seguro, essenciais na conceptualização da Teoria da Vinculação. A figura de vinculação assumese como base segura para a criança quando esta se sente segura e tranquila relativamente à sua presença, sendo capaz de se envolver em comportamentos de exploração do meio. Perante situações de ameaça de perigo o comportamento de vinculação é activado, passando a atenção da criança a estar focada na procura de contacto com a figura de vinculação, assumindo-se esta como refúgio seguro. Proporcionada a segurança, a criança pode regressar à exploração e a figura de vinculação ser percepcionada novamente como base segura (Soares, 1996b). Tendo subjacente esta noção de base segura, Ainsworth e cols. (1978), através do procedimento da Situação Estranha, procuram activar o sistema comportamental de vinculação da criança (episódios de separação breve da figura de vinculação e consequente reunião e de encontro com um estranho) identificando padrões de vinculação que reflectem essencialmente diferenças individuais neste processo diádico bebé-mãe de procura de proximidade e de proporcionar segurança e protecção. Estas diferenças individuais constituem diferenças qualitativas na forma como os comportamentos de vinculação são organizados, podendo ser divididas em duas grandes categorias - relação de vinculação segura e relação de vinculação insegura - sendo esta última dividida em duas subcategorias: relação insegura-evitante e relação insegura-ambivalente. O termo seguro ou inseguro reflecte a percepção da criança sobre a disponibilidade e responsividade da figura de vinculação em situações de ameaça ou perigo, assim como a forma como os seus comportamentos estão organizados em função de tal percepção (Weinfield, Sroufe, Egeland & Carlson, 1999). O padrão de vinculação seguro caracteriza-se por crianças capazes de explorar o meio, que procuram activamente protecção e conforto quando confrontadas com situações potencialmente ameaçadoras, observando-se por parte da figura de vinculação disponibilidade e capacidade em satisfazer tais necessidades. Estas crianças confiam na sensibilidade dos comportamentos da figura de vinculação, tornando-se consequentemente mais confiantes e seguras nas suas interacções com o mundo. No
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 11 padrão inseguro-evitante encontramos um evitamento do contacto e da procura de proximidade com a figura de vinculação, devido à rejeição e insensibilidade que esta manifesta perante as necessidades da criança. Predominam os comportamentos de exploração do meio como forma de ignorar a presença da figura de vinculação e a necessidade dos seus cuidados. No padrão inseguro-ambivalente, a criança apresenta dificuldades de regulação do afecto e comportamentos de dúvida face à responsividade da figura de vinculação, oscilando entre a procura de proximidade e resistência ao contacto, em resposta normalmente a comportamentos insensíveis ou inconsistentes da figura de vinculação. Estas crianças são hipervigilantes face à presença da figura de vinculação, o que empobrece os seus comportamentos de exploração do meio. Uma vez que a insegurança compromete a exploração do mundo, as crianças inseguras tornam-me menos confiantes nelas próprias e nos outros. Independentemente das diferenças entre os três padrões comportamentais, estes constituem-se como estratégias organizadas por parte da criança para lidar com o distress provocado pela situação activadora do sistema de vinculação. Contudo, Main e Solomon (1990 cit in Soares, 1996b) identificaram um quarto grupo de crianças cujos comportamentos não se ajustavam aos padrões definidos por Ainsworth e colaboradores. Este quarto padrão, designado por desorganizado/desorientado, caracteriza-se por sequências de comportamentos bizarros, contraditórios e desorganizados, movimentos despropositados, estereotipados, posturas anómalas e sinais de medo e insegurança intensa em relação à figura de vinculação. Estes comportamentos revelam uma aparente ausência de estratégia para lidar com o distress decorrente da separação da figura de vinculação e, segundo as autoras, são observados sobretudo em amostra clínicas e de risco. Relativamente à distribuição dos padrões, Ainsworth e cols. (1978) encontraram nos seus estudos cerca de 70% de crianças classificadas como seguras, 10% com o padrão inseguro-ambivalente e cerca de 20% com o padrão inseguro-evitante. Van Ijzendoorn e Kroonenberg (1988) numa meta-análise transcultural verificaram que a distribuição dos padrões de vinculação encontrados na Situação Estranha era consideravelmente diferente entre países. Apesar de o padrão seguro ser o mais predominante, a frequência dos
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 12 padrões inseguros difere, observando-se mais crianças com o padrão inseguro-evitante na Europa enquanto que em Israel e no Japão a frequência de crianças com o padrão inseguro-ambivalente é maior. Estas diferenças podem estar associadas a diferenças culturais, nomeadamente ao nível dos cuidados maternos (Feeney & Noller, 1996). Em síntese, Bowlby (1969/1982; 1973; 1980) considera o comportamento de vinculação como uma componente essencial do sistema comportamental humano, a par, por exemplo, do comportamento sexual e do comportamento alimentar, tendo como função biológica a protecção, não só na infância mas ao longo do ciclo de vida. A vinculação manifesta-se pelo sentimento de segurança que a figura de vinculação deverá proporcionar; pela procura de proximidade com essa figura, em particular em situações de ameaça ou perigo, e pelas reacções de protesto face à separação da figura de vinculação e de alegria perante situações de reaproximação. Segundo Bowlby “proximity seeking (including protest at separation), secure base and safe haven are the three defining features and the three functions of an attachment relationship” (Feeney & Noller, 1996, p. 4). 1.3 Modelos Internos Dinâmicos As condições de activação e de desactivação do comportamento de vinculação variam ao longo da vida. Se durante os primeiros anos o comportamento de vinculação da criança é facilmente activado, progressivamente este vai-se tornando menos intenso e frequente, passando também a ser desactivado por um conjunto mais amplo de situações (Soares, 1996b). Um dos factores que influencia esta mudança relaciona-se com o desenvolvimento cognitivo, que torna possível a emergência de novas competências que terão impacto no modo como o indivíduo interpreta e organiza as suas experiências, como interage com os outros e como vive e exprime as emoções (Soares, 1996b). À medida que o sistema de vinculação se torna cada vez mais organizado e complexo, influenciado pelo desenvolvimento dos processos simbólicos, nomeadamente da linguagem, a criança começa a desenvolver um conjunto de expectativas acerca do self, dos outros e do mundo, que se constituem como grelhas de leitura na percepção e
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 13 interpretação dos acontecimentos, na antecipação do futuro e na elaboração de planos para esse futuro (Bowlby, 1988; Soares, 2000). O desenvolvimento dessa capacidade simbólica conduz-nos à emergência da dimensão representacional do sistema de vinculação. O conceito de Modelos Internos Dinâmicos (Internal Working Models) torna-se assim central na teoria de Bowlby, permitindo a passagem do domínio comportamental para o domínio representacional no estudo da vinculação ao longo do ciclo de vida. Por modelos internos dinâmicos entende-se estruturas mentais, construídas a partir das experiências de vinculação e da interpretação das mesmas, que orientam não só os comportamentos e sentimentos dos indivíduos mas também a memória, a atenção e a linguagem relacionadas com a vinculação (Main, Kaplan & Cassidy, 1985). De acordo com Collins e Read (1994) indivíduos com diferentes padrões de vinculação comportam-se de modo diferente porque pensam e sentem de forma distinta. Sendo os modelos internos dinâmicos construídos no contexto da relação de vinculação, integram os conhecimentos do indivíduo acerca do self e acerca da figura de vinculação. Estes conhecimentos baseiam-se na avaliação que o sujeito faz em termos do seu valor próprio e da confiança que tem na disponibilidade e na responsividade da figura de vinculação para responder aos seus pedidos de ajuda e protecção (Bowlby, 1973; Feeney & Noller, 1996; Soares, 1996b). Assim, crianças com um padrão de vinculação seguro constroem, a partir das suas experiências, um modelo da figura de vinculação responsiva e acessível e um modelo do self valorizado e merecedor de cuidados. A criança exprime livremente as suas emoções, sentindo-se confiante e segura na relação com a figura de vinculação. Por outro lado, num padrão de vinculação inseguro, onde as experiências são mais frustrantes, envolvendo insensibilidade, rejeição ou desvalorização, a criança constrói modelos mais negativos de si e da figura de vinculação (Bretherton & Munholland, 1999; Soares, 1996a). Bowlby refere que há uma relação significativa entre as experiências de vinculação durante a infância/adolescência e a capacidade de estabelecer ligações afectivas na idade adulta, na medida em que a qualidade dessas experiências é fundamental no desenvolvimento de um sentimento de confiança e segurança em si próprio e nos outros (Soares, 1996a).
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 14 O desenvolvimento do modelo do self e do modelo da figura de vinculação ocorre assim de uma forma dinâmica e complementar, o que para alguns autores (Main et al., 1985; Sroufe & Fleeson, 1986) sugere a existência de um modelo dinâmico da relação de vinculação (working model of attachment relationship). Neste sentido, segundo Main e cols. (1985) diferentes relações são representadas de modo distinto, na medida em que o que é construído é um modelo da interacção e não do self e da figura de vinculação separados dos acontecimentos relacionais. O próprio conceito de modelos internos dinâmicos remete, segundo Kobak (1994), para a natureza múltipla da vinculação em função da diversidade relacional. Collins e Read (1994) reforçam esta ideia ao sugerirem que o indivíduo desenvolve diferentes modelos internos dinâmicos em função de diferentes relações, estabelecendo uma hierarquia dos mesmos (Figura 1). De acordo com os autores, no topo dessa hierarquia podemos encontrar modelos mais globais do self e dos outros que se adequam a uma diversidade de situações e que influenciam os modelos mais específicos referentes a determinadas relações em particular, construídas ao longo da vida do individuo. Diferentes domínios de relação (e.g. com pais, amigos, cônjuges) implicam necessidades de vinculação distintas, que se manifestam igualmente através de expectativas e comportamentos igualmente distintos (Overall, Fletcher & Frieen, 2003). Figura 1. – Estrutura hierárquica dos Modelos Internos Dinâmicos (Adaptado de Collins e Read, 1994) Estes modelos representacionais que o indivíduo constrói a partir das interacções contínuas com o mundo que o rodeia vão-se tornando cada vez mais complexos, acompanhando o desenvolvimento das suas estruturas cognitivas, emocionais e comportamentais (Bowlby, 1973; Bretherton & Munholland, 1999). Deste modo, tendem a Modelo Geral do Self e do Outro numa Relação de Vinculação Modelo da Relação Pais - Criança Modelo da Relação com os Pares Mãe Pai Relações de Amizade Relações amorosas X Y Z
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1 – Teoria da Vinculação 15 tornar-se automatizados e relativamente estáveis ao longo do tempo, uma vez que ao influenciarem os comportamentos são consequentemente reforçados por estes. Cognitivamente, os modelos internos dinâmicos orientam a atenção e a memória do indivíduo, que tende a ser particularmente sensível a informação consistente com as expectativas e sentimentos acerca do self e dos outros. No entanto, não são um mero acumular de experiências. Conforme sugerido por vários estudos de natureza longitudinal (e.g., Roisman, Madsen, Hennighausen, Sroufe & Collins, 2001; Grossmann, Grossmann, Winter & Zimmermann, 2002), os modelos internos dinâmicos caracterizam-se pela possibilidade de reelaboração e de desenvolvimento em direcção a formas mais complexas e sofisticadas de organização da experiência e de orientação da acção, contribuindo para tal as experiências relacionais do indivíduo ao longo do ciclo de vida (Bowlby, 1988; Baldwin & Fehr, 1995; Bretherton & Munholland, 1999). Segundo Bowlby (1988), os modelos internos dinâmicos são assim um mecanismo através do qual as experiências de vinculação influenciam o indivíduo ao longo da sua vida, sendo que novas relações constituem uma oportunidade de mudança dos mesmos. O desenvolvimento de novas relações é influenciado pelo conjunto de expectativas e significados que vão sendo construídos ao longo da história relacional do indivíduo, ao mesmo tempo que possibilitam a sua mudança. O impacto que estas novas experiências têm na estabilidade dos modelos internos dinâmicos depende do significado emocional que assumem para o indivíduo. Porém, não são só as novas relações que poderão originar mudanças nestas estruturas mentais. Novas interpretações dos acontecimentos passados (alcançadas por exemplo através de um processo psicoterapêutico) permitem uma integração e reorganização das experiências vividas, o que poderá igualmente contribuir para o desenvolvimento e mudança dos modelos internos dinâmicos. Após uma breve revisão dos conceitos básicos da Teoria da Vinculação, iremos no capítulo seguinte abordar as especificidades da vinculação no contexto da idade adulta, que constitui o foco principal do presente trabalho.
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 16 CAPÍTULO 2 VINCULAÇÃO E RELAÇÕES INTIMAS NA IDADE ADULTA 2.1. Introdução O desenvolvimento humano, concebido como um processo dinâmico e em construção contínua, ocorre de acordo com Soares (2000) “através de sucessivas reorganizações qualitativas dentro e entre os sistemas biológico, emocional, cognitivo, comportamental e social, com base em processos de diferenciação e subsequente articulação, integração hierárquica e (re)organização” (p.20). Ao longo do seu desenvolvimento o indivíduo é confrontado com sucessivas tarefas e desafios que vão exigir a sua adaptação e que permitem evoluir para estádios desenvolvimentais cada vez mais diferenciados e complexos. Neste sentido, a possibilidade de reelaboração dos modelos internos dinâmicos para formas cada vez mais complexas ao longo do ciclo de vida conduz-nos a uma ideia base da teoria de Bowlby (1969/1982; 1973; 1980): a criação e manutenção de laços afectivos são uma componente básica do desenvolvimento humano, influenciando a adaptação psicossocial do indivíduo em qualquer período desenvolvimental. Apesar de grande parte das concepções de Bowlby focarem essencialmente “the nature of the child tie to his mother”, ao longo dos seus trabalhos faz também referência à vinculação enquanto fenómeno presente “from the cradle to the grave”, salientando que “the formation of a bond is described as falling in love, maintaining a bond as loving someone, and losing a partner as grieving over someone” (Bowlby, 1980, p.40). A questão que se coloca quando passamos do estudo da vinculação na infância para a idade adulta relaciona-se com a natureza e a função de uma relação de vinculação. Terá uma relação de vinculação na idade adulta as mesmas funções que durante a infância?
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 23 considerados como ambivalentes prevalecem os pensamentos obsessivos relativamente à percepção de perda e abandono, desejo de posse e fusão com o outro e ciúme excessivo. Nos seus estudos, Hazan e Shaver (1987) encontram distribuições similares às observadas na infância por Ainsworth e cols. (1978), com cerca de 56% dos sujeitos considerados como seguros, 25% como inseguros-evitantes e cerca de 19% como inseguros-ambivalentes. Os comportamentos de procura de proximidade física, essenciais no processo de formação de uma relação amorosa, constituem-se como um elemento facilitador do desenvolvimento de um laço emocional que contribui progressivamente para a construção de uma relação de vinculação (Hazan & Shaver, 1994; Hazan & Zeifman, 1999). Enquanto que na infância a procura de proximidade tem por finalidade o restabelecimento da segurança, na idade adulta essa procura de proximidade pode encontrar-se igualmente associada ao desejo de envolvimento sexual (Barón, Zapiain & Apodaca, 2002; Butzer & Campbell, 2008). No contexto das relações amorosas o sistema sexual encontra-se assim em estreita ligação com o sistema de vinculação, sendo possível encontrar diferenças no comportamento sexual em função do padrão de vinculação dos indivíduos. De acordo com os estudos de Hazan e Zeifman (1994, cit in Cassidy, 2001) indivíduos seguros tendem a envolver-se sexualmente em relações onde a intimidade, o compromisso e a proximidade física são valorizadas. Nos indivíduos ambivalentes observam-se comportamentos de voyeurismo, exibicionismo, domínio e submissão nas mulheres, enquanto que os homens revelam ser mais reticentes ao contacto sexual. Indivíduos evitantes mostram um menor envolvimento afectivo no contexto da relação sexual, uma menor intimidade com o parceiro e um maior desconforto com o contacto físico. Uma relação amorosa necessita de tempo para se tornar num relação de vinculação. Tal como acontece na infância, entre criança e figura de vinculação, é igualmente esperado que no contexto das relações amorosas o processo de desenvolvimento de uma relação de vinculação ocorra de um modo sequencial: inicialmente os comportamentos de procura de proximidade assumem maior relevo, seguidos dos de procura de conforto e apoio e por fim os de base segura. Enquanto que a atracção física e o relacionamento sexual tendem a ser dimensões mais valorizadas em fases iniciais da relação, com o evoluir desta, a capacidade do outro para proporcionar conforto, segurança e apoio emocional são os aspectos mais
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 24 enfatizados (Hazan & Shaver, 1994; Hazan & Zeifman, 1999; Cassidy, 2000). Vários estudos (Hazan e Shaver, 1994; Hazan & Zeifman, 1999; Hazan e Zeifman, 1994, cit in Cassidy, 2001) referem que este processo tende a demorar cerca de dois anos a desenvolver-se, tal como é possível observar na figura 2. Figura 2. – Desenvolvimento dos três sistemas comportamentais no contexto de uma relação de vinculação na idade adulta (Adaptado de Hazan & Shaver, 1994) Os contributos teóricos e empíricos dos trabalhos de Hazan e Shaver (1987; 1994) no estudo dos processos envolvidos no desenvolvimento de uma relação amorosa constituem um marco importante no estudo da vinculação na idade adulta. Sendo as relações amorosas consideradas o protótipo das relações de vinculação na idade adulta, passaremos de seguida a explorar alguns determinantes envolvidos neste processo. 2.3. Vinculação no contexto das relações intimas: aspectos conceptuais Na sua teoria triangular do amor, Sternberg (1986) refere que o amor pode ser concebido como o resultado de três componentes – intimidade, paixão e decisão/compromisso – entendendo-se por intimidade o conjunto de sentimentos que promovem a proximidade e o vínculo emocional entre os parceiros. Destes sentimentos destaca o desejo de promover o bem-estar da pessoa amada, a capacidade de proporcionar apoio emocional, a confiança na disponibilidade do outro em momentos de necessidade, a comunicação aberta, a partilha de sentimentos e a compreensão mútua entre os elementos Importância Intensidade Tempo em anos Prestação de cuidados Envolvimento sexual Vinculação
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 25 da relação (Sternberg & Grajek, 1984, cit in Sternberg, 1986). Encontramos aqui o que podemos considerar ser um dos aspectos essenciais de uma relação de vinculação – perceber o outro como disponível e responsivo face ao desconforto pessoal ou no confronto com situações percebidas como problemáticas, e reciprocamente constituir-se perante o parceiro como uma fonte de conforto e apoio emocional. Para Collins e Feeney (2004) a teoria da vinculação permite compreender a importância da intimidade no desenvolvimento da confiança e do “felt security” no contexto das relações amorosas. Como já foi referido, esta teoria postula que o indivíduo, ao longo do ciclo de vida, tem a propensão para desenvolver laços emocionais com um número relativamente restrito de pessoas que lhe proporcionam conforto e segurança em momentos de distress e funcionem como base segura a partir da qual podem explorar o mundo. O estabelecimento desta segurança é regulado pela proximidade física e emocional em relação à figura de vinculação e é neste contexto que o indivíduo encontra um espaço onde lhe é permitido expressar e partilhar todo o tipo de emoções. Será então a percepção de segurança, pertença e partilha que segundo Cassidy (2001) consubstancia o estabelecimento e o desenvolvimento da intimidade no contexto de uma relação de vinculação: Intimacy is making one’s innermost known, sharing one’s core, one’s truth, one’s heart, with another, and accepting, tolerating the core, the truth, of another. It is being able to tell both the good and the bad parts of oneself, to tell of anger, ambivalence, love; and to accept both the good and the bad parts of another, to accept anger, ambivalence, love. It is to share the self: one’s excitements, longings, fears and neediness, and to hear of these in another. (p.122) Por intimidade entende-se um processo interpessoal onde os indivíduos experienciam e expressam sentimentos, partilham informações acerca de si próprios, sentem-se compreendidos, valorizados e aceites pelo outro (Reis & Shaver, 1988 cit in Collins & Sroufe, 1999; Prager & Roberts, 2004). De acordo com Collins e Sroufe (1999) a intimidade envolve aspectos motivacionais, emocionais e comportamentais que se expressam no tornar-se próximo de alguém, no aceitar e partilhar as emoções e as experiências mais pessoais com o outro, na reciprocidade dos cuidados e na sensibilidade face aos sentimentos e bem-estar
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 26 do outro. O dar-se a conhecer numa relação de intimidade resulta também da percepção da responsividade e abertura do outro. Os indivíduos mostram-se mais dispostos para mostrar vulnerabilidade e procurar apoio quando confiam que o seu parceiro é capaz de aceitar e apoiar de uma forma responsiva (Prager & Roberts, 2004). Assim, se a intimidade contribui para o desenvolvimento do “felt security”, ao mesmo tempo este sentimento contribui para o desenvolvimento da intimidade, numa dinâmica interactuante (Collins & Feeney, 2004). Assumindo como grelha de leitura a Teoria da Vinculação, Cassidy (2001) define quarto capacidades básicas no desenvolvimento da intimidade: • Capacidade de procurar cuidados – esta capacidade constitui o que na teoria da vinculação é definido como o sistema comportamental da vinculação e corresponde ao conjunto de comportamentos que têm como objectivo conseguir e/ou manter a proximidade com a figura de vinculação, sobretudo em situações percepcionadas como ameaçadoras ou desconfortáveis (e.g. doenças, perdas, conflitos). Esta capacidade é importante para o desenvolvimento da intimidade uma vez que envolve a partilha de sentimentos, positivos e negativos, e o reconhecimento da necessidade de apoio e conforto. Como vimos anteriormente, a capacidade de procurar cuidados no contexto de uma relação íntima indica o quão confiante o indivíduo está de que o seu parceiro será capaz de proporcionar suporte e protecção de modo eficaz e positivo. • Capacidade de prestar cuidados – esta capacidade relaciona-se com as dimensões de disponibilidade, sensibilidade e responsividade, que se reflectem no reconhecimento das necessidades do outro, na abertura e atenção ao que está a ser partilhado e no fornecimento do apoio e cuidados respectivos. De acordo com a teoria da vinculação adultos que na sua infância tiveram experiências com uma figura de vinculação sensível e responsiva na prestação de cuidados tendem a desenvolver essa capacidade de forma mais positiva (Cassidy, 2000; Simpson, Winterheld, Rholes & Oriña, 2007). • Conforto com a autonomia – a autonomia é importante no desenvolvimento de uma relação de intimidade pois permite estar próximo do outro sem que para isso seja necessário aniquilar as necessidades e os objectivos do self. A autonomia traduz-se na capacidade de experienciar crescimento pessoal como resultado do envolvimento
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 27 numa relação, funcionando esta como base segura a partir da qual o individuo explora e investe no mundo fora da relação. • Capacidade de negociação – segundo Hoffman (1997, cit in Cassidy, 2001) intimidade não significa proximidade mas a capacidade para negociar essa proximidade. Os indivíduos têm necessidades diferentes a este nível, em função de características pessoais mas também como resultado das suas experiências. Numa relação de intimidade, a negociação é uma competência crucial, que envolve a capacidade de reconhecer e aceitar os sentimentos e as necessidades do outro e através de um processo colaborativo trabalhar em conjunto na tomada de decisões ou na resolução de conflitos. Para além da abordagem teórica, as investigações empíricas no domínio da vinculação têm também privilegiado o estudo da intimidade em amostras de jovens e adultos. Os estudos revelam que adultos avaliados como seguros sentem-se confortáveis com a intimidade, a proximidade e a partilha, vêem-se a si próprios como merecedores de cuidados e afectos e percebem os outros como responsivos e disponíveis (e.g. Collins & Read, 1990; Feeney & Noller, 1990; Hazan & Shaver, 1987). Simpson (1990), num estudo com 144 casais, acrescenta que indivíduos seguros percepcionam as suas relações como mais satisfatórias, com maior confiança e investimento. Indivíduos evitantes tendem a desvalorizar as situações de intimidade e compromisso, enquanto que os indivíduos ambivalentes mostram-se mais preocupados com questões relacionadas com a desconfiança, abandono e ciúme. Feeney (1998; 1999) salienta ainda que os sujeitos seguros sentem-se confortáveis com o toque enquanto veículo de afectos e com a intimidade sexual, sendo esta perspectivada como um promotora de confiança e segurança. Ao assumirem o papel de prestadores de cuidados mostram-se responsivos e sensíveis às necessidades do outro, sentindo-se confortáveis com a interdependência que estabelecem. Mantêm uma relação íntima sem perder a sua individualidade e autonomia. Adultos com um padrão de vinculação ambivalente apresentam uma visão insegura de si próprios, uma grande vulnerabilidade à solidão, procurando no outro um sentimento de bem-estar. Manifestam um medo intenso de abandono e um desejo de fusão com o outro. No entanto, apresentam uma grande insatisfação pela percepção de não dependência do outro, o que
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 28 conduz a sentimentos de desconfiança e ciúme. A prestação de cuidados é minada pela ansiedade (Collins & Read, 1990; Feeney, 1998; Feeney & Noller, 1990; Hazan & Shaver, 1987; Simpson, 1990). Adultos considerados evitantes ou desligados apresentam uma grande dificuldade em depender do outro, desvalorizando a necessidade de proximidade e suporte e manifestando uma crença na independência e auto-suficiência (Collins & Read, 1990; Feeney & Noller, 1990; Hazan & Shaver, 1987). Há um evitamento da intimidade através de um distanciamento emocional e do desconforto com a proximidade física (Feeney, 1999). As relações caracterizam-se por níveis baixos de compromisso e interdependência e níveis elevados de emoções negativas (e.g. hostilidade). No papel de prestadores de cuidados mostram uma baixa responsividade às necessidades do outro (Collins & Read, 1999; Feeney & Noller, 1990). Kirkpatrick e Davis (1994) exploram igualmente as relações entre o estilo de vinculação e dimensões relacionais. Numa análise longitudinal, com uma amostra inicialmente constituída por 354 casais, verificam que os homens com um padrão de vinculação inseguro-desligado tendem, comparativamente com os seguros, a manifestar menor satisfação, intimidade e compromisso, e comparativamente com os homens inseguros-preocupados tendem a referir menor paixão e também menor compromisso na relação. Relativamente às mulheres, são as inseguras-preocupadas que revelam menor satisfação e carinho e índices de conflito e ambivalência mais elevados, comparativamente com as mulheres seguras. O estudo de Collins e Feeney (2000) confirma a ideia de Bowlby de que procurar e prestar cuidados é um processo diádico. Numa amostra com 93 casais, os resultados revelam que indivíduos avaliados como seguros ao se confrontarem com situações percepcionadas como ameaçadoras manifestam mais comportamentos de procura de cuidados, o que por sua vez está associado a uma prestação de cuidados mais efectiva por parte do parceiro. Indivíduos considerados evitantes mostram-se mais ineficazes na procura de cuidados enquanto que para os indivíduos ambivalentes essa ineficácia acentua-se ao nível da prestação de cuidados. Também Simpson, Rholes e Nelligan (1992) ao avaliarem os comportamentos de vinculação em 83 casais numa situação em que a mulher é confrontada com uma experiência geradora de ansiedade, verificam que as mulheres evitantes procuram menos suporte dos parceiros à medida que os seus níveis de ansiedade
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 29 aumentam, ao contrário do que acontece com as mulheres seguras. Posteriormente, Simpson, Rholes e Phillips (1996) ao observarem uma amostra 123 pares de namorados durante a discussão de um assunto problemático da relação verificam que os sujeitos ambivalentes apresentam níveis de ansiedade superiores, maior hostilidade e percepcionam os seus parceiros de forma mais negativa. Collins e Feeney (2003, cit in Collins & Feeney, 2004) observam igualmente que os sujeitos estão mais dispostos a procurar suporte em situações problemáticas quando sentem que o seu parceiro os ama e é responsivo às suas necessidades. O modo como o indivíduo lida com emoções negativas trata-se, segundo Feeney (1998, 1999), de uma capacidade essencial no desenvolvimento de uma relação íntima. Diferenças no estilo de vinculação poderão reflectir diferentes experiências de regulação emocional. Ao longo do desenvolvimento, o indivíduo constrói estratégias que lhe permitem organizar emocionalmente as experiências, confrontando-se com os sentimentos negativos. É esperado que os indivíduos seguros, com base nas suas experiências, lidem com as emoções negativas de um modo construtivo, reconhecendo o distress e procurando suporte na figura de vinculação. Verifica-se nestes sujeitos uma maior expressividade emocional que resulta numa vivência mais positiva das relações afectivas, uma melhor comunicação e uma maior capacidade de negociação e resolução de conflitos (Collins & Read, 1999; Feeney & Noller, 1990; Feeney, 1999; Fuller & Fincham, 1995). Os indivíduos evitantes tendem a negar ou minimizar a expressão e o reconhecimento de sentimentos negativos e a recorrer a estratégias de evitamento e distanciamento face a situações de conflito. Relativamente aos indivíduos considerados ambivalentes, estes mostram uma elevada vigilância e expressão de afecto negativo como forma de manter o contacto com o outro (Feeney, 1999). Também Simpson (1990) no seu estudo observa que sujeitos seguros referem com maior frequência emoções positivas e percebem a sua relação de uma forma mais positiva do que os ambivalente e evitantes. Pistole (1989 cit in Feeney & Noller, 1996) num estudo onde procura analisar as implicações dos diferentes estilos de vinculação nas situações de resolução de conflitos verificou que indivíduos seguros usam mais estratégias integrativas e colaborativas do que os evitantes e os ambivalentes. O estudo de Simpson e cols. (1996) revela que indivíduos ambivalentes reagem menos positivamente em situações onde têm
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 30 que discutir um problema, apresentam níveis mais elevados de ansiedade durante a interacção e raiva e hostilidade dirigidas ao parceiro. Alguns destes estudos (e.g. Collins & Read, 1994; Feeney & Noller, 1990; Hazan & Shaver, 1987) procuram analisar ainda em que medida as experiências de vinculação na infância relacionam-se com os padrões de vinculação ao par amoroso. Os resultados sugerem uma associação positiva entre a percepção da qualidade da relação estabelecida na infância com os pais e o padrão de vinculação com o par amoroso. Isto é, indivíduos avaliados como seguros na relação amorosa tendem a caracterizar a relação na infância com os pais como mais carinhosa, protectora e segura, quando comparados com os outros padrões de vinculação. Estes dados são consistentes com a teoria que, como já vimos, realça a influencia que os acontecimentos ocorridos durante a história relacional do indivíduo, e em particular os modelos internos dinâmicos construídos a partir das interacções com as figuras de vinculação primárias, têm na capacidade do indivíduo estabelecer relações afectivas na idade adulta. Apesar da universalidade das características que definem uma relação de intimidade, os indivíduos divergem uns dos outros na forma como as experienciam. Essas diferenças resultam de experiências relacionais diversas que orientam o indivíduo na avaliação que vai construindo acerca de si próprio e dos outros. Histórias de responsividade, apoio e segurança na relação com as figuras de vinculação desenvolvem no indivíduo sentimentos de valorização pessoal, do outro e da relação. A teoria da vinculação permite, neste sentido, compreender de que forma os diferentes padrões de vinculação se manifestam na qualidade da intimidade e de que forma as experiências de vinculação na infância podem contribuir para o desenvolvimento da mesma na idade adulta. 2.4. Vinculação no contexto das relações intimas: métodos de avaliação No decurso das últimas décadas, a literatura tem-se debruçado de modo crescente sobre a especificidade da vinculação no contexto de relações íntimas na idade adulta, com especial ênfase atribuído a diferentes linhas de investigação dirigidas à avaliação da representação da vinculação de cada elemento do casal, ao comportamento diádico
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 31 avaliado em tarefas de interacção de casal e à percepção de cada indivíduo relativamente à relação, ao parceiro e a si no contexto de relacionamentos íntimos. Neste capítulo não se pretende fazer um levantamento exaustivo de todos instrumentos de avaliação existentes, mas antes salientar as principais linhas orientadoras destas três abordagens metodológicas realçando aqueles que são os instrumentos mais estudados. 2.4.1. Medidas representacionais O uso de narrativas ou entrevistas na avaliação da vinculação baseia-se na ideia de que a linguagem permite o acesso às representações dos sujeitos acerca de aspectos relacionados com as suas experiências de vinculação (Main et al, 1985). Como já foi abordado num ponto anterior, o estudo do domínio representacional foi claramente potenciado pelo desenvolvimento da AAI (George, Kaplan & Main, 1985), entrevista semi-estruturada dirigida à activação do sistema de vinculação pelo elicitar de memórias referentes a experiências com as figuras parentais. Paralelamente, mas com enfoque na conceptualização da vinculação no âmbito das relações íntimas na idade adulta, surge a Current Relationship Interview - CRI (Crowell, 1990). Nesta entrevista o foco recai igualmente sobre a avaliação da qualidade da representação da relação, do self e do outro na relação, sendo aqui o parceiro assumido como a figura de vinculação. À semelhança do que ocorre na AAI, realça-se a qualidade da organização da narrativa (nas dimensões semântica e episódica), em detrimento do conteúdo das experiências, emergindo a classificação do sujeito de acordo com padrões de organização da vinculação equivalentes aos apresentados por Main e cols. (1985) na AAI. Neste sentido, os indivíduos classificados como seguros apresentam um discurso claro e coerente, explorando sentimentos e pensamentos sobre a sua relação, mostrando-se capazes de usar o outro como base segura e funcionar para o outro como tal. Os sujeitos inseguros/desligados revelam pouca evidência de que o parceiro seja visto como uma fonte de suporte e apoio. O discurso é incoerente, marcado pela idealização ou normalização das experiências. Os sujeitos inseguros/preocupados revelam uma forte dependência e ansiedade na relação com o outro, apresentando um discurso marcado pela ambivalência e confusão face às experiências de vinculação (Crowell, Fraley & Shaver, 1999; Treboux, Crowell & Waters,
ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 2 – Vinculação e Relações Intimas na Idade Adulta 32 2004). A classificação não-resolvido é atribuída quando experiências traumáticas de perdas ou abusos provocam um funcionamento disruptivo ou desorganizado da relação actual. Relativamente à distribuição destes padrões, Crowell e Waters (1997 cit in Crowell, Fraley & Shaver, 1999) numa amostra de 124 sujeitos observam que 46% dos indivíduos são considerados seguros, 38% desligados, 14% preocupados e 2% não-resolvidos. Analisando a mesma amostra por díades (62 casais), em 33% dos casais ambos os indivíduos são classificados como seguros, em 7% o homem é considerado seguro e a mulher inseguro, em 30% o homem é inseguro e a mulher seguro e por ultimo em 30% dos casais ambos os parceiros são inseguros. Ainda o mesmo estudo salienta também que os indivíduos considerados seguros referem uma maior satisfação com a relação, um maior compromisso e emoções positivas, por oposição aos padrões inseguros, onde os níveis de emoções negativas são mais elevados, enquanto que a intimidade e a satisfação são reduzidas. Vários estudos de cariz longitudinal (Roisman, et al., 2001; Roisman, et al., 2005; Treboux, Crowell e Waters, 2004) salientam a CRI como uma medida que prediz a qualidade da relação actual, sendo que resultados no sentido da segurança associam-se a uma avaliação da relação mais favorável. Os mesmos estudos referem também a existência de uma continuidade na avaliação global da representação da vinculação na infância (AAI) e na relação actual (CRI), no entanto esta continuidade é apenas moderada e não total, reforçando a ideia de que apesar da estabilidade dos modelos internos dinâmicos estes são o produto da história desenvolvimental do indivíduo e das circunstâncias actuais e por isso a mudança é sempre possível (Bowlby, 1988). A CRI tem sido a entrevista mais utilizada nos estudos sobre a representação da vinculação nas relações íntimas. No entanto, outras medidas foram desenvolvidas com o mesmo intuito, derivando muitas delas igualmente da AAI. Destacamos, a titulo de exemplo, a Couple Attachment Interview (CAI; Silver & Cohn, 1992) e seu sistema de cotação (Cowan, et al., 1999) e a Marital Attachment Interview (MAI; Dickstein, Seifer, St.Andre & Schiller, 2001). Consistem em entrevistas semi-estruturadas que, à semelhança da CRI, procuram incidir sobre dimensões essenciais no estudo da vinculação, nomeadamente a procura e prestação de cuidados, experiências de separação, ameaça ou rejeições, expectativas e qualidade da relação actual. Tal como sugere a teoria, todas estas medidas
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 39 CAPITULO 3 OBJECTIVOS E METODOLOGIA Este capítulo inicia com a apresentação dos objectivos do estudo, seguindo-se a metodologia adoptada em termos de descrição dos critérios de selecção da amostra, dos instrumentos utilizados e dos procedimentos na recolha e na análise dos dados. O presente estudo foi realizado no âmbito de um projecto mais vasto sobre Vinculação nas Relações Intimas, partilhando com este algumas das medidas e dos seus participantes. 3.1. Objectivos Fundamentado no enquadramento teórico descrito nos capítulos anteriores, o desenvolvimento do presente estudo, de cariz exploratório, tem como objectivo geral a integração de diferentes métodos no estudo da vinculação no contexto das relações íntimas. Pretende-se examinar dimensões específicas da vinculação no domínio representacional, através de uma entrevista, no domínio comportamental, através da observação do processo de interacção entre o casal e no domínio das percepções dos sujeitos sobre a vinculação, através de uma medida de auto-relato. Os objectivos específicos do estudo organizam-se nos seguintes tópicos: • Analisar as relações entre dimensões específicas da vinculação nos domínios representacional e comportamental, nomeadamente: entre idealização e qualidade da relação entre coerência e qualidade da relação entre desenvolvimento do indivíduo/desenvolvimento da relação ao nível representacional e comportamental
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 40 entre procura e prestação de cuidados ao nível representacional e comportamental entre representação da procura e prestação de cuidados e comportamentos de base segura • Examinar as relações entre a percepção dos sujeitos sobre a vinculação e dimensões específicas da vinculação nos domínios representacional e comportamental, nomeadamente procura e prestação de cuidados, desenvolvimento do indivíduo/desenvolvimento da relação e qualidade da relação. 3.2. Método 3.2.1. Desenho do estudo Seguindo uma metodologia de investigação quantitativa, o presente estudo obedece a um desenho não experimental, também designado por estudo correlacional ou de observação (Almeida e Freire, 2003; Pinto, 1990; Tabachnick & Fidel, 1996), uma vez que não há manipulação de variáveis independentes nem estabelecimento de causalidades, mas sim a descrição dos fenómenos e análise de relações entre as variáveis em estudo (Almeida e Freire, 2003). 3.2.2. Amostra 3.2.2.1. Selecção da amostra A amostra é constituída por casais heterossexuais, de nacionalidade portuguesa, com idades compreendidas entre os 25 e os 35 anos. Na definição da faixa etária tivemos em consideração por um lado o nosso interesse em estudar jovens casais e, por outro lado, a delimitação da faixa etária enquanto factor de homogeneização da amostra. O critério de dois anos como tempo mínimo de duração da relação amorosa foi definido com base em vários estudos (Hazan & Zeifman, 1999; Hazan & Shaver, 1994; Hazan & Zeifman, 1994 cit
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 41 in Cassidy, 2001; Sternberg, 1986) que salientam que em média, numa relação conjugal, o parceiro constitui-se como principal figura de vinculação a partir do 2º ano da relação. Definiu-se ainda como critério de selecção o tempo de coabitação não inferior a 6 meses. Optamos por incluir na amostra apenas casais sem filhos, procurando controlar deste modo a influencia que a parentalidade possa ter na qualidade da relação conjugal (Treboux, & Crowell, 2001). Definiu-se igualmente como critério de selecção da amostra a ausência de experiências anteriores de casamento/união de facto. Tratando-se de uma amostra não-clínica, estabeleceu-se ainda como critério de exclusão a presença de sintomatologia psicopatológica, em pelo menos um dos elementos do casal. Para tal foi utilizado o Inventário de Sintomas Psicopatológicos (Canavarro, 1999b)1. A necessidade de controlar, neste estudo, a presença de psicopatologia relacionase com o facto de, numa perspectiva desenvolvimental, as experiências relacionais e o modo como estas são organizadas mentalmente pelo indivíduo desempenharem um papel importante em diferentes tipos de comportamento sintomático (Carson e Sroufe, 1995 cit in Soares, 2000). Os casais que fazem parte do estudo foram seleccionados segundo um formato de conveniência (Hill & Hill, 2005), através de contactos informais. 1 O Inventário de Sintomas Psicopatológicos (Canavarro, 1999) é a versão portuguesa do Brief Symptom InventoryB.S.I. (Derogatis, 1982). É um instrumento de auto-relato, composto por 53 itens, que avalia a presença de sintomas psicopatológicos em nove dimensões: somatização, obsessão-compulsão, sensibilidade interpessoal, depressão, ansiedade, hostilidade, ansiedade fóbica, ideação paranóide, psicoticismo. É solicitado ao sujeito que classifique o grau em que cada problema apresentado o afectou durante a última semana, de acordo com uma escala tipo Likert, que oscila entre 0 (“Nunca”) e 4 (“Muitíssimas vezes”) (Ver anexo 6). Para a interpretação dos resultados poderão ser calculados 3 índices globais: Índice Geral de Sintomas (número de sintomas psicopatológicos e sua intensidade), Total de Sintomas Positivos (número de sintomas assinalados) e Índice de Sintomas Positivos (combina a intensidade da sintomatologia com o número de sintomas presentes). De acordo com os estudos psicométricos realizados até ao momento na população portuguesa (Canavarro, 1999), o instrumento apresenta níveis adequados de consistência interna para as nove escalas (valores de alpha de Cronbach entre .62 e .79), possuindo igualmente uma boa estabilidade temporal. Este instrumento não permite a formulação de um diagnóstico clínico, mas avalia o tipo de sintomatologia que mais perturba o indivíduo, permitindo discriminar indivíduos perturbados emocionalmente e indivíduos pertencentes à população em geral.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 42 3.2.2.2. Caracterização da amostra Neste estudo participaram 20 casais heterossexuais recolhidos com base nos critérios acima mencionados. De seguida apresentamos a caracterização da amostra relativamente às variáveis sócio-demográficas dos sujeitos que a compõem e às variáveis que caracterizam a relação. a) Características sócio-demográficas O quadro 1 descreve as principais características sócio-demográficas dos 40 sujeitos que constituem a amostra de 20 casais. Os sujeitos apresentam idades compreendidas entre os 26 e os 35 anos, sendo a média das idades de 28,15 anos, com 2,10 de desvio padrão. Relativamente às habilitações literárias, salientamos que a maioria dos sujeitos possui uma licenciatura. No que se refere à situação profissional, após a análise da distribuição desta variável, optámos por agrupar os sujeitos em categorias, utilizando para tal uma adaptação da Classificação Nacional das Profissões. Na presente amostra predominam as profissões ligadas aos Quadros superiores, profissões intelectuais e científicas (e.g. Professor, Engenheiro, Médico), à categoria de Pessoal administrativo e dos serviços (e.g. Empregado de escritório, Empregado de comércio, Agente de Policia) e aos Técnicos e profissionais de nível intermédio (e.g. Técnico de informática, Técnico de controlo de qualidade, Desenhador).
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 43 Quadro 1: Caracterização sócio-demográfica da amostra M (D.P) ª N b Mínimo Máximo Idade 28,15 (2,10) 26 35 Habilitações Literárias Até 9º ano Até 12º ano Licenciatura Pós-graduação 1 10 25 4 Profissão Quadros superiores, profissões intelectuais/cientificas Técnicos e profissionais de nível intermédio Pessoal administrativo e dos serviços Estudante Desempregado 18 9 10 2 1 a) Média (Desvio Padrão) b) Número de Sujeitos b) Características da relação A leitura do quadro 2 permite observar que, relativamente ao tipo de relação, mais de metade dos casais da amostra (n=17) são casados e os restantes (n=3) vivem em união de facto. Quanto ao tempo total da relação, este varia entre os 26 meses (2 anos e 2 meses) e os 200 meses (16 anos e 8 meses). Em média, a duração dos relacionamentos é de 7 anos e 5 meses (M=89,35; DP=41,55). No que respeita ao tempo total de coabitação, os valores oscilam entre os 8 meses e os 116 meses (9 anos e 8 meses), sendo em média de 2 anos e 7 meses (M=31,50; DP=24,53). Quadro 2: Caracterização da Relação dos casais M (D.P) ª N b Mínimo (meses) Máximo (meses) Casamento 17 Tipo de Relação União de facto 3 Tempo Total de Relação 89,35 (41,55) 26 200 Tempo Total de Coabitação 31,50 (24,53) 8 116 a) Média (Desvio Padrão) b) Número de Sujeitos
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 44 3.2.3. Medidas Os instrumentos seleccionados para este estudo são apresentados de seguida, pela ordem correspondente à sua aplicação. 3.2.3.1. Ficha de Dados Sócio-Demográficos A Ficha de Dados Sócio-Demográficos consiste num questionário de preenchimento breve que visa a recolha de informações sobre variáveis sócio-demográficas referentes a cada elemento do casal (idade, estado civil, habilitações literárias, profissão) e a características da relação (tempo total da relação, tempo de coabitação, tipo de relação). (Ver Anexo 1). 3.2.3.2. Representação das Relações Intimas: Intimate Relationship Interview a) Objectivos gerais e enquadramento teórico A construção da Intimate Relationship Interview – IRI (Lima, Soares, Vieira, & Collins, 2005) assume como suporte teórico de base a conceptualização da vinculação em termos de Modelos Internos Dinâmicos, de acordo com o exposto na parte teórica do presente trabalho. A emergência do domínio representacional na investigação sobre vinculação na idade adulta permitiu, nomeadamente através de entrevistas, avaliar o modo como o sujeito se confronta com a temática da vinculação, apelando a memórias e a apreciações gerais sobre as suas relações (Soares, 1996b). Nesta perspectiva, à semelhança de outras entrevistas como a Current Relationship Interview (Crowell, 1990), Marital Attachment Interview (Dickstein, et al., 2001) ou The Couple Attachment Interview (Silver & Cohn, 1992), a IRI tem por objectivo avaliar a representação das relações íntimas entre adultos. No entanto, ao contrário das anteriores, esta entrevista não permite identificar padrões de vinculação, mas, com base num conjunto de escalas, avaliar dimensões importantes no contexto das relações íntimas, nomeadamente a regulação emocional, a intimidade sexual, a capacidade de procurar e proporcionar cuidados e a base segura.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 45 O foco da entrevista é colocado no modo como o sujeito organiza internamente as suas experiências no contexto das relações íntimas, como as integra e lhes atribui significado e quais as principais estratégias comportamentais que utiliza. Esta avaliação é feita a dois níveis: por um lado, o nível semântico, que se traduz no modo como o indivíduo descreve as suas experiências e as avaliações e interpretações que faz das mesmas e, por outro lado, o nível episódico que se reflecte na capacidade do indivíduo sustentar as suas descrições através de acontecimentos específicos e relevantes do ponto de vista do seu relacionamento íntimo. b) Descrição da entrevista A IRI é uma entrevista semi-estruturada, que pretende avaliar a representação da relação íntima por parte de cada um dos elementos do casal. O protocolo da entrevista incide em cinco grandes tópicos, cada um dos quais explorado por um conjunto de questões estandardizadas. A entrevista começa por abordar a influência, ao nível da relação íntima actual, de outras relações do passado, nomeadamente com as figuras de vinculação na infância e ao longo do desenvolvimento. Em seguida, são explorados os padrões de interacção relacionados com a procura e prestação de cuidados, quer em situações de desconforto não directamente relacionadas com a relação, tais como problemas no contexto laboral ou com amigos, quer em situações associadas com a própria relação, como um conflito ou desentendimento do casal. As questões seguintes incidem na regulação de proximidade e distância face ao outro e na reflexão sobre a relação do ponto de vista sexual, nomeadamente ao nível da comunicação, satisfação e expressão do desejo sexual. Por último, a IRI foca a satisfação, expectativas e aprendizagens associadas à relação, procurando avaliar em que medida o indivíduo considera a sua relação como promotora de crescimento pessoal, num balanceamento entre as necessidades individuais e da relação. A administração da IRI é feita individualmente e tem uma duração média de cerca de 30 minutos. A entrevista é gravada em registo áudio e transcrita para posterior avaliação.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 46 c) Sistema de cotação O sistema de cotação da IRI (Lima, Vieira, Soares & Collins, 2005) é composto 7 escalas, de cinco pontos cada (Ver Anexo 2). Procurando incidir no que há de singular no contexto das relações íntimas, nomeadamente a capacidade de integração e de regulação da emocionalidade, a simetria e a reciprocidade na procura e na prestação de cuidados, a intimidade sexual e o equilíbrio entre necessidades individuais e relacionais, foram desenvolvidas cinco escalas: A escala de Integração da Emocionalidade Negativa e Positiva permite avaliar a expressão de afecto negativo (e.g. verbalizações que reflectem frustração, raiva ou hostilidade) e de afecto positivo (e.g. expressão de sentimentos positivos dirigidos ao outro) e o seu reconhecimento e integração num todo organizado e coerente. A escala de Careseeking avalia a capacidade do sujeito procurar cuidados, expressando de forma clara o seu mal-estar ou vulnerabilidade, mantendo estes sinais até que o outro os reconheça, e mostrando disponibilidade para ser confortado pelo outro. A escala de Caregiving avalia a capacidade do indivíduo reconhecer os sinais de vulnerabilidade e de mal-estar do outro, satisfazendo as suas necessidades de conforto e protecção de um modo adequado e eficaz, assumindo-se, assim, como base segura para o outro. A escala de Intimidade Sexual centra-se na avaliação da proximidade física e emocional, da abertura e à-vontade no contexto da expressão e da comunicação sobre tópicos de natureza sexual. A escala Desenvolvimento do Indivíduo versus Desenvolvimento da Relação pretende avaliar em que medida o sujeito é capaz de, no contexto da relação, experienciar crescimento pessoal e percepcionar-se como autónomo, ou, se pelo contrário, a relação constrange os seus recursos ou inibe as necessidades e objectivos individuais.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 47 Tal como foi referido anteriormente, o objectivo da IRI é avaliar o modo como o sujeito organiza internamente as suas experiências no contexto das relações íntimas, tendo por base dois níveis de análise – o semântico e o episódico. Neste sentido, como forma de avaliar a qualidade da organização discursiva da experiência foram desenvolvidas duas escalas: A escala de Idealização avalia a discrepância entre a percepção geral que o indivíduo apresenta de si próprio, do outro e da relação e a sustentação episódica que confere a esses aspectos. A escala de Coerência incide na precisão e clareza do discurso do indivíduo relativamente ao outro, a si e à relação, à capacidade de se manter centrado nos tópicos da entrevista, apresentar evidência para as suas avaliações e percepções gerais e reflectir e integrar as suas experiências no contexto da relação. Cada IRI é cotada por dois juízes independentes, previamente formados no método de avaliação. Nos casos em que não se verifica o acordo entre os dois juízes, as entrevistas são cotadas por um terceiro juiz. Como forma de avaliar a fidelidade dos resultados obtidos é utilizado como método de cálculo o acordo inter-observadores, em particular o Coeficiente de Correlação Intraclasse por se tratar de variáveis ordinais (Martins & Machado, 2006). Para todos os pares de juízes os resultados obtidos oscilam entre .85 e .92 (p <.001), sugerindo bons níveis de fidelidade. d) Características metrológicas Procedeu-se à análise das características metrológicas dos resultados da IRI, procurando compreender as propriedades desta entrevista na amostra seleccionada. Na presente investigação, de cariz exploratório, a amostra é constituída por um número reduzido de casais (N=20), o que impossibilita o estudo da validade do instrumento, nomeadamente através da análise factorial, que, de acordo com a literatura, recomenda, no mínimo, 5 casos por variável (Pallant, 2005; Pestana & Gageiro, 2000; Tabachnick & Fidel, 1996). Deste modo, procedemos apenas à análise da fidelidade dos resultados.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 48 A fidelidade dos resultados foi avaliada através da consistência interna ou homogeneidade dos itens. Este método fornece “o grau de uniformidade ou de coerência existente entre as respostas dos sujeitos a cada um dos itens que compõem a prova” (Almeida & Freire, 2003, p.163). Tratando-se de escalas ordinais em todas as variáveis, foi calculado o coeficiente de Alpha de Cronbach, que será tanto maior quanto maior for a consistência interna ou homogeneidade dos itens (Almeida & Freire, 2003). Na literatura tem sido sugerido que uma consistência interna aceitável deve exceder um Alpha de .70 (Field, 2005; Almeida & Freire, 2003), ainda que valores acima de .60 tornam-se aceitáveis quando as escalas têm um número reduzido de itens (Freire & Almeida, 2001), como é o caso da IRI. No presente estudo, o valor do alpha para o total de indivíduos foi de .95, indicando que o instrumento apresenta uma boa fidelidade. Analisando separadamente os elementos do casal, o coeficiente de alpha de Cronbach para os homens é de .96 e para as mulheres de .93. Como forma de avaliar a força da relação entre cada escala do instrumento e o valor total, salientamos ainda a correlação item-total corrigido. Uma vez que a IRI apresenta apenas sete escalas, este cálculo exclui o item em análise, evitando que este contribua para a sua correlação com o valor total (Almeida & Freire, 2003). Os resultados, quer para os homens como para as mulheres, revelam que todas as escalas apresentam correlações altas com o valor total, acima do valor .03 de referência (Field, 2005). Quadro 3: Correlações item-total na IRI Correlação Item-Total corrigido: Homens Correlação Item-Total corrigido: Mulheres Integração da emocionalidade negativa e positiva ,891 ,870 Procura de cuidados (Careseeking) ,912 ,805 Prestação de cuidados (Caregiving) ,853 ,858 Intimidade sexual ,786 ,542 Desenvolvimento do individuo/desenvolvimento da relação ,875 ,902 Idealização* ,890 ,793 Coerência ,881 ,802 * Item invertido
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 55 confidencialidade e o anonimato do mesmo. No dia da recolha de dados o consentimento informado por parte dos casais foi devidamente documentado por escrito (ver anexo 7). A aplicação dos instrumentos foi feita pela equipa de investigação, seguindo a ordem apresentada anteriormente na descrição do material. Num primeiro momento, e em conjunto, o casal preencheu a ficha de dados demográficos. Em seguida, a entrevista individual, realizada separadamente aos elementos do casal por dois investigadores. Por último, a tarefa de observação da interacção diádica, realizada novamente em conjunto, no mesmo espaço físico. Os instrumentos de auto-relato (EVA e BSI) foram enviados posteriormente por correio postal ou por correio electrónico. A opção pelo preenchimento posterior dos instrumentos de auto-relato relacionou-se com o tempo requerido pelo protocolo de avaliação, tendo sido nossa intenção evitar o cansaço ou fadiga física dos participantes. Cada protocolo de avaliação demorou, em média, entre 60 a 80 minutos. Recorde-se que o presente estudo foi conduzido no seio de um projecto mais vasto que envolveu um protocolo de avaliação mais vasto e moroso. 3.2.4.2. Formação na administração e cotação dos instrumentos Fazendo o presente estudo parte de um projecto de investigação mais alargado, os responsáveis pelo mesmo foram alvo de formação específica na administração e cotação de algumas medidas, nomeadamente ao nível da Intimate Relationship Interview (Lima, Soares, Vieira & Collins, 2005) e da Couples Interaction Task (Collins, Hennighausen, Madsen & Roisman 1998). Numa fase inicial a formação debruçou-se sobre os principais pressupostos da Teoria da Vinculação e metodologias de avaliação no adulto. Posteriormente, aprofundou-se o protocolo de avaliação e o seu sistema de cotação. A componente prática da formação envolveu a realização e a cotação de entrevistas de treino e da tarefa de observação da interacção diádica, seguidas de discussão em grupo. 3.2.4.3. Análise computacional dos dados Para a análise dos dados obtidos foi utilizado o programa de tratamento estatístico SPSS® (Statistical Package for the Social Sciences), para Windows, versão 12.0.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 3 – Objectivos e Metodologia 56 Antes de realizar os procedimentos estatísticos que procuram responder às questões de investigação, foram efectuadas análises descritivas de modo a obter informações sobre eventuais violações de pressupostos estatísticos que desvirtuassem os resultados, nomeadamente a existência de outliers e a normalidade das distribuições (teste de Shapiro Wilks). Os dados relativos à caracterização da amostra (variáveis demográficas e variáveis de caracterização da relação) foram obtidos a partir da estatística descritiva. Posteriormente, foram realizados os procedimentos estatísticos para o estudo das propriedades metrológicas dos instrumentos, na presente amostra. Devido ao número de casais em estudo procedemos apenas à análise da fidelidade dos resultados, através do cálculo do coeficiente de Alpha de Cronbach. Para avaliar a possível existência de diferenças significativas entre os elementos do casal na forma como representam, como se comportam e como percepcionam a relação foi realizado o teste não paramétrico de Wilcoxon, para amostras emparelhadas. Para analisar a força e a direcção das relações entre as variáveis dos diferentes domínios em estudo foram utilizados procedimentos de estatística bivariada, nomeadamente o coeficiente de correlação rho de Spearman, diferenciando os elementos femininos e masculinos do casal. Na escolha dos procedimentos estatísticos a realizar, atendendo ao número de casais que constituem a amostra (N=20) e ao facto dos níveis de significância do teste de Shapiro Wilks serem inferiores a 0,05, adoptamos os testes não paramétricos. Apesar de se considerar os testes não paramétricos estatisticamente menos robustos, estes revelam-se mais eficazes quando não se encontram validados os pressupostos para a aplicação de testes paramétricos, nomeadamente ao nível do tamanho da amostra e da normalidade da distribuição dos resultados (Field, 2005; Clark-Carter, 2004; Siegel & Castellan, 1988).
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 57 CAPITULO 4 RESULTADOS A apresentação dos resultados encontra-se organizada no sentido de responder aos objectivos da investigação. Optámos por apresentar o estudo exploratório das características metrológicas da IRI, nomeadamente ao nível da fidelidade dos resultados, no capítulo sobre a Metodologia. Este capítulo inicia com a apresentação dos resultados obtidos em cada domínio avaliado – Representação das Relações Íntimas, Comportamentos nas Relações Íntimas e Percepção das Relações Íntimas – seguindo-se a exploração das relações entre dimensões especificas dos diferentes domínios em estudo. 4.1. REPRESENTAÇÃO DAS RELAÇÕES ÍNTIMAS Como foi descrito anteriormente, a IRI pretende avaliar a representação das relações íntimas através de um conjunto de escalas como a regulação emocional, a simetria e a reciprocidade na procura e na prestação de cuidados, a intimidade sexual e o equilíbrio entre necessidades individuais e relacionais. Na IRI é avaliado o modo como o sujeito organiza internamente estas experiências, tendo por base uma avaliação da coerência e da idealização da organização discursiva. Em seguida, apresentam-se os resultados descritivos para cada uma das escalas da IRI, diferenciando os elementos do casal. Relativamente às medidas de tendência central, através da observação do quadro 6, verificamos que em quase todas as escalas metade dos elementos masculinos do casal situam-se até um valor máximo de 3. A única excepção pertence à escala de Coerência, que apresenta um percentil 50 de 2,5. Os resultados mais frequentes são para a escala
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 58 Integração da Emocionalidade Negativa e Positiva o valor 4, correspondendo a uma classificação alta, para as escalas Prestação de Cuidados, Intimidade Sexual e Coerência o valor 2, indicando uma classificação baixa, para o Desenvolvimento do Indivíduo/Desenvolvimento da Relação e Idealização o valor 3, sendo esta uma classificação moderada, e para a escala de Procura de Cuidados os valores 2 e 4, classificações baixa e alta respectivamente. Quadro 6: Medidas descritivas dos resultados da IRI para os elementos masculinos do casal O quadro 7 revela que relativamente ao percentil 50, para as escalas Integração da Emocionalidade Negativa e Positiva, Procura de Cuidados, Prestação de Cuidados, Intimidade Sexual e Coerência, metade dos elementos femininos registam valores até 3. Para a escala Desenvolvimento do Indivíduo/Desenvolvimento da Relação o valor do percentil 50 é de 4 e para a escala de Idealização de 2,5. Os resultados mais frequentes são para as escalas Idealização e Coerência o valor 2, indicando uma classificação baixa, para a Procura e Prestação de Cuidados o valor 3, correspondendo a uma classificação moderada, para o Desenvolvimento do Indivíduo/Desenvolvimento da Relação e Intimidade Sexual o valor 4, equivalendo a uma classificação alta e para a escala de Integração da Emocionalidade Negativa e Positiva os valores 2 e 4, classificações baixa e alta respectivamente. Moda Percentis P25 P50 P75 Mínimo Máximo Integração da emocionalidade negativa e positiva 4 2 3 4 1 5 Procura de cuidados (Careseeking) 2 / 4* 2 3 4 1 5 Prestação de cuidados (Caregiving) 2 2 3 4 1 5 Intimidade sexual 2 2 3 4 1 5 Desenvolvimento do individuo/desenvolvimento da relação 3 3 3 4 1 5 Idealização 3 2 3 4 1 5 Coerência 2 2 2,5 3,75 1 5 * Bimodal
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 59 Quadro 7: Medidas descritivas dos resultados da IRI para os elementos femininos do casal Como forma de verificar se estes resultados diferem estatisticamente entre os elementos dos casais, aplicamos o teste não paramétrico de Wilcoxon, para amostras emparelhadas. Conforme pode ser observado no quadro 8, relativamente às variáveis avaliadas no domínio representacional não se verificam diferenças estatisticamente significativas entre os elementos do casal. Quadro 8: Teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas relativamente às escalas da IRI Integração da emocionalidade negativa e positiva Procura de cuidados Prestação de cuidados Intimidade sexual Desenvolvimento do individuo/ desenvolvimento da relação Idealização Coerência Z -,247 -,816 -,650 -,194 -1,370 -,386 -,894 Asymp. Sig. (2-tailed) ,805 ,414 ,516 ,846 ,171 ,700 ,371 Seguidamente procurou-se analisar as relações entre as escalas da IRI, calculando-se os valores de correlação entre as variáveis, através do coeficiente de correlação de Spearman, conforme se pode verificar nos quadros 9 e 10. Procedeu-se à diferenciação da amostra, analisando os elementos femininos e masculinos do casal separadamente. Moda Percentis P25 P50 P75 Mínimo Máximo Integração da emocionalidade negativa e positiva 2 / 4* 2 3 4 1 5 Procura de cuidados (Careseeking) 3 2,25 3 4 1 5 Prestação de cuidados (Caregiving) 3 2,25 3 4 1 5 Intimidade sexual 4 2 3 4 1 5 Desenvolvimento do individuo/desenvolvimento da relação 4 3 4 4 2 5 Idealização 2 2 2,5 3,75 1 5 Coerência 2 2 3 4 1 5 * Bimodal
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 60 Quadro 9: Correlações entre escalas da IRI nos elementos masculinos do casal Integração da emocionalidade negativa e positiva Procura de cuidados (Careseeking) Prestação de cuidados (Caregiving) Intimidade sexual Desenvolvimento do individuo/ desenvolvimento da relação Idealização Coerência Integração da emocionalidade negativa e positiva _ _ _ _ _ _ _ Procura de cuidados (Careseeking) ,877 (**) _ _ _ _ _ _ Prestação de cuidados (Caregiving) ,842 (**) ,901 (**) _ _ _ _ _ Intimidade sexual ,726 (**) ,716 (**) ,698 (**) _ _ _ _ Desenvolvimento do individuo/ Desenvolvimento da relação ,891 (**) ,871 (**) ,814 (**) ,778 (**) _ _ _ Idealização -,853 (**) -,839 (**) -,732 (**) -,866 (**) -,866 (**) _ _ Coerência ,797 (**) ,848 (**) ,794 (**) ,768 (**) ,792 (**) -,901 (**) _ *p<.05; ** p<.01 Quadro 10: Correlações entre escalas da IRI nos elementos femininos do casal Integração da emocionalidade negativa e positiva Procura de cuidados (Careseeking) Prestação de cuidados (Caregiving) Intimidade sexual Desenvolvimento do indivíduo/ desenvolvimento da relação Idealização Coerência Integração da emocionalidade negativa e positiva _ _ _ _ _ _ _ Procura de cuidados (Careseeking) ,768 (**) _ _ _ _ _ _ Prestação de cuidados (Caregiving) ,859 (**) ,864 (**) _ _ _ _ _ Intimidade sexual ,461 (*) ,483 (*) ,463 (*) _ _ _ _ Desenvolvimento do indivíduo/ Desenvolvimento da relação ,848 (**) ,772 (**) ,765 (**) ,672 (**) _ _ _ Idealização -,788 (**) -,749 (**) -,754 (**) -,471 (*) -,724 (**) _ _ Coerência ,809 (**) ,592 (**) ,678 (**) ,597 (**) ,733 (**) -,791 (**) _ *p<.05; ** p<.01
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 61 Tanto para os elementos masculinos como femininos do casal, podemos verificar que as escalas da IRI apresentam relações fortes e significativas entre si (p<.05). Quanto à direcção dessas relações, apenas para a escala de Idealização as correlações são negativas, o que significa que elevados níveis de idealização estão associados a uma baixa integração da emocionalidade negativa e positiva, a uma baixa capacidade de procura e prestação de cuidados, a um baixo nível de intimidade sexual, a um baixo equilíbrio entre necessidade individuais e necessidades da relação e a uma baixa coerência ao nível da organização discursiva. Para as restantes relações entre as escalas a direcção é positiva, ou seja, valores elevados numa escala encontram-se associados a valores elevados nas outras. 4.2. COMPORTAMENTOS DIÁDICO NAS RELAÇÕES ÍNTIMAS Quando consideramos os resultados da CIT, analisamos um conjunto de escalas que avaliam o comportamento do casal em interacção. As medidas descritivas dos resultados das escalas diádicas figuram no quadro 11 e as medidas descritivas dos resultados das escalas individuais no quadro 12. Quadro 11: Medidas descritivas dos resultados das escalas diádicas da CIT Moda Percentis P25 P50 P75 Mínimo Máximo Afecto Positivo Diádico 3 2 3 3 2 5 Afecto Negativo Diádico 2 2 2 3 1 4 Raiva 3 2 3 3 1 4 Hostilidade 2 2 2,5 4 1 6 Resolução do Conflito 3 / 5* 3 5 5,75 2 6 Base Segura 2 2 2,5 4 1 5 Equilíbrio I 4 4 4,5 6 3 7 Equilíbrio II 5 3,25 5 5 2 6 Equilíbrio III 5 4 5 6 3 7 Qualidade da Relação 6 3 4 6 2 6 * Bimodal
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 62 A leitura do quadro 11 salienta, em relação ao posicionamento da amostra, que 50% dos casais pontua no máximo até 5 valores nas escalas de Resolução do Conflito, Desenvolvimento do Indivíduo/Desenvolvimento da Relação (Equilíbrio II) e Relação/Mundo Exterior (Equilíbrio III), 4,5 na escala Assertividade/Auto-retraimento (Equilíbrio I), até 4 valores na escala Qualidade da Relação, até 3 valores no Afecto Positivo Diádico e Raiva, 2,5 na Hostilidade e Base Segura e por fim até 2 valores na escala de Afecto Negativo Diádico. Quanto aos resultados mais frequentes, o valor 2, correspondendo a uma classificação baixa, surge nas escalas Afecto Negativo Diádico, Hostilidade e Base Segura. Um resultado moderado, que regista o valor de 3, observa-se nas escalas de Afecto Positivo Diádico e Raiva. Na escala Assertividade/Auto-retraimento (Equilíbrio I) o valor mais frequente é 4, correspondendo a uma classificação moderada. Nas escalas Desenvolvimento do Indivíduo/Desenvolvimento da Relação (Equilíbrio II) e Relação/Mundo Exterior (Equilíbrio III) regista-se um valor de 5, indicando uma classificação alta. Para a escala Resolução do Conflito os valores são 3 e 5, classificações baixa a moderada e alta respectivamente. Por último, para a Qualidade da Relação o valor mais frequente é de 6, correspondendo a uma classificação elevada. Quadro 12: Medidas descritivas dos resultados das escalas individuais da CIT Nas escalas individuais de Procura e Prestação de Cuidados, os elementos masculinos do casal apresentam um percentil 50 de 2 e 2,5 respectivamente. Para 50% dos elementos femininos do casal os valores situam-se até 3 para a escala de Procura de Cuidados e 2,5 para a escala de Prestação de Cuidados. Relativamente aos valores mais frequentes, observa-se um resultado de 3, correspondendo a uma classificação moderada, nas escalas Moda Percentis P 25 P50 P75 Mínimo Máximo Procura de Cuidados (Careseeking) 2 2 2 3 1 5 Masculino Prestação de Cuidados (Caregiving) 3 1,25 2,50 3 1 4 Procura de Cuidados (Careseeking) 3 3 3 3,75 1 5 Feminino Prestação de Cuidados (Caregiving) 3 2 2,50 3 1 4
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 63 de Procura e Prestação de Cuidados para os elementos femininos do casal. Os elementos masculinos do casal apresentam o valor 2 na escala de Procura de Cuidados, indicando uma classificação baixa e o valor 3 na escala Prestação de Cuidados, igualmente uma classificação moderada. Como forma de verificar se a distribuição destes resultados difere estatisticamente entre os elementos dos casais, aplicamos o teste não paramétrico de Wilcoxon, para amostras emparelhadas. O quadro 13 revela que relativamente às variáveis individuais avaliadas no domínio comportamental, observa-se uma diferença estatisticamente significativa ao nível dos comportamentos de Procura de Cuidados (z = -2.05, p<.04). Essa diferença vai no sentido das mulheres apresentarem mais comportamentos de procura de cuidados do que os respectivos homens durante a tarefa de interacção diádica. Quadro 13: Teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas relativamente às escalas individuais da CIT Procura de Cuidados - CIT Prestação de Cuidados - CIT Z -2,05 -,246 Asymp. Sig. (2-tailed) ,040 ,806 Com o objectivo de analisar as relações entre as escalas da CIT, foram calculados os valores de correlação entre as variáveis, através do coeficiente de correlação de Spearman. No quadro 14 são apresentados os valores de correlação para as escalas diádicas e no quadro 15 referentes às escalas individuais.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 64 Quadro 14: Correlações entre escalas diádicas da CIT Afecto Positivo Diádico Afecto Negativo Diádico Raiva Hostilidade Resolução de Conflito Base Segura Equilíbrio I Equilíbrio II Equilíbrio III Qualidade da Relação Afecto Positivo Diádico - - - - - - - - - - Afecto Negativo Diádico -,647(**) - - - - - - - - - Raiva -,462(*) ,651(**) - - - - - - - - Hostilidade -,521(*) ,598(**) ,436 - - - - - - - Resolução de Conflito ,494(*) -,606(**) -,534(*) -,631(**) - - - - - - Base Segura ,697(**) -,517(*) -,517(*) -,630(**) ,707(**) - - - - - Equilíbrio I ,634(**) -,413 -,265 -,620(**) ,510(*) ,609(**) - - - - Equilíbrio II ,719(**) -,628(**) -,539(*) -,815(**) ,752(**) ,771(**) ,658(**) - - - Equilíbrio III ,654(**) -,466(*) -,574(**) -,690(**) ,751(**) ,856(**) ,701(**) ,734(**) - - Qualidade da Relação ,676(**) -,520(*) -,461(*) -,837(**) ,728(**) ,897(**) ,734(**) ,874(**) ,858(**) - *p<.05; ** p<.01 Relativamente às escalas diádicas, podemos observar que todas as escalas apresentam correlações significativas entre elas, com excepção da escala Raiva que não se correlaciona significativamente com as escalas Hostilidade (rsp= .436; p>.05) e Assertividade/ Autoretraimento (Equilíbrio I) (rsp= -.265; p>.05), e esta ultima não se correlaciona com o Afecto Negativo Diádico (rsp= -.413; p>.05). Importa salientar as correlações significativas que a escala Qualidade da Relação tem com todas as outras escalas, revelando que resultados altos na avaliação global da qualidade da relação associam-se a resultados altos na partilha de afecto positivo, na capacidade de resolução do conflito, nos comportamentos de base segura, no balanceamento entre necessidades do individuo e necessidades da relação, e a resultados baixos nas escalas de afecto negativo.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 71 Salientamos ainda, para o elemento masculino do casal, a relação significativa e positiva que se regista entre a representação da relação como promotora de autonomia e desenvolvimento pessoal e os comportamentos diádicos mais complexos, de reconhecimento e equilíbrio entre necessidades pessoais e da relação (rsp= .52, p<.05). No quadro 22 encontramos os valores das correlações entre as escalas dos dois domínios de avaliação para o elemento feminino do casal. Quadro 22: Correlações entre escalas da Representação e do Comportamento – elementos femininos do casal REPRESENTAÇÃO COMPORTAMENTO Integração da emocionalidade negativa e positiva Procura de cuidados (Careseeking) Prestação de cuidados (Caregiving) Intimidade sexual Desenvolvimento do indivíduo/ desenvolvimento da relação Idealização Coerência Afecto Positivo Diádico ,156 ,145 -,025 ,158 ,216 -,165 ,055 Afecto Negativo Diádico -,140 -,042 ,071 ,086 ,007 -,046 ,024 Raiva -,216 -,179 -,129 -,001 -,049 ,274 -,250 Hostilidade -,392 -,044 -,108 ,090 -,296 ,185 -,179 Resolução de Conflito ,396 ,074 ,150 -,026 ,303 -,246 ,272 Base Segura ,533(*) ,299 ,274 ,219 ,513(*) -,516(*) ,381 Equilíbrio I ,148 ,099 -,009 -,111 ,197 -,258 ,052 Equilíbrio II ,361 ,176 ,082 -,126 ,333 -,239 ,140 Equilíbrio III ,340 ,086 ,193 ,029 ,278 -,406 ,243 Qualidade da Relação ,504(*) ,190 ,205 ,034 ,423 -,405 ,326 Procura de Cuidados (Careseeking) ,197 ,306 ,141 -,128 ,298 -,377 ,058 Prestação de Cuidados (Caregiving) ,180 ,056 ,054 ,206 ,180 -,290 ,300 *p<.05; ** p<.01 Relativamente à avaliação diádica da Qualidade da Relação, realizada no domínio comportamental, esta encontra-se estatisticamente correlacionada apenas com o reconhecimento e a integração das emoções positivas e negativas (rsp= .50, p<.05), avaliada a nível representacional. Os resultados apresentados indicam também que os comportamentos diádicos de Base Segura se associam, de forma positiva, com a capacidade de integração da emocionalidade (rsp= .53, p<.05) e a representação da relação como promotora de autonomia e desenvolvimento pessoal (rsp= .51, p<.05), e de forma
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 72 negativa com uma organização da experiência pouco consistente e idealizada (rsp= -.51, p<.05). As correlações significativas são negativas para a escala de Idealização e positivas para as restantes escalas. 4.2.2. Relações entre Percepção da Vinculação, Representação e Comportamento nas Relações Intimas A leitura dos próximos quadros permite-nos analisar a relação entre as percepções dos sujeitos sobre as suas relações íntimas e dimensões específicas da vinculação no domínio representacional e comportamental. Neste sentido, relativamente às dimensões associadas aos estilos de vinculação no adulto e suas relações com dimensões representacionais, constata-se que, para o elemento masculino do casal, apenas a Ansiedade apresenta uma correlação significativa e negativa com a Procura de Cuidados (rsp= -.47, p<.05), indicando que níveis elevados de ansiedade associam-se a uma menor capacidade de sinalização e expressão clara da vulnerabilidade pessoal. Quadro 23: Correlações entre Percepção e Representação – elementos masculinos do casal REPRESENTAÇÃO PERCEPÇÃO Integração da emocionalidade negativa e positiva Procura de cuidados (Careseeking) Prestação de cuidados (Caregiving) Intimidade sexual Desenvolvimento do indivíduo/ desenvolvimento da relação Idealização Coerência Ansiedade -,309 -,476(*) -,391 -,205 -,283 ,234 -,290 Conforto com Proximidade -,009 -,015 ,030 ,050 -,082 ,027 ,056 Confiança nos outros ,074 ,153 ,021 ,052 ,034 -,079 ,015 *p<.05; ** p<.01 Para o elemento feminino do casal, verifica-se uma correlação significativa e positiva entre o Conforto com a Proximidade e a Intimidade Sexual (rsp= .58, p<.01), sugerindo que
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 73 quanto mais o indivíduo se sente confortável com a proximidade e a intimidade maior abertura e partilha no contexto da expressão sexual. Quadro 24: Correlações entre Percepção e Representação – elementos femininos do casal REPRESENTAÇÃO PERCEPÇÃO Integração da emocionalidade negativa e positiva Procura de cuidados (Careseeking) Prestação de cuidados (Caregiving) Intimidade sexual Desenvolvimento do indivíduo/ desenvolvimento da relação Idealização Coerência Ansiedade -,029 -,222 -,265 -,110 ,058 ,368 -,165 Conforto com Proximidade ,157 ,211 ,142 ,586(**) ,324 -,316 ,370 Confiança nos outros ,067 ,275 ,230 ,126 ,074 -,408 ,044 *p<.05; ** p<.01 Relativamente à relação entre dimensões associadas aos estilos de vinculação e dimensões avaliadas a nível comportamental, tanto para os elementos femininos do casal como para os masculinos não se verifica qualquer correlação estatisticamente significativa. Quadro 25: Correlações entre Percepção e Comportamento – elementos masculinos do casal PERCEPÇÃO COMPORTAMENTO Ansiedade Conforto com a Proximidade Confiança nos Outros Afecto Positivo Diádico -,067 -,203 -,343 Afecto Negativo Diádico -,006 ,379 ,172 Raiva -,010 ,117 -,253 Hostilidade ,105 ,323 -,046 Resolução de Conflito ,159 -,409 -,188 Base Segura -,293 -,125 ,044 Equilíbrio I -,212 -,368 -,062 Equilíbrio II -,114 -,281 -,153 Equilíbrio III -,109 -,289 ,117 Qualidade da Relação -,235 -,228 -,002 Procura de Cuidados (Careseeking) -,136 -,256 ,111 Prestação de Cuidados (Caregiving) -,052 -,401 -,080
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4 – Resultados 74 Quadro 26: Correlações entre Percepção e Comportamento – elementos femininos do casal Em suma, os resultados encontrados no presente estudo sugerem relações significativas entre variáveis específicas dos domínios representacional e comportamental, no entanto com intensidades diferentes para o elemento masculino e feminino do casal. Relativamente às percepções dos sujeitos sobre como se sentem face às suas relações íntimas verifica-se uma menor relação deste domínio com os domínios representacional e comportamental. No capítulo seguinte serão discutidos estes resultados e suas implicações, de acordo com o quadro teórico de referência. PERCEPÇÃO COMPORTAMENTO Ansiedade Conforto com a Proximidade Confiança nos Outros Afecto Positivo Diádico ,200 ,193 ,029 Afecto Negativo Diádico -,220 ,091 ,042 Raiva -,059 ,205 -,059 Hostilidade -,393 ,046 ,161 Resolução de Conflito ,393 ,115 ,105 Base Segura ,121 ,160 ,259 Equilíbrio I ,186 -,101 -,026 Equilíbrio II ,401 -,093 -,047 Equilíbrio III ,070 ,024 ,187 Qualidade da Relação ,243 ,037 ,093 Procura de Cuidados (Careseeking) ,167 -,189 ,096 Prestação de Cuidados (Caregiving) ,055 ,078 ,015
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 5 – Discussão dos Resultados e Conclusões 75 CAPÍTULO 5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS E CONCLUSÕES Tendo em consideração dos resultados descritos no capítulo anterior, proceder-se-á à sua discussão, procurando salientar os mais significativos, confrontando-os com o quadro teórico de referência e comparando-os com os resultados obtidos noutras investigações. Analisaremos primeiramente os dados obtidos em cada domínio avaliado – Representação das Relações Intimas, Comportamentos nas relações Intimas e Percepção das Relações Intimas – e em seguida passaremos à análise e discussão das relações entre dimensões específicas dos diferentes domínios em estudo. 5.1. REPRESENTAÇÃO DAS RELAÇÕES INTIMAS Um dos objectivos do presente trabalho consistiu na análise das dimensões avaliadas através da Intimate Relationhip Interview (Lima, Soares, Vieira & Collins, 2005). Apesar do cariz exploratório deste estudo e do tamanho da amostra, as análises efectuadas indicam que o instrumento apresenta uma boa fidelidade. Os valores dos coeficientes de alpha de Cronbach encontrados, quer para o total de indivíduos quer atendendo a homens e mulheres separadamente, revelam uma boa consistência interna, o que nos remete para o grau de confiança que se pode ter nos resultados obtidos. Tal como referimos na descrição do instrumento, esta entrevista não permite uma avaliação categorial da representação das relações íntimas, isto é, não possibilita a identificação de padrões de vinculação. No entanto, através de uma abordagem
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 5 – Discussão dos Resultados e Conclusões 76 dimensional, procura avaliar a representação das relações íntimas partindo de um conjunto de dimensões contínuas consideradas, de acordo com a Teoria da Vinculação, importantes neste contexto. Através das análises correlacionais verificamos a adequação das escalas às proposições teóricas que servem de base a este trabalho. A qualidade da organização discursiva da experiência pode ser observada nos valores negativos e significativos de correlação que as escalas Idealização e Coerência apresentam entre si. De acordo com o que é teoricamente sustentado (Crowell & Owens, 1998; Soares, 1996b), os indivíduos que são claros e precisos no modo como falam sobre a sua relação, sobre si e sobre o outro, apoiando as suas afirmações e avaliações com episódios específicos e consistentes, apresentam valores inferiores ao nível da idealização. A forma como os indivíduos organizam as suas experiências relacionais traduz-se ao nível da linguagem pela coerência entre as suas descrições semânticas e episódicas e pela forma como integram e atribuem significado às mesmas. Neste sentido os resultados correlacionais sugerem também que os indivíduos capazes de organizar coerentemente a sua experiência tendem a representar a relação como promotora de autonomia e desenvolvimento pessoal, reconhecendo e integrando emocionalmente os aspectos positivos e negativos, em contraste com os indivíduos que idealizam a sua relação e o seu envolvimento pessoal e do companheiro/a. Uma elevada idealização está inversamente correlacionada com a qualidade da procura e da prestação de cuidados, podendo tal estar associado a um discurso vago, com avaliações pouco sustentadas por memórias específicas ou por uma discrepância entre a representação semântica que o indivíduo faz do outro, de si na relação e/ou da própria relação e os episódios que descreve. Por outro lado, à representação da prestação de cuidados associa-se a capacidade de manifestar desconforto e solicitar apoio, num balanceamento flexível destes papéis, assumidos como centrais no contexto das relações íntimas (Collins & Sroufe, 1999; Crowell, Fraley & Shaver, 1999; Crowell & Treboux, 1995, 2001; Hazan & Shaver, 1994; Hazan & Zeifman, 1999). Os resultados apontam também para uma associação entre o sentido de autonomia pessoal e envolvimento com o outro e a capacidade de recorrer ao outro e de lhe prestar cuidados em situações de mal-estar,
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 5 – Discussão dos Resultados e Conclusões 77 sugerindo que nesta dialéctica de dar e receber apoio/conforto/segurança se consubstancia o equilíbrio entre o desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento da relação (Cassidy, 2001). Este equilíbrio apresenta uma associação forte e positiva com a proximidade física e emocional e a abertura e a partilha no contexto da expressão sexual corroborando o papel do sistema sexual no desenvolvimento de uma relação íntima na idade adulta (Hazan & Shaver, 1987; Cassidy, 2000; Waters & Cummings, 2000). O modo como o individuo expressa e partilha as emoções assume igualmente um papel essencial no desenvolvimento da intimidade (Cassidy, 2001; Feeney, 1998, 1999), que se traduz na relação positiva encontrada entre a escala de integração da emocionalidade positiva e negativa e a escala de intimidade sexual. Relativamente ao modo como os elementos de cada casal são avaliados em cada uma das dimensões em análise, o facto de não se registarem diferenças estatisticamente significativas sugere uma concordância na forma como as díades representam a sua relação. Este resultado, embora exploratório, leva-nos a concluir que a nível representacional cada par amoroso assemelha-se na forma como organiza, interpreta e atribui significados às suas experiências relacionais. Este dado, encontrado também noutros estudos (e.g. van Ijzendoorn & Bakermans-Kranenberg, 1996), é congruente com a teoria da vinculação que sugere que a construção e o desenvolvimento dos modelos internos dinâmicos ocorre de uma forma complementar no contexto das experiências relacionais (Main et al., 1985; Overall, Fletcher & Frieen, 2003). Embora cada indivíduo construa a sua própria representação da relação, influenciada pelos seus modelos do self e dos outros, esta vai sendo igualmente reelaborada com base nas interacções actuais e no cariz co-construído de uma relação íntima. Estes dados necessitam de uma maior exploração em estudos que contemplem uma amostra maior e a articulação com outras medidas representacionais, nomeadamente a AAI, procurando clarificar de que modo é que a organização da vinculação se relaciona com a representação das relações intimas (e.g. Treboux, Crowell & Waters, 2004; Lima, em preparação).
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 5 – Discussão dos Resultados e Conclusões 78 5.2. COMPORTAMENTO DIÁDICO NAS RELAÇÕES INTIMAS No que respeita ao domínio comportamental procedeu-se ao estudo dos casais através de uma tarefa de observação e avaliação directa da interacção, a partir da qual os casais foram avaliados enquanto díades, num conjunto de escalas que procuram salientar componentes específicas do processo relacional. A reciprocidade e a interdependência dos comportamentos são o foco de análise, valorizando-se no presente estudo por um lado a avaliação global da qualidade da relação e por outro, comportamentos específicos da mesma, nomeadamente partilha de expressão e regulação emocional, competências de resolução do conflito, comportamentos de procura e prestação de cuidados e balanceamento entre autonomia pessoal e envolvimento com o outro. De acordo com o esperado do ponto de vista teórico e em consonância com outras investigações que usam metodologias semelhantes (Collins e Feeney, 2000; Crowell et al., 2002; Roisman et al., 2001), as correlações encontradas no nosso estudo entre as escalas diádicas da CIT sugerem que uma avaliação global da qualidade da relação encontra-se positivamente associada a um processo de tomada de decisão envolvendo colaboração e negociação de conflito onde a capacidade de os elementos do casal usarem o outro como base segura e reciprocamente constituírem-se como tal revela ser igualmente uma componente importante. O modo como a relação pode ser promotora da autonomia e simultaneamente potenciadora do crescimento relacional mostra ser também uma componente que se associa positivamente à qualidade global da relação. Por outro lado, no que respeita aos afectos, e de acordo com Collins e Read (1990), a expressão e a regulação emocional resulta numa vivência mais positiva das relações afectivas. Podemos observar esta associação nos valores de correlação positivos encontrados entre a qualidade da relação e a reciprocidade e partilha da expressão de afecto positivo pelo casal e negativos entre esta medida global e a expressão de afecto de tonalidade negativa.
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 5 – Discussão dos Resultados e Conclusões 79 No que se refere às escalas individuais que permitem uma avaliação diferencial da dimensão relativa aos Cuidados observamos neste estudo que as díades tendem a diferenciar-se ao nível dos comportamentos de procura de cuidados. Os resultados do teste de Wilcoxon para amostras emparelhadas sugere que para cada par amoroso o elemento feminino tende a manifestar mais comportamentos de procura de cuidados do que o seu companheiro durante o processo de interacção, comportamentos esses que segundo Waters & Cummings (2000) pautam-se pelo sentido de vulnerabilidade expressa pelo indivíduo, sinalizando deste modo o seu desconforto de forma aberta e clara. De acordo com a teoria da vinculação não são esperadas diferenças significativas entre homens e mulheres ao nível da procura e prestação de cuidados. As diferenças encontradas em vários estudos (Crowell et al., 2002; Roisman et al., 2001, 2005) centram-se na relação entre a representação da vinculação e comportamentos de base segura, no sentido em que indivíduos classificados como seguros através da AAI e da CRI manifestam mais comportamentos de procura e de prestação de cuidados na sua relação íntima actual. No entanto, as diferenças e as semelhanças entre os géneros têm suscitado o interesse de vários investigadores (e.g. Hendrick & Hendrick, 1995; Pietromonaco e Carnelley, 1994; Vangelisti & Daly, 1997). Não obstante o carácter exploratório do presente estudo, alguns factores explicativos desta propensão poderão ser equacionados. Atendendo que neste estudo os casais não se diferenciam no modo como representam a sua relação, esta diferença ao nível dos comportamentos de procura de cuidados poderá ser compreendida à luz da natureza da própria tarefa proposta e em articulação com os aspectos sociais e culturais no que respeita sobretudo às diferenças de género. De acordo com Pietromonaco e Carnelley, (1994) homens e mulheres tipicamente apresentam experiências interpessoais qualitativamente distintas ao longo do seu ciclo de vida, resultado de diferentes processos de socialização. Gilligan (1982, cit in Pietromonaco e Carnelley, 1994) refere que as mulheres tendem a atribuir uma maior importância à comunicação e aos afectos no contexto interpessoal, enquanto que os homens tendem a ser menos expressivos emocionalmente, mais individualistas, independentes e instrumentais no apoio prestado ao outro. Neste sentido, podemos supor que os resultados por nós obtidos reflectem uma maior iniciativa e abertura por
ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 5 – Discussão dos Resultados e Conclusões 80 parte das mulheres na sinalização do desconforto e na expressão emocional face ao mesmo, resultado de factores culturais e educacionais que conduzem a diferenças de género. Estes factores poderão igualmente estar presentes na natureza do problema escolhido pelo casal (e.g. sexo, divisão de tarefas, ciúmes) durante a tarefa MarkmanCox (Cox, 1991), influenciando o modo como os indivíduos se comportam. O objectivo do presente estudo incidiu sobre a análise do processo de interacção e não sobre o conteúdo da mesma, pelo que consideramos pertinente em investigações futuras a análise do conteúdo das interacções pelo influência que pode ter no processo diádico mas também para uma melhor compreensão das dinâmicas relacionais. Um outro conjunto de resultados ainda referentes à dimensão de Cuidados permitenos explorar a forma como as escalas individuais da CIT se relacionam entre si. Em conformidade com os dados observados por Crowell e cols. (2002) encontramos para os elementos masculinos do casal uma relação positiva e significativa entre procura e prestação de cuidados no mesmo individuo e uma concordância entre comportamentos de procura de cuidados por parte destes e comportamentos de prestação de cuidados por parte das companheiras, sugerindo a natureza recíproca do processo, onde sistema de vinculação e sistema de prestação de cuidados interagem de forma balanceada (Collins & Feeney, 2000). Os mesmos autores num estudo com 93 casais constatam que os indivíduos que referem problemas mais stressantes manifestam mais comportamentos de procura de apoio o que por sua vez está associado a uma resposta de prestação de cuidados mais efectiva por parte do parceiro. No nosso estudo porém, quando analisamos os dados referentes ao elemento feminino do casal estas tendências não se verificam. A procura de cuidados por parte delas não se relaciona com a própria prestação de cuidados nem com a prestação de cuidados por parte do companheiro. Por um lado, tal como os dados sugerem, as mulheres tendem a nível comportamental a procurar mais apoio/conforto/segurança no outro do que a prestar esse mesmo apoio e conforto ao outro. No entanto, esta prestação de cuidados delas ao correlacionar-se com a procura de cuidados por parte dos companheiros revela que as mulheres tendem a ser eficazes a este nível sempre que o outro procura esses cuidados. Estes comportamentos estão assim naturalmente dependentes do comportamento do outro, levando-nos a supor
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96 Anexos
Anexo 5 – Escala de Vinculação do Adulto 103 Escala de Vinculação do Adulto EVA – M. C. Canavarro, 1995; Versão Portuguesa da Adult Attachment Scale-R; Collins & Read, 1990 Por favor leia com atenção cada uma das afirmações que se seguem e assinale o grau em que cada uma descreve a forma como se sente em relação às relações afectivas que estabelece. Pense em todas as relações (passadas e presentes) e responda de acordo com o que geralmente sente. Se nunca esteve afectivamente envolvido com um parceiro, responda de acordo com o que pensa que sentiria nesse tipo de situação. 1. Estabeleço, com facilidade, relação com as pessoas. 2. Tenho dificuldade em sentir-me dependente dos outros. 3. Costumo preocupar-me com a possibilidade dos meus parceiros não gostarem verdadeiramente de mim. 4. As outras pessoas não se aproximam de mim tanto quanto eu gostaria. 5. Sinto-me bem dependendo dos outros. 6. Não me preocupo pelo facto das pessoas se aproximarem muito de mim. 7. Acho que as pessoas nunca estão presentes quando são necessárias. 8. Sinto-me de alguma forma desconfortável quando me aproximo das pessoas. 9. Preocupo-me frequentemente com a possibilidade dos meus parceiros me deixarem. 10. Quando mostro os meus sentimentos, tenho medo que os outros não sintam o mesmo por mim. 11. Pergunto frequentemente a mim mesmo se os meus parceiros realmente se importam comigo. 12. Sinto-me bem quando me relaciono de forma próxima com as pessoas. 13. Fico incomodado quando alguém se aproxima emocionalmente de mim 14. Quando precisar, sinto que posso contar com as pessoas. 15. Quero aproximar-me das pessoas mas tenho medo de ser magoado(a). 16. Acho difícil confiar completamente nos outros. 17. Os meus parceiros desejam frequentemente que eu esteja mais próximo deles do que eu me sinto confortável em estar. 18. Não tenho a certeza de poder contar com as pessoas quando precisar delas. Nada característico em mim Pouco característico em mim Característico em mim Muito característico em mim Extremamente característico em mim
Anexo 6 – Inventário de Sintomas Psicopatológicos 104 B.S.I. L. R. Derogatis, 1993. Versão M. C. Canavarro, 1995 A seguir encontra-se uma lista de problemas ou sintomas que por vezes as pessoas apresentam. Assinale num dos espaços à direita de cada sintoma, aquele que melhor descreve o GRAU EM QUE CADA PROBLEMA O(A) INCOMODOU DURANTE A ÚLTIMA SEMANA. Para cada problema ou sintoma marque apenas um espaço cm uma cruz. Por favor não deixe nenhuma pergunta por responder. Em que medida foi afectado(a) pelos seguintes problemas: 1. Nervosismo ou tensão interior 2. Desmaios ou tonturas 3. Ter a impressão que outras pessoas podem controlar os seus pensamentos. 4. Sentir que os outros são culpados pela maioria dos seus problemas 5. Dificuldade em se lembrar de coisas passadas ou recentes. 6. Aborrecer-se ou irritar-se facilmente. 7. Dores sobre o coração ou no peito. 8. Medo na rua ou em espaços públicos. 9. Pensamentos de acabar com a vida. 10. Sentir que não pode confiar na maioria das pessoas. 11. Perder o apetite. 12. Sentir um medo súbito sem razão para isso. 13. Ter impulsos que não se podem controlar. 14. Sentir-se sozinho(a) mesmo quando está com mais pessoas. 15. Dificuldade em fazer qualquer trabalho. 16. Sentir-se sozinho(a). 17. Sentir-se triste. 18. Não ter interesse por nada. 19. Sentir-se atemorizada. 20. Sentir-se facilmente ofendida nos seus sentimentos. 21. Sentir que as outras pessoas não são suas amigas ou não gostam de si. 22. Sentir-se inferior aos outros. 23. Vontade de vomitar ou mal-estar no estômago. 24. Impressão de que os outros o(a) costumam observar ou falar de si. 25. Dificuldade em adormecer. 26. Sentir necessidade de verificar várias vezes o que faz. NUNCA POUCAS VEZES ALGUMAS VEZES MUITAS VEZES MUITÍSS IMA S VEZES
Anexo 6 – Inventário de Sintomas Psicopatológicos 105 27. Dificuldade em tomar decisões. 28. Medo de viajar de autocarro, de comboio ou de metro. 29. Sensação de que lhe falta o ar. 30. Calafrios ou afrontamentos. 31. Ter de evitar certas coisas, lugares ou actividades por lhe causarem medo. 32. Sensação de vazio na cabeça. 33. Sensação de anestesia (encortiçamento ou formigueiro) no corpo. 34. Ter a ideia de que devia ser castigada pelos seus pecados. 35. Sentir-se sem esperança perante o futuro. 36. Ter dificuldades em se concentrar. 37. Falta de forças em partes do corpo. 38. Sentir-se em estado de tensão ou aflição. 39. Pensamentos sobre a morte ou sensação de que vai morrer. 40. Ter impulsos de bater, ofender ou ferir alguém. 41. Ter vontade de destruir ou partir coisas. 42. Sentir-se embaraçada junto de outras pessoas. 43. Sentir-se mal no meio de multidões, como em lojas, cinemas ou assembleias. 44. Grande dificuldade em sentir-se “próxima” de outra pessoa. 45. Ter ataques de pânico ou terror. 46. Entrar facilmente em discussões. 47. Sentir-se nervoso(a) quando tem que ficar sozinho(a). 48. Sentir-se que as outras pessoas não dão o devido valor ao seu trabalho ou às suas capacidades. 49. Sentir-se tão desassossegado(a) que não consegue manter-se sentada quieto(a). 50. Sentir que não tem valor. 51. A impressão que, se deixasse, as outras pessoas se aproveitariam de si. 52. Ter sentimentos de culpa. 53. Ter a impressão de que alguma coisa não regula bem na sua cabeça. NUNCA POUCAS VEZES ALGUMAS VEZES MUITAS VEZES MUITÍSSIMA S VEZES