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A ficção pós-modernista inglesa e a busca das verdades possíveis – uma resenha teórica

Mendes, Ana Cristina

Abstract

O presente artigo delineia condições sociais e históricas que conduziram a um revivalismo do século XIX no campo da literatura pós-moderna inglesa entre finais do século XX e a passagem para o século XXI. Registamos, numa forma sintética, pressupostos teóricos da recuperação da época vitoriana, integrando-os em conceptualizações disruptivas, à época, da H/história e respetivas implicações ao nível da narrativa. Ao revermos o modo como o romance histórico pós-moderno foi abordado pela teoria nestas décadas, recorremos às propostas de Linda Hutcheon (1988, 1989), Amy Elias (2001) e David W. Price (1999). Com este enquadramento teórico, pretendemos compreender o desejo subjacente à escrita de verdades históricas possíveis que, em nosso entendimento, motivou os romances pós-modernos ingleses do período histórico em apreço, como os paradigmáticos The French Lieutenant’s Woman de John Fowles (1969) e Possession de A. S. Byatt (1990).

Full text

27 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. A igo ecebido em 20/07/2017 e ap o ado em 30/10/2017. A FICÇÃO PÓS-MODERNISTA E A BUSCA DAS VERDADES POSSÍVEIS – UMA RESENHA TEÓRICA Ana C is ina MENDES* ▪RESUMO: O p esen e a igo delineia condições sociais e his ó icas que conduzi am a um e i alismo do século XIX no campo da li e a u a pós-mode na inglesa en e inais do século XX e a passagem pa a o século XXI. Regis amos, numa o ma sin é ica, p essupos os eó icos da ecupe ação da época i o iana, in eg ando-os em concep ualizações dis up i as, à época, da H/his ó ia e espe i as implicações ao ní el da na a i a. Ao e e mos o modo como o omance his ó ico pós-mode no oi abo dado pela eo ia nes as décadas, eco emos às p opos as de Linda Hu cheon (1988, 1989), Amy Elias (2001) e Da id W. P ice (1999). Com es e enquad amen o eó ico, p e endemos comp eende o desejo subjacen e à esc i a de e dades his ó icas possí eis que, em nosso en endimen o, mo i ou os omances pós-mode nos ingleses do pe íodo his ó ico em ap eço, como os pa adigmá icos The F ench Lieu enan ’s Woman de John Fowles (1969) e Possession de A. S. Bya (1990). ▪PALAVRAS-CHAVE: Li e a u a inglesa. Li e a u a pós-mode nis a. Re i alismo i o iano. Na a i a. In odução: concep ualizações pós-mode nis as de H/his ó ia Não sei que passos da ei, não sei que espécie de e dade busco: apenas sei que se o nou in ole á el não sabe … José Sa amago (1993, p.49). Tendo como pon o de pa ida a e olução das conceções de H/his ó ia, em especial no que espei a à sua na a i ização, es e a igo ap esen a uma esenha do modo como o omance his ó ico pós-mode no oi abo dado pela eo ia nas úl imas décadas do século XX e na passagem pa a ao século XXI, pa icula men e nas ob as de Linda Hu cheon (1988, 1989), Amy Elias (2001) e Da id W. P ice (1999). Ao conside a aquelas eo izações, p e ende-se con ibui pa a a comp eensão do desejo subjacen e à esc i a de e dades possí eis, inspi ado de omances pa adigmá icos do géne o, como * UL– Uni e sidade de Lisboa. Faculdade de Le as– Depa amen o de Es udos Anglís icos. Lisboa, Po ugal– [email p o ec ed] 28 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. The F ench Lieu enan ’s Woman de John Fowles (1969) e Possession de A. S. Bya (1990), bem como de um núme o conside á el de omances esc i os nas úl imas décadas e que, à semelhança des es, e sam, po ezes de um o ma in ensamen e au o- e lexi a, sob e ques ões his o iog á icas. Ao desen ol e a c í ica me odológica e sis emá ica das on es, a No a His ó ia mos ou a é que pon o mui as das e dades da his o iog a ia adicional assen a am em egis os ágeis, assis indo-se a uma elei u a c í ica do passado numa ó ica con empo ânea. En e as ca ac e ís icas daquele pa adigma con a-se o ala gamen o do es a u o de on es a campos a é en ão dep eciados, ab indo caminho ao in e esse pela chamada “his o y om below”1 ou his ó ia não o icial– assen e na explo ação de diá ios pessoais, documen os amilia es e es emunhos o ais– bem como ao econhecimen o de que a esc i a da his ó ia pode á e ela -se cul u almen e ela i a (ELIAS, 2001). Segundo as conceções his o iog á icas pós-mode nis as, de i adas p incipalmen e dos ex os de Michel Foucaul , a his ó ia se ia uma de e minada e são do passado, cons uída a pa i do caos dos acon ecimen os no in e esse de quem de inha mais pode (EVANS, 2000). Nas décadas de 1970 e, sob e udo, de 1980, a ligação oucaul iana en e o sabe e o exe cício do pode coincidiu com a eme gência de o mas de na ação e pesquisa his ó icas poli icamen e comp ome idas. Quando Jean-F ançois Lyo a d (1984) de ine a condição pós-mode na como um es ado de inc edulidade em elação às me ana a i as– cons uções o alizado as e eleológicas, sob a o ma de discu sos como a Filoso ia, a Religião, a Ciência e a His ó ia, que êm cos umadamen e ei indicado o acesso a uma e dade ou a um conjun o de ac os essenciais– es abelece a base pa a deba e os sis emas na a i os a a és dos quais as sociedades o ganizam e con e em unidade, sen ido e uni e salidade à expe iência do mundo. De e minado a alo iza a condição pós-mode na, Lyo a d enca a com o imismo o dec éscimo da in luência de me ana a i ascomo o ma xismo e o libe alismo, e a demolição dos alice ces iluminis as da mode nidade. Insu gindo-se con a o es a u o de uma e dade no sen ido posi i is a, a icção pós-mode na pa ece pa icipa nes a conjun u a ao ecoloca a His ó ia como uma na a i a esc i a, uma his ó ia, e não uma compilação neu a de e en os. Os modelos adicionais de his ó ia, o emen e associados ao acionalismo iluminis a, ence am uma noção de his ó ia p og essis a, que se desen ol e po es ádios sociais cada ez mais pe ei os. Desc e endo a in luência daqueles pa adigmas no omance his ó ico de Sco , Elias (2001) apon a da seguin e o ma as suas p essuposições: […] his o ians could be social scien is s in a ue sense, obse ing cul u es impa ially and ex apola ing h ough induc i e logic he o ganizing pa e ns o socie ies, cul u es, and his o y; ha his o y was linea , a line o in e locked e en s de eloping om one poin in his o ical ime o ano he ; ha his linea ime mo ed along a uni e sal 1 “His o y om below” co esponde a uma o ma de na a i a his ó ica desen ol ida a pa i de uma abo dagem à his ó ia eu opeia associada à escola da publicação ancesa Annales d’his oi e économique e sociale, undada po Ma c Bloch e Lucien Feb e em 1929. O e mo oi popula izado pelo his o iado inglês E. P. Thompson num a igo publicado no Times Li e a y Supplemen em 1966. 29 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. de elopmen al con inuum, based in a uni e sal human na u e, in which cul u es p og essed om lowe o highe o ms; ha his o y was hus posi i is ic and p og ess was a ealis ically a ainable goal […]2. (ELIAS, 2001, p.11-12). Lyo a d (1984) p opõe uma isão a-his ó ica da pós-mode nidade, em que, pa a além de conduzi à desc ença nas me ana a i as, des enda a ausência da ealidade da ealidade a a és da c iação de ou as ealidades3. F ed ic Jameson (1984), no p e ácio a The Pos mode n Condi ion, apon a as di iculdades des a eo ização, elacionando-as com o ac o de ambém Lyo a d pa i de posições undadas em na a i as mes as– uma de inspi ação ancesa, mais e olucioná ia, e ou a de eição ge mânica e hegeliana: Fo he wo g ea my hs disengaged by Lyo a d and iden i ied as he al e na e jus i ica ions o ins i u ional scien i ic esea ch up o ou own pe iod– ha o he libe a ion o humani y and ha o he specula i e uni y o all knowledge (qua philosophical sys em)– a e also na ional my hs and ep oduce he e y polemic in which Lyo a d’s own book wishes o in e ene4. (JAMESON, 1984, p.ix). Es a posição pa adoxal comp o a que a c í ica pós-mode na exal a e sub e e em simul âneo os seus obje os de análise. O pós-mode nismo almeja con es a os discu sos cul u ais dominan es, conscien e de que não se podelibe a comple amen e deles, já que não exis e posiçãoex e io às me ana a i as que possibili e uma c í ica que não es eja comp ome ida, de alguma o ma, com es as. O econhecimen o da his ó ia como cons ução, não como uma ealidade à espe a de se descobe a e comunicada linguis icamen e de o ma anspa en e, em conduzido a um en oque c í ico na sua na a i ização (CONNOR, 1996). No capí ulo “The His o ical Tex as Li e a y A i ac ”, incluído em T opics o Discou se, Hayden Whi e (1978) ein oduz a ques ão da a inidade en e li e a u a e his ó ia. Em aços ge ais, é p opos a uma his o iog a ia em que ao his o iado se á pe mi ido imagina e desc e e os ac os, assumindo-se que qualque enunciação daqueles se á p o isó ia e semp e incomple a: 2 “[…] os his o iado es pode iam se cien is as sociais num sen ido e dadei o, obse ando impa cialmen e as cul u as e ex apolando a a és da lógica indu i a os pad ões de o ganização das sociedades, cul u as e his ó ia; que a his ó ia e a linea , uma linha de e en os in e ligados que se desen ol e de um pon o no empo his ó ico pa a ou o; que esse empo linea se mo ia ao longo de um con ínuo de desen ol imen o uni e sal, baseado numa na u eza humana uni e sal, na qual as cul u as p og ediam de o mas in e io es pa a o mas supe io es; que a his ó ia e a assim posi i is a e o p og esso e a um obje i o ealis icamen e a ingí el [...].” (ELIAS, 2001, p.11-12, adução nossa). 3 Nas pala as de Lyo a d (1984, p.81), “[…] i is ou business no o supply eali y bu o in en allusions o he concei able which canno be p esen ed ” [“[…] é nosso de e não p o idencia a ealidade, mas in en a alusões ao concebí el que não pode se ap esen ado”]. 4 “Po que os dois g andes mi os que Lyo a d des inça e iden i ica como as jus i ica i as al e na i as pa a a in es igação cien í ica ins i ucional a é aos nossos dias– o da libe ação da humanidade e o da unidade especula i a de odo o conhecimen o (qua sis ema ilosó ico)– são ambém mi os nacionais e ep oduzem a polémica em que o p óp io li o de Lyo a d p e ende in e i .” (JAMESON, 1984, p.ix, adução nossa). 30 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. One o he ma ks o a good p o essional his o ian is he consis ency wi h which he eminds his eade s o he pu ely p o isional na u e o his cha ac e iza ions o e en s, agen s, and agencies ound in he always incomple e his o ical eco d. […] in gene al, he e has been a eluc ance o conside his o ical na a i es as wha hey mos mani es ly a e: e bal ic ions, he con en s o which a e as much in en ed as ound and he o ms o which ha e mo e in common wi h hei coun e pa s in li e a u e han hey ha e wi h hose in he sciences5. (WHITE, 1978, p.82, g i o do au o ). A econs ução do passado, possuindo necessa iamen e uma es u u a na a i a, in eg a á um imaginá io poé ico e depende á, em p imei o luga , da linguagem que o his o iado emp ega. Nes a pe spe i a, Whi e (1978) suge e que cada e aze da his ó ia é uma me a-his ó ia, esul an e de opções es é icas, cogni i as e é icas, ilus a i as da elação do his o iado -esc i o com o passado. Sus en a-se, pelo que oi di o, que a his ó ia é in luenciada pela seleção de modos es é icos, de écnicas na a i as e de igu as de es ilo (ELIAS, 2001), nomeadamen e a me á o a, a me onímia, a sinédoque e a i onia. Ape echado com es as qua o e amen as, o p o issional da his ó ia a ibui á sen ido a um conjun o de ac os: pode subo diná-los às leis causais que os condiciona am, mas pode á igualmen e codi icá-los no sen ido de ( e)cons ui um passado plausí el. Nas pala as de Whi e, a c iação his o iog á ica co esponde á, assim, a uma p odução li e á ia: […] his o ical na a i es a e no only models o pas e en s and p ocesses, bu also me apho ical s a emen s which sugges a ela ion o simili ude be ween such e en s and p ocesses and he s o y ypes ha we con en ionally use o endow he e en s o ou li es wi h cul u ally sanc ioned meanings. Viewed in a pu ely o mal way, a his o ical na a i e is no only a ep oduc ion o he e en s epo ed in i , bu also a complex o symbols which gi es us di ec ions o inding an icon o he s uc u e o hose e en s in ou li e a y adi ion6. (WHITE, 1978, p.88). Face ao expos o, o modo como o discu so é ansmi ido, ado ando um pon o de is a, o de quem na a, epe cu e a impossibilidade de isenção do ela o his ó ico. Es a au oconsciência le ou a que a his ó ia incluísse no as ozes e pe spe i as eno adas. Quem esc e e não só ado a um oco na a i o, mas ambém cons ói um quad o sele i o, pelo 5 “Um dos a ibu os de um bom his o iado p o issional é a consis ência com que ele eco da os seus lei o es da na u eza pu amen e p o isó ia das suas ca a e izações de e en os, agen es e agências encon adas no semp e incomple o egis o his ó ico. [...] em ge al, em ha ido elu ância em conside a as na a i as his ó icas como o que elas mani es amen e mais são: icções e bais, cujos con eúdos são ão in en ados quan o encon ados e cujas o mas êm mais em comum com as suas congéne es na li e a u a do que com aquelas nas ciências.” (WHITE, 1978, p.82, adução nossa). 6 “[...] as na a i as his ó icas não são apenas modelos de e en os e p ocessos passados, mas ambém a i mações me a ó icas que suge em uma elação de simili ude en e ais e en os e p ocessos e os ipos de his ó ia que con encionalmen e usamos pa a con e i aos e en os de nossas idas signi icados cul u almen e sancionados. Vis a de uma o ma pu amen e o mal, uma na a i a his ó ica não é apenas uma ep odução dos e en os ela ados nes a, mas ambém um complexo de símbolos que nos dá pis as pa a encon a um ícone da es u u a desses e en os na nossa adição li e á ia.” (WHITE, 1978, p.88, adução nossa). 31 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. que a ques ão signi ica i a, nes e con ex o, consis e em sabe como é a ibuído sen ido a um acon ecimen o. A im de e ela não só os limi es, mas ambém o pode do conhecimen o his ó ico, a icção pós-mode nis a ab e, po seu u no, ou as possibilidades de ques ionamen o, eelabo ando os con eúdos e as o mas do passado. A descon iança gene alizada ela i amen e a uma isão linea de his ó ia uni e sal é pa en e nos omances his ó icos pós-mode nis as da li e a u a inglesa, o que con ibui pa a o en endimen o do omance esc i o no pe íodo do Pós-Gue a enquan o um dos modos de ( e) aze a his ó ia e não apenas como um ex o de e minado po aquela (CONNOR, 1996). O ap oxima do inal do século e, nes e caso, do milénio, pa ece e sido o momen o agua dado pa a um p ocesso de eap eciação que incluiu, po um lado, o abandono de algumas das na a i as que inham dado sen ido à exis ência dos indi íduos e, po ou o, a ine i á el subs i uição des as (CONNOR, 1996). Na cul u a con empo ânea, a uma ea aliação do passado alia-se a pe ceção bipola de um declínio nacional e de um impulso social de ans o mação. Pa a além dos já e e idos Bya e Fowles, esc i o es como Julian Ba nes, Salman Rushdie e Jeane e Win e son dedica am a sua a enção, no inal do século XX, à análise da elação en e a G ã-B e anha e o seu passado, um en oque a ibuí el a um conjun o de a o es in e - elacionados. Tendo e minado o ciclo do Impé io, a G ã-B e anha ê-se con on ada com a pe da de au o idade e in luência mundiais em e mos polí icos, mili a es e económicos. Po ou o lado, após a Segunda Gue a Mundial, o aumen o de uma população mul icul u al, impulsionado pelo es abelecimen o no país de um núme o conside á el de imig an es p o enien es de di e en es egiões do ex-Impé io, p oblema izam uma noção homogénea de anglicidade. Nes e âmbi o, a indús ia do pa imónio ma cou, a ní el polí ico, uma en a i a de a enua as descon inuidades p esen es a a és da c iação de uma ha monia in empo al localizada num empo p e é i o. Pa a além des a no a ealidade cul u al, a iden idade b i ânica iu-se cons angida a econ igu a -se no con ex o da in eg ação numa comunidade eu opeia (leia-se con inen al) ala gada. Com e ei o, a ans o mação de uma o ganização o igina iamen e económica num p oje o de União Eu opeia e, a uma meno escala, a cons ução do Túnel da Mancha (de alo simbólico não desp ezí el) êm conduzido p og essi amen e a uma econ igu ação iden i á ia. Pe an e es a in e - elacionação de a o es, su gem na a i as que p ocu am ecoloca a G ã-B e anha no con inuum his ó ico, pelo que, como a gumen a Da id Cowa (1989), o ecen e su gimen o de uma no a icção his ó ica pode se in e p e ado como e lexo de um desejo pa ilhado de es abilidade his ó ica num pe íodo incons an e: […] he inc easing p ominence o his o ical hemes in cu en ic ion sugges s ha he no el’s pe ennial alence o his o y has acqui ed new s eng h in ecen yea s […]. A sense o u gency– some imes e en an ai o despe a ion– pe ades he his o ical no el since mid-cen u y, o i s au ho p obes he pas o accoun o a p esen ha g ows inc easingly chao ic7. (COWART, 1989, p.1). 7 “[...] a c escen e p oeminência de emas his ó icos na icção a ual suge e que a pe ene alência do omance pa a a his ó ia adqui iu uma no a o ça nos úl imos anos […]. Uma sensação de u gência– às ezes a é um a 32 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. Como já e e imos, a suspei a c escen e ela i amen e às na a i as his ó icas em conduzido ao eexame, quase obsessi o, da his ó ia no omance pós-mode no. Comp o am-no as ob as emblemá icas como The F ench Lieu enan ’s Woman e Possession. De modo gené ico, a pe ceção do ca ác e con ingen e das econs uções his ó icas e ela- se, em The F ench Lieu enan ’s Woman, pela exis ência de ins al e na i os e, no caso de Possession, a a és da ausência de ence amen o na a i o. Nes e domínio, ac esce a p esença, no omance de Fowles, de um na ado que comen a abe amen e o p ocesso de es u u ação na a i a, denunciando a comp eensão do omancis a ela i amen e à a bi a iedade do p oje o his o iog á ico. Con udo, aquela au oconsciência não obs a ao desejo de a qui e a pad ões e sis emas de signi icação. Apesa da noção do ca ác e p o isó io de qualque econs ução his o iog á ica, é disce ní el uma és ia de espe ança na possibilidade de a na a i a comunica algumas e dades sob e a época i o iana. Seguindo de pe o os e mos p opos os po Elias (2001), o pon o ulc al do exame daquelas ob as esidi á na conexão en e o desejo e o ce icismo no que conce ne à his ó ia. A eco ência da e isi ação do passado na icção pós-mode na em conduzido a um conjun o de abo dagens c í icas de ca ego ização e ede inição do géne o omance his ó ico que p ocu a emos examina , ainda que concisamen e. Es a análise não pe de de is a o ac o de que as g elhas c í icas p opos as pelas eo ias do pós-mode nismo es ão, elas p óp ias, sujei as a lei u as di e sas, po ezes an agónicas. O Romance his ó ico pós-mode no na c í ica As ob as li e á ias que pa odiam as o mas e os mecanismos ex uais de omances do século XIX o mam uma subclasse cada ez mais signi ica i a da icção pós-mode na. Ao combina pa adoxalmen e con enções ealis as e me a iccionais es abelecem um diálogo i ónico com o passado, emp egando e sub e endo écnicas iccionais adicionais. Iniciando o nosso pe cu so dedicado à o ma como o omance his ó ico con empo âneo em sido concep ualizado na eo ia c í ica ecen e com a eo ização de Hu cheon (1988, 1989), dada a sua in luência nes e âmbi o de análise c í ica, pa imos dos dois pon os cen ais de A Poe ics o Pos mode nism: a e idência de uma co en e li e á ia empenhada não somen e em e isi a o passado, mas ambém em analisá-lo de o ma ques ionado a, desmi i icando–o enquan o ela o de e dades; e a p emência de classi ica es a endência cul u al. À p opensão de u iliza de o ma c í ica o ma e ial his ó ico, a eó ica canadiana in i ula me a icção his o iog á ica, concei o que designa uma pa e da li e a u a con empo ânea que inci a à au o e lexi idade e se ap op ia, di e a ou indi e amen e, de pe sonagens ou con ex os his ó icos enquan o on es legi imado as da na a i a (HUTCHEON, 1988). Salien e-se ainda que, pa a a au o a, a me a icção his o iog á ica é o ipo po excelência do omance pós-mode no, na medida em que, de desespe o– pe meia o omance his ó ico desde meados do século, pois o seu au o in es iga o passado pa a da con a de um p esen e que se o na cada ez mais caó ico.” (COWART, 1989, p.1, adução nossa). 33 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. combinando his ó ia e icção, exp essa na pe eição o ca ác e con adi ó io do pós- mode nismo (HUTCHEON, 1988). Ao usa a his ó ia simul aneamen e enquan o e e ência ao mundo passado “ eal” e cons ução discu si a, a me a icção his o iog á ica di e e subs ancialmen e, segundo Alison Lee (1990), do uso da his ó ia no omance his ó ico adicional, en endida aí como um g upo de ac os inques ioná el que exis e ex a ex ualmen e e é ep esen ado como o que “acon eceu na e dade”. Se o omance his ó ico, nes a aceção, p ocu a espei a a c onologia e o eo dos ac os his ó icos, imp imindo-lhes a in e ência iccional do esc i o , a me a icção his o iog á ica abalha, acima de udo, os p oblemas epis emológicos ligados à econs ução de acon ecimen os e à esc i a da his ó ia. Es amos, nes e con ex o, pe an e a eme gência de uma no a a i ude em elação à his ó ia sob a o ma de omance. Como se dep eende da designação me a icção his o iog á ica, es a combina, pa adoxalmen e, uma au oconsciência cé ica dos e ei os condicionan es da linguagem e um comp omisso con ínuo de ep esen ação do passado (HUTCHEON, 1988). A in uição da exis ência de ma gens disc icioná ias no discu so da his ó ia é explo ada com in ensidade po esc i o es do pós-mode nismo como Salman Rushdie e J.M. Coe zee, logo que se assume que o passado apenas nos pode chega sob o ma de indícios ex uais (HUTCHEON, 1988). Desse modo, no omance pós- mode nis a ea i ma-se an o a na a i a his ó ica como a iccional em e mos de discu sos a a és dos quais são compos as e sões da ealidade. Cons i uindo a his ó ia e a li e a u a sis emas de signi icação a a és dos quais os indi íduos azem sen ido do passado, o signi icado e a o ma da p imei a não esidi ão nos acon ecimen os p e é i os, mas sim nos sis emas que azem dos ac os his ó icos. Longe de qualque sen imen o nos álgico ou de busca de um sen ido edénico, o e o no ao passado signi ica á, nes e cená io, uma ea aliação do passado à luz do p esen e (HUTCHEON, 1988). A Poe ics o Pos mode nism de Hu cheon (1988) abo da o impulso con adi ó io que alegadamen e no eia o pensamen o pós-mode no: ao desejo poli icamen e mo i ado de en aquece qualque me ana a i a que p ocu e impo a sua isão con apõe-se a aspi ação do indi íduo de cons ui uma na a i a que lhe pe mi a in e i na concep ualização do mundo. Na e dade, a au o a en ende o pós- mode nismo como um discu so libe ado , no sen ido em que con es a o pa adigma libe al humanis a ao p edispo uma au oconsciência exace bada dos alo es ociden ais, acei es como unos, imu á eis e anscenden ais. Em ThePoli ics o Pos mode nism, Hu cheon (1989) de ende que o p oje o pós-mode no pode á se melho comp eendido à luz da pa ódia, en endida como, nas suas pala as, “[…] a kind o con es ing e ision o e eading o he pas ha bo h con i ms and sub e s he powe o he ep esen a ions o his o y”8 (HUTCHEON, 1989, p.95)9. Nes a linha de pensamen o, é p opos a, 8 “[...] uma espécie de e isão ou elei u a con es a á ias do passado que an o con i ma quan o sub e e o pode das ep esen ações da his ó ia” (HUTCHEON, 1989, p.95, adução nossa). 9 Já em A Poe ics o Pos mode nism, Hu cheon (1988, p.118) ha ia egis ado: “Pa ody is one o he pos mode n ways o li e ally inco po a ing he ex ualized pas in o he ex o he p esen ” [“A pa ódia é uma das o mas pós- mode nas de inco po a li e almen e o passado ex ualizado no ex o do p esen e”]. 34 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. enquan o on e de exame c í ico da cul u a ociden al, a conside ação pa ódica das ep esen ações con encionais do passado: [Pos mode nis pa ody] is undamen ally i onic and c i ical, no nos algic o an iqua ian in i s ela ion o he pas […]. Pos mode n pa ody is bo h decons uc i ely c i ical and cons uc i ely c ea i e, pa adoxically making us awa e o bo h he limi s and he powe s o ep esen a ion– in any medium.10 (HUTCHEON, 1989, p.98). No e-se que o p oblema iza daquelas ep esen ações não deixa de co esponde a uma ansg essão au o izada (HUTCHEON, 1989). Apesa de cons i ui uma o ma de eap op ia e ques iona a cul u a dominan e, o ecu so ao cânone eu opeu e no e- ame icano nas pa ódias pós-mode nas denuncia a dependência em elação a uma adição cul u al especí ica e, po an o, a incapacidade de a igno a abe amen e. Es a subo dinação explica, segundo a au o a, a duplicidade polí ica dos ex os pós-mode nos (HUTCHEON, 1989). Apesa de o abalho de Hu cheon con ibui pa a a e lexão sob e os nexos en e a li e a u a e a his ó ia, o seu apa elho concep ual es a á limi ado, na pe spe i a de Conno (1996), pelo que pa ece se a c iação de um osso en e um passado insipien e e um p esen e in o mado. Ou a das c í icas di igidas às p oposições de A Poe ics o Pos mode nism e The Poli ics o Pos mode nism, nomeadamen e po Ansga Nünning (1997), p ende-se com a di iculdade em ag upa omances pós-mode nis as sob uma e ique a, seja es a a da me a icção his o iog á ica ou ou a, pe an e a di e sidade dos modos como a icção con empo ânea esba e as con enções de géne o11. Sem dú ida, colocando-se nos limi es en e a his o iog a ia e a li e a u a, ac o e icção, eal e imaginá io, a li e a u a pós-mode na de emá ica his ó ica p oblema iza on ei as on ológicas, a enuando as di e enças en e as con enções emp egues pelos discu sos li e á io e his ó ico na ep esen ação de acon ecimen os passados (NÜNNING, 1997). Pa a além do p oblema em aplica a e ique a de me a icção his o iog á ica, em exclusi o, ao omance pós-mode nis a, aquela não de e á se en endida como de inido a, em absolu o, do pós-mode nismo– con o me de ende Hu cheon–, mas sim como uma das á ias na a i as daquele mo imen o (NÜNNING, 1997). 10 “[A pa ódia pós-mode nis a] é undamen almen e i ónica e c í ica, não nos álgica ou an iquá ia na sua elação com o passado. A pa ódia pós-mode na é descons u i amen e c í ica e cons u i amen e c ia i a, o nando- nos pa adoxalmen e conscien es an o dos limi es quan o dos pode es de ep esen ação– em qualque meio.” (HUTCHEON, 1989, p.98, adução nossa). 11 Em consequência, o au o , concluindo que o campo da me a icção e da icção his ó ica pós-mode nis a necessi a se e açado, con ibuiu com uma ipologia sis emá ica das á ias o mas da ap esen ação da his ó ia na icção, que ca ego izou como o mas implíci as e explíci as de me a icção his o iog á ica. Aqui, as o mas implíci as de me a icção his o iog á ica são ep esen adas po aqueles omances his ó icos pós-mode nos que e le em as mode nas eo ias da his ó ia; ais omances eco dam ao lei o que a his ó ia é acessí el apenas enquan o na a i a p oduzida po indi íduos que eco dam e in e p e am acon ecimen os pa indo dos seus pon os de is a pa icula es (NÜNNING, 1997). Em oposição às o mas implíci as, as o mas explíci as de me a icção his o iog á ica discu em abe amen e os p oblemas me odológicos e epis emológicos de econs ução do passado, sendo que a ma ca de con as e da me a icção his o iog á ica explíci a eside no ac o de as ques ões his o iog á icas se em ap esen adas di e amen e po na ado es ou pe sonagens (NÜNNING, 1997). 35 Re . Le ., São Paulo, .57, n.1, p.27-41, jan./jun. 2017. Uma ou a insu iciência apon ada à concep ualização da au o a canadiana elaciona- se com a e idência de que, segundo es a, a p oblema ização polí ica ence ada pela icção pós-mode na se esume à deses abilização e acei ação das suas con adições ine en es. Hu cheon de ende a sua posição no seguin e passo: […] he pos mode n may o e a as he si e o poli ical s uggle by i s imposing o mul iple and decons uc ing ques ions, bu i does no seem able o make he mo e in o poli ical agency. I asks ques ions ha e eal a as he place whe e alues, no ms, belie s, ac ions a e p oduced; i decons uc s he p ocesses o signi ica ion. Bu i ne e escapes i s double encoding: i is always awa e o he mu ual in e dependence o he dominan and he con es a o y.12 (HUTCHEON, 1989, p.157). Da lei u a des e exce o, in e e-se que a descons ução de e dades absolu as implica como única a i ude possí el, naquele quad o, expo e denuncia a pa cialidade de qualque sis ema monolí ico, acei ando an inomias e inde e minações: “Pos mode n no els [...] openly asse ha he e a e only u hs in he plu al and ne e one T u h; and he e is a ely alseness pe se, jus o he s’ u hs”13 (HUTCHEON, 1988, p.109). O desassossego e a insa is ação pe an e a expe iência não pa ecem aze pa e da equação eó ica de Hu cheon. É ce o que au o es pós-mode nis as, de Fowles a Rushdie, pau a am os seus omances po uma e lexão c í ica sob e os p oblemas do seu empo, numa dimensão que se ala ga à p oblema ização do aze li e á io enquan o possibilidade de u u a e ans o mação. Na e dade, naqueles ex os e i ica-se um en oque duplo na p oblema ização do conhecimen o his ó ico e na c escen e au o e lexi idade da icção con empo ânea, o que des aca a na u eza con ingen e dos dois discu sos. Con udo, pa ece-nos que es a in e p e ação ica ia incomple a sem o econhecimen o do impulso de con abalança o caos da ida con empo ânea com algo sólido e iá el, mesmo que p o isional e ansi ó io. En endemos que a eó ica canadiana não econhece a necessidade de aze sen ido do mundo a a és da cons ução de mapas de signi icação. Apesa de i e mos num es ado de cons an e ques ionamen o de ce ezas, a igu a-se-nos di ícil ac edi a na pe manência num es ado pe pé uo de alheamen o em que es ão ausen es ímpe os na a i os. Nes e sen ido, a aliando apa elhos concep uais an e io es no seu es udo sob e o e i alismo do omance his ó ico, Nünning (1997) isa que não de emos igno a a pos u a ine en emen e polí ica de esc i o es que en am aze sen ido do p esen e ao ein e p e a , po um lado, modelos cul u ais de comp eensão do passado e, po ou o, a si uação con empo ânea in eg ada num con inuum his ó ico-cul u al. Assim sendo, o desejo de c ia na a i as pa ece- 12 “[...] o pós-mode no pode o e ece a a e como o luga da lu a polí ica ao impo ques ões múl iplas e de descons ução, mas não pa ece capaz de se ans o ma em agência polí ica. Es e coloca pe gun as que e elam a a e como o luga onde alo es, no mas, c enças, ações são p oduzidas; o pós-mode no descons ói os p ocessos de signi icação. Con udo, nunca escapa à sua dupla codi icação: es á semp e cien e da in e dependência mú ua en e o dominan e e o con es a á io.” (HUTCHEON, 1989, p.157, adução nossa). 13 “Os omances pós-mode nos [...] a i mam abe amen e que exis em apenas e dades no plu al e nunca uma só Ve dade; e a amen e há alsidade em si, apenas as e dades dos ou os.” (HUTCHEON, 1988, p.109, adução nossa).