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Polémicas em torno dos Centros Comerciais Análise da Tese de Doutoramento: Shopping (&) Center Caso de estudo: O ‘site’ da Arrabida “Cidade” Maria Helena Vieira da Silva
Rui Emanuel Rocha Oliveira Gomes dos Reis Álvaro António Gomes Domingues FAUP 2013/2014 POLÉMICAS EM TORNO DOS SHOPPING - Analise critica sobre a Tese de Doutoramento Shopping (&) Center de Miguel Graça Dissertação de Mestrado
Polémicas em torno dos Shopping Análise da Tese de Doutoramento: Shopping (&) Center Caso de estudo: O ‘site’ da Arrábida Agradecimentos Ao Professor Álvaro Domingues, meu orientador, pela forma como acompanhou neste estudo, pelas leituras atentas, discussão e comentários e toda a ajuda prestada em momentos difíceis. Aos professores da Faup, que de alguma forma me ensinaram arquitetura. Aos meus pais e irmão, pelo apoio sempre presente e por me aturarem neste longo percurso. Ao Nelson, Ruben, João, Marcus, por todos os dias que partilhamos ao longo do curso. A todos aqueles que me acompanharam neste percurso um especial obrigado.
POLÉMICAS EM TORNO DOS SHOPPING - Analise critica sobre a Tese de Doutoramento Shopping (&) Center de Miguel Graça Dissertação de Mestrado Rui Emanuel Rocha Oliveira Gomes dos Reis Álvaro António Gomes Domingues FAUP 2013/2014
Índice . Palavras chave . Resumo/Abstract . Índice de imagens 0. Introdução .19 . Objeto . Objetivo . Metodologia 1. Shopping 1.1. Urbanidade .27 1.2. Consumo .51 1.3. Centro comercial .73 2. Espaço público da cidade contemporânea 2.1. Crise moderna .101 2.2. Público e privado .123 3. O papel do centro comercial na cidade contemporânea 3.1. Novas dinâmicas urbanas .141 4. Estudo de caso 5.1. O ‘site’ da Arrábida .161 5. Conclusão .197 6. Bibliografia .203 Polémicas em torno dos Shopping Análise da Tese de Doutoramento: Shopping (&) Center Caso de estudo: O ‘site’ da Arrábida
7 Polémicas em torno dos Shopping Análise da Tese de Doutoramento: Shopping (&) Center Caso de estudo: O ‘site’ da Arrábida Polémicas em torno dos Shopping Análise crítica sobre a Dissertação de Doutoramento Shopping (&) Center de Miguel Graça “La historia de la ciudad es la de su espacio público. Las relaciones entre los habitantes y entre el poder y la ciudadanía se materializan, se expresan en la conformación de las calles, las plazas, los parques, los lugares de encuentro ciudadano, en los monumentos. La ciudad entendida como sistema, de redes o de conjunto de elementos – tanto si son calles y plazas como si son infraestructuras de comunicación (estaciones de trenes y autobuses), áreas comerciales, equipamientos culturales es decir espacios de uso colectivos debido a la apropiación progresiva de la gente – que permiten el paseo y el encuentro, que ordenan cada zona de la ciudad y le dan sentido, que son el ámbito físico de la expresión colectiva y de la diversidad social y cultural. Es decir que el espacio público es a un tiempo el espacio principal del urbanismo, de la cultura urbana y de la ciudadanía. Es un espacio físico, simbólico y político.”1 Palavras-chave: Cidade - Espaço público - Social Periferia - Comunicação - Informação Centro - Difuso - Comercial Urbanidade - Consumo 1. BORJA, Jordi e MUXÍ, Zaida - El espacio público, ciudad y ciudadanía, Barcelona, 2000, pág. 8.
9 Resumo A cidade e o próprio conceito de cidade mudou e continua a mudar durante a história, já não é o mesmo, está em constante transformação tanto pelas atividades de comercio como de atividades econômicas que causam profundas transformações na condição de cidade e na condição de urbano. O centro comercial é um modelo aproveitado e largamente visitado pela sociedade contemporânea para as práticas de consumo. Demonstra-se que nestes espaços se gera sociabilidade através da arquitetura. Para uma melhor aproximação ao tema, baseio este estudo na Tese de Doutoramento “Shopping (&) Center”, de Miguel Graça, permitindo verificar diferenças e continuidades na produção destes edifícios, nas condições que atraem à população e no que representam para a sociedade e cidades contemporâneas. Verifica-se uma diversidade e expansão do shopping. Estes assumem-se na paisagem urbana, são referência, imagem de marca, numa lógica espacial idêntica à cidade, onde a arquitetura limita, condiciona e gera dinâmicas de apropriação do espaço. Conclui-se que o comercio e o consumo, que influenciam a economia, é uma ferramenta na criação destes edifícios; através do uso da forma, da função, dos espaços que dinamizam, do que proporcionam em termos de segurança e conforto às populações, pelo procuraram dar caráter aos diferentes espaços existentes, criando uma identidade, tanto os próprios espaços interiores como na sua envolvência. Estes espaços de consumo são geradores de uma felicidade temporária, transportam consigo o reflexo da sociedade atual. Abstract The city and the very concept of the city has changed and continues to change throughout the story, is no longer the same, is in constant transformation of both the trade activities as economic activities that cause profound changes in the condition of the city and the urban condition. The shopping center is a model widely visited and enjoyed by contemporary society to consumption practices. It is shown that these spaces is generated sociability through architecture. For a better approach to the subject, I base this study on Thesis Doctoral “Shopping ( & ) Center”, of Miguel Graça, allowing you to check differences and continuities in the production of these buildings, the conditions that attract the people and they pose to society and cities contemporary. There is a diversity and expansion of the mall. These take in the urban landscape, are reference , brand image , a spatial logic identical to that city, where architecture limits, conditions and generates dynamic of appropriation of space. We conclude that the trade and consumption, that influence the economy, is a tool in the creation of these buildings; through the use of form, function spaces that speed, in terms of providing security and comfort to the people, sought to give the character different to existing spaces, creating an identity, both indoors and in their own surroundings. These spaces of consumption are generating temporary happiness, carrying with it the reflection of current society. Polémicas em torno dos Shopping Análise da Tese de Doutoramento: Shopping (&) Center Caso de estudo: O ‘site’ da Arrábida
INTRODUÇÃO 0.
19 Introdução A paisagem urbana, hoje em dia, é constituída por múltiplas descontinuidades formais, territoriais e sociais o que contribui para a criação de novas imagens urbanas, deixando de lado as cidade convencional e relacionada com o conceito de ‘metrópole’ policentrada, que consegue atrair o que se lhe relaciona com lógicas de atração reciprocas, apoiadas tanto em fluxos físicos pelas novas logicas de transportes rodoviários como em fluxos de informação, consequência do rápido crescimento de redes de serviços informacionais. À medida que estas transformações ocorre, algumas resistências em relação ao território vão-se perdendo, proporciona logicas dinâmicas tanto na territorialização como na espacialização dos modos de organização social. “(...) No Noroeste, tal como no resto de Portugal, a nova infraestrutura rodoviária é muito recente e fez-se em territórios já urbanizados e quase sempre construídos sem plano ou quadro regulador eficaz. É muito vulgar, por isso, encontrar rupturas muito cavadas entre essa rede de alta capacidade e a rede preexistente, então já muito congestionada (estradas nacionais, municipais e caminhos rurais). A rede de alta capacidade estrutura, assim, a coesão funcional da urbanização descontinua, desenhando uma ‘macrocidade’, um macrossistema territorial onde se incluem outros subsistemas dotados de uma certa coerência local: conurbações de gênese metropolitana ou baseadas em estruturas policêntricas, eixos urbanizados, aglomerados mais ou menos definidos a partir do crescimento periférico de outros preexistentes, franja e territórios difusos que se interligam com mancha e corredores de desenvolvimento.” Os novos centros são lugares que se destacam pela capacidade de atração de funções e de efeitos de catálise que diversificam, inovam a construção de urbanidade. Os centros comerciais são um dos elementos mais visíveis desta dinâmica. O centro comercial é, assim, significante enquanto modelo de espaço coletivo (embora privado) pois são os locais ideais em que as implicações de novas culturas que mudam as praticas espaciais e as suas representações, melhor pode ser observada. A separação que os modernistas fizeram entre a economia e a cultura veio dar origem a um comprometimento sério com as praticas de consumo. Assim existe a necessidade de tratar o consumismo como um processo ativo e empenhado de construção do indivíduo e de sociedade e que em vez de, simplesmente, assimilar os indivíduos a estilos, apropria-se de códigos diversos e de modas distintas e instáveis que correspondem à heterogeneidade dos indivíduos. É um mercado da cidade, e como que torna a cidade como mercado e produto. Ajuda a vender e a dar urbanidade. É para a nova cultura e cidadania, um novo centro, uma praça, é um local de troca e abastecimento. As suas vantagens fazem com que obtenham atrações de valor, pelos seu visitantes, consumidores, turistas, pela quantidade de negócios, fluxos, poder chamativo das companhias, executivos, ‘cérebros’. Estes tipos de espaços de trocas, desenvolvem-se cada vez mais em novos tipos de espaços, Introdução
21 como aconteceu do mercado para o shopping, passa-se ao centro de cultura e comercio. Apresentam-se como uma alternativa à forma de vivencia tradicional na cidade e na sua própria envolvência. O centro comercial é uma espécie de dispositivo totalizante: do café ao cinema, da loja de roupa à loja do cidadão, etc. “Os centros comerciais são hoje um dos elementos mais marcantes da cidade europeia contemporânea, um lugar incontornável da própria actividade do consumo e, cada vez mais, um dos lugares-chave da vida quotidiana.”2 Torna-se necessário compreender estas realidades, para que uma analise nos permita intervencionar de forma adequada a estas realidades urbanas potenciando os aspetos positivos e amenizar o que esta peça fragmentada de intervenção impõe negativamente. Proponho assim, a analise da Dissertação de Doutoramento de Miguel Farinha dos Santos da Silva Graça, dirigida pelo professor Emérito Nuno Portas, pela amplitude de casos de inserção dos centros comerciais, pelo percurso histórico e pela diversidade de conceitos de centro comercial. Analiso as mudanças ao nível da percepção do território, a partir do automóvel, como o catalisador de deslocação espacial e como elemento de uma certa desigualdade social ao acesso do centro comercial. O poder de atração dos equipamentos de caráter periférico, e as infraestruturas, que proporcionam a criação de novos centros, que potenciam a cidade policêntrica. Tenho como objetivo a compreensão das polemicas em torno do centro comercial, fruto da concentração e privatização do tempo e do espaço, como gerador ou potenciador de novas dinâmicas urbanas, da adaptação da logica do automóvel, as periferias habitacionais preexistentes, bocados de planeamentos modernos nunca acabados, de relação com pré existências de caráter rural que tem um grande impacto na paisagem urbana. E a análise experimental do ‘site’ da Arrábida, tanto pelos seus conteúdos programáticos como no seu modo de ‘acessar’, não da maneira como as pessoas viajam até ao sitio, mas o modo como e para que utilizam os espaços para as diversas funções e próprias necessidades. O centro comercial é maior do que apenas o somatório das suas partes, pois apenas uma aglomeração de lojas não passa de isso mesmo, enquanto que a espacialidade do centro comercial o torna mais do que isso, pela facilidade de estacionamento, segurança oferecida, conforto de ter ‘sempre’ o que se necessita num único espaço, para além do aglomerado de lojas de diferentes funções. Organizo esta dissertação de acordo com a estrutura organizativa da Tese de Doutoramento de Miguel Graça. Numa primeira parte, aborda-se as questões da cidade, do urbano e das relações entre essa dicotomia, analisa-se a questão do consumo, consumidor e relações sociais provenientes dessa relação, assim como a evolução histórica do centro comercial e dos espaços dedicados ao consumo. 2. GRAÇA, Miguel -Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade eos centros comerciais em Portugal e na Europa, Valladolid, 2010, pág. 7 Introdução
23 No segundo capitulo, aborda-se a crise moderna do espaço público e a constante fragmentação do espaço. Caracteriza-se o espaço público na sua relação com o privado e os espaços significativos da cidade contemporânea. No terceiro capitulo, aborda-se as centro comercial como uma peça urbana da cidade contemporânea, recorrendo-se a conceitos de cidade compacta e cidade extensiva, centro, periferias, novas centralidades. No quarto capitulo, abordo o caso de estudo que pretendo desenvolver, sendo este o ambiente envolvente do Shopping da Arrábida, abordando as questão anteriormente analisadas. Introdução
SHOPPING 1.
32 Imagem 11 Polis Grega. Foto atual de Atenas, mostra a Acrópole ainda hoje preservada. Imagem 10 Campos agrícolas na periferia de Pamplona, Navarra, Espanha. Imagem 9 A globalização é um processo, um padrão histórico de mudança estrutural, mais do que uma transformação política e social já plenamente realizada. É um fenómeno ao mesmo tempo amplo e limitado: amplo, porque ela cobre transformações políticas, econômicas, e culturais; limitado, porque não se trata de um processo completo e terminado, não afeta a todos da mesma maneira. O processo de globalização é caracterizado pela intensa mudança estrutural da economia internacional, com o peso crescente de transações e conexões organizacionais que ultrapassam a fronteira dos Estados.
33 dustrial para se proliferarem pelo território. As cidades, assim, transformavam-se de um modo simples de vida para cidades aceleradas em termos de crescimento e vida, com chaminés de fabricas e populações operárias. O urbano, não é um subproduto da industrialização, mas é o produto de relações sociais e condicionantes próprias da industrialização. A industrialização moderna e sociedade industrial estão intimamente relacionadas com o urbano e a sua produção. O urbano está relacionado com o processo de urbanização que constitui um processo de transformação estrutural especifica de uma sociedade capitalista e que impulsiona essa própria sociedade para o futuro, quer nas suas contradições, quer na sua clarividência. O urbano está, portanto, relacionado com os processos históricos e sociais das cidades. A cidade é história, é a intelectualidade, o espiritual no território, sendo um objeto espacial que está em constante mutação e que se entende pelo território, é o campo da organização político-económica, cultural e militar; é a divisão de totalidade, entre o conjunto das coisas, Physis e a linguagem que procura compreender as coisas, Logos. O urbano é um processo que atinge a globalização pelo desenvolvimento da cidade, ou seja, pela implosão e explosão territorial da cidade contemporânea, sendo o seu elemento a centralidade. O urbano é um conceito, uma temática, a necessidade da teoria pôr em prática o seu conhecimento, uma problemática, ou a resolução de uma problemática. “(...) a implosão-explosão (metáfora emprestada da física nuclear), ou seja, a enorme concentração (de pessoas, de atividades, de riquezas, de coisas e de objetos, de instrumentos, de meios e de pensamento) na realidade urbana, e a imensa explosão, a projeção de fragmentos múltiplos e disjuntos (periferias, subúrbios, residências secundárias, satélites etc.). A cidade industrial (em geral uma cidade informe, uma aglomeração parcamente urbana, um conglomerado, uma “conurbação”, como o Ruhr) precede e anuncia a zona crítica. Nesse momento, a implosão-explosão produz todas as suas consequências. O crescimento da produção industrial superpõe-se ao crescimento das trocas comerciais e as multiplica.”8 As cidades já não são mais os conceitos pré-concebido e pré adquiridos com que crescemos, não tem já as fronteiras vincadas por muralhas ou apenas linhas territoriais fixas de elementos naturais, em que era regida por malhas de habitação onde se concentravam os principais serviços, que era rodeada por sua vez pelos vastos campos agrícolas, essa típica cidade estado grega já não existe. A cidade é o lugar especifico da reprodução do social e passa por transformações interligadas com os mecanismos e modos de produção. A origem das cidades está relacionada com a cidade de onde advém a política, a polis da antiguidade clássica, Grécia. Estas cidades são o centro e o reconhecimento do poder dos homens, assim como a sua própria liberdade e centra-se na Ágora9. Na composição política da cidade, já existe a divisão 8. LEFEBVRE, Henri - A revolução urbana, Ed. UFMG, Belo Horizonte, 1999, pág. 26. 9. A ágora possuía papel importante na configuração da democracia ateniense e na política da cidade, sendo o local, por excelência, da manifestação da opinião pública, adequado à cidadania quotidiana. Urbanidade
34 Imagem 13 Comercio internacional. Armazenamento e transporte de mercadorias. Imagem 14 Comércio de exportação e importação de mercadorias de um país com outros países, no regime capitalista, o objetivo principal do comércio reside no desejo de os capitalistas e das suas associações obterem lucros elevados. Imagem 12 Ilustração básica de comercio. Algo que toda a gente consegue associar ao consumo e a economia.
35 do trabalho, pelo que os que mandavam eram sacerdotes em união com a política, príncipes, chefes militares e escribas, os notários, e havia depois o reverso da medalha, os que trabalhavam às ordens destes mandatários, os artesão, camponeses e escravos. Em termos espaciais também acaba por ser uma cidade setorizada, pela divisão do trabalho no espaço, pelos monumentos, praças, palácios que se determinam sobre um território maioritariamente agrícola. O que provocou a queda deste modelo foi o comercio, o movimento e a riqueza que, por consequência, gera, que durante muito tempo era uma atividade considerada inferior e deixada para os que vinham de fora à cidade e usavam os espaços deslocados do tecido urbano, afastados do centro, em que se acontecia uma luta de classes e que acabou por prevalecer foram os comerciantes, ficando a classe dominante. Assim a praça torna-se, assim, no elemento máximo central, onde acontece o mercado. A transformação de uma cidade política em direção a uma cidade completamente dependente do comercio pelo estabelecimento dos espaços de conflito comerciais, as condições da cidade política degradam-se enquanto as atividades comerciais se consolidam e se desenvolvem e começam a alterar a forma da cidade e dos seus espaços, pois a sua arquitetura espacial é expandida ruidosamente para possibilitar o encontro das pessoas que querem e necessitam de estabelecer trocas, e, com este efeito catalisador, a igreja e o poder político situam-se em volta do mesmo espaço destinado às trocas. “É a cidade comercial, implantada na cidade política, mas prosseguindo sua marcha ascendente, que a explica. Ela precede um pouco a emergência do capital industrial e, por conseguinte, a da cidade industrial. Este conceito merece um comentário. A indústria estaria vinculada à cidade? Ela estaria, antes de mais nada, ligada à não-cidade, ausência ou ruptura da realidade urbana. Sabe-se que inicialmente a indústria se implanta — como se diz — próxima às fontes de energia (carvão, água), das matérias-primas (metais, têxteis), das reservas de mão-de-obra. Se ela se aproxima das cidades, é para aproximar-se cios capitais e dos capitalistas, dos mercados e de uma abundante mão-de-obra, mantida a baixo preço. Logo, ela pode se implantar em qualquer lugar, mas cedo ou tareie alcança as cidades preexistentes, ou constitui cidades novas, deixando-as em seguida, se para a empresa industrial há algum interesse nesse afastamento.”10 A cidade é um trajeto entre o campo que a envolve e a sociedade vigente, assim, a transformação que se dá na cidade afeta tanto o campo como a própria sociedade, pois é tudo interligado, sendo que a ritmos e intensidade diferentes, onde este processo social se desvia da sua prática, em que os senhoras da guerra que mandam nas cidades, são continuamente substituídos pela nobreza que detém o poder económico, substituição essa necessária para o estabilizar do comercio na cidade, e assim os camponeses começam a produzir para a cidade em vez de para subsistência própria e do seu senhor. O campo é assim o lugar do incontrolável e a cidade em si o lugar da liberdade. 10. LEFEBVRE, Henri - A revolução urbana, Ed. UFMG, Belo Horizonte, 1999, pág. 25. Urbanidade
37 “Crescimento económico, industrialização, tornados ao mesmo tempo causas e razões supremas, estendem suas consequências ao conjunto dos territórios, regiões, nações, continentes. Resultado: o agrupamento tradicional próprio à vida camponesa, a saber, a aldeia, transformase; unidades mais vastas o absorvem ou o recobrem; ele se integra à indústria e ao consumo dos produtos dessa indústria. A concentração da população acompanha a dos meios de produção. O tecido urbano prolifera, estende- -se, corrói os resíduos de vida agrária.”11 A cidade apoiada no comercio, que se implantou no que restou da cidade política, intensifica as práticas e atividades comerciais, a troca, e estabelecem-se rotas comerciais entre cidades e a riqueza deixas de estar só nas terras para passar a estar na mão de quem comercializa produtos e bens, criam-se e desenvolvem-se os processos de criação de estradas e rotas marítimas. As trocas comerciais originam assim a acumulação do dinheiro que conduz à criação de bancos. É um objeto concreto, onde os grupos sociais lutam entre si para obter o melhor estatuto na sociedade mediante as suas práticas sociais. O valor da troca, presente nas mercadorias e atribuído como juízo de valor pelas pessoas da sociedade, não domina ainda a prática social, sendo esta regida pelo uso dos bens e nos bons costumes, pelo que a reunião de pessoas, a elaboração de festas, na apropriação da rua praça e demais espaços públicos acontece mediante as possibilidades de cada um, pelo emprego e tempo disponíveis para a realização destas atividades, comportando ainda as práticas e estéticas sociais dos grupos onde se inserem. A partir desta crescente importância do comercio na gestão da cidade e das sociedades e na solidificação da classe comerciante como classe dominadora, adquire-se acumulação de riqueza e inicia- -se um novo processo social, chamado de industrialização. Este novo processo transformou as práticas sociais e o desenvolvimento da cidade assim como as estruturas da cidade. O desenvolvimento industrial, no seu início, não precisava da cidade no seu processo, pois o ‘motor’ do seu desenvolvimento estava nas fontes energéticas e matérias-primas, que se localizavam fora das cidades. À medida que a indústria e o seu processo de industrialização se aproxima das cidades pela mão de obra em abundancia e a baixos preços, grandes fundos financeiros e o próprio mercados onde se fazem os negócios, este processo de aproximação da indústria à cidade causa grandes transformações na sua forma, pela implosão decorrente dos elementos políticos e comerciais perderem a sua capacidade social. Com o progresso da industrialização, as cidades fragmentam-se, explodem para além dos seus limites e ocupam um largo território. No desenvolvimento destas transformações a cidade da política e a cidade do comercio dilui-se na vulgarização de relações sociais, de trabalho, económicas no valor de troca em substituição do valor de uso e pela alteração da significância da obra pelo produto. Assim, existe ou acontece uma perda de qualidade e perda das relações espaço-tempo, o que leva a sobressair a condição de quantidade, expressa nas atividades do quotidiano, tudo está destinado ao consumo. A cidade transforma-se deste modo numa espécie de empresa. 11. LEFEBVRE, Henri - A revolução urbana, Ed. UFMG, Belo Horizonte, 1999, pág. 17. Urbanidade
38 Imagem 15 Ilustração de êxodo rural, a fuga das pessoas do campo para a cidade. Imagem 16 A zona rural e a zona urbana promovem-se de forma dicotômica e acentuada.
39 A passagem do rural ao urbano, desenvolvida pelo comercio, estabiliza agora com a indústria nas cidades, o campo deixa de ter tanta importância, lugar onde tudo parece não evoluir, mas também a cidade já não confere tanta liberdade como noutros tempos, pois o industrial na cidade permite o controlo do tempo social, como o deslocamento diário de casa para o trabalho e vice versa, que se impõe no indivíduo tanto na forma de longas horas em transportes coletivos ou em espera em filas de transito, em que dentro desse espaço de tempo se pode descontrair, ouvir música, falar com pessoas na mesma situação, reforçando a ideia de confinamento. A cidade industrial manifesta-se sobre todas as outras, pelo que a urbanização é um processo decorrente da industrialização que também é transformador da sociedade. Esta urbanização despoleta o desenvolvimento das cidades e a tentativa de combater crises, tanto na habitação, como na segregação tanto espacial como social, na explosão do centro, criação de vários centros, periferias, violência, etc., como salvadora de uma cidade de contradições. Estas crises das cidades industriais provocam, assim, transformações na sua identidade. “(...) a realidade urbana, ao mesmo tempo amplificada e estilhaçada, perde os traços que a época anterior lhe atribula: totalidade orgânica, sentido de pertencer, imagem enaltecedora, espaço demarcado e dominado pelos esplendores monumentais. Ela se povoa com os signos do urbano na dissolução cia urbanidade; torna-se estipulação, ordem repressiva, inscrição por sinais, códigos sumários cie circulação (percursos) e de referência. Ela se lê ora como um rascunho, ora como uma mensagem autoritária. Ela se declara mais ou menos imperiosamente. Nenhum desses termos descritivos dá conta completamente cio processo histórico: a implosão-explosão (metáfora emprestada da física nuclear), ou seja, a enorme concentração (de pessoas, de atividades, de riquezas, de coisas e de objetos, de instrumentos, de meios e de pensamento) na realidade urbana, e a imensa explosão, a projeção de fragmentos múltiplos e disjuntos (periferias, subúrbios, residências secundárias, satélites etc.).”12 A contemporaneidade apresenta o mesmo tipo de transformações que ocorrem na transição do campo para o industrial através do comercio, pelo que a urbanização, a sociedade urbana emerge sobre a condição industrial. Com a propagação das logicas de produção e de crescimento económico, a industrialização atinge a mundialização, desfavorece-se a especialidade local em detrimento da constituição de elementos semelhantes e, ou ligados entre si, que permite a criação de um mercado global. Esta homogeneização não aparece e impõe-se de imediato, existem atritos, que levam à diferença e ao processo da sociedade urbana que se sobrepõe para além da história. 12. LEFEBVRE, Henri - A revolução urbana, Ed. UFMG, Belo Horizonte, 1999, pág. 26. Urbanidade
41 A cidade vive em conflito entre a normalização, constituição de elementos idênticos, homogeneização e as diferenças do que ainda acabará por vir, mas nesta condição atual invertida assente no capital a habitação é uma prioridade durável. O ato de habitar não é apenas uma casa, mas sim um direito político a cidade, pelo que combate a homogeneização do capital. Mas a busca dessas condições podem deturpar esse direito, pela constante luta na obtenção de transporte e tempo de deslocação, de escolas próximas, água, eletricidade e a própria casa, pois forma de mercadoria é constante por estas crescentes procuras relacionadas com o valor de troca em substituição do uso. Os problemas urbanos, tais como espaços mal programados e mal desenvolvidos, serão resolvidos por soluções urbanísticas. A cidade pode ser considerada uma expressão de industrialização e o Estado é a entidade que deve pôr ordem ao caos urbano gerado pela industrialização. Essa reprodução é uma capacidade sociológica que se impõe sobre as anteriores, tanto agrícola como industrial. A cidade é uma forma de intervenção no espaço e no tempo entre um nível superior, o Estado e o poder económico, pela instalação de diversas formas de atuação, como órgãos governamentais, sedes de empresas, bancos, que entra em concordância com classes dominantes para o controlo e confronto na cidade, por meio de sistemas urbanos, de que são exemplos a circulação e deslocamento, a vigilância e segurança, a transmissão de informação; e um nível inferior, ao nível do privado, onde é o habitar que se impõe como a principal função e razão e é o ponto de início de um sistemas de informações e de chegada de ordens e é o modo que influencia as instancias do quotidiano, através das deslocações e do consumo em massa. O urbano na relação do espaço tempo, que difere da condição rural e da industrialização, comporta dimensões simbólicas pelos desejos e representações do urbano, que revela o sentido de uma estrutura social enquanto linguagem; a padronização das relações sociais no espaço, que assim as condições do lugar partem das redes de relações espaciais dos indivíduos nos lugares próprios, com o dos outros e presentes em lugares neutros, que assim definem a produção e apropriação do espaço; e a sistematização urbana dos deslocamentos pelo meio de transporte, quer individual, quer de ordem pública e vias destinadas a esse uso, que une os espaços. A implosão e explosão da cidade e a globalização urbana, faz com que tudo pareça fragmentado. “Crescimento económico, industrialização, tornados ao mesmo tempo causas e razões supremas, estendem suas consequências ao conjunto dos territórios, regiões, nações, continentes. Resultado: o agrupamento tradicional próprio à vida camponesa, a saber, a aldeia, transforma-se; unidades mais vastas o absorvem ou o recobrem; ele se integra à indústria e ao consumo dos produtos dessa indústria. A concentração da população acompanha a dos meios de produção. O tecido urbano prolifera, estende- -se, corrói os resíduos de vida agrária. Estas palavras, “o tecido urbano”, não designam, de maneira restrita, o domínio edificado nas cidades, mas o conjunto das manifestações do predomínio da cidade Urbanidade
49 das condições micro e macro urbanísticas, pelo que os efeitos de nível micro estão condicionados pelas novas condições a nível macro como a grande distância entre centro polarizadores e entre estes e as aglomerações mais próximas. “ (...) a verdade é que as cidades se expandiram para além da sua escala e se descentraram relativamente ao seu sistema de espaços públicos tradicional. E, apesar de nestas, os centros históricos continuarem a desempenhar simbolicamente o seu papel de significantes convencionais, novos condensadores urbanos captam hoje esses mesmo fluxos, ao mesmo tempo que as formas de comunicação, a economia ou a política adoptam um carácter cada vez mais difuso. As relações sociais assumem uma nova geometria em rede e as novas formas de mobilidade acentuam a sua pulverização física, perante a qual a cidade procura naturalmente novas formas de urbanidade.”21 21. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 318. Urbanidade
51 1.2. Consumo As evoluções no sistema de produção, a implementação da dos serviços na economia, o pôr em prática as novas configurações do modelo moderno sobre o território urbano unido com as novas condições de produção e de comunicação que eram as principais características do campo de ação industrial no território. Chegamos a um território diferente, quando do território com hierarquia única, de um espaço caracterizado por um centro e uma periferia intrinsecamente apoiada nesse centro passamos para um território baseado em relações espaciais e na regulação própria, é uma realidade espacial totalmente fragmentada e heterogênea imposta no território. A progressiva estrutura dinâmica de união do território fragmentado, é explicado basicamente pela sua especialidade da sua base econômica, de demografia e das fronteiras territoriais das regiões demarcadas pelas administrações estaduais. Mesmo com a industrialização metropolitana no pós guerra não se consegui sobrepor à importância de indústrias de base como têxteis ou confecções, alimentação, madeiras, cortiças ou calçado, características de instalações dispersas e não metropolitanas. O atual território é um espaço físico composto por formas mais ou menos caóticas, de instalação aleatória, sem nenhuma regra ou plano aparentemente imposto, no que importa às formas tradicionais de cidade com as novas representações do crescimento que figuram processos de fragmentação do território e de criação de vários polos ou centros nos principais eixos e nós viários. É um território descontinuo, fragmentado, descentrado, com desiquilíbrio constante, que acaba com a regra de forma e de constituição espacial que faz parte da cidade tradicional e compacta. Este território converte-se assim quase na sua totalidade às logicas recentes de mobilidade espacial e funcional. A rápida e frenética dinâmica de ocupação territorial origina mudanças pela utilização e instalação de contentores de diversas formas dispostas aleatórias no território; na constante disputa entre o público e o privado envolvendo questões de organização social; no problemático processo de organização urbanística devido a uma multiplicidade de agentes no planeamento e construção do território; e pela nova organização económica e sectores administrativos do sector público pôs automaticamente em contestação o modelo tradicional de organização espacial do território. O consumo é um fenómeno cultural urbano onde o consumidor pela ação de compra torna-se real o consumo. A própria ação de realizar a compra acontece no ponto de vista da posse, da sensação de pertencer à modernidade, a um mundo dos que consomem e são felizes, uma pertença que vai para além do desejo pelo objeto. O comercio e a cidade relacionam-se através de uma ligação subtil e dialogada. A estrutura urbana da cidade é organizada em que faz parte a atividade comercial, sendo ela própria capaz de organizar a cidade e ser ainda um ponto de referência. Consumo
53 Existe bastante dinamismo na definição de cidade e vai-se modificando ao longo do tempo, como sendo espaço quase na sua totalidade espaço político; espaço social na relação com outros; unidade de verificação territorial, na sua rede e estrutura urbana e pelo seu conceito de forma e função. A estrutura urbana é o lugar do ser humano, com edifícios comerciais O comercio é um momento particular da vida da cidade como de cada pessoa, é uma necessidade de trocas materiais, que corresponde a uma necessidade econômica e a uma questão social, sendo o momento da troca uma comunicação e uma relação social entre indivíduos. “A busca de ofertas crescentes e diferenciadas de consumo com vista a construir novas formas de vida tornou-se assim, sem sombra de dúvida, uma das características definidoras da vida urbana contemporânea.”22 Ao nível da rua, como elemento arquitetónico, o comercio instala-se como veículo poderoso de intervenção urbanística, o que leva à possibilidade de integração, renovação e revitalização de zonas urbanas degradadas ou sem uso. A intrínseca relação do comercio com o espaço público urbano vem desde a génese da cidade, pois a civilização sempre floresceu com a presença mais ou menos direta do comercio. Pelo comercio e os locais onde se instala as pessoas conseguem satisfazer as suas necessidades e realizar alguns sonhos e desejos. No comercio pela sua interação, troca, produção e inovação, é a essência da vida urbana. O consumo e as suas matérias primas, as mercadorias representam um papel fulcral na sociedade contemporânea. Uma das principais características desta sociedade de consumo é a desclassificação tecnológica do material industrial, motivada pela aparição de um material mais moderno e da sua renovação imediata, constante, onde é a moda que estrutura e generaliza quase todos os campos do social. O consumo é como que uma corrida individual para marcar a diferencia e diferenciar-se na multidão, a efemeridade é uma consequência dessa crescente individualização da sociedade contemporânea e dos seus indivíduos, em que o consumo não tem classes ou hierarquias A moda é reordenamento da produção e do consumo através da obsolescência, sedução e diversificação, que orienta o fim da individualização. Sobrevaloriza o indivíduo, numa noção narcisista, quase negando a ideia de sociedade, prende-se ao valor de uso das mercadorias em vez do que elas próprias representam. “O próprio ritual do consumo torna-se tão importante como o consumo em si, e a desmaterialização do acto de consumo refletir-se-á na própria configuração física e espacial dos ambientes comerciais. O que interessará será o acesso à experiência e não a posse ou a acumulação física de produtos.”23 22. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 33 23. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 37 Consumo
54 Imagem 20 Ilustração da evolução do homem, desde a condição de primata à ideia de consumo A publicidade ensina crianças a acariciar… o plástico. Jornais anunciam skates de mogno. E se “Admirável Mundo Novo” já não for ficção? Admirável Mundo Novo é um livro escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932 que narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse “futuro” não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada “soma”. As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. O conceito de família também não existe.
55 É concebida, a moda, por um sistema global de comunicação, uma rede de signos que estruturam a sociedade em hierarquias. Os consumidores vivem numa ilusão de consumo, livres numa prisão sem se darem conta, ao serem sujeitos a condições e estímulos de diferenciação que lhes orienta as escolhas. A cultura de consumo tem como ponto de partida a expansão da produção capitalista de mercadorias, o que deu azo a uma intensa acumulação de bens e locais de consumo. Assim, o lazer e as atividades de consumo ganham maior preponderância nas sociedades contemporâneas, em que a igualdade e a liberdade individual ganham maior vida mas também pode ser visto como manipulação ideológica e controle da população através de estímulos limitadores de escolhas, o que previne tentativas de ajustamento na organização das relações sociais. Foca-se o fato de as pessoas usarem o consumo e a troca de mercadorias de forma a criarem relações e distinções sociais, pois a satisfação e o status dependem da exibição e conservação das diferenças em condições adversas económicas, a inflação ou classes sociais desfavorecidas. “Selecionar e comprar um produto convertem-se em actividades tão importantes como usar e apropriar-se da componente imaterial que o acompanha, isto é, a sua capacidade de distinção social. O que consumimos serve desse modo como marca de afirmação, sendo a sua conexão com a procura de formas de sociabilidade, estilos de vida ou estatuto social, referida, (...)“ pelo que se aponta (...) para uma dimensão de diferenciação social que tanto pode ser ligada, como independente, da própria condição económica dos indivíduos. O enquadramento social, as actividades ou os atributos tornados visíveis pelos indivíduos estarão assim relacionados como o que eles próprios consomem e com as identidades que se expressam e procuram.”24 Existe ainda a questão dos prazeres emocionais do consumo, sonhar, desejar num imaginário cultural de consumo em locais preparados para o efeito que produzem multiplicidades estímulos físicos e prazeres estéticos. “(...) a decisão da compra, a partir do início do século XX, com a diversificação gradual da oferta de bens e produtos, deixa de ser progressivamente uma resposta directa à necessidade de um produto específico e torna-se um processo influenciado por múltiplos factores e variáveis que influenciarão o comportamento, motivação, percepção ou atitude dos consumidores.”25 Na economia tradicional o cerne de toda a produção é o consumo, com os consumidores a potenciar ao máximo as suas satisfações de acordo com um vasto leque de mercadorias em constante 24. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 34 25. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 33 Consumo
56 Imagem 21 Atração para o consumo. Cultura de shopping em Jacarta, Indonésia. Imagem 22 Produtos e mercadorias para o consumo retratados como símbolos, ícones. A Pop Art admitia a crise artística que abatia o século XX e buscava a estética das massas, do o que seria a cultura pop. Alimenta-se da profusão de símbolos atuais da sociedade de consumo.
57 expansão, que origina a maiores capacidades de consumo e controlado e manipulado. A evolução da produção capitalista, depois da revolução cientifica e do fordismo, precisou da construção de novos mercados e educação de novas massas consumidoras por meio dos mídia e publicidade. (LEFEBVRE 1971). A indústria cultural comporta as atividades de lazer, arte e cultura, na medida em que o consumidor recepciona o produto mediante o valor de troca e os valores e os princípios elevados da cultura perdem-se numa logica de produção e das exigências de mercado. A felicidade e realização tanto familiar como individual, o desejo por algo diferente, que os produtos ou mercadorias de alta cultura representam são oferecidos às massas manipuladas, que se inserem numa cultura substituta amplamente reproduzida e reduzida a ‘insignificância’ individual. Assim a acumulação de bens e produtos resulta na superioridade obtida pelo valor de troca e a avaliação dos aspectos de vida torna-se possível, pois os modos de vida, as suas qualidades culturais e tradições são transformados em quantidades. Esta cultura de consumo da modernidade capitalista, é um uma cultura de calor de troca e de cálculo instrumental racional. A mercadoria fica livre para assumir um valor de uso ou substituto, pois o valor assumido da troca põe de lado o valor de uso original dos objetos. Neste ponto de vista os bens ficam aptos a receber uma grande multiplicidade de associações e ilusões culturais, sendo a publicidade capaz de revelar essas capacidades exprimindo imagens românticas, cheias de exotismo, desejo, beleza, fomentadoras de sentido de realização, de pertença, progresso cientifico e prazer no consumo de produtos da vida comum como produtos higiênicos, comida, bebida, automóveis, etc. O consumo pressupõe uma manipulação exercida de signos, em que os bens e simbologia anda a par para garantir uma maior apelação. Assim os signos ou símbolos, mediante a sua manipulação nos mídia e/ou na publicidade e marketing, podem ficar dissociados dos objetos para assumir outras diversas relações associativas. “O crescimento progressivo da influência dos objectos de consumo, ou comodidades, na vida urbana contemporânea fez com que a definição do gosto e do desejo, mais do que as necessidades dos consumidores, se tornasse um aspecto fulcral do próprio processo abrindo o campo à influência crescente da publicidade e do marketing.”26 Assim assiste-se a uma troca de um destaque materialista para um destaque cultural, onde a produção remete-se à reprodução de símbolos, imagens e simulações por parte dos mídia e publicidade, quase extinguindo a diferença entre imagem e realidade aos olhos do consumidor. O consumo torna- -se, portanto, em algo cultural pelo que a vida social e as próprias relações sociais revelam-se menos estruturadas por regras normalizadas, tornando-se cada vez mais variáveis. A crescente superprodução de símbolos e reprodução de imagens e simulações tornam a realidade cada vez mais estética, que põe 26. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 33 Consumo
64 Imagem 27 Barbara Kruger é uma artista conceptual Americano. O seu trabalho toma a linguagem visual da comunicação comercial de massas e transforma-a. Apropria-se de imagens fotográficas comerciais e sobrepõe-nas com slogans filosóficos que andam contra as imagens. Esta inversão de sentido revela como a publicidade reduz a identidade individual ao de um objeto consumível. Imagem 28 Desperdício de materiais e objeto de consumo, necessário para a constante produção de mercadorias.
65 que contribuem para uma desfiguração dos hábitos, da gênese do gosto e das escolhas que classificam, novos modos de identidade, formação e deformação de hábitos de consumo e de atividades mundanas que ponham em causa a importância do gosto e dos diferentes estilos de vida mediante escolhas. A agitação e as desordens culturais, não são falta de ordem pela falta de controlo mas servem para integrar os grupos ou os indivíduos na sociedade, pela consciência de status social, por tentações e desejo, domínio e descontrolo emocionais, o cálculo instrumental e hedonismo29, que em culturas mais tradicionais apresentam-se como características negativas para a construção de identidade e recusa de transgressões. “(...) o fenómeno do consumo - ao ultrapassar o campo da troca comercial e ao tornar-se simultaneamente manifestação hedonista, actividade da esfera do quotidiano e acto cultural - complexificar-se-á e aproximar-se-á cada vez mais de uma matriz capaz de materializar-se em ambientes aptos a sustenta redes de relações sociais e culturais entre os seus actores.”30 Antes das transformações das sociedades e cidades contemporâneas, o termo consumir significava destruir, devorar, dissipar, apagar o que representa precisamente o contrário da ideia produtivista das sociedades capitalistas contemporâneas. O valor económico dos produtos, mercadorias ou bens, aliados à sua própria escassez, revelam que a disciplina e o sacrifício levam às necessidades e prazeres do consumo, criam uma imagem cultural e motivação poderosa nas sociedades e por consequência ao seu controlo. A noção de trabalho árduo e disciplinado compensatório, conduta confinada para o individualismo (espiritual), é persistente nas sociedades capitalistas contemporâneas, revista por exemplo no Thatcherismo31 Assim o consumo é posto lado a lado com o trabalho, orientado por práticas deslocadas da produção, representado como ordeiro, respeitável e conservador, que são valores burgueses tradicionais e entram em conflito com novos valores burgueses de lazer, de exploração emocional narcisista e construção de relacionamentos que consiste basicamente em ser um puritano durante o dia e um playboy à noite. Esta posição da nova classe média consegue explanar e questionar as presentes noções de consumo, ao pôr em vigência imagens do consumo como excesso, desperdício e desordem. Isto ocorre em sociedades em que a produção é voltada para o consumo, lazer e serviços onde se verifica uma demanda crescente de bens simbólicos, imagens e informação. “Presenciamos, assim, como na sociedade de consumo se remistura habilmente o ócio com o que deveria ser a sua negação - o negócio - ou seja, como o acto de comprar, a experiência do lazer ou a manifestação cultural, se sobrepõem e se diluem na vida quotidiana.”32 29. Hedonismo - Motivação para uma determinada ação em função do prazer (ou dor) que pode causar ao indivíduo. 30. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 43 31. Thatcherismo - Caracteriza-se pela redução da intervenção do Estado na economia, pela exaltação das virtudes do livre mercado e dos méritos da “ordem espontânea”; por uma política econômica monetarista; pela defesa das privatizações de empresas estatais; pela redução dos impostos diretos (ou progressivos, como o imposto sobre a renda e os impostos sobre as propriedades) e pelo aumento dos impostos indiretos (ou regressivos, como os impostos sobre o consumo); pelo combate aos sindicatos de trabalhadores; pela eliminação do salário mínimo e pela redução do Estado do bem-estar social. 32. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Consumo
67 A produção passa assim a servir a ‘destruição e é um problema saber o que fazer com os excessos de produtos e mercadorias sem lei nem ordem. Para acabar com o excedente destrói-se o excesso em religião, arte, guerras, morte, jogos, pela troca de presentes, torneios de consumo, carnavais e consumo ‘sério’. Assim as sociedades contemporâneas desfazem-se destes produtos para produzir crescimento continuo na produção, produzem-se imagens e locais de consumo que apoiam estes prazeres de excesso. Estas imagens e locais tornam a fronteira entre arte e o quotidiano num engano, por elementos, presentes na cultura de consumo, de tradição grotesca pré industrial; pela transformação do ridículo em imagens dos mídia, design, publicidade, cinema, vídeo, televisão; pela firmeza e alteração desses elementos nos próprios locais de consumo como feiras, lojas de departamentos, shopping centers, parques temáticos, resorts, estádios; pela introdução destes elementos no consumo ‘sério, grandes empresas privadas ou públicas, pela forma de espetáculos de prestigio para as massas e/ou para os grandes setores públicos e privados. As tradições de protesto e transgressões, o grotesco, os excessos da cultura popular, os carnavais, feiras e festivais estimulam a agitação e invertem e transgridem as simbologias da cultura, assim como os prazeres físicos grotescos como comida em abundância, bebida em exagero e a promiscuidade sexual. Estes espaços viram o mundo ao contrário, no sentido de tabus, fantasias e sonhos serem concretizados, assim assistimos a transições que provocam o sentido de comunidade imediata e integração emocional. Estes espaços comerciais sempre desempenharam papeis duplos na cidade, como mercados e locais de diversão, para alem da troca de mercadorias envolvem sempre a exposição de produtos desconhecidos e exóticos que vem de toda a parte do mundo. Provocam nas pessoas a ideia de um imaginário espetacular, de oposições umas em cima das outras, fronteiras dissipadas, mistura de sons estranhos, gestos, gostos, pessoas, animais, imagens, etc. “ (...) a decisão de compra, (...) com a diversificação gradual da oferta de bens e produtos, deixa de ser progressivamente uma resposta direta à necessidade de um produto especifico e torna-se um processo influenciado por múltiplos factores e variáveis que influenciarão o comportamento, motivação, percepção ou atitude dos consumidores, ou comodidades, na vida urbana contemporânea fez com que a definição do gosto e do desejo, mais do que as necessidades dos consumidores, se tornasse um aspecto fulcral do próprio processo, abrindo o campo à influência crescente da publicidade e do marketing.”33 Estes lugares de fascínio, desejo e nostalgia, de desordem cultural, tornam-se ponto chamativos para as pessoas que estão a desenvolver controlo corporal e emocional relacionados com os processos civilizadores de comportamento, estilo de vida e status social. Passam a assumir temas centrais na arte, literatura e entretenimento popular, no sentido em que os espaços que estes lugares assumem centralidade no espaço mercantil urbano e proporcionam uma certa desordem ordenada que redefinem as tradições grotescas nas imagens e simulações de sítios exóticos e espetáculos de espantosos. Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 42 33. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 33 Consumo
68 Imagem 29 O comportamento de compra envolve atividades físicas, mentais e emocionais realizadas na seleção, compra e uso de produtos e serviços, compra e uso de produtos e serviços para a satisfação de necessidades e desejos. A Psicologia tem colaborado para a compreensão do comportamento de compra por meio do estudo dos fatores psicodinâmicos internos e dos fatores psicossociais externos que influenciam o consumo. Essa compreensão visa permitir o desenvolvimento de estratégias de marketing mais eficazes. O consumidor agora espera um alto nível de envolvimento emocional e a responsabilidade social com as marcas que consome. Elas agora têm que se ajustar à personalidade única e individual dos consumidores – a conveniência, praticidade e a utilidade, unicidade e referência como padrões principais de exigência no consumo, tem agora de abraçar em seu seio a procura pela identidade única do consumidor.
69 “O espaço urbano actual não será assim apenas um somatório dos seus elementos físicos, mas algo mais. Uma paisagem de objectos e de lugares, mas também de acumulação de experiências. A vida urbana confunde-se com a experiência do consumo e torna-se ela própria uma mercadoria. Como o próprio centro comercial, também a cidade - tematizada e avassalada pelo branding - se transforma em cenário urbano de consumo.” 34 As galerias que surgem a partir da segunda metade do século XIX, em grandes cidades europeias e principalmente em Paris, eram como mundos de sonho, pela aparência falsa dos produtos expostos, constantemente renovados pelo impulso capitalista e modernista para a novidade. Este mundo que torna estéticas as mercadorias, as galerias, as lojas de departamentos, ruas, os edifícios e os próprios produtos em exposição, as pessoas que deambulam os espaços são alimentadas pelas paisagens em constante mutação, onde os objetos parecem não pertencer e são associados a coisas fora do seu contexto, tornando assim a vida quotidiana das cidades cada vez mais embelezada. Esta ‘paisagem estetizada’ deve-se aos processos industriais avançados que introduzem na arte uma certa industrialização, pela publicidade, marketing, design industrial e mostruário comercial. A proliferação de novas tecnologias e meios de comunicação em massa dá origem a um constante movimento de imagens fotográficas intensificam esta tendência de cidade e até sociedade cada vez mais ‘embelezada’. Assim, existe ausência de intervenções, aumentam as intensidades, a descarga e sobrecarga sensorial, a desorientação, a mistura de signos e imagens sobrepostas, a mistura de códigos que são os componentes da cultura de consumo sem pensamento profundo onde a arte e a realidade parecem confundir-se. “Como se de produtos se tratassem, as próprias cidades entram em competição entre si. Tentam promover a sua imagem, tentam atrair investimentos, empresas, pessoas, consumidores e turistas, apelando ao desejo e à ilusão.”35 A produção de objetos para consumo em massa atinge um momento positivo o que permitiu, assim, dar azo à criatividade para se libertar da arte e multiplicar-se nos bens quotidianos produzidos em massa. É uma celebração do potencial estético da cultura de massa e das percepções estéticas das pessoas que preambulam através dos espaços urbanos das grandes cidades. A cultura das cidades contemporâneas tem um novo papel e são cada vez mais centrais no consumo quotidiano, no excesso de produção de bens e experiências simbólicas introduzidas pelas indústrias culturais, como artes, turismo, entretenimento, patrimônio histórico. As pessoas com a cidade interagem num jogo complexo de signos envolvendo o ambiente edificado e a trama urbana. O flâneur36 34. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 38 35. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 38 36. O termo flâneur vem do francês e tem o significado de vagabundo, vadio, preguiçoso, que por sua vez vem do verbo francês flâner, que significa para passear. O flâneur foi utilizado como uma ‘personagem literária’ inventada ou descrita por Charles Baudelaire, essencial para qualquer imagem das ruas de Paris, pelo que a personagem anda pela cidade a fim de a experimentar. A palavra carregava um conjunto de Consumo
71 Consumo contemporâneo interagem na cidade com artificialidade, aleatoriedade e superficialidade na amalgama de imagens estranhas e novos valores estranhos encontrados nas culturas populares contemporâneas. É um movimento individualista mas com sentido afetivo e de certa empatia com as massas. As imagens que a cidade proporciona provocam prazer, perturbação, sensações grotescas ou ridículas, desordem e é preciso bastante autocontrole para as poder sentir, pois câmaras de segurança e os seguranças estão alerta para quem não se consegue controlar por todo esse fascínio. A arte ‘foge’ para o design industrial e publicidade e outras indústrias que produzem imagens e símbolos recorrentes; verifica-se a transição de objetos usados no quotidiano podem ser utilizados como formas e objetos de arte (dadaísmo e surrealismo). A divulgação do mercado da arte e o crescente número de artistas profissionais e das suas ocupações secundárias da arte nos centros metropolitanos e do uso da arte como promotora de relações públicas do privado e do público provocam grandes transformações no papel do artista na sociedade contemporânea. “A evolução dos estilos de vida e uma nova forma de comportamento dos seus utilizadores será assim estimulada pelos espaços franchisados dos equipamentos colectivos e comerciais diversos que adoptam estratégias compatíveis com as dinâmicas do marketing urbano. Combinando (...) produtos, experiências, publicidade, manifestações culturais, promoção imobiliária e lazer, os espaços dos centros comerciais, simultaneamente únicos e miméticos, tornam-se assim numa peça destacada deste universo profuso de elementos. Uma paisagem feita de marketing e lifestyles (...).”37 associações ricas: o homem de lazer, o ocioso, o explorador urbano, o conhecedor da rua. Assim, o flâneur tornou-se um símbolo importante para acadêmicos, artistas e escritores, assumindo um papel fundamental na compreensão, participação e retrato da cidade, fenômenos urbanos e a própria modernidade. 37. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 43
73 1.3. Centro Comercial Com o emergir das superfícies de grandes dimensões a par com o surgimento e difusão do sistema de franchising, toma início uma revolução comercial. O comercio é inserido em políticas urbanísticas. O centro comercial é um objeto de marca, na medida em que contem grande carga simbólica, funciona como um símbolo e, assim sendo, é um ponto de referência no território. São edifícios ou espaços de que fazem parte lojas de marca, sendo que a marca é assumida como objeto simbólico e a escolha desses objetos, conforme a moda é uma afirmação da personalidade e da escolha dos indivíduos. As marcas não existem dissociadas dos consumidores, e assim pelo ato de compra os indivíduos inserem-se num ‘mapa de consumo’ e caminham para a sua construção de identidade. “Contudo, foi apenas no início do século XX - com a introdução e a difusão de bens produzidos massivamente em estabelecimentos comerciais e associados a uma “marca” - que o acto de consumir assume o seu significado actual.”38 O shopping, centro comercial, dá ao indivíduo poder de uma superioridade de individualização, onde atingem um determinado estatuto social e em que a frequência e uso destes espaços se torna quase num ritual. O coletivo é assim substituído pela individualização. São espaços de consumo em que a arquitetura também é vendável, onde as relações pessoais são estabelecidas de modos e formas distintas. A espacialidade orienta o homem nas relações espaciais, que ao compreendê-las constrói o seu próprio conceito de espaço. As lojas, elementos essenciais ao funcionamento de um centro comercial, são importantes, também, para a passagem de identidade. Não é possível fazer uma distinção do sitio onde se consome e do produto consumido. Os espaços de marca incorporam a imagem da cidade com a imagem do indivíduo. A arquitetura tem um papel importante, pois nos espaços de venda, é uma finalidade e uma mensagem para os indivíduos a que se destina. O centro comercial é um reino de consumo individual e a loja é, assim, um espaço onde os desejos e os sonhos se compram, tornam-se reais. “(...) “centro comercial”, que encerra em si a ideia-chave de concentração comercial e que, no geral, caracteriza o próprio formato. Ainda que outras características sejam igualmente transversais a estes espaços, como a existência de percursos - tanto interiores como exteriores e preferencialmente pedonais - ou mesmo a noção de que este, para além de destinado à actividade do consumo de produtos e serviços, acumula muitas vezes as valências do entretenimento e do ócio. (...) o lugar onde encontraremos uma exemplar sobreposição das ideias de densidade, percurso, consumo e lazer.”39 38. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 33 39. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de DouCentro Comercial
80 Imagem 34 Interior do Grand Magazin Au Bon Marché, em 1900, grande escadaria e o serralheiro Moisant, Laurent Savey. Imagem 35 Passage du Caire, de 1798. Imagem 36 Passage des Panoramas. Pegue o metro da Rue Vivienne vire na 3 ª rua à direita, Rue Saint-Marc. A segunda entrada à esquerda é a Passage des Panoramas , uma das mais antigas passagens parisienses de 1799.
81 Um dos primeiros edifícios deste conceito foi o Au Bon Marché construído em 1852. Este Grand Magazin instala zonas de circulação, de permanência e contemplação, de acordo com um espaço central, iluminado por uma claraboia. Este interior com o teto em vidro teve como inspiração o Palácio de Cristal. Aqui existe um estimulo à compra, pelo que o ato da compra se transforma em algo divertido e o fato de haver um número enorme de produtos disponíveis e apresentados num único espaço é um potenciador atrativo para os consumidores. O Grand Magazin é, assim, o lugar onde as possibilidades são infinitas e onde os indivíduos conseguem satisfazer os seus desejos ou contemplar os seus sonhos. “(...) a “Au Bon Marché”, fundada em 1838”, e remodelada em 1852 para este formato, “através de uma nova filosofia de retalho que se caracterizará pela rapidez de circulação do capital e das mercadorias, pelo largo inventário de produtos disponíveis e pelo fascínio das promoções. No “Au Bon Marché” renovada, a moderna estrutura e organização interna da loja libertava os consumidores, que se podem mover livremente, manipular e explorar os produtos, agrupados por secções e organizados segundo as suas características e funções. Desta forma, uma das outras originalidades do modelo da loja por departamentos estava, (...) no facto dos diversos departamentos ou secções temáticas estarem agrupadas verticalmente por pisos no mesmo edifício.”43 O espaço canal - A Passagem A passagem, ou passage, é a tipologia comercial que antecede a galeria e os espaços comerciais de pequenas dimensões, e são como uma transição do comercio isolado para os grandes armazéns. Na sua definição espacial, a passagem, consistia numa rua de uso pedonal, simétrica e com a sua cobertura numa estrutura de ferro e vidro, ladeada por pequenas lojas é, um espaço público em no interior de terrenos privados, aberto ao público, que abriga os passeantes. A sua forma é linear e o seu ambiente encerrado, o seu uso é de um espaço urbano comercial, enquanto que os seus limites são ambíguos, em que o espaço interior rapidamente se torna exterior e o seu espaço exterior em interior. “(...) é a combinação entre o comercio de luxo e um espaço público, que lhe assegura por algum tempo a preferência do público e o sucesso comercial.”44 A sua arquitetura é elaborada e a sua decoração bastante teatral no desenho das fachadas interiores e os materiais que utilizavam recriavam a rua exterior, pelo que encorajavam a utilização do público. Assim, surge um espaço público interior de passagem como espaço público independente, com uma forte relação à escala da sua integração urbana na cidade, pela forma, proporção, materiais, os usos e os ambientes que provoca. As passagens parisienses adquirem propriedades semelhantes a uma ágora para as populações 43. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 86 44. GEIST, Johann Friedrich - Le Passage: Un Type Architectural du XIXe Siècle, pág. 12 In 44. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 88 Centro Comercial
82 Imagem 37 Fotografia da Passage des Princes, Paris, França. A passagem des Princes é uma galeria comercial coberta no segundo distrito de Paris,vai do nº. 5 Boulevard des Italiens até ao nº. 97 da Rue de Richelieu . Imagem 38 Galeria Vivienne de 1826 Imagem 40 Galeria Lafayette. Construída na época das reformas haussmanianas em Paris, surgiram quase na virada do século XIX pro século XX. Imagem 39 Galeria Vèro Dodat. Situado próximo do Pallais Royal.
83 urbanas burguesas. São importantes espaços, pela interioridade que representam e a familiaridade de um espaço privado mais íntimo em relação com a caraterística forte de sociabilidade que o espaço público representa. “As suas qualidades formais encerram assim na sua forma especifica, marcada pela linearidade e encerramento, os ingredientes de uma formula de sucesso que ainda hoje é usada em inúmeras tipologias comerciais.”45 A fusão e a monumentalização dos modelos - As Galerias O shopping é uma criação norte americana, desenvolvendo-se a partir de 1950 como uma importância comercial urbana planeada, que se baseia no aumento exponencial do consumo, nas comodidades económicas e facilidade de obter território privado. O shopping comercial inicia-se aqui mas o conceito de albergar uma diversidade de estabelecimentos debaixo da mesma cobertura e criar ambientes oportunos ao fenómeno do consumo em franca expansão, é claramente uma influência dos modelos de galerias comerciais na Europa e que permitiram aos EUA serem o núcleo central de inovação e difusão. A galeria tem parecenças com catedrais renascentistas pela sua estrutura formal, pela abóbada circular envidraçada e formato em cruz das naves, em que revela um espaço de escala superior à passagem, semelhante à dimensão do edifício contentor do Palácio de Cristal e com a teatralidade da verticalidade dos grand magasin. O intuito da galeria encontra-se na ‘captura’ e o prolongar do espaço do comercio para o interior do quarteirão edificado, que conforma um espaço público em território privado. É uma passagem urbana com caraterísticas completamente repetível nos inúmeros quarteirões existentes, pelo que acabaria por configurar um outro percurso, alternativo, pelos quarteirões, abrigado das condições climatéricas e de uso exclusivo pedonal. Um mundo utópico, à parte do caos instalado na cidade exterior, representaria como que uma fuga para uma cidade interior, mais pequena. Como definição espacial as galerias são uma reunião de unidade diferentes ou idênticas que conformam um espaço comum de deambulação. As lojas que se organizam mediante um espaço de circulação reto, aparece um esquema linear, onde parece uma rua corredor; quando se organizam à volta de um espaço central de circulação, a distribuição acontece em torno de um pátio, reproduzindo a praça. “(...) desempenhará igualmente um papel na organização urbana que a circunda, ligando vários pontos da cidade e representando um espaço significativo para um número alargado de utilizadores. Ou seja, integrando um conjunto invulgarmente amplo de ofertas comerciais numa mesma tipologia simulada de urbanidade (...).”46 45. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 88 46. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 97 Centro Comercial
84 Imagem 42 Arcade Cleveland , em Cleveland, Ohio, de 1890. Imagem 41 Arcade Paddock, em Watertown, Nova Iorque, de 1909. Imagem 43 Department Store Marshall Field Warehouse Store, em Chicago, Illinois, de 1887.
85 A transposição dos modelos Europeus - A Arcade e o Department Store A arcada, tal como os modelos urbanos do shopping dos centros e os mercados, cria, verdadeiramente, espaço público, com uma gestão única, de escala bastante reduzida e consequentemente com custos bastante inferiores. Era baseado na venda a retalho e tinha um ambiente organizado e higienizado para o consumismo. Era também um produto da especulação privada, de projeto simples e construído todo ao mesmo tempo, sem etapas de construção. É um espaço, na sua essência, um espaço de transição, de corte curto similar a uma rua. É grandiosamente aberta nos seus pontos de entrada e as suas fachadas interiores fluem do mundo exterior, que providencia uma transição suave, ininterrupta e acolhedora, protegida do clima. Usada como uma rua, o espaço contido torna-se em espaço público por excelência, que se baseava na concepção europeia, “ou seja, o agrupar de lojas em localizações centrais e organizadas de forma a minimizar os custos - terá desde o início uma implantação fácil e bem sucedida.”47 Como uma pequena rua por dentro de um quarteirão, a arcada esforçou-se para abrir e acessar áreas pouco utilizadas para as vendas a retalho, estendendo a paisagem urbana. O objetivo era criar novas frentes de rua, e não pegar nas ruas existentes e virá-las para o interior, longe dos passeios. Uma loja de departamentos, ou estabelecimento comercial, department store é um estabelecimento de venda a retalho, num edifício aberto ao público, que oferece uma grande variedade de produtos consumíveis. Normalmente, permite aos consumidores e utilizadores do espaço, uma multiplicidade de escolha entre várias de linhas de mercadorias, com preços variáveis, em diferentes categorias de produtos conhecidos como ‘departamentos’. Estas lojas, normalmente, vendem uma variedade de produtos, incluindo roupas, mobília, eletrodomésticos, brinquedos, cosméticos, utensílios para o jardim, objetos de casa de banho, artigos de desporto, artigos de faça você mesmo, pintura e hardware e adicionalmente, e outras linhas de produtos como comida, livros joalharia, produtos eletrônicos, artigos de papelaria, equipamento fotográfico, artigos para bebe e mercadorias para animais de estimação. “(...) reunindo uma alargada oferta de comercio de retalho na forma de uma matriz espacial verticalizada.”48 As origens dos department stores recaem no crescimento da sociedade consumidora respeitável, séria, na passagem do século XIX. À medida que a Revolução Industrial acelera a expansão da economia, a afluente classe média crescia em tamanho, saúde e riqueza. Este grupo social urbanizado, que partilha uma cultura de consumo e mudança de moda, foi o principal catalizador desta revolução retalhista. Como o aumento da prosperidade e a mobilidade social aumentam o número de pessoas com ordenado disponível, assim, o ‘window shopping’ foi transformado numa atividade de lazer e de empresários, com o uso de técnicas de marketing para influenciar gostos e preferencias da sociedade. “(...) observaríamos 47. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 99 48. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 99 Centro Comercial
86 Imagem 44 Department Store Carson Pirie Scott em Chicago, Illinois, de 1899. Edifício de Loius Sullivan. Imagem 46 Country Club Plaza, em Kansas City, Missouri, de 1922 Imagem 45 Country Club Plaza em Kansas City, Missouri, de 1922.
87 nas décadas seguintes um franco aumento do número destas tipologias comerciais. Fruto do próprio crescimento da economia de mercado e da intensificação do fenómeno do consumo, (...) não apenas de maiores dimensões, mas também de decorações mais sumptuosas e luxuosas, tal como as suas congeneres europeias.”49 As grandes lojas de retalho, hipermercados, e lojas de descontos, como são os outlet’s, são os equivalentes modernos dos históricos department stores. Aafirmaçãodomodeloisolado-OShoppingCenter As primeiras manifestações de centros de compras eram estruturas lineares, próximas do desenho de ruas tradicionais de comercio, com lojas dos dois lados da rua e acesso por carro. Alguns tinham dois andares com usos mais ligados a serviços como escritórios e bancos. A construção destes edifícios apresentava-se de forma isolada, mesmo sendo pensada para o conjunto. Os centros comerciais, mais tarde, optam por voltar as lojas para as ruas internas cobertas, que protegiam os consumidores dos efeitos climatéricos que assolavam as cidades, as tomam essas medidas e com isso aumentam as suas áreas uteis e melhoram os sistemas de segurança. “Entre as características reconhecíveis destes novos espaços, para além da sua particular configuração espacial, encontraremos por exemplo a existência de uma única gestão e proprietário, (...) esta tipologia comercial foi concebida para operar enquanto centro urbano alternativo.”50 Tendo como exemplo o Country Club Plaza de 1922, em Kansas City, “Planeado como parte de um projecto residencial suburbano de maiores dimensões, (...) assemelhando-se a sua espacialidade física a uma malha urbana composta por vários quarteirões e edifícios - onde se localizavam cerca de 200 lojas, implantadas e desenhadas de forma unificada e coerente - em cujas coberturas se reservavam áreas para estacionamento, assim, como em dois dos seus quarteirões, dedicados inteiramente apara este fim.”51 A criação destes espaços seguros e controlado, surge como opção à desorganização e aos constantes congestionamentos, causados pelo crescimento comercial perto das vias de ligação dos subúrbios aos centros urbanos, e interferem com o espaço urbano. Funcionam como centros de atração de pessoas, e, por isso, canalizam outros inúmeros investimentos imobiliários, que por sua vez constroem mais estacionamentos e ruas de acesso, retornando o espaço público envolvente de novo hostil e sem muita funcionalidade. São estruturas, os shoppings, que modificam o espaço à sua volta e as grandes estruturas precisas para viabilizar estes edifícios, transformam o ambiente em que se insere, sem muitas vezes estabele49. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 103 50. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 106 51. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 106 Centro Comercial
88 Imagem 47 Entrada principal e estacionamento do Brodway-Crenshaw Center, em Los Angeles, Califórnia, de 1947. Imagem 48 Brodway-Crenshaw Center, em Los Angeles, Califórnia, de 1947.
89 cer qualquer tipo de relação entre si. O conceito desenvolve-se, num clima de pós guerra, que influencia os modelos europeus, e, tenta reduzir o ritmo urbano e controlar uso do automóvel pelas populações. As preocupações levantadas eram as de redefinir a cidade contemporânea, através do shopping, seria uma nova cidade. Simula as atmosferas dos centros de cidades europeias, pelos seus cafés e esplanadas com inspiração base nas velhas galerias. “(...) o termo passou a assumir um significado mais especifico, (...) depois da 2ª Guerra Mundial. Ou seja, o conceito de shopping center passa a estar ligado essencialmente a uma nova prática de empreendimentos planeados - tanto ao nível espacial, como comercial -, a qual para além de prestar uma particular atenção às questões da acessibilidade viária e estacionamento, assegura que após a sua conclusão se mantem uma gestão conjunta a nível do seu funcionamento e manutenção.”52 Aampliaçãodoraiodeinfluência-ORegionalShoppingCenter O aumento do número dos centros comerciais, evolui esta tipologia, pelo que do ponto de vista da vida urbana, são considerados um prolongamento da casa, um local de eleição entre a cidade e o campo, a vida pública e privada, como se de uma cidade dentro de outra cidade se tratasse. Organizavam-se mediante uma trama ortogonal para facilitar a orientação no espaço, o aumento de lojas centrais, obrigou à utilização de mezzanines sobre o rés-do-chão, o que permitia uma visão de conjunto do espaço central, a praça transforma-se num átrio e o estacionamento, em algumas situações, é construído por pisos. São promovidos por grandes empresas imobiliárias ou da distribuição, nacionais ou em parceria com grupos internacionais. São dotados de uma complexidade do seu mix comercial que os distingue de todos os outros, pois reúne uma grande variedade de funções centrais, marca pela diferença da arquitetura, pela maior dimensão e gestão levada a cabo por empresas especializadas. A utilização e adaptação das lojas de departamentos, que ocupavam o território tradicional nas áreas centrais da cidade, agora nas zonas suburbanas influenciou o encerrar dos centros comerciais em seu redor. Em alguns casos, as lojas viriam a conceber o shopping à sua volta, outros, a loja deslocava- -se para esses centros comerciais, em que ocupava pontos estratégicos na estruturação e funcionamento desses mesmos edifícios. “(...) o shopping center regional trará à discussão o papel dos department stores que surgem agora neste modelo, integrados no todo e assumindo um outro papel que se demonstrará substancialmente importante na própria consolidação do modelo contemporâneo do centro comercial, o de “loja-âncora”. E “(...) a presença de um extenso parque de estacionamento automóvel, capaz de responder às exigências de disponibilização de espaço para as viaturas de um muito maior universo de consumidores.”53 52. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 106 53. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de DouCentro Comercial
96 Imagem 58 Átrio do Woodfield Mall, em Schaumberg, Illinois, de 1971. Imagem 59 Woodfield Mall, em Schaumberg, Illinois, de 1971.
97 em 1960, que permitiu aos investidores unir-se em REITs (Real Estate Investment Trusts) para evitar o imposto de renda das empresas. As leis ajudaram a moldar a paisagem familiar de shoppings, motéis e cadeias de fast food. “(...) assistiremos (...) a um reforço da tendência de fixação de novos centros na periferia urbana, gerando-se um novo padrão de localização que irá influir de forma decisiva no próprio desenvolvimento suburbano e suas formas urbanas futuras. (...) ao privilegiar nas suas novas localizações principalmente as zonas de expansão urbanas, o centro comercial provocará naturalmente uma transferência do grosso do comercio de retalho das zonas mais densas, e ainda relativamente perto do centro, para o subúrbio ou sprawl, acompanhando o próprio desenvolvimento das infra-estruturas de mobilidade ao longo do território.”60 Um shopping de periferia é projetado para atender a uma área de influência maior que um shopping convencional, consequentemente, é maior, com pelo menos duas lojas ancora a servir de chamativo às populações e uma vasta seleção de lojas. Dada a sua área de influência mais alargada, estes centros contem lojas mais sofisticadas que necessitam de uma área mais alargada para que os seus produtos sejam rentáveis mas também contêm lojas de departamentos e de descontos. Estes shoppings suburbanos eram, normalmente, planeados como residenciais satélites das cidades, eram a combinação de novas casas e centros comerciais para servir as populações circundantes. Como resultado da expansão residencial desenvolvida e a sair do centro da cidade, estes centros tornam- -se parte da conurbação da cidade e estabelecem-se eles próprios como centros. Aproveitam-se das logicas dos limites administrativos, que lhes permitem usufruir uma acessibilidade privilegiada junto à lógica do automóvel, como de aproveitar as grandes extensões de território livre, seja pelo processo de substituição funcional, que são mais fáceis de encontrar e que por sua vez conseguem usufruir de valores fundiários mais baixos. Normalmente este tipo de centros comerciais, formam parte de fundos de investimentos, sendo projetados dentro de complexos de serviços, escritórios e habitação que liga as várias partes envolvidas à volta de interesses comuns, que serve como alternativa ao centro consolidado e que se relacionam com outras áreas residenciais próximas, ou que pela falta delas apresenta alternativa no seu próprio empreendimento. Alguns destes shoppings são procurados como atrações turísticas em áreas de férias. “(...) estendendo as suas ofertas para além da esfera do consumo, passando a aglomerar um conjunto de outras valências - como escritórios, parques de diversões, conjuntos habitacionais, museus, hotéis ou complexos de cinemas -; alterando-se, desta forma, a própria identidade deste formato comercial, que de uma oferta inicial de lojas generalistas evoluiria, numa primeira fase, para uma oferta mais utilitária e, numa segunda fase, para uma oferta cada vez mais especializada, tematizada e lúdica.”61 60. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 121 61. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 124 Centro Comercial
ESPAÇO PUBLICO NA CIDADE CONTEMPORÂNEA 2.
100 Imagem 60 Planta de Qualificação do Solo do PDM do Porto. A vermelho estão as áreas classificadas como de Urbanização Especial e a amarelo as de Habitação de Tipo Unifamiliar.
101 2.1. Crise moderna “Um lugar com muita gente. Um espaço público, aberto e protegido. Um lugar é dizer um feito material produtor de sentido. Uma concentração de pontos de encontro. Na cidade antiga primeiro são as ruas e praças, os espaços coletivos, só depois é que vem os edifícios e as vias, espaços circulatórios.”62 O uso dos espaços públicos mais convencionais não corresponde aos modos de vida urbanos recentes bem como às práticas de sociabilidade impostas por modos de apropriação específicas, onde as relações ganham um novo valor. Na maioria das vezes de natureza privada, apresentam condições atrativas e respondem àquelas novas formas de estar em público, então torna-se necessário adaptar os espaços “tradicionais” às novas necessidades e dar-lhes vida, animação, fazendo com que os antigos espaços ofereçam atrativos e se modernizem de modo a não se tornarem despojados de vida urbana, aqui entra o movimento moderno e os espaços contemporâneos. Um projeto de estruturação urbana, tanto na sua componente física, como na fundação dos seus ideais e políticas, ao constituir-se a partir de uma ideia de cidade, funciona como guia, aponta para uma direção segundo a qual a produção da cidade deve seguir. É um modelo ou ordenamento ideal que aporta sempre uma ordem para a construção e transformação urbanas e que, finalmente, expressa um acordo consensual para a ação. Os componentes da cidade estão representados no plano e constituem classes de espaços formalmente caracterizados: a rua, a praça, o parque, os espaços privados e os espaços públicos. As tipologias ditas perfeitas são fundamentais na conformação desses componentes. Estão presentes na origem da cidade porque levam consigo uma informação cultural de como construir, como produzir o espaço habitável pelo modo como os utilizadores do espaço o vivem e de que maneira pode ser útil para a comunidade e sociedade. As tipologias convencionais foram fundamentais na divisão territorial ou no parcelamento do solo: nas antigas cidades a repartição cadastral está definitivamente ligada à tipologia dos edifícios de cada período63; as tipologias arquitetônicas idealizadas pelos arquitetos modernos levam ao anseio de uma cidade sem divisão do solo, uma cidade de super quarteirões. Podemos, assim, admitir o desaparecimento da cidade tradicional ou convencional e interrogar- -nos sobre “a natureza da urbanização e sobre a não-cidade que parece ter-se tornado o destino das sociedades ocidentais avançadas”64 “Tempo houve, e longo foi, em que a organização do nosso espaço era realizada harmoniosamente pelo homem.”65 62. BORJA, Jordi, MUXI, Zaida - El Espacio Público: Ciudad y Ciudadanía. Barcelona: Electa, 2003, pág. 13. 63. Casa gótica mercantil, casa pátio; na cidade jardim, pensada a partir dos novos conceitos de cidade surgidos no final do século XIX, o parcelamento é gerado a partir da ideia de edificação isolada no lote. 64. CHOAY, Françoise - Pour une anthropologie de l’espace. Paris: Seuil, 2006, pág. 167. 65. TÁVORA, Fernando - “Para a harmonia do nosso espaço”, in Comércio do Porto, 10 de Agosto de 1954, 8 de Março de 1955, policopiaCrise Moderna
102 Imagem 62 O estudo da relação dourada, Le Corbusier trouxe o “ Modulor“: um sistema de relações que ele descreve da seguinte forma: “O Modulor é um sistema de medição baseado no corpo humano e na matemática. A altura de um homem com o braço levantado pode ser dividida em pontos que determinam sua posição no espaço em partes: os seus pés, o umbigo, a cabeça, os dedos. Estes três intervalos de fornecer uma gama de seção áurea “. O princípio da razão de ouro é usado aqui para desenhar. Dois conjuntos de medições da figura humana um (série azul) é baseado na altura de um homem de pé com o braço levantado : 2,26 metros. O outro (série vermelha) é baseado na altura deste homem é medida do seu pé até a sua cabeça: 1,83 metros. Imagem 61 A definição de rua que se aguentou até aos dias de hoje é “uma estrada que é usualmente limitada por pavimentos, estreita ou larga como quer que se apresente”. Levantadas a partir dela estão as paredes das casas, que, vistas contra o céu apresentam uma silhueta grotescas irregular de frontões, sótãos e chaminés de zinco. Na parte inferior deste cénico caminho de ferro assenta-se a rua, mergulhada no eterno crepúsculo. O céu é uma esperança remota, muito acima desta. A rua não é mais que uma trincheira, um precipício profundo, uma passagem estreita.
103 A visão modernista marca uma transformação na praticabilidade artística, quanto arquitetónica, atividades comerciais e produções agrícolas e industriais e que deixou fora das atividades e concepções humanas o domínio do religioso. Surge como uma forma de controlo e organização do espaço através dos seus economistas políticos, do mercantilismo e do liberalismo. Assim a produção de espaço é organizada por fatores económicos e políticos, que não conseguindo dissociar a produção de espaço público com as relações sociais, procura-se uma sociedade melhor na regulação e ordenação do espaço e do tempo como garantia individual de liberdade pessoal e bem estar social. Um dos marcos do modernismo é a expansão do comércio e do investimento exterior, havendo uma transformação dos espaços existentes nos territórios. As idealizações e percepções do território enquanto elemento físico altera-se devido às viagens de avião, fotografia, novas tecnologias e feiras internacionais que celebram a globalização. Existe, assim, uma ilusão presente no mundo globalizado onde vigoram as mercadorias e as competições entre Estados, neste processo, existe uma conquista do espaço e um crescimento do capitalismo enquanto projeto. O Movimento Moderno na arquitetura e no urbanismo (no início do século XX) retratou uma redefinição de espaço público. Segundo vários de seus representantes todo o solo existente dentro dos perímetros urbanos deveria ser de propriedade pública, sendo pertencentes à esfera privada apenas frações destes terrenos correspondentes às residências particulares. A capital do Brasil, Brasília, foi uma das poucas cidades que adotou este modelo muito pouco definido. O paradigma moderno impôs muita reflexão e andou sempre muito em volta da circulação viária ao nível do solo. Note-se a perversão do corte proposto por Le Corbusier, no qual é claro a separação da circulação dos edifícios, elevada, permitindo a libertação total do solo. O construído será o oposto desta libertação, perdem-se referencias, fluidez espacial necessária para a vivencia e deambulação dos indivíduos, flâneur66. O zoaning, a especialização dos espaços destrói a convivência, a convergência humana e urbana das cidades, tornam-nas desligadas de fator humano e faz aumentar a necessidade de deslocações exaustivas e também recorrem as tecnologias modo a ultrapassar esta inatividade imposta. “O urbanismo contemporâneo, (...) Focalizou-se num funcionalismo eficientista, dotado instrumentos mais separadores do que integradores, (a zonificação, os modelos), justificado por urgências sociais, Vivenda, equipamentos básicos) e acentuado pela compartimentação das administrações públicas e dos corpos profissionais (por exemplo transportes / engenheiros sem outras visões de desenvolvimento e funcionamento urbanos). O resultado foi quase sempre a aplicação de políticas setoriais em vez de realizar atuações que articulem a diversidade e a complexidade e as demandas urbanas.”67 do em edições dos Discursos de Arquitectura, ciclo de conferências organizado pela FAUP, em 1990. 66. O termo flâneur vem do francês e tem o significado de “vagabundo”, “vadio”, “ preguiçoso”, que por sua vez vem do verbo francês flâner, que significa “para passear”. Charles Baudelaire desenvolveu um significado para flâneur de “uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la”. Devido à duração da utilização e teorização por Baudelaire e inúmeros pensadores em termos econômicos, culturais, literários e históricos, a ideia do flâneur tem acumulado importante significado como uma referência para compreender fenômenos urbanos e a modernidade. Walter Benjamin descreve o flâneur como um produto da vida moderna e da Revolução Industrial, sem precedentes, um paralelo com o advento do turismo. Benjamin se tornou o seu próprio exemplo, observou o social e estético durante longas caminhadas por Paris. 67. BORJA, Jordi, MUXI, Zaida - El Espacio Público: Ciudad y Ciudadanía. Barcelona: Electa, 2003, pág. 28-29 Crise Moderna
104 Imagem 64 Imagem 63 Há 100 anos, Henry Ford e seu time na fábrica de Highland Park lançaram a maior contribuição do mundo para o avanço da manufatura – a primeira linha de montagem móvel. Ela simplificou a montagem dos 3.000 componentes do Ford Modelo T, distribuindo-a em 84 etapas executadas por grupos de trabalhadores, enquanto uma correia puxava o chassi dos veículos ao longo da linha. O novo processo revolucionou a produção e diminuiu o tempo de montagem de cada veículo de 12 horas para cerca de 90 minutos. Reduzindo o custo, o tempo e a mão de obra necessários para construir os carros, com o aprimoramento da linha de montagem através dos anos, Ford conseguiu baixar o preço do Modelo T de 850 dólares para menos de 300 dólares. Pela primeira vez na história, veículos de qualidade eram acessíveis para as massas. Em 1927, Ford produzia um Modelo T a cada 24 segundos e vendeu mais de 15 milhões em todo o mundo
105 O espaço faz tremer a própria noção euclidiana68 de espaço, passa a não ser ponto de referência, assim como definição de cidade, a história, paternidade, moralidade e também elementos musicais que interferem com o espaço, como a tonalidade dos sons e acústica. Quando instaurada a linha de montagem por Ford em 1913, fragmenta as tarefas atribuídas e impõe uma nova distribuição de espaço para aumentar exclusivamente a produção, uma aceleração em relação ao capital de produção por parte de uma nova organização espacial da rede produtiva o que provoca a aceleração do tempo. Ao mesmo tempo iniciam-se as transmissões de rádio, o que faz com que a percepção do espaço-tempo seja alterada, faz o “espaço decair, na simultaneidade de um instante, no tempo público universal”69 atingimos assim, a globalidade e homogeneidade do tempo público no espaço público. “O que havia de especial em Ford (...) era a sua visão, seu reconhecimento explícito de que produção de massa significava consumo de massa, um novo sistema de reprodução da força de trabalho, uma nova política de controlo e gerencia do trabalho, uma nova estética e uma nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista.”70 O espaço no modernismo era visto e construído para a vida humana, controlado racionalmente, insere-se na cultura moderna, que tinha por objetivo a racionalidade, a técnica, a anulação da diferença e dos limites espaciais agarrados à historicidade de cada local. O modernismo como movimento cultural procurava o sentido do tempo e focava-se no espaço, pelo que criava tensão entre os dois. As práticas culturais aconteciam pelo desempenho do lucro, da acumulação de dinheiro e pretensões do Estado. Assim o modernismo é a causa da mudança perspética da experiência no espaço e no tempo. Diversos teóricos, como a Canadense Jane Jacobs, criticaram as propostas modernas e a sua aplicação prática nas cidades reais. Assim, pela tentativa de reabilitação, a rua, no seu sentido geral de espaço público, obteve nas últimas décadas, uma grande valorização em termos de espaço público no sentido essencial do funcionamento das cidades. Recentemente, o espaço público ganha um novo significado, político, ideológico, social e estrutural, e é entendido no seu sentido mais lato enquanto espaço de visibilidade pública. Para isso têm contribuído o avanço tecnológico, em especial dos meios de comunicação e informação. Um dos principais atributos desta realidade contemporânea onde nos inserimos está concretamente nas inovações e novas formas de ocupação do território disponível, por um somar de artefatos urbanos, que se fundamentam principalmente por questões económicas, justificadas e também pela busca de resolução, urgente, e permanente de habitação. Depara-se, assim, com uma cidade que se desenvolve alheia às diferentes especificidades geo68. Espaço euclidiano é como um conjunto de pontos que satisfazem determinadas relações, expressáveis em termos de distância e de ângulo. 69. HARVEY, David. - A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural, Edições Loyola, São Paulo 1993, pág. 263 70. HARVEY, David. - A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural, Edições Loyola, São Paulo 1993, pág. 121 Crise Moderna
112 Imagem 66 Armazém de acumulação de mercadorias. Imagem 67 Porto de Leixões. Imagem 68 Porto de Leixões.
113 A transição do fordismo para uma vertente de acumulação flexível de mercadorias de produção industrial bastante flexível, dá-se através de implementação de novas regras, formas de organização e novas tecnologias de produção. A integração vertical79 sai do processo de produção fordista, pelas contratações de outras empresas subcontratadas e às vezes transferências de sedes; instalam-se novos sistemas tecnológicos de controlo de estoques, para produzir pequenos lotes de produtos armazenados; os trabalhadores tiveram que intensificar os seus processos de trabalho de modo a requalificarem-se ou desqualificarem-se para se adaptarem às novas exigências dos mercados, estas novas mudanças em sistemas de produção gera, assim, um novo rumo de produção. Deste modo as produções aceleram e, consequentemente, acelera a troca e consumo das mercadorias produzidas, o que resulta numa alteração da concepção de espaço tempo. “A acumulação flexível (...) é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apoia na flexibilidade do processo de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial tecnológica e organizacional.”80 Deste modo, a moda surge como algo volátil e efémero, que caracteriza os produtos, as técnicas de produção, processos de trabalho e valores e práticas impostas, em que tudo é feito mecanicamente, rápido e sem durabilidade, para fácil escoo de matérias. Assim as mercadorias incorporam um valor de momento instantâneo, pois quanto menos utilizações tiver e mais rápido desgaste tenha melhor para o sistema de produção, o que também influência a própria sociedade, de fuga rápida, evasiva, onde nada é permanente. O movimento pós moderno, por estas alterações da urbe, prevalece como a principal influência para os profissionais que pensam e fazem cidade, mesmo assim o movimento moderno continua, em grande parte devido à opinião pública, na base de formação urbanística. O pós moderno defende a predominância do objeto singular, a sua independência funcional, estética e conceito em detrimento da malha regular, convencional, enquanto regra de edificação. Esta luta pela exceção, pela ausência de norma ou criação de norma de objetos singulares. Este conceito renega a cidade, pois não é uma ideia unitária de conjunto, é pensado a parte da malha, é uma cidade genérica. “A Cidade Genérica é sociologia, eventos. Cada cidade genérica é como um laboratório hermético para cultivos e experiências biológicas, ou um quadro infinitamente paciente em que praticamente qualquer hipótese pode ser “demonstrada” e em seguida apagada, de forma a não ressoar nunca na mente dos seus autores ou do público”81 79. A integração vertical é o combinar de vários processos de produção, distribuição, vendas ou outros processos tecnologicamente distintos dentro de uma mesma empresa, efetuados por diversas pessoas em trabalhos ou funções diferentes. 80. HARVEY, David. - A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural, Edições Loyola, São Paulo 1993, pág. 140. 81. KOOLHAAS, Rem - La Ciudad Genérica, Gustavo Gili Editora, 2006, pag. 9 Crise Moderna
114 Imagem 69 Ilustração de cidade, sociedade e cultura pós modernista. Imagem 70 Aeroporto Sá Carneiro, Porto. Imagem 71 Ícone, modelo pós moderno.
115 É uma cidade em constante crescimento e sempre a acontecer, é reproduzível em todos os lugares da terra e recria uma realidade como que descartável ou uma ideia a ser atingida, uma espécie de revolução urbana, conceito visto por um arquiteto global, não circunscrito a uma cultura e a uma só cidade. Torna-se num lugar sem história, lugar onde o espaço ultrapassa o tempo, o que rompe com a percepção da própria cidade como a concepção de arquitetura. A cidade genérica é um conceito produzido pelo arquiteto que a fabrica, a ausência de tempo na sua análise reflete a vivencia que teve em várias cidades o que reduz a sua experiência a hotéis e aeroportos. “(...) é a cidade liberta da catividade do centro, da prisão da identidade. A Cidade Genérica rompe com esse ciclo destrutivo da dependência: não é mais do que um reflexo da necessidade atual e da capacidade atual. É a cidade sem história. É suficientemente grande para todo o mundo. É fácil. Não necessita de manutenção. Se for demasiado pequena, simplesmente expande-se. Se for velha, simplesmente autodestrói-se e regenera-se. É igualmente emocionante - ou pouco emocionante - em todas as partes. É “superficial”: como um estúdio de Hollywood, pode produzir uma nova identidade a cada 2f de manhã.”82 Esta visão particular é como uma extensão da norma do movimento moderno que propõe uma globalização de regras urbanísticas, onde se destaca o sentido de independência volumétrica funcional. Na sua origem, o pós modernismo, é uma crítica ao movimento moderno, nega a sua própria concepção de espaço público, da sua linguagem formal e utiliza a cidade tradicional como modelo de crítica em conjunto com a linguagem estética e noção de conforto. Este movimento deixa-se levar pela superficialidade e não se contém nos aspetos estruturais o que dá a oportunidade a vários movimentos na expetativa de conseguir acabar com a produção de arte só para a alta cultura ao fazer produtos destinados as massas e só depois produzidos pelas massas. “Sem dúvida, a deformação do urbanismo funcionalista combinado com a zonificação e privatização é a caricatura perversa do movimento moderno, cria uma imagem da “cidade emergente” em que as praças, os “produtos”, a arquitetura dos objetos - mercadoria, substituem a cidade do intercambio e da diversidade. A cidade fragmentada tem a tendência em ser uma cidade fisicamente desperdiçada, socialmente segregada, economicamente pouco produtiva, culturalmente miserável e politicamente ingovernável. É a negação da cidade, em que na prática nega o potencial das liberdades urbanas, a promessa de justiça e os valores democráticos.”83 Os pós modernistas rejeitam a repetição; abrangidos por uma busca incessante de individualidade nas suas obras ou manifestações; recusam a influncia da autoridade e do tempo no que fazem, objetam-se contra toda e qualquer essencialidade, leis, tomando estas caraterísticas como critério de 82. KOOLHAAS, Rem - La Ciudad Genérica, Gustavo Gili Editora, 2006, pag. 12 83. BORJA, Jordi, MUXI, Zaida - El Espacio Público: Ciudad y Ciudadanía. Barcelona: Electa, 2003, pág. 15 Crise Moderna
117 valor para as existências tanto individuais como coletivas, para cada projeto pensado e produzido, para uma simples imagem. As produções e reproduções da cidade genérica regem-se com estas condições Assim a harmonia das construções, a leitura de espaço público é quase sempre inatingível. Aqui a própria concepção de espaço puúblico é apenas um território vago, terra de ninguém, um mero contentor, deixa de ser só um espaço de relação mas também de violência contra a cidade. “Essa é a cidade dispersa e informacional, mais regional que metropolitana, em tensão entre a desestruturação e a policentralidade que hoje faz sobre as ruinas da cidade moderna e nas periferias.”84 Da cidade dita tradicional obtêm um modelo compacto e uma forte concepção de espaço público, ideais conservadores. Desta cidade torna-se imperativo a presença de funcionalidade e sanitariedade, seguindo a prática revolucionária em constante atualização. Na cidade pós moderna, genérica, impõe-se a preocupação com a exceção e a condição de questionar tudo, desprovida de ideologia. “Comunidades em vias de desaparecimento [...] a arquitetura preste a transformar-se numa tecnologia tão ultrapassada quanto a da agricultura extensiva [...] a desertificação da dimensão física perante um momento de inércia do meio [...] a erosão da presença física e de noções de perto e longe.”85 A norma é não existir regra. Pelo que “La Ciudad Genérica representa la muerte definitiva del planeamento.”86 A negação das formas tradicionais do espaço público urbano tradicional, surge com a concepção urbana que o caos metropolitano, em que a cidade contemporânea está mergulhada, é atribuída pela “evacuação da esfera pública” onde as vivencias urbanas são trocadas por experiências controladas e simuladas de cidade. Numa época de novo crescimento metropolitano, por uma cidade em rede multipolar e policêntrica, inscrita em sistemas macro regionais, eixos continentais e fluxos provenientes da globalização, pelo que se torna difícil a compreensão da própria cidade contemporânea e as suas sociedades por causa das particularidades, complexidade e escala que atinge e já ultrapassa a percepção humana. Estes preceitos encontram-se instalados e firmemente ancorados nos limites e periferias das cidades contemporâneas. O caos em que se encontram as cidades e as suas definições são a progressão de uma cidade em constante desurbanização. Mesmo assim a cidade parece prevalecer, mesmo com as dinâmicas desestruturadas, dos usos capitalistas, lógicas de mobilidade, novas tecnologias de telecomunicação e informação que aumentam a dispersão social e fragmentação urbanística, assistimos assim ao enfraquecimento da esfera pública na vida quotidiana e dos próprios espaços urbanos. Assim, os espaços comerciais “lúdicos” vão substituindo a rede de espaços públicos urbanos, que são criados e organizados 84. BORJA, Jordi e MUXI, Zaida - El espacio público, ciudad y ciudadanía, Electa, Barcelona, 2003, pág. 8-9. 85. VIRILIO. O espaço crítico, 1999, pág. 14-18 86. KOOLHAAS, Rem - La Ciudad Genérica, Gustavo Gili Editora, 2006, pág. 8. Crise Moderna
119 por entidades e mecanismos privados em territórios privados, denotando a quase inexistente fronteira entre o público e o privado das cidades contemporâneas. Cada vez mais cresce a intensificação de uso e importância de equipamentos e estruturas privadas. Assim, o planeamento deixa de funcionar a longo prazo, pela condição do mercado incerto e inconstante, em que o trabalho adquire essas mesmas condições e a rapidez do tempo para se realizar, pelo que crescem os planos a curto prazo e os ganhos imediatos, onde imperam os gostos e a opinião. As imagens vendem produtos e transformam-se elas próprias em mercadorias, pois o sistema vigente da produção capitalista seja o consumo, a produção de imagens e símbolos. A imagem construída é, então, um produto constante na interação das empresas com a sociedade, onde também são utilizadas e criadas pela política. Assistimos a uma crise de representação simbólica na contemporaneidade, onde o simulacro, a cópia e a réplica têm valor, sem atingir suporte de valor, e onde os símbolos da sociedade como a riqueza, poder e fama são supervalorizados hoje em dia. O dinheiro e o poder do consumo transformam as preocupações das sociedades contemporâneas, no sentido em o significante é valorizado em relação ao seu significado, o poder do dinheiro em detrimento do trabalho social e os símbolos mas valorizados do que aquilo que representam, sendo secundário aquilo que são símbolos de. “A associação filosófica do antigo ecletismo evocou significados subtis e complexos para serem saboreados nos espaços dóceis da paisagem tradicional. A persuasão comercial do ecletismo da rua provoca um grande impacto na vasta e complexa configuração de um novo cenário de grandes espaços, vias de grande velocidade e programas complexos. Estilos e sinais fazem conexões entre vários elementos, distantes e vistos rápidos. A mensagem é sobretudo comercial; o seu contexto é basicamente novo.”87 O espaço modernista era intrínseco às funções sociais da cidade e agia à volta dessas preocupações, agora torna-se autónomo. Instala-se a fragmentação e brevidade da política e o seu campo de ação, da vida individual na sociedade e estas transformações levam a mudanças de concepção do tempo e do espaço na contemporaneidade e a sua ruptura com a Modernidade. Estes processos de ruptura em direção à contemporaneidade como a substituição do modelo fordista de linha de montagem pela acumulação de mercadorias, o termino de processos a longo prazo, o maximizar da sensibilidade e do desejo, em relação à existência real, causada pelas imagens e símbolos, que leva à efemeridade, à produção acidental e inconstante. Assiste-se à aceleração do tempo e à fragmentação do espaço que levam à substituição de modelos e à efemeridade. O saber é traduzido em quantidade em vez de qualidade, deixa de ser um fim, enquanto concepção e transforma-se numa mercadoria de troca e adquire a forma de valor enquanto mercadoria. Existem utilizadores e produtores de conhecimento, pelo que é, hoje em dia, apenas uma mercadoria, um produto e é feito para ser vendido. Os poderes, ou entidade que controlam o planeamento, alteram o seu papel mediante, a abertura do mercado mundial, pela globalização, por uma competição económica ativa, pela 87. VENTURI, Robert - Learning from Las Vegas: The forgotten symbolism of architectural forum, MIT Press, Massachusetts, 1977, pág. 8-9 Crise Moderna
121 falta de supremacia de uns países com os outros em relação ao poder capital, o decréscimo do socialismo, a mundialização do mercado chinês, em relação direta do saber com as posições políticas públicas que afetam a sociedade civil. A modernidade é um capitalismo manipulatório e de crise do capital, onde é o capital financeiro e os seus interesses que “governam”. É a modernidade do trabalho precário e da violência social. A luta de classes é notoriamente desfavorecida pela falta de condições salariais. Assim, a globalização do capital e a acumulação de bens pelo poder financeiro, as políticas neoliberais, a implementação de uma sociedade em rede devido à globalização e às novas tecnologias na capacidade do capitalismo que manipula as massas, provocam novas decisões no processo de formação das classes sociais. “É uma nova era de uma sociedade económica, “Chamo-a de informacional, global e em rede (...). É informacional porque a produtividade e a competitividade de unidades ou agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos. É global porque as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informação, tecnologia e mercados) estão organizados em escala global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre agentes económicos. É rede porque, nas novas condições históricas, a produtividade é gerada, e a concorrência é feita em uma rede global de interação entre nações empresariais.”88 Instala-se, deste modo, uma crise de cultura contemporânea, pela perda de padrões morais e categorias políticas usuais, assinalando a ruptura com a tradição, assim, a sociedade descarta a cultura para assumir uma posição de acumulação de riquezas, é uma transformação da cultura para uso próprio para obtenção de estatuto social. Esta cultura econômica é um processo de obter educação desprovida de sentido, superior e arrogante, caracterizada pela constante fuga da realidade, revelando o individualismo presente na sociedade contemporânea. A sociedade contemporânea multiplica as necessidades artificiais, em constante crescimento, em que o indivíduo quase não consegue acompanhar, sendo mais do que o que se consegue satisfazer. Os indivíduos sofrem com a falta de mercadorias que em outras alturas nunca sofreriam e agora não passam sem elas, elementos dados como garantidos, como um simples café, o jornal, o telemóvel, etc., pois ao vê-las como necessárias, tornam-se importantes. Esforçam-se assim os possíveis para se satisfazer todos os desejos e necessidades dos indivíduos, ganhar dinheiro é o que permite acabar com as necessidades e quanto mais se tem mais se quer, descobrindo-se mais necessidades e tornam-se no objetivo de vida. 88. CASTTELLS, Manuel - A sociedade em rede, Paz e Terra, São Paulo, 1999, pág. 156. Crise Moderna
129 pensados como grandes espaços coletivos, dedicados ao consumo e produção excessiva de capital imobiliário. São caracterizadores de urbanidades dispersas dos centros mas que evocam novas centralidades, urbanidade dentro de portas, criando novas experiências, enriquecendo o espaço da cidade substituindo e muitas vezes vitalizando o espaço tradicional urbano e social das cidades. No peso da globalização e desta urbanidade moderna contemporânea são os espaços privados coletivos que impulsionam a produção e conduzem as práticas de consumo, que ditam as regras para a sociedade contemporânea dominada pelo capital, pela disposição em camadas e a desertificação das cidades, levam ao empobrecimento da vida urbana e uma crise nas suas estruturas. Dispõem elementos artificialmente de acordo com as “leis” do capital e pelos desejos da sociedade. Nestes elementos os indivíduos não têm o poder de fazer atividades que sempre foram praticadas na experiência da cidade como o livre arbítrio, os atos ilícitos ou a capacidade ou falta dela de indecisão. Estes espaços coletivos fomentam a diversidade de funções distintas no espaço privado e a capacidade de socialização dos espaços controlados e seletivos, que sendo fechados ou não, apresentam a privatização da esfera pública97. Pelo que “(...) assistimos, (...) a uma mutação das lógicas de uso tradicionais dos próprios espaços. Ou seja, que já não usamos o espaço público e o espaço privado da mesma forma.”98 Estas representações da cidade, simulações, disturbam o equilíbrio instável entre propriedades, ao construir uma cidade privada dentro da cidade pública, pela implantação de espaços artificiais de práticas sociais, espaços fora de contexto como praças de alimentação de centros comerciais. Assim, assiste-se a queda da vida privada em substituição para uma cultura de consumo, de segurança e interioridade. “É dizer que o problema é que a liberdade nos há-de dar o espaço público e hoje há o medo do espaço público. Não é um espaço protetor nem protegido. Em alguns casos não foi projetado para dar segurança mas sim para cumprir com certas funções como circular ou estacionar, ou é simplesmente um espaço residual entre edifícios ou vias. Em outros casos está ocupado pelas supostas “classes perigosas” da sociedade: imigrantes, pobres ou marginalizados.”99 As novas tecnologias de informação e comunicação também incorporam simulações da vida pública social, pela experiência de um novo tipo de mobilidade, sem ser preciso a presença ou deslocamento físico para a pôr em prática, obrigatoriamente presente para distinções e modos de interação entre público e privado. Esta intensa proliferação dos sistemas tecnológicos de comunicação e informação pessoal e interpessoal, desconectam o sentido de presença física para o contato mas continua-se sempre dependente de deslocações individuais que estão dependentes de serviços urbanos diferentes o que 97. A esfera pública corresponde a um domínio político que é função da dependência recíproca entre a personificação física e representacional do coletivo; um domínio democrático onde os indivíduos se assumem como cidadãos e participam da vida política. O conceito de esfera pública origina-se na cidade-estado grega, a esfera coletiva da polis dos cidadãos livres – koiné –, contraposta a esfera do oikos, particular de cada indivíduo – idia. 98. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 324-325 99. BORJA, Jordi, MUXI, Zaida - El Espacio Público: Ciudad y Ciudadanía. Barcelona: Electa, 2003, pág. 23 Público e privado
131 provoca alterações entre a fronteira do público com o privado e que vão definindo a cidade e a sua vida urbana. Há uma substituição da individualidade e da comunidade pelos processos interligados das organizações empresariais, pelo que enfraquece a esfera pública, com as regras éticas e processos de funcionamento, influenciam as atividades urbanas coletivas contemporâneas, que desenham conceitos de cidades “ageográficas”100 de pedaços urbanos separados, sendo uma cidade disposta em camadas sobrepostas de mecanismos, atividades e funções, com partes completamente desconexas, com espaços públicos virtuais. Na cidade contemporânea assiste-se a uma constante presença de prospecção e especulação imobiliária o que origina a exclusão e segregação social, torna pobre o ambiente urbano e desrespeitam os espaços públicos tradicionais, em que espaços artificiais, cheios de simulacros, ampliados de estratégias de organização espacial por meios de realidades virtuais, encobrimento do poder, que origina um deslumbre de uma paisagem urbana genuína, controlada, segura e sociável e, portanto, capaz de satisfazer os desejos sociais individuais da sociedade contemporânea. Estes preceitos fazem com que a cidade contemporânea perca a sua identidade e o seu significado, despejada do seu entendimento enquanto objeto público, pela segregação social. Na paisagem urbana, assim, crescem sítios com essas caraterísticas, em que os espaços urbanos da cidade são definidos por lógicas de consumo de bens e serviços e da privatização dos espaços públicos. Na cidade de grandes empreendimentos edificados dedicados ao consumo, de políticas especulativas do mercado imobiliário e de intervenções urbanas privadas em proveito dessa especulação, surgem os não-lugares em contextos urbanos. A percepção do espaço urbano e a sua presença no próprio com relação à identidade histórica, conseguimos o conceito de lugar; o não-lugar surge pela alienação dos indivíduos temporalmente, em espaços provisórios e de ajuntamentos anónimos, lugares sem identidade, à espera de clientes e não cidadãos. O lugar é algo histórico, que cria identidade e relações relativamente à experiência e memória humana, pelo que o não-lugar, sendo projetados para a circulação ou transporte rápido, não é um lugar onde se estabelecem relações, onde tudo é momentâneo e fugaz, sem identidade. É possível contudo a existência de não-lugares em lugares, sendo estes identitários, relacionais e simbólicos, que reduz a sua capacidade de relações simbólicas entre as pessoas, retirando-as do contexto de lugar. A ocorrência de debate público não se pode manifestar em não-lugares, pela pena de alteração ou perda da esfera pública. A distinção entre estes dois conceitos, determina a diluição da fronteira do público e do privado e a percepção de que o espaço público é, nas cidades contemporâneas, sobretudo um espaço de consumo. Os não lugares correspondem assim a zonas de circulação (autoestradas, vias aéreas, etc.); de consumo (grandes superfícies comerciais, hotéis, etc.); de comunicação (telefones, fax, televisão), são “(...) espaços onde coexistimos ou coabitamos sem vivermos juntos, onde o estatuto de consumidor ou 100. Pseudo espaços públicos, caracterizados que são pela dissolução das relações estáveis com a geografia física e cultural própria do lugar, bem como por níveis crescentes de manipulação e vigilância sobre a cidadania (com uma proliferação de novos modos de segregação por meio de métodos tanto tecnológicos quanto físicos). [Sorkin, M., 2001]. Público e privado
133 de passageiro solitário passa por uma relação contratual com a sociedade. Estes não-lugares empíricos (e as atitudes de espirito, as relações com o mundo que suscitam) são características do estado de sobremodernidade definido por oposição à modernidade”101 O lugar depreende, enquanto espaço existencial, novas realidades da percepção do espaço: os espaços midiáticos, que advêm da proliferação da informação e relação com a materialidade e imaterialidade do espaço físico; os não-lugares, onde se impõe a contradição de permanência com transitório e o espaço virtual ou ciberespaço com as relações interculturais no espaço público tradicional. “O espaço do ‘não-lugar’ não cria nem identidade singular, nem relação, mas solidão e semelhança. (…) os lugares antropológicos criam social orgânico, os não-lugares criam contratualidade solitária. (…) O ‘não-lugar’ é o inverso da utopia: ele existe de facto mas não alberga nenhum tipo de sociedade orgânica.”102 Não existe espaço sem a interação humana e da sociedade, pelo que só com o processo de ocupação dos indivíduos é que se determina um espaço organizado e social. A arquitetura das cidades contemporâneas torna em padrão comum a forma vazia, devido à perda de identidade do lugar pela alienação do contato humano, que é consequência da deslocação do significado do espaço, de perda de poder simbólico de pertença da sociedade. Na ambiência dos espaços públicos urbanos das cidades contemporâneas, existem várias realidades a conviveram lado a lado, quer por produtos e mercadorias das mais distintas produções e proveniências e percorridos por pessoas de diferentes raças, modos e maneiras de sociabilidade. A sua composição por diferentes partes, necessária ao funcionamento do espaço público urbano, é abafada por conjuntos justapostos da própria existência, tanto humana, como da sociedade, como do próprio espaço físico, resulta numa amalgama de formas urbanas e que só é praticável numa sociedade em que a produção e as comunicações são de massas para as massas. A urbanização extensiva, também provocada pelo consumo e motivos de deslocação tanto de trabalho como de informação, dá origem a uma cultura de massas que se apropria da cultura popular, muitas vezes apreendida de maneira errada, produzem espaços que negam a cidade e onde a cultura é transferida para outros domínios. A diferença entre público e privado, surge nas cidades capitalistas no século XIX, pela instituição do conceito de propriedade privada e a pela transformação dos direitos coletivos, ou seja, um espaço que seja propicio a inclusão, de livre acesso e simbólico não pode ser vivido individualmente pelo que todo o espaço público é espaço coletivo. O espaço privado é quase sempre suportado por atividades individuais, apropriado individualmente e sujeito à exclusão. “A contradição entre o privado e o público, típica dos estágios iniciais da era moderna, foi um fenómeno 101. AUGÉ, Marc - Por uma antropologia dos mundos contemporaneos, Aubier, Paris, 1994, pág 157 102. AUGÉ, Marc - Não-lugares. Introdução a uma antropologia da sobremodernidade, 90ª Graus Editora, Lisboa, 2005, pág. 80, 93-94 Público e privado
135 temporário que trouxe a complexa extinção da própria diferença entre as esferas privada e pública, a submersão de ambas na esfera social. (...) a esfera pública porque se tronou função da esfera privada, e a esfera privada porque se tornou a única preocupação comum que sobreviveu.”103 “(...) a dissolução, do papel e posição dos usos públicos e privados citadinos, manifesta-se, essencialmente, na produção de uma urbanização difusa e não relacional, geralmente desarticulada da escala da cidade. Numa época em que as cidades europeias ganham uma escala regional, veremos aliás como muitas das actuais estratégias de urbanização em maior parte dos casos, novos tecidos urbanos desligados entre si ou enfraquecidos nas suas ligações. (...) encontramos uma fragmentação originada pela utilização continuada dos pressupostos herdados do urbanismo funcionalista, reflectidos numa prática urbanística resultante da combinação de uma lógica da iniciativa privada com uma logica sectorial das administrações públicas e locais.”104 Na cidade contemporânea estas definições já não correspondem à realidade devido às exigências de uma sociedade contemporânea cada vez mais plural, pelo que dá aso a surgirem os espaços públicos de segurança, controlo e consumo. Este despertar para espaços com estas caraterísticas deve-se à concepção bastante reduzida da ideia de espaço e público na procura constante de implementar unidade, desejo de ideias estáveis quanto à concepção e utilização de espaço, tempo e de conceitos como público e privado. “(...) hoje há o medo do espaço público. Não é um espaço protetor nem protegido. Em alguns casos não foi projetado para dar segurança mas sim para cumprir com certas funções como circular ou estacionar, ou é simplesmente um espaço residual entre edifícios ou vias. Em outros casos está ocupado pelas supostas “classes perigosas” da sociedade: imigrantes, pobres ou marginalizados.105” O espaço enquanto coletivo não é meramente uma associação de significados de valor e formas de uso atribuídas pela sociedade, combinam uma multiplicidade de funções e de elementos que vão caracterizando a diluição da fronteira entre público e privado. Assim, a apropriação privada do espaço público, produz espaços controlados, onde a aparência de segurança se confunde com a realidade, estes espaços, como centros comerciais, abrigam as pessoas e desencadeiam a queda do espaço público enquanto espaço de aglomerações humanas e atrações, que favorece o não contato entre os indivíduos e que dá origem a segregações étnicas e ou sexuais. “(...) a privatização dos processos e dos solos urbanos, inverte as lógicas de diversidade e sua mistura funcional e social, levando a estratégias de compartimentação em zonas habitacionais monosociais e 103. ARENDT, Hanna - A condição humana, Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2008, pág. 79 104. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 326 105. BORJA, Jordi, MUXI, Zaida - El Espacio Público: Ciudad y Ciudadanía. Barcelona: Electa, 2003, pág. 23 Público e privado
137 áreas exclusivamente dedicadas ao sector terciário, substituindo a rede de espaços públicos tradicionais da cidade por uma rede de equipamentos lúdico-comerciais.”106 A vida pública floresce em espaços públicos privados, pela sempre importante questão da segurança dos espaços controlados em relação à insegurança dos espaços públicos, uma “agorafobia urbana”, conceito apresentado por Jordi Borja, que significa medo pelo espaço público urbano. “(...) agorafobia urbana é uma doença produzida pela degradação ou desaparecimento dos espaços público integradores e protetores abertos para todos, (...). Nesta nova cidade as infraestruturas de comunicação não criam centralidades nem lugares fortes, segmentam ou fraturam o território e atomizam as relações sociais.”107 Nas cidades contemporâneas pós-industriais compartimentadas, num zonamento funcional, divididas em termos sociais, pelos ideais do movimento moderno, o automóvel e a fuga para estes locais controlados privados tentam dominar esta “agorafobia urbana”, acessíveis apenas para alguns pois mesmo representando espaços públicos têm direito à admissão, ou seja, não estão abertos para todos, pelo que gera insegurança, desigualdade no espaço público, pois é este onde se manifestam o descontentamento e revolta da sociedade e onde se apreciam os problemas sociais, económicos e políticos. “Sem dúvida, a deformação do urbanismo funcionalista combinando zonificação e privatização é a caricatura perversa do movimento moderno, cria uma nova imagem da “cidade emergente” em que as peças, os “produtos”, a arquitetura dos objetos - mercadoria, substituem a cidade da troca e da diversidade. A cidade fragmentada tem a tendência a ser fisicamente desperdiçada, socialmente segregada, economicamente pouco produtiva, culturalmente miserável e politicamente ingovernável. É a negação da cidade, que na pratica nega o potencial das liberdades urbanas, a promessa de justiça e dos valores democráticos.”108 Os ambientes, tanto privados como públicos, devem potenciar a procura e escolha e serem abrangentes, no sentido de não segregarem as populações. Assim, através de parcerias público-privadas podem-se redefinir os serviços públicos pela construção em terrenos privados e estes espaços não serem inteiramente explorados para único benefício privado. Os shoppings são, assim, um produto dessas parcerias, que contêm um poder de regeneração da vida pública e impulsionador de novas dinâmicas nas áreas onde se insere. “É um factor sintomático que se considere ao espaço público não somente como um indicador de qualidade urbana mas também como um instrumento privilegiado da política urbanística para fazer cidade sobre a cidade e para qualificar as periferias, para manter e renovar os antigos centros e produzir novas centralidades, para suturar os tecidos urbanos e para dar um valor de cidadania às infraestruturas.”109 106. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 326 107. BORJA, Jordi, MUXI, Zaida - El Espacio Público: Ciudad y Ciudadanía. Barcelona: Electa, 2003, pág. 25 108. BORJA, Jordi, MUXI, Zaida - El Espacio Público: Ciudad y Ciudadanía. Barcelona: Electa, 2003, pág.15 109. BORJA, Jordi, MUXI, Zaida - El Espacio Público: Ciudad y Ciudadanía. Barcelona: Electa, 2003, pág.9 Público e privado
145 Na produção urbanística, o shopping tem vindo a crescer a sua importância, a níveis globais e que chamam a si vários setores e agentes e atores sociais. Estes espaços aparecem pelas necessidades adaptativas das lógicas de comercio a retalho em relação às transformações económicas da sociedade capitalista, com a participação da urbanização rápida e extensiva, do papel do capital financeiro no tecido urbano e a compra e acesso automóvel. Os equipamento e empreendimentos terciários, ao surgirem e aumentar de número rapidamente, foca o ambiente construído destinado ao comercio e ao consumo de mercadorias e bens, decorre da capacidade de concentração do capital financeiro. A transformação das formas de organização tradicionais, métodos e técnicas de produção é acompanhada pela junção sequencial de inovações nas atividades de troca. O centro comercial é entendido como consequência de uma sociedade moderna capitalista, que abre lugar a consequências na forma de viver da sociedade urbana contemporânea, já que o quotidiano é passado pela artificialidade dos espaços públicos de caráter privado. Os centros comerciais, ao surgirem, estão intimamente relacionados com o surgimento e expansão das periferias e do uso do automóvel, assim como necessidades de consumo, pelo que estes equipamentos afirmam-se como sistemas de comercialização moderna que altera a ordem urbana. Os centros comerciais, são construções planeadas, sob administrações únicas e centrais, mesmo que incluam parcerias público-privadas para a sua implementação, composto por lojas para alugar e manter a atividade de consumo e com estacionamento dedicado para este espaço e suficiente para responder às necessidades do próprio empreendimento. Apresentam certas características especificas à sua condição, tanto pelo megalómano projeto de arquitetura e área circundante, a localização num único terreno e de fácil acesso com grande área de estacionamento, áreas de acesso de serviço para entrega de mercadorias, grupos de arrendatário para viabilizar a multiplicidade de oferta de produtos, ambiente de conforto e segurança. Significa, o shopping, um empreendimento imobiliário de iniciativa privada que alberga no seu conjunto edificado, lojas alugadas de comercio a retalho ou a serviços, este mix funcional 112, planeado pela empresa encarregue da construção e organização do shopping, compreende a introdução de lojas do mesmo ramo como de ramos diferentes aumentando assim a diversidade. Incorporam uma larga gama de serviços e atividades, sendo sempre escolhidos de acordo com os interesses financeiros que aumentam as capacidades de acumulação. Ao longo dos tempos as sociedades construíram a sua própria espacialidade, na sociedade contemporânea capitalista o capital financeiro assume a produção do espaço construído do território da cidade, o que proporciona implicações espaciais na produção de espaço contemporâneo capitalista. Este processo consequente na presença deste espaço construído e novo na realidade urbana contemporânea revela uma especial concentração de atividades terciárias no mesmo local. 112. É a organização sistemática de distribuição das atividades comerciais que pressupõe o estudo, análise e escolha de lojas e operações que sejam coesas, complementares, distintas, harmônicas e balanceadas para atender às necessidades da demanda de um específico mercado com a finalidade de estabelecer um Shopping Center atraente, competitivo e rentável para todos. Novas dinâmicas urbanas
147 “o espaço público sempre representou um papel de elemento significativo e organizador do meio urbano, as mudanças estruturais consequência da evolução histórica da cidade provocaram todavia uma mudança no seu papel perante a realidade urbana. Antes de mais, identificamos hoje afirmada uma imagem de cidade constituída de elementos ou edifícios isolados. Esta lógica formal, reforçada pelas dinâmicas poderosas do urbanismo de produtos, pela submissão ao mercado imobiliário, pela força económica da iniciativa privada e pela debilidade política da iniciativa pública, perante a nula rentabilidade e levada área de ocupação fundiária, a sintaxe dos edifícios-mercadoria substituem a cidade do intercambio e da diversidade.”113 Os centros comerciais representam processos de inovação da cidade do capitalismo contemporâneo monopolista, apresenta-se como uma forma nova na realidade urbana, a sua confluência de equipamentos. A concentração de equipamentos, atividades de consumo e serviços é necessária para promover oportunidades de dinâmicas de fluxos, principalmente de mercadorias, mas de pessoas também. Esta aglomeração, ao proporcionar centralidade urbana, fora do próprio contexto do centro da cidade, gera a distinção do solo e do seu uso. A centralidade urbana é um elemento chave da articulação entre o resto dos elementos que compõe a estrutura urbana, é um local geográfico e de conteúdo social, pelo que deve ser considerado um local de encontro, reunião, convergência, de práticas sociais, sem deixar de se materializar em espaço construído formal. “(...) apesar dos centros comerciais serem frequentemente apontados como sendo um dos principais catalisadores destas mesmas mudanças (a evolução desta formula comercial que é o centro comercial e a condição urbana, sendo dois processos coincidentes e sobre postos no espaço e no tempo) - por terem acompanhado o processo de suburbanização e difusão territorial de grande parte das cidades europeias - toda a via permanece evidente que estes não constituem propriamente nem a causa, nem a consequência, da própria metropolização urbana. Ainda que estes sejam claramente dois processos que mutuamente se reforcem”.114 Ao pensar no conceito de cidade, a urbanidade e a industrialização são importantes para o próprio processo de desenvolvimento urbano e a sua expansão. A cidade é um lugar de produção de mercadorias, em que há uma concentração do processo de consumo e de trabalhadores e estruturas que tornam possível essa produção e atividades, mas não é apenas o lugar de produção de bens pois possibilita e torna exequível todo o processo de produção. Assim as logicas de produção fazem com que a cidade favoreça a produção e o consumismo, pelo que passa a estar sob a ordem das logicas de relações económicas e o espaço apresenta-se assim como um bem envolvendo sempre o homem neste processo de transformação em mercadoria. 113. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 329 114. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 315-316 Novas dinâmicas urbanas
149 Assim, a indústria e a sua produtividade não atuam só na produção mas na própria cidade, nas relações sociais que estão associadas à troca e ao uso. Em consequência, a produção e reprodução de relações sociais em termos de consumo, uso e troca, revela-se no próprio processo de acumulação do poder económico que desestabiliza diretamente a vida urbana e dos seus cidadãos. A cidade reage a esta interferência da lógica de acumulação capitalista, pois o poder económico tem necessidades de reprodução e produção do seu sistema, pelo que redefine a centralidade tradicional ao fragmenta-la e juntar partes diferentes da própria cidade, que se notam na concentração dos equipamentos de consumo, na determinação do lugar das empresas, comercio e dos serviços em setores diversos da cidade. A localização, assim, no espaço urbano, torna-se elemento importante para os que possuem os meios de produção, o que confere às áreas apelidadas de centrais uma atribuição de papel de mercadoria, produto que por sua vez inflaciona o calor do território e a especulação imobiliária. No centro e as novas centralidades, apresentam mudanças em termos funcionais que espelha a sua organização espacial, por transformações ao nível da gestão, serviços e do comercio. O espaço urbano é fragmentado, articulado que acompanha a sociedade e a sua condicionante social também ela fragmentada. Assim, a sociedade reflete-se nas organizações espaciais da cidade. O centro é alterado ao ser influenciado interna e externamente como politicamente e economicamente, redefinindo-se assim as suas funções, que se notam em todo o território, pela formação de novos centros. “Na cidade difusa, extensa e “não-histórica” - que se relaciona em rede e se organiza por fluxos e sistemas urbanos - os instrumentos de planeamento e ordenamento e gestão do território são substituídos, em muitos casos, pela iniciativa privada e pela promoção imobiliária, e a centralidade própria da cidade compacta, histórica e densa, por novas polaridades e nós ligados às actividades do consumo, do lazer e do ócio.”115 Em épocas passadas, com o crescimento das cidades, do comercio e o desenvolvimento do espirito mercantil, começam a surgir outros mercados e feiras que faz com que se definam novas aglomerações à volta ou nas proximidades desses pontos de comercio. Nesse espirito antigo, as moradias no centro da cidade eram só para as elites, o que na contemporaneidade isso já não faz qualquer sentido, as elites vivam no centro pois significava poder, para além de fácil acesso a transporte, segurança e comunicação. O que se passa hoje me dia, é completamente o oposto. Na contemporaneidade, as famílias tradicionais estão a sair da área central, que se associa a um processo de deterioração. Mas que ultimamente os centros históricos tem sofrido processos de reabilitação, em que se questiona a utilização da cidade como um produto pelo nascer do empreendedorismo em detrimento do gerenciamento. O empreendedorismo na administração urbana surge com a desindustrialização e consequentes desempregos, em que as cidades adquirem políticas urbanas para propiciarem o 115. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 317 Novas dinâmicas urbanas
151 seu próprio crescimento e auto beneficiar-se em novos investimentos, assim as cidades afastam-se do planeamento urbano o que torna visível que o caráter empresarial capitalista provoca o desenvolvimento desigual. A deterioração em relação com a revitalização é presente na cidade vista como um negócio, a mudança do gerenciamento para o empreendedorismo leva a estratégias para atrair investimentos e o consequente crescimento urbano, ou seja, a cidade, tinha necessidade de expulsar os pobres, marginalizados para que pudesse ficar mais bonita e atraente para poder ser vendida aos poderes económicos, para se estabelecerem shoppings, lugares de atração de investimento, de turistas, das populações vizinhas e sobretudo que deem o retorno do investimento, lucro. O desenvolvimento variável do capitalismo relaciona-se com o empreendedorismo urbano, com as revitalizações económicas urbanas apresentam-se projetos superficiais que não resolvem as problemáticas espaciais e sociais da cidade, como a de um centro em constante renovação e a sua envolvente em continuo empobrecimento. Mesmo com propagandas de reabilitação das áreas centrais das cidades as decisões políticas e iniciativas privadas privilegiaram o desenvolvimento urbano em outras áreas da cidade. Outra transformação das áreas centrais das cidades contemporâneas em termos espaciais foi o desdobramento e desenvolvimento das suas ações e atividades. Esta transformação compreende a divisão de atividades centrais especializadas, não situadas no centro mas próximas e em alguns casos a contornar o centro. Este processo representa a coesão das áreas centrais, pela concentração das atividades económicas no centro da cidade, para que sejam atraídas para o local uma grande quantidade de consumidores, processo este que favorece o surgir de áreas especializadas, quer no centro tradicional, quer em outras áreas não centrais, desenvolvendo outro tipo de atividades mais produtivas nas periferias. Assim a cidade ganha complexidade urbana quer no processo de centralização quer no processo de descentralização. O desenvolvimento do centro e a sua expansão originam centros alternativos que comportam as mesmas atividades dos centros tradicionais e instalam-se em áreas onde ocorre o mesmo tipo de circulação e de atividades de consumo. Esta descentralização das atividades favorece os centros alternativos e que é um processo decorrente do distanciamento de novas áreas do território ocupado e a área centra da cidade. Este distanciamento entre as novas áreas periferias e a zona central favorece o desenvolvimento dos transportes pois o acesso entre estas duas zonas é indispensável pelo crescente número de centros alternativos comerciais e zonas industriais fora da cidade tradicional, tornando o espaço mais complexo. “Este novo cenário urbano supõe graus de desenvolvimento distintos: a existência de uma boa rede de vias rodoviárias de alta capacidade, a supremacia da lógica do automóvel, um nível elevado de rendimento e de motorização são algumas das condições básicas à nova metamorfose urbana. Contudo as tendências estão aí e tendem a modificar radicalmente a ideia corrente de subúrbio e o estatuto Novas dinâmicas urbanas
153 subserviente que convencionalmente lhe estava reservado. A marginalização geográfica social continua a ocorrer, às vezes até com maior intensidade, mas é também cada vez maior a heterogeneidade das situações antes classificadas como suburbanas, e a velocidade e a imprevisibilidade das transformações da forma e do perfil de localização das funções urbanas portadoras ou não de efeitos de centralidade. Neste novo espaço relacional alargado menos reconhecível na forma, porque descontínuo, de escala territorial extensa e fragmentado, as infraestruturas de circulação, as grandes artérias de transporte (auto-estradas, eixos ferroviários, corredores de comunicação, etc.) apresentam-se como os traços mais evidentes deste sistema urbano-territorial complexo.”116 Estes núcleos secundários, apoiados por atividades económicas, favorecem a população residente pois assim não necessitam de realizar deslocações dispendiosas, em tempo e dinheiro, até ao centro para realizar os desejos e necessidades de consumo. A sua localização é distante do centro e o seu desenvolvimento é associado a núcleos urbanos que a cidade incorporou, em que as atividades são basicamente as mesmas do centro tradicional mas sem tanta especialização. Os centros periféricos são assim quase reproduções dos centros tradicionais, concentrando grande parte das atividades desses centros tradicionais, pelo que podem entrar em concorrência mas diferem pois o centro visa as populações locais e as periferias as populações vizinhas e com o desenvolvimento das cidades e o crescente número de bairros periféricos que concentram cada vez mais população e atividades económicas, de comercio e serviços. Ao concorrer com o centro tradicional em termos de atividades económicas, complementa-o e leva-o também à sua deterioração. As periferias tornam-se assim em transformações de centralidade, ou seja, são novas expressões de centralidade, que relacionam diretamente com os centros através de transportes e sistemas de comunicação. “Não só uma cidade extensiva se afirma sobre uma cidade compacta, como se esbatem as fronteiras entre as logicas públicas e privadas e se afirma uma rede de espaços de uso colectivo representativos para além dos tradicionais espaços públicos. Veremos assim como na cidade contemporânea, a urbanidade já não é exclusiva do centro, mas se vive também na periferia; como já é difícil distinguir entre um jardim privativo e uma área verde de uso colectivo; e como o local de encontro já não é apenas a praça, mas também o centro comercial.”117 Os shoppings aliados a hipermercados são elementos importantes periféricos, constituem grande predicados para o desenvolvimento de novas centralidades, pelo que modificam as estruturas urbanas e a configuração espacial urbana, por se instalarem em territórios desocupados e revitalizando outras áreas, que acabam por ocupar lugares abandonados por outras atividades, como industrias recolocadas noutras cidades ou territórios da mesma, armazéns e depósitos. 116. DOMINGUES, Álvaro – (Sub)úrbios e (sub)urbanos: o mal estar da periferia ou a mistificação dos conceitos?, pág. 12. 117. GRAÇA, Miguel - Shopping (&) Center, sobre o consumo, a cidade e os centros comerciais em Portugal e na Europa, Dissertação de Doutoramento, Universidad de Valladolid, 2010, pág. 318 Novas dinâmicas urbanas