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“Deus existe, com efeito, para si próprio; mas Deus está enganado.” A Ilusão de Deus em Fernando Pessoa

Borges, Paulo

Abstract

Pretende-se surpreender algumas das linhas principais do pensamento de Fernando Pessoa a partir do comentário de três textos curtos mas fundamentais e da afirmação: “Deus existe, com efeito, para si próprio; mas Deus está enganado”. Partindo da visão de uma indeterminação ou fundo sem fundo primordial, que só negando-se ou sendo negado se manifesta na multiplicidade de níveis e formas do universo das determinações ontognosiológicas, numa “ilusão” / “criação” geradora de todos os modos de ser e consciência, incluindo os da consciência de si humana e divina, Pessoa pensa e propõe a libertação disso numa des-ilusão iniciática que consiste no desvelamento da “Vida”-“consciência” incriada e encoberta na sua própria manifestação. Tal iniciação é o “caminho da Serpente”, entendido como o processo do espírito que assume, experimenta e compreende todas as possibilidades de entificação – eu, mundo e Deus – ao mesmo tempo que as nega e se nega, devolvendo-se à indeterminação primordial e inalterável.

Full text

“DEUS EXISTE, COM EFEITO, PARA SI PRÓPRIO; MAS DEUS ESTÁ ENGANADO” A ILUSÃO DE DEUS EM FERNANDO PESSOA Paulo Bo ges Uni e sidade de Lisboa P e endemos comp eende uma das abo dagens mais singula es da ideia de Deus em Fe nando Pessoa median e o comen á io da su p een- den e a i mação ci ada no í ulo e do con ex o onde ela su ge, o cu o mas ilosó ica e especula i amen e mui o denso, complexo e polémico T a a- do da Negação, edigido em onze pon os, assinado po Raphael Baldaya1 e da ado conjec u almen e de 1916 po An ónio de Pina Coelho. Pa a ponde a mos odo o sen ido e alcance da ques ão e emos oda ia de co- men a ou os dois ex os, que o mam com o p imei o uma p o unda unidade emá ica. No p imei o pon o do T a ado da Negação, o au o decla a que “O Mundo é o mado de duas o dens de o ças”, as que “a i mam” e as que “negam”, ac escen ando que as p imei as “são as o ças c iado as do mundo, emanadas sucessi amen e do Único, cen o da A i mação”, en- quan o as segundas “emanam de além do Único” ou “pa em de além” 1 Sob e Raphael Baldaya, o he e ónimo as ólogo, c . Te esa Ri a Lopes, Fe nando Pessoa e le D ame Symbolis e: Hé i age e C éa ion, p é ace de René E iemble, Pa is, Fonda ion Calous e Gulbenkian – Cen e Cul u el Po ugais, 1985, 2ª edição, pp. 279-281 e Manuela Pa ei a da Sil a, Realidade e Ficção. Pa a uma biog a ia epis ola de Fe nando Pessoa, Lisboa, Assí io & Al im, 2004, pp. 105 e 117-119. C . ambém Má io de Sá-Ca nei o, Ca as a Fe nando Pessoa, II, Lisboa, Á ica, 1959, p. 133. Te esa Ri a Lopes publica os P incípios de Me a ísica Eso é ica e a ibui-lhe, conjec u almen e, um ex o de c í ica da eoso ia, em apêndice a Fe - nando Pessoa e le D ame Symbolis e: Hé i age e C éa ion, pp. 510-513. Es es e ou os ex os, p esumi elmen e de sua au o ia, o am publicados em Fe nando Pes- soa, Ob as, III, in oduções, o ganização, biobibliog a ia e no as de An ónio Qua- d os, Po o, Lello & I mão – Edi o es, 1986, pp. 401-420. Philosophica, 31, Lisboa, 2008, pp. 19-49 20 Paulo Bo ges dele2. O escla ecimen o undamen al su ge con udo no qua o pon o, onde se diz se “uma Ilusão” esse “Único, de quem Deus, o Deus C iado das Coisas, é apenas uma mani es ação”. Se é ilusão esse “Único”, an e io ao p óp io Deus c iado como cen o de oda a a i mação e c ia i idade, não é de es anha a ese imedia a de que “ oda a c iação é icção e ilu- são”. Baldaya ap esen a um quad o da ilusão como o denominado co- mum que ab ange e conec a odos os ní eis da ealidade e do conheci- men o, desde a ma é ia a é Deus: do mesmo modo que “a Ma é ia é uma Ilusão […] pa a o Pensamen o”, es e é ilusão pa a a “In uição”, es a é ilusão pa a a “Ideia Pu a” e es a o é pa a o “Se ”, que se diz se “essenci- almen e Ilusão e Falsidade”, sendo “Deus” “a Men i a sup ema”3. Ao ap esen a -se a “Ilusão” não só como o es a u o de cada ins ância is a, a pa i da que lhe é imedia amen e supe io e da qual depende, como desp o ida da ealidade plena que em si mesma apa en a e , mas ambém como ine en e ao que se ap esen a como o p incípio da sua mani es ação e a essa mesma mani es ação, con on amo-nos com uma con unden e de- núncia das ins âncias posi i amen e cons i u i as da o alidade do exis en e, como ine en es a uma mesma c iação- icção-ilusão que p ocede de um “Único” que é ele mesmo ilusó io. A hie a quia apa en emen e ascenden e dos ní eis do se e da consciência, desde o mais g ossei o ao mais sub il, segundo a adição espi i ualis a de ma iz pla ónica, é desde logo denunci- ada como uma hie a quia ascenden e em e mos de uma ilusão cada ez maio : “Ma é ia”, “Pensamen o”, “In uição”, “Ideia Pu a”, “Se ”, “Deus” (c iado ) e “Único”. Pode-se conjec u a que nes a sé ie o “Deus” e e ido no qua o pon o, enquan o “Men i a Sup ema”, seja idên ico ao “Único”, ilusó io e on e de oda a ilusão. Nes e caso, o “Deus”-“Único” anscende- ia o “Deus C iado das Coisas”, sua me a “mani es ação”. Es amos pe an e um esquema de pensamen o que, a é um ce o pon o, eco da a es u u a da henologia e cosmo isão neopla ónica g ega e c is ã, bem como alguns dos sis emas gnós icos, se a en a mos na dis inção en e o Deus c iado , o Deus com a ibu os que como al se de e mina pa a o homem e o mundo, e o Uno/Di indade anscenden e e ine á el, e iden e na dis inção eckha iana en e Go e Go hei 4 e na dis inção gnós ica en e 2 C . Raphael Baldaya, T a ado da Negação, in Fe nando Pessoa, Tex os Filosó icos, I, es abelecidos e p e aciados po An ónio de Pina Coelho, Lisboa, Edições Á ica, 1993, p. 42. 3 C . Ibid. 4 C ., po exemplo, Mes e Eckha , Die deu schen We ke, 4, Es uga da/Be lim, Kohlhamme , 1936 e sgs., P . 109, pp. 771-773. C . Paulo Bo ges, “Se a eu g aças a Deus ou de como se pob e é não ha e menos que o In ini o – a- eísmo, a- eologia e an-a quia mís ica no se mão “Bea i paupe es spi i u...”, de Mes e Eckha ”, in Philo- sophica, 15 (Lisboa, 2000), pp. 61-77; epublicado in Signum – Re is a da ABREM (Associação B asilei a de Es udos Medie ais), nº4 (São Paulo, 2002), pp. 49-69. Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 21 o demiu go e o Deus anscenden e e ine á el, que não c ia nem go e na o mundo5 (posição aliás assumida explici amen e po Pessoa6). Toda ia, desde já se assinala a unda e he e odoxa di e gência pessoana em elação ao neopla onismo, ao a i ma não só a ilusão como comum a odo o se e conhece , a odas as de e minações on ognosiológicas, mas ainda ao seu supos o p incípio sup emo e unici á io que, como já sabemos, em ainda um “além” e uma anscendência, de onde “emanam” as o ças negado as que, em conjun o com as a i ma i as, cons i uem o “Mundo”. Se a ideia de que o Uno nem seque é Uno, enquan o ine á el que anscende odas as ca ego ias do pensamen o, es á já p esen e na adição neopla ónica em Plo ino7 e Damáscio8, e se o pensamen o hindu ambém denunciou o “um” como símbolo da “ilusão” (māyā)9, Pessoa man ém, 5 C . Hans Jonas, La Religion Gnos ique. Le message du Dieu É ange e les débu s du ch is ianisme, aduzido do inglês po Louis É a d, Flamma ion, 1978, pp. 65-66. 6 “O C iado do Mundo não é o C iado da Realidade: em ou as pala as, não é o Deus ine á el, mas um Deus-Homem ou Homem-Deus, análogo a nós mas a nós supe io ” – Fe nando Pessoa, Ob as, III, p. 458. Sob e o eso e ismo, he me ismo e gnos icismo pessoano, c ., en e ou os: Dalila Pe ei a da Cos a, O Eso e ismo de Fe nando Pessoa, In odução e Pos ácio de An ónio Quad os, Po o, Lello Edi o es, 1996, no a edição (4ª) aumen ada; “O Gnos icismo em Fe nando Pessoa”, Ac as do IV Cong esso In e nacional de Es udos Pessoanos, Po o, Fundação Eng. An ónio de Almeida, 2000, pp. 83-95; Y e e K. Cen eno, (com S ephen Recke ) Fe nando Pessoa: Tempo, Solidão, He me ismo, Lisboa, Mo aes Edi o es, 1978; O Amo . A Mo e, a Iniciação, Lisboa, A Reg a do Jogo, 1985; Fe nando Pessoa e a Filoso ia He mé ica, Lisboa, P esença, 1985; Fe nando Pessoa: Os T ezen os e ou os en- saios, Lisboa, P esença, 1988; O Pensamen o Eso é ico de Fe nando Pessoa, Lis- boa, & E c, 1990; He me ismo e U opia, Lisboa, Salamand a, 1995; Fe nando Pes- soa: Magia e Fan asia, Po o, ASA, 2004; An ónio Quad os, Fe nando Pessoa. Vida, Pe sonalidade e Génio, Lisboa, Dom Quixo e, 1984, 2ª edição; Ped o Teixei- a da Mo a, A G ande Alma Po uguesa, Lisboa, Edições Manuel Lencas e, 1988; Mo al, Reg as de Vida, Condições de Iniciação, Lisboa, Edições Manuel Lencas e, 1988; Poesia Mágica, P o é ica e Espi i ual, Lisboa, Edições Manuel Lencas e, 1989; Rosea C uz, Lisboa, Edições Manuel Lencas e, 1989; Luís Filipe B. Teixei- a, O Nascimen o do Homem em Fe nando Pessoa, Lisboa, Edições Cosmos, 1992; Pensa Pessoa. A Dimensão Filosó ica e He mé ica da Ob a de Fe nando Pessoa, Po o, Lello Edi o es, 1997; José Anes, Fe nando Pessoa e os Mundos Eso é icos, Lisboa, Ésquilo, 2004; Manuela Pa ei a da Sil a, Realidade e Ficção. Pa a uma bio- g a ia epis ola de Fe nando Pessoa, Lisboa, Assí io & Al im, 2004, pp. 103-143. 7 C . Plo ino, Enéadas, V, 3, 12 e 13, ex o es abelecido e aduzido po Émile B éhie , Pa is, Belles Le es, 1967, pp. 66-67; V, 4, 1, p. 79; Enéadas, VI ², 7, 41, ex o es abelecido e aduzido po Émile B éhie , Pa is, Belles Le es, 1989, p. 117; 9, 5, p. 178; 9, 6, p. 180. C . Paulo Bo ges, “O desejo e a expe iência do Uno em Plo ino”, Philosophica, nº 26 (Lisboa, 2005), pp.175-214. 8 C . Damáscio, T ai é des P emie s P incipes. De l’Ine able e de l’Un, ex o es a- belecido po L. G. Wes e ink e aduzido po Joseph Combés, Pa is, Belles Le es, 1986, pp. 7-8 e 10. 9 “La na u e de l’Illusion (Māyā) es  ep ésen ée pa  le nomb e un” (“Eka shabdā mika māyā”) – ci ado in Alain Daniélou, My hes e Dieux de l’Inde. Le poly héisme hindou, Flamma ion, 1994, p. 25. 22 Paulo Bo ges pela oz de Baldaya, a singula idade de a i ma a p esença no mundo de “ o ças” emanadas disso que es á pa a além de oda a ilusão e de as ca- ac e iza como “ o ças que negam”, podendo supo -se que o que elas negam é p ecisamen e, não só o que as ou as o ças, as “ o ças c iado as do mundo”, a i mam, mas ainda essas mesmas po ências cons i u i as, emanadas do “Único” ilusó io. Há assim no mundo, a pa de e con a um p incípio de cons i uição, ou de ilusão, um ou o p incípio, a que chama- emos de decons i uição, ou de des-ilusão. O mundo não é, nes a pe spec- i a, senão ecido po es a mesma ensão agónica, es e pólemos10, en e as po ências da ilusão, que o c iam azendo que alguma coisa apa en emen e seja e se conheça, e as po ências da des-ilusão, que o dec iam, negando odas as apa ências do se e do conhece . O mundo é assim, pa adoxal- men e, “ o mado” pela unidade ágica de um p ocesso de mundi icação e de um ou o, an agónico, de desmundi icação: a ins i uição do mundo é insepa á el da ope ação que a nega, o mundo é ei o do que o des az, o mundo é habi ado pelo i-mundo. Como se diz nos pon os quin o e sex o, isso que há “além do Único”, na e dade a única ins ância que escapa à ilusão on ognosiológica, não é in eligí el nem pensá el. O que é plenamen e coe en e com o a ás ex- pos o, uma ez que odos os ní eis do conhecimen o – pensamen o, in ui- ção e ideia –, são ní eis dessa ilusão que de e mina odo o se e conhece . A in eligência e o pensamen o não podem concebe o que anscende o “Único” e a ilusão, pois pa a eles “ o a do Único […] não há nada”. Po- dem con udo, como que numa e i a ol a ou num ol a em-se às a essas da ilusão que os cons i ui, nega o “Único”, essa on e de oda a ilusão, pensa que ele “não exis e”, o que Baldaya conside a equi alen e a e i- a -lhe a supos a sup emacia e o supos o se . Es a “negação sup ema”, que ao nega o p incípio sup emo de odo o pensá el ange o impensá el, mas ainda sob a o ma do pensa nega i amen e – como de cos as ol a- das pa a o in ini o ho izon e ocul o que assim a lo a, sem que se possa i a pa a o e –, o igina a noção an íbia de “Não-Se ”, que conjuga e e i o impensá el – “po que pensa o não-se é não pensa ” – com o se pensá el, enquan o concei o e pala a-limi e. Pensa o concei o nega- i o de “Não-Se ” con e e-o aliás no de “Se ” (pensa de e mina o pen- sado, azendo-o se algo), que assim se diz sai “po oposição do Não- -Se ”. Es e “Se ” designa aqui a p imei a de e minação posi i a e ilusó ia do diu no e ilusó io uni e so on ognosiológico, a nosso e equi alen e ao “Deus”-“Único” a ás e e ido. Ele é isso em que a in eligência, o pensamen o e a linguagem con e em, iluso iamen e, a inin eligí el, im- 10 C . He acli o, F agmen s, 129 (53, Diels-K anz), ex o es abelecido, aduzido e comen ado po Ma cel Conche, Pa is, PUF, 1987, p. 441: “A gue a [pólemos] é o pai de odas as coisas, de odas o ei […]”. Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 23 pensá el e ine á el al e idade anscenden e, que pe manece não menos iluso iamen e e e ida na noção de “Não-Se ” e no concei o da sua an e- io idade ou p ecedência em elação ao “Se ”, o que Baldaya cons a a se a cedência à “linguagem humana”11, que, di íamos, empo aliza numa elação de an eceden e e consequen e o que são ins âncias da simul anei- dade e ical da consciência. A pa i do sé imo pon o do T a ado da Negação encon amos mais uma consequência da he e odoxa singula idade da isão pessoana. Consi- de ando o “Se ”-“Deus”-“Único” como “essencialmen e Ilusão e Falsida- de” e “Men i a Sup ema”, e conside ando a mani es ação-emanação des- se p incípio como sua p og essi a de e minação e negação, na u al é que a “Ma é ia”, ní el in e io da hie a quia on ognosiológica na pe spec i a que lhe apon a um p incípio espi i ual, su ja a inal, enquan o “a maio das negações do Se ” e “o es ado […] mais p óximo […] do Não-Se ”, como o ní el supe io dessa mesma hie a quia ou aquele onde ela mais eg essa à on e indi e enciada de onde p ocede, nela se dissol endo. Há aqui uma o al in e são da adicional cosmo isão espi i ualis a, inassumidamen e suge ida, desde Plo ino, pela comum in inidade, inde e minação e ine a- bilidade do Uno e da ma é ia, igualmen e desp o idos de a ibu os e ca- ac e ís icas que se possam concep ualiza 12. Sendo na “Ma é ia” que, segundo Baldaya, o “Se ” acede ao es ado de maio negação de si e mais se despe da ilusão pensan e que o sepa a do “Não-Se ” p imo dial, “a Ma é ia é a meno das Ilusões, a mais aca das men i as”, de onde p o i- ia a sua maio e idência. Com e ei o, se o “Se ”-“Deus”-“Único” não é o p imei o e e dadei o p incípio e se quan o mais se mani es a mais nega a ilusão que é, mais nessa mesma mani es ação ai des elando e o nando anspa en e isso que em si, numa an e io idade me a ísica, se ocul a, ou seja, o “Não-Se ”, a e dadei a ins ância p imo dial. C emos se is o que Baldaya p e ende exp essa , embo a usando um e mo equí oco, quando a i ma que o “Se ”, “à medida que se ai negando, ai c iando o Não- 11 C . Raphael Baldaya, T a ado da Negação, in Fe nando Pessoa, Tex os Filosó i- cos, I, pp. 42-43. “Assim o Se sai, po oposição do Não-Se . O Não-Se é que o p ecede, pa a ala a linguagem humana” – Ibid., p. 43. 12 C ., po exemplo, a eo ia dos “dois in ini os”, supe io e in e io , bem como a (não) ca ac e ização e a desc ição me amen e nega i a da “ma é ia”, a im à do Uno, em Plo ino, Enéadas, II, 4, 15 e II, 5, 5, ex o es abelecido e aduzido po Émile B éhie , Pa is, Belles Le es, 1989, pp. 69-70 e p. 81. O p oblema, adicio- nalmen e esol ido na ese de uma inde e minação po excesso, a do Uno, e de ou- a po de ei o, a da ma é ia, é eabe o e epensado po S anislas B e on, que p o- põe que a di e enciação seja ei a não em e mos de es a u o on ológico mas de o ien ação do mo imen o, uni ican e num caso e dispe si o no ou o. A on ologia se ia assim econduzida a uma odo-logia, a uma o ien ação da iagem, da odisseia ine en e à expe iência da consciência – Ma iè e e Dispe sion, G enoble, Jé ôme Millon, 1993, pp. 51-52 e 180-186. 24 Paulo Bo ges -Se ” e que essa au o-negação “é uma c iação, se assim é possí el a- la ”13. Com e ei o, Baldaya pa ece es a aqui conscien e da di iculdade de usa o e mo c iação num sen ido opos o ao da sua p imei a de inição, no início do ex o, quando, ao ala das “ o ças c iado as do mundo, emana- das […] do Único”, decla ou que “ oda a c iação é icção e ilusão”14. Na e dade, c emos es a a ala de um mesmo p ocesso, o da mani es ação do “Se ”-“Deus”-“Único”, que pode en ende -se segundo duas pe spec i- as: ou na sua ace apa en e, como de e minação p og essi a e posi i a de se e sen ido, o que se ia “ icção e ilusão”, ou na sua ace ocul a, como c escen e negação da p imei a de odas as de e minações on ognosiológi- cas, a de “Se ”, o que se ia o p og essi o des- elamen o e des- -en ol imen o do inde e minado p imo dial, o “Não-Se ”, la en e em odas as o mas do exis en e e do pensá el como ou as an as ilusó ias másca as do seu os o sem eições. A ambiguidade e a di iculdade ad êm de se usa um mesmo e mo, c iação, pa a designa os dois aspec os do p ocesso mani es a i o que, em unção de qual se conside a , su ge como do “Se ” ou do “Não-Se ”. C emos que a opção po ou o e mo, como des elamen o, se ia aqui mais adequada, e i ando ala -se, com e iden e imp op iedade e con adição, de c iação do “Não-Se ” pelo “Se ”, quando se insis e em que o p imei o é “an e io ” ao segundo15. Os oi a o e nono pon os do T a ado da Negação ex aem as su p e- enden es mas lógicas consequências, de o dem p á ica, das p emissas assumidas. Fo mulando uma mo al da descons i uição do mundo e da ealidade, Baldaya conside a que “de emos se c iado es de Negação, negado es da espi i ualidade, cons u o es de Ma é ia”. Vol ando a usa uma exp essão que nos pa ece inadequada, es a c iação “de Negação” não é oda ia a p odução de qualque en idade, mas an es, como escla ece a segui , uma ca alisação do p ocesso de au o-negação e au o-dissolução ine en e a oda a mani es ação do “Se ” no uni e so on ognosiológico: “a negação consis e em auxilia o Mani es ado a mani es a -se mais, a é ele se dissol e em Não-Se ”16. A negação “da “espi i ualidade” e a cons u- ção de “Ma é ia”, enquan o acção humana, não é na e dade an o uma e ol a con a a o dem do mundo e a mani es ação do seu p incípio – 13 C . Raphael Baldaya, T a ado da Negação, in Fe nando Pessoa, Tex os Filosó i- cos, I, p. 43. 14 C . Ibid., p. 42. 15 Es a pa ece-nos a passagem menos bem conseguida, em e mos de a iculação en e pensamen o e linguagem, de odo o T a ado: “À medida que o Se se ai mani es ando, ai-se negando; à medida que se ai negando, ai c iando o Não- -Se . Como o Não-Se é an e io ao Se , essa negação que o Se az de si-p óp io é uma c iação, se assim é possí el ala ” – Ibid., p. 43. 16 Ibid., p. 43. Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 25 “Se ”-“Deus”-“Único” –, mas an es a colabo ação ac i a com o seu sen- ido nega i o, que cons i u i amen e ende pa a a au o-abolição, pois a mani es ação comp eende-se ago a como au o-dissolução do que se ma- ni es a. Se o “Se ” é a ilusão sup ema e odos os ní eis de ealidade, a é à “Ma é ia”, se cons i uem como sua c escen e negação e edução, a “Ma- é ia” é a ilusão mínima, e elando-se, assim, não como ealidade, mas como “Apa ência”, an íbia ins ância limi e-limia que “é ao mesmo em- po o Se e o Não-Se ”. Na “Ma é ia”, a ilusão mínima de ha e alguma coisa é já anspa ência máxima de não ha e nada, na iminência da o al dissolução da ilusó ia densidade do eal. Mos ando a cons i u i a nadi i- cação do eal, o niilismo on ológico ine en e e ocul o em odo o apa en e p ocesso de en i icação, Baldaya con oca a uma adicalização do mesmo, que e oca mas supe a, em p o undidade, o ema da adicalização do nii- lismo, em Nie zsche, de eo axiológico. Cabe nes e momen o pe gun a se, pe an e es e econhecimen o da ine en e au o-negação de odo o p ocesso a i ma i o e mani es a i o, não ha e á que epensa a dis inção e con aposição iniciais das “ o ças que a i mam” e das “que negam”, como p oceden es de dois p incípios dis in- os: o “Único” e o “além do Único”. Se o “Se ”-“Deus”-“Único”, ele p óp io, não é mais, como imos, do que uma de e minação do “Não- -Se ” ao se pensado, a sua posi i idade apa en e não esconde senão a negação ine en e ao pensa que não ope a senão en i icando e objec i an- do o impensá el e ine á el. O pensa pa ece uni ica e concilia assim as “ o ças” a i ma i as e nega i as, as ins âncias é icas que undam e ins i- uem o mundo e o eal e aquelas, an i é icas, que o a- undam e des- -ins i uem, como e so e e e so de uma mesma ac i idade que não cons- i ui senão descons i uindo. No pensa coexis em a inal, como dois aspec os da mesma ope ação, as “duas o dens de o ças” que Baldaya diz, no p imei o pon o do T a ado, o ma em o “Mundo” e que a ás desig- námos como p incípios ou po ências de cons i uição e descons i uição, de ilusão e des-ilusão, de mundi icação e desmundi icação ou, di íamos ago a, de ealização e i ealização. In e ogamo-nos, assim, se o “Se ”- -“Deus”-“Único” e o seu “além”, o “Não-Se ”, não co esponde ão nes e sen ido, espec i amen e, à p imei a o ma ou à p o omo ose da demiu - gia nega i a-posi i a do pensa e à sua ausência. Ao in és do que suge e a linguagem usada habi ualmen e, a a i mação do “Se ”-“Deus”-“Único”, como igu a que eme ge do pensa o “Não-Se ”, negando-o e en i icando- -o, se ia a p imei a ins ância da negação, ao passo que o “Não-Se ” indi- ca ia, embo a no domínio da pala a e do concei o, o ine á el p imo dial, não nega i o nem posi i o, pois li e da ac i idade é ica-an i é ica do pensa . A nosso e , um e mo como Nada, embo a ainda nos limi es do pensamen o e da linguagem, assinala ia melho a anscendência desse ine á el, sob e udo se dema cado do me o “não-se ” e da isão niilis a, 26 Paulo Bo ges de aco do com a sua p ocedência po uguesa e cas elhana a pa i da ex- p essão la ina “nulla es na a”, que assinala o inc iado, não de e minado ou não o iginado como “coisa alguma” (“nulla es”)17. Reg essando ao T a ado da Negação, o décimo pon o p e ende ex- ai as consequências de udo o que p ecede em e mos de uma iloso ia da eligião e do mi o, de modo não menos su p eenden e, polémico e p oblemá ico na medida em que pa ece a inal não assumi ou comp een- de plenamen e o sen ido e as implicações das p emissas es abelecidas. Baldaya começa po a i ma a exis ência de “dois p incípios em lu a”: “o […] de A i mação, de Espi i ualidade, de Mis icismo”, que se ia, “pa a nós, ac ualmen e”, ou seja, no ac ual momen o da his ó ia do mundo, “o C is ão”, e o “de Negação, de Ma e ialidade, de Cla eza”, que se ia o “Pagão”. “Lúci e – o po ado da Luz”, se ia “o símbolo nominal do Espí i o que Nega”, ac escen ando-se a is o que “a e ol a dos anjos c iou a Ma é ia, eg esso ao Não-Se , libe ação da A i mação”18. Ou seja, o au o pa ece iden i ica as “ o ças c iado as do mundo”, emanadas do “Se ”-“Deus”-“Único”, com o p incípio c is ão, a i ma i o, espi i ual e mís ico, e as “ o ças que negam”, emanadas “de além do Único”19, com o p incípio pagão e luci e ino, nega i o, ma e ial e cla o, c emos que no sen ido de acional. De aco do com o que es abeleceu no início, o p incí- pio c is ão e c iado se ia o p incípio de ilusão, “pois oda a c iação é 17 Temos assinalado que á ios pensado es po ugueses con empo âneos são pensa- do es do nada como anscendência do se e do não se , com des aque pa a Pasco- aes e José Ma inho, além de Agos inho da Sil a, es ando esse sen ido mais ambi- guamen e mesclado com o do não se em An e o e Pessoa. Encon ámos a con i mação des a in e p e ação e escla ecimen os adicionais, a espei o das i ua- lidades do po uguês e do cas elhano nes a ques ão c ucial, em Raimon Pannika : c . De la Mís ica. Expe iencia plena de la Vida, Ba celona, He de , 2005, pp. 142- -144; “P ólogo” a James W. Heisig, Filóso os de la nada. Un ensayo sob e la Es- cuela de Kyo o, Ba celona, He de , 2002, pp. 12-13. Como esc e e: “El español y el po ugués lo exp esan admi ablemen e sin ecu i a la negación dialéc ica: Na- da no signi ica “no-Se ”, sino ausencia de Se (no nacido, non-na um, aja a en sánsc i o); pe o no la ausencia como una p i ación, como la negación de algo que debie a se , como un abo o que aún no ha llegado a se ” – De la Mís ica. Expe i- encia plena de la Vida, p. 143. Es a lei u a não niilis a do nada ab e o umo de um impo an e diálogo com a noção sob e udo budis a de acuidade (shunya a), que assinala um mesmo caminho de anscensão dos ex emos on ologis a e niilis a e de odos os “pon os de is a” ou posições concep uais – c . Nāgā juna, S ances du Milieu pa Excellence (Madhyamaka-ka ikas), aduzido do o iginal sânsc i o, ap esen ado e ano ado po Guy Bougaul , Gallima d, 2002, 13, 8 e 15, 6-7, 10-11, pp. 173, 190 e 192. C . Paulo Bo ges, Tempos de Se Deus. A espi i ualidade ecuménica de Agos inho da Sil a, Lisboa, Ânco a Edi o a, 2006, pp. 13-16. 18 C . Raphael Baldaya, T a ado da Negação, in Fe nando Pessoa, Tex os Filosó i- cos, I, p. 43. 19 C . Ibid., p. 42. Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 27 icção e ilusão”20, enquan o o p incípio pagão, luci e ino e negado se ia a po ência opos a, que p omo e a des-ilusão e dissolução da ealidade e do mundo no “Não-Se ” p imo dial. A e e ência cu a, mas incisi a, ao signi icado de “Lúci e ” como “po ado da Luz” e à “ e ol a dos anjos” indica, em choque on al com o mi o, a eligião e a eologia judaico- -c is ã o odoxa, uma alo ização da e ol a con a Deus e do seu agen e p imei o como ins âncias não de queda, mas de libe ação de um p incí- pio also, o do “Se ”-“Deus”-“Único”, que já sabemos se a “Men i a Sup ema”, e de uma o dem op esso a, a da a i mação c iado a, que é “ icção e ilusão”, em p ol de um “ eg esso ao Não-Se ”, ou seja, à e da- dei a ins ância p imo dial e imani es ada. Ao dize que “a e ol a dos anjos c iou a Ma é ia”, embo a es a seja alo izada como limia máximo de dissolução da mani es ação e des elamen o do inc iado, Baldaya dia- loga ao menos implici amen e com adições múl iplas, desde gnós icas21 ( ambém p esen es, como já indicado, na ideia de um p incípio supe io ao “Deus” que ins i ui o mundo, po sua ez supe io ao Deus c iado ) e eso é icas a é à dos Pad es da Ig eja o ien al, como O ígenes22, G egó io de Nissa23 e E ág io Pôn ico24, que eo iza am uma dupla c iação, p imei- o espi i ual e depois ma e ial, endo na segunda uma p o idencial con- sequência da queda a pa i do o iginá io es ado angélico e acional de odas as c ia u as. A isão de uma cisão o iginá ia em Deus ou no absolu- o, ins au ado a dos en es e dos mundos, abunda ambém no pensamen o po uguês con empo âneo, com des aque pa a Sampaio B uno25 e Teixei- a de Pascoaes26, além de algum Leona do Coimb a27. Raphael Baldaya 20 C . Ibid., p. 42. 21 Sob e o mundo como ob a dos anjos “em mui o in e io es ao Pai não ge ado”, em Ca póc a es, Menand o e Sa u nino, c . S. I eneu, Con a as He esias, I, 25, 1-2; I, 23, 5; I, 24, 1-2 – ci ado in Hans Jonas, La Religion Gnos ique. Le message du Dieu É ange e les débu s du ch is ianisme, pp. 177-178. 22 O ígenes eco da que a pala a g ega pa a “cons i uição” é ka abolé, que ambém signi ica “queda” (e imologicamen e ka a-bolé signi ica “lançamen o pa a baixo”, designando ambém a “ undação”). Na sua isão o mundo ma e ial esul a da dispensação a cada se , pela jus iça di ina, do luga e do ipo de ida con o me às “p eceden es causas de li e- -a bí io” po si exe cidas an es de aí exis i – c . De P incipiis, III, V, 4-5. 23 C . S. G egó io de Nissa, De hominis opi icio, in Pa ologia G aeca, edição de J. P. Migne, XLIV, 181 a-181b, 184 d-185 a. 24 C . E ág io Pôn ico, Kephalaia Gnos ika, 1. 68, 3. 28 e 3. 59, in Cla is Pa um G aeco um, edição de Mau ice Gee a d, 6 ols., B epols, Tu nhou , 1974-1998. 25 C . Sampaio B uno, A Ideia de Deus, Po o, Li a ia Cha d on – Lello & I mão, Edi o es, 1902, p. 460. 26 C . a mul i o me isão que a a essa oda a ob a e que es udamos em Paulo Bo - ges, P incípio e Mani es ação. Me a ísica e Teologia da O igem em Teixei a de Pascoaes, Lisboa, Imp ensa Nacional – Casa da Moeda, 2008. 34 Paulo Bo ges -pensa , o que já não acon ece com odas as consciências que o pensam como Deus, di inizando-o e de e minando-o pa a si como al. Nes a isão de que o incondicionado não (o) é pa a si, Pessoa e oma a linha de Plo i- no na c í ica ao Deus de A is ó eles que e e namen e se pensa a si mes- mo43, ao mesmo empo que se insc e e numa p onunciada e en e da me- a ísica po uguesa con empo ânea, com momen os mais signi ica i os em An e o de Quen al, Teixei a de Pascoaes, José Ma inho e Agos inho da Sil a44. Gos a íamos con udo de comple a o es udo do T a ado da Negação com o comen á io de dois ex os que pa ecem cons i ui com ele uma unidade emá ica e o gânica. O p imei o in i ula-se O DESCONHECIDO e é da ado hipo e icamen e de 1915 po An ónio de Pina Coelho. Nele Pessoa ei e a a ese de que “ udo é ilusão”, pois “ udo é c iação, e oda a c iação é ilusão”, uma ez que “c ia é men i ”45. Todas as aculdades humanas são “ilusão” – “pensamen o”, “sen imen o” e “ on ade” – e, quan o mais o es, maio o seu “pode c iado ”, ou seja, ilusó io46. Pen- sa en i ica a é o “não-se ”, con e endo-o numa “coisa”, al como no sex o pon o do T a ado da Negação. Ve dade e se coincidem e ambos são ilusão, con e endo-se a ilusão, al como no ex o an e io , no deno- minado comum de udo. Num mesmo diálogo com as adições ocul is- as, Pessoa a i ma que “ odos os que pensam ocul is amen e c iam em absolu o odo um sis ema do Uni e so, que ica sendo eal”. Mesmo que se con adigam, a demiu gia do pensa o na assim eais – iluso iamen e – á ios “sis emas do uni e so”. Os homens, o Deus po eles c iado, o “Deus e e no, c iado do céu e da e a”, a imo alidade e e e nidade da alma, o empo, udo isso “há” mas “é also”, pois “se é não-se ”. Como diz pa adoxalmen e Pessoa: “Exis em ealmen e Deus, céu, anjos, almas imo ais e e e nas. E con udo nada disso é e dade. Exis e e du a e e na- men e, mas é also”47. “Tudo é um amon oado de ilusões” e “a p óp ia 43 C . A is ó eles, Me a ísica, Λ 7, 1072 b 19. C . Plo ino, Enéadas, VI ², 7, 37, ex o es abelecido e aduzido po Émile B éhie , Pa is, Belles Le es, 1989, pp. 111-112. 44 Ci amos apenas a pa adigmá ica isão de An e o, exp essa em “Pala as dum ce o mo o”, as pala as do “Deus”-“Vida” mo o na sua di inização e pe soni icação eligiosa e idolá ica: “Que i i sei-o eu bem… mas oi um dia; / Um dia só – no ou o, a Idola ia / Deu-me um al a e um cul o… ai! Ado a am-me, // Como se eu osse alguém! Como se a Vida / Pudesse se alguém! – logo em seguida / Disse- am que e a um Deus… e amo alha am-me !” – Sone os, o ganização, in odução e no as de Nuno Júdice, Lisboa, Imp ensa Nacional–Casa da Moeda, 1994. 45 C . Fe nando Pessoa, O DESCONHECIDO, in Tex os Filosó icos, I, p. 44. 46 C . Ibid., pp. 44-45. 47 C . Ibid. Num ex o da mesma amília e com o mesmo í ulo, Pessoa esc e e, sob a o ma de con o, não da ado: “Os espi i os, os deuses, as Vidas Sup emas de que os symbolos allam, os demiu gos, os demonios, os espi i os odos – nunca exis i am. São c eações dos HERMETICOS pa a uso illuso io dos Eso e icos. […] Deus Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 35 ilusão é uma ilusão”48. Nes e passo decisi o se mos a que a ilusão con- sis e p ecisamen e em conside a eal algo que seja is o ou aquilo, que seja algo ou que seja, pu a e simplesmen e. Conside a eal a p óp ia “ilusão”, conside á-la sob e i en e a si mesma, é implici amen e ilusó io. A es a isão, que se ab e como e igem abissal a e i a odo o sus en o e apoio apa en emen e sólidos à consciência – “A que abismo amos e ?”, in e oga-se –, chama o pensado “niilismo anscenden al”. Se apa en e- men e se a enua assim o que a ás, em elação ao T a ado da Negação, designámos como niilismo on ológico, pe an e o sen ido do “Se ” como ilusão e negação que a si mesma se nega, desen i ica e nadi ica, c emos oda ia que Pessoa con inua iel nes e ex o à isão de Ra ael Baldaia. C emos que ambém lhe con inua iel, e elando algo de undamen- al nela implíci o, quando, apesa de sus en a que “nunca podemos dei- xa de c ia ” e po an o de “men i ”, a i ma a “consciência” como a única “coisa que não pode se ilusão”, po não se “c iada”. Só ela “escapa a oda a c í ica”, uma ez que não é c iada, “não c ia, nem é um concei o nosso”, não podendo se pensada “nem como sendo, nem como não- -sendo”. Não sendo a consciência nem “conc e a nem abs ac a”, nem “se nem não-se ”, “ e consciência não é uma ilusão”, mas “pensa , sen- i , que e ” sim. Des e modo, “a e dade é da consciência pa a lá” (ou a e dade, não aquela que imos coincidi com o se e se ilusó ia), ac es- cen ando-se aqui um passo enigmá ico: ““Deus” é a consciência da cons- ciência, coisa que não podemos pensa ”49. Não sabemos se, do mesmo modo que se ab e aqui um ou o sen ido de “ e dade”, não ilusó io, se não ab e ambém um ou o sen ido de “Deus”, igualmen e não ilusó io e signi ica i amen e pos o en e aspas, como uma in angí el consciência do simples ha e consciência. Seja como o , Pessoa indica uma ia de escla ecimen o da sua isão ao esc e e : “Temos odos a noção de que há qualque coisa: isso é also. Não há; não há nem não há. A p óp ia consciência não exis e, mas é a única e dade”50. Ou seja, se a alsidade eside no en i ica e coisi ica , na de e minação de algo como en e ou coisa, ou, mais adicalmen e, na simples de e minação de ha e algo51, isso es ende-se ainda à p óp ia mesmo não exis e; Deus é uma c eação illuso ia dos HERMETICOS. Exis e eal- men e e e dadei amen e pa a os Eso e icos, mas e dadei amen e não exis e. O mys e io é mais p o undo do que julgaes e de que os Eso e icos julgam. O Mys e- io É MAIS UNO E INDIVISIVEL DE QUE DEUS E OS ANJOS” – in Pessoa Inédi o, o ien ação, coo denação e p e ácio de Te esa Ri a Lopes, Lisboa, Li os Ho izon e, 1993, p. 428. 48 C . Fe nando Pessoa, O DESCONHECIDO, in Tex os Filosó icos, I, p. 45. 49 C . Ibid. 50 C . Ibid., p. 46. 51 A abissalidade da expe iência pessoana ai aqui ainda mais longe do que o já 36 Paulo Bo ges negação disso, que se con e e numa de e minação nega i a, subsidiá ia da a i mação que supõe in i ma . Nes e sen ido, a não exis ência da cons- ciência – à qual, em coe ência com es a lógica, se de e ia ac escen a a sua não não-exis ência, como a ás, ao dize -se que a consciência não é pensá el “nem como sendo, nem como não-sendo”52 – assinala, nos limi- es nega i os do pensamen o e da linguagem, a sua anscendência do domínio do que se pensa e diz ha e e não ha e , se e não se , exis i e não exis i , a sua anscendência do que se pensa e diz, a i ma e nega. Iden i icada como “a única e dade”, es a e dade não em um sen ido on o-lógico, posi i o ou nega i o, não coincide com o ma alguma, posi- i a ou nega i a, do se ou da ep esen ação, do se que é ep esen ação e da ep esen ação que é se , mas com o que pode e , denuncia e descons- ui a sua alsidade po que escapa à sua ilusão cons i u i a. É po isso que a consciência não é c iada nem c ia, não su ge de nenhuma a i mação ou negação nem as az su gi , não p ocede nem é on e de nenhuma de- e minação. “Consciência” designa aqui o econhecimen o e a dissipação de odas as icções da consciência, incluindo a de se algo que não esse mesmo econhecimen o e dissipação de udo o que apa en a se ou não se algo. É po isso que odo o modo en i ican e, ei ican e e objec i an e do exe cício da consciência, ge ado de objec os idos po eais, incluindo a au o- ep esen ação que a en i ica, ei ica e objec i a, são ilusó ios, mas não o ha e consciência disso. Como diz Pessoa: “Pensa , sen i , que e , são ilusões; mas e consciência não é uma ilusão”; “Na p opo ção em que a consciência é uma ideia nessa é alsa”53. Es a “consciência” inc iada, que pa ece escapa à elação in encional en e um sujei o e um objec o, à qual a enomenologia husse liana e oci- den al ende a eduzi a consciência54, mani es ando-se an es na dissipa- ção da ilusão disso se eal, ap oxima-se aqui do que eme ge da dialéc ica ci ado e g ande poema me a ísico de Ál a o de Campos, ib an e de mis é io on o- lógico, onde o “abismo” é o “de a exis ência de udo se um abismo, / Se um abismo po simplesmen e se , / Po pode se , / Po ha e se !” – “Ah, pe an e es a única ealidade, que é o mis é io”, in Fe nando Pessoa, Ob as, I, pp. 1019-1020. 52 C . Fe nando Pessoa, O DESCONHECIDO, in Tex os Filosó icos, I, p. 45. 53 C . Ibid. 54 Ve a c í ica de Emmanuel Lé inas à adição ociden al consubs anciada na eno- menologia husse liana da consciência como in encionalidade ap op iado a: c ., po exemplo, “La conscience non-in en ionelle”, in En e nous. Essais su le pense -à- -l’au e, Pa is, Lib ai ie Géné ale F ançaise, 2004, pp. 133-139. C . ambém os se- guin es con ibu os pa a uma enomenologia da consciência não in encional: F an- cisco J. Va ela, “Pou une phénoménologie de la sunya a (I)”, in AAVV, La gnose, une ques ion philosophique. Pou une phénoménologie de l’in isible, sob a di ecção de Na alie Dep az e Jean-F ançois Ma que , Pa is, Les Édi ions du Ce , 2000, pp. 121-148; Shin Nagaï, “L’a icula ion du phénoménologique e du mé- aphysique dans la pensée du “lieu” chez Ki a o Nishida”, in Ibid., pp. 243-250. Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 37 abla i a de um pensado budis a como Nāgā juna que, eduzindo ao ab- su do odos os “pon os de is a”, posi i os ou nega i os, e mos ando a acuidade (śūnya ā) de odas as posições ilosó icas e de odas as coisas, incluindo dessa mesma acuidade, induz uma expe iência libe ado a e ilumina i a55. Embo a econhecendo que os Budas, no seu ensinamen o p og essi o, adap ado às capacidades e necessidades dos se es, adop am ci cuns ancialmen e uma ou ou a das qua o p oposições logicamen e possí eis ace ca de algo – é, não é, é e não é, nem é nem não é56, o e a- lema ambém conhecido mas abominado po A is ó eles57 –, o único ob- jec i o de Nāgā juna é a e u ação absolu a de odas es as posições, a p asajya-p a isedha, sem o e ece qualque con apa ida posi i a. Se aqui há conhecimen o, é o conhecimen o ou sabedo ia anscenden e, p ajñā, um sabe po expe iência i ida que, em igo e em e mos úl i- mos, não há quem conheça nem o que seja conhecido. Po isso, se p ajñā ainda e oca, mesmo e imologicamen e, a gnôsis g ega, é uma gnose que plenamen e se cump e na sua p óp ia supe ação, azendo e anesce a ilusão do sujei o, do objec o e do conhecimen o como elação en e um e ou o; uma gnose agnós ica, na medida em que conhece abolindo oda a in encionalidade e odo o conhecimen o (dualis a e concep ual, an o do senso comum como ilosó ico e cien í ico)58. C emos que des a abo da- 55 C . Nāgā juna, S ances du Milieu pa Excellence [Madhyamaka-kā ikās], aduzi- do do o iginal sânsc i o, ap esen ado e ano ado po Guy Bugaul , Pa is, Gallima d, 2002: “Os Vi o iosos p oclama am que a acuidade é o ac o de escapa a odos os pon os de is a. Quan o àqueles que azem da acuidade um pon o de is a, eles decla a am-nos incu á eis” – 13, 8, p. 173; “Abençoada a paci icação de odo o ges o de ap op iação, a paci icação da p oli e ação das pala as e das coisas. Ja- mais um qualque pon o de dou ina oi ensinado a quem que que seja pelo Buda” – 25, 24, p. 334. 56 “Tudo é como pa ece, nada é como pa ece. Simul aneamen e como pa ece e não como pa ece. Nem um nem ou o. Tal é o ensinamen o p og essi o (anuśāsana) dos Budas” – Nāgā juna, S ances du Milieu pa Excellence [Madhyamaka- -kā ikās], 18, 8, p. 233. Como exemplo das espos as ela i as, g aduais e apa en- emen e an agónicas a espei o da ques ão da exis ência ou não do “eu”, c . Nāgā juna, S ances du Milieu pa Excellence [Madhyamaka-kā ikās], 18, 6, p. 232: “Os Budas conside a am o eu, ensina am ambém o não-eu. E ensina am ambém que não há nem eu nem não-eu”. 57 Falando de quem nega o p incípio de con adição, A is ó eles e lec e: “Po ou o lado, é cla o que a discussão com es e ad e sá io é sem objec o. Pois ele nada diz. Ele não diz assim nem não-assim, mas diz assim e não-assim. E, de no o, es as duas p oposições conjun as são negadas, e ele diz nem assim nem não-assim. Pois, de ou o modo, ha e ia já alguma coisa de de inido” – Me a ísica, , 4, 1008 a 30- -34. Sob e a ques ão, c . Guy Bougaul , L’Inde pense- -elle ?, Pa is, PUF, 1994, pp. 246-248. 58 “É assim que a ciência es á o ada a a unda o seu p óp io na io… pa a i a é ao im de si mesma” – Guy Bougaul , La No ion de “P ajñā” ou de sapience selon 38 Paulo Bo ges gem descons u i a se ap oxima Pessoa, quando, após sus en a que “o mundo, à al a de e dades, es á cheio de opiniões” e que a cada uma “compe e uma con a-opinião”, esc e e: “Na ealidade do pensamen o humano, essencialmen e lu uan e e ince o, an o a opinião p imá ia, como a que lhe é opos a, são em si mesmas ins á eis; não há sín ese, pois, nas coisas da ce eza, senão ese e an í ese apenas. Só os Deuses, al ez, pode ão sin e iza . A es es esc i os chamo an í eses po que ep esen am, em sua ín ima subs ância, con a-opiniões, desmasca amen os, desilusão. À ce eza com que cada um pensa o que julga que pensa con ém opo a ce eza com que se pode pensa o con á io, com que se consegue o na lógico o absu do […]”59. Seja como o , essa “consciência” inc iada, em O DESCONHECI- DO, assume, na economia do pensamen o pessoano, uma unção e um (não-)luga a ins aos da “Vida”, no T a ado da Negação, como a única ins ância que e dadei amen e anscende o uni e so das posi i as- -nega i as e ilusó ias de e minações on ológicas. Salien e-se, comple- men a men e, que a sua possibilidade é a p óp ia possibilidade da isão que nes es ex os se o mula. Tudo se passa como se no apa en e sujei o que os pensa, esc e e e assina, eme gisse algo mais undo, essa mesma “Vida” e “consciência” que espassa a ilusão apa en emen e densa de udo o que se supõe se eal, se e não se , não se de endo seque nas mais hegemónicas, adicionais e p es igiadas en idades me a ísicas, denunci- ando o “Se ”, o “Único” e “Deus” como men i a e ilusão sup ema. Como pode, em e dade, e -se e dize -se que “Deus exis e com e ei o pa a si- -p óp io; mas Deus es á enganado”, se isso não p o ie de algo mais que um me o sujei o humano, ele mesmo ilusó io enquan o en e ecido na eia das de e minações on ognosiológicas do que pa ece se mas não é em absolu o? Como pode diagnos ica a au o-ilusão do cogi o di ino senão o que lhe escapa? Como pode psicanalisa a ilusão de Deus senão quem a anscende? A ques ão passa a se pois quem ou o que é es e ou is o que aqui eme ge, na isão, discu so e esc i a do apa en e sujei o Ra ael Bal- daia / Fe nando Pessoa. C emos que um indício de uma possí el espos a nos é o e ecido, em conjun o com mais elemen os pa a de e mina o sen ido da ilusão de les pe spec i es du “Mahāyāna”. Pa de la connaissance e de l’inconnaissance dans l’anagogie bouddhique, Pa is, Édi ions E. De Bocca d, 1968, p. 170. Sob e es a ques ão da noé ica anoé ica budis a, c . Ibid., pp. 167-186. Na adição de Nāgā juna o despe a da consciência é a suspensão de ci a, “o pensamen o in en- cional, aquele que isa um objec o, e en ualmen e uma acção sob e ele e a sua modi icação”, c . Ibid., p. 170. 59 An ónio de Pina Coelho coloca bem es e ex o, de 1915, no P ólogo aos Tex os Filosó icos, I, pp. 3-4. Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 39 Deus, po um e cei o ex o, que a nosso e cons i ui com os dois p i- mei os uma unidade emá ica e o gânica. T a a-se dos agmen os de O Caminho da Se pen e ou The Way o he Se pen , e e ido como “Li o que o não é”60. Tex o denso e c íp ico, de emá ica ainda eso é ica e gnós- ica, nele a Se pen e é símbolo de algo cujo caminho, suge ido pela p ó- p ia o ma do S inicial, consis e em passa po udo, oma odas as o - mas, ao mesmo empo que a udo se nega e anscende, negando-se e anscendendo-se ainda a si mesmo61. A Se pen e muda de pele, assumin- do “ o mas com que, e em que, se nega”, pois jamais se lhes iden i ica ou eduz, indo semp e mais além. “A a essa” assim “ odos os mis é ios e não chega a conhece nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei”. Em e mos mí icos, deixa pa a ás a “Cob a do Éden”, “Sa u no” e “Sa ã”, pois “as o mas que assume não são mais que peles que la ga”. Na e da- de o seu caminho é um não o e e, po isso, ao chega a “Deus”, “passa pa a além de Deus, pois chegou ali de o a”62. A Se pen e é a inal, numa lag an e a inidade com o T a ado da Negação, o “Spí i o que Nega”, “mais, e mais p o undamen e, do que em ge al se en ende ou se pode en ende ”. Essa negação assume á ios ní eis: no mais baixo, “nega o bem”, sendo apenas Se pen e e en ando E a; no segundo, “nega a e da- de” e Pessoa deixa um espaço em b anco, não indicando a o ma que aí assume; no e cei o, “nega o bem e o mal”, como Sa ã; no qua o, “nega a e dade e o e o”, mani es ando-se como Lúci e ou Vénus; inalmen e, no “quin o ní el, e uga”, “nega-se a si mesma e a udo […] e a si mesma se en a e se ma a”, sendo “SS, a Re elação Sup ema”63. T azendo ma - cada, no seu “ca ác e maldi o” e “aspec o epugnan e”, “a sua Oposição ao Uni e so – p o undo e obscu o Mis é io Magno”, Pessoa insis e na adical al e idade do “caminho da Se pen e”: se a ilusó ia e pi amidal es u u a da ealidade con ém ês o dens e “g aus de signi icação” – a “ac ual ou ma e ial”, a “mágica” e a “di ina” –, aos quais co espondem ês ní eis de iniciação, não menos ilusó ios – ciência e sexualidade, ma- gia e alquimia, iniciação di ina –, “o caminho da Se pen e es á o a das o dens e das iniciações”, “ o a das leis ( ec ilíneas) dos mundos e de Deus”, na medida em que consis e na p óp ia “e asão dos caminhos”. Designada como “E asão Abs ac a”, ela é “o econhecimen o da e dade essencial, que pode exp imi -se, poe icamen e, na ase de que Deus é o cadá e de si-mesmo; a descobe a do T iângulo Mís ico em que os ês é ices são o mesmo pon o, o seg edo da T indade e do Deus i o, que, 60 C . Fe nando Pessoa, Ob as, III, p. 515. 61 Pessoa e e e-o como “Caminho da e i ação (ascensão po e i ação, a ainmen by a oidance)” – Ibid., p. 515. 62 Ibid., pp. 515-516. 63 C . Ibid., p. 516. 40 Paulo Bo ges em ce o modo, é o Homem Mo o em e a a és de Deus Mo o”64. No con ex o em que se inse e, c emos que es e ex o c íp ico e he - mé ico con i ma as linhas undamen ais da isão já conhecida, sendo suscep í el de adução ilosó ica. Pe soni icação mí ico-simbólica do “Spí i o que Nega” (g a ado com o S no início, pa a acen ua o se pen ino simbolismo da o ma des a le a e a iden idade Spí i o-Se pen e), o cami- nho da Se pen e é a inal a ia do p óp io espí i o que, alheio a odas as de e minações, o mas e igu as, em si mesmas ilusó ias, as assume ne- gando-se e negando-as, pe co endo, espassando e anscendendo odas as de e minações axiológicas e on ognosiológicas, odos os ní eis de alo , se e e dade, odas as mu ações e modalidades da consciência e da expe iência, sem se de e no supos o e adicional cume da sua pi âmide – Deus – e sem se de e seque em si, mas anulando-se e libe ando-se de qualque pon o de chegada, que imedia amen e se con igu a ia como o limi e e de e minação que in imamen e ejei a na medida em que o seu mo imen o é o de uma e asão e libe ação absolu a, que não conduz de um pon o a ou o median e uma de e minada di ecção ( ec ilínea), mas an es a uma emancipação de odos os luga es, caminhos, di ecções, sen i- dos e ins, ul imamen e ilusó ios e inconsis en es pe an e o in ini o a que udo se eduz como a na u eza mais ín ima do p óp io espí i o. Quan o à obscu a ó mula inal, ela condiz pe ei amen e com a já conhecida ideia pessoana de que o Deus pa en e e e- elado, a que se e e e a comum consciência eligiosa e me a ísica dos homens, é na e dade a negação, mo i icação e éu que encob e uma Di indade ocul a, um além-Deus ou um incondicionado absolu o, que esse Espí i o-Se pen e que a udo e a si mesmo nega em úl ima ins ância busca, po lhe se e e namen e cona u- al. A E asão ab-solu a e ab-s ac a, que de udo libe a, é assim o “ eco- nhecimen o” disso mesmo, a “descobe a”, po uma expe iência i ida e di ec a, desse pon o iangula ou é ice ini á io em que o “Deus Vi o” coincide com “o Homem Mo o em e a a és de Deus mo o”, ou seja, em que a anscendência incondicionada anspa ece a a és da sua negação e mo e na o ma de Deus e da consciência humana que a p oduz, na mes- ma medida em que se dê, in e sa e complemen a men e, a mo e e nega- ção dessa mesma o ma de Deus e da consciência humana, enquan o éus que dissipados desencob em a e dade ocul a: Isso mesmo que, ine á el e incognoscí el, mas expe ienciá el na libe ação de odo o conhecimen o e discu so, no (sem) caminho da Se pen e e e namen e se encon a e bus- ca. Ao p ocesso de ealização e à expe iência disso chama Pessoa, u ili- 64 C . Ibid., pp. 516 e 519. Às íades e e idas há a ac escen a “a luz alsa da eali- dade, a luz alsa da icção, a luz alsa da iniciação e do sec e o – dia, c epúsculo, noi e”, que nada são pa a “quem con empla a Razão limpa, a Se pen e colean e a a és de mais que os mundos” – Ibid., p. 520. Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 41 zando a linguagem alquímica, “G. O.”, G ande Ob a, de inindo-a, ambi- guamen e, como “a libe ação, no homem, de Deus” (o “Deus Vi o” ou o além-Deus). T anscendendo ciência e sexualidade, magia e alquimia, como “caminhos de ilusão”, a “ e dade” como ia pa a al esidi ia ape- nas “no ins in o di ec o […] e na linha di ec a da sua ascensão ao ins in o sup emo”, ao longo de ês o mas desse “ins in o di ec o”: 1 – a “ac i a”, ou a “sexualidade”; 2 – a “in e média”, a “imaginação, an asia, ou c ia- ção pelo espí i o”; 3 – a “ inal”, “a c iação de Deus, a união com Deus, a iden i icação abs ac a e absolu a consigo mesmo, a e dade”65 (no e-se que a ambiguidade des a ó mula suge e o culmina de um p ocesso de au odei icação). Insis indo no simbolismo da o ma do S e da Se pen e, Pessoa eco - da que ele, “ echado”, é 8 e, “dei ado”, o “In ini o”, . Num caso e nou- o, ela “inclui dois espaços, que odeia e anscende”, sendo o p imei o o “mundo in e io ” e o segundo o “mundo supe io ”. Já nou a igu a, a da “cob a em cí culo, a boca mo dendo a cauda”, o simbolismo é di e so e opos o, ep esen ando-se “não o S”, […], mas o cí culo, símbolo da e a, ou do mundo al qual o emos”. Se es e simbolismo, de U obo os, eme e aqui pa a o e e no e o no da ealidade dada e apa en e, a im ao cí culo icioso e ilusó io do samsa a o ien al, ou pa a uma o alidade echada66, o ou o indica a libe ação disso: “No ei io de S a Se pen e e ade-se das duas Realidades e desapa ece dos Mundos e Uni e sos”67; “Não a açam os símbolos senão em O ou em S, limi ando ou e i ando o mundo”68. Num comen á io decisi o, e ocando a con o midade a uma “Reg a” (de uma o dem iniciá ica ?), Pessoa a i ma que “a ilusão é a subs ância do mundo”, […] an o no mundo supe io como no mundo in e io , no ocul- o como no pa en e”. Fugi da ilusão do “in e io ” pa a se e ugia na do “supe io ” não é a solução: “Só a Se pen e, con o nando os in ini os abe - os – ou os cí culos “incomple os” – dos dois mundos oge à ilusão e conhece o p incípio da e dade”69. Com e ei o, o Espí i o-Se pen e, uma ez que po na u eza “es á acima das o dens e dos sis emas”, dispensando “as linhas e os caminhos”, pode assumi-los a odos sem neles se p ende , pode ansi a de um pa a ou o e libe a -se ou man e -se li e de odos 65 C . Ibid., p. 519. 66 C . Jean Che alie e Alain Ghee b an , “Ou obo os”, in Dic ionnai e des Symbo- les, edição e is a e aumen ada, Pa is, Robe La on / Jupi e , 1990, p. 716. Ve- jam-se imagens do simbolismo alquímico e he mé ico da Se pen e e de U obo os in Alexand e Boob, O Museu He mé ico. Alquimia e Mis icismo, adução de Te- esa Cu elo, Lisboa, Taschen, 1997, pp. 400-429. 67 C . Fe nando Pessoa, Ob as, III, p. 518. 68 C . Ibid., p. 520. 69 C . Ibid., p. 518. 42 Paulo Bo ges eles. Como o suge e ainda a o ma do S, “o seu mo imen o, pa a a di ei a na o dem in e io das coisas e dos se es, é-o apenas pa a que possa se pa a a esque da na o dem supe io deles”. Se numa pe cepção pa cial o seu mo imen o apa en e ai num sen ido, na e dade já se di ige pa a o sen ido opos o, no qual a inal ambém se não de e á. Une os con á ios na mesma medida em que os anscende, numa con inuidade sem queb as nem ângulos, ao a epio de odas as o ien ações da consciência mundana: “Ela liga os con á ios e dadei os, po que, ao passo que os caminhos do mundo são, ou da di ei a, ou da esque da, ou do meio, ele segue um ca- minho que passa po odos e não é nenhum”; “não o ma ângulo consigo mesma”. T anscendendo o mundo in e io , ma e ial ou isí el, e o supe- io , espi i ual ou in isí el, anscendendo udo o que a um e ou o se aplica – caminhos, iniciações e mis é ios, ciência e sexualidade, magia e alquimia –, anscendendo udo quan o de algum modo “é”, “ odos os modos e condições de Deus e dos se es”, “quando chega a Deus não pá- a”70, indo, como já imos, “pa a além de Deus, pois chegou ali de o- a”71. Em e mos sapienciais, exis enciais e expe imen ais, es e “Caminho da Se pen e”, ou ia sem ia pa a além de odas as ias, consis e em i- e , sen i e conhece ín ima e o almen e odas as coisas, po mais con- á ias, econhecendo ao mesmo empo a sua ilusão e acuidade, sem nelas se p ende ou com elas se iden i ica . Em duas ó mulas lapida es: “Reconhece a e dade como e dade, e ao mesmo empo como e o; i e os con á ios, não os acei ando; sen i udo de odas as manei as, e não se nada, no im, senão o en endimen o de udo”72; “A Se pen e é o en endimen o de odas as coisas e a comp eensão in elec ual da acuidade delas”73. Após a exposição e comen á io d’O Caminho da Se pen e, c emos pode es ende -se a es a ob a e à “Se pen e”, in e p e ada como me á o a 70 C . Ibid., pp. 520-521. No e-se, a espei o do Caminho do Meio, na adição budis- a, que em igo designa uma ia sem posição, que nem seque mediana se pode dize , pois nela os ex emos desapa ecem – c . Sāmadhi āja Su a, 103, 10, onde se decla a: “o homem sensa o não se man ém mais seque no meio”, comen ando Guy Bougaul de e -se isso a que “a seus olhos os ex emos (an a) desapa ece- am” – in Nāgā juna, S ances du Milieu pa Excellence [Madhyamaka-kā ikās], p. 191. 71 Fe nando Pessoa, Ob as, III, p. 516. 72 Ibid., p. 520. Um pouco an es Pessoa esc e e: “Conside a odas as coisas como aciden es de uma ilusão i acional, embo a cada uma se ap esen e acional pa a si mesma – nis o eside o p incípio da sabedo ia. Mas es e p incípio da sabedo ia não é mais que me ade do en endimen o das mesmas coisas. A ou a pa e do en endi- men o consis e no conhecimen o dessas coisas, na pa icipação ín ima delas. Te- mos que i e in imamen e aquilo que epudiamos. […]” – Ibid., p. 519. 73 Ibid., p. 522. Deus exis e, com e ei o, pa a si p ópio 43 do espí i o, a a inidade a ás apon ada en e a “Vida”, no T a ado da Negação, e a “consciência” inc iada, em O DESCONHECIDO, como igu as dessa única e mesma ins ância que e dadei amen e anscende o uni e so de odas as ilusó ias en i icações e de e minações do se e do pensa , incluindo o Deus-en e sup emo que nelas e po elas se cons i ui. Po ou o lado, pe an e a ques ão an es o mulada, ace ca de quem ou o que é es e ou is o que eme ge na isão e ob a de Ra ael Baldaia / Fe nan- do Pessoa e pode e , pensa e dize udo o que nela se con ém, nomea- damen e que “Deus exis e com e ei o pa a si-p óp io; mas Deus es á en- ganado”, c emos que a espos a só pode se essa mesma “Vida” – “consciência” – “Se pen e”, en endida como o espí i o, enquan o ins ân- cia ans-mundana, ans-humana e ans-di ina que, po se cona u al ao absolu o, ao in ini o ou à Di indade ans-di ina, pode dissol e odas as ilusões e icções das ep esen ações que o elam e mani es á-lo, ou seja, mani es a -se, no ín imo de odas as consciências em que se e ec i e a sua ope ação libe ado a e ilumina i a. As ês ob as aqui comen adas cons i- uem assim uma unidade emá ica e o gânica, su gindo como ês ec o- es con e gen es nesse mesmo ope a de uma libe ação e um despe a adicais e o ais, le ando o pensamen o e sob e udo a ida a ealiza a possibilidade sup ema da consciência e da expe iência, ou seja, a au o- -descobe a do in ini o em si ou de si no in ini o, na e dade a au o- -descobe a de si como o in ini o. A expe iência-cume do econhecimen o de que, mo as e dissipadas odas as icções do sujei o e das suas p ojec- ções objec i an es, no mais comum imo de udo quan o exis e e de quem pensa, esc e e, lê, e lec e e medi a es e ex o, há Isso pa a além do qual nada mais há. A expe iência de que udo, cada coisa, e cada um, é Isso. A expe iência de que u és Isso74. Como iu Pessoa, nesse “pon o” ou “Vé - ice” absolu o eside oda a po ência e “ ida”75. Pa a e mina , no amos que a possibilidade de udo is o, a possibili- dade des e despe a , libe ação ou in ini ização adicais, onde a isão- -expe iência pessoana con e ge com o que há de mais p o undo e ousado 74 C . Paulo Bo ges, Folia. Mis é io de uma Noi e de Pen ecos es ( ea o), Lisboa, Ésquilo, 2007, pp. 36-58, onde se a icula d ama icamen e o “Mo e e de ém” de Goe he com o “Tu és Isso” dos Upanishades: Chandogya Upanishad, VI, X, 1, in Hindu Sc ip u es, aduzidas e edi adas po R. C. Zaehne , E e yman’s Lib a y, 1992, p. 138. 75 Falando da “consciência”, ans-exis en e e po isso omnip esen e, em e mos mui o semelhan es aos de O DESCONHECIDO, Pessoa esc e e: “A consciência anscende a unidade. É o pon o absolu o que só “exis e” po que pa a que qualque cousa exis a, em ele que exis i in ini amen e nela. O pon o, sendo a negação do espaço é a ida dele” – Fe nando Pessoa, Ob as, III, p. 518. Sob e o “con ac o” com o “Vé ice” uni i o de udo: “Só o con ac o com qualque coisa do Vé ice, is o é, da Unidade, dá o pode comple o, ou alguma cousa comple a no pode , so- b e nós e as cousas” – Ibid., p. 517.